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FORÇAS DE

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Defesa

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A Revista do Poder Naval, Poder Aéreo e Forças Terrestres
Número 4 • jan/fev/mar • 2012 • www.fordefesa.com.br • Preço: R$18,00

QQ Os Programas ‘F-X’
no Século XXI ao
redor do mundo
QQFIDAE QQNavio
de QQEE-T1
2012 Apoio Osório
Logístico
para a MB

ESPECIAL: 30 ANOS DA GUERRA DAS MALVINAS


EDITORIAL
O Grupo DCNS é um líder mundial em defesa
naval, mas também um agente inovador no
setor de energia.
FORÇAS DE

Defesa Voando para os


O sucesso do Grupo é construído sobre uma base leitores S
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FORÇAS DE

Defesa
excepcional de conhecimento e recursos industriais únicos.
A DCNS projeta, constrói e mantém navios de combate de
A revista do Poder Naval, omparando-se
Poder Aéreo
e Forças Terrestres uma das últimas restres

superfície e submarinos, assim como sistemas integrados campanhas aéreas A Revista


Número 4
do Poder
• jan/fev/mar
Naval, Pod
er Aéreo e
• 2012 • www.
Forças Ter
fordefesa.com.br
• Preço: R$18
,00

www.fordefesa.com.br
e infraestruturas vinculadas. www.naval.com.br multinacionais ocorridas no
www.aereo.jor.br século passado (Operação “Allied
www.forte.jor.br
Force” em 1999 sobre o Kosovo)
Ano 1 - Número 4 - 2012 com a recente intervenção
Periodicidade trimestral
militar na Líbia, observa-se uma
Editor-Chefe e sensível evolução no inventário
Jornalista Responsável dos aviões de caça de certas ‘F-X’
Alexandre Galante
Forças Aéreas. Tomaram parte Q Os ProgramasXI ao
alexgalante@fordefesa.com.br no Sécul o X
na “Allied Force” jatos como redor do mun
do
Equipe Editorial
Guillherme Poggio
o F-104, o F-117 e o EA-6B, de Q EE-T1

poggio@fordefesa.com.br aviões que hoje enfeitam muitos Q FIDAE


2012
Q Navio
Apoio
Osório

museus. Já nas operações do Logíst o


ic
Fernando “Nunão” B
para a M
De Martini
nunao@fordefesa.com.br
ano passado sobre a Líbia (ou ALVINAS
ERRA DAS M
Sergio Santana pouco antes, no Afeganistão), ESPECIAL: 30
ANOS DA GU
ssantana@fordefesa.com.br estrearam em combate o
Administração e Publicidade Typhoon, o Rafale, o Growler à aquisição de caças foram
Dinair Alves e o Gripen. Isto é apenas uma pequenas e provisórias, embora
dinairalves@fordefesa.com.br
publicidade@fordefesa.com.br
amostra de como a aviação de haja uma expectativa de uma
alta performance evoluiu neste decisão final em breve para o
início de século em alguns programa F-X2.
Colaboradores
Ícaro Gomes (Natal - RN)
Milton Lima (Salvador - BA) países. Mas, apesar da foto da capa,
Rafael Cruz (Recife - PE) Na verdade, ocorreram diversas não é só de aviões que se faz
mudanças nessa área, em um novo número da Forças de
Samuel Pysklyvicz (Goiânia - GO)

Consultor Institucional diferentes partes do mundo. Defesa. Os combates aeronavais


Romulo Federici O que nós da revista Forças da Guerra das Malvinas, que
federici@rfederici.com.br
de Defesa nos propusemos estão completando 30 anos,
Impressão a fazer, nesta edição, foi um também estão aqui, assim
Smartprinter
Unidade Comercial levantamento de todos os como uma matéria sobre uma
R. Felisbelo Freire, 322 programas de aquisição de outra tentativa inglesa de
Ramos - RJ caças (que aqui denominamos desembarque numa ilha, quase
CEP 21031-250
genericamente de “Programas 200 anos antes, e envolvendo
Produção Gráfica F-X”) que ocorreram ao longo o lendário almirante Horatio
deste início de Século ao redor Nelson. Sem falar nos novos
do planeta. Foi uma árdua tarefa navios que estão sendo
que demandou muita pesquisa, oferecidos para a Marinha
mas que no final trouxe gratas do Brasil, a história do
Av. Princesa Isabel 334 Bl3 406 e interessantes conclusões sobre desenvolvimento do carro de
Copacabana - CEP 22011-010 quais os caças que mais foram combate Osório, e muito mais.
Rio de Janeiro - RJ
O grupo DCNS desenvolve também soluções inovadoras no setor 55(21)3042-6365 negociados neste período. Muitos E esta edição também tem um
poderão até se surpreender com o valor muito especial para nós
da engenharia civil nuclear ou da energia marinha renovável. Para adquirir exemplares
resultado final. que fazemos a revista: iniciamos
das edições anteriores enviar
e-mail para: Esta matéria também ajudará a distribuição para vendas em
revista@fordefesa.com.br
os leitores a comparar o bancas de jornal e livrarias dos
As opiniões dos articulistas não programa de renovação da maiores centros urbanos do
representam necessariamente a
opinião da revista. Aviação de Caça de primeira Brasil. Para outras localidades
linha da Força Aérea Brasileira nacionais e até para leitores do
DCNS do Brasil Nossa capa: com outros programas exterior, a venda pela Internet
Rua Lauro Müller, 116 - sala 3102 A família Flanker é um grande sucesso
de vendas no mercado mundial, como semelhantes em todo o mundo. permanecerá, de forma que todos
Botafogo - Rio de Janeiro - 22290-160 mostra a matéria sobre concorrências Infelizmente, em nosso país terão acesso aos exemplares.
de caças neste número. as mudanças relacionadas Uma boa leitura para todos.q
www.dcnsgroup.com Forças de Defesa 3
ÍNDICE
FORÇAS DE

Defesa

14 46 FIDAE 2012:
poucas
novidades
84
Selecionando o
futuro navio de
apoio logístico
da MB

30 anos da
Guerra das
Malvinas

A volta ao mundo

28 70
Engesa EE-T1
em mais de 80 Osório
programas ‘F-X’

6 Entrevista - Deputado Hugo


Napoleão, presidente da
Frente Parlamentar Super-Sub
26 Fragata Liberal da
Marinha do Brasil parte
para missão de paz no Líbano
76 A história do SAS - Special
Air Service
Sérgio Santana conta como surgiu esta
O deputado fala sobre as medidas que O navio suspendeu no dia 10 de abril para força especial do Reino Unido que atuou
serão tomadas para fortalecer nossa compor a Força Tarefa-Marítima (FTM) em diversos conflitos e fez fama mundial
Indústria Naval Militar da Força Interina da ONU no Líbano

10 Para que serve o porta-


aviões São Paulo? 44 A participação do Brasil
na Guerra das Malvinas
80 Nelson tentou dar um
golpe de mão, mas “El
Tigre” quis ficar com o braço
Romulo Federici opina sobre a imagem Relembre como o Brasil cedeu aviões Conheça a história do canhão “El Tigre”,
do navio na grande Imprensa e a Bandeirante Patrulha à Argentina e que segundo a tradição disparou o projétil
evolução dos Brics na área naval interceptou um bombardeiro inglês que atingiu o almirante Horatio Nelson

12 Segurança de voo: as
perdas materiais podem
ser reparadas, as humanas nunca
74 Alan Boinet da EADS
fala sobre sistemas de
proteção CBRN
94 “Tendo dinheiro, dá pra
fazer qualquer coisa no
Brasil. A Engesa saiu do zero”
O coronel reformado Franco Ferreira O executivo descreve as soluções da EADS Entrevista com o engenheiro Reginaldo
inaugura sua coluna e discorre sobre a em sistemas de proteção contra ameaças Bacchi, que trabalhou na Engesa na época
prevenção de acidentes aeronáuticos químicas, biológicas e nucleares do desenvolvimento do MBT Osório

4 Forças de Defesa www.fordefesa.com.br


POLÍTICA ENTREVISTA
Fotos via R. Federici
Rego, que era capitão de fragata e
morreu em um acidente automobilísti-
co no Rio de Janeiro. Lembro-me que
ele trabalhara nas máquinas do NAeL
Minas Gerais. Essas coisas foram se
somando e apesar de serem questões
familiares já me traziam certa simpa-
tia pelas questões navais.
Hoje, sendo representante do Esta-
do do Piauí, pretendo instituir uma
Escola de Marinha Mercante no Esta-
do, que apesar de possuir uma peque-
na faixa costeira, dispõe de posição
geográfica estratégica, pois faz frontei-
ra com o Maranhão, estado onde se es-
tuda uma das alternativas para a Se-
gunda Esquadra.
Essas situações me levam a acredi-
tar no futuro promissor na área de De-
fesa Nacional, inclusive fiz parte da
formulação da Estratégia de Defesa
Nacional quando ainda Ministro.

n FD – O senhor já teve oportunidade


de visitar algum navio da Marinha?
Hugo Napoleão – Sim. Visitei o con-

‘O Brasil não pode deixar de ter


tratorpedeiro Piauí e muitas instala-


ções militares no Rio de Janeiro, inclu-
sive o então Ministério da Marinha em centros de excelência e preparação
que na época era sediado no Rio de de especialistas.

pelo menos dois porta-aviões Janeiro. Tive, ainda, o prazer de co-


nhecer a Capitania dos Portos do
Piauí.
Uma estrutura
militar à altura da
Precisamos assegurar recursos or-
çamentários para pesquisa, fomento
industrial, e programa de longo prazo

para sua defesa’ n FD – O quadro de pessoal da Mari-


nha é composto por profissionais do
nossa
representação
para aquisição de material estratégi-
co. A frente Super-Sub baseia-se na
concepção de que a aquisição de equi-
mais alto nível, com treinamento de pamento naval para a Marinha do
Romulo Federici, consultor da revista tória do Piauí” e muitos discursos par- excelência, e apesar da relativa melho- internacional Brasil deve ser considerada um Pro-
lamentares nas sessões da Câmara, ra nas últimas décadas e de reiterados depende, em grama de Estado e não de Governo,
Forças de Defesa, entrevistou Hugo Senado e sessões do Congresso Nacio- discursos de autoridades, políticos, so- como ficou demonstrado através do
Napoleão, deputado federal (PSD-PI) nal. bre seu reequipamento e modernização primeiro lugar, de Prosub.
Sou membro do Conselho de Econo- a Marinha ainda convive, assim como O Congresso Nacional, em matéria
da Frente Parlamentar Super-Sub mia, Ciência e Política da Federação as outras Forças Armadas, com um es- uma percepção de relações exteriores, não deve ser co-


do Comércio do Estado de São Paulo.
Tenho, ainda, uma série de condecora-
tado constrangedor de penúria. Como e vontade do adjuvante, já que pela Constituição, a
política externa é da competência priva-
n Forças de Defesa – Prezado depu- Durante o período em que fui Sena- teremos condições de construir uma
tado Hugo Napoleão, o senhor poderia dor, exerci o cargo de Ministro no Mi- ções nacionais e estrangeiras. estrutura militar à altura da represen- Estado tiva do Presidente da República, entre-
fazer um resumo da sua carreira polí- nistério da Cultura, Ministério da tação internacional que o Brasil tem tanto, isso não o exime de acompanhar e
tica e de duas atividades? Educação e depois o Ministério das Co- n FD – O que o levou a ter interesse hoje? participar. Por isso constituímos a Fren-
Deputado Hugo Napoleão – Advo- municações. pelo tema de construção naval militar Hugo Napoleão – Uma estrutura mi- A segurança da nossa população é o te Parlamentar Super-Sub, pela Cons-
gado militante, formado em Direito Fui presidente regional e depois no país? litar à altura da nossa representação alto valor que temos a preservar e exi- trução Naval para Defesa Nacional.
pela Pontifícia Universidade Católica nacional do Partido da Frente Liberal Hugo Napoleão – Inicialmente, por internacional depende, em primeiro ge em contrapartida um dispêndio Digo ainda, que em matéria de De-
- PUC-RJ. Eleito Deputado Federal de – PFL, do qual fui um dos fundadores causa de meu bisavô, Raimundo Nona- lugar, de uma percepção e vontade do permanente e eficaz de recursos. fesa, não somos coadjuvantes, mas co-
1975 a 1979 e de 1979 a 1983; Gover- na eleição de Tancredo Neves, junta- to Pessegueiras do Amaral, que era da Estado. É necessária a irrigação de participantes da Nacionalidade.
nador do Estado do Piauí entre os anos mente com Marco Maciel, Aureliano Marinha. Ele veio a ser o Chefe de Ga- recursos para pesquisa científica que é n FD – Qual é o objetivo da criação da Quanto à sua indagação, a Mari-
de 1983 e 1986; Senador com mandato Chaves, Jorge Bornhausen, José Agri- binete do Barão do Rio Branco no Mi- essencial ao programa militar. frente parlamentar Super-Sub na Câ- nha preparou o PAEMB (Plano de Ar-
de 1987 a 1995 e reeleito para o man- pino e tantos outros. nistério das Relações Exteriores du- A concentração de meios em centros mara dos Deputados e como ela vai ticulação e Equipamento da Marinha
dato de 1995 a 2001, quando assumi Fui durante sete anos líder do PFL rante todo o período em que o Barão de excelência, seguindo a tendência contribuir para reverter o quadro de do Brasil), do qual o Prosuper e o Pro-
novamente o Governo do Piauí, até 31 no Senado Federal, o que correspon- exerceu o cargo de Ministro do Estado. mundial de não dispersão, a prepara- sucateamento que aflige a nossa Mari- Sub são etapas iniciais. O PAEMB
de dezembro 2002. deu a sete dos oito anos do presidente Minha mãe gostava muito dele e me ção de especialistas no desenvolvimen- nha? prevê a construção, no período que vai
Passei por um período de 8 anos Fernando Henrique Cardoso. passou por herança umas abotoaduras to da produção, a operação de equipa- Hugo Napoleão – A Frente Parla- de 2010 a 2030, de 60 a 70 navios de
sem mandato, retornei à advocacia, Sou membro da Academia Piauien- em forma de âncora, que pertenciam a mentos militares sofisticados, enfim, mentar Super-Sub pela Construção guerra, compreendendo submarinos
contudo ainda continuei exercendo se de Letras, com obras publicadas, ele dos tempos de Marinha, inclusive todos esses pontos estão intimamente Naval para a Defesa Nacional tem por convencionais, submarinos nucleares,
atividades políticas. Em 2011 fui elei- inclusive “Educação e Democracia’’, elas estão comigo até hoje. associados à questão da disponibilida- objetivo a defesa desses quatro pontos navios-patrulha, fragatas, navios de
to Deputado Federal do PSD pelo um livro de contos, “O mundo admirá- Tinha também meu primo, muito de de recursos orçamentários para al- abordados: estrutura militar, irriga- multipropósito e porta-aviões.
Piauí para mandato de 2011 a 2015. vel das comunicações”, “Fatos da His- querido, Eduardo Antonio Martins do cançar esses fins. ção de recursos, concentração de meios Ressalte-se que a faixa oceânica

6 Forças de Defesa www.naval.com.br www.naval.com.br Forças de Defesa 7


POLÍTICA ENTREVISTA


Foto via R. Federici
brasileira é uma das maiores do ção de submarinos em estaleiros na- desejamos não é adquirir equipamento
mundo e o espaço do Atlântico Sul cionais, o que se caracterizaria pela de outros países, simplesmente por ad-
exige uma extensa e articulada frota transferência de tecnologia. Isso é fun- quirir, pois tal situação acarretará em
interligada por uma bolha eletrônica damental e indispensável de acordo O importante um desvirtuamento do todo o programa
de alta eficiência, para permitir a com nosso contexto. da Marinha do Brasil e não é isso que
transmissão de comandos e dados de Não há razão para compras de oca- é que se mantenha queremos. Buscamos propiciar conheci-
fonte terrestre, marítima e aérea. sião. Digo, ainda, que isso nos levará a mento científico para a nossa gente,
Isso tudo exigirá a concentração de um desenvolvimento 100% brasileiro. a regularidade no com a transferência de tecnologia para
um grande pólo naval, repetindo as-
sim o conceito que nos levou a criar a n FD – Hoje a Sociedade Brasileira
repasse dos que o Brasil seja autossuficiente.

Embraer. está mais envolvida com as questões de recursos para n FD – Qual a mensagem final que o
O que é necessário é fazer uma Defesa Nacional e muitos discutem a senhor gostaria de deixar aos nossos
nova esquadra dentro do “estado-da- estratégia e o reequipamento das For-
programas que às leitores?
-arte” constante da tecnologia militar. ças Armadas em sites especializados vezes se estendem Hugo Napoleão – Peço aos civis e mi-
da Internet. Como o senhor vê esse litares que não se deixem dividir por
n FD – Nos EUA costuma-se dizer que maior envolvimento civil em questões por décadas, como incitações externas e conflitos entre
a primeira pergunta feita pelo presi- militares? essas duas partes essenciais da nacio-
é o caso do


dente ao ser informado acerca de al- Hugo Napoleão – Acredito que em nalidade. O talento político brasileiro
gum problema internacional é “onde um mundo globalizado, onde a Inter- PAEMB encontrou uma fórmula que nos per-
está nosso porta-aviões mais próxi- net tem influência decisiva, não pode- mitiu evitar a decadência que ocorreu
mo?”. Qual sua opinião sobre a posse mos deixar de considerar que os cida- em muitas das Forças Armadas de pa-
de um ou dois porta-aviões pela Mari- dãos participem mais intensamente íses limítrofes. Há grandes interesses
nha do Brasil? das questões de Estado. que o Brasil sobremodo necessita, sen- que promovem essa divisão, que pas-
Hugo Napoleão – Com as dimensões do assim esse desastre é irreparável. sam muitas vezes despercebidos aos
da costa brasileira e os quadros com- n FD – O Ministério da Defesa tem Vamos tentar, a partir do executi- brasileiros de excelentes intenções. A
plexos de desenvolvimento geopolítico, uma das maiores fatias do orçamento vo, que demonstra vontade, tratar dis- moderação, sem injustiças, é um dos
quer na América Latina, quer na Áfri- da União, contudo a maior parte dos so. O líder Guilherme Campos, do meu instrumentos para o soerguimento da
ca e nas proximidades da Antártida, o recursos é destinado ao pagamento de partido, o PSD, sugeriu que todos dis- Defesa Nacional.
Brasil não pode deixar de ter pelo me- pessoal (ativos e inativos), e despesas pusessem parte dos seus orçamentos O Brasil é hoje a sexta maior econo-
nos dois porta-aviões para assegurar a de custeio, sobrando muito pouco para para destinar à reconstrução da Esta- mia do mundo, depois de EUA, China,
sua Defesa. investimentos em novos equipamentos. ção Naval. Japão, Alemanha e da França e em
Que solução vê para essa questão em Os contingenciamentos orçamentá- breve será a quinta. Mas ser a quinta
n FD – O senhor já tem a informação longo prazo? rios são um instrumento, por vezes ne- maior economia não significa ser a
sobre quando se dará a criação da 2ª Hugo Napoleão – Essa é uma ques- cessário, inclusive para saúde econômi- quinta maior potência, porque aí de-
Esquadra? tão tanto da União quanto dos Esta- ca do Estado, não limitado ao Brasil. pendemos de dois fatores.
Hugo Napoleão – Em relação à 2ª dos. Há um crescente aumento nas fo- Dada a natureza de planejamento de O primeiro é composto pelos índi-
Esquadra, a principal indagação é se lhas de pagamento, isso tudo é longo prazo das despesas militares, es- ces sociais e educacionais, a questão
ela ficará no Nordeste. Uma das alter- extremamente delicado. Essa questão ses contingenciamentos produzem efei- do IDH, no qual estamos aquém do ne-
nativas estudadas é a Baía de São de custeio assombrou os exércitos de to de retardo, mas não de impedimento. cessário e a questão também da distri-
Marcos, no Maranhão, e é preciso jus- todas as nações ocidentais, principal- O importante é que se mantenha a buição espacial da riqueza, que embo-
tamente cuidar da Amazônia azul, e mente após a 2ª Grande Guerra. regularidade no repasse dos recursos ra tenha melhorado, ainda não
neste caso, o Maranhão seria a porta Para a redução desse problema para programas que às vezes se esten- conseguiu chegar a todos os níveis da
de entrada. Evidentemente que há al- vinas, qual seria sua opinião sobre a posse sobre as Ilhas Malvinas, espera precisamos aumentar a qualidade de dem por décadas, como é o caso do população.
ternativas em estudo, entretanto essa soberania das ilhas? que este conflito seja resolvido pacifi- nossos efetivos e não primar pela PAEMB. O segundo fator é que para sermos
me parece extremamente adequada. Hugo Napoleão – A questão da sobe- camente, pelas vias diplomáticas, quantidade. potência precisamos, além dos melho-
rania das ilhas é um tema que diz res- nunca através de um conflito armado, n FD – Comenta-se que já ocorreu a res índices sociais e econômicos, ter
n FD – Essa alternativa tem sido bem peito aos dois países em conflito, por- como ocorreu no passado. n FD – Praticamente todos os anos o disponibilização de recursos para com- Forças Armadas adequadas e bem
recebida? que ambos a reclamam. orçamento com Defesa sofre contingen- pra de um Navio de Apoio, indispensá- equipadas para a defesa e para man-
Hugo Napoleão – O assunto não veio De um lado a proximidade do terri- n FD – Este impasse em relação às ciamentos e este ano não foi a exceção. vel para manutenção da Esquadra no ter a integridade de toda a comunida-
à baila ainda, sob o ponto de vista de tório argentino e os efeitos do tratado Malvinas demonstrou o total despre- Com isso as Forças Armadas têm sua mar. O senhor teve conhecimento dessa de nacional.
grande imprensa. Porém, para as pes- de Montego Bay, que praticamente in- paro da Argentina, uma vez que bastou operacionalidade afetada com essa fal- informação? Estamos com o Pré-Sal que precisa
soas que estão lidando com o assunto, ter-relacionam as águas entre o conti- apenas o ataque de um submarino in- ta de repasse dos recursos, o que conse- Hugo Napoleão – O que houve mais ter sua defesa garantida com uma Es-
há uma concordância em que a situa- nente e a ilha, de certa forma vão tra- glês para afugentar toda a Esquadra. quentemente faz com que as compras recentemente foi a aquisição de três quadra bem equipada e infelizmente
ção é favorável. tar os rumos necessários. Qual sua opinião sobre essa questão? de novos equipamentos sejam afeta- navios-patrulha, o que motivou um ainda temos problemas com navios pi-
Agora, se de um lado há a proximi- Hugo Napoleão – Os submarinos, na das. O que os parlamentares podem discurso meu em 12 de março no ple- ratas em nossa costa, atacando navios
n FD – O que politicamente está sen- dade alegada pela Argentina, de outro visão estratégica atual, são o que há de fazer para minimizar o efeito dos con- nário da Câmara dos Deputados, es- mercantes, os quais precisam ser de-
do feito para que o projeto da 2ª esqua- há a ocupação feita pelo Reino Unido mais moderno e o que há de mais pró- tingenciamentos, cujo efeito mais dra- tranhando que dentro de toda uma fendidos também.
dra saia do papel? que alega que a população está de ximo de uma arma absoluta, quase mático, sentido recentemente, foi o in- programação existente, nós estejamos Nada será feito sem uma Marinha
Hugo Napoleão – A frente parlamen- acordo com a administração britânica. perfeita. Por isso estamos pensando cêndio que destruiu a Estação Naval adquirindo, como “compra de oportu- bem instrumentalizada, uma Força
tar super-sub auxilia as gestões junto O Brasil, quando do rompimento de em 14 submarinos convencionais e 5 Brasileira na Antártica, erguida há nidade”, três navios-patrulha, os cha- Aérea que possa eficientemente cobrir
ao poder público com o intuito de dar relações entre a Argentina e o Reino nucleares, sendo um número suficien- mais de 30 anos? mados OPVs, produzidos por um gru- o território nacional e de um Exército
apoio político para que a 2ª Esquadra Unido, passou a representar os inte- te para defesa dos interesses brasilei- Hugo Napoleão – Esse foi um desas- po britânico. bem preparado e equipado.
saia o mais breve possível do papel. resses da Argentina e tem se mantido ros no Atlântico Sul. tre de proporções catastróficas, sobre- Essa compra vai contra o sentido do As Forças Armadas brasileiras pre-
equidistante. Embora respeite o pen- É muito importante dizer que nós tudo porque estamos tratando de inves- programa do PAEMB, afinal esse não é cisam ser respeitadas e estimuladas
n FD – Em relação à Guerra das Mal- samento da Argentina em defender a tencionamos resumir a nossa produ- timentos na área de pesquisa e é isso o escopo do que nós queremos. O que pela opinião pública brasileira.q

8 Forças de Defesa www.naval.com.br www.naval.com.br Forças de Defesa 9


OPINIÃO
FORÇAS DE

Defesa
Para que serve o porta-
aviões ‘São Paulo’?
A. Galante
QQ Romulo F. Federici dizado para aplicarem na construção
rfederici@rfederici.com.br de seus futuros navios-aeródromo. A
www.rfederici.com.br Índia comprou um antigo porta-aviões
russo rebatizado de Vikramaditya, O poder de atrair o público
F
ui solicitado a dar entrevista a que está sofrendo um lento, penoso e
um importante jornal que, em
tese, tinha como objetivo obter
uma visão ampla sobre o porta-aviões
custoso processo de reforma em esta-
leiros dos vendedores. A África do Sul
ainda não entrou no time.
de defesa. Em dose tripla.
São Paulo, da Marinha do Brasil. Logo
percebi que o real objetivo do jornalis- O porta-aviões São Paulo
ta era denegrir a imagem do navio, O Brasil comprou barato o porta-
relegando-o à simples sucata cheia de -aviões francês Foch, classe “Clemen- www.naval.com.br
problemas e absolutamente inútil. ceau”, da década de 60, numa operação
Dei uma entrevista longa, cerca de com excelente custo-benefício. www.aereo.jor.br
30 minutos abordando ponto por ponto Tido como melhor que seus simila-
a matéria na esperança de tentar le- res de rampa, teve um acidente antes www.forte.jor.br
var um pouco de lucidez ao raciocínio da reforma e um incêndio depois da
de meu interlocutor sabendo, de ante- reforma, ambos com vítimas. Sofreu
mão, que seria inútil, como acontece um “retrofit” geral e profundo, tornan-
nesses casos. De minhas ponderações do-se um navio em excelentes condi-
foi maliciosamente pinçada uma frase, ções para desempenhar seu papel,
devidamente remontada para caber na lembrando-se, porém, que um navio de
linha perseguida pelo jornalista. guerra operando está sempre sujeito a
Trata-se de um evento de pouca re- acidentes.
levância se considerado em si mesmo, De fato, está reservado ao NAe São
mas revela um mal muito maior por Paulo a função, importantíssima, de
trás disso: o baixo nível de informação emergentes estão reformatando sua fazer a transição do navio-aeródromo
e absoluta falta de raciocínio mais am- macroestratégia nos campos econômi- Minas Gerais, já desativado, para o
plo não só de parte da opinião pública co-financeiro, social, administrativo, próximo porta-aviões, este novo e a ser
em geral, de setores recalcitrantes do ideológico, democrático, político, geo- construído.
segmento político, mas também, o que político e militar. Isto porque buscam Durante este período manterá a
é mais grave, de parte dos jornalistas, dispor, na área militar, de forças não tripulação embarcada treinada, atua-
quando o assunto é Defesa. somente defensivas e dissuasórias, lizada e apta a conviver com este tipo
Mas vou deixar essas considera- mas de relativa capacidade de proje- de navio e os pilotos navais capazes de
ções para um dos próximos artigos e ção, de forma a merecerem que sejam se manterem ativos e destros. Só isso
procurarei focar no tema porta-aviões. considerados protagonistas no cenário já justificaria a existência do São Pau-
mundial, notadamente em missões da lo, pois é um item importante no “sta-
A maturidade dos emergentes ONU e/ou outras. tus” dos Brics.
A grande verdade é que chega um Dentro desse contexto passaram a Mas, acrescente-se a isso a possibi-
momento em que um país tem de deci- ter especial relevância, além de fraga- lidade de desempenharmos missões
dir se trilha o caminho da relevância tas, destróieres, etc., os chamados na- em áreas mais distantes, pois não de-
geopolítica, tornando-se, gradativa, vios de projeção, capazes de transpor- vemos deixar de lado eventos na Áfri-
mas crescentemente, um protagonista tar tropas, suprimentos, veículos e ca, por exemplo, sendo certo que a uni-
Anuncie* nos sites “Forças de Defesa”. Eles não param de
mundial ou resigna-se em ser uma in- helicópteros, os de apoio logístico que dade tem condições de atuar em crescer, atraindo cada vez mais o público do setor: de militares a
significância internacional não levada mantêm as unidades navegando e os conflitos de baixa intensidade.q
a sério. E os Brics, Brasil, Rússia, Chi- porta-aviões. profissionais da indústria, de jornalistas a formadores de opinião,
na, Índia e África do Sul resolveram de entusiastas de hoje a tomadores de decisão de amanhã.
que deveriam evoluir para serem, cada Área naval entre os Brics
vez mais, um contraponto à prevalên- Os russos, após dúvidas e vacilos a
cia absoluta do poder norte-america- respeito do tema na última década,
no, com seus agregados da OTAN, eco- dispõem do Kuznetsov e estudam a publicidade@fordefesa.com.br
nômica, política e militarmente. Não é construção de unidades nucleares, tec- 55(21)3042-6365
confrontação, que seria ridícula, mas nologia ainda muito cara. A China
um reequilíbrio nas interlocuções in- comprou um antigo porta-aviões rus- 55(21)7586-7099
ternacionais. so, o Varyag que está usando num pro-
Com essa nova postura, os países cesso de “benchmarking”, num apren- *Inserções individuais nos sites ou em pacotes incluindo a revista impressa.
10 Forças de Defesa www.naval.com.br
OPINIÃO

Segurança de Voo
As perdas materiais podem ser reparadas; as
humanas não são, nunca!
Forças de Defesa
QQ Gustavo Adolfo Franco Ferreira
gferreira@sti.com.br

A
revista Forças de Defesa
pretende apresentar, a cada
número, uma coluna sobre
Segurança de Voo.
Segurança de Voo, o que é isto?
Segurança de Voo é um estado-de-
-espírito! Que há de orientar os agentes
de toda e qualquer atividade aeronáuti-
ca na direção da perfeita execução das
tarefas que lhe sejam atribuídas.
Certamente, a Segurança de Voo co-
meça na definição das características
de uma nova aeronave “em ser”, passa
pelos engenheiros que a detalham, pe-
los operários que a constroem, pelos re-
guladores que a fiscalizam, pelos mecâ-
nicos que a mantém, pelos responsáveis
pela infraestrutura necessária à sua
operação, pelo operador aeronáutico e uma aeronave não pousa no destino, ou a conhecimentos de cada ocorrência.
toda a corte de funcionários engajados tripulação enfrenta uma situação adver- É desta realidade que surge a pre-
na operação aeronáutica, pelos despa- sa que consegue sobrepujar. São as exce- venção de acidente aeronáutico; neces-
chantes operacionais de voo, pelos ou- ções indesejadas, as “ocorrências” aero- sidade imperiosa reconhecida como
tros aeroviários, pelos tripulantes téc- náuticas. O grau de importância de cada resposta natural à depressão que se
nicos, pelos tripulantes de cabine, para ocorrência permite classificá-las em inci- apossou do genial brasileiro. À preven-
desembocar, afinal, na figura singular dentes (consequências ausentes), ou aci- ção do acidente aeronáutico segue-se a
do piloto-em-comando, último reduto dentes (consequências presentes). mais eficiente forma de alimentá-la: a
contra os erros cometidos pela imensa Não pude definir a data em que investigação das ocorrências! Assim, a
teia de profissionais participantes do
seu voo e, na outra face da moeda, be-
neficiário de todos os acertos deles.
surgiu o estado-de-espírito da segu-
rança de voo, a data em que o acidente
aeronáutico deixou de ser um “osso do
segurança de voo é alimentada não só
pelos estudos da prevenção que fazem
os teóricos, mas também pela criterio-
Treinando para o Sucesso Operacional
Esta realidade se aplica a todo e ofício” ou a consequência da ousadia. sa investigação dos acidentes aeronáu-
qualquer voo tripulado, desde o mais Um marco apropriado talvez seja de- ticos que, necessariamente, lhes ser-
despretensioso voo de lazer até o mais zembro de 1928, data em que o genial vem de fonte de conhecimento.
requintado voo comercial ou o mais brasileiro Santos Dumont assistindo à É um círculo “virtuoso”: nas ocor-
mortífero voo de combate. Um voo re- queda (com perda total) de uma aero- rências aeronáuticas, falharam os pre-
alizado com sucesso significa, pois, nave que o recepcionava, recolheu-se, ceitos de Prevenção de Acidentes;
que todas as etapas que o compõem em sofrimento, para não mais partici- quando adequadamente investigada a
Operações exigentes requerem soluções de treinamento exigentes.
foram cumpridas com adequada per- par da vida nacional! ocorrência, e corretamente difundidos A AgustaWestland provê soluções de instrução integrada de alta
feição! Quando existem ou ocorrem falhas os achados, tudo isso realimenta a Se- qualidade e ótimo custo para seus operadores de helicópteros em
Qualquer falha existente em qual- em qualquer dos estágios da atividade gurança de Voo. Neste início de Século
quer etapa do planejamento, da cons- aeronáutica, estas se podem organizar XXI, parece utópica a pretensão.
todo o mundo. Juntos, o melhor em treinamento leva ao melhor em
trução, da manutenção ou da operação em verdadeiras cadeias de eventos ca- O surgimento da ICAO, a adesão desempenho.
de uma aeronave em voo; na infraes- pazes de gerar uma ocorrência aero- maciça dos países-membros – inclusi- AW119Ke, o Helicóptero de Instrução por excelência !
trutura aeronáutica ou no suporte ao náutica. ve do Brasil – e os trabalhos que lá se
voo; ou, ainda, qualquer improprieda- Sustentar perdas; por quê? Nin- realizam, apontam importante com-
de nos aspectos físicos ou mentais de guém quer perdas! promisso com a Segurança de Voo na
qualquer tripulante pode, eventual- A aviação militar vê as perdas de Aviação Comercial. Mas isto é assunto LEADING THE FUTURE
mente, participar de uma cadeia de forma diversa de como as vê a aviação para outro texto em outra data... q
eventos capaz de conduzir o voo a um comercial. Isto é lógico. O calo dói em agustawestland.com
final menos que feliz. A fortuna aponta cada uma conforme sua ótica própria Gustavo Adolfo Franco Ferreira é tenen-
na direção mais favorável! da atividade aeronáutica. Não obstan- te-coronel aviador reformado da FAB. É
Vez por outra, algo não vai bem: ou te, em ambas é sempre possível extrair especialista em Segurança de Voo.

12 Forças de Defesa www.aereo.jor.br www.naval.com.br Forças de Defesa 13


PODER NAVAL LOGÍSTICA

Selecionando o futuro
Navio de Apoio Logístico
da Marinha do Brasil

DCNS
QQ Alexandre Galante
alexgalante@fordefesa.com.br QQ Concepção artística do
projeto BRAVE LSV da DCNS

N
o exato momento em que oferecido à Marinha do Brasil,
adentrando a Baía de
você leitor está começando
Guanabara
a ler este texto, Forças de
Paz do Brasil estão atuando no Haiti e
no Líbano.
Nestas duas regiões distantes, os
militares brasileiros precisam receber
periodicamente mantimentos, equipa-
mentos e cargas que são vitais para o
sucesso de suas missões. Esse apoio
logístico é feito principalmente por na-
vios da Marinha do Brasil.
Nos próximos anos, essas missões
deverão tornar-se mais frequentes, de que compreende quase 4,5 milhões de nha realizar ações de presença para
acordo com a vontade política do País de km², correspondendo a 52% do territó- dissuadir possíveis ameaças.
ser um “player” com participação cada rio nacional. Essas ações compreendem missões
vez maior no cenário internacional, vi- Nessa área existem inúmeros inte- de patrulha marítima e operações na-
sando ocupar um assento permanente resses econômicos e estratégicos para vais, que empregam navios de guerra Situação atual líquidos e possuem muitas limitações, Seis estaleiros estrangeiros fize-
no Conselho de Segurança da ONU o País, cuja proteção demanda um Po- da Esquadra. Para manter esses na- A Marinha do Brasil possui atual- além da idade avançada do Marajó. ram suas ofertas de projetos de navios
(Organização das Nações Unidas). der Naval forte. vios por mais tempo no mar e em regi- mente apenas dois navios-tanque, o No Programa de Obtenção de Na- de apoio logístico para o PROSUPER,
Além de ter que apoiar missões de O almirantado brasileiro tem enfa- ões mais distantes, é necessário dispor NT Gastão Motta (G23) e o NT Marajó vios de Superfície (PROSUPER) a Ma- dentre os quais a DCNS francesa e a
paz em regiões longínquas, a Marinha tizado que a fronteira marítima do de plataformas de apoio logístico que (G27), este último passando por um rinha planeja adquirir, além de novas Navantia espanhola.
tem uma imensa área marítima no Brasil não pode ser demarcada fisica- possam transferir suprimentos, com- longo período de reparos para aumen- fragatas e navios-patrulha oceânicos, Nas próximas páginas estão apre-
Atlântico Sul sob sua responsabilida- mente, já que são linhas imaginárias bustível e munição às unidades de pa- tar mais uma vez sua vida útil. um navio de apoio logístico de cerca de sentadas as propostas destes dois fa-
de, batizada como “Amazônia Azul” e sobre o mar, cabendo portanto à Mari- trulha e de combate. Mas esses navios só transportam 20.000 toneladas. bricantes, com suas características.

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Forças deDefesa
Defesa www.naval.com.br
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www.naval.com.br Forças
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deDefesa
Defesa 15
15
PODER NAVAL
Como resultado desse estudo, as DCNS

Um navio de apoio de nova geração da DCNS Forças Armadas e a DGA concluíram


que a solução mais econômica, seguin-
do critérios operacionais e de aquisi-
Em dezembro de 2010, durante a do com estudos da DCNS, quatro na- para missões humanitárias. ção, seria a compra de uma frota ho-
“Afloat Support and Naval Logistics vios BRAVE permitiriam à Marinha Todas as marinhas precisam levar mogênea com características versáteis.
conference”, a DCNS apresentou a Francesa reduzir sua frota de apoio e cargas mais pesadas para locais dis- A primeira unidade da classe está
nova geração BRAVE (Bâtiment equipes em 50%, aumentando a carga tantes mais rapidamente, reduzindo prevista para entrar em serviço em
RAVitailleur d’Escadre) de navios- total em 30% e reduzindo custos ope- os riscos associados ao reabastecimen- 2017.
-tanque e de apoio logístico, em desen- racionais. to em alto-mar. Esta é precisamente a
volvimento para a Marinha Francesa O conceito BRAVE foi projetado razão pela qual o projeto BRAVE apre- O projeto
e clientes internacionais. desde o início com os clientes inter- senta duas plataformas mistas, cada O navio BRAVE é dividido em três
O conceito atraiu atenção considerá- nacionais em mente. O projeto bási- uma projetada para lidar com ambos áreas:
vel, pois o reabastecimento em alto-mar co pode ser adaptado para produzir os combustíveis e carga seca. QQ Área da proa, para apoio aos tri-
é a chave para o apoio logístico naval. versões com um comprimento total No final de 2006 a DCNS realizou pulantes, incluindo acomodações a
O conceito multiuso BRAVE serve variando de 165-195 metros. Volu- um estudo detalhado para as Forças sistemas correlatos, com capacida-
para as missões atualmente desempe- mes de bordo e as áreas também po- Armadas Francesas e a Agência de de para receber o “staff” de um Co-
nhadas por até três tipos de navios da dem ser facilmente adaptadas para Aquisições DGA, visando substituir mando de Força no mar e tropas,
Marinha Francesa. Estes incluem o aumentar a capacidade do tanque ou seus velhos navios-tanque (AOR) com permitindo o acondicionamento de
reabastecimento de produtos secos, acomodar uma equipe de comando navios de apoio logístico multipropósi- contêineres.
munições e combustíveis, juntamente da Força Naval, tropas, equipamen- to, juntamente com a reestruturação QQ Área Central de Reabasteci-
com a manutenção e reparos. De acor- tos e leitos hospitalares adicionais de sua frota logística. mento, com os tanques líquidos e

QQ Nas imagens acima, as vistas de popa, proa e


longitudinal do BRAVE LSV, proposto à Marinha do Brasil.
O navio multipropósito é capaz de preencher todos os
requisitos para missões de um Navio de Apoio Logístico e
de Comando. Abaixo, uma concepção do NApLog “Ilha
Grande”, feita pelo artista digital José da Silva e baseada
nas linhas do BRAVE LSV. O nome é uma homenagem do
artista a um navio-tanque que operou na Marinha do
Brasil entre 1948 e 1959. O indicativo visual G41
também é uma suposição

José da Silva
shipbuildingbr@gmail.com

16 Forças de Defesa www.naval.com.br www.naval.com.br Forças de Defesa 17


DCNS
BRAVE LSV para a MB
Principais características
QQ Comp. Total 198,6m
QQ Boca total 28m
QQ Calado carregado 7,6m
QQ Deslocamento 26.480t
carregado
QQ Deadweigth 12.830t
QQ Velocidade Máx. 20 nós
QQ Propulsão Diesel, 28MW
QQ Alcance a 14 nós 10.000 milhas
todas as
plataformas de QQ Bow thrusters 2x750kW
reabastecimento no QQ Persistência 30 dias
mar e que pode ser estendi- (210 pessoas)
da, através de “jumborização”, QQ Helicópteros 2 spots (10t+5t)
para adaptar as capacidades ao ta-
Hangar 2 helis (2x10t)
manho e missões da frota a ser su-
QQ

portada. QQ Tripulação 160 pessoas


QQ Área da popa, que tem outras QQ Passageiros 50 pessoas
funções de apoio (oficinas, acondi-
cionamento, veículos, etc.) e ade-
quada para receber módulos O projeto adaptado pela DCNS ção foi dada à capacidade UNREP (Un-
adicionais. atende totalmente aos requisitos da derway Replenishment - reabasteci-
Marinha do Brasil, segundo a empresa. mento em movimento) para garantir a
Otimizado para a Marinha do O navio ainda atende aos requisi- eficiência e rapidez nas transferências
Brasil tos MARPOL (Marine Pollution) de em alto-mar.
Como consequência, o BRAVE LSV navios-tanque de casco duplo, tem um
(Logistic Support Vessel) proposto à sistema eficiente de controle de ava-
Marinha do Brasil foi projetado como rias e pode operar com dois helicópte- QQ A área da proa destina-
um navio multipropósito, capaz de ros orgânicos, podendo receber no con- se aos tripulantes e inclui
preencher todos os requisitos para voo um helicóptero pesado de até 33 acomodações e sistemas
missões de um Navio de Apoio Logísti- toneladas (porte do Super Stallion). para receber o “staff” de
co e de Comando requeridos por uma O BRAVE também oferece capaci- um Comando de Força no
Força-Tarefa: dade suplementar para Forças Espe- mar e tropas; pode também
QQ Transferência de todos os tipos de ciais, pessoal de quartel-general (para receber contêineres com
diversos equipamentos
líquidos (Diesel, Óleo, JP5, água, desdobramento ou projeção de
etc.) e cargas sólidas (alimentos, força) e pessoal civil em
munição, peças de reposição, lixo, caso de evacuação e
etc.) em apoio a forças aeromarí- operações de ajuda
timas desdobradas no mar. humanitária.
QQ Garantir apoio logístico para Considerável aten-
níveis de manutenção
mais elevados.
QQ Hospedar uma equipe
de Comando no mar.

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18 Forçasde
Forças deDefesa
Defesa www.naval.com.br
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PODER NAVAL LOGÍSTICA
DCNS

QQ Uma possível visão do futuro no Atlântico Sul?


Nesta concepção em 3D publicada aqui pela primeira
vez, o BRAVE LSV aparece reabastecendo uma
fragata FREMM e um navio-aeródromo.
Assim como o primeiro, os dois outros também são
projetos propostos pela DCNS à Marinha do Brasil,
um para o PROSUPER e outro para o PRONAE

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Forças deDefesa
Defesa www.naval.com.br
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www.naval.com.br Forças
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deDefesa
Defesa 21
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PODER NAVAL LOGÍSTICA

Navantia
QQ O BAC Cantabria tem um “dead
weight” de 9.800 toneladas, 174m de
comprimento e desloca 19.600t, o que o
torna o segundo maior navio da Armada
Espanhola depois do LHD Juan Carlos I.

O
Na foto, o navio é visto navegando ao lado
documento de Revisão Es-
de uma fragata classe “Santa Maria”
tratégica de Defesa da Es- (versão da classe “Oliver Hazard Perry”
panha definiu a necessidade norte-americana)
de aproveitar o apoio logístico opera-
cional da Armada de tal forma que
permitisse às Forças Armadas ter um
caráter expedicionário. O apoio logísti-
co operacional é um requisito impor-
tante da Armada Espanhola, como
base da capacidade de projeção de po-
der que possibilita operações sustenta-
das em cenários distantes. Em grande
medida, oferece uma das característi-
cas intrínsecas de uma força naval, ou
seja, a logística autossuficiente. O
BAC (Buque de Aprovisionamiento en
Combate) foi projetado com a capaci-
dade de cumprir esses requisitos, para
fornecer o apoio logístico operacional
aos demais navios de uma força naval
e também de participar de operações
ecológicas e humanitárias.
No início de 2005, o Governo Es-
panhol deu aprovação definitiva para
o contrato de construção de um novo

BAC ‘Cantabria’: a proposta da


Navantia para o NApLog da Marinha
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Forças deDefesa
Defesa www.naval.com.br
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deDefesa
Defesa 23
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PODER NAVAL LOGÍSTICA
Fotos: Navantia
torna o segundo maior navio da Arma-
QQ O Cantabria é equipado da Espanhola depois do LHD Juan QQ Segundo a Navantia, o Cantabria
com convoo e hangar para a Carlos I. Ele pode manter uma veloci- pode reabastecer três navios
operação de helicópteros dade de 20 nós e tem autonomia de simultaneamente
médios e pesados 6.000 milhas navegando a 13 nós (ve-
locidade econômica). É equipado com
convoo e hangar para a operação de
helicópteros médios e pesados.
O navio tem cinco estações de rea-
bastecimento (uma na popa) que po-
dem suprir 8.000 metros cúbicos de
combustível naval e 1.500 metros cúbi-
cos de combustível de aviação, bem
como munição, peças de reposição e
alimentos para uma força no mar. O
Cantabria pode reabastecer três na-
vios simultaneamente.
As instalações hospitalares ofere-
cem 10 leitos e um centro cirúrgico
equipado com sistema de videoconfe- “Platform Control System” projetado logicamente respeitoso (“Navio Ver-
rência para telemedicina, além de sala pela Navantia, que tem alto grau de de”), obedece a todas as convenções
de raio-X, serviço dental, laboratório automatização e, por isso, reduz o ta- internacionais e leis a este respeito.
de esterilização, sala de consultas e manho da tripulação. Cumprindo com os mais rigorosos
centro de gás. O navio também foi pro- Houve muito cuidado em relação às padrões internacionais de preservação
jetado para operações de defesa am- acomodações da tripulação, combinan- do ambiente marinho, incluindo a co-
biental e é equipado para fazer frente do conforto e ergonomia. De um total nhecida Convenção MARPOL propos-
ao risco de acidentes navais. de 122 tripulantes, metade pode ser de ta pela Organização Marítima Inter-
Um sistema de combate espanhol mulheres. nacional para os navios petroleiros
no estado-da-arte permite ao navio O novo navio é equipado com casco civis, tem um sistema abrangente
operar com parte de uma Força-Tare- duplo para cumprir a legislação relati- para lidar com os resíduos gerados, se-
fa. O Cantabria tem integrado o va a petroleiros. Esse casco duplo eco- gundo a Navantia.q

BAC, no valor de 213 milhões de eu-


ros. O Cantabria, uma versão am- QQ O navio tem cinco
pliada de 19.500t da classe “Patino” estações de reabastecimento
de reabastecimento, foi construído (uma na popa) que podem
pela Navantia em seu estaleiro em suprir 8.000 metros cúbicos
Porto Real (Cadiz). Ele forneceu aos de combustível naval e 1.500
estaleiros Navantia 475 empregos metros cúbicos de
por ano. combustível de aviação
A quilha foi batida em 18 de julho
de 2007. Em 21 de julho de 2008 o
BAC Cantabria foi lançado ao mar,
sendo entregue à Armada Espanhola
em 29 de julho de 2010.
A primeira série de testes foi reali-
zada de 5 a 9 de outubro de 2009, a
qual verificou as máquinas e as insta-
lações elétricas, sistemas de combate,
comunicações, radar e amarração,
bem como o sistema de abastecimento
no mar.
Os últimos testes de mar ocorre-
ram de 28 de novembro até 2 de de-
zembro de 2009.
A Navantia indicou que todos os
testes foram bem-sucedidos e que o
cliente, a Armada Espanhola, ficou sa-
tisfeito com os resultados obtidos e as
capacidades demonstradas pelo navio.
O BAC Cantabria tem um “dead
weight” de 9.800 toneladas, 174m de
comprimento e desloca 19.600t, o que o

24 Forças de Defesa www.naval.com.br www.naval.com.br Forças de Defesa 25


PODER NAVAL DESTAQUE
Fotos: Divulgação ComForSup

QQ Fotos da saída da
fragata Liberal no dia 10
de abril. Observar as
metralhadoras instaladas
no alto do hangar e no
convés do BOROC, como
contramedida a ameaças
assimétricas

Fragata ‘Liberal’ parte para


operação de paz no Líbano
N
o dia 10 de abril, a Mari- A fragata Liberal vai substituir o ganização das Nações Unidas (ONU)
nha do Brasil, através do outro navio da Marinha do Brasil, a em 1978, destina-se a contribuir com a
Comando da Força de Su- fragata União (F-45), que se encontra segurança no território libanês impe-
perfície e do 1º Esquadrão de Escol- em missão no Líbano desde novembro dindo, por exemplo, a entrada de ar-
tas, enviou a fragata Liberal (F-43), de 2011 na área de Operação. mas ilegais nessa região. A participa-
com uma aeronave, para integrar a O Comandante da Força de Super- ção do Brasil na FTM da UNIFIL,
Força Tarefa-Marítima (FTM) da For- fície, Contra-Almirante Antonio Regi- aprovada pela Câmara dos Deputados
ça Interina das Nações Unidas do Lí- naldo Pontes Lima Junior, destacou em 2010, possibilita à Marinha do
bano (UNIFIL). O navio partiu da que a fragata Liberal, assim como a Brasil atuar com seus meios nesta
Base Naval do Rio de Janeiro com 251 fragata União, é um dos melhores Força-Tarefa.
militares e fará duas escalas até o meios da Força-Tarefa Marítima para Comandada pelo Contra-Almiran-
destino final. A primeira será em Las a operação naquela área. “Essa missão te Wagner Lopes de Moraes Zamith,
Palmas (Espanha) e depois em Taran- possibilita contenção da chegada de da Marinha do Brasil, a FTM-UNI-
to (Itália). A previsão de chegada em armamentos não autorizados pelo Go- FIL conta atualmente com a partici-
Beirute (Líbano) será no dia 15 de verno Libanês e, também, auxilia a pação de nove navios, de seis países,
maio. O término da missão e o retorno Marinha do Líbano no seu preparo incluindo o Brasil. A fragata Liberal
da F-43 está marcado para dezembro para fiscalizar suas águas”. será o navio principal do grupo multi-
de 2012. A UNIFIL, que foi criada pela Or- nacional. q

26 Forças de Defesa www.naval.com.br www.naval.com.br Forças de Defesa 27


PODER NAVAL HISTÓRIA

30 anos da Guerra das Malvinas


As lições do afundamento do cruzador
‘General Belgrano’, do ataque ao destróier
HMS ‘Sheffield’ e a disputa entre o Poder QQ No dia 2 de maio de 1982, por volta
das 18h30, o submarino nuclear

Aéreo argentino e o Poder Naval britânico


britânico HMS Conqueror disparou três
torpedos Mk.8 de tiro reto à proa do
cruzador General Belgrano, à distância
de apenas 1.380 jardas (1.255m),
praticamente à “queima-roupa”. O
primeiro torpedo explodiu na proa do
cruzador, e o segundo próximo à sua
superestrutura. Vinte minutos depois do
ataque, o comandante do cruzador
ordenou à tripulação o abandono do
Armada Argentina

navio, em balsas salva-vidas infláveis, que


aparecem na foto desta página na cor
laranja. Navios argentinos e chilenos
resgataram 770 tripulantes do General
Belgrano do mar, entre os dias 3 e 5 de
maio. Um total de 323 homens pereceu
no ataque, entre eles dois civis

QQ Alexandre Galante caz para cometer erros ainda piores, e nas pela primeira vez, mas acredita-se das britânicas sofriam com as redu- tion” (erro de percepção) nas Relações zona de exclusão marítima.
alexgalante@fordefesa.com.br não faltam exemplos que dariam boas que tenha sido no início do século XVI. ções de gastos, sob o governo de Mar- Internacionais. No mesmo dia, o submarino HMS
“tragédias gregas”. Em vários momentos de sua história garet Thatcher (eleita em 1979). Splendid também recebeu a ordem

S
egundo Tucídides, famoso A Guerra das Malvinas traz exem- houve assentamentos da Espanha, Tinham perdido os projetos de novos A reação britânica inesperada para se deslocar à mesma área de
historiador da Grécia Antiga, plos de erros trágicos cometidos pelos França, Argentina e Grã-Bretanha, esta porta-aviões convencionais e, para ta- Após o desembarque de fuzileiros operações. No dia 4 de abril foi a vez
o registro histórico da Guerra argentinos, e trazemos aqui um resu- última reestabelecendo seu domínio a par a lacuna, a RN (Royal Navy - Ma- navais argentinos na ilha Geórgia do do HMS Conqueror. Em apenas três
do Peloponeso permitiria que os erros mo de eventos-chave daquele conflito partir de 1833. Mas as ilhas continua- rinha Real Britânica) inventou o “Har- Sul no dia 23 de março de 1982, para semanas, o Splendid já estava na cos-
cometidos antes e durante aquele con- de trinta anos atrás. Ações que em ram a ser reivindicadas pelos argenti- rier Carrier”, que possuía capacidades proteger funcionários argentinos e a ta argentina caçando o porta-aviões
flito fossem evitados no futuro. grande parte determinaram a derrota nos. mais modestas e sofria falta de credi- mobilização naval para a “Operação 25 de Mayo, da Armada Argentina
É certo que historiadores atuais das forças argentinas, e que podem ser Em 1982, a Junta Militar Argenti- bilidade por ser uma novidade. Além Rosário”, veio a reação do Reino Uni- (ARA).
veem uma falha na afirmação de Tucí- analisadas para tirar algumas lições na resolveu invadir as ilhas, numa disso, iniciou-se uma redução da frota do: inicialmente, foi enviado de Port
dides: os contextos históricos mudam, do passado. Se essas lições continuam tentativa de desviar a atenção da po- de superfície da RN como medida de Stanley o navio quebra-gelo HMS Mobilização da Frota Real
e querer aplicar uma solução do passa- válidas para as decisões do presente e pulação dos graves problemas econô- economia. Endurance, com uma força de fuzi- No dia 5 de abril de 1982, dezenas
do em conflitos do presente (ou do fu- os planos para o futuro, cabe aos novos micos e políticos, já que a posse das A aparente fragilidade das forças leiros navais britânicos para a base de navios britânicos foram mobiliza-
turo), buscando um acerto, pode até estrategistas analisarem. Mas não se Malvinas era uma questão de honra e britânicas levou a Argentina a decidir de Grytviken, Geórgia do Sul. dos às pressas e começaram a zarpar
levar a novos erros se essas mudanças pode cometer o erro de esquecê-las. orgulho nacional desde a década de pela invasão das Falklands em 1982, O Governo Thatcher também orde- de Portsmouth, Southampton, Devon-
não forem levadas em conta. A Histó- 1940, tempo em que surgiu a frase esperando contar com a passividade nou que o submarino nuclear de ata- port, Rosyth, Marchwood, Gibraltar e
ria não se repete, mas o historiador Antecedentes “Las Malvinas son argentinas”, cunha- do Governo de Thatcher. Mais tarde, que HMS Spartan partisse rumo às Plymouth, rumo às ilhas Malvinas,
grego tinha razão num ponto: ignorar Há controvérsias sobre quem real- da por Perón. a decisão argentina viria a ser estu- Ilhas Falklands no dia 1º de abril, a distantes mais de 7.100 milhas
as lições do passado é um caminho efi- mente avistou as ilhas Falklands/Malvi- Ao mesmo tempo, as Forças Arma- dada como um caso de “mispercep- fim de estabelecer mais tarde uma (13.000km).

28 Forças
Forças de
de Defesa
Defesa www.naval.com.br
www.naval.com.br www.naval.com.br
www.naval.com.br Forças de Defesa 29
29
PODER NAVAL HISTÓRIA
Fotos: MoD UK

QQ O HMS Hermes foi o QQ A Royal Navy realizou


capitânia da Força-Tarefa um enorme esforço
britânica responsável pela logístico para conseguir
retomada das Ilhas Malvinas alcançar as Ilhas Falklands
e necessitou de constantes
reabastecimentos em
alto-mar

Os porta-aviões HMS Hermes e ARA suas escoltas Tipo 42, o Santísima Tri-
HMS Invincible, equipados com 20 ja- nidad e o Hércules. O almirante Woo-
tos Sea Harrier STOVL (12 no primei- dward sabia que o porta-aviões 25 de
ro e 8 no segundo) dos esquadrões 800, Mayo levava 10 jatos Skyhawk capa-
801 e 899, lideravam a Força-Tarefa, zes de atacar com 3 bombas de 500kg
composta de 23 destróieres e fragatas. cada, o que significava um possível
Os navios de apoio da RFA (Royal ataque de 30 bombas à FT britânica,
Fleet Auxiliary) totalizaram 22 unida- logo após o amanhecer. E ainda havia
des e, até o fim da campanha, a Mari- o temor de que os jatos Super Éten-
nha Mercante enviou para o Atlântico dard também pudessem decolar do 25
Sul 40 navios de apoio para a frota bri- de Mayo, armados com Exocets.
tânica. Sem o apoio da RFA e dos na- Para piorar a situação, a 200 mi-
vios mercantes a campanha não seria lhas ao sul das Malvinas estavam à
possível. espreita o cruzador ARA General Bel-
Também estavam a bordo dos na- QQ Os modernos destróieres Tipo 42 da Royal Navy garantiam a defesa antiaérea de QQ O destróier ARA Hipólito Bourchard era um dos navios veteranos da Segunda grano e duas escoltas, que poderiam
vios da Força-Tarefa (FT) britânica 54 longo alcance para as forças navais britânicas, graças aos seus mísseis antiaéreos Sea Guerra Mundial, transferidos da US Navy, que escoltavam o cruzador ARA General chegar em poucas horas à distância de
helicópteros Sea King, Wessex, Lynx, Dart. Apesar da sofisticação, dois navios da classe foram afundados por aeronaves Belgrano quando foi atacado. Na foto, pode-se ver à meia-nau os contêineres de tiro de seus Exocet contra a FT britâ-
Wasp e Gazelle. No mesmo dia, dois argentinas: o HMS Sheffield com um míssil Exocet e o HMS Conventry com bombas mísseis antinavio MM-38 Exocet, que ofereciam perigo aos navios ingleses nica.
aviões de patrulha marítima Nimrod O cruzador General Belgrano era o
se deslocaram de St. Mawgan para a a desistência dos britânicos infligindo centemente dois destróieres antiaére- abril), já havia entrado na Zona de Ex- Um jato Sea Harrier foi despacha- ex-USS Phoenix da classe “Brooklin”,
Base de Widewake, na Ilha de Ascen- pesadas baixas. os Tipo 42 de projeto inglês (da mesma clusão (imposta à Argentina pelo Rei- do para a marcação do contato, a fim de 13.500t de deslocamento. Estava
são, via Lagos, nos Açores. Embora o programa de reaparelha- classe do HMS Sheffield, que seria no Unido) de 200 milhas em torno das de investigar. O piloto da aeronave armado com 15 canhões de 6 polega-
mento da Armada Argentina não esti- atingido no conflito por um AM-39 ar- ilhas. A FT estava em algum ponto a mais tarde informou que, durante o das e oito de 5 polegadas, todos de cali-
Em postos de combate vesse concluído, as corvetas A69 equi- gentino), também armados com o Exo- nordeste das Malvinas (ver mapa na voo, seu RWR (Receptor de Alerta Ra- bre maior que o dos canhões da frota
Com o envio da frota britânica e o padas com mísseis antinavio Exocet cet MM-38. O míssil também tinha página 35). dar) registrou que seu caça foi ilumi- inglesa. O navio teve sua construção
fracasso das negociações diplomáticas, MM-38 já haviam sido incorporadas sido instalado em antigos destróieres Às 3h20 da manhã, o almirante nado por um radar de direção de tiro, iniciada em 1935 e lançamento em
as frotas do Reino Unido e da Argenti- em 1978. Na Aviação Naval, a entrega recebidos usados da Marinha dos EUA Woodward, comandante da FT britâ- Tipo 909, que equipava os destróieres 1938. Ele escapou do ataque japonês a
na foram colocadas no teatro de opera- dos jatos franceses Super Étendard es- (USN). nica, foi acordado por seu staff com o Tipo 42 argentinos. Pearl Harbor em 1941 e foi descomis-
ções para a disputa. De um lado, os tava sendo finalizada. Os Super Éten- No dia 2 de maio de 1982, a Frota aviso de que um avião S-2 Tracker ar- Desta forma, confirmou-se que a sionado em 1946, sendo transferido à
ingleses planejavam o desembarque dard eram armados com o AM-39, ver- Britânica enviada pelo Reino Unido gentino tinha iluminado a frota ingle- cerca de 200 milhas de distância da FT Argentina em 1951.
anfíbio para retomada das ilhas e do são do Exocet lançada de aeronaves. para recuperar as Falklands (invadi- sa com o radar de busca e que os inimi- britânica estavam presentes o porta- Além dos canhões, o General Bel-
outro, os argentinos pretendiam forçar A Armada havia incorporado re- das por forças argentinas em 2 de gos agora sabiam sua posição. -aviões argentino ARA 25 de Mayo e grano também tinha recebido lançado-

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PODER NAVAL
ARA ARA
QQ Capitânia da Armada Argentina, o ARA
QQ Orgulho da Armada Argentina e 25 de Mayo era equipado com jatos A-4Q
símbolo de Poder Naval, o ARA General Skyhawk e estava sendo preparado para
Belgrano tinha sido modernizado com operar jatos franceses Super Étendard.
novos sistemas eletrônicos e mísseis Com problemas na propulsão, o navio não
Seacat e MM-38 Exocet (embora conseguiu gerar vento relativo suficiente
algumas fontes discordem quanto a no convoo para lançar seus aviões no
este último). Segundo o almirante momento decisivo
Woodward, o navio oferecia perigo real
à Força-Tarefa britânica

MoD UK ARA
res de mísseis Exocet MM38, assim pedido enviado à Inglaterra por satéli- 13h30, o Conqueror recebeu o sinal de a fio. Por precaução, os tubos estavam
como suas escoltas (embora haja infor- te iria demorar muito, o que poderia mudança de ROE vindo da Inglaterra. carregados com 3 torpedos Mk.8 e 3
mações de que os lançadores do cruza- fazer com que o submarino perdesse O Comandante do submarino, Mk.24. Os torpedos foram disparados
dor fossem maquetes, destinadas a contato com seu alvo. Christopher Wreford-Brown, comen- à proa do cruzador, para que encon-
enganar o inimigo sobre suas reais ca- Assim, Woodward ordenou o ata- tou mais tarde suas impressões sobre trassem o navio numa posição futura.
pacidades). que enviando a seguinte mensagem ao a navegação tática do cruzador: Segundo o comandante do Conque-
O Almirante Britânico concluiu submarino: “From CTG (Commander “O comandante do navio, capitão ror, os disparos dos torpedos foram
que o 25 de Mayo e o General Belgra- Task Group) 317.8 to Conqueror, text Hector Bonzo, parecia não estar nem feitos à “queima-roupa”, numa dis-
no estavam fazendo um movimento prority flash - attack Belgrano group.” um pouco preocupado em ser alvo na- tância de 1.380 jardas (1.255m), com
em pinça e que um dos dois precisava Ao mesmo tempo, solicitou permissão quele momento”. O cruzador navegava os operadores de sonar do submarino
ser eliminado. O submarino nuclear da revisão da ROE, esperando que ela a 13 nós, com sua escolta de destróie- ouvindo bem alto o característico som
HMS Conqueror, comandado por fosse atendida, pela emergência da si- res mais à frente, num leve zigueza- dos hélices do cruzador, algo parecido
Christopher Wreford-Brown, estava tuação. gue. O comandante do navio argentino com “Chuff-chuff-chuff… chuff-chuff-
acompanhando o cruzador argentino O Grupo-Tarefa (GT) do General não era submarinista e parecia conhe- -chuff…”.
de perto há dois dias. Já outro subma- Belgrano estava navegando a 13 nós, cer pouco de submarinos, principal- Após 55 segundos do disparo ini-
rino britânico, o HMS Spartan, ainda acompanhado pelo Conqueror, que fa- mente os nucleares. Se conhecesse, cial, o primeiro torpedo explodiu na
não tinha encontrado o 25 de Mayo. zia perseguição padrão “sprint-and- estaria navegando em velocidade bem proa do cruzador, no ponto após a ân-
Como a posição do navio-aeródromo -drift”, que consiste em navegar em mais alta, com os navios-escolta lado a cora e antes da primeira torreta. A
argentino não era conhecida, o cruza- grande profundidade a 18 nós por 15 lado protegendo seu costado e fazendo proa foi arrancada pela explosão,
dor foi o alvo escolhido. ou 20 minutos, subindo depois para a um ziguezague mais agressivo, para sendo vista pelo periscópio pelo co-
O Conqueror descobriu um navio- cota periscópica, navegando a 5 nós, a evitar possíveis torpedos. Para com- mandante Christopher, que ficou
-tanque argentino e o acompanhou até fim de atualizar a posição do alvo pelo pletar, os escoltas do General Belgrano abismado.
o ponto de encontro com o General Bel- oficial de controle de tiro. Depois, a estavam navegando com os sonares Logo veio a explosão do segundo
grano, chegando a assistir à operação perseguição recomeçava. ativos desligados.” torpedo, que atingiu o navio próximo à
de reabastecimento. As ROE (Regras O temor de Woodward e do coman- Às18h30, o HMS Conqueror apro- sua superestrutura.
de Engajamento) não permitiam ao dante do submarino era o cruzador ru- ximou-se do General Belgrano em alta O terceiro torpedo acabou errando
submarino britânico disparar contra o mar para o banco Burdwood, uma ele- velocidade por bombordo, passando o cruzador e explodiu, por acionamen-
cruzador argentino naquele momento, vação no fundo do mar que obrigaria o por baixo de seu alvo e subindo para a to da espoleta de proximidade, perto
pois o mesmo se encontrava fora da submarino a navegar numa profundi- cota periscópica por boreste, a fim de da popa do destróier argentino ARA
Zona de Exclusão imposta pelos pró- dade menor e perder o contato com seu conseguir uma boa solução de tiro. Bouchard, sem maiores danos. Vinte
prios ingleses. alvo. Por isso a pressa em tomar logo a O comandante Christopher já ti- minutos depois do ataque, o coman-
O almirante Woodward precisava iniciativa de atacá-lo, enquanto havia nha se decidido em usar velhos torpe- dante do General Belgrano ordenou à
pedir ao Comandante-em-Chefe na In- contato. dos de tiro reto Mk.8 da Segunda tripulação o abandono do navio, o que
QQ O submarino nuclear HMS Conqueror QQ Os Grumman S-2 Tracker do Grupo
ao retornar à Inglaterra hasteou a
glaterra para alterar as ROE e orde- Às 08h10 do dia 2 de maio, o GT do Guerra Mundial, pois levavam maior foi feito sem pânico, em balsas salva- Aéreo do ARA 25 de Mayo conseguiram
bandeira “Jolly Roger” comemorando o nar ao Conqueror que atacasse o Gene- General Belgrano mudou de curso, carga explosiva e eram mais confiáveis -vidas infláveis. localizar os porta-aviões ingleses nos
afundamento do cruzador Belgrano ral Belgrano imediatamente. Mas o agora rumando para o continente. Às que os novos Tigerfish Mk.24, guiados Como estava escuro, os escoltas do dias 1º e 2 de maio de 1982

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PODER NAVAL HISTÓRIA
CC Phillipi

Forças de Defesa

QQ Pilotos e mecânicos da 3ª Escuadrilla de Caza y Ataque preparando os aviões A-4Q Skyhawk para bombardear a frota inglesa
no dia 2 de maio de 1982, com bombas “endereçadas” ao HMS Invincible. O ataque acabou sendo abortado por falta de vento

cruzador não sabiam ainda o que havia Reino Unido para retomar as Malvi- tânica era 49°34′ latitude sul e 57°10′
acontecido, pois este ficou sem rádio nas, a Armada Argentina colocou a FT longitude oeste, portanto entre 200 e
após o ataque. Quando perceberam o 79 no mar (divida em três GTs) para 300 milhas de distância do ARA 25 de
ocorrido, tentaram inutilmente o lança- tentar impedi-la: o GT 79.1, capitanea- Mayo. Por todo o dia 1º de maio o almi-
mento de cargas de profundidade. do pelo 25 de Mayo, escoltado por um rante Allara navegou em direção à FT
Navios argentinos e chilenos resga- destróier antiaéreo Tipo 42 (o Santísi- britânica para encurtar mais a distân-
taram do mar 770 tripulantes do Gene- ma Trinidad), o GT 79.2, composto pelo cia. O contato foi retomado por outro
ral Belgrano, entre os dias 3 e 5 de destróier classe “Gearing” FRAM II Co- S-2E às 23h00.
maio. Um total de 323 homens pereceu modoro Py, três corvetas A69 e o des- De fato, o almirante Sandy Woo-
no ataque, entre eles dois civis. tróier antiaéreo Tipo 42 Hércules, mais dward, comandante da FT britânica,
o GT 79.3, composto pelo cruzador Ge- conta no seu livro “One hundred days”
O ‘25 de Mayo’ neral Belgrano e dois destróieres classe que, na madrugada do dia 2 de maio
O porta-aviões ARA 25 de Mayo, “Allen M. Sumner”, o Piedrabuena e o de 1982, foi acordado pelo centro de
ex-HNLMS Karel Doorman, era o ca- Hipólito Bouchard. A FT argentina era operações do HMS Hermes com o aler-
pitânia da Armada Argentina na comandada pelo almirante Gualter ta que já descrevemos mais acima: sua
Guerra das Malvinas, em 1982. O 25 Allara, a bordo do 25 de Mayo. FT tinha sido iluminada pelo radar de
de Mayo era da mesma classe (“Colos- Na manhã do dia 1º de maio, a con- um S-2E Tracker argentino. Era justa-
sus”) que o brasileiro NAeL Minas Ge- figuração dos GTs já estava alterada mente uma aeronave do 25 de Mayo,
rais, voltado à guerra antissubmarino. conforme o mapa ao lado. Allara foi como as da foto da página anterior.
Porém, o argentino era empregado avisado pelo Alto Comando argentino Naquele momento, os argentinos
como um navio-aeródromo de ataque, que os ingleses haviam atacado as estavam em vantagem tática, pois sa-
equipado com jatos A-4Q Skyhawk. ilhas Malvinas. Os GTs 79.1 e 79.2 na- biam a posição exata da FT britânica,
A atuação do 25 de Mayo no conflito vegaram no rumo leste-sudoeste en- que estava a cerca de 200 milhas de
não é muito divulgada, e poucos sabem quanto as aeronaves S-2E Tracker distância. O trabalho de tentar locali-
que o navio e seu grupo aéreo embarca- procuravam a FT britânica. zar os navios de Woodward foi feito
do estiveram bem perto de mudar o Às 15h30 um S-2E enviou pelo rá- com muita competência pelos S-2E ar-
rumo da guerra, no que teria sido o pri- dio a seguinte mensagem: “Um alvo gentinos, que voavam “colados” no
meiro combate travado entre porta-avi- grande e seis alvos de tamanho médio mar para evitar a detecção radar e fa-
ões desde a Segunda Guerra Mundial. na marcação 031 distantes 120 milhas ziam periodicamente “pop-ups” (bre-
Quando a frota britânica deixou o de Port Stanley”. A posição da FT bri- ves subidas) para fazer algumas

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PODER NAVAL HISTÓRIA
MoD UK
varreduras de radar, desligando o sen- Isso porque o 25 de Mayo só conse-
sor logo em seguida para minimizar o guia fazer 20 nós, velocidade insufi-
QQ O HMS Sheffield fotografado
risco de detecção pelos sistemas MAGE ciente, no caso de ausência de vento
logo após o impacto do míssil
(ECM) ingleses, de contramedidas ele- AM-39 Exocet lançado por um real, para que os aviões fossem lança-
trônicas. Super Étendard argentino. O míssil dos com as quatro bombas. A probabi-
Às 10h30 do dia 1º de maio, o almi- não explodiu, mas a queima do lidade de impacto passaria a ser des-
rante Allara recebeu a informação er- combustível residual provocou um prezível, não justificando, assim, o
rada de que os ingleses estariam de- incêndio incontrolável no navio ataque. A missão foi abortada.
sembarcando a sudoeste de Port Outro fator que também somou
Stanley. No mesmo momento ele des- para a decisão de abortar o ataque foi
tacou as corvetas A69 do grupo princi- a perda de contato com a FT britânica,
pal, com o objetivo de atacar os navios pois novos voos dos S-2E Tracker não
ingleses com mísseis MM38. encontraram mais os navios ingleses.
Por sua vez, os britânicos só sa- Coincidentemente, no mesmo dia 2
biam a marcação (direção) de onde vie- de maio ocorreu o afundamento do cru-
ra a aeronave argentina e despacha- zador General Belgrano. Daquele mo-
ram logo um caça Sea Harrier para mento em diante, não se soube mais
investigar. da participação do ARA 25 de Mayo no
O GT do ARA 25 de Mayo estava conflito. O submarino nuclear HMS
navegando a noroeste das ilhas Malvi- Spartan, redesignado para caçar e
nas e a FT britânica estava no nordes- “sombrear” o navio-aeródromo argen-
te. Como mostramos, o Sea Harrier tino, não obteve sucesso em localizá-lo,
britânico enviado para o voo de escla- pois não recebeu a indicação do alvo de
recimento acabou sendo iluminado outras plataformas.
pelo radar de direção de tiro de um
destróier Tipo 42 (ARA Hércules), le- O ataque ao HMS ‘Sheffield’
vando à conclusão, pelos ingleses, de Embora o foco deste texto esteja
que o 25 de Mayo estava nas proximi- nos erros argentinos, também vale a
dades. pena procurar lições na perda britâni-
Mais tarde foi revelado que o Tipo ca que mais chamou a atenção no con-
42 argentino iluminou o Sea Harrier flito, por se tratar de um moderno na-
para alvejá-lo com um míssil Sea Dart, vio de emprego antiaéreo afundado
mas o disparo falhou. Por ironia do justamente após um ataque de uma
destino, o novíssimo navio era de pro- ARA ARA
aeronave – que utilizou também uma
jeto inglês e os argentinos ainda esta- arma no estado-da-arte. Na manhã de
vam aprendendo a operar seu sofisti- 4 de maio de 1982, o destróier Tipo 42
cado sistema antiaéreo. O almirante HMS Sheffield, da RN, foi atingido
Woodward acreditava que os argenti- mortalmente por um míssil AM39
nos estavam preparando um ataque Exocet, disparado por um jato Super
nas primeiras horas da manhã com Étendard da Armada Argentina.
jatos A-4Q Skyhawk contra a sua FT. O navio de escolta britânico atuava
E ele estava certo. como “piquete-radar” e era responsá-
A cerca de 200 milhas dali, técnicos vel pela defesa antiaérea de área de
a bordo do navio-aeródromo argentino unidades maiores da FT britânica,
preparavam os A-4Q com bombas de cujo principal objetivo era a retomada
250kg Snakeye. Na famosa foto mos- das Falklands com um desembarque
trada na página 34, pode-se ver uma anfíbio.
bomba com a inscrição “HMS Invinci- Mesmo sendo equipado com um ra-
ble” prestes a ser instalada num A-4Q QQ À esquerda, o avião de patrulha P-2 Neptune responsável pela detecção e dar de busca aérea de longo alcance e
a bordo do ARA 25 de Mayo. O momen- indicação de alvos para os jatos Super Étendard da Armada Argentina (foto acima), mísseis antiaéreos Sea Dart capazes
to de glória, para o qual os pilotos na- um dos quais disparou o míssil Exocet de fabricação francesa que afundou o destróier de atingir um alvo a pelo menos 20 mi-
vais argentinos tinham treinado tan- HMS Sheffield. O ataque bem-sucedido ao novíssimo destróier antiaéreo colocou em lhas de distância (37km), o Sheffield
to, havia chegado. xeque o estado-da-arte da tecnologia britânica não conseguiu detectar a aproximação
Os oito A-4Q Skyhawk estavam de dois jatos Super Étendard, nem se
preparados, durante o trânsito para a Os aviões de interceptação que do ataque nas primeiras horas do dia 2 ões atacantes apenas 4 conseguiriam a diminuir, coisa rara naquelas latitu- proteger do míssil Exocet. O fantasma
área de operações, da seguinte forma: compunham a PAC poderiam aguar- de maio. Prontificaram-se seis A-4Q lançar suas bombas (16 bombas), com des. Próximo à hora da catapultagem da vulnerabilidade de navios de escol-
2 aviões para Patrulha Área de Com- dar um ataque inimigo em pleno voo armados com 4 bombas MK 82. Seria 25% de probabilidade de impacto. Des- dos jatos para o ataque pela manhã, ta ainda está presente hoje, quase 30
bate (PAC), estacionados no convés de ou prontos para decolar do porta-avi- mantido um avião de reserva e outro tes, esperava-se que somente 2 retor- quando era necessário um vento rela- anos depois daquele ataque, apesar
voo e prontos para decolar em 5 minu- ões, permitindo o engajamento de in- como reabastecedor de combustível. nariam ao 25 de Mayo. A neutraliza- tivo (soma da velocidade do navio na- dos avanços tecnológicos. A causa dis-
tos (Alerta 5); 4 para ataque de super- cursores inimigos antes que estes ata- Pelas contas, percebe-se que foi privi- ção de um porta-aviões britânico vegando contra o vento com a do pró- so é uma limitação natural: a curvatu-
fície, armados com 6 bombas MK 82 de cassem o 25 de Mayo. legiada a missão de ataque em relação justificaria a perda dos 4 Skyhawk. prio vento) de 30 nós de velocidade, ra da Terra.
250kg cada; 1 avião lançador de Diante da informação valiosa obti- à de PAC. O livro “Signals of war”, de La- este diminuiu ainda mais, razão pela Devido a essa curvatura, a partir
“chaff” pronto a decolar em 30 minu- da pelos S-2E Tracker sobre a posição Segundo as tabelas de probabilida- wrence Freedman, registra que ainda qual cada avião poderia decolar com da linha do horizonte forma-se uma
tos; e o oitavo como tanqueiro, para da FT britânica, o “Comandante de la des, nas quais se considerava a defesa na noite de 1° de maio o vento na área apenas uma bomba ou com combustí- zona cega à baixa altura, não atingida
reabastecimento em voo dos demais. Flota de Mar” ordenou o planejamento aérea e antiaérea britânica, dos 6 avi- onde o 25 de Mayo navegava começou vel para alcance de apenas 100 milhas. pelo radar. Assim, o alcance do radar

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PODER NAVAL HISTÓRIA
Reprodução

Reprodução

QQ A fragata Tipo 21 HMS QQ O destróier Tipo 42 HMS


Ardent fotografada logo após Coventry adernado, após ataque
sofrer um ataque com bombas de jatos Skyhawk A-4B do Grupo
em 21 de maio de 1982. O navio 5 da FAA, no dia 25 de maio, data
foi atacado por três levas de nacional da Argentina. O navio foi
aviões argentinos e acabou atingido por três bombas e
afundando no dia seguinte, após acabou afundando devido aos
um longo incêndio danos no casco

FAA
de um navio é limitado no caso de alti-
tudes mais baixas, a partir de uma QQ Foto tirada a partir da fragata Tipo 22 HMS Broadsword,
Reprodução

certa distância. Essa vulnerabilidade no dia 25 de maio de 1982, ao Norte das ilhas Pebble. Os A-4B
também está presente nos radares ter- Skyhawk pilotados pelo capitão Pablo Carballo e tenente
restres e é usada por pilotos de aviões Carlos Rinke do Grupo 5, da V Brigada Aérea, aparecem na
do tráfico de drogas, por exemplo, para imagem voando muito baixo sobre o mar, com a artilharia
escapar à detecção. antiaérea levantando água. A HMS Broadsword foi atingida por
uma bomba que acertou seu helicóptero e atravessou o convoo,
mas não explodiu
Um ataque que contou com a ajuda
da aviação de patrulha
A tática argentina para atingir va-
sos importantes da RN empregava ae-
ronaves de patrulha marítima, como o
P-2 Neptune, que repassavam por rá-
dio os contatos às aeronaves de ataque.
No ataque ao Sheffield, um Neptu-
ne realizou a função de esclarecimento
marítimo, mudando de altitude cons-
tantemente e aproveitando a zona
QQ Em foto histórica, o A-4C “C-313” Skyhawk do Grupo 4 da FAA pilotado pelo
cega dos radares britânicos para efetu- tenente L. Jorge Casco, sendo reabastecido por um KC-130H Hercules. Os aviões do
ar apenas algumas varreduras com Grupo 4 tentaram atacar navios ingleses no dia 9 de maio, mas o tempo ruim
seu radar, a fim de não alertar os siste- interrompeu a missão. O elemento (formação de duas aeronaves) de Casco tentou
mas de MAGE/ECM dos navios britâ- continuar a missão, mas o jato pilotado pelo tenente Jorge Farias (“C-303”)
nicos. desapareceu, e o pilotado por Casco bateu nas falésias da Ilha South Jason
Dois Super Étendard decolaram da
Base Aérea de Rio Grande armados 4.500 metros. Depois, desceram para tro alvo mediano, a 52º48′ sul e 57 º31′
com um Exocet cada, realizando rea- entrar na zona morta dos radares bri- oeste. Ou seja, o último navio estava
bastecimento em voo com um KC-130 tânicos, evitando a detecção. distante dos outros a cerca de 30 mi-
Hercules. A operação foi apoiada por Quando os jatos estavam voando lhas. Os jatos prosseguiram para as
jatos Dagger, realizando PAC a rente ao mar, perto das coordenadas coordenadas, sempre “colados” na
7.000m, armados com mísseis ar-ar, e especificadas pelo Neptune, recebe- água, elevando-se a poucos metros a
um Lear Jet, atuando em missão de ram uma mensagem da aeronave de mais para realizar algumas varredu-
diversão. patrulha, confirmando um grande alvo ras com seu próprio radar de busca, a
Após o reabastecimento, os Super no meio e dois menores nas coordena- fim de localizar os alvos, sem alertar
Étendard continuaram nas coordena- das 52º33′ sul e 57º40′ oeste. Além des- os equipamentos MAGE/ECM britâni-
das dadas pelo Neptune, voando a ses, o patrulheiro informou sobre ou- cos. Ambos os pilotos detectaram um

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MoD UK/ Imperial War Museum alvo grande e três medianos, travaram submarino operando contra a frota Oito bombardeiros Canberra foram
seus Exocet no alvo maior e, quando britânica até o fim do conflito. para a Base de Trelew, juntamente com
estavam a cerca de 50km de distância, Desde meados de abril, aviões jatos Learjet de reconhecimento. Dez
lançaram os mísseis. Boeing 707 da FAA (Força Aérea Ar- IAI Dagger foram para San Julian,
Os britânicos declararam mais tar- gentina) estavam sendo empregados acompanhados de 15 Skyhawk A-4B.
de que os argentinos tinham acertado o em missões de reconhecimento para Rio Gallegos recebeu 24 Skyhawk e 10
Sheffield com o Exocet e um outro mís- tentar localizar os navios britânicos. Mirage IIIEA dos Grupos 5 e 8. Como-
sil tinha passado pela proa da fragata A FAA possuía quase 200 aerona- doro Rivadavia recebeu outros Mirage
Yarmouth. O Exocet, entre suas muitas ves de combate no início do conflito: e Rio Grande recebeu 10 Dagger, além
QQ Em foto representativa da coragem habilidades, pode mudar seu curso, QQ 9 bombardeiros Canberra dos jatos Super Étendard da Marinha e
dos pilotos argentinos, um caça- caso não encontre o alvo e também pos- QQ 19 Mirage IIIEA os A-4Q que desembarcaram do ARA
bombardeiro IAI Dagger passa voando sui uma espoleta de proximidade para QQ 26 Dagger (cópia israelense do Mi- 25 de Mayo.
baixo sobre o RFA Sir Bedivere nas fazê-lo detonar, se passar muito perto rage V) Nos primeiros combates entre jatos
águas do estreito de São Carlos, em 24 de um navio. Estas e outras caracterís- QQ Aproximadamente 68 jatos A-4 argentinos supersônicos (Mirage e
de maio de 1982. A Argentina perdeu ticas do míssil fizeram com que os ar- Skyhawk Dagger) e os subsônicos Sea Harrier
gentinos pensassem ter acertado tam- QQ 45 bimotores turboélice Pucará ingleses, ficou patente a grande supe-
11 jatos do tipo no conflito, a maioria
abatida por caças Sea Harrier bém um outro navio maior, como o O restante da Força Aérea Argenti- rioridade do pequeno caça inglês equi-
porta-aviões HMS Hermes. na era formado por treinadores, trans- pado com mísseis guiados por infra-
portes e helicópteros. vermelho Sidewinder AIM-9L, cedidos
A vez do Poder Aéreo argentino No final de abril de 1982, diversas pelos americanos. Até o final do confli-
Com o afundamento do cruzador unidades da FAA começaram a ser mo- to, os Sea Harrier disparariam 26 mís-
General Belgrano, a Armada Argenti- vimentadas para as bases ao sul do seis Sidewinder, com 18 vitórias, sem
na retirou seus navios do Teatro de país, que ficavam mais próximas das nenhuma perda em combate aéreo. A
Operações e manteve somente um ilhas. grande maioria dos disparos foi em

40 Forças
Forças de
de Defesa
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Reprodução

MoD UK

QQ Os jatos A-4 Skyhawk da


FAA e da ARA são
considerados os cavalos de
batalha argentinos na Guerra
das Malvinas. Foram os aviões
que causaram os maiores
danos aos navios britânicos,
mas ao custo de 22 perdas
(incluindo 3 da ARA)

engajamentos traseiros com alvos que QQ Os jatos ingleses Sea


não manobravam ou nem sabiam que Harrier, de decolagem curta e
estavam sendo atacados. O Sea Har- pouso vertical, dispararam 26
rier acabou sendo batizado pelos ar- mísseis Sidewinder contra
gentinos como “La muerte negra”, por aviões argentinos, com 18
acertos, sem nenhuma perda
causa de sua pintura característica.
em combate aéreo
Com a manutenção da superiorida-
de aérea, os ingleses passaram então a
atacar os aeródromos nas ilhas com
bombardeio naval e aéreo, empregan-
do bombardeiros Vulcan (a partir da
Ilha de Ascensão) e jatos Sea Harrier e seguiu afundar 7 navios britânicos e veis à interceptação dos Sea Harrier. Os são das Malvinas até a véspera. que. Atacaram em pequenas forma- te marítimo, que foi decidido parcial-
Harrier GR3 embarcados. Também avariar (levemente ou seriamente) Mirage e Dagger, por sua vez, só podiam Com a invasão, a FAA ficou com a ções espaçadas, ao invés de grandes mente no primeiro embate de forças
empregaram forças especiais SAS e cerca de 20 unidades. Mas o preço foi realizar PAC na área das ilhas em altitu- maior responsabilidade na defesa das formações de ataque que chegassem navais entre os dias 1º e 2 de maio de
SBS, que realizaram missões de reco- alto: a FAA perdeu ao todo 47 aerona- des elevadas, ou atacar evitando o em- ilhas. Justamente a Força que, antes aos alvos num só momento. Isso faci- 1982. Foi um conflito clássico, com um
nhecimento e destruíram várias aero- ves e 55 tripulantes (somando os feri- prego do pós-queimador (afterburner). da guerra, era proibida por lei de pra- litou as interceptações pelos caças campo de batalha bem definido, com
naves argentinas no solo. dos, o total de baixas chegou a 101): Isso porque precisavam economizar ticar operações sobre o mar, missão Sea Harrier ingleses. forças reconhecíveis, sem guerrilhas e
Entretanto, a reação argentina foi QQ Douglas A-4B Skyhawk 10 combustível, por serem aeronaves des- que era de exclusividade da ARA. O único radar Westinghouse AN/ praticamente sem populações civis en-
feroz: aeronaves da FAA e da ARA con- QQ Douglas A-4C Skyhawk 9 providas de capacidade REVO (reabas- A maioria das aeronaves da FAA TPS-43 instalado pela FAA nas ilhas volvidas nos combates. O ambiente
seguiram afundar ou avariar seria- QQ AMD Mirage M-III EA 2 tecimento em voo) e as Malvinas esta- não tinha equipamento de navegação foi de importância fundamental, mas ideal para estrategistas.
mente diversos navios britânicos: o QQ IAI M-5 Dagger 11 vam no limite de seus raios de ação, com nem radar, itens necessários para ope- não foi acompanhado por outra unida- Uma vez alcançados dois objetivos, a
HMS Sheffield (afundado em 4 de QQ BAC BMK-62 Canberra 2 o combustível que podiam carregar nos rações sobre o mar. de similar, para instalação em outra vitória sobre a Armada Argentina (onde
maio), as fragatas HMS Ardent (afun- QQ FMA IA-58 Pucará 11 tanques internos e externos. A FAA não sabia como ajustar cor- posição. se destacou o emprego do submarino nu-
dada em 21 de maio) e HMS Antelope QQ Lockheed C-130H Hercules 1 Os A-4 Skyhawk possuíam sonda retamente as espoletas das bombas A instalação do radar foi feita num clear de ataque) e a conquista da supe-
(afundada em 23 de maio), os navios de QQ Gates LR-35A Learjet 1 REVO e podiam alcançar as ilhas após para missões antinavio (60% das bom- local ruim, o que permitia aos ingleses rioridade aérea com uma combinação
desembarque RFA Sir Galahad e Sir realizarem reabastecimento em voo, bas que acertaram os alvos não explo- se aproximarem das ilhas sem serem aeronave / armamento superior (Sea
Lancelot (avariados em 24 de maio), o Algumas lições dos vencidos: as li- mas somente levando uma carga me- diram). A ARA sabia como ajustar as detectados, mascarando-se no terreno. Harrier + Sidewinder AIM-9L), o de-
destróier HMS Coventry e o MV Atlan- mitações materiais e humanas nor de bombas. espoletas, mas não passou as informa- A ARA tinha uma boa quantidade sembarque anfíbio tornou-se possível,
tic Conveyor (afundados em 25 de maio) As ilhas Malvinas tinham 3 pistas As aeronaves argentinas disponí- ções para a FAA, que também não soli- de mísseis antinavio instalados em mesmo diante da forte oposição aérea
- este último com um míssil Exocet. O de pouso, mas a maior não tinha com- veis foram projetadas para missões de citou sua ajuda. suas belonaves, mas a FAA não pos- argentina. A vitória das forças terres-
RFA Sir Galahad foi finalmente des- primento para operar caças a jato. Ela curto alcance e para operações de suía mísseis antinavio. Quando a tres britânicas, mesmo enfrentando du-
truído no dia 8 de junho, quando o RFA precisaria ter sido ser ampliada logo apoio aéreo aproximado. A FAA tinha Decisões táticas ruins guerra começou, a Aviação Naval só ros combates, foi apenas uma questão
Sir Tristan foi seriamente avariado. No após a invasão argentina (incluindo se especializado mais, nos últimos Durante o grande desembarque tinha 5 mísseis ar-superfície Exocet de tempo, já que a qualidade dos seus
dia de 12 de junho, o destróier HMS suas áreas de escape) para poder rece- anos, em operações de contrainsurgên- anfíbio realizado pelos britânicos na AM-39, quantidade claramente insufi- soldados era superior e as tropas argen-
Glamorgan foi avariado por um míssil ber jatos A-4 e Mirage/Dagger, o que cia (empregando os turboélices Puca- baía de São Carlos, no dia 21 de maio, ciente para uma campanha contra um tinas não tinham mais uma linha de su-
Exocet MM-38 lançado de terra. No dia não aconteceu. rá) e não contra um inimigo externo. os aviões argentinos atacaram os na- inimigo forte. primentos que vinha do continente.
14 de junho, as forças terrestres britâ- Somente os bombardeiros bimotores Faltou também efetiva coordena- vios de guerra (que podiam se defen- Apesar da bravura dos combaten-
nicas ocuparam Port Stanley e as for- Canberra tinham alcance para voar até ção com as outras duas Forças, pois o der e que não levavam tropas), ao in- Balanço final tes argentinos, principalmente de seus
ças argentinas assinaram a rendição. as Falklands e voltar, sem reabasteci- Exército e a Marinha mantiveram a vés de concentrarem os ataques nos A Guerra das Malvinas pode ser pilotos, o preparo militar inglês preva-
No total, a aviação argentina con- mento, mas eram também mais vulnerá- Força Aérea fora dos planos de inva- navios de transporte e de desembar- considerada um conflito essencialmen- leceu no final.q

42 Forças de Defesa www.naval.com.br www.naval.com.br Forças de Defesa 43


PODER AÉREO HISTÓRIA
Reprodução
A derradeira missão ocorreu em 14

www.histarmar.com.br
de junho, dia da capitulação argenti-
na. Os aviões detectaram uma intensa
movimentação aérea e naval. Com a
derrota dos argentinos, os aviões fo-
ram preparados para o retorno ao Bra-
sil. Um mês depois, os dois Bandeiru-
lhas pousavam novamente em São
José dos Campos.

CINDACTA em alerta
Os desdobramentos do conflito não
estavam restritos ao ambiente maríti-
mo. Na noite de 9 de abril, os radares
do 1º Centro Integrado de Defesa Aé-
rea e Controle de Tráfego Aéreo
(CINDACTA I) detectaram um avião
que não possuía plano de voo, vindo do
setor Norte do espaço aéreo brasileiro. QQ Onze jatos EMB-326 Xavante usados, provenientes da FAB, seguiram para a
Tratava-se de um jato comercial Aviação Naval argentina, onde substituíram os MB-339 perdidos na guerra
Ilyushin 62 da empresa estatal “Cuba- Reprodução
na”. A bordo dele estava o embaixador de leão. Não havia combustível para uma
QQ Bombardeiro Avro Vulcan da RAF, pousado no Rio de Janeiro após ser interceptado por jatos F-5E Tiger II da FAB Cuba junto ao governo argentino. Seu segunda tentativa de pouso da aerona-
objetivo era chegar a Buenos Aires o ve britânica.
mais rápido possível, mesmo correndo o Após o pouso e os trâmites diplomá-
A participação do Brasil na risco de criar um incidente diplomático.
A cerca de 400 quilômetros ao Nor-
te de Brasília, o CINDACTA I estabe-
ticos, o Vulcan permaneceu no Brasil
por nove dias e os militares britânicos
voltaram para casa somente no dia 11

Guerra das Malvinas leceu comunicação com o intruso, pe-


dindo que ele pousasse na Capital
Federal para prestar esclarecimentos.
de junho. No entanto, o míssil Shrike foi
confiscado. Especula-se que esse Shrike
tenha servido como base de estudo para
QQ Guilherme Poggio ocorreu acidentalmente e quase termi- Operação de Leasing Diante da recusa, dois caças Mirage o projeto do míssil brasileiro MAR-1.
poggio@fordefesa.com.br nou em tragédia. Ainda no começo de abril de 1982, o IIIE (F-103) do Primeiro Grupo de De-
No dia 23 de abril, os radares dos fesa Aérea (1º GDA) decolaram da

A
Brasil e a Argentina costuraram nos Xavantes e Hercules
Operação Rosário da Argen- navios da frota britânica que seguia bastidores os primeiros passos de uma Base Aérea de Anápolis e partiram Após o término das hostilidades, o
tina colocou o Brasil em uma para o Sul identificaram um alvo. cooperação militar “low profile”, ou dis- para interceptar o avião cubano. Brasil continuou a auxiliar a Argentina.
situação delicada. Por um Acreditava-se que era mais uma “visi- creta. Uma das faces mais ocultas des- Assim que o Ilyushin foi intercep- Negociações entre os dois países, ocorri-
lado, havia o apoio histórico ao país vi- ta indesejada” do Boeing 707 da FAA, sa cooperação foi um suposto auxílio do tado, o líder do elemento entrou em das durante o mês de julho de 1982, aca-
zinho pela posse das Malvinas, mas de empregado como aeronave de vigilân- Brasil na transferência de cinco mís- contato com o piloto cubano. Após baram com um contrato de transferência
forma pacífica. Além disso, boa parte cia de longo alcance. seis AM-39 para a Argentina. Fato que avistar os dois Mirages na sua ala, o de 11 jatos EMB-326 Xavante usados,
das Forças Armadas brasileiras nu- A frota ficou em alerta, pois o Reino não se materializou. O ponto mais co- piloto passou a seguir as instruções e provenientes dos esquadrões da FAB.
tria simpatia pela posição argentina. Unido havia tomado a decisão de de- nhecido desses entendimentos foi o pousou em Brasília. Estes aviões seguiram para a Aviação
O contraponto era a área econômica. clarar “ação hostil” qualquer manobra “leasing” de duas aeronaves Embraer Naval da Argentina, onde substituíram
Com a guerra, os bens argentinos de aproximação de uma aeronave ar- EMB-111 Bandeirulha (de esclareci- Sem combustível QQ Matéria publicada na revista Veja os MB-339 perdidos durante a guerra.
no Reino Unido foram congelados e os gentina. O sistema de mísseis antiaé- A interceptação do Ilyushin da sobre os pousos de C-130 Hercules Mas a ajuda não se restringiu ape-
mento naval) da Força Aérea Brasileira ingleses no Brasil
empréstimos bancários suspensos. A reos (SAM) Sea Dart do HMS Invinci- para a Aviação Naval Argentina. No fi- Cubana não foi um caso isolado. O Sis- nas ao país vizinho. O Governo Brasi-
Argentina era dona da quinta maior ble havia travado no alvo, enquanto nal daquele mês, uma equipe de milita- tema de Defesa Aérea brasileiro seria e da documentação confidencial. leiro enfrentou uma situação diplomá-
dívida externa na época e um possível um caça Sea Harrier era enviado para res argentinos chegou a São José dos acionado mais uma vez, de forma real, Porém, um dos Shrike ficou preso tica embaraçosa quando foi forçado a
calote internacional daquela nação po- interceptá-lo. Campos (SP) e recebeu instruções de durante o conflito. sob a asa e a portinhola por onde os do- admitir que, após a guerra, também
deria afetar outros países em desen- Um pouco antes de ordenar a der- como operar e manter aqueles aviões. Na noite de 3 para 4 de junho um cumentos foram alijados não se fechou. auxiliava logisticamente os britânicos.
volvimento, como o próprio Brasil. rubada do jato, o comandante As aeronaves foram transladadas bombardeiro Avro Vulcan da RAF Com a aeronave despressurizada, o co- Em junho de 1983, um jornal gaúcho
O temor do Ministério da Econo- Woodward recebeu a informação do para a Argentina e lá receberam nova (Força Aérea Real Britânica) retor- mandante lançou uma chamada de publicou fotos de um C-130 Hercules da
mia era de que um apoio declarado aos contato visual feito pelo Sea Harrier. pintura e modificações no sistema ele- nava para a ilha de Ascensão, após emergência. O uso das máscaras de oxi- RAF que, a caminho das Malvinas, rea-
argentinos pudesse dificultar os em- Tratava-se de uma aeronave comercial trônico de bordo. Após alguns voos de um ataque aos radares argentinos. gênio tornava a comunicação difícil e o lizou escala na Base Aérea de Canoas.
préstimos para “rolar” a dívida brasi- da companhia brasileira Varig, reali- familiarização e instrução de novas Durante uma operação de reabasteci- controlador do CINDACTA I, com mui- O Itamaraty tentou justificar aque-
leira. Ou seja, a guerra era um péssi- zando a rota Durbam (África do Sul) - tripulações, a primeira missão foi lan- mento aéreo, a sonda da aeronave so- ta dificuldade, conseguiu entender par- le pouso como uma emergência, mas
mo negócio para o Brasil. A posição Rio de Janeiro. çada no dia 22 de maio, quando foram freu danos e o Vulcan não poderia te da mensagem. posteriormente foi admitido que a
neutra era a melhor saída. Em seu livro “One hundred days”, detectados alguns alvos com o empre- mais receber combustível. O coman- Dois caças F-5E Tiger II do Primei- “emergência” ocorria, em média, uma
Woodward reconheceu que, caso orde- go do radar e do sistema MAGE. E as- dante do bombardeiro decidiu então ro Grupo de Aviação de Caça vez a cada dez dias. Uma revelação
Civis no caminho nasse a derrubada da aeronave, promo- sim, no decorrer do conflito, os Bandei- rumar para Oeste, em direção ao (1º GAVCA), baseados em Santa Cruz como esta poderia azedar a relação
Mesmo procurando manter-se veria uma tragédia que provavelmente rulhas foram empregados em uma Brasil. A tripulação tomou as medi- (RJ), foram acionados. Após intercep- como a Argentina. Porém, o que se sabe
afastado do conflito, o Brasil estaria mudaria o curso da guerra. “Se tivésse- média de três voos por dia. As missões das necessárias para economizar o tar o Vulcan quase sobre a cidade do é que a Embraer fechou um contrato
na rota da guerra devido à proximida- mos abatido aquele Boeing, a Grã-Breta- duravam cerca de seis horas e as aero- máximo de combustível. Mas antes Rio de Janeiro, os dois jatos acompa- para a venda de 130 treinadores turboé-
de geográfica da área de operações. O nha certamente teria perdido a sobera- naves voltavam com pouco menos de do pouso, o Vulcan deveria se livrar nharam o bombardeiro até a aproxi- lice Tucano para a RAF, pouco tempo
primeiro envolvimento direto do país nia sobre as Falklands”, escreveu. vinte minutos de combustível. dos dois mísseis Shrike (antirradar) mação da pista do Aeroporto do Ga- depois desse episódio. q

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PODER AÉREO ANÁLISE

A volta ao mundo em mais


de 80 programas ‘F-X’

Concorrências e
aquisições

Saab
diretas de caças,
novos e usados, QQ A foto mostra caças Gripen
da Suécia e F-16 da Noruega

no século XXI numa paisagem nórdica, mas na


Ásia é possível ver uma
formação similar com caças de
um mesmo país: a Tailândia. Os
tailandeses adquiriram tanto
aeronaves usadas (F-16) quanto
novas (Gripen) para reaparelhar
sua frota, e este é só um
exemplo da complexidade do
mercado mundial de caças

QQ Guilherme Poggio ginas de um texto, “voando” nos jatos que estamos falando em “mais de 80 vam o conturbado F-35, em que muitos começaram como processos de compra ainda no final do século XX, mas tive-
e Fernando “Nunão” De Martini supersônicos que povoam os programas programas”? Porque há países que rea- parceiros não são mais do que finan- de caças novos e terminaram no balcão ram definições importantes e entre-
poggio@fordefesa.com.br de reequipamento de caças pelo mundo? lizaram, nesses quase 12 anos do século ciadores / compradores, estejam entre de ofertas de usados. Assim, colocamos gas neste século – ou definição ne-
nunao@fordefesa.com.br É o que propomos nas próximas pá- XXI, mais de um programa (resultando os exemplos de processos de aquisição aqui também as aquisições de aerona- nhuma, caso do “F-X” e do “F-X2” do
ginas: visitar os programas de aquisi- em aquisições ou não). Logicamente, é mostrados aqui. Os desenvolvimentos ves excedentes de outros países. Brasil. São compras que somam bi-

P
hileas Fogg, o protagonista do ção de caças, deste século XXI, ao re- provável que algum processo de com- próprios serão citados, eventualmente, Aqui estão disputas ou compras di- lhões e que podem, vistas em pers-
romance de Júlio Verne “A vol- dor do planeta. Pesquisamos tudo pra nos tenha escapado, mesmo porque para contextualizar outras compras. O retas que movimentaram o mercado e a pectiva, levar a conclusões interes-
ta ao mundo em 80 dias”, pre- quanto foi possível encontrar de notí- em alguns países isso é pouco divulga- foco está nos programas de aquisição opinião pública pelo mundo. Alguns dos santes. Uma das conclusões possíveis
cisou se deslocar de trem, navio, balão e cias sobre o tema, compilamos, anali- do. Já outros não entraram aqui por em que um país visa comprar um caça protagonistas desses embates recebe- (e que pode surpreender alguns) está
até de elefantes para vencer um desafio samos e, por fim, trouxemos aqui o que não atender a alguns critérios, a seguir: produzido por outro, seja diretamente, ram destaque em imagens de página no final da matéria. Outras ficam por
no final do século XIX. Já neste século encontramos de 68 países que realiza- Não estão no foco desta matéria o seja por concorrências. inteira e página dupla desta matéria, conta do leitor.
XXI, o mais comum é dar essa volta a ram algum tipo de programa de aqui- desenvolvimento e a produção local de Muitos programas visavam, desde o como o poster especial do Rafale e ou- A nossa “volta ao mundo” dos caças
bordo de aviões a jato. Mas que tal fazer sição de caças neste século. caças ou mesmo parcerias de vários início, a aquisição de caças usados, mer- tras belas fotos e ilustrações. começa agora, região por região. Boa
essa viagem, mesmo que apenas nas pá- Mas se são menos de 70 países, por países, embora programas que envol- cado ainda muito significativo. Outros Algumas disputas começaram leitura e boa viagem!
46 Forças de Defesa www.aereo.jor.br
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PODER AÉREO ANÁLISE
Internet Chinesa
ÁSIA Filipinas jatos produzidos na Rússia, como par- te ano, com entregas das primeiras 18
te de um acordo firmado em 1996 e es- aeronaves (fabricadas na França) em
Azerbaijão timado em US$ 1,46 bilhão, foram ini- 2016. Os 108 caças seguintes serão
ciadas em 2004. montados na Índia, com transferência
A partir de 2000, Índia e Rússia fir- de tecnologia e aumento gradual de
maram novos acordos para a produção conteúdo local.
local, pela estatal indiana HAL, de 140 Além desses programas, a Índia
Su-30MKI, com transferência de tec- desenvolve em conjunto com a Rússia
nologia. Em 2006 foi encomendado um um caça com características furtivas,
novo lote de 40 caças e, em 2011, mais de quinta geração, conhecido como
Em 2000, o país estudava a substi-
A Força Aérea do Azerbaijão adqui- 42 aeronaves, que deverão incorporar FGFA (Fifth Generation Fighter Air-
tuição de seus F-5A (comprados usa-
riu da Ucrânia, em 2006, cerca de 50 ca- características furtivas (prevê-se a craft), um desenvolvimento do PAK
dos de Taiwan) por jatos A-4K da Nova
ças MiG-29. Mas, em novembro de 2011, modernização das anteriores para esse FA russo.
Zelândia, que em breve seriam desati-
foi divulgado que há planos para adqui- padrão). Paralelamente às escolhas da For-
vados. Mas a negociação não andou e,
rir aviões de combate mais novos, como Embora não esteja no escopo desse ça Aérea, a Marinha da Índia optou
com a baixa dos F-5A, a aviação de
o JF-17 Thunder do Paquistão, além de trabalho, vale citar que a Índia desen- pela compra de 16 MiG-29K/KUB em
caça filipina deixou de existir.
haver interesse no Sukhoi Su-30. volve, desde o século passado, o caça 2004. Em janeiro de 2010 um novo
ram construídos, o que gerou protestos No entanto, reivindicações chine-
20 caças KF-16 adicionais, produzidos leve Tejas, mas devido a diversos atra- contrato foi firmado para a compra de
por parte da Rússia. sas no Mar da China Meridional têm
localmente, somando-se aos 160 já ad- sos no desenvolvimento o primeiro es- outros 29 MiG-29K.
Bangladesh
Já adentrando no século XXI, as causado inquietação nas Filipinas.
quiridos nas décadas de 1980 e 1990. quadrão só deverá ser formado em 2013.
encomendas de aeronaves russas com- Com a ajuda dos EUA, o país pretende
Os 20 caças foram recebidos entre Espera-se a produção de um total de 200 Indonésia
preenderam dois lotes de caças restabelecer um esquadrão de caça e
2003 e 2004. aeronaves. Com caças pesados e leves
Su-30MKK, totalizando 76 aeronaves interceptação em sua Força Aérea.
O F-X da ROKAF (Força Aérea da garantidos, faltava um caça médio. Co-
entregues entre 2000 e 2003, ano em Não há uma concorrência formalizada
República da Coreia) tem três fases: meçava a grande disputa do século.
que um terceiro lote de 32 caças, da e as negociações provavelmente envol-
F-X I: a apresentação das ofertas A concorrência indiana para um
versão navalizada Su-30MKK2, foi verão caças F-16 usados dos EUA.
para o RFP (pedido de propostas) caça médio multitarefa (MMRCA -
contratado visando emprego na Mari- Esse interesse já existia na década de
ocorreu em junho de 2000. Participa- Medium Multi-Role Combat Aircraft)
nha Chinesa. Recentemente (fevereiro 1990, quando foram oferecidos caças
Bangladesh deve receber ainda em ram a francesa Dassault com o tornou-se uma das mais conhecidas do
de 2012) foi noticiado pela imprensa F-16 (destinados ao Paquistão, porém
2012 um esquadrão de F-7, recente- Rafale, a EADS europeia com o mundo pelo seu tamanho e estimativa
russa que a China estaria interessada embargados), mas não havia recursos
mente negociado com a China. O país Eurofighter Typhoon, a russa Sukhoi de custo: 126 caças num pacote esti-
em comprar um lote de caças Su-35. para a compra.
também está avaliando opções de ca- com o Su-35, e a norte-americana mado inicialmente em US$ 10 bilhões, O reequipamento da aviação de
ças mais modernos: MiG-29, F-16, Boeing com uma versão do F-15 Eagle mas que poderá chegar ao dobro. O caça da Força Aérea da Indonésia
Índia
Su-30 e Gripen Coreia do Norte denominada F-15K “Slam Eagle”. RFI (pedido de informações) foi emiti- (TNI-AU) se arrasta desde 1997, quan-
O Su-35 e o Typhoon foram des- do em 2001, mas o RFP só foi anuncia- do a TNI-AU negociava a compra de
China classificados em março de 2002. Das do em 2007. Concorreram o F/A 18 Su- um lote de F-16. Eram caças destina-
duas aeronaves que permaneceram na per Hornet, o F-16IN, o MiG-35, o dos ao Paquistão, mas que foram em-
disputa, o Rafale classificou-se melhor Gripen NG, o Typhoon e o Rafale. bargados pelos Estados Unidos. Ques-
tecnicamente. Mas o resultado final, Após testes em voo e avaliações na tões ligadas à campanha presidencial
anunciado em abril de 2002, deu a vi- Índia, a lista foi reduzida em abril de nos EUA e a direitos humanos impedi-
tória ao F-15K, com os argumentos de 2011 para Typhoon e Rafale. No final ram a compra.
São escassas as informações sobre “considerações diplomáticas” e de faci- A Índia desenvolve, desde o final do Em setembro de 1997, a Indonésia
de fevereiro de 2012, a oferta do Rafale
o reaparelhamento da aviação de caça lidade na integração de sistemas e ar- século XX, um grande programa de re- chegou a negociar caças russos Sukhoi
foi declarada a de menor custo (L1), e
norte-coreana, que continua operando mas de origem norte-americana. A equipamento da sua aviação de caça, Su-30MK, mas a crise financeira no
a Dassault entrou em negociações pre-
antiquados MiG-21 e MiG-29 das pri- proposta inicial previa a entrega de 40 iniciado com a compra de caças russos início do ano seguinte adiou um acor-
ferenciais com a Índia. Espera-se que
O desenvolvimento da indústria meiras gerações. Recentemente o regi- aeronaves, num contrato estimado em Sukhoi Su-30MKI. As entregas de 50 do. Em 2003, as conversações foram
o contrato seja assinado até o final des-
aeroespacial chinesa atingiu plena me comunista de Pyongyang solicitou US$ 4,2 bilhões. retomadas e em abril firmou-se um
maturidade no início do Século XXI. à China o envio, de forma gratuita, de F-X II: um segundo lote de 21 aero- contrato de US$ 193 milhões (envol-
Como exemplos, temos o caça Cheng-

Alexandre Galante
vários caças J-10. Até o momento, as naves F-15K, avaliado em US$ 2,3 bi- vendo também dois helicópteros), para
du J-10 (e a versão melhorada, o notícias são de que o pedido foi negado lhões, foi encomendado posteriormen- dois Su-27SK e dois Su-30MK. Apesar
J-10B) e o furtivo J-20. Mas o foco des- por Pequim. te, com entregas finalizando agora. de críticas políticas relativas a proce-
ta matéria está nas compras externas, F-X III: esta nova concorrência visa dimentos legais, os dois primeiros
e em algumas situações a China ainda Coreia do Sul 60 caças com características furtivas, Sukhoi foram entregues em agosto e
recorre ao mercado aeronáutico russo. a um custo estimado de US$ 9 bilhões. setembro de 2003.
Foi o caso da família Flanker, da Mas alguns requisitos foram diminuí- Em agosto de 2007, foi noticiado
qual o país foi o primeiro cliente exter- dos para permitir mais competidores. um acordo para o fornecimento de
no, em 1992. Depois, foi firmado um Deverão participar o F-35, o F-15 mais seis Sukhoi, (três Su-27SKM e
acordo para a montagem de 200 caças “Silent Eagle” e o Eurofighter três Su-30MK2) num contrato avalia-
Su-27SK na China, denominados J-11, Typhoon. A Dassault não quis concor- do em US$ 300 milhões, com entregas
a partir de kits fornecidos pela Sukhoi. rer, assim como a Sukhoi, que chegou realizadas entre 2008 e 2010. No final
Em 2004,105 kits já haviam sido en- a ser cotada com seu PAK FA. A Saab de 2011, foi assinado um novo acordo
tregues à China, e provavelmente as O F-X da Coreia do Sul é um pro- chegou a requerer o RFP. O país tam- avaliado em US$ 470 milhões, para
encomendas cessaram porque, dois grama de longo prazo que começou no bém busca compensações industriais outros seis Su-30MK2. As entregas de-
anos antes, a Shenyang chinesa já tra- final da década de 1990, quando o país que contribuam para o desenvolvi- verão começar em 2013, e o país espe-
balhava numa cópia não licenciada, a já vinha montando o KF-16 (versão do mento de seu próprio programa de ra contar com 16 caças Sukhoi até a
versão J-11B. Acredita-se que 50 fo- F-16). Em 2000, foram encomendados caça furtivo de quinta geração, o KF-X. metade da década.
48 Forças de Defesa www.aereo.jor.br www.aereo.jor.br Forças de Defesa 49
PODER AÉREO
Lockheed Martin
Mongólia

A Mongólia possui dezenas de ca-


ças MiG-21, mas acredita-se que pou-
cos estejam operacionais. Em julho de
2011, foi anunciada a compra de cinco
MiG-29 da Rússia.

Myanmar

Enquanto isso, a Indonésia resol- local de 40% dos componentes da aero- Em 2001, a Força Aérea de
veu participar do programa sul-corea- nave, mantendo a indústria ocupada Myanmar adquiriu um esquadrão de
no KF-X, que busca desenvolver um após o fim da produção do F-2 e antes caças MiG-29 da Rússia. Em dezembro
caça furtivo de quinta geração, e está do início de um possível programa lo- de 2009, o país assinou um novo paco-
perto de fechar um acordo para aquisi- cal de quinta ou sexta geração (ADT- te de defesa com os russos, avaliado
ção de dois esquadrões de F-16 usados, -X, o “Shinshin”). As primeiras quatro em US$ 570 milhões, que incluía a
estocados nos EUA. entregas são planejadas para 2016, aquisição de mais 20 caças MiG-29.
mas dúvidas quanto ao preço final vêm
Japão gerando polêmica na mídia japonesa. Paquistão

Malásia

A aviação de caça da Força Aérea Antigo operador de caças F-16, o


de Auto Defesa do Japão (JASDF) ini- país teve parte das suas encomendas
ciou o século incorporando caças A Malásia tradicionalmente com- suspensas na década de 1990 em fun-
F-2A/B produzidos localmente com a prava caças ocidentais, postura altera- ção de embargos econômicos impostos
ajuda da Lockheed Martin. A quanti- da na década de 1990. Foi quando a pelos EUA. Com a ajuda do Paquistão
dade final (94 aviões) de encomendas Força Aérea Real da Malásia (RMAF) na “Guerra ao Terror”, no início deste
do F-2A/B foi definida em 2007 e, em- comprou tanto caças F/A-18D Hornet século, os EUA suspenderam os em-
bora o programa não esteja no nosso dos EUA quanto MiG-29N russos. bargos. Um contrato para a compra de
foco, ele ajuda a entender o contexto do Já no século XXI, a Malásia come- 18 novos F-16 Block 52 (com opção
“F-X” japonês. çou a negociar com a Boeing a compra para outros 18) foi assinado em setem-
Isso porque as bases para o F-X do de caças F/A-18E/F Super Hornet (os bro de 2006, com entregas completa-
Japão foram lançadas naquele mesmo F/A-18D seriam parte do pagamento). das em 2011. Outros 34 F-16 mais an-
ano, visando a substituição dos 67 en- Preparou-se um contrato em 2002, mas tigos estão sendo modernizados no
velhecidos Mitsubishi/McDonnell Dou- ele nunca foi assinado. Um dos motivos país e na Turquia.
glas F-4EJ. Os critérios para a escolha foi a piora das relações entre os EUA e O principal programa de reapare-
baseavam-se em desempenho da aero- a Malásia, devido a questões de liber- lhamento da aviação de caça da Força
nave e de suas armas, preço, participa- dade religiosa. Aérea do Paquistão (PAF) reside na
ção de empresas locais na produção e Enquanto isso, as negociações avan- produção local do caça JF-7, desenvol-
reparos e o apoio pós-venda. çaram para a compra de caças russos: vido em conjunto com a China.
Três caças concorreram: o F-35 em agosto de 2003, foi firmado um acor- Os paquistaneses já produziram
Lightning II, o F/A-18E/F Super do avaliado em US$ 900 milhões para pelo menos 26 unidades do caça desde
Hornet, e o Typhoon. A vitória do F-35 18 caças Su-30MKM, com entregas en- 2009, para uma encomenda de 50 uni-
no Japão foi anunciada em 21 de de- tre 2007 e 2009. Há planos para substi- dades (que pode chegar a 200). Esse
zembro de 2011, para uma encomenda tuir os MiG-29 por outros Su-30, mas programa foge ao escopo desta maté-
de 42 jatos a um custo avaliado em há outras opções a considerar: MiG-35, ria, mas vale a citação para entender o
US$ 7 bilhões. Prevê-se uma produção Typhoon e Gripen NG. contexto de outra possível compra:

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ANÁLISE
Ministério da Defesa de Singapura caças J-10A, que vêm sendo negocia- e fortalecer sua força aérea. O Sri Taiwan
dos com o governo chinês para equipar Lanka manteve negociações com a Rús-
dois esquadrões. Em julho de 2011, sia, em 2008, para a compra de quatro
durante uma visita de autoridades pa- caças MiG-29SM e um MiG-29UB, mas
quistanesas a Pequim, a China ofere- elas foram congeladas após a derrota
ceu um esquadrão de caças J-10B, ver- do Liberation Tigers of Tamil Eelam
são mais moderna que voou, pela (LTTE). Especula-se sobre uma prová-
primeira vez, em 2009. vel compra de caças JF-7 para substi-
tuir os Kfir e os MiG-27, mas nada foi
Singapura oficialmente anunciado. Nos últimos anos, a Força Aérea
da República da China (ROCAF) tem
Tailândia solicitado mais caças F-16 novos jun-
to ao Governo dos Estados Unidos.
Mas Washington vem negando a ven-
da, devido a pressões da China conti-
nental. Em compensação, um grande
programa de modernização dos atu-
ais F-16A/B de Taiwan foi anunciado
A Força Aérea da República de Sin-
em setembro de 2011.
gapura (RSAF) modernizou seus jatos No final da década de 1990, a crise
A-4 Skyhawk no final da década de econômica asiática levou a Força Aé-
Vietnã
1980 e, dez anos depois, estudava sua rea Real da Tailândia (RTAF) a cance-
substituição por caças modernos. No lar um contrato de compra de F/A-18
início de 2003, cinco fabricantes res- C/D Hornet. Em seu lugar, foram rece-
ponderam ao RFI do programa que bidos 16 caças F-16 usados dos EUA,
previa a aquisição de 10 caças (outros entre 2002 e 2003.
10 como opções). Dos EUA, a Boeing Em janeiro de 2005, Singapura
ofereceu o F-15 e o F/A-18 Super Hor- doou sete F-16 usados à RTAF, como
net, e a Lockheed Martin, o F-16 Block parte de um acordo para utilização da
60. A francesa Dassault ofereceu o Ra- base área tailandesa de Udon Tache.
fale, a europeia EADS o Typhoon e a No mesmo ano, foi anunciada a inten- Após adquirir 12 caças Sukhoi
russa Sukhoi o Su-35. ção de substituir os F-5 tailandeses, e Su-27SK/UBK em dois lotes (1994 e
Foram selecionados três concorren- a aeronave mais cotada era o F-16. 1997), a partir de 1999 a Força Aérea
tes finais (Boeing, Dassault e EADS), Mas, em 2008, o país optou pela com- Popular Vietnamita (VPAF) planejou a
cujos caças realizaram voos de avalia- pra de seis caças Saab Gripen C/D sue- compra de mais caças do tipo, o que foi
ção técnica em Singapura no primeiro cos, novos, num acordo que incluiu um formalizado em dezembro de 2003. O
semestre de 2004. avião de alerta aéreo antecipado. As contrato, avaliado em US$ 110 milhões,
A disputa afunilou-se para o F-15 e entregas começaram em 2011, um ano previa a aquisição de quatro novos
o Rafale e, em setembro de 2005, depois de ser formalizado um pedido Su-30MK2V, com opção para mais oito.
o F-15 foi declarado o vencedor. Em de- de outros seis caças. Notícias de março As quatro primeiras entregas fo-
zembro do mesmo ano, foi assinado um de 2012 dão conta do interesse tailan- ram feitas em novembro de 2004 e a
contrato de aproximadamente US$ 1 dês por mais seis Gripens. opção de oito novos exemplares foi
bilhão para 12 aeronaves. Em 2007,
Singapura exerceu a opção por mais

Boeing
oito e fez um pedido extra de outros
quatro. A encomenda total ficou em 24
F-15SG (a nova denominação do caça).
QQ Belíssima foto um F-15SG Singapura se juntou ao programa
e um F-16 da Força Aérea da JSF em julho de 2003, como SCP (Se-
República de Singapura. O curity Cooperation Participant), posi-
país adquiriu um total 24 ção inferior aos nove integrantes prin-
caças Boeing F-15 numa cipais. Até 100 JSF podem ser
concorrência que envolveu adquiridos pelo país.
também o Dassault Rafale e
o Eurofighter Typhoon. Mas o
negócio de maior valor no
Sri Lanka
mercado de caças, neste
início de século XXI, foi uma
compra direta que envolveu
também essa aeronave: o
contrato de 84 caças F-15S
assinado pela Arábia Saudita.
Estimado em quase 30
bilhões de dólares, o acordo O país adquiriu caças Kfir israelen-
inclui a modernização de 69 ses, MiG-27 ucranianos e F-7 chineses
aviões do mesmo tipo já ao longo da primeira década do século
operados pelos sauditas XXI, visando repor perdas operacionais

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PODER AÉREO
Ministério da Defesa da Austrália
Áustria realizou um leasing de caças Gripen, Typhoon, Rafale, F-16 e

Força Aérea Grega


F-5E da Suíça para cobrir a lacuna. MiG-35. O objetivo é adquirir entre 8
e 12 caças para substituir os MiG-21
Bulgária em 2013.
Mas as notícias mais recentes são
de uma possível doação alemã de 20
F-4 Phantom II para a Croácia, além
de uma oferta sueca de Gripen com
três anos de leasing gratuito.

Dinamarca
A Bulgária desativou os seus
MiG-23 em 2003 e, em 2004, os Su-22.
Ainda em 2004, tornou-se membro da
OTAN. Desde então, o MiG-29 passou
a ser o único caça do país.
Em janeiro de 2011, foi emitido um
RFI para 8 a 20 aviões de combate.
Uma oferta de caças Gripen suecos foi A Dinamarca já demonstrava inte-
noticiada, mas adiou-se a concorrência resse pelo JSF em 1997, e entrou no
exercida em janeiro de 2009. Os caças proposta para aquisição de F/A-18E/F desenvolvimento do caça em 2002 (fase Grécia (em 2006 a Grécia desistiu de exercê-
em setembro de 2011, sendo anuncia-
foram recebidos em 2011, mesmo ano Super Hornet foi solicitada à Boeing, e SDD). Em 2007, foi o último país dos -las). Os caças chegaram à Grécia en-
do apenas um contrato, com a Rússia,
em que se assinou um novo contrato, também foram recebidas propostas de nove originais a assinar o memorando tre 2009 e 2010.
de manutenção e reparo dos MiG-29.
estimado em US$ 500 milhões, para leasing de caças F-15E e Eurofighter de entendimento do programa F-35 O país também divulgou planos
mais oito Su-30MK2V. As entregas de- Typhoon. Em maio de 2007, o Governo JSF (fase PSFD - Production, Sustain- para substituir todos os F-4 Phantom
verão ser finalizadas em 2013. Australiano assinou um contrato com
Croácia e os F-16 mais antigos por 30 novos
ment and Follow-on Development).
a Boeing para o fornecimento de 24 ca- Em março de 2010, a RDAF (Força caças, especulando-se uma disputa
OCEANIA ças F/A-18 F Super Hornet por US$ Aérea Real Dinamarquesa) anunciou entre Typhoon, Rafale e F-35. Mas a
2,22 bilhões (valor acrescido mais tar- que reduziria o número de F-16 de 48 gravíssima situação da economia gre-
Austrália de por contratos de manutenção e ou- para 30 unidades, de forma a estender O país iniciou o século XXI com ga deverá adiar essa compra por bas-
tros). As entregas foram completadas sua vida útil em função dos atrasos no grandes planos de renovação de sua tante tempo.
em 2011 e metade da frota veio com programa JSF. Questões internas re- aviação de caça. Além da moderniza-
cabeamento para conversão em A Croácia possui perto de uma dú- lacionadas com a economia do país em ção de seus F-4 Phantom, cujo primei- Holanda
EA-18G Growler (guerra eletrônica). zia de MiG-21 que foram moderniza- 2010 jogaram críticas sobre o preço do ro exemplar modernizado foi entregue
Novos atrasos no F-35 podem levar à dos na Romênia no início deste sécu- F-35 e acabaram por adiar, para de- em dezembro de 2002, a Grécia deci-
compra de mais caças Super Hornet. lo. No final de 2007, um RFP para um pois de 2012, a escolha do substituto diu em 1999 encomendar novos lotes
novo caça foi enviado para alguns fa- dos F-16. Mas com a intensidade do de F-16 e de Mirage 2000, após uma
EUROPA bricantes. A concorrência foi suspen- uso de parte das aeronaves no conflito concorrência ocorrida no ano anterior
sa no ano seguinte, mas retomada com a Líbia, uma decisão final não e que também teve a participação do
Em 2000, antes mesmo da escolha Áustria Boeing F-15, do Eurofighter Typhoon e
posteriormente com a participação de pode demorar muito.
da Lockheed Martin como vencedora do Sukhoi Su-27. Em fevereiro de 2002 a Holanda,
do programa JSF, o Departamento Força Aérea Real Australiana Em comparação com os modelos juntamente com o Canadá, juntou-se
de Defesa dos EUA ofereceu à Aus- adquiridos anteriormente, as novas ao programa JSF (fase SDD). Naquele
trália uma participação. Mas o país aeronaves eram de padrão mais momento, o JSF só contava com os
tinha planos para uma concorrência avançado: F-16 Block 52+, num total EUA e o Reino Unido.
internacional, visando substituir de 50 unidades (com opção para mais O parlamento do país aprovou a en-
seus caças F/A-18 Hornet e bombar- 10, formalizada em 2001) e 15 unida- trada em junho e a Holanda, ao lado
deiros F-111. O programa era conhe- des de Mirage 2000-5 Mk2. Além dis- da Itália, tornou-se um dos integran-
cido como Air 6000 e a Boeing, a Das- A Áustria lançou um RFP em abril so, a partir de 2004 dez dos antigos tes nível 2 do programa, comprome-
sault e a EADS preparavam-se para de 2002 para a compra de 30 caças no- Mirage 2000 também foram elevados tendo-se com o gasto de US$ 800 mi-
a competição. vos, num contrato estimado em ao padrão -5MK2. Em novembro de lhões para o desenvolvimento da
Em junho de 2002, a Austrália can- US$ 1,75 bilhão, para substituir seus 2007, a Grécia recebeu o seu último aeronave.
celou o Air 6000 para participar do de- caças Saab J35OE Draken. Concorre- Mirage 2000, que também foi a últi- A Holanda tem planos de adquirir
senvolvimento do JSF, contribuindo ram o Saab Gripen, o F-16 Block 50/52 ma aeronave do tipo fabricada pela 85 caças F-35 para substituir seus
com cerca de US$ 150 milhões para a e o Eurofigthter Typhoon. Em julho de francesa Dassault. Já os F-16 foram F-16, mas até o momento somente foi
fase SDD (System Development and 2002, o Typhoon foi declarado vence- entregues em 2004. acertada a compra de duas aeronaves
Demonstration) e com planos para ad- dor e um contrato para a compra de 24 Após a concorrência de 1999, a Gré- para testes e avaliações.
quirir 75 caças ou mais. caças foi assinado em 2003. cia iniciou conversações com o grupo No final de 2011, foi anunciado que
Porém, a RAAF já enfrentava pro- Posteriormente, a encomenda foi Eurofighter para adquirir entre 60 e uma eventual aquisição do F-35 seria
blemas estruturais com a frota de reduzida para 18 e, por fim, para 15 80 Typhoons, a partir de 2005. Mas as adiada em três ou quatro anos (a par-
F-111 e, em 2006, dúvidas sobre o cro- exemplares. Os primeiros caças negociações foram canceladas e optou- tir de 2019).
nograma real de entregas dos F-35 co- Typhoon entraram em serviço em -se por mais 30 caças F-16, num con- Existem opiniões dentro do país
meçaram a surgir. Isso acelerou os julho de 2007, com os últimos incorpo- trato formalizado em dezembro de que defendem a compra de uma aero-
planos para um caça “tampão” que rados em setembro de 2009. Como os 2005 e avaliado em US$ 3,1 bilhões nave de origem europeia (Gripen, Ra-
substituísse os F-111 em 2010. Uma Draken deixaram de voar em 2005, a caso todas as opções fossem exercidas fale ou Typhoon).

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PODER AÉREO ANÁLISE
Saab
Eurofighter Typhoon, e Saab Gripen. desde a Guerra Fria. Em setembro de Já o JSF foi selecionado para o pro-
Em agosto de 2006, o Rafale foi excluído 2011, a Força Aérea Polonesa decidiu grama JSA que buscava um substituto
da competição. modernizar os MiG-29 e deixá-los com- para a frota de Harriers da RAF e da
Em janeiro de 2007, a Noruega as- patíveis com os F-16. Espera-se o lan- RN (Marinha Real). Em janeiro de
sinou o MoU (Memorando de Entendi- çamento, em breve, de uma concorrên- 2001, o Reino Unido assinou um MoU
mento) para a continuação do desen- cia para sua futura substituição. com o Departamento de Defesa dos
volvimento e produção do JSF (fase EUA para participar de forma integral
PSFD - Production, Sustainment and Reino Unido no programa JSF – único país a inte-
Follow-on Development), mas mante- grar o programa norte-americano antes
ve abertas as outras opções. No final da escolha do F-35 e que permanece
daquele ano, o consórcio Eurofighter como o único parceiro nível 1.
retirou-se da disputa alegando favori- Os planos iniciais informavam a
tismo ao F-35. Em novembro de 2008, compra de 138 JSF da versão STOVL
o Governo Norueguês informou a vitó- (F-35B), mas em outubro de 2010 o Go-
ria do F-35 sobre o Gripen (o último verno do Reino Unido resolveu mudar
concorrente que havia sobrado) e um para a versão naval (F-35C) e os nú-
relatório afirmou que o F-35 era o úni- A renovação da aviação de caça do meros deverão ser revistos para me-
co caça que atendia aos requerimentos Reino Unido possui duas vertentes. A nos. Porém, ainda se discute se a opção
operacionais da RNAF. primeira é o Typhoon, do consórcio pelo F-35B será retomada, levando em
Em dezembro de 2011, foi decidida a Eurofighter, um programa eminente- conta os altos custos para equipar os
modernização dos caças F-16 da RNAF mente europeu que tem grande partici- porta-aviões ingleses com catapultas e
com novas asas, para operarem por pação britânica. Em segundo lugar está aparelho de parada.
mais alguns anos até a chegada do F-35. o programa JCA (Joint Combat Air-
A Noruega pretende adquirir 52 aerona- craft), que na verdade é o JSF, uma par- República Tcheca
ves F-35, com entregas entre 2018 e ceria com os EUA e outras oito nações.
2023. Em março de 2012, o livro branco Embora não seja uma compra ex-
de defesa do país reforçou o compromis- terna, vale a pena citar (para contex-
so com o caça e indicou, como possibili- tualizar) a questão quantitativa dos
dade, antecipar a entrega das duas pri- Typhoons ingleses desde 1998, quando
meiras aeronaves para 2015. os parceiros do consórcio assinaram o
Hungria Itália lidade na AMI no final de 2005. A Itá- primeiro contrato de produção. O nú-
lia possui planos de adquirir 121 caças Polônia mero de unidades previstas para a
do tipo, e já recebeu 44. RAF (Força Aérea Real Britânica) vem Fracassada a tentativa de escolha
A Itália é um dos países que inte- caindo com o tempo: das 250 iniciais, de um caça comum com a Polônia e a
gram o nível 2 do programa JSF e con- as encomendas diminuíram para 232 Hungria (veja os tópicos desses paí-
tribui com aproximadamente US$1 bi- e, até o momento, somente 160 caças ses), a República Tcheca lançou, em
lhão para o desenvolvimento do estão confirmados. O primeiro esqua- maio de 1999, o RFI para a escolha de
programa. Os planos iniciais do país vi- drão de Typhoon na RAF foi ativado um novo caça que substituísse os seus
Um pouco antes do início do século O atraso no programa Eurofighter savam a aquisição de 131 F-35 das ver- em julho de 2005 e, desde março de MiG-21. Em janeiro de 2001 a Repú-
XXI, a Hungria, a República Tcheca e gerou um problema logo no início do sões A e B. Porém, esta quantidade vem 2011, o caça assumiu integralmente a blica Tcheca encaminhou o RFP para a
a Polônia tornaram-se membros da século XXI para a aviação de caça da caindo com o tempo e é provável que a Como já foi mostrado (tópico da defesa aérea do Reino Unido. aquisição de 24 a 36 novos caças, por
OTAN (março de 1999) e era necessá- Força Aérea Italiana, prestes a desati- Itália corte esse número em um terço. Hungria), a Polônia, a República Tche- Força Aérea Polonesa
rio compatibilizar a aviação de caça var seus últimos interceptadores ca e a Hungria pretendiam adquirir
dessas nações com as de outros países F-104. Até a previsão de entrada em
Noruega caças em conjunto. Mas o plano não foi
da organização. Um plano conjunto serviço do Typhoon, em 2000 (com adiante e a Polônia lançou uma con-
de compra de caças foi cogitado, mas mais alguns anos até sua operação ple- corrência, em que participaram o
questões econômicas e datas diferen- na) era preciso buscar um “caça tam- Gripen, o Mirage 2000 e o F-16 Block
tes para a entrada em operação leva- pão”. Foi feito um contrato de leasing 52, com propostas entregues em no-
ram cada país a lançar seu processo com o Reino Unido para operar 24 ca- vembro de 2002. Também foram feitas
de seleção. ças Tornado F3, entre 1995 e 2003. ofertas de caças F-16 usados da Bélgi-
Em 2000, os húngaros emitiram Em função de novos atrasos do ca, Holanda e EUA (que também ofe-
um RFI. Mas, em fevereiro do ano se- Eurofighter Typhoon e dos custos ele- A Noruega juntou-se ao programa receu F-18 usados). A Polônia decidiu,
guinte, veio a notícia de que o Governo vados dos caças Tornado F3 (para um JSF em 2002 como um parceiro nível em dezembro de 2002, adquirir 48 ca-
Húngaro havia decidido comprar ca- caça tampão) a Itália devolveu estes 3, mas sempre manteve outras opções ças F-16 Block 52 novos, num contrato
ças F-16 usados dos EUA. últimos e assinou um contrato de em aberto. Em janeiro de 2003, assi- de US$ 3,5 bilhões assinado em abril
Porém, negociações com a Suécia US$ 777 milhões com os EUA, visando nou um acordo de parceria industrial de 2003. As entregas realizaram-se
ocorreram ao longo de 2001. Em setem- o leasing de 34 caças F-16A/B por dez com o consórcio Eurofighter, motivada entre 2006 e 2009.
bro daquele ano, foi anunciado o leasing anos (5+5). Os primeiros F-16 foram possivelmente pela insatisfação do Mas a Polônia também adquiriu
por dez anos de 14 caças Gripen, num entregues em julho de 2003, ano em acesso do país ao programa JSF. caças usados: em setembro de 2003,
contrato avaliado em US$ 500 milhões que os últimos F-104 deram baixa na Assim, a Noruega levou adiante um foram comprados 22 MiG-29 ex-
e com 100% de offsets (compensações). Força Aérea Italiana (AMI). As aero- programa para escolher o novo caça da Luftwaffe (que os havia incorporado
As entregas ocorreram entre 2006 e naves começaram a ser devolvidas em RNAF (Força Aérea Real Norueguesa), com a unificação alemã). Destes, 14 fo-
2007. Em janeiro de 2012, foi anuncia- junho de 2010, processo que deverá se com a participação do próprio F-35 JSF ram efetivamente revisados e entre-
da a extensão do contrato de leasing por completar até junho de 2012. e outros concorrentes que responderam gues em 2004, somando-se aos caças
dez anos, até 2026. O Typhoon só atingiu a operaciona- ao RFI em 2006: Dassault Rafale, do mesmo tipo que a Polônia operava

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PODER AÉREO
USAF
QQ Com o anúncio do Gripen como vencedor da concorrência suíça para substituição Saab
parcial dos F-5 do país, em novembro de 2011, a versão de nova geração (NG) do
caça sueco ganhou sua primeira disputa internacional. Em declarações oficiais,
autoridades suíças e suecas passaram a denominar essa nova versão como Gripen
E/F, embora a configuração final ainda esteja em discussão. Essa imagem da Saab
mostra algumas modificações importantes em relação às versões atuais do Gripen:
carenagens nas raízes das asas indicando a nova posição do trem de pouso principal,
liberando espaço para mais combustível na fuselagem e para mais dois pilones sob a
mesma. Assim, o caça pode carregar a respeitável carga de armamento ar-ar
mostrada nesta ilustração, com nada menos que sete mísseis BVR (além do alcance
visual) Meteor e mais dois mísseis WVR (dentro do alcance visual - no caso o IRIS-T),
nas pontas das asas

meio de critérios técnicos, financeiros te, foi oficialmente admitida na OTAN quantos caças poderiam ser adquiridos
e de offset (compensações). Responde- e, em 2005, surgiram rumores sobre o com o valor estimado para a compra.
ram os EUA (F-16 e F-15 usados, cha- interesse romeno por caças F-16 usa- No final de novembro de 2011, o
mados de F-15R), França (Mirage dos de Israel. Conselho Federal decidiu adquirir 22
2000) e Suécia (Gripen). Em maio, os Em maio de 2008, o Congresso dos caças Gripen E/F (nome operacional
norte-americanos retiraram-se da dis- EUA foi notificado sobre uma possível do projeto que era conhecido como NG)
puta, seguidos pelos franceses. venda de 24 F-16 novos e 24 F-16 usa- por US$ 3,3 bilhões, justificando que a
O Gripen foi selecionado no final de dos para a Romênia. Mas em março de oferta sueca foi a de custo mais baixo.
2001. Mas em novembro do ano se- 2010 o governo romeno anunciou a in- As negociações industriais e de preço
guinte, após os desastres naturais so- tenção de comprar apenas os caças estão em andamento, em meio a polê-
fridos pelo país, os planos de gastar usados. Depois desse anúncio, nenhu- micas na imprensa local, e deverá ha-
US$ 2 bilhões com a compra de 24 ca- ma outra decisão oficial foi divulgada. ver um referendo popular para apro-
ças novos foram abandonados. var a aquisição das aeronaves.
Decidiu-se estudar propostas para Suíça
caças usados, que vieram do Canadá Turquia
(CF-18), Alemanha (F-4), Reino Unido
(Tornado F3), Suécia (Gripen) e EUA,
Bélgica, Turquia, Israel e Holanda
(F-16). Em dezembro de 2003, foi
anunciada a escolha da oferta sueca:
leasing de 14 Gripens novos por
US$ 737 milhões e investimentos de
150% em offsets, com o contrato assi- Em meio a um trabalho de moder-
nado em junho do ano seguinte. Os ca- nização da frota suíça de 33 F/A-18
ças foram entregues em 2005. Hornet, realizado pela empresa local Na virada do século, a Turquia já
Questões recentes de política inter- de aviação RUAG entre 2004 e 2009, era uma grande operadora do F-16,
na deixaram dúvidas se o contrato foi lançado um programa de substitui- com 240 caças deste modelo incorpora-
será renovado ou se haverá outra con- ção parcial da frota de 54 caças F-5 da dos entre 1987 e 1999. No final de 2006,
corrência, mas notícias recentes apon- Força Aérea Suíça. Participaram do negociações estavam em andamento
tam para uma possível renovação. processo o Gripen (inicialmente com a para um novo lote a ser montado no
versão C/D, depois com o modelo de país. O acordo foi firmado em 2007 para
Romênia nova geração - NG), o Typhoon e o Ra- a produção local de 30 F-16, com o final
fale, conhecidos como os três “euroca- das entregas previsto para 2012.
nards”. A Boeing desistiu de oferecer o A Turquia foi o sétimo país a inte-
Super Hornet, devido ao valor baixo grar o programa JSF na fase SDD em
estimado do contrato (2 bilhões de dó- julho de 2002. Em janeiro de 2007, as-
lares) para 22 aeronaves. sinou o memorando para a continua-
As avaliações técnicas foram reali- ção do desenvolvimento e produção do
zadas na própria Suíça no segundo se- JSF (fase PSFD). O país espera adqui-
Em 2003, a Romênia completou o mestre de 2008. Em 2009, os três con- rir cerca de 120 F-35 num contrato
programa de modernização de seus correntes entregaram as propostas avaliado, em 2006, em US$ 11 bilhões,
MiG-21 para o padrão LanceR e apo- finais, onde deveriam detalhar qual o e já produz localmente partes da fuse-
sentou os seus MiG-29. No ano seguin- custo total de vinte e duas aeronaves e lagem central da aeronave. Em janeiro

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PODER AÉREO ANÁLISE
Força Aérea Israelense
de 2012, foi anunciada a aprovação ções se arrastaram, a RSAF decidiu 1998, numa seleção que envolveu
inicial do governo turco para a compra comprar o Eurofighter Typhoon. O con- F-15U, Sukhoi Su-27, Tornado GR4,
de dois F-35. trato de 4,43 bilhões de libras para a Eurofighter Typhoon, Mirage 2000
Além do F-35, a Turquia possui compra de 72 Typhoons (24 Tranche 2 e (que os Emirados já operavam) e Ra-
planos para desenvolver seu próprio 48 Tranche 3) foi anunciado em agosto fale. Entre 2004 e 2006, foram entre-
caça de quinta geração (TFX). Existem de 2006, com a primeira entrega em gues 80 caças F-16 Block 60, avalia-
entendimentos para uma parceria no junho de 2009. dos em US$ 6,4 bilhões.
programa KF-X da Coreia do Sul e es- Circularam informações de que a Paralelamente a esse contrato, os
peculações sobre uma associação com RSAF estaria interessada em um lote Emirados resolveram ampliar sua frota
o Brasil. complementar do Typhoon, mas nego- de 33 caças Mirage 2000 com a compra
ciações sobre novos F-15 tornaram de mais 30, porém de uma versão exclu-
ORIENTE MÉDIO improvável essa encomenda. Essas siva e avançada, o Mirage 2000-9. Tam-
negociações para a compra de 84 bém modernizaram os demais para o
Arábia Saudita F-15SA novos e atualização de 69 mesmo padrão. Mesmo com essa frota
F-15S foram finalizadas em dezembro relativamente nova, os EAU decidiram
de 2011, num contrato de US$ 29,4 buscar um caça que substituísse os
bilhões. As modernizações deverão co- seus Mirage 2000-9 a partir de 2015. A
meçar em 2014 e as entregas de novos principal opção sempre foi o Dassault
caças em 2015. Rafale, e a negociação envolveria a re-
venda dos Mirage 2000-9 dos Emirados
Emirados Árabes Unidos (EAU) para um outro país.
Após três anos negociando a compra
Antes da virada do século, a RSAF de 60 caças apenas com a França, os
(Força Aérea Real Saudita) estudou o EAU solicitaram informações sobre o
F-16C/D e o Saab Gripen como alter- F-18 Super Hornet e o F-15 da Boeing.
nativas para substituir seus F-5 E/F, Em novembro de 2011, o país manifes-
selecionando o primeiro em março de tou insatisfação com as negociações
1998. No entanto, nenhum contrato foi com a Dassault e solicitou uma propos-
finalizado. ta (RFP) ao consórcio Eurofigher. Já Iêmen de caças iranianos). Segundo notícias Israel
Dois anos depois o país, que já tinha Antes do início de século XXI, os em 2012, autoridades francesas infor- veiculadas em 2007, um acordo com a
encomendado 72 caças norte-america- EAU já haviam decidido pela moder- maram que as negociações voltaram a Rússia, avaliado em US$ 1 bilhão, con-
nos F-15S, informou ao Departamento nização de sua Força Aérea, escolhen- caminhar. Especula-se, porém, que templava o fornecimento de 12 caças
de Defesa dos EUA a intenção de ad- do dois caças de origens distintas. O parte dessa encomenda de 60 caças seja Su30MKM.
quirir mais 24 F-15S. Como as negocia- F-16 foi primeiramente escolhido, em direcionada a mais um lote de F-16. Também circularam notícias, não
confirmadas, de que em 2007 o país
estava negociando caças J-10 com a
Eurofighter - Katsuhiko Tokunaga China.
Depois do programa Lavi da déca-
Na primeira década do século XXI, Iraque da de 1980, que não passou da fase de
a Força Aérea do Iêmen incorporou ca- protótipos, Israel decidiu não mais
ças MiG-21 e Su-22 usados, provenien- produzir suas próprias plataformas,
tes de países do leste europeu. Além preferindo comprar células no exterior
disso, modernizou seus MiG-29 para o e equipá-las com sistemas desenvolvi-
padrão SMT, comprando também um dos localmente.
pequeno novo lote desses aviões. Na virada para o século XXI, Israel
O Governo Iemenita estava interes- adquiriu novos lotes de caças F-16,
sado na compra de mais caças MiG-29, com 50 F-16D block 52 (denominados
possivelmente o aperfeiçoado MiG-35, A Força Aérea do Iraque foi total- F-16I) contratados em janeiro de 2000
mas as negociações foram congeladas mente reorganizada após a invasão do e 52 opções exercidas em setembro de
devido à instabilidade do Governo fren- país pelos EUA, em 2003. O interesse 2001, num valor total de US$ 4,5 bi-
te a manifestações populares. por caças F-16 foi anunciado em se- lhões e entregas iniciadas em 2004.
tembro de 2008 e, em maio de 2010, o Em julho de 2003, Israel formalizou
Irã pedido de 24 F-16C/D foi formalmente sua entrada no programa JSF, tornan-
encaminhado ao Governo dos EUA. do-se um participante SCP (Security
Em setembro de 2010, o Congresso Cooperation Participant), posição infe-
dos EUA foi notificado sobre uma pos- rior à dos nove integrantes principais.
sível venda via FMS (Foreign Military Os planos são para a compra de 100 ca-
Sale) de 18 jatos F-16IQ para o Iraque, ças F-35, num negócio avaliado inicial-
com entregas previstas para 2014. In- mente em US$ 5 bilhões.
cluindo armamentos, treinamentos e A participação de Israel no pro-
Aparentemente, a composição da outros itens, o contrato chegou a grama foi ameaçada devido à coope-
aviação de caça do Irã foi pouco altera- US$ 4,2 bilhões.Um novo lote de 18 ca- ração com a China no desenvolvimen-
da desde 1979, quando uma revolução ças F-16IQ foi solicitado em dezembro to de armas. Mas, em outubro de
depôs o regime aliado aos EUA (país de 2012, a um custo estimado de 2010, Israel assinou o contrato de um
que forneceu boa parte do inventário US$ 2,3 bilhões. lote inicial de 20 aviões de combate
62 Forças de Defesa www.aereo.jor.br www.aereo.jor.br Forças de Defesa 63
PODER AÉREO ANÁLISE
Frans Dely/SAAB
F-35, com entregas em 2016 e valor Kuwait que a Rússia ofereceu 10 caças MiG-29
estimado de US$ 2 bilhões. usados para o Líbano sem custo al-
Mas existe a possibilidade de atra- gum. Porém, o acordo não chegou a ser
sos, com entregas somente em 2017 ou fechado.
2018, o que pode levar Israel a adqui-
rir mais caças de geração anterior. Em Omã
2011, chegou-se a noticiar o interesse
em caças F-15 usados.

Jordânia O Kuwait busca uma nova aerona-


ve para substituir futuramente os seus
F/A-18 Hornet. Duas opções estão sen-
do avaliadas: o F/A-18 Super Hornet
da Boeing e o Rafale da Dassault. Em
fevereiro de 2008, o presidente francês
Nicolas Sarkozy anunciou o início de Na virada do século, a RAFO (Força
conversações com o Kuwait para ven- Aérea Real de Omã) estava estudando
Na virada do século, a Força Aérea der entre 14 e 28 Rafales. A oposição a substituição de seus SEPECAT Ja-
Real da Jordânia (RJAF) já operava interna à compra alega questões como guar de ataque ao solo por F-16 usados
um esquadrão de caças F-16 adquiri- custo elevado, mas é possível que uma ou Gripens. Porém, Omã decidiu man-
dos usados, provenientes da Guarda decisão nos EAU pelo Rafale influen- ter o Jaguar e comprar uma aeronave
Aérea Nacional dos EUA (ANG). Em cie a opção do Kuwait. voltada para defesa aérea.
2003, adquiriu mais 17 jatos da mes- Em março de 2001, a RAFO anun-
ma procedência, formando mais um Líbano ciou a escolha de F-16 novos e o acordo
esquadrão. foi assinado maio do ano seguinte.
Em 2005, começaram negociações Foram comprados 12 caças F-16C/D
com a Bélgica e com a Holanda para a Block 50 por US$ 1,1 bilhão, com en-
aquisição de outros F-16 usados, moder- tregas entre 2005 e 2006.
nizados para o padrão MLU. Entre 2008 Em 2010, a RAFO divulgou planos Qatar um acordo para a venda de intercepta- portes dos trens de pouso e pilones
e 2009, 16 caças F-16 que pertenciam à para adquirir mais um lote de caças dores MiG-31, mas é possível que esse para armamento.
Holanda foram entregues à RJAF, se- F-16, sendo recebidas 18 aeronaves contrato tenha sido mudado para no-
guidos por outros seis, também vindos por US$ 3,5 bilhões. vos MiG-29 e/ou modernização dos Angola
da Holanda, entregues em 2009. Já as A aviação libanesa não possui ca- Em dezembro de 2011, foi anuncia- MiG-29 existentes para o padrão M ou
negociações com a Bélgica levaram a ças de alto desempenho desde o início do o contrato para a compra de mais SMT.
Jordânia a adquirir um outro lote de da Guerra Civil, na década de 1970. 12 F-16C/D, por US$ 600 milhões, com
nove F-16, entregues em julho de 2011. Em dezembro de 2008, foi noticiado previsão de entregas até 2016. ÁFRICA
A Força Aérea do Emirado do
Qatar (QEAF) deseja substituir a atual África do Sul
USAF

frota de Dassault Mirage 2000-5 e ad-


quirir entre 24 e 36 novos caças, consi-
derando como opções o Lockheed Mar- Por volta da virada do século, Ango-
tin F-35, o F/A-18E/F Super Hornet e o la recebeu oito Su-27, mas há dúvidas
F-15 da Boeing, o Eurofighter Typhoon, se vieram da Rússia ou da Bielorússia.
o Dassault Rafale e, eventualmente, o Dois anos antes, foi feito um acordo
Saab Gripen. para a compra de 14 jatos Su-25, e há
Em 2010, foi divulgado que a ava- informações de que mais aeronaves do
liação formal estava em andamento e o tipo foram negociadas.
resultado seria anunciado antes do Em dezembro de 1999, a África do
término de 2012. Assim como no caso Sul assinou um acordo com a sueca
Argélia
do Kuwait, especula-se que uma deci- Saab para a aquisição de 26 caças
são dos Emirados Árabes Unidos pelo Gripen (num pacote que também in-
Rafale possa influenciar a escolha. cluiu 24 treinadores BAE Hawk). A
compra do Gripen, no valor 19,9
Síria bilhões de rand divulgado na mídia
sul-africana (aproximadamente US$ 3
bilhões à época) visava a substituição
dos Atlas Cheetah, versão localmente
modificada dos Mirage III. Quando o presidente russo Putin
As entregas começaram em abril visitou a Argélia em março de 2006, os
de 2008 e as últimas unidades deverão dois países assinaram acordos milita-
ser entregues em 2012. Os caças são res, envolvendo dois contratos de ca-
São raras as informações sobre o montados na Suécia, mas incorporam ças. O primeiro, no valor de US$ 1,5
estado atual da Força Aérea da Síria. partes produzidas pela sul-africana bilhão, era referente a 28 Su-30MKA.
Em 2007, a imprensa russa noticiou Denel, como a fuselagem traseira, su- O segundo, de US$ 1,8 bilhão, contem-

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PODER AÉREO ANÁLISE
Força Aérea de Defesa Popular de Uganda
plava a venda de 29 MiG-29SMT e seis Gabão da Força Aérea Líbia e, eventualmen-
bipostos UTB, além da recompra de te, adquirir aeronaves similares que
velhos MiG-29 por US$ 300 milhões. devem dar baixa da Força Aérea Fran-
As entregas dos caças Sukhoi cesa. Há notícias de que a Líbia pode-
Su-30 ocorreram entre 2007 e 2009. ria receber caças Mirage 2000-9 dos
Há informações não confirmadas de EAU, caso dos Emirados fechem uma
que a Argélia também se interessa em compra do Dassault Rafale.
comprar o Su-35.
Em 2006, o país adquiriu caças Mali
Egito Mirage F1CZ ex-SAAF (Força Aérea
da África do Sul), sendo que as fontes
consultadas discordam quanto à quan-
tidade (entre 3 e 8 aeronaves).

Líbia

O país possui 15 caças MiG-21 re-


Na virada do século, o Egito já era manescentes de entregas feitas pela
um grande operador de caças F-16, então União Soviética, a partir de me-
com 196 aeronaves do tipo incorpora- ados da década de 1970. Em 2005, a
das até 2000. frota foi reforçada por três MiG-21
Entre 2001 e 2002, foi entregue um provenientes da República Tcheca.
novo lote de 24 F-16 Block 40, negocia-
do em 1999 por um valor estimado em As relações do Ocidente com a Líbia Marrocos Namíbia Sudão Zimbábue
US$ 1,2 bilhão. A compra mais recente foram marcadas, em 1999, pelo levanta-
deu-se em 2009, quando foi formaliza- mento temporário das sanções impostas
do o contrato para 20 novos caças F-16 pela ONU (Organização das Nações
Block 52. Unidas) em consequência de ataques
terroristas da década de 1980. Com a
Eritreia melhoria das relações, o país passou a
procurar por um novo caça que substitu-
ísse os já obsoletos MiG-21, 23 e 25. Em 2007, a ameaça dos novos Em 2002 alguns MiG-21 (possivel- Possivelmente a compra mais re-
Em 2009, a França manteve conver- Su-30MKA da Argélia levou o Marro- Foi noticiada em 2008 a venda ao
mente três) foram recebidos após mo- cente do país tenha ocorrido em no-
sas exclusivas com a Líbia para uma cos a negociar a aquisição de um novo Sudão, pela Rússia, de 12 MiG-29. No
dernização em Israel. Já em agosto de vembro de 2004, envolvendo 12 caças
venda do Dassault Rafale, mas foram caça. Uma proposta de 28 caças mesmo ano, outras notícias deram
2005, o país encomendou 12 Chengdu F7 MG e incluindo modernização de
finalizadas sem negócio. Também hou- Dassault Rafale por US$ 3,3 bilhões conta de que 15 jatos Su-25 foram ad-
F-7NM/NG, com radar Grifo. Segundo radar, em 2005. Zimbábue já operava
ve, ao longo de 2010, conversações com chegou a ser negociada e era dada quiridos da Bielorussia.
fontes chinesas, as entregas ocorre- o Chengdu F7 Airguard desde a déca-
os russos para o fornecimento de caças como certa. Porém, a oferta de caças ram em 2006. da de 1980, e também possuiu caças
Há informações de que oito Su-27 Su-35. Mas qualquer possibilidade de F-16 usados dos EUA iniciou um pro- MiG-23, mas não foram encontradas
foram entregues a partir de 2003, dos negociação a respeito com o regime de cesso de disputa pelo negócio. Uganda
Nigéria informações sobre sua situação atual.
quais seis estariam em serviço atual- Kadhafi foi interrompida pela Guerra Os franceses modificaram a oferta
mente. Mas também há dúvidas sobre Civil de 2011, que levou a uma inter- para um “mix” 12+12 de caças Rafale AMÉRICA
a efetiva compra de jatos Su-25 e venção de forças aéreas e navais sob o novos e Mirage F1 usados, por
MiG-29. É possível que oito Su-25 se- comando da OTAN e à deposição do di- US$ 2,85 bilhões. Mas os EUA oferece- Brasil
jam provenientes da Geórgia e os seis tador líbio (que acabou morto). ram 24 caças F-16 Block 52 novos por
MiG-29, da Moldova. O novo governo se interessou num US$ 2,4 bilhões, proposta que levou o
acordo com a França para revitalizar contrato em 2008. As entregas come-
Etiópia os 12 caças Mirage F1 remanescentes çaram em 2011 e terminarão em 2012. Em 2008, a Nigéria comprou 15 F-7
Airguard para substituir sua frota de A Força Aérea de Defesa Popular
Força Aérea Eritreia
MiG-21. de Uganda possui antigos caças
MiG-21 (alguns possivelmente moder-
nizados) e MiG-23, cuja situação é des- Desde a década de 1990, a Força
Quênia conhecida. Em abril de 2010, foi noti- Aérea Brasileira estudava um pro-
ciado que Uganda estaria interessada grama para substituição de seus ca-
em comprar caças russos. Em dezem- ças, cujo RFP foi lançado oficialmente
bro daquele ano, foi paga uma primei- em 1º de agosto de 2001 para um lote
Em novembro de 1998, o país re- ra parcela de US$ 446 milhões refe- de 12 aeronaves. O RFP foi respondi-
cebeu seus primeiros Su-27, numa rente a um contrato maior de armas, do por cinco concorrentes: o consórcio
encomenda de oito aeronaves. Uma que incluía caças Su-30MK2 como um formado por Dassault, Thales, EADS,
delas, acidentada, foi reposta pela dos itens. Snecma e Embraer, com o Mirage
Rússia. Segundo fontes russas, a Eti- Em 2008, foi noticiada a aquisição No total, Uganda adquiriu seis 2000 5 Mk2. A Saab, BAE e VEM com
ópia comprou mais sete Su-27 em de 15 caças F-5 usados, provenientes Su-30MK2, entregues a partir de julho o Gripen C/D. A Lockheed Martin,
2002, e também há informações de da Jordânia. A compra visava substi- de 2011. Dentro do contrato de armas, com o F-16C/D Block 50/52, a MAPO
que alguns Su-27 da Ucrânia foram tuir parte da frota queniana de F-5, e a parte referente aos caças é estimada com o MiG-29M, e a Rosoboronexport
adquiridos. recebeu críticas no país. em US$ 700 milhões. e Avibrás, com o Sukhoi Su-35 (ape-

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PODER AÉREO ANÁLISE
Força Aérea Venezuelana
sar da mesma denominação, era uma passado. O programa canadense previa com 18 aeronaves F-16 A/B MLU por
versão diferente da atual). a substituição dos CF-18 entre 2015 e US$ 150 milhões, entregues em 2006 e
Após vários adiamentos, o progra- 2016. Uma competição formal não che- 2007. Um segundo lote da Holanda foi
ma foi encerrado no início de 2005, gou a ser lançada, mas representantes confirmado em maio de 2009, e mais
sem qualquer escolha. Isso levou à da Saab, da Boeing e da EADS promo- 18 caças F-16 A MLU foram entregues
compra de 12 caças Mirage 2000 C/B veram suas aeronaves no país, mesmo entre 2010 e 2011.
usados, da Força Aérea Francesa, para sabendo que o Canadá estava envolvido
substituir os Mirage III que seriam de- com o F-35 JSF desde 1997. De fato, o Colômbia
sativados no final daquele ano. O acor- país entrou na fase SDD (System
do foi feito ainda em julho de 2005, Development and Demonstration) do
com entregas entre 2006 e 2008. Na- programa JSF em fevereiro de 2002,
quele mesmo ano, chegavam ao Brasil como participante nível 3.
os primeiros de 8 caças F-5E e 3 F-5F Em julho de 2010, o Governo Cana-
comprados da Jordânia, para revisão e dense anunciou que compraria 65 ca-
modernização ao padrão F-5M. ças F-35 por cerca de 9 bilhões de dóla-
Em maio de 2008 foi lançado um res canadenses, e até pouco tempo No final de 2007 a Colômbia assinou
novo programa, agora para 36 caças, vinha se mostrando firme nessa deci- um contrato com a empresa israelense
denominado F-X2. Concorreram ini- são. Mas o acordo enfrenta pressões IAI para a modernização de 24 caças
cialmente o F-18E/F Super Hornet da políticas dos partidos de oposição, Kfir (11 anteriormente operados pela
Boeing, o Rafale da Dassault, o Gripen principalmente devido a incertezas Força Aérea Colombiana e 13 prove-
NG da Saab, o Typhoon do consórcio quanto ao preço final dos caças e possí- nientes dos estoques de Israel). Esti-
Conclusão: um caso “bipolar” de caças russos com países não democrá- no mercado de caças para as próximas
Eurofighter, o F-16 da Lockheed veis atrasos na entrega. Em março de ma-se que o contrato global, incluindo o conservadorismo ticos carecem de informações detalha- décadas é grande. A oferta de modelos
Martin e o Su-35 da Sukhoi. Os três 2012, o Governo Canadense pela pri- armamento, seja de US$ 200 milhões. O início do século XXI assistiu à in- das ou de valores exatos. mais modernos, como o J-10B, pode le-
primeiros (F-18, Rafale e Gripen) fo- meira vez admitiu que outras alterna- Os primeiros Kfir modernizados chega- trodução no serviço operacional de ca- Portanto, passados mais de 20 var o país a vender para compradores
ram selecionados em outubro de 2008 tivas poderão ser cogitadas, sempre ram à Colômbia em junho de 2009. ças como o F/A-18 Super Hornet, anos da queda do muro de Berlim e da mais exigentes.
para uma “short list”, prevendo-se uma dentro do orçamento de 9 bilhões. Lockheed Martin F-22A Raptor, Euro- dissolução da União Soviética (URSS), Também existem projetos de caças
escolha em tempo hábil para início de Equador fighter Typhoon, Dassault Rafale, os principais caças adquiridos ao re- em nações que até pouco tempo apenas
entregas em 2014. Em 7 de setembro de Chile Chengdu J-10 e PAC JF-17, aos quais dor do mundo são originários dos dois compravam tecnologia. Neste caso, po-
2009, numa coletiva conjunta dos presi- o F-35 deverá se juntar em breve (atu- países que dominaram o cenário geo- dem ser citadas a Coreia do Sul e a
dentes Lula (Brasil) e Sarkozy (França) almente, apenas aeronaves de teste e político durante a Guerra Fria: EUA e Turquia, que possuem planos concre-
declarou-se o início das negociações de treinamento inicial do F-35 estão Rússia (considerando-se este último tos de caças para o futuro. Mas vendas
para a aquisição do Rafale, mas voltou- operando). Destes, somente o F-22 não como herdeiro da URSS). Curiosa- externas significativas desses caças
-se atrás nos dias seguintes. Desde en- teve a sua exportação autorizada. mente, estes mesmos caças, que na podem estar bem mais distantes que
tão, o anúncio de um vencedor vem sen- Os demais entraram no mercado, sua concepção e aperfeiçoamento le- as de aviões chineses, que já são uma
do adiado, e a nova previsão de decisão com graus de sucesso variados. Neste vavam em conta a possibilidade de realidade.
é para meados de 2012. Em 2009, foi anunciada uma doação, século XXI, eles vêm disputando ven- combater um contra o outro, hoje são Que mais poderemos esperar
Em dezembro de 2000, o Chile anun-
por parte da Venezuela, de seis caças das com modelos mais antigos, porém vistos atuando lado a lado com cada quando viajarmos novamente numa
ciou a decisão de comprar dez novos ca-
Mirage 50 para o Equador. Todos foram atualizados e com linhas de montagem vez mais frequência. “volta ao mundo em mais de 80 pro-
Canadá ças F-16 Block 50 por US$ 500 milhões,
entregues antes do final daquele ano. em atividade, como F-16, F-15, Vale destacar também que as atu- gramas ‘F-X’”, daqui a uns dez, doze
dentro de um plano mais abrangente de
Já em dezembro de 2010, um acor- Su-27/30/35, MiG-29 SMT / MiG-35 e, ais versões do Fighting Falcon e do anos? Uma considerável mudança do
substituição da frota de Pantera (versão
do estimado em US$ 80 milhões foi as- até o fechamento da linha em 2007, o Flanker remontam a projetos de mais mercado de usados não pode ser des-
modernizada do Mirage 50 com ajuda
sinado para a aquisição de 12 caças Mirage 2000. E também com modelos de 30 anos atrás. O mundo mudou e cartada. Esse mercado resolveu ou
israelense) e de outros jatos. O contrato
Cheetah C, desativados em 2008 da introduzidos pouco antes da virada do novas opções surgiram, mas o mercado postergou o reequipamento de várias
foi assinado em 2002 e as entregas ter-
Força Aérea Sul-Africana. século, como o Gripen. Não se pode ex- de caças neste início do século XXI não forças aéreas nesse início do século
minaram em 2006.
Prosseguindo na renovação da fro- cluir desse mercado os caças usados, sofreu grandes reviravoltas (manten- XXI. Mas, ao invés de uma base de
Estudos para a substituição dos CF- Venezuela que tiveram considerável participação do também o declínio relativo de forne- milhares de caças fabricados até a úl-
ta, em 2004 o Chile passou a negociar
18 Hornet da Força Aérea Real do Ca- a compra de F-16 usados da Holanda. nos acordos internacionais, até mesmo cedores que tinham grande tradição, tima década da Guerra Fria (e que
nadá (RCAF) datam do final do século O acordo saiu em outubro de 2005, para ajudar na composição de frotas como França e Inglaterra, movimento ainda abastecem o mercado com suas
com novos caças. já visível no final do século XX). vidas úteis esticadas ao máximo), te-
Mesmo com tantas opções novas, Isso não significa que a situação remos uma base bem mais modesta
Força Aérea do Chile pode-se dizer que o mercado mostrou- continuará assim por muito tempo. A de excedentes dos caças construídos
-se conservador nas compras firmadas França, que conseguiu poucas vendas nas duas décadas seguintes. E estes
a partir de 2001 (às quais estamos so- na primeira década deste século, pare- últimos são aviões que já sofrem a
O país anunciou em julho de 2006 mando caças negociados antes, mas ce finalmente esboçar uma reação, concorrência tecnológica da uma nova
um contrato com a Rússia para a entregues no novo século). As maiores mas é difícil que consiga resultados re- geração. Mas também é provável que
compra de 24 caças Su-30MK2. Os vendas foram do F-16 “Fighting Fal- lativos comparáveis aos de décadas muitas forças aéreas terão necessida-
dois primeiros chegaram à Venezue- con” e do Su-27/30 “Flanker”. Nesse anteriores. A Suécia, que exportou des ainda mais modestas que hoje,
la já em dezembro do mesmo ano, e a período, ambos firmaram contratos e/ poucos caças no século passado, tem até como consequência das atuais re-
explicação para a pronta entrega é ou entregaram mais de 500 unidades conseguido algumas vendas dignas de duções orçamentárias.
creditada à existência de algumas novas para clientes externos, cada um. nota, embora a participação no merca- E será que teremos que mudar o tí-
aeronaves do tipo não entregues para Se forem somadas também as ne- do ainda seja pequena. tulo, numa futura matéria, para “me-
a China. Todos os caças foram recebi- gociações envolvendo caças usados, o Já a China é um país que pode sur- nos de 80 programas ‘F-X’”? Ou será
dos até 2008, e o país estuda a com- F-16 leva uma pequena vantagem. Po- preender bem mais. Embora tenha para mais ainda? Para as respostas,
pra de mais Su-30 para equipar outro rém, deve-se destacar que algumas ne- mantido o pequeno mercado conquis- temos um encontro marcado daqui a
esquadrão. gociações envolvendo principalmente tado na década de 1990, seu potencial mais ou menos 10 anos.q

68 Forças de Defesa www.aereo.jor.br www.aereo.jor.br Forças de Defesa 69


PODER AÉREO EXPOSIÇÃO
Fotos: Roberto Portella Bertazzo

QQ Airbus A-400M QQ KAI T-50 Golden Eagle

FIDAE 2012: poucas novidades


QQ Roberto Portella Bertazzo
bertazzor@gmail.com
de março, porque sua asa estava quase
batendo na torre de controle e somente
F-16 e o C-130XJ, versão de baixo cus-
to do Hercules, lançado para concorrer
redução de ruídos e vibrações a bordo.
Microfones instalados sobre cada jane-
geração, coisa impossível de se fazer em
outros aviões turboélice.
plar pertence à Conaf (Corporación
Nacional Forestal) do Chile e é utiliza-
após várias horas de manobras com o com o Embraer KC-390. la do avião captam as emissões de ruí- A Alenia-Aermacchi exibiu seu do no combate a incêndios.

A
o contrário da edição ante- reboque o avião foi liberado. Outra novidade foi a presença do do e um sistema a bordo emite sons transporte C-27 Spartan, derivado do Entre as indústrias israelenses, a
rior, a XVII Fidae trouxe A Airbus trouxe mais uma vez o Viking Air Limited DHC-6 S 400 Twin que anulam os ruídos e vibrações do Fiat G-222. novidade foi o “pod” de reconhecimen-
bem poucas novidades aos A-380, maior avião de passageiros do Otter de nova produção, um avião sem avião. A Eurocopter exibiu vários de seus to ELM2060P da IAI.
céus do Chile. mundo, que fez impressionantes voos substituto, que havia deixado de ser Durante o voo, foram feitas demons- modelos, com destaque a um EC-725 A grande novidade da feira foi sem
A Boeing trouxe o seu modelo 787 diários de apresentação. O cargueiro fabricado há vários anos e que agora trações apagando o sistema, o que cau- fabricado na França e já entregue à dúvida o treinador a jato sul-coreano
Dreamliner, que apesar de estar pela militar A-400M, uma das poucas novi- está disponível no mercado com exem- sou grande admiração aos presentes a Força Aérea Brasileira e o EC-135. KAI T-50 Golden Eagle que teve dois
primeira vez presente na feira, não fez dades da feira, fez uma exibição em plares novos de fábrica. bordo, pois o ruído é significativamente A Bell exibiu o novo Bell 407AH e o exemplares em exibição, um com padrão
nenhuma exibição em voo e protagoni- voo no dia 28 antes de partir para a A Bombardier demonstrou com maior com o sistema apagado. Com o sis- Bell 429 entre outros helicópteros. de camuflagem em tons de cinza e outro
zou um desagradável incidente, com Bolívia em prosseguimento aos seus voos para a imprensa especializada o tema em funcionamento, podemos con- A Augusta Westland exibiu um he- de alta visibilidade que se apresentou
importantes convidados a bordo, testes de certificação. seu turboélice comercial Q-400, um versar perfeitamente como se estivésse- licóptero W3A Sokol de sua subsidiá- em voo em todos os dias da feira.
quando não decolou na quarta-feira 28 A Lockheed Martin promoveu o avião único por seu sistema ativo de mos em um avião a jato de ultima ria polonesa PZL-SWIDNIK. O exem- A presença militar dos Estados

QQ Airbus A-380 QQ Boeing 787 Dreamliner QQ FAdeA Pampa II

QQ Embraer Super Tucano da FACh


70 Forças de Defesa www.aereo.jor.br www.aereo.jor.br Forças de Defesa 71
PODER AÉREO EXPOSIÇÃO
Fotos: Roberto Portella Bertazzo

QQ Alenia-Aermacchi C-27J Spartan

QQ Maquetes de A-Darter e MAA-1B,


mísseis ar-ar da Mectron

Unidos foi bem menor que na edição Da Austrália, veio um Gippsland com a Associação Brasileira de Indus- A Aeroeletrônica apresentou em guiagem pela aeronave atacante, pois da Mauritânia. A Embraer também
anterior, com dois F-16, um KC-10 e GA-8 Airvan, avião que se assemelha trias de Material de Defesa e Seguran- seu estande uma nova geração de “dis- todo o sistema de programação e lan- anunciou seus planos de atuação no
um C-130H. a um irmão menor, com motor a pis- ça (ABIMDE) plays” para aviões de combate do futu- çamento das bombas é “wireless”. setor de fabricação de satélites.
A FACh exibiu em voo os seus tão, do Cessna Caravan. Este avião Em 2012 o Brasil participou com a ro e as opções de modernização das A Novaer Craft exibiu seus proje- Apesar de não exibir as mesmas
Lockheed Martin F-16C Block 50 e os voou pela primeira vez em 1995 e maior quantidade de empresas de toda cabines dos aviões Embraer Tucano, tos de aviões de treinamento básico. quantidades de aeronaves de edições
F-16MLU adquiridos da Holanda, A está destinado a cobrir a faixa de a história da Fidae. Foram mais de 50 Bandeirante e A-1 (AMX). Para uso civil, o U-Xc Stardream. Para anteriores, a Fidae 2012 teve uma boa
esquadrilha de acrobacias Halcones, mercado entre o Cessna 206 o Grand expositores. A Mectron, das Organizações uso militar, o T-Xc Pilgrim, projetado organização e um volume de negócios
fez apresentações impecáveis. Um Su- Caravan. A FAB esteve representada por Odebrecht, apresentou uma gama de com a intenção de substituir os Neiva superior.
per Tucano e um KC-135E estiveram Representando a aviação Argentina, dois Mirage 2000C (com um esquema armas inteligentes, como os mísseis T-25 da FAB. A programação das exibições em
em exibição estática. A Enaer exibiu a FAdeA trouxe o Pampa II, com instru- de pintura novo, em tons de cinza e ar-ar MAA-1B e A-Darter, os mísseis A Embraer exibiu um Phenom 100 voo deixou a desejar porque muitos de-
um T-35 Pillán. mentos atualizados e motor muito mais marcações em preto). Também vie- antirradar MAR-1, o míssil anticar- e um 300 e anunciou através de sua les foram realizados pelas manhãs,
Vários aviões e helicópteros da potente, que melhorou de forma signifi- ram um VC-99B, um E-99 AEW e oito ro MSS 1.2 e as bombas SMKB-82 e subsidiária de defesa e segurança en- com luz inadequada para fotografia.q
Aviação do Exército do Chile também cativa as suas apresentações. T-27 Tucano (todos aviões fabricados SMKB-83, que possuem sistema de comendas de Super Tucano para paí-
estiveram expostos, entre eles um As empresas brasileiras se apre- pela Embraer) da Esquadrilha da Fu- guiagem inercial e opção de propul- ses africanos num valor superior a 180 Roberto Portella Bertazzo é Bacharel
Puma recentemente modernizado. A sentaram em um pavilhão próprio, or- maça-EDA, que com suas exibições são, que possibilita um alcance de milhões de dólares. em História pela UFJF e membro de
Aviación Naval do Chile exibiu um Pi- ganizado pela Agência Brasileira de talentosas trouxeram mais uma vez 50km. Os novos clientes do Super Tucano Centro de Pesquisas Estratégicas Pau-
latus PC-7 e um helicóptero EC 365 Promoção de Exportações e Investi- as cores brasileiras aos céus andinos Essas bombas têm baixo custo e são a Força Aérea de Burkina Faso, a lino Soares de Sousa da Universidade
Dauphin. mentos (Apex-Brasil), em associação de Santiago. não exigem o transporte de “pods” de Força Aérea da Angola e a Força Aérea Federal de Juiz de Fora.

QQ KAI T-50 Golden Eagle QQ Pilatus PC-7 da Av. Naval do Chile QQ Mirage 2000C da FAB

QQ MAR-1, míssil antirradar da Mectron

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FORÇAS TERRESTRES GUERRA QUÍMICA

Alan Boinet da EADS fala


n FD – No que consiste a solução

Cassidian
Biodesys?
Alan Boinet – O sistema Biodesys é
uma rede transportável de sensores
sobre sistemas CBRN de detecção e dispositivos de coleta
Química, Biológica e Radiológica que
funciona via controle remoto, que ope-

A
Cassidian
lan Boinet, chefe de siste- ram com um posto de comando de co-
mas CBRN (Chemical, Bio- nhecimento do ambiente e Laborató-
logical, Radiological, Nucle- rio de identificação local. O sistema
ar) da EADS, esteve no Brasil para o Biodesys detecta e alerta sobre as
evento CBRN South America no Rio contaminações, além de ser capaz de
de Janeiro, em março de 2012, e res- analisar amostras de várias matrizes
pondeu a perguntas feitas pela revista (ar, pó e água) e de identificar agentes
Forças de Defesa. que precisam ser detectados.
Alan Boinet tem mais de 25 anos A solução Biodesys está configurada
de experiência na EADS, e sempre tra- para lidar com ameaças em locais críti-
balhou na divisão de defesa e tecnolo- cos, vigilância de fronteiras, grandes
gia, recentemente nomeada Cassidian. eventos ou pontos fortes (por exemplo,
Assumiu o cargo atual há 3 anos, e an- públicos grandes). Ela é fácil e rápida
tes disso trabalhou como líder de pro- para transportar até o local para detec-
jetos na empresa. A área de CBRN faz tar contaminação e/ou investigar, cole-
parte da divisão de IS – Integrated tar e analisar amostras para identifica-
Systems. O executivo é formado em ção de agentes bioquímicos.
engenharia elétrica.
n FD – O Biodesys já é utilizado por
n Forças de Defesa – Quais os siste- algum país?
mas de CBRN que a EADS está ofere- Alan Boinet – A Delegação Geral de
cendo ao Brasil? Armamentos da França (DGA) notifi-
Alan Boinet – A EADS pode oferecer cou a EADS, em 2009, sobre o desen-
três grandes soluções em sistemas volvimento de Biodesys dentro da es-
CBRN ao Brasil para reagir a ameaças: trutura do programa francês Detectbio.
que servem exclusivamente para a tes, processamento de alarmes de adver- O programa Detectbio é uma prio-
1 - Solução de “nós” de sensores CBRN biocoleta constante. tência dos eventos CBRN a partir das ridade máxima do centro de comando
O primeiro detecta e avisa – é um ferramentas de advertência. do Exército francês, para proteger as
sensor biológico que dispara uma cole- 2 - Solução CBRN Comando, Controle As ferramentas de informação e co- forças operando sob ameaça biológi-
ta a partir de um biocoletor e leva a e Comunicação (C3) nhecimento do ambiente permitem ca. O sistema Biodesys é a chave da
amostra ao laboratório local. A solução C3, baseada na arquite- mostrar uma figura operacional do visão global do Exército francês para
Outro modo é a biocoleta sistemáti- tura do software Cassidian, consiste campo global dos materiais CBRN que redefinir completamente seu futuro
ca, com biocoletores trabalhando 24 ho- basicamente em: uma ferramenta de envia os relatórios de conhecimento do sistema de defesa CBRN (arquitetu- muitas responsabilidades estão nas ção de energia e água; instalações e
ras por dia, 7 dias por semana, coletan- advertência; uma ferramenta para in- ambiente ao sistema de gerenciamen- ra, detecção, reconhecimento, prote- mãos da polícia e das equipes de res- acampamentos fixos militares; portos
do amostras a serem analisadas para formar decisões; uma ferramenta de to de informações da rede para o nível ção individual, descontaminação posta rápida. e aeroportos; eventos em grande esca-
criar uma base sistemática ou possibili- comunicação e conhecimento do am- dos tomadores de decisão. etc.) durante os próximos anos. Mas estamos certos ao questionar la; vigilância e segurança urbana.
tar o rastreamento se algo aconteceu e biente. até que ponto isso tudo está coordena- O Cassidian oferece sistemas ple-
o alarme não foi ativado. Portanto, se A ferramenta de advertência é o 3 - Biolaboratório no local n FD – Grandes eventos são assunto do e alinhado com as várias partes in- namente integrados que garantem a
houve furos na rede, você também rece- componente principal que liga as solu- O laboratório é localizado em con- importante no Brasil hoje. O sistema teressadas envolvidas: seguranças dos segurança física contra intrusos e en-
be um alarme retrospectivo para anali- ções de monitoramento e detecção têineres ISO e não montado definiti- está sendo oferecido para a proteção estádios; polícia; salas de controle; or- tradas ilegais, foguetes, artilharia,
sar suas coletas a cada seis horas. (plataforma de sensores múltiplos) vamente em um veículo; é facilmente CBRN, por exemplo, para a Copa do ganizações antiterroristas e agências morteiros e ataques CBRN. O sistema
Cada sensor biológico pode ser com as ferramentas de conhecimento operado durante missões em anda- Mundo? especializadas HAZMAT; primeiros também oferece defesas cibernéticas
acompanhado por um biocoletor, pois o do ambiente. A ferramenta de adver- mento (militares e/ou civis) conecta- Alan Boinet – As defesas CBRN ge- socorros. Também questionamos até para proteção contra as interrupções
alarme irá iniciar uma coleta no mes- tência permite obter os dados que ain- das às tendas para atingir o nível ralmente não são consideradas ou in- que ponto estão integrados com o sis- intencionais dos sistemas de TI e Sis-
mo local do alarme. O sinalizador pos- da não foram processados das plata- Colpro. tegradas em sistemas de segurança de tema geral e procedimentos de segu- temas de Controle Industrial.
sui comunicações (solução Cassidian formas de sensores múltiplos e O nível de automação do sistema é grandes eventos. E, por um lado, não é rança dos estádios. Além disso, é uma solução para: se-
PMR) que transmitem o alarme ins- converter as detecções do sensor em o necessário para garantir sua opera- surpreendente que em um domínio de E, por fim, esta é uma questão de gurança física e vigilância em terra,
tantaneamente para a área de contro- alarmes para processamento através ção por não-profissionais, o que limita segurança e controle de multidões, as recursos humanos e o componente de mar e ar (vídeo vigilância, análise,
le. Além disso, também existem detec- das ferramentas de conhecimento do os dispositivos de identificação. As defesas CBRN não tiveram uma prio- treinamento é muito importante. controle de acesso, detecção de intru-
tores ligados aos sinalizadores para a ambiente e reação das forças armadas Análises podem ser realizadas usando ridade muito alta. sos); segurança cibernética; gerencia-
detecção Química e Radiológica. e primeiros socorros. duas técnicas de identificação (genéti- Porém, fiquei surpreso quando des- n FD – Quais os outros sistemas que a mento de crises e sistema de resposta
Sendo assim, tem-se uma barreira A ferramenta de suporte a decisões ca e imunoensaios). cobri que as diretrizes da FIFA para os EADS está oferecendo ao Brasil para a de emergência; desenvolvimento e
de sinalizadores para detectar se algo inclui componentes como o número ideal O Sistema de Gerenciamento de Estádios (capítulo Proteção e Seguran- proteção e monitoramento de grandes treinamento organizacional; gerencia-
está se aproximando vindo de um ini- de detectores e o posicionamento da fer- Informações do Laboratório admi- ça - os padrões obrigatórios das insta- eventos? mento de risco e planejamento de se-
migo localizado. O sistema é bastante ramenta, previsão de dispersão atmosfé- nistra todo o processo de automação lações) não mencionam as defesas Alan Boinet – O Cassidian. Trata-se gurança através de ferramentas de si-
versátil, possui um módulo central rica e modelo de degradação, ferramenta e os dispositivos de análise, e é mui- CBRNE em nenhum momento. de um sistema integrador e provedor mulação e experimentação (por
com o laboratório e a central de co- de previsão meteorológica, modelo com- to simples para garantir resultados Nós sabemos que os locais possuem de serviço que oferece soluções para os exemplo, padrões de comportamento
mando, sinalizadores e biocoletores putacional de fonte de liberação de agen- claros. planos de evacuação, e parece que seguintes setores: governo; distribui- de multidões).q
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SAS
FORÇAS TERRESTRES FORÇAS ESPECIAIS
MoD UK

QQ Militares do SAS na “Operação Nimrod” de maio de 1980, quando resgataram reféns da Embaixada Iraniana em Londres

Special Air Service


1º RPIM. Já no Exército Grego, aque- italiano sobre o Rio Tragino. Dez me­ os ataques da Força Aérea Real); e, fi-
les oficiais que fugiram do cerco ale- ses depois, o então “Destacamento L”, nalmente, na “Operação Husky”, a in-
mão e forma­ vam o “Helios Lokos” de que falamos brevemente na parte vasão da região italiana da Sicília, sal-
(também conhe­cido como “Esquadrão inicial deste texto, usou caminhões tando sobre li­ nhas inimigas de
Sagrado” e atu­ ando igualmente em para invasão e eva­são das suas mis- retaguarda e sabo­tando rotas de supri-
QQ Sérgio Santana de inva­sões e evasões rápidas a bordo ações navais) foram desmobilizados sões de ataque a campos de pouso ale- mento.
ssantana@fordefesa.com.br de ca­minhões Chevrolet do Grupo de após o Exército Grego ter aniquilado a mães em Sirte, Agheila e Agedabia, Contudo, foi em 1944 que a tropa,
Deser­to de Longo Alcance. Mais tarde, organização co­munista ELAS durante destruindo 61 aeronaves e 30 veículos. já elevada à condição de Brigada (com

T
endo sido formado como uma os caminhões foram trocados por jipes uma guerra civil (1946-1949). Mas Iniciava assim o seu re­pertório contí- 3.000 integrantes) atuou de modo ain­
grande força terrestre voltada armados com metra­ lhadoras Vickers suas tradições permanecem em uma nuo de ações, que tem sido tema de de- da mais incisivo. Após o início da “Ope­
para o combate a formações de .303 e Browning .50 (hoje, o SAS utili- Força de Explo­ração que consta da or- zenas de livros. ração Overlord”, a invasão da Norma­
idênticas proporções, o Exército Britâ­ za veículos Land Ro­ver), cujo emprego dem de batalha daquela força terres- Nos dois anos seguintes, seus mem­ dia, o SAS foi encarregado de impedir
nico perdera cerca de 250.000 dos seus tático resultou em 90 aerona­ves des- tre, que conserva não apenas o distin- bros atuaram “nas sombras” em diver- que as reservas alemãs chegassem à
combatentes para os Kommandos truídas em solo até o Natal de 1941. tivo do SAS, mas também o seu lema, sos locais: saltando de paraquedas nas linha de frente, por meio de penetra­
afri­kaneers na Segunda Guerra dos Esses êxitos motivaram uma maior traduzido para o grego. flo­restas da então Iugoslávia, a fim de ção clandestina ou de lançamento em
Bôe­ res (1899-1902) e outros tantos expansão a partir de 1942: a criação do Em que pesem os resultados obti­ en­grossar as fileiras dos partisans de paraquedas em território inimigo ocu­
para os guerrilheiros árabes na Pales- Esquadrão Especial de Bar­ cos (que dos, o ano de 1945 representou tanto o Jo­sef Tito; sequestrando e eliminando pado, no qual guerrilheiros foram con­
tina en­tre 1936 e 1939. Em junho de operou pela primeira vez em setembro final da Segun­da Guerra quanto da o chefe pró-nazista do Estado-Maior tactados e auxiliaram na destruição de
1940, o Estado Maior daquela Força daquele ano, destruindo ae­ronaves e Brigada SAS do Exército Britânico. ira­niano, antes que forças alemãs linhas de comunicação. Na “Operação
aprovou a criação de uma pequena tro- depósitos alemães na Ilha de Rodes), Mas ela ressurgiu no ano seguinte, invadis­ sem aquele país; destruindo Houndsworth”, 144 membros do SAS
pa, inicial­mente designada “tropa re- designado pela sigla SBS. Além disso, como resultado de um estudo do Comi- aeronaves e depósitos alemães na Ilha sabotaram linhas férreas fran­ cesas
lâmpago” ou “leopardos”, cuja mobili- houve a troca do nome “Destacamen­to tê de Investigação Tática do Escritório de Rodes; inutilizando nada menos por 22 vezes, eliminando 350 alemães.
dade do po­der de fogo devia contrapor L” por SAS, Serviço Aéreo Especial no de Guerra, que recomendou sua re- que 400 aero­naves na África (mais que Na “Operação Bullbasket”, destruíram
efetivos numerosos, tendo prioridade idioma inglês, que em janeiro de 1944 criação para que fosse responsável por
para ser equipada com os melhores lo- foi elevado à Brigada, com cinco Es- penetra­ ções profundas em território

MoD UK
tes das úl­timas armas disponíveis. A quadrões operacionais e um de Co­ inimigo na hipótese de um novo confli- QQ Homens do SAS na
ordem foi repassada para todas as uni- municações e Sinais, o “Fantasma”. A to na Eu­ropa, contra um ex-aliado Guerra do Golfo
dades mi­litares, a fim de recrutar vo- este último cabia as missões de reco­ transforma­do em inimigo, a União So-
luntários para missões então inéditas. nhecimento, cujos resultados deviam viética.
A partir do final daquele mês, ini­ ser transmitidos às unidades operacio­ Atualmente, o SAS é integrado pelo
cialmente com 180 homens, o “Coman­ nais. Foram adicionados, ao seu efeti- 22º Regimento (com quatro Es­
do Nº11” originou outras unidades, os vo, milita­res de algumas nações então quadrões, especializados em operações
“Batalhões de Serviços Especiais”, que sob o do­mínio nazista, como os belgas, aéreas, navais, de montanha e móveis,
em seguida foram expandidos ainda franceses e gregos. cada um com quatro grupos de 16 ho­
mais. Também passaram a ser ades- Uma força de 66 homens da chama- Assim, ao fim daquele conflito mens) e os 21º e 23º Regimentos, estes
trados em para­quedismo para atacar a da “Layforce”, formada para atuar no mundial, esses militares levaram con- de Reserva. A base situa-se em Here­
retaguarda inimiga, seguindo o exem- Norte da África, foi selecionada para sigo a experiência e o exemplo adquiri- fordshire, e seus integrantes podem
plo dos en­tão bem-sucedidos paraque- integrar o “Des­tacamento L”, cuja pri- dos no SAS, formando na Bélgica o 1º ser identificados pela frase “Who Da­
distas ale­mães, incorporarando o “aé- meira surtida foi o ataque a cinco ba- Regimento de Paraco­mandos que com- res Wins” (Quem Ousa Vence) inscrita
reo” ao seu nome. Em 1941, com o ses aéreas alemãs naquela região, em bateu na Coreia e na África. Na Fran- no bordado oficial da tropa.
advento dos planadores, havia duas novembro do mesmo ano. Contudo, a ça, foram fundadas as forças aero­
Brigadas so­mando seis Batalhões, efe- escuridão e fortes ventos transforma- transportadas daquele exército, Em Ação na Segunda Guerra
tivo mais ex­posto à defesa inimiga, ram em de­sastre essa primeira surti- con­servando o lema do SAS ou essa Mundial
como demons­trado nas grandes perdas da, matando quarenta dos 62 envolvi- sigla, tendo combatido no Vietnã e Em fevereiro de 1941, ainda como
sofridas nas batalhas na Síria, Creta e dos, o que resultou no emprego da também na África, hoje representadas 11º Batalhão, a tropa que seria desig­
Tobruk. unidade não mais pelo ar, mas a partir por uma unidade de intervenção, o nada como SAS atacou um aqueduto
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FORÇAS TERRESTRES FORÇAS ESPECIAIS
Fotos: MoD UK
trens no sul da França, sendo este o pregado na célebre “Operação A tropa estava armada de fuzis de procedi­ mento operacional padrão
protótipo das ações da tropa naquele Nimrod”, de maio de 1980, quando M-16 (tanto com o lançador de gra­ (nove sema­nas de patrulha, uma se-
teatro de ope­rações. E, por fim, tam- resgatou reféns da Embaixada Ira- nadas M203 como sem ele), metralha- mana de trei­ namento com munição
bém merece destaque a “Operação niana em Londres, neutralizando to- doras GPMG de 7.62mm, pistolas real, e nove dias de batalha no campo,
Ki­pling”, quando ações iniciadas por dos os sequestradores. Browning Hi-Po­wer de 9mm, mortei- seguida de avaliação de “conduta de-
ape­nas seis homens do SAS, no centro ros L16 de 81mm e arma antiblinda- pois da captu­ra”). Uma vez superada
da França, resultaram na rendição de O SAS na Guerra das Malvinas gem LAW66. A tro­pa chegou ao local essa seleção o candidato ingressa na
3.000 soldados alemães. No último ano Em vista dos trinta anos do confli- do ataque às 3h50, tendo que cumprir fase de treina­ mento continuado de
da guerra, o SAS foi empregado em to das Malvinas/Falklands, ora sendo sua missão e chegar ao ponto de reco- doze meses de duração, com cursos de
missões utilizando incursão rápida lembrados, cabe aqui detalhar com al­ lhimento às 6h25. paraquedismo e de comunicações, se-
com jipes, a exemplo das operações guma profundidade uma das mais ou­ No decorrer do ataque, seis Puca- guindo para o período de trei­namento
“Keystone” (na Holanda), “Larkswood” sadas, espetaculares e corajosas de­ rás que estavam no local fo­ram des- principal, em que pode assumir quali-
e “Howard”, em território alemão. Foi monstrações do profissionalismo do truídos por cargas explosivas coloca- ficações como apoio aéreo aproxi­mado,
também contra a Alemanha que o SAS: o ataque à Ilha Pebble, localiza­ das no alojamento dos trens de pouso, linguagem e medicina de com­bate.
“Serviço” atuou na sua última missão da nas Malvinas Ocidentais e cuja pe­ ou afixadas nos mesmos com fita ade- Deve ser mencionado que alguns
na Segunda Guerra Mundial, a quena pista servia aos bimotores tur- siva. Quatro trei­nadores Turbo Men- antigos membros da tropa participam
“Opera­ção Apostle”, quando desarmou boélice de ataque Puca­ rá, da tor foram neutrali­zados por duas car- do comitê que apontará os futuros in­
as guarnições nazistas em território Argentina, aeronaves capazes de in- gas cada, uma no estabilizador tegrantes do SAS.
no­rueguês. fligir danos às tropas de infantaria horizontal direito e outra colocada sob
No fim daquele conflito, o SAS ha- britânicas. Mas qualquer ação devia a nacele do motor. Uma aeronave de Organização e armamento
via eli­
minado ou ferido gravemente ser precedida de um reco­nhecimento, transporte Short Skyvan foi destruída Excluindo unidades administrati­
nada menos que 7.733 militares executado em 10 de maio de 1982 por a tiros. O ataque foi um completo su- vas, está organizado desta forma (em
germâni­cos. oito homens do Esquadrão D do 22º cesso, com a tropa invaso­ra se retiran- QQ O SAS demonstrou coragem e profissionalismo na Guerra das Falklands/Malvinas termos estritamente operacionais):
Regimento SAS, em quatro ca­noas in- do novamente sob fogo do Glamorgan. sendo consi­ derada uma das equipes Por último, vem a fase de escape e 21º Regimento: três Esquadrões (cada
Ações do SAS nas décadas do fláveis, que transmitiram o que ha- Apenas um dos militares britânicos foi especiais que estabeleceram o padrão evasão, quando o candidato deve com- um com quatro equipes de quatro
pós-guerra viam encontrado para a sua base, o levemente ferido pela re­ ação tardia para este tipo de operação, o SAS tam- pletar um percurso sem ser capturado. membros, organização comum aos ou-
Entre 1948 e 1957, o SAS realizou navio-aeródromo HMS Hermes. Um dos defensores da base, seis fuzileiros bém comete er­ros. Um exemplo ocor- A resis­tência a interrogatório também tros Esquadrões dos demais Regimen-
operações na Malásia contra for­ças co- ataque aéreo por bombardeiros estra­ navais. reu em março de 2011, durante a re- faz parte da fase final do curso, que tos); 22º Regimento: cinco Esquadrões;
munistas, quando um total de 1.000 tégicos Vulcan ou mesmo aeronaves Depois da participação na Guerra cente operação na Líbia, quando um também inclui o manejo de armas es- 23º Regimento: três Esquadrões.
voluntários, designados “batedores de ataque Harrier GR.3 foi excluído das Malvinas, a tropa esteve pre­sente helicóptero conduzindo uma equipe foi trangeiras, direção ofensi­va/defensiva A base principal fica desde 1999 em
malaios”, ins­truídos por veteranos do pela proximidade de população civil, em cada um dos grandes confli­tos que apreendido por rebeldes, causando a e combate corporal. Finalizada esta Credenhill, localidade que também se-
“Serviço”, der­rotaram dez batalhões res­tando a opção de invasão por tro- as Forças Armadas britânicas toma- revelação da presença da tropa. parte básica, o mi­litar do SAS passa dia o 8º Destacamento do Corpo Aéreo
de guerrilhei­ros comunistas em opera- pas especiais. ram parte. No Iraque, onde fez parte por treinamento em contraterrorismo do Exército, que está sendo reequipado
ções na selva. Na campanha do Bor- No amanhecer do dia 14 de maio, da Força-Tarefa 145 (depois re­ Seleção e treinamento (entrada em casas, prédios, trens e com cinco helicópteros Eurocopter
néu, entre 1962 e 1966, um esquadrão 53 homens do mesmo Esquadrão D nomeada Força-Tarefa 88), o SAS for­ É dito que de cada 125 candida- aeronaves). AS365N3 Dauphin II e dois AS 342 Ga-
do SAS treinou tropas locais contra (dezoito encarregados da destruição mou a Força-Tarefa Negra, cuja fun­ tos, somente dez conseguem êxi- Conforme já mencionado, o zelle, todos ostentando esquemas de
inimigos de países vizinhos, como a In- das aeronaves, dezesseis que deviam ção era capturar membros superiores to no processo de seleção, que SAS foi e tem sido inspiração pintura civis, embora possam ser equi-
donésia, e combateu em terreno mon- fornecer cobertura e dezenove que de­ da Al-Qaeda, o que culminou com a consiste de três fases da parte de muitas forças especiais ao pados com dispositivos de interferência
tanhoso. viam agir como reserva à primeira morte do líder Abu Musab Al-Zarqawi, básica, repetidas duas vezes redor do mundo. Seu treina- eletrônica e de alerta.
Em Aden, então colônia britânica, equipe) desembarcaram na ilha. Eles em junho de 2006. por ano para a seleção dos fu- mento de evasão foi copiado Antes de receber tais aeronaves,
rebeldes apoiados por soviéticos, egíp­ foram transportados por três helicópte­ A tropa ainda está presente no Afe­ turos integrantes do 22º Re- pela “Força Del­ ta” norte- esta unidade especializada em trans-
cios e iemenitas, além de ex-membros ros Sea King HC.4 do Esquadrão 846, ganistão, mas pouco se sabe sobre gimento. -americana, (cujo primei- portar discretamente frações do SAS
do SAS, se insurgiram contra as forças sob apoio de fogo fornecido pelo des­ suas ações naquele teatro de opera- A primeira, com dura- ro comandante, Charles voava com quatro Agusta A109A
locais, numa série de combates em ter­ tróier HMS Glamorgan. ções. É dig­no de menção que mesmo ção de três sema­nas, visa “Charlie” Be­ ckwith, en- Hirundo, dois dos quais foram toma-
reno variado que perduraram três avaliar a resistência física frentou um estágio no dos do Exército Argentino durante a
anos, de 1964 a 1967. Neste período, do candidato, oriundo de “Ser­viço”, conforme Eric Guerra das Malvinas.
uma fração do SAS integrou a chama­ qualquer das Forças Arma- Haney descreve em seu li- O armamento inclui pistolas Sig
da “Radforce”, formada por unidades das britânicas. Essa fase se vro “Força Delta – Por Sauer P226, Browning Hi Power ou
aerotransportadas, blindadas, de arti­ inicia com monta­ nhismo, nas monta- Dentro da Tropa Antiterrorista Ame- qualquer outro modelo em 9x19mm,
lharia e de engenharia de combate, nhas Brecon Bea­ cons e Black Hills ricana”). Seu modelo de entrada táti- além do modelo Welrod, com silencia­
que foi empregada para cercar a locali- (País de Gales), e é finalizada com uma ca tem sido usado mesmo por unida- dor, também em 9x19mm; espingarda
dade de Rebel Ja­ dfan, tomada pelos marcha de 64 km a ser cumprida em des paramili­tares de elite, a exemplo Remington em calibre 12; carabina C8
rebeldes. Apesar de algum sucesso, o menos de 24 horas, na qual o soldado do Comando de Operações Especiais (Colt Commando); fuzis de assalto
SAS, que deveria assegu­rar uma zona leva seu equipamento de combate, que da Policia Mi­litar do Estado de Sergi- Colt M16, HK 33/53, ambos em
de pouso para unidades paraquedis- pesa cerca de 40 kg. pe. 5.56x45mm e o G3 em 7.62x51mm, fu­
tas, sofreu algumas bai­xas no proces- Na fase seguinte, é realizado um Já o processo de seleção dos 21º e zis de precisão HK 417 e L96A1 (am­
so. Aden acabou conquistando sua treino de selva, em Belize, onde o futu- 23º Regimentos SAS, encarregados de bos em 7.62x51mm) além do fuzil anti-
inde­pendência da Grã-Bretanha. ro SAS fica algumas semanas. Os can- prover reconhecimento de longo alcan­ blindado AW 50 (em 12.7x99mm);
Adicionalmente, o “Serviço” foi didatos são agrupados em equipes de ce para as ações do já mencionado 22º me­tralhadoras HK MP5SD e MAC, em
utili­zado contra forças terroristas tí- quatro elementos, que devem sobre­ Regimento, é um pouco diferente, mas 9x19mm e 380ACP, respectivamente;
picas, como nas operações contra o viver e combater em ambiente de sel­ com­ posto por duas fases: resistência lançador de gás ARWEN 87; lançador
IRA, o Exército Republicano Irlandês va. Há também treinamentos de guer- físico­
-psicológica (nove semanas de de foguetes M72; lançador de grana­
na Irlan­da do Norte (1969 e 1976) e ra no deserto em Omã, em ambiente treina­mento físico-psicológico, duas das M203 e Mk19 (ambos em 40mm,
na Espanha, durante a “Operação QQ Até recentemente, frações do SAS voavam em aeronaves A109A em pinturas montanhoso na Bavária e na neve da semanas de treinamento e avaliação com o último acoplado aos veículos); e
Flavius”, em 1988. Também foi em- civis, duas das quais foram tomadas do Exército Argentino na Guerra das Malvinas Noruega. nas “Brecon Beacons”) e treinamento o míssil superfície-ar Stinger.q

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FORÇAS TERRESTRES HISTÓRIA
Fotos de Fernando “Nunão” De Martini

Nelson tentou dar um golpe de mão,


mas ‘El Tigre’ quis ficar com o braço
consequências globais. E o almirante
O almirante Horatio Nelson, herói é ninguém menos que Horatio Nelson
(1758-1805), aquele que anos depois
britânico das Guerras Napoleônicas, foi eternizado em Trafalgar, quando
perdeu seu braço quando tentou se perdeu a vida mas ganhou a batalha.
Só que, na chamada Batalha de San-
apossar de Santa Cruz de Tenerife, ta Cruz de Tenerife, ele perdeu tanto
um braço como o combate. E diz a
nas Ilhas Canárias. Foi lá que lenda que o culpado foi o outro prota-
gonista desta nossa narrativa, um
encontramos o canhão ‘El Tigre’, que canhão chamado “El Tigre”.
segundo a tradição local disparou o O ano agora é 2012. Se você visita
hoje o local da batalha, o que vê?
projétil que atingiu Nelson. Uma ampla praça em frente à prefei-
tura, ou melhor, ao “Cabildo Insu-
lar”. É a “Plaza de España”, bem per-
QQ Fernando “Nunão” De Martini história se encontram para contar um to do mar e do cais de onde
nunao@fordefesa.com.br interessante relato: como um dos desembarcam milhares de turistas,
maiores almirantes britânicos perdeu vindos de navios de cruzeiro que

M
uitas vezes, a história pa- seu braço. aportam em Tenerife. A maior parte
rece estar soterrada por O ano é 1797. O local, as ilhas Ca- desses novos “invasores” passa direto
camadas de lendas. Por nárias, possessão espanhola no Ocea- pela praça e corre para a área comer-
isso não surpreende que seja exata- no Atlântico. O contexto, as Guerras cial da cidade, famosa como parada
mente embaixo da terra, sob uma das Napoleônicas, que praticamente vi- de compras em pleno Atlântico, com
praças mais importantes da cidade de raram a Europa do avesso na passa- suas amplas lojas repletas de produ-
Santa Cruz de Tenerife, que lenda e gem do século XVIII para o XIX, com tos livres de impostos.
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Fotos de Fernando “Nunão” De Martini

Mas um viajante com menos pres- está o canhão El Tigre, originariamen- conservados no Museu Britânico, nos tência: a dos espanhóis que tombaram gens, podemos chegar a algumas pon-
sa tem boas chances de ser abordado te exposto no “Museo Historico Militar quais o almirante declarou: “...à uma e sob a ditadura de Franco, já no século derações interessantes. Por que o El Tigre, o “raio do rei
por um sujeito de uniforme, que lhe de Canarias”. Grandes painéis (um de- meia da manhã (...) 30 a 40 canhões, XX. Mas essa é uma outra história. canhão “importa”?
chama a atenção para uma pequena les totalmente espelhado, refletindo o disparando de um extremo da cidade ao O canhão virou tema para poemas, É comum de se ver, em museus, a
ofendido” que ofendeu
abertura com escada, semelhante a canhão) contam a versão espanhola da outro, abriram fogo contra nós. (...) Não crônicas, e até para reproduções arte- caneta que alguém segurou para san- o braço de Nelson:
uma entrada de metrô. Lá embaixo, batalha que colocou frente a frente conseguimos avançar e quase todos fo- sanais. Tornou-se o que historiadores cionar uma lei, a espada que um gene-
está um pequeno museu dedicado a duas lendas: o almirante inglês e a mos feridos ou mortos.” e museólogos denominam “suporte de ral brandiu em batalha, entre artefatos Peça de artilharia fundida em bron-
um dos palcos da batalha de dois sé- bela peça de artilharia. Nelson era um desses feridos e, por memória” e, ao longo dos anos, foi ex- do gênero. São objetos que ganham va- ze em Sevilha, no século XVIII, pe-
sando 2.000kg e medindo 3 metros
culos atrás. É o “Centro de Interpre- Segundo os painéis, a frota inglesa algum motivo, entre todos os canhões posto de várias maneiras: logo após a lor representativo por terem sido toca-
de comprimento (aproximadamen-
tación Castillo de San Cristóbal”, per- despontou no horizonte em 20 de julho empregados na batalha, foi El Tigre batalha, foi transferido para o “Cas- dos, um dia, por alguma personalidade. te). Como outros canhões de 16
tencente ao “Museo de Historia y de 1797, com o propósito de tomar a que ganhou a fama do disparo cujos tillo de San Pedro”, para ser exposto a Mas e o canhão? O grande personagem polegadas fabricados na mesma
Antropología de Tenerife”. praça forte de Santa Cruz de Tenerife estilhaços atingiram gravemente seu viajantes e curiosos. Já no final do sé- dessa história, Nelson, sequer tocou época, foi fundido em três corpos,
A escada leva aos fragmentos das e, assim, dominar as Canárias. Dois braço direito. Após o “golpe de mão” culo XIX, fez parte de uma bateria nele, apenas chegou perto o suficiente também denominados peças:
muralhas defensivas do Castillo, que dias depois, os britânicos fizeram o frustrado, o almirante voltou ao seu para salvas, em Las Palmas (Gran Ca- para sofrer as consequências. E quem
fazia parte das fortificações que defen- ataque ao “Paso Alto”, num desembar- navio, onde o médico de bordo ampu- naria), antes de ser doado definitiva- efetivamente o tocou naquele disparo, QQ Corpo primeiro (parte traseira),
diam a ilha contra ataques de piratas. que noturno pela retaguarda buscan- tou seu braço. E os atacantes ingleses mente a Tenerife, passando a maior quem foi o responsável pela ação que adornado com o escudo real e o
Mas não espere encontrar um caminho do atacar o Castillo por terra. Mas um que desembarcaram com sucesso, em parte do século XX na prefeitura (Ca- custou o braço do almirante? Ninguém lema “Carolus III D.G. Hispan et.
rústico, em meio a ruínas. Na verdade, forte vento contrário atrapalhou as outros locais, acabaram levando a pior bildo), depois no Museu Militar, até sabe. Mas El Tigre, seja ou não a peça Ind Rex (Carlos III, pela Graça
de Deus, Rei da Espanha e Ín-
todo o aspecto desse pequeno museu é manobras e o fator surpresa foi perdi- na luta em terra e tiveram que assinar chegar ao Centro de Interpretação, que disparou aquela bala, representa a
dias)
bem moderno, e o público fica separa- do. Sem conseguir o objetivo, os ingle- a rendição bem ali, no Castillo de San numa sala especialmente criada e presença do herói inglês na ilha, e a sua QQ Corpo segundo (parte central),
do, fisicamente, dos restos das fortifi- ses voltaram aos navios. Nelson plane- Cristóbal. inaugurada em 2009, mesmo dia da fa- derrota naquela ocasião. Mais do que embelezado por asas em forma
cações. As ruínas foram descobertas jou um novo ataque para a madrugada Segundo o próprio museu, não pode mosa batalha: 25 de julho. Nelson, é o “espírito de um povo” que se de golfinhos.
em 2006, durante obras de remodela- de 25 de julho, e outra vez pensava em ser demonstrado historicamente (leia- No título de seu livro “Material busca perpetuar com a sua exposição, é QQ Corpo terceiro (parte dianteira),
ção da praça (vista na foto acima) que contar com o fator surpresa, atacando -se cientificamente) que El Tigre dis- Cultures: why some things matter” uma história que se molda como o pró- onde está gravado o nome El
soterrou as muralhas quando foi cons- diretamente pelo cais de Santa Cruz parou aquela bala. Mas a tradição po- (University of Chicago Press, 1998), o prio bronze com o qual foi fundida a Tigre, contendo também o lema
truída, no início do século XX. Decidiu- para forçar a rendição da fortificação. pular admite que foi dele o disparo - e autor Daniel Miller faz um trocadilho peça de artilharia. “Violati fulmina regis” (raios do
-se preservar o sítio, criando uma gale- Mas os dois dias de trégua também a memória de um povo também encon- entre materialidade e importância, Você pode chegar a outras inter- rei ofendido)
ria subterrânea para os visitantes. permitiram que as defesas da ilha se tra seus caminhos para ser fonte da usando a palavra “matter”. Se fizer- pretações se um dia visitar o pequeno
Logo ao descer a escada, vê-se tan- concentrassem. história. O que importa, nesse caso, é mos a pergunta do título da obra museu embaixo da Plaza de España.
to os restos dos muros do forte quanto Novamente, as lanchas que trans- que o canhão virou um símbolo daque- olhando para o canhão, ou para seu re- Afinal, o próprio local é um “centro in- Serviço: o Centro de Interpretación
uma série de quadros explicativos so- portavam os ingleses acabaram desvia- la rara derrota do herói britânico, e flexo no painel espelhado onde se lê terpretativo”. Mas uma coisa é certa: Castillo de San Cristóbal fica na Plaza
bre o sistema defensivo de Tenerife. das e espalhadas. No desembarque, os também da resistência do povo de Te- sua história (interessante artifício ex- se for a Tenerife e descer a pequena de España, Santa Cruz de Tenerife,
Os quadros contam também a história atacantes transformaram-se em alvos nerife. Talvez não seja à toa que a pra- positivo num espaço dedicado justa- escada da praça, pelo menos por al- Ilhas Canárias (Comunidade Autôno-
do próprio Castillo, construído no final para os canhões que cobriam o litoral, e ça acima das ruínas das fortificações, mente à reflexão e à interpretação), e guns minutos você poderá “submergir” ma da Espanha). Abre de segunda a
do século XVI. Mas o grande destaque El Tigre estava entre eles. Um dos pai- palco da batalha de 1797, traga monu- pensarmos em outros objetos da cultu- na história e na tradição popular da- sábado, das 10h às 18h e fecha aos do-
é uma sala especial, onde desde 2009 néis traz trecho dos “Nelson Papers”, mentos dedicados a outro tipo de resis- ra material ligados a grandes persona- quela ilha.q mingos. Entrada gratuita.

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FORÇAS TERRESTRES HISTÓRIA

Engesa EE-T1

Osório
Começo, meio e fim de um bom projeto
e um mau negócio

QQ Guilherme Poggio
poggio@fordefesa.com.br

N
o início da década de 1980, o
Brasil possuía duas empre-
sas fortemente consolida-
das na área de veículos militares: a
Bernardini S.A. Indústria e Comércio
e a Engesa Engenheiros Especializa-
dos S.A.
A Bernardini havia se especializado
no repotenciamento e modernização de outra matéria. Nesta aqui, vamos falar topropulsado GTC de 155mm e uma “status” de um MBT de última gera- Os sauditas começaram então a comprometida com outros programas.
velhos carros de combate M-3A1 “Stu- do projeto da Engesa, que tinha como antiaérea com SAM (Surface-to-Air ção. Além disso, seu canhão de 105mm avaliar as opções do mercado ocidental Tudo isso levou a Engesa a buscar
art” e M-41 “Bulldog”(estes últimos um principal alvo o mercado externo, prin- Missile) Shahine. havia sido superado pelo de 120mm do de MBT, visando escolher um veículo uma parceria no exterior, começando
pouco mais recentes) do Exército Brasi- cipalmente aquele onde reinavam os O AMX-30 foi desenvolvido pela soviético T-72, com poder de fogo supe- que entrasse em atividade no final da por sondar projetistas alemães.
leiro (EB). Já a Engesa havia conquis- MBT (Main Battle Tank). E, quando se GIAT na década de 1960, após o fra- rior, e que na região já era operado década de 1980. A Alemanha era considerada uma
tado fama mundial no desenvolvimento pensava em mercado externo naquela casso de uma eventual cooperação pelo Irã, pelo Iraque e por outros paí- referência em carros de combate. Es-
e fabricação de veículos militares sobre época, frequentemente eram procura- francesa com os alemães. O AMX-30 ses. O Merkava israelense também os- Uma oportunidade para a Engesa pecialmente durante a Segunda Guer-
rodas. Ambas as empresas resolveram dos “negócios das Arábias”. foi construído em grande quantidade e tentava uma arma desse calibre. Executivos da Engesa, que já na- ra Mundial, o país produziu veículos
partir, de forma independente, para o obteve um relativo sucesso no mercado Além da questão tecnológica, moti- quela época tinham bons relaciona- de excelente qualidade, respeitados no
desenvolvimento de um carro de com- Uma necessidade para os sauditas internacional, com uma dezena de paí- vações de ordem geopolítica como a mentos com vários países árabes, vi- mundo inteiro. No pós-guerra, isso não
bate (“tanque”) nacional. Em 1972 a Arábia Saudita adqui- ses operando o veículo. Revolução Islâmica no Irã em 1979, e o ram na futura escolha saudita uma foi diferente, e os Alemães produziram
A Bernardini saiu na frente e optou riu um primeiro lote de 190 unidades Com os avanços tecnológicos ocorri- início da Guerra Irã-Iraque em 1980, oportunidade de ingressar no nicho inicialmente o Leopard 1, que entrou
por um veículo mais leve, na categoria do MBT francês AMX-30. Outros lotes dos ao longo da década de 1970, entre pressionaram a Arábia Saudita a in- dos carros de combate. Mas a empresa em serviço em 1965.
“carro de combate médio”, com sistemas foram comprados posteriormente, as- os quais o sistema de estabilização crementar seus gastos com defesa. O praticamente não tinha experiência Na década de 1970 foi desenvolvido
mais simples para torná-lo mais acessí- sim como variações do mesmo chassi, para o armamento principal, o AMX- país temia perder em breve sua supre- com veículos sobre lagartas. Ao mesmo o Leopard 2, que além de incorporar
vel ao EB. Mas essa é uma história para incluindo uma versão com canhão au- 30 entrou na década seguinte sem o macia regional em carros de combate. tempo, sua equipe de projetos estava melhorias em relação ao projeto ante-

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Alexandre Galante Forças de Defesa
No entanto, como o carro da Enge- O motorista sentava-se no lado es- Evolução dos inventários de MBT no Golfo Pérsico
sa necessitava do aval do Exército querdo da parte frontal do carro e
Brasileiro para ser vendido, ficou acor- possuía escotilha de acesso própria. A
dado com o EB que o programa seria torre era guarnecida por três tripu-
acompanhado por engenheiros milita- lantes, com o atirador e o comandante
res do CTEx (Centro Tecnológico do do carro sentados no lado direito e o
Exército). municiador no lado esquerdo, acima e
O projeto do carro de combate da atrás do motorista do carro. O muni-
Engesa começou a tomar forma no se- ciador e o comandante tinham escoti-
gundo semestre de 1983. Ele recebeu a lhas próprias.
designação EE-T1 e o nome “Osório”,
uma justa homenagem ao Marechal Chassi
Manoel Luis Osório, patrono da Cava- A estrutura do chassi era formada
laria do Exército Brasileiro. O nome por um monobloco composto por cha-
“Caxias” (patrono do EB) também foi pas metálicas com ângulos de incidên-
cogitado, mas os clientes estrangeiros cia e baixa silhueta. A ideia reinante
da Engesa teriam dificuldade com a era de que este arranjo auxiliaria a
QQ Protótipo do EE-T1 Osório em exposição durante a LAAD 2003, no Rio de Janeiro pronúncia. proteção balística do carro contra mu-
O futuro carro de combate nasceu nições do tipo APDS/APFSDS.
COMPARATIVO ENTRE OS PRINCIPAIS MBT DO MUNDO com o auxílio computacional de A blindagem composta (metal-cerâ-
NO INÍCIO DA DÉCADA DE 1980 softwares do tipo CAD/CAM (Compu- mica) foi desenvolvida pela própria
ter-Assisted Design/Computer-Assis- Engesa com o auxílio do túnel balístico
LARGURA (MM) PESO MÁXIMO (T) ted Manufacturing), uma verdadeira do Centro Técnico Aeroespacial (CTA).
M-60 3630 50 revolução naquela época. Seria a pri- Após seis meses de estudos, os resulta-
meira vez que a Engesa utilizaria es- dos foram considerados satisfatórios.
M1 3660 56
sas ferramentas num projeto próprio.
T-72 3600 41 Pode-se dizer que o emprego de Motor e transmissão
Leopard 2 3700 55 softwares na fase de desenvolvimento A opção inicial era por um motor da
ajudou a empresa brasileira a projetar empresa alemã MTU, cujos modelos já
Challenger 3520 62 equipavam diversos veículos militares
o carro rapidamente. A economia de
tempo era fundamental, pois a própria como os Leopard 1 e 2, o TAM argenti- última, e o desenvolvimento do chassi produzidas em aço de alta resistência.
rior, trazia todos os avanços tecnológi- externo de carros de combate de pri- Engesa tinha estabelecido o prazo de no, o Marder e o Raketenjagdpanzer, levou isso em conta. Os seis roletes de suporte (três de cada
cos da época. Foi exatamente este veí- meira linha, a Engesa não poderia um ano para o projeto. de origem alemã, mostrando bom de- Mas tudo mudou quando uma dele- lado) ficavam escondidos sob a saia
culo que chamou a atenção dos atender ao Exército Brasileiro. Isso O desenho geral do EE-T1 era con- sempenho e potência. Mas, apesar da gação da Engesa visitou a Defence blindada.
sauditas, que teriam cogitado a aquisi- porque o EB não tinha intenção de em- vencional, obedecendo ao padrão dos MTU possuir instalações no Brasil, a Components Exhibition, na Inglater-
ção desse MBT. Mas o Governo Ale- pregar um carro de combate com mais principais MBT de sua época: motor e a Engesa acabou declinando dessa opção ra. A suspensão hidropneumática uti- Armamento
mão não estava disposto a vender o de 40 toneladas e largura superior a transmissão na parte posterior do carro em função do alto custo. lizada no carro de combate britânico Desde o início, o Osório foi dese-
Leopard 2 para países que não fossem 3,5 metros. E mesmo um carro com e uma tripulação composta por quatro A escolha final recaiu sobre outro Challenger recebeu especial atenção. nhado para utilizar dois tipos de ca-
membros da OTAN (Organização do exatamente esse peso máximo e di- elementos. Separando a tripulação do fornecedor alemão, a MWM (Motoren Consultas e contatos com a Dunlop, fa- nhões, um de 105mm e outro de
Tratado do Atlântico Norte). mensões seria, ainda, bem mais leve e conjunto motor/transmissão, havia Werke Mannheim AG), tradicional fa- bricante da suspensão do Challenger, 120mm. O primeiro teria mais chances
Apesar dessa interessante coinci- menor do que os seus concorrentes oci- uma parede “corta fogo” e estrutural, bricante de motores diesel que manti- foram feitos e decidiu-se pela suspen- de ser absorvido por clientes menos
dência de “alvos” (os sauditas mos- dentais. com isolamento térmico-acústico. nha no Brasil, desde 1953, a subsidiá- são hidropneumática. Embora pouco exigentes, pela simplicidade e preço
trando preferência por um MBT ale- ria MWM Motores Diesel Ltda. Mas a utilizada em veículos da categoria do acessível. O segundo calibre tinha
Engesa
mão e a Engesa procurando parcerias empresa não tinha experiência com Osório, ela apresentava uma série de como objetivo a concorrência saudita,
com empresas alemãs), as sondagens veículos militares, e sim de transporte vantagens: mas poderia ser oferecido para qual-
QQ Foto de divulgação
na Alemanha não resultaram em par- do Osório com emblemas de carga. Ainda assim, decidiu-se pela QQ Garantia uma melhor adequação quer outro cliente com mais recursos.
cerias. Assim, outras opções foram do Exército Brasileiro utilização de um motor MWM modelo ao terreno, minimizando os movi- Para a primeira opção, foi escolhido
avaliadas pela Engesa. Entendimen- TBD 234 de 1.014HP, com 12 cilindros mentos e os esforços executados, o o canhão de 105mm da série L7 (L7/
tos com a sul-africana ARMSCOR em “V”. que proporcionava mais conforto à M68) da Royal Ordnance inglesa. O mo-
também foram feitos, e havia um inte- A transmissão seria automática, e tripulação; delo possuía alma raiada, extrator de
resse especial pela produção da blin- dois fornecedores alemães estavam em QQ Possibilitava uma silhueta menor fumaça e manga térmica. O mecanismo
dagem composta desenvolvida por estudo: a Renk Aktiengesellschafte e a com o espaço ganho pela ausência de recuo era hidropneumático, com des-
aquela empresa. Mas, em função dos ZF Friedrichshafen AG. O modelo das barras de torção; lizamento vertical da cunha. Na época,
problemas políticos enfrentados pelo HSWL 354 da Renk equipava os car- QQ Oferecia maior operacionalidade era a peça de maior utilização no Oci-
país africano devido à sua política de ros Leopard 2 e o LSG3000 da ZF era na manutenção, devido a todos os dente, sendo produzida sob licença na
segregação racial, não houve uma cogitado para o MBT Ariete C-1 italia- elementos da suspensão se locali- Inglaterra, Alemanha e Itália.
aproximação maior. no. Nesse caso, a presença de instala- zarem fora do carro. Já para a segunda opção (120mm),
Depois de algumas tentativas mal- ções no Brasil e a possibilidade de pro- havia um problema para utilizar o pro-
-sucedidas na busca por um parceiro, a duzir a transmissão aqui, levaram à A lagarta, fabricada pela Diehl da duto oferecido pelo mesmo fornecedor:
Engesa decidiu projetar por conta pró- decisão pelo modelo da ZF. Alemanha, possuía 92 sapatas de aço. antes mesmo de deixar as telas dos
pria um carro de combate, focado no A roda de guia localizava-se atrás computadores, já se sabia que o proje-
mercado externo. Suspensão e lagartas (onde estava a transmissão) e a roda to do Osório não teria massa suficiente
Entre uma suspensão hidropneu- de direção à frente. As rodas de apoio para absorver os efeitos cinéticos do
Desenvolvimento do Projeto mática e uma do tipo barras de torção, (dois conjuntos – um de cada lado - recuo do canhão raiado L11 de 120mm,
Para conquistar parte do mercado a Engesa inicialmente optou por esta com seis rodas) eram emborrachadas e da Royal Ordnance. Como alternativa,

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Engesa
optou-se pelo modelo GIAT, de alma primeiro protótipo foi concluído, mas
lisa, numa solução semelhante à ado- nenhuma das torres havia sido entre-
tada pelo carro francês AMX-40. A gue pela Vickers. Era necessário ado-
Vickers inglesa ficou responsável pelo tar uma solução rápida para a apre-
desenvolvimento das torres para as sentação do veículo, porque uma
duas opções de canhão. ilustre visita era esperada: o ministro
Os tipos de munição que podiam da Defesa da Arábia Saudita, príncipe
ser empregados pelo canhão de 105mm Sultan Bin Abdulaziz, deveria chegar
variavam entre APDS (superperfuran- ao Brasil na metade do mês seguinte.
te), APDSFS (flecha), HEAT (explosi- Além de ocupar um cargo de importân-
va anticarro), HESH (explosiva de ca- cia, o príncipe era irmão do Rei Fahd e
beça esmagável) e SMOKE (fumígena). segundo na linha de sucessão ao trono.
Pelo seu calibre maior, o canhão de A atenção dada à visita foi seme-
120mm podia disparar munições de lhante à que os chefes de Estado costu-
maior potência de fogo e poder de pe- mam receber. O príncipe passou pouco
netração. Nos dois casos, também QQ O Osório ultrapassando um obstáculo com mais de um metro de altura menos de dois dias em Brasília e se-
eram aceitas munições de exercício. guiu direto para São José dos Campos,
A munição do canhão era armaze- cidade que concentra, até hoje, o mais
nada na parte traseira da torre, ime- importante pólo da indústria bélica do
diatamente atrás do municiador, que brasileira.
acionava uma porta blindada que cor- Além de visitar as instalações da
ria lateralmente. Por segurança, a Embraer e da Avibras, o príncipe faria
parte superior do compartimento de uma visita à Engesa, com o objetivo
munição era feita de uma chapa de aço principal de ver o Osório. Para não
mais fina, permitindo direcionar as desapontá-lo, os técnicos da empresa
ondas de choque para fora do carro, em montaram uma torre e um canhão fal-
caso de explosão. sos com as características da torre de-
Além do canhão, o Osório era equi- finitiva, apenas para mostrar como
pado com duas metralhadoras: uma co- seria a configuração final. O protótipo
axial modelo EX34/Hughes de 7,62mm, recebeu uma pintura verde oliva e os
instalada do lado esquerdo da torre, e emblemas típicos dos demais blinda-
outra do modelo Browning/HBM2C de dos do Exército Brasileiro.
12,7mm na parte externa, em frente à Ao final da visita, nenhuma com-
escotilha do municiador. O Osório ain- pra de material bélico foi fechada, em-
da estava equipado com doze tubos bora o sistema Astros II da Avibras ti-
(seis de cada lado) lançadores de grana- vesse impressionado bem os sauditas.
das fumígenas calibre 66mm, aciona- De concreto, apenas a assinatura de
dos de forma individual ou em grupos. um acordo de cooperação militar entre
os dois paises.
Controle de tiro
O Osório incorporou um sistema E o Osório visita o Golfo Pérsico
de aquisição de alvos e controle de A Vickers entregou a torre de
fogo que, na época, era altamente so- 105mm em maio de 1985 e, imediata-
fisticado, sem equivalentes na Améri- mente, ela foi instalada no chassi. Foi
ca Latina. uma decisão de risco, pois essa não era
Assim como existiam duas versões a torre definitiva para a concorrência.
de canhão, também havia equipamen- O EE-T1 Osório foi enviado à Arábia
tos de controle de fogo distintos para Saudita com ela, embarcado num
cada uma das torres. Mas as torres fo- avião de carga que chegou a Riad em
ram concebidas para aceitar diversas 20 de junho de 1985.
opções, conforme a exigência de cada Essa decisão foi muito contestada,
cliente. pois o carro havia sido pouco testado no
Na torre de 105mm, foram insta- país, sua configuração não era definitiva
lados dois periscópios belgas da OIP. e a adaptação do veículo às condições
Para o comandante do carro o modelo ambientais da Arábia Saudita ainda era
era do tipo LRS-5DN com visão no- um desafio pouco conhecido. Por outro
turna. O atirador utilizava um mode- acoplados mecanicamente ao canhão. do espectro infravermelho (IR), e havia provenientes de vários sensores do Boa parte do sistema de controle de lado, a apresentação do protótipo às au-
lo LRS-5DNLC que, além dos mes- Já para a torre com o canhão de monitores separados para o comandante próprio carro, tais como tipo de muni- tiro, incluindo o microcomputador de toridades sauditas seria um grande
mos recursos do anterior, também 120mm, os dois periscópios eram de ori- e o atirador. ção, distância e velocidade do alvo, di- 16 bits e os periscópios, acabou sendo trunfo político, mostrando a capacidade
possuía um telêmetro laser e um gem francesa: um SFIM VS580 com telê- O sistema de controle de fogo era o reção e intensidade do vento, inclina- usado para o projeto do MBT inglês Vi- da empresa em projetar e construir um
computador de tiro. O canhão, por metro laser para o atirador, e um modelo Centaur inglês, produzido pela britâ- ção lateral do carro e desgaste da alma ckers Mk VII, que contribuiu para o carro de combate de primeira linha.
ser estabilizado, permitia a busca semelhante, porém panorâmico (visão de nica Marconi Command and Control do tubo. O sistema permitia um tiro de desenvolvimento do Challenger 2. Para surpresa de muitos, os testes
por alvos em movimento. Porém, a 360 graus) UA 9090 da Philips da Holan- Systems. O cérebro do sistema era um alta precisão com o carro em movimen- e os ensaios preliminares executados
precisão do tiro em movimento ficava da, para o comandante.O sistema de vi- microcomputador de 16 bits que pro- to, bem como o engajamento de simul- Um príncipe visita a Engesa na Arábia Saudita foram altamente
prejudicada, pois os periscópios eram são e tiro noturno empregava recursos cessava diversos fatores da balística tâneo de alvos múltiplos. Em setembro de 1984, o chassi do satisfatórios. Algumas deficiências fo-

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FORÇAS TERRESTRES HISTÓRIA
ram constatadas no conjunto propul- simulando as condições ambientais do QQ xecução de 6km em marcha à ré;
E Saudita. Dos 12 alvos propostos, o
sor, fabricado pela MWM. A Engesa Oriente Médio. QQ Reboque de um carro de combate Osório acertou 8, o M-1 Abrams acer-
relatou os defeitos encontrados e a O protótipo com canhão de 120mm de 35 toneladas por 10km; tou 5 e o AMX-40 e o Challenger ape-
MWM executou pequenas modifica- seguiu para a Arábia Saudita em julho QQ Remoção e instalação de lagartas; nas 1. No teste de autonomia, o Osório
ções para solucioná-los. de 1987, para participar de uma série QQ Superação de trincheiras de três
percorreu uma distância em linha reta
De volta ao Brasil, o protótipo foi de testes definitivos com os seus con- metros de largura; de 400 km, deixando para trás seus
preparado para testes realizados pelo correntes. A equipe da Engesa estava QQ Dar partida no carro em rampas de concorrentes.
Exército Brasileiro, que incluíram as bastante confiante, pois desta vez teve 65%; O anúncio final saiu em fevereiro
dunas de areia do Campo de Provas da o tempo necessário para preparar o QQ Rodar em rampa lateral de 30%; de 1988. Dentre os veículos que parti-
Marambaia (estado do Rio de Janeiro). carro. Os testes foram executados QQ Execução de disparos, com o veícu- ciparam da concorrência, o carro fran-
A partir do desempenho demonstrado, numa área desértica localizada no sul lo estacionado, contra alvos esta- cês e o carro britânico foram descarta-
o Exército produziu dois documentos: o do país árabe, denominada “Quadrado cionados e em movimento (distân- dos. O Osório e o Abrams foram
RTEx (Relatório Técnico Experimen- Vazio”. Foram dois meses de provas cia máxima de 4.000m); incluídos numa “short list” como “pas-
tal) e o RTOp (Relatório Técnico Opera- duríssimas. QQ Execução de disparos, com o veícu- síveis de serem comprados”. Na verda-
cional). Ambos foram importantes para No dia 7 de julho, o AMX-40 fran- lo em movimento, contra alvos em de, o Osório fez exatamente aquilo que
que melhorias fossem incorporadas. cês, o Challenger britânico, o M-1 movimento (distância máxima de se esperava dele e foi, em algumas si-
Abrams dos EUA e o EE-T1 Osório do 1.500km). tuações, superior ao Abrams.
De volta à Arábia Saudita, na forma Brasil foram apresentados formal- Naquele momento, o Osório pode-
definitiva mente ao príncipe Sultan. Os quatro Alguns resultados dos testes foram ria até ser considerado vencedor, tec-
A torre do canhão de 120mm che- concorrentes iniciaram as provas no comentados pelo então Diretor Técnico nicamente. Mas a verdade é que os
gou no início de 1986 e foi instalada no dia seguinte. da Engesa, Odilon Lobo de Andrade, sauditas, oficialmente, nunca decla-
novo chassi, que já incorporava modifi- Os testes, que duraram até 10 de em matéria publicada na revista raram que houve um vencedor após os
cações apontadas pelos testes realiza- setembro e foram feitos com tripula- Hobby News em julho de 2002. testes. Ainda assim, a equipe da En-
dos pelo Exército Brasileiro, associa- ções sauditas escolhidas por sorteio, gesa ficou bastante otimista em rela-
das às lições aprendidas na visita consistiam de: ...nos testes de tiro e autonomia, o ção à possível venda de seu carro para
anterior ao deserto árabe. Assim nas- Osório superou o rival norte-america- os sauditas. Até mesmo um contrato
ceu o Osório definitivo, que disputaria QQ Execução de 2.350km de rodagem, no em muito. Nos testes de tiro realiza- de venda, prevendo uma linha de
o contrato de exportação à Arábia Sau- sendo 1.750km no deserto; dos, o Osório foi o único a atingir um montagem no Oriente Médio, chegou
dita. E para ajudar nas suas chances, QQ Testes de aceleração, frenagem e alvo estacionado a 4.000m. Também a ser preparado.
foi renomeado “Al Fhad”, homenage- pivotamento (giro de 180 graus); foi realizado um teste com alvos móveis
ando o monarca saudita. QQ Consumo de combustível em estra- a distâncias de 1.500, 2.000 e 2.500 m, Enquanto isso, a “corrida maluca”
O Osório, agora com o canhão de da e no deserto; com um total de 12 tiros, sendo 6 reali- de Abu Dhabi QQ O Osório atraiu a atenção da mídia nacional durante a década de 1980. Acima,
120mm, foi submetido a novos testes QQ Permanência do veículo parado por zados pela tripulação do país de ori- A concorrência saudita repercutiu recortes de jornais e revistas semanais da época
no Brasil, realizados no início de 1987, seis horas com o motor ligado; gem e 6 por uma tripulação do Exército nos países da região e, ainda em 1988,
os Emirados Árabes Unidos (EAU), o que aconteceu, em 1993, foi a opção excepcionais qualidades técnicas, os
Engesa
convidaram a Engesa para demons- pelo Leclerc, de fabricação francesa. O sauditas tinham dúvidas se a empre-
trar o MBT brasileiro em Abu Dhabi, número de unidades superou a enco- sa brasileira poderia produzi-lo em
juntamente com o blindado italiano menda saudita (veja a seguir) e 436 car- larga escala, pois era apenas um pro-
C-1 Ariete e o AMX-40. Os EAU já pos- ros, incluindo as variantes, foram enco- tótipo.
suíam alguns blindados de origem ita- mendados. À época, dizia-se que essa Altas autoridades do Governo Bra-
liana do modelo OF-40 e buscavam encomenda, a única exportação do Le- sileiro foram mobilizadas para conven-
complementá-los com outros veículos clerc, praticamente pagou o desenvolvi- cer os sauditas a assinar um contrato
mais modernos. Esperava-se uma con- mento do veículo. Justamente o tipo de com a Engesa. Antes mesmo da con-
corrência como a executada na Arábia oportunidade que a Engesa queria. corrência, o então ministro do Exército
Saudita. No entanto, o que se viu foi Leônidas Pires Gonçalves esteve em
algo inusitado, que ganhou a fama de As negociações com os sauditas e a Riad, juntamente com o presidente da
“corrida maluca no deserto”. Maluca entrada do “escudo americano” no Engesa, para tratar da questão com o
ou não, o Osório “correu” bem. deserto príncipe Abdulaziz. O interesse do
Naquela ocasião, ocorreu um fato A estimativa era de que a Arábia Exército Brasileiro era justificado,
curioso, também narrado na matéria da Saudita adquirisse cerca de 315 veícu- pois a corporação receberia uma certa
Hobby News: o carro italiano sofreu um los, num contrato estimado em um bi- quantidade de carros caso o contrato
incêndio no motor, atolado numa duna, lhão de dólares. A partir do anúncio da saudita fosse fechado. Algumas fontes
e seria abandonado no meio do deserto. “short list”, em fevereiro de 1988, co- falavam em 25 unidades. Outras, em
Então a equipe brasileira, que já havia meçou uma longa fase de negociações um carro financiado para o EB a cada
participado de demonstrações no mun- entre a Arábia Saudita e os países que dez vendidos ao exterior.
do todo, desde o gélido Canadá às imen- produziam os dois veículos (Brasil e Em 1990, o então presidente eleito
sidões chinesas, resolveu dar uma “mão- Estados Unidos). Fernando Collor de Mello tratou pesso-
zinha” aos já desanimados italianos; Os sauditas temiam que o Con- almente do assunto, agendando uma
engataram um cambão, desatolaram o gresso dos EUA barrasse a venda do reunião com o Rei Fahd em agosto da-
QQ Versão do Osório carro italiano e trouxeram o veículo de Abrams, atendendo a apelos de Isra- quele ano. Oficialmente, o monarca
com canhão de volta ao aquartelamento árabe. el, país contrário à negociação. Mas o saudita não compareceu por motivos de
120mm realizando No entanto, os EAU não fizeram principal entrave não era a venda do saúde, e uma nova reunião foi agenda-
testes de tiro qualquer comentário sobre os três veí- M-1A1, mas a torre com o canhão de da para outubro. Mas esta também não
culos, adiando uma nova série de testes 120mm que equipava o MBT america- ocorreu. A invasão do Kuwait por tro-
para um momento mais oportuno. Mas no. Quanto ao carro da Engesa e suas pas iraquianas, em 2 de agosto, era en-

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FORÇAS TERRESTRES HISTÓRIA
G. Poggio e Nunão

QQ Vista posterior do Osório com


detalhe da roda dentada, que se
conecta ao sistema de transmissão,
e as seis rodas de apoio. Os roletes
estão protegidos pela saia blindada.
(foto inferior esquerda) escotilha de
QQ O Osório com canhão de 120mm ao lado acesso do motorista (foto inferior
de um M-41 no 13º RC Mec. (foto inferior direita) vista superior do posto do
esquerda) interior do Osório mostrando o municiador
posto do comandante do carro (foto inferior
direita) Detalhe da tampa que dá acesso ao
compartimento do motor/transmissão e
sistema de arrefecimento. Na parte inferior
da foto, o acesso aos radiadores

tão a grande preocupação da Arábia Alguns analistas acreditam que a tário do veículo apresentam grande combate Osório não podem ser credi- rueri (SP). Em 2002, ambos quase fo- FONTES CONSULTADAS
Saudita. concorrência de 1987 foi apenas uma variação. Na fase inicial do projeto, o tados como a causa da falência, pois ram a leilão como parte da massa QQ BACCHI, R. A chance perdida - Tecno-
Em meio aos preparativos para a forma de pressionar os Estados Uni- montante era estimado em 1,5 mi- a empresa já vinha falhando em ofe- falida da empresa. logia & Defesa nº84, ano 17, pp.26-30.
defesa do reino e à implementação da dos a vender o seu mais moderno car- lhão de dólares. Algumas cifras de recer outros projetos que realmente O EB entrou com uma ação no Mi- QQ BASTOS, E. A maior de todas as chan-
operação “Desert Shield”, a Arábia ro de combate para a Arábia Saudita. 1987 apontam para quatro milhões atraíssem o mercado externo, ou que nistério Público de São Paulo, conse- ces - Defesanet, setembro de 2006.
Saudita anunciou, em novembro de Isso porque os sauditas já haviam de dólares por unidade. Já o gasto respondessem a demandas específi- guindo que o leilão fosse cancelado e QQ BASTOS, E. Uma realidade brasileira
1990, um acordo com a norte-america- manifestado o desejo de adquirir o total da Engesa com o desenvolvi- cas de seus clientes. Mas, no fim das que os dois protótipos fossem oficial- - Revista da Cultura, ano V, nº 9, pp.41-
Abrams após a negativa do governo 51.
na General Dynamics para a aquisição mento do Osório é conflitante em contas, o Osório revelou-se uma mente entregues à União. O 13º Regi-
alemão em liberar o Leopard 2. FURLAN, G. A facinante história do
de 315 carros de combate M-1A2 função da fonte ou do ano consulta- aposta arriscada e cara. Em resumo, mento de Cavalaria Mecanizado (13º
QQ
EE-T1 Osório - Hobby News, jun-jul
Abrams por 3,1 bilhões de dólares (mo- do, variando entre 50 e 150 milhões um mau negócio. RCMec) localizado em Pirassununga/ 2002, pp.24-27.
delos mais modernos que o carro parti- O sabor residual de um mau de dólares. Com a falência da Engesa, os dois SP ficou responsável pela guarda dos QQ Entrevista com o engenheiro Reginaldo
cipante da concorrência). Só que o negócio e o fim que levou um bom Em 1993, três anos após o resul- protótipos do Osório ficaram sob a mesmos. Hoje são testemunhos ma- Bacchi
martelo já havia sido batido um ano projeto tado da concorrência saudita, a En- guarda do Exército Brasileiro no Ar- teriais da história de um bom QQ Reportagens do jornal Folha de São
antes, em setembro de 1989. As estimativas para o valor uni- gesa faliu. Os gastos com o carro de senal de Guerra de São Paulo, em Ba- projeto.q Paulo

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FORÇAS TERRESTRES ENTREVISTA

‘ ‘
Fotos: Fernando “Nunão” De Martini

Fui professor Na época a


de projeto de Engesa tinha
veículos e fechado um
quando ia dar contrato com o
aula eu sempre Iraque e o
procurava, antes primeiro trabalho
de entrar em que eu fiz lá foi
muitos detalhes, redigir os
colocar o assunto contratos para a
no contexto compra de
geral do que se material para

’ ’
tratava. atender a esse
contrato...

‘Tendo dinheiro, dá para fazer qualquer


coisa no Brasil. A Engesa saiu do zero.’
Reginaldo Bacchi, engenheiro daquele projeto. E, de quebra, diversas
histórias surpreendentes. Seleciona-
primeiros professores do curso de en-
genharia automobilística. Se eu não
mesmas. Eu acho que isso falta muito
em alguns professores, que se preocu-
n FD – E como foi a passagem da in-
dústria automobilística para a Enge-
que trabalhava na Engesa à mos alguns trechos de nossa longa
conversa e compartilhamos, aqui, com
me engano foi de 1964 até 1977. Na
época, eu trabalhava na Chrysler e
pam mais em chegar e fazer equações
fantásticas e soberbas. E acabam dei-
sa?
Bacchi – Eu era muito amigo do Ri-
época do desenvolvimento do os nossos leitores. depois na Ford. Muito da minha aula
se baseava em função daquilo que eu
xando os alunos sem ter a menor ideia
do que é aquilo.
goberto Soler Gisbert, um engenheiro
espanhol que fez o projeto do Uirapu-
MBT Osório, fala da história n Forças de Defesa – Bacchi, conte
pra gente sobre o seu interesse pela en-
trabalhava. Então eu estava a par
das últimas coisas de engenharia au- n FD – Mas você começou a trabalhar
ru, que acredito ser o primeiro carro
projetado e construído no Brasil. Eu o
desse projeto, de sua genharia e a trajetória profissional an-
tes da Engesa, na indústria automobi-
tomobilística. Deixei de dar as aulas
quando fui para a Engesa, que ficava
na indústria automobilística logo
após se formar ou trabalhou em outra
conheci na época da Vemag, onde ele
era projetista. Ele foi trabalhar na
experiência e do futuro dos lística. Você também foi professor,
não?
distante da FEI e porque na Engesa
eu não fui trabalhar diretamente na
área?
Bacchi – Assim que eu me formei fui
Engesa e surgiu a chance de ter um
contato com o José Guilherme Whi-
carros de combate no Brasil. Reginaldo Bacchi – Eu sempre gos-
tei de engenharia e houve grande in-
engenharia.
Fui professor de projeto de veículos
direto para a Vemag (fábrica brasileira
de automóveis que foi adquirida pela
taker Ribeiro, um dos executivos da
empresa e irmão do José Luiz Whi-
centivo do meu pai. Eu fiz engenha- e quando ia dar aula eu sempre procu- Volkswagen em 1967), porque o meu taker Ribeiro, dono da Engesa. Nós

R
eginaldo Bacchi é santista portação estavam no auge e novos pro- ria na Faculdade de Engenharia rava, antes de entrar em muitos deta- professor de desenho era gerente da en- conversamos e ele achou que eu tinha
de nascimento, engenheiro jetos apontavam no horizonte – alguns Industrial (FEI), que na época em lhes, colocar o assunto no contexto ge- genharia de produtos da Vemag. Sa- um bom conhecimento de assuntos
por profissão e estudioso de com bom potencial, outros nem tanto. que eu estudei ficava no antigo pré- ral do que se tratava. Por exemplo, bendo que eu gostava de automóveis, militares, além do meu “background”
armas por gosto pessoal, desde crian- O Osório foi um deles, e Bacchi rece- dio do Colégio Paulistano na Rua São suspensão independente. Por que sus- ele me contratou durante uma aula do de engenharia. Eu estava querendo
ça. Quando já era um profissional res- beu em sua residência os editores Gui- Joaquim (cidade de São Paulo). No pensão independente? Contava o his- quinto ano, quase no fim do curso. Lá sair da Ford mesmo e fui para a Enge-
peitado na engenharia automobilística lherme Poggio e Fernando “Nunão” de fim acabei dando aula lá, (já quando tórico, como a coisa evoluiu. Depois, no eu fiquei oito anos e depois fui para a sa como assessor técnico do diretor de
do Brasil, foi trabalhar na Engesa, Martini, para compartilhar por várias o curso havia se mudado para São final, eu entrava com as equações, e Chrysler. Posteriormente, fui para a compras. Na época a Engesa tinha fe-
numa época em que os contratos de ex- horas muitos detalhes interessantes Bernardo do Campo) sendo um dos dava as explicações sobre o cálculo das Ford. Sempre na área de projetos. chado um contrato com o Iraque e o

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FORÇAS TERRESTRES ENTREVISTA
Fotos: Fernando “Nunão” De Martini
Inclusive vocês poderão fabricar a tor- ver a suspensão hidropneumática. Ele
re no Brasil após a compra de um de- me disse: “Pelo amor de Deus, Bacchi,
terminado número de unidades.” Uma não me fala mais nisso. Nós já decidi-
coisa que eu sempre digo é que o pro- mos pelo uso da barra de torção. Eu
blema no Brasil não é um problema de não vou mudar esse troço”. Convenci-o
tecnologia. É simplesmente um pro- e nós voltamos lá. O Paulo André en-
blema de cifrão. Tudo se resolve. A goliu o negócio e nós marcamos uma
única coisa é ter dinheiro. Tendo di- reunião na fábrica após a exposição. A
nheiro dá para fazer qualquer coisa no suspensão hidropneumática é uma
Brasil. A Engesa saiu do zero. Um gru- coisa tremendamente lógica porque
po de engenheiros quase recém-forma- combina mola com amortecedor, me-
dos projetou o Osório. Não era nenhum lhorando um pouco mais porque você
sujeito com 50 anos experiência. O tem mais recursos.
mais antigo lá deveria ter três ou qua-
tro anos de prática. n FD – Bacchi, nós estamos contando
numa matéria a história de toda a con-
n FD – Então o Osório foi todo desen- corrência do Osório na Arábia Saudi-
volvido pelos engenheiros da Engesa, ta. Mas o que aconteceu depois que esse
sem ajuda externa? negócio não saiu? Havia alguma chan-
Bacchi – Nós íamos contratar um ca- ce do carro ser adquirido pelo Brasil?
marada para desenvolver o Osório. Bacchi – Não, porque nós não tínha-
Mas na hora de ser contratado ele re- mos nem material para fazer a produ-
cebeu uma contra-oferta de onde ele ção. Eu participei de um grupo que foi QQ Nesta e na próxima
trabalhava, acho que era na Mercedes. na Argentina, pra ver se daria pra fa- página: protótipo do Osório
Como ele não veio, aí a turma falou: zer alguma coisa lá, porque lá eles ti- ao lado de um M-41
“Vamos pegar um dos nossos mesmo e nham produzido o TAM (Tanque Ar-

‘ ‘
vamos botar o camarada como chefe do gentino Mediano), então alguma das
programa”. E este foi o Paulo André fábricas tinha algum equipamento que
primeiro trabalho que eu fiz lá foi re- del Negro, que começou o programa do poderia fabricar alguma coisa. Mas
digir os contratos para a compra de Um grupo de Osório. Depois de mais ou menos seis aqui não tinha nada. Em primeiro lu- O Osório foi n FD – E esse veículo que carregava o
material para atender a esse contra- meses ou um ano eles promoveram o gar, tinha que desenhar o carro todo, sistema, era um novo projeto?
to, principalmente rádios VHF/HF engenheiros quase Paulo para gerente de produção da fá- porque não tinha sido desenhado ain- desenhado apenas o Bacchi – Nós montamos este equipa-
para os carros. brica de São José dos Campos. E o Odi- da. O Osório foi desenhado apenas o mento em um Urutu. Os equipamen-
recém-formados lon (Lobo de Andrade Neto) veio para suficiente para poder construir os pro-
suficiente para tos de visão eram de uma firma ingle-
n FD – Vamos falar agora do Osório. projetou o Osório. assumir o cargo do Paulo no projeto. tótipos. Nós não tínhamos equipamen- poder construir os sa e os de navegação eram de uma
Como surgiu o projeto? Foi aí que eu dei a minha contribui- to, que seria comprado com o dinheiro empresa francesa. Fomos até a frente
Bacchi – Quando nós íamos definir o Não era nenhum ção para o Osório, que foi a suspensão da venda, da assinatura do contrato. É protótipos. Nós não de batalha para demonstrar o sistema.
que seria o Osório, o José Luiz teve sujeito com 50 hidropneumática. Tinha sido decidido isso que eu posso dizer pra vocês. Foi tínhamos O veículo foi aprovado, mas a guerra
uma ideia. Ele disse: “Vamos convidar que o carro teria barras de torção, um feito um trabalho de engenharia fan- acabou antes que um contrato fosse
dois ou três sujeitos famosos neste anos experiência. sistema de suspensão bastante con- tástico, nota dez. Mas, fora disso, não equipamento, que assinado. Foi uma das últimas coisas
campo para ver qual a opinião deles”. vencional. A barra de torção tem um existia mais nada. que eu fiz na Engesa.
Ou seja, seria uma confirmação de que O mais antigo lá defeito. Ela aumenta a altura do carro seria comprado com
nós não estávamos fazendo nada ab-
surdo. Então foram convidados dois.
deveria ter três ou porque você tem que passar a barra n FD – Mas o Osório foi oferecido o dinheiro da venda, n FD – E quando vocês iam para ou-
dentro dele. Se você procura por um para outros países, para tentar viabili- tros países, oferecer projetos etc, voa-

’ ’
Um deles foi o professor Richard Ma- quatro anos de carro mais baixo, o ideal é uma sus- zar a fabricação com uma venda exter- da assinatura do vam naquele famoso avião, o “tapete
rian Ogorkiewicz, um “polonês-inglês” pensão que não seja penetrante. na? voador”?
que escreveu o primeiro livro decente prática. Bacchi – Nós oferecemos para o Irã.
contrato. Bacchi – Foi criada uma verdadeira
sobre o que são as tropas blindadas, n FD – Mas como surgiu essa sua pro- Uma delegação iraniana foi recebida celeuma sobre esse assunto, em parte
veículos, etc. O outro foi o Christopher posta de mudar a suspensão do Osó- secretamente na Engesa porque ofi- por alguns jornalistas de defesa da épo-
Foss, editor da Jane’s Armour and Ar- rio? cialmente o governo brasileiro tinha se ca que gostavam de dizer que a Engesa
tillery. Eles vieram separados. Primei- da Engesa) queria ter tudo pronto em Bacchi – Foi quando nós fomos até colocado ao lado do Iraque. Então com um sistema de navegação terres- gostava de esbanjar dinheiro. Da forma
ro veio um e na semana seguinte o ou- um ano e pouco. Nós trabalhávamos Brighton, na Inglaterra, para a feira qualquer coisa com o Irã era proibida. tre. As informações obtidas pelo telê- como foi contada a história por estas
tro. Eles ficaram dois ou três dias e um contra o tempo para ter o carro pronto de componentes de defesa (“Defence Nós recebemos a delegação num do- metro, combinadas com as do sistema pessoas dava a impressão que nós tí-
grupo de engenheiros da Engesa, in- para ser demonstrado na Arábia Sau- Components Exhibition”). Eu passei mingo. Eles passaram a manhã inteira de navegação, eram processadas por nhamos um avião que era usado só
cluindo eu, ficou discutindo o tema dita. Nós tínhamos que fazer um carro num dos estandes da Vickers e encon- lá. Fizemos uma apresentação, mas um computador. E este apresentava, para isso, guardado em um hangar se-
com eles. Embora fossem especialistas completo nesse prazo curto e não dava trei um dos gerentes de vendas, que já não deu em nada. no final dos cálculos, as coordenadas creto. O “tapete voador” nada mais era
no tema, nenhum dos dois havia tra- para fazer tudo. Nós fizemos um acor- conhecia, e que foi oficial do 3º Regi- geográficas do alvo. O Exército dos do que um Boeing 707 versão cargueiro
balhado na indústria de defesa. E por do com a Vickers e queríamos que eles mento de Carros de Combate do Exér- n FD – E o Iraque, teve interesse no Estados Unidos usa hoje um equipa- da Transbrasil. Houve uma época em
esse motivo a questão era mais merca- fizessem o projeto da torre. Eles disse- cito Britânico. Conversamos sobre vá- Osório? mento semelhante nos veículos que a Engesa estava querendo expan-
dológica do que técnica, porque a ques- ram: “Não, nós não vamos fazer o pro- rios assuntos e ele me disse que estava Bacchi – Não. Naquela época, eles Stryker. No M1131 Fire Support dir seus negócios. O presidente da En-
tão técnica, por incrível que pareça, jeto para vocês. Nós gostamos da ideia fazendo a suspensão hidropneumática tinham interesse em desenvolver um Vehicle, usa o FS3, que é o Fire Sup- gesa fez um acordo com a Transbrasil
saiu tudo da Engesa. Partimos do zero. e queremos uma torre como essa como para o Challenger (carro de combate veículo destinado a fazer a designa- port Sensor System. No M1127 Re- para criar uma firma de transporte de
A única coisa que a Engesa não fez opção para nós vendermos. Nós vamos inglês). Voltei para o nosso grupo e ção de alvos inimigos. Era um veículo connaissance Vehicle, usa o LRAS3, carga aérea em geral. O Soler, aquele
no Osório foi a torre, porque era um fazer o projeto e vamos dar opção para pedi que o Paulo André me acompa- equipado com um sistema que combi- que é o Long Range Advanced Scout mesmo que projetou o Uirapuru, fez
problema de tempo. O José Luiz (dono vocês utilizarem essa torre no Osório. nhasse até o estande da Vickers para nava uma mira com telêmetro laser Surveillance System. uns desenhos de uns módulos internos
96 Forças de Defesa www.forte.jor.br www.forte.jor.br Forças de Defesa 97
FORÇAS TERRESTRES
Fernando “Nunão” De Martini

‘ Existem muitas
perguntas que
devem ser
respondidas antes
de se projetar um
NASCIDO PARA
VOAR
carro de combate.
Há interesse em se
desenvolver um
carro de combate?
O carro de combate,
como nós o


conhecemos hoje,
tem futuro?

que transformavam este avião, quando em vez dos dois previstos. O quarto Hoje existem cinco na Alemanha. En-
necessário, numa aeronave VIP. RCB foi mobiliado nos dois esquadrões tão eu me pergunto: O que se pode fa-
com os M60 restantes da compra ini- zer de projeto novo nessa escala de
n FD – Qual sua opinião sobre os atu- cial.Uma solução que eu vejo seria a produção?
ais carros de combate do Exército Bra- compra de mais M60 estocados nos Hoje (somando a demanda dos RCC
sileiro? EUA. Não é um carro que me agrada. e dos RCB) o Brasil tem a necessidade NOME GRIPEN NG

Bacchi – Aqueles primeiros Leopard I São muito pesados. Mas o Exército de 325 carros. Isso é suficiente para
PRÓS SUPERIOR CAPACIDADE
ASSOCIADA A UM IMBATÍVEL
belgas comprados não foram aquilo gosta deles, além de possuírem manu- projetar um carro de combate novo? CUSTO DE CICLO DE VIDA E REAL

que o Exército Brasileiro merecia. Não tenção mais simples que os Leopards.
TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA
Esta é a primeira pergunta que eu me
CONTRAS NENHUM
foi uma boa compra. Já a compra dos faço, desconsiderando o mercado ex-
duzentos Leopard IA5 nós acertamos n FD – E para a futura substituição terno. Poderíamos projetar o carro
100%. Em minha opinião, o erro foi desses nossos carros de combate, que junto com outro país, como a Argenti-
não ter comprado mais. Pelo menos foram comprados usados? Você acha na? Isso permitiria eventualmente do- A TAREFA DE UM CAÇA é voar para Para o contribuinte brasileiro, isso é A indústria aeronáutica do Brasil se
uns 300 ou 400. Infelizmente, eu acre- viável desenvolver um projeto no brar essa quantidade. Compensa fazer proteger os céus de uma nação. uma grande notícia. Para a Força Aérea tornará ainda mais auto-suficiente, con-
dito que eles já venderam tudo. A Brasil? isso? Aí entramos num segundo pro-
Por isso, os baixos custos para a sua Brasileira significa dobrar a sua capaci- ferindo pleno apoio ao desenvolvimento
grande maioria dos IA5, acho que 90% Bacchi – Existem muitas perguntas blema. Como definir o carro? Outra
deles, são veículos com quase zero km. que devem ser respondidas antes de se coisa. Como lidar com um país que não operação e manutenção são vitais para dade de treinamento e operação. de uma força aérea independente.
Todos os Leo IA5 são Leo 1A1 reponte- projetar um carro de combate. Há inte- sabe quanto vai ter de dinheiro no ano que sua força aérea possa voar o maior O Brasil também se beneficiará de uma
cializados, e isto aconteceu quando co- resse em se desenvolver um carro de que vem? número possível de horas.
meçou a grande redução do Exército combate? O carro de combate, como Mas vou dar aqui uma sugestão po- parceria industrial diferenciada, conce- Para saber mais, visite www.gripen.com.br
Alemão. Muitos desses carros foram nós o conhecemos hoje, tem futuro? O sitiva para esse problema de um novo Ao optar pelo Gripen NG, a Força bida para criar e sustentar crescimento
reformados e guardados. Eles foram carro de combate hoje enfrenta uma carro de combate. Uma solução para se Aérea Brasileira terá a aeronave de caça industrial e econômico, conferindo
“zerados” e postos provisoriamente na série de incógnitas. E uma delas, na obter um maior número de veículos a multiemprego mais avançada do mundo, acesso a todos os níveis da tecnologia
reserva, sem uso. minha opinião, é a mais importante: serem produzidos, poderia ser fugir do
com uma imbatível disponibilidade, e desta aeronave de combate.
Há meses o EB está se virando Qual é quantidade? Esse ponto é im- conceito atualmente universal de mo-
para saber o que fazer, porque desco- portantíssimo porque quantidade defi- tor traseiro, e adotar uma configuração com um custo de ciclo de vida menor do
briram que compraram poucos IA5. ne preço. Fabricar cem carros custa tipo TAM/Merkava: motor dianteiro. que a metade do de seus concorrentes.
Vejam o que acontece hoje: existem uma coisa. Fabricar mil carros custa Isto permitiria, além do carro de com-
quatro RCC (Regimento de Carros de outra coisa. O que acontece hoje no bate, a obtenção fácil de VBTP (Veículo
Combate) que estão perfeitos com 50 mundo é que os exércitos encolheram Blindado de Transporte de Pessoal),
Leo IA5 cada um. Já três dos quatro de uma maneira impressionante. Sabe autopropulsado, carro oficina e outros.
Regimentos de Cavalaria Blindados quantos batalhões de tanques, ou regi- Não é a solução ideal para se obter uma www.saabgroup.com
(RCB) não estão com dotação comple- mentos como é conhecido no Brasil, ti- silhueta baixa, mas torna a produção
ta. Como não há Leo 1A1 suficientes, nha o Exército da Alemanha Ocidental em série mais factível pela maior quan-
como solução estão com um esquadrão há vinte anos atrás? Sessenta e cinco. tidade de chassis produzidos.q
98 Forças de Defesa www.forte.jor.br
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