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Psicote,apias de C,,an~a. ~i ·
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. .·.. ,t,; ... --... ·;.• ',

. . -~· .

,,,anças em psicanálise
Jean Be,q~s
Gabriel Balbo
TranSitiviSmo, corpo e Outro

'1
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1
A importância qu e acabamos de reconh ece r na
\.... .
Vernetnung no s aparec eu como um fat o ce ntral no s
mecanismos e na função do tran siti vismo. Ass_im, o "golp~ _de
forç~:- ~a _in_ã~ só pode se fazer se para esta·,--em qualqLJer
hipótese que ela fi?er, a_criança possa dizer "não, esta não é_
m~E~ - ~~~~~~a_"~ isto é, a m~e -faz també~ a hipótese_de qu~
a crian~~ pQd_e 4!~e! não; é d~ _qµe__ii _~cJJei~!~IJ_g__ encgrma
sua ori$!m. A hipótese de uma Verneinung implícita na criança
! é requerida por necessidade lógica: a criança não nega a
i
hipótese, qualquer que seja, de sua mãe que se oporia à sua
própria, ela utiliza a Verneinung contra o próprio --golpe de
1 força ".
0 A l]jpót~se gue_a mãe faz d~ Verneinung j~fcil~_de
sua criança é uma hipótese antecipatória da possibilidade efetiva_
'f> qui:ã_criãnçâ terf desde q~e vier a falar gritando "!l?Q, nã~ j __
1 i~~"- O que nos permite adiantar que o "não" simbólico. no
, qual Freud desemboca no final de seu artigo, encontra-se
antecipado pela mãe em seu golpe de força . D!~e~~_c!_estacar
( que as mães de autistas_se_.m_o..s.tram inco_!N>e tentes para
~ an@fuar essÃ.Y~rnwung_impjíciJa, esse nà~s imbóli.çq_~-
Consequentemente, a questão da c~~ da criança em k
suscitar a competência da mãe para exercer um golpe de força
que seja de fato um tem de ser considerado a partir
especialmente de qua~o pontos importantes:
- a dissociação da criança do corpo ~_!!!~..? para ter
acesso à competên-cia de... rdançar seu disêurso transitivista
para a mãe;
- para essa dissociação, nota-se a importância do
posjcionamento do real do corpo e do_~i_scurso do pai no discurso
da mãe;
60 Psicotera pias de crian ça .
- - - - - - - - - - - - - - - - - . ;.::.;.:,:~,~cr~1anças em .
Psicanálise
Transitivismo, corpo e Outro
~ i11tncssa nt e des ta ca r qu 61
11L·111\1L·1c11L·i:1s. começa-se atualmente a subli eh do_ lact o da s
1 d.
_i:1 111t raulL'ri11 .
a. lo 1sc urso do pai e nãos n ar a l!U POrtância movimenta uma vírgula, sentado em u~a c~deir~: ele dei~~
alé d~ ,ct iscurs
0
d:1 111'..tL' para a ~ria .
nça. O que .
faz com que,mente · - , a ln ãe incapaz de lhe dizer: "você vai cair, cmdado etc. ,
1"L·b\:11i a esse di sc urso materno e paterno ai 111 d~ sso, com0 su h. ,
ois se trata de um exemplo imprevisível, fora da 1potese.
s1·rn1·1ar a· 111potcsc
· · que 1·· reud formul a co' guma co1 sa, talvez igualmente, ele cai nas escadas, isso não pode ser mais do que
L'a1°L'l'L' SLT lembrada ; quer di.zer que se esm seus d' d01·s Moisés um grande azar. .
l ' 111 e s 111 o o q u e se e h amo u d e a " - se - iscurs
- -- 0 lllaterno ' Assim, a ausê_ncia de r~lance por parte da cnança das
- . 1 • .
lor 1111porta11te, e e se m du vida so mente é . so nata IU aterna'' - - .:
O -t hipóteses gui pod~ fazer a mãe yel!! tornar impossívê! gualq_u_er
_j:'1 de saída _rnlocad_o na base do discurso p~~~t~ue se encontr~ ve;ne inung da criança. Essa denegação viria negar ess~--
que rn11tara a seguir de modo cada vez , . no que conta e
111a1s relev hipótese mat~i:!)~_gue ~ã~ existe~p?~q~e- n}~all?·"r~i~~:f?fl)º
dll 11asci mL·11to; - ante depois dacriãnçâ vem solicitá-la. A ausência de !_ela_11fe por parte da
se ll heb0 descobre e entretém s , crúinça (particularménte·-visívef em"êri'ãn-ç ashipotônicas)
111c10 · te 1 11111a l·1xa\'.Jo ao corpo da mie • eu dlltocr . ·
01 1sn10 Por d~s-hfpótes~s que a mãe pode fazer diante de s.e1Lberço depende
. < , CJ llC C li 111 .
p1..-rs1stc 1..:m ser o dck mesmo esse 'll t . coipo que do_r~.al. Com efeito, a mãe não pode falar a seu filho sobre as
_ .
L'Olll(l L'Ollsl'quc11c1a que o corpo eh ' • · ' 1 ocrot1sn
• :-- u ,
1 con1pona posturas às quais seu filho reagiria se a mãe lhe falasse delas
lu ga r ondl' a pulsao - da cnan<;a . ' 1111' es.n,10 Pode
encontn . in·,lls
.. ser
. o
assim : "Ah, o maroto, ele vai embora, ele vai cair etc.", o que
. . . ' · e li o1)!cio nc , , ...· .-
( >h1 1.: to qu1.: , co1110 111d1co11 1:rcud cm '/' ·;. ; . l.ess,1110. torna impossível qualquer Verneinung da criança que viria
. • 1 ( ,\ ( li.\'( //(/,\' \'()/ .
lt·unu St '.rnu/, d1..:v1..· ser exterior ao corpo d l . · ,· · ' 1(' negar as hipóteses, já que elas não existem, porque nada no
. . 1 . 1 .
1..·11\·11110 1111 Si(llla possa lu11c1011ar 11on11·ilin. . ( s11,11.:1tn!\ para. lJll,~ 11 real do corpo da criança o permite, não vem solicitar essa
0
1.., l,1. ll11..s111.1
• · . , seu
. , p1op110 . · .· co1 . .po e 11:in ~ csh , Lllc. .1·. Cl'lilll~a0 . .' Venwi111111J.!. da criança . De sorte que, do lado da mãe e cio
.. . . NL.ss1..
p1ils1u11,ll . . . l ...1su
. 1...Xl
, .111pl:ir, a cn:111q . . ,L'II111 ,11s
. llo. l'.1·.rc11110 lado da criança, as condições cslào reunida; por uma cl1sff1nçãÕ
( 111 <Ili 1
:1ti1t)1..•rut1s1110 Clll lJllL' d :1CSL'II prúpriu l'llrj)l) Jl ' lr'I ocx1sk11111
• • Y '
.· .- radical , pelo l;1to <k que a Verneinung se produz na própria
dr s1..·(,h11r. . 1..·.\plur:1r L' 111wst1r
. . l1h1d111:l1111c111L:
. . . sc' . r,·, s1,w· 11.ill pude fonll! do p1.:11 samento. i'-: urna forma crítica dt: dcscrev1.:r a
. . . · 1111 1 1ll rnrpo i1111:ra~·;'t o 111:k-niant,:a; é uma fonna dt: l:tzcr intt:rvin.:111 as
v s1..• 11 s dl\ n s1 1s scg1111..·11tlls p:1rr1:11s; e 1ss11 d:'1 l'lllllil liuiihéni
du "q11,·n·111 ltlllllt:1 pnda" ( Hillhu; lkrgL's , .~IHU ).
rcliu,:,)es da I Í'r11ci111111,1!, com o p1.:nsamcnto, colocando em
_jogo a i11L'i1pacidadc 110 real da cria11t,:a 11fio somente c111 rcla11,:ar
1>it,, (k 1H1tr:1 llli111vir:1 , Sl' 11:)0 lii'1 i11 v1..·s 1i111l'11l11 de
11111 a hipt)IL'sc da 111;\c, mas dt: litz1.:r com que 11ma hipútcsc seja
1ih1rl\l ntniPr, u ljlll' sr prlld1r1.ir:·1(· 11111 s11pni11 vcsti111L·1illl do 11111a: incaparidadc dt s11s1t:11tar o olhar 011 de n1a11tê-lo, a11sê11cia
t·tiq,p prúp1111 L' , r u11 st·q111..·1111..·1111..·111l', lodo u i11vl'sli111rnlll do d,· pcn.: l·p,·:\11 d11 corpo corno instr11111 c11l0; ora, 11 i'i o t~ c111
111111Hk1 ,· ,1t...·11u1 li(.' a1 :'1 r 1,1111li·tlllll'lido. j:'1 ljlll' ll ilo li:'1 llhjrlo ahsol1110 suhrc o enrpo co1110 i111-1 trn1nl!11l0 q11c ílScois:1s 1kva111
p.t1l·1:il q11r Sl'i:1 l' s1·11ll1idll t·o11111 oh,il'tu " 110 L'X lnior p:1nt ser prnsadas, 111:ts de pn:fcrü11ciíl que o corpu l: incapaz dt
pr11111111 :11i ri 1rn1t11 p11l siu11:d gir:1r nH110 ,; prl'risu, q11n di /('r, n;la111,:m II hipúlcsc da n1ílr . As psit olcrnpim:, l! pri11c ipali11l·111(·
p,11 :1 q11r lt:q:1111111,1. 1k surll' (Jll\' :1 (jllL'S l:lo d:i rn111pd1:11ri:i twl11 s as q11r N1: rdt!i'l'lll 110 r11rpo, 1\ 111udiuvílo L'orp11111l , v1 Na111
dit ,·11.111,·:1 p:11 :t :-- 11sr 1t:1r :1 ru111pvlL~11r i:1 d:1 111:h' para 1·x1·1-n·r cri11 r :i~; l'11111li,·1ks q111; lt1111111·i11111 poNsí vl! l 11111 "~•,olpl' dl' 1<11\·a"
11111 FiliJ'L' 1k 11 11,-; 1 q11 r dl' L1tn Sl'j:1 1111111'111 lJlll' sn l'l':ii1m·.111l' lra11si tiviNt1111h'.· c11t1)0 i111pos:ilwl 011 prohlt:111i'1li1·t t'/ l·:N1;11qt1(·st110,
l'\llhll k-1 .1d.1 .1 s 1•.1:111dr:-- 111p11ln111:1s d:11·1 i: 111,·:1, :1s IH·1111plq•,1:1 s, p11n·n·"11os, s1'1podl· N1:r d11•1 ('11lid11 1) 1111·d id11 q11l: o p.•,irnl1•1·11pl'tll11
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62 Psicoterapias de criança, crianças em psica - .

a questão; quando o corpo responde a certa forma e <..1 certo


na1se
1

---
rrans1'tivismo ' corpo e Outro

corpo,S
.. , ., dcia significante
c.iuc fazem litt;raJment.c a dd crença nc1 Cd
·
. rgiria de um recalcado, e que seriam cons
· . •r t•·
'C(jUClllCJllC I '-'
fun~ionamento ~ue_são ~ultu_ralmente aceitos, essa afirmação que su . . . 'I
é evidentemente md1scut1vel , mcontornável, e no fundo as obras dern de uma formação do rnconsc1entc. .. .
de Lavater e o que pensava Kretschmer o coinpi·o vam ·
da or Por exemplo , os parap lé·g1cos • . eJ e• nascença
· ..e
~ ha' cinco ou seis
o estudo deles de traços faciais, para mostrar que reflet' . ' , . traumáticos cm tratamento e1e rc Jaxaçao
. . ~ d '. ldlll pos- . 1 , !eles
certa d1spos1çao e espmto, responde a um códig,0 cultur· 1 _. , s· · esses pacientes que arrastam suas pernas atras e ·
, d' . d , a que, ,nese. · · · ,randc
alem .isso, a. pmtura e uma epoca não deixava de retornar. , urn esforço sobre -humano diziam com g .
(J, em . , . . ,, . - -·
Os ps1canahst~s ficam sem palavras diante elos autistas, (~,}: .- ,· ravilhamento: "Existe alguma cOJsa la embaixo , quer dizer,
ao passo -,:í ,na · da cintura. Não havia significante para essa parte do
_ que diante de um quadro ~ elos mais abstrato s, . e que abaixo . . , ·.
o agora reintroduzida no discurso. O_s traços corporais
el~s ~.ª? c~mpre~ndem,~ele~ se po~1~ a falar: seu discurso supõe cor P' . .
a ex1stenc1a e a 1mportancia de cod1gos culturais. · presentam esses suJe1tos ~
sao traços de I.dentJ'da d e~ e
que a . . . . ..
Mas quando o corpo apresenta traços aberrantes •dentificatórios (s111a1s particulares), acarretando o mm~et1smo
~e certos membros da família . Igualmente,_com 1ss~ se
1 ~ , • anormais em relação à forma aceita , mas em'
não somente
re açao as imagens admitidas, quando seus traços são mpreende melhor a objeção por parte dos pais a que seJam
totalmente outros para o Outro, a afirmação de Lacan se torna colocados em classes ou em instituições especiais, dando como
co .. . t
para nós, problemática. Isso é particularmente gritante diant~ otivo que seu filho vai se tornar como os outros. E1et1vamen e,
das malformações tais como as paralisias, malformações do :se traço particular, se é parte constitutiva da identidade da
rosto, do corpo, ausência de membros ou de segmentos de criança, é precisamente o objeto do desconhecimento ativo do
membros. Igualmente, perturbações posturais ou motoras se ambiente. A mãe não olha a perna hemiplégica: ela não sabe
a~ompanham de posições viciosas ou necessitando de próteses qual é o lado hemiplégico, porque não olha, e não pode saber
diversas. Será que nesses casos o Outro é o corpo ou será que de que lado se trata.
o corpo é rejeitado do Outro? Mas então, em que discurso, Por que todas as psicoterapias retornam finalmente
porque ele é sem significante? Em síntese, será que existe um muitas vezes à mediação corporal? Talvez porque os
corpo à margem do Outro? Ou ainda, será que o corpo nesses psicoterapeutas suponham que o Outro seria para eles o corpo?
casos apenas um dejeto a que o Outro deixa cair para responder Mas, contrariamente a Lacan, eles não tomam a linguagem e
ao desejo de uma mãe e de seu discurso? Assim, essa menina o discurso como meio de abordar o que é recalcado do corpo
autista de quem o pai fala e se ocupa como se fosse de um do Outro. Consideram o corpo e o Outro como imediatamente
objeto. Mas deve-se destacar que nas entrevistas psicoterápicas acessíveis, sem qualquer mediação do discurso ou da língua.
de um autista, muitas vezes o corpo é rejeitado pelo Outro, Em suma, a "mediação corporal" permite mascarar a ausência
quer dizer que não se fala disso; as terapias corporais justificam de qualquer mediação; ao passo que o psicanalista, ao contrário,
sua utilidade pelo fato de que não há palavra por dizer no autismo: postula a insistência do inconsciente e do recalcamento e não
isso não fala e não há nada a dizer sobre isso, porque o corpo, pode e nem pensa poder ter acesso ao Outro, como ao corpo,
isso falaria mais verdadeiramente do que a fala. a não ser pelo desvio do discurso e de seus significantes.
Compreende-se que essa espécie de rejeição do corpo O que pode levar a pensar na psicoterapia que é possível agir
fora do Outro acarreta e determina desvios terapêuticos diretamente sobre o corpo, sem que se tenha que ter acesso
importantes . Quer dizer que é com o corpo, enquanto ao que quer que seja do discurso sobre esse corpo, salvo talvez
suportando traços imaginários, que lidamos. Corpos a tal ponto na dor, como atesta a relação paranóica que é a nossa com
marcados, a tal ponto parecem estranhos ao Outro, não são nosso corpo? Os psicoterapeutas estão convencidos de que
64 Psicoterapias de criança, crianças em ps,·ca ál'
.:::..:.--------------------4--:.:.:..:..!:::'..'.,~n~,s1~
--.:.

por essa ação imediata sobre o corpo os efeitos serão produ1/.idos


no psíquico e, para alguns. no inconsciente, eleitos para eles
diretamente constatáveis.
São todas as apresentações espetaculares de Charcot
mas também a mesma demonstração espetacular que se ten~
com a hipnose. O psicoterapeuta nesse caso estabelece uma
transferência em que a satisfação narcísica pelo sucesso
imediato obtido é superinvestida e pode-se dizer que esse corpo,
esse corpo-a-corpo psicoterapeuta-paciente, realiza algo de
especular que depende do tempo especular do narcisismo, quer
dizer, de uma equivalência central: Outro= corpo= narcisismo
do terapeuta; é este o único agente efetuador da terapia.

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