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FACULDADE SÃO BASÍLIO MAGNO

PEDRO HENRIQUE MOCELIN

O CONCEIRO DE VIRTUDE NO LIVRO I DA


ÉTICA A NICÔMACO DE ARISTÓTELES

TRABALHO APRESENTADO NO CURSO DE


BACHARELADO EM FILOSOFIA DA FACULDADE SÃO
BASÍLIO MAGNO, COMO REQUISITO PARCIAL
PARA AVALIAÇÃO NA MATÉRIA DE HISTÓRIA DA
FILOSOFIA ANTIGA. SOB ORIENTAÇÃO GERAL DO
PROFESOR: ROGÉRIO M. DE ALMEIDA.

CURITIBA
JUNHO DE 2017
1

INTRODUÇÃO

Neste trabalho, nos propomos a abordar as características e significados


que sondam a palavra virtude. Mas infelizmente ou felizmente, esse tema é tão
abordado pelos filósofos durante toda a história, que é praticamente impossível
abordar esse assunto de maneira geral sem esquecer-se de alguém. Por isso, mais
do que abordar esse tema, abordaremos a virtude no Livro I da Ética a
Nicômaco de Aristóteles.
Na atualidade, falar de virtude pode aparentar uma linguagem mais
eclesial e gerar comentários, de primeira instância, que isso se trata de “coisa de
Igreja”. Realmente não podemos negar que esse tema está presente na Igreja,
mas não podemos reduzi-lo a apenas uma instituição. Mas afinal esse tema
pertence a alguma instituição? Não só a uma instituição, mas diríamos a toda a
humanidade. No decorrer do trabalho, ficará claro que a virtude está presente em
todos os momentos da nossa vida, se não dentro de nós, dentro de outras pessoas
que convivemos e conversamos.
Mesmo sendo um tema tão presente no nosso cotidiano, abordar esse
tema em um livro escrito há muitos anos atrás pode parecer coisa estranha ou
desnecessária. Mas felizmente é muito pelo contrário que isso acontece. O tema
virtude não é uma coisa inventada ou criada por algum loco que não tinha o que
fazer. Discutir aquilo que está dentro de nós e dentro da nossa espécie é parte
integrante e fundamental de toda a filosofia.
É claro que, embora aparente, nem todo mundo sabe o que significa,
etimologicamente falando, do termo virtude e a virtude em si. Por isso,
abordaremos no primeiro capítulo alguns conceitos filosóficos sobre o termo. E
observaremos que muitos filósofos possuem visões distintas relacionadas ao
mesmo tema. E a virtude, segundo estudos de filósofos, apresenta algumas
divisões que serão apresentadas também no primeiro capítulo. Mas como já
mencionei, uma abordagem tão completa e profunda do tema não poderá ser
apresentada nesse trabalho e sim uma breve análise histórica do termo para uma
melhor compreensão para aquilo que Aristóteles vai tentar expressar no Livro I
da Ética a Nicômaco.
2

A apresentação dessas ideias serão norteadas por conceitos filosóficos


que tentarão, por fim, dar um norte para a sequencia do trabalho que buscará
apresentar as principais ideias de Aristóteles em seu livro.
Por incrível que pareça, Aristóteles não aborda com muitas
características em seu primeiro livro questões específicas a virtude, mas sim
aborda questões muito relacionadas a esse tema que nos ajudarão a olhar a
virtude com outros olhos. Por isso, no segundo capítulo desse trabalho, após
uma visão geral do termo sobre olhar dos filósofos, abordaremos então a visão
que Aristóteles propõe-se a trabalhar sobre a virtude.
De maneira que, orientando o trabalho segundo visões aristotélicas,
parece ficar difícil estabelecer uma forma de diálogo com outros temas, mas é
justamente o contrário que acontece com Aristóteles. Mesmo aparentando
refletir só sobre um assunto específico, ele acaba abordando outros temas que
estão muito relacionados com a virtude. Questões como a alma, a felicidade e o
bem. Como nosso trabalho tem o objetivo de esclarecer o conceito e algumas
ideias do termo virtude no Livro I da Ética a Nicômaco de Aristóteles,
seguiremos no decorrer do trabalho como o autor se propõe a trabalhar, por isso
abordaremos também esses temas citados acima. Embora de “antemão” aparente
que uma coisa não tem nada haver com outra, ficará claro nas páginas seguintes
o tanto que esses termos podem e se relacionam com a virtude.
A virtude nunca aparecerá sozinha, independentemente do termo ou do
contexto que ela estiver aparentando ou substituindo. Ela, mesmo sendo uma
palavra repleta de significados e podendo ser usada em tantos lugares, nunca
expressará uma coisa única e particular, e sim algo repleto de “alma” e de vida.
Então agora, como já mencionei, no primeiro capítulo abordaremos uma
questão mais superficial do termo. Mas é claro que essas ideias não podem ser
descartadas e por isso serão apresentadas logo a seguir.
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1. O conceito de virtude

Embora seja uma palavra muito dita e expressada pelas pessoas no dia-a-
dia seu significado está longe de ser simples e de fácil interpretação. Para uma
melhor análise do conceito de virtude no livro I da Ética a Nicômaco de
Aristóteles é preciso primeiramente uma explanação técnica e formal do termo.
Segundo o dicionário de Nicola Abbagnano1, a palavra virtude, Virtus em
latim, implica uma capacidade qualquer ou uma primazia de alguma coisa ou
pessoa, de modo geral sendo resumida a uma superioridade de alguma coisa ou
do ser a que pertença. Porém uma palavra tão complexa não poderia se resumir a
uma simples explicação e sim a uma análise mais completa, todavia esse não é o
objetivo específico do meu trabalho, por isso analisarei três dos inúmeros
significados específicos do termo virtude nesse primeiro capítulo.
O primeiro significado específico de virtude ainda está relacionado com
uma definição mais geral do termo. Nesse sentido a virtude indica competência
ou eficácia de algo qualquer, como por exemplo, de uma árvore, de um animal
ou de algum elemento. Muitos filósofos usam dessa ideia mais geral de virtude
para explicar características de seus pensamentos ou de seus “personagens”,
como Maquiavel fala da virtude da arte da guerra:

Um príncipe não deve ter nenhum outro objetivo ou


pensamento, nem estudar nada além da guerra e das suas
regras e disciplina, pois essa é a única arte que compete a
quem governa. 2

No segundo significado a palavra virtude já traz um sentido mais humano


e racional, pois apresenta uma idoneidade ou potência própria do homem.
Assim, nesse sentido, a virtude pode ser dirigida a uma pessoa que possui uma
habilidade qualquer, denominando-o de virtuoso, como para tocar um
instrumento, tocar piano e cantar.

1
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia, 4ª Ed. São Paulo: Martins
Fontes, 2001. Art.: Virtude
2
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe, p. 115, São Paulo: Hunter Books Editora,
2014.
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Por fim, no terceiro sentido, a virtude designa uma capacidade do homem


no domínio moral, ou seja, domina o que eu “devo ou não fazer”. E por causa
desse sentido acabamos gerando outras cinco definições de virtude.
Após uma análise moral e filosófica, podemos afirmar que a virtude
apresenta um conceito platônico. Pois em sua primeira definição, o que é
observado é a capacidade de realizar uma determinada tarefa, por exemplo, a
função dos ouvidos é ouvir, e a possibilidade de ouvir é a virtude dos ouvidos.
Por causa disso, Platão afirma que a diversidade das virtudes é determinada pela
diversidade das funções, podendo ser deduzido que a virtude está relacionada
com algo prático, que deve ser realizada pela alma ou pelo homem no Estado.
Passando de uma visão mais platônica para uma visão mais aristotélica,
chegamos na concepção de virtude como hábito ou disposição racional. Para
Aristóteles esta ideia está relacionada com “aquilo que leva o homem a se tornar
bom, e cumprir a sua tarefa” de modo racional e uniforme. Abordaremos mais
detalhadamente esse conceito no segundo capítulo.
Na terceira definição de virtude consideramos seu conceito como
capacidade de cálculo utilitário. O filósofo Epicuro abordou essa noção
filosófica, após considerar como “suprema” a virtude da sabedoria, da qual todas
as outras seriam derivadas, e da qual seria estabelecido uma medida de certo e
errado entre os prazeres que se devem ser escolhidos ou de quais se devem fugir.
Já na quarta definição desse conceito, temos a virtude como sentimento
ou disposição, algo espontâneo. Voltaire considerava a virtude como
simplesmente “fazer o bem ao próximo”.
Por fim, a quinta definição de virtude está relacionada com o esforço. O
filósofo Rousseau explica essa definição argumentando que a virtude é fruto de
uma “luta”, assim como a felicidade é fruto de uma “coragem”, e como uma
“boa luta” a força é a base para se alcançar aquilo que se quer. Um bom exemplo
para se ilustrar esse conceito é ideia de que um sapateiro para fazer bons sapatos
precisa se dedicar e aprender novas técnicas, ou, por exemplo, um cantor, que
mesmo que tenha talento ou uma voz muito bonita, precisa aprender técnicas,
cuidar da saúde da garganta e conhecer outras músicas que todos os dias vão
sendo criadas. Por isso, não podemos dizer que Deus é virtuoso, pois ele não faz
um esforço, segundo Rousseau. Já Hegel deixa claro que a discussão do
problema moral largou de ter forma de discurso sobre a virtude, para adquirir
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uma forma relacionada a discursos sobre valores e normas, de um lado, e


atitudes e modos de vida de outro.
Apesar de vastas definições e complexas teorias, percebemos que este
termo, a virtude, está tão presente em nossa vida que nós muitas vezes não
percebemos e acabamos não dando valor para aquilo que deveria ser “o valor” e
qualidade de cada um. Mas para uma análise mais prática e dinâmica do termo,
abordaremos agora no segundo capítulo a definição e explanação que Aristóteles
faz em seu livro Ética a Nicômaco no Livro I do conceito de virtude.
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2. O conceito de virtude no Livro I da Ética a Nicômaco de Aristóteles

Após uma breve introdução no termo virtude, conseguimos analisar que a


virtude em si consiste em ser algo bom e útil para o ser humano. Não podemos
separar aquilo que os homens fazem ou de um trabalho cotidiano da virtude,
porém não podemos reduzir um simples ofício a uma virtude por completo.
Apesar de tantas características já trabalhadas nesse trabalho, abordaremos nas
páginas seguintes ideias e conceitos da virtude, mas com a visão de Aristóteles.
Aristóteles (384-322) em seu livro Ética a Nicômaco, mais
especificamente no livro I, aborda conceitos e definições fundamentais para um
estudo filosófico e para uma compreensão do mundo racional e humano. De
forma dissertativa Aristóteles vai percorrendo o mundo do “espanto” e das
investigações do próprio ser, começando pela ideia de que todas as coisas
tendem ao bem, ou seja, tudo aquilo que fazemos está direcionado a um bem,
universal (para todos) ou particular (só para mim), como um ladrão que para
roubar alguma coisa acaba matando para fazer o bem para si próprio, com isso
também fica clara a ideia de que tudo aquilo que fazemos ou desejamos está
relacionado com um fim.
Pode-se notar que a característica individualista está muito presente nesse
contexto de virtude, mas toda a consequência de seu atos e atitudes refletem no
todo da comunidade. Porém cada um pode julgar aquilo que conhece, mas se não
conhece não se pode julgar, por isso toda a comunidade está envolvida desde os
pequenos aos grandes fatos, por que dentro de uma comunidade existe um vasto
conhecimento em várias áreas do conhecimento.
O homem pode apresentar modos de vida distintos de um para outro,
como aqueles que identificam o bem ou a felicidade com o prazer, e por isso
amam a vida dos gozos, existem ainda aqueles da vida política (da honra) e a
contemplativa.
Mas tudo isso que já discutimos está ligado ao bem que buscamos. Porém
chegamos à dúvida “qual é esse bem?”. Aristóteles antes mesmo de dar uma
definição ou exemplificação do bem, já começa a discutir sobre o “bem em si”,
ou seja, seu verdadeiro significado interior, porém prefere deixar para outra hora
essa discussão, mais precisamente para a Metafísica.
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No decorrer do texto Aristóteles coloca o bem com uma divisão clara,


que existem, no caso, coisas boas em si mesmas e existem coisas úteis. O bem,
contudo, não é um elemento genérico ou comum que corresponde a uma ideia
geral. O bem é analisado em cada contexto em que está escrito. Sabemos de
antemão que um médico não cuida daqueles que já estão curados, mas sim
daqueles que precisam ser curados de suas doenças, por isso, Aristóteles para
exemplificar essa questão do bem traz o exemplo da medicina, cujo bem é a
saúde, ou seja, a finalidade da medicina ou de um médico é trazer a saúde para
um paciente, para uma pessoa em particular e não para algo geral. E para
alcançar essa finalidade, o médico faz estudos, especializações, pede exames,
realiza cirurgias nos pacientes, tudo isso para alcançar esse bem, ou seja, tudo
acontece em favor desse bem.
Em torno desse assunto, Aristóteles acaba trazendo um nobre conceito de
felicidade em sua dissertação e a define como aquilo que é sempre buscado e
desejado em si mesmo e nunca no interesse de outra coisa, como o exemplo do
médico, que mais do que desejar a saúde para seu paciente ele está desejando
acima de tudo a felicidade para essa pessoa. A felicidade, por assim observar, é
autossuficiente, quando se está feliz está repleto/pleno de algo, muitas vezes,
inexplicável, fazendo com que durante a vida desejemos essa “realização” e
passamos a vida toda “carentes de nada”. A felicidade também é algo absoluto,
por isso acaba sendo a finalidade das ações.
Entretanto, não podemos dizer que a felicidade é o sumo bem. Para uma
melhor interpretação do assunto, Aristóteles, tenta primeiramente esclarecer a
função do homem. E nesse esclarecimento, partimos do pressuposto casual de
vida no sentido de atividade/trabalho para chegarmos na atividade com
princípios racionais da alma, caracterizando assim a função do homem. Como
um flautista que toca sua flauta, porém existem flautistas e bons flautistas (que
executam bem), assim também ocorre com o homem, enquanto para um homem
sua função é a ação da alma com princípio racional, o bem do homem nos
aparece como uma atividade da alma em consonância com a virtude. Mas, como
para se tornar um bom flautista se leva tempo e muita dedicação, também para se
tornar um homem “virtuoso” se leva muito tempo, por isso é preciso ajuntar
conhecimento e experiência de uma vida inteira.
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Sendo os verdadeiros “bens” aqueles que se relacionam com a alma e


tomando como certa a afirmação que uma atividade virtuosa, repleta de
características pessoais, deve sobremaneira procurar “agir bem”, logo se pode
levantar uma hipótese muito plausível que a virtude se relaciona com a alma. E
essa alma não é algo isento de emoções ou de estados, na verdade a alma possui
vários estados, sendo o prazer um deles, e para cada ser humano aquilo que ele
ama é agradável para ele. Por causa disso, as ações virtuosas devem ser
agradáveis e prazerosas em si mesmas, ou seja, uma ação virtuosa deve por ela
mesma agradar a alma e por consequência a pessoa, por exemplo, um pintor
virtuoso não fica triste por pintar ou por fazer aquilo que ele faz de melhor, pois
isso que ele faz o completa e o traz prazer para sua alma, e essa atitude do pintor
é boa e nobre.
E esses atos nobres, mesmo aparentando algo natural e de fácil execução,
não são fáceis de serem realizados se o ambiente em volta não for muito
agradável, ou seja, um ato virtuoso muitas vezes está relacionado com o
ambiente, como o exemplo do pintor, que se não tivesse o auxílio de amigos,
incentivos, um bom pincel, um lugar silencioso, talvez não conseguisse ser um
bom pintor. Muitos relacionam a felicidade com a auto realização financeira,
poder político ou amizades. Mas, uma das ações mais nobres, como já
afirmamos, e que gera como resultado quase certo a felicidade é a virtude, que
não deve ser privada de outras pessoas.
As pessoas que são virtuosas podem e devem partilhar de suas virtudes
para com aqueles que abstidos de tal “graça” possam, através do aprendizado,
conquistá-las. Essa virtude é uma atividade que gera felicidade, e por isso,
podemos dizer que a felicidade é uma atividade virtuosa da alma que exige
permanência e perseverança. Mas como ser feliz uma vida interira? As
atividades são o que dão consistência a vida, mas nem tudo é um mar de rosas e
no caminho existem muitas dificuldades que podem fazer com que os homens
percam, errem e desistam de suas atividades e dificilmente encontrem felicidade
em tudo. Entretanto nas ações virtuosas a felicidade dura mais tempo e é capaz,
mesmo nos momentos difíceis, de trazer uma perseverança mais forte e segura.
Dentro das dificuldades da vida, um homem bom e virtuoso é capaz de
suportar com dignidade todas as eventualidades da vida, tirando sempre, como
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crescimento e aprendizado, um bom proveito das circunstâncias. E por isso esse


homem dificilmente perderá a verdadeira felicidade.
A felicidade sendo base perseverante de nossas vidas, nos mostra ser
muito estimada. Na verdade ela é a mais estimada dentre todas as atividades.
Poderíamos nomea-la como bem-aventurada, mas fica de fácil interpretação a
ideia de que a felicidade é uma das coisas estimadas e perfeitas para o ser
humano. Podendo ainda ser considerada um “primeiro princípio”, pois é
almejando/ desejando a felicidade que nós buscamos outras coisas, fazemos tudo
o que fazemos para alcança-la.
Outra explicação para a supremacia da busca e do desejo pela felicidade
se deve ao fato de que o louvor ou aquilo que é estimado está ligado e
apropriado à virtude, pois graças a ela os homens tendem a praticar ações
nobres. E a felicidade, como resultado da virtude, fica como primeira ação nobre
a ser buscado pelos homens estando ligada a suas vidas cotidianas.
Já no fim do livro I, Aristóteles se propõe a introduzir uma breve
explicação da divisão da alma humana da qual a virtude repousa. Ele divide a
alma em racional e irracional, assim como os políticos a dividiam. Sendo a parte
irracional ligada a nutrição, mais presente na infância e um pouco na nossa fase
de adulto. E a outra parte é a racional, das escolhas e das questões mais adultas
do ser.
Desse modo também, Aristóteles já para finalizar seu primeiro capítulo
da Ética a Nicômaco, apresenta uma das características mais interessantes e
importantes para o desenvolvimento de seu trabalho. A questão que ele aborda e
que vai ser dissertada agora como finalização desse trabalho é a divisão da
virtude que pode ser entendida como algumas virtudes intelectuais e outras
morais.
Como virtudes intelectuais temos a sabedoria filosófica, a compreensão,
a sabedoria prática, ou seja, sabedorias essas que exigem um conhecimento
racional de assuntos abordados e debatidos pelo ser humano, como a sabedoria
filosófica que é argumentativa e busca uma série de respostas muitas vezes, e
talvez todas, de maneira racional.
Já em relação à segunda divisão da virtude temos a liberalidade e a
temperança, ou seja, são de caráter morais e que podem variar, diferentes das
primeiras, que são racionais e que são adquiridas de maneira geral e genérica.
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No fim de seu raciocínio Aristóteles coloca a seguinte ideia:

Ao falar do caráter de um homem não


dizemos que ele é sábio ou que possui
entendimento, mas que e calmo ou
temperante. 3

No entanto, Aristóteles não deixa a figura de um sábio manchada, por


isso, louva ao sábio referindo-se ao seu hábito de ser sábio, ou seja, suas ações.
E aos atos dignos de louvor, Aristóteles os chama de virtudes.

3
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Abril Cultural, col. Os Pensadores,
1973. 1103b, 5-10.
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CONCLUSÃO

O conceito de virtude, como podemos observar, expressa, muitas vezes


mais do que um simples sentido de dicionário. Esse conceito está relacionado
com aquilo que o homem tem e faz de melhor no seu cotidiano e na sua vida.
A virtude, não é só uma palavra “clerical” e da Igreja, ela expressa um
sentido muito mais amplo dentro do mundo filosófico e de todos os seres
humanos. Por isso que praticamente todos os pensadores falam dela e se
interessa por esse conceito que está em nós.
Aristóteles, como um ótimo filósofo e questionador das coisas do mundo,
não deixou passar esse conceito e essa atitude que está, sobretudo, ligada ao ser
humano.
Como vimos, a virtude não possui um simples significado, mas pode ser
entendida como aquilo que o homem faz de melhor e pela qualidade que o
homem busca ser feliz. Falar sobre virtude nos leva a discutir sobre felicidade,
sobre o bem e o mal, o certo e o errado. Esse conteúdo não está finalizado e
nunca estará, pois a humanidade sempre está atualizando seus conceitos de vida.
A filosofia não deixa a humanidade sozinha, ela a ajuda a questionar os
novos conceitos e os novos ideais. Hoje em dia, usamos mais a palavra “dom”
ou “sorte”, para tentar explicar tudo aquilo que Aristóteles nos mostrou.
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REFERÊNCIAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia, 4ª Ed. São Paulo: Martins


Fontes, 2001.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Abril Cultural, col. Os


Pensadores, 1973.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. São Paulo: Hunter Books Editora, 2014.


208 p.