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O novo Regulamento da Taxa

Florestal em Minas Gerais


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Assunto: O novo Regulamento da Taxa Florestal em Minas Gerais – Decreto nº
47.580, de 28 de dezembro de 2018

1. Introdução

O Decreto nº 47.580, de 28 de dezembro de 2018, instituiu o novo Regulamento da Taxa


Florestal, revogando o anterior1, de 1994. A mudança ocorreu em virtude do intenso contencioso
administrativo e judicial2 envolvendo o tributo3.

O novo Regulamento foi precedido de alteração legislativa. A Lei nº 22.796, de 28 de


dezembro de 2017, introduziu as seguintes mudanças:

a) Como não havia regra determinando o critério temporal da hipótese de incidência da


taxa na Lei nº 4.747/1968, determinou-se que o momento de ocorrência do fato
gerador é a “intervenção ambiental”, entendida como a supressão de maciço, o
aproveitamento de material lenhoso, entre outros eventos.

b) Em razão de disputa administrativa, envolvendo dupla incidência na extração da


madeira e na produção/consumo de carvão vegetal, determinou-se a isenção da taxa
sobre a extração de madeira destinada à produção de carvão, ressalvada a incidência
sobre este último, “nos termos do regulamento”.

1
Decreto nº 36.110, de 4 de outubro de 1994.
2
Em junho de 2018, a Associação Mineira de Silvicultura (atualmente Associação Mineira da Indústria Florestal)
impetrou o Mandado de Segurança Coletivo nº 0682304-43.2018.8.13.0000, em trâmite perante a 6ª Câmara Cível do
TJMG, para questionar a exigência da taxa sobre volume de produção fictício, em vultosos valores.
3
Cf. CASTRO JÚNIOR, Paulo Honório de. A cobrança de Taxa Florestal sobre volume de produção fictício. Revista
Fórum de Direito Tributário: RFDT, Belo Horizonte, v. 16, n. 94, p. 155-170, jul./ago. 2018.

2
A maior parte do contencioso relativo à Taxa Florestal envolve a sua cobrança, pelo
IEF/MG, sobre saldos declarados em DCC não utilizados/produzidos. Ou seja, sobre volume de
produção fictício. Por isso, o novo Regulamento do tributo dedicou suas linhas mais polêmicas a este
tema.

2. As modificações introduzidas pelo novo Regulamento da Taxa Florestal

Em onze capítulos, o novo Regulamento promoveu intensas modificações na estrutura e


na dinâmica de apuração da taxa.

2.1. Natureza jurídica da Taxa Florestal

Logo no art. 2º, o Decreto expressa que a “Taxa Florestal tem por fato gerador o
exercício regular do poder de polícia pelo Estado”, relacionado com as atividades de extração,
produção, comercialização, armazenamento, transporte e consumo de produtos e subprodutos
florestais. Não se trata propriamente de uma inovação, tendo em vista que a Taxa Florestal sempre
foi compreendida, acertadamente, como espécie tributária taxa, na modalidade de polícia. Mas a
mudança é oportuna, porque a Lei nº 4.747, de 9 de maio de 1968, dispõe que a taxa seria
“contribuição parafiscal”, o que, se fosse verdade, afastaria o regramento constitucional das taxas,
especialmente a proibição de desproporcionalidade entre base de cálculo e custo da fiscalização (art.
145, § 2º, II, da Constituição).

2.2. Base de cálculo

O Regulamento é contraditório em relação à definição da base de cálculo, o que denota


antinomia real4.

4
Conflito entre normas aplicáveis ao mesmo fato, com disposições incompatíveis entre si, de impossível solução (mesma
vigência, especificidade e hierarquia). O STF já se posicionou sobre o tortuoso tema das antinomias reais, concluindo
que, comprovado se tratar desta espécie de antinomia – e não da aparente, que permite a solução pela interpretação
corretiva –, a solução é a interpretação ab-rogante. Esta pode consistir na exclusão de uma ou das duas normas em
conflito. Neste último caso, com a aplicação de uma terceira norma (HC 68793, Relator p/ Acórdão Min. Moreira Alves,
DJ 27/06/1997).

3
Como regra geral, definiu-se que a “Taxa Florestal tem por base de cálculo a quantidade
do produto ou subproduto extraído ou consumido, expressa na unidade de medida correspondente,
nos termos do Anexo II deste regulamento” (art. 5º). Ou seja, acertadamente dispõe que a base de
cálculo do tributo é o volume real de produção.

A contradição se implementa em três outras regras. Primeiro, quanto ao prazo de


recolhimento da taxa – art. 10 –, a evidenciar a prática atual do IEF/MG consistente em cobrar o
tributo sobre o volume meramente estimado ou fictício de produção: “no momento do requerimento
da intervenção ambiental ou do procedimento de homologação de declaração de colheita e
comercialização.”

Segundo, o § 1º, do art. 11, dispõe que o saldo declarado em DCC que exceder o volume
real de produção (ou seja, o volume estimado/fictício) deve ser objeto de recolhimento da taxa em 24
horas.

Terceiro, o § 9º, do art. 12 – dispositivo que inaugura uma nova sistemática para os
Regimes Especiais de Substituição Tributária – determina o pagamento da Taxa Florestal não mais
com base no volume de saída para o substituto, e sim a partir de uma nova obrigação acessória,
denominada “Declaração de Previsão de Consumo Anual de Produtos e Subprodutos Florestais”, em
até quatro parcelas anuais. O § 12, do mesmo artigo, deixa claro que a base de cálculo, nessa
hipótese, apenas pode ser alterada para mais, quando houver a necessidade de “redimensionamento a
maior da quantidade declarada” ou “ocorrendo a necessidade de consumo de produtos ou
subprodutos florestais superior ao declarado”, hipótese em que a taxa complementar deve ser
recolhida “correspondente ao acréscimo solicitado”.

Fica claro, portanto, a contradição entra a regra do art. 5º do Regulamento (base de


cálculo é o volume real de produção) e as demais regras (arts. 10, 11 e 12), segundo as quais a taxa
deve ser calculada sobre volume estimado/fictício de produção, caracterizando a antinomia real. A
solução da antinomia, sendo impossível ao intérprete, depende de pronunciamento do Judiciário, que
deverá afastar as regras incompatíveis com a Lei nº 22.796/2017 e com a Constituição.

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2.3. Regime Especial de Substituição Tributária

Os Regimes Especiais vigentes serão automaticamente revogados no quadragésimo


quinto dia após a publicação do novo Regulamento (art. 35), o que equivale ao dia 12 de fevereiro de
2019.

Os contribuintes consumidores de produtos e subprodutos florestais poderão ser


admitidos como substitutos tributários, pelo período de um ano a contar da homologação da nova
Declaração de Previsão de Consumo Anual de Produtos e Subprodutos Florestais.

2.4. Cadastro e Registro junto ao IEF/MG

Passa a ser obrigatório o cadastro junto ao Instituto de todas pessoas físicas e jurídicas
que “explorem, industrializem, comercializem, beneficiem, utilizem, consumam ou transportem, no
Estado de Minas Gerais, sob qualquer forma e de qualquer origem, produtos e subprodutos da flora
nativa e plantada”, inclusive a pessoa estabelecida em outra unidade da Federação.

Cada estabelecimento da pessoa cadastrada receberá um número de registro, sendo que o


procedimento será disciplinado por resolução específica do IEF/MG, ainda não publicada.

2.5. Constituição dos créditos tributários por declaração e competência da


SEF/MG para lavrar Autos de Infração

O novo Regulamento inova ao estabelecer, invalidamente, que as seguintes declarações


e documentos constituem os créditos tributários relativos à Taxa Florestal, dispensando o lançamento
de ofício:
“Art. 21 - São documentos administrativos com efeitos fiscais para a caracterização
da exigibilidade da Taxa Florestal:
I - Declaração de Previsão de Consumo Anual de Produtos e Subprodutos
Florestais, conforme Anexo III deste regulamento;
II - Plano de Suprimento Sustentável - PSS;
III - Comprovação Anual de Suprimento - CAS;
IV - Declaração de Colheita e Comercialização - DCC;
V - Requerimento de Colheita e Comercialização de Florestas Plantadas;

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VI - Guia de Controle Ambiental - GCA ou outro documento de controle instituído
para tal fim;
VII - Autorização para Intervenção Ambiental - AIA;
VIII - Documento Autorizativo para Intervenção Ambiental - DAIA;
IX - Auto de Infração Ambiental;
X - outros documentos utilizados para adoção de atos administrativos derivados de
solicitação dos empreendedores que impliquem na informação ou na determinação
da volumetria e especificação do tipo de produto florestal.
Parágrafo único - A critério da Semad e do IEF poderão ser instituídos outros
documentos de controle.”

A partir disso, o Decreto determina que a SEF/MG deve, em regra, lavrar Autos de
Infração da taxa, exceto nas hipóteses em que o crédito tributário tenha sido constituído por
declaração ou pelos documentos acima:
“Art. 22 - A fiscalização da Taxa Florestal compete à Secretaria de Estado de
Fazenda.
Parágrafo único - As autoridades fiscais, no exercício de suas funções, poderão
valer-se, além dos documentos listados no artigo anterior, subsidiariamente, de
outros livros e documentos, físicos ou eletrônicos.
Art. 23 - A exigência da Taxa Florestal será formalizada em auto de infração,
quando apurada pela fiscalização a falta ou insuficiência de seu recolhimento ou
qualquer irregularidade prevista neste regulamento.
Parágrafo único - O Processo Tributário Administrativo - PTA -, referente à Taxa
Florestal, terá idêntica formação e tramitação e, ainda, obedecerá aos prazos dos
demais PTAs previstos no RPTA.
Art. 24 - Não será objeto de impugnação o crédito tributário resultante do não
recolhimento da Taxa Florestal cuja exigibilidade decorra de declaração,
requerimento ou solicitação em que fique definida a tipologia florestal e
mensurada a quantidade de produto ou subproduto florestal, hipótese em que será
denominado crédito tributário de natureza não contenciosa.
§ 1º - O crédito tributário previsto no caput, inclusive as multas correspondentes,
serão, por meio eletrônico, enviados para inscrição em dívida ativa.
§ 2º - O sujeito passivo terá ciência do envio para inscrição em dívida ativa do
crédito tributário de que trata o caput em seu domicílio tributário eletrônico ou,
caso não o possua, mediante publicação no Diário Eletrônico da Secretaria de
Estado de Fazenda.”

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Ou seja, segundo o novo Regulamento, por exemplo, a mera transmissão de DCC
constitui o crédito tributário relativo à Taxa Florestal, dispensando o lançamento de ofício. Trata-se
de regra inconstitucional, pelas seguintes razões:

a) Nenhuma das declarações e documentos listados no art. 21 do Decreto configuram


reconhecimento/confissão de débito tributário, conforme exige o art. 142, do CTN, e
a jurisprudência do STJ:
“6. Na hipótese de tributos sujeitos ao lançamento por homologação o Superior
Tribunal de Justiça firmou entendimento de que a constituição definitiva do crédito
tributário ocorre com a entrega da declaração de contribuições e tributos federais -
DCTF, conforme disposto na Súmula 436: "a entrega de declaração pelo
contribuinte, reconhecendo o débito fiscal, constitui o crédito tributário,
dispensada qualquer outra providência por parte do Fisco." Uma vez constituído o
crédito, coube, ainda, àquela corte, nos termos do artigo 543-C do Código de
Processo Civil/73, fixar o termo a quo do prazo prescricional no dia seguinte ao
vencimento da obrigação tributária declarada e não paga.” (REsp 1764919/SP, Rel.
Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 04/10/2018,
DJe 28/11/2018)

b) Ainda que se pudesse entender que declarações como DCC e Previsão de Consumo
Anual configurassem reconhecimento/confissão de dívida – o que é inválido, por se
tratarem de declarações ambientais, que não identificam ou quantificam o fato gerador
–, a legalidade tributária exige que haja norma editada por lei formal determinando
que a declaração do contribuinte constitua o crédito tributário. Do contrário, por mero
Decreto, o Estado de Minas Gerais pretende obter a dispensa de lançamento de ofício
e, por consequência, a possibilidade de os contribuintes se defenderem perante o
Conselho de Contribuintes.

De todo modo, a prevalecer o Decreto, boa parte dos débitos de Taxa Florestal cobrados
pelo IEF/MG, a partir de pretensas confissões em DCC e similares, encontram-se fulminados pela
prescrição quinquenal prevista no art. 174, do CTN.

Paulo Honório de Castro Júnior Rodrigo H. Pires