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A STORIA A IENTAL:
temas, fontes

José Augusto Drummond

ma publicação. Eu me concentrarei em
1 • Introdução: dos objetivos tópicos não mencionados ou não desenvol­
vidos por ele. Se os leitores que desconhe­
retendo neste artigo dar uma notícia cem a história ambiental se julgarem bem
sobre a história ambiental, disciplina inConnados com meu texto e se cogitarem
acadêmica praticada em alguns países de de lerou reler alguma obra citada, terei tido
língua inglesa. Abordarei aspectos gerais sucesso. Mas a minha ambição maior é
da disciplina, para nós ainda "estrangeira", convencer alguns historiadores e outros
e renetirei sobre a sua relevância como cientistas �ociais a incorporar variáveis
campo de trabalho para historiadores bra­ ambientais aos seus estudos sobre a socie-­
sileiros. inclusive apontarei escritores bra­ dade humana. Assim atrairei interlocutores

sileiros do passado e do presente que ex­ para as minhas recentes incursões nesse
ploraram caminhos similares. Não Carei campo.
uma revisão completa da produção da dis­
ciplina - bastante ampla, como se verá -,

remetendo o leitor para alguns textos de


revisão historiográfica.
O surgimento da história ambiental, os 2 Tempo, história social e

seus níveis mais gerais de análise e as suas história natural


'�areCas" básicas são discutidos no artigo
de Donald Worster(importante historiador A maneira mais provocativa de colocar
ambiental dos EUA), incluído nesta mes- o significado da história ambiental é con-

Al pmu idau dilOJtidu neateIn,CO fmlm esboçada. o.lntrodução lO meu DltVdllar;ao ep'Uf!T..ar;ilo tlmbi.DuoJ
_ 0.1 porque! "1IC",,,oisflwrWte1UeJ (no prelo), um. história ambientll do Citado do Rio de: Jlnôro c dOI uus parqurs
nacionas
i . A&r

Es,wIos Hist6ricos. Rio deJanciro, vot. 4, D. a. 1991, p. 171-197


178 F511JDOS IUSTÓRICOS - lQQlli

sidern, o fator tempo. O tempo no qual se Gêllesis, d o Velho Tes�1mento, ainda exige
movem as sociedades human as é uma que os fiéis acreditem que o mundo foi
construção culturnl consciente. Cada so­ criado h á seis milênios. Esse prnzo, que por
ciedade cria ou adota fonnas de contagem muito tempo pareceu a quase todos gigan­
e divisão do tempo em tomo das quais se tesco c indiscu tí ve l, pcmlanece até hoje
organizam as diversas atividades sociais. sem rcvisôcs oficiais. É bem vcrdildc que
Pode parecer que cometo banlllidades nes­ alguns intérpretes atuais admitem que os
sas duas frnses. Mas talvez não seja tão milênios do Velho Testamento são meros
banal, por exemplo, c onsidernr que as figuras lile,...rias.
ciências sociais modemas c contemporâ­ Mas até 150 anos al,...s os inlérpretes do
neas, pelo [ato elementar de serem também Velho Teslamenlo não admitiam essa libe­
atividades sociais, adotaram as modalida­ mlidade. O mundo linha se is mil e poucos
des socialmente consagrndas (no Ociden­ anos de idade, e nada havia a discutir. Foi
te) de contagem e divisão do tempo (ver então que um pequeno grupo de cicntistas
Campbell, 1970, parn uma disc"ssão da contestou esse prazo. Foi a ciência namral
importância das fonnas de contagem do - e não a socia I - do século XIX, a "história
tempo em diferentes socie dades) . natural!>, que csludav<I conjuntamente a
Como tantas outros construções cultu­ geol ogia e a vida animal e vegetal a p ri mei ­
,

rnis estáveis - que perdurnm no próprio ro ativida de soci�t1 modem a a lite ralmente
tempo ... - a noção do tempo se incorporn exigir oulras unid ades de medida de tempo
ao inconsciente social, inclusi ve ao incons­ c,principalmente, muiIo mais lempo.
ciente das disciplinas científicas. Vira um A história narurnl precisava de mais tem­
. pressuposlo. Parn o historiador, em espe­ po parn dar conta de processos que sequer
cial, o lempo é um crucial fio condu lar das muitas dúzias de milênios eram GJpazes de
mudanças e conlinuidades que lhe propi­ descrever adequadamente. Requeria unida­
ciam os seus objelos de estudo, quando não des de lempo e pmzos eslrnnhos à modem"
os seus conceitos. Lidar com o tempo, por culturn ocidental, mais afins, talvez, aos
isso, é um instrumento básico de seu ofício. intervalos imprecisos das narrativas míli­
Não parece haver arbítrio no fato de eiS. C harle s Ly cll , A1fred Russel Wallace e

medimlOs a passagem do tempo histó ri co Charles D3Iwin (entre vários outros), estu­
em un.idades que variam de dias c semanas dando as paisagens e as fonnas antigas e
a meses, anos, decênios, séculos e milênios. aluais de vida, in rerirnm processos ([omla­
Por vezes adotamos fatos sociais mú ltip los ção das rochas, gênese das montanhas, ero­
ou divisores de al/,'IIm a dessas unidades: N são, elevação dos níveis dos mares, eras
gernçôcs humanas, a dinaslia X. Y manda­ glaciais, fonnação e extinção de espécies,
tos presidenciais, Z décadas. Historiadores elc.) que lomavam insuficiente o teto de
e cienlistas sociais desprezam os segundos, seis mil anos, prescrito pelas zelosas aulo­
os minulos e as horos, unidades menores da ridades religiosas e acalado pelas legiões de
mesma escala, emborn oulros ci ências as fiéis. Eles propusernm um tempo que ext ra -

usem. Aliás, na nossa culturn as unidades . polava a culrurn européia e a experiência


"extremas" dessa escala - segundos e nu­ humana como um lodo. Esse tempo fazia
lênios - lêm sido bem esláveis. É verdade da culturn humana uma pequena rmse ao
que as [rnçôcs de segundo se tomarnm fim de uma nota de rodapé na última página
mensuráveis e alé úteis, parn alguns fins, há do longo compêndio da vida do planeta.
poucas décadas. Pelo fato de repensar a história da terra
No outro extremo, o próprio documento e dos seres vivos l1uma escala de centenas
fundador de nossa civilização, o Livro do de ,nilhôcs de milênios, um punhado de
A l-DSTORIA AMBlEmAL 179

cientistas naturais do século XIX provocou com o SlalUS quo cronológico. Mesmo
um cataclisma no sistema "ocidental" de quando leigos ou até materialistas, mesmo
contagem do tempo (ver Balber, 1980, pa­ quando simpatizantes do recém- proposto
ra uma instigante história social desse cata­ "tempo geológico", os cientistas sociais na
clisma cultural). Esse foi um fato central sua prática ficaram dentro do tempo social­
na vida intelectual européia do século XIX mente consagrado (o do Velho Testamen­
e os seus choques perduram. Entre profis­ to), que sobrevivera ao ataque do "tempo
sões de Cé materialistas e .ntimaterialistas, geológico" na maior parte das atividades
escândalos, excomunhões e polêmicas ca­ SOClals.
• •

nhestras sobre a ancestralidade símia dos As ciências sociais não colidiram de


humanos, a história natural do século XIX frente com o ainda autoritário teto de seis
e as suas diversas herdeiras desafiaram o mil anos, porque não precisavam -ou pen­
tempo do Velho Testamento e da cultura savam não precisar - ir além de alguns
européia e ocidental (Gould, 1977; 1982; e poucos milênios para interpretar os fatos
1983 discute o debate científico em tomo - sociais, ou a ação social, ou o processo
do darwinismo). histórico. Esses poucos milênios da histó­
Mas essas ciências escavaram um nicho ria humana registrada em documentos pa­
onde prosperaram. Usaram as suas novas reciam mais do que suficientes. Por serem
rég"as cronológicas e os conceitos que só criadores de símbolos e culturas, os huma­
funcionam com elas. Avançaram, mesmo nos foram subtraídos - às vezes explicita­
sem a adesão geral da sociedade às suas mente - do tempo geológico e dos proces­
gigantescas dimensões de tempo. Esse tem­ sos naturais a ele associados.
po é chamado agora de "tempo geológico" Talvez a rejeição às implicações colo­
e é ignorado no cotidiano da maioria das nialistas e ou belicistas do "darwinismo
pessoas. No entanto, hoje qualquer inician­ social" de Helbert Spencer e aos detenni­
te de geologia sabe, na ponta da língua, que nismos geográficos e raciais do século
"eons" é uma medida que indica dezenas de XIX tenha sido a causa mais importante
milhões de anos e que a idade da Terra é para isso. As nascentes ciências sociais, em
calculada em cerca de 4,5 bilhões de anos lodas as vertentes hoje consagradas, com­
(Lovelock, 1991, é um exemplo acessível a bateram esses reducionismos e rejeitaram
leigos de como o tempo geológico se tomou as explicações da cultura através da biolo­
usual entre cientistas naturais). O tempo gia ou qualquer ciência natural. Resistiram
geológico tem evidentes implicações para aos conceitos e modelos da "história natu­
pensar sobre a aventura humana no planeta, ral" e das suas herdeiras, inclusive a ciên­
mesmo que seja apenas para tomá-la cro­ cia da ecologia. As sociedades humanas,
nologicamente insignificante. principalmente as modernas, foram con­
Assim, o tempo das culturas hurnanas ceituadas e investigadas sob o pressuposto
. esLá contido num tempo geológico ou natu­ de obedecerem apenas aos ponteiros do
ral muito rnais amplo e que a meu ver não tempo cultural de alguns poucos milênios.
pode ser ignorado pelas ciências sociais. Para os clássicos das ciências sociais, as
Por isso é que a questão do tempo não é sociedades humanas estavam, portanto, fo­
banal para iniciar um artigo sobre a história ra ou acima da "história natural", ou do
ambiental. Afinal, as ciências sociais fica­ "tempo geológico" adotado a duras penas
ram à margem dessas novas dimensões do no estudo dos Catores vivos e mortos da
lempo geológico. As modernas ciências so­ natureza. Se a opção foi consciente ou in­
ciais européias, que nasciam nessa mesma consciente, pouco importa. Importa é que
época (meados dó século XlX), ficaram Coi duradoura. Dois sociólogos norte-ame-
180 ESllJOOS HISTÓRICOS - 199118

ricanos, W. Calton e R. DunJap (1980), deste marco IIhumanista". Não era mais
indagando já na década de 1980 o motivo possível pensar na sociedade humana sem
de as ciências sociais não lerem integrndo ancoragem no mundo natural. Curiosa­
a vanguarda do "despertar ecoI6gico" mun­ mente, foram cientistas naturais que de no­
dial da década anterior, concluíam que, des­ vo lideraram, nos movimentos ambientalis­
de a sua origem, elas adotaram um "para­ tas ou nas instituições de pesquisa, um en­
digma da imunidade humana" (human tendimento "ecológico" da sociedade e da
exemptionalism paradigm) aos fatores da cultura humanas. Entre outros, lembro os
natureZA. Nele, cada sociedade e a cultura nomes de Paul Ehrlich (biólogo), Garrelt
humana em geral são intelegíveis apenas Hardin (biólogo), Rachei Carson (bióloga),
em si mesmas. Nos termos de Durkheim, E. F. Schumacher (engenheiro), Amothy
fatos sociais s6 podem ser explicados por Lovins (físico), atuantes nos EUA e na
outros fatos sociais. Inglaterra desde ftns da década de 1 950. No
Por isso, segundo Cauon e DunJap, por Brasil, tivemos José Lutzemberger, enge­
mais de um século os sociólogos -e outros nheiro químico, ambientalista militante na
cientistas sociais, acrescento - evitaram década de 1970.
cuidadosamente sugerir que a cultura fosse As disciplinas sociais foram desafiadas,
de alguma fonna limitada ou condicionada por cientistas 1lt1turnis e movimentos so­
por fatores naturais. A partir da Primeira ciais, a superar O seu parad.gma e a incor-

Guerra Mundial, tomou-se anátema enlre parar vanavelS naNralS ao seu repertono
• • • • •

cientistas sociais sugerir que os humanos c legítimo de pesquisa. Os antropólogos en­


as S"ilS sociedades tivessem "bases natu­ frentaram o desafio mais cedo e acumula­
rais" - raça. anatonua, cor, clima, vínrulos ram um legado teórico-empírico relativa­
com a terra -pertinentes à sua an:1lisc cien­ mente amplo (ver, por exemplo, Moran,
tífica. O agressivo racismo-territorialismo 1990 e Meggers, 1971). Sociólogos e eco­
nazista, nas décadas de 1930 e 1940, tomou nomistas iniciaram a sua "refonna", com
ainda menos provável a consideração de resultados por vezes instigantes mas com
variáveis físico-ambientais por cientistas impactos limitados dentro das suas respec­
SOCIaIS. tivas disciplinas (algumas obras importan­
• •

Enfim, o tempo da "história natural" e tes de sociologia ambiental norte-america­


os próprios fatos naturais não se mistura­ na são Schnaiberg, 1980; Canon, 1 980;
ram com o tempo da "história social" c com Humphrey et Bultel, 1 982; no campo da
os fatos sociais, parn quase lodos os cien­ economia ambiental dois autores impor­
tistas sociais, clássicos, divulgadores e anô­ tantes são Daly, 1977 e Boulding, 1978).
nimos. A exccçâo são algumas correntes da A história ambiental, conforme prntica­
antropologia. O legado das ciências sociais da hoje em dia em alguns países como os
em seu conjunto é, por isso, ampla e inevi­ EUA, França e Inglaterra, resulta de um
tavelmente "humanista", no sentido de pri­ projeto "reformista" de alguns historiado­
vilegiar a sociedade e a 'cultura humanas res. É uma reação a essa pressão de ajustar
como objetos suficientes e como campo os ponteiros dos rel6gios dos dois tempos,
IImáximo" para investigações legítimas. o geológico (ou natuml) e o social. Como
Circunstâncias extra-científicas. aillda diz Richard Cronon, ela trata de "colocar a
bem recentes, mencionadas 110 Hrtigo de sociedade na natureza" (tenno empregado
Worster - principalmente movimcntos so­ em Worster ct ai., 1990). Não é tarefa pe­
ciais ambienlalistas c certa.s crises alnbien­ quena, c os obst:ículos são muitos. Mas
tais localizadas - dc&1liaram ;IS ciências creio que os historiadores ava nçaram nesse
sociais deste fim de século XX a ir além camin.ho mais do que sociólogos e econo-
;\ JUS I ORII\ A.\1All" 11\1. 1� t

mistas. De toda fonna, os herdeiro, ortouo­ grupo relativamente pequeno, mas alta­
xos das tradições humanistas das ciências nl<'lIte p mdut ivo , de historiado res e biólo­
sociais continuarão, por bom tempo, a te­ gos norte a mericanos, vindos de diferentes

mer que o estudo das bases naturais da temas e esp ecia l i dades. Ele vem construin­
sociedade conduza aos detenninjsmos me­ do, 1i.1 15 anos, o que eu con�id(.'ro uma
ritoriamente rejeitados no sécu lo XIX. nova modalidade de estudo, liga ndo exp li ­
Precisa ficar claro que pens.1f sobre li citamente a história natural :i históri a socia 1
re l ação entre o "tempo geológico" e o tem­ " e examimlllLlo as i nleraÇÕCS entre ambas. O
po social", combinar a história natural com grupo tem uma as>ocia�'ão p rofis sional ­

a história social, colocar a sociedade na American Socicty for Environmcntal His­


natureza, enfim - im p licêl neccss.1ri.lmcnte tory - c um periódico trimestml criado em
aTribuir aos compolJemes JlnturOlS objeti­ ,. 1976, Ellvirollmemal Revlew, sobre o qua I
vos" a capacidade de condicionar signiJi­ farei COlTIcntn rios ma is ã Crente.
cativameme a sociedtlde
nas. Não há meias palavras quanto a isso. Illicialmcnte traçarei algumas caracte­
Não se t rata de fazer ape'1<1S metáforas am­ rísticas meto dológi ca s e analíticas da his­
bientals, ecológicas ou naturais, como as tória ambienta!. A primeira delas é que
que p redomi naram, por cxcmp lo, na famo­ quase tO(I;IS as aná lises focalizam uma re­
sa escola de "ecologia humana" desenvol­ gião com alguma Ilemogeneidllde ou ill­
vida na Unjver.;idauc de Chicago a part i r del1f1dnde natural: um território .inôo. o
dos anos 1920 (ver, por exemplo, o d;lssico ville dr um riu, uma ilha, UI11 trt'l'ho d e
texto de Park, 1936). T"'ta-:.e de uma mu­ terms noreslad'I!lo, UI11 litoral, a are;) de
dança séria de p:aradigm a IHl'i ciências so­ ocorrência llíJturnl de Ulllil árvore de alto
ciais Sign i fica que o cirlltisla social díí iJ�
. valor cOlllcn.:iíd c a�illl por uialltl'. Isso
"forças da n.atureza" um eslatuto de agente I1.'vela um pa rcllt esco com a história natu­
condicionador ou modificador da cullum. ral, que via de reg'" prospera melhor em
Vale lemb",r que, a esta allu", do debate cenários fLsicamcntc c ircunscritos.
científico, nem a história ambiental nem as Por vezes se dá um r cco r1 e culturnl ou
outras discip l inas sociais que vêm inco rpo­ político à rcgiflo estudada, mas sem esque­
ral)do elementos do mundo natunll à sua cer as suas pa rt icularidades físicas e ecoló­
l sta de vari:íveis analíticas propõem um
i giC'ds: um parque nacional, a árciI de in­
detenninismo natural unilate",!. A cu ll um Ouênc ia de uma obra (ferrovia, projetos de
humana age sobre o mei o fís ico -malerial, irriga<.;ão, represas e tc. ) as terras ue povo�
.

p ropici ando si gni ficados e usos complexos nativos invadidas por migrantcs europeus
dos seus elementos. Evito, por isso, entrar etc. Com C�;
" 'I
pela bolorenw discussão sobre o detennj- a hi stória ambiental revela ligação também
com a história regional, pois focaliza pro­

IllSmo.

cessos sociais (e na tu rais) geograficamen­


te cir cunscritos, embom t i p icame llt e os li­
mites dessas áreas sejam naturais, e não
3 Conceitos, temas, fontes,
- sociais ou políticos.
métodos e estilos de trabalho da Uma segunda característica é o diálogo
história ambiental de língua sistemático com quase todas as ciências
inglesa naturais - inclusive as aplicadas - per­
linellles ao emelldllnelllo dos quadros fisi­
A história amhic ntal qua íl naI is.'1 rei nc:,t;l cos e ecológicos das regiões estlldadas.
seção nasceu Llíl pesquisa c da cSl'rita ôe um Ncs,>. c
182 ES11JDOS HISTóRICOS 199118
-

tradição humanista das ciências sociais, logia cultuml e na geografia humana os


ipclusive da história regional. Usam textos historiadores ambientais encontram con­
básicos e avançados d e geologia (inclusive ceitos e enfoques úteis para estudar o papel
solos e hidrologia), geomorfologia, clima­ da cultura nos usos dos recursos. Armai, os
tologia, meteorologia, biologia vegetal e reculSos só se tomam recursos quando cul­
animal e ecologia (a ciência da interação tumlmente identificados e avaliados. Não
entre os seres .vivos e entre eles e os ele­ existem recursos naturais per se. Os recur­
mentos inertes do ambiente). A agronomia sos não se impôem unilateralmente à cul­
e as engenharias florestal e de minas sâo tura, embora possam vetar alguns cami­
três outros campos muitas vezes citados nhos e estimular outros.
nos estudos de história ambiental. Os estu­ Vejamos alguns exemplos. As pasta­
dos de biologia humana e de doenças de gens naturais, um recurso natural, são pou­
plantas, animais e humanos também com­ co importantes para um povo sem animais
parecem. Usam-se tanto os seus achados domésticos herbívoros (que, aliás, são in­
de campo quanto os de laboratório e, por tegrantes do mundo natural modificados
vezes, os seus métodos e conceitos. pela cultura) que mora nelas. Para outro
Os historiadores ambientais não "visi­ povo distante que domesticou ou adotou
tam"' protocolamlente as ciências naturais: cavalos e bois, no entanto, as pastagens
dependem profundamente delas e muitas naturais são recursos cruciais. Pastagens
vezes trabalham em associação direta com "não-utilizadas" em muitos casos levaram
cientistas naturais. Precisam entender o povos pastaria listas a invadir as terras de
funcionamento dos ecossistemas para ava­ povos sem animais domésticos, condicio­
liar com correção o papel das sociedades na ndo fortemente as relações entre povos
humanas dentro delas, os limites da ação e cultums.
humana e a potencialidade de superação Um minério útil, em oulro exemplo,
cultural desses lilnites. Freqüentemente é pode ser abundante no território de uma
preciso estudar até conceitos e achados sociedade e, ainda assim, ser ignorado,
"superados" ou "equivocados" dessas pelo fato de ela nâo dominar a tecnologia
ciências, no caso (muito freqüente) de elas do seu processamento. Apesarda abundân­
terem tido alguma influência identificável cia de minério de ferro em vários pontos
no modo como a sociedade estudada inter­ do território do Brasil, os povos indígenas
veio no seu ambiente. Ou seja, as ciências que os percorriam nâo lhe davam impor­
naturais, além d e "aliadas", podem ser tância. Mas os instrumentos metálicos in­
também parte do próprio objeto de estudo, troduzidos pelos europeus - como facas e
como manifestações culturais que ajudam machados - foram altamente valorizados
a entender os padrócs de uso dos reculSos pelos mesmos indígenas. O desejo do in­
naturais. dígena de possuir objetos metálicos até
Um terceiro traço da história ambiental então desconhecidos e a capacidade euro­
é explorar as illlerações elltre o qJ/adro de péia de supri-los afetaram as relações entre
recursos naturais úteis e inúteis e os dife­ nativos e colonizadores.
relltes estilos civilizatórios das sociedades O dominio do fogo, num último exem­
humanas. As ciências naturais contribuem plo, amplia drasticamente o controle que
na identificação do conjunto de recUISOS uma sociedade tem sobre o seu território,
naturais disponíveis no território de uma condicionando o uso de recursos. Um povo
sociedade. No entanto, as próprias ciências que controla o fogo ganha acesso a novos
sociais fazem o principal: na história das alimentos e a novas técnicas de preservá­
civilizaçócs, em alguns mmoS da antropo- los, tem novas possibilidades de caça, de
A HISTÓRIA AMBIENrAL 183

agricultura e pecuária, de artesanato e até contrar recursos naturais valiosos - para


de guena. Mas nem todos os inumeráveis pagaras contas da viagem e agradar os seus
povos que dominaram o fogo llsaram o soberanos -e prestavam atenção minucio­
carvão núneral como combustível, e destes sa a tudo que viam nas novas paisagens:
nem todos fizeram uma "idade metálica" Por vezes o mero desejo de encontrar
(ferro, bronze etc.). Apenas um povo in­ recursos é em si mesmo instrutivo. Relata­
ventou a máquina a vapor e fez uma revo­ va-se até o que não se via, como no célebre
lução industrial baseada nela. Como se caso de Pero Vaz de Canúnha. Com a
pode ver nesses exemplos, os historiadores escassissima empiria de curtas incursões
ambientais fogem do deternúnismo natu­ por algumas praias, ele noticiou otimisti­
ral, tecnológico ou geográfico, mas se re­ camente ao rei de Portugal que "em se
cusam a ignorar a influência dos quadros plantando tudo dalria]" nas tenas do Bra­
naturais na história e na cultura das socie­ sil. A crer em Caminha, havia ou poderia
dades humanas. Como diz Worster, não haver no sul da Bahia uma vasta civiliza­
podemos mais nos dar ao luxo dessa ino- ção agrícola, aliás inexistente na época e
cência. . até hoje. Mas ficamos sabendo que os in­
Uma quarta caracteristica a considerar, dígenas plantavam alguma dJisa e que as
de import§ncia especial para os historiado­ perspectivas agrícolas consolavam a de­
res que valorizam as fontes, é a grande cepção com a ausência do cobiçado ouro.
variedade de fomes pertinemes ao estudo Ainda no ,,ªmpo dos desejos, lembro os
das relações entre as sociedades e o seu disparatados rumores que corriam entre os
ambiente. Podem ser usadas as fontes tra­ portugueses do primeiro século colonial -
dicionais da história econônúca e social invejosos dos espanhóis -sobre a ocorrên­
censos populacionais, econônúcos e sani­ cia de ouro e pedras preciosas em tenas
tários, inventários de recursos naturais, im­ brasileiras. Sérgio Buarque de Holanda es­
prensa, leis e documentos governamentais, creveu uma obra-prima, VISão do para{so
atas legislativas e judiciárias, crônicas. Ne­ (Holanda, 1985), usando esses rumores,
les se encontrarão informações abudantes que mostram o que os europeus pensavam
sobre os conceitos, os usos, os valores de si mesmos!, o que esperavam das tenas
atnDuídos e a disponibilidade de recursos encontradas.
naturais. Nos casos dos povos sem escrita Os viajantes estrangeiros (diplomatas,
ou de tradição predonúnanlemente oral, os 'núUtares, missionários etc.) observam e
historiadores trabalham com materiais nanam ratos sociais "rotineiros" que nem
também fanúUares: nútose lendas, confor­ sempre aparecem nos registros dos locais.
me registrados por viajantes ou antropólo­ Oliveira Vianna e Gilberto Freyre os usa­
gos ou coletados diretamente em trabalho ram nas suas obras principais de história
de campo. As boas etnografias antropoló­ social, pois eles dão notícias detalhadas
gicas são riquissimos repositórios de infor­ sobre os modos "nativos" de vida, passa­
mes sobre as relações dos povos sem escri­ dos ou remanescentes, tanto de europeus
ta com os seus ambientes naturais. transplantados quanto de nativos propria­
Os relátos de exploradores, viajantes e mente ditos. Esses viajantes prestam muita
naturalistas europeus -também muito llsa­ atenção às dificuldades de implantação dos
dos -que percorreram quase todos os qua­ modos europeus de vida, com os quais
drantes do globo a partir do século Xv, são estavam fanúliarizados. Alguns dão infor­
outra fonte fundame.lIal da história am­ mes preciosos, mesmo que leigos. sobre
biental. Os exploradores de um aspectos naturais (fauna. flora, plantas cul­
território, por exemplo, ansiavam por en- tivadas, paisagens etc.) e da vida cotidiana,
184 ESTIJOOS HISTóRICOS - J991.18

como materiais de construção, comidas e humanos, marcas essas que nem sempre
roupas. constam de documentos escritos. Como diz
Já os viajantes naturalistas, também es­ Roderick Nasb, a paisagem se transforma
trangeiros, principalmente os de meados em si mesma num documento que precisa
do século XIX em diante, têm mais a dizer ser lido adequadamente. Trata-se de ler a
sobre os aspectos naturais do que sobre as história na paisagem. Essa "escrita" é dada
sociedades. Seus olhos eram treinados pa­ principalmente pelas plalllas, ou pela au­
ra identificar novas espécies animais e ve­ sência delas, ou pela combinação de "'as
getais, independentemente de sua utilidade espécies, ou pela sua disposição no terreno.
.
econOlruca, mas prestavam atençao nos
- -

Um historiador ou cientista social com


recursos locais usados pelos europeus, es­ um olhar minimamente treinado pode, por
cravos, índios e mestiços residentes em exemplo, distinguir (a) uma floresta nativa
lugares distantes. Alguns, no emanto, co­ madura de (b) uma Doresta secundária (ca­
mo Saint Hillaire, descreveram com viva­ poeirn) renascida depois de um desmata­
cidade a gente brasileira que habitava um mento total, ou de (c) uma floresta apenas
meio natural tão distinto do europeu. parcialmente derrubada ou, ainda, de (d)
Os historiadores ambientais usam tam­
um reflorc5tamento. Cada tipo de floresta
bém memórias, diários, inventários de indica usos humanos distintos, recentes ou
bens, escrituras de compra e venda de ter­ remotos, com antecedentes e conseqüentes
ras, testamentos. Usam descriÇÕes de die­
ambientais relevantes. Ele pode também
tas, roupas, moradias, materiais de cons­
identificar plantas amamentais ou de valor
trução, mobiliário, ferrdmentas e técnicas
comercial "exóticas" (nativas de oulras re­
produtivas, estudos sobre epidemias e
giões, pafses ou continentes) introduzidas
doenças, projetos e memoriais descritivos
pela estética ou pelo trabalho humano.
de obras (estradas, ferrovias, ponos), lislas
de bens comercializados, romances, dese­ Outros sinais da atividade humana sâo
nbos, pinturas - tudo enfim que pemita imponantes para o historiador ambiental:
ver (a) quais recursos natumis são locais e um rio assoreado que os documentos di­
quais são importados, (b) como eles são zem ter sido navegável no passado pode ter
valorizados no cotidiano das sociedades e sido afetado por uma agricultura predató­
(c) que tecnologias existem para o seu ria; uma encosta nua, com fendas erosivas,
aproveitamento. terá sido outrora coberta de mata ou de
Uma quinta e última (para fins deste plantações comerciais. Outras pistas: os
artigo) característica da história ambiental rejeitos de uma mina exaurida espalhados
é o rrabaUIO de campo. Freqüentemente os sobre um trecho de terra com vegetação
historiadores ambientais viajam aos locais rnla; os restos de um pomar retomado pela
estudados e usam as suas observações pes­ vegetaçâo nativa; uma pedreira; ou o leito,
soais sobre paisagens naturais, clima, floTa, as pontes e os barrancos de uma estrada de
fauna, eoologia e também sobre as marcas ferro desativada. Esses "documentos" são
rurais e urbanas quea cultura humana deixa conclusivos em si mesmos, embora pos­
nessas paisagens. Evidentemente podem sam e até devam ser confumados pela
aproveitar para explorar fontes locais: en­ documentação trndicionai. Mas muitas ve­
trevistar moradores antigos, consultar ar­ zes as observaÇÕes de campo, que exigem

quivos e cientistas que trabalham na região. capacidade de observação e técnicas de


Acima de tudo, no entanto, o trabalho de anotação peculiares, podem ser usadas
campo serve para identificar as marcas dei­ mesmo sem comprovação suplementar
xadas na paisagem pelos diferentes usos dos documentos propriamente ditos.
A HISTORlA AMBIENTAl. 185

Vejamos agora, brevemente, uma outra geografia humana e econômica, os estudos


questão: a das "linhageM" da história am­ sobre energia e tecnologia.
bientai. Éevidente quea pesquisa e a escrita A história ambiental é, portanto, um
da história ambiental, mesmo inovadoras, campo que sintetiza muitas contribuições
têm anteaxlentes científicos e literários 00 e cuja prática é inerentemente interdiscipli­
campo das ciências sociais. Ao meu ver, nar. A sua originalidade está na sua dispo­
elas estão principalmente em duas áreas: a sição explícita de "colOClr a sociedade na
história das civiliznçóes e a antropologia natureza" e no equilíbrio com que busca a
cultura� inclusive certas formas de estudos interação, a inOuência mútua entre socie­
de comunidades. Os historiadores ambien­ dade e natureza.
tais freqüentemente citam Amold Toynbee
(1976), Lewis Murnford (1934), Gordon \tIu tratar agora de alguns ternas e li­
CbiJde (1951; 1964) e outros historiadores nhas de trabalho mais recorrentes dos his­
das civilizações. É compreeMível, pois eles toriadores ambientais. Uma revisão deta­
estudam complexas formações sociais, lbada da historiografia da história ambien­
com séculos ou até milênios de duração, tal norte-americana até meados da década
cuja fortuna via de regra esteve intimamen­ de 1980 está no excelente artigo de Richard
te ligada ao quadro de recursos 1000is (solos White (I 985); em Worster,1988, e Worster
agrícolas, florestas, minérios, pastageM, et aI., 1990, há apreciações críticas atuali­
água para irrigação, animais domésticos zadas e fartas referências bibliográficas so­
etc.). Um antecedente particularmente im­ bre os rumos da história ambiental em
portante para os historiadores ambientais várias partes do mundo.
norte-americanos são os estudos da chama­ Para fiM deste artigo, apresento primei­
da "conquista do oeste" ou da ufronteira" ro uma breve análise de boa parte da séríe
dos EUA, quando milhões de europeus completa da revista EnvirollmentalReview
ocupamm agricolamente, em poucas déca­ (recentemente rebatizada como Environ­
das, tems usadas milenarmente por povos mental Hislory Review). Ela foi fundada
indígenas de outras formas (lUmer, 1987; nos EUA em 1976 e é publicada pela As­
Webb, 1959; 1964; Billington, 1%6). sociação Norte-Americana de História

Muito citados também são antropólo­ Ambiental. Foi criada por John Opie
gos clássicos e contemporâneos interessa­ (New Jersey Institute of Technology), um
dos nas relações entre cultura material e historiador da tecnologia, ramo aliás apa­
cultura simbólica, como Julian Steward rentado com a história das civilizações.
(1955), Leslie White ( 1 949) e Marshall Vem sendo publicada regularmente desde
Sahlins (1972, 1976a, 1976b). Há ainda os a fundação, tendo chegado, portanto, ao
chamados "estudos de comunidade", onde volume XV1. A revista se define como "um
antropólogos e sociólogos fazem estudos periódico trimestral que busca entender a
em profundidade sobre uma sociedade re­ experiência humana no meio ambiente" e
lativamente circunscrita (dois clássicos que "estimula o diálogo entre as disciplinas
desse gênero, referentes ao Brasil,são Wa­ a respeito de todos os aspedos das relações
g1ey, 1953 e Wtllems, 1961). Outros cam­ atuais e passadas da humanidade com O
pos e disciplinas comparecem, com menor ambiente natural".
regularidade, nas bibliografias dos livros e A revista mantém uma média de quatro
artigos dos historiadores ambientais: a artigos por número, sendo que alguM nú-

• o cnda. cf. redlçiodeut periódico é am. Ceola- ror TedmoIo&)' Sludica. Ne..., J
cue y lnItilllledTcc:bnoloQ. Ncwuk,
New Juaey 07102. EUA.
186 ES11JDOS HlSTORlCOS - l99lJ8

meros trazem até dezpapers apresentados países desenvolvidos, principalmente Eu­


ropa e EUA, mas as escalas planetárias dos
• • • •

em congressos regIOnais e naCIOnaiS pro-


movidos pela Associação Norte-America­ movimentos e das preocupações ambien­
na de História Ambiental. Ao todo, a revis­ tais têm propiciado artigos sobre países do
ta publicou em 15 anos uns trezentos arti­ "terceiro mundo" ou sobre problemas que
gos, papers e relatórios de pesquisa, prova afetam grandes áreas do planeIa (florestas
-

de que há um número expressivo de estu­ tropicais, oceanos, Artico, Antártida, chu-


diosos dedicados ao tema. Muitos desses vas ácidas etc.).
textos são resumos de livros de autores Curiosalnente, há um tom marcada­
profissionalizados, ou de teses de doutora­ mente Ucontemporâneo" na grande maio­
mento definidas em anos recentes, o que ria dos artigos recentes, que focalizam fa­
revela a penetração da história ambiental tos das últimas décadas, para os quais via
em setores selecionados do establisilmem de regra existem fontes abundantes e facil­
histórico de alguns centros universitários. mente acessíveis. Outra característica co­
Outro indicador do dinamismo da história mum à maioria dos artigos é o usode textos
ambiental é a média de dez resenhas críti­ das ciências naturais. especialmente geo­
cas pornúmem, rererentesa livros relevan­ logia, agronomia, engenharia Oorestal, bo-
tes e editados recentemente. . tônica e zoologia. Muitos artigos perten­
Apesarde a linha editorial vir enfatizan­ cem ao que Richard White ( 1 985) conside­
do explicitamente o caráter internaciona I ra história das idéias ou história das insti­
da revista, continuam a predominar nas tuições governamentais, que não exploram
edições mais recentes autores e temas de necessa riamente as relações históricas en­
pa íses de língua inglesa (EUA, Inglateml, tre as sociedades e os seus ambientes. No
Canadá e Austrália). Historiadores com­ geral, a revista indica que a história am­
põem a maioria dos autores, mas há ex­ bientai é uma área de pesquisa acadêmica
pressiva presença de cientistas políticos, e científica em expansão e em fase de
filósofos e geógrafos, além de ocasionais refinamento de métodos e temas.
advogados,arquitetos e teólogos. Enlre as
muitas direções temáticas presentes na re­ Darei idéias mais precisas sobre os ca­
vista, as seguintes me parecem predomi­ minhos da história ambiental comentando
nantes: (a) origens e efeitos de políticas alguns de seus livros importantes ou famo­
ambientais e da "cultura" científico-admi­ sos. Alguns deles constam da coleção En­
nistrativa de organismos governamentais vironmental History, da Cambridge Uni­
com responsabilidades pelo meio ambien­ vcrsity P ress, que vem publicando as obras
te; (b) usos conflitivos de recursos natuiais de maior peso produzidas na área. Comen­
por povos com marcadas diferenças cultu­ tarei também alguns livros que não cons­
ntis (nativos americanos versus europeus, tam da coleção.
por exemplo), ou por grupos sociais distin­ O historiador ambiental mais importan­
tos de sociedades complexas (protetores de te e mais famoso é Donald Worster (Uni­
animais versus caçadores ); (c) valores cu 1- versity of Kansas). Ele tem três obras que
furais coletivos relativos à natureza, ao merecem ser comentadas. Em ordem cro­
meio ambiente e aos seres animais c vege­ nológica, primeiro vem Nature 's economy
tais; (d) idéias de escritores ou milita ntes - fi lIistory ofecological ideas (Cambridge,
ambienta listas individuais; (el estudos de Cambridge University Press , 1985), origi­
casos notáveis de degradação ambiental. nalmente publicada em 1977. Rigorosa­
Geogrnficamente, a maioria dos textos mente, trata-se da história de um campo
publicados nos anos recentes se refere aos científico, o da ecologia. Worster vai às
AHISTÓRIA AMBIENTAL 187

origens européias da erologia, principal­ produziram uma débfJc!e ambiental em


mente na França, Alemanha e na Inglaterra pleno século xx, no país que hoje se apre­
do século XIX, e traça o seu desenvolvi­ senta como um dos líderes da consciência
mento explosivo nos EUA a partir do ambientalista. Worster mostl1l meticulosa­
início do século XX. Trata não apenas dos mente como o uso dos frágeis solos locais
achados e conceitos científicos, mas tam­ com uma tecnologia agrícola inapropriada
bém dos valores "aJ'C3dianos" ou Ujmpe_ alterou a sua composição física e pennitiu
riais" que movem os diferentes cientistas a sua moviroentação pelos ventos constan­
nas suas concepções sobre o lugar dos tes das planícies. Em seguida, mostra o
humanos no mundo natural. cortejo de so frimentos humanos e as difi­
Além de educar os leigos sobre o signi­ culdades, de ordem financeira, técnica e
ficado da ciência da ecologia, Worster con­ cultul1l� das tentativas de recuperar a área
clui com a argumentação desconcertante de para o uso humano. Conciso, eloqüente e
que ela não é boa companheira da preocu­ ilustrado com excelentes fotogl1lfias, este
pação ambienta lista recente. Ou seja, para livro ganhou importantes prêmios nas
ele o movimento ecológico não tem afmi­ áreas acadêmica e editorial.
dade com a ciência ecológica. Ao contrário, O terceiro livro importante de Worster é
Worster considera que a ecologia herdou a Rivers of empire - waler, aridity anil lhe
tradição "imperial", que pretende o domf­ growth of lhe American Wesl (New York,
nio da natureza, e não serve pal1l inspil1lr Pantheon, 1985). Worster tenta se superar
movimentos ambientalistas que duvidem neste livro ambicioso, exaustivo e quase
da legitimidade desse domínio. NaJure 's enciclopédico, escrito com competência,
economy é um livro pioneiro, exaustivo, interdisciplinaridade, documentação farta e
profundamente refletido e altamente in­ num estilo que lembl1l o dos historiadores
fluente na história ambiental e das ciências. das civilizações. Ele faz uma história am­
O segundo livro importante de Worster biental e social da irrigação de vastos seto­
é Dusl bowl - lhe sOlllhem p/ami in lhe res áridos do oeste norte-americano, princi­
1930's (Oxford, Oxford University Press, palmente na Califórnia, Arizona, NovoMé­
1 982). E um clássico da ainda jovem lústó­ xico, Nevada e Utah. Worster vai a
ria ambiental. Olm ele Worster criou um WiMfogel e aos "despotismos asiáticos" pa­
padrão e uma agenda de trabalho para a ra formular a sua pergunta básica: como se
disciplina. Ele bistoria as relações entre construiu numa região árida e_semi-árida
uma sociedade humana específica, o seu dos EUA uma sociedade de abundância?
meio ambiente e as suas influências mú­ Para ele a resposta está na manipulação
h.as. Mostl1l as dimensões na turnis e sociais da água, o elemento escasso da paisagem.
do chama do dusl bowl - apelido popular Prosperou quem possuía ou controlava a
das tempestades de poeil1l que sufocaram água, quem teve tecnologia para levar a
as planícies centl1lis dos EUA na década de água de origens distantes até onde seu uso
1930 - considel1ldo, aliás, um dos maiores foi "privatizado", na fonna de abasteci­
desastres ambientais provocados pelos hu­ mento urbano, de irrigação ou de energia,
manos em toda a história registl1lda. alimentando cidades, indústrias e planta­
Worster faz uma história natu11l1 da re­ ções. Mas a política entra na análise, pois
gião em tomo de Kansas (sua terrn natal, os grupos sociais poderosos do oeste con­
aliás), investiga a adaptação relativamente seguiram que a sociedade nacional dos
frágil dos indígenas ao quadro natu11l1 e a EUA financiasse as suas caríssimas mano­
falta de adaptação dos europeus. Estes, bras lúdráulicas, subsidiando preços de ter­
.numa única gel1lção humana (1895a 1930) ras públicas e de tarifas de energia e irriga-
188 ES11JDOS HlSTÓRlCXlS - 1991/8

ção supostamente para pequenos fazendei­ animais e plantas (selvagens e domestica­


ros, mas na verdade para fazendeiros ricos. dos) e até de bactérias, vírus e doenças,
O IOCUISO natural escasso água foi, portan­ concentrando-se mais no biológico do que
to, técnica e politicamente manipulado pa­ no cultural. Crosby dedica todo um capítulo
ra produzir uma agricultura altamente ca­ instigante às origens da sífilis, que ele con­
pitalizada, a custos sociais e ambientais sidera a única doença americana exportada
altamente reglessivos. para a Europa, que numa "t roca desigual"
Wúliam Cronon (Yale University) es­ enviou para a América dezenas de doenças,
creveu outro livro altamente influente no aliás dizimadoras de milhões de nativos
campo da história ambiental, intitulado americanos. Outros capítulos instrutivos se
Changes in lhe /anti - intlians, c% nists dedicam aos efeitos da introdução de ani­
anti lhe ecology of New Eng/a/ld (New mais domésticos europeus na América e ao
York, Hill and Wang, 1983). É talvez o uintercâmbio" de alimentos de origem ve·
melhor livro para travar contato com os getal entre Europa e Américas.
bons frutos do encontro entre a história e o Crosby é ainda mais polêmico em Eco­
meio ambiente. Cronon faz a interdiscipli­ /ogical imperialism - lhe bi% gica/ expan­
naridade parecer fácil e sintetiza história, sio/l of Europe, 900-1900 (Cambridge,
antropologia, sociologia, economia, geo­ Cambridge U,úversity Press, 1 986), com
grafia, ecologia, botânica e zoologia com 360 pági nas explosivas. A narrativa por
perspicácia, economia de palavras e alta vezes quase transcende a história acadêmi­
legibilidade. Ele cumpre a promessa do ca para entrar no território do fantástico -
título: analisa os diferentes usos que indí­ ainda assim fartamente documentado.
genas e europeus deram à mesma terra (do Crosby vai além de 17,e Co/umbian ex­
atual Noroeste dos EUA) e as marcas que change, combinando de fonna mais equili­
esses usos deixaram, tanto na terra qu.1nto brada a biologia e a história social e econô­
nas sociedades. Usando criativamente as mica. O seu tema básico é dos mais espi­
CIÔnicas culoniais e as etnografias dos po­ nhosos: analisar as ''vantagens biológicas"
vos indígenas da região, Cronon revela dos europeus na implantação de "neo-Eu­
com clareza a faceta propriamente ambien­ ropas" - ou seja, réplicas da sociedade eu­
tal da interação entre europeus e nativos ropéia - em alguns lugares do mundo. Se­
num particular recanto do Novo Mundo. É gundo ele, foi apenas na América do Norte,
um estudo modelar. na bacia do Prata, na Austrália e na Nova
Quem preferir livros polêmicos fará me­ Zelândia (todas são áreas temperadas) que
lhor se escolher os de A1fred Crosby (até os europeus conseguiram esse seu intento.
recentemente na University o f Texas). To­ No restante do mundo, os europeus, mesmo
me-se, por exemplo, o seu The Colwnbian quando política e economicamente domi­
exchange - biological D/ui cultural conse­ nantes, foram derrotados nas suas tentati­
que/lces of 1492 (Westport, COlmecticul, vas de reproduzir a sociedade européia,
Greenwood Press, 1973). que se antecipou entre oulras coisas pelo fato de os quadros
à história ambiental propriamente dita. naturais dos trópicos anularem as suas
Crosby produz uma espécie de inventário ''vantagens biológicas".
crítico do que foi Utrocado" entre os conti­ Essas vantagens são, de novo, os pró­
nentes americano e europeu desde 1 492, e prios homens e mulheres e as suas tecno­
com que conseqüências imediatas e remo­ logias, os seus animais c plantas domesti­
tas para os humanos e os seus respectivos cados, as suas doen,"s, as suas bactérias e
ambientes. Ele trata de homens, mulheres, os seus vírus. Aqui Crosby encara mais
idéias e tecnologias, mas se ocupa mais de detalhada mente os temas da tecnologia, de
A IllSTÓRIA AMBIENTAL 189

organização social e mililar, de pe=pção ambientalistaU, muito caro a alguns setores


européia do meio ambiente etc., mostrando mais românticos do movimento ambienta­
como a capacidade européia de manipular tisla e dos estudiosos do meio ambiente,
OS recursos naturais sem entraves culturais para quem os povos "primitivos" são inca­
foi uma vantagem crucial no seu confronto pazes de agredir a natureza. Ele documenla
com os povos de tecnologias mais simples uma enorme quantidade de práticas inoen­
c/ou com concepções menos instrumentais diárias nativas na América do Norte, mos­
da natu reza. tmndo a sua racionalidade econômica e
Crosby narra alguns fracassos euro­ susteolando que elas produziram mais
peus, como as muilaS Icnlativas dos cruza­ campos abertos e menos noreslas do que
dos de ocupar as "terras santas" e as frus­ existiriam "naturalmente". De forma ainda
tradas colôni.as vikings na Groenlândia e mais polêmica, mas menos convincente,
na América do Norte. Infelizmente ele não Pyoe a firma que a chegada dos europeus à
delalha os fracassos europeus mais coo­ América do Norte e as sucessivas expul­
tempordneos, ou seja, aqueles muitos luga­ sões de grupos indígenas é que pennitimm
res do planeia onde os modernos europeus a expallSão remporária de florestas em
não conseguiram reproduzir os seus pa­ campos illlenciollalmente "admilJistra­
d,ões de vida, apesar de sua tecnologia dos " pelos illcêndios úuiígellas.
avançada. Ele dá material de sobra para Embom os usos indígenas do fogo sejam
renexão, porém. Os capítulos sobre a tec­ importantes na obm, Pyne analisa o fogo
nologia portuguesa e espanhola de navega­ como fenômeno cultural de povos primiti­
ção marítima e sobre as conseqüêocias da vos e modernos. Na verdade, o tema prin­
introdução de ervas daninhas e animais cipal é a obsessão que OS norte-americanos
domésticos são os mais polêmicos. de origem européia tivemm, por quase um
Continuando com autores polêmicos, século ( 1 880-1 970), com o controle do fo­
passo a SlcphenJ. Pyne (University of Ari­ go nas terras públicas e/ou norestadas dos
zona). O seu Fire in America - a cuilural EUA. Essa Obsess.10 deixou rastros docu­
ilistory of wildlO1ui alui rural flre (princc­ mentais e institucionais fartfssimos e fáceis
ton, Princeton University Press, 1988) é a de encontrar nos arquivos e acervos doaJ­
mais controvertida de todas as produções mentais púbticos e privados de todos os
da história ambiental do meu conhecimen­ EUA. Esla é a história ambienlal mais ex­
to. É um texto candente, escrito com um tensamente documenlada que eu li.
misto de casualidade e gmndiloqüência, Pyne trabalha com a idéia de que o fogo
maciço, meticulosamente pesquisado, or­ nas regiões de fronteira dos EUA foi visto,
ganizado de forma original, com exoelentes a partir de 1 8 70, por pa.oelas innuentes da
fotografias e um número enornle de fontes. sociedade e do governo norte-americano,
Traia-se de uma história ambiental do fogo como um agente destruidor natural de vas­
de origem humana, principalmente mas laS áreas sob controle governamenlal (flo­
não apenas na América do Norte. restas nacionais, parques nacionais, reser­
É relevante mencionar o motivo da con­ vas biológicas, mananciais etc.). Por isso
trovérsia sobre esse tivro. Ele é sempre fomm mobitizados enormes recursos hu­
criticado pelos que estudam os usos de manos, fmanceiros e científicos para evilar
recwsos naturais por povos "primitivos''t e combater o fogo, numa esca la sem prece­
pois Pyne eXImiu os efeitos de comporta­ dentes em qualquer país e em qualquer
mentos ambienlalmente "predatórios" época. Mas Pyne recorre à ciência da eco­
desses povos e m vários lugares do mundo. logia e mostra que o fogo faz parlc do ciclo
Isso abalou o ícone do "bom selvagem natural de quase todas as paisagens e ecos-
190 ESTUDOS HlSTÓRlros - l99lJ1

sistemas da América do Norte. Ele sustenta, como quase todas as paisagens elogiadas
por isso, que o combate sistemático ao fogo, pelos escritores clássiros e contemporâ­
em nome da preservação da natureza ''vir­ neos amantes da natureza são na verdade
gem", na verdade Coi um fenIJmenn cultural "jardins", áreas rurais criadas e manejadas
de inlervenção humann que alterou por­ pelos humanos . Marx mn<tra como o h0-
ções significativas das poisagens nallITais, mem ocidental ama as paisagens que ele
produzindo !Iorestas ondeantes havia sava­ mesmo controla ou constrói, forma nada
nas ou campos gramados, ou modificando sutil de gostar de si mesmo. Quanto à natu­
!Iorestas adaptadas a incêndios periódiros. reza "selvagem", j'intocada" "incontrolá-
. ,

Pyne estuda ainda a "economia política vel", ele tem pavor ou um apetite insaci'vel
do combate ao Cogo". Mostra como a abun­ de controlar, domesticar, civilizar. Essas
dância de mão-de-obra, ou de equipamen­ atitudes afetam profundamente as ações
tos mecalÚzados, ou de informação cientí­
das sociedades humanas em relação aos
fica, levarama diferentes métodos de com­ seus ambientes naturais. Muitas vezes uma
bate. Mas os capítulos mais interessantes sociedade aCledita que está "salvando a
são as breves "histórias regionais dos in­ natureza", mas "salva" apenas uma obra
cêndios", mostrando o papel do fogo na •
sua.
formação das paisagens regionais dos Outro livro dedicado apenas às idéias e
EUA. Se o leitor pensa que o fogo traz
in!luente na história ambiental é o de Ro­
apenas "destruição" ambiental, e não quer
derick Nash, Wi/derness and theAmerican
mudar de opilÚão, aconselho que não leia
mind (3' ed. Cambridge, Yale University
Pyne.
Press, 1982). Considerado M muitos anos
Um campo importante da história am­
por associações de editores dos EUA como
bientai é a dos valores humanns atribuftlos
um dos 50 melbores livros em catálogo no
à natureza. Embora o campo derive da
país, este texto de Nash (UlÚversity of
história intelectual ou literária, os historia­
CaliforlÚa, Santa Baroara) foi concebido
dores ambientais têm investido nele com
ainda no iiÚeio da década de 1960, quando
resultados importantes. Três livros nesse
gênero merecem ser comentados. Em pri­ nascia o movimento ecológico nos EUA, e
meiro lugar vem Leo Marx, na verdade um foi revisto e ampliado em três edições. O
historiador da literatura. Ele produziu no resultado é um texto rico de inforrnação,
início da década de 1960 um livro extre­ aMlise, indagação, e facilmente legível.
mamente in!1uente entre os historiadores Nash fez a pergunta complementar aos
"jardins" de Leo Marx, por quem foi in­

ambientais: The machine in lhe garden-te-


chnologyandthepostoral idealinAmerica !Iueneiado: o que siglÚfica para os huma­
(London, Oxford UlÚversity Press, 1964). nos modernos territórios com natureza
Marx ensinou a tnda a "primeira geração" "virgem", "intocada"? Ele enoontra res­
de historiadores ambientais a importância postas variadas, mas mostra que a cultura
analítica dos valores atribuídos às diferen­ ocidental moderna tem conceitos psicolo­
tes formas de natureza. gicamente carregados sobre o que é "sel­
Ele estuda ficciolÚstas, poetas e ensaís­ vagem" (wilá). Para povos modernos que
tas norte- ame.icanos do século XIX. Tra­ tenham ou imaginem ter áreas "selvagens"
ta-se de um estudo de expressão literária, em seu território, ela tanto pode representar
mais precisamente do recurso de fazer con­ algo terlÚvel e inútil a ser civilizado, quan­
trastes e oposiçóes entre "máquina" e "na_ to algo belo a ser preservado. Quando uma
tureza". Marx retoma a tradição clássica soeiedade tem grupos sociais com valores
greco-romana do pastorialismo e mostra assim opostos, nasce um tipo de movimen-
A IIISl'ÓRIA I\MBfF.NTAL 191

to ambientalista que deseja salvar a "natu­ Em tom de ensaio, mas com ampla pes­
reza selvagem", e não os IIjardins". quisa nas fontes sobre as culturas dos povos
Nash cria o conceito de "valor de escas­ IlÚtioos, Thmer usa linguagem ao mesmo
ser' da natureza "selvagem". Para ele, essa tempo trágica e persuasiva para narrar OS
natureza é tão mais temida e desprezada encontros entre ocidentais e IlÚticos. O me­
quanto mais abundante e mais próxima ela lhor capítulo do livro, significativamente, é
é do sujeito, e é tão mais amada e admirada sobre o "aprendizado" dos branoos cativos
quanto mais escassa e distante ela estiver. de povos nativos da América do Norte.
Isso diz muito sobre quem é a favor e quem Baseado em cerca de duzentos textos publi­
é contra a preservação dessa fonna de na­ cados e inéditos desses prisioneiros, Thmer
tureza. Outra percepção origÍl�11 de Nash é mostra oomo quase todos eles desoobriram
que a atual defesa da natureza "selvagem" durante esses Uencontros" que os seus cap­
é um fato culturalmente revolucionário nas tores tinham virtudes que a tradição ociden­
sociedades ocidentais, que sempre valori­ tal lhes negava por princípio. Thmer produ­
zaram a natureza apenas de aoordo oom o ziu um livro indispensável para quem qui­
grau de alteração ou controle humano. ser estudar o papel das diferenças culturais
Um terceiro livro que investiga valores na percepção e no uso da natureza.
ambientais vem da pena de Frederick Thr­ Warren Dean (New York University) é
ner: Beyond geography -the westem spirit oonhecido dos leitores e profissionais de
againsf fhe wilderness (New Brunswick, história no Brasil pelOS seus vários livros
New Jersey, Rutger.; Univer.;ity Press, sobre a nossa história social e eoonômica.

1 983; traduzido para o 'português com o Mais recentemente ele produziu o único
título O espfrito ocidellfal contra a nature­ livro de história ambiental que conheço
za. Rio de Janeiro, Campus, 1 990). Origi­ sobre o Brasil:Brazil and fhe sfruggle for
nalmente estudioso do folclore e da cultura IUbber - a sfUdy in environmelllal hisrory
dos nativos da América do Norte, Thmer (Cambridge, Cambridge University Press,
aqui escreve uma história dramática das 1 987). Pela fato de Wa[1en Dean serconhe­
difíceis relações entre a cultura ocidenta l e cido nosso, e de este livro tratar principal­
a natureza e os povos "selvagens". Começa mente do Brasil e estar disponível em por­
nos antigos israelitas, passa pelOS cristãos tuguês (oom O título Brasil e a lUla pela
primitivos, por gregos e romanos, pelos borracha. São Paulo, Editora Nobel, 199O),
europeus da Idade Média e chega ao pena­ iremos dedicar um comentário mais exten­
do da modema expansão européia, quando so a esta excelente combinação entre histó­
os europeus foram confrontados com terrns ria natuml e história social, que sintetiza as
e povos "selvagens" e não os toleraram. principais tendências da história ambiental.
Trabalhando com as idéias de Jung e do Dean estuda a "domesticação" de uma
estudioso de mitos Joseph Campbell, Thr­ planta, a seringueira (Hevea brasiliensis),
ner põe o dedo na ferida arquetípica do no Brasil e em várias partes do mundo. Ela
Ocidente: sua ojeriza às religiões naturalis­ foi, aliás, uma das últimas plantas domes­
tas ou IlÚticas e aos povos que praticam ticadas com sucesso pelos bumanos. Dean
essas religiões. Os ocidentais são diligen­ explica a ecologia da Hevea, árvore nativa
tes "desencantadores" das paisagens míti­ da Amazônia e geradora de látex (matéria
cas, produtores de paisagcl\S "ordenadas". prima da borracha natural), descrevendo
Thmer diz escrever uma história "espiri­ sua ocorrência natural numa extensa re­
tual" do Ocidente, mostrando as suas dili­ gião quase toda ao sul do rio Amazonas.
culdades simbólicas de lidar com outras Mostra como o látex foi usado por nativos
formas de perceber a natureza. e branoos antes da fase de intensa extração
-
192 ESTUDOS IIIS róRlr:OS - IQq 1.1l

romereial dos fins do século XIX e analisa registrado nas plantações asiáticas e do
o famoso "boom" da borracha no Brasil. oceano Pacífico.
O livro se concentra então em dois con­ No entanto, Dcan faz questão de mos­
juntos de fatos. Primeiro, Dcan segue o trar que esses frac<lssos não foram exclusi­
destino das mudas e sementes brasileiras vamente "brasileiros". Há um ótimo capí­
"contrnbandeadas" para a Inglaterra em tulo sobre os fiascos de Henry Ford no
1875. Mostra meticulosamente quando, plantio de borracha na Amazônia, nas dé­
onde, como e com que sucesso elas e suas cadas de 1920 e 1930. Partes de outros
descendemes foram plamadas na índia, capítulos examinam plantações, também
Ceilão, Indonésia, Malásia, Filipinas e ou­ frustradas, feitas porempresas estrangeiras
tros países remotos em relação à Amazõ­ do setor de pneumátiros. A soma dos fra­
nia. Segundo, Dean examina o invariável cassos dos brasileiros e dos estrangeiros
fracasso dos grandes plantios da Hevea no nas plantações em território nacion.al e a

Brasil e nas Guianas, América Central e carestia da borracha nativa da Amazônia

Caribe, ou seja, relativamente perto desua fez do Brasil um importador crônico de


borracha natural, há várias décadas.
área de expansão original.
O livro de Dean é tanto sobre o Brasil
Dean discute portanto o fracasso das
quanto sobre as grandes plantações de se­
plantações brasileiras. Há questões de mer­
ringueiras em todo o mundo. O conjunto de
cado consumidor, custos de miio-de-obrn c
fontes empregadas é impressionante, va­
de transporte, produtividade, escala, regi.
riando de dados ccnsitários, jamais, publi-
mes de trabalho, pouca racionalidade nos . .
C"dÇOCS govcmamenl31s, manUaLS ICCnlCOS,
- " .

plantios, colheita c beneficiamento etr.


entrevistas, discursos, anais de conferên­
Mostra também como o� seringalistils ama­
cias c congressos , discursos parlamentares,
zônicos sempre se opuseram às plantações
leis e regulamentos e até os arquivos de
brasileiras que, se bem-sucedidas, liquida­
inslitutos de pesquisa botânica e de várias
riam os seringais nativos sob seu controle.
fazendas e postos experimentais de todo o
Mas Dean dedica todo um capítulo a
mundo. É um livro vitorioso que pennite ao
mostrar que o principal motivo do frllcasso
leitor brnsileiro ver as reali7.ações da histó­
das plantações brasileiras foi ecológico. Ele
ria ambiental.
mostra como a Hevea desenvolveu em seu
habitat uma co-evolução adaptativa como
um fungo parasita de suas folhas. Na no­
resta tropical úmida pouco altemda pelos
humanos, o fungo modera a sua incidência 4 Alguns autores brasileiros
-

e poupa muitos espécimes por causa das com produção relevante para a
dificuldades de se propagar na mata densa. história ambiental
Nas plantações, ao contrário, as dezenas ou
centenas de milhares de Hevea plantadas No Brasil, tivemos e temos historiado-
em carreiras homogêneas facilitam a sua
. . .
res, Clentlstas SOCia iS c ensalStas SCllSlVCIS
. " " ,

propagação. Até hoje, depois de 80 anos de às relações rustóricas entre sociedade e


pesquisa, o fungo resistiu a todos os méto­ meío natural. A seguir, menciono alguns
dos de neutrnli1Jlção e rontaminou todas as

deles e a relevância das suas obms parn
plantações brasileiras estudadas pelo autor, estudos mais propriamente acadêmicos de
inclusive em estados fora da região amazô­ história ambiental. Devo dizer que até o
nica (Bahia e São Paulo, por exemplo). momento desconheço qualquer brasileiro
Significativamente, o fungo até hoje não foi do passado ou do presente que tenha se
fi. IIIS I'C'lRIA AMUI! "fI\L 1 93

decla rado " historiador a mbienud" ou equi­ tcncialidades que as t e rras c águas brasilei­
valente. ms ofereciam para nati vos, escmvos a fri­
O historiador Sérgio B ua rq ue de Ho la n­ canos e col onos europeus. Ele destaca as
da, pri ncipa lmente em Monções ( J 990) e dificuldade, que estes últimos tiveram por
em O extremo Oesce (1 986), trala com causa da "tropicalidade" de quase todo o
dcscnvollura de variáveis ambientais co­ território brasileiro.
mo nora, fauna, topografia, solos, navega­ A obra de Alberto Ribeiro Lamego -
bilidadc de rios, meios de transporte, dis­ possivelmente enge nhei ro civil - é outro
ponibilidade de alimentos etc. São nolá­ exemplo do estudo conjunto e histórico da
ve is, por e xemplo, as suas observações "terrJ" e do uhomem'\ como ele mesmo
sobre a eficácia bélica de d oi, grupos nati­ coloca a questão (ver, porexemplo, L,me­
vos d ota dos de ad a p ta ções cultumisau aln­ go, 1974). L1mego fondiza as terras nu­
bieme: os gllll/cLlru (o "gent io ca va le i ro ), " miJlc�es, numa série de livros com títulos
que dominaram o cavalo i mrod u�ido pelos a mb i cn la l mc Jlle específicos (brejo, restin­
europeus, e os pmoguo, eXll11JOS ca 1l0ClroS. g:t, baííl de Guanabara e serra) e que co­

• • • •

Esses nativos a retamm a� rotas terrestres e b rem lodos os ecossistemas pré-europeus


fluviais dos paulistas em demanda do ime­ do estado_ Ele parte da geologia e geomor­
rior c i n nuc ncia null os Píldrões de ocupa­ fo logi a, passando pcla hidrografia, solos e
ção e uro péia. Holanda focaliza lambêm as clima, mostrando quais atividades huma­
tecnologias eu ropéias, princi pa lme nte as nas enll11 mais propícias paro cada ecossis­
agncolas, e a sua incapacid:lde de sustentar tema. A história propriamente social e eco­
os colonos, sem ajuda dos alimentos pro­ nôlllic<t que ele deriva de suas observa ções
duzidos pelos nativos. eco lógic as peca por simpl ismo e por um
O sociólogo Gilberto Freyrc produLiu regio na l ismo pouco relevante. Ainda as­
na década de 1930 um livro int itu l a do Nor­ sim, o conju nt o da sua obra resulla de um
desce ( 1 985), cujos q ua tro capítu los ini­ ambicioso projeto de estudo histórico das
ciais são verdadeiros ensaios de história intcrações entrc meio ambiente e socieda­
ambienL11. Embora não aprofunde os as­ des humanas, projeto esse em tudo similar
pectos de ciência natural, Freyre mostra ao de uma história ambiental.
como as expectativas, os valores e os aios Entre os chamados "ensaístas", espe­
dos portugueses p rod uzi ram efeitos preda­ cialmente Euclides da Cunha (1 986) e Oli­
tórios no quadro natural do chamado Nor­ veira VialUla (1 987), encontramos exem­
deste úmido. Examina as re l ações dos por­ p l os de abordagens mais unilaterais - mas
tugueses Com os nativos, a temi, a nom, a aind a innucntes - das re laçõcs entre natu­
fau na e a água, e produz u m d iagnós t ico de reza e sociedade. Cunha e Vi a lUla bem à.

des t ruiçiio ambicmal nada favonivel aos moda dos detenninismos biológicos e geo­
sellhores de engellho, de quem cm tantas gr:íficos do fim do século XIX, en fat izam
outras obras ele fez o elogio. as restriçôes cri adas pelos ecossistemas e
O geógrafo Aziz Ab'Saber tem uma pa is agens mas raramente se ocupam de
,

percepção allamente a pu nld a da história como as sociedades humanas modificam


das i nterações entre os q uad ros naturais e mesmo os ambientes mais hostis para os
as sociedades humanas. Veja-se, entre seus fins. Ou seja, eles se conce nt ram na
muitas outras produçõcs suas, os peq uenos d imensão daqu i l o que o meio natuml "faz"
textos inseridos nos do is primei ros volu­ com os humanos, e deixam de lado o que
mes da História geral da civilização bra­ as "leituras" hu manas do meio nmural po­
sileira (Holanda. 1 985 e 1 989), onde apon­ dem representar em tennos de ação cultu­
ta cu id adosame nte quai::, os uso e ;JS po- ml de l110di fici'lção do meio naluml. Ambos
194 FSnJOOS HISTÓRICOS - 199""

escrevernm obrns relativamente amplas, ricos e Geográficos contam com inúmeros


focalizando várias regiões': Rio de Janeiro, relatos e cróni""s de viagem inéditos, al­
Nordeste e Amazônia ( Ouma), Rio de Ja­ guns deles pertinentes aos séculos XVII e
neiro, Sâo' Paulo, Minas Gerais, Paraná e xvrn. Como disse em seção anterior, essas
Rio Grnnde do Sul (Vianna). são fontes privilegiadas para os historiado­
Alberto Torres, outro "ensaísta", em pe­ res ambientais, e o Brasil, pela sua tropica­
queno texto do início do século (1990), lidade e pela diversidade dos seus ecossis-

carncterizou eloqüentemente a economia temas, atraiu e continua a atrair centenas de


brnsileirn como uma consumidorn voraz e viajantes e cientistas estrangeiros oriundos
imprevidente de recursos naturais, num de países temperados, treinados para obser­
tom apocalíptico que lembra o de alguns var paisagens e aspectos da natureza.
ambientalistas contemporâneos. Embora
bem informado sobre o que ocorria na
Europa e nos EUA em tennos de ''uso
racional de recursos naturais", Torres se
limita a denúncias e apelos. Que eu saiba, 5 Conclusão: em prol de uma
-

ele nunca desenvolveu o tema além desse revisão dos ciclos econômicos
texto, que, no entanto, parece ter tido algu­ brasileiros
ma influência nos primórdios da legislação
ambiental brnsilcira. Espero ter convencido alguns historia­
A falta de espaço impede observações dores, estudantes de história e interessados
sobre aspectos ambientais das obras de da originalidnde da história ambiental. A
Varnhagem, Capistrano de Abreu, Caio pretexto de conclusão, defenderei a sua re­
Prado Jr. e outros (ver Pádua, 1 986, para levdncia para a historiografia e sociedade
uma revisão mais detalhada de autores que brasileiras, tocando apenas num ponto. Fa­
refletiram sobre a natureza brnsileira). Mas ço parte de uma geração que estudou a
quero indicar que não são poucos os auto­ história do Brasil, no primário, em livros
res brasileiros cujos textos ajudam na pro­ dominados pela clássica visão dos "ciclos
dução de pesquisas com uma abordagem econômicos": pau-brasil, cana-de-açú""r,
mais explicitamente ambiental. gado, algodão, ouro, ""fé, borracha etc.
Quero recordar aos interessados em his­ Não foi particularmente agradável estudar
tória ambiental no Brasil que contamos esses ciclos, mas o conhecimento deles bo­
com uma coleção relativamente vasta de je me permite entender melhor o Brasil
relatos de viagens do século XIX e XX como país cuja economia foi e continua
pmduzidos por viajantes, diplomatas, mili­ estreitamente atada à exploração de curto
tares e naturalistas estrnngeiros. Uma parte prazo de recursos naturais (florestas e pro­
importante desses relatos foi publicado na dutos florestais extrativos, animais selva­
coleção Brasiliana, da falida Editora Na­ gens, terras agrícolas e pecuárias, depósitos
cional, e vem sendo reeditada desde a dé­ minerais, rios ele.).
cada de 1970 pela Editora Itatiaia, numa A partir da década de 1960, essa litera­
coleção chamada RecolU]uisla do Brasil. tura foi deslocada por outra que enfatiza as
Ai temos os textos já bastante colmecidos "relações dialéticas", as Uarticulações" e OS
de Saint-Hillaire, Spix e Martius, Burtoo, "movimentos do capital" entre os diversos
Bates, Agassiz, Wallace, Conde d' Eu, e ciclos que, assim, passaram a ser ciclos
muitos outros não tão conhecidos. Além abstratos, emanações de uma entidade ain­
disso, as seções de manuscritos da Biblio­ da mais abstrata chamada "exploração co­
teca Nacional e de vários Institutos Histó-- lonial". Embora não discorde da óbvia arti-
A HISTóRlA AMBlEJIITAL 195

culação entre os ciclos da "velha historio­ qualquer outro ciclo dinãmico próximo ou
grofia", percebo que a juventude fonnada longínquo. A maneira de usar os solos lo­
dentro da "nova historiogrofia" desenvol­ cais, por mais que tenha obedecido à lógica
veu a capacidade de articular competente­ do capitaJismo internacional, pouco ou na­
mente fatos e processos que maI entendem. da deixou para a manutenção de uma so­
Ela sabe montar esquemas complexos, mas ciedade local. Exemplos de áreas igual­
não sabe dizer o que compõe cada pa rte do mente exauridas e estagnadas poderiam ser
esquema. multiplicados dentro do território brasilei­
A "nova historiogrofia" tem sido inca­ ro. Todas elas merecem estudos que supe­
paz de esclarecer exatamente os tipos de rem os marcos dos "ciclos estanques" e dos
sociedade gerados pela exploração de um "ciclos abstratos". A mesma ótica pode ser
recurso nanlra� ou de vdrios recursos si­ aplicada para (1) os numerosos pontos do
multaneamenle, ou de vários recursos em território brasileiro submetidos a proces­
seqüência. No fim das contas, uma região sos recentes de uso intensivo e (2) aos que
pecuária tem uma estrutura social e uma apenas agora estão sendo incorporados à
cultura substancialmente diferelUeS de uma economia nacional em tennos efetivos.
área de mineração ou de agricultura de A economia e a sociedade brasileiras
exportação. Sinto que a capacidade de dis­ continuam a ser extremamente dependen­
tinguir os efeitos' sociais dos ciclos foi eli­ tes dos recursos naturais. Nosso futuro de­
minada pela "nova historiografia", ansiosa pende desses recursos, dos valores que lhes
de estabelecer ligações entre ciclos conce­ emprestamos e dos usos que lhes damos.
bidos isoladamente. Sem dúvida, a história Não temos ética do lucro, nem ética da
deve ter a ambição de fornecer esquemas, prod utividade, nem ética do trabalho; não
mas deve fornecer também materiais inte­ somos criadores de tecnologia de ponta,
ligíveis para montar esses esquemas. nem de processos produtivos; não temos
Quero sugerir que a história ambiental capital para viver de rendas; a noss a mo­
pode contribuir nos próximos anos para deoúdade industrial e pós-industrial é tão
que se atinja um meio tenno entre os "ci_ impressionante quanto é frágil. Grandes
clos estanques" e os "ciclos abstratos". A setores da nossa população e da nossa ec0-
melhor agenda para um possível grupo de nomia cont inua m a depender do uso exten­
historiadores ambientais talvez seja re/o­ sivo e raramente prudente de recursos na­
mar o tema dos ciclos ecollômicos do his­ turais: novas terras agrícolas e pecuárias,
tória colonial e illdepetuielue doBrasi� em novos empreendimentos de mineração,
clave ambie1ltal. O objetivo seria identifi­ novos produtos extrativos, novas usinas
car, em escala regional e local, que tipos de hidrelétricas. O mercado mundial está pa­
sociedade se formaram em tomo de dife­ gando cada vez menos por esses recursos
rentes recursos naturais, que pennanência naturais.

tiveram essas sociedades e que tipo de Sabemos que todas as dimensões da


conseqüências elas criaram para os seus nossa economia de recursos naturais estão
ambientes sustentarem outros tipos de so­ articuladas. Não podemos mais adiar um
ciedade. conhecimento histórico mais consistente
Essa é a melhor forma de verificarcomo de cada uma dessas dimensões. É minha
os ciclos se interligam, ou não se interli­ opinião que a história ambiental pode dar
gam. O Vale do Rio PaDôa do Sul, por uma contribuição decisiva para entender­
exemplo, foi devastado há mais de um mos o nosso passado e o nosso presente de
século pela cafeicultura. Hoje é uma região país rico em recursos naturais e assolado
rigorosamente estagnada, desligada de por dívidas sociais.
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