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Síntese do texto Questão de método, de Jean Paul Sartre, feita por Cícero.

Ao criticar possíveis pressupostos historiográficos - tal qual a totalização


hegeliana culminante na verdade histórica -, Sartre propõe observar a possibilidade
de surgimento de uma nova dialética que parte da compreensão do homem pelo
homem. Para isso, ele divide seu texto em três partes: ‘marxismo e existencialismo’,
‘o problema das mediações e das disciplinas auxiliares’ e ‘o método progressivo-
regressivo’.
O autor tem uma acepção consciente do processo de fazer filosofia. Para ele, a
filosofia não é apenas um método, e sim um estilo de vida, algo com movimento, que
é sustentado pela consciência de uma classe e, ao mesmo tempo, também a
sustenta. Assim, ao diferenciar ideólogos e filósofos, Jean Paul Sartre resgata Hegel
e Kierkegaard, principalmente quando o segundo chama de ‘existência’ a
subjetividade do ser que não poderia ser reduzida a processos linguísticos.
Contudo, Sartre direciona sua crítica ao marxismo ortodoxo de Lukács, no que
tange sua totalização dos fatos históricos e sua não observação para o ser social
enquanto um ser humano que vive e se alimenta do/no seu próprio campo de
possibilidades, assim posto, projeto. Nesse sentido, o autor introduz quais são os
problemas de uma observação analítica estrita da sociedade partindo de grandes
abstrações e classificações das ciências humanas, em que se desconsidera a
superação do homem pela situação, mesmo que ele não se reconheça jamais em
sua objetivação.
Entre duras críticas a Hegel e Kierkegaard - e mesmo ao Lukács - Sartre afirma
que, sem eles, talvez, a filosofia não fosse capaz de superar esse problema
metodológico. E já propondo uma resolução para esse impasse, Sartre vê como
saída a mediação dos fatos históricos, ainda que ele considere as análises de Marx
em 18 de brumário de Luís Bonaparte primorosas, mesmo que em sua pouca
maturação.
Para Sartre, então, a mediação é o processo que os marxistas deixaram de
lado ao executarem suas análises, e isso o leva de volta ao existencialismo, como
sendo um modus operandi menos abrasivo para as análises, pois considera também
a existência como agente importante na vida de uma comunidade. Dessa forma,
Sartre recorre a Henri Lefebvre e seu conceito de experiência e seu método
progressivo-regressivo.
Ao enunciar que a história deve ser entendida como o subterfúgio do homem
para a tomada de consciência de si, Sartre evoca não só um método de análise,
mas sim uma postura de vida que deve ser levada em conta e seguida pelo
pesquisador. Em uma ode a Lefebvre, Sartre postula sobre seu método heurístico e
elenca passos que todo investigador deve seguir a fim de imprimir boas
considerações sobre a sociedade.
Antes de mais nada, o pesquisador deve horizontalizar seus múltiplos dados,
suas fontes e seu objeto de pesquisa; isso pressupõe um não encaixotamento das
coisas e sim uma necessidade de observação do fato. Três passos são, portanto,
importantes para a efetividade desse método: entender a obra a ser analisada,
depois questionar essa obra de diversas maneiras e por várias perspectivas e, por
último, observar os meios de produção dessa obra. Ademais, não seria benéfico cair
no problema da totalização dos fatos e, por isso, o analista deve executar idas e
vindas, ou seja, ir progressiva e regressivamente ao objeto de estudo.
Esse método proposto por Sartre a partir de Lefebvre é, portanto, muito
próximo do marxismo por pensar a História como uma ação do tempo feita por
homens, mas, ao mesmo tempo, afasta-se do que os marxistas ortodoxos fazem por
não tornar o objeto do investigador um saber absoluto. E é partindo dessa negação
analítica dos marxistas que Sartre tenciona a urgência do existencialismo tentar, por
sua vez, o deciframento dialético da história.
O que Sartre deixa subentendido em seu texto é quais são os procedimentos
metodológicos a serem utilizados em análises respeitando a heterogeneidade das
ciências humanas, uma vez que o existencialismo, em tese, assemelha-se a um pot-
pourri de grandes pensadores das mais diversas áreas do saber. Por esse ângulo,
Sartre diz que outros elementos além do fato/documento devem ser colocados lado
a lado, mas pouco diz sobre como, então, fazer uma escolha bibliográfica que não
seja considerada arbitrária ou jogada aos quatro ventos. Acaso esse não seja seu
propósito, porém, o questionamento merece atenção para não ferir, gratuitamente, o
cânone da história, da filosofia, da antropologia, da sociologia, entre outras.

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