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A. D.

Sertillanges

A DISCIPLINA DO CORPO – Padre Sertillanges


A doutrina do composto humano opõe-se à dissociação das funções espirituais e das funções corporais, ainda as
mais estranhas ao pensamento puro. Santo Tomás subscreve este pensamento irônico de Aristóteles: “É tão ridículo
dizer: só a alma compreende, como dizer: só ela constrói ou tece”; e sustenta estas proposições na aparência
materialista: “As diversas disposições dos homens nas obras da alma dependem das diversas disposições de seus
corpos”. “À boa compleição do corpo corresponde a nobreza da alma”.

Não admira. O pensamento nasce, em nós, depois de demoradas preparações em que toda a máquina corporal
entra em ação. A base de tudo é a química celular; as mais obscuras sensações preparam a experiência: esta é o
produto do trabalho, dos sentidos que elaboram lentamente as suas aquisições e as fixam pela memória. O
fenômeno intelectual produz-se no meio de fenómenos fisiológicos, em continuidade com eles e debaixo da sua
dependência.

Ninguém pensa, mesmo que só utilize uma ideia adquirida, sem evocar uma série de imagens, de emoções, de
sensações, que são os adubos com que se fermenta a ideia.

Quando queremos despertar nalguém um pensamento, servimo-nos apenas dum meio: produzir nele, pela palavra
ou por sinais, estados de sensibilidade e de imaginação, de emoção, de memória, nos quais ele descubra a nossa
ideia e a possa fazer sua. As almas não comunicam senão pelo corpo. Do mesmo modo, a alma de cada qual não
comunica com a verdade e consigo própria senão pelo corpo, de sorte que a mudança pela qual passamos da
ignorância à ciência se deve atribuir, segundo Santo Tomás, directamente ao corpo e só “por acidente” à parte
intelectual.

Esta doutrina, que o Santo Doutor desenvolve a cada passo, tão essencial e providencialmente moderna, deve gerar
a convicção de que para pensar, sobretudo para pensar com ardor e sabedoria durante uma vida inteira, é
indispensável sujeitar ao pensamento não só a alma e as suas diversas potências, mas também o corpo e todas as
suas funções orgânicas. Tudo, num intelectual, deve ser intelectual. O complexo físico e mental, a substância homem
estão ao serviço desta vida especial que por certos aspectos parece tão pouco humana: não lhe ponham embargos!
Tornemo-nos harmonia, que dê em resultado a conquista da verdade.

Ora, há aí duas coisas a encarar sem respeito humano, embora a primeira costume assustar os espirituais de juízo
pouco firme.

Primeiramente, não vos envergonheis de cuidar da saúde. Gênios houve de saúde lamentável, e se Deus permite que
assim suceda convosco, não discutamos. Mas se a culpa é vossa, então isso seria tentar a Deus e caso de grande
culpabilidade. Tu que és aluno dos gênios estás seguro de possuir, como eles, bastante vigor para triunfar na luta
incessante da alma contra a fraqueza da carne? Nada nos diz que os gênios não tenham visto as suas taras
fisiológicas desviarem ou reduzirem-lhes os talentos.

Muitas anomalias intelectuais, mesmo entre os mais bem dotados, talvez se expliquem deste modo, bem como a
fraca produção de alguns.

Em igualdade de dons, a doença é grave inferioridade: diminui o rendimento; entrava a liberdade no momento das
suas delicadas funções; desvia a atenção; pode falsear o juízo pelos efeitos de imaginação e de emotividade que o
sofrimento provoca. Uma enfermidade de estômago muda o carácter do homem e o carácter muda os
pensamentos. Se Leopardi não tivesse sido o aborto que foi, quase decerto o não contaríamos no número dos
pessimistas.

Tratando-se duma vida elevada, deveis preocupar-vos, ao mesmo tempo que com o pensamento, com todas as suas
substruções orgânicas. “Alma sã no corpo são”: eis o ideal de sempre. O homem de pensamento tem uma fisiologia
especial; precisa de velar por ela e de não recear consultar o homem da arte.

Em todo o caso, segui as prescrições correntes. A boa higiene é, para vós, uma virtude por assim dizer intelectual. Os
nossos modernos, por vezes tão pobres de filosofia, são ricos de higiene; pois bem, não a desdenheis, porque ela
enriquecerá a vossa filosofia.
Tanto quanto possível, vivei ao ar livre. A atenção, nervo da ciência, está em estreita correlação com a respiração e,
para a saúde em geral, a abundância de oxigénio é condição primeira. Janelas abertas ou entreabertas dia e noite
quando a prudência o permite, período frequente de respirações fundas, sobretudo combinadas com movimentos
que as amplifiquem e as tornem normais, passeios que se entremeiem com o trabalho e com ele se combinem,
consoante a tradição grega: eis aí outras tantas práticas esplêndidas.

É importante trabalhar em posição que desembarace os pulmões e não comprima as vísceras.

É bom interromper, de quando em quando, o estudo aplicado para respirar profundamente, para fazer dois ou três
movimentos rítmicos que distendem o corpo e o impedem, por assim dizer, de se enrugar. Está demonstrado que
são de grande eficácia largas aspirações praticadas de pé e elevando-nos na ponta dos pés, com a janela aberta. Não
descureis nada, para evitar a congestão e o estiolamento dos órgãos.

Consagrai todos os dias algum tempo a exercícios corporais. Lembrai-vos da observação dum médico inglês: “Quem
não encontra tempo para fazer ginástica, há-de encontrá-lo para estar doente”. Se não podeis exercitar-vos ao ar
livre, não faltam métodos excelentes que suprem essa deficiência. O de J. P. Muller é um dos mais inteligentes; mas
existem outros.

O trabalho manual suave e distrativo é igualmente precioso para o espírito e para o corpo. Os antepassados sabiam-
no muito bem; mas o nosso século zomba da natureza. Por isso a natureza vinga-se. Reservai-vos todos os anos, e no
decurso do ano, férias para descansar a sério. Não quero dizer que vos abstenhais de todo o trabalho, pois isso
afrouxaria faculdades naturalmente ativas, mas sim que predomine, nesses períodos de tempo, o repouso, o ar livre
e o exercício em plena natureza.

Cuidai da alimentação. Uma alimentação leve, simples, moderada em quantidade e em qualidade, permitir-vos-á
trabalhar com mais prontidão e liberdade. O pensador não passa a vida em sessões de digestão.

Cuidai mais ainda do sono: não seja demasiado nem escasso. Demasiado, embrutece e entorpece, espessa o sangue
e o pensamento; escasso, expõe-vos a prolongar e a sobrepor perigosamente as excitações do trabalho. Observai-
vos; no que respeita ao sono, como ao alimento, encontrai a justa medida que vos convém e proponde não sair dela.
Não se pode marcar aqui lei comum.

Em suma, o cuidado do corpo, instrumento da alma, é, para o intelectual, virtude e prova de sabedoria. Santo Tomás
reconhece isso mesmo e classifica esta sabedoria do corpo entre os elementos que concorrem para a felicidade
temporal, incentivo da outra. Não vos torneis raquíticos, malogrados, possivelmente futuros idiotas, velhos antes do
tempo, portanto administradores insensatos do talento que o Mestre lhes confiou.

Mas o cuidado do corpo comporta outros elementos. Já falamos das paixões e dos vícios como de formidáveis
inimigos do espírito. Pensávamos então nos seus efeitos psicológicos, nas perturbações que trazem ao juízo e à
criação do espírito, que, chegados a certo grau, transformam em potência de trevas. Atualmente referimo-nos os
seus efeitos corporais, que indiretamente se convertem em doenças da alma.

Quem é preguiçoso, guloso, escravo do travesseiro e da mesa, quem abusa do vinho, do álcool, do tabaco, quem se
compraz em excitações malsãs, em hábitos que a um tempo debilitam e enervam, em pecados talvez perdoados
periodicamente, mas cujos efeitos permanecem, como praticará a higiene que vimos ser necessária?

O amigo do prazer é inimigo do seu corpo e depressa se torna inimigo da sua alma. A mortificação dos sentidos é
requerida para o pensamento e só ela nos pode colocar naquele estado clarividente de que falava Gratry. Se
obedecerdes à carne, estais em caminho de ser carne, quando deveríeis ser todo espírito.

Por que motivo se chama Santo Tomás o doutor angélico? Será unicamente pelo gênio alado? Não, é porque nele
tudo se subordinava ao pensamento genial e santo, porque a sua carne, oriunda das margens tirrenas, se revestira
da brancura do Carmelo e do Hermo; porque, sóbrio e casto, pronto para o ardor e afastado de excessos, era todo
ele uma alma, “uma inteligência servida por órgãos”, segundo a célebre definição.

A disciplina e a mortificação do corpo, juntas aos cuidados necessários, de que, por sua conta, constituem a melhor
parte: tal é, trabalhadores cristãos, e vós sobretudo, jovens, uma das mais preciosas salvaguardas do porvir.

(Do livro A vida intelectual, do padre A. D. Sertillanges)


https://opusmaterdei.blog/2017/08/16/a-disciplina-do-corpo-padre-sertillanges/

O Milagre da Igreja A. D. Sertillanges


PERÂMBULO

O Milagre da Igreja tem tantas formas, que foi deveras impossível, neste pequeno escrito, dar dele uma
ideia suficiente, ou mesmo sumária.

Tem-se distinguido: o milagre dessa instituição que se precede a si mesma e domina o tempo; o milagre do
estabelecimento evangélico, compreendendo o estabelecimento do Homem-Deus em sua pessoa, vida,
manifestações, obra; o milagre da difusão cristã: entrada da Igreja na história por meios politicamente
desproporcionados, adaptação prodigiosa aos regimes humanos acolhedores ou hostis, poder incomparável de
absorção e de assimilação do princípio cristão relativamente aos elementos religiosos ou profanos que o meio lhe
apresenta; finalmente, o milagre imanente à existência atual da Igreja e à sua perpetuidade.

É um esquema. É a compreensão excessiva de um tema o qual, aliás, nenhum pensamento iguala. Na hora
atual, vai crescendo por toda parte, no mundo, o interesse concernente ao fato católico e à Igreja. Se Deus o
permitisse, de acordo com esse movimento teríamos aqui contribuído para despertar mais alguns espíritos, senão à
compreensão, ao menos à suspeita de uma maravilha que eles acotovelam sem ter ideia do que ela oculta e do que
significa para eles mesmos. Vêem somente exterioridades onde reside um interior incomparável.

Realçam somente fraquezas e insuficiências, muitíssimas vezes ilusórias, lá onde o Único Necessário elegeu a sua
morada, ao mesmo tempo patente e oculto.

Se é que não fomos de todo mal sucedidos, tenham eles ao menos uma visão obscura, geradora de um
movimento do coração, a respeito dessa Pessoa misteriosa, humana e celeste, uma e múltipla, imóvel e ativa,
infalível e investigadora, perfeita e sujeita `às crises, santa e, em nós, pecadora, que respira através do tempo.

Le Saulchoir, Julho de 1933.

CAPÍTULO 1 - A IGREJA ANTES DA IGREJA

Demos ao nosso primeiro estudo um título que não poderia convir a muitas instituições. Ele significa que a
instituição religiosa de que falamos se precede de alguma sorte a si mesma; que, portanto, por alguma coisa de si
mesma ela é superior ao tempo; que em todo caso lhe é igual; mas dá no mesmo; pois só é igual ao tempo, ao invés
de se deixar talhar nele uma parte arbitrária, aquilo que se mostra superior ao que o tempo mede.

A história de toda instituição é como uma página branca tarjada de preto; precede-a o nascimento de si e
outro nada segue-a; porque tudo morre. Só a Igreja não somente não morre, mas, em certo sentido, não nasceu;
porquanto, se ela é uma realidade temporal, tendo uma história, é também uma realidade extratemporal, em razão
de não passar a sua história de uma espécie de símbolo. Símbolo real, símbolo que é uma parte da sua realidade,
mas que se acha transcendido por uma realidade mais alta, pertencente ao mundo do espírito e roçando pelo tempo
apenas com a ponta das asas.

Aliás, essas asas são tão largas de envergadura que envolvem todo o tempo, à feição do Espírito criador, de quem a
Igreja é uma emanação direta.

Tal é a primeira noção a penetrar quando se quer falar corretamente dos antecedentes da Igreja.
É que, para o católico, a Igreja não é uma instituição particular, como haveria outras ao lado, antes ou
depois: é uma instituição universal, que chama a si e que a si subordina realmente toda a raça, no intuito de, por
Cristo, homem universal, uni-la a Deus que habita Cristo e que se fez homem n'Ele, a fim de que por Ele o homem
suba e tenha acesso a Deus. Nestas poucas palavras, todo o pensamento católico se encerra.

Ora, a raça de que Cristo é o chefe religioso e da qual, por Ele, o Espírito de Deus se torna a alma, a raça, digo, é todo
o passado e todo o futuro, ao mesmo tempo que o presente.

A humanidade compõe-se de mortos tanto e mais do que de vivos, escreveu Augusto Comte: pela mesma
razão compõe-se de homens nascituros tanto e mais - penso eu - do que de homens já nascidos ou desaparecidos. A
humanidade é todo o desdobramento das gerações sobre a terra, como um eu individual é o desdobramento de
uma vida em seus diversos estados. Era o que Pascal via ao escrever a sua fórmula célebre: "A humanidade é como
um homem único, que subsiste sempre e aprende continuamente".

Portanto, se a Igreja é a humanidade religiosamente organizada por meio desse Filho de Deus - Filho do
Homem, que é Cristo, deve a Igreja ser necessariamente onitemporal. Poder-se-ia dizer que é eterna, considerando
apenas o seu caráter divino: foi o que permitiu a João, o inspirado, dizer de Cristo, chefe da Igreja, que ele é antes
que o mundo fosse nascido, ou seja, como Deus. Mas como homem, precisamente enquanto chefe da Igreja, São
Paulo di-lo-á não mais eterno, porém onitemporal, pertencente a todos os tempos: Ontem, hoje e em todos os
séculos (Hebreus 13, 8).

Não que queiramos ressuscitar aquelas lendas rabínicas segundo as quais Cristo viveria de uma vida
positiva, posto que invisível, através das gerações, por exemplo, como diziam alguns, no paraíso terreal, conservado
e guardado pela espada de fogo do arcanjo contra a curiosidade dos geógrafos! Mas não são essas realidades
materiais as únicas realidades.

Se sempre foi verdade dizer que nenhum homem chega a Deus senão por Cristo, que em Cristo a
humanidade toda é oferecida a Deus, aceita por Deus e unida a Deus para uma vida eterna, bem necessário se torna
que, de uma maneira ou de outra, Cristo tenha existido sempre, sempre à disposição de quem quer que, homem de
ontem ou de hoje, daqui ou dacolá, procurasse o caminho para o Único Necessário e o Único Suficiente da alma
humana.

Há uma gravitação universal das almas, e Cristo lhes é o Sol. Somente n'Ele está a grandeza, a inocência e a
felicidade da terra. Religião viva, se assim posso falar, já que Ele se apresenta como o Vínculo, a Ponte, a Entrada, a
Porta que faz comunicar e estabelece numa vida comum o homem e Deus, deve Ele dominar a raça na sua dupla
extensão, espacial e temporal.

De tão longe quanto venhamos sobre o imenso meridiano do universo moral, e qualquer que seja o momento do
tempo em que situemos a nossa frágil existência, cumpre que, de uma maneira ou de outra, toquemos nesse ponto,
para tocarmos no divino que lhe é parcialmente idêntico. Só aí a tangente infinita toca o círculo humano.

Toda a questão, para nós, está em definir sob que formas históricas essa vida espiritual, que Cristo preside e
que é a vida da Igreja, pôde manifestar-se antes que a própria Igreja fosse deste mundo na sua forma presente.

Mas primeiro devemo-nos perguntar por que é que somos trazidos a esta complicação: a Igreja antes da
Igreja, Cristo antes de Cristo, e a todas as consequências que daí decorrem.

Há aí uma questão de filosofia religiosa que muitos não percebem, mas que nem por isso deixa de existir, e
cujo desconhecimento dá lugar a objeções variadas contra a teologia católica. Se Cristo é o ponto de partida e o
meio único de todo o movimento religioso humano, por que é que, historicamente, ele não se acha no início da
história humana? Aquilo que é definido como princípio deveria, ao que parece, fazer-se ver no principio.
Natural seria que o Novo Adão, como nós chamamos a Jesus Cristo, o segundo primeiro homem, como diz o Padre
Lagrange, fosse colocado no começo da vida universal, com toda a sua linhagem diante dele, como nosso chefe de
raça temporal tem a sua linhagem diante de si.

Em lugar disso, somos levados a estabelecer o nosso sistema religioso sobre um duplo plano: um plano
quase metafísico, segundo o qual Deus é situado em primeiro, depois Cristo, e finalmente todos os homens, seja
qual for a sua época; e, doutra parte, um plano histórico, em virtude do qual Deus está, de fato, na dianteira, mas
desta vez considerando como na ordem do tempo; em seguida, toda uma longa série de séculos ou mesmo de
milênios, em que os homens viveram sem o Cristo histórico; depois Cristo; depois uma segunda série de gerações
saídas dele.

Esses dois planos coexistem e não coincidem. Podemo-nos perguntar por quê. Mas a razão não é difícil de
dar, e é pouco filosófico o motivo alegado em sentido contrário.

Um pai é obrigado a vir ao mundo antes do filho; mas um príncipe já não é obrigado a nascer antes dos
súditos: podem estes preparar-lhe o reinado. Com maioria de razão um chefe espiritual, cuja ação utiliza a
Divindade, senhora dos tempos, não tem ele necessidade de situar sua vida num momento antes que noutro? O
homem poderá unir-se a Cristo futuro tanto quanto a Cristo passado, a Cristo desconhecido tanto como a Cristo
conhecido. Antes de Lavoisier os homens viviam do oxigênio do ar e não o conheciam.

Chefe de raça espiritual, Cristo pode, pois, inserir sua vida temporal onde quer que seja, como o ponto de
partida do círculo é não importa onde, e como o fazedor de carros que empurra uma roda imprime a ação, sobre o
contorno desta, em qualquer das pinas, mas nem por isso deixa de acionar a roda toda. A roda dos séculos tem
assim pinas sucessivas que são as diversas épocas; a ação de Cristo, exercendo-se sobre uma delas, animará todas as
outras.

Verdade é que será com modalidades diferentes, e eu não pretendo que a presença real de Cristo, na sua
vida histórica, seja desprovida de interesse religioso. Mas fica assente que a ação de Cristo, exercendo-se num certo
ponto do tempo, poderá irradiar-se sobre todos os outros, e sobre cada um conforme a sua natureza própria.

O passado não se comportará em relação a ele como o futuro, nem tal passado ou tal futuro como tal outro passado
ou tal outro futuro; portanto a roda do tempo não é em toda parte idêntica a si mesma, como uma roda de veículo -
nisto nossa comparação claudica; mas tudo estará, entretanto, sob a dependência dele.

Abstraindo por enquanto as diferenças particulares, dizemos: aparecendo Cristo no meio dos séculos - na
plenitude dos tempos, como diz São Paulo, - o passado liga-se a ele sob os auspícios da esperança, da espera, das
preparações; o presente é a posse, e o futuro, volvendo-se para ele, tomará uma atitude inversa, ligando-se a ele
pela lembrança, pelos desenvolvimentos da sua obra, pelo progresso. Cristo é assim todo de todos, posto que sob
modos diversos.

Resta saber por que essa organização. Mas este porquê é de uma simplicidade que só uma ignorância
absoluta do que é a vida religiosa pode desconhecer.

Há quem imagine que a religião é toda divina, vinda do alto para nós que a recebemos, sem condição de
reciprocidade, pelo menos inicial. Se ela é assim um puro benefício, não se vê bem por que não é logo concedida por
um Deus bom, por um Deus que não faz acepção nem de pessoas nem de épocas. Mas isto é raciocinar como
crianças.

A religião não é um dom unilateral; é uma permuta; é uma relação do homem com Deus. E, seguramente,
nessa relação é Deus quem começa; mas, já que o homem deve seguir, cumpre que a iniciativa de Deus se submeta
às condições naturais da vida humana, que implicam desenvolvimento e, por conseguinte, antecedentes,
concomitantes e consequentes; preparação, posse e utilização; começo, meio e fim. Esta trindade é inevitável,
resultado da natureza profunda de tudo o que nasce no tempo, visto ser da natureza do tempo comportar o
passado, o presente e o futuro.

São Tomás repetidas vezes explicou quais as razões de psicologia individual e social que se opunham aqui à
confusão das datas, se assim posso dizer, de um Cristo a preceder os antecedentes de Cristo, de uma lei evangélica
não preparada por uma lei judaica, e de uma lei judaica coincidente com uma lei natural do inicio dos tempos. Não
entramos neste detalhe; porém sustentamos que a nossa Igreja eterna, que se compõe de três elementos: Deus, o
homem, encarado na sua unidade onitemporal, e o Homem-Deus como vínculo, deve escalonar as suas
manifestações conforme as divisões essenciais da duração humana.

Haverá primeiro as preparações, as antecipações da Igreja. Haverá o fato central, constituído pela vinda de Cristo
que, trazendo a Deus em si e representando o homem chegado ao posto desejado para inaugurar uma obra religiosa
perfeita, iniciará o trabalho propriamente dito da Igreja. Haverá, enfim, o desenvolvimento, o progresso de uma
obra destinada a transformar o mundo.

Será aqui a história da Igreja no sentido próprio, embora historiadores tais como Rohrbacher, vindo ao
encontro do pensamento que eu exprimo, façam remontar seus relatos até a Adão e mesmo - conforme em breve
explicarei - até ao dealbar do mundo.

Eis aqui, pois, justificado e explicado já por uma parte o nosso título: A Igreja antes da Igreja. Cumpre,
porém, precisar.

Partindo do fato de representar a vinda de Cristo, para o cristianismo, um episódio central e não um inicio,
há razão de nos perguntarmos que condições se impõem a cada um dos dramas desta trilogia: as preparações da
Igreja, o nascimento da Igreja, o desenvolvimento da Igreja.

Os dois últimos atos não nos interessam neste momento; resta, porém, o primeiro, e, para encará-lo
nitidamente, proponho um exemplo tanto mais próprio para esclarecer o nosso caso quanto, de certa maneira, faz
parte dele.

Todos nós, cristãos ou simplesmente filósofos espiritualistas, dizemos que a criatura pensante é neste
mundo a razão de ser de todo o trabalho da natureza. Tudo é para os eleitos, diz São Paulo. A humanidade é um fim
em si, dirá Kant, ou, noutros termos, a coisa subordina-se à pessoa. Sabe-se que Bergson, na sua recente obra As
duas Fontes da Moral e da Religião, retomou à sua conta esta tese.

Justamente por causa dessa finalidade, e em razão da nossa observação de há pouco, o homem não
aparece no inicio, mas deve ser preparado. Como? Primeira mente sob uma forma remota, pelo estabelecimento do
seu meio, pela elaboração das substâncias que devem assimilar-se à sua vida, pela organização das forças que ele
terá de utilizar e de que a sua vida será, por um lado, a resultante, e, por outro, a conquista. Como serão precisos
séculos para este trabalho! Começamos a suspeitá-lo; mas só poderíamos admirar-nos disto desconhecendo a
desproporção quase infinita do espírito para a matéria.

Em seguida, a título intermediário entre o trabalho cósmico e a humanidade constituída, são necessários os
lentos progressos das espécies inferiores, a cera viva de onde jorrará um dia a flama do espírito.

E esse jorramento não se dará sem uma intervenção especial do Criador; será como que um lampejo novo da Fonte
luminosa imanente a este mundo enquanto ele contém Deus; mas essa obra última nem por isso estará menos
implicada numa série de que ela será o último termo, mormente se, a coisa permitida pela fé tanto como pela
ciência, admitirmos que o corpo do homem foi preparado pela vida antropóide.

Apliquemos o nosso exemplo, e, ao invés da humanidade em relação ao globo e a tudo o que ele encerra,
encaremos a Igreja em relação à humanidade. É o mesmo caso prolongado, e a lei de desenvolvimento será a
mesma.
Diremos primeiro, e desta vez em sentido nitidamente religioso, e não somente espiritualista: Tudo é para
os eleito, isto é: Cristo, e o grupo de Cristo, a Igreja, é a finalidade de toda a história. Nada se agita no mundo senão
para promover o reinado dos fins espirituais da humanidade, que é o trabalho próprio da Igreja. O Discurso sobre a
História universal, a despeito de certas fraquezas inevitáveis a quem se propõe seguir assim os vestígios da
Providência, é, no fundo, não somente magnífico como a eloquência de Bousset, mas inatacável.

Ele não faz senão desenvolver esta antiga afirmação do Pastor de Hermas (século II): "A Igreja foi fundada antes de
todas as coisas, e para ela é que o mundo foi feito".

Ora, se é verdade que os fins últimos devem governar desde o começo, deve-se dizer, como já o fizemos,
que o trabalho relativo à Igreja, e mesmo o trabalho da Igreja, remonta às origens do nosso mundo, e do mundo em
geral, por que tudo se liga em Deus e porque a preparação do meio natural do homem faz parte da produção do
homem.

Por esta razão é que o nosso livro religioso, a Bíblia, se abre por um relato da criação: No princípio, criou
Deus o céu e a terra¸ como também a genealogia de Cristo remonta até Adão e até Deus: Qui fuit Dei. Sem isso, o
plano religioso do mundo não seria completo ao sentido do passado, do mesmo modo que, se não tivéssemos os
apocalipses e os relatos da parusia, o plano religioso do mundo não seria completo em face do futuro.

Num sentido como no outro, é preciso ir até o limite do criado e até o limiar de Deus, se assim posso dizer,
de tal sorte que Deus, tocado como Providência ao longo de toda a curva do tempo, seja tocado também, como
iniciador e como fim, nas extremidades dessa curva, à partida e à chegada do impulso universa.

Não quer isto dizer que os nossos livros sagrados ou os nossos pensamentos religiosos devam preocupar-se
com escrever a história total ou com profetizar o futuro total. A sequência dos tempos religiosos não precisa ser
completa. Não precisa mesmo ser exata do ponto de vista científico.

O seu sentido religioso é que precisa ser exato, e isso requer apenas uma historicidade relativa, feita de símbolos
reais, isto é, de notações simplificadas, esquemáticas; sacrificando o detalhe à visão de conjunto, pulando períodos
inteiros como a série dos patriarcas na Bíblia, correndo ao fim, que é manifestar o sentido da vida.

Em razão do que, ver-se-á a cosmogonia bíblica situar-se numa região mais ou menos alheia à ciência, a
história bíblica só parcialmente satisfazer a ciência, e a profecia bíblica proceder como por saltos, sem grande
preocupação das perspectivas. O que, aqui entre parênteses, explica como, sem nenhum erro propriamente
religioso, podem os primeiros cristãos crer no fim iminente do mundo. Eles têm na mente o que nós descrevemos:
ontem Adão, hoje Cristo, amanhã reintegração do mundo e Deus; simplificam, e a intensidade com que vivem essa
simplificação faz-lhes parecer mui próximos os elementos dela.

A respeito do passado, são eles ainda defendidos pela história, que não se deixa estreitar indefinidamente.
Eles a estreitam muito! Mas, a respeito do futuro, não sendo retidos por coisa alguma, e colocando-se-lhes, por
assim dizer, aos olhos a sua visão ardente, eles esperam a realização do plano num espaço proporcionado a uma
vida de homem. É um erro; mas não é um erro religioso. Eles enredam o fio dos acontecimentos com a ordem
histórica das datas de cumprimento: confusão religiosamente sem importância.

São Pedro dirá a palavra da situação observando que, a respeito de um plano religioso universal, em que os
acontecimentos têm lugares teóricos mais do que propriamente temporais, mil anos são como um dia e um dia
como mil anos. Esta reflexão de uma filosofia profunda.

Tal é, pois, a primeira face da nossa comparação. A história da Igreja começa, no mínimo, nas origens da
humanidade, como a história da humanidade começa, no mínimo, nas origens do nosso mundo.
Digo agora que as fases das preparações serão as mesmas. Haverá preparações indiretas, conscientes em
trabalhar o gênero humano, como as forças cósmicas trabalharam o globo, de tal sorte que, quando a verdadeira
religião nele nascer, ache meios de fazer sua vida, assimilando todo o humano que pode favorecer-lhe a obra.

Haverá em seguida - ou paralelamente, visto se tratar aqui menos de dividir durações do que de alinhar coisas -
haverá, digo, preparações remotas ainda, porém mais diretas, nisto que serão religiosas, do mesmo modo que,
sendo a ordem vital, o desenvolvimento da flora e da fauna terrestres preparava remotamente, mas de certo modo
diretamente, o homem. E, assim, diremos que as religiões antigas anteriores ou exteriores à obra de Abraão
preparavam o Evangelho.

Enfim, do mesmo modo que, quer lógica quer realmente, conforme as hipóteses, o antropoide preparava a
vida do homem à terra, desta vez a título imediato, assim também o judaísmo de Abraão a Jesus, preparou Jesus e
sua Igreja.

Vê-se o que há diante de nós em matéria de história. Naturalmente feriremos este assunto apenas
rapidamente.

II

Não insistirei sobre as preparações remotas da Igreja que consistiam em plasmar o meio humano por um
trabalho de civilização geral, introduzindo elementos de ciência, experiência, de moralidade, de direito, de arte, de
poesia, etc., onde quer que a religião, que utiliza todas essas coisas, pudesse um dia encontrá-las. Não devemos
insistir nisso, já que, em si mesmas, essas preparações são estranhas à ordem religiosa. São-lhe, no entanto,
preciosas infinitamente como todos os nossos grandes homens têm sabido reconhecê-lo.

Os apologistas antigos, tais como Justino, Teófilo, Origenes, Basílio, Gregório de Nazianzo, Crisóstomo,
Agostinho, viam nos antigos sábios os análogos seculares dos profetas, isto é, prefaciadores do Evangelho, como se
disse em particular de Platão. Em Sócrates ou em Heráclito, essas vítimas da verdade, ousavam eles ver os análogos
de Cristo crucificado, quer dizer, mártires antecipados da ideia cristã preparada de longe pelas suas concepções
geniais. Tudo o que de bom houve no paganismo era, para esses Padres, obra do Verbo, que se difundia por toda
parte antes de se concentrar em Jesus.

Isso era confessar que as civilizações antigas e todo o trabalho humano na terra foram para o judeu-
cristianismo uma espécie de plasma germinativo, de meio nutriente que, primeiramente, o preparava; que, em
seguida, o serviria, como a química do globo, que, depois de preparar o homem, continua a servir à subsistência e às
invenções deste; com a vida animal, que o preparou mais de perto, mais de perto também o serve para sua
alimentação, vestuário, transporte, regalo e tantos outros usos.

É o que se deve ver na palavra de São Paulo: Omnia vestra sunt. Todas as coisas vos pertencem como
preparadas providencialmente para vos servirem, a vós filhos de Cristo e irmãos na sua lei, não tendo todo o
movimento do mundo outra finalidade senão a realização dos fins superiores que são os fins da Igreja.

Isso é simplíssimo: inútil é repisá-lo, e teremos aliás de voltar a esse ponto dizendo de que maneira se fez a
utilização do passado pelo cristianismo. Porém o que mais delicado é de justificar é o que dissemos em segundo
lugar, a saber: que as religiões antigas preparavam, a seu modo, a Igreja e o trabalho da Igreja.

Muitas vezes, tem-se uma ideia inteiramente oposta. Isto se concebe: porquanto já não se trata aqui de
uma matéria a utilizar, porém de uma utilização já adquirida, defeituosa, e que, como parece, para um operário
ulterior não pode ser senão um estorvo. Fazer uma boa estátua com um bloco, é normal; mas fazer uma boa estátua
com uma má estátua já desbastada, para isto é preciso ser um Miguel Ângelo. O autor do David de Florença faz
desses prodígios; mas estes não se repetem muitas vezes, mesmo na sua própria história.
Por isso é que os primeiros cristãos foram tão duros para as religiões estranhas; bem longe de as chamarem
providenciais, chamavam-nas demoníacas, e, do seu ponto de vista, tinham razão. Mas, tratando-se um juízo de
conjunto, não nos devemos deixar cegar por um ponto de vista, por mais justo e mais importante que seja na sua
categoria. Demoníaco e providencia, isto não se opõe tanto como se poderia pensar. O demônio também é
providencial; só age segundo a extensão da sua cadeia, e isso mesmo que ele faz pode entrar e entra na grande
corrente que Deus dirige.

No cristianismo, sempre temos dito que uma religião qualquer é preferível à ausência de religião. É que,
portanto, uma religião qualquer tem valor em relação à nossa, e pode servir-lhe de preparação. Verdade é que é
com a condição de morrer, como uma espécie que se transmuda noutra, como um vivente que nutre um vivente
superior.

Quando o passado fica aberto no sentido do futuro, prepara-o; quando pretende fechar-se e resistir à
absorção, neutraliza-se, e é nisto que se torna demoníaco; porquanto, resistindo ao bem, trabalha para o mal. Com a
maioria de razão o será se, à sua imperfeição que deveria fazer-lhe ceder o lugar, se misturam elementos perversos
que exigem uma reforma.

É o caso das religiões antigas. O que elas têm de demoníaco é a corrupção de certas crenças e de certos
ritos impostos aos seus adeptos; é, depois, a sua pretensão de reger definitivamente por sua própria autoridade a
alma humana. Mas nem por isso é menos certo que elas permanecem úteis, e que, aos olhos da Providência, são
etapas.

Por mais que recusem deixar-se sobrepujar, o que elas recusam Deus saberá fazê-lo, e, completada a obra de Deus,
poderemos, como São Paulo, volver-nos para esse passado de imperfeições e de taras, para reconhecer nele, a
despeito de tudo, o si forte allreetent eum: a procura a que Deus devia corresponder, por conseguinte uma real
preparação.

Digamo-lo, pois, sem hesitar: as próprias religiões falsas foram, no passado, abrigos provisórios para os
diversos rebanhos de Cristo disseminados pela superfície do globo. Havia rebanhos de Cristo; havia ovelhas isoladas
espalhadas por toda a estrada dos séculos, a saber: os que pertenciam à Igreja interior de que falamos, a isso a que
se costuma chamar agora a alma da Igreja. Onde estavam esses pastos, qual era o alimento deles, senão,
interiormente, a graça, que a ninguém é recusada, mas também, exteriormente, tudo o que à graça podia servir de
preparação e de meio?

Está bem entendido que os ritos pagãos não conferiam a graça por si mesmos; a ela não conduziam por
instituição; afastavam dela quando tendiam a perverter os costumes; mas podiam também ocasioná-la, e isso por
uma vontade providencial? Como? Primeiramente pelas disposições interiores que eles favoreciam, de fora, como o
símbolo favorece a realidade, a palavra o pensamento, o sacrifício o amor. Em segundo lugar, pela solidariedade de
sentimentos dos sacerdotes e dos fiéis unidos. Toda associação é criadora, em relação àquilo que vos congrega.

As águas lustrais, os sacrifícios expiatórios, os ritos sublimes da agnação, os panateneus gregos, as cerimônias
matrimoniais ou funerárias, tudo isso era ou em todo caso podia vir a ser um precioso agente de reforma moral, de
misticismo interior, e assim um meio de salvação.

Não é evidente que tais grupos religiosos da antiguidade pagã representavam, como ainda representam, a
despeito da sua desastrosa insuficiência, aspectos mui preciosos da verdade religiosa? Negando tão energicamente a
vida ilusória que é a natureza sem Deus, e voltando-se para o absoluto, não oferecia o budismo uma das metades
imensas da verdade? A infelicidade é que uma só metade de nada serve, para a utilização imediata, se estiver
ausente a sua metade complementar.

Voltado para o absoluto, o budismo não soube defini-lo senão pelo nada, e tornou-se assim uma religião de nada,
um esforço puramente negativo, por consequência perversor, pelo fato de ser visto como um todo. Uma metade de
roda que faz a roda, joga o veículo no chão.
Sempre se pode dizer que, uma vez absorvido na verdade integral, o ponto de vista do budismo se tornaria
vivificante, do mesmo modo que é bebido nos nossos místicos. O formidável não que esse desprezador dirigia ao
mundo serviria de relevo ao inefável sim evangélico, e, a olhar as coisas com vistas largas, no próprio plano da
Providência, não seria sem importância para a história humana que isso houvesse existido.

Outro exemplo bem diferente: o helenismo. Esta alta civilização atingiu por instantes a verdade absoluta,
desta vez na sua forma positiva. O Deus de Platão ou de Aristóteles não está muito longe do nosso Deus; para
reduzi-lo completamente a ele, basta harmonizá-lo consigo mesmo. Qual foi o erro do helenismo? Antes de tudo foi
permanecer uma pura teoria. Ele só se realizou sob as espécies da beleza, e ainda assim de uma beleza amada até o
vício, escreveu Taine, prova de que o equilíbrio moral, que deveria ter correspondido ao equilíbrio relativo do
pensamento, permaneceu sempre instável.

O ideal foi concebido e permaneceu impotente. O Verbo de Deus irradiava, e refletia-se em pântanos, em vez de
descer a eles, humilde e sublime, com o Viandante evangélico, a fim de purificá-los.

Isso não impede a filosofia grega de se mostrar, providencialmente, um dos antecedentes mais preciosos do
pensamento cristão, e, quando este aparece, um dos seus maiores recursos. Nós ainda vivemos dela, e
humanamente pode-se dizer que o cristianismo não seria o que é se os Gregos não houvessem existido.

Assim, alternativamente, poder-se-ia louvar com louvor parcial cada uma das formas religiosas que o
mundo viu aparecer fora do cristianismo. Até nas religiões mais rudimentares, e provavelmente mesmo na mais
antiga, existe o culto da família, com um valor já muito alto. Sentir a Deus no lar, ainda quando para isso se houvesse
humanizado esse Deus fora de toda medida, é realmente alguma coisa. Bastará ampliar o pensamento para que o lar
universal presidido por Deus Padre, tendo por irmão mais velho Cristo e por inspirador o Espírito Santo, se torne
precisamente a Igreja.

A certos respeitos, esse culto doméstico, tão estreito, valia mais do que os alargamentos pretendidos dos
cultos nacionais; porque estes acabavam na política, ao passo que o culto doméstico permanecia intimo, o que
constitui um dos caracteres essenciais da religião. Sob este ponto de vista, os extremos se tocam; o universal e o
intimo vêm a juntar-se, porque, se o Deus dos Romanos só aos Romanos interessa, o Deus universal interessa a cada
homem, e lhe interessa a título íntimo, visto como a universalidade absoluta implica a imanência.

Seja lá como for, digo que em graus diversos todas as formas religiosas do passado colaboravam para o
progresso da alma humana. Neste sentido, alguém pôde dizer que não há religiões falsas, que há apenas religiões
imperfeita: maneira imprópria de se exprimir; porque essas religiões, inconscientes da sua obra e daquilo que a
Providência demandava nelas, afundavam-se num particularismo atrofiante e corruptor. De sorte que, se seus
grupos eram como que Igreja antecipadas, eram entretanto Igrejas "a latere", abrigos de ocasião, na grande
tempestade moral que agitava o mundo.

Se havia nisso coisa melhor do que nada, não havia a tal coisa que, provisória ainda, mas definida e nitidamente
orientada, já não terá senão que seguir adiante, para desabrochar em perfeição quando soar a hora divina.

De onde virá a grande corrente de que a nossa Igreja será o desfecho natural? Natural! Natural não poderá
sê-lo verdadeiramente; porque o fato decisivo que dará nascimento à Igreja, como o fato que cria o homem
infundindo uma alma numa matéria, deverá ser um fato transcendente. Mas, num caso como noutro, o fato criador
vem inserir-se numa série de fatos em continuidade natural com todas as preparações anteriores.

Para encontrar a primeira fonte de onde, à sua hora, sairá o rio cristão, cumpre remontar àquele momento
decisivo, posto que muito humilde, em que o "scheik" Abraão, avisado misteriosamente e um desígnio de Deus
sobre ele, de uma missão secular para a sua posteridade - que ele vê, em sonho, semelhante às areias de ouro que
pontilham as praças do céu - deixa de repente a sua terra Caldeia à frente de um bando de quinhentos ou seiscentos
homens, tomados entre os fiéis de Javé.
As razões dessa fuga são religiosas. A tribo semítica a que Abraão pertence não é estranha ao verdadeiro
Deus, visto como ele mesmo professa e representa o culto desse Deus; mas nesse momento ela incide no culto dos
Terafins, ou penates, e noutras superstições grosseiras. Nessa mistura confusa que cedo teria absorvido o melhor no
pior, uma escolha providencial é feita; Abraão é o meio para isto. Ele parte. Vai abrigar a chamazinha pura na terra
isolada de Canaã. A sua religião pessoal fixará o futuro religioso de Israel, e, por este, o futuro religioso do mundo.

Ele será o verdadeiro pai dos crentes, e sua fuga será como que a decisio seminis, o desprendimento do germe, em
relação ao meio paterno, para uma revolução ulterior.

Reconhecer-se-á aqui o último termo da assimilação de que quisemos partir para contar as etapas da
preparação da nossa Igreja?

A religião de Israel, em relação à nossa fé, é o antropóide em relação ao homem. Eu dizia inda há pouco: é o
embrião antes do desabrochar da alma; mas as duas comparações vêm a juntar-se, se é verdade que as fases da
embriogenia reproduzem em grosso, ou em todo caso simbolizam, as fases da evolução da raça.

O que falta ao embrião israelita é a alma cristã, que nele será infundida quando o Espírito descer,
socializando o dom pessoal da divindade feito a Jesus, e realizando assim na sua perfeição inicial a vida religiosa
autêntica. Mas a preparação é imediata. Israel é um corpo religioso apto ao sopro do alto. O que lhe falta à vida
espiritual, ele é capaz de recebê-lo, diferentemente das religiões rígidas ou desviadas, refratárias às reformas.

Não é que os desvios tenham sido estranhos àquele povo, que só parece ser o eleito a contragosto; povo de
cabeça dura, ou de pescoço teso, como diziam os seus profetas. Mas esses desvios nunca foram senão os meandros
da corrente que aparentemente reflui, mas que nem por isso deixa de descer o vale, arrastada por uma lei
imperiosa.

Constantemente infiel, Israel constantemente se corrige, é corrigido. Javé o guarda, mesmo quando ele se
esquece de guardar Javé. Ele pensa sepultar o seu Deus no politeísmo ambiente: Deus ressuscita. E esse Deus tem
caracteres que não permitem confundi-lo com as falsas divindades populares nem com o Deus abstrato dos
filósofos. Contra as divindades dos pagãos, ele tem a sua unidade e o seu caráter moral. Contra o Deus dos filósofos,
teu o seu caráter vivo e criador.

Uno e moral Ele o é pela própria posição que ocupa, se assim posso dizer. Salvo raras exceções, a
antiguidade parece ter sido dominada pelo pensamento de que os deuses são emanações mais elevadas do que o
homem, porém emanações, todavia, da grande natureza universal. "Uma coisa é a raça humana, dizia Pindaro, outra
é a raça divina; mas uma mesma mãe as deu à luz a ambas".

Nestas condições, o egoísmo humano, cuja satisfação depende pretensamente dos deuses, pode sempre
esperar corrompê-los ou dominá-los - corrompê-los, visto terem eles também necessidades e desejos; dominá-los,
visto serem envolvidos por influências superiores, Destino ou Natureza, às quais o homem poderá dirigir-se para
impor sua lei aos acontecimentos fora do esforço virtuoso.

A magia, que é universal na antiguidade, salvo em Israel - digo o Israel autêntico, - é a consequência desse
estado de espírito. Com uma fórmula mágica, o homem julga-se apto a dominar a própria divindade, como com um
touro de sangue rico acredita fartá-la até a embriaguez que não mais lhe pesará os dons.

O Deus de Israel, este dirá: "Acaso eu como a carne dos touros? Bebo o sangue dos bodes? Se eu tivesse
fome, não to diria, pois meu é o mundo e tudo o que ele encerra... Imaginaste que me parecia contigo... mas olha:
àquele que vela sobre o seu caminho, a esse eu farei ver a salvação de Deus" (Ps. XLIX).

Assim, uma só coisa agrada a Javé e uma só coisa pode vencer Javé: a obediência à lei do bem, que é a sua
própria lei e o seu único amor, pois ele é o Bem vivo. Quem faz o bem vê vir a si, ainda quando fosse pelo escuro
caminho entrevisto por Jó, a felicidade, flor do bem, o objeto das pesquisas que o homem só empreendeu a convite
do ideal, e que o Ideal vivo quer satisfazer.

Essas perspectivas, certamente ocultas aos olhares de muitos em Israel, nem por isso deixam de ser o fundo
da alma religiosa desse povo. Donde a sua superioridade moral - relativa, evidentemente, porém incontestável - em
relação às raças pagãs, e tanto mais notável quanto não se pode atribuí-la à sua civilização. Lede o código de
Hamurabi; que data de uns seiscentos anos antes da lei de Moisés, e achareis nele o cunho de uma sociedade muito
mais policiada, muito mais sábia. Ora, com o politeísmo, aceita ela a magia e a imoralidade que as leis judaicas
claramente proíbem.

E eu dizia que o Deus de Israel não está menos distanciado dos deuses abstratos do que dos deuses
mendigos ou mágicos. É um louvor cujo alcance muitos não compreendem, movidos como são por um
intelectualismo inimigo da vida humana. "Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó", dizia pascal, "e não Deus dos filósofos
e dos sábios".

É que, se os deuses populares estão em baixo, na terra, o Deus dos filósofos está no ar, o que não quer dizer
no alto. Não está em parte alguma, a não ser na fórmula do mundo. E de que serve, para a vida, o Primeiro Motor,
de Aristóteles, ou o Pai das Idéias, de Platão, ou o axioma Eterno, de Taine? O Deus dos Judeus é um vivente. É
transcendente a tudo, e a tudo é imanente. Muito alto e muito próximo, a sua figura tem uma ingenuidade popular
tão impressionante como a sua sublimidade.

Ele fala no meio da tempestade, porque é o Deus da natureza. Fala por Moisés ao seu povo, porque é o
Deus da história. Fala à consciência de cada um, porque é o Deus do bem. E com isto não é nem um Deus naturalista,
como os Baals, nem um Deus nacional, como as divindades do Império, nem o dáimon de Sócrates. É o Deus do
infinito, o Deus do coração e o Deus da história universal. É simplesmente Deus, e manifesta por si só a
transcendência da revelação mosaica.

Os que verdadeiramente vivem dele estão preparados para o Evangelho, adorando "o Pai de Nosso Senhor
Jesus Cristo", como observa profundamente São Tomás de Aquino. Por isso os livros deles, e em particular as suas
coletâneas de orações, textos religiosos por excelência, ainda estão em uso edificante entre nós. Os salmos são o
fundamento da nossa liturgia. Neles se acha a mais alta poesia unida à vida interior mais intensa.

Os nossos meios de edificação pelo exemplo são inaugurados de maneira a mais frisante pelas admiráveis lições
morais trazidas pelos livros de Jó, ou de Tobias, pela história de Betsabé e de Davi, de Suzana, dos três Hebreus na
fornalha, etc.

Quanto o culto, este se eleva em Israel até à instituição prefigurativa, ao invés dos reflexos esparsos
produzidos pelo espelho quebrado dos cultos pagãos. Ora, na prefiguração, o futuro prefigurado já se acha incluso
de certo modo. Sabem-no os nossos artistas que representam em série contínua, na unidade de concepção de arte
que manifesta a unidade de concepção religiosa, as cenas do Antigo e do Novo Testamento.

Poder-se-á dizer que essas aproximações se fazem tardiamente, e há alguma coisa a reter desta
observação; mas nem por isso o conjunto do culto hebraico deixa de andar na perspectiva do nosso. É o imperfeito
que se orienta para o perfeito e que pertence ao mesmo gênero, diriam os filósofos. É a aurora, que pertence ao dia.
O paganismo, digo o paganismo piedoso, é a escura claridade das noites, quando o peso das nuvens ou o peso
voluntário do sono não a escurecem para os nossos olhos.

Unindo os dois, ter-se-á o ciclo completo das iluminações que preparam as claridades diurnas. Tudo o que
mais tarde poderá vir a ser cristão por incorporação, em toda a amplitude do mundo antigo já é cristão por
antecipação. A nossa Igreja católica, isto é, universal, mostra-se assim deveras universal, reunindo a amplitude dos
tempos sob o imenso amplexo do seu desenvolvimento multiforme. Aquele que é revela-se, na sua Igreja, ao mesmo
tempo Aquele que foi e Aquele que será.
E o que mais do que tudo manifesta esse caráter a um tempo envolvente e desenvolvedor, tradicional e
progressista, numa palavra, eterno no curso do tempo, é o profetismo. Nele está a atadura do feixe. O profetismo na
sua dupla forma, interprete do passado e precursor do futuro, é como a ponte que liga espiritualmente as diversas
idades do mundo, que faz a antiguidade, remota ou próxima, comunicar com as esperanças, imediatas ou
longínquas, que o grande movimento religioso que domina os tempos quer realizar. Eu já disse que o profetismo, no
sentido lato do termo, não esteve ausente do próprio paganismo.

Reconheceram isso os nossos Padres da Igreja. Mas, no sentido próprio, a profecia, que se antecipa à vida da Igreja e
lhe dá como que uma duração retroativa, é apanágio de Israel.

Pelos seus gritos inflamados e pelos lampejos às vezes fulgurantes do seu pensamento religioso, os profetas
de Israel transcendem a duração como transcendem o seu meio imediato. Atingem a eternidade e a imensidade
onde o Evangelho entender de se colocar. Eles falam ao Homem, o Homem de todos os tempos e de todas as raças.
São os sacerdotes da instituição religiosa universal, e, quando eles jazem no fundo do passado, olhando para o
futuro, as suas esperanças traçam o caminho que tornarão a subir mais tarde as lembranças, nos interpretes
inspirados da história.

Essas duas correntes de visões e de apelos são como que as grandes linhas que atravessam todo o teclado,
num sentido ou noutro. Por causa disso, achareis nos profetas um esboço de dogmática, de moral e de culto
espiritual muito superior ao que servia de base às instituições regulares do povo. A vida religiosa do seu tempo, que
é neles o seu máximo, neles se excede a si mesma por um empréstimo antecipado tomado ao Evangelho. E é assim
que eles são um nexo real, do mesmo modo que suas profecias são um nexo verbal, entre a antiga e a nova Aliança.

O reino de Deus que eles preconizam tem por sede as consciências, e o reino de Javé sobre Jerusalém não
passa, por assim dizer, de um símbolo desse reino. Para eles Jerusalém é antes de tudo a pátria das almas. A vida
interior, que será a essência do cristianismo, assume aos olhos deles uma importância primária; eles se incomodam
menos com as sanções temporais, cientificadas de promessas que sentem obscuramente, mas que, de fato, são as
do Evangelho.

O universalismo politicamente tão estranho a Israel, introduz-se praticamente neles com a ideia da vocação
dos gentios e do acesso das "Ilhas" (como eles chamam às nações dispersas de longe) ao território religioso de Israel.

Essa Ilhas longínquas, quer dizer, o universo, aparecem ao olhar profético, para quem as perspectivas da
história judaica e da história universal se confundem, como dependências da pequena Palestina onde eles bradam as
suas esperanças. E esse juízo não é vão, visto como o futuro depende do passado que o prepara, visto como a joia,
mesmo de valor incomparável em relação à cadeia, nem por isso deixa de estar suspensa à cadeia. Israel é a cadeia
da joia evangélica; o profetismo é a pérola de espera inserida entre os elos.

Vozes do universo extraviadas num recanto do universo, vozes do infinito dos tempos localizadas num
ponto dos tempos, os profetas pressagiam e preparam a grande voz que dirá: Eu é que sou a Luz do mundo. Eu sou o
Caminho; sou a Verdade; sou a Vida. Sou a Porta por onde devem passar todas as ovelhas humanas para irem aos
pastos divinos.

Eis que avança, no limiar dos tempos novos, aquele que, último dos profetas e primeiro dos cristãos - João,
o Batista - será o liame vivo entre os dois mundos. "Preparai, clamará ele, o caminho o Senhor, tornai retas as suas
veredas". Era o que o seu grupo religioso tinha feito; era o em que haviam colaborado remotamente todos os
outros.

E chegado era o momento em que na sinagoga estreita, como no coração tenso e impotente dos homens, o
futuro do mundo sufocava; mas ele aí achara até então um abrigo, e, sem abalo exaustivo, não sem crise entretanto
- pois todo nascimento é uma crise, - ia passar do período das longas gestações para o período das manifestações,
aguardando a era dos progressos indefinidos que só a eternidade deve encerrar.
Havendo-lhe todo o passado trançado assim o berço, havendo-lhe, ai! Talhado a cruz, mas também
havendo recolhido raios de luz para a sua auréola, Aquele que devia vir podia vir.

CAPÍTULO 2 - O NASCIMENTO DA IGREJA

A Igreja, em Deus, é eterna - primeiro pensamento incluso no Verbo que será um dia o seu chefe, primeiro
amor no Espírito que um dia lhe será a alma.

Em Cristo, o homem universal, a Igreja é também universal e, por conseguinte, onitemporal. Mas essa
existência que atravessa todos os tempos não se manifesta nelas sempre da mesma maneira. Há um centro de
atração que faz convergir os seus diversos estados para isso a que, com São Paulo, chamamos de plenitude dos
tempos, a saber, a vida histórica de Cristo, distinta da sua vida intemporal ou de influência.

Antes do seu nascimento, preparava-se e esperava-se o Cristo; depois, a humanidade vive dEle e
desenvolve-lhe a obra. Assim com a vida religiosa, hoje em dia, não seria o que é se Cristo não tivesse vindo, assim
também a vida religiosa dos séculos antecristãos não teria sido o que foi se Cristo não devesse ter vindo. E, enfim, já
que tudo se subordina a essa obra, pode-se dizer que Cristo criou a história tanto para o passado como para o
futuro. Sucede como se "no oceano das idades" - como teria dito o nosso Lamartine, - houvesse caído um imenso
rochedo.

A ondulação prossegue nos dois sentidos, e todo o mar vibra, sob a luz repercutida pelos milhões de espelhos que
são as consciências dos homens.

Tal é o ponto de vista que desenvolvíamos no capítulo precedente, e que nunca se deve esquecer quando
se trata da Igreja. O cristão individual tem toda razão de se lembrar disso, pois também é homem de todos os
tempos, enraizado no Antigo Testamento, desabrochado no Novo, homem de hoje, de ontem e de amanhã, pelo
simples fato de ser da Igreja.

Deixando agora de lado os efeitos retroativos da vinda de Cristo, temos de lhe estudar os efeitos imediatos,
enquanto aguardamos os seus efeitos ulteriores.

Esta maneira de exprimir-nos mostra em que sentido se deve tomar o nosso título "O nascimento da
Igreja". Não se trata de um começo absoluto, como se, antes, a Igreja absolutamente não houvesse existido. De
certa maneira, ela existia em alma e em corpo. Em alma, visto como o Espírito, que lhe faz todo o valor, trabalhava;
em corpo, visto como o embrião judaico, concedido ao banho nutritivo das civilizações religiosas ou seculares do
mundo antigo, era bem autenticamente o seu corpo antecipado.

Não era isso uma razão para que a Igreja não tivesse de nascer. Nós também nascemos depois de termos
vivido no seio de nossas mães e fincado as nossas origens no coração das gerações.

Cristo, dado ao homem por uma vontade eterna, vontade que tivera consequências espirituais desde
sempre, e mesmo, não me posso cansar de repeti-lo, consequências históricas, o próprio Cristo, digo, desta vez ia
revestir a existência histórica, surgir das suas preparações e encetar o futuro.

Foi em Belém, numa manjedoura de ruminantes, sob um abrigo de natureza em pleno céu, em face de uma
planície constelada de humildes fogos, porém dominada por aqueles outros fogos que Abraão contemplava como
símbolos de sua raça, foi aí que, premido pelo amor, propondo-o Deus e aceitando - o homem na pessoa de uma
pureza e de uma humanidade todo-poderosas, foi aí que o fruto maduro da história aí irrompeu. O grão do futuro, a
esperança alimentada pelos séculos lá estava, sob a forma de uma criança que uma mãe, fecunda por obra do
Espírito universal, amamentava.
Esse seio de virgem não era porventura a figura da humanidade em trabalho, elaborando uma comida que
o Cristo coletivo, a Igreja, absorveria em breve, para crescer? Enquanto isso, o minúsculo Filho do Homem vivia
dessa comida, ele primeiro de seus irmãos, diz o Apóstolo, primeiro a ser nutrido da medula do passado,
humanidade nova e antiga por ele só, a título de Filho do Homem, a título de segundo Adão, mas trazendo em si o
que podia renovar, já que criara, trazendo em si a plenitude da própria divindade.

Por toda parte a humanidade procurava outrora o seu Deus: nesse dia, se seus olhos pudessem ter-se
aberto, ela o teria contemplado em si mesma. Esse Deus, que a envolvia desde sempre de uma influência ativa, mas
parcial ainda e pouquíssimo reconhecida, furara um ponto "a parede" (Ezequiel, VIII, 8); irrompera a massa humana
e, pela deificação pessoal de um de nós, começava a operar a deificação coletiva.

Os potentados da antiguidade, quer se chamassem Ptolomeu, Antíoco, Augusto ou mesmo Nero, viam
anunciar e saudar o nascimento deles como o inicio de uma idade áurea, como o penhor de uma felicidade a vir
sobre a terra. Aqui, a verdade substitui-se às ficções, e a idade de ouro eterna, definida pela síntese de Deus e do
homem na religião autêntica, acaba de achar o seu instrumento substancial. Jesus será o ponto de ligação, o elo
intermediário, semi-humano, semi-divino, que unirá o que se trata de unir.

Como repreender-se-á que ele diga em seguida: "Ninguém vem ao Pai senão por mim" (João, XIV, 6), e
reciprocamente: "Ninguém pode vir a mim se meu Pai não o atrair" (João VI, 44).

O nascimento da Igreja será, pois, de certo modo, o nascimento de Cristo, visto haver identidade solidária
entre o grupo organizado e Aquele que é estabelecido espiritualmente chefe de raça. "O Estado sou eu", dizia Luiz
XIV; com mais verdade poderá Cristo dizer: a Igreja sou eu; não entendendo isto da sua humanidade individual, mas
de todo o corpo de que a sua humanidade é a cabeça.

Mister se fará apenas que esse corpo de Cristo, como efetivamente lhe chama São Paulo, esse Cristo
desabrochado em grupo, socializado, ache suas condições definitivas. Até então ele vivia em estado difuso no
paganismo e em estado embrionário no judaísmo: tratar-se-á, como dirá mais tarde São João, de congregar em um
os filhos de Deus dispersos (João, XI, 52).

Repito, havia filhos de Deus em toda parte. As Igrejas nacionais ou domésticas ofereciam-lhes abrigos
provisórios; a sinagoga fornecia-lhes uma representação e um ponto de concentração, oficial desta vez, mas
insuficiente, porque unia mal; unia só pouca gente e em condições que não eram exclusivamente religiosas, já que
era preciso filiar-se ao povo, por uma espécie de naturalização, para se filiar ao culto. Derrubar esse templo para
substituí-lo pelos domínios do Espírito de que o templo cristão será o servo e o símbolo, eis a obra.

"Vem a hora, diz o Salvador à Samaritana, em que não será nem sobre esta montanha nem em Jerusalém
que adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos
Judeus. Mas vem a hora, já veio, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade" (João,
IV, 21-25).

Achamos aí, em três tintas justapostas, todo o mapa religioso do mundo: a religião dos pagãos, em que se erguem
templos de ocasião, adoradores daquilo que ignoram (o Deus ignoto de São Paulo); a região judaica, onde o edifício
salomônico abre suas portas ao verdadeiro Deus, mas fecha seus muros ao mundo; finalmente a região cristã, onde
o templo aberto ao espiritual, às dimensões do universo, já não passará, materialmente, de um símbolo e de um
auxílio.

Compreende-o a arte cristã quando, na medida do possível, sintetiza no templo cristão ideal, que é a
Catedral, a criação em todos os seus domínios. O templo eucarístico é tanto mais templo quando melhor se parece
com esse cosmos divino em que toda criatura unida a Cristo adora em espírito e em verdade.
Vem a hora, diz o nosso texto e já veio. Que quer isso dizer? Quer dizer que, estando lá Cristo, já veio, nele,
a hora de tudo o que deve ser. Essa hora veio desde Belém. Vem, entretanto, porque essa existência de Cristo, que
inclui em si a obra universal, ainda não se tornou uma ação e não está coroada pelo dom supremo.

Eis, porém, que Belém restitui a Nazaré o seu tesouro. Tendo-o visto crescer em sabedoria e em idade
diante de Deus e diante dos homens (Lucas, II, 52), Nazaré passá-lo-á a Cafarnaum, a Betsaida, a Tiberíades e às
outras cidades galileias. A Galileia, infiel, cedê-lo-á a Jerusalém, que o crucificará fora dos muros, como que para
simbolizar a universalidade do seu sacrifício. Enquanto isso, a vida oculta desenrola-se, porque convém que a obra
individual de Cristo se prepare no silêncio e na obscura meditação, como a obra coletiva que ele enceta na noite dos
séculos.

Daí, tal como das profundezas do silêncio noturno se lança pela manhã o sol, o "noivo eterno" da
humanidade deixará a sombra nupcial para correr a sua carreira.

Como sempre, ele começa pela provação. Hércules entre o vício e a virtude é símbolo universal. Isento de
toda tendência para o mal, Jesus nem por isso deixa de ser sujeito, como todos, aos assaltos do mal. O mal, para ele
Cristo, seria esquecer-se de que é Cristo, isto é, homem de todos, e trabalhar para si mesmo. "Faze que estas pedras
virem pães": atira-te do alto do templo, e apare-te o teu Deus; conquista, visando uma realeza pessoal: tal é a
tentação de Cristo.

Mas não! O homem do Reino de Deus, que é universal, deve guardar para obra universal o poder que
dispõe. O homem do Reino de Deus, que consiste em se unir a Deus, deve consultar a Providência, em vez de lhe
impor seus caprichos. O homem do Reino de Deus, que é interior, não deve comportar-se como conquistador, como
se o Reino fosse deste mundo.

O Reino é neste mundo que lhe impõe as suas condições; é neste mundo como no outro, na terra como no céu, visto
que orienta o destino total; mas não é deste mundo, não detendo suas ambições sobre os objetos das nossas
preocupações temporais e excluindo o mal.

Após essa tríplice prova simbólica, o tentador é enxotado com a tentação, e a natureza do reino de Deus na
terra, tal como deverá realizá-lo a Igreja, é fixada. Jesus vai pregá-lo. O seu batismo à beira do Jordão é que lhe dá a
sua consagração de pregador.

Escutai-o, diz a Voz, e sinais visíveis oferecem como que o aparato de uma sagração. Ele foi sagrado pelo
Espírito Santo e pela virtude de Deus diz São Pedro (Atos, X, 38). Essa virtude revela-se nas pregações de dois anos e
meio, mal três, num minúsculo teatro, ao qual se têm emprestado encantos assaz incertos.

Tem-se sonhado muito sobre essa Galileia que não ousa mais viver, que se consola de haver perdido o seu
Deus rolando sobre as rochas onde ele pregava ondas de verdura, e retraçando com loureiro em flor o sulco da sua
barca que ia de margem em margem. Mui diversa foi, porém, a realidade no tempo de Jesus.

A pregação do "rabi nazareno" não é a pastoral que Renan descreveu; é um labor áspero, numa áspera terra, no
meio de campônios secos, supersticiosos, violentos, que após um momento de entusiasmo querem precipitar o seu
profeta do alto de um rochedo, depois fazê-lo rei, depois fazê-lo seu provedor, depois, que sei? E que acabam por
obrigá-lo a ir-se embora com um adeus de maldição.

Não importa. Sabemos que a literalidade dos acontecimentos tem na vida de Jesus uma importância
imensa, mas no final das contas secundária. Essa vida é um símbolo, símbolo real e ativo, sacramento cujo alcance
excede infinitamente o alcance dos fatos materiais em que se apóia. O Sermão da Montanha sem dúvida é
pronunciado perante algumas centenas de pessoas: nem por isso deixa de se dirigir ao universo, e é por este ouvido.
A semente lançada sobre os rochedos acha logo de início algumas fendas onde germinar, e o resto ressalta para ir
fecundar a terra.
É notável que Jesus não tenha procurado sair de seu pequeno país. Confinou-se num espaço que se
atravessa em dois dias de marcha. Seus primos lhe diziam: Se fazes tais coisas, mostra-te ao mundo! (João, VII, 4).
Era o clamor da evidência. Mas ele não escutava nada dessa pretensa sabedoria. Abordava o universo por um ponto,
sabendo que o fluido divino saberia passar desse ponto a todos os outros.

O mundo não é assim tão grande. O verdadeiro obstáculo à ação moral não são as distâncias. Um mínimo
de tempo e de espaço basta ao Salvador para conquistar o tempo e o espaço em toda a sua amplitude. Um ponto
que se move com velocidade infinita ocupa a imensidade, observa Pascal: é o caso de Cristo exercendo a sua
atividade celeste. Um ponto segundo a extensão, a imensidade como zona de influência.

Os homens tratam de durar e estendem-se o mais possível, porque têm apenas os seus dias medidos e a
sua estatura para se igualarem à sua obra: Cristo dispõe da estatura de Deus e da duração de Deus: não necessita
estender-se. Ele é, e isto basta; ele diz, e sua palavra acha o seu caminho por si mesma. A sua vida histórica está para
com a sua vida segundo o espírito em mera proporção infinitesimal. Galileu e pregador de três anos, é o bastante;
todo o plano religioso universal tem aí suas ligações.

O Mestre prega pois, e o que ele diz é a Boa Nova, assinalando a ideia central da sua obra.

A essência do cristianismo, sobre ela muito se há dissertado; não é sem razão, conquanto seja às vezes de
maneira a mais desarrazoada. Está aí, com efeito, o tudo da Igreja, visto ser a sua ideia vital. A ideia vital é o tudo de
um vivente; é a lei de toda a sua atividade; a não ser o caso de desvio acidental, ela torna a achar-se em tudo o que
ele faz como em tudo o que ele é; é a sua "alma".

Isso a que chamamos alma, esse princípio interior da nossa unidade e da nossa orientação ativa, outra coisa não é
senão uma ideia, real e substancial, ideia, dirá Claude Bernard, diretiva de todas as manifestações da vida.

Na Igreja, segundo a teologia católica, alma é o Espírito Santo. Mas ainda assim cumpre saber sob que
forma o Espírito Santo entende de se dar a nós na Igreja. Não sucede com essa alma, alma universal e transcendente
a todas as coisas, como sucede com uma alma individual, que se proporciona exatamente àquilo que ela move. O
Espírito Santo nos excede e acha em nós um mero domínio parcial. Demais, se ele nos penetra, é sem nos absorver,
ao passo que a alma individual absorve na unidade de uma substância indivisa aquilo que ela anima.

Resta, pois, a questão de saber o que é que o Espírito divino quer de todos nós, constituídos em Igreja, e o que é que
nos traz. É isso, propriamente, o Evangelho.

O Evangelho, a Boa Nova, é assim chamada a priori, porque um desígnio divino é, por essência e
inevitavelmente, um desígnio de amor. A não ser que o homem o estrague! Mas trata0se aqui do desígnio primeiro,
e a este nível, não intervindo nenhuma defecção, o amor e a felicidade só se separam se, entre os dois, desfalecesse
o poder.

E qual é a boa nova anunciada? É que o homem, desde sempre, foi chamado à intimidade divina; que esse
desígnio, longamente desconhecido, vai ser reatado e acha seu cumprimento decisivo na pessoa de Cristo
"princípio" e "pedra de ângulo", "caminho, verdade e vida" (Cf. João VIII, 25; Mt, XXI, 42; João, XIX, 6).

Trata-se, pois, ao mesmo tempo, de uma intenção divina e de um fato divino; trata-se, em consequência, de uma
ação, de uma lei, de um sistema de meios, e, necessariamente, de um ambiente apropriado à fecundidade do fato, à
aplicação da lei, à utilização dos meios, à realização da intenção inicial.

No tempo, o advento de Jesus abre a fase definitiva do reino de Deus; o seu segundo advento deve encerrá-
lo, julgar-lhe os efeitos e eternizar-lhe os fins.
Jesus traz o levedo que fará fermentar a massa humana; cultiva um campo onde brotará também joio; lança
uma rede que apanhará peixes bons e maus, enquanto não vem a separação. E isto quer dizer que ele se propõe, e
poupa as liberdades.

Quanto ao essencial, a saber, espiritualmente - pois Deus é Espírito e suas obras são, antes Ed tudo, obras
de espírito, - o reino de Deus está em nós desde que nos demos a Deus e à obra de Deus sem restrição pecaminosa.
Historicamente, visivelmente, o reino de Deus será estabelecido desde essa primeira geração (Mt XXIV, 34),
porquanto o grão será semeado, Cristo provado, a sociedade fundada, o Espírito difundido e os sinais fornecidos:
ressurreição de Jesus, ruína de Jerusalém e abolição do antigo reino provisório.

Para entrar no reino, o que antes de tudo é necessário, por oposição ao judaísmo carnal, são as disposições
do coração. Importa primeiro compreender-se a si mesmo, ter consciência da sua natureza real e completa.
"Reconhece, ó cristão, a tua dignidade", dirão os nossos Padres. Em seguida, é preciso rematar-se, seja como
indivíduo, seja como grupo. Enfim e desde o inicio, a fim de se compreender deveras e de se realizar plenamente, o
homem é chamado a ultrapassar-se para entrar em sociedade intima com o Pai, o Filho e o Espírito.

Compreender-nos é sabermos que, nascendo na terra, somos um ser de essência celeste: homo coelestis (I
Co XV, 47); que, sujeito ao tempo, somos um ser de eternidade.

Realizar-se, rematar-se, é, como indivíduo, dirigir o seu desenvolvimento no sentido daquilo que faz
alcançar o seu fim, e, já que somos celestes, desenvolver em nós o celeste; já que somos feitos para a eternidade,
preparar em nós a eternidade, preferindo a todos os valor que perecem no tempo os valores eternos: Homens
carnais, não busqueis o pão que perece, mas o pão que fica para a vida eterna (Jo VI, 27).

E, como grupo, realizar-se é elevar-se até à consciência da sua unidade e tirar daí as consequências: amor mútuo,
amor organizado, justiça fraterna que superabunde em relação à justiça dos pagãos e em relação à pretensa
fraternidade, que não passa de uma coesão dos nossos pós. Pai, que eles sejam um como nós. Como tu, Pai, estás
em mim e eu em ti, sejam eles também um em nós. (Jo XVII, 11, 21).

Enfim, ultrapassar-se, por uma vida em comum com seu Princípio, é aceitar a graça e merecer-lhe o
crescimento. Se alguém me ama, meu Pai também o amará, e nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada (Jo
XIV, 23). Porém primeiro, se vós me amais, observai meus mandamentos (Jo XIV, 15). E por isto sobretudo, por isto
essencialmente, se reconhecerá que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros (Jo XIII, 35).

Essa habitação misteriosa do divino em nós, juntos, esse renascimento em Deus de todo o grupo humano, é
que prepara e permite a ascensão inaudita de um pequeno ser ao contato imediato do seu Princípio, e essas
sublimes intuições que são o fundo da vida celeste prometida. "A vida eterna é que eles te conheçam, a ti único
Deus verdadeiro, e Aquele que enviaste" (Jo XVII, 3).

Mostrar tudo isso, em minúcia, nas palavras de Jesus - sentenças, discursos ou parábolas, - não temos que
vagar para tanto; mas, pelos nossos apóstolos, pelos nossos Padres e pelos nossos teólogos, sabemos que nelas se
acha a substância disso.

Dissemos que o passado tinha feito prevê-lo e olhe preparara o desabrochar: por isso Jesus se refere muitas
vezes ao passado, embora assinalando as diferenças. Faz ressaltar o que há de bom nos meios pagãos, exaltando o
publicano virtuoso e o Samaritano caridoso. Abstém-se de condenar a lei, dizendo que vem apenas aperfeiçoá-la.
Superior a Moisés, nem por isso deixa de lhe ser o continuador, e, se pode levá-lo mais longe, é que o coração duro
dos homens foi amolecido lentamente pela penosa experiência da sua impotência. Agora, o progresso vai declarar-
se.

O que o mundo pagão autorizava, Jesus condena; o que Moisés concedia à dureza dos corações, Cristo recusa-o.
A ação divina no mundo é de uma continuidade que a sua matéria condiciona e perturba frequentemente,
mas que tende a subir. Já que hoje os tempos estão maduros pra uma transformação profunda, cumpre organizar os
méis desta. Faz-se mister uma alma nova aos humanos, ei-la: O Espírito do Evangelho. Mas, para que essa alma
trabalhe, é preciso, como dissemos, que organize para si um corpo. Sucedendo ao corpo plasmático das antigas
organizações, ao corpo embrionário constituído pela sinagoga, torna-se necessário agora um corpo religioso que
corresponda à idade perfeita das revelações, à vida plena da grande obra.

É esse corpo que vamos ver brotar sob a ação humilde, harmoniosa e pejada de imenso porvir que devemos agora
contemplar.

II

Quando se diz que Jesus Cristo fundou a Igreja, há quem peça para ver, no tempo dele, um grupo religioso
semelhante ao nosso, diferindo apenas pela amplitude. Teremos de dizer até que ponto, filosoficamente, essa
concepção é falsa. A Igreja, nos seus primórdios, tem apenas delineamentos; porém faz-no-los vez no próprio dia em
que a ideia nova vital é lançada na sua matéria consciente.

Jesus faz-se reconhecer; fala, e a sua influência, que é uma lei de vida, apossa-se da matéria ambiente na
medida em que essa matéria está preparada para recebê-lo. "Vem!" diz ele, e a pessoa vem (Mt VIII, 9; Mc X, 21; Jo I,
46). Ou mesmo, como no caso de Madalena, de Nicodemos, nada havendo ele pedido, acorre-se, reconhecendo nele
o ideal que se procurava. Assim as substâncias que o turbilhão vital arrasta colocam-se sob a lei da alma.

A alma espiritual introduzida no mundo por Jesus vai assim, por atração, por conaturalidade, constituir para
si um corpo. Ninguém vem a mim, dizia o Salvador, se meu pai não o atrair. Que é essa atração do Pai, se não é Deus
vivo nas almas sob a forma de um apetite sobrenatural que ele provoca, e que em seguida saberá satisfazer, quando
essas almas tiverem reconhecido em Cristo o meio de realizarem o que procuravam?

Essa atração interior constitui rapidamente a Jesus um grupo de aderentes, homens e mulheres, em
número bastante grande, entre os quais emergem e se distinguem, nomeadamente escolhidos, setenta ou setenta e
dois discípulos. Digo nomeadamente, embora nenhum catálogo autêntico nos tenha chegado; mas a cifra setenta
(ou setenta e dois segundo os manuscritos) é dada por Lucas (X, 1), e alguns nomes sobreviveram, como Barnabé ou
Sóstenes.

Um terceiro grupo mais restrito e especialmente eleito será o dos Doze, entre os quais Pedro, Tiago e João
parecem formar ainda uma seleção. Enfim, Pedro revela-se como o chefe, o centro de unidade para o futuro,
quando o centro eterno, Cristo, se tornar invisível.

Ora, Jesus toma bem cuidado de dizer aos que terão um papel no Estado espiritual por ele construído, que
Ele os escolhe, e não apenas os recebe por uma espécie de acessão passiva (João XV, 16). Assinala assim a sua
intenção, que é de lhes conferir um poder social. Intenção que aliás se revela em múltiplas palavras assaz
conhecidas, palavras que não deixam dúvidas senão aos que dúvidas procuram.

E que a sociedade que ele assim funda não seja uma sociedade particular, porém a cidade universal das
almas, é o que já assinala simbolicamente essa cifra doze, que corresponde às doze tribos, isto é, à humanidade
religiosa provisória, ao novo Israel, à Igreja incoativa de que falamos, e também a cifra setenta, ou setenta e dois,
que correspondia, segundo a tradição judaica, ao número das nações da terra, a que o Evangelho concerne. O
próprio Jesus faz ressaltar esse simbolismo, prometendo aos Doze uma glória que ele figura por doze tronos,
julgando as doze tribos de Israel (Mt XIX, 28).

Julgar as doze tribos de Israel no fim dos tempos, é julgar o mundo, havendo-se este, graças à Igreja universal saída
da sinagoga, tornado o prolongamento religioso de Israel.
Mil vezes tem-se feito notar que esses fundamentos da obra cristã, os apóstolos, não são uns letrados, uns
filósofos, ou pessoas importantes nos seus grupos; são pessoas de pouca importância. Não que haja nisso o menor
exclusivismo democrático; o Evangelho não é propriedade dos pequenos mais do que dos grandes; não se deixará
que ele seja açambarcado por ninguém; mas, se - pelo espírito ou pela situação - devem os grandes ser mais tarde
incorporados ao organismo constituído, é útil que eles próprios não sejam constituintes, para não parecerem
usurpar o papel assimilador que pertence à ideia vital.

O estabelecimento da Igreja toma assim o seu ponto de partida. Simples lineamentos, mas com um espírito
ativo e com centros de ação organizadora, que já se coordenam numa espécie de encéfalo, na pessoa de Pedro. É o
embrião no inicio do desenvolvimento. Jesus experimenta-lhe, por assim dizer, a vitalidade e convida-o a tomar por
si mesmo a consciência dela, confiando aos Doze, até aqui instruídos pouco a pouco, missões que servirão de
prelúdio à conquista do mundo.

Que isso esteja prenhe de todas as realizações e de todas as organizações ulteriores, fá-lo Jesus ver, e assinala
simultaneamente a unidade, a significação transcendente e o futuro da sua obra numa circunstância que figura entre
as mais solenes da história cristã.

Era em Cesárea de Filipe. Julgando chegada a hora de se declarar completamente, Jesus pergunta de
repente aos Doze, depois de fingir interrogá-los sobre o estado da opinião pública no tocante à sua pessoa: E vós,
quem dizeis que eu sou? A esta pergunta inopinada, é Pedro quem se levanta e quem, com o entusiasmo pronto que
está na sua índole, mas, quanto ao fundo, inspirado de mais alto, exclama: Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo.

Feliz és tu, declara-lhe o Salvador, feliz és tu, Simão Bar-Jona! - e lhe declina os seus nomes de homem para
convidá-lo a compreender que o que se passou nele não é do homem. - Não foram a carne nem o sangue, quer
dizer, a educação doméstica ou a intuição humana, ainda quando trabalhasse sobre os dados que lhe fornece o
espetáculo de uma vida divina, não foram a carne nem o sangue que te revelaram estas coisas, porém meu Pai que
está nos céus. É preciso a intervenção dos céus para a palavra de fé tal como ela vem à autoridade em vista do
grupo.

Porquanto foi em vista do grupo, e como que já em seu nome, que Simão falou inspirado do alto.

Logo lho declara Jesus, e sua réplica é ao mesmo tempo uma espécie de recompensa pessoal e de definição
da Igreja: E eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não
prevalecerão contra ela. Falar assim não é fundar a Igreja num trocadilho, como levianamente disseram alguns; é dar
o seu emprego natural a um nome simbólico atribuído desde o início a Simão, conforme o costume judeu, quando
Jesus lhe disse, escolhendo-o: Tu que te chamas Simão filho de Jonas, chamar-te-ás Kephas, quer dizer, Pedro, ou
Rochedo (Jo II, 42).

Portanto: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. A ideia de uma construção regular e
durável é aqui nitidamente afirmada. Não se trata de uma assembléia de acaso, formada de próximo em próximo,
mas de uma obra fundada que subsiste. E as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

As portas do inferno, quer dizer, as potências da morte, que triunfam de tudo o que é humano, que se fecham,
indiferentes e fatais, sobre tudo o que a natureza ou o homem sós põem a lume; quer dizer, ainda, as potências do
mal, de que Satanás é o tipo, e cujas cidadelas se erguem em face da cidade do bem. A Igreja não sucumbirá a
nenhum desses ataques; a Igreja não morrerá, e seu fundamento, a sé de Pedro, durará tanto quanto ela. Tal é a
promessa.

"Fato curioso, observa Henri de Tourville, o desse homem da Galiléia, que não teve em sua pessoa nada de
extraordinário, e a quem um amigo, aldeão de Nazaré, usando do mundo e do futuro como senhor, por sua simples
autoridade e com uma palavra colocou no pináculo da história e à frente da humanidade.
Na continuação do texto, a função de chefe é figurada pelas chaves, insígnia do intendente ou mordomo de
palácio. Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus, isto é, o poder de admitir ou de rejeitar os fiéis. No Apocalipse, é o
próprio Jesus quem traz as chaves de Davi, como Grão Mestre do Reino de Deus. Aqui trá-las-á, por procuração o seu
discípulo chefe, primeiro porteiro do Reino.

Esse reino evidentemente é a Igreja, visto que Jesus acrescenta: Tudo o que ligares na terra será ligado no
céu, e tudo o que desligares na terra será desligado no céu. Esse poder de ligar e de desligar, que significa permitir
ou proibir, é relativo às ações ou às coisas, assim como o poder de admitir ou de rejeitar é relativo às pessoas. Assim,
o magistério de fé indicado pela primeira declaração do Mestre (como aliás por muitas outras palavras), e o
magistério governamental implicado na segunda, são claramente definidos.

Tinhamos razão de dizer que um tal fato é central no estabelecimento evangélico da Igreja; ele serve de
base à obra, com a sua forma hierárquica claramente centralizada, é necessária à ação espiritual predita. Tudo,
partindo de uma Encarnação para se adaptar à natureza carnal ao mesmo tempo que espiritual do homem, tudo
deve envolver em seguida no visível, e não no espiritual puro, isto é, no invisível. O que deve ser visto é a
humanidade nova agrupada em torno de Cristo, redimida, unida ao Pai com sua própria unidade, animada pelo
Espírito.

Isso não é possível sem uma organização social, sem uma representação, sem uma diversidade de funções
exprimindo a diversidade humana na unidade, à maneira de um corpo. E, como um é que manifesta melhor um, do
mesmo modo que, no ponto de partida, tudo se concentra na unidade de Cristo, concebe-se que a representação
principal de Cristo seja por sua vez unitária.

Donde a eleição de Pedro, ponto de partida do Papado, Jesus não mencionou expressamente sucessão; mas
criou o papel; mais tarde, como agora, bem forçoso era fosse esse papel desempenhado. O próprio Jesus coloca a
duração de sua Igreja na dependência do Rochedo sobre o qual a funda, e di-la perpétua. Pode-se, pois, pensar que,
se desde o início ele assim não houvesse disposto, isso se teria espontaneamente estabelecido mais tarde, bem
longe de ser um desvio posterior, como pretendem alguns, e um plágio da autoridade romana.

Quando ao magistério sacramental, este resulta de outras declarações não menos precisas, das quais
dentro em pouco encontraremos a principal.

Mas, antes das palavras supremas e antes do supremo apelo ao futuro, a instituição da Igreja necessita, no
presente, de uma consagração dolorosa.

Os pactos sociais da antiguidade selavam-se sempre por um sacrifício. Por isso dizia-se: ferir uma aliança,
matar uma aliança: ferire foedus, mactare foedus. Um sacrifício mais alto deve aqui intervir, porque a aliança entre
Deus e o homem, em mira a fundar essa vida em comum que é a Igreja, requer da parte do homem um esforço de
ascensão e de purificação que não pode ter lugar sem dor. O Filho do Homem assume-lhe o encargo coletivo, e acha-
se preso por sua obra numa espécie de engrenagem onde deve necessariamente sucumbir.

Nos confins de todos os mundos, entre o passado e o futuro, entre a terra e o céu, entre a matéria e o
espírito, entre a culpabilidade e a justiça, deve ele ser esmagado e sacrificado pela aproximação temível que ele tem
por missão promover.

O passado não quer perecer; o futuro tem dificuldade de nascer; toda passagem renovadora é
acompanhada de conflitos; todo nascimento é uma crise.

A matéria não quer ceder; o Espírito desarranja-a nas suas combinações e nas suas esperanças; ela vai
resistir, e resistirá a ponto de Pascal poder dizer: Jesus estará em agonia até o fim do mundo. A sua agonia presente
será causada pela resistência imediata de um meio corrupto, símbolo bem indicado daquilo a que o Salvador
chamava o mundo.
Quanto ao céu e à terra, estes não podem juntar-se e unir-se senão no crisol do amor - amor reparador, em
relação a um passado carregado de responsabilidades e de misérias; amor inspirador, prestimoso e vencedor em
relação ao futuro.

Ora, esse amor deve ser visível e para sempre indiscutível. Ninguém ama mais, disse o próprio Jesus, do que
aquele que dá a vida por seus amigos (João XV, 13). Em Cristo martirizado, Deus e o homem dar-se-ão
reciprocamente essa prova. O homem morrerá por seu Deus; um Deus morrerá por seu Deus; um Deus morrerá pelo
homem. Desse duplo selo do Testamento, o rótulo da cruz será o quirógrafo.

Em hebraico, a língua do passado religioso; em grego, língua da civilização temporal; em latim, língua do poder viril e
conquistador do Romano, poder-se-ão ler os perdões e as munificências celestes, as retribuições generosas e os
esforços de uma criatura assim prevenida pelo amor.

Grandezas de carne, grandezas de espírito e grandezas de caridade, consoante a divisão célebre de Pascal,
unificar-se-ão assim na caridade superabundante e mortal. O passado, sublevado em tempestade, por mais que
julgue quebrar e suprimir o que considera ser antagonista, não fará senão desprender violentamente da árvore
humana o grão de futuro que é Cristo, e, sepultando-o numa terra que ele próprio contribui para tornar fecunda,
graças aos cuidados de uma Providência mais forte do que as suas cóleras preparará as futuras germinações.

Foi o que repetidas vezes Jesus procurou dar a compreender aos seus. Se o grão de trigo caído em terra não
morre, dizia-lhes ele, fica só; mas, se morre, dá muitos frutos (João XII, 24). Cumpre dizê-lo, a esse pensamento eles
eram refratários. O próprio Pedro, a despeito das suas declarações proféticas, antes por causa mesmo dessas
declarações, cujo sentido profundo lhe escapava, Pedro exclamara um dia: Longe de ti isso, Mestre! E o mestre,
voltando-se, lhe dissera: Retira-te de mim, Satanás, tu me serves de escândalo (Mt XVI, 23).

Ele reencontrava no discípulo o Tentador dos seus primórdios, que o excitava a subtrair-se indene e glorioso a uma
obra essencialmente mortal. Então, insistindo no sentido da sua profecia, o Salvador especificara: É necessário que o
Filho do Homem sofra muito, e seja morto, após o que ressuscitará ao terceiro dia (Lc IX, 22).

Efetivamente, cumprido o rito, consumado o sacrifício e fornecida a prova, Cristo não tem razão para ficar
no túmulo. Convém que saia dele, provando, pelo seu domínio póstumo sobre a morte, o seu domínio anterior, e em
consequência o caráter generoso da sua paixão. Dou minha vida para retomá-la, disse ele, e ninguém ma rouba; mas
dou-a eu mesmo; tenho o poder de dar e o poder de a retomar (Jo X, 17).

Tendo-a, pois, retomado após o silêncio misterioso dos três dias, ele retoma ao mesmo tempo a sua obra. A
sua morte era um simples episódio. Longe de ser um fim, era o verdadeiro começo, visto que, indispensáveis como
são as utilidades que dela virão, não se podia verdadeiramente começar senão depois desse aparente fim de tudo.

Eis que de novo Jesus aparece e fala. Quarenta dias de sobrevivência correspondem aos quarenta dias do
deserto, enquanto ele preparava a sua missão. Então ele jejuava, privando-se de um alimento necessário. Agora,
come sem mais ter fome, liberto das misérias mortais, porém querendo condescender e provar.

Os quarenta dias do deserto foram a transição entre a vida oculta e a vida ativa; os quarenta dias de
sobrevivência serão a transição entre a vida individual e a vida de Cristo em seu "corpo" social. O Cristo individual
mostra-se assim desaparecendo, voltando ao espiritual completo, e, se a sua vida terrena foi o último passado, se a
sua morte foi o instante solene dos nascimentos, a sua sobrevivência é o primeiro futuro.

O caminho doravante está aberto a uma obra que ele concebeu como Deus, aceitou em nome de todos como
homem, e iniciou como síntese viva dos dois princípios que agora se trata de fazer agir.

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Após a dupla lição de coisas da cruz e do túmulo glorioso, os discípulos estão maduros para uma
colaboração consciente e efetiva. Jesus lhes fala como a quem de ora em diante pode ouvir. O Espírito virá, que lhes
confirmará tudo. Mas desde já ele, Jesus, lhes põe nos ouvidos palavras cujo som não mais poderá extinguir-se. Diz-
lhes: "Todo poder me foi dado no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do
Padre, do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-as a guardar tudo o que vos mandei.

E eis que eu estou convosco todos os dias até o fim do tempo" (Mt XXVIII, 18).

A presença misteriosa de que o Salvador aqui fala entende-se de várias maneiras. É a presença eucarística;
é a presença interior pela graça que o Espírito Santo traz. Mas é também a presença social por procuração.
Porquanto, tomando à parte Simão Pedro, Jesus lhe reitera solenemente os seus poderes. Diz-lhe: "Apascenta
minhas ovelhas, apascenta meus cordeiros" (Jo XXI, 15).

O serviço da palavra de Deus pelos apóstolos e seus sucessores; a administração do batismo, o sacramento
da entrada, que coloca o cristão na trilha de todos os outros sacramentos; o exercício da autoridade por um grupo
que tem por chefe claramente designado Pedro e sua sequência sucessora (já que isso deve durar até o fim do
tempo); tudo isso acha-se, pois, determinado. E tudo isso é a Igreja.

Alguns têm dito que essas palavras tão claras não pertencem à história, por nos virem de Cristo
ressuscitado, o que, sem dúvida, no pensamento deles, quer dizer: de um Cristo de sonho. Mas Cristo ressuscitado é
para nós coisa mui diversa de um sonho. Já não é mais, se se quiser, um ente histórico no sentido pleno do termo, já
que a sua vida, doravante transcendente, escapa às leis do que se agita no tempo; mas é um ser historicamente
agente, visto que se manifesta por fenômenos reais, insertos na trama da história, e que nela produzem efeitos.

Aliás, as mesmas coisas ouvimos da boca de Cristo vivo temporalmente, e nenhuma razão permite pô-las em dúvida.

A Igreja nasceu, pois, realmente. Nascida era ela desde sempre no seu Cristo - Deus. Nascida era em Belém
no seu chefe homem e Deus. Nasceu de ora em diante em si mesma como sociedade organizada de uma
organização inicial, mas positiva. Estreia humildemente; é bem o pequenino rebanho de que falou o divino Mestre
(Lc XII, 32). Mas a esse rebanhozinho ele prometeu um reino. O reino dilatar-se-á pouco a pouco na terra, segundo a
lei de desenvolvimento progressivo que foi a do mundo antigo, mas com um elemento novo, perfeito em si, posto
que indefinidamente perfectível em nós.

E o reino assim regido, ao mesmo tempo que preparará o futuro da raça, salvará, alma por alma, aqueles
que quiserem submeter-se às suas leis. Procriará eleitos para encher o céu. O Reino dos céus terrestre: tal será o
nome da Igreja "militante". O Reino dos céus puro e simples: tal será o nome da Igreja "triunfante". Um dia, eles se
juntarão, quando Aquele que vai partir voltar, desta vez liame definitivo entre as duas séries de fatos que dividem a
vida do homem: fatos temporais, fatos eternos; fatos materiais, fatos espirituais; fatos do passado e do presente,
fatos do futuro.

É a segurança que, para acabar, mensageiros celestes dão aos Doze, depois que a nuvem de luz lhes furtou
aos olhos o Senhor que sobre ao céu, sobre o horizonte de Jerusalém e do mundo.

Mas, antes, a série dos tempos religiosos deve desenrolar-se ainda sobre este solo. Os apóstolos e a Igreja
têm de cumprir a sua missão do tempo: recrutar adeptos ao plano divino, regê-los, e, para isso, organizar-se,
progredir, defender-se, estabelecer a obra no coração do tempo, e prossegui-la. É o que os veremos empregar-se
com uma atividade e um êxito que evidentemente parecerão exceder o homem, tão eficaz será o Espírito deixado
como sucedâneo divino por Aquele que acabava de pôr termo à sua presença visível.

O Espírito! O Espírito do Cenáculo com suas línguas de fogo, com o seu vento violento, com os seus dons e
os seus presságios, dele se pode dizer que pela sua vinda, o seu coroamento à obra de fundação da Igreja. Realiza-
lhe a Confirmação.
A ascensão e a sediação à destra do Padre rematam e levam ao perfeito a divina Pessoa dada à Igreja com
"cabeça"; libertam-na da sua mortalidade e das suas outras fraquezas voluntárias: assim o corpo místico vem ao
perfeito pelo dom integral do Espírito e pelas graças sociais do Cenáculo.

Como essas graças são o efeito dos méritos de Cristo, só são outorgadas na sua plenitude após o
acabamento da obra meritória e da sua consagração celeste. Era por isto que Jesus dizia: "Se eu não for, o Paráclito
não virá a vós; mas, se eu for, vo-lo enviarei" (Jo XVI, 7).

Ele vem. E não se pode negar que não haja nisso um milagre psicológico de primeira ordem.

É o Espírito que torna de repente viris e clarividentes aqueles homens tão pueris, dantes tão inconscientes a respeito
das realidades de que durante três anos foram circundados e que lhes fizeram o efeito de um mistério turvo; a
respeito d'Aquele com quem viveram e a quem até o fim, de certo modo, não conheciam (Jo XIV, 9); a respeito da
obra e da sua significação verdadeira, da vida e da morte de Cristo que por tantos lados foram para eles um
escândalo, da sua própria ressurreição, que os deixou deslumbrados, esmagados de espanto, mas do que
lucidamente convencidos;

a respeito, enfim, do seu próprio papel, ainda tão mal julgado, tão mal aceito, e da parte deles objeto de tanto
temor.

Eles têm agora a intuição de tudo. A breve irradiação de Cesareia de Filipe, não seguida de efeitos a ela
proporcionados, seguida de uma negação, tornou-se em Pedro, e solidariamente nos outros, uma claridade sem
trevas. Tantos ensinamentos, estímulos e preceitos docilmente recebidos, porém mal assimilados e mal
harmonizados, unem-se num feixe. Empolga-os uma certeza que, deles, os pusilânimes de ontem, vai fazer uns
heróis e uns conquistadores. É uma transformação radical. A alma deles iluminada poderia dizer como Paulina em
Polieucto:

Vejo, sei, creio estou livre de ilusões.

E essa fé ardente, prática e comunicativa é a que vai transmitir-se; é a que já se manifesta na multidão
ambiente, onde um vasto lance de rede testemunha a sua força; é a fé da Igreja recém-nascida; é a nossa. E é o
Milagre da Igreja na sua consumação inicial.

Este termo inicia torna sempre, porque a Igreja está sempre no seu começo, como tudo o que é do Espírito.
Mas enfim, tudo aqui é consumado em preparação se tudo começa como realização. Pela descida do Espírito Santo
sobre os Apóstolos, a Boa Nova evangélica pode, como o fará São Paulo, definir-se plenamente "a virtude de Deus
para a salvação dos que crêem" (Rm I, 16). Os homens de todos os tempos terão parte nela em razão dos Doze assim
investidos. A própria vida futura ficar-lhes-á a dever. Esses homens vêm a seu tempo, de um futuro eterno.

Sem dúvida eles mesmos têm pensamentos mais humildes; obedecem; mas com toda certeza grande lhes é a
esperança. Eles esperam, como Abraão, pela cidade de fundamentos sólidos de que Deus é o arquiteto e o
construtor (Hb XI, 11), e, se, nesta nova fase do trabalho, eles não verificam mais do que o patriarca o efeito
definitivo das promessas, sabemos que eles o viram e saudaram de longe (Ibid, 13).

CAPÍTULO 3 - OS PRIMEIROS DESENVOLVIMENTOS DA IGREJA

Quando se aborda a delicada questão do desenvolvimento religioso, tal como ele deve revelar-se e
efetivamente se revela na Igreja, fica-se em presença de três tendências intelectuais - para não dizer três sistemas -
dos quais dois representam extremos, deixando lugar, como sempre à via média, por onde atenta e tranquilamente
se comprar em caminhar a sabedoria.
A primeira concepção: a Igreja, nos seus primórdios, era ou devia ser o que é hoje, salvo a amplitude.

Segunda concepção, situada no outro extremo: nos seus primórdios a Igreja não era e não devia ser nada
do que é hoje; veio a sê-lo por força dos homens e das circunstâncias, por acidente, diria um filósofo, semelhante à
bola de neve que engrossa rolando, corre para a direita e para a esquerda, e agrega a si os calhaus da estrada.

Terceira concepção, que se vai reconhecer, pois não podíamos deixar de explorá-la antes de defini-la - e
sem ela tudo não teria passado de dispersão e acaso nos pensamentos que, pelo contrário, nos pareceram ligar tão
fortemente os fatos da história; - a Igreja, nos seus primórdios, era um germe definido, e a este título, sob este
aspecto, perfeitamente idêntica ao que é hoje. Como se eu dissesse: o frango é o ovo; o carvalho é a glande;
porquanto, do ponto de vista da espécie, de um ou de outro só sai aquilo que deve sair, aquilo que portanto nele se
achava contido de antemão.

De que maneira ou de que outra? Decidi-lo-emos dentro em pouco; mas isso aí se acha em todo caso, certa
e mui determinadamente; as circunstâncias exteriores não farão senão dar à ideia vital ensejo de se revelar o que é;
as direções particulares, assim tomadas, darão ao produto último uma fisionomia em relação às circunstâncias
atravessadas e as influências que elas comportam, mas sempre sob o governo da ideia vital, que detém todo o
essencial.

Por aí se pode ver que, quanto à opção há pouco proposta, procedemos à maneira de Platão, que dizia com
boa graça: "Quando me pedem optar entre duas coisas, faço como as crianças, tomo-as ambas". Tomamos, com
efeito, as duas opiniões precipitadas, completando-as e corrigindo-as uma pela outra.

Nos seus primórdios, a Igreja era o que é hoje? Exatamente, mas no estado envolvido, como que um germe.
Nos seus primórdios, a Igreja não era nada, ou quase nada, do que ela é hoje? Realmente! Absolutamente não o era
no estado desenvolvido, no estado de fenômeno histórico manifestado, evoluído; era-o, todavia, da outra maneira.

Esta decisão, ousarei dizer, aclara o debate tanto quanto ele pode aclarar-se, o que não significa
completamente. Porquanto restaria definir o que é essa existência em germe com que queremos mimosear a Igreja.
Confessarei, mesmo, que este o fundo do debate; porque ninguém estaria disposto a negar, em princípio, que, em
relação à nossa, a Igreja de São Paulo seja uma espécie de germe. Somente quando se quer precisar, diverge-se e, ao
olhar bem a coisa, a divergência parece porvir de uma diferente concepção filosófica daquilo que se entende por
germe.

Há quem imagine que um germe é propriamente a coisa a obter, salvo a estatura. Era a ideia de
Anaxágoras, com suas partes similares, ou mínimas, pretenso ponto de partida das gerações. É o que a imaginação
popular concebe, quando de bom grado imagina, num ovo um franguinho invisível, numa bolota num carvalho
minúsculo com galhos dobrados, como um guarda-chuva em repouso na sua capa.

Mas isso é uma ideia de criança. Não é de admirar que, aplicada à Igreja por um subentendido inconsciente,
ela pareça colocar-nos em má postura para com a história. Com efeito, ela nos obriga a achar na Igreja primitiva o
que nela não se acha: um organismo diferenciado, munido de tudo o que hoje chamamos essencial, senão mesmo
do acessório a que estamos acostumados. Como se devêssemos achar nessa igreja inicial, desempenhando o papel
das partes mínimas de Anaxágoras, um pequeno cardinalato ou uma pequena congregação do Índex.

Felizmente, esta concepção a ninguém se impõe. Não é assim que Deus cria. Na natureza, ele nos mostra
como procede isso. Analisai um grão, mesmo que seja ao microscópio, e nele não achareis uma arvorezinha. Não há
nele nem galhos, nem folhas nem flores, nem, com maioria de razão, frutos; se os houvesse, sendo esses próprios
frutos embriões de árvores, forçoso seria contivessem outros frutos, que por sua vez conteriam outros, e assim sem
fim.
Mas num germe não há nada de tudo isso. O que há, mormente logo no início, é uma virtude preformativa,
que se apóia em condições materiais definidas, mas definidas sobretudo como poder, e não como realização obtida.
Um ímpeto orgânico não é um desdobramento.

E que é então, com precisão? Grato ficaríamos a quem o dissesse. A esse pensador, a ciência poderia votar
uma coroa mural: ele teria sido o primeiro a escalar a fortaleza de um grande mistério. Toda a natureza repousa
nesse poder de desabrochamento, que se revela ocultando-se, como a própria Divindade.

Resignemo-nos. Mas é bastante dizer: a Igreja desenvolve-se através dos tempos como esses objetos de
natureza que conhecemos, aos quais não opomos objeções, dos quais somos - entendo: os viventes.

E isso significa duas coisas que, dizia eu, corrigem uma pela outra as opiniões extremas. Isso significa que a
Igreja é caracterizada, desde o início, segundo todos os caracteres íntimos que nela se revelarão mais tarde na forma
histórica: assim o ovo ou o grão de uma certa espécie contém em si as características completas dessa espécie. E,
por outra parte, isso significa que a Igreja, no início, não possui, nem precisa possuir, as formas históricas com que a
agraciará o futuro: assim o ovo não contém nem bico, nem patas, nem penas.

Mister se fará, pois, que no curso da sua longa vida, se introduza constantemente na igreja o novo. Mister
nunca se fará, porém, que nela se introduzam novidades. Esta distinção absolutamente não é verbal. É capital em
toda a medida do possível. A nossa Igreja sempre viu um abismo entre essas duas coisas.

A novidade é o elemento estranho que permanece estranho, que se justapõe e não se assimila, porque é
incapaz disto, ou porque a questão nem sequer se apresenta, de vez que o todo não passa de um magma sem ideia
vital. Se a Igreja crescesse assim, seria a bola de neve de inda há pouco, a qual na partida quase nada absolutamente
tem daquilo que terá mais tarde.

O novo é o elemento estranho que se assimila, porque é assimilável, porque era chamado ou aceito
antecipadamente por propriedades concordantes com as suas, e porque lá estava, pois, contido em oco, se assim
posso dizer, antes de fornecer o cheio. Assim os elementos cedidos à planta pelo ar, pela água e pela terra a ela se
incorporam, e entram sob a sua lei de vida, deixando-a, pois, à sua essência.

A esta luz, abordaremos o exame dos fatos.

Eis os Doze agrupados em torno de Pedro, que, como a crítica cada vez mais reconhece, é mui
verdadeiramente o personagem principal (princeps) da primitiva Igreja.

Como consequência da sua designação e como inicio da sua missão, Pedro foi o primeiro a ver Jesus
ressuscitado, o primeiro a crer e a comunicar a sua fé aos outros. É por proposta dele que Judas é substituído, para
que o número das testemunhas esteja completo, em acordo com o simbolismo universalista observado quando
falávamos do estabelecimento da Igreja (At I, 13). Ele é que será o porta-voz de todos perante o Grande Conselho (At
IV, 8). Relatando este último episódio (V, 29), dizem os Atos: "Pedro e os apóstolos", fórmula evidentemente
intencional.

Até o fim continuar-se-á a dizer: Pedro, o Rochedo, nome simbólico, como se sabe, ao passo que os outros
sobrenomes dados pelo próprio Jesus não sobrevivem, e embora esse nome absolutamente não esteja em uso nos
meios hebraicos ou helênicos.

O grupo apostólico, com o das mulheres galileias, de que Maria, mãe de Jesus, é o vínculo, reuni-se num
hyperôon, câmara alta que dá para um terraço, à moda oriental.

Em volta desse primeiro círculo, um segundo se estabelece, composto dos convertidos de Jerusalém: cerca
de cento e vinte pessoas, no momento da morte de Jesus. Pela sua primeira pregação, Pedro agrega três mil (At II,
41). E em volta deles um terceiro grupo vai logo constituir-se: os Helenistas, cujo caráter particular muito contribuirá
para o desenvolvimento ulterior da Igreja, ao mesmo tempo que para o seu êxito exterior. Estes dois efeitos
condicionam-se um ao outro.

Conquistando o que lhe é assimilável, o cristianismo toma consciência de si, como o vivente se desperta a si mesmo
reagindo sobre o que seu meio lhe traz. A vida é um círculo.

O grupo de que eu falo difere muito, pelo espírito, dos Judeus de Jerusalém. Os Helenistas são Judeus,
porém Judeus transplantados, que vivem ou viveram em terras de civilização greco-romana. A sua língua é o grego,
em vez do aramaico ou do hebraico. A sua cultura e costumes são hauridos na gentilidade, em vez de terem
permanecido locais. Eles são fiéis ao judaísmo, porém o encaram mais largamente. Donde, entre os Judeus
formalistas de Jerusalém, a tendência para considerá-los como conformistas um pouco suspeitos, às vezes mesmo
como traidores.

E, inversamente, como sempre, tendência da parte dos Helenistas a olharem os Hebreus intransigentes como
espíritos estreitos e casmurros.

Quando o Evangelho se apresenta a uns e outros, aceito com um mesmo coração - pois aqui falamos dos
convertidos, - nem por isto é julgado com um mesmo espírito. Os Hebreus vêem nele sobretudo uma reforma judia,
e a ele se agregam como outros se agregam aos Essênios ou aos Fariseus. Os Helenistas saboreiam-lhe melhor a
novidade, e puxarão no sentido de São Paulo, quando vier a grande crise.

Um incidente de vida diária serve de ocasião à ampliação do quadro religioso constituído pelos Doze, e essa
ampliação produz-se no sentido universalista, porque assim o quer o ímpeto evangélico.

Havendo-se elevado no grupo dos Helenistas uma queixa porque, dizem eles, suas viúvas são desprezadas
nas distribuições cotidianas - e sem dúvida eles viam nisso uma parcialidade que lhes chocava o senso católico tanto
e mais do que os seus interesses, - os Doze lhes fizeram justiça sob forma a mais elevada e significativa. Estabelecem
diáconos, para presidirem às particularidades da vida comum, e escolhem estes indiferentemente dos grupos. É
marcar uma etapa na constituição da hierarquia. É, ao mesmo tempo, afastar-se do princípio de uma religião
nacional.

Na pessoa de Estevão - e o caso de Estevão será em breve legião - o papel de diácono vai forrar-se do de
teólogo e apologista. Assim, insensivelmente, por meios de vida, opera-se uma diferenciação; a árvore cresce.

Os Doze, muito explicitamente, reservam-se o testemunho; Estevão e seus semelhantes encarregar-se-ão


de sistematizar e de concluir. Estes dois papéis subsistirão. Enquanto o Apóstolo ou o sucessor de Apóstolo - bispo,
papa, representante da tradição apostólica tomada como tal - testemunha e diz: este é o ensino de Cristo, o teólogo
acrescenta: eis aqui, a meu juízo, o que dele se pode concluir, como se pode compreendê-lo, em que sistema de
idéias se pode fazê-lo entrar; e o apologista diz: eis como se pode defendê-lo. É coisa inteiramente diversa. Dogma e
teologia, dogma e apologia não se confundem.

Na época de que falamos, o dogma é chamado atestação. "Atestar", ou "falar a palavra do Senhor", é até
então o papel dos Doze. Um pouco mais tarde, estabelecer-se-á entre os diáconos e os apóstolos uma dignidade
intermediária: os Anciãos, ou Presbíteros, que terão voz deliberativa com os Doe e os ajudarão a reger o rebanho.

Nesse termo Presbítero, ou Ancião, de onde virá o termo sacerdote, acha-se inclusa uma filosofia. O
sacerdote, na Igreja Católica, historicamente é o representante do passado; e é um ancião, ainda quando seja jovem,
sendo, como é, o representante dos apóstolos e do Cristo histórico, cuja ação ele prossegue através do tempo. E,
misticamente, é o representante não já somente da antiguidade cristã unida ao seu Cristo, mas do céu, quer dizer,
da antiguidade absoluta, ou eternidade. Dessarte, ele é o ancião por excelência, o mais velho de todos.
Como se vê, a ampliação faz-se, mas a partir do centro, e sem nada tirar à ação do centro. É uma lei da vida
que, quanto mais a diferenciação orgânica se amplia, tanto mais as funções centrais, em vez de cederem, assumem
importância e mostram a sua necessidade. Pio XI necessita de autoridade muito mais do que São Pedro.

Aquilo que não vive esfarela-se ampliando-se; aquilo que vive concentra-se, porque então a diferenciação é
obra de um princípio que procura revelar-se mais completamente, e não dissolver-se. Se a dissolução ameaçasse,
logo um movimento de concentração enérgico, excessivo se preciso fosse - o excesso é melhor do que muito pouco
quando se trata de viver - restabeleceria a unidade comprometida.

Em todas as épocas da história este duplo caráter aparece na vida da Igreja: larga expansão em todos os
sentidos, e, de repente, horror quase medroso, ou cólera, ante toda novidade. Foi este o último caso que
observamos sobre Pio X, por ocasião da crise modernista. Queriam ampliar a vida e o pensamento católicos num
sentido de dissolução assinaladíssimo, hoje evidente aos olhos de toda crítica sincera. A autoridade central reagiu. É
possível que a vaga em retorno tenha ido, em alguns, mas longe do que fora mister; mas agora o equilíbrio está
restabelecido, até nova crise.

No início em que estamos, o perigo é antes no outro sentido, e um modernista no sentido católico do
termo, Paulo, é quem, sem se separar da autoridade dos Doze, pelo contrário, apoiando-se nela de maneira mais
explícita, mas tirando-lhe o sentido humano, para além daquilo que ela até então compreendera da sua missão,
imprime à nossa Igreja o surto mais decisivo que ela tenha recebido e seguido não somente nos primeiros tempos,
mas, pode-se dizer, em todos os séculos.

Seja qual for a diligência que um humano possa fazer no curso de sua existência longa e acidentada, ele
nunca fará uma semelhante à do dia do seu nascimento, quando, abandonando dolorosamente o meio interior em
que vivia, corta as suas amarras e confia-se a uma natureza que ele ainda não sabe materna.

Muito tempo será ainda preciso para que a criança cesse de se volver para sua mãe em atitudes de
naufrago, com gestos quase brutais, como se quisesse retornar às suas antigas condições de vida e fugir deste
mundo, que a espanta, enquanto não a apaixona.

Esses gestos reencontram-se no nascimento da nossa Igreja. Paulo é o parteiro enérgico que clama o ar livre
para a criança. Pedro é o pai que não somente consente, mas que quer e tem, de forma muito real, a iniciativa, visto
ser ele quem fala com autoridade. Tiago de Jerusalém, o "irmão do Senhor", será o tio virtuoso, que por certo é
benevolente para com a vida nova e para com os jovens doutores do progresso, mas cujo olhar é entretanto para o
passado, como também as complacências.

Quando Paulo vem a Jerusalém contar, com alegria, a difusão do Evangelho entre os Gentios, Tiago escuta e
aplaude; mas, virando-se para o seu caro grupo de Judeus, acrescenta: "Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus
creram, e todos são zeladores da lei" (At XXI, 17-21).

O centurião Cornélio foi o primeiro Gentio a tornar-se cristão sem incorporação ao judaísmo. O relato dos
Atos que narra a sua conversão e batismo é uma das pátinas mais tocantes e mais elevadas que se possam ler (At X).
Ora, é Pedro quem o admite, tanto é verdade que na Igreja nada se faz sem a autoridade. Torna-se, porém,
necessária uma visão para decidi-lo. Ele consente, com um espanto que só a sua admirável caridade consegue
vencer: "Agora, diz ele, reconheço que Deus não faz acepção de pessoas; mas que em toda nação lhe é agradável
aquele que o teme e pratica a justiça".

Era uma descoberta!

Por trás do centurião, via acaso Pedro a humanidade que corria para Cristo? E porventura o "duc in allum",
ao largo! Ao largo! Que Jesus um dia lhe diria, estaria alerta no seu coração? Sim, mas a sua vista fraca só captava
desse futuro aquilo que dele era preciso para a ação imediata. Paulo, este, verá imediatamente largos horizontes;
lançar-se-á a eles com uma paixão que fará dele o general do Verbo, "dux verbi" (At XIV, 11).
A sua cultura, a um tempo judaica e um tanto helênica, as suas aptidões filosóficas, a sua experiência, o caráter
impressionante da sua conversão, o fato de haver ele sido, no inicio, um perseguidor violento, dão-lhe uma grande
força. Sua alma de fogo e suas graças eminentes farão o resto.

Em face das conversões pagãs, ele não dirá como que em tom de escusa o que Pedro disse à assembléia dos
irmãos, ao voltar de Cesárea onde batizou Cornélio: "Podia eu opor-me a Deus?". Mas sim, num entusiasmo cuja
expressão perde aos nossos olhos a sua tonalidade brilhante, precisamente porque somos nós os beneficiários dela,
exclamará: Eis que segundo Cristo não há mais nem Judeu nem Gentio, nem Grego nem bárbaro, nem mulher nem
homem, nem escravo nem livre, porque não sois mais do que uma só pessoa em Cristo (Gl III, 28; Cl III, 11).

A gente não imagina quantas noções tais palavras subvertiam nos homens daquele tempo. Na cabeça deles,
era todo mundo antigo que ruía. Isso se parece com o discurso daquele que viesse um dia dizer, talvez: Não há mais
nem Franceses nem Alemães, nem Ingleses nem Russos, nem Japoneses nem Americanos, nem Italianos nem
Tchecoslovacos; não sois mais do que uma só pessoa em humanidade.

A assembléia, de Jerusalém, onde sob a presidência de Pedro, por iniciativa de Paulo e com a alta
autoridade moral de Tiago, se reúne o primeiro dos nossos concílios, consagra esta situação. Aí fica combinado que
não se imporá aos cristãos o fardo da lei judaica, nem muito menos a circuncisão, sinal de incorporação política. Fato
duplamente decisivo. Ressalta dele que o judaísmo é reconhecido forma transitória do movimento religioso
autêntico, forma doravante ultrapassada: êxodo moral que lembra o de Abraão deixando o seu território caldeu.

E, em segundo lugar, proclama-se que a religião definitiva, a de Jesus, é transcendente às organizações temporais,
alheia às questões de raça, de nacionalidade, de sexo ou de condição, católica em suma.

A catolicidade de direito datava de Cristo, homem universal; datava dos profetas messiânicos; datava do
berço da humanidade; mas a catolicidade oficialmente reconhecida data do concílio de Jerusalém. A partir desse dia,
é operado o corte com o passado. Nascida da sinagoga, e parecendo fazer corpo com ela como a árvore com o
rochedo cuja silhueta ela continua sobre o céu, a Igreja manifesta a sua autonomia; a árvore estende os galhos para
que as aves do céu possam vir.

Vê-las-emos acorrerem em multidão. Mas, para que elas achem a sua vida e o seu abrigo debaixo da
sombra, cumpre que os botões ainda fechados desabrochem em palmas verdes. Contemplemos um pouco essa
primavera da nossa Igreja. Tudo nela é modesto como na humilde e potente alquimia do vergel; mas o ouro dos
frutos está contido no chumbo resistente da terra; vê-lo-emos revelar-se em riquezas novas enquanto o sol do
Espírito brilhar no nosso céu.

II

A decisão do concílio de Jerusalém parecia clara; era o realmente, porém os espíritos são sempre mais
complicados do que as fórmulas. Expulsai o natural, e ele volta a galope. Expulsai um preconceito pela porta, e ele se
introduz pela janela. O episódio moral que motivara a reunião e que parecia regulado completamente, reproduz-se
pouco depois sob forma nova, sofrivelmente insidiosa.

Admitir-se-ão os pagãos à vida cristã sem se lhe imporem as observâncias judaicas: eis o que está
convencionado. Vai-se, porém, colocá-los no mesmo pé que os outros? Em Jerusalém, o povo está habituado às
categorias. Há os prosélitos da Porta que só transpõem o primeiro recinto do Átrio; os prosélitos da Justiça,
naturalizados e incorporados; e, nos dois extremos, os Judeus autênticos e os Goim ou impuros estrangeiros.

Não se poderiam fazer duas categorias de cristãos, os verdadeiros, os puros, isto é, os Judeus ou judaizantes
circuncidados, e os outros, isto é, os Gentios convertidos mas não incorporados ao judaísmo?
A comunidade de Jerusalém não se presta muito a essa divisão, porque nela os Gentios são uma minoria
inteiramente insignificante, pouco em condições de reclamar o seu direito, e sem dúvida não se capacitando da
significação geral do seu caso. Mas a comunidade de Jerusalém enxameou depressa; os seus primeiros pregadores
fizeram maravilha, e especialmente em Antioquia Paulo e Barnabé estabeleceram uma comunidade florescente,
composta em grande parte de pagãos convertidos. Lá, o problema apresenta-se com toda clareza, como um
problema social.

Ora, mui naturalmente os partidários da distinção em duas categorias propuseram que o seu sistema
tivesse aplicação à refeição dos ágapes. O banquete fraternal comportará dois serviços: os dos Judeus ou cristãos de
primeira linha; e o dos Gentios, cristãos de segunda zona.

Tendo vindo visitar a comunidade de Antioquia, Pedro deve tomar partido e figurar numa das mesas. Opta
primeiro sabiamente, em conformidade com as suas próprias palavras no concílio. Mas, ante as reclamações dos
seus compatriotas, cede. Paulo é forçado a intervir para obrigá-lo a pôr suas ações em harmonia com a sua doutrina.
A ordem não deixa por isso de triunfar. A direção do futuro está tomada. Não se deixará dividir-se o corpo de Cristo.
O símbolo da unidade, a Eucaristia, não se prestará a uma interpretação particularista.

A senda judaica é decididamente abandonada, e, enveredando positivamente pela grande estrada humana, vai a
Igreja poder organizar-se deveras, desenvolvendo aos poucos o que nela está latente.

Três direções paralelas impõem-se a esse desenvolvimento. A crença, o governo, o culto exigem uma
expansão progressiva conforme às exigências aumentadas da vida nova. O tempo provê a isso com uma regularidade
que trás constantemente ao espírito a mesma imagem: o ímpeto natural dos seres.

As crenças do inicio eram substancialmente o que são hoje. A nossa teoria do germe que contém na
partida, tudo o que dele sairá - sem o conter, mas contendo-o entretanto, a saber, em potência de futuro, e não em
ato explícito, - aplica-se a cada aspecto da vida católica tanto quanto ao conjunto.

O Símbolo dos Apóstolos, que não data dos apóstolos, mas que lhes exprime a crença tal como ressalta dos
primeiros documentos, faz-nos ver que é que se vive então. Não insisto nisto. Porém muitas precisões sobre a
natureza do Deus-Trino, sobre a pessoa e o papel de Cristo, sobre o plano religioso do mundo, sobre a própria Igreja,
ainda estão por precisar.

A autoridade, que decide à medida que os casos se apresentam, como se vê nos Atos e nas Epístolas, como
se verá mais tarde nos concílios, tão laboriosamente preparados, a autoridade, digo, instrui-se nas suas próprias
decisões, como um grão inteligente se instruirá em se olhar crescer, só imperfeitamente sabendo o que ele traz em
si mesmo. Por isso, mesmo ao olhar da autoridade, que é a cabeça mas que não é o corpo todo, há um
desenvolvimento, uma instrução dogmática da Igreja.

Ademais, a superedificação, como se exprime São Paulo (epoikodomé), isto é, a teologia, de que já falei,
elabora suas teses, e algumas iluminam largamente os horizontes da fé. O próprio São Paulo contribui para isso com
um poder construtivo e uma penetração de que não há muitos exemplos.

Não posso entrar na minúcia das doutrinas, a qual nos arrastaria a longe demais. A história dos dogmas é
um assunto denso, que aliás não é o nosso, visto estar entendido que nós salientamos o milagre, não narramos.

O que nos interessa é notar até que ponto, em semelhante matéria, eram fáceis os desvios. As heresias, isto
é, as escolhas arbitrárias nas doutrinas correntes, ao invés da aceitação exclusiva daquilo que pode quadrar com o
depósito revelado, seja por modo de identidade, seja como desenvolvimento natural ou legítima interpretação: tal é
o perigo. Desde o início mostra-se ele temível. Muitos lhe sucumbem. Paulo repreende-os com sua virulência
maternal, Pedro com gravidade, e João, acostumado às grandes imagens, fala das profundezas de Satanás, prestes a
tragar os que não sabem manter-se nas alturas de Jesus Cristo.
Nem por isso deixam eles de dizer, uns e outros: "Convém que haja heresias" (I Co XI, 19). E, sem dúvida, na
boca deles isso é a expressão de uma fatalidade; mas essa fatalidade é também uma providência. Reagindo contra a
introdução de um corpo estranho, o organismo religioso toma consciência de si mesmo; reconhece os seus
verdadeiros elementos, pessoas e coisas, e assim se afirma.

Ademais, nunca sendo o erro mais do que uma verdade desviada rejeitando o agente que o utiliza, provando assim a
um só tempo a universalidade de uma doutrina que não exclui senão o mal, e a sua unidade sob a forma de uma
ideia vital.

Resta o perigo de intoxicação pela admissão irrefletida de germes mórbidos. Esse perigo é tanto maior
quanto é rudimentar a organização da Igreja, e quanto uma grande liberdade individual se desenvolve nela. Os
oradores, os inventores de noções têm nela uma influência fácil, e os abusos da inspiração pessoal correm o risco de
pôr a conta do Espírito Santo as piores divagações.

Para remediar essa situação, mister se faz necessariamente reforçar a autoridade central. Por isso, são os
mesmos os documentos que denunciam heresias e que nos mostram em flagrante os primeiros desenvolvimentos
da hierarquia católica.

A hierarquia inicial, já lhe enumeramos os elementos; encarnam-na os Doze com Pedro à frente; os
diáconos prolongam-na; entre os dois, os Anciãos, ou Presbíteros, partilham-lhe as atribuições sob controle.

É para notar que essa organização, todavia tão rudimentar, nem sempre tem todos os seus efeitos. Pedro
está longe de representar o papel disso a que chamamos o Papa; confunde-se as mais das vezes com os Doze, e nós
salientamos esta expressão: Pedro e os Apóstolos, que frisa a um tempo o primado e a pouca diferenciação que ele
adquiriu.

Mais tarde, o bispo de Roma não será também imediatamente o Primaz universal de hoje. Quase que é só
no século III ou no IV que o primado papal é nitidamente diferenciado, e ainda aí se está muito longe da manifesta
supremacia atual. "Quando o homem está numa idade muito tenra, diz graciosamente o P. Clérissae, a voz é
indistinta; porém, quanto mais o organismo se desenvolve e se robustece, tanto mais a voz se torna expressiva e
assume o tom pessoal.

É essa toda a razão e toda a história do exercício, progressivo mas, desde o início, formal e contínuo, da autoridade
papal na Igreja".

Da mesma maneira, no grupo primitivo os Doze não têm a situação disso a que hoje chamamos bispos. São
ao mesmo tempo mais e menos do que bispos. Mais, porque o contato direto com o Senhor, cuja virtude eles
conservam, lhes dá autoridade aos olhos de todos, e portanto estende o poder de cada um deles a todas as
comunidades, em vez de ficar localizado, como hoje, numa Igreja particular. Menos, porque, sendo intensa a vida
comum e pouco numerosos os problemas práticos, não se sente a necessidade de uma administração regular. A
autoridade é discreta e as iniciativas muito grandes.

Num organismo social, quando a ideia vital em toda parte é ativa, realizando espontaneamente as
finalidades que são a razão de ser dos órgãos diretivos, esses já não têm motivo para impor a sua especialidade. A
autoridade perde por outro tanto a sua razão de ser, e isso vige na medida daquilo que o bem social exige ou ainda
não exige.

Numa aldeia em que toda a gente varre a frente da casa, não há necessidade de limpeza pública; mas esta é
necessária numa grande cidade, porque os serviços de uma cidade excedem a competência e o poder dos
particulares, ainda quando estes forem atentos como os outros ao bem comum. Assim, na Igreja, o desenvolvimento
da autoridade segue o desenvolvimento do grupo e das crescentes necessidades do grupo.
Os bispos por excelência, os Doze, foram instruídos por Cristo; mas, uma vez ampliado o rebanho, mister se
lhes torna um prolongamento de presença e de ação; vinda a morte, mister se lhes torna uma sucessão. O
episcopado corresponde a essa necessidade. Episcopoi, isto é vigias a respeito da doutrina e da vida católica, os
bispos, cuja instituição remonta à primeiríssima geração, são pois as testemunhas da dupla expansão da Igreja
segundo o espaço e segundo o tempo.

Muito tempo será necessário para que as sés episcopais sejam estabelecidas na sua forma atual. Em certos
lugares, o episcopado é exercido por vário, como por uma espécie de capítulo. Em muitos documentos, bispos,
sacerdotes, apóstolos são termos que parecem confundidos. E sem dúvida é preciso discernir o que corre por conta
da linguagem figurada, e também do que corre por conta dos termos coletivos, como quando dizemos os padres,
para designar todo o clero de uma diocese, com o bispo à frente. Mas parece, mesmo, que flutuação nas expressões
corresponde a uma certa flutuação das realidades.

Digo isto sob o ponto de vista administrativo.

Ademais, vestígios de episcopado unitário fazem-se reconhecer em toda parte, ainda quando fosse só sob a
forma de uma presidência mais ou menos importante, esboço do claro primado espiritual que será mais tarde o
nosso episcopado.

Naturalmente, os primeiros de todos os bispos são estabelecidos diretamente pelos Apóstolos. Na segunda
fase, são estabelecidos pelos discípulos imediatos dos Apóstolos, como Tito e Timóteo. É sempre a lembrança do
Senhor que reina; sente-se o contato dela por meio desses primeiríssimos elos da cadeia das graças.

Na geração seguinte, enfraquecendo-se as recordações pessoais, a coletividade entra em jogo. As


nomeações são feitas pelos bispos da província que se acham mais próximos, geralmente três, "com o sufrágio do
povo", diz São Clemente, quer dizer, sem dúvida, um voto consultivo. Todavia, quando o povo inspira pouca
confiança e se trata justamente de reconduzi-lo por uma boa escolha, prescinde-se dele: a prova de que a
constituição da Igreja nos seus primórdios não é democrática, como por vezes se tem pretendido.

Desde o primeiro concílio geral (Niceia, 325), a eleição do bispo deve ser confirmada pelo metropolita; isto
é, por uma autoridade central tornada nitidamente preponderante em seu domínio. Muito mais tarde, enfim,
estando a centralização concluída e todos os órgãos da Igreja diferenciados, o poder de confirmação passará à Santa
Sé, e o povo será excluído da eleição, por causa do caráter político que o seu voto assume, quando o sopro religioso
dos primeiros tempos está acalmado.

Tal é o ponto de partida da hierarquia, tal o da doutrina. Quanto ao culto, vemo-lo começar e orientar-se
segundo as mesmas leis. Nos primeiros dias, copia-se a sinagoga. Jesus praticara-lhe os ritos. Instituiu outros; mas do
passado ao futuro, a transição deve ser natural, isto é, insensível.

As pessoas reúnem-se, pois, à maneira judia, particularmente no dia de sábado. Reza-se em comum; lê-se a
Sagrada Escritura; participa-se dos ágapes, refeição frugal que tem lugar à noite, como na véspera da morte do
Senhor, e que termina também pela eucaristia. Enfim, eles vivem juntos uma vida mística capaz de nos parecer hoje
muito extraordinária, mas que o fervor do estado nascente faz então achar mui natural. Isso a que chamamos os
carismas, ou dons do Espírito Santo, como o dom de profecia, de cura, o discurso de sabedoria ou de interpretação,
etc., são manifestações correntes.

Insinuam-se nisso muitos abusos, como se pode ver pelas admoestações dos Apóstolos e pelas precauções
com que eles cercam essas escapulas do sentimento religioso interior. Porém as almas haurem aí grandes recursos:
alimentam a sua fé e inflamam o seu entusiasmo, efeitos bem necessários para resistir à invasão do mundo pagão e
à ameaça permanente do martírio.

Quando a Igreja cresce, essas maneiras de viver, essencialmente intimas, dissipam-se pouco a pouco. No
século II, elas ainda são correntes, como o testemunha Irineu o filósofo. No século III, rareiam; no IV, já não passam
de uma reminiscência; declara-o Eusébio. A regularidade social sucede às espontaneidades transbordantes, e, se o
Espírito não se revela menos, fá-lo de maneira menos exterior. Os dons cedem um pouco às virtudes, e os carismas à
caridade.

Mesmo quanto à Eucaristia, os abusos e as dificuldades práticas levarão a reduzir, e depois a suprimir, os
ágapes preparatórios. Se conservará somente o essencial: a consagração do pão e do vinho e o seu uso sacramental,
até que mais tarde as mesmas considerações induzam a suprimir a participação no cálice.

As reuniões fazem-se primeiro em casas particulares, especialmente em câmaras altas, grandes peças do
andar superior de que já falei. Só mais tarde haverá igrejas, e este termo, aliás, só a partir do século III será
empregado para designar edifícios do culto.

No início, havia interesse religioso em que o culto não tivesse local oficial, a fim de bem lhe assinalar a
interioridade, por oposição ao culto judeu que não podia passar sem o Templo. Nossos templos, os nossos, são
símbolos e servos, dissemos; nós não somos escravos deles.

O pequeno rebanho constituído por cada grupo de fiéis mantém-se, pois, unido em torno do báculo
apostólico. Eles se reúnem à noite, em lembrança da Ceia do Cenáculo, mas sem dúvida também em razão das
ocupações do dia. Ademais, a noite é favorável aos surtos místicos, e as nossas primeiras comunidades são
costumeiras neles.

A sua reunião prolonga-se, não raro, pela noite. A do sábado, ou "sabbat", é seguida de uma liturgia que
tem lugar pela manhã. É assim que se estabelece a passagem do sábado para o domingo, que muito cedo se torna o
dia do Senhor.

Do mesmo modo, a Páscoa judia transforma-se em comemoração da Paixão e da Ressurreição de Jesus,


com o simples inconveniente de acarretar discussões, por causa da divergência das datas.

Finalmente, o centro de atração religiosa dos cristãos, como dos Judeus, é primeiramente Jerusalém. Mas já
que diferença! Para os Judeus, Jerusalém era o Templo; para os cristãos, é sobretudo o Calvário e a Câmara alta. Os
Judeus sentiam-se ligados ao Sinédrio; os cristãos à comunidade dos Apóstolos, onde Pedro exerce o primado, onde
as inspirações místicas parecem vir sobretudo de Tiago, o Irmão do Senhor.

Esse centro cedo se deslocará. A mãe não retém sempre o filho. Tendo conquistado a sua autonomia, a
Igreja assinalará essa autonomia por um estabelecimento que deixará a Jerusalém o simples papel de antepassado.
Roma propõe-se para recolher a sucessão do Oriente, como o zênite o sol liberto das brumas matinais.

E, para provar que aqui é realmente uma Providência que vela, a ruína de Jerusalém e a dispersão da sua
comunidade ocorrem justamente no momento em que Roma tem tudo o que é de mister para lhe recorrer a
herança, tudo, inclusive uma auréola de mártir em torno de uma tiara sangrenta. É em 66 que principia a crise de
Jerusalém; é em 64 que a cabeça, virada para baixo, do apóstolo Pedro deixa cair a tríplice coroa que deve brilhar na
fronte dos seus sucessores.

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Tal é, largamente indicada, a curva que toma a sua partida a evolução secular da Igreja. A continuação não
fará senão revelar o melhor a direção imposta por um Pensamento senhor dos acontecimentos e dos homens, mas
que dispõe deles suavemente, como diz a Escritura, posto que se estenda fortemente de uma extremidade à outra
(Sabedoria VIII, 1).

Vida da Igreja, precisamente por ser uma vida, não procede de fora, mas de dentro. O Espírito de a dirige
não lhe é exterior; vive nela, e é o mesmo que é imanente à história universal e à natureza total. Nada de admirar
que tudo isso se encontre em sínteses harmoniosas e progressivas.
O vivente "Igreja" cresce sozinho. Cresce lentamente, com a colaboração de todo o seu meio, como o
dizíamos do germe, ao qual o próprio Evangelho o compara (Mc IV, 31).

Não se lhe pode fazer disso uma objeção, como se a Igreja fosse uma obra de acaso. Este ponto de vista
racionalista é tão estreito quanto o ponto de vista materialista, que só quer ver no nascimento de um animal um
mero encontro de átomos, sob pretexto de que isso se faz sozinho, sem que ninguém vá dispor os membros no seio
da mãe.

O próprio fato de realizar-se isso sozinho, deve-se concluir que há aí um princípio interno. Assim também, a
fabricação da Igreja por si mesma com a colaboração do meio, é a prova de que a Igreja tem por princípio interno o
Espírito de seu Cristo permanecido ativo nela. E é este o milagre.

O princípio vital chamado alma só pode revelar-se por tal organismo possuidor de tais caracteres: é por isso
que ele se dá esses caracteres.

Assim também, o Espírito divino comunicado aos homens por Jesus só pode manifestar-se na e pela Igreja tal como
ela é, e ele o prova dando-a a si próprio, fabricando-a para si peça por peça, com movimento contínuo, sem nenhum
plano definido antecipadamente em qualquer dos humanos que dela participam, e, no entanto, de tal sorte que no
fim o resultado se mostre adequado à intenção inicial, o corpo adequado à alma, o meio ao fim, a rede universal à
pesca universal que o Salvador propõe.

Para exprimir o caráter vivo, auto-evolutivo, e no entanto transcendente da nossa Igreja, reconhecendo que
ela pode formar-se sozinha, após assente que ela traz a Deus em si, poder-se-ia utilizar com o esplendor a palavra
familiar de La Fontaine:

O peixinho virá a ser grande

Desde que Deus lhe empreste a vida.

CAPÍTULO 4 - AS PRIMEIRAS CONQUISTAS

As primeiras conquistas da Igreja coincidem com o seu nascimento. Todo nascimento é uma conquista da
idéia vital sobre um meio sempre resistente por um lado, passivo por outro, socorredor também, mas com a
condição de que esse socorro seja socorrido, de que o germe ativo ajude a natureza a ajudá-lo, visto que toda vida é
uma permuta e gira em círculo.

Mais tarde, como o nascimento terá sido um crescimento começado, o crescimento não passará de um
nascimento continuado; as condições dele serão as mesmas.

Todavia, há diferenças acidentais que são interessantes de considerar. O estado nascente tem graças
particulares tanto em história religiosa como em química.

A primeira graça é uma atividade devoradora que se parece com a febre, e que é saúde ao máximo, de vez
que a nova vida corre para a existência plena como o nada correria para o ser, se soubesse a sua miséria infinita e a
divindade daquilo que é.

A criança cresce num mês mais do que crescerá depois em dez anos. A sua vida está toda tendida para
aquisições sem as quais ela mesma nunca existiria. É bem o nada que corre para o ser. Assim a Igreja tende para a
sua própria constituição por conquistas iniciais que em verdade são uma criação, tão relativos são esses termos
nascimento, começo ou crescimento, de que somos obrigados a servir-nos.
A Igreja, divina, começou em Deus desde a eternidade. Humana, começou desde sempre também, mas
desta vez o sempre do tempo, nisto que suas preparações remontam ao início da história do mundo.

Por ocasião do êxodo de Abraão, a Igreja começou de novo pela separação do seu germe hebraico.

Em Belém, começou na Pessoa por assim dizer única, que é corpo humano-divino.

A Paixão levou ao máximo a significação e a eficácia do fato, e nela a Igreja se renovou como o meio-dia
renova o dia. Por isto dizemos, na linguagem mística, que Cristo esposou a humanidade na cruz, dando assim
nascimento à Igreja.

Em Cesárea de Filipe, no momento da entrega dos poderes, mesmo antes, no dia da vocação dos Doze, e
mais tarde à beira do Lago, após a Ressurreição, no momento da Missão dos Apóstolos, a Igreja começou como
realidade social inserida na história.

No Cenáculo, ela foi confirmada nesse inicio pela descida do Espírito Santo e pelas graças de difusão
universal que a acompanham.

No concílio de Jerusalém, ela começou em razão de se haver distinguido nitidamente do judaísmo, o que
pudemos comparar à ruptura do cordão vital.

Em certo sentido, pode-se dizer que ela começa sempre, visto como é nova toda vida que acaba de sofrer
uma mudança, e visto como, humanamente, a Igreja muda sem cessar, sempre obrigada e intimada a retomar seus
destinos.

No ponto em que estamos, falando das primeiras conquistas, devemos dizer: a Igreja começa, nisto que
assimila elementos que contribuirão para estabelecer seus quadros completos, para formar seus órgãos. A este
respeito, o nosso estudo atual coincide com o precedente. Não pudemos falar de desenvolvimento sem subentender
o crescimento, e, falando de crescimento, veremos aí um desenvolvimento. Todavia, isto é outro estudo.

A primeira propaganda em favor da Igreja foi feita na Galiléia, pelo próprio Salvador. Poder-se-ia dizer que
ela redunda num fracasso, se fracasso foi haver colhido os Doze Apóstolos. Quando, no fim do ano, o lavrador colhe
apenas com que semear o seu campo para o ano seguinte, está triste; mas não perdeu seu tempo. O Salvador terá
assim enceleirado a sua semente, embora, mesmo mais tarde, depois do esforço dos obreiros evangélicos, o "Ai de
ti, Corozaim, ai de ti, Betsaida" e a sentença "Ninguém é profeta em sua terra" devam conservar seus efeitos.

Haverá cristãos da Samaria, cristãos da Judéia; não haverá comunidade galiléia, salvo os doze.

E é sempre o mesmo pensamento. Jesus não procurou ser bem sucedido por si mesmo. A sua ação pessoal
não parece ter para ele interesse especial, a não ser para preparar o futuro. O que os outros fizerem, será ele ainda
quem o fará; a sua ação histórica é mero germe.

Em Jerusalém, a situação é inteiramente outra. Após a hostilidade que os eventos da Paixão tragicamente
revelam, produz-se uma reviravolta popular que os relatos da Ressurreição explicam sem dificuldade. O fato
anunciado tivera lugar. O grande argumento que será o fundo da pregação apostólica sustenta-a desde o inicio.
Tornado a subir ao céu pelo seu poder, Jesus prova que de lá descera, e que portanto é ele quem tem as palavras de
vida eterna (Jô VI, 69).

Não que as oposições não se façam logo sentir; teremos de narrá-las; mas uma certa reserva das
autoridades poupa entretanto o jovem rebento evangélico, ainda fraco demais para a tempestade. Gamaliel dizia ao
Sinédrio: "Se essa obra vem dos homens, perecerá por si mesma; mas, se vem de Deus, não a podereis destruir" (At
V, 39). Não se podia raciocinar melhor, e o cristianismo aceitava-lhe o augúrio.
A difusão do Evangelho tem lugar primeiro "in loco", como as semeaduras que se produzem pela queda do
grão no solo. É um dos processos da natureza. Os insetos acrescentam a isso o seu papel de carregadores, e o vento,
por seu turno, dissemina. O vento, aqui, seria a perseguição, e as colaborações viajoras seriam as excursões
apostólicas.

"In loco", os meios de conquista ampla não faltavam. Jerusalém prestava-se muito a isso. Cidade de pouca
importância no mundo, de modo algum comparável a Éfeso, a Antioquia, e a fortiori a Roma, era admirável como
foco de propaganda judeu-cristã. Para poupar a transição e passar harmoniosamente da Judéia ao universo, como
do antigo ao novo Testamento, não havia nada melhor do que essa cidade a um tempo cosmopolita e judia.

Estamos lembrados de que a inscrição da cruz, documento administrativo, era redigida em três línguas, e
que isso significava, como hoje na Bélgica ou na Suíça, a divisão da população em vários grupos étnicos. A versão
hebraica dirigia-se à gente da terra que falava o hebraico ou o aramaico. O latim visava a guarnição romana, e a
colônia assaz numerosa que não podia deixar de cercá-la.

O grego convinha aos que chamamos de Helenistas, isto é, os judeus de origem que habitavam as colônias gregas do
Oriente: Síria, Egito, Acaia, Mesopotâmia, Capadócia, Ásia, Chipre, etc., onde quer que a dispersão lançara os filhos
de Israel.

Jerusalém era, com isso, uma cidade universitária e sacerdotal, toda de escolas e sinagogas, tendo por
potentados doutores e sacerdotes, por população principal devotos e peregrinos. A população fixa era de cerca de
setenta mil almas; mas, por ocasião das grandes festas, mais de um milhão de peregrinos acampavam na cidade ou
nos arredores, e depois, tornando a partir, difundiam ao longe, por toda parte, as idéias da cidade doutoral e o
perfume da cidade santa.

Essas condições eram excelentes. O Evangelho aproveitá-las-á largamente. Desde a sua primeira pregação,
Pedro conquista três mil almas. Após a cura do paralítico na porta Bela, os Atos computam cinco mil. O Salvador
tivera razão de dizer: "Aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e as fará maiores" (Jô XIV, 12). Os
lances de rede do nosso pescador de homens são verdadeiramente milagrosos.

É verdade que, em geral, é essa uma gente sem importância social, daqueles de quem os Sinedritas diziam:
"Quanto a este povo, que não conhece a lei, não passam de uns malditos". Mas esses amaldiçoados pelo formalismo
estagnado, pelo orgulho e pela presunção sabichona, é que serão os primeiros benditos do Evangelho eterno.

Eu já disse que não há nisso nenhum exclusivismo. Vê-lo-emos amplamente. Mas estréia-se, e, como o dirá
São Paulo com um orgulho às avessas que reserva ciosamente tudo ao céu, "Deus escolheu as coisas loucas do
mundo para confundir os sábios. Deus escolheu as coisas fracas do mundo para confundir os fortes. E Deus escolheu
as coisas vis do mundo, aquelas que se desprezam, aquelas que não são nada, para reduzir a nada aquelas que são, a
fim de que nenhuma carne se glorifique diante de Deus"i (I Co I, 27).

Desde esse momento, e em razão do que eu disse do caráter cosmopolita de Jerusalém, em razão da
perseguição de Estevão, que dispersa e que semeia ao longe os fiéis da Cidade Santa, em razão também do zelo
ardente que se manifesta por toda parte, nessa primavera espiritual da Igreja todas as regiões próximas, as
províncias da Arábia, da Síria, da Cilícia, da Galácia, da Capadócia, da Bitínia e do Ponto, da Ilíria e da Dalmácia, têm
em breve suas comunidades florescentes. Antioquia, em particular, torna-se como que uma nova metrópole, como
que uma Roma provisória.

Não está longe a Roma verdadeira. Quanto o cristianismo houver plantado nela a sua tenda, o seu proveito
novo e decisivo, será achar-se por esse fato no coração do mundo; ele terá apenas que seguir as pulsações deste,
terá, como ele, de lançar por todos os canais geográficos e administrativos secularmente preparados o seu sangue e
a sua alma. O Império está tão fortemente centralizado, estende-se a tão longe, que uma religião romana é
facilmente universal.
Seja-o! dir-se-á, e a história, sem se perturbar, completando esse vago esquema, salientando todas as circunstâncias
de fatos, de pessoas, de meios, explique-o, sem ir julgar-se obrigada a apelar para o "milagre".

Com efeito! Tomadas de um certo prisma, as nossas próprias observações precedentes e as que lhes vamos
aditar podem servir de argumento em favor do caráter natural, naturalíssimo em aparência, da difusão evangélica.

Onde quer que filhos de Israel vivessem longe da sua terra e longe do Templo, constituíam uma sinagoga.
Reuniam-se nela para o sábado; liam nela a Bíblia, que um dos assistentes comentava. Se algum estrangeiro notável
lá se achava, convidavam-no a dizer o seu pensamento a propósito do texto, diríamos hoje a fazer uma homilia ou a
pregar. Orava-se em comum, e em seguida as pessoas ocupavam-se dos negócios da comunidade local, dos negócios
espirituais primeiros, e depois dos outros.

Os apóstolos cristãos aproveitam-se mui simplesmente dessa organização. Sabem que a salvação vem dos
Judeus, como disse o Salvador, mas que sai deles. Chegando a uma terra nova, atacam-na pela sinagoga. Dirigem-se
à cerimônia do sábado; falam; começam por Moisés e terminam por Jesus, servindo-se, como degraus, das profecias
cada vez mais explícitas. O plano religioso do mundo faz o plano da sua pregação.

Achando a sua obra preparada pelo conhecimento do verdadeiro Deus, pelos símbolos da lei judaica e pelas
esperanças messiânicas, eles se apóiam nisso. Quando tornam a partir, infalivelmente uma pequena comunidade é
estabelecida, separada da judiaria local, tendo à sua frente, sob o governo longínquo deles, os presbíteros que eles
lhe colocaram à frente.

Os Helenistas assim convertidos dirigir-se-ão doravante não já somente aos seus iguais, mas aos pagãos, e o
método do Mestre terá sido obedecido: primeiro as ovelhas da casa de Israel, depois as ovelhas que não são deste
redil, mas que importa que sejam reconduzidas, a fim de que haja um só rebanho e um só pastor (MT X, 6; Jo X, 16).

Muitíssimas vezes, consideráveis são os grupos assim formados; por vezes também são exíguos: que
importa!. "Onde quer que haja trÊs, aí há uma Igreja", Dirá Tertuliano; ubi três, ibi Ecclesia. A grande idéia da
unidade em Cristo, da fraternidade que não teme as distâncias porque se coloca fora do espaço e do tempo, embora
prontinha a agir no espaço e no tempo, essa idéia solda uma cadeia que nada mais quebra. Os apóstolos entretém
nela o fluido por contatos tão freqüentes quanto possível. Quando preciso, suprem-nos as suas cartas; elas são atos
apostólicos e atos de governo.

Deste último ponto de vista, Jerusalém conserva a sua preeminência. A conquista não se torna anarquia. O
mais ardente dos missionários, Paulo, volta lá como que para se retemperar na fonte. Diz que quer estar seguro de
não haver pregado no ar, in vanum. E não é para os Doze coletivamente que ele se dirige, é para Pedro (Gl I, 18).

Especifica que só viu o próprio Tiago ocasionalmente; não viu nenhum outro; mas passou quinze dias com Pedro,
porque tem o sentimento de que lá é o centro da tradição, e de que já ele escreveria a fórmula lapidar: Ubi Petrus,
ibi Ecclesia; onde está Pedro, aí está a Igreja.

Assim iniciada, a conquista cristã não tem mais razão de parar até a conversão do mundo, suposto que esse
mundo de livres humanos consinta nisso. Não sucede com o fermento evangélico como sucede com um desses
poderes limitados, qual a alma humana, que organizam sua matéria própria e deixam a outros princípios o cuidado
de organizar alhures. A alma cristã é o Espírito de Cristo, Espírito universal, alma de toda alma, destinada a renovar,
a criar de novo toda criatura pensante que o quer realmente.

"Envia o teu Espírito, dissera o profeta, e eles serão criados, e renovarás a face da terra" (Sl CIII, 30).

Os primeiros apologistas tiveram a percepção desse esforço criador desde que, decorridos dois ou três
séculos, puderam olhar de longe e do alto a corrente de vida que se derramara sobre o mundo. E não era uma
imaginação. O crítico dos tempos modernos não pode senão entrar-lhes no sentimento. "A impressão que tiveram
os Padres do século IV, um Arnóbio, um Eusébio, um Agostinho, de que a fé se propagara de geração em geração
com incompreensível rapidez, essa impressão, escreve Harnack, ainda subsiste com justa razão.

Setenta anos após a formação em Antioquia da primeira comunidade de pagãos convertidos, Plínio descreve com as
expressões mais fortes a expansão do cristianismo na longínqua província de Bitínia, e já vê ameaçada, nessa região,
a existência dos outros cultos. Setenta anos mais tarde, a questão pascoal mostra-nos uma confederação das Igrejas
cristãs que se estende desde Lião até Edessa, e que tem seu centro em Roma.

Setenta anos mais, e o imperador Diocleciano declara preferir suportar um rival em Roma a suportar um
bispo cristão. Apenas setenta anos se passam, e a cruz é fixada nos estandartes romanos.

Estas palavras do grande crítico não significam que, no seu pensamento, a propagação da Igreja seja
propriamente milagrosa. O que realmente pretende é que, no final das contas, as coisas se passaram como deveriam
passar-se. Mas há aí um equivoco que talvez venhamos a dissipar dentro em pouco. Quando se fala em difusão
milagrosa do Evangelho, nem sempre se sabe bem exatamente o que se diz, e, quando ela é contestada em nome da
natureza das coisas, nem sempre fica sabendo isso melhor.

Por enquanto, consigno o fato. Desde o fim do primeiro século, o cristianismo está difundido por toda parte
no Oriente. Pelo fim do reinado de Marco Aurélio, aos cento e cinqüenta anos de idade aproximadamente, ele está
difundido em todo o Império: Gália, Espanha, Germânia, África, Egito, Eufrates, e além. "Somos apenas de ontem,
exclama Tertuliano, e já enchemos todo o vosso Império: as cidades, as ilhas, as praças fortes, os municípios, as
assembléias, os próprios acampamentos, as decúrias, o palácio, o senado, o fórum. Só vos deixamos os templos".
Este último dito não é sem ironia!

Pelo ano 170, um apologista pode afirmar que os cristãos são mais numerosos do que os Judeus. Cristo saiu
do seu presépio, e a sua Igreja sobrepuja a sinagoga. Enxertada numa minúscula história, a sua obra desde esse
momento fez ligação com a história universal.

O caráter dessa conquista, do ponto de vista social, é importante de notar. Logo no início, a conquista é
popular. Mui depressa torna-se uma conquista do escol, e, daí, parte um novo movimento de conquista popular,
para uma penetração mais completa da multidão, onde o paganismo local e doméstico resiste longo tempo.

Pode-se dizer que o escol do mundo civilizado se aliou ao cristianismo desde que o cristianismo foi
verdadeiramente conhecido, isto é, no início do século III. Até aí, ele permanecia enterrado sob os preconceitos; não
o olhavam, e nem ele mesmo nem seu Deus tinham feito coisa alguma para que o olhassem.

Cem anos após esse período, todos os grandes nomes da civilização eram cristãos. Eram nomes de bispos.
Chamavam-se Basílio, Gregório de Nazianzo, Gregório de Nissa, João Crisóstomo, Jerônimo, Ambrósio, Agostinho.
Era o triunfo intelectual, na persistência do triunfo popular.

Porém, é mais fácil reconduzir um gênio ou um coração simples, quando escutam, do que um inconsciente
entregue a rotinas e a superstições seculares. A massa propriamente dita está entregue À inconsciência. A sua
conquista lentamente obtida será, pois, a última obra; fechará o círculo de expansão. Religião dos simples; religião
do escol social; religião de todos: tais serão as etapas.

E o dilema subsiste: fatalidade histórica ou vontade providencial? Deus ou natureza?

Deus ou natureza, digo eu! Deus e natureza, talvez? Deus na natureza; Deus fazendo uma síntese do que
ele é e do que nós somos, para formar o que ele quer que sejamos?

Se tal fosse a solução, haveria aí ao mesmo tempo milagre e realíssima evolução histórica.

É o que vamos ver.


II

No momento em que o Evangelho se propunha ao mundo civilizado, o meio greco-romano tinha saído da
crise de livre pensamento que sofrera havia dois séculos. Augusto acreditara concorrer para isso poderosamente;
mas a sua ação oficial quase não havia provocado - diretamente pelo menos - senão hipocrisias e literatura banal.
Esnobismo religioso e culto político ou administrativo, era tudo o que podia sair de uma iniciativa demasiado
interesseira para ter uma ação profunda.

Entretanto, enquanto Jesus pregava nas margens do Lago, enquanto São Paulo vinha perorar no Areópago,
produzia-se uma imensa efervescência religiosa. Aquilo a que se chamou o sincretismo, amálgama de doutrinas em
que se uniam o Oriente e o Ocidente, atingia seu auge. Havendo a filosofia provado o seu vazio, e ainda não estando
proclamada a grande plenitude, o homem enganava a sua fome com os cultos de Ísis, de Baco-Dionísios, ou da
Grande Mãe, com os passes de Simão o Mago,ou de Apolônio de Tiana, e com as adivinhações caldaicas ou as
feitiçarias tessalonicenses.

Valia isso mais do que o livre pensamento? Sim e não. Isso se passava mais em baixo, e a este título valia
menos. Mas isso também era mais humilde e valia mais porque fechava menos os caminhos do que o orgulho
suficiente do racionalista. "É bom ser cansado e fatigado pela inútil procura do verdadeiro bem, escreveu Pascal, a
fim de estender os braços ao libertador".

O gênero humano fatigava-se assim em vãs procuras que tinham ao menos a vantagem de deixar o
problema formulado, em vez de supô-lo resolvido pela negativa. Nessa efervescência, os ritos sublimes e as práticas
obscenas misturavam-se; a exploração impudente e o devotamento profundo, o misticismo contemplativo e o
charlatanismo caricato vizinhavam: "Quem quer morrer a si a fim de renascer?", dizia o sacerdote de Ísis. "Quem
quer saber o dia da morte do seu proprietário?" clamava aos escravos descontentes o astrólogo caldeu.

Morta a religião oficial, morto o diletantismo cicerônico, morto o epicurismo, procurava-se outra coisa. Os
homens apaixonavam-se e extraviavam-se. Lançavam-se a fundo, com o inconveniente apenas de soçobrarem na
alucinação, no ridículo ou no vício "soi-disant" religioso.

A razão desse movimento parece dupla. Razão negativa: a usura "sur place" do livre pensamento, que
nunca vai longe. Razão positiva: a chegada profusa de todos os cultos do universo ao ponto em que a civilização
greco-romana se ostenta. O Império fortemente centralizador, auxiliado por meios de comunicação até então
desconhecidos, faz do meio mediterrâneo uma cuba onde tudo se precipita para fermentar.

Os cultos de outrora eram estritamente locais; a pátria e a religião confundiam-se: volta-se atrás dessa
estreiteza, e consente-se em alargar paralelamente as concepções temporais e os pensamentos religiosos. Ao
mesmo tempo que Roma deixa de ser propriedade exclusiva dos Romanos, com maioria de razão deixa Júpter
Optimus Maximus; com maior razão ainda, segundo as idéias do tempo, Zeus para os Helenos ou os Baals para os
Sírios. A religião universal vai aproveitar esse espírito acolhedor.

O mesmo sucederá com a religião íntima constituída igualmente pelo Reino de Deus, ou religião do coração.
A política dos Imperadores desgostou da vida pública dos cidadãos. Quase já não há, para se envolverem nela, senão
os arrivistas e os criados rasteiros. As almas nobres procuram onde refugiar-se; mas que outro refúgio têm elas
probabilidade de encontrar senão elas mesmas, único asilo, numa sociedade fora dos eixos, para quem deveras
deseja viver?

Mas aí, no seu coração que ele escuta bater, o homem desanimado do exterior arrisca-se a só ouvir soar o
vácuo. Se o divertimento, no sentido de Pascal, lhe é vedado por um meio hostil ou nulo, que poderá realmente
achar na vida interior uma alma profunda, na ausência de alimento que a possa sustentar?
O pessimismo lá está pertinho. O taedium vitae, o tédio de viver, é a doença desse tempo. Os próprios
moralistas incitam a ela pelas suas declamações desiludidas e pela ostentação do seu pesar. Os suicídios
multiplicam-se. Tal é o termo das soberbas doutrinas que haviam ensinado a contentar-se consigo e achar a
felicidade nos bens que nascem de si. "Ut sis contentus temetipso et ex te nascentibus bonis", escrevia Sêneca antes
de abrir as veias.

Sobre o que, Pascal, verificando que esses pensadores acabam por aconselhar, em palavras ou em fato, àqueles a
quem este mundo não contenta, deixarem-no sem trombeta., escreve com a sua ironia cruel: "Oh! Que vida feliz, de
que a gente se livra como da peste!".

Procura-se, pois. O "si forte attrectent eum,, se se pudesse atingir a Deus!" assume em muitos uma
significação trágica, e na massa um sentido que raramente tivera no curso da história, se jamais o tivera. Na paz e na
prosperidade romanas germina o sentimento de que nada basta, e procura-se levantar o tampo azul sob o qual a
frágil humanidade se consome de insuficiência, desde que as necessidades da vida e a febre de agir já não a
angustiam mais.

"Oh! Se os céus pudessem abrir-se!" exclamara Platão. O mundo grita também. Grita como um surdo, e é
bem o caso de dizê-lo; porque mesmo o que de Deus se ouve só na consciência, ele o ouve mal; São Paulo censurar-
lho-á com dureza. Mas o que o ouvido do homem não ouviu (I Co II, 9), isto é, o dom de Deus secreto e livre, se ele
podia ainda menos ouvi-lo, não deixava de esperá-lo sem o saber.

Quando ele se elevava a meia altura para o Olimpo, não achava aí senão divindades decorativas, ou vícios
personificados, ou então Imperadores, dos quais alguns se chamavam Calígula ou Nero. Havia razão de fugir para
longe dessa região pretensamente etérea, porém na realidade mais baixa o que a outra. Quem abriria o largo do céu
para a descida de Deus e para a subida das almas?

Compreende-se o efeito que numa sociedade assim feita devia produzir o Padre Nosso que estais no Céu, e
também a pregação de um Deus humano ao mesmo tempo que transcendente, como Cristo, de uma doutrina de
pureza, de generosidade e de amor com o Evangelho. Uma terra que tinha tamanha sede devia beber avidamente o
orvalho divino da cruz. Os largos gritos que dela desciam achariam um eco bastante largo também para abalar
poderosamente todas as almas. Não se haveria de rir disso como se ria de Juno confusa ou de Baco ébrio.

O fracasso do sincretismo redundou duplamente no triunfo do cristianismo: pelas suas insuficiências morais
ou racionais, e pelos seus bons lados, que eram uma preparação. O lado mau foi perder-se na heresia e desvaneceu-
se por si mesmo.

Em suma, tal como era, esse meio compósito foi para o desenvolvimento do cristianismo nascente o que foi
o meio úmido e quente da época carbonífera, pai das gramíneas gigantescas.

Ao que, de novo nos dizem: Pois bem! Então está tudo explicado, e não há aí milagre.

Mas a tal observação muito há que dizer.

Mostrei o cristianismo abrindo a sua carreira à maneira da criança, que cresce em algumas semanas, dizia
eu, como mais tarde não o saberá fazer em dez anos.

Mas, se a criança assim cresce, é porque há nela alguma coisa; há esse não sei quê que uma palavra vazia recobre: a
vida! Que é então a vida? Não sei, mas o que bem sei é que, para explicar o crescimento da criança, não basta me
dizerem que há à volta dela tudo o que é preciso para crescer, que a temperatura é boa, o meio é são; que ao lado
há uma ama, há leite, pão, um assoalho livre para ela ensaiar os primeiros passos, e em seguida todas as estradas
abertas para ela correr.
A vida é uma assimilação a partir de um germe, e o germe, o germe caracterizado, definido, ativo numa linha dada,
evolutivo segundo uma certa fórmula, e já contendo na sua definição o essencial daquilo que ele deve vir a ser, isto é
que é a explicação verdadeira.

Se o cristianismo não tivesse achado todas as condições necessárias ao seu desenvolvimento, não se teria
desenvolvido, e é por isso, aliás, que Deus lhe prepara essas condições; provê a elas pelo curso ordinário dos fatos,
sem que haja ainda aí que falar de milagre. É uma providência, eis tudo. Mas, houvesse Deus assim disposto tudo,
ou, para falar uma linguagem profana, houvesse a história fornecido o meio ideal de um tal desabrochar, restaria
ainda achar e definir o germe de vida.

Que é essa força invisível que une o grupo de barqueiros, que lhes anima a palavra e dá a esta uma eficácia
sobre-humana? Que é essa chama que corre no colmo, consoante a comparação do Salmista, e que provoca um
incêndio maravilhoso? A humanidade era uma lenha seca? Bem! Mas, se sobre a lenha seca lançais apenas outra
lenha seca, isso se amontoa; se lhe lançais água, ela apodrece. Onde está aqui o fogo?

"Forçoso era que algo se houvesse passado", diz Claudel. Forçoso é também que algo se passe ainda, que
alguma coisa de efetivo subsista, uma sobrevivência real, coisa diversa de um passado extinto, que, por mais
formidável que fosse, apesar de tudo interessaria apenas a memória, e por si só não explicaria aquilo que, pense-se
o que se pensar, se deve realmente chamar um soerguimento do gênero humano.

Concedemos tudo quanto a Igreja achava de socorros no seu meio de desabrochamento; mas esses
socorros eram passivos, se assim posso dizer, e bem longe, ainda, que ela só achasse socorros.

O cristianismo tinha contra si uma multidão de obstáculos: suas humildes origens humanas; suas ligações
com o judaísmo, facilmente desprezado pelos pagãos; a sua pregação da cruz, que era ridícula a um ponto
impossível de nos representarmos hoje. O patíbulo divino está, para nós, cercado de uma auréola; então ele era o vil
pelourinho, reservado aos malfeitores de baixa extração e aos escravos.

O exclusivismo insolente de que a nova religião dava prova amotinava contra ela não somente as religiões
oficiais ou públicas, mas também, o que era muito mais grave do ponto de vista da sua penetração das massas, as
pequenas religiões locais e os cultos íntimos cuja ação tenaz da vida privada daquela época as lousas funerárias e os
papiros mágicos nos revelam.

Questões econômicas juntavam-se aqui ao obstáculo religioso. Os cleros de toda natureza, os estatuários,
os ourives, que formavam uma corporação poderosa, tal como São Paulo perceberá em Éfeso, todos os
comerciantes e artífices que viviam do paganismo deviam resistir com a cólera do interesse ameaçado ou com a
aspereza da fome. Sabemos até onde vão semelhante resistências.

Não faltarão as perseguições, que no fundo serão úteis, porque suscitarão os altos entusiasmos de que
falei; mas, quando os entusiasmos são a tal preço e tão numerosos, seria fácil demais considerá-los como
simplíssimos. Vemos nisso um milagre de graça, e o objetante sincero não dirá facilmente o que nisso vê. É certo, em
todo caso, que as perseguições deterão no limiar muitos hesitantes. Os heróis não são multidão.

E, acima de tudo, a perseguição interior que a verdade move contra os instintos desviados, contra as tendências
desenfreadas por um longo relaxamento moral, tem o perigo de afugentar aqueles que mais necessário é atrair, de
fazer fracassar aquilo que é mais capaz de ter êxito.

É esse sempre o grande obstáculo. Será esse o obstáculo eterno. A Igreja tem vivido em todos os tempos no
meio das contradições, e, no fundo, não é outra coisa; e por essa razão, as contradições dos seus primórdios devem
ter sido tanto maiores quanto ela como nunca ameaçava e ainda não adquirira com que se defender.
O cristianismo, poder-se-ia dizer, tinha contra si aquilo mesmo que tinha a seu favor, porquanto o seu valor
sem par não podia utilizar-se senão à custa de sacrifícios, de renúncias que o estado geral da natureza humana, e
mais ainda as circunstâncias do seu próprio inicio, queriam heróicas.

A Igreja conseguiu tudo isso, por quê? Porque, se os seus destinos pareciam assim circunvalados numa
contradição inelutável, exigindo a sua grandeza o impossível, e anulando-lhe esta impossibilidade praticamente a
grandeza, havia no circulo fatal um corte; o elo tinha um engaste. O divino inseria-se nas aparências humanas
contraditórias, e Deus sabe conciliar tudo, tornando possível, pela sua presença nas almas, o que impossível seria em
razão da sua presença demasiado exigente nos fatos.

A transcendência do objeto é aqui vencida pela transcendência do sujeito embebido de Deus. E dupla será a
efusão do Espírito anunciado por Cristo: na Igreja, para torná-la divina e por conseguinte humanamente inacessível
tanto quanto útil, tanto quanto atraente; fora da Igreja, para vencer amorosamente o coração dos predestinados,
homens ou povos, e pô-los ao nível daquilo que salva.

Sem a sua graça imanente, a Igreja não seria o que é, inaceitável humanamente tanto quanto indispensável.
Sem a graça imanente às almas sobre as quais ela age a Igreja debalde seria o que é, visto que não aceitariam.

De sorte que o milagre aqui - pois em verdade há milagre - é aquele que Santo Agostinho fala quando diz: A
conversão de um pecador é coisa mais difícil do que a ressurreição de um morto. E esse milagre é duplo na sua
unidade, interior e exterior à Igreja. Do milagre exterior à Igreja, interior às almas e que as dispõe para o Evangelho,
dissemos o que dele pode exprimir-se, e é no fundo o segredo de cada consciência. Do milagre interior da Igreja, que
faz da Igreja um objeto divino, há sinais que não escaparam aos homens daquele tempo.

Eles valem sempre; mas nós estamos acostumados com eles e temos outros obstáculos; eles, os homens daquele
tempo, tinham o olhar novo, e, em vez de obstáculos, tinham atrações. Por isso foram impressionados até se
renderem.

Primeiramente a doutrina, a que poderíamos chamar um milagre de luz, tanto a sua coerência e a sua
adaptação a todos os casos humanos bastam para lhe fazer a prova. Admiravelmente rica, ela pode resumir-se em
algumas palavras quanto ao essencial; a salvação em Deus Pai, por Cristo mediador, conjunta e eternamente.
Misturada ao humano, ela é capaz de renová-lo a fundo, confirmando-o com a sua autoridade e engrandecendo-o
infinitamente com o seu contributo. Ela está ao alcance de todos; os pardais podem beber nela e os elefantes
banhar-se, dirá Gregório Magno.

Síntese de vida, ela entra em relação fecundante com tudo. Atrai e retém por toda sorte de razões. O sábio vem a ela
por causa dos seus arcanos, o simples por causa da sua lucidez; o autoritário por causa das leis que ela dita, e a alma
mística porque ela excede toda a lei.

Como quer que a loucura da pregação, como diz Paulo (I Co I, 21), e a sabedoria de Deus que a ela se
mistura, abordem a alma por diferentes lados, em ambos os casos Deus se fará reconhecer a ela.

O universalismo que atribuímos ao Evangelho e que faz dele uma religião primitiva restaurada, um judaísmo
aperfeiçoado e uma religião inteiramente nova, dará a impressão de que ele julga a história universal, a contém e a
explica, o que é a verdade. Os grandes espíritos acharão nessa consciência universal, tornada consciência cristã, uma
suma atração.

Aliás, por si mesmo se concebe que, se a doutrina atrai, é sobretudo na medida em que se encarna nos
fatos. Filosofias, têm-se visto tantas! Bem se querem ver outras ainda; mas depois de examiná-las curiosamente,
torna-se a colocar o "bibelot" na sua vitrine.

A vida! A vida! Eis o que converte. É a força interior do Espírito; é a corrente divina, que, passando, arrasta o
que lhe é semelhante. Aquele que pode dizer: "Para mim, viver é Cristo" (Fp I, 21), esse conduz os homens a Cristo. A
verdade irradia na virtude. Ora, a Igreja, nesse momento, mostra bastante virtude para deslumbrar as consciências
mais exigentes.

Notável é que os próprios apologistas não sejam convertidos pelas apologias dos seus antecessores, mas
pela vida cristã que se lhes impõe à consciência. Uma vez cristãos, eles fazem o que sabem fazer e explicam o porquê
daquilo que os conquistou; mas o fervor que eles põem nisso e a sua própria participação na vida religiosa que
pregam têm mais influência do que os seus dizeres. Há nisto uma lição para os modernos apologistas.

A constância dos mártires parece ter sido o argumento mais empolgante dessa graça imanente da Igreja. A
serenidade deles diante da dor, por causa do que eles tinham sob o olhar interior e do que diziam ter no coração,
impressionava infinitamente as almas religiosas.

A vida com Deus era, pois, uma realidade? Podia fazer superabundar de alegria no meio das tribulações (2Co VII, 4)?
Eternizando o mesquinho ser humano, dava ela então razão àquele que dizia: "A nossa vida é no céu, conversatio
nostra in coelis" (Fp III, 20)? E, nessas condições, a própria morte podia ser então um ganho: "e mori lucrum" (Fp I
21)? Marco Aurélio, o filósofo, não compreendeu nada disso; talvez o trono o afastasse demais da humilde vida
nova; porém os que viam de perto, ou que não tinham os olhos vendados por um sistema, compreenderam.

A vida com Deus tinha, nos primeiros cristãos, um reflexo que não podia deixar de ferir os olhares. Viver
com Deus era para eles viver juntos em Deus. Ora, num mundo em que mais do que nunca se podia dizer: o homem
é um lobo para o homem, homo homini lúpus, esta vida em comum na caridade não demonstrava uma irrupção do
céu na terra? "Eles se amam quase antes de se conhecerem", dizia o pagão Cecílio. Sem dúvida! As pessoas se
conhecem antecipadamente quando habitam em Deus por Cristo. "O fundador deles, escrevia Luciano, meteu-lhes
na cabeça que eles são todos irmãos.

Zombava disso, e de que era que ele não zombava? Mas outros sentiam essa imantação e agregavam-se à vida
divina.

Tanto mais quanto essa caridade cristã não era puramente sentimental; era organizada; era uma vida em
comum que criava todas as virtudes sociais, e antes de tudo a virtude social por excelência: a justiça. A justiça das
palavras, justiça dos contratos, justiça das relações domésticas, políticas ou econômicas, era esse o tronco no qual
florescia isso que correntemente chamamos caridade. Sustento das viúvas e dos órfãos, cuidado dos doentes,
socorro aos indigentes, visita dos prisioneiros, hospitalização dos viajantes, sepultura dos mortos, vinham em
supererrogação e constituíam uma espécie de culto estreitamente entremeado ao culto.

"Os doentes são o tesouro da Igreja", dizia São Lourenço. Os pagãos desviados não eram desta opinião; mas "a alma
naturalmente cristã" era, e reconhecia sua pátria naquela reunião de irmãos.

Quanto aos políticos clarividentes, estes também poderiam ter visto, naquele grupinho nascente, o início
evidentíssimo de uma ordem social nova. Por pouco que irradiasse nas instituições do futuro, a justiça fraterna não
podia deixar de fazer fundir, no fogo da caridade, assim os grilhões dos oprimidos como os cetros brutais dos
sátrapas.

A nova religião limitava os poderes do Estado erguendo diante dele a consciência, isto é, o indivíduo, isto é,
o Direito do homem. Atacava a escravidão: coisa impressionante entre todas, impressionante sobretudo ao olhar do
homem moral, porque procedia moralmente, abordando o social pela raiz, sem nenhuma revolução destrutiva, sem
sequer formular a questão teoricamente, contente de inserir nos corações o princípio da sua solução. Era o Febo
divino que triunfaria de Bóreas, o vento das palavras ou o furação das violências.

Pode-se fazer notar que a atração exercida pela nova doutrina, em razão da sua beneficência, sobre as
mulheres e os escravos, ajudou muito a sua propagação. A influência moral da mulher é imensa, uma vez assegurado
o seu devotamento efetivo, e os escravos preceptores muito podiam para cristianizar as novas gerações.
Da ordem social nova assim engrenada, as comunidades cristãs, onde o espiritual se misturava ao temporal
ainda não diferenciado, já ofereciam um esboço. As cristandades funcionavam como pequenos Estados, ao mesmo
tempo que como famílias, como tribunais, como agências de colocação, sindicatos, caixas de socorros. Permutavam,
de uma religião a outra, as notícias e os bons ofícios, os conselhos fraternais e, se preciso, as admoestações. Nelas a
autoridade não passava de um serviço, as classes de um sistema de degraus para derramar sem abalo aos bens
comuns, que só eram propriedade do céu.

Em suma, tanto quanto o permite a fragilidade humana - pois havia aí misérias - realizava-se essa
divinização da vida que é a essência do Evangelho. E os pagãos, acostumados às belas máximas abandonadas
(Probitas laudatur et alget, dizia Juvenal, a virtude é louvada e enregela-se) estavam estupefatos. E os que, dentre
eles, aguardavam o reino de Deus, como o velho Simeão, acorriam.

Lacordaire escreveu: "A humanidade crê em Deus porque o vê agir". Tal é a explicação literal da conquista
religiosa de nossos pais. Acrescentando, entretanto, que eles não teriam crido em Deus a agir fora, se, com o seu
consentimento, Deus não houvesse agido neles. Mas Deus agia em toda parte. Decidira renovar a face da terra. E
nesse milagre de Deus difundido absolutamente não se opõe ao caráter humano, e à continuidade histórica da sua
obra.

Esses bons críticos que, no intuito de afastarem aqui o milagre, procuram razões humanas, e as acham, não
desconfiam até que ponto são pouco filósofos. É certo que, pesado tudo, a Igreja devia desenvolver-se como fez, e
isso por motivos observáveis. Porém o observável às vezes tem fontes que não o são, e que, não fazendo parte do
complexo das causas naturais, invocam uma causa sobrenatural.

Se se dissesse: um homem desarmado, em face de um leão, deve ser devorado pelo leão, exprimir-se-ia
uma coisa simplíssima. Mas isso não serviria para provar que o leão é miraculosamente forte em relação ao homem?
Ora, esse miraculosamente, que aqui não passa de uma metáfora, para o cristianismo era uma realidade. O mundo
greco-romano, em face da Igreja, devia ser conquistado pela Igreja; era fatal; mas por quê? Porque a Igreja, em
relação a ele, era uma força irresistível.

É nessa força que, aos nossos olhos, reside o milagre, porque, conhecendo pela experiência de todos os tempos a
força do homem, nós nos dizemos: é uma força de Deus.

O milagre não consiste em não sei que manejo dos acontecimentos por alguma mão exterior. Aqui não há
nada de exterior, mesmo que fosse Deus; porquanto o próprio Deus está dentro. O seu Espírito é que é a alma da
Igreja, e esse Espírito é bastante poderoso para vencer o mundo, que ele penetra igualmente, e que livremente
aciona. "Tende confiança, dissera o Salvador, eu venci o mundo" (Jô XVI, 33). Mas esse poder, como todo poder
anímico, exerce-se por dentro; dentro da Igreja, dentro das almas, e utilizando, não fazendo senão orientar, o que as
almas e o mundo apresentam de recursos.

Há nisso o mesmo qüiproquó que na oposição do vitalismo e da interpretação físico-química dos elementos
vitais. O vitalismo diz: "Há uma força vital que dirige, contém e, se preciso, combate as forças físico-químicas". E o
sábio responde: Não conheço essa força; toda ação ou reação orgânica é mensurável, e depende da observação
físico-química. Um filósofo intervém e diz: É verdade; no corpo há física e química, a título executivo; mas a
finalidade orgânica vem-lhe da alma.

O milagre do organismo animado é que ele utiliza tudo, até mesmo o que parece estranho ou hostil, para
realizar a sua idéia diretora. Mister se faz apenas que ele seja bastante forte, do contrário aquilo que poderia nutri-lo
o mata. Ora, nada matou a Igreja; tudo lhe serviu. Mas, se nada a matou, a razão disso não está numa proteção
exterior - salvo os milagres particulares, que não se trata de negar; mas falamos do conjunto. - E o que lhe serviu não
sérvio em razão de piparotes exteriores.

A verdade é que o Espírito de Cristo, vivendo nela, imprimia aos seus elementos humanos uma direção e uma
impulsão vital capazes de vencer as hostilidades do meio, de captar as forças úteis, de animar os elementos neutros,
e dessarte, de incorporar a si o mundo. É um milagre isso; é o milagre da vida, e, na espécie, o milagre de uma vida
divina.

A Encarnação, que criou o gênero humano-divino; o Espírito de Deus, que penetra o Cristo homem, e por
ele o núcleo primitivo da Igreja; esse mesmo Espírito que pela graça trabalha a matéria exterior a assimilar, e que,
circulando do sujeito ao objeto, do objeto ao sujeito, dá testemunho a si próprio e serve a si mesmo: tal é o milagre.

Para assimilar o mundo e a vida, ao menos tanto quanto eles a isso queriam prestar-se, era preciso um
germe igual ao mundo e à vida; era preciso o Homem universal: Cristo; e o Homem universal só é universal pelo
Espírito que o penetra e que é o Espírito universal: o Espírito Santo.

As profundezas do homem e da vida do homem, assim como a amplitude do espaço e do tempo que os
mede, não podiam ser envolvidas e conquistadas pela Igreja senão com a cumplicidade, digamos melhor, pelo
trabalho do eterno, universal e supremo vivente: Deus.

CAPÍTULO 5 - A IGREJA E AS CIVILIZAÇÕES ANTERIORES

Se é verdade que Cristo é o centro e não o começo da história cristã; que tudo gravita em torno dEle - o
passado para prepará-lo, o presente para recebê-lo, o futuro para utilizá-lo; de tal sorte que a obra inteira seja sem
corte, realizando a palavra de São Paulo: "Tudo é para os eleitos", - se esse plano religioso do mundo é o verdadeiro,
manifesta é a consequência. Cristo deverá vir no momento em que mais necessidade se tem dele e em que dele
mais se pode aproveitar.

Isso supõe que a sua época será ao mesmo tempo rica e pobre: rica em recursos e pobre em realizações;
pobre também em esperança, se fosse abandonada a si mesma. E isso dá a prever que a obra cristã consistirá, não
em desdenhar o passado, desdenhando-se de si mesma, visto como ela reina sobre o passado tanto como sobre o
presente e sobre o futuro, - e tão pouco em copiar o passado, em subordinar-se a ele, em servi-lo, o que seria uma
inversão dos papéis; mas em fazê-lo realizar seu fim.

Para isso, deverá ela apoiar nele a sua obra histórica assim como, para crescer, o vivente se nutre daquilo que o solo
produz. Não se há de esquecer, aliás, que andar é repelir para trás o solo em que a gente se apoia, e que nutrir-se é
destruir o alimento enriquecendo-se da sua substância.

Esta concepção a priori precisa ser confrontada com os fatos, para se ver, primeiro, se os fatos a
comprovam; e, em seguida, como.

Foi de moda, outrora, ver em Cristo e nos primeiros obreiros da sua obra não sei que iniciados que, quais
abelhas diligentes, teriam recolhido o suco das tradições, o pólen das organizações anteriores, para com eles
sabiamente comporem esta cera e este mel: a Igreja e o Evangelho. Toda originalidade e toda transcendência seriam
assim recusadas à religião de Jesus; ela seria um ensaio de sistematização partindo de dados adquiridos; não seria
mais a Boa Nova, o Dom de Deus. Já não haveria "milagre".

Assim tal qual, esta concepção está morta hoje em dia; nenhum crítico, por pouco sério que seja, ousaria
sustentá-la. Tudo nos demonstra que os primeiros obreiros do Evangelho foram estranhos à cultura que semelhante
ecletismo suporia; que de modo algum pensaram nisso.

Ao próprio Jesus os puros críticos não emprestam, tão pouco, essas intenções, que destoam de tudo o que
se sabe dele. Quanto a nós, é evidente que ainda muito menos dispostos estamos a semelhante atitude. Sabemos
que não foi assim, por fora, adventiciamente ou por colheita de elementos estrangeiros, que Jesus se propôs compor
sua obra; foi por dentro, pelos meios da vida, e a partir de um germe divino.
Esse germe, que ele trazia, é o seu Espírito, cuja comunicação é simultaneamente intelectual, pelo dogma, e
prática, sob a forma de sentimentos, de moções, de meios essenciais de ação. Tal era a alma do seu grupo. Isso é
que era o "vinho novo", que, dizia ele, não se devia conservar em odres velhos. Por essa expressão, ele mostrava
bem a que ponto era estranho às vistas do ecletismo.

Fazia coisa inteiramente nova, que era ao mesmo tempo coisa eterna, nisto que todo o passado colaborara nela a
titulo de preparação, nisto que todo o presente devia servir-lhe de meio nutriente e todo o futuro de matéria para
seus progressos. Nunca seria de mais repetir estas coisas.

Portanto, se há semelhanças - e as há numerosas - entre a religião de Jesus e as religiões do passado, não é


por empréstimos que cumpre explicá-las primeiro, é por esta consideração simplíssima: que as religiões antigas
foram criadas pelo instinto para corresponderem às necessidades do homem, às suas aspirações e às suas reflexões
em face do destino.

Na medida em que instintos, aspirações ou juízos estavam desviados, as antigas religiões foram também desviadas, e
uma religião divina, como o cristianismo não devia assemelhar-se a elas; mas onde quer que as necessidades fossem
reais, que as aspirações fossem legítimas e as reflexões sensatas, as religiões concluíam acertadamente, e a religião
definitiva devia assemelhar-se-lhes nisso, embora excedendo-as, visto como as suas reflexões, hauridas de lá de
cima, transcendem a amplitude sempre limitada de um olhar de homem.

É preciso capacitar-se de que, em religião, o divino é precisamente o mais humano, não tendo a religião
outro papel senão rematar a vida do homem, mesmo quando a excede. O divino autêntico deve, pois, coincidir
parcialmente com o humano autêntico, e isso não será um empréstimo, mas um encontro, motivado por um mesmo
ponto de partida e por uma finalidade comum.

Deus dá o pão supersubstancial; os homens procuram fabricar o outro, e nem sempre têm falhado na sua
fabricação. Deus dá a água que jorra até a vida eterna; mas já havia outras águas. Os que bebiam delas ainda tinham
sede; ver-se-á bem isto pela solicitude deles quando jorrar a fonte divina; porém, mesmo assim, eles tinham achado
nelas refrigério.

Destarte se explicam os traços comuns que com tanto comprazimento têm sido salientados - no intuito de
fazer deles objeções - entre o cristianismo e o budismo, as religiões persas, gregas, Roma,as, etc., como se não fosse
um elogio, em relação a uma religião que se pretende sem lacuna, o dizer-lhe: Não esquecestes este e aquele valor
descoberto antes de vós por outras religiões. Chamem ao cristianismo, tanto quanto quiserem, "um microcosmo
religioso"! É um grande louvor.

Todavia, historicamente esta resposta não é suficiente; pois não negamos que tenha havido empréstimos
essenciais, empréstimos destinados a constituírem a religião, ao invés de servi-la. Por isto teremos de tornar à
questão das utilizações do paganismo pela religião cristã. Mas, por enquanto, temos de repetir uma segunda forma
da opinião, que faz do cristianismo um fruto natural do passado e do presente religioso a que sucedeu.

Muitos, com efeito, afastando os disparates que fariam de Cristo e dos apóstolos uns ajuntadores de
noções e de devoções esparsas, nem por isso deixam de dizer que, para se formar, a Igreja herdou - apenas sem o
saber, e sem o saberem os seus iniciadores - aquilo que aquela época compósita, cuja fisionomia exata tentamos dar
mais acima, continha.

O cristianismo não passaria de um dos movimentos espontâneos de renascimento religioso que se


ensaiavam no tempo de Jesus, e Jesus não teria feito senão determinar a cristalização num certo ponto, em certas
formas, formas que aliás se alteraram, ao que dizem, pela influência dos cultos que não tinham sido bem sucedidos
no mesmo esforço, e que ele entendia de suplantar.

Esta teoria tem por si os traços comuns que aproximam o cristianismo dos estados de espírito reinantes no
momento em que ele nasceu, e das doutrinas ou dos ritos próprios às religiões ambiente. É assim que o
universalismo e a interioridade, que figuram entre os sinais mais característicos do cristianismo, já se fazem
adivinhar no sincretismo, que representa o meio imediato em que a Igreja teve de se formar.

Basta, porém, olhar nisso para verificar que essas tendências, se podiam servir para preparar as almas, de
modo algum podiam, por si mesma, sugerir-lhes os pontos de vistas cristãos, porque destes àqueles há um abismo.

Bem verdade é que no tempo de Jesus os cultos outrora locais tendem a universalizar-se. Parecem agora
abertos a todos. São-no realmente, salvo o mitraísmo. Mas é somente pelo seu lado exterior, o lado menos religioso;
poder-se-ia dizer nada religioso; porque o exterior nada é, se não manifesta uma alma.

As bacanais, as procissões delirantes da Grande Mãe, em que os eunucos triunfam entregando-se a transes
de epilépticos: eis o que se franqueia a todos. Desde que se trata da vida interior, mística e verdadeiramente moral,
recai-se na estreiteza da iniciação. Considera-se como ímpia uma manifestação comum da doutrina e dos divinos
arcanos. O número é uma profanação. O exclusivismo faz parte das alegrias do iniciado, neste mundo e no outro.

Os partidários da mentepsicose, pouco numerosos relativamente, ainda têm esta pálida desculpa de só
desprezarem a multidão provisoriamente; ela renascera mais perto de nós, se disto for digna, e subirá algum dia ao
Olimpo onde as nossas alegrias estão bem próximas. Mas os que terminam na morte o ciclo das preparações
religiosas não se mostram lá muito universalistas, quando dizem equivalentemente: Que se arranje a multidão
humana!

Aproximei isso destas grandes palavras: "Ide e ensinai todas as nações, ensinando-lhes tudo o que eu vos
mandei"; "Não se acende a lâmpada para escondê-la debaixo do alqueire"; "Não há nada oculto que não deva ser
manifestado"; "O que eu vos digo ao ouvido, pregai-o de cima dos telhados": e verificareis a diferença.

Correlatamente, a tendência universalista do sincretismo comportava uma tendência para a interioridade,


tendência que as religiões políticas das épocas anteriores desprezavam. Neste sentido, havia grande progresso. A
salvação do Estado cedendo à preocupação da salvação da alma; o indivíduo imortal suspeitando o seu valor e, a
despeito de monstruosas aberrações, elevando-se à ideia de sacrifício: aí já era o excelente. Os mistérios
assinalavam esse estado novo da opinião religiosa. Mas julgai de perto essas manifestações, e capacitar-vos-eis da
ilusão que haveria em aproximá-las da vida interior tal como compreendeu o misticismo cristão.

A aparência de certos termos pode enganar; a realidade é muito menos nobre.

Que é que se pede ao iniciado para participar dos favores místicos? A pureza, o que poderia fazer crer por
isto se entende o que o Evangelho entenderia. Mas, lendo melhor, percebe-se que se trata de coisa inteiramente
diferente. Em matéria de pureza, pede-se-vos não serdes nem "ímpio", nem "celerado"; é uma boa precaução contra
as batidas policiais ou as raízes de objetos piedosos; mas como pureza interior é pouco, quando se pensa que a
profissão de cortesã permite à iniciada conservar o que seus sacerdotes chamam de "mãos puras".

Mais tarde, a iniciação do cristianismo já desenvolvido levará essas religiões a macaquearem o nosso
misticismo; elas chamarão seus deuses - coisa nova - os "guardiães da alma e do espírito", e as suas inundações de
sangue de touro serão consideradas como tendo o efeito do batismo; mas, por seu próprio movimento, essas
religiões não levam à vida interior; a pureza de que elas falam na sua catártica é uma pureza legal, semelhante à do
Judeu que não comeu porco e está com as mãos limpas.

Notai que, entre os Judeus, esse formalismo, pelo fato de se substituir à ideia moral, era uma
degenerescência; di-lo bastante o Salvador. Aqui, é o caso normal. Não se trata de deplorar as próprias faltas e de
converter o próprio coração, mas de tomar um banho que vos liberta das lamas da existência à maneira de uma
lavagem mecânica.

A pureza pagã é uma medida prudente contra as doenças, as enfermidades precoces, os acidentes, os
desarranjos de mente e do corpo vindos dos deuses descontentes. E descontentes por quê? De modo algum porque
o nosso coração está longe deles - o que, de resto, merecia às vezes louvor! - mas porque certos atos ou certas
omissões nos tornaram para eles um objeto de horror.

Consegue-se dobrar os deuses por meio de encantações materiais. Para isso não basta uma consciência fiel;
é preciso uma voz justa. O bárbaro, que não sabe pronunciar o grego, é excluído pela mesma razão que o ímpio ou o
celerado. Assim traz o ritual. Tudo isso é pura magia, e não religião ou moral.

Apresso-me a observar, como já mais de uma vez o fiz, que essas críticas atingem as religiões antecristãs
tomadas em si mesmas, e não sempre, e em tudo, os SUS fiéis cultos. É por isso mesmo que, aparecendo-lhes o
cristianismo, eles se precipitam nele em multidão. A partir desse momento, a situação inverte-se, e, em vez de
serem superiores à sua religião, eles serão esmagados pelo novo ideal, a ponto de se declararem servos inúteis,
mesmo após heróicos esforços. Mas não se trata de indivíduos, trata-se dos próprios cultos e daqueles que os vivem
tais como eles são.

Esses acham-se entregues a práticas em que a magia ocupa um lugar inteiramente absorvente. Corre-se a toda parte
para lhes ter o duvidoso lucro; mas isto mesmo prova que não lhes dá senão um mero sentido supersticioso. Não
contente com a própria religião, pratica-se a dos outros, porque não se sabe de quem é que se pode ter necessidade.
Não vale por dizer que a Divindade verdadeira, a que vê o coração, vos ficou alheia?

Conhece-se um certo Faventino que, no seu epitáfio, se gaba de ser ao mesmo tempo áugure da velha
religião romana, Pai e arauto sagrado no culto do sol invicto (Mitra), arquibúcolo no culto de Baco, hierofante de
Hécata, e sacerdote de Ísis. A gente pensa nesses magnatas da finança que fazem parte de trinta ou quarenta
administrações.

E, quando os deuses tão ecleticamente desservidos dão mostra de resistir às súplicas dos seus fiéis,
pretende-se possuir meios de forçá-los: prova nova da nulidade moral desses ritos.

Não é, porventura, escandaloso que certas fórmulas ou simplesmente a invocação de um nome secreto, coloquem o
poder de Deus à disposição do fiel, sem que a retidão de intenção entre nisso pelo que quer que seja? Que outra
coisa é então esse Deus, se não é um daqueles Olimpianos de Homero que uma fatalidade domina, ainda quando se
chamasse Júpiter, e que pode enganar-se ou enganar, a quem se pode enganar, a quem se pode forçar, se, por uma
hábil manobra, se lhe consegue virar o poder?

A Igreja está tão pouco disposta a imitar esses ritos pretensamente santificadores, que os afasta com
horror, acusando-os, pela boca de Paulo, de só terem a "satisfazer melhor a carne" (Cl II, 20-23), sem dúvida em
razão do fim todo carnal colimado ao submeter-se a eles, mas também, o que não parece lá muito duvidoso, por não
sei que sadismo de sensibilidades "détraquées", como o indicam as estranhas histórias edificantes contadas nos
Mistérios.

Só se fala aí de violência e de luxúria, e, diz Gaston Boissier, "verdadeiramente parecia haverem-nas reservado para
o segredo dos mistérios porque quase não se podia exibi-la em plena luz", essa plena luz que via tantas!

"Bem aventurados os corações puros, porque verão a Deus": é o contraste absoluto entre o cristianismo e
essas falsas purezas legais.

Se desses pontos de vista gerais passássemos à minúcia, ainda muito menos justificada acharíamos a
pretensão de fazer sair o cristianismo do meio compósito em que nasceu.

Não basta dizer, por exemplo:

a morte e a ressurreição do deus fazem parte de vários cultos; os ritos da iniciação assemelham-se ao batismo; os
repastos sagrados pelos quais se comunga com Dionisios ou com Mitra são como que uma cena eucaristia; o iniciado
de Átis come a carne de um animal divino e bebe o sangue do touro sagrado para se identificar com seu Deus; Orfeu
e Cristo são aproximados pelos próprios primeiros cristãos; a linguagem ritual é às vezes idêntica no cristianismo e
alhures, tal, por exemplo, o "refrigério" desejado aos mortos, o qual se julgaria tirado dos cultos de Ísis;

o ascetismo cristão e o ascetismo pagão têm parentescos manifestos; os carismas, ou manifestações do Espírito,
lembram os transes místicos dos cultos gregos ou orientais; a disciplina do arcano, ou proibição de revelar fora tais
crenças ou práticas cristãs, é um caso particular nos Mistérios; os catecúmenos e os batizados representam os
profanos e os mistes, etc.;

tudo isso não basta para demonstrar uma filiação entre o cristianismo e cultos anteriores e contemporâneos.

Uma multidão de confusões insinuam-se nas aproximações estabelecidas. Há umas autênticas, e daqui a
pouco direi a razão disso; porém a maioria são superficiais ao ponto de aproximarem apenas uma máscara de um
semblante ou um retrato de uma caricatura. De sorte que, se não se tomar cuidado, salientando-as incide-se nesses
"mais ou menos" que são uma espécie de trocadilho, como sucedeu a esse grande erudito que é Salomão Reinach,
em punição dos "parti pris" que fizeram do seu Orpheus o último dos panfletos inspirados pela questão Dreyfus.

Para todos, por exemplo, é certo que a ceia eucarística, que se quereria fazer sair das divagações
mitológicas, se apresenta historicamente como uma continuação da Páscoa judia, seu símbolo claramente invocado
pelo próprio Jesus, e que portanto não há sombra de empréstimo, mas sim desenvolvimento voluntário, aliás
transcendente, visto como a Páscoa judia era e sabia que era um símbolo, ao passo que a Páscoa cristã é uma
realidade.

A liturgia da missa é igualmente judia: é a cerimônia do "sabbat", na sinagoga, simplesmente aplicada às


novas concepções e às realidades novas. Isto por aí mesmo se compreende, dada a composição dos primeiros
grupos cristãos, que eram judeus e mui longe ainda de quererem ir buscar o que quer que fosse aos cultos pagãos.
"Que pode a luz ter de comum com as trevas?, dizia São Paulo, que acordo é possível entre Cristo e Belial?"

A gente se pergunta também o que é que a morte de Jesus sob Pôncio Pilatos, em plena claridade histórica,
e consignada por Tácito nos seus Anais, pode ter de comum com a morte de Átis, da qual se confessará que é
bastante dizer: é um símbolo. Os que a ela se uniam misticamente, assim bem o entendiam, pelo menos os
melhores. Os que refletiam poderiam ter dito ao seu deus, tão pouco edificante e tão longe de toda realidade
histórica:

Bem creio, cá entre nós, que não existes.

E, isso dizendo, ter-lhes-iam feito honra.

Quanto à ressurreição, é historicamente, e não misticamente, que ela faz parte do sistema cristão,
especialmente no seu ponto de partida. Ela é o grande fato, a prova irrecusável, pela qual os Doze "se fazem
degolar", dirá Pascal, como por uma coisa que eles viram, que demonstra a missão de seu Mestre, e que portanto é
para a doutrina deles um fundamento de realidade, e não um símbolo.

Acrescentemos que o símbolo de que se fala, os apóstolos cristãos não o conhecem provavelmente no
inicio; eles quase não o apreciarão, vendo nesses pretensos mistérios meros "contos de velha" (I Tm IV, 7). Que
significa, destarte, a ideia de empréstimo? Não se pede emprestado a símbolos, fossem eles sublimes - e com a
maioria de razão se são julgados pueris - coisa com que afirmar historicamente e de que morrer.

E assim sucede com tudo o mais. Tomais uma após outra todas as semelhanças que se procuram salientar:
ou elas são inventadas, ou se mostram muito mais ainda diferenças, porque o seu espírito é inteiramente outro; e
que é o gesto ou a palavra sem espírito? Este é que é a verdadeira realidade religiosa. De sorte que, depois de haver
mostrado os cristãos e os pagãos agindo em comum desta ou daquela for,a dizendo isto ou aquilo, nada mostrastes,
se diversa é a alma das palavras e das coisas.
Em toda a extensão da sua vida comum com as civilizações pagãs, a alma da Igreja cristã mostra-se
antagonista a fundo, e não devedora. No início, ela se opõe às imitações mesmo mais inocentes. E isto, repito, não
quer dizer que não haja aí pontos comuns. Deve haver. Mas há diversidade de espécie, porque há diversidade de
origem, diversidade de espírito inspirador, diversidade de fim. A Igreja é inconfundível.

Estabelecido isto, resta ver como, tendo feição própria, a Igreja utiliza sem pestanejar tudo o que o passado
lhe legou, tudo o que o presente lhe oferece, e antecipadamente se adapta a tudo o que o futuro lhe promete.

II

A caducidade religiosa do mundo, por ocasião do advento do Salvador, era bastante semelhante ao húmus
que se amontoa, sobe as juncadas de folhas mortas, ao pé dos veteranos da floresta. Inerte por si mesmo, o húmus
aguardava apenas um germe para irromper em brotos novos. A Igreja não tinha, pois que trazer tudo.

Trazia a essência cuja definição fornecemos, alma permanente que ela deveria para sempre salvaguardar, mas que
seus primórdios encarnavam num corpo rudimentar, destinado a progredir em todos os sentidos: doutrinalmente,
praticamente, administrativamente, já que o tempo e o meio natural condicionam tudo o que vive.

Fidelidade a si mesma e intransigência no que respeita à sua essência íntima; mas também plasticidade e
adaptação utilizadora a respeito de um meio providencialmente destinado à sua vida: tais são os dois deveres da
Igreja. O segundo é menos necessário, se se quiser; mas essas questões de grau no indispensável não têm nenhum
interesse prático.

São Paulo chama as doutrinas pagãs, leigas ou religiosas, os elementos deste mundo (Gl IV, 3); quer dizer,
sem dúvida, as letras do alfabeto ou os rudimentos de palavras com que se constrói o discurso. São elementos;
conservam o seu valor de elementos; só são rejeitados se pretendem ser por si só o discurso. Se consentem na
absorção, são louvados e utilizados.

A razão fundamental pela qual a Igreja tem essa aptidão e assim procede, é que, divina, isto é, filha do
Criador de todas as coisas, é irmã de todas as coisas; é fundada na natureza, e admite a natureza não somente nos
seus elementos profanos, mas também nos seus elementos morais e religiosos, que não são menos natureza do que
o resto. É essa, para ela, um sinal de catolicidade, "nota" da sua verdade e da sua origem divina.

"Só a igreja, escreveu Newman, conseguiu rejeitar os elementos maus sem rejeitar os bons, e fazer entrar na
unidade da sua síntese coisas que em qualquer outra parte são incompatíveis".

A Igreja utiliza, assim, principalmente três coisas: o senso do sublime, tirado do Oriente; o senso do belo e
do razoável, especialidade dos Gregos; o senso do justo e do útil, próprio à civilização romana.

O Oriente chega à Igreja, para lhe enriquecer as concepções, por um canal todo indicado: a Bíblia. A
civilização judaica, nas suas épocas clássicas, já era uma síntese depurada do Oriente religioso e uma síntese
aproximada, já sofrivelmente rica, do Oriente político, filosófico e social. A dispersão, pondo o judaísmo em contato
com as outras raças, amplia-o e, uma vez assimilado ao cristianismo, torna-o mais apto ao papel de nutrício que ele é
chamado a desempenhar por sua parte, a respeito da vida nova.

O Oriente infiltra-se assim nas veias da Igreja como um sangue quente e brilhante cujo encarnado se
reconhece facilmente hoje mesmo. Os espíritos estreitos a quem chocam os nossos ritos pomposos, as nossas tiaras
e as nossas formulas por gosto enfáticas, acham nisso matéria para censura: mas o cristão desprendido de si pensa
nos séculos e nas raças com que é solidário, na unidade feita de diversidades que a vida católica realiza, e sente-se
ufano de aderir a uma sociedade integralmente humana.
Não menos úteis à vida da Igreja deviam ser os maravilhosos contributos da civilização grega. Eram-no
ainda mais a certos respeitos. A filosofia, tão necessária para sistematizar a doutrina, para torná-la coerente com o
espírito, proveitosa à investigação e defensável a respeito de adversários bem armados, da Grécia é que virá.

Separada da religião, ou posta a serviço de religiões falsas, pueris ou insuficientes, a filosofia não tinha
servido de nada para a vida. Só dava o incerto, não assegurava da verdade e ainda menos da sua realização prática.
Nada de trilha humana traçada, unicamente especulações, porque a autoridade faltava, se não faltavam o saber e a
eloquência. Aquele que puder dizer: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" estará em condições de fazer a filosofia
atingir seu escopo como faz atingir seu escopo tudo o mais.

"Restaurar tudo em Cristo", a filosofia terá o benefício desta palavra, e aquele que nem sequer lhe pronunciou o
nome, aqueles que posteriormente falam uma língua de aduaneiros e de barqueiros, serão os verdadeiros
salvadores dela.

Na época de Jesus, o classicismo está em via de dissolver-se nas loucuras místicas ou míticas em moda. Bem
longe dos espíritos claros da Hélade, uma quantidade de pretensos pensadores degeneram no mágico, no
curandeiro banal e no adivinho. Pelo órgão daqueles a que nós chamamos seus Padres, seus Doutores, a Igreja
recolhe as tradições de Sócrates, de Platão, de Aristóteles; completa-as e compreende-as por assim dizer, melhor do
que eles próprios, nisto que leva a fundo aquilo que eles apenas haviam esboçado, endireita o que eles haviam
deformado, harmoniza com verdades novas o que eles tinham deixado sem nexo.

Mais tarde, fá-los-á reinar, com seus êmulos, em face da sua própria apoteose simbólica, no próprio palácio do
Vaticano. A Disputado Santíssimo Sacramento, de um lado, e a Escola de Atenas, do outro, decorando a Stanza della
Segnatura, interpretam o "selo do pescador" como uma aceitação de todo o humano incorporado a todo o divino,
para que Deus seja tudo de todos, e de tudo.

Não é segredo para nós que a Revelação é a salvação da razão, e que a luz que ilumina todo homem que
vem a este mundo, se tem o seu foco divino no pensamento evangélico, sabe reconhecer-se também nos achados
dos homens.

De uma religião nada sistemática em si mesma, e de uma filosofia (a de Aristóteles) arreligiosa no fundo, mas em
que o pensamento grego atingia o ponto culminante da sua força e da sua luminosa harmonia, a Igreja, representada
pelo maior de seus doutores, fará a Suma Teológica, a obra filosófica mais religiosa e a obra religiosa mais filosófica
que jamais tenha aparecido.

O que eu digo da filosofia aplica-se, sem que seja necessário demorarmo-nos nisto, a todos os aspectos, tão
variados, da civilização helênica. A arte de nossas catacumbas e de nossas basílicas outrora não é senão a arte grega,
degenerada, é verdade, mas aceita tal qual, e admitida ao batismo, enquanto aguarda ser confirmada, alimentada
com o sangue de Cristo, absolvida de suas taras, casada com a divina Esposa, à qual dará esta gloriosa filha: a arte
cristã.

Prova de que o Espírito criador, servido pelo gênio do homem, não é menos artífice de beleza do que de
prosperidade em qualquer domínio, de verdade e de virtude.

Enfim, eu disse que ao gênio romano a Igreja toma emprestado o seu espírito de governo, o seu senso do
legal, a sua capacidade de reger a um tempo larga e firmemente as realidades humanas. O direito canônico, desde o
inicio, enceta a larga curva que ainda não está fechada, que nunca o estará; sem pestanejar, vai buscar as suas mais
precisas determinações à ciência jurídica de Roma.

Submete-as, bem entendido, à sua matéria e aos seus fins - às vezes não o bastante, talvez: mais de uma vez, ao
longo da história, notar-se-iam reminiscências da dureza romana a respeito de súditos regidos pela lei de amor; mas,
no conjunto, a utilização segue sempre a mesma regra: envolvimento assimilador, entrada de tudo sob uma lei de
vida que se endereça a tudo, querendo fazer realizar seus fins o homem todo.
Por si mesmo se concebe que a recíproca devia também ter lugar. O direito canônico influenciou todos os
pensamentos jurídicos da nossa era; ele olhava de mais alto, e, daí, a mais profundo: devia-se recorrer a ele para
julgar das maiores causas. Pena é não se fazer isto ainda mais nestes nossos tempos de dispersão de espírito!

E, se se trata dos elementos propriamente religiosos encontrados pela Igreja no momento do seu
nascimento e no curso dos seus primeiros desenvolvimentos, já não sucede com eles inteiramente o que sucede
com os produtos da civilização geral. Os empréstimos, aqui, reclamam prudência. É preciso não se expor a
incorporar germes mórbidos, e aquilo mesmo que mais tarde será nutriente pode ser mórbido no estado nascente.

Já lembrei que o primeiro cuidado da Igreja deve ser diferenciar-se, a fim de se definir. Uma vez bem
reconhecido o que ela é, poderá ela entregar-se sem perigo a um trabalho de adaptação, em mira a um
enriquecimento dos seus quadros.

É no começo do século II que a Igreja, conquistando todo o escol social, tem com que se fazer julgar tal
como é, e pode pois tranquilamente apropriar-se de elementos úteis sem se arriscar a ver-se confundir com cultos
doravante vencidos. Nesse momento, aliás, estando encerradas as perseguições, a dilatação da Igreja e o seu
estabelecimento pacífico criam necessidades novas, que os contingentes estranhos ajudarão a satisfazer.

É assim que Gregório, o Taumaturgo, seguido nisso por todos os seus colegas, introduz em Neo-Cesareia
costumes religiosos tirados do paganismo, mas que, bons em si mesmo, em todo caso indiferentes, podem adaptar-
se às crenças cristãs. Festas, banquetes simbólicos, datas consagradas por longos usos são batizados, após serem
cuidadosamente expurgados ou explicados. Dá-se com eles o que se dá com os edifícios religiosos dos pagãos, que
são mudados de destinação, conservando-se. A intolerância necessária mostra-se assim isenta de fanatismo e de
mesquinha impertinência.

Ao mesmo tempo ostenta-se a liberdade do espírito religioso a respeito dos ritos acessórios, quando no paganismo o
rito é tudo, e a interioridade ad libitum.

A liturgia acha, assim, como progredir no sentido da amplitude e do senso estético. A clareza majestosa e a
bela ordenação gregas juntam-se à vida interior de que a Igreja tem o monopólio. O exterior poderá corresponder ao
interior; o gesto secreto assumirá a amplitude de um gesto de multidão, para que a Igreja também ore, e pelo seu
corpo tanto quanto pela sua alma.

A terminologia sagrada segue um movimento paralelo: vemo-la enriquecer-se de termos figurados tirados
da poesia antiga, veiculados por meio de religiões rejeitadas, mas não inteiramente perversas. Os exorcismos
solenes, as lustrações de água benta, as velas, as túnicas brancas, as procissões à imitação dos Panateneus, tiram daí
sua origem.

A Festa de Natal, que faz coincidir o nascimento de Jesus com a festa do Sol invicto (Natalis invicti), lembra a
cristãos recentes que o Senhor deles, nascendo em Belém, é que é o verdadeiro sol dos homens.

Agir assim não é pactuar, é ligar-se a tradições purificadas, a utilidades psicológicas ou sociais, a
recordações, a valores de arte que, já não sendo veneno, se tornam alimento. O que os povos mais artistas ou mais
religiosos do universo tinham achado não podia ser inteiramente vão. Não eram esses os odres velhos, o vestido
velho em que o remendo novo do Evangelho não devia ser cosido; era o receptáculo eterno dos sentimentos
humanos; era a veste de natureza que não se podia tirar fora sem dilacerar o homem, sem mutilar a história, que
representa as etapas da vida do homem.

Essa adoção dos costumes pagãos, regulada com prudência, permitiu a utilização dos sentimentos e
instintos que sustentavam os cultos locais; com isso, ela fornece À penetração evangélica uma grande força. O culto
dos mortos, o culto dos demônios ou espíritos dos mortos que tinham sido piedosos, o culto dos protetores
domésticos: penates, lares, genius, etc., representavam as mais antigas devoções conhecidas, e por isso as mais
tenazes. Expulsá-las sem substituí-las era difícil, e aliás não se devia.

O culto dos santos e dos mártires lá estava para auxiliar a substituição; ele compensava no espírito das multidões a
perda das pequenas divindades populares. Quando se tira a uma criança a chupeta, ela depressa se consola se em
lugar da chupeta lhe dão pão.

É bem conhecido o caso daquele bispo do Gévaduan, de que Gregório de Tours fala na sua Glória dos
Confessores. Após vãos esforços para desarraigar o culto idolátrico do monte Helànus, que consistia em atirar
oferendas numa lagoa e em se lhe banquetear nas margens para se tornar favoráveis os seus gênios, teve ele a ideia
de fundar no lugar um oratório a Santo Hilário de Poitiers, com suas relíquias. Os campônios afluíram, e aquilo que
atiravam no lago consagraram-no de então por diante às caridades do novo santuário.

Isso se fazia mais ou menos em toda parte, e mui sensatamente, pensem o que pensarem alguns. O culto
dos nossos santos, bem compreendido, não é a idolatria que o protestantismo pretende; significa intercessão, união
universal dos homens em Cristo e solidariedade nesse Vínculo, isto é, depois da ideia de Deus, a mais alta das idéias
religiosas. Digamos melhor, ele evoca toda a religião, se o encararmos do lado do homem.

Produziram-se abusos; produzem-se ainda; a veneração e a adoração nem sempre foram bem distinguidas,
mormente no inicio, por homens rústicos, e o egoísmo mais de uma vez invadiu o terreno dos sentimentos
religiosos; mas isso não era culpa da Igreja. A grande construtora constrói; admite o risco. Paris espiritual não se
constrói, tão pouco, num dia. Antes de exigir de todos a perfeição cristã, era preciso ligar as massas ao princípio
cristão.

Melhor não posso concluir, nem acentuar uma última vez o caráter assimilador, ao mesmo tempo que
separador, atribuído à nossa Igreja, senão por estes textos de um dissidente que podemos plenamente fazer nossos:

"A religião cristã, diz Harnack, apresentou-se desde o começo com um caráter de universalidade em virtude
do qual pôs seu cunho sobre a vida inteira, com todas as suas funções, com suas alturas e profundezas, seus
sentimentos, seus pensamentos, seus atos. Só afastou a desonra e o pecado. Construiu-se com tudo o que ainda era
capaz de viver, e isso graças ao seu poder de organização. Fora dela, quebrou tudo; em si mesma, tudo conservou.

Podia isso, porque - sem dúvida ninguém o dizia e ninguém o sabia, mas cada alma piedosa o realizava em si mesma
- porque, considerada na sua essência, era alguma coisa de simples, digamos antes de universal, ou católico, que
podia unir-se a todos os coeficientes, que os reclamava mesmo".

Duvido que qualquer autor católico tenha apresentado um argumento de apologética interna mais
impressionante e em termos mais fortes.

"Ela, continua Harnack, permaneceu exclusiva, atraindo entretanto a si todo elemento estranho que tinha
um valor qualquer. Foi por este sinal que ela venceu; pois sobre tudo o que é humano - eterno ou transitório - ela
colocou a cruz, e desde então submeteu tudo ao além.

Donde esta conclusão naturalíssima: "Se o houvessem traduzido (o cristianismo) perante um tribunal, para
lhe perguntarem com que direito admitira tantas novidades (e acrescentarei: pilhara tantos adversários), ele teria
respondido: Não sou culpado; só fiz desenvolver os germes que haviam sido depositados em mim desde o inicio da
minha existência.

É bem e sempre a mesma imagem, a mais expressiva das que se podem aplicar à Igreja. A Igreja é um germe
que se desenvolve às expensas do seu meio, vivendo do seu meio sem lhe pertencer nem se comprometer nele.

Intransigência e plasticidade são os seus dois caracteres complementares; eles explicam toda a sua história;
explicam mui primeiramente o seu início.
O que, nas possantes evoluções que lhe compõem o destino, se transforma, não é ela - ou, pelo menos, as
suas transformações são as do grão, que evolui na mesma essência; - o que se transforma, verdadeiramente, é
aquilo que ela vive, sendo uma desnaturação enriquecedora a condição imposta seja ao que for para ter acesso à
substância.

Ela absorve e não é absorvida. Só aceita as luzes terrenas como matizes de transição para conduzir ao seu
sol ou para acompanhar o seu sol - sublime halo que o astro divino, seu centro, irisa nas nuvens da nossa atmosfera;
claridade suave que transforma em joias as agulhinhas de gelo do nosso ar e tamisa no entanto o esplendor
obcecante; clarão difuso, clarão cambiante, que leva a irradiação mais longe e coloreia de beleza terreal a inacessível
vibração da pura luz dos céus.

"Instaurar tudo em Cristo", em Cristo socializado que é a Igreja; divinizar assim tudo o que é do homem e
humanizar tudo que é de Deus: este é o programa. É ao que tendem todos os empréstimos que, sem que jamais se
esgote o seu poder e envolvimento e de vivificação, o Evangelho eterno fez e há de fazer à eterna e universal
civilização.

CAPÍTULO 6 - A IGREJA EM FACE DOS CÉSARES

A Igreja em face dos séculos antigos para se prender neles, em face de si mesma para se constituir, em face
do seu meio natural para nele se apoiar, para se distinguir dele na medida necessária e com isso conquistá-lo: tal é a
visão de que até aqui penetramos os nossos olhares.

A que reservávamos para sob este título: A Igreja em face dos Césares, deve mostrar-nos a obra de Cristo
em luta com as potências deste mundo de que ela mais poderia ter que temer, se algo de sobre-humano não
estivesse nela, prontinho a medir-se com o humano levado ao máximo - e armado - representado por esta palavra
tradicional: César. Insistindo sobre o sentido ampliado, e de alguma sorte simbólico, deste termo, poder-se-ia dizer:
a Igreja não esperou estar em face dos Césares para experimentar César.

Um César domestico faz-se ver apressado, desde o tempo de Jerusalém, a zombar da familiazinha heróica, depois de
lhe haver matado o Mestre.

A Paixão foi antes de tudo um crime judeu; o Império só indiretamente tomou parte nela, trazendo-lhe uma
cumplicidade administrativa, se assim posso dizer, cobrindo com sua assinatura uma sentença imposta por outros. A
Paixão continua sob as mesmas responsabilidades enquanto o judaísmo continua sendo a moldura política do
cristianismo nascente. Nascida na cruz do Rei dos Judeus, a Igreja aí fica. Predisse-o o Salvador: "O servo não está
acima do amo". "Se eles assim trataram a lenha verde, que farão da lenha seca?" (Jo XIII, 16; Lc XXIII, 31).

Sob Herodes Antipas, João Batista e Jesus pereceram. Sob Agripa Iº, Estevão, Tiago, filho de Zebedeu, e
Tiago, o irmão do Senhor, perecem por sua vez. Outros são flagelados. No ano 34 aproximadamente, a perseguição é
bastante forte para dispersar o rebanho - que, como vimos, aproveita isso para enxamear, especialmente em
Antioquia.

As razões da atitude adotada pelo sinédrio para com a seita nova não são todas elas religiosas, nem judias.
A política romana já entra aí por alguma coisa. Acaso Caifás não disse, perfidamente é certo, mas apoiado em
aparências plausíveis: "É melhor que morra um homem do que todo o povo?". Desde esse momento, pois, temiam-
se dificuldades da parte dos Romanos. A sinceridade religiosa e a independência ardente dos discípulos de Cristo
fazem deles uns perturbadores, ao olhos de uma administração já sobrecarregada de querelas e maçada com as
combinazioni judaicas.
Quando, pelo fim do século I, o êxodo da Igreja for consumado, Jerusalém destruída e todo poder político
de Israel abolido, as pequenas dificuldades locais cederão à grande tormenta cujas causas temos de dizer.

Em principio, entre os Antigos, o homem que pratica uma religião diversa da do seu país está em situação
daquele que se põe a serviço dum exército estrangeiro ou que muda de pátria. Mas a fusão dos Estados ou suas
combinações políticas, por meio do direito de cidade diversamente praticado, leva a compor, em religião como em
tudo o mais. Estabelece-se uma larga tolerância, que não é um progresso religioso, que é um ceticismo disfarçado
nos dirigentes e uma superstição agravada nos outros. Os que crêem na pluralidade dos deuses não se incomodam
com a existência de mais alguns.

Desde que o interesse e o instinto social se acham postos a coberto, a introdução de divindades novas excita apenas
uma curiosidade benévola, ou um sorriso indiferente, ou um vago temor reverencial.

Num sistema mitológico complicado, em que os censos são sempre provisórios, há sempre uma porta
aberta; ninguém se admira de ver passarem a ele divindades novas - que aliás muitíssimas vezes só são novas de
nome. Que importa seja Deméter chamada Ísis pelos Egípcios e introduzida em Roma sob esse vocábulo estrangeiro,
como uma filha que volta a habitar na casa dos pais depois do casamento?

Os judeus e os cristãos têm princípios inteiramente outros e estados de espírito inteiramente diversos. Aos
olhos deles, a Divindade não é um patrimônio nacional, nem tão pouco - menos ainda - uma confederação
indeterminada em número e em forma. O Deus deles é Deus; os outros são meros demônios ou sonhos, cujo culto é
pura impiedade e puerilidade, excitando sucessivamente ou ao mesmo tempo a risota e a indignação virtuosa.

Compreende-se a reação hostil que tais concepções devem provocar, e a solidariedade que deve
estabelecer-se entre os cultos pagãos mais divididos, quando se trata de troçar semelhante intolerância. Plínio e
Tácito chamam os judeus uma raça célebre pelo seu desprezo dos deuses, e que considera como profano tudo o que
os outros têm como sagrado. Em regime pagão, e dada a confusão permanente do espiritual com o temporal, isso
quase não se perdoa.

Todavia, acha-se jeito de arranjar-se finalmente com os judeus. A não ser que se tornem cidadãos romanos,
caso em que as dificuldades sobrevém e se resolvem de diversas maneiras assaz arbitrárias, eles beneficiam da
tolerância geral. As perseguições consistem pra eles, as mais das vezes, em imposições de tributo. O dinheiro é o
preço da sua liberdade. Tudo se compra junto a gente para quem o espiritual é antes de tudo negócio temporal,
negócio de Estado. A irreligião só é perseguida a título de anarquia: já não se é anarquista quando se paga para a
administração da ordem.

Os judeus tornam-se excelentes servidores de Júpiter Capitolino, desviando em proveito dele o didracma que os
Ben-Israel pagavam ao Templo antes da destruição do santuário. Vespasiano, em todo o caso, assim decide.

Mas o cristianismo não é por muito tempo confundido com sua mãe, a sinagoga. Mãe desnaturada, esta
retoma muitas vezes à sua conta o papel de Judas. Interesseira, odienta, ela não quer ligar a sua sorte política à de
gente que a abandona cada vez mais, que goza dos seus privilégios e a compromete pelos seus excessos de zelo.
Sucede serem judeus os primeiros a denunciar os cristãos às autoridades romanas.

Isso não é muito necessário. Para desvantagem deles, cedo se discerne gente tão extraordinária como esses
cristãos. O seu gênero de vida separado, intenso e tão oposto ao século, expõe-nos às represálias de sentimentos
melindrados e de malevolências exacerbadas por toda sorte de interesses comprometidos. Toquei neste último
ponto a propósito das conquistas da Igreja.

Calúnias atrozes circulam. Os ritos mais sagrados, que se julga bom manter secretos por prudência, tornam-
se por esse fato ocasião de acusações infames. Os ágapes noturnos são convertidos em saturnais capazes de fazer
corar as saturnais; a eucaristia vira antropofagia: é uma criança que degolam para comerem.
Essas invenções odiosas e tolas acham crédito junto às massas como nos nossos dias o anticlericalismo.
Deus sabe o que se chega a fazer engolir, mesmo alhures! Conheci um astrônomo persuadido da existência de uma
comunicação subterrânea entre um convento de homens e um convento de mulheres, em seu país. Haviam-lhe dito
isso. Sem dúvida haviam colhido isso nos astros. Gente mui grave, como Tácito, como Suetônio, são os astrônomos
daquele tempo.

Consideram os cristãos como dignos de todos os castigos, por motivo político sem dúvida alguma, mas também por
causa de vícios privados acreditados sobre a autoridade dos dizem. O dicuntur e o ferunt dos Romanos não têm
menos poder do que os nossos parece, dizem.

Essas calúnias são bastante espalhadas para que São Justino diga que consagra a sua apologia "àqueles a
quem o gênero humano inteiro odeia e persegue". O gênero humano é o mundo romanizado que eu descrevi, e é
certo que nossos primeiros pais, com suas ideias tão diferentes em tudo, tão definidas, tão nobremente
intransigentes, devem fazer aí uma figura difícil de olhar a sangue-frio. Ou as pessoas se rendem, ou se opõem, o
que quer dizer que ou são hostis ou são odiadas, sem matizes intermediários.

Pensai que a vida social, impregnada de paganismo, é quase impossível aos fiéis. Viver é apostatar: não há
senão esquivar-se ou morrer - a não ser que se vença. Os nascimentos, os casamentos, as festas de família, os atos
da vida agrícola: semeaduras, colheitas, vindimas, tudo, na ordem privada, serve de pretexto a atos religiosos:
libações, incenso oferecido aos deuses ou banquetes mais ou menos rituais. Quando vos convidam à sua mesa, num
dia de festa, escrevem-vos, como achamos num papiro do século II: Tomai lugar "à mesa do Senhor Serápis, a 16 do
mês".

Caráter semelhante têm os divertimentos populares. As instituições civis e militares supõem juramentos
religiosos; as funções inauguram-se ou correm risco de inaugurar-se de maneira ritual. Recusar-se a tudo isso, é
irritar o gênero humano em grau verdadeiramente insuportável.

E a misantropia complica-se aqui de rebelião, visto como, ao mesmo tempo que se recusam as ações
cotidianas, recusa-se a participação nos serviços públicos, que têm o caráter de um dever. Todos os cultos cedem
ante a vida romana; todos com ela se acomodam fácil ou respeitosamente; só o cristianismo se enrija: convida a que
o quebrem.

Por outro lado, a sobriedade das suas crenças faz os cristãos passarem como racionalistas aos olhos de
pessoas que porfiam em complicar e em subtilizar. A ideia nítida que eles têm o Deus uno fá-los passar por ímpios -
como Sócrates, - nisto que o Deus que eles adoram só parece definir-se pela negação dos outros. Afirmar uma coisa
sobre mil não é, "grosso modo", negar tudo? Desprezar o panteão inteiro, salvo um Deus, é uma impiedade
manifesta. É bem ruim o caso dos cristãos.

É tão ruim o caso deles, que eles são acusados de maneira a não acharem saída senão para o túmulo. A
tolerância romana, tão ampla, tão universal até então, chega a dizer: sede tudo que quiserdes, menos cristãos.

A partir de que época o cristianismo é considerado juridicamente como religio illicita, não se sabe bem. Isso
pode ser muito cedo. Em todo caso, no tempo de Tarjano (98-117) a questão não se presta mais a dúvida. O simples
fato de ser cristão basta ao juiz. Não há necessidade de articular outra acusação. Magia, incesto, infanticídio, lesa-
majestade ou sacrilégio, todas estas imputações absurdas ou atrozes com que o povo os agrava já não têm mais que
se justificar no pretório. "Que é que recitais nas vossas tabuinhas? Clama os juízes o veemente Tertuliano.

Fulano, cristão? E por que também não: e homicida?" Poder-se-lhe-ia responder: é inútil; os cristãos, como tais,
estão fora da lei do Estado, lei que é religiosa ao mesmo tempo que política, porque é política.

Isso não é de admirar. E será abusivo? Sim, evidentemente, em si, visto que se persegue a verdade. Ao invés
de sacrificar o cristianismo a um dogma social inferior, a atitude correta seria escutar, convencer-se, visto haver de
quê, e render-se. Mas isso de maneira alguma prova que tal magistrado, tal imperador não possa estar, ele
"subjetivamente", muito em regra com a sua consciência.

O cristianismo instaura uma revolução: deve esperar pela sorte dos revolucionários, isto é, pela oposição
não somente das pessoas mal intencionadas, mas também dos homens de ordem no sentido estrito do termo, dos
conservadores e dos sectários políticos que ele não tiver conseguido imediatamente converter. Quando os homens
de ordem são Nero ou Domiciano, devem-se ver coisas piores!

Coisa surpreendente: é sob um sapientíssimo imperador, Marco Aurélio, que os tempos se tornam os mais
duros para o cristianismo. As cenas horríveis e gloriosas dos mártires de Lião, as de Cartago, datam do fim desse
reinado. Há para isso razões gerais e razões locais; porém os preconceitos do Imperador, tanto mais inextirpáveis
quanto são refletidos, a recusa de examinar os fatos, pois a teoria acalma a consciência, a aplicação cega das leis do
império, devem entregar os cristãos, sob esse imperador, aos rigores de uma serenidade sem entranhas.

Só depois desse alto filósofo, e, ó ironia! Sob um dos imperadores mais odiosos que Roma teve, Cômodo, é que a
tranquilidade volta.

Para compreender isso, importa observar que, a respeito de semelhante problema, os imperadores não são
tudo. Um imperador nunca é tudo. Mesmo um Estado centralizado ao máximo, a centralização só relativa pode ser.
Entre nós, a sorte do pequeno editor ou do funcionário não depende tanto do governo como do prefeito, dos
"comitês" locais, do deputado, até mesmo de um intrigante sem mandato. A política local pesa sobre o indivíduo
mais do que a política geral do Estado, e o tirante é mais de temer do que o tirano.

Quando há contra vós, notadamente, isso a que se chama "as leis existentes", nunca estais em segurança,
porquanto, tivesse o poder central intenção de deixar dormir o instrumento de suplício, desde o momento que ele
não pode ou não quer suprimi-lo, a gente se arrisca sempre a ver o cutelo desprender-se, mesmo quando a mão dele
permanece inerte.

Portanto, mesmo com bons imperadores, os cristãos vivem sob a ameaça constante, e, periodicamente, sob
a ação do martírio. Quando César esquece a razão de Estado ou acha nela motivo de tolerância, o que sucede, nem
por isso nossos pais deixam de ficar sendo uma caça perseguida, em todo caso disponível, visto como não merece
aos olhos de quem quer que seja, no mundo político, a menor benevolência. Ao primeiro sobressalto de ódio
popular, graças ao menor incidente local, ou em razão de uma malevolência individual um pouco poderosa, tudo é
posto novamente em questão, e a morte trabalha.

Isso explica suficientemente os fatos até o fim do século II. Depois, intervém um elemento moral
inteiramente novo: o medo. As pessoas se lembram das palavras de Domiciano: "Eu preferiria suportar um rival em
Roma a suportar um bispo cristão". Semelhante sentimento mostra o quanto está mudada a situação entre a Igreja
cristã e o Império. A Igreja tornou-se uma potência. A arrogância serena de um Marco Aurélio ou a segurança de um
Adriano já não são admissíveis. A Filosofia acaba de mostrar o que vale.

O sincretismo religioso desacredita-se, e, sob os olhares da autoridade romana, o rebanho de Cristo estende-se de
maneira a mais inquietadora. O tempo vai chegar em que o perseguido de ontem será o vencedor; o leãozinho, que
fora tomado como caça vulgar, mostrar-se-á o "leão de Judá" e pulo irresistível. Antes disso, deve ser tentado o
esforço supremo. Tentam-no, e a perseguição de Diocleciano, a que se chamou a era dos mártires, datando a 9 de
Agosto de 284, é o ponto culminante desse período.

Não se põe nela, aliás, grande continuidade; procede-se por acessos. Quanto ao resultado, este dá razão à
palavra de Tertuliano, tão ousada, tão consciente do milagre na sua forma mais trágica, senão mais alta: "Sanguis
martyrum sêmen christianorum; o sangue dos mártires é semente de cristãos".

Cumpre relembrar as leis dessa germinação cruenta, dizer por que as crueldades dos Césares resultam às
avessas, como é que não descoroçoam o lealismo dos cristãos, mas do que nunca afeiçoados ao Império à medida
que dele sofrem, e que atitude enfim sabem guardar heroicamente homens em quem o ódio devia produzir
naturalmente o ódio, mas em quem, ao contrário, produz o amor e o triunfo social do amor.

II

As razões do triunfo dos vencidos, na luta desigual da Igreja com o Império, são antes de tudo de ordem
sobrenatural. Aqui, como também quando se tratava de um extraordinário crescimento - as duas questões, ademais,
são conexas - não se pode afastar o milagre. Quem quer que pense nisso com o sentimento do real e do possível
humano parece dever consentir nisto. Não é necessário e não é eficaz, aqui, raciocinar; basta ver, mas ver com os
olhos da alma.

Todavia, o sobrenatural tem seus meios naturais, que nem por isso são as suas causas; ele segue uma
marcha; para agir num plano superior ao homem, toma seus pontos de apoio no homem. Há, pois, razão para
inquirir das causas humanas que intervieram aqui, o que redunda em perguntar que caminhos seguiu a Providência
em favor do seu miraculoso.

Bem parece que as razões de vitória devem ser buscadas antes de tudo nos sentimentos que a perseguição
excita, quer nos expectadores generosos - e isto, já o dissemos - quer nos próprios perseguidos. Milagre de
generosidade em ambos os casos, milagre de graça, com a cooperação da natureza.

Os que desdenham os sentimentos, ligando orgulhosamente toda a marcha do mundo a sistemas políticos,
ou, baixamente, a fatalidades econômicas, recebem aí um desmentido. O martírio, dominante dos sentimentos
inebriados e cantantes da alma cristã primitiva, desempenha um papel capital na harmonia pautada por Cristo; e,
admitido o ponto de partida, concebe-se que essa harmonia seja destinada a expandir-se em ondas cada vez mais
longas no concerto, embalde dissonante, deste mundo: "O exemplo da morte dos mártires nos toca, escreveu
Pascal, porque são nossos membros".

O martírio é o heroísmo do amor, e, após as nítidas declarações do Salvador, o amor aparece como o centro
da doutrina e a pedra de toque da prática. "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos":
esta palavra do Mestre, que ele aplicou a si mesmo, aplicam-na a si os verdadeiros cristãos. Prontinhos a lhe
provarem o sabor delicado e áspero, eles haurem nelas esse sentido do supremo que favorece o estado nascente de
todos os grandes movimentos humanos, e, com maioria de razão, de uma obra antes de tudo divina.

Do ponto de vista da "salvação", isto é, do êxito pessoal da vida, de que nenhum de nós tem o direito de se
desinteressar, visto que a vontade providencial coincide aqui com o mais decisivo interesse, visto que cada um
recebeu o encargo de si mesmo antes de ser encarregado de outrem - deste ponto de vista, digo, pessoal, mas não
egoísta, o martírio é o meio por excelência.

Ele une a Cristo na morte, e portanto na vida ao máximo, constituindo um ato último, de todos os mais vital; e por
isso mesmo nos une a Cristo na sua ressurreição, já que, para nós como para ele, a morte é uma mera passagem.

A teoria do batismo de sangue, que é primitiva, e que parece ser considerada no início como uma evidência,
estabelece o candidato ao martírio na segurança de uma glória celeste imediata e fá-lo repudiar o medo. "Não
temais os que matam o corpo e depois nada mais têm a fazer", disse o Senhor. Esse sublime "nada mais", esse
"depois disso" dizem muita coisa sobre o desdém daquilo que passa em relação àquilo que fica. Que é matar o
corpo, se não é libertar a alma, que os seus pecados passados e os seus receios de futuro oprimiam?

Tem-se o direito de pensar que a glória humana religiosamente encarada, isto é, como uma nobre
emulação para o bem e como uma alegria de, a título de herói, existir no pensamento de seus irmãos, na lembrança
perpétua da Igreja, não é estranha a esse apetite de morrer. Chama-se aos mártires os bem-aventurados, os
benditos, os atletas, os magnânimos.
Invocam-nos; eles conferem indulgências por meio do bilhete de paz (libellus pacis); conservam-se os seus restos
mortais; visitam-se-lhes os túmulos; erigem-se altares sobre suas ossadas; celebram-se-lhes os aniversários; poesias,
como as de Pindaro sobre os atletas dos jogos, eternizam esses atletas da alma. Tudo isso torna-se um apelo
magnífico aos grandes corações.

O amor ao risco, de que nos têm falado eloquentemente, e de que um esporte novo, como ontem a
aviação, basta para exaltar os vôos mais belos do que os de engenhos toda via admiráveis, acha aí matéria bem
diversa. A cada instante e como pelo efeito de um contágio irresistível, vêem-se guardas de prisão ou algozes juntar-
se ao rebanho de suas vítimas, e declarar que também querem morrer.

Essa persuasão de que morrer é um lucro, quando é por Cristo, torna mais fácil sem dúvida a nossos pais o
cumprimento, mesmo nessas circunstâncias extremas, do preceito evangélico: Amai os vossos inimigos; fazei bem
aos que vos perseguem. Quando, no dizer dos Atos (V, 41), os apóstolos sofreram o suplicio do flagelo, logo no inicio
do seu ministério em Jerusalém, "lá se iam alegres por terem sido julgados dignos de sofrer o opróbrio pelo nome de
Cristo".

Quando se nutrem tais sentimentos, a cólera já não tem lugar; pensa-se tranquilamente no algoz; pensa-se nele
tristemente, pelo seu erro, se é de boa fé, e, no caso contrário, pelo seu crime.

Os dois casos aqui se apresentam, e não o ignoram os cristãos. No conjunto, estes atribuem a resistência do
mundo ao poder de Satanás, artífice de malícia e de erro no meio dos homens. Estes últimos são vítimas dele, antes
de serem seus colaboradores. É, pois, sobre ele que se faz recair a detestação. Digamos mais simplesmente, como o
dirá mais tarde Agostinho: o cristão odeia o mal amando quem o faz.

César, isto é, o Estado, se beneficia desse sentimento. Sente-se que ele é escravo do Maligno, já que a
idolatria - essencialmente diabólica para nossos pais - é a lei social; mas ama-se a César como criatura de Deus, de
Deus que fez os governos, tendo feito os povos; ama-se como benfeitor temporal, visto como, fora da religião, ele
protege e desenvolve a vida coletiva, de que os cristãos não entendem de se abstrair. Ama-se também a César
instintivamente, como se ama o seu meio natural, o seu berço ampliado, a sua pátria de corpo e de alma.

Daí esse lealismo, que é bem impressionante em homens perseguidos de morte, e que não se desmente.
São Paulo disse: "Submeta-se toda alma aos poderes superiores, pois não há poder que não venha de Deus... Aquele,
pois, que se opõe aos poderes resiste à ordem de Deus" (Rm XIII, 1). É verdade que ele assim falava num período de
calma; mas era no dia seguinte às atrocidades de Nero, e o epistoleiro incomparável poderia ter visto sua página
iluminada pelas tochas vivas em que se consumiam seus irmãos.

Pedro, por seu turno, repete: "Temei a Deus, honrai o rei" (I Pe II, 17), esse rei que ia crucificá-lo.

Tertuliano faz notar que nunca os cristãos estiveram metidos nas sedições; que jamais os conspiradores, os
Albinos, os Cássios, os Nigros, os tiveram por cúmplices. "César, escreve ele fortemente, é mais César para nós do
que para os outros romanos, tendo sido, como foi, constituído César por nosso Deus. Estas são grandes palavras; são
e serão sempre de tradição na Igreja.

Mas isso não impede que se seja oprimido pelo Império romano como por um poder satânico ao mesmo
tempo que divino. Ele é divino como emanado d'Aquele que tudo rege, e como executor das suas vontades relativas
à ordem social; é satânico porque mistura à justiça de suas exigências políticas a injustiça das suas pretensões
religiosas e dos seus furores.

Estes dois pontos de vista são em toda parte reconhecíveis na atitude cristã das origens. A ele se liga uma
teologia que causa estranheza a certos espíritos e que, no entanto, é das mais racionais. De um lado se diz: obedecei
aos chefes políticos por causa de Deus; em certas circunstâncias se diz: "é melhor obedecer a Deus do que aos
homens" (At V, 29). Isto não se contradiz. Há objetos a cujo respeito a consciência individual está ligada a Deus por
intermédio do poder social.
Outros há em que ela mesma é juiz, sentindo Deus dentro - como é o caso da lei natural - ou encontrando-o numa
autoridade de ordem à parte, como a autoridade religiosa, que o representa diretamente, sem ter de passar pelo
estado.

Essas competências diversas fazem a diversidade da atitude cristã. Onde quer que César seja juiz, obedece-
se a César. Onde quer que a consciência seja juiz, obedece-se à consciência. E esse dualismo é tanto mais acentuado
quanto há aí uma oposição mais completa entre o que a consciência exige e o que é reclamado abusivamente por
um poder opressor, que nem por isso decaiu dos seus direitos.

A política cristã sabe assim conciliar tudo: o indivíduo e o Estado, Deus e o homem, insistindo no sentido do
estado quando este está apegado aos seus deveres e é respeitador dos seus limites, e pendendo para o lado da
consciência quando o Estado abusa, e exige fora do direito. Este último termo da alternativa é o que nos ocupa; é
por isso que essa época de sofrimento e de ardor é o ponto de partida histórico disso a que se tem chamado, depois,
os direitos do homem.

O indivíduo imortal, filho de Deus e cidadão da cidade eterna, erguendo-se humildemente em face das forças
coletivas que a palavra César representa aos nossos olhos, foi o cristianismo primitivo quem criou essa grandeza.

Não a conhecia a antiguidade. As suas idéias covardes sobre a natureza do ser humano e sobre os seus
destinos não lhe permitiam fazer dele outra coisa senão uma abelha subordinada à colméia, ou um pato selvagem
elemento do triângulo enterrado no céu azul.

Exceder em relação ao seu grupo; fazer bando à parte no espiritual e reservar o seu "quanto a mim" mesmo no caso
em que o espiritual parece tocar no temporal e por este motivo interessa uma autoridade ciosa e exclusiva, é uma
ideia que se não tolera numa sociedade ou materialista ou, em todo caso, mal segura dos porvires humanos, como é
o caso de toda a antiguidade.

Se o homem não passa de um átomo pensante, destinado a desvanecer-se amanhã no grande todo em cuja
obra a vida efêmera colabora, quem ousará conceber que esse serzinho se erga contra o todo representado pelos
poderes sociais, e diga "não" ao que fica, ele que passa? Ao que é quase infinito em amplitude, em relação ao que
ele pode justificar de existência? Dir-se-á a esse vermezinho: Submete-te! Se a tua consciência protesta, deixa-a
formar pela consciência do grupo, que não é menos teu educador do que tua fonte, visto que dele emanaste em
corpo e alma.

Diversamente sucede na hipótese espiritualista, e sobretudo cristã. Sucede mesmo, direi, ao inverso, visto
como então já não é o indivíduo que passa, é o grupo; já não é o indivíduo que é pequeno, é esse corpo social
constituído de nossos pós, vivificado por um tempo pela vibração de nossas almas, mas que deve esboroar-se mais
cedo ou mais tarde, no mínimo quando o planeta arrefecido rolar, féretro triste, em volta do seu sol inútil,
contemplando-o as almas de longe, do alto de sua glória.

A dignidade do indivíduo, tal como o cristianismo concebeu e impôs ao mundo, é fundo da política
moderna, na medida em que esta é ciosa do progresso e não sonha com retrogradações opressivas.

Logo no inicio, não parece esperar-se semelhante conversão do mundo. O pequenino rebanho, tão heróico
espiritualmente, ainda não sonha com uma ação política de que a sua vida espiritual seja a alma. A grande máquina
romana parece dever durar sempre e oprimir sempre os eleitos. É uma condição a que as pessoas se submetem
como a uma vontade providencial. Faz-se o melhor que se pode para ser um bom cidadão, sendo cristão; mas se,
apesar disso ou por causa disso, é preciso sofrer, sofre-se, e se é preciso morrer, morre-se. Faz-se como quando se
tratou de gozar saúde por dever e se cai doente.
Os que suportam melhor a doença são os mesmos que melhor sabem usar da saúde. Assim os cristãos fiéis às leis e
os melhores servidores do Império, como dizem incansavelmente os apologistas, são os mais resignados a esse
paradoxo atroz que faz deles uns pretensos revoltosos.

Só mais tarde, quando a sociedade cristã toma corpo e nela se introduzem elementos pertencentes a todos
os setores, ao exercito, à política, à magistratura, tanto quanto ao povo, que forneceu os primeiros subsídios, só
nesse momento, isto é, a partir do século III, surgem esperanças novas.

Desde o tempo de Marco Aurélio, um Meliton sonhava com uma espécie de aliança entre o cristianismo e o
Império, encarregando-se o primeiro, em troca de uma proteção sincera, de fornecer ao segundo os valores morais
que aumentariam imensamente a prosperidade. Orígenes retoma este tema uns cinquenta anos depois, com muito
mais razão de alimentar esperanças, o que não impede que ele mesmo, torturado em 249, por ocasião da
perseguição de Décio, possa perceber que os tempos ainda não estão maduros.

Pode-se mesmo imaginar que tais estados de espírito não entram por pouco na recrudescência das
perseguições. Porque o que, no fundo, eles oferecem ao Império é lhe infundirem uma alma nova. Ora, o Império
não quer saber disto. A sua alma lhe basta. Ele crê que ela corresponde às suas origens e ao seu fim. A Igreja, se o
orgulho dele lhe permitisse levá-la em conta, parecer-lhe-ia aos que estão contentes com este mundo que fecham os
ouvidos aos gritos de apelo que nos vêm de lá de cima

A Igreja não é deste mundo, e por esta razão age sobre este mundo a fundo, tentando arrancá-lo a si
mesmo para fazê-lo chegar a mais alto do que ele. Para isto é preciso abalar-lhe as raízes. É a epopéia do Cedro na
Légende dês siècles:

Et frissonnant, brisant Le dur rocher de marbre,

Dressante ses Brás ainsi qu'um vaisseau ses agres,

Fendant la vieille terre aicule dês forêts,

Le grand cèdre, arrachant aux profondes crevasses

Son trone, et as Racine, et ses ongles vivaces,

S'envola comme un sobre et formidable oiseau.

E, trêmulo, quebrando a dura rocha marmórea,

Erguendo os braços qual nau que ergue os seus maçames,

Fendendo a vetusta terra avoenga das matas,

O grande cedro, arrancando às rachaduras fundas

O tronco, e a raiz, e as suas unhas vivazes

Evolou-se qual ave lúgubre e formidanda.

Isso vai bem nos poemas; mas quando se trata da vida de um Estado, as raízes existem, o solo também, e o
selvícola, César, é sempre tentado a bradar, como João no poema:

Joveaux Venus, laissez La nature tranquille. (Recém-vindos, deixai tranquila a natureza).


Mas sim! O paganismo, aos seus próprios olhos, é "natureza". Não importa; a perturbação salutar lançada
nos Estados pagãos, primeiro pela existência e depois pela ação social da Igreja, terá o seu resultado. Despertando as
consciências retas, agrupando-as, a Igreja criará um Estado no Estado. No espiritual, entende-se! Porque no
temporal seria uma grave censura; nós não somos separatistas.

Mas no espiritual, é verdade; um grupo cristão num Estado pagão ou paganizante, é um Estado no Estado, e esse
Estado, mais ativo se é fiel à alma que traz, tende a encerrar o outro, a envolvê-lo com sua influência para enriquecê-
lo de seus dons, para que, tendo posto à frente das suas preocupações "O reino de Deus e a sua justiça", tudo o mais
lhe seja "dado por acréscimo".

É o que o mundo novo, que vai suceder ao Império, experimentará pouco a pouco, no positivo, e também,
ai! Quanto a contra prova. Mil desfalecimentos, de fato, limitarão constantemente os efeitos de uma política cristã
difícil de conceber após o longo reinado dos preconceitos, mas difícil ainda de aplicar a uma matéria sempre
parcialmente rebelde. É por isso que as lutas que acabamos de descrever não cessarão com as circunstâncias em que
as vimos desenrolar-se. Elas são de todos os tempos.

E, como já várias vezes insinuei, há outros Césares em luta com a Igreja que não os soberanos ou os ditadores; os
poderes coletivos também intervém, e esses imensos poderes anônimos que são as civilizações.

Em toda parte onde a Igreja encontra isso a que o seu Fundador chamava o mundo, isto é, não somente as
potências do mal, mas o que praticamente dá no mesmo, de ver que as culturas humanas pretendem
orgulhosamente bastar-se, os laicismos de todos os jaezes, quer se abriguem nas Sorbonas, nos tribunais, nas
bancas, nas oficinas ou nas escolas, quer inspirem os sistemas filosóficos, sociais, econômicos, literários, artísticos,
etc., a Igreja ergue-se como adversária, porgue vê em conflito o temporal e o eterno, o insuficiente e o Único
Necessário.

Então, é a batalha; em todo caso, é a divisão, visível ou latente. "A procissão - Escreve Ernesto Hello - passa levando
a cruz, e as criaturas dividem-se à sua passagem. As criaturas dividem-se e nem sempre sabem que é a cruz que as
divide".

Não importa, o mundo não está acabado, e a esperança é sempre possível. O reino de Cristo, por mais
combatido que seja, subsiste. O que os seus inícios nos fizeram é ver ampliado sob nossos olhos e pode aguardar
com confiança o futuro.

A que ponto chegamos sobre isto? E que testemunho traz o tempo atual em favor da Igreja cristã,
consideradas as suas aquisições e as suas carências, as suas provações e as suas necessidades?

É a nossa última questão.

CAPÍTULO 7 - A IGREJA EM FACE DO TEMPO PRESENTE

"Deus fez no meio de nós uma obra que, desprendida de qualquer outra causa e só dele dependendo,
enche todos os tempos e todos os lugares". É nestes termos que Bousset julga poder apresentar aos seus
contemporâneos a Igreja eterna. Ele sabe que a Igreja reivindica como fundamento os milagres evangélicos, e que
esta manifestação exterior serve como que de selo ao ato do nascimento dela.

Mas, depois que esses milagres a fundaram e a sustentaram no seu crescimento, no seu surto de conquista, e na sua
resistência aos poderes, ela própria pretende, como manifestação exterior também do mesmo Deus, o mesmo brilho
que por ela como por eles se faz reconhecer.

Nisso, ela não os suplanta, continua-os, visto como eles já estão nela. Com eles ela revela o divino no
homem. Ela é uma síntese de milagres e um milagre a mais.
Propriamente, esse milagre novo consiste na existência entre nós de um organismo social humano-divino e
que leva uma vida humano-divina, mostrando portanto Deus em sociedade com o homem e o homem em sociedade
com Deus.

Esse organismo, nos seus primórdios, no momento em que todo recém-nascido exerce o mais
poderosamente a sua força assimiladora, deslumbra o mundo pagão. A sua unidade, a sua constituição já forte, a
evidência do seu fermento intenso, a vida do Espírito nela, brilhavam, e às almas chamadas e predestinadas
persuadiam de que a sua pátria ali estava. Como dissemos, isso fez mais para a conversão do mundo do que os
milagres particulares relatados nos Atos. Esses "sinais" apagavam-se, de alguma sorte, ante o sinal por excelência.

Hoje em dia, embora o trabalho do Espírito seja menos visível, em compensação são mais visíveis os seus
resultados. E a Igreja pretende que esse sinal baste, normalmente, para convencer uma alma atenta e reta. Não nos
podemos admirar disto. Se Deus age deveras em cooperação com o homem, e com o homem social, que evolve no
visível, isso deve ver-se.

Que Deus seja aqui como em toda parte o "Deus oculto" a título de causa invisível em si mesma e que quer ser
discreta, isso não impede que fenômenos em que ele desempenha um papel essencial não possam deixar de revelar
a sua presença, se já o coração o procura.

É preciso para isso o coração, porque sempre, nas coisas morais, é requerido este ponto de partida, e
porque, aliás, sendo a fé uma graça, semente de vida eterna, não se vê que, para se revelar, possa o Bem soberano
assim oferecido desprezar as disposições morais de quem se abeira dele. Assente, porém, isto, a convicção deve ser
possível, ou melhor, normalmente falando, a negação impossível. "É impossível que os que amam a Deus d e todo o
seu coração desconheçam a Igreja, tão evidente é ela", escreveu Pascal.

A vida divina da Igreja faz-se reconhecer, a quem quer vê-la, pela sua perpetuidade e pelos seus caracteres.
A Igreja é a eternidade no tempo, e a eternidade é simultaneamente uma perpetuidade, pois envolve o tempo, e
uma superioridade de natureza em relação às nossas durações mutáveis. As durações igualam os seres. Nossas
durações, as nossas, são durações fragmentárias e reduzidas às nossas medidas; a duração de Deus é imutável e
infinita no seu ser, que é o do próprio Deus.

Se, pois, Deus vive deveras com o homem na terra, graças à encarnação continuada e socializada, a vida assim
constituída será dotada conjuntamente de uma perpetuidade indefectível e de uma superioridade relativa sempre,
visto que o homem faz parte dela, mas suficiente para indicar que o homem, aqui, não está só; que o Autor de seu
ser retomou a obra na sua base, para levá-la mais alto.

Perpetuidade, dizemos primeiro. Para quem sabe ver, há aí um fato surpreendente. Pela sua própria
definição e pelas suas próprias declarações mil vezes repetidas, a Igreja é obrigada a ser perpétua. Estranha
obrigação essa. O profeta que assim se enfeita com o futuro arrisca-se cada hora a ser desmentido. Por isso o
adversário, sentindo o lado fraco que contra a instituição e a doutrina uma tal pretensão lhe oferece, apressa-se, ele,
a profetizar a morte da Igreja, a declarar iminente essa morte, a mostrá-la, já assente, por assim dizer, nos seus
pródomos certos.

A tática é boa. Não há maneira mais segura de arruinar moralmente a Igreja, de que lançar o descrédito
sobre toda a sua duração, do que provar-se se provasse - que essa duração terá um termo. Se a Igreja deve morrer,
ela nada é. Se a Igreja está não somente no tempo, o que deve ser, porém é súdita do tempo, é que está
abandonada ao tempo assim como tudo o mais, e não está suspensa à eternidade.

Por outros termos: se a Igreja morrer, se morrer numa data qualquer antes do fim do homem - e o homem, em
verdade, não morre-, é que ela é humana somente, é que não é humano-divina, é que não é o que pretende ser, e
para encurtar razões, é que não é nada.
Mas a Igreja não se perturba com esse perigo, e já há dois mil anos que escuta calmamente os que a
ameaçam dele. Passado tal não seria uma garantia do futuro? Creram-no grandes historiadores, impressionados não
somente com o fato, mas com o estado d'alma que o acompanha, com essa prodigiosa certeza por entre tantos
reveses, com essa tranquilidade no curso e de períodos históricos movimentados em extremo, diversos e fecundos
em surpresas.

Uma tal força psicológica é por si só um fenômeno surpreendente. Um poder tão seguro de si mesmo e do
seu futuro, tão decidido no que faz e tão pouco inquieto com as contradições, com os ataques, com os obstáculos,
com todas as ciladas que, entretanto, com a sua vasta experiência, ele sabe armadas sob os passos de todas as
instituições: é um desafio. Que audácia o pretender assim fazer exceção sozinho!

E, não há dizer, o fato responde; sempre respondeu ao sentimento que a nossa Igreja tem dele, como se
esse sentimento houvesse partido do próprio fato. A Igreja circula entre os acontecimentos como o sonâmbulo à
beira do telhado. O sonâmbulo não cai, guiado que é por um espírito interior, numa feliz ignorância do perigo que
tangencia. Acordai-o, tirai-lhe a sua inconsciente segurança, feita de certeza vital: ele está perdido. Assim a Igreja se
perdesse a sua fé. Porém não a pode perder.

O seu Espírito interior a um só tempo lhe comunica o sentimento da sua perenidade e lhe dá em toda parte
segurança de si.

A Igreja entende sobreviver a tudo o que pretende ser o futuro, e já enterrou muitos dos que lhe
meditavam ou aguardavam a perda. Tempestades não lhe têm faltado; mas os tornados no oceano e as tempestades
de areia do Saara não afetam a estabilidade da terra. A Igreja esposou a terra; ela é a própria terra encimada pela
cruz, a terra viva, santificada por uma Presença invisível, e ela não tem medo. Um dia, a terra morrerá, mais numa
apoteose que a Igreja diz sua. Ela não teme esse acontecimento, espera-o.

Do lado de cá, profeta de si mesma, projetando o que ela é sobre o que amanhã será, a Igreja diz: O futuro é meu,
porque em mim está esse futuro já adquirido com Aquele que o regula. O tempo não me contém; eu, a Igreja, é que
contenho o tempo, pelo meu Espírito, seu princípio eterno. Beber na taça do tempo a duração eterna é a sorte de
todo aquele que adere a mim e comunga com a minha alma secreta. Muitas coisas me fazem sofrer, mas nenhuma
me desconcerta nem me inquieta. A adversidade retempera-me.

Um fracasso significa para mim: recomeça; como um êxito significa: prossegue. Por cima da cabeça de meus
inimigos e para além dos obstáculos, eu olho uma finalidade visível a mim, mas tão exigente que eu não posso
desviar dela meus olhares nem minha marcha. Completar meu Cristo na terra, o Cristo coletivo, a assembléia
universal a que ele chamou seu corpo: é esse o meu trabalho. Trabalho de todos os tempos, sem dúvida! E é por isso
que eu não morro.

Quer se arrazoe, quer se desarrazoe sobre isso, a força íntima assim manifestada tem algo de único. Supõe,
ao que parece, no invisível, fora das nossas durações indecisas e fugazes, uma cumplicidade.

Procura-se a explicação disso num iluminismo feliz da nossa fé, e, por outra parte, em contingências
históricas cada uma das quais se presta a explicações naturais. Está bem. Mas o iluminismo da Igreja é muito
positivo; a ingenuidade não é coisa dessa avó, que sabe aonde vai, e que impressiona o observador justamente pela
certeza imperturbável do que faz.

Explicação indigente é o menos que aqui possa dizer-se. Na verdade, a explicação é nula; por quanto, se a
misticidade pode realmente ter seus desvios, a Igreja, que controla a misticidade com um rigor severo, deve ser
chamada sobremística, e escapa ao perigo porque deve prevê-lo. Ela não sonha; a sua certeza é serena; é bem em
pleno despertar e de posse de toda experiência humana que ela diz: Há em mim algo de sobre-humano; eu, que
assisto ou presido a tantas mortes, sei que não morro.
Quanto às contingências históricas, estas existem. Não se trata de negar as causalidades inerentes a uma
vida que está na terra, embora não proceda unicamente da terra. Cada um dos casos apresentados por essa
extraordinária história é suscetível de explicações que se afiguram suficientes, e que o seriam, tomado à parte esse
caso. Mas o que assim se não explica é a repetição indefinida de contingências semelhantes e semelhantemente
previstas, de tal modo que a instituição que lhes é objeto possa dizer tranquilamente que elas se repetirão sempre,
sem que nada, até agora, desminta.

Difícil é, nestas condições, fugir à observação de Pascal: "E tudo isso se faz pela força que o predissera". A
predição não é muito menos extraordinária que o fato. O fato confirma a predição. Digamos que há aí um só fato ao
mesmo tempo espiritual e histórico, profético e efetivo. E segue-se que a explicação da Igreja, quanto à sua
perpetuidade, está na própria Igreja.

A Igreja é o vivente imortal que seu Cristo predisse ao constituí-la; ela recebeu a imortalidade com o ser, e é por isso
que afronta o tempo; é por isso que, por assim dizer, devora os ferozes acontecimentos feitos para devorá-la, e
prossegue através de tudo os seus destinos tranquilos. Isso não são hábitos de homem.

Ademais, quando se fala de perpetuidade a respeito de uma sociedade religiosa, não se trata de uma
perpetuidade exclusivamente política ou administrativa. Isso seria uma mera conservação de quadros. Para que a
Igreja seja verdadeiramente perpétua, é preciso que se conservem, como fazendo parte dela mesma, e sem
alteração essencial: o seu pensamento, isto é, o seu dogma; a sua prática, isto é, a sua moral e a sua liturgia; a sua
organização, isto é, o seu sacerdócio e os chefes do seu sacerdócio - bispos, representantes dos Doze, Papa, sucessor
de Pedro, e lugar-tenente de Cristo.

É tudo isso que não deve perecer.

E quantas ocasiões para que isso tenha perecido! Pode-se dizer que tudo é ocasião para isso; porque o
histórico se move no acidental. É clássico este adágio: Em história, tudo resulta sempre diversamente do que se
previra.

De sorte que, se não houvesse aí um princípio interno de indefectibilidade, de continuidade, tudo iria sempre a
esmo, quer dizer, ao aniquilamento sem remédio; os dogmas desvanecer-se-iam em opiniões de indivíduos e de
grupos (como no protestantismo); a prática moral e os sacramentos, a autoridade e as disciplinas mais essenciais
teriam a mesma sorte; nada resistiria dessa contextura imensa, que, ao contrário, idêntica a si mesma vemos
atravessar assim os séculos como os azares.

Todas as religiões têm mudado profundamente e têm-se esmigalhado em seitas: a Igreja de Jesus Cristo é
fiel à sua tradição unitária, memória onde - sem prejuízo das adaptações que são o sinal da vida e que o serviço exige
- se acham consignadas uma vez por todas as confidências de Deus à humanidade e as criações da sua graça.

Bem longe que o tempo deteriore a Igreja, ao contrário, ele lhe traz constantemente materiais novos;
aumenta-lhe todos os órgãos e diferencia-os, sem prejudicar a ideia vital. Quem lê hoje São Paulo reconhece nele a
sua fé, a sua regra de vida, a sua prática ritual, o seu sacerdócio, a sua organização essencial; mas que riqueza
aumentada! Que adaptação sempre mais perfeita aos problemas novos! Que manifestação obtida para o que o grão
continha! Já não é mais o "grão de mostarda", é verdadeiramente a grande "árvore".

E, se há crises e atrasos, falhas no funcionamento, não há razão para nos admirarmos; é a parte do homem.
Jesus Cristo prometeu Jesus Cristo prometeu à sua Igreja uma duração indefectível; não lhe prometeu uma saúde
indefectível; ela tem as suas doenças, "que não levam à morte". Cabe a nós fazer que ela melhore, pois a saúde, a
nossa de fiéis e chefes é que proporciona a dela.

Mas não se precisa de nós para que ela viva; ou, pelo menos, se de certa maneira a vida dela depende de nós, o
Senhor dos corações aí está para que não falta o "restinho" em que Israel pode subsistir, reserva dos tempos
melhores e penhor do triunfo eterno.
Observarei que a vitalidade da Igreja, condição da sua perenidade, é visível hoje mais do que nunca,
primeiro porque o seu desenvolvimento interno está mais adiantado, a sua diferenciação aumentada ao mesmo
tempo que a sua unidade reforçada (duplo sinal característico do progresso), o seu surfo de penetração no coração
das raças desdobrado com vigor novo; mas também porque, por esse mesmo fato e em ração de circunstâncias
históricas providenciais, o princípio católico se manifesta mais independente de tudo o que não é ele.

Uma substância reconhece-se melhor quando é isolada. Os concluíos do Império constantiniano, o


equilíbrio ofensivo do Sacerdócio e do Império, a aparência de misto político constituído pelo poder temporal, tudo
isso pereceu. A Igreja é pura; pode-se ver o que ela é. E que é ela? É isso mesmo: um poder espiritual independente
e que, a despeito das aparências superficiais que eu assinalo, sempre o foi. E pensar-se-á que isto não seja nada?
Augusto Comte via nisso um fenômeno de primeira grandeza, depois de reconhecer aí uma condição de futuro da
sociedade humana.

A lua suspensa à noite no céu claro já não nos admira, porém KEPLER, Newton, Laplace ou Poincaré passaram anos a
calcular esse equilíbrio delicado, irmão de um sono tranquilo.

A Igreja - tem-se acaso pensado nisto? - é a única sociedade religiosa assim independente que jamais se
haja mostrado na humanidade. Não seria isto um prodígio? É um prodígio nisto que uma sociedade espiritualmente
independente deve ter em si tudo o que uma autarquia dessa espécie exige para sobreviver, para não se misturar
com coisa alguma de dissolvente, para se não deixar absorver por coisa alguma de envolvente ou de insinuante, e
assim manter no mundo um poder alheio ao mundo, como seria em física um corpo liberto das forças cósmicas,
inacessível às influências que tudo transformam.

As "autarquias econômicas" de que nos falam agora, onde é que se realizam? Unicamente lá onde a
natureza proveu a isso, dando ao grupo que a ele aspira tudo o que é preciso à sua vizinhança e sem temor da
vizinhança. Se a Igreja pode ser e é uma autarquia espiritual perfeita, é que portanto tem em si, a título
independente e garantido contra toda alteração, contra todo desvio, tudo o que uma vida religiosa perpétua e
universal comporta.

Deve ela poder ir a toda parte sem se misturar em parte alguma; ocupar-se de tudo e influir em tudo sem que nada a
contamine; durar sempre sem que à falta de uma condição temporal - entendo entre as que são alheias ao seu
próprio funcionamento - possa deixá-la cair. Pese-se um tal requisito.

No curso das idades, acontecimentos não têm faltado para porem à prova essa alta independência e para
aboli-la. Ela sempre se mostrou superior a eles. Os poderes têm feito tudo para captar essa força e para escravizá-la;
as lutas épicas em razão disso por ela sustentadas são bastante conhecidas: ela tem-se saído delas constantemente
vitoriosa. Agora, todos querem tratar com ela; e ela se presta a isso; porque, se ela é independente de todos quanto
à sua vida, entende de não ser independente de ninguém quanto à ação; quer dizer que está disposta a uma
colaboração universal.

Mas, se às vezes os que tratam com a Igreja o fazem no velho espírito de envolvimento de que eu falava, ela tem
com que desmanchar e desmancha todos esses ardis terrenos. Aos vorazes, poderá ela abandonar algumas penas de
suas asas; mas não interromperá o seu voo.

Em pequenos círculos inteligentes, porém míopes, as pessoas deixam-se levar a dizer que "Musolini meteu
no bolso Pio XI", que "Hitler repete a história", etc. Isso são palavras pouco sérias.

Elevem-se antes esses tais à contemplação deste espetáculo: um soberano sem Estados, investido - por quem? - de
um poder ante o qual o universo se inclina, que diz sim, que diz não aos mais poderosos como aos mais pequenos, e
que da minúscula "Cidade", território de teoria, quase irrisório se a irradiação dele não fosse tão solene, marca
encontro para o futuro, sobre documentos autênticos, a tantos poderes que a ele não corresponderão.
Quanto durará Mussolini? Quanto Hitler? Quanto os regimes e as combinações políticas que temos sob os
olhos? não sei; mas o Papa aí estava de tal forma antes deles, que, sem se arriscar, pode-se dizer que aí estará
depois deles e depois dos que lhe aguardam a herança. Todas essas sortes de poderes têm passado, estendendo a
mão a Pedro para engodá-lo, para utilizá-lo; eles têm passado, e Pedro fica. Há aí um princípio de vida, sem dúvida, e
no entanto cumpriria dizer qual.

A independência, que é um indício de força e, nas condições em que a Igreja a manifesta, de força
propriamente sobre-humana, essa independência poderia conceber-se sem ação conquistadora? Vimos essa ação
nos seus primórdios; foi fulminante. É normal que hoje em dia o seja menos, e sabemos o motivo; porém ela é mais
evidente do que nunca.

O reflorescimento missionário é mesmo assinalado, na ora atual, por um caráter extremamente impressionante e
por um grande alcance de futuro: entendo a sua catolicidade intrínseca, se assim posso dizer, pelo acesso de todas
as raças de homens ao sacerdócio e ao episcopado católicos, até aqui mais ou menos reservados, não de direito, por
certo, mas de fato, só à raça branca.

No interior dos nossos grupos cristãos, a multiplicação das obras católicas deixar-nos-ia estupefatos, se
soubéssemos ver. Poderíamos nós supor o menor começo delas, ou mesmo o antegozo, se não fora a Igreja? Não
entendo dizer que a Igreja faça tudo; às vezes faz-se melhor do que ela; mas foi ela quem lançou tudo; o que ela
mesma não faz, procede dela quanto à origem primeira e quanto às influências que sofre: emulação, concursos,
exemplos.

Diversas tanto quanto as necessidades espirituais e temporais do homem, diversas tanto quanto a vida, a
que é que se podem comparar as obras de criação ou de inspiração católica? Noutras partes há reflexos delas: da
Igreja vem a luz. Há migalhas esparsas: nela está o pão.

Por certo! Muito mais haveria ainda por fazer do que o que a Igreja faz. Somos impacientes, e mui
sinceramente podemos ficar impressionados com as lentidões seculares da Igreja mais do que com a sua ação
secular. Mas, além de, aqui, intervirem as liberdades, e os acontecimentos, e os meios resistentes, não nos
deveríamos precatar contra uma confusão dos valores e das escalas que os medem? Não é no absoluto, é
comparativamente que convém julgar, quando se pede à experiência a resposta a esta pergunta: a Igreja é da
mesma natureza que as outras potências deste mundo, ou de natureza superior?

No absoluto, tudo é lento daquilo que se move através do humano. O próprio Deus deve evitar os métodos
"catastróficos", inimigos da sua sabedoria, que é "número, peso e medida". A Igreja, agente da Providência, e bem
decidida a com ela se manter em contato, a não precedê-la, procura nos fatos passo a passo seguidos os vestígios de
seu Deus, e é assim que ela marcha. A gente apressada censura-lhe isso: mas a gente apressada é a mais apta a
perder o tempo que a gente calma utiliza em toda a extensão.

A Igreja realiza milagres de atividade precisamente porque não se apressa, não compromete nada, nunca se obriga
ao recuo, olha longe e sem impaciência no sentido do futuro; em suma, porque conduz a ação temporal num espírito
superior ao tempo.

Falar-nos-ão de tantas misérias na Igreja? Consinto, contanto que se acrescente: e tanta santidade. Pode-se
desconhecer a força santificante e purificadora da Igreja sob suas duas formas essenciais: a forma mística e a forma
educativa ou moral? Misticamente, a vida sacramental sublima, purifica e arrasta à obra boa uma multidão de
corações. Cristo tem um império ao qual nem de longe qualquer império deste mundo pode ousar comparar-se. A
despeito da carne, do mundo e de Satanás, três potências adversas.

Ele obtém de seus fiéis efeitos de virtude e de ação espiritual que os meios antecristãos ou não cristãos não podem
pensar em conhecer; ou, se a eles chegam, devem-no ainda a Ele pelos caminhos desviados que havemos descrito.
Mesmo onde quer que a lei cedeu, aquilo que subsiste de vida sacramental: batismos, primeiras
comunhões, casamentos, ritos funerários, cerimônias públicas e privadas, ainda conserva uma armadura tal qual a
uma civilização indecisa; o futuro aí está em expectativa, e bem longe que só haja nisso um legado do passado.
Muito errados andaríamos em subestimar esses "restos".

Moralizadora, a Igreja o é em nome do céu e em vista do céu; mas o terreno de onde se alça o voo para o
céu é a terra. O Reino de Deus é temporal, dizíamos, precisamente porque é eterno. Por isso a Igreja é uma
educadora de atenção sempre vigilante, e de psicologia admirável, de experiência consumada, utilizando todos os
recursos da alma e da vida, envolvendo esta toda, como se, gerado por ela, o cristão nunca acabasse de nascer, e lhe
vivesse no amplo seio.

Um dos mais altos e dos mais preciosos caracteres da Igreja, como educadora, é a sua arte de tirar o bem
do mal. Ela reergue o pecador e não o desanima; sem pactuar, longe disto! Ela sabe compadecer-se e compreender.
Salva e utiliza assim uma multidão de valores que uma sociedade sem alma abandona às forças do mal, e depois
rejeita.

Quem dirá o de que assim se privam grupos talvez muito apressados em denegrir e em combater neste
ponto a vida católica! Os grandes pecadores que se tornaram santos, e obras como Betânia, o Bom Pastor, ou Nossa
Senhora da Caridade, ou as simples capelanias de prisões, sem falar de tantos outros sinais, deveriam no entanto
fazer refletir. A Igreja faz beleza com as fealdades, e com a força revirada das paixões faz energias puras.

Pedro, sobre o Lago, pede a Jesus para afastar-se dele porque ele é um pecador; mas a Toda-Pureza não tem destes
pudores hipócritas; ela só se afasta convidando, como uma mãe diante do filho que tropeça, e todo o surto do
arrependimento chama o homem para sobre o coração dela.

Não se quer que a santidade, que o poder santificador da Igreja prove a sua divindade, porque, primeiro, ao
gosto do censor não há bastante bem nela, e há demasiado mal. Objeção tal não surpreende; fá-la muitas vezes a si
mesmo o crente, e grande necessidade tem então de se lembrar da advertência de seu Senhor: "Bem aventurado
aquele que se não escandalizar de mim" (Mt XI, 6).

Mas no fundo desta dificuldade, como de muitas outras, há simplesmente isto: Exige-se que a Igreja seja humana ou
divina, à escolha; não se quer que ela seja o que é; humana e divina, conjuntamente, com todas as consequências.
Se uma vez se consente nesta última situação, compreende-se que, pela sua divindade, deve haver na Igreja grandes
efeitos de Graça, e bem cego quem os não vê; mas, pela sua humanidade, deve ela oferecer também todas as
misérias humanas, digo todas, visto haver nela todo o homem.

Quanto mais humanidade há na Igreja, tanto mais divindade deve nela haver para que ela sequer subsista;
porém, quanto mais divindade há, isto é, sabedoria, respeito do homem, cuidado de deixar à obra um cunho de livre
esforço e de responsabilidade, tanto mais imperfeições e taras devem nela encontrar-se.

Sem dúvida, poderia acontecer que esta última condição, a só olhar a ela, abolisse a primeira, e que de
alguma sorte o humano afastasse a Deus. Mas isto é uma suposição inteiramente gratuita. A malícia do homem não
iguala o poder de Deus. A Igreja tem em si, quando preciso, com que se reformar de dentro, mediante
reconcentração do seu Espírito em individualidades que bem se devem chamar providenciais, embora em aparência
nascidas do acaso, já que, à maneira da providência eterna, surgem sempre. Sempre o acaso, isto não será a
providência?

Quanto a recusar a hipótese, exigindo o divino puro, sob pena de absolutamente não mais ver a Deus, isto é
ditar a Deus o seu proceder. Melhor é, sem dúvida, fazer por dentro este gesto simplíssimo, a bem dizer
profundíssimo e por isto quase heróico, de se inclinar perante Deus. Então, a objeção se esvai.
Pode ela, é verdade, dar lugar a outra. A santidade, na Igreja, não provaria a sua divindade, porque tudo o
que se vê é explicável pelo homem. Mas na realidade, como observava Santo Agostinho, é mais difícil fazer um santo
ou converter um pecador do que ressuscitar um morto, o que não é obra de homem.

A despeito da audácia de uma tal fórmula, pode-se dizer que é tão difícil fazer um santo como fazer um Deus: um
raio de sol ou um sol não são obra semelhante? É ao contato de Deus e do homem que a santidade jorra; reconhece-
o um puro filósofo, como Bergson, e é esse, reconhece-o ele mais ou menos também, um dom especial da Igreja. A
conclusão está bem próxima.

A santidade da Igreja é divindade latente. Brilha em certos pontos, em certas vidas, brilha amplamente,
embora menos sensivelmente para a desatenção, no funcionamento geral da obra. Santidade concentrada ou
santidade difusa, santidade brilhante ou humilde santidade, é sempre Deus que aflora, esse Deus que a humanidade
procurava, que o seu capricho fabricava, e que um dia irrompeu nela mesma. Perguntava Santo Agostinho: "Que
vale Juno em face de uma velhinha que é uma fiel cristã?".

Não é preciso mais do que estar atento a tudo isso para vê-lo; mas é preciso olhá-lo com os olhos da alma, e não
com o espírito só.

Tendo-o reconhecido, e tendo-se capacitado de que, para a Igreja, fazer cristãos quer dizer humanos
completos, em Deus, e juntos, bem pronto se está para confessar que a Igreja e a civilização são solidárias, de tal
sorte que o milagre religioso vem aqui ao encontro do fato humano e nele se reforça.

Não se ignora, conquanto às vezes se goste de esquecer ou se esqueça por inadvertência, o que a Igreja fez
no passado. Nenhum historiador recusaria dizer que ela, a Madre Igreja, foi quem carregou nos joelhos a civilização
moderna. Mas o que ela fez no passado, está armada para fazê-lo muito mais ainda, desenvolvida como jamais o foi;
rica de funções, de pessoal e de obras: capaz de atingir, de alto a baixo da escala dos espíritos, das situações sociais e
das almas, todos os elementos humanos em busca de progresso e de felicidade.

O gênio moral que habita a Igreja é o fermento animador e o sal conservador das civilizações. O sentido da
vida, as leis do indivíduo, da família, dos grupos profissionais e especialistas de qualquer especialidade, da sociedade
nacional e internacional, com todos os seus meios psicológicos e místicos, no terreno moral, fazem parte do seu
depósito. Ela nos ajuda a adaptá-los às circunstâncias diversas. A sua ciência moral é uma consequência do seu
dogma, e a sua maternidade goza do dom de conselho.

"Alma das nações", como dizem os Papas da Idade Média, ela pode fornecer aos nossos grupos, no
espiritual, todas as suas normas de ação e todas as impulsões que os guiam. Ela consolida o reinado das leis,
fazendo-as partir da Razão divina e ir ter aos seus juízos; humaniza-as banhando a justiça no amor. Aos fatos de
autoridade ela dá por princípio a autoridade serviço público da parte de Deus; aos fatos de subordinação dá a
obediência ao poder como a Deus; aos fatos individuais que preparam a matéria social dá a vida depósito divino e
atividade em marcha para Deus.

Estão aí bases firmes.

A construção poderá em seguida inspirar-se nas largas vistas de governo que são as da Igreja. A Igreja é
eminentemente democrática quanto à definição e à apreciação dos seus valores sociais; canoniza os santos e não os
chefes, os humildes virtuosos e não os fortes. É, entretanto, aristocrática pelas suas Igrejas particulares que os
bispos governam, e é monárquica em razão de Cristo e da sua representação visível, o Papa. Pode assim dar modelos
de governo a todos os Estados, como lhes dita seus fins supremos.

O sentido social é nela tão forte que o cidadão, comungando na sua larga vida, hauriria nela um espírito
cívico em harmonia com o que seria então a sua vida espiritual. Numa grande cidade de que a gente gosta, a gente
se sente confirmado a um tempo no seu sentimento social e na sua personalidade; oceano e remeiro harmonizam-
se; no seio da Igreja universal animada de caridade e agrupada em torno de Cristo, cada um se tranquiliza na sua
própria força e na força coletiva; é um em si e um com todos; sente a humanidade dentro e fora, com Deus em toda
parte.

Como então, em particular, a eucaristia, que é como que a encarnação de Cristo em todos nós, poderia não
nos unir? Grande é a inconsciência humana; todavia, não se podem negar os vastos efeitos desse sacramento no
conjunto das sociedades cristãs. Não seria preciso mais do que fidelidade para reforçar essa ação e combater o
esfacelamento, os antagonismos criados no corpo social pelo choque dos sentimentos e dos interesses, privados dos
seus limites e do seu freio.

É certamente no dogma, na moral e no culto católicos que o acionamento desse freio e o sentido desses limites são
incomparavelmente mais bem assegurados.

Afirmando o Deus vivo, e pondo-nos com ele em vida comum; reintegrando-o, se assim posso dizer, em
todas as suas funções, em relação a tantas religiões e filosofias que o dissolvem - Deus criador, Deus legislador, Deus
providência, Deus justo e remunerador, Deus amor, - o catolicismo está em força para estabelecer a criatura na sua
consciência e na sua solidez interior, nas suas atividades autênticas e nas suas relações verdadeiras. É o fundamento
da vida que doravante é firme.

Trata-se da vida internacional, que a civilização deve considerar hoje em dia como por assim dizer idêntica a
si mesma? A Igreja é competente pra isso tanto em relação ao princípio como do ponto de vista dos meios de
realização. Pode-se dizer que, aos olhos da Igreja, a sociedade internacional é o fim dos Estados, a título de síntese
humana em Deus e em Jesus Cristo, na razão que nos liga e no destino sobrenatural que são agora obra dos
melhores! Penetre em toda parte e impregne tudo a cidade cristã, "alma das nações", e a cidade universal está feita.

A comunidade internacional é para a Igreja um fim, pela boa razão de que é um começo, e de que sempre
os princípios e os fins se correspondem. É da comunhão dos homens em Deus e em Cristo que tudo parte na vida
católica.

Se tudo parte disso no empreendimento e na intenção, a isso não deve tudo chegar na execução? Unidade
espiritual, unidade moral, unidade jurídica, unidade política sob uma forma qualquer: pode isto dissociar-se sempre?
Abordando o homem na sua unidade, o homem total, a Igreja ao pode deixar de querer a livre realização, pelo
homem, do cosmos humano, como pela sua providência Deus realiza o cosmos universal.

O grande obstáculo à união dos povos está, de um lado, na materialização das almas, que multiplica as
competições pela partilha das riquezas deste mundo, e, de outro, nos desvios do próprio ideal, que muitíssimas
vezes se extravia, ou se particulariza, ou se exacerba. O exemplo das guerras de religião ou de prestígio aí está para
nos mostrar que o idealismo nem sempre trabalha pela paz. Talvez que a catolicidade tenha aqui censuras a se fazer.

Porém, fiel ao seu princípio de justiça e de amor, elevando e unificando ao mesmo tempo os homens, como a gente
se aproxima em galgando um píncaro, a Igreja tem tudo o que é preciso para preparar o futuro do verdadeiro gênero
humano, da sociedade humana definitiva.

Em suma, a Igreja em toda parte faz dominar o espírito, e, por via de consequência, a unidade de espírito,
ligando-nos ao Espírito supremo. Ora, é uma verdade essencial, por demais desconhecida das nossas febres "soi-
disant" realizadoras, que todo trabalho civilizador tem origem no espírito. As simples técnicas, sabemos o que delas
se faz; elas dão força à barbaria tanto quanto aos valores humanos. Das nossas multidões materializadas tendem
elas a fazer uma massa de indivíduos que, espiritualmente, já não são pessoas. A Igreja desejaria fazer deles pessoas
sagradas, de boa mente diria com Bergson: deuses.

E não é essa uma razão para que ela despreze as técnicas. Nunca a ouviremos maldizer das invenções, das
organizações, das máquinas, dos processos e dos engenhos quase milagrosos que, pelo contrário, ela gosta de
glorificar benzendo-os. Porém ela sabe e repete que todos esses valores, servos do espírito, e do espírito santificado,
não o substituem; os efeitos deles dependem deste mais do que deles mesmos; pois sem ele, através da ruína do
homem, eles só redundam no nada de si. Dividem o indivíduo de si mesmo corrompendo-o; dividem-no de outrem
pela inveja, mesmo quando já não é pela necessidade.

Não se diga, pois, que por sua missão a Igreja, suposto que faça um trabalho útil, só o destine à salvação
eterna. É verdade que a Igreja tem este escopo e não tem segredos para a organização deste mundo; mas a
organização deste mundo depende dela porque depende dos homens, e, nos homens, depende justamente dessas
virtudes, desses valores morais que os devem conduzir à salvação eterna.

"As coisas que vemos não foram feitas de coisas que se vêem", diz a Epístola aos Hebreus (XI, 3). A
civilização visível tem fontes invisíveis; reside nos corações; a forma dos nossos pensamentos, dos nossos desejos,
das nossas ações individuais, das nossas relações, das nossas reações mútuas em todas as ordens e em todos os
cenários será a forma dela. A Igreja, que age sobre tudo isso na medida em que se lhe é fiel, trabalha em tudo, se
bem que por si mesma se mantenha fora dos nossos trabalhos.

Ela é a eternidade no tempo, dizemos nós incessantemente, a eternidade que anima o tempo, sem que a meçam os
nossos relógios.

Nos nossos dias de perturbação e de progressos materiais em tão violento contraste, não é inútil relembrar
estas coisas. O mundo moderno é um instrumento admirável, mas desafinado; os sons individuais persistem belos e
possantes, porém a música peca.

Muitos não veem a cauã dos nossos males e atribuem-na a algum erro de método ou de organização. Pelam
para os peritos, e muitas vezes estes procuram simplesmente meios para favorecer e exasperar a loucura dos
homens. Sem dúvida há em nós defeitos de organização, defeitos de método; mas por detrás disso, e pela razão
mesmo de haver isso, há outra coisa. Há os apetites desencadeados, uma febre absurda de vida a toda velocidade,
como de quem se persuade de ter apenas um curto instante para gozar.

Há os nossos laços afrouxados pela ausência das virtudes sociais: justiça, amor, que por sua vez dependem das
nossas virtudes individuais.

Tornando-nos bons, nós nos tornamos um bem de todos; a solidariedade, que se estabelece pela boa
vontade mútua, não é então uma cadeia de elos ocos, assume valor ao mesmo tempo que coerência. De nada serve
estar ligado a outrem se nada lhe trazer de benéfico! - talvez infligindo-lhes taras! - nem amar o próximo como a si
mesmo, tal como o quer o Evangelho, se nada se tem de si que amar.

Abdicação ou absurda presunção, isto é, abdicação retardada e cataclisma: tal é a alternativa imposta a um
mundo que recusa as leis da vida e que, por uma extensão que o fato consagra tanto quanto a fé atesta, recusa as
suas próprias leis sobrenaturais. A medida que o sentimento de Deus e o sentimento da nossa unidade espiritual em
Deus, tal como a concebe e a organiza Igreja, se vai enfraquecendo, vê-se proporcionalmente baixar o sentimento
dos homens da unidade interior e da comunidade moral. Não há mais, dentro e fora, senão forças esparsas ou
bloqueadas para fins utilitários.
Não há mais senão funções.

É em Deus criador que se acham originariamente a ideia do homem, a ideia da humanidade, a ideia do
universo, território e matéria de civilizações: é aí que cumpre reencontrá-las, e o caminho normal dessa ascensão,
desse retorno espiritual, é a Igreja. O olhar para a matéria vem depois. O estatuário pensa em bloco; mas pensa
primeiro na forma de arte da estátua e na forma do monumento que ele decora.

É por isso que Cristo homem, iniciador e chefe permanente da Igreja, Cristo na sua pessoa e na doutrina
que a exprime propondo-a, é o ponto de partida ideal da civilização; a sua perfeição domina-a toda desde as mais
antigas idades; ela é sua regra também para o futuro. Graças ao Homem-Deus, a Igreja casa em si o ideal e o real, o
terrestre e o celeste. Obriga segundo Deus e convida segundo o homem, cuja imagem autêntica apresenta; é assim
inspiradora perfeita do trabalho humano, e o seu socorro mais eficaz.
É preciso céu e terra para a germinação do que quer que seja, planta ou homem.

Por seu turno, esses espelhos vivos de Cristo que se chamam os santos são, em nome dele, modelos e
agentes de civilização que se não deveriam desconhecer.

Que não deve a humanidade a homens como São Paulo, Santo Agostinho, São Bernardo, São Francisco e São
Domingos, Santo Inácio e São João Batista de La Salle, São Francisco de Sales e São Vicente de Paulo? O que eles
trazem nem sempre é brilhante e mensurável a título imediato; mas é um trabalho de fonte, e na medida em que a
fonte lhes recebe a mensagem, torna-se, por igualdade de valor inato ou técnico, um elemento de verdadeira
civilização.

Os chefes de estado que foram santos, como São Luís, ou chefes militares como Sonis, como Foch, filósofos
como Alberto Magno e São Tomás de Aquino, artistas como Haydb, sábios como Linné ou Newton, não foram
sublimados, em igualdade de gênio ou de poder, pela sua fé ativa e pela retidão da sua vida? Assim, generalizando,
uma sociedade cristã é sublimada em todos os seus valores de civilização temporal, além da salvaguarda
proporcionada ao que constituía esse fundo.

Felizmente, resta-nos muito daquilo que a Igreja verteu nas almas de nossos pais. A nossa civilização é um
lençol d'água cuja superfície mostra uma triste escuma que terá sempre suas camadas inferiores; mas entre as duas,
circula uma corrente pura e forte, formada das altas consciências cristãs e dos herdeiros, talvez inconscientes, do
passado cristão.

É por isso que não há razão alguma para desesperar; mas é preciso despertar os dorminhocos e reconduzir
os transviados, para que o milagre de Deus no meio de nós não seja vão, justamente no momento em que a sua
oportunidade e as suas possibilidades de manifestação mais se patenteiam.

Quanto mais a humanidade dura, tanto mais necessidade tem daquilo que lhe permite tomar valor,
começando por se desprender de si mesma. Quanto mais tempo há, tanto mais empréstimos à eternidade se fazem
mister; quanto mais humanidade há, tanto mais divindade se torna mais necessária hoje do que nunca.

Cumpre que ela nos batize, se não somos batizados, que nos confirme, nos faça comungar juntos e com Deus, nos
ordene, nos perdoe também, nos case de um casamento puro e fecundo com a natureza santificada, e, se preciso,
visto que as nações e as civilizações morrem, nos unja antes da paz do túmulo e da vinda a lume dos séculos novos...

Mas também, sempre mais necessário, a Igreja está sempre mais disponível. Ela é forte; pode carregar as
desventuras do mundo e suas culpas, tanto quanto as suas virtudes e as suas venturas.

Quer se queira quer não, deve-se pois convir que as suas afirmações relativas a si mesma são justificadas;
ela é "o estandarte levantado sobre as nações" de que fala o Concílio de Trento, e pelo qual a construção divina se
reconhece. Só o dogma da Igreja explica o fato da Igreja. Fora isso, não há explicação pertinente. A gente dos
primeiros séculos estava segura disso. Quando sucede duvidarmos disso, é que nossos olhos estão menos frescos.
Deus queira que acontecimentos mais graves não nos refresque, mostrando-nos tragicamente aquilo que nos falta
depois que acreditáramos tê-lo.

Nossos pais, mais humildes, compreendiam que não o tinham.

Índice

Preâmbulo

A Igreja antes da Igreja

O nascimento da Igreja

Os primeiros desenvolvimentos da Igreja

As primeiras conquistas

A Igreja e as civilizações anteriores

A Igreja em face dos césares


A Igreja em face do tempo presente

O Pe. Sertillanges sobre Jesus e o Cristianismo


Excertos de SERTILANGES, A.D. Espiritualidade. Trad. Monjas Beneditinas da Abadia de Nossa Senhora das Graças.
Belo Horizonte: Itatiaia, 1959, pp. 3-28:

"O cristianismo não é um composto de artigos de fé e preceitos, mas a expressão da relação total de Deus com a
criação inteira, e o laço dessa relação é o Cristo.

---
Se Jesus Cristo não é tudo para nós, não é nada, visto que sua própria natureza, como Deus, é de ser tudo e, como
homem, de ser o caminho de tudo.
[...]
A doutrina do Cristo não é uma doutrina livresca; escreve-se no coração. Jesus Cristo, ele, escreveu com o dedo na
poeira; foi toda a honra que concedeu à escrita.
---
Quando dizemos que Jesus Cristo, se voltasse ao mundo, seria de novo desprezado e morto, referimo-nos aos ímpios
e incrédulos Teríamos vergonha de pensar, como é verdade, que seria tratado assim por uma multidão de crentes.
Quando alguém professa como tantas pessoas um falso cristianismo, tem tudo que é preciso para perseguir o
fundador e o modelo do verdadeiro cristianismo.
---
Muitos cristãos não guardam do Cristo, como os incrédulos, senão o que lhes agrada ou o que teriam podido
encontrar por si mesmos. É uma maneira certíssima de aniquilar o Cristo.
---
Muitos cristãos têm um ídolo como Deus, e como Cristo um testa de ferro para sua vida inteiramente pagã ou um
tema de vitral.
---

Jesus Cristo sempre ocupou o lugar todo, por sua presença ou por sua ausência, por sua virtude autêntica ou pelas
adulterações.

---

Jesus governa com um caniço. Que símbolo! Sua onipotência está em sua fraqueza voluntária, na aceitação da
humildade de sua obra, em sua humilhação e em sua dor.

---

Quem deve dirigir homens poderá jamais ser verídico no pleno sentido do termo? Não precisa sempre usar mais ou
menos de rodeios ou pelo menos esperar? Se Jesus, a Verdade em pessoa, tivesse seguido sem reservas sua própria
lei de verdade, ninguém teria crido nele e não teria encontrado um só apóstolo. Vemo-lo constantemente reticente,
por misericórdia. Algumas vezes, explica-se: 'Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não podeis suportá-las
agora' (Jo XVI, 12). E morre, isto é, passa para o Espírito os desenvolvimentos e as aplicações de sua doutrina. Mas o
Espírito por sua vez submete-se à mesma lei. Renova, quão lentamente! a face da terra. Pode-se dizer que a ação do
fermento evangélico, em nossa massa resistente ou inerte, está apenas começada.

[...]

Não são seus resultados que dão valor à Encarnação, é a Encarnação que dá valor a seus resultados.

---

Como o cristianismo e sua história têm em si, profundamente, um aspecto de esplendor moral e um aspecto de
escândalo, basta expô-los imparcialmente nesse duplo aspecto para operar imediatamente uma divisão entre os
auditores. Vê-se então claramente o que tem cada um no coração e o quanto vale.

---
Não poderíamos duvidar: a sorte que se deu ao Cristo histórico e a que se dá ao Cristo eterno medem exatamente a
grandeza moral do mundo, o equilíbrio do bem e do mal na criação.

---

Dizem que o edito de Milão, graças a Constantino, fez Jesus Cristo triunfar na sociedade. Pode-se compreender isto.
Mas na verdade esta espécie de triunfo não foi a que procurou o Cristo. Triunfar na sociedade é necessariamente
adaptar-se a ela, acompanhar seus passos, e procura-se a sociedade que alguma vez acompanhou os passos dos
Cristo. Pode-lo-ia? Podemos perguntar; com efeito, não deveria ela então declarar como Jesus: 'Meu reino não é
deste mundo'?

---

O triunfo constantiniano e todos os que a história apresenta são, em muitas coisas, derrotas e no total, vigílias ou
pelo menos ameaças de derrota. O Cristo está militando e não triunfando na terra. Ele o está sempre, em seus fiéis
como em sua Igreja. O triunfo é somente no céu.

---

Houve príncipes, homens públicos, apologistas, organizadores que pretenderam mais ou menos salvar a Igreja.
Equivalia a dizer que queriam salvar o Cristo, seu Salvador, que queriam salvar o próprio Deus, seu Criador. A Igreja
não tem necessidade de ser salva por nós, mas nós pela Igreja. O Cristo triunfará sem nós no triunfo que é o seu,
puramente espiritual, não tendo como condição verdadeiramente necessária senão a confissão secreta das almas de
boa vontade.

---

Renan admirou enormemente Jesus Cristo. Mas Jesus Cristo não quer ser admirado assim, à maneira de um ilustre
pensador; quer ser reconhecido pelo que é, e assim amado e assim imitado. A admiração que se dispensa
deliberadamente de imitação e de amor é, em relação ao Cristo, uma blasfêmia.

[...]

Aprecio aquele que, em lugar de evitar cortesmente o Cristo, se aproxima dele com franqueza, dizendo: Tu me
aborreces; temo-te. encontrar-nos-emos talvez mais tarde; no momento, retiro-me; mas tem piedade de mim
apesar de tudo. - Oh! como simpatizo com este!

[...]

Jesus pode chamar os que estão aflitos e sobrecarregados; sua própria condição não fará contraste; assumiu todos
os seus males antes de tornar-lhes fácil suportá-los

'Vós que estais aflitos e sobrecarregados'. Qual é a carga? Ele não especifica. Especificar é reduzir, é limitar. Não
hesiteis, ó homens; seja qual for vosso mal, foi previsto; há socorro para ele; se quiserdes, está de antemão curado.

'E eu vos aliviarei'. Jesus não diz: ensinar-vos-ei onde está o alívio, em que lugar encontrareis o bálsamo. Mas
diz: Eu vos aliviarei; porque o alívio é ele próprio".

A GUARDIÃ DO LAR...
''Toda mulher deve desposar a carreira do marido; o centro de gravidade da família é sempre a ocupação do pai. Aí
está situada a vida produtiva, por conseguinte também o dever fundamental. Mas isso é tanto mais verdadeiro
quanto mais nobre e laboriosa for a carreira que ele abraçou. A vida em comum tem aqui por centro um cume; a
mulher deve nele se instalar, em lugar de tentar afastar dele o pensamento viril. Arrastá-lo para bobagens sem
relação com suas aspirações é fazer o marido perder o apetite por ambas as vidas que se contradizem entre si. (…)
Os conflitos ocasionados pela incompreensão da alma gêmea são fatais à produção; eles levam o espírito a viver
numa inquietação que o corrói; não lhe sobra nenhum entusiasmo e nenhuma alegria, e como poderia um pássaro
voar sem asas, o pássaro e alma sem seu canto?
Que a guardiã do lar não seja, assim, o gênio maldoso, que ela seja a musa. Tendo desposado uma vocação, que
também ela tenha vocação. Realizar por si ou pelo marido, tanto faz! Ela tem de realizar, contudo, já que ela
constitui com aquele que realiza uma só carne. Sem precisar ser uma intelectual, menos ainda uma mulher de letras
ou uma metida a literata, ela pode produzir bastante ajudando seu marido a produzir, obrigando-o a controlar-se, a
dar o máximo de si, ajudando-o a reerguer-se na hora das inevitáveis quedas, endireitando-o quando ele vacilar,
consolando-o das decepções sem muita insistência para não ressaltá-las, acalmando-o na aflição, tornando-se sua
grata recompensa depois da labuta''.

******

A.-D. Sertillanges. A Vida Intelectual, Cap. III A organização da vida, p. 49.

Citação
"Se sempre foi verdade dizer que nenhum homem chega a Deus senão por Cristo, que em Cristo a humanidade toda
é oferecida a Deus, aceita por Deus e unida a Deus para uma vida eterna, bem necessário se torna que, de uma
maneira ou de outra, Cristo tenha existido sempre, sempre à disposição de quem quer que, homem de ontem ou de
hoje, daqui ou dacolá, procurasse o caminho para o Único Necessário e o Único Suficiente da alma humana. Há uma
gravitação universal das almas, e Cristo lhes é o sol.

Somente n'Ele está a grandeza, a inocência e a felicidade da terra. Religião viva, se assim posso falar, já que Ele se
apresenta como Vínculo, a Ponte, a Entrada, a Porta que faz comunicar e estabelece numa vida comum o homem e
Deus, deve Ele dominar a raça na sua dupla extensão, espacial e temporal. De tão longe quanto venhamos sobre o
imenso meridiano do universo moral, e qualquer que seja o momento do tempo em que situemos a nossa frágil
existência, cumpre que, de uma maneira ou de outra, toquemos nesse ponto, para tocarmos no divino que lhe é
parcialmente idêntico. Só aí a tangente infinita toca o círculo humano." A. D. Sertilanges, no livro "O Milagre da
Igreja".

ATITUDE DA IGREJA EM RELAÇÃO ÀS RELIGIÕES CONTEMPORÂNEAS DELA


Escrito por Pe. Sertillanges

Pe. Sertillanges foi teólogo e filósofo tomista. Autor da famosíssima obra "A Vida Intelectual". Também foi chefe de
redação da Revue Thomiste. Lido e recomendado nos ambientes tradicionais da Igreja.

Os sentimentos da Igreja em relação ao passado religioso do mundo, não pode deixar de aplicar-se – na proporção
devida – ao presente. Passado, presente e futuro, são diversidades temporais que trazem consigo conseqüências
parciais, mas a unidade da Igreja traz também consigo as suas, e não é possível sacrificar algumas mais do que as
outras.

Como o fim do passado é de derramar-se mediante o presente no porvir, o passado que resiste ao progresso,
embora anteriormente tivesse sido bom, muda-se em mau por efeito de sua resistência; e o que era mau se muda a
pior. As antigas religiões que conseguiram sobreviver ao cristianismo, agravaram, portanto sua malícia no que
tinham de mau e de bom, no que fez que as que denominávamos preparações e antecipações se convertessem hoje
em dia em resistências.

O dever dessas religiões antigas, enquanto tinham de desvios era endireitar-se, e enquanto eram preparações,
chegar a seu fim; resumindo: abdicar, pois uma vez chegado o perfeito, realizar-se no o que era a única possibilidade
nobre que podia ter o provisório, e por força maior o acessório, principalmente quando se achava tão
profundamente adulterado.

“A luz do mundo” devia expulsar as trevas, e chegar com sua claridade sem mácula que se se desvanece a autora e as
demais claridades dispersas, valores que foram o encanto do amanhecer, mas são no lugar um opróbrio para o meio-
dia que com isso fica retardado.

Mas não foi aceitado tal sacrifício, nem sequer o é ainda. Por causas históricas muito complicadas, como as questões
de raça, de distância material, de costumes seculares, de ignorância enraizada ou de orgulho exclusivista, de paixões
sem domar ou de boa vontade mas transviada, as religiões dissidentes se perpetuaram do mesmo modo que se
perpetuam as civilizações dissidentes.

É algo curioso constatar como estes dois casos se esclarecem reciprocamente. Os notáveis progressos destas últimas
épocas – contemporâneos, observemos bem, do cristianismo, e que no mapa coincidem claramente com seus
próprios territórios – a quão poucos homens foram de proveito! Se descartamos a nossas terras cristãs, quão
limitada é a mancha saudável de azeite difundida pelo mundo com o nome de civilização!

Pode ser compreendido, mas não aprovado. O diletantismo e o relativismo, os que quiseram ver nisso tão só
interessantes variedades, sofreram em todos os tempos as condenações da Igreja. A variedade é preciosa quando
manifesta com maior riqueza a natureza, desenvolvendo seus aspectos diversos; mas a variedade que consiste em
produzir, ao invés de homens normais, monstros ou abortos, nada tem que brindar ao filantropo, Jacobo Callot se
diverte com eles e Velázques lhes aplica com aquela sua admirável serenidade, seu frio pessimismo, mas o homem
que ao invés de pintar, obra, comporia, se tivesse poder para isso e converteria a sua estatura normal para Antonio o
Inglês e para Infante de Vallecas.

Se há de curar o que é anormal ou patológico. Se é voluntário, é preciso reprová-lo. Se é aprovado por alguns, que
seria em matéria de religião a tendência de dilentatismo ou do indiferentismo, urge o dever de denunciar o erro,
filho de uma covardia.

Nossa Igreja não deixa de fazê-lo. Diante das religiões que encontrou já estabelecidas e a perseguiram, do mesmo
modo que das que se obstinam em viver, isoladas ou agressivas, a seu lado – verdades parciais mescladas com erros
grosseiros, com práticas perversas ou com tendências perniciosas hoje, do mesmo modo que na época de seu
nascimento, a Igreja, que por virtude de Cristo e do Deus que Cristo lhe dá, é verdade integral em seus elementos,
quando não em seus desenvolvimentos, prática fecunda e santidade ativa na ordem individual e na social, sustenta
de forma contínua, sempre e em todas as partes a sublime intransigência que é o dever da verdade frente ao erro,
do bem frente ao mal e do melhor, quando sua hora é chegada, frente ao imperfeito que resiste.

Não temais – ou não espereis, segundo o espírito que os anime – que nossa Igreja adote jamais essa atitude de
tolerar dogmaticamente as religiões tais como são, fazendo cumprimentos a suas verdades e concessões a seus
erros. Não é isto próprio dela.

A Igreja diz o que há. Reivindica seus direitos. Tendo o dever de guiar à humanidade, pois continua a missão do Filho
do Homem através dos tempos, oferece a todos seu ofício mediador. Nunca se impõe, mas reprova as negativas e
classifica os grupos. Não pode aceitar que se diga: a salvação está aqui ou está ali, como se não fosse nela.

Falsos Messias – dirá ela – reconheça ao Messias! Eu sou a que leva a tocha ardente; é ainda, a própria cera da vela
vivente que se chamou a si mesmo Luz do mundo.

Eu sou o edifício, não feito por mão de homem, no qual se encontra a porta das ovelhas, aquela pela qual devem
passar para ir aos divinos pastos todas as ovelhas humanas.

Eu sou o caminho, a verdade e a vida, pois continuo a Aquele que o é, ao Deus que levo comigo.

Fora de minha verdade, há verdades, mas não tais que se sustentam sozinhas.

Fora de minha lei, há leis, mas não as há plenamente autônomas.

Fora de meus desígnios, há destinos que começam mas não os há que acabem, nem direções que possam chegar a
sua finalidade.

FORA DA IGREJA, NÃO HÁ SALVAÇÃO: eis aqui o que prontamente diz a Igreja.

Mas esta, segundo ela mesma, não é mais que uma verdade parcial. É preciso acabá-la.

Do mesmo modo que temos dito que a Igreja nascente se opôs às religiões antigas e não obstante estas lhe haviam
sido úteis; assim também temos de dizer que a Igreja vivente e permanente se opõe às religiões dissidentes e,
contudo, por obra de Deus e de seu Cristo, sua amplitude as envolve todas e se serve delas.

O que para a partida valia, é valido também para o caminho. O ser responde a suas origens.
À maneira, pois, que a Igreja em sua universalidade, que é total por obra de Deus e seu Cristo, contém a civilização
toda inteira, à maneira que contém a mesma natureza que é Reino de Deus, que está submetida aos eleitos, como
os eleitos a Cristo, como Cristo a Deus, assim a Igreja compreende as religiões dissidentes no que têm de bom e de
útil e as absorve em sua unidade.

A subordinação, pelo o que está relacionado à civilização geral, consiste em que sendo a vida humana uma unidade e
propondo-se a religião conduzir ao homem seu destino último e verdadeiro, tudo o que trabalha para o homem
trabalha também para a religião. A Igreja pode dizer, com mais direito que o antigo poeta: Homem sou (posto que é
uma sociedade humano-divina) e nada humano considero estranho a mim. O que ela oferece, ou seja a graça, se
baseia no que nos é proporcionado pela Providência: a natureza, e no que nós com nosso esforço acrescentamos: a
civilização. Todo o esforço civilizador, que é o mesmo que o trabalho da natureza, está, pois, justamente englobado
no movimento religioso que nos impulsiona até o fim humano.

Ao aplicar esta doutrina às religiões dissidentes, temos de proceder a fortiori, ou pelo contrário, diminuir o rigor
dela, segundo o aspecto sob o qual se as considere.

Há diminuição, enquanto as religiões dissidentes, tomada em sua integridade, não são semelhantes ao cristianismo
como é a civilização geral, cujos valores se oferecem tais quais são e sem redução alguma à utilização cristã. Mas há
um a fortiori em outro sentido, porque as religiões dissidentes no que têm de bom, refletem e representam a nossa;
e porque elas podem, consequentemente, na medida em que a representam e sempre acidentalmente substituí-la
em seu ofício, e isto na ordem propriamente religiosa, coisa que não pode fazer por si mesmo o trabalho civilizador.
Se teve, pois, a Igreja a visão bastante compreensiva para reconhecer a verdade e o bem nas religiões que foram
anteriores a elas, não vai negá-lo as que lhe estão próximas e são, em sua maior parte, a continuação histórica
daquelas.

Mas na verdade e no bem das religiões dissidentes, a Igreja não reconhece unicamente a verdade e o bem; ela se
reconhece, reconhecendo ao homem e a Deus, cuja síntese é sua definição, cuja obra comum é seu trabalho próprio.

O que de bom há nas religiões dissidentes, não lhes pertence; pertence à humanidade, cujos instintos teria sugerido,
pertence a Deus que sempre e por tudo deixou filtrar raios de sua luz; pertence, portanto, a verdadeira religião que
traz consigo de parte de Deus e por a mediação de Cristo, a verdadeira e completa fórmula do homem, a verdadeira
e perfeita lei do homem, os bons e eficazes meios do homem.

Nossa Igreja católica, ao abraçar com sua alma todas as almas filhas de Deus onde quer que residam, abraça
também, com seu corpo, a título de dependências extrínsecas dele, todas as fórmulas religiosas que lhe são elas
mesmas opostas, mas também servidoras, ainda que parcialmente e pelo meio que acabamos de indicar.

Dizíamos que as religiões dissidentes eram diabólicas, mas isso não é obstáculo para que acessoriamente e como per
accidens sejam providenciais. Elas não dão a graça, mas podem ocasioná-la, guardá-la ou ajudá-la a crescer, com
auxílios exteriores que Deus, hóspede de todo coração que não lhe rechaça, saberá fazer eficazes. Seu nome próprio
é o de abrigos de ocasião, da mesma maneira que temos denominado à Sinagoga domicílio autêntico provisório.

Mais lhe vale ao chinês de coração nobre e inconscientemente cristão seu Confucio que nada, seu pagode que a rua,
seus ritos que o sopro sem consistência da vida interior, suas associações bem ou mal organizadas que um
individualismo esgotante. Mais vale ao maometano seu Alá, ao índio seu Indra ou seu Deus de fogo e ainda ao
romano suas “aves sagrados” que a M. Homais sua grosseira risada.

Todas as religiões e todas as igrejas, quaisquer que sejam, merecem este louvor, ao sofrer os mesmos ultrajes. Elas
resistem e servem. Elas negam sua adesão e, apesar disso, favorecem a adesão das almas ao Deus desconhecido que
age nelas, ao qual as vezes se entregam ignorando-o, porque Cristo, irmão de todos, ainda dos que o ignoram, está
diante de sua porta fechada e toma por um sim a ausência de um não culpável, que envolve um consentimento ao
cumprimento do dever.

Cristo, embora desconhecido e exteriormente ultrajado, apesar de tudo se faz presente. Habita no deserto e bendiz
a cidade. Está em Benares, na Meca e em Roma; aqui, como em sua casa; ali, como no estrangeiro. Ele fala no
Vaticano, mas o som muezim, voz impotente em si mesma, pode pronunciar palavras que por obras de Cristo serão
eficazes. Não lhe desanimam as desfeitas se não são culpáveis. Nem sequer as perseguições lhe obrigam a fugir da
alma do perseguidor. Ele dá seu sangue aos que, sem reconhecê-lo como próprio, derramam o sangue de seus
heróicos filhos. Dá vida aos que lhe dão morte. Recebe misteriosamente aos que lhe blasfemam, mas somente com
os lábios. Promete sua vida eterna ao que lhe nega, se não o faz de coração.

Tudo perdoa, tudo crê, tudo espera, porque Ele é Caridade. Ele disse: PERDOAI-OS, PORQUE NÃO SABEM O QUE
FAZEM.

FONTE

SERTILLANGES, Antonin-Gilbert. La Iglesia, Libro terceiro, cap. II, pp. 102-108, ano 1946.

PARA CITAR

SERTILLANGES, Antonin-Gilbert. ATITUDE DA IGREJA EM RELAÇÃO ÀS RELIGIÕES CONTEMPORÂNEAS DELA


<http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/concilio-vaticano-ii/religioes/788-atitude-da-igreja-em-relacao-
as-religioes-contemporaneas-dela> Desde 21/05/2015

A Igreja antes da Igreja - A. D. Sertillanges

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Publicado em 27 Abril 2013

Escrito por Jonadabe

Acessos: 1841

Demos ao nosso primeiro estudo um título que não poderia convir a muitas
instituições. Ele significa que a instituição religiosa de que falamos se precede de alguma sorte a si mesma; que,
portanto, por alguma coisa de si mesma ela é superior ao tempo; que em todo caso lhe é igual; mas dá no mesmo;
pois só é igual ao tempo, ao invés de se deixar talhar nele uma parte arbitrária, aquilo que se mostra superior ao que
o tempo mede.

A história de toda instituição é como uma página branca tarjada de preto; precede-a o nascimento de si e outro nada
segue-a; porque tudo morre. Só a Igreja não somente não morre, mas, em certo sentido, não nasceu; porquanto, se
ela é uma realidade temporal, tendo uma história, é também uma realidade extratemporal, em razão de não passar
a sua história de uma espécie de símbolo. Símbolo real, símbolo que é uma parte da sua realidade, mas que se acha
transcendido por uma realidade mais alta, pertencente ao mundo do espírito e roçando pelo tempo apenas com a
ponta das asas. Aliás, essas asas são tão largas de envergadura que envolvem todo o tempo, à feição do Espírito
criador, de quem a Igreja é uma emanação direta.
Tal é a primeira noção a penetrar quando se quer falar corretamente dos antecedentes da Igreja.

É que, para o católico, a Igreja não é uma instituição particular, como haveria outras ao lado, antes ou depois: é uma
instituição universal, que chama a si e que a si subordina realmente toda a raça, no intuito de, por Cristo, homem
universal, uni-la a Deus que habita Cristo e que se fez homem n’Ele, a fim de que por Ele o homem suba e tenha
acesso a Deus. Nestas poucas palavras, todo o pensamento católico se encerra. Ora, a raça de que Cristo é o chefe
religioso e da qual, por Ele, o Espírito de Deus se torna a alma, a raça, digo, é todo o passado e todo o futuro, ao
mesmo tempo que o presente.

A humanidade compõe-se de mortos tanto e mais do que de vivos, escreveu Augusto Comte: pela mesma razão
compõe-se de homens nascituros tanto e mais – penso eu – do que de homens já nascidos ou desaparecidos. A
humanidade é todo o desdobramento das gerações sobre a terra, como um eu individual é o desdobramento de
uma vida em seus diversos estados. Era o que Pascal via ao escrever a sua fórmula célebre: “A humanidade é como
um homem único, que subsiste sempre e aprende continuamente”.

Portanto, se a Igreja é a humanidade religiosamente organizada por meio desse Filho de Deus – Filho do Homem,
que é Cristo, deve a Igreja ser necessariamente onitemporal. Poder-se-ia dizer que é eterna, considerando apenas o
seu caráter divino: foi o que permitiu a João, o inspirado, dizer de Cristo, chefe da Igreja, que ele é antes que o
mundo fosse nascido, ou seja, como Deus. Mas como homem, precisamente enquanto chefe da Igreja, S. Paulo di-lo-
á não mais eterno, porém onitemporal, pertencente a todos os tempos: Ontem, hoje e em todos os séculos (Hebreus
13, 8).

Não que queiramos ressuscitar aquelas lendas rabínicas segundo as quais Cristo viveria de uma vida positiva, posto
que invisível, através das gerações, por exemplo, como diziam alguns, no paraíso terreal, conservado e guardado
pela espada de fogo do arcanjo contra a curiosidade dos geógrafos! Mas não são essas realidades materiais as únicas
realidades.

Se sempre foi verdade dizer que nenhum homem chega a Deus senão por Cristo, que em Cristo a humanidade toda é
oferecida a Deus, aceita por Deus e unida a Deus para uma vida eterna, bem necessário se torna que, de uma
maneira ou de outra, Cristo tenha existido sempre, sempre à disposição de quem quer que, homem de ontem ou de
hoje, daqui ou dacolá, procurasse o caminho para o Único Necessário e o Único Suficiente da alma humana.

Há uma gravitação universal das almas, e Cristo lhes é o Sol. Somente n’Ele está a grandeza, a inocência e a
felicidade da terra. Religião viva, se assim posso falar, já que Ele se apresenta como o Vínculo, a Ponte, a Entrada, a
Porta que faz comunicar e estabelece numa vida comum o homem e Deus, deve Ele dominar a raça na sua dupla
extensão, espacial e temporal. De tão longe quanto venhamos sobre o imenso meridiano do universo moral, e
qualquer que seja o momento do tempo em que situemos a nossa frágil existência, cumpre que, de uma maneira ou
de outra, toquemos nesse ponto, para tocarmos no divino que lhe é parcialmente idêntico. Só aí a tangente infinita
toca o círculo humano.

Toda a questão, para nós, está em definir sob que formas históricas essa vida espiritual, que Cristo preside e que é a
vida da Igreja, pôde manifestar-se antes que a própria Igreja fosse deste mundo na sua forma presente.
Mas primeiro devemo-nos perguntar por que é que somos trazidos a esta complicação: a Igreja antes da Igreja,
Cristo antes de Cristo, e a todas as consequências que daí decorrem.

Há aí uma questão de filosofia religiosa que muitos não percebem, mas que nem por isso deixa de existir, e cujo
desconhecimento dá lugar a objeções variadas contra a teologia católica. Se Cristo é o ponto de partida e o meio
único de todo o movimento religioso humano, por que é que, historicamente, ele não se acha no início da história
humana? Aquilo que é definido como princípio deveria, ao que parece, fazer-se ver no principio. Natural seria que o
Novo Adão, como nós chamamos a Jesus Cristo, o segundo primeiro homem, como diz o Padre Lagrange, fosse
colocado no começo da vida universal, com toda a sua linhagem diante dele, como nosso chefe de raça temporal
tem a sua linhagem diante de si.

Em lugar disso, somos levados a estabelecer o nosso sistema religioso sobre um duplo plano: um plano quase
metafísico, segundo o qual Deus é situado em primeiro, depois Cristo, e finalmente todos os homens, seja qual for a
sua época; e, doutra parte, um plano histórico, em virtude do qual Deus está, de fato, na dianteira, mas desta vez
considerando como na ordem do tempo; em seguida, toda uma longa série de séculos ou mesmo de milênios, em
que os homens viveram sem o Cristo histórico; depois Cristo; depois uma segunda série de gerações saídas dele.

Esses dois planos coexistem e não coincidem. Podemo-nos perguntar por quê. Mas a razão não é difícil de dar, e é
pouco filosófico o motivo alegado em sentido contrário.

Um pai é obrigado a vir ao mundo antes do filho; mas um príncipe já não é obrigado a nascer antes dos súditos:
podem estes preparar-lhe o reinado. Com maioria de razão um chefe espiritual, cuja ação utiliza a Divindade,
senhora dos tempos, não tem ele necessidade de situar sua vida num momento antes que noutro? O homem poderá
unir-se a Cristo futuro tanto quanto a Cristo passado, a Cristo desconhecido tanto como a Cristo conhecido. Antes de
Lavoisier os homens viviam do oxigênio do ar e não o conheciam.

Chefe de raça espiritual, Cristo pode, pois, inserir sua vida temporal onde quer que seja, como o ponto de partida do
círculo é não importa onde, e como o fazedor de carros que empurra uma roda imprime a ação, sobre o contorno
desta, em qualquer das pinas, mas nem por isso deixa de acionar a roda toda. A roda dos séculos tem assim pinas
sucessivas que são as diversas épocas; a ação de Cristo, exercendo-se sobre uma delas, animará todas as outras.

Verdade é que será com modalidades diferentes, e eu não pretendo que a presença real de Cristo, na sua vida
histórica, seja desprovida de interesse religioso. Mas fica assente que a ação de Cristo, exercendo-se num certo
ponto do tempo, poderá irradiar-se sobre todos os outros, e sobre cada um conforme a sua natureza própria. O
passado não se comportará em relação a ele como o futuro, nem tal passado ou tal futuro como tal outro passado
ou tal outro futuro; portanto a roda do tempo não é em toda parte idêntica a si mesma, como uma roda de veículo –
nisto nossa comparação claudica; mas tudo estará, entretanto, sob a dependência dele.

Abstraindo por enquanto as diferenças particulares, dizemos: aparecendo Cristo no meio dos séculos – na plenitude
dos tempos, como diz S. Paulo -, o passado liga-se a ele sob os auspícios da esperança, da espera, das preparações; o
presente é a posse, e o futuro, volvendo-se para ele, tomará uma atitude inversa, ligando-se a ele pela lembrança,
pelos desenvolvimentos da sua obra, pelo progresso. Cristo é assim todo de todos, posto que sob modos diversos.
Resta saber por que essa organização. Mas este porquê é de uma simplicidade que só uma ignorância absoluta do
que é a vida religiosa pode desconhecer.

Há quem imagine que a religião é toda divina, vinda do alto para nós que a recebemos, sem condição de
reciprocidade, pelo menos inicial. Se ela é assim um puro benefício, não se vê bem por que não é logo concedida por
um Deus bom, por um Deus que não faz acepção nem de pessoas nem de épocas. Mas isto é raciocinar como
crianças.

A religião não é um dom unilateral; é uma permuta; é uma relação do homem com Deus. E, seguramente, nessa
relação é Deus quem começa; mas, já que o homem deve seguir, cumpre que a iniciativa de Deus se submeta às
condições naturais da vida humana, que implicam desenvolvimento e, por conseguinte, antecedentes,
concomitantes e consequentes; preparação, posse e utilização; começo, meio e fim. Esta trindade é inevitável,
resultado da natureza profunda de tudo o que nasce no tempo, visto ser da natureza do tempo comportar o
passado, o presente e o futuro.

São Tomás repetidas vezes explicou quais as razões de psicologia individual e social que se opunham aqui à confusão
das datas, se assim posso dizer, de um Cristo a preceder os antecedentes de Cristo, de uma lei evangélica não
preparada por uma lei judaica, e de uma lei judaica coincidente com uma lei natural do inicio dos tempos. Não
entramos neste detalhe; porém sustentamos que a nossa Igreja eterna, que se compõe de três elementos: Deus, o
homem, encarado na sua unidade onitemporal, e o Homem-Deus como vínculo, deve escalonar as suas
manifestações conforme as divisões essenciais da duração humana. Haverá primeiro as preparações, as
antecipações da Igreja. Haverá o fato central, constituído pela vinda de Cristo que, trazendo a Deus em si e
representando o homem chegado ao posto desejado para inaugurar uma obra religiosa perfeita, iniciará o trabalho
propriamente dito da Igreja. Haverá, enfim, o desenvolvimento, o progresso de uma obra destinada a transformar o
mundo. Será aqui a história da Igreja no sentido próprio, embora historiadores tais como Rohrbacher, vindo ao
encontro do pensamento que eu exprimo, façam remontar seus relatos até a Adão e mesmo – conforme em breve
explicarei – até ao dealbar do mundo.

Eis aqui, pois, justificado e explicado já por uma parte o nosso título: A Igreja antes da Igreja. Cumpre, porém,
precisar.

Partindo do fato de representar a vinda de Cristo, para o cristianismo, um episódio central e não um inicio, há razão
de nos perguntarmos que condições se impõem a cada um dos dramas desta trilogia: as preparações da Igreja, o
nascimento da Igreja, o desenvolvimento da Igreja.

Os dois últimos atos não nos interessam neste momento; resta, porém, o primeiro, e, para encará-lo nitidamente,
proponho um exemplo tanto mais próprio para esclarecer o nosso caso quanto, de certa maneira, faz parte dele.

Todos nós, cristãos ou simplesmente filósofos espiritualistas, dizemos que a criatura pensante é neste mundo a
razão de ser de todo o trabalho da natureza. Tudo é para os eleitos, diz S. Paulo. A humanidade é um fim em si, dirá
Kant, ou, noutros termos, a coisa subordina-se à pessoa. Sabe-se que Bergson, na sua recente obra As duas Fontes
da Moral e da Religião, retomou à sua conta esta tese.
Justamente por causa dessa finalidade, e em razão da nossa observação de há pouco, o homem não aparece no
inicio, mas deve ser preparado. Como? Primeira mente sob uma forma remota, pelo estabelecimento do seu meio,
pela elaboração das substâncias que devem assimilar-se à sua vida, pela organização das forças que ele terá de
utilizar e de que a sua vida será, por um lado, a resultante, e, por outro, a conquista. Como serão precisos séculos
para este trabalho! Começamos a suspeitá-lo; mas só poderíamos admirar-nos disto desconhecendo a desproporção
quase infinita do espírito para a matéria.

Em seguida, a título intermediário entre o trabalho cósmico e a humanidade constituída, são necessários os lentos
progressos das espécies inferiores, a cera viva de onde jorrará um dia a flama do espírito. E esse jorramento não se
dará sem uma intervenção especial do Criador; será como que um lampejo novo da Fonte luminosa imanente a este
mundo enquanto ele contém Deus; mas essa obra última nem por isso estará menos implicada numa série de que
ela será o último termo, mormente se, a coisa permitida pela fé tanto como pela ciência, admitirmos que o corpo do
homem foi preparado pela vida antropoide.

Apliquemos o nosso exemplo, e, ao invés da humanidade em relação ao globo e a tudo o que ele encerra,
encaremos a Igreja em relação à humanidade. É o mesmo caso prolongado, e a lei de desenvolvimento será a
mesma.

Diremos primeiro, e desta vez em sentido nitidamente religioso, e não somente espiritualista: Tudo é para os eleito,
isto é: Cristo, e o grupo de Cristo, a Igreja, é a finalidade de toda a história. Nada se agita no mundo senão para
promover o reinado dos fins espirituais da humanidade, que é o trabalho próprio da Igreja. O Discurso sobre a
História universal, a despeito de certas fraquezas inevitáveis a quem se propõe seguir assim os vestígios da
Providência, é, no fundo, não somente magnífico como a eloquência de Bousset, mas inatacável. Ele não faz senão
desenvolver esta antiga afirmação do Pastor de Hermas (século II): “A Igreja foi fundada antes de todas as coisas, e
para ela é que o mundo foi feito”.

Ora, se é verdade que os fins últimos devem governar desde o começo, deve-se dizer, como já o fizemos, que o
trabalho relativo à Igreja, e mesmo o trabalho da Igreja, remonta às origens do nosso mundo, e do mundo em geral,
por que tudo se liga em Deus e porque a preparação do meio natural do homem faz parte da produção do homem.

Por esta razão é que o nosso livro religioso, a Bíblia, se abre por um relato da criação: No princípio, criou Deus o céu
e a terra¸ como também a genealogia de Cristo remonta até Adão e até Deus: Qui fuit Dei. Sem isso, o plano religioso
do mundo não seria completo ao sentido do passado, do mesmo modo que, se não tivéssemos os apocalipses e os
relatos da parusia, o plano religioso do mundo não seria completo em face do futuro.

Num sentido como no outro, é preciso ir até o limite do criado e até o limiar de Deus, se assim posso dizer, de tal
sorte que Deus, tocado como Providência ao longo de toda a curva do tempo, seja tocado também, como iniciador e
como fim, nas extremidades dessa curva, à partida e à chegada do impulso universa.

Não quer isto dizer que os nossos livros sagrados ou os nossos pensamentos religiosos devam preocupar-se com
escrever a história total ou com profetizar o futuro total. A sequência dos tempos religiosos não precisa ser
completa. Não precisa mesmo ser exata do ponto de vista científico. O seu sentido religioso é que precisa ser exato,
e isso requer apenas uma historicidade relativa, feita de símbolos reais, isto é, de notações simplificadas,
esquemáticas; sacrificando o detalhe à visão de conjunto, pulando períodos inteiros como a série dos patriarcas na
Bíblia, correndo ao fim, que é manifestar o sentido da vida.
Em razão do que, ver-se-á a cosmogonia bíblica situar-se numa região mais ou menos alheia à ciência, a história
bíblica só parcialmente satisfazer a ciência, e a profecia bíblica proceder como por saltos, sem grande preocupação
das perspectivas. O que, aqui entre parênteses, explica como, sem nenhum erro propriamente religioso, podem os
primeiros cristãos crer no fim iminente do mundo. Eles têm na mente o que nós descrevemos: ontem Adão, hoje
Cristo, amanhã reintegração do mundo e Deus; simplificam, e a intensidade com que vivem essa simplificação faz-
lhes parecer mui próximos os elementos dela.

A respeito do passado, são eles ainda defendidos pela história, que não se deixa estreitar indefinidamente. Eles a
estreitam muito! Mas, a respeito do futuro, não sendo retidos por coisa alguma, e colocando-se-lhes, por assim
dizer, aos olhos a sua visão ardente, eles esperam a realização do plano num espaço proporcionado a uma vida de
homem. É um erro; mas não é um erro religioso. Eles enredam o fio dos acontecimentos com a ordem histórica das
datas de cumprimento: confusão religiosamente sem importância. S. Pedro dirá a palavra da situação observando
que, a respeito de um plano religioso universal, em que os acontecimentos têm lugares teóricos mais do que
propriamente temporais, mil anos são como um dia e um dia como mil anos. Esta reflexão de uma filosofia profunda.

Tal é, pois, a primeira face da nossa comparação. A história da Igreja começa, no mínimo, nas origens da
humanidade, como a história da humanidade começa, no mínimo, nas origens do nosso mundo.

Digo agora que as fases das preparações serão as mesmas. Haverá preparações indiretas, conscientes em trabalhar o
gênero humano, como as forças cósmicas trabalharam o globo, de tal sorte que, quando a verdadeira religião nele
nascer, ache meios de fazer sua vida, assimilando todo o humano que pode favorecer-lhe a obra. Haverá em seguida
– ou paralelamente, visto se tratar aqui menos de dividir durações do que de alinhar coisas – haverá, digo,
preparações remotas ainda, porém mais diretas, nisto que serão religiosas, do mesmo modo que, sendo a ordem
vital, o desenvolvimento da flora e da fauna terrestres preparava remotamente, mas de certo modo diretamente, o
homem. E, assim, diremos que as religiões antigas anteriores ou exteriores à obra de Abraão preparavam o
Evangelho.

Enfim, do mesmo modo que, quer lógica quer realmente, conforme as hipóteses, o antropoide preparava a vida do
homem à terra, desta vez a título imediato, assim também o judaísmo de Abraão a Jesus, preparou Jesus e sua
Igreja.

Vê-se o que há diante de nós em matéria de história. Naturalmente feriremos este assunto apenas rapidamente.

II

Não insistirei sobre as preparações remotas da Igreja que consistiam em plasmar o meio humano por um trabalho
de civilização geral, introduzindo elementos de ciência, experiência, de moralidade, de direito, de arte, de poesia,
etc., onde quer que a religião, que utiliza todas essas coisas, pudesse um dia encontrá-las. Não devemos insistir
nisso, já que, em si mesmas, essas preparações são estranhas à ordem religiosa. São-lhe, no entanto, preciosas
infinitamente como todos os nossos grandes homens têm sabido reconhecê-lo.

Os apologistas antigos, tais como Justino, Teófilo, Origenes, Basílio, Gregório de Nazianzo, Crisóstomo, Agostinho,
viam nos antigos sábios os análogos seculares dos profetas, isto é, prefaciadores do Evangelho, como se disse em
particular de Platão. Em Sócrates ou em Heráclito, essas vítimas da verdade, ousavam eles ver os análogos de Cristo
crucificado, quer dizer, mártires antecipados da ideia cristã preparada de longe pelas suas concepções geniais. Tudo
o que de bom houve no paganismo era, para esses Padres, obra do Verbo, que se difundia por toda parte antes de se
concentrar em Jesus.

Isso era confessar que as civilizações antigas e todo o trabalho humano na terra foram para o judeu-cristianismo
uma espécie de plasma germinativo, de meio nutriente que, primeiramente, o preparava; que, em seguida, o
serviria, como a química do globo, que, depois de preparar o homem, continua a servir à subsistência e às invenções
deste; com a vida animal, que o preparou mais de perto, mais de perto também o serve para sua alimentação,
vestuário, transporte, regalo e tantos outros usos.

É o que se deve ver na palavra de S. Paulo: Omnia vestra sunt. Todas as coisas vos pertencem como preparadas
providencialmente para vos servirem, a vós filhos de Cristo e irmãos na sua lei, não tendo todo o movimento do
mundo outra finalidade senão a realização dos fins superiores que são os fins da Igreja.

Isso é simplíssimo: inútil é repisá-lo, e teremos aliás de voltar a esse ponto dizendo de que maneira se fez a utilização
do passado pelo cristianismo¹. Porém o que mais delicado é de justificar é o que dissemos em segundo lugar, a
saber: que as religiões antigas preparavam, a seu modo, a Igreja e o trabalho da Igreja.

Muitas vezes, tem-se uma ideia inteiramente oposta. Isto se concebe: porquanto já não se trata aqui de uma matéria
a utilizar, porém de uma utilização já adquirida, defeituosa, e que, como parece, para um operário ulterior não pode
ser senão um estorvo. Fazer uma boa estátua com um bloco, é normal; mas fazer uma boa estátua com uma má
estátua já desbastada, para isto é preciso ser um Miguel Ângelo. O autor do David de Florença faz desses prodígios;
mas estes não se repetem muitas vezes, mesmo na sua própria história.

Por isso é que os primeiros cristãos foram tão duros para as religiões estranhas; bem longe de as chamarem
providenciais, chamavam-nas demoníacas, e, do seu ponto de vista, tinham razão. Mas, tratando-se um juízo de
conjunto, não nos devemos deixar cegar por um ponto de vista, por mais justo e mais importante que seja na sua
categoria. Demoníaco e providencia, isto não se opõe tanto como se poderia pensar. O demônio também é
providencial; só age segundo a extensão da sua cadeia, e isso mesmo que ele faz pode entrar e entra na grande
corrente que Deus dirige.

No cristianismo, sempre temos dito que uma religião qualquer é preferível à ausência de religião. É que, portanto,
uma religião qualquer tem valor em relação à nossa, e pode servir-lhe de preparação. Verdade é que é com a
condição de morrer, como uma espécie que se transmuda noutra, como um vivente que nutre um vivente superior.

Quando o passado fica aberto no sentido do futuro, prepara-o; quando pretende fechar-se e resistir à absorção,
neutraliza-se, e é nisto que se torna demoníaco; porquanto, resistindo ao bem, trabalha para o mal. Com a maioria
de razão o será se, à sua imperfeição que deveria fazer-lhe ceder o lugar, se misturam elementos perversos que
exigem uma reforma.

É o caso das religiões antigas. O que elas têm de demoníaco é a corrupção de certas crenças e de certos ritos
impostos aos seus adeptos; é, depois, a sua pretensão de reger definitivamente por sua própria autoridade a alma
humana. Mas nem por isso é menos certo que elas permanecem úteis, e que, aos olhos da Providência, são etapas.
Por mais que recusem deixar-se sobrepujar, o que elas recusam Deus saberá fazê-lo, e, completada a obra de Deus,
poderemos, como S. Paulo, volver-nos para esse passado de imperfeições e de taras, para reconhecer nele, a
despeito de tudo, o si forte allreetent eum: a procura a que Deus devia corresponder, por conseguinte uma real
preparação.

Digamo-lo, pois, sem hesitar: as próprias religiões falsas foram, no passado, abrigos provisórios para os diversos
rebanhos de Cristo disseminados pela superfície do globo. Havia rebanhos de Cristo; havia ovelhas isoladas
espalhadas por toda a estrada dos séculos, a saber: os que pertenciam à Igreja interior de que falamos, a isso a que
se costuma chamar agora a alma da Igreja. Onde estavam esses pastos, qual era o alimento deles, senão,
interiormente, a graça, que a ninguém é recusada, mas também, exteriormente, tudo o que à graça podia servir de
preparação e de meio?

Está bem entendido que os ritos pagãos não conferiam a graça por si mesmos; a ela não conduziam por instituição;
afastavam dela quando tendiam a perverter os costumes; mas podiam também ocasioná-la, e isso por uma vontade
providencial? Como? Primeiramente pelas disposições interiores que eles favoreciam, de fora, como o símbolo
favorece a realidade, a palavra o pensamento, o sacrifício o amor. Em segundo lugar, pela solidariedade de
sentimentos dos sacerdotes e dos fiéis unidos. Toda associação é criadora, em relação àquilo que vos congrega. As
águas lustrais, os sacrifícios expiatórios, os ritos sublimes da agnação, os panateneus gregos, as cerimônias
matrimoniais ou funerárias, tudo isso era ou em todo caso podia vir a ser um precioso agente de reforma moral, de
misticismo interior, e assim um meio de salvação.

Não é evidente que tais grupos religiosos da antiguidade pagã representavam, como ainda representam, a despeito
da sua desastrosa insuficiência, aspectos mui preciosos da verdade religiosa? Negando tão energicamente a vida
ilusória que é a natureza sem Deus, e voltando-se para o absoluto, não oferecia o budismo uma das metades
imensas da verdade? A infelicidade é que uma só metade de nada serve, para a utilização imediata, se estiver
ausente a sua metade complementar. Voltado para o absoluto, o budismo não soube defini-lo senão pelo nada, e
tornou-se assim uma religião de nada, um esforço puramente negativo, por consequência perversor, pelo fato de ser
visto como um todo. Uma metade de roda que faz a roda, joga o veículo no chão.

Sempre se pode dizer que, uma vez absorvido na verdade integral, o ponto de vista do budismo se tornaria
vivificante, do mesmo modo que é bebido nos nossos místicos. O formidável não que esse desprezador dirigia ao
mundo serviria de relevo ao inefável sim evangélico, e, a olhar as coisas com vistas largas, no próprio plano da
Providência, não seria sem importância para a história humana que isso houvesse existido.

Outro exemplo bem diferente: o helenismo. Esta alta civilização atingiu por instantes a verdade absoluta, desta vez
na sua forma positiva. O Deus de Platão ou de Aristóteles não está muito longe do nosso Deus; para reduzi-lo
completamente a ele, basta harmonizá-lo consigo mesmo. Qual foi o erro do helenismo? Antes de tudo foi
permanecer uma pura teoria. Ele só se realizou sob as espécies da beleza, e ainda assim de uma beleza amada até o
vício, escreveu Taine, prova de que o equilíbrio moral, que deveria ter correspondido ao equilíbrio relativo do
pensamento, permaneceu sempre instável. O ideal foi concebido e permaneceu impotente. O Verbo de Deus
irradiava, e refletia-se em pântanos, em vez de descer a eles, humilde e sublime, com o Viandante evangélico, a fim
de purificá-los.

Isso não impede a filosofia grega de se mostrar, providencialmente, um dos antecedentes mais preciosos do
pensamento cristão, e, quando este aparece, um dos seus maiores recursos. Nós ainda vivemos dela, e
humanamente pode-se dizer que o cristianismo não seria o que é se os Gregos não houvessem existido.

Assim, alternativamente, poder-se-ia louvar com louvor parcial cada uma das formas religiosas que o mundo viu
aparecer fora do cristianismo. Até nas religiões mais rudimentares, e provavelmente mesmo na mais antiga, existe o
culto da família, com um valor já muito alto. Sentir a Deus no lar, ainda quando para isso se houvesse humanizado
esse Deus fora de toda medida, é realmente alguma coisa. Bastará ampliar o pensamento para que o lar universal
presidido por Deus Padre, tendo por irmão mais velho Cristo e por inspirador o Espírito Santo, se torne precisamente
a Igreja.

A certos respeitos, esse culto doméstico, tão estreito, valia mais do que os alargamentos pretendidos dos cultos
nacionais; porque estes acabavam na política, ao passo que o culto doméstico permanecia intimo, o que constitui
um dos caracteres essenciais da religião. Sob este ponto de vista, os extremos se tocam; o universal e o intimo vêm a
juntar-se, porque, se o Deus dos Romanos só aos Romanos interessa, o Deus universal interessa a cada homem, e
lhe interessa a título íntimo, visto como a universalidade absoluta implica a imanência.

Seja lá como for, digo que em graus diversos todas as formas religiosas do passado colaboravam para o progresso da
alma humana. Neste sentido, alguém pôde dizer que não há religiões falsas, que há apenas religiões imperfeita:
maneira imprópria de se exprimir; porque essas religiões, inconscientes da sua obra e daquilo que a Providência
demandava nelas, afundavam-se num particularismo atrofiante e corruptor. De sorte que, se seus grupos eram
como que Igreja antecipadas, eram entretanto Igrejas “a latere”, abrigos de ocasião, na grande tempestade moral
que agitava o mundo. Se havia nisso coisa melhor do que nada, não havia a tal coisa que, provisória ainda, mas
definida e nitidamente orientada, já não terá senão que seguir adiante, para desabrochar em perfeição quando soar
a hora divina.

De onde virá a grande corrente de que a nossa Igreja será o desfecho natural?

Natural! Natural não poderá sê-lo verdadeiramente; porque o fato decisivo que dará nascimento à Igreja, como o
fato que cria o homem infundindo uma alma numa matéria, deverá ser um fato transcendente. Mas, num caso como
noutro, o fato criador vem inserir-se numa série de fatos em continuidade natural com todas as preparações
anteriores.

Para encontrar a primeira fonte de onde, à sua hora, sairá o rio cristão, cumpre remontar àquele momento decisivo,
posto que muito humilde, em que o “scheik” Abraão, avisado misteriosamente e um desígnio de Deus sobre ele, de
uma missão secular para a sua posteridade – que ele vê, em sonho, semelhante às areias de ouro que pontilham as
praças do céu – deixa de repente a sua terra Caldeia à frente de um bando de quinhentos ou seiscentos homens,
tomados entre os fiéis de Javé.
As razões dessa fuga são religiosas. A tribo semítica a que Abraão pertence não é estranha ao verdadeiro Deus, visto
como ele mesmo professa e representa o culto desse Deus; mas nesse momento ela incide no culto dos Terafins, ou
penates, e noutras superstições grosseiras. Nessa mistura confusa que cedo teria absorvido o melhor no pior, uma
escolha providencial é feita; Abraão é o meio para isto. Ele parte. Vai abrigar a chamazinha pura na terra isolada de
Canaã. A sua religião pessoal fixará o futuro religioso de Israel, e, por este, o futuro religioso do mundo. Ele será o
verdadeiro pai dos crentes, e sua fuga será como que a decisio seminis, o desprendimento do germe, em relação ao
meio paterno, para uma revolução ulterior.

Reconhecer-se-á aqui o último termo da assimilação de que quisemos partir para contar as etapas da preparação da
nossa Igreja?

A religião de Israel, em relação à nossa fé, é o antropoide em relação ao homem. Eu dizia inda há pouco: é o embrião
antes do desabrochar da alma; mas as duas comparações vêm a juntar-se, se é verdade que as fases da embriogenia
reproduzem em grosso, ou em todo caso simbolizam, as fases da evolução da raça.

O que falta ao embrião israelita é a alma cristã, que nele será infundida quando o Espírito descer, socializando o dom
pessoal da divindade feito a Jesus, e realizando assim na sua perfeição inicial a vida religiosa autêntica. Mas a
preparação é imediata. Israel é um corpo religioso apto ao sopro do alto. O que lhe falta à vida espiritual, ele é capaz
de recebê-lo, diferentemente das religiões rígidas ou desviadas, refratárias às reformas.

Não é que os desvios tenham sido estranhos àquele povo, que só parece ser o eleito a contragosto; povo de cabeça
dura, ou de pescoço teso, como diziam os seus profetas. Mas esses desvios nunca foram senão os meandros da
corrente que aparentemente reflui, mas que nem por isso deixa de descer o vale, arrastada por uma lei imperiosa.

Constantemente infiel, Israel constantemente se corrige, é corrigido. Javé o guarda, mesmo quando ele se esquece
de guardar Javé. Ele pensa sepultar o seu Deus no politeísmo ambiente: Deus ressuscita. E esse Deus tem caracteres
que não permitem confundi-lo com as falsas divindades populares nem com o Deus abstrato dos filósofos. Contra as
divindades dos pagãos, ele tem a sua unidade e o seu caráter moral. Contra o Deus dos filósofos, teu o seu caráter
vivo e criador.

Uno e moral Ele o é pela própria posição que ocupa, se assim posso dizer. Salvo raras exceções, a antiguidade parece
ter sido dominada pelo pensamento de que os deuses são emanações mais elevadas do que o homem, porém
emanações, todavia, da grande natureza universal. “Uma coisa é a raça humana, dizia Pindaro, outra é a raça divina;
mas uma mesma mãe as deu à luz a ambas”.

Nestas condições, o egoísmo humano, cuja satisfação depende pretensamente dos deuses, pode sempre esperar
corrompê-los ou dominá-los – corrompê-los, visto terem eles também necessidades e desejos; dominá-los, visto
serem envolvidos por influências superiores, Destino ou Natureza, às quais o homem poderá dirigir-se para impor
sua lei aos acontecimentos fora do esforço virtuoso.

A magia, que é universal na antiguidade, salvo em Israel – digo o Israel autêntico -, é a consequência desse estado de
espírito. Com uma fórmula mágica, o homem julga-se apto a dominar a própria divindade, como com um touro de
sangue rico acredita fartá-la até a embriaguez que não mais lhe pesará os dons.
O Deus de Israel, este dirá: “Acaso eu como a carne dos touros? Bebo o sangue dos bodes? Se eu tivesse fome, não
to diria, pois meu é o mundo e tudo o que ele encerra... Imaginaste que me parecia contigo... mas olha: àquele que
vela sobre o seu caminho, a esse eu farei ver a salvação de Deus” (Ps. XLIX).

Assim, uma só coisa agrada a Javé e uma só coisa pode vencer Javé: a obediência à lei do bem, que é a sua própria lei
e o seu único amor, pois ele é o Bem vivo. Quem faz o bem vê vir a si, ainda quando fosse pelo escuro caminho
entrevisto por Jó, a felicidade, flor do bem, o objeto das pesquisas que o homem só empreendeu a convite do ideal,
e que o Ideal vivo quer satisfazer.

Essas perspectivas, certamente ocultas aos olhares de muitos em Israel, nem por isso deixam de ser o fundo da alma
religiosa desse povo. Donde a sua superioridade moral – relativa, evidentemente, porém incontestável – em relação
às raças pagãs, e tanto mais notável quanto não se pode atribuí-la à sua civilização. Lede o código de Hamurabi; que
data de uns seiscentos anos antes da lei de Moisés, e achareis nele o cunho de uma sociedade muito mais policiada,
muito mais sábia. Ora, com o politeísmo, aceita ela a magia e a imoralidade que as leis judaicas claramente proíbem.

E eu dizia que o Deus de Israel não está menos distanciado dos deuses abstratos do que dos deuses mendigos ou
mágicos. É um louvor cujo alcance muitos não compreendem, movidos como são por um intelectualismo inimigo da
vida humana. “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”, dizia pascal, “e não Deus dos filósofos e dos sábios”.

É que, se os deuses populares estão em baixo, na terra, o Deus dos filósofos está no ar, o que não quer dizer no alto.
Não está em parte alguma, a não ser na fórmula do mundo. E de que serve, para a vida, o Primeiro Motor, de
Aristóteles, ou o Pai das Ideias, de Platão, ou o xioma Eterno, de Taine? O Deus dos Judeus é um vivente. É
transcendente a tudo, e a tudo é imanente. Muito alto e muito próximo, a sua figura tem uma ingenuidade popular
tão impressionante como a sua sublimidade.

Ele fala no meio da tempestade, porque é o Deus da natureza. Fala por Moisés ao seu povo, porque é o Deus da
história. Fala à consciência de cada um, porque é o Deus do bem. E com isto não é nem um Deus naturalista, como
os Baals, nem um Deus nacional, como as divindades do Império, nem o dáimon de Sócrates. É o Deus do infinito, o
Deus do coração e o Deus da história universal. É simplesmente Deus, e manifesta por si só a transcendência da
revelação mosaica.

Os que verdadeiramente vivem dele estão preparados para o Evangelho, adorando “o Pai de Nosso Senhor Jesus
Cristo”, como observa profundamente São Tomás de Aquino. Por isso os livros deles, e em particular as suas
coletâneas de orações, textos religiosos por excelência, ainda estão em uso edificante entre nós. Os salmos são o
fundamento da nossa liturgia. Neles se acha a mais alta poesia unida à vida interior mais intensa. Os nossos meios de
edificação pelo exemplo são inaugurados de maneira a mais frisante pelas admiráveis lições morais trazidas pelos
livros de Jó, ou de Tobias, pela história de Betsabé e de Davi, de Suzana, dos três Hebreus na fornalha, etc.

Quanto o culto, este se eleva em Israel até à instituição prefigurativa, ao invés dos reflexos esparsos produzidos pelo
espelho quebrado dos cultos pagãos. Ora, na prefiguração, o futuro prefigurado já se acha incluso de certo modo.
Sabem-no os nossos artistas que representam em série contínua, na unidade de concepção de arte que manifesta a
unidade de concepção religiosa, as cenas do Antigo e do Novo Testamento².
Poder-se-á dizer que essas aproximações se fazem tardiamente, e há alguma coisa a reter desta observação; mas
nem por isso o conjunto do culto hebraico deixa de andar na perspectiva do nosso. É o imperfeito que se orienta
para o perfeito e que pertence ao mesmo gênero, diriam os filósofos. É a aurora, que pertence ao dia. O paganismo,
digo o paganismo piedoso, é a escura claridade das noites, quando o peso das nuvens ou o peso voluntário do sono
não a escurecem para os nossos olhos.

Unindo os dois, ter-se-á o ciclo completo das iluminações que preparam as claridades diurnas. Tudo o que mais tarde
poderá vir a ser cristão por incorporação, em toda a amplitude do mundo antigo já é cristão por antecipação. A
nossa Igreja católica, isto é, universal, mostra-se assim deveras universal, reunindo a amplitude dos tempos sob o
imenso amplexo do seu desenvolvimento multiforme. Aquele que é revela-se, na sua Igreja, ao mesmo tempo
Aquele que foi e Aquele que será.

E o que mais do que tudo manifesta esse caráter a um tempo envolvente e desenvolvedor, tradicional e progressista,
numa palavra, eterno no curso do tempo, é o profetismo. Nele está a atadura do feixe. O profetismo na sua dupla
forma, interprete do passado e precursor do futuro, é como a ponte que liga espiritualmente as diversas idades do
mundo, que faz a antiguidade, remota ou próxima, comunicar com as esperanças, imediatas ou longínquas, que o
grande movimento religioso que domina os tempos quer realizar. Eu já disse que o profetismo, no sentido lato do
termo, não esteve ausente do próprio paganismo. Reconheceram isso os nossos Padres da Igreja. Mas, no sentido
próprio, a profecia, que se antecipa à vida da Igreja e lhe dá como que uma duração retroativa, é apanágio de Israel.

Pelos seus gritos inflamados e pelos lampejos às vezes fulgurantes do seu pensamento religioso, os profetas de Israel
transcendem a duração como transcendem o seu meio imediato. Atingem a eternidade e a imensidade onde o
Evangelho entender de se colocar. Eles falam ao Homem, o Homem de todos os tempos e de todas as raças. São os
sacerdotes da instituição religiosa universal, e, quando eles jazem no fundo do passado, olhando para o futuro, as
suas esperanças traçam o caminho que tornarão a subir mais tarde as lembranças, nos interpretes inspirados da
história.

Essas duas correntes de visões e de apelos são como que as grandes linhas que atravessam todo o teclado, num
sentido ou noutro. Por causa disso, achareis nos profetas um esboço de dogmática, de moral e de culto espiritual
muito superior ao que servia de base às instituições regulares do povo. A vida religiosa do seu tempo, que é neles o
seu máximo, neles se excede a si mesma por um empréstimo antecipado tomado ao Evangelho. E é assim que eles
são um nexo real, do mesmo modo que suas profecias são um nexo verbal, entre a antiga e a nova Aliança.

O reino de Deus que eles preconizam tem por sede as consciências, e o reino de Javé sobre Jerusalém não passa, por
assim dizer, de um símbolo desse reino. Para eles Jerusalém é antes de tudo a pátria das almas. A vida interior, que
será a essência do cristianismo, assume aos olhos deles uma importância primária; eles se incomodam menos com
as sanções temporais, cientificadas de promessas que sentem obscuramente, mas que, de fato, são as do Evangelho.

O universalismo politicamente tão estranho a Israel, introduz-se praticamente neles com a ideia da vocação dos
gentios e do acesso das “Ilhas” (como eles chamam às nações dispersas de longe) ao território religioso de Israel.

Essa Ilhas longínquas, quer dizer, o universo, aparecem ao olhar profético, para quem as perspectivas da história
judaica e da história universal se confundem, como dependências da pequena Palestina onde eles bradam as suas
esperanças. E esse juízo não é vão, visto como o futuro depende do passado que o prepara, visto como a joia,
mesmo de valor incomparável em relação à cadeia, nem por isso deixa de estar suspensa à cadeia. Israel é a cadeia
da joia evangélica; o profetismo é a pérola de espera inserida entre os elos.

Vozes do universo extraviadas num recanto do universo, vozes do infinito dos tempos localizadas num ponto dos
tempos, os profetas pressagiam e preparam a grande voz que dirá: Eu é que sou a Luz do mundo. Eu sou o Caminho;
sou a Verdade; sou a Vida. Sou a Porta por onde devem passar todas as ovelhas humanas para irem aos pastos
divinos.

Eis que avança, no limiar dos tempos novos, aquele que, último dos profetas e primeiro dos cristãos – João, o Batista
– será o liame vivo entre os dois mundos. “Preparai, clamará ele, o caminho o Senhor, tornai retas as suas veredas”.
Era o que o seu grupo religioso tinha feito; era o em que haviam colaborado remotamente todos os outros.

E chegado era o momento em que na sinagoga estreita, como no coração tenso e impotente dos homens, o futuro
do mundo sufocava; mas ele aí achara até então um abrigo, e, sem abalo exaustivo, não sem crise entretanto – pois
todo nascimento é uma crise -, ia passar do período das longas gestações para o período das manifestações,
aguardando a era dos progressos indefinidos que só a eternidade deve encerrar.

Havendo-lhe todo o passado trançado assim o berço, havendo-lhe, ai! Talhado a cruz, mas também havendo
recolhido raios de luz para a sua auréola, Aquele que devia vir podia vir.

---

1- Cf. infra, Cap. V.2- Em Chartres, quatro vitrais apresentam a mesma ideia de maneira mais audaciosa, mostrando,
cada um, um evangelista empoleirado nos ombros de um profeta.

PARA CITAR

RIOS, Jonadabe. A Igreja antes da Igreja - A. D. Sertillanges. Disponível em:


<http://www.apologistascatolicos.com/index.php/apologetica/igreja-catolica/590-a-igreja-antes-da-igreja-a-d-
sertillanges> Desde: 27/04/2013

O nascimento da Igreja - A. D. Sertillanges

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Publicado em 27 Abril 2013

Escrito por Jonadabe Rios


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A Igreja, em Deus, é eterna – primeiro pensamento incluso no Verbo que será um


dia o seu chefe, primeiro amor no Espírito que um dia lhe será a alma.

Em Cristo, o homem universal, a Igreja é também universal e, por conseguinte, onitemporal. Mas essa existência que
atravessa todos os tempos não se manifesta nelas sempre da mesma maneira. Há um centro de atração que faz
convergir os seus diversos estados para isso a que, com S. Paulo, chamamos de plenitude dos tempos, a saber, a vida
histórica de Cristo, distinta da sua vida intemporal ou de influência.

Antes do seu nascimento, preparava-se e esperava-se o Cristo; depois, a humanidade vive dEle e desenvolve-lhe a
obra. Assim com a vida religiosa, hoje em dia, não seria o que é se Cristo não tivesse vindo, assim também a vida
religiosa dos séculos antecristãos não teria sido o que foi se Cristo não devesse ter vindo. E, enfim, já que tudo se
subordina a essa obra, pode-se dizer que Cristo criou a história tanto para o passado como para o futuro. Sucede
como se “no oceano das idades” – como teria dito o nosso Lamartine, - houvesse caído um imenso rochedo. A
ondulação prossegue nos dois sentidos, e todo o mar vibra, sob a luz repercutida pelos milhões de espelhos que são
as consciências dos homens.

Tal é o ponto de vista que desenvolvíamos no capítulo precedente, e que nunca se deve esquecer quando se trata da
Igreja. O cristão individual tem toda razão de se lembrar disso, pois também é homem de todos os tempos,
enraizado no Antigo Testamento, desabrochado no Novo, homem de hoje, de ontem e de amanhã, pelo simples fato
de ser da Igreja.

Deixando agora de lado os efeitos retroativos da vinda de Cristo, temos de lhe estudar os efeitos imediatos,
enquanto aguardamos os seus efeitos ulteriores.

Esta maneira de exprimir-nos mostra em que sentido se deve tomar o nosso título “O nascimento da Igreja”. Não se
trata de um começo absoluto, como se, antes, a Igreja absolutamente não houvesse existido. De certa maneira, ela
existia em alma e em corpo. Em alma, visto como o Espírito, que lhe faz todo o valor, trabalhava; em corpo, visto
como o embrião judaico, concedido ao banho nutritivo das civilizações religiosas ou seculares do mundo antigo, era
bem autenticamente o seu corpo antecipado.

Não era isso uma razão para que a Igreja não tivesse de nascer. Nós também nascemos depois de termos vivido no
seio de nossas mães e fincado as nossas origens no coração das gerações.
Cristo, dado ao homem por uma vontade eterna, vontade que tivera consequências espirituais desde sempre, e
mesmo, não me posso cansar de repeti-lo, consequências históricas, o próprio Cristo, digo, desta vez ia revestir a
existência histórica, surgir das suas preparações e encetar o futuro.

Foi em Belém, numa manjedoura de ruminantes, sob um abrigo de natureza em pleno céu, em face de uma planície
constelada de humildes fogos, porém dominada por aqueles outros fogos que Abraão contemplava como símbolos
de sua raça, foi aí que, premido pelo amor, propondo-o Deus e aceitando- o homem na pessoa de uma pureza e de
uma humanidade todo-poderosas, foi aí que o fruto maduro da história aí irrompeu. O grão do futuro, a esperança
alimentada pelos séculos lá estava, sob a forma de uma criança que uma mãe, fecunda por obra do Espírito
universal, amamentava.

Esse seio de virgem não era porventura a figura da humanidade em trabalho, elaborando uma comida que o Cristo
coletivo, a Igreja, absorveria em breve, para crescer? Enquanto isso, o minúsculo Filho do Homem vivia dessa
comida, ele primeiro de seus irmãos, diz o Apóstolo, primeiro a ser nutrido da medula do passado, humanidade nova
e antiga por ele só, a título de Filho do Homem, a título de segundo Adão, mas trazendo em si o que podia renovar,
já que criara, trazendo em si a plenitude da própria divindade.

Por toda parte a humanidade procurava outrora o seu Deus: nesse dia, se seus olhos pudessem ter-se aberto, ela o
teria contemplado em si mesma. Esse Deus, que a envolvia desde sempre de uma influência ativa, mas parcial ainda
e pouquíssimo reconhecida, furara um ponto “a parede” (Ezequiel, VIII, 8); irrompera a massa humana e, pela
deificação pessoal de um de nós, começava a operar a deificação coletiva.

Os potentados da antiguidade, quer se chamassem Ptolomeu, Antíoco, Augusto ou mesmo Nero, viam anunciar e
saudar o nascimento deles como o inicio de uma idade áurea, como o penhor de uma felicidade a vir sobre a terra.
Aqui, a verdade substitui-se às ficções, e a idade de ouro eterna, definida pela síntese de Deus e do homem na
religião autêntica, acaba de achar o seu instrumento substancial. Jesus será o ponto de ligação, o elo intermediário,
semi-humano, semi-divino, que unirá o que se trata de unir. Como repreender-se-á que ele diga em seguida:
“Ninguém vem ao Pai senão por mim” (João, XIV, 6), e reciprocamente: “Ninguém pode vir a mim se meu Pai não o
atrair” (João VI, 44).

O nascimento da Igreja será, pois, de certo modo, o nascimento de Cristo, visto haver identidade solidária entre o
grupo organizado e Aquele que é estabelecido espiritualmente chefe de raça. “O Estado sou eu”, dizia Luiz XIV; com
mais verdade poderá Cristo dizer: a Igreja sou eu; não entendendo isto da sua humanidade individual, mas de todo o
corpo de que a sua humanidade é a cabeça.

Mister se fará apenas que esse corpo de Cristo, como efetivamente lhe chama São Paulo, esse Cristo desabrochado
em grupo, socializado, ache suas condições definitivas. Até então ele vivia em estado difuso no paganismo e em
estado embrionário no judaísmo: tratar-se-á, como dirá mais tarde S. João, de congregar em um os filhos de Deus
dispersos (João, XI, 52).

Repito, havia filhos de Deus em toda parte. As Igrejas nacionais ou domésticas ofereciam-lhes abrigos provisórios; a
sinagoga fornecia-lhes uma representação e um ponto de concentração, oficial desta vez, mas insuficiente, porque
unia mal; unia só pouca gente e em condições que não eram exclusivamente religiosas, já que era preciso filiar-se ao
povo, por uma espécie de naturalização, para se filiar ao culto. Derrubar esse templo para substituí-lo pelos
domínios do Espírito de que o templo cristão será o servo e o símbolo, eis a obra.

“Vem a hora, diz o Salvador à Samaritana, em que não será nem sobre esta montanha nem em Jerusalém que
adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos Judeus.
Mas vem a hora, já veio, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (João, IV, 21-
25). Achamos aí, em três tintas justapostas, todo o mapa religioso do mundo: a religião dos pagãos, em que se
erguem templos de ocasião, adoradores daquilo que ignoram (o Deus ignoto de S. Paulo); a região judaica, onde o
edifício salomônico abre suas portas ao verdadeiro Deus, mas fecha seus muros ao mundo; finalmente a região
cristã, onde o templo aberto ao espiritual, às dimensões do universo, já não passará, materialmente, de um símbolo
e de um auxílio.

Compreende-o a arte cristã quando, na medida do possível, sintetiza no templo cristão ideal, que é a Catedral, a
criação em todos os seus domínios. O templo eucarístico é tanto mais templo quando melhor se parece com esse
cosmos divino em que toda criatura unida a Cristo adora em espírito e em verdade.

Vem a hora, diz o nosso texto e já veio. Que quer isso dizer? Quer dizer que, estando lá Cristo, já veio, nele, a hora de
tudo o que deve ser. Essa hora veio desde Belém. Vem, entretanto, porque essa existência de Cristo, que inclui em si
a obra universal, ainda não se tornou uma ação e não está coroada pelo dom supremo.

Eis, porém, que Belém restitui a Nazaré o seu tesouro. Tendo-o visto crescer em sabedoria e em idade diante de
Deus e diante dos homens (Lucas, II, 52), Nazaré passá-lo-á a Cafarnaum, a Betsaida, a Tiberíades e às outras cidades
galileias. A Galileia, infiel, cedê-lo-á a Jerusalém, que o crucificará fora dos muros, como que para simbolizar a
universalidade do seu sacrifício. Enquanto isso, a vida oculta desenrola-se, porque convém que a obra individual de
Cristo se prepare no silêncio e na obscura meditação, como a obra coletiva que ele enceta na noite dos séculos.

Daí, tal como das profundezas do silêncio noturno se lança pela manhã o sol, o “noivo eterno” da humanidade
deixará a sombra nupcial para correr a sua carreira.

Como sempre, ele começa pela provação. Hércules entre o vício e a virtude é símbolo universal. Isento de toda
tendência para o mal, Jesus nem por isso deixa de ser sujeito, como todos, aos assaltos do mal. O mal, para ele
Cristo, seria esquecer-se de que é Cristo, isto é, homem de todos, e trabalhar para si mesmo. “Faze que estas pedras
virem pães”: atira-te do alto do templo, e apare-te o teu Deus; conquista, visando uma realeza pessoal: tal é a
tentação de Cristo.

Mas não! O homem do Reino de Deus, que é universal, deve guardar para obra universal o poder que dispõe. O
homem do Reino de Deus, que consiste em se unir a Deus, deve consultar a Providência, em vez de lhe impor seus
caprichos. O homem do Reino de Deus, que é interior, não deve comportar-se como conquistador, como se o Reino
fosse deste mundo. O Reino é neste mundo que lhe impõe as suas condições; é neste mundo como no outro, na
terra como no céu, visto que orienta o destino total; mas não é deste mundo, não detendo suas ambições sobre os
objetos das nossas preocupações temporais e excluindo o mal.
Após essa tríplice prova simbólica, o tentador é enxotado com a tentação, e a natureza do reino de Deus na terra, tal
como deverá realizá-lo a Igreja, é fixada. Jesus vai pregá-lo. O seu batismo à beira do Jordão é que lhe dá a sua
consagração de pregador.

Escutai-o, diz a Voz, e sinais visíveis oferecem como que o aparato de uma sagração. Ele foi sagrado pelo Espírito
Santo e pela virtude de Deus diz São Pedro (Atos, X, 38). Essa virtude revela-se nas pregações de dois anos e meio,
mal três, num minúsculo teatro, ao qual se têm emprestado encantos assaz incertos.

Tem-se sonhado muito sobre essa Galileia que não ousa mais viver, que se consola de haver perdido o seu Deus
rolando sobre as rochas onde ele pregava ondas de verdura, e retraçando com loureiro em flor o sulco da sua barca
que ia de margem em margem. Mui diversa foi, porém, a realidade no tempo de Jesus. A pregação do “rabi
nazareno” não é a pastoral que Renan descreveu; é um labor áspero, numa áspera terra, no meio de campônios
secos, supersticiosos, violentos, que após um momento de entusiasmo querem precipitar o seu profeta do alto de
um rochedo, depois fazê-lo rei, depois fazê-lo seu provedor, depois, que sei? E que acabam por obrigá-lo a ir-se
embora com um adeus de maldição.

Não importa. Sabemos que a literalidade dos acontecimentos tem na vida de Jesus uma importância imensa, mas no
final das contas secundária. Essa vida é um símbolo, símbolo real e ativo, sacramento cujo alcance excede
infinitamente o alcance dos fatos materiais em que se apoia. O Sermão da Montanha sem dúvida é pronunciado
perante algumas centenas de pessoas: nem por isso deixa de se dirigir ao universo, e é por este ouvido. A semente
lançada sobre os rochedos acha logo de início algumas fendas onde germinar, e o resto ressalta para ir fecundar a
terra.

É notável que Jesus não tenha procurado sair de seu pequeno país. Confinou-se num espaço que se atravessa em
dois dias de marcha. Seus primos lhe diziam: Se fazes tais coisas, mostra-te ao mundo! (João, VII, 4). Era o clamor da
evidência. Mas ele não escutava nada dessa pretensa sabedoria. Abordava o universo por um ponto, sabendo que o
fluido divino saberia passar desse ponto a todos os outros.

O mundo não é assim tão grande. O verdadeiro obstáculo à ação moral não são as distâncias. Um mínimo de tempo
e de espaço basta ao Salvador para conquistar o tempo e o espaço em toda a sua amplitude. Um ponto que se move
com velocidade infinita ocupa a imensidade, observa Pascal: é o caso de Cristo exercendo a sua atividade celeste.
Um ponto segundo a extensão, a imensidade como zona de influência.

Os homens tratam de durar e estendem-se o mais possível, porque têm apenas os seus dias medidos e a sua
estatura para se igualarem à sua obra: Cristo dispõe da estatura de Deus e da duração de Deus: não necessita
estender-se. Ele é, e isto basta; ele diz, e sua palavra acha o seu caminho por si mesma. A sua vida histórica está para
com a sua vida segundo o espírito em mera proporção infinitesimal. Galileu e pregador de três anos, é o bastante;
todo o plano religioso universal tem aí suas ligações.

O Mestre prega pois, e o que ele diz é a Boa Nova, assinalando a ideia central da sua obra.

A essência do cristianismo, sobre ela muito se há dissertado; não é sem razão, conquanto seja às vezes de maneira a
mais desarrazoada. Está aí, com efeito, o tudo da Igreja, visto ser a sua ideia vital. A ideia vital é o tudo de um
vivente; é a lei de toda a sua atividade; a não ser o caso de desvio acidental, ela torna a achar-se em tudo o que ele
faz como em tudo o que ele é; é a sua “alma”. Isso a que chamamos alma, esse princípio interior da nossa unidade e
da nossa orientação ativa, outra coisa não é senão uma ideia, real e substancial, ideia, dirá Claude Bernard, diretiva
de todas as manifestações da vida.

Na Igreja, segundo a teologia católica, alma é o Espírito Santo. Mas ainda assim cumpre saber sob que forma o
Espírito Santo entende de se dar a nós na Igreja. Não sucede com essa alma, alma universal e transcendente a todas
as coisas, como sucede com uma alma individual, que se proporciona exatamente àquilo que ela move. O Espírito
Santo nos excede e acha em nós um mero domínio parcial. Demais, se ele nos penetra, é sem nos absorver, ao passo
que a alma individual absorve na unidade de uma substância indivisa aquilo que ela anima. Resta, pois, a questão de
saber o que é que o Espírito divino quer de todos nós, constituídos em Igreja, e o que é que nos traz. É isso,
propriamente, o Evangelho.

O Evangelho, a Boa Nova, é assim chamada a priori, porque um desígnio divino é, por essência e inevitavelmente,
um desígnio de amor. A não ser que o homem o estrague! Mas trata0se aqui do desígnio primeiro, e a este nível, não
intervindo nenhuma defecção, o amor e a felicidade só se separam se, entre os dois, desfalecesse o poder.

E qual é a boa nova anunciada? É que o homem, desde sempre, foi chamado à intimidade divina; que esse desígnio,
longamente desconhecido, vai ser reatado e acha seu cumprimento decisivo na pessoa de Cristo “princípio” e “pedra
de ângulo”, “caminho, verdade e vida” (Cf. João VIII, 25; Mt, XXI, 42; João, XIX, 6). Trata-se, pois, ao mesmo tempo,
de uma intenção divina e de um fato divino; trata-se, em consequência, de uma ação, de uma lei, de um sistema de
meios, e, necessariamente, de um ambiente apropriado à fecundidade do fato, à aplicação da lei, à utilização dos
meios, à realização da intenção inicial.

No tempo, o advento de Jesus abre a fase definitiva do reino de Deus; o seu segundo advento deve encerrá-lo,
julgar-lhe os efeitos e eternizar-lhe os fins.

Jesus traz o levedo que fará fermentar a massa humana; cultiva um campo onde brotará também joio; lança uma
rede que apanhará peixes bons e maus, enquanto não vem a separação. E isto quer dizer que ele se propõe, e poupa
as liberdades.

Quanto ao essencial, a saber, espiritualmente – pois Deus é Espírito e suas obras são, antes Ed tudo, obras de
espírito -, o reino de Deus está em nós desde que nos demos a Deus e à obra de Deus sem restrição pecaminosa.
Historicamente, visivelmente, o reino de Deus será estabelecido desde essa primeira geração (Mt XXIV, 34),
porquanto o grão será semeado, Cristo provado, a sociedade fundada, o Espírito difundido e os sinais fornecidos:
ressurreição de Jesus, ruína de Jerusalém e abolição do antigo reino provisório.

Para entrar no reino, o que antes de tudo é necessário, por oposição ao judaísmo carnal, são as disposições do
coração. Importa primeiro compreender-se a si mesmo, ter consciência da sua natureza real e completa.
“Reconhece, ó cristão, a tua dignidade”, dirão os nossos Padres. Em seguida, é preciso rematar-se, seja como
indivíduo, seja como grupo. Enfim e desde o inicio, a fim de se compreender deveras e de se realizar plenamente, o
homem é chamado a ultrapassar-se para entrar em sociedade intima com o Pai, o Filho e o Espírito.

Compreender-nos é sabermos que, nascendo na terra, somos um ser de essência celeste: homo coelestis (I Co XV,
47); que, sujeito ao tempo, somos um ser de eternidade.
Realizar-se, rematar-se, é, como indivíduo, dirigir o seu desenvolvimento no sentido daquilo que faz alcançar o seu
fim, e, já que somos celestes, desenvolver em nós o celeste; já que somos feitos para a eternidade, preparar em nós
a eternidade, preferindo a todos os valor que perecem no tempo os valores eternos: Homens carnais, não busqueis
o pão que perece, mas o pão que fica para a vida eterna (Jo VI, 27). E, como grupo, realizar-se é elevar-se até à
consciência da sua unidade e tirar daí as consequências: amor mútuo, amor organizado, justiça fraterna que
superabunde em relação à justiça dos pagãos e em relação à pretensa fraternidade, que não passa de uma coesão
dos nossos pós. Pai, que eles sejam um como nós. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, sejam eles também um em
nós. (Jo XVII, 11, 21).

Enfim, ultrapassar-se, por uma vida em comum com seu Princípio, é aceitar a graça e merecer-lhe o crescimento. Se
alguém me ama, meu Pai também o amará, e nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada (Jo XIV, 23). Porém
primeiro, se vós me amais, observai meus mandamentos (Jo XIV, 15). E por isto sobretudo, por isto essencialmente,
se reconhecerá que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros (Jo XIII, 35).

Essa habitação misteriosa do divino em nós, juntos, esse renascimento em Deus de todo o grupo humano, é que
prepara e permite a ascensão inaudita de um pequeno ser ao contato imediato do seu Princípio, e essas sublimes
intuições que são o fundo da vida celeste prometida. “A vida eterna é que eles te conheçam, a ti único Deus
verdadeiro, e Aquele que enviaste” (Jo XVII, 3).

Mostrar tudo isso, em minúcia, nas palavras de Jesus – sentenças, discursos ou parábolas -, não temos que vagar
para tanto; mas, pelos nossos apóstolos, pelos nossos Padres e pelos nossos teólogos, sabemos que nelas se acha a
substância disso³.

Dissemos que o passado tinha feito prevê-lo e olhe preparara o desabrochar: por isso Jesus se refere muitas vezes ao
passado, embora assinalando as diferenças. Faz ressaltar o que há de bom nos meios pagãos, exaltando o publicano
virtuoso e o Samaritano caridoso. Abstém-se de condenar a lei, dizendo que vem apenas aperfeiçoá-la. Superior a
Moisés, nem por isso deixa de lhe ser o continuador, e, se pode levá-lo mais longe, é que o coração duro dos homens
foi amolecido lentamente pela penosa experiência da sua impotência. Agora, o progresso vai declarar-se. O que o
mundo pagão autorizava, Jesus condena; o que Moisés concedia à dureza dos corações, Cristo recusa-o.

A ação divina no mundo é de uma continuidade que a sua matéria condiciona e perturba frequentemente, mas que
tende a subir. Já que hoje os tempos estão maduros pra uma transformação profunda, cumpre organizar os méis
desta. Faz-se mister uma alma nova aos humanos, ei-la: O Espírito do Evangelho. Mas, para que essa alma trabalhe,
é preciso, como dissemos, que organize para si um corpo. Sucedendo ao corpo plasmático das antigas organizações,
ao corpo embrionário constituído pela sinagoga, torna-se necessário agora um corpo religioso que corresponda à
idade perfeita das revelações, à vida plena da grande obra. É esse corpo que vamos ver brotar sob a ação humilde,
harmoniosa e pejada de imenso porvir que devemos agora contemplar.

II
Quando se diz que Jesus Cristo fundou a Igreja, há quem peça para ver, no tempo dele, um grupo religioso
semelhante ao nosso, diferindo apenas pela amplitude. Teremos de dizer até que ponto, filosoficamente, essa
concepção é falsa. A Igreja, nos seus primórdios, tem apenas delineamentos; porém faz-no-los vez no próprio dia em
que a ideia nova vital é lançada na sua matéria consciente.

Jesus faz-se reconhecer; fala, e a sua influência, que é uma lei de vida, apossa-se da matéria ambiente na medida em
que essa matéria está preparada para recebê-lo. “Vem!” diz ele, e a pessoa vem (Mt VIII, 9; Mc X, 21; Jo I, 46). Ou
mesmo, como no caso de Madalena, de Nicodemos, nada havendo ele pedido, acorre-se, reconhecendo nele o ideal
que se procurava. Assim as substâncias que o turbilhão vital arrasta colocam-se sob a lei da alma.

A alma espiritual introduzida no mundo por Jesus vai assim, por atração, por conaturalidade, constituir para si um
corpo. Ninguém vem a mim, dizia o Salvador, se meu pai não o atrair. Que é essa atração do Pai, se não é Deus vivo
nas almas sob a forma de um apetite sobrenatural que ele provoca, e que em seguida saberá satisfazer, quando
essas almas tiverem reconhecido em Cristo o meio de realizarem o que procuravam?

Essa atração interior constitui rapidamente a Jesus um grupo de aderentes, homens e mulheres, em número
bastante grande, entre os quais emergem e se distinguem, nomeadamente escolhidos, setenta ou setenta e dois
discípulos. Digo nomeadamente, embora nenhum catálogo autêntico nos tenha chegado; mas a cifra setenta (ou
setenta e dois segundo os manuscritos) é dada por Lucas (X, 1), e alguns nomes sobreviveram, como Barnabé ou
Sóstenes.

Um terceiro grupo mais restrito e especialmente eleito será o dos Doze, entre os quais Pedro, Tiago e João parecem
formar ainda uma seleção. Enfim, Pedro revela-se como o chefe, o centro de unidade para o futuro, quando o centro
eterno, Cristo, se tornar invisível.

Ora, Jesus toma bem cuidado de dizer aos que terão um papel no Estado espiritual por ele construído, que Ele os
escolhe, e não apenas os recebe por uma espécie de acessão passiva (João XV, 16). Assinala assim a sua intenção,
que é de lhes conferir um poder social. Intenção que aliás se revela em múltiplas palavras assaz conhecidas, palavras
que não deixam dúvidas senão aos que dúvidas procuram.

E que a sociedade que ele assim funda não seja uma sociedade particular, porém a cidade universal das almas, é o
que já assinala simbolicamente essa cifra doze, que corresponde às doze tribos, isto é, à humanidade religiosa
provisória, ao novo Israel, à Igreja incoativa de que falamos, e também a cifra setenta, ou setenta e dois, que
correspondia, segundo a tradição judaica, ao número das nações da terra, a que o Evangelho concerne. O próprio
Jesus faz ressaltar esse simbolismo, prometendo aos Doze uma glória que ele figura por doze tronos, julgando as
doze tribos de Israel (Mt XIX, 28). Julgar as doze tribos de Israel no fim dos tempos, é julgar o mundo, havendo-se
este, graças à Igreja universal saída da sinagoga, tornado o prolongamento religioso de Israel.

Mil vezes tem-se feito notar que esses fundamentos da obra cristã, os apóstolos, não são uns letrados, uns filósofos,
ou pessoas importantes nos seus grupos; são pessoas de pouca importância. Não que haja nisso o menor
exclusivismo democrático; o Evangelho não é propriedade dos pequenos mais do que dos grandes; não se deixará
que ele seja açambarcado por ninguém; mas, se – pelo espírito ou pela situação – devem os grandes ser mais tarde
incorporados ao organismo constituído, é útil que eles próprios não sejam constituintes, para não parecerem
usurpar o papel assimilador que pertence à ideia vital.

O estabelecimento da Igreja toma assim o seu ponto de partida. Simples lineamentos, mas com um espírito ativo e
com centros de ação organizadora, que já se coordenam numa espécie de encéfalo, na pessoa de Pedro. É o embrião
no inicio do desenvolvimento. Jesus experimenta-lhe, por assim dizer, a vitalidade e convida-o a tomar por si mesmo
a consciência dela, confiando aos Doze, até aqui instruídos pouco a pouco, missões que servirão de prelúdio à
conquista do mundo. Que isso esteja prenhe de todas as realizações e de todas as organizações ulteriores, fá-lo
Jesus ver, e assinala simultaneamente a unidade, a significação transcendente e o futuro da sua obra numa
circunstância que figura entre as mais solenes da história cristã.

Era em Cesareia de Filipe. Julgando chegada a hora de se declarar completamente, Jesus pergunta de repente aos
Doze, depois de fingir interrogá-los sobre o estado da opinião pública no tocante à sua pessoa: E vós, quem dizeis
que eu sou? A esta pergunta inopinada, é Pedro quem se levanta e quem, com o entusiasmo pronto que está na sua
índole, mas, quanto ao fundo, inspirado de mais alto, exclama: Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo.

Feliz és tu, declara-lhe o Salvador, feliz és tu, Simão Bar-Jona! – e lhe declina os seus nomes de homem para convidá-
lo a compreender que o que se passou nele não é do homem. – Não foram a carne nem o sangue, quer dizer, a
educação doméstica ou a intuição humana, ainda quando trabalhasse sobre os dados que lhe fornece o espetáculo
de uma vida divina, não foram a carne nem o sangue que te revelaram estas coisas, porém meu Pai que está nos
céus. É preciso a intervenção dos céus para a palavra de fé tal como ela vem à autoridade em vista do grupo.
Porquanto foi em vista do grupo, e como que já em seu nome, que Simão falou inspirado do alto.

Logo lho declara Jesus, e sua réplica é ao mesmo tempo uma espécie de recompensa pessoal e de definição da
Igreja: E eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão
contra ela. Falar assim não é fundar a Igreja num trocadilho, como levianamente disseram alguns; é dar o seu
emprego natural a um nome simbólico atribuído desde o início a Simão, conforme o costume judeu, quando Jesus
lhe disse, escolhendo-o: Tu que te chamas Simão filho de Jonas, chamar-te-ás Kephas, quer dizer, Pedro, ou Rochedo
(Jo II, 42).

Portanto: Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. A ideia de uma construção regular e durável é
aqui nitidamente afirmada. Não se trata de uma assembleia de acaso, formada de próximo em próximo, mas de uma
obra fundada que subsiste. E as portas do inferno não prevalecerão contra ela. As portas do inferno, quer dizer, as
potências da morte, que triunfam de tudo o que é humano, que se fecham, indiferentes e fatais, sobre tudo o que a
natureza ou o homem sós põem a lume; quer dizer, ainda, as potências do mal, de que Satanás é o tipo, e cujas
cidadelas se erguem em face da cidade do bem. A Igreja não sucumbirá a nenhum desses ataques; a Igreja não
morrerá, e seu fundamento, a sé de Pedro, durará tanto quanto ela. Tal é a promessa. “Fato curioso, observa Henri
de Tourville, o desse homem da Galiléia, que não teve em sua pessoa nada de extraordinário, e a quem um amigo,
aldeão de Nazaré, usando do mundo e do futuro como senhor, por sua simples autoridade e com uma palavra
colocou no pináculo da história e à frente da humanidade”4.

Na continuação do texto, a função de chefe é figurada pelas chaves, insígnia do intendente ou mordomo de palácio.
Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus, isto é, o poder de admitir ou de rejeitar os fiéis. No Apocalipse, é o próprio
Jesus quem traz as chaves de Davi, como Grão Mestre do Reino de Deus. Aqui trá-las-á, por procuração o seu
discípulo chefe, primeiro porteiro do Reino.
Esse reino evidentemente é a Igreja, visto que Jesus acrescenta: Tudo o que ligares na terra será ligado no céu, e
tudo o que desligares na terra será desligado no céu. Esse poder de ligar e de desligar, que significa permitir ou
proibir, é relativo às ações ou às coisas, assim como o poder de admitir ou de rejeitar é relativo às pessoas. Assim, o
magistério de fé indicado pela primeira declaração do Mestre (como aliás por muitas outras palavras), e o magistério
governamental implicado na segunda, são claramente definidos.

Tinhamos razão de dizer que um tal fato é central no estabelecimento evangélico da Igreja; ele serve de base à obra,
com a sua forma hierárquica claramente centralizada, é necessária à ação espiritual predita. Tudo, partindo de uma
Encarnação para se adaptar à natureza carnal ao mesmo tempo que espiritual do homem, tudo deve envolver em
seguida no visível, e não no espiritual puro, isto é, no invisível. O que deve ser visto é a humanidade nova agrupada
em torno de Cristo, redimida, unida ao Pai com sua própria unidade, animada pelo Espírito. Isso não é possível sem
uma organização social, sem uma representação, sem uma diversidade de funções exprimindo a diversidade humana
na unidade, à maneira de um corpo. E, como um é que manifesta melhor um, do mesmo modo que, no ponto de
partida, tudo se concentra na unidade de Cristo, concebe-se que a representação principal de Cristo seja por sua vez
unitária. Donde a eleição de Pedro, ponto de partida do Papado, Jesus não mencionou expressamente sucessão; mas
criou o papel; mais tarde, como agora, bem forçoso era fosse esse papel desempenhado. O próprio Jesus coloca a
duração de sua Igreja na dependência do Rochedo sobre o qual a funda, e di-la perpétua. Pode-se, pois, pensar que,
se desde o início ele assim não houvesse disposto, isso se teria espontaneamente estabelecido mais tarde, bem
longe de ser um desvio posterior, como pretendem alguns, e um plágio da autoridade romana.

Quando ao magistério sacramental, este resulta de outras declarações não menos precisas, das quais dentro em
pouco encontraremos a principal.

Mas, antes das palavras supremas e antes do supremo apelo ao futuro, a instituição da Igreja necessita, no presente,
de uma consagração dolorosa.

Os pactos sociais da antiguidade selavam-se sempre por um sacrifício. Por isso dizia-se: ferir uma aliança, matar uma
aliança: ferire foedus, mactare foedus. Um sacrifício mais alto deve aqui intervir, porque a aliança entre Deus e o
homem, em mira a fundar essa vida em comum que é a Igreja, requer da parte do homem um esforço de ascensão e
de purificação que não pode ter lugar sem dor. O Filho do Homem assume-lhe o encargo coletivo, e acha-se preso
por sua obra numa espécie de engrenagem onde deve necessariamente sucumbir.

Nos confins de todos os mundos, entre o passado e o futuro, entre a terra e o céu, entre a matéria e o espírito, entre
a culpabilidade e a justiça, deve ele ser esmagado e sacrificado pela aproximação temível que ele tem por missão
promover.

O passado não quer perecer; o futuro tem dificuldade de nascer; toda passagem renovadora é acompanhada de
conflitos; todo nascimento é uma crise.

A matéria não quer ceder; o Espírito desarranja-a nas suas combinações e nas suas esperanças; ela vai resistir, e
resistirá a ponto de Pascal poder dizer: Jesus estará em agonia até o fim do mundo. A sua agonia presente será
causada pela resistência imediata de um meio corrupto, símbolo bem indicado daquilo a que o Salvador chamava o
mundo.
Quanto ao céu e à terra, estes não podem juntar-se e unir-se senão no crisol do amor – amor reparador, em relação
a um passado carregado de responsabilidades e de misérias; amor inspirador, prestimoso e vencedor em relação ao
futuro.

Ora, esse amor deve ser visível e para sempre indiscutível. Ninguém ama mais, disse o próprio Jesus, do que aquele
que dá a vida por seus amigos (João XV, 13). Em Cristo martirizado, Deus e o homem dar-se-ão reciprocamente essa
prova. O homem morrerá por seu Deus; um Deus morrerá por seu Deus; um Deus morrerá pelo homem. Desse
duplo selo do Testamento, o rótulo da cruz será o quirógrafo. Em hebraico, a língua do passado religioso; em grego,
língua da civilização temporal; em latim, língua do poder viril e conquistador do Romano, poder-se-ão ler os perdões
e as munificências celestes, as retribuições generosas e os esforços de uma criatura assim prevenida pelo amor.

Grandezas de carne, grandezas de espírito e grandezas de caridade, consoante a divisão célebre de Pascal, unificar-
se-ão assim na caridade superabundante e mortal. O passado, sublevado em tempestade, por mais que julgue
quebrar e suprimir o que considera ser antagonista, não fará senão desprender violentamente da árvore humana o
grão de futuro que é Cristo, e, sepultando-o numa terra que ele próprio contribui para tornar fecunda, graças aos
cuidados de uma Providência mais forte do que as suas cóleras preparará as futuras germinações.

Foi o que repetidas vezes Jesus procurou dar a compreender aos seus. Se o grão de trigo caído em terra não morre,
dizia-lhes ele, fica só; mas, se morre, dá muitos frutos (João XII, 24). Cumpre dizê-lo, a esse pensamento eles eram
refratários. O próprio Pedro, a despeito das suas declarações proféticas, antes por causa mesmo dessas declarações,
cujo sentido profundo lhe escapava, Pedro exclamara um dia: Longe de ti isso, Mestre! E o mestre, voltando-se, lhe
dissera: Retira-te de mim, Satanás, tu me serves de escândalo (Mt XVI, 23). Ele reencontrava no discípulo o Tentador
dos seus primórdios, que o excitava a subtrair-se indene e glorioso a uma obra essencialmente mortal. Então,
insistindo no sentido da sua profecia, o Salvador especificara: É necessário que o Filho do Homem sofra muito, e seja
morto, após o que ressuscitará ao terceiro dia (Lc IX, 22).

Efetivamente, cumprido o rito, consumado o sacrifício e fornecida a prova, Cristo não tem razão para ficar no
túmulo. Convém que saia dele, provando, pelo seu domínio póstumo sobre a morte, o seu domínio anterior, e em
consequência o caráter generoso da sua paixão. Dou minha vida para retomá-la, disse ele, e ninguém ma rouba; mas
dou-a eu mesmo; tenho o poder de dar e o poder de a retomar (Jo X, 17).

Tendo-a, pois, retomado após o silêncio misterioso dos três dias, ele retoma ao mesmo tempo a sua obra. A sua
morte era um simples episódio. Longe de ser um fim, era o verdadeiro começo, visto que, indispensáveis como são
as utilidades que dela virão, não se podia verdadeiramente começar senão depois desse aparente fim de tudo.

Eis que de novo Jesus aparece e fala. Quarenta dias de sobrevivência correspondem aos quarenta dias do deserto,
enquanto ele preparava a sua missão. Então ele jejuava, privando-se de um alimento necessário. Agora, come sem
mais ter fome, liberto das misérias mortais, porém querendo condescender e provar.

Os quarenta dias do deserto foram a transição entre a vida oculta e a vida ativa; os quarenta dias de sobrevivência
serão a transição entre a vida individual e a vida de Cristo em seu “corpo” social. O Cristo individual mostra-se assim
desaparecendo, voltando ao espiritual completo, e, se a sua vida terrena foi o último passado, se a sua morte foi o
instante solene dos nascimentos, a sua sobrevivência é o primeiro futuro. O caminho doravante está aberto a uma
obra que ele concebeu como Deus, aceitou em nome de todos como homem, e iniciou como síntese viva dos dois
princípios que agora se trata de fazer agir.
***

Após a dupla lição de coisas da cruz e do túmulo glorioso, os discípulos estão maduros para uma colaboração
consciente e efetiva. Jesus lhes fala como a quem de ora em diante pode ouvir. O Espírito virá, que lhes confirmará
tudo. Mas desde já ele, Jesus, lhes põe nos ouvidos palavras cujo som não mais poderá extinguir-se. Diz-lhes: “Todo
poder me foi dado no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Padre, do Filho e
do Espírito Santo, e ensinando-as a guardar tudo o que vos mandei. E eis que eu estou convosco todos os dias até o
fim do tempo” (Mt XXVIII, 18).

A presença misteriosa de que o Salvador aqui fala entende-se de várias maneiras. É a presença eucarística; é a
presença interior pela graça que o Espírito Santo traz. Mas é também a presença social por procuração. Porquanto,
tomando à parte Simão Pedro, Jesus lhe reitera solenemente os seus poderes. Diz-lhe: “Apascenta minhas ovelhas,
apascenta meus cordeiros” (Jo XXI, 15).

O serviço da palavra de Deus pelos apóstolos e seus sucessores; a administração do batismo, o sacramento da
entrada, que coloca o cristão na trilha de todos os outros sacramentos; o exercício da autoridade por um grupo que
tem por chefe claramente designado Pedro e sua sequência sucessora (já que isso deve durar até o fim do tempo);
tudo isso acha-se, pois, determinado. E tudo isso é a Igreja.

Alguns têm dito que essas palavras tão claras não pertencem à história, por nos virem de Cristo ressuscitado, o que,
sem dúvida, no pensamento deles, quer dizer: de um Cristo de sonho. Mas Cristo ressuscitado é para nós coisa mui
diversa de um sonho. Já não é mais, se se quiser, um ente histórico no sentido pleno do termo, já que a sua vida,
doravante transcendente, escapa às leis do que se agita no tempo; mas é um ser historicamente agente, visto que se
manifesta por fenômenos reais, insertos na trama da história, e que nela produzem efeitos. Aliás, as mesmas coisas
ouvimos da boca de Cristo vivo temporalmente, e nenhuma razão permite pô-las em dúvida.

A Igreja nasceu, pois, realmente. Nascida era ela desde sempre no seu Cristo-Deus. Nascida era em Belém no seu
chefe homem e Deus. Nasceu de ora em diante em si mesma como sociedade organizada de uma organização inicial,
mas positiva. Estreia humildemente; é bem o pequenino rebanho de que falou o divino Mestre (Lc XII, 32). Mas a
esse rebanhozinho ele prometeu um reino. O reino dilatar-se-á pouco a pouco na terra, segundo a lei de
desenvolvimento progressivo que foi a do mundo antigo, mas com um elemento novo, perfeito em si, posto que
indefinidamente perfectível em nós.

E o reino assim regido, ao mesmo tempo que preparará o futuro da raça, salvará, alma por alma, aqueles que
quiserem submeter-se às suas leis. Procriará eleitos para encher o céu. O Reino dos céus terrestre: tal será o nome
da Igreja “militante”. O Reino dos céus puro e simples: tal será o nome da Igreja “triunfante”. Um dia, eles se
juntarão, quando Aquele que vai partir voltar, desta vez liame definitivo entre as duas séries de fatos que dividem a
vida do homem: fatos temporais, fatos eternos; fatos materiais, fatos espirituais; fatos do passado e do presente,
fatos do futuro.
É a segurança que, para acabar, mensageiros celestes dão aos Doze, depois que a nuvem de luz lhes furtou aos olhos
o Senhor que sobre ao céu, sobre o horizonte de Jerusalém e do mundo.

Mas, antes, a série dos tempos religiosos deve desenrolar-se ainda sobre este solo. Os apóstolos e a Igreja têm de
cumprir a sua missão do tempo: recrutar adeptos ao plano divino, regê-los, e, para isso, organizar-se, progredir,
defender-se, estabelecer a obra no coração do tempo, e prossegui-la. É o que os veremos empregar-se com uma
atividade e um êxito que evidentemente parecerão exceder o homem, tão eficaz será o Espírito deixado como
sucedâneo divino por Aquele que acabava de pôr termo à sua presença visível.

O Espírito! O Espírito do Cenáculo com suas línguas de fogo, com o seu vento violento, com os seus dons e os seus
presságios, dele se pode dizer que pela sua vinda, o seu coroamento à obra de fundação da Igreja. Realiza-lhe a
Confirmação.

A ascensão e a sediação à destra do Padre rematam e levam ao perfeito a divina Pessoa dada à Igreja com “cabeça”;
libertam-na da sua mortalidade e das suas outras fraquezas voluntárias: assim o corpo místico vem ao perfeito pelo
dom integral do Espírito e pelas graças sociais do Cenáculo.

Como essas graças são o efeito dos méritos de Cristo, só são outorgadas na sua plenitude após o acabamento da
obra meritória e da sua consagração celeste. Era por isto que Jesus dizia: “Se eu não for, o Paráclito não virá a vós;
mas, se eu for, vo-lo enviarei” (Jo XVI, 7).

Ele vem. E não se pode negar que não haja nisso um milagre psicológico de primeira ordem. É o Espírito que torna de
repente viris e clarividentes aqueles homens tão pueris, dantes tão inconscientes a respeito das realidades de que
durante três anos foram circundados e que lhes fizeram o efeito de um mistério turvo; a respeito d’Aquele com
quem viveram e a quem até o fim, de certo modo, não conheciam (Jo XIV, 9); a respeito da obra e da sua significação
verdadeira, da vida e da morte de Cristo que por tantos lados foram para eles um escândalo, da sua própria
ressurreição, que os deixou deslumbrados, esmagados de espanto, mas do que lucidamente convencidos; a respeito,
enfim, do seu próprio papel, ainda tão mal julgado, tão mal aceito, e da parte deles objeto de tanto temor.

Eles têm agora a intuição de tudo. A breve irradiação de Cesareia de Filipe, não seguida de efeitos a ela
proporcionados, seguida de uma negação, tornou-se em Pedro, e solidariamente nos outros, uma claridade sem
trevas. Tantos ensinamentos, estímulos e preceitos docilmente recebidos, porém mal assimilados e mal
harmonizados, unem-se num feixe. Empolga-os uma certeza que, deles, os pusilânimes de ontem, vai fazer uns
heróis e uns conquistadores. É uma transformação radical. A alma deles iluminada poderia dizer como Paulina em
Polieucto:

Vejo, sei, creio estou livre de ilusões.

E essa fé ardente, prática e comunicativa é a que vai transmitir-se; é a que já se manifesta na multidão ambiente,
onde um vasto lance de rede testemunha a sua força; é a fé da Igreja recém-nascida; é a nossa. E é o Milagre da
Igreja na sua consumação inicial.

Este termo inicia torna sempre, porque a Igreja está sempre no seu começo, como tudo o que é do Espírito. Mas
enfim, tudo aqui é consumado em preparação se tudo começa como realização. Pela descida do Espírito Santo sobre
os Apóstolos, a Boa Nova evangélica pode, como o fará S. Paulo, definir-se plenamente “a virtude de Deus para a
salvação dos que creem” (Rm I, 16). Os homens de todos os tempos terão parte nela em razão dos Doze assim
investidos. A própria vida futura ficar-lhes-á a dever. Esses homens vêm a seu tempo, de um futuro eterno. Sem
dúvida eles mesmos têm pensamentos mais humildes; obedecem; mas com toda certeza grande lhes é a esperança.
Eles esperam, como Abraão, pela cidade de fundamentos sólidos de que Deus é o arquiteto e o construtor (Hb XI,
11), e, se, nesta nova fase do trabalho, eles não verificam mais do que o patriarca o efeito definitivo das promessas,
sabemos que eles o viram e saudaram de longe (Ibid, 13)

3 – A este respeito, como a tantos outros, ler-se-á com incomparável fruto a obra tão preciosa do P. Lagrange:
L’Évangile de Jesus-Christ, Paris, Gabalda editor.4 – Henri de Tourville, Lumiêre ET Vie, p. 218, Bloud editor.

- Retirado do livro "O Milagre da Igreja" de A. D. Sertillanges

http://apologistascatolicos.com.br/index.php/apologetica/igreja-catolica/591-o-nascimento-da-igreja-a-d-
sertillanges

Os primeiros desenvolvimentos da Igreja - A. D. Sertillanges

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Publicado em 27 Abril 2013

Escrito por Jonadabe Rios

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Quando se aborda a delicada questão do desenvolvimento
religioso, tal como ele deve revelar-se e efetivamente se revela na Igreja, fica-se em presença de três tendências
intelectuais – para não dizer três sistemas – dos quais dois representam extremos, deixando lugar, como sempre à
via média, por onde atenta e tranquilamente se comprar em caminhar a sabedoria.

A primeira concepção: a Igreja, nos seus primórdios, era ou devia ser o que é hoje, salvo a amplitude.

Segunda concepção, situada no outro extremo: nos seus primórdios a Igreja não era e não devia ser nada do que é
hoje; veio a sê-lo por força dos homens e das circunstâncias, por acidente, diria um filósofo, semelhante à bola de
neve que engrossa rolando, corre para a direita e para a esquerda, e agrega a si os calhaus da estrada.

Terceira concepção, que se vai reconhecer, pois não podíamos deixar de explorá-la antes de defini-la – e sem ela
tudo não teria passado de dispersão e acaso nos pensamentos que, pelo contrário, nos pareceram ligar tão
fortemente os fatos da história; - a Igreja, nos seus primórdios, era um germe definido, e a este título, sob este
aspecto, perfeitamente idêntica ao que é hoje. Como se eu dissesse: o frango é o ovo; o carvalho é a glande;
porquanto, do ponto de vista da espécie, de um ou de outro só sai aquilo que deve sair, aquilo que portanto nele se
achava contido de antemão. De que maneira ou de que outra? Decidi-lo-emos dentro em pouco; mas isso aí se acha
em todo caso, certa e mui determinadamente; as circunstâncias exteriores não farão senão dar à ideia vital ensejo
de se revelar o que é; as direções particulares, assim tomadas, darão ao produto último uma fisionomia em relação
às circunstâncias atravessadas e as influências que elas comportam, mas sempre sob o governo da ideia vital, que
detém todo o essencial.

Por aí se pode ver que, quanto à opção há pouco proposta, procedemos à maneira de Platão, que dizia com boa
graça: “Quando me pedem optar entre duas coisas, faço como as crianças, tomo-as ambas”. Tomamos, com efeito,
as duas opiniões precipitadas, completando-as e corrigindo-as uma pela outra.

Nos seus primórdios, a Igreja era o que é hoje? Exatamente, mas no estado envolvido, como que um germe. Nos
seus primórdios, a Igreja não era nada, ou quase nada, do que ela é hoje? Realmente! Absolutamente não o era no
estado desenvolvido, no estado de fenômeno histórico manifestado, evoluído; era-o, todavia, da outra maneira.
Esta decisão, ousarei dizer, aclara o debate tanto quanto ele pode aclarar-se, o que não significa completamente.
Porquanto restaria definir o que é essa existência em germe com que queremos mimosear a Igreja. Confessarei,
mesmo, que este o fundo do debate; porque ninguém estaria disposto a negar, em princípio, que, em relação à
nossa, a Igreja de S. Paulo seja uma espécie de germe. Somente quando se quer precisar, diverge-se e, ao olhar bem
a coisa, a divergência parece porvir de uma diferente concepção filosófica daquilo que se entende por germe.

Há quem imagine que um germe é propriamente a coisa a obter, salvo a estatura. Era a ideia de Anaxágoras, com
suas partes similares, ou mínimas, pretenso ponto de partida das gerações. É o que a imaginação popular concebe,
quando de bom grado imagina, num ovo um franguinho invisível, numa bolota num carvalho minúsculo com galhos
dobrados, como um guarda-chuva em repouso na sua capa.

Mas isso é uma ideia de criança. Não é de admirar que, aplicada à Igreja por um subentendido inconsciente, ela
pareça colocar-nos em má postura para com a história. Com efeito, ela nos obriga a achar na Igreja primitiva o que
nela não se acha: um organismo diferenciado, munido de tudo o que hoje chamamos essencial, senão mesmo do
acessório a que estamos acostumados. Como se devêssemos achar nessa igreja inicial, desempenhando o papel das
partes mínimas de Anaxágoras, um pequeno cardinalato ou uma pequena congregação do Índex.

Felizmente, esta concepção a ninguém se impõe. Não é assim que Deus cria. Na natureza, ele nos mostra como
procede isso. Analisai um grão, mesmo que seja ao microscópio, e nele não achareis uma arvorezinha. Não há nele
nem galhos, nem folhas nem flores, nem, com maioria de razão, frutos; se os houvesse, sendo esses próprios frutos
embriões de árvores, forçoso seria contivessem outros frutos, que por sua vez conteriam outros, e assim sem fim.

Mas num germe não há nada de tudo isso. O que há, mormente logo no início, é uma virtude preformativa, que se
apoia em condições materiais definidas, mas definidas sobretudo como poder*, e não como realização obtida. Um
ímpeto orgânico não é um desdobramento.

E que é então, com precisão? Grato ficaríamos a quem o dissesse. A esse pensador, a ciência poderia votar uma
coroa mural: ele teria sido o primeiro a escalar a fortaleza de um grande mistério. Toda a natureza repousa nesse
poder de desabrochamento, que se revela ocultando-se, como a própria Divindade.

Resignemo-nos. Mas é bastante dizer: a Igreja desenvolve-se através dos tempos como esses objetos de natureza
que conhecemos, aos quais não opomos objeções, dos quais somos – entendo: os viventes.

E isso significa duas coisas que, dizia eu, corrigem uma pela outra as opiniões extremas. Isso significa que a Igreja é
caracterizada, desde o início, segundo todos os caracteres íntimos que nela se revelarão mais tarde na forma
histórica: assim o ovo ou o grão de uma certa espécie contém em si as características completas dessa espécie. E,
por outra parte, isso significa que a Igreja, no início, não possui, nem precisa possuir, as formas históricas com que a
agraciará o futuro: assim o ovo não contém nem bico, nem patas, nem penas.

Mister se fará, pois, que no curso da sua longa vida, se introduza constantemente na igreja o novo. Mister nunca se
fará, porém, que nela se introduzam novidades. Esta distinção absolutamente não é verbal. É capital em toda a
medida do possível. A nossa Igreja sempre viu um abismo entre essas duas coisas.
A novidade é o elemento estranho que permanece estranho, que se justapõe e não se assimila, porque é incapaz
disto, ou porque a questão nem sequer se apresenta, de vez que o todo não passa de um magma sem ideia vital. Se
a Igreja crescesse assim, seria a bola de neve de inda há pouco, a qual na partida quase nada absolutamente tem
daquilo que terá mais tarde.

O novo é o elemento estranho que se assimila, porque é assimilável, porque era chamado ou aceito
antecipadamente por propriedades concordantes com as suas, e porque lá estava, pois, contido em oco, se assim
posso dizer, antes de fornecer o cheio. Assim os elementos cedidos à planta pelo ar, pela água e pela terra a ela se
incorporam, e entram sob a sua lei de vida, deixando-a, pois, à sua essência.

A esta luz, abordaremos o exame dos fatos.

Eis os Doze agrupados em torno de Pedro, que, como a crítica cada vez mais reconhece, é mui verdadeiramente o
personagem principal (princeps) da primitiva Igreja.

Como consequência da sua designação e como inicio da sua missão, Pedro foi o primeiro a ver Jesus ressuscitado, o
primeiro a crer e a comunicar a sua fé aos outros. É por proposta dele que Judas é substituído, para que o número
das testemunhas esteja completo, em acordo com o simbolismo universalista observado quando falávamos do
estabelecimento da Igreja (At I, 13). Ele é que será o porta-voz de todos perante o Grande Conselho (At IV, 8).
Relatando este último episódio (V, 29), dizem os Atos: “Pedro e os apóstolos”, fórmula evidentemente intencional.
Até o fim continuar-se-á a dizer: Pedro, o Rochedo, nome simbólico, como se sabe, ao passo que os outros
sobrenomes dados pelo próprio Jesus não sobrevivem, e embora esse nome absolutamente não esteja em uso nos
meios hebraicos ou helênicos.

O grupo apostólico, com o das mulheres galileias, de que Maria, mãe de Jesus, é o vínculo, reuni-se num hyperôon,
câmara alta que dá para um terraço, à moda oriental.

Em volta desse primeiro círculo, um segundo se estabelece, composto dos convertidos de Jerusalém: cerca de cento
e vinte pessoas, no momento da morte de Jesus. Pela sua primeira pregação, Pedro agrega três mil (At II, 41). E em
volta deles um terceiro grupo vai logo constituir-se: os Helenistas, cujo caráter particular muito contribuirá para o
desenvolvimento ulterior da Igreja, ao mesmo tempo que para o seu êxito exterior. Estes dois efeitos condicionam-
se um ao outro. Conquistando o que lhe é assimilável, o cristianismo toma consciência de si, como o vivente se
desperta a si mesmo reagindo sobre o que seu meio lhe traz. A vida é um círculo.

O grupo de que eu falo difere muito, pelo espírito, dos Judeus de Jerusalém. Os Helenistas são Judeus, porém Judeus
transplantados, que vivem ou viveram em terras de civilização greco-romana. A sua língua é o grego, em vez do
aramaico ou do hebraico. A sua cultura e costumes são hauridos na gentilidade, em vez de terem permanecido
locais. Eles são fiéis ao judaísmo, porém o encaram mais largamente. Donde, entre os Judeus formalistas de
Jerusalém, a tendência para considerá-los como conformistas um pouco suspeitos, às vezes mesmo como traidores.
E, inversamente, como sempre, tendência da parte dos Helenistas a olharem os Hebreus intransigentes como
espíritos estreitos e casmurros.
Quando o Evangelho se apresenta a uns e outros, aceito com um mesmo coração – pois aqui falamos dos
convertidos -, nem por isto é julgado com um mesmo espírito. Os Hebreus veem nele sobretudo uma reforma judia,
e a ele se agregam como outros se agregam aos Essênios ou aos Fariseus. Os Helenistas saboreiam-lhe melhor a
novidade, e puxarão no sentido de S. Paulo, quando vier a grande crise.

Um incidente de vida diária serve de ocasião à ampliação do quadro religioso constituído pelos Doze, e essa
ampliação produz-se no sentido universalista, porque assim o quer o ímpeto evangélico.

Havendo-se elevado no grupo dos Helenistas uma queixa porque, dizem eles, suas viúvas são desprezadas nas
distribuições cotidianas – e sem dúvida eles viam nisso uma parcialidade que lhes chocava o senso católico tanto e
mais do que os seus interesses -, os Doze lhes fizeram justiça sob forma a mais elevada e significativa. Estabelecem
diáconos, para presidirem às particularidades da vida comum, e escolhem estes indiferentemente dos grupos. É
marcar uma etapa na constituição da hierarquia. É, ao mesmo tempo, afastar-se do princípio de uma religião
nacional.

Na pessoa de Estevão – e o caso de Estevão será em breve legião – o papel de diácono vai forrar-se do de teólogo e
apologista. Assim, insensivelmente, por meios de vida, opera-se uma diferenciação; a árvore cresce.

Os Doze, muito explicitamente, reservam-se o testemunho; Estevão e seus semelhantes encarregar-se-ão de


sistematizar e de concluir. Estes dois papéis subsistirão. Enquanto o Apóstolo ou o sucessor de Apóstolo – bispo,
papa, representante da tradição apostólica tomada como tal – testemunha e diz: este é o ensino de Cristo, o
teólogo acrescenta: eis aqui, a meu juízo, o que dele se pode concluir, como se pode compreendê-lo, em que
sistema de ideias se pode fazê-lo entrar; e o apologista diz: eis como se pode defendê-lo. É coisa inteiramente
diversa. Dogma e teologia, dogma e apologia não se confundem.

Na época de que falamos, o dogma é chamado atestação. “Atestar”, ou “falar a palavra do Senhor”, é até então o
papel dos Doze. Um pouco mais tarde, estabelecer-se-á entre os diáconos e os apóstolos uma dignidade
intermediária: os Anciãos, ou Presbíteros, que terão voz deliberativa com os Doe e os ajudarão a reger o rebanho.

Nesse termo Presbítero, ou Ancião, de onde virá o termo sacerdote, acha-se inclusa uma filosofia. O sacerdote, na
Igreja Católica, historicamente é o representante do passado; e é um ancião, ainda quando seja jovem, sendo, como
é, o representante dos apóstolos e do Cristo histórico, cuja ação ele prossegue através do tempo. E, misticamente, é
o representante não já somente da antiguidade cristã unida ao seu Cristo, mas do céu, quer dizer, da antiguidade
absoluta, ou eternidade. Dessarte, ele é o ancião por excelência, o mais velho de todos.

Como se vê, a ampliação faz-se, mas a partir do centro, e sem nada tirar à ação do centro. É uma lei da vida que,
quanto mais a diferenciação orgânica se amplia, tanto mais as funções centrais, em vez de cederem, assumem
importância e mostram a sua necessidade. Pio XI* necessita de autoridade muito mais do que S. Pedro.

Aquilo que não vive esfarela-se ampliando-se; aquilo que vive concentra-se, porque então a diferenciação é obra de
um princípio que procura revelar-se mais completamente, e não dissolver-se. Se a dissolução ameaçasse, logo um
movimento de concentração enérgico, excessivo se preciso fosse – o excesso é melhor do que muito pouco quando
se trata de viver – restabeleceria a unidade comprometida.

Em todas as épocas da história este duplo caráter aparece na vida da Igreja: larga expansão em todos os sentidos, e,
de repente, horror quase medroso, ou cólera, ante toda novidade. Foi este o último caso que observamos sobre Pio
X, por ocasião da crise modernista. Queriam ampliar a vida e o pensamento católicos num sentido de dissolução
assinaladíssimo, hoje evidente aos olhos de toda crítica sincera. A autoridade central reagiu. É possível que a vaga
em retorno tenha ido, em alguns, mas longe do que fora mister; mas agora o equilíbrio está reestabelecido, até nova
crise.

No início em que estamos, o perigo é antes no outro sentido, e um modernista no sentido católico do termo, Paulo,
é quem, sem se separar da autoridade dos Doze, pelo contrário, apoiando-se nela de maneira mais explícita, mas
tirando-lhe o sentido humano, para além daquilo que ela até então compreendera da sua missão, imprime à nossa
Igreja o surto mais decisivo que ela tenha recebido e seguido não somente nos primeiros tempos, mas, pode-se
dizer, em todos os séculos.

Seja qual for a diligência que um humano possa fazer no curso de sua existência longa e acidentada, ele nunca fará
uma semelhante à do dia do seu nascimento, quando, abandonando dolorosamente o meio interior em que vivia,
corta as suas amarras e confia-se a uma natureza que ele ainda não sabe materna.

Muito tempo será ainda preciso para que a criança cesse de se volver para sua mãe em atitudes de naufrago, com
gestos quase brutais, como se quisesse retornar às suas antigas condições de vida e fugir deste mundo, que a
espanta, enquanto não a apaixona.

Esses gestos reencontram-se no nascimento da nossa Igreja. Paulo é o parteiro enérgico que clama o ar livre para a
criança. Pedro é o pai que não somente consente, mas que quer e tem realissimamente a iniciativa, visto ser ele
quem fala com autoridade. Tiago de Jerusalém, o “irmão do Senhor”, será o tio virtuoso, que por certo é
benevolente para com a vida nova e para com os jovens doutores do progresso, mas cujo olhar é entretanto para o
passado, como também as complacências. Quando Paulo vem a Jerusalém contar, com alegria, a difusão do
Evangelho entre os Gentios, Tiago escuta e aplaude; mas, virando-se para o seu caro grupo de Judeus, acrescenta:
“Bem vês, irmão, quantos milhares de judeus creram, e todos são zeladores da lei” (At XXI, 17-21).

O centurião Cornélio foi o primeiro Gentio a tornar-se cristão sem incorporação ao judaísmo. O relato dos Atos que
narra a sua conversão e batismo é uma das pátinas mais tocantes e mais elevadas que se possam ler (At X). Ora, é
Pedro quem o admite, tanto é verdade que na Igreja nada se faz sem a autoridade. Torna-se, porém, necessária uma
visão para decidi-lo. Ele consente, com um espanto que só a sua admirável caridade consegue vencer: “Agora, diz
ele, reconheço que Deus não faz acepção de pessoas; mas que em toda nação lhe é agradável aquele que o teme e
pratica a justiça”. Era uma descoberta!

Por trás do centurião, via acaso Pedro a humanidade que corria para Cristo? E porventura o “duc in allum”, ao largo!
Ao largo! Que Jesus um dia lhe diria, estaria alerta no seu coração? Sim, mas a sua vista fraca só captava desse
futuro aquilo que dele era preciso para a ação imediata. Paulo, este, verá imediatamente largos horizontes; lançar-
se-á a eles com uma paixão que fará dele o general do Verbo, “dux verbi” (At XIV, 11). A sua cultura, a um tempo
judaica e um tanto helênica, as suas aptidões filosóficas, a sua experiência, o caráter impressionante da sua
conversão, o fato de haver ele sido, no inicio, um perseguidor violento, dão-lhe uma grande força. Sua alma de fogo
e suas graças eminentes farão o resto.

Em face das conversões pagãs, ele não dirá como que em tom de escusa o que Pedro disse à assembleia dos irmãos,
ao voltar de Cesareia onde batizou Cornélio: “Podia eu opor-me a Deus?”. Mas sim, num entusiasmo cuja expressão
perde aos nossos olhos a sua tonalidade brilhante, precisamente porque somos nós os beneficiários dela, exclamará:
Eis que segundo Cristo não há mais nem Judeu nem Gentio, nem Grego nem bárbaro, nem mulher nem homem,
nem escravo nem livre, porque não sois mais do que uma só pessoa em Cristo (Gl III, 28; Cl III, 11).

A gente não imagina quantas noções tais palavras subvertiam nos homens daquele tempo. Na cabeça deles, era todo
mundo antigo que ruía. Isso se parece com o discurso daquele que viesse um dia dizer, talvez: Não há mais nem
Franceses nem Alemães, nem Ingleses nem Russos, nem Japoneses nem Americanos, nem Italianos nem
Tchecoslovacos; não sois mais do que uma só pessoa em humanidade.

A assembleia, de Jerusalém, onde sob a presidência de Pedro, por iniciativa de Paulo e com a alta autoridade moral
de Tiago, se reúne o primeiro dos nossos concílios, consagra esta situação. Aí fica combinado que não se imporá aos
cristãos o fardo da lei judaica, nem muito menos a circuncisão, sinal de incorporação política. Fato duplamente
decisivo. Ressalta dele que o judaísmo é reconhecido forma transitória do movimento religioso autêntico, forma
doravante ultrapassada: êxodo moral que lembra o de Abraão deixando o seu território caldeu. E, em segundo lugar,
proclama-se que a religião definitiva, a de Jesus, é transcendente às organizações temporais, alheia às questões de
raça, de nacionalidade, de sexo ou de condição, católica em suma.

A catolicidade de direito datava de Cristo, homem universal; datava dos profetas messiânicos; datava do berço da
humanidade; mas a catolicidade oficialmente reconhecida data do concílio de Jerusalém. A partir desse dia, é
operado o corte com o passado. Nascida da sinagoga, e parecendo fazer corpo com ela como a árvore com o
rochedo cuja silhueta ela continua sobre o céu, a Igreja manifesta a sua autonomia; a árvore estende os galhos para
que as aves do céu possam vir.

Vê-las-emos acorrerem em multidão. Mas, para que elas achem a sua vida e o seu abrigo debaixo da sombra,
cumpre que os botões ainda fechados desabrochem em palmas verdes. Contemplemos um pouco essa primavera da
nossa Igreja. Tudo nela é modesto como na humilde e potente alquimia do vergel; mas o ouro dos frutos está
contido no chumbo resistente da terra; vê-lo-emos revelar-se em riquezas novas enquanto o sol do Espírito brilhar
no nosso céu.

A decisão do concílio de Jerusalém parecia clara; era o realmente, porém os espíritos são sempre mais complicados
do que as fórmulas. Expulsai o natural, e ele volta a galope. Expulsai um preconceito pela porta, e ele se introduz
pela janela. O episódio moral que motivara a reunião e que parecia regulado completamente, reproduz-se pouco
depois sob forma nova, sofrivelmente insidiosa.
Admitir-se-ão os pagãos à vida cristã sem se lhe imporem as observâncias judaicas: eis o que está convencionado.
Vai-se, porém, colocá-los no mesmo pé que os outros? Em Jerusalém, o povo está habituado às categorias. Há os
prosélitos da Porta que só transpõem o primeiro recinto do Átrio; os prosélitos da Justiça, naturalizados e
incorporados; e, nos dois extremos, os Judeus autênticos e os Goim ou impuros estrangeiros. Não se poderiam fazer
duas categorias de cristãos, os verdadeiros, os puros, isto é, os Judeus ou judaizantes circuncidados, e os outros, isto
é, os Gentios convertidos mas não incorporados ao judaísmo?

A comunidade de Jerusalém não se presta muito a essa divisão, porque nela os Gentios são uma minoria
inteiramente insignificante, pouco em condições de reclamar o seu direito, e sem dúvida não se capacitando da
significação geral do seu caso. Mas a comunidade de Jerusalém enxameou depressa; os seus primeiros pregadores
fizeram maravilha, e especialmente em Antioquia Paulo e Barnabé estabeleceram uma comunidade florescente,
composta em grande parte de pagãos convertidos. Lá, o problema apresenta-se com toda clareza, como um
problema social.

Ora, mui naturalmente os partidários da distinção em duas categorias propuseram que o seu sistema tivesse
aplicação à refeição dos ágapes. O banquete fraternal comportará dois serviços: os dos Judeus ou cristãos de
primeira linha; e o dos Gentios, cristãos de segunda zona.

Tendo vindo visitar a comunidade de Antioquia, Pedro deve tomar partido e figurar numa das mesas. Opta primeiro
sabiamente, em conformidade com as suas próprias palavras no concílio. Mas, ante as reclamações dos seus
compatriotas, cede. Paulo é forçado a intervir para obrigá-lo a pôr suas ações em harmonia com a sua doutrina. A
ordem não deixa por isso de triunfar. A direção do futuro está tomada. Não se deixará dividir-se o corpo de Cristo. O
símbolo da unidade, a Eucaristia, não se prestará a uma interpretação particularista. A senda judaica é
decididamente abandonada, e, enveredando positivamente pela grande estrada humana, vai a Igreja poder
organizar-se deveras, desenvolvendo aos poucos o que nela está latente.

Três direções paralelas impõem-se a esse desenvolvimento. A crença, o governo, o culto exigem uma expansão
progressiva conforme às exigências aumentadas da vida nova. O tempo provê a isso com uma regularidade que trás
constantemente ao espírito a mesma imagem: o ímpeto natural dos seres.

As crenças do inicio eram substancialmente o que são hoje. A nossa teoria do germe que contém na partida, tudo o
que dele sairá – sem o conter, mas contendo-o entretanto, a saber, em potência de futuro, e não em ato explícito, -
aplica-se a cada aspecto da vida católica tanto quanto ao conjunto.

O Símbolo dos Apóstolos, que não data dos apóstolos, mas que lhes exprime a crença tal como ressalta dos
primeiros documentos, faz-nos ver que é que se vive então. Não insisto nisto. Porém muitas precisões sobre a
natureza do Deus-Trino, sobre a pessoa e o papel de Cristo, sobre o plano religioso do mundo, sobre a própria Igreja,
ainda estão por precisar.

A autoridade, que decide à medida que os casos se apresentam, como se vê nos Atos e nas Epístolas, como se verá
mais tarde nos concílios, tão laboriosamente preparados, a autoridade, digo, instrui-se nas suas próprias decisões,
como um grão inteligente se instruirá em se olhar crescer, só imperfeitamente sabendo o que ele traz em si mesmo.
Por isso, mesmo ao olhar da autoridade, que é a cabeça mas que não é o corpo todo, há um desenvolvimento, uma
instrução dogmática da Igreja.

Ademais, a superedificação, como se exprime S. Paulo (epoikodomé), isto é, a teologia, de que já falei, elabora suas
teses, e algumas iluminam largamente os horizontes da fé. O próprio S. Paulo contribui para isso com um poder
construtivo e uma penetração de que não há muitos exemplos.

Não posso entrar na minúcia das doutrinas, a qual nos arrastaria a longe demais. A história dos dogmas é um
assunto denso, que aliás não é o nosso, visto estar entendido que nós salientamos o milagre, não narramos.

O que nos interessa é notar até que ponto, em semelhante matéria, eram fáceis os desvios. As heresias, isto é, as
escolhas arbitrárias nas doutrinas correntes, ao invés da aceitação exclusiva daquilo que pode quadrar com o
depósito revelado, seja por modo de identidade, seja como desenvolvimento natural ou legítima interpretação: tal é
o perigo. Desde o início mostra-se ele temível. Muitos lhe sucumbem. Paulo repreende-os com sua virulência
maternal, Pedro com gravidade, e João, acostumado às grandes imagens, fala das profundezas de Satanás, prestes a
tragar os que não sabem manter-se nas alturas de Jesus Cristo.

Nem por isso deixam eles de dizer, uns e outros: “Convém que haja heresias” (I Co XI, 19). E, sem dúvida, na boca
deles isso é a expressão de uma fatalidade; mas essa fatalidade é também uma providência. Reagindo contra a
introdução de um corpo estranho, o organismo religioso toma consciência de si mesmo; reconhece os seus
verdadeiros elementos, pessoas e coisas, e assim se afirma. Ademais, nunca sendo o erro mais do que uma verdade
desviada rejeitando o agente que o utiliza, provando assim a um só tempo a universalidade de uma doutrina que
não exclui senão o mal, e a sua unidade sob a forma de uma ideia vital.

Resta o perigo de intoxicação pela admissão irrefletida de germes mórbidos. Esse perigo é tanto maior quanto é
rudimentar a organização da Igreja, e quanto uma grande liberdade individual se desenvolve nela. Os oradores, os
inventores de noções têm nela uma influência fácil, e os abusos da inspiração pessoal correm o risco de pôr a conta
do Espírito Santo as piores divagações.

Para remediar essa situação, mister se faz necessariamente reforçar a autoridade central. Por isso, são os mesmos os
documentos que denunciam heresias e que nos mostram em flagrante os primeiros desenvolvimentos da hierarquia
católica.

A hierarquia inicial, já lhe enumeramos os elementos; encarnam-na os Doze com Pedro à frente; os diáconos
prolongam-na; entre os dois, os Anciãos, ou Presbíteros, partilham-lhe as atribuições sob controle.

É para notar que essa organização, todavia tão rudimentar, nem sempre tem todos os seus efeitos. Pedro está longe
de representar o papel disso a que chamamos o Papa; confunde-se as mais das vezes com os Doze, e nós
salientamos esta expressão: Pedro e os Apóstolos, que frisa a um tempo o primado e a pouca diferenciação que ele
adquiriu.

Mais tarde, o bispo de Roma não será também imediatamente o Primaz universal de hoje. Quase que é só no século
III ou no IV que o primado papal é nitidamente diferenciado, e ainda aí se está muito longe da manifesta supremacia
atual. “Quando o homem está numa idade muito tenra, diz graciosamente o P. Clérissae5, a voz é indistinta; porém,
quanto mais o organismo se desenvolve e se robustece, tanto mais a voz se torna expressiva e assume o tom
pessoal. É essa toda a razão e toda a história do exercício, progressivo mas, desde o início, formal e contínuo, da
autoridade papal na Igreja”.

Da mesma maneira, no grupo primitivo os Doze não têm a situação disso a que hoje chamamos bispos. São ao
mesmo tempo mais e menos do que bispos. Mais, porque o contato direto com o Senhor, cuja virtude eles
conservam, lhes dá autoridade aos olhos de todos, e portanto estende o poder de cada um deles a todas as
comunidades, em vez de ficar localizado, como hoje, numa Igreja particular. Menos, porque, sendo intensa a vida
comum e pouco numerosos os problemas práticos, não se sente a necessidade de uma administração regular. A
autoridade é discreta e as iniciativas muito grandes.

Num organismo social, quando a ideia vital em toda parte é ativa, realizando espontaneamente as finalidades que
são a razão de ser dos órgãos diretivos, esses já não têm motivo para impor a sua especialidade. A autoridade perde
por outro tanto a sua razão de ser, e isso vige na medida daquilo que o bem social exige ou ainda não exige. Numa
aldeia em que toda a gente varre a frente da casa, não há necessidade de limpeza pública; mas esta é necessária
numa grande cidade, porque os serviços de uma cidade excedem a competência e o poder dos particulares, ainda
quando estes forem atentos como os outros ao bem comum. Assim, na Igreja, o desenvolvimento da autoridade
segue o desenvolvimento do grupo e das crescentes necessidades do grupo.

Os bispos por excelência, os Doze, foram instruídos por Cristo; mas, uma vez ampliado o rebanho, mister se lhes
torna um prolongamento de presença e de ação; vinda a morte, mister se lhes torna uma sucessão. O episcopado
corresponde a essa necessidade. Episcopoi, isto é vigias a respeito da doutrina e da vida católica, os bispos, cuja
instituição remonta à primeiríssima geração, são pois as testemunhas da dupla expansão da Igreja segundo o espaço
e segundo o tempo.

Muito tempo será necessário para que as sés episcopais sejam estabelecidas na sua forma atual. Em certos lugares,
o episcopado é exercido por vário, como por uma espécie de capítulo. Em muitos documentos, bispos, sacerdotes,
apóstolos são termos que parecem confundidos. E sem dúvida é preciso discernir o que corre por conta da
linguagem figurada, e também do que corre por conta dos termos coletivos, como quando dizemos os padres, para
designar todo o clero de uma diocese, com o bispo à frente. Mas parece, mesmo, que flutuação nas expressões
corresponde a uma certa flutuação das realidades. Digo isto sob o ponto de vista administrativo.

Ademais, vestígios de episcopado unitário fazem-se reconhecer em toda parte, ainda quando fosse só sob a forma
de uma presidência mais ou menos importante, esboço do claro primado espiritual que será mais tarde o nosso
episcopado.

Naturalmente, os primeiros de todos os bispos são estabelecidos diretamente pelos Apóstolos. Na segunda fase, são
estabelecidos pelos discípulos imediatos dos Apóstolos, como Tito e Timóteo. É sempre a lembrança do Senhor que
reina; sente-se o contato dela por meio desses primeiríssimos elos da cadeia das graças.

Na geração seguinte, enfraquecendo-se as recordações pessoais, a coletividade entra em jogo. As nomeações são
feitas pelos bispos da província que se acham mais próximos, geralmente três, “com o sufrágio do povo”, diz S.
Clemente, quer dizer, sem dúvida, um voto consultivo. Todavia, quando o povo inspira pouca confiança e se trata
justamente de reconduzi-lo por uma boa escolha, prescinde-se dele: a prova de que a constituição da Igreja nos seus
primórdios não é democrática, como por vezes se tem pretendido.

Desde o primeiro concílio geral (Niceia, 325), a eleição do bispo deve ser confirmada pelo metropolita; isto é, por
uma autoridade central tornada nitidamente preponderante em seu domínio. Muito mais tarde, enfim, estando a
centralização concluída e todos os órgãos da Igreja diferenciados, o poder de confirmação passará à Santa Sé, e o
povo será excluído da eleição, por causa do caráter político que o seu voto assume, quando o sopro religioso dos
primeiros tempos está acalmado.

Tal é o ponto de partida da hierarquia, tal o da doutrina. Quanto ao culto, vemo-lo começar e orientar-se segundo as
mesmas leis. Nos primeiros dias, copia-se a sinagoga. Jesus praticara-lhe os ritos. Instituiu outros; mas do passado ao
futuro, a transição deve ser natural, isto é, insensível.

As pessoas reúnem-se, pois, à maneira judia, particularmente no dia de sábado. Reza-se em comum; lê-se a Sagrada
Escritura; participa-se dos ágapes, refeição frugal que tem lugar à noite, como na véspera da morte do Senhor, e que
termina também pela eucaristia. Enfim, eles vivem juntos uma vida mística capaz de nos parecer hoje muito
extraordinária, mas que o fervor do estado nascente faz então achar mui natural. Isso a que chamamos os carismas,
ou dons do Espírito Santo, como o dom de profecia, de cura, o discurso de sabedoria ou de interpretação, etc., são
manifestações correntes.

Insinuam-se nisso muitos abusos, como se pode ver pelas admoestações dos Apóstolos e pelas precauções com que
eles cercam essas escapulas do sentimento religioso interior. Porém as almas haurem aí grandes recursos:
alimentam a sua fé e inflamam o seu entusiasmo, efeitos bem necessários para resistir à invasão do mundo pagão e
à ameaça permanente do martírio.

Quando a Igreja cresce, essas maneiras de viver, essencialmente intimas, dissipam-se pouco a pouco. No século II,
elas ainda são correntes, como o testemunha Irineu o filósofo. No século III, rareiam; no IV, já não passam de uma
reminiscência; declara-o Eusébio. A regularidade social sucede às espontaneidades transbordantes, e, se o Espírito
não se revela menos, fá-lo de maneira menos exterior. Os dons cedem um pouco às virtudes, e os carismas à
caridade.

Mesmo quanto à Eucaristia, os abusos e as dificuldades práticas levarão a reduzir, e depois a suprimir, os ágapes
preparatórios. Se conservará somente o essencial: a consagração do pão e do vinho e o seu uso sacramental, até que
mais tarde as mesmas considerações induzam a suprimir a participação no cálice.

As reuniões fazem-se primeiro em casas particulares, especialmente em câmaras altas, grandes peças do andar
superior de que já falei. Só mais tarde haverá igrejas, e este termo, aliás, só a partir do século III será empregado
para designar edifícios do culto.

No início, havia interesse religioso em que o culto não tivesse local oficial, a fim de bem lhe assinalar a interioridade,
por oposição ao culto judeu que não podia passar sem o Templo. Nossos templos, os nossos, são símbolos e servos,
dissemos; nós não somos escravos deles.
O pequeno rebanho constituído por cada grupo de fiéis mantém-se, pois, unido em torno do báculo apostólico. Eles
se reúnem à noite, em lembrança da Ceia do Cenáculo, mas sem dúvida também em razão das ocupações do dia.
Ademais, a noite é favorável aos surtos místicos, e as nossas primeiras comunidades são costumeiras neles.

A sua reunião prolonga-se, não raro, pela noite. A do sábado, ou “sabbat”, é seguida de uma liturgia que tem lugar
pela manhã. É assim que se estabelece a passagem do sábado para o domingo, que muito cedo se torna o dia do
Senhor.

Do mesmo modo, a Páscoa judia transforma-se em comemoração da Paixão e da Ressurreição de Jesus, com o
simples inconveniente de acarretar discussões, por causa da divergência das datas.

Finalmente, o centro de atração religiosa dos cristãos, como dos Judeus, é primeiramente Jerusalém. Mas já que
diferença! Para os Judeus, Jerusalém era o Templo; para os cristãos, é sobretudo o Calvário e a Câmara alta. Os
Judeus sentiam-se ligados ao Sinédrio; os cristãos à comunidade dos Apóstolos, onde Pedro exerce o primado, onde
as inspirações místicas parecem vir sobretudo de Tiago, o Irmão do Senhor.

Esse centro cedo se deslocará. A mãe não retém sempre o filho. Tendo conquistado a sua autonomia, a Igreja
assinalará essa autonomia por um estabelecimento que deixará a Jerusalém o simples papel de antepassado. Roma
propõe-se para recolher a sucessão do Oriente, como o zênite o sol liberto das brumas matinais.

E, para provar que aqui é realmente uma Providência que vela, a ruína de Jerusalém e a dispersão da sua
comunidade ocorrem justamente no momento em que Roma tem tudo o que é de mister para lhe recorrer a
herança, tudo, inclusive uma auréola de mártir em torno de uma tiara sangrenta. É em 66 que principia a crise de
Jerusalém; é em 64 que a cabeça, virada para baixo, do apóstolo Pedro deixa cair a tríplice coroa que deve brilhar na
fronte dos seus sucessores.

***

Tal é, largamente indicada, a curva que toma a sua partida a evolução secular da Igreja. A continuação não fará
senão revelar o melhor a direção imposta por um Pensamento senhor dos acontecimentos e dos homens, mas que
dispõe deles suavemente, como diz a Escritura, posto que se estenda fortemente de uma extremidade à outra
(Sabedoria VIII, 1).

Vida da Igreja, precisamente por ser uma vida, não procede de fora, mas de dentro. O Espírito de a dirige não lhe é
exterior; vive nela, e é o mesmo que é imanente à história universal e à natureza total. Nada de admirar que tudo
isso se encontre em sínteses harmoniosas e progressivas.
O vivente “Igreja” cresce sozinho. Cresce lentamente, com a colaboração de todo o seu meio, como o dizíamos do
germe, ao qual o próprio Evangelho o compara (Mc IV, 31).

Não se lhe pode fazer disso uma objeção, como se a Igreja fosse uma obra de acaso. Este ponto de vista racionalista
é tão estreito quanto o ponto de vista materialista, que só quer ver no nascimento de um animal um mero encontro
de átomos, sob pretexto de que isso se faz sozinho, sem que ninguém vá dispor os membros no seio da mãe.

O próprio fato de realizar-se isso sozinho, deve-se concluir que há aí um princípio interno. Assim também, a
fabricação da Igreja por si mesma com a colaboração do meio, é a prova de que a Igreja tem por princípio interno o
Espírito de seu Cristo permanecido ativo nela. E é este o milagre.

O princípio vital chamado alma só pode revelar-se por tal organismo possuidor de tais caracteres: é por isso que ele
se dá esses caracteres. Assim também, o Espírito divino comunicado aos homens por Jesus só pode manifestar-se na
e pela Igreja tal como ela é, e ele o prova dando-a a si próprio, fabricando-a para si peça por peça, com movimento
contínuo, sem nenhum plano definido antecipadamente em qualquer dos humanos que dela participam, e, no
entanto, de tal sorte que no fim o resultado se mostre adequado à intenção inicial, o corpo adequado à alma, o meio
ao fim, a rede universal à pesca universal que o Salvador propõe.

Para exprimir o caráter vivo, auto-evolutivo, e no entanto transcendente da nossa Igreja, reconhecendo que ela
pode formar-se sozinha, após assente que ela traz a Deus em si, poder-se-ia utilizar com o esplendor a palavra
familiar de La Fontaine:

Petit Poisson deviendra grand,Pourvu que Dieu lui prête vie.(O peixinho virá a ser grandeDesde que Deus lhe
empreste a vida)

* Referência à época do aparecimento do livro.

5 – Le Mystere de L’Église, p. 73, Pierre Téqui editor.

http://apologistascatolicos.com.br/index.php/apologetica/igreja-catolica/592-os-primeiros-desenvolvimentos-da-
igreja-a-d-sertillanges

A Igreja e as civilizações anteriores - A. D. Sertillanges

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Publicado em 02 Maio 2013

Escrito por Jonadabe Rios

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Se é verdade que Cristo é o centro e não o começo da história cristã; que tudo
gravita em torno dEle – o passado para prepará-lo, o presente para recebê-lo, o futuro para utilizá-lo; de tal sorte
que a obra inteira seja sem corte, realizando a palavra de S. Paulo: “Tudo é para os eleitos” -, se esse plano religioso
do mundo é o verdadeiro, manifesta é a consequência. Cristo deverá vir no momento em que mais necessidade se
tem dele e em que dele mais se pode aproveitar.

Isso supõe que a sua época será ao mesmo tempo rica e pobre: rica em recursos e pobre em realizações; pobre
também em esperança, se fosse abandonada a si mesma. E isso dá a prever que a obra cristã consistirá, não em
desdenhar o passado, desdenhando-se de si mesma, visto como ela reina sobre o passado tanto como sobre o
presente e sobre o futuro, - e tão pouco em copiar o passado, em subordinar-se a ele, em servi-lo, o que seria uma
inversão dos papéis; mas em fazê-lo realizar seu fim. Para isso, deverá ela apoiar nele a sua obra histórica assim
como, para crescer, o vivente se nutre daquilo que o solo produz. Não se há de esquecer, aliás, que andar é repelir
para trás o solo em que a gente se apoia, e que nutrir-se é destruir o alimento enriquecendo-se da sua substância.

Esta concepção a priori precisa ser confrontada com os fatos, para se ver, primeiro, se os fatos a comprovam; e, em
seguida, como.

Foi de moda, outrora, ver em Cristo e nos primeiros obreiros da sua obra não sei que iniciados que, quais abelhas
diligentes, teriam recolhido o suco das tradições, o pólen das organizações anteriores, para com eles sabiamente
comporem esta cera e este mel: a Igreja e o Evangelho. Toda originalidade e toda transcendência seriam assim
recusadas à religião de Jesus; ela seria um ensaio de sistematização partindo de dados adquiridos; não seria mais a
Boa Nova, o Dom de Deus. Já não haveria “milagre”.

Assim tal qual, esta concepção está morta hoje em dia; nenhum crítico, por pouco sério que seja, ousaria sustentá-la.
Tudo nos demonstra que os primeiros obreiros do Evangelho foram estranhos à cultura que semelhante ecletismo
suporia; que de modo algum pensaram nisso.

Ao próprio Jesus os puros críticos não emprestam, tão pouco, essas intenções, que destoam de tudo o que se sabe
dele. Quanto a nós, é evidente que ainda muito menos dispostos estamos a semelhante atitude. Sabemos que não
foi assim, por fora, adventiciamente ou por colheita de elementos estrangeiros, que Jesus se propôs compor sua
obra; foi por dentro, pelos meios da vida, e a partir de um germe divino.

Esse germe, que ele trazia, é o seu Espírito, cuja comunicação é simultaneamente intelectual, pelo dogma, e prática,
sob a forma de sentimentos, de moções, de meios essenciais de ação. Tal era a alma do seu grupo. Isso é que era o
“vinho novo”, que, dizia ele, não se devia conservar em odres velhos. Por essa expressão, ele mostrava bem a que
ponto era estranho às vistas do ecletismo. Fazia coisa inteiramente nova, que era ao mesmo tempo coisa eterna,
nisto que todo o passado colaborara nela a titulo de preparação, nisto que todo o presente devia servir-lhe de meio
nutriente e todo o futuro de matéria para seus progressos. Nunca seria de mais repetir estas coisas.

Portanto, se há semelhanças – e as há numerosas – entre a religião de Jesus e as religiões do passado, não é por
empréstimos que cumpre explicá-las primeiro, é por esta consideração simplíssima: que as religiões antigas foram
criadas pelo instinto para corresponderem às necessidades do homem, às suas aspirações e às suas reflexões em
face do destino. Na medida em que instintos, aspirações ou juízos estavam desviados, as antigas religiões foram
também desviadas, e uma religião divina, como o cristianismo não devia assemelhar-se a elas; mas onde quer que as
necessidades fossem reais, que as aspirações fossem legítimas e as reflexões sensatas, as religiões concluíam
acertadamente, e a religião definitiva devia assemelhar-se-lhes nisso, embora excedendo-as, visto como as suas
reflexões, hauridas de lá de cima, transcendem a amplitude sempre limitada de um olhar de homem.

É preciso capacitar-se de que, em religião, o divino é precisamente o mais humano, não tendo a religião outro papel
senão rematar a vida do homem, mesmo quando a excede. O divino autêntico deve, pois, coincidir parcialmente
com o humano autêntico, e isso não será um empréstimo, mas um encontro, motivado por um mesmo ponto de
partida e por uma finalidade comum.

Deus dá o pão supersubstancial; os homens procuram fabricar o outro, e nem sempre têm falhado na sua fabricação.
Deus dá a água que jorra até a vida eterna; mas já havia outras águas. Os que bebiam delas ainda tinham sede; ver-
se-á bem isto pela solicitude deles quando jorrar a fonte divina; porém, mesmo assim, eles tinham achado nelas
refrigério.

Destarte se explicam os traços comuns que com tanto comprazimento têm sido salientados – no intuito de fazer
deles objeções – entre o cristianismo e o budismo, as religiões persas, gregas, Roma,as, etc., como se não fosse um
elogio, em relação a uma religião que se pretende sem lacuna, o dizer-lhe: Não esquecestes este e aquele valor
descoberto antes de vós por outras religiões. Chamem ao cristianismo, tanto quanto quiserem, “um microcosmo
religioso”! É um grande louvor.

Todavia, historicamente esta resposta não é suficiente; pois não negamos que tenha havido empréstimos essenciais,
empréstimos destinados a constituírem a religião, ao invés de servi-la. Por isto teremos de tornar à questão das
utilizações do paganismo pela religião cristã. Mas, por enquanto, temos de repetir uma segunda forma da opinião,
que faz do cristianismo um fruto natural do passado e do presente religioso a que sucedeu.

Muitos, com efeito, afastando os disparates que fariam de Cristo e dos apóstolos uns ajuntadores de noções e de
devoções esparsas, nem por isso deixam de dizer que, para se formar, a Igreja herdou – apenas sem o saber, e sem o
saberem os seus iniciadores – aquilo que aquela época compósita, cuja fisionomia exata tentamos dar mais acima,
continha.

O cristianismo não passaria de um dos movimentos espontâneos de renascimento religioso que se ensaiavam no
tempo de Jesus, e Jesus não teria feito senão determinar a cristalização num certo ponto, em certas formas, formas
que aliás se alteraram, ao que dizem, pela influência dos cultos que não tinham sido bem sucedidos no mesmo
esforço, e que ele entendia de suplantar.
Esta teoria tem por si os traços comuns que aproximam o cristianismo dos estados de espírito reinantes no
momento em que ele nasceu, e das doutrinas ou dos ritos próprios às religiões ambiente. É assim que o
universalismo e a interioridade, que figuram entre os sinais mais característicos do cristianismo, já se fazem
adivinhar no sincretismo, que representa o meio imediato em que a Igreja teve de se formar.

Basta, porém, olhar nisso para verificar que essas tendências, se podiam servir para preparar as almas, de modo
algum podiam, por si mesma, sugerir-lhes os pontos de vistas cristãos, porque destes àqueles há um abismo.

Bem verdade é que no tempo de Jesus os cultos outrora locais tendem a universalizar-se. Parecem agora abertos a
todos. São-no realmente, salvo o mitraísmo. Mas é somente pelo seu lado exterior, o lado menos religioso; poder-se-
ia dizer nada religioso; porque o exterior nada é, se não manifesta uma alma.

As bacanais, as procissões delirantes da Grande Mãe, em que os eunucos triunfam entregando-se a transes de
epilépticos: eis o que se franqueia a todos. Desde que se trata da vida interior, mística e verdadeiramente moral,
recai-se na estreiteza da iniciação. Considera-se como ímpia uma manifestação comum da doutrina e dos divinos
arcanos. O número é uma profanação. O exclusivismo faz parte das alegrias do iniciado, neste mundo e no outro.

Os partidários da mentepsicose, pouco numerosos relativamente, ainda têm esta pálida desculpa de só desprezarem
a multidão provisoriamente; ela renascera mais perto de nós, se disto for digna, e subirá algum dia ao Olimpo onde
as nossas alegrias estão bem próximas. Mas os que terminam na morte o ciclo das preparações religiosas não se
mostram lá muito universalistas, quando dizem equivalentemente: Que se arranje a multidão humana!

Aproximei isso destas grandes palavras: “Ide e ensinai todas as nações, ensinando-lhes tudo o que eu vos mandei”;
“Não se acende a lâmpada para escondê-la debaixo do alqueire”; “Não há nada oculto que não deva ser
manifestado”; “O que eu vos digo ao ouvido, pregai-o de cima dos telhados”: e verificareis a diferença.

Correlatamente, a tendência universalista do sincretismo comportava uma tendência para a interioridade, tendência
que as religiões políticas das épocas anteriores desprezavam. Neste sentido, havia grande progresso. A salvação do
Estado cedendo à preocupação da salvação da alma; o indivíduo imortal suspeitando o seu valor e, a despeito de
monstruosas aberrações, elevando-se à ideia de sacrifício: aí já era o excelente. Os mistérios assinalavam esse
estado novo da opinião religiosa. Mas julgai de perto essas manifestações, e capacitar-vos-eis da ilusão que haveria
em aproximá-las da vida interior tal como compreendeu o misticismo cristão. A aparência de certos termos pode
enganar; a realidade é muito menos nobre.

Que é que se pede ao iniciado para participar dos favores místicos? A pureza, o que poderia fazer crer por isto se
entende o que o Evangelho entenderia. Mas, lendomelhor, percebe-se que se trata de coisa inteiramente diferente.
Em matéria de pureza, pede-se-vos não serdes nem “ímpio”, nem “celerado”; é uma boa precaução contra as
batidas policiais ou as raízes de objetos piedosos; mas como pureza interior é pouco, quando se pensa que a
profissão de cortesã permite à iniciada conservar o que seus sacerdotes chamam de “mãos puras”.

Mais tarde, a iniciação do cristianismo já desenvolvido levará essas religiões a macaquearem o nosso misticismo;
elas chamarão seus deuses – coisa nova – os “guardiães da alma e do espírito”, e as suas inundações de sangue de
touro serão consideradas como tendo o efeito do batismo; mas, por seu próprio movimento, essas religiões não
levam à vida interior; a pureza de que elas falam na sua catártica é uma pureza legal, semelhante à do Judeu que não
comeu porco e está com as mãos limpas.

Notai que, entre os Judeus, esse formalismo, pelo fato de se substituir à ideia moral, era uma degenerescência; di-lo
bastante o Salvador. Aqui, é o caso normal. Não se trata de deplorar as próprias faltas e de converter o próprio
coração, mas de tomar um banho que vos liberta das lamas da existência à maneira de uma lavagem mecânica.

A pureza pagã é uma medida prudente contra as doenças, as enfermidades precoces, os acidentes, os desarranjos de
mente e do corpo vindos dos deuses descontentes. E descontentes por quê? De modo algum porque o nosso
coração está longe deles – o que, de resto, merecia às vezes louvor! – mas porque certos atos ou certas omissões
nos tornaram para eles um objeto de horror.

Consegue-se dobrar os deuses por meio de encantações materiais. Para isso não basta uma consciência fiel; é
preciso uma voz justa. O bárbaro, que não sabe pronunciar o grego, é excluído pela mesma razão que o ímpio ou o
celerado. Assim traz o ritual. Tudo isso é pura magia, e não religião ou moral.

Apresso-me a observar, como já mais de uma vez o fiz, que essas críticas atingem as religiões antecristãs tomadas
em si mesmas, e não sempre, e em tudo, os SUS fiéis cultos. É por isso mesmo que, aparecendo-lhes o cristianismo,
eles se precipitam nele em multidão. A partir desse momento, a situação inverte-se, e, em vez de serem superiores à
sua religião, eles serão esmagados pelo novo ideal, a ponto de se declararem servos inúteis, mesmo após heroicos
esforços. Mas não se trata de indivíduos, trata-se dos próprios cultos e daqueles que os vivem tais como eles são.
Esses acham-se entregues a práticas em que a magia ocupa um lugar inteiramente absorvente. Corre-se a toda parte
para lhes ter o duvidoso lucro; mas isto mesmo prova que não lhes dá senão um mero sentido supersticioso. Não
contente com a própria religião, pratica-se a dos outros, porque não se sabe de quem é que se pode ter necessidade.
Não vale por dizer que a Divindade verdadeira, a que vê o coração, vos ficou alheia?

Conhece-se um certo Faventino que, no seu epitáfio, se gaba de ser ao mesmo tempo áugure da velha religião
romana, Pai e arauto sagrado no culto do sol invicto (Mitra), arquibúcolo no culto de Baco, hierofante de Hécata, e
sacerdote de Ísis. A gente pensa nesses magnatas da finança que fazem parte de trinta ou quarenta administrações.

E, quando os deuses tão ecleticamente desservidos dão mostra de resistir às súplicas dos seus fiéis, pretende-se
possuir meios de forçá-los: prova nova da nulidade moral desses ritos. Não é, porventura, escandaloso que certas
fórmulas ou simplesmente a invocação de um nome secreto, coloquem o poder de Deus à disposição do fiel, sem
que a retidão de intenção entre nisso pelo que quer que seja? Que outra coisa é então esse Deus, se não é um
daqueles Olimpianos de Homero que uma fatalidade domina, ainda quando se chamasse Júpiter, e que pode
enganar-se ou enganar, a quem se pode enganar, a quem se pode forçar, se, por uma hábil manobra, se lhe
consegue virar o poder?

A Igreja está tão pouco disposta a imitar esses ritos pretensamente santificadores, que os afasta com horror,
acusando-os, pela boca de Paulo, de só terem a “satisfazer melhor a carne” (Cl II, 20-23), sem dúvida em razão do
fim todo carnal colimado ao submeter-se a eles, mas também, o que não parece lá muito duvidoso, por não sei que
sadismo de sensibilidades “détraquées”, como o indicam as estranhas histórias edificantes contadas nos Mistérios.
Só se fala aí de violência e de luxúria, e, diz Gaston Boissier, “verdadeiramente parecia haverem-nas reservado para
o segredo dos mistérios porque quase não se podia exibi-la em plena luz”, essa plena luz que via tantas!
“Bem aventurados os corações puros, porque verão a Deus”: é o contraste absoluto entre o cristianismo e essas
falsas purezas legais.

Se desses pontos de vista gerais passássemos à minúcia, ainda muito menos justificada acharíamos a pretensão de
fazer sair o cristianismo do meio compósito em que nasceu. Não basta dizer, por exemplo: a morte e a ressurreição
do deus fazem parte de vários cultos; os ritos da iniciação assemelham-se ao batismo; os repastos sagrados pelos
quais se comunga com Dionisios ou com Mitra são como que uma cena eucaristia; o iniciado de Átis come a carne de
um animal divino e bebe o sangue do touro sagrado para se identificar com seu Deus; Orfeu e Cristo são
aproximados pelos próprios primeiros cristãos; a linguagem ritual é às vezes idêntica no cristianismo e alhures, tal,
por exemplo, o “refrigério” desejado aos mortos, o qual se julgaria tirado dos cultos de Ísis; o ascetismo cristão e o
ascetismo pagão têm parentescos manifestos; os carismas, ou manifestações do Espírito, lembram os transes
místicos dos cultos gregos ou orientais; a disciplina do arcano, ou proibição de revelar fora tais crenças ou práticas
cristãs, é um caso particular nos Mistérios; os catecúmenos e os batizados representam os profanos e os mistes, etc.;
tudo isso não basta para demonstrar uma filiação entre o cristianismo e cultos anteriores e contemporâneos.

Uma multidão de confusões insinuam-se nas aproximações estabelecidas. Há umas autênticas, e daqui a pouco direi
a razão disso; porém a maioria são superficiais ao ponto de aproximarem apenas uma máscara de um semblante ou
um retrato de uma caricatura. De sorte que, se não se tomar cuidado, salientando-as incide-se nesses “mais ou
menos” que são uma espécie de trocadilho, como sucedeu a esse grande erudito que é Salomão Reinach, em
punição dos “parti pris” que fizeram do seu Orpheus o último dos panfletos inspirados pela questão Dreyfus.

Para todos, por exemplo, é certo que a ceia eucarística, que se quereria fazer sair das divagações mitológicas, se
apresenta historicamente como uma continuação da Páscoa judia, seu símbolo claramente invocado pelo próprio
Jesus, e que portanto não há sombra de empréstimo, mas sim desenvolvimento voluntário, aliás transcendente,
visto como a Páscoa judia era e sabia que era um símbolo, ao passo que a Páscoa cristã é uma realidade.

A liturgia da missa é igualmente judia: é a cerimônia do “sabbat”, na sinagoga, simplesmente aplicada às novas
concepções e às realidades novas. Isto por aí mesmo se compreende, dada a composição dos primeiros grupos
cristãos, que eram judeus e mui longe ainda de quererem ir buscar o que quer que fosse aos cultos pagãos. “Que
pode a luz ter de comum com as trevas?, dizia S. Paulo, que acordo é possível entre Cristo e Belial?”

A gente se pergunta também o que é que a morte de Jesus sob Pôncio Pilatos, em plena claridade histórica, e
consignada por Tácito nos seus Anais, pode ter de comum com a morte de Átis, da qual se confessará que é bastante
dizer: é um símbolo. Os que a ela se uniam misticamente, assim bem o entendiam, pelo menos os melhores. Os que
refletiam poderiam ter dito ao seu deus, tão pouco edificante e tão longe de toda realidade histórica:

Bem creio, cá entre nós, que não existes.

E, isso dizendo, ter-lhes-iam feito honra.


Quanto à ressurreição, é historicamente, e não misticamente, que ela faz parte do sistema cristão, especialmente no
seu ponto de partida. Ela é o grande fato, a prova irrecusável, pela qual os Doze “se fazem degolar”, dirá Pascal,
como por uma coisa que eles viram, que demonstra a missão de seu Mestre, e que portanto é para a doutrina deles
um fundamento de realidade, e não um símbolo.

Acrescentemos que o símbolo de que se fala, os apóstolos cristãos não o conhecem provavelmente no inicio; eles
quase não o apreciarão, vendo nesses pretensos mistérios meros “contos de velha” (I Tm IV, 7). Que significa,
destarte, a ideia de empréstimo? Não se pede emprestado a símbolos, fossem eles sublimes – e com a maioria de
razão se são julgados pueris – coisa com que afirmar historicamente e de que morrer.10

E assim sucede com tudo o mais. Tomais uma após outra todas as semelhanças que se procuram salientar: ou elas
são inventadas, ou se mostram muito mais ainda diferenças, porque o seu espírito é inteiramente outro; e que é o
gesto ou a palavra sem espírito? Este é que é a verdadeira realidade religiosa. De sorte que, depois de haver
mostrado os cristãos e os pagãos agindo em comum desta ou daquela for,a dizendo isto ou aquilo, nada mostrastes,
se diversa é a alma das palavras e das coisas.

Em toda a extensão da sua vida comum com as civilizações pagãs, a alma da Igreja cristã mostra-se antagonista a
fundo, e não devedora. No início, ela se opõe às imitações mesmo mais inocentes. E isto, repito, não quer dizer que
não haja aí pontos comuns. Deve haver. Mas há diversidade de espécie, porque há diversidade de origem,
diversidade de espírito inspirador, diversidade de fim. A Igreja é inconfundível.

Estabelecido isto, resta ver como, tendo feição própria, a Igreja utiliza sem pestanejar tudo o que o passado lhe
legou, tudo o que o presente lhe oferece, e antecipadamente se adapta a tudo o que o futuro lhe promete.

II

A caducidade religiosa do mundo, por ocasião do advento do Salvador, era bastante semelhante ao húmus que se
amontoa, sobe as juncadas de folhas mortas, ao pé dos veteranos da floresta. Inerte por si mesmo, o húmus
aguardava apenas um germe para irromper em brotos novos. A Igreja não tinha, pois que trazer tudo. Trazia a
essência cuja definição fornecemos, alma permanente que ela deveria para sempre salvaguardar, mas que seus
primórdios encarnavam num corpo rudimentar, destinado a progredir em todos os sentidos: doutrinalmente,
praticamente, administrativamente, já que o tempo e o meio natural condicionam tudo o que vive.

Fidelidade a si mesma e intransigência no que respeita à sua essência íntima; mas também plasticidade e adaptação
utilizadora a respeito de um meio providencialmente destinado à sua vida: tais são os dois deveres da Igreja. O
segundo é menos necessário, se se quiser; mas essas questões de grau no indispensável não têm nenhum interesse
prático.
S. Paulo chama as doutrinas pagãs, leigas ou religiosas, os elementos deste mundo (Gl IV, 3); quer dizer, sem dúvida,
as letras do alfabeto ou os rudimentos de palavras com que se constrói o discurso. São elementos; conservam o seu
valor de elementos; só são rejeitados se pretendem ser por si só o discurso. Se consentem na absorção, são louvados
e utilizados.

A razão fundamental pela qual a Igreja tem essa aptidão e assim procede, é que, divina, isto é, filha do Criador de
todas as coisas, é irmã de todas as coisas; é fundada na natureza, e admite a natureza não somente nos seus
elementos profanos, mas também nos seus elementos morais e religiosos, que não são menos natureza do que o
resto. É essa, para ela, um sinal de catolicidade, “nota” da sua verdade e da sua origem divina. “Só a igreja, escreveu
Newman, conseguiu rejeitar os elementos maus sem rejeitar os bons, e fazer entrar na unidade da sua síntese coisas
que em qualquer outra parte são incompatíveis”.

A Igreja utiliza, assim, principalmente três coisas: o senso do sublime, tirado do Oriente; o senso do belo e do
razoável, especialidade dos Gregos; o senso do justo e do útil, próprio à civilização romana.

O Oriente chega à Igreja, para lhe enriquecer as concepções, por um canal todo indicado: a Bíblia. A civilização
judaica, nas suas épocas clássicas, já era uma síntese depurada do Oriente religioso e uma síntese aproximada, já
sofrivelmente rica, do Oriente político, filosófico e social. A dispersão, pondo o judaísmo em contato com as outras
raças, amplia-o e, uma vez assimilado ao cristianismo, torna-o mais apto ao papel de nutrício que ele é chamado a
desempenhar por sua parte, a respeito da vida nova.

O Oriente infiltra-se assim nas veias da Igreja como um sangue quente e brilhante cujo encarnado se reconhece
facilmente hoje mesmo. Os espíritos estreitos a quem chocam os nossos ritos pomposos, as nossas tiaras e as nossas
formulas por gosto enfáticas, acham nisso matéria para censura: mas o cristão desprendido de si pensa nos séculos e
nas raças com que é solidário, na unidade feita de diversidades que a vida católica realiza, e sente-se ufano de aderir
a uma sociedade integralmente humana.

Não menos úteis à vida da Igreja deviam ser os maravilhosos contributos da civilização grega. Eram-no ainda mais a
certos respeitos. A filosofia, tão necessária para sistematizar a doutrina, para torná-la coerente com o espírito,
proveitosa à investigação e defensável a respeito de adversários bem armados, da Grécia é que virá.

Separada da religião, ou posta a serviço de religiões falsas, pueris ou insuficientes, a filosofia não tinha servido de
nada para a vida. Só dava o incerto, não assegurava da verdade e ainda menos da sua realização prática. Nada de
trilha humana traçada, unicamente especulações, porque a autoridade faltava, se não faltavam o saber e a
eloquência. Aquele que puder dizer: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” estará em condições de fazer a filosofia
atingir seu escopo como faz atingir seu escopo tudo o mais. “Restaurar tudo em Cristo”, a filosofia terá o benefício
desta palavra, e aquele que nem sequer lhe pronunciou o nome, aqueles que posteriormente falam uma língua de
aduaneiros e de barqueiros, serão os verdadeiros salvadores dela.

Na época de Jesus, o classicismo está em via de dissolver-se nas loucuras místicas ou míticas em moda. Bem longe
dos espíritos claros da Hélade, uma quantidade de pretensos pensadores degeneram no mágico, no curandeiro
banal e no adivinho. Pelo órgão daqueles a que nós chamamos seus Padres, seus Doutores, a Igreja recolhe as
tradições de Sócrates, de Platão, de Aristóteles; completa-as e compreende-as por assim dizer, melhor do que eles
próprios, nisto que leva a fundo aquilo que eles apenas haviam esboçado, endireita o que eles haviam deformado,
harmoniza com verdades novas o que eles tinham deixado sem nexo. Mais tarde, fá-los-á reinar, com seus êmulos,
em face da sua própria apoteose simbólica, no próprio palácio do Vaticano. A Disputado Santíssimo Sacramento, de
um lado, e a Escola de Atenas, do outro, decorando a Stanza della Segnatura, interpretam o “selo do pescador”
como uma aceitação de todo o humano incorporado a todo o divino, para que Deus seja tudo de todos, e de tudo.

Não é segredo para nós que a Revelação é a salvação da razão, e que a luz que ilumina todo homem que vem a este
mundo, se tem o seu foco divino no pensamento evangélico, sabe reconhecer-se também nos achados dos homens.
De uma religião nada sistemática em si mesma, e de uma filosofia (a de Aristóteles) arreligiosa no fundo, mas em
que o pensamento grego atingia o ponto culminante da sua força e da sua luminosa harmonia, a Igreja, representada
pelo maior de seus doutores, fará a Suma Teológica, a obra filosófica mais religiosa e a obra religiosa mais filosófica
que jamais tenha aparecido.

O que eu digo da filosofia aplica-se, sem que seja necessário demorarmo-nos nisto, a todos os aspectos, tão
variados, da civilização helênica. A arte de nossas catacumbas e de nossas basílicas outrora não é senão a arte grega,
degenerada, é verdade, mas aceita tal qual, e admitida ao batismo, enquanto aguarda ser confirmada, alimentada
com o sangue de Cristo, absolvida de suas taras, casada com a divina Esposa, à qual dará esta gloriosa filha: a arte
cristã. Prova de que o Espírito criador, servido pelo gênio do homem, não é menos artífice de beleza do que de
prosperidade em qualquer domínio, de verdade e de virtude.

Enfim, eu disse que ao gênio romano a Igreja toma emprestado o seu espírito de governo, o seu senso do legal, a sua
capacidade de reger a um tempo larga e firmemente as realidades humanas. O direito canônico, desde o inicio,
enceta a larga curva que ainda não está fechada, que nunca o estará; sem pestanejar, vai buscar as suas mais
precisas determinações à ciência jurídica de Roma. Submete-as, bem entendido, à sua matéria e aos seus fins – às
vezes não o bastante, talvez: mais de uma vez, ao longo da história, notar-se-iam reminiscências da dureza romana a
respeito de súditos regidos pela lei de amor; mas, no conjunto, a utilização segue sempre a mesma regra:
envolvimento assimilador, entrada de tudo sob uma lei de vida que se endereça a tudo, querendo fazer realizar seus
fins o homem todo.

Por si mesmo se concebe que a recíproca devia também ter lugar. O direito canônico influenciou todos os
pensamentos jurídicos da nossa era; ele olhava de mais alto, e, daí, a mais profundo: devia-se recorrer a ele para
julgar das maiores causas. Pena é não se fazer isto ainda mais nestes nossos tempos de dispersão de espírito!

E, se se trata dos elementos propriamente religiosos encontrados pela Igreja no momento do seu nascimento e no
curso dos seus primeiros desenvolvimentos, já não sucede com eles inteiramente o que sucede com os produtos da
civilização geral. Os empréstimos, aqui, reclamam prudência. É preciso não se expor a incorporar germes mórbidos,
e aquilo mesmo que mais tarde será nutriente pode ser mórbido no estado nascente.

Já lembrei que o primeiro cuidado da Igreja deve ser diferenciar-se, a fim de se definir. Uma vez bem reconhecido o
que ela é, poderá ela entregar-se sem perigo a um trabalho de adaptação, em mira a um enriquecimento dos seus
quadros.
É no começo do século II que a Igreja, conquistando todo o escol social, tem com que se fazer julgar tal como é, e
pode pois tranquilamente apropriar-se de elementos úteis sem se arriscar a ver-se confundir com cultos doravante
vencidos. Nesse momento, aliás, estando encerradas as perseguições, a dilatação da Igreja e o seu estabelecimento
pacífico criam necessidades novas, que os contingentes estranhos ajudarão a satisfazer.

É assim que Gregório, o Taumaturgo, seguido nisso por todos os seus colegas, introduz em Neo-Cesareia costumes
religiosos tirados do paganismo, mas que, bons em si mesmo, em todo caso indiferentes, podem adaptar-se às
crenças cristãs. Festas, banquetes simbólicos, datas consagradas por longos usos são batizados, após serem
cuidadosamente expurgados ou explicados. Dá-se com eles o que se dá com os edifícios religiosos dos pagãos, que
são mudados de destinação, conservando-se. A intolerância necessária mostra-se assim isenta de fanatismo e de
mesquinha impertinência. Ao mesmo tempo ostenta-se a liberdade do espírito religioso a respeito dos ritos
acessórios, quando no paganismo o rito é tudo, e a interioridade ad libitum.

A liturgia acha, assim, como progredir no sentido da amplitude e do senso estético. A clareza majestosa e a bela
ordenação gregas juntam-se à vida interior de que a Igreja tem o monopólio. O exterior poderá corresponder ao
interior; o gesto secreto assumirá a amplitude de um gesto de multidão, para que a Igreja também ore, e pelo seu
corpo tanto quanto pela sua alma.

A terminologia sagrada segue um movimento paralelo: vemo-la enriquecer-se de termos figurados tirados da poesia
antiga, veiculados por meio de religiões rejeitadas, mas não inteiramente perversas. Os exorcismos solenes, as
lustrações de água benta, as velas, as túnicas brancas, as procissões à imitação dos Panateneus, tiram daí sua
origem.

A Festa de Natal, que faz coincidir o nascimento de Jesus com a festa do Sol invicto (Natalis invicti), lembra a cristãos
recentes que o Senhor deles, nascendo em Belém, é que é o verdadeiro sol dos homens.

Agir assim não é pactuar, é ligar-se a tradições purificadas, a utilidades psicológicas ou sociais, a recordações, a
valores de arte que, já não sendo veneno, se tornam alimento. O que os povos mais artistas ou mais religiosos do
universo tinham achado não podia ser inteiramente vão. Não eram esses os odres velhos, o vestido velho em que o
remendo novo do Evangelho não devia ser cosido; era o receptáculo eterno dos sentimentos humanos; era a veste
de natureza que não se podia tirar fora sem dilacerar o homem, sem mutilar a história, que representa as etapas da
vida do homem.

Essa adoção dos costumes pagãos, regulada com prudência, permitiu a utilização dos sentimentos e instintos que
sustentavam os cultos locais; com isso, ela fornece À penetração evangélica uma grande força. O culto dos mortos, o
culto dos demônios ou espíritos dos mortos que tinham sido piedosos, o culto dos protetores domésticos: penates,
lares, genius, etc., representavam as mais antigas devoções conhecidas, e por isso as mais tenazes. Expulsá-las sem
substituí-las era difícil, e aliás não se devia. O culto dos santos e dos mártires lá estava para auxiliar a substituição;
ele compensava no espírito das multidões a perda das pequenas divindades populares. Quando se tira a uma criança
a chupeta, ela depressa se consola se em lugar da chupeta lhe dão pão.

É bem conhecido o caso daquele bispo do Gévaduan, de que Gregório de Tours fala na sua Glória dos Confessores.
Após vãos esforços para desarraigar o culto idolátrico do monte Helànus, que consistia em atirar oferendas numa
lagoa e em se lhe banquetear nas margens para se tornar favoráveis os seus gênios, teve ele a ideia de fundar no
lugar um oratório a Santo Hilário de Poitiers, com suas relíquias. Os campônios afluíram, e aquilo que atiravam no
lago consagraram-no de então por diante às caridades do novo santuário.

Isso se fazia mais ou menos em toda parte, e mui sensatamente, pensem o que pensarem alguns. O culto dos nossos
santos, bem compreendido, não é a idolatria que o protestantismo pretende; significa intercessão, união universal
dos homens em Cristo e solidariedade nesse Vínculo, isto é, depois da ideia de Deus, a mais alta das ideias religiosas.
Digamos melhor, ele evoca toda a religião, se o encararmos do lado do homem.

Produziram-se abusos; produzem-se ainda; a veneração e a adoração nem sempre foram bem distinguidas,
mormente no inicio, por homens rústicos, e o egoísmo mais de uma vez invadiu o terreno dos sentimentos
religiosos; mas isso não era culpa da Igreja. A grande construtora constrói; admite o risco. Paris espiritual não se
constrói, tão pouco, num dia. Antes de exigir de todos a perfeição cristã, era preciso ligar as massas ao princípio
cristão.

Melhor não posso concluir, nem acentuar uma última vez o caráter assimilador, ao mesmo tempo que separador,
atribuído à nossa Igreja, senão por estes textos de um dissidente que podemos plenamente fazer nossos:

“A religião cristã, diz Harnack11, apresentou-se desde o começo com um caráter de universalidade em virtude do
qual pôs seu cunho sobre a vida inteira, com todas as suas funções, com suas alturas e profundezas, seus
sentimentos, seus pensamentos, seus atos. Só afastou a desonra e o pecado. Construiu-se com tudo o que ainda era
capaz de viver, e isso graças ao seu poder de organização. Fora dela, quebrou tudo; em si mesma, tudo conservou.
Podia isso, porque – sem dúvida ninguém o dizia e ninguém o sabia, mas cada alma piedosa o realizava em si mesma
– porque, considerada na sua essência, era alguma coisa de simples, digamos antes de universal, ou católico, que
podia unir-se a todos os coeficientes, que os reclamava mesmo”.

Duvido que qualquer autor católico tenha apresentado um argumento de apologética interna mais impressionante e
em termos mais fortes.

“Ela, continua Harnack, permaneceu exclusiva, atraindo entretanto a si todo elemento estranho que tinha um valor
qualquer. Foi por este sinal que ela venceu; pois sobre tudo o que é humano – eterno ou transitório – ela colocou a
cruz, e desde então submeteu tudo ao além”12.

Donde esta conclusão naturalíssima: “Se o houvessem traduzido (o cristianismo) perante um tribunal, para lhe
perguntarem com que direito admitira tantas novidades (e acrescentarei: pilhara tantos adversários), ele teria
respondido: Não sou culpado; só fiz desenvolver os germes que haviam sido depositados em mim desde o inicio da
minha existência”13.

É bem e sempre a mesma imagem, a mais expressiva das que se podem aplicar à Igreja. A Igreja é um germe que se
desenvolve às expensas do seu meio, vivendo do seu meio sem lhe pertencer nem se comprometer nele.
Intransigência e plasticidade são os seus dois caracteres complementares; eles explicam toda a sua história; explicam
mui primeiramente o seu início.

O que, nas possantes evoluções que lhe compõem o destino, se transforma, não é ela – ou, pelo menos, as suas
transformações são as do grão, que evolui na mesma essência; - o que se transforma, verdadeiramente, é aquilo que
ela vive, sendo uma desnaturação enriquecedora a condição imposta seja ao que for para ter acesso à substância.

Ela absorve e não é absorvida. Só aceita as luzes terrenas como matizes de transição para conduzir ao seu sol ou
para acompanhar o seu sol – sublime halo que o astro divino, seu centro, irisa nas nuvens da nossa atmosfera;
claridade suave que transforma em joias as agulhinhas de gelo do nosso ar e tamisa no entanto o esplendor
obcecante; clarão difuso, clarão cambiante, que leva a irradiação mais longe e coloreia de beleza terreal a inacessível
vibração da pura luz dos céus.

“Instaurar tudo em Cristo”, em Cristo socializado que é a Igreja; divinizar assim tudo o que é do homem e humanizar
tudo que é de Deus: este é o programa. É ao que tendem todos os empréstimos que, sem que jamais se esgote o seu
poder e envolvimento e de vivificação, o Evangelho eterno fez e há de fazer à eterna e universal civilização.

10 – A seita dos Naassênios, é verdade, ousou confundir Átis com Jesus; mas com isso só excitou o horror e a risada
cristãs.11 – Op. Cit., I, III, conclusão.12 – Ibid, tomo II, p. 28513 – Ibid, p. 206

http://apologistascatolicos.com.br/index.php/apologetica/igreja-catolica/594-a-igreja-e-as-civilizacoes-anteriores-a-
d-sertillanges

A Igreja em face dos césares - A. D. Sertillanges

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Publicado em 06 Maio 2013

Escrito por Jonadabe Rios

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A Igreja em face dos séculos antigos para se prender neles, em face de si mesma para se
constituir, em face do seu meio natural para nele se apoiar, para se distinguir dele na medida necessária e com isso
conquistá-lo: tal é a visão de que até aqui penetramos os nossos olhares.

A que reservávamos para sob este título: A Igreja em face dos Césares, deve mostrar-nos a obra de Cristo em luta
com as potências deste mundo de que ela mais poderia ter que temer, se algo de sobre-humano não estivesse nela,
prontinho a medir-se com o humano levado ao máximo – e armado – representado por esta palavra tradicional:
César. Insistindo sobre o sentido ampliado, e de alguma sorte simbólico, deste termo, poder-se-ia dizer: a Igreja não
esperou estar em face dos Césares para experimentar César. Um César domestico faz-se ver apressado, desde o
tempo de Jerusalém, a zombar da familiazinha heroica, depois de lhe haver matado o Mestre.

A Paixão foi antes de tudo um crime judeu; o Império só indiretamente tomou parte nela, trazendo-lhe uma
cumplicidade administrativa, se assim posso dizer, cobrindo com sua assinatura uma sentença imposta por outros. A
Paixão continua sob as mesmas responsabilidades enquanto o judaísmo continua sendo a moldura política do
cristianismo nascente. Nascida na cruz do Rei dos Judeus, a Igreja aí fica. Predisse-o o Salvador: “O servo não está
acima do amo”. “Se eles assim trataram a lenha verde, que farão da lenha seca?” (Jo XIII, 16; Lc XXIII, 31).

Sob Herodes Antipas, João Batista e Jesus pereceram. Sob Agripa Iº, Estevão, Tiago, filho de Zebedeu, e Tiago, o
irmão do Senhor, perecem por sua vez. Outros são flagelados. No ano 34 aproximadamente, a perseguição é
bastante forte para dispersar o rebanho – que, como vimos, aproveita isso para enxamear, especialmente em
Antioquia.

As razões da atitude adotada pelo sinédrio para com a seita nova não são todas elas religiosas, nem judias. A política
romana já entra aí por alguma coisa. Acaso Caifás não disse, perfidamente é certo, mas apoiado em aparências
plausíveis: “É melhor que morra um homem do que todo o povo?”. Desde esse momento, pois, temiam-se
dificuldades da parte dos Romanos. A sinceridade religiosa e a independência ardente dos discípulos de Cristo fazem
deles uns perturbadores, ao olhos de uma administração já sobrecarregada de querelas e maçada com as
combinazioni judaicas.

Quando, pelo fim do século I, o êxodo da Igreja for consumado, Jerusalém destruída e todo poder político de Israel
abolido, as pequenas dificuldades locais cederão à grande tormenta cujas causas temos de dizer.

Em principio, entre os Antigos, o homem que pratica uma religião diversa da do seu país está em situação daquele
que se põe a serviço dum exército estrangeiro ou que muda de pátria. Mas a fusão dos Estados ou suas combinações
políticas, por meio do direito de cidade diversamente praticado, leva a compor, em religião como em tudo o mais.
Estabelece-se uma larga tolerância, que não é um progresso religioso, que é um ceticismo disfarçado nos dirigentes
e uma superstição agravada nos outros. Os que creem na pluralidade dos deuses não se incomodam com a
existência de mais alguns. Desde que o interesse e o instinto social se acham postos a coberto, a introdução de
divindades novas excita apenas uma curiosidade benévola, ou um sorriso indiferente, ou um vago temor reverencial.

Num sistema mitológico complicado, em que os censos são sempre provisórios, há sempre uma porta aberta;
ninguém se admira de ver passarem a ele divindades novas – que aliás muitíssimas vezes só são novas de nome. Que
importa seja Deméter chamada Ísis pelos Egípcios e introduzida em Roma sob esse vocábulo estrangeiro, como uma
filha que volta a habitar na casa dos pais depois do casamento?

Os judeus e os cristãos têm princípios inteiramente outros e estados de espírito inteiramente diversos. Aos olhos
deles, a Divindade não é um patrimônio nacional, nem tão pouco – menos ainda – uma confederação indeterminada
em número e em forma. O Deus deles é Deus; os outros são meros demônios ou sonhos, cujo culto é pura
impiedade e puerilidade, excitando sucessivamente ou ao mesmo tempo a risota e a indignação virtuosa.

Compreende-se a reação hostil que tais concepções devem provocar, e a solidariedade que deve estabelecer-se
entre os cultos pagãos mais divididos, quando se trata de troçar semelhante intolerância. Plínio e Tácito chamam os
judeus uma raça célebre pelo seu desprezo dos deuses, e que considera como profano tudo o que os outros têm
como sagrado14. Em regime pagão, e dada a confusão permanente do espiritual com o temporal, isso quase não se
perdoa.

Todavia, acha-se jeito de arranjar-se finalmente com os judeus. A não ser que se tornem cidadãos romanos, caso em
que as dificuldades sobrevém e se resolvem de diversas maneiras assaz arbitrárias, eles beneficiam da tolerância
geral. As perseguições consistem pra eles, as mais das vezes, em imposições de tributo. O dinheiro é o preço da sua
liberdade. Tudo se compra junto a gente para quem o espiritual é antes de tudo negócio temporal, negócio de
Estado. A irreligião só é perseguida a título de anarquia: já não se é anarquista quando se paga para a administração
da ordem. Os judeus tornam-se excelentes servidores de Júpiter Capitolino, desviando em proveito dele o didracma
que os Ben-Israel pagavam ao Templo antes da destruição do santuário. Vespasiano, em todo o caso, assim decide.

Mas o cristianismo não é por muito tempo confundido com sua mãe, a sinagoga. Mãe desnaturada, esta retoma
muitas vezes à sua conta o papel de Judas. Interesseira, odienta, ela não quer ligar a sua sorte política à de gente que
a abandona cada vez mais, que goza dos seus privilégios e a compromete pelos seus excessos de zelo. Sucede serem
judeus os primeiros a denunciar os cristãos às autoridades romanas.

Isso não é muito necessário. Para desvantagem deles, cedo se discerne gente tão extraordinária como esses cristãos.
O seu gênero de vida separado, intenso e tão oposto ao século, expõe-nos às represálias de sentimentos
melindrados e de malevolências exacerbadas por toda sorte de interesses comprometidos. Toquei neste último
ponto a propósito das conquistas da Igreja.

Calúnias atrozes circulam. Os ritos mais sagrados, que se julga bom manter secretos por prudência, tornam-se por
esse fato ocasião de acusações infames. Os ágapes noturnos são convertidos em saturnais capazes de fazer corar as
saturnais; a eucaristia vira antropofagia: é uma criança que degolam para comerem.
Essas invenções odiosas e tolas acham crédito junto às massas como nos nossos dias o anticlericalismo. Deus sabe o
que se chega a fazer engolir, mesmo alhures! Conheci um astrônomo persuadido da existência de uma comunicação
subterrânea entre um convento de homens e um convento de mulheres, em seu país. Haviam-lhe dito isso. Sem
dúvida haviam colhido isso nos astros. Gente mui grave, como Tácito, como Suetônio, são os astrônomos daquele
tempo15. Consideram os cristãos como dignos de todos os castigos, por motivo político sem dúvida alguma, mas
também por causa de vícios privados acreditados sobre a autoridade dos dizem. O dicuntur e o ferunt dos Romanos
não têm menos poder do que os nossos parece, dizem.

Essas calúnias são bastante espalhadas para que S. Justino diga que consagra a sua apologia “àqueles a quem o
gênero humano inteiro odeia e persegue”. O gênero humano é o mundo romanizado que eu descrevi, e é certo que
nossos primeiros pais, com suas ideias tão diferentes em tudo, tão definidas, tão nobremente intransigentes, devem
fazer aí uma figura difícil de olhar a sangue-frio. Ou as pessoas se rendem, ou se opõem, o que quer dizer que ou são
hostis ou são odiadas, sem matizes intermediários.

Pensai que a vida social, impregnada de paganismo, é quase impossível aos fiéis. Viver é apostatar: não há senão
esquivar-se ou morrer – a não ser que se vença. Os nascimentos, os casamentos, as festas de família, os atos da vida
agrícola: semeaduras, colheitas, vindimas, tudo, na ordem privada, serve de pretexto a atos religiosos: libações,
incenso oferecido aos deuses ou banquetes mais ou menos rituais. Quando vos convidam à sua mesa, num dia de
festa, escrevem-vos, como achamos num papiro do século II: Tomai lugar “à mesa do Senhor Serápis, a 16 do mês”.

Caráter semelhante têm os divertimentos populares. As instituições civis e militares supõem juramentos religiosos;
as funções inauguram-se ou correm risco de inaugurar-se de maneira ritual. Recusar-se a tudo isso, é irritar o gênero
humano em grau verdadeiramente insuportável.

E a misantropia complica-se aqui de rebelião, visto como, ao mesmo tempo que se recusam as ações cotidianas,
recusa-se a participação nos serviços públicos, que têm o caráter de um dever. Todos os cultos cedem ante a vida
romana; todos com ela se acomodam fácil ou respeitosamente; só o cristianismo se enrija: convida a que o
quebrem.

Por outro lado, a sobriedade das suas crenças faz os cristãos passarem como racionalistas aos olhos de pessoas que
porfiam em complicar e em subtilizar. A ideia nítida que eles têm o Deus uno fá-los passar por ímpios – como
Sócrates, - nisto que o Deus que eles adoram só parece definir-se pela negação dos outros. Afirmar uma coisa sobre
mil não é, “grosso modo”, negar tudo? Desprezar o panteão inteiro, salvo um Deus, é uma impiedade manifesta. É
bem ruim o caso dos cristãos.

É tão ruim o caso deles, que eles são acusados de maneira a não acharem saída senão para o túmulo. A tolerância
romana, tão ampla, tão universal até então, chega a dizer: sede tudo que quiserdes, menos cristãos.

A partir de que época o cristianismo é considerado juridicamente como religio illicita, não se sabe bem. Isso pode ser
muito cedo. Em todo caso, no tempo de Tarjano (98-117) a questão não se presta mais a dúvida. O simples fato de
ser cristão basta ao juiz. Não há necessidade de articular outra acusação. Magia, incesto, infanticídio, lesa-majestade
ou sacrilégio, todas estas imputações absurdas ou atrozes com que o povo os agrava já não têm mais que se
justificar no pretório. “Que é que recitais nas vossas tabuinhas? Clama os juízes o veemente Tertuliano. Fulano,
cristão? E por que também não: e homicida?” Poder-se-lhe-ia responder: é inútil; os cristãos, como tais, estão fora
da lei do Estado, lei que é religiosa ao mesmo tempo que política, porque é política.

Isso não é de admirar. E será abusivo? Sim, evidentemente, em si, visto que se persegue a verdade. Ao invés de
sacrificar o cristianismo a um dogma social inferior, a atitude correta seria escutar, convencer-se, visto haver de quê,
e render-se. Mas isso de maneira alguma prova que tal magistrado, tal imperador não possa estar, ele
“subjetivamente”, muito em regra com a sua consciência.

O cristianismo instaura uma revolução: deve esperar pela sorte dos revolucionários, isto é, pela oposição não
somente das pessoas mal intencionadas, mas também dos homens de ordem no sentido estrito do termo, dos
conservadores e dos sectários políticos que ele não tiver conseguido imediatamente converter. Quando os homens
de ordem são Nero ou Domiciano, devem-se ver coisas piores!

Coisa surpreendente: é sob um sapientíssimo imperador, Marco Aurélio, que os tempos se tornam os mais duros
para o cristianismo. As cenas horríveis e gloriosas dos mártires de Lião, as de Cartago, datam do fim desse reinado.
Há para isso razões gerais e razões locais; porém os preconceitos do Imperador, tanto mais inextirpáveis quanto são
refletidos, a recusa de examinar os fatos, pois a teoria acalma a consciência, a aplicação cega das leis do império,
devem entregar os cristãos, sob esse imperador, aos rigores de uma serenidade sem entranhas. Só depois desse alto
filósofo, e, ó ironia! Sob um dos imperadores mais odiosos que Roma teve, Cômodo, é que a tranquilidade volta.

Para compreender isso, importa obervar que, a respeito de semelhante problema, os imperadores não são tudo. Um
imperador nunca é tudo. Mesmo um Estado centralizado ao máximo, a centralização só relativa pode ser. Entre nós,
a sorte do pequeno editor ou do funcionário não depende tanto do governo como do prefeito, dos “comitês” locais,
do deputado, até mesmo de um intrigante sem mandato. A política local pesa sobre o indivíduo mais do que a
política geral do Estado, e o tirante é mais de temer do que o tirano.

Quando há contra vós, notadamente, isso a que se chama “as leis existentes”, nunca estais em segurança,
porquanto, tivesse o poder central intenção de deixar dormir o instrumento de suplício, desde o momento que ele
não pode ou não quer suprimi-lo, a gente se arrisca sempre a ver o cutelo desprender-se, mesmo quando a mão dele
permanece inerte.

Portanto, mesmo com bons imperadores, os cristãos vivem sob a ameaça constante, e, periodicamente, sob a ação
do martírio. Quando César esquece a razão de Estado ou acha nela motivo de tolerância, o que sucede, nem por isso
nossos pais deixam de ficar sendo uma caça perseguida, em todo caso disponível, visto como não merece aos olhos
de quem quer que seja, no mundo político, a menor benevolência. Ao primeiro sobressalto de ódio popular, graças
ao menor incidente local, ou em razão de uma malevolência individual um pouco poderosa, tudo é posto novamente
em questão, e a morte trabalha.

Isso explica suficientemente os fatos até o fim do século II. Depois, intervém um elemento moral inteiramente novo:
o medo. As pessoas se lembram das palavras de Domiciano: “Eu preferiria suportar um rival em Roma a suportar um
bispo cristão”. Semelhante sentimento mostra o quanto está mudada a situação entre a Igreja cristã e o Império. A
Igreja tornou-se uma potência. A arrogância serena de um Marco Aurélio ou a segurança de um Adriano já não são
admissíveis. A Filosofia acaba de mostrar o que vale. O sincretismo religioso desacredita-se, e, sob os olhares da
autoridade romana, o rebanho de Cristo estende-se de maneira a mais inquietadora. O tempo vai chegar em que o
perseguido de ontem será o vencedor; o leãozinho, que fora tomado como caça vulgar, mostrar-se-á o “leão de
Judá” e pulo irresistível. Antes disso, deve ser tentado o esforço supremo. Tentam-no, e a perseguição de
Diocleciano, a que se chamou a era dos mártires, datando a 9 de Agosto de 284, é o ponto culminante desse
período.

Não se põe nela, aliás, grande continuidade; procede-se por acessos. Quanto ao resultado, este dá razão à palavra
de Tertuliano, tão ousada, tão consciente do milagre na sua forma mais trágica, senão mais alta: “Sanguis martyrum
sêmen christianorum; o sangue dos mártires é semente de cristãos”.

Cumpre relembrar as leis dessa germinação cruenta, dizer por que as crueldades dos Césares resultam às avessas,
como é que não descoroçoam o lealismo dos cristãos, mas do que nunca afeiçoados ao Império à medida que dele
sofrem, e que atitude enfim sabem guardar heroicamente homens em quem o ódio devia produzir naturalmente o
ódio, mas em quem, ao contrário, produz o amor e o triunfo social do amor.

II

As razões do triunfo dos vencidos, na luta desigual da Igreja com o Império, são antes de tudo de ordem
sobrenatural. Aqui, como também quando se tratava de um extraordinário crescimento – as duas questões,
ademais, são conexas – não se pode afastar o milagre. Quem quer que pense nisso com o sentimento do real e do
possível humano parece dever consentir nisto. Não é necessário e não é eficaz, aqui, raciocinar; basta ver, mas ver
com os olhos da alma.

Todavia, o sobrenatural tem seus meios naturais, que nem por isso são as suas causas; ele segue uma marcha; para
agir num plano superior ao homem, toma seus pontos de apoio no homem. Há, pois, razão para inquirir das causas
humanas que intervieram aqui, o que redunda em perguntar que caminhos seguiu a Providência em favor do seu
miraculoso.

Bem parece que as razões de vitória devem ser buscadas antes de tudo nos sentimentos que a perseguição excita,
quer nos expectadores generosos – e isto, já o dissemos – quer nos próprios perseguidos. Milagre de generosidade
em ambos os casos, milagre de graça, com a cooperação da natureza.

Os que desdenham os sentimentos, ligando orgulhosamente toda a marcha do mundo a sistemas políticos, ou,
baixamente, a fatalidades econômicas, recebem aí um desmentido. O martírio, dominante dos sentimentos
inebriados e cantantes da alma cristã primitiva, desempenha um papel capital na harmonia pautada por Cristo; e,
admitido o ponto de partida, concebe-se que essa harmonia seja destinada a expandir-se em ondas cada vez mais
longas no concerto, embalde dissonante, deste mundo: “O exemplo da morte dos mártires nos toca, escreveu
Pascal, porque são nossos membros”.

O martírio é o heroísmo do amor, e, após as nítidas declarações do Salvador, o amor aparece como o centro da
doutrina e a pedra de toque da prática. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos”:
esta palavra do Mestre, que ele aplicou a si mesmo, aplicam-na a si os verdadeiros cristãos. Prontinhos a lhe
provarem o sabor delicado e áspero, eles haurem nelas esse sentido do supremo que favorece o estado nascente de
todos os grandes movimentos humanos, e, com maioria de razão, de uma obra antes de tudo divina.

Do ponto de vista da “salvação”, isto é, do êxito pessoal da vida, de que nenhum de nós tem o direito de se
desinteressar, visto que a vontade providencial coincide aqui com o mais decisivo interesse, visto que cada um
recebeu o encargo de si mesmo antes de ser encarregado de outrem – deste ponto de vista, digo, pessoal, mas não
egoísta, o martírio é o meio por excelência. Ele une a Cristo na morte, e portanto na vida ao máximo, constituindo
um ato último, de todos os mais vital; e por isso mesmo nos une a Cristo na sua ressurreição, já que, para nós como
para ele, a morte é uma mera passagem.

A teoria do batismo de sangue, que é primitiva, e que parece ser considerada no início como uma evidência,
estabelece o candidato ao martírio na segurança de uma glória celeste imediata e fá-lo repudiar o medo. “Não
temais os que matam o corpo e depois nada mais têm a fazer”, disse o Senhor. Esse sublime “nada mais”, esse
“depois disso” dizem muita coisa sobre o desdém daquilo que passa em relação àquilo que fica. Que é matar o
corpo, se não é libertar a alma, que os seus pecados passados e os seus receios de futuro oprimiam?

Tem-se o direito de pensar que a glória humana religiosamente encarada, isto é, como uma nobre emulação para o
bem e como uma alegria de, a título de herói, existir no pensamento de seus irmãos, na lembrança perpétua da
Igreja, não é estranha a esse apetite de morrer. Chama-se aos mártires os bem-aventurados, os benditos, os atletas,
os magnânimos. Invocam-nos; eles conferem indulgências por meio do bilhete de paz (libellus pacis); conservam-se
os seus restos mortais; visitam-se-lhes os túmulos; erigem-se altares sobre suas ossadas; celebram-se-lhes os
aniversários; poesias, como as de Pindaro sobre os atletas dos jogos, eternizam esses atletas da alma. Tudo isso
torna-se um apelo magnífico aos grandes corações.

O amor ao risco, de que nos têm falado eloquentemente, e de que um esporte novo, como ontem a aviação, basta
para exaltar os voos mais belos do que os de engenhos toda via admiráveis, acha aí matéria bem diversa. A cada
instante e como pelo efeito de um contágio irresistível, veem-se guardas de prisão ou algozes juntar-se ao rebanho
de suas vítimas, e declarar que também querem morrer.

Essa persuasão de que morrer é um lucro, quando é por Cristo, torna mais fácil sem dúvida a nossos pais o
cumprimento, mesmo nessas circunstâncias extremas, do preceito evangélico: Amai os vossos inimigos; fazei bem
aos que vos perseguem. Quando, no dizer dos Atos (V, 41), os apóstolos sofreram o suplicio do flagelo, logo no inicio
do seu ministério em Jerusalém, “lá se iam alegres por terem sido julgados dignos de sofrer o opróbrio pelo nome de
Cristo”. Quando se nutrem tais sentimentos, a cólera já não tem lugar; pensa-se tranquilamente no algoz; pensa-se
nele tristemente, pelo seu erro, se é de boa fé, e, no caso contrário, pelo seu crime.

Os dois casos aqui se apresentam, e não o ignoram os cristãos. No conjunto, estes atribuem a resistência do mundo
ao poder de Satanás, artífice de malícia e de erro no meio dos homens. Estes últimos são vítimas dele, antes de
serem seus colaboradores. É, pois, sobre ele que se faz recair a detestação. Digamos mais simplesmente, como o
dirá mais tarde Agostinho: o cristão odeia o mal amando quem o faz.

César, isto é, o Estado, se beneficia desse sentimento. Sente-se que ele é escravo do Maligno, já que a idolatria –
essencialmente diabólica para nossos pais – é a lei social; mas ama-se a César como criatura de Deus, de Deus que
fez os governos, tendo feito os povos; ama-se como benfeitor temporal, visto como, fora da religião, ele protege e
desenvolve a vida coletiva, de que os cristãos não entendem de se abstrair. Ama-se também a César instintivamente,
como se ama o seu meio natural, o seu berço ampliado, a sua pátria de corpo e de alma.

Daí esse lealismo, que é bem impressionante em homens perseguidos de morte, e que não se desmente. S. Paulo
disse: “Submeta-se toda alma aos poderes superiores, pois não há poder que não venha de Deus... Aquele, pois, que
se opõe aos poderes resiste à ordem de Deus” (Rm XIII, 1). É verdade que ele assim falava num período de calma;
mas era no dia seguinte às atrocidades de Nero, e o epistoleiro incomparável poderia ter visto sua página iluminada
pelas tochas vivas em que se consumiam seus irmãos. Pedro, por seu turno, repete: “Temei a Deus, honrai o rei” (I
Pe II, 17), esse rei que ia crucificá-lo.

Tertuliano faz notar que nunca os cristãos estiveram metidos nas sedições; que jamais os conspiradores, os Albinos,
os Cássios, os Nigros, os tiveram por cúmplices. “César, escreve ele fortemente, é mais César para nós do que para
os outros romanos, tendo sido, como foi, constituído César por nosso Deus”16. Estas são grandes palavras; são e
serão sempre de tradição na Igreja.

Mas isso não impede que se seja oprimido pelo Império romano como por um poder satânico ao mesmo tempo que
divino. Ele é divino como emanado d’Aquele que tudo rege, e como executor das suas vontades relativas à ordem
social; é satânico porque mistura à justiça de suas exigências políticas a injustiça das suas pretensões religiosas e dos
seus furores.

Estes dois pontos de vista são em toda parte reconhecíveis na atitude cristã das origens. A ele se liga uma teologia
que causa estranheza a certos espíritos e que, no entanto, é das mais racionais. De um lado se diz: obedecei aos
chefes políticos por causa de Deus; em certas circunstâncias se diz: “é melhor obedecer a Deus do que aos homens”
(At V, 29). Isto não se contradiz. Há objetos a cujo respeito a consciência individual está ligada a Deus por intermédio
do poder social. Outros há em que ela mesma é juiz, sentindo Deus dentro – como é o caso da lei natural – ou
encontrando-o numa autoridade de ordem à parte, como a autoridade religiosa, que o representa diretamente, sem
ter de passar pelo estado.

Essas competências diversas fazem a diversidade da atitude cristã. Onde quer que César seja juiz, obedece-se a
César. Onde quer que a consciência seja juiz, obedece-se à consciência. E esse dualismo é tanto mais acentuado
quanto há aí uma oposição mais completa entre o que a consciência exige e o que é reclamado abusivamente por
um poder opressor, que nem por isso decaiu dos seus direitos.

A política cristã sabe assim conciliar tudo: o indivíduo e o Estado, Deus e o homem, insistindo no sentido do estado
quando este está apegado aos seus deveres e é respeitador dos seus limites, e pendendo para o lado da consciência
quando o Estado abusa, e exige fora do direito. Este último termo da alternativa é o que nos ocupa; é por isso que
essa época de sofrimento e de ardor é o ponto de partida histórico disso a que se tem chamado, depois, os direitos
do homem. O indivíduo imortal, filho de Deus e cidadão da cidade eterna, erguendo-se humildemente em face das
forças coletivas que a palavra César representa aos nossos olhos, foi o cristianismo primitivo quem criou essa
grandeza.

Não a conhecia a antiguidade. As suas ideias covardes sobre a natureza do ser humano e sobre os seus destinos não
lhe permitiam fazer dele outra coisa senão uma abelha subordinada à colmeia, ou um pato selvagem elemento do
triângulo enterrado no céu azul. Exceder em relação ao seu grupo; fazer bando à parte no espiritual e reservar o seu
“quanto a mim” mesmo no caso em que o espiritual parece tocar no temporal e por este motivo interessa uma
autoridade ciosa e exclusiva, é uma ideia que se não tolera numa sociedade ou materialista ou, em todo caso, mal
segura dos porvires humanos, como é o caso de toda a antiguidade.

Se o homem não passa de um átomo pensante, destinado a desvanecer-se amanhã no grande todo em cuja obra a
vida efêmera colabora, quem ousará conceber que esse serzinho se erga contra o todo representado pelos poderes
sociais, e diga “não” ao que fica, ele que passa? Ao que é quase infinito em amplitude, em relação ao que ele pode
justificar de existência? Dir-se-á a esse vermezinho: Submete-te! Se a tua consciência protesta, deixa-a formar pela
consciência do grupo, que não é menos teu educador do que tua fonte, visto que dele emanaste em corpo e alma.

Diversamente sucede na hipótese espiritualista, e sobretudo cristã. Sucede mesmo, direi, ao inverso, visto como
então já não é o indivíduo que passa, é o grupo; já não é o indivíduo que é pequeno, é esse corpo social constituído
de nossos pós, vivificado por um tempo pela vibração de nossas almas, mas que deve esboroar-se mais cedo ou mais
tarde, no mínimo quando o planeta arrefecido rolar, féretro triste, em volta do seu sol inútil, contemplando-o as
almas de longe, do alto de sua glória.

A dignidade do indivíduo, tal como o cristianismo concebeu e impôs ao mundo, é fundo da política moderna, na
medida em que esta é ciosa do progresso e não sonha com retrogradações opressivas.

Logo no inicio, não parece esperar-se semelhante conversão do mundo. O pequenino rebanho, tão heroico
espiritualmente, ainda não sonha com uma ação política de que a sua vida espiritual seja a alma. A grande máquina
romana parece dever durar sempre e oprimir sempre os eleitos. É uma condição a que as pessoas se submetem
como a uma vontade providencial. Faz-se o melhor que se pode para ser um bom cidadão, sendo cristão; mas se,
apesar disso ou por causa disso, é preciso sofrer, sofre-se, e se é preciso morrer, morre-se. Faz-se como quando se
tratou de gozar saúde por dever e se cai doente. Os que suportam melhor a doença são os mesmos que melhor
sabem usar da saúde. Assim os cristãos fiéis às leis e os melhores servidores do Império, como dizem
incansavelmente os apologistas, são os mais resignados a esse paradoxo atroz que faz deles uns pretensos
revoltosos.

Só mais tarde, quando a sociedade cristã toma corpo e nela se introduzem elementos pertencentes a todos os
setores, ao exercito, à política, à magistratura, tanto quanto ao povo, que forneceu os primeiros subsídios, só nesse
momento, isto é, a partir do século III, surgem esperanças novas.

Desde o tempo de Marco Aurélio, um Meliton sonhava com uma espécie de aliança entre o cristianismo e o Império,
encarregando-se o primeiro, em troca de uma proteção sincera, de fornecer ao segundo os valores morais que
aumentariam imensamente a prosperidade. Orígenes retoma este tema uns cinquenta anos depois, com muito mais
razão de alimentar esperanças, o que não impede que ele mesmo, torturado em 249, por ocasião da perseguição de
Décio, possa perceber que os tempos ainda não estão maduros.

Pode-se mesmo imaginar que tais estados de espírito não entram por pouco na recrudescência das perseguições.
Porque o que, no fundo, eles oferecem ao Império é lhe infudirem uma alma nova. Ora, o Império não quer saber
disto. A sua alma lhe basta. Ele crê que ela corresponde às suas origens e ao seu fim. A Igreja, se o orgulho dele lhe
permitisse levá-la em conta, parecer-lhe-ia aos que estão contentes com este mundo que fecham os ouvidos aos
gritos de apelo que nos vêm de lá de cima
A Igreja não é deste mundo, e por esta razão age sobre este mundo a fundo, tentando arrancá-lo a si mesmo para
fazê-lo chegar a mais alto do que ele. Para isto é preciso abalar-lhe as raízes. É a epopeia do Cedro na Légende dês
siècles:

Et frissonnant, brisant Le dur rocher de marbre,Dressante ses Brás ainsi qu’um vaisseau ses agres,Fendant la vieille
terre aicule dês forêts,Le grand cèdre, arrachant aux profondes crevassesSon trone, et as Racine, et ses ongles
vivaces,S’envola comme un sobre et formidable oiseau.

E, trêmulo, quebrando a dura rocha marmórea,Erguendo os braços qual nau que ergue os seus maçames,Fendendo
a vetusta terra avoenga das matas,O grande cedro, arrancando às rachaduras fundasO tronco, e a raiz, e as suas
unhas vivazesEvolou-se qual ave lúgubre e formidanda.

Isso vai bem nos poemas; mas quando se trata da vida de um Estado, as raízes existem, o solo também, e o selvícola,
César, é sempre tentado a bradar, como João no poema:

Joveaux Venus, laissez La nature tranquille. (Recém-vindos, deixai tranquila a natureza.)

Mas sim! O paganismo, aos seus próprios olhos, é “natureza”.

Não importa; a perturbação salutar lançada nos Estados pagãos, primeiro pela existência e depois pela ação social da
Igreja, terá o seu resultado. Despertando as consciências retas, agrupando-as, a Igreja criará um Estado no Estado.
No espiritual, entende-se! Porque no temporal seria uma grave censura; nós não somos separatistas. Mas no
espiritual, é verdade; um grupo cristão num Estado pagão ou paganizante, é um Estado no Estado, e esse Estado,
mais ativo se é fiel à alma que traz, tende a encerrar o outro, a envolvê-lo com sua influência para enriquecê-lo de
seus dons, para que, tendo posto à frente das suas preocupações “O reino de Deus e a sua justiça”, tudo o mais lhe
seja “dado por acréscimo”.

É o que o mundo novo, que vai suceder ao Império, experimentará pouco a pouco, no positivo, e também, ai!
Quanto a contra prova. Mil desfalecimentos, de fato, limitarão constantemente os efeitos de uma política cristã
difícil de conceber após o longo reinado dos preconceitos, mas difícil ainda de aplicar a uma matéria sempre
parcialmente rebelde. É por isso que as lutas que acabamos de descrever não cessarão com as circunstâncias em que
as vimos desenrolar-se. Elas são de todos os tempos. E, como já várias vezes insinuei, há outros Césares em luta com
a Igreja que não os soberanos ou os ditadores; os poderes coletivos também intervém, e esses imensos poderes
anônimos que são as civilizações. Em toda parte onde a Igreja encontra isso a que o seu Fundador chamava o
mundo, isto é, não somente as potências do mal, mas o que praticamente dá no mesmo, de ver que as culturas
humanas pretendem orgulhosamente bastar-se, os laicismos de todos os jaezes, quer se abriguem nas Sorbonas, nos
tribunais, nas bancas, nas oficinas ou nas escolas, quer inspirem os sistemas filosóficos, sociais, econômicos,
literários, artísticos, etc., a Igreja ergue-se como adversária, porgue vê em conflito o temporal e o eterno, o
insuficiente e o Único Necessário. Então, é a batalha; em todo caso, é a divisão, visível ou latente. “A procissão –
Escreve Ernesto Hello – passa levando a cruz, e as criaturas dividem-se à sua passagem. As criaturas dividem-se e
nem sempre sabem que é a cruz que as divide”.

Não importa, o mundo não está acabado, e a esperança é sempre possível. O reino de Cristo, por mais combatido
que seja, subsiste. O que os seus inícios nos fizeram é ver ampliado sob nossos olhos e pode aguardar com confiança
o futuro.

A que ponto chegamos sobre isto? E que testemunho traz o tempo atual em favor da Igreja cristã, consideradas as
suas aquisições e as suas carências, as suas provações e as suas necessidades?

É a nossa última questão.

14 – Plinio, Hist. Ant., XIII, 4; Tácito, Hist., V, 2, 5, 13.15 – Cf. Tácito, Anais, XV, 44.16 – Tertuliano, Apologeticum, 33.

http://apologistascatolicos.com.br/index.php/apologetica/igreja-catolica/595-a-igreja-em-face-dos-cesares-a-d-
sertillanges

O EXEMPLO DAS CRIANÇAS

“Em sua mesa de trabalho e na solidão em que Deus fala ao coração, deverias escutar como escuta a criança e
escrever como a criança fala. A criança é simples e desapegada, porque não tem ainda vontade própria, critério,
desejos fictícios, paixões. À sua inocente confiança e à sua palavra aberta se une um poderoso interesse. Um homem
maduro e cheio de experiência que soubesse, sem embargo, conservar esse candor, seria um belo receptáculo da
verdade e sua voz ressoaria no âmbito das almas”.

A. D. Sertillanges (1863-1948).

O dominicano, filósofo e teólogo francês - Antonin-Dalmace Sertillanges, escreveu o magnífico livro "A Vida
Intelectual: Seu espírito, suas condições, seus métodos" publicado pela Editora É Realizações.Além de dicas mais
do que importantes para aqueles que desejam ter uma fecunda vida intelectual, o autor consegue aglutinar de
forma esplendorosa a vida espiritual com a intelectual. Na verdade, este é um verdadeiro "manual" para o cristão
que dedica-se aos estudos com mais veemência. Os capítulos comentam sobre a vocação intelectual, as virtudes de
um intelectual cristão, a organização da vida, o tempo, o campo, o espírito e a preparação do trabalho, além do
trabalhado criador e o trabalhador e o homem. Recomendadíssimo!!!

"A vida de estudo é austera e impõe pesadas obrigações. Ela traz compensações, por sinal, generosas; mas ela exige
um investimento à altura de poucos. Os atletas da inteligência, tal como os do esporte, devem prever as privações, os
longos treinos e uma tenacidade às vezes sobre-humana. É preciso entregar-se de todo o coração para que a verdade
se entregue. A verdade só está a serviço de seus escravos" (p. 22)

"Estudar tanto que não mais se pratique a prece, o recolhimento, que não mais se leia nem a palavra sagrada, nem a
dos santos, nem a das grandes almas, tanto que se caia no esquecimento de si mesmo e que, de tão concentrado nos
objetos do estudo, se chegue a descuidar do hóspede interior, é um abuso e uma enganação. Supor que assim se
progredirá e se produzirá mais equivale a dizer que o rio fluirá melhor se sua fonte secar" (p. 39)
A Leitura – A. D. Sertillanges

Fonte: A Ordem Natural

A Leitora, de1892 - José Ferraz de Almeida Júnior

Trabalhar significa aprender e significa produzir: em ambos os sentidos, o trabalho requer longa preparação, porque
produzir é um resultado, e só aprende, em matéria árdua e complexa, quem primeiro atravessou o simples e o fácil:
“devemos correr para o mar por meio dos regatos, e não de repente”, diz S.Tomás. Ora, a leitura é o meio universal
para aprender, e é a preparação próxima ou remota para toda a produção.

Nunca pensamos isoladamente: pensamos em sociedade, em colaboração imensa; trabalhamos com os


trabalhadores do passado e do presente. Graças à leitura, pode comparar-se o mundo intelectual a uma sala de
redação ou repartição de negócios, onde cada qual encontra no vizinho a sugestão, o auxílio, a critica, a informação,
o ânimo de que carece. Portanto, saber ler e utilizar as leituras são necessidade primordial que o homem de estudo
não deve esquecer.

Primeira regra: lede pouco. Em 1921, no jornal Le Temps, Paulo Souday que, pelo visto, se queria vingar de mim
nalguma coisa, agarrou-se a este preceito: "lede pouco", e pretendeu descobrir nele laivos de ignorantismo. O leitor,
se leu o jornal, sabe o valor daquela crítica e, sem dúvida, Paulo Souday também o sabia. Eu não aconselho a
restringir parvamente a leitura: tudo quanto fica dito protesta contra semelhante interpretação. Queremos formar
um espírito largo, praticar a ciência comparada, manter o horizonte aberto diante de nós, o que não se consegue
sem muita leitura. Mas muito e pouco só se opõem no mesmo terreno. Aqui, é preciso muito absolutamente,
porque a obra é vasta; mas pouco em relação ao dilúvio de escritos de que a mais insignificante especialidade
sobrecarrega hoje bibliotecas e as almas.
Proscrevemos, sim, a paixão de ler, a ânsia, a intoxicação por excesso de nutrição espiritual, a preguiça disfarçada
que prefere ao esforço a freqüentação fácil. A "paixão" da leitura, de que tantos se prezam como de preciosa
qualidade intelectual, é tara, é paixão em tudo semelhante às demais paixões que absorvem e perturbam a alma,
retalhando-a de correntes confusas que lhe esgotam as energias. Leia-se com inteligência, não com paixão. Vamos
aos livros como a dona de casa vai à praça, depois de cumpridas as ocupações quotidianas de acordo com as leis da
higiene e da boa administração. A dona de casa não vai à praça com o mesmo intuito com que vai à noite ao cinema.
O mesmo sucede com a leitura: é questão, não de gozar e de se embriagar, mais de governar e administrar bem a
casa.

A leitura desordenada não alimenta, entorpece o espírito, torna-o incapaz de reflexão e concentração e, por
conseguinte, de produção; exterioriza-o no seu interior, se assim se pode dizer, e escraviza-o às imagens mentais, ao
fluxo e refluxo das ideias que ele se limita a contemplar na atitude de simples espectador. É embriaguez que
desafina a inteligência e permite seguir a passo os pensamentos alheios e deixar-se levar por palavras, por
comentários, por capítulos, Por tomos.

A série de excitações assim provocadas arruina as energias, como a constante vibração estraga o aço. Não
esperemos trabalho verdadeiro de quem cansou os olhos e as meninges a devorar livros; esse encontra-se,
espiritualmente, em estado de cefalalgia, ao passo que o trabalhador, senhor de si, lê com calma e suavidade
somente o que quer reter, só retém o que deve servir, organiza o cérebro e não o maltrata com indigestões
absurdas.

Ide antes dar um passeio, ler no livro imenso da natureza, respirar o ar fresco, distrair-vos.

A. D. Sertillanges - Trecho de A Vida Intelectual

http://corecatholica.blogspot.com.br/2013/05/a-leitura-d-sertillanges.html

Escrever - Antonin-Gilbert Sertillanges

Esse trecho foi retirado do livro A Vida Intelectual e pertence ao capítulo VIII, que trata do Trabalho Criador. O livro
é de 1920 e trata-se de uma aula de preparação para uma vida de estudos da alta cultura. Mais que um manual, é
também o testemunho de uma vida dedicada ao conhecimento e à busca pela sabedoria. Com muita percepção,
experiência e didática, é um guia perfeito para quem se aventura pelo tortuoso, mas prazeroso caminho do estudo
autodidata. Antonin-Gilbert Sertillanges, mais conhecido como A.D. Sertillanges é um padre francês que nasceu em
1863 e morreu em 1948. Discípulo de São Tomás de Aquino e, portanto, admirador também de Aristóteles. Um
gênio que deveria ser lido por todos.
***

Chegou o momento de realizar. Não podemos passar a vida só a aprender e a preparar. Além de que, aprender e
preparar exigem uma dose de preparação: para encontrar um caminho é preciso enveredar por ele. A vida decorre
em círculo. Órgão, que se exerce, cresce e fortifica-se; órgão fortificado exerce-se mais vigorosamente. É preciso
escrever ao longo da vida intelectual. Escrevemos primeiramente para nós, para ver claro nos nossos casos, para
determinar melhor os pensamentos, para suster e avivar a atenção que depressa esmorece se não for instigada pela
ação, para estimular as pesquisas necessárias para levar a cabo a produção, para reanimar o esforço que se cansaria
não vendo os resultados, enfim para formar o estilo e adquirir um valor que completa todos os outros valores: a
arte de escrever.

Escrevei e publicai, desde que juízes competentes vos julguem capazes disso e desde que vos sintais aptos para voar.
O pássaro sabe muito bem quando há-de lançar-se no espaço; melhor do que ele o sabe a mãe; apoiado em vós e
numa prudente maternidade espiritual, voai logo que puderdes. O contacto com o público obriga o escritor a
constante trabalho de aperfeiçoamento; os louvores merecidos animam-no; as críticas fiscalizam-no; ser-lhe-á, por
assim dizer, imposto o progresso, em vez da estagnação que pode resultar do perpétuo silêncio. A paternidade
espiritual é sementeira de bens. Toda obra é manancial.

O P. Gratry insiste muito na eficácia da escrita. Quer que se medite sempre com a pena na mão e que a hora pura da
madrugada seja consagrada a este contacto do espírito consigo próprio. Devem tomar-se em consideração as
disposições pessoais; mas é certo que, para a maior parte, a pena, que corre, desempenha o papel do treinador nos
jogos desportivos. Falar, é ouvir a alma e, nela a verdade; falar solitária e silenciosamente por meio de escrita, é
ouvir-se e sentir a verdade com a frescura de sensação dum homem matinal que ausculta a natureza logo ao
despontar do dia.

Em todas as coisas, é preciso começar: “ o começo é mais que metade duma coisa” , disse Aristóteles. Quem não
produz, habitua-se à passividade; o medo de orgulho – porque o orgulho também gera o medo – ou a timidez
aumentam mais e mais; recuamos, cansamo-nos de esperar, tornamo-nos improdutivos.

A arte de escrever, dissemos, exige a longa e precoce aplicação que paulatinamente se converte em hábito mental e
constitui o que se chama o estilo. O meu “estilo” , a minha “pena” , é o instrumento espiritual de que me sirvo para
me dizer e dizer a outrem o que ouso da verdade eterna; é qualidade do meu ser, vinco interior, disposição do
cérebro animado, sou eu envolvido de certo modo. “O estilo é o homem” .

O estilo forma-se, escrevendo; o mutismo diminui a personalidade. Se quereis ser alguém, intelectualmente,
precisais de saber pensar alto, pensar explicitamente, isto é, formar, dentro e fora de vós, o vosso verbo. Chegou a
ocasião de dizer em breves palavras o que deve ser o estilo para corresponder aos fins sugeridos aqui ao intelectual.
Seria prudente não escrever, para ousar dizer como se escreve. A humildade não oferece dificuldade, quando diante
de Pascal, La Fontaine, Bossuet, Montaigne, se sofreu a influência dum estilo superior. Pelo menos ficamos
conhecendo o ideal a que visamos e não alcançamos. Podem-se explicar as qualidades do estilo em tantos artigos
quantos se quiser; tudo, porém, creio eu, se resume em três palavras, verdade, individualidade, simplicidade, a não
ser que se prefira sintetizar nesta única frase: escrever verdade. O estilo é verdadeiro quando corresponde a uma
necessidade do pensamento e quando se mantém em contacto íntimo com as coisas. O discurso é ato de vida: não
deve representar um corte na vida. É o que sucede quando caímos no artificial no convencional; Bergson diria no
tout fait. Escrever por um lado, e por outro viver vida espontânea e sincera, é ofender o verbo e a harmoniosa
unidade humana.

O “ discurso de circunstância” é o tipo das coisas que se dizem porque é preciso dizê-las, das coisas que só se
pensam literariamente, gastando com elas aquela eloqüência de que a verdadeira eloqüência zomba. Por isso o
discurso de circunstância muito freqüentemente não passa de discurso de ocasião. Pode acontecer que seja genial, e
temos exemplos de sobra em Demóstenes e Bossuet; mas só o é, se a circunstância extrai do nosso íntimo o que de
lá brotaria igualmente por si, o que se prende com as opiniões pessoais, com o objeto das meditações habituais.

A virtude da palavra, falada ou escrita, é a abnegação e a retidão: abnegação que afasta a personalidade, quando se
trata de intercâmbio entre a verdade que fala dentro e a alma que escuta: retidão que expõe sinceramente o que foi
revelado na inspiração e não lhe acrescenta palavras inúteis. “ Olha para o teu coração e escreve” , diz Sidney. Quem
assim escreve, sem orgulho nem artifício, como para si só, fala, de fato, para a humanidade, se é que possui o
talento de pronunciar uma palavra verídica, na qual a humanidade se possa reconhecer como sua inspiradora. A vida
reconhece a vida. Se me contento com entregar ao próximo um pedaço de papel impresso, talvez o próximo lance
um olhar de curiosidade, mas depressa se desfará dele; se, porém, sou árvore que oferece folhas e frutos suculentos,
se me dou com plenitude, então convencerei e, como Péricles, deixarei o dardo cravado nas almas. Para obedecer às
leis do pensamento tenho de me mostrar perto das coisas ou, antes, no íntimo delas, porque pensar é conceber o
que é, e escrever verdade, ou por outra escrever de acordo com o pensamento, é revelar o que é, e não enfiar
frases. Por isso o segredo de escrever consiste em colocar-se ardentemente diante das coisas, até que elas vos falem
e determinem os termos que as devem exprimir.

O discurso deve corresponder à verdade da vida. O ouvinte é homem; logo o discursador não deve ser sombra. O
ouvinte mostra-nos uma alma que quer ser curada ou iluminada: não lhe propineis só palavras. Enquanto
desenrolais períodos, olhai para fora e para dentro de vós e procurai sentir a correspondência entre a vossa
personalidade e a de quem vos escuta. A verdade do estilo afasta o molde. Chamo molde a uma verdade antiga, a
uma fórmula que passou para o uso comum, a um lote de expressões outrora novas e que já o não são por terem
perdido o contacto com a realidade donde nasceram, por flutuarem no ar, vãos ouropéis que tomam o lugar do
autêntico ouro, o lugar de transcrição direta e imediata da idéia. Como observa Paulo Valéry, o automatismo gasta
as línguas. Para viver, acrescenta o mesmo autor, temos de utilizar sempre a sintaxe “ em plena consciência” ,
aplicando-nos a articular com vigilância todos os elementos, evitando certos efeitos que espontaneamente se
ingerem esperando a vez de se fazerem valer. Semelhante pretensão é o motivo por que devemos apartar esses
parasitas, esses intrusos, esses maçadores. O estilo superior consiste em descobrir os laços essenciais entre os
elementos do pensamento, e na arte de os exprimir com exclusão de qualquer balbucio acessório. “ Escrever como o
orvalho se deposita sobre a folha e as estalactites se suspendem do teto das grutas, Como a carne deriva do sangue,
como a fibra lenhosa se forma da seiva” (1): eis o ideal. A pessoa orgulhosa e perturbadora estará ausente de
semelhante discurso; mas a personalidade da expressão só ganhará em nitidez e relevo. O que sai de mim sem mim
é necessariamente semelhante a mim. O meu estilo é o meu rosto. O rosto tira da espécie os seus caracteres gerais,
mas ostenta individualidade empolgante e incomunicável; é único em toda a terra e em todos os séculos; daí vem,
em parte, o interesse do retrato. Ora o nosso espírito é decerto muito mais original do que o rosto; mas ocultamo-lo
por detrás das generalidades adquiridas, das frases tradicionais, das alianças verbais que só representam velhos
hábitos em vez de representarem amor. Mostrá-lo tal qual é, apoiando-nos nas aquisições que a todos pertencem,
mas sem nos esquecermos de nós, suscitará interesse inesgotável, será a arte.

O estilo, que convém a um pensamento, é como o corpo que pertence à alma, como a planta que provém da
semente: tem arquitetura peculiar. Imitar é alienar o pensamento; escrever sem caráter é declará-lo vago ou pueril.
Nunca se deve escrever “à maneira de...” , nem mesmo à maneira de si próprio. Para quê ter maneira? A verdade
não a tem afirma-se sempre nova. O som da verdade tem de ser pessoal a cada um dos instrumentos. “ Os homens
verdadeiramente superiores, escreve Júlio Lachelier, foram todos originais, embora o não tivessem pretendido nem
se tivessem julgado tais; pelo contrário, procurando fazer das suas palavras e dos seus atos a expressão adequada da
razão, encontraram eles a forma particular de a exprimir.” Todo o instrumento tem timbre. Se a maneira é afetação,
a originalidade verdadeira é fato de verdade que, em vez de enfraquecer, reforça a impressão que o leitor, por seu
turno, receberá. Não proscrevemos o sentimento pessoal que tudo renova e glorifica, mas sim a vontade própria
contrária ao reino da verdade. Daí brota a simplicidade. Os floreados constituem ofensa para o pensamento, a não
ser que se empreguem como simples expediente para encobrir o vácuo da mentalidade do escritor. No real não há
floreados; só há necessidades orgânicas. Não quer dizer que não haja na natureza nada de brilhante; mas nela o
brilhante é também orgânico, sustentado por substruções que nunca falham.

Para a natureza, a flor é tão grave como o fruto, e a folhagem tão grave como o ramo; a árvore, que se firma na raiz,
não faz mais do que manifestar o germe onde se esconde a idéia da espécie. Ora, o estilo, quando é de mão de
mestre, imita as criações naturais. Uma frase, um trecho escrito devem ser como ramo vivo, como os filamentos da
raiz, como a árvore. Nada de mais, nada ao lado, tudo na curva pura que vai do germe ao germe, do germe
desabrochado no escritor ao germe que deve desabrochar no leitor e propagar a verdade ou a bondade humana. O
estilo não é um fim; desvia-o e avilta-o o escritor que faz estilo só pelo estilo. Amesquinha a verdade quem só se
apega à “ forma” , quem só é rimador em vez de ser poeta, estilista em vez de escritor. Quem possuir o gênio do
estilo, deve levá-lo à perfeição, que é o direito de quanto existe. Todo escritor anseia ser mestre no estilo, como o
ferreiro é mestre na forja. Ora, qual o ferreiro que se diverte em tornear volutas por prazer? O estilo exclui a
inutilidade; é economia no seio da riqueza; gasta o que é preciso, poupa aqui, prodiga ali para a glória da verdade. O
seu papel não é brilhar, mas fazer aparecer: quando ele se apega, é que a sua glória reluz. “ O belo corta o supérfluo”
, dizia Miguel Angelo, e Delacroix releva neste artista “ os soberbos embutidos, as faces simples, os narizes sem
minudências” . Mas nessa simplicidade não deve passar despercebida a firmeza de contornos, como em Miguel
Angelo, em Leonardo e, sobretudo, em Velasquez, ao contrário do que sucede v. g. em Van Dyck, o que é ainda uma
lição. Uma vez que determinastes um pensamento ou sentimento, expressai-o de sorte que todos vos
compreendam, como convém a um homem que fala a outros homens e procura atingir neles o que direta ou
indiretamente é órgão de verdade. “Um estilo completo é o que alcança todas as almas e todas as faculdades das
almas” (1).

Não sejais escravos da moda. Dai água de nascente, não drogas de farmácia. Muitos escritores, hoje, criam sistemas:
ora um sistema é algo do artificial e o artificial ofende a beleza. Cultivai a arte da omissão, da eliminação; da
simplificação: eis o segredo da força, que os mestres não se cansam de repetir, como S. João Evangelista não se
fartava de incular: “Amai-vos uns aos outros” . A lei e os profetas, em matéria de estilo, é a inocente nudez que
revela o esplendor das formas vivas: pensamento, realidade, criações e manifestações do Verbo.

Infelizmente, é rara a inocência do espírito; quando existe, alia-se por vezes à nulidade. Por isso, só duas espécies de
espíritos parecem predispostos para a simplicidade: os de pequena envergadura e os gênios; os restantes são
obrigados a adquiri-la laboriosamente; incomoda-os a própria riqueza e não sabem reduzir-se.( 1) Emerson.
Autobiographie, Edit. Régis Michaud, pag. 640, Paris, Colin.

A Vida Intelectual - Antonin-Gilbert Sertillanges

A Leitura – A. D. Sertillanges

A Leitora, de1892 - José Ferraz de Almeida Júnior

Trabalhar significa aprender e significa produzir: em ambos os sentidos, o trabalho requer longa preparação, porque
produzir é um resultado, e só aprende, em matéria árdua e complexa, quem primeiro atravessou o simples e o fácil:
“devemos correr para o mar por meio dos regatos, e não de repente”, diz S.Tomás. Ora, a leitura é o meio universal
para aprender, e é a preparação próxima ou remota para toda a produção.

Nunca pensamos isoladamente: pensamos em sociedade, em colaboração imensa; trabalhamos com os


trabalhadores do passado e do presente. Graças à leitura, pode comparar-se o mundo intelectual a uma sala de
redação ou repartição de negócios, onde cada qual encontra no vizinho a sugestão, o auxílio, a critica, a informação,
o ânimo de que carece.Portanto, saber ler e utilizar as leituras são necessidade primordial que o homem de estudo
não deve esquecer.

Primeira regra: lede pouco. Em 1921, no jornal Le Temps, Paulo Souday que, pelo visto, se queria vingar de mim
nalguma coisa, agarrou-se a este preceito: "lede pouco", e pretendeu descobrir nele laivos de ignorantismo. O leitor,
se leu o jornal, sabe o valor daquela crítica e, sem dúvida, Paulo Souday também o sabia. Eu não aconselho a
restringir parvamente a leitura: tudo quanto fica dito protesta contra semelhante interpretação. Queremos formar
um espírito largo, praticar a ciência comparada, manter o horizonte aberto diante de nós, o que não se consegue
sem muita leitura. Mas muito e pouco só se opõem no mesmo terreno. Aqui, é preciso muito absolutamente,
porque a obra é vasta; mas pouco em relação ao dilúvio de escritos de que a mais insignificante especialidade
sobrecarrega hoje bibliotecas e as almas.

Proscrevemos, sim, a paixão de ler, a ânsia, a intoxicação por excesso de nutrição espiritual, a preguiça disfarçada
que prefere ao esforço a freqüentação fácil. A "paixão" da leitura, de que tantos se prezam como de preciosa
qualidade intelectual, é tara, é paixão em tudo semelhante às demais paixões que absorvem e perturbam a alma,
retalhando-a de correntes confusas que lhe esgotam as energias. Leia-se com inteligência, não com paixão. Vamos
aos livros como a dona de casa vai à praça, depois de cumpridas as ocupações quotidianas de acordo com as leis da
higiene e da boa administração. A dona de casa não vai à praça com o mesmo intuito com que vai à noite ao cinema.
O mesmo sucede com a leitura: é questão, não de gozar e de se embriagar, mais de governar e administrar bem a
casa.

A leitura desordenada não alimenta, entorpece o espírito, torna-o incapaz de reflexão e concentração e, por
conseguinte, de produção; exterioriza-o no seu interior, se assim se pode dizer, e escraviza-o às imagens mentais, ao
fluxo e refluxo das ideias que ele se limita a contemplar na atitude de simples espectador. É embriaguez que
desafina a inteligência e permite seguir a passo os pensamentos alheios e deixar-se levar por palavras, por
comentários, por capítulos, Por tomos.

A série de excitações assim provocadas arruina as energias, como a constante vibração estraga o aço. Não
esperemos trabalho verdadeiro de quem cansou os olhos e as meninges a devorar livros; esse encontra-se,
espiritualmente, em estado de cefalalgia, ao passo que o trabalhador, senhor de si, lê com calma e suavidade
somente o que quer reter, só retém o que deve servir, organiza o cérebro e não o maltrata com indigestões
absurdas.

Ide antes dar um passeio, ler no livro imenso da natureza, respirar o ar fresco, distrair-vos.

A. D. Sertillanges - Trecho de A Vida Intelectual

Jesus Cristo, o Único Necessário.


"Se sempre foi verdade dizer que nenhum homem chega a Deus senão por Cristo, que em Cristo a humanidade toda
é oferecida a Deus, aceita por Deus e unida a Deus para uma vida eterna, bem necessário se torna que, de uma
maneira ou de outra, Cristo tenha existido sempre, sempre à disposição de quem quer que, homem de ontem ou de
hoje, daqui ou dacolá, procurasse o caminho para o Único Necessário e o Único Suficiente da alma humana. Há uma
gravitação universal das almas, e Cristo lhes é o sol.

Somente n'Ele está a grandeza, a inocência e a felicidade da terra. Religião viva, se assim posso falar, já que Ele se
apresenta como Vínculo, a Ponte, a Entrada, a Porta que faz comunicar e estabelece numa vida comum o homem e
Deus, deve Ele dominar a raça na sua dupla extensão, espacial e temporal. De tão longe quanto venhamos sobre o
imenso meridiano do universo moral, e qualquer que seja o momento do tempo em que situemos a nossa frágil
existência, cumpre que, de uma maneira ou de outra, toquemos nesse ponto, para tocarmos no divino que lhe é
parcialmente idêntico. Só aí a tangente infinita toca o círculo humano." A. D. Sertilanges, no livro "O Milagre da
Igreja".

Capítulo do livro "A vida intelectual" de A.D. Sertillanges

Capítulo retirado do livro "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges, disponível gratuitamente para downloads aqui.

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CAPÍTULO V - O campo do trabalho

I – A ciência comparada.

É difícil dar um conselho determinado sobre o que convém aprender, e menos ainda sobre a dosagem dos
elementos admitidos num plano de trabalho. S. Tomás não fala disso nos Dezesseis Preceitos. É questão de vocação
pessoal, em correlação com o fim a alcançar.

Contudo, é possível dar breves indicações que sirvam de ponto de partida a úteis reflexões. Não tomamos a questão
na sua origem primeira; falamos para pessoas que já ultrapassaram a idade escolar e se propõem organizar ou
completar estudos profundos.

Vêm aqui a propósito as interessantes observações do P. Gratry sobre a Ciência Comparada. A maneira como as
desenvolve será talvez um pouco antiquada, no entanto merecem ser seriamente ponderadas pelos intelectuais de
nossos dias.
Entendemos por ciência comparada o alargamento das especialidades pela aproximação das disciplinas conexas e a
subordinação das mesmas e do seu conjunto à filosofia geral e à teologia.

Embora cultivemos uma especialidade, não é prudente, nem fecundo, confinar-nos nela exclusivamente.

Equivaleria a pôr antolhos. Nenhuma ciência se basta a si mesma; nenhuma disciplina, encarada em si só, é luz
suficiente para iluminar os seus caminhos. Isolada, mirra-se, emagrece, estiola-se e, na primeira ocasião, extravia-se.

A cultura parcial é sempre indigente e precária. O espírito ressente-se disso continuamente; a falta de liberdades de
movimentos e de segurança de visão paralisa os gestos.

Podemos asseverar sem paradoxo que cada ciência, profunda, daria as demais ciências, as ciências a poesia, a poesia
e as ciências a moral, depois a política e a própria religião no que esta possui de humana. Tudo está em tudo:
divisões só as operam a abstração. Abstrair não é mentir, reza o provérbio: abstrair non est mentiri, contanto que a
abstração, que distingue, isola e concentra a sua luz num ponto, não separe do objeto de estudo o que dele depende
mais ou menos diretamente. Privar, assim, de comunicações um objeto seria falseá-lo, porque os seus vínculos
fazem parte dele.

Será possível estudar uma peça de relógio, sem pensar na peça vizinha? Ou estudar um órgão, sem tomar em conta
o organismo? Do mesmo modo, é impossível avançar em física ou em química sem a matemática, em astronomia
sem a mecânica e sem a geologia, em moral sem a psicologia, em psicologia sem as ciências naturais, em coisa
alguma sem a história. Todas as ciências são interpendentes; as suas luzes cruzam-se, e qualquer tratado inteligente
de uma delas implica mais ou menos as outras.

Por conseguinte, se quiserdes alcançar um espírito aberto, claro, verdadeiramente forte, começais por desconfiar da
especialidade. Lançai as bases segundo a altura do edifício que quereis construir; os trabalhos de escavação serão
tanto mais largos quanto mais fundo pretendeis chegar. O saber não é torre nem poço, é habitação humana. Um
especialista, se não for homem, é manga de alpaca, a sua esplêndida ignorância torna-o, transviado entre os
humanos; é um inadaptado, um anormal, um louco. Livre-se o intelectual católico de copiar semelhante modelo.
Acima de tudo será homem, pois pertence, por vocação, ao gênero humano; pisará o solo com pé firme, com a sua
base de sustentação, e não saltitando sobre as pontas dos pés.

O saber tentou sondar a noite em todos os sentidos; nela mergulham os sábios, a mão para apanhar estrelas,
desenvolvendo nobre esforço que não deixa indiferente nenhum pensador autêntico. Seguir até certo ponto as
explorações de certos investigadores é, para vós, obrigação que no fim se resolve em capacidade decuplada para as
vossas próprias pesquisas.

Quando chegardes à especialidade, depois de ter experimentado muita cultura, amplificado o olhar e compreendido
o sentimento das ligações pelas profundidades, sereis homens diferentes daqueles que se confinam em estreita
disciplina.

O cultivo exclusivo de qualquer ciência apresenta igualmente perigos que ninguém de bom senso desconhece. O
estudo isolado das matemáticas falseia o juízo, habituando-o a um rigor que nenhuma outra ciência, e menos ainda
a vida real comporta. A complexidade da física e da química causa fastio e apouca o espírito. A fisiologia conduz
facilmente ao materialismo, a astronomia corre o perigo de habituar à divagação, a geologia converte-vos em galgos
que tudo farejam, a literatura torna-vos balofos, a filosofia incha, a teologia expõe-vos ao falso sublime e ao orgulho
doutoral. Precisais passar de um espírito a outro, a fim de corrigi-los um pelo outro; precisais de variar as culturas
para não cansar o solo.

Não julgueis que, pelo fato de prosseguir até certo ponto o estudo comparado, ficareis sobrecarregados ou
impedidos de vos dedicar com afinco a uma especialidade, porque a luz, que dessa comparação irradia, facilitará a
visão das coisas, e o espírito, ganhando em amplidão, será mais apto para receber sem se prejudicar.

Quem se instala no centro das ideias fica depois com o caminho desembaraçado para seguir em qualquer direção. E
que melhor acesso ao centro do que tentar diferentes vias, que, à maneira dos raios dum circulo, dão o sentimento
dum encontro e duma encruzilhada comum?

Conheço um lingüista que, no espaço de quinze dias, consegue deslindar uma língua nova. Porquê? – porque sabem
muitas outras. Num relance, o espírito abarca o novo idioma, os seus caracteres fundamentais, a sua constituição. As
ciências são as diversas línguas em que o homem balbucia penosamente a natureza inefável; decifrar muitas delas é
favorecer cada uma, porque afinal todas são uma só coisa.

Demais a mais, despertos o instinto poderoso e o entusiasmo em todo o homem bem dotado por esta maneira de
viajar através das ciências e de explorar estes magníficos domínios, como se visitam alternadamente os fiordes da
Noruega, o Corno de Ouro, os hipogeus do Egipto, as pampas da América e os palácios chineses, este ardor épico,
capaz de empolgar uma inteligência ao contacto das grandezas do espírito, comunica ao estudo inspiração e
facilidade surpreendentes.

Um rabino, a quem censuravam de sobrecarregar a lei, respondeu: <>. Esse sim tinha zelo, o zelo que, no domínio
das capacidades espirituais, corresponde ao calor que dilata os corpos. Uma taça, ao sol, tem maior capacidade do
que à sombra. Um espírito deslumbrado perante o espetáculo da verdade, e por ele desdobrado como arco-íris,
toma-se capaz de adquirir sem fadiga, com alegria, conhecimentos que enervariam o triste cultor duma única
ciência.

Os grandes homens foram sempre mais ou menos universais; sobressaindo numa parte, nas outras foram pelo
menos curiosos, freqüentemente sábios, às vezes até especialistas. Não conseguireis confinar num só ramo do saber
homens da envergadura de Aristóteles, Bacon, Leonardo de Vinci, Leibniz ou Goethe. Henrique Poincaré, na
Academia das Ciências, espantava os colegas das outras secções, pelas suas concepções geniais: consultá-lo era
colocar-se imediatamente no centro do saber, ponto onde todas as ciências se identificam. Não alimentais
semelhantes pretensões? Embora! O que as grandes sumidades praticaram permanece sempre como indicação
fecunda para os demais. Traçai um plano amplo, que se vá reduzindo pouco a pouco pelo que diz respeito ao tempo
consagrado a cada estudo secundário, e não quanto à largueza de vistas nem ao espírito de trabalho. Escolhei
acertadamente os conselheiros. Um só entre mil para o conjunto, outros para cada parte, se preciso for. Reparti o
tempo, regulai a sucessão das culturas, nunca procedendo ao acaso.

Em cada coisa, ide direitos ao essencial, não vos deixando enredar nas minúcias: não é por estas que se empunham
as ciências; é muitas vezes pelo pormenor mas pelo pormenor característico, isto é, pelo fundo.
Mas, para vos orientardes neste domínio, precisais de penetrar no que ainda falta dizer. Assim como nenhuma
ciência particular se basta a si própria, assim também o conjunto das ciências, se não sustenta sem a rainha das
ciências – a filosofia(1) –, nem o conjunto dos conhecimentos humanos sem a sabedoria derivada da ciência divina
– a teologia. O P. Gratry exprimiu, sobre este ponto, verdades capitais, e S. Tomás, indo mais além, assinalou o
lugar e a dignidade destas duas rainhas do duplo reino(2). As ciências, sem a filosofia, desclassificam-se e
desorientam-se. As ciências e a filosofia, sem a teologia, desclassificam-se mais ainda, visto repudiarem uma coroa
celeste; e desorientam-se mais irremediavelmente, porque a terra sem o céu não encontra a sua órbita, nem as
influências que lhe dão fecundidade.

Hoje que a filosofia esmoreceu, as ciências rebaixam-se e dispersam-se; hoje que se ignora a teologia, a filosofia é
estéril, não conclui coisa alguma, faz crítica e faz história sem bússola; é sectária e muitas vezes destruidora,
nunca tranquiliza nem ilumina; não ensina. E os seus mestres, que têm a dupla desgraça de ignorar e de ignorar
que ignoram, consideram a teologia uma coisa do outro mundo.

Sim, a teologia pertence ao outro mundo, quanto ao objecto; mas o outro mundo governa este, continua-o em
todos os sentidos, para trás, para diante e para cima, e portanto não é de espantar que o ilumine.

O melhor que pode fazer um intelectual católico, que pertence ao seu tempo, é trabalhar, pela parte que lhe toca,
em nos restituir a ordem de que carecemos. O de que o nosso tempo precisa, do ponto de vista doutrinal não é a
dose de saber, é a harmonia do saber, harmonia que só se obtém por um apelo aos primeiros princípios(3).

A ordem do espírito deve corresponder à ordem das coisas, e como o espírito só se instrui verdadeiramente pela
investigação das casualidades, a ordem do espírito deve corresponder à ordem das causas. Portanto, existindo um
Ser primeiro e uma Causa primeira, é lá que se completa e ilumina ultimamente o saber. Primeiramente como
filósofo, por meio da razão, em seguida como teólogo, utilizando a luz que vem do alto, o homem de verdade deve
centrar a sua investigação naquilo que é ponto de partida, regra e fim a título primeiro, naquilo que é

tudo para tudo e para todos.

Em toda a espécie de objetos e disciplinas, só reina a ordem, no momento em que os princípios, dispostos
hierarquicamente até ao princípio primeiro, desempenham o papel de princípios, de chefes, como num exército,
como numa casa ordenada, como num povo.

Repudiamos hoje os primeiros princípios; mas, por isso, o saber desarticulou-se. Possuímos farrapos, magníficos
ouropéis, não possuímos vestidos; possuímos excelentes capítulos, não temos livro completo, não temos Bíblia.

As Bíblias do saber foram outrora as Sumas: faltam-nos hoje as Sumas, e ninguém entre nós seria capaz de compor
uma. Tudo é caótico. Mas, se ainda é cedo para redigir uma Suma coletiva, pelo menos cada homem que pensa e
que deseja verdadeiramente saber, pode tentar constituir a sua Suma pessoal, isto é, pôr ordem nos conhecimentos,
invocando os princípios desta ordem, ou seja, filosofando e coroando a sua filosofia por uma teologia sumária, mas
profunda.

Os sábios cristãos, desde o princípio até ao fim do século XVII, foram todos teólogos, e os sábios, cristãos ou não,
até ao século XIX, foram todos filósofos. Depois, o saber baixou; alastrou em superfície e perdeu em altura, e
portanto também em profundidade, porque a terceira dimensão tem dois sentidos que se correspondem. Que o
católico, cônscio desta aberração e das suas conseqüências, saiba fazer-lhes frente; intelectual ou desejoso de o
ser, aspire à intelectualidade completa, em todas as suas dimensões.

Não se lhe tira a seiva, pelo contrário dár-se-lhe um curso glorioso. Em razão deste novo impulso comunicado ao
saber, deste apelo dos dados humanos a uma colaboração celeste, todos os conhecimentos são vivificados e todas
as ciências alargadas. A unidade da fé dá ao trabalho intelectual o caráter de cooperação imensa. É a obra coletiva
dos humanos unidos em Deus. Por isso a ciência cristã, tal qual é e muito mais ainda quando se escrever a Suma dos
tempos modernos, ultrapassará em amplidão e inspiração os monumentos da antiguidade e do neo-paganismo. As
enciclopédias estarão para ela como Babel para as catedrais.

Quem busca a verdade não tem o direito de ignorar tão rico tesouro. É de esperar que a próxima geração, carrilada
por esta que tão notoriamente ultrapassa as precedentes, se aproxime muito naturalmente e sem respeito humano
da ciência das ciências, do cântico dos cânticos do saber, da teologia inspiradora, e encontre nela a maturação e a
elevação, o lirismo potente e calmo, expressão completa da vida do espírito.

Não custa penetrar no campo da teologia, nem o seu estudo exige muito tempo, a não ser, é claro, que se tome
como objecto de especialidade. Dedicai-lhe quatro horas por semana, durante cinco ou seis anos; é o suficiente;
depois só tereis de conservar o aprendido. Sobretudo, porém, não vos fieis em falsos mestres. Tomareis, logo de
entrada, S. Tomás de Aquino. Estudai a Suma, mas antes disso aprendereis os dogmas basilares da fé. Tende à mão o
Catecismo do Concílio de Trento, esplêndido resumo da doutrina teológica(4).

Possuí plenamente este manual e continuai, dia a dia, em companhia de S. Tomás, o desenvolvimento racional da
ciência divina. A princípio, o texto parecer-vos-á seco e abstruso; pouco a pouco, brilharão as luzes dominadoras; as
primeiras dificuldades vencidas terão como recompense novas vitórias; aprendereis a língua da terra, e, ao fim de
algum tempo, circulais por lá como em vossa casa, com a impressão de que residis numa sublime habitação.

Estudai, é claro, em latim! As traduções da Suma, muitas vezes traiçoeiras, são sempre insuficientes. Quem se
deixasse acobardar perante o esforço de aprender uma língua que um espírito ordinário consegue dominar em dois
meses, não mereceria que nos preocupássemos com a sua formação(5). Falamos para entusiastas: se querem
penetrar na <>, dêem-se ao trabalho de procurar a chave dela.

Ser-vos-ia útil alguma obra de introdução, que vos fizesse pressentir o conteúdo de S. Tomás e servisse de
prelibação. Todavia, não pareis aí; tomai a mão que se vos estende para vos pôr em movimento(6).

Por outro lado, um repetidor de espírito aberto e bem informado prestar-vos-ia valioso auxílio, diria até
indispensável. Iniciar-vos-ia paulatinamente no vocabulário técnico do tomismo, poupar-vos-ia hesitações e
quiproquós, esclareceria um texto por outro texto, assinalaria as pistas e defenderia os passos dos precipícios. No
entanto, persuadido como estou do mal que fazem amigos inábeis, da desilusão e escândalo provocado por
comentários estúpidos, recomendo-vos que prefirais a solidão a um concurso pouco inteligente. Esforçai-vos por
quebrar a noz; magoareis as mãos, mas acabareis de a partir, e então será o próprio S. Tomás quem instrui o seu
discípulo.
Para esse fim, consultai cuidadosamente, a propósito de cada artigo, as passagens diferentes a que as edições
costumam remeter; consultai o Index tertius, esse tesouro, imperfeito, mas ainda assim tesouro; comparai; estudai
de sorte que os documentos se completem e comentem mutuamente, e depois redigi o artigo estudado. Excelente
ginástica que dá maleabilidade, amplidão e vigor ao espírito, e o torna preciso, inimigo do sofisma e do pouco mais
ou menos, e ao mesmo tempo o enriquece de noções claras, profundas, bem encadeadas, sempre ligadas aos
princípios primeiros, constituindo, pela sua coadunação, uma forte síntese.

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(1) É curioso que, na hora atual, a própria ciência convida o sábio a elucidar problemas que até aqui dependiam da
filosofia: casualidade, determinismo, probabilidade, contínuo e descontínuo, espaço, tempo, etc. Logicamente, o
sábio, nesses casos, deveria recorrer ao filósofo; mas este, as mais das vezes, retrai-se, fecha-se nos seus antigos
quadros, e o sábio vê-se então obrigado a filosofar por si próprio, e fá-lo sem experiência e muito frequentemente
de través.

(2) Cf. sobretudo, Suma Teologica, toda a Questão I; Comentário ao De Trinitate, de Boécio, Questão II, art. 2; Contra
Gentes. liv. I, cap. I.

(3) Escreveu Carlos Dunan: <>. Les Deux idéalismes, Paris, Alcan, 1911, P. 182.

( 4) A título de auxiliar, seja-me permitido indicar o Catecismo dos Incrédulos, publicado com o fim de facilitar aos
nossos contemporâneos a compreensão da doutrina cristã c das suas bases.

( 5) Não se julgue que o Autor possui um segredo para ensinar o latim em dois meses! Não se trata do latim clássico,
mas do latim empregado por S. Tomás. O vocabulário tomista é tão reduzido, as construções sempre as mesmas e
tão alheias ao que torna difícil o latim, que só um preguiçoso recuará diante da conquista deste tesouro.

( 6) Cf. o livro elementar de J. Maritain, Éléments de Philosophie, Paris, Téqui, 1920. Para estudo mais profundo: A.D.
Sertillanges, Saint Thomás d'Aquin, 2 vols. [Coll. <>], Paris, Alcan, 1910.

Ler pouco - "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges

Capítulo retirado do livro "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges.

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CAPITULO VII - A preparação do trabalho

A. – A LEITURA

I – Ler pouco.
Trabalhar significa aprender e significa produzir: em ambos os sentidos, o trabalho requer longa preparação, porque
produzir é um resultado, e só aprende, em matéria árdua e complexa, quem primeiro atravessou o simples e o
fácil: "devemos correr para o mar por meio dos regatos, e não de repente" diz S.Tomás.

Ora, a leitura é o meio universal para aprender, e é a preparação próxima ou remota para toda a produção. Nunca
pensamos isoladamente: pensamos em sociedade, em colaboração imensa; trabalhamos com os trabalhadores do
passado e do presente. Graças à leitura, pode compararse o mundo intelectual a uma sala de redacção ou repartição
de negócios, onde cada qual encontra no vizinho a sugestão, o auxílio, a critica, a informação, o ânimo de que
carece.

Portanto, saber ler e utilizar as leituras, é necessidade primordial que o homem de estudo não deve esquecer.
Primeira regra: lede pouco. Em 1921, no jornal Le Temps, Paulo Souday que, pelo visto, se queria vingar de mim
nalguma coisa, agarrou-se a este preceito: "lede pouco", e pretendeu descobrir nele laivos de ignorantismo. O leitor,
se leu o jornal, sabe o valor daquela crítica e, sem dúvida, Paulo Souday também o sabia.

Eu não aconselho a restringir parvamente a leitura: tudo quanto fica dito protesta contra semelhante interpretação.
Queremos formar um espírito largo, praticar a ciência comparada, manter o horizonte aberto diante de nós, o que
não se consegue sem muita leitura. Mas muito e pouco só se opõem no mesmo terreno. Aqui, é preciso muito
absolutamente, porque a obra é vasta; mas pouco em relação ao dilúvio de escritos de que a mais insignificante
especialidade sobrecarrega hoje bibliotecas e as almas.

Proscrevemos, sim, a paixão de ler, a ânsia, a intoxicação por excesso de nutrição espiritual, a preguiça disfarçada
que prefere ao esforço a frequentação fácil. A paixão da leitura, de que tantos se prezam como de preciosa
qualidade intelectual, é tara, é paixão em tudo semelhante às demais paixões que absorvem e perturbam a alma,
retalhando-a de correntes confusas que lhe esgotam as energias.

Leia-se com inteligência, não com paixão. Vamos aos livros como a dona de casa vai à praça, depois de cumpridas as
ocupações quotidianas de acordo com as leis da higiene e da boa administração. A dona de casa não vai à praça com
o mesmo intuito com que vai à noite ao cinema. O mesmo sucede com a leitura: é questão, não de gozar e de se
embriagar, mais de governar e administrar bem a casa.

A leitura desordenada não alimenta, entorpece o espírito, torna-o incapaz de reflexão e concentração e, por
conseguinte, de produção; exterioriza-o no seu interior, se assim se pode dizer, e escraviza-o às imagens mentais, ao
fluxo e refluxo das ideias que ele se limita a contemplar na atitude de simples espectador. É embriaguez que
desafina a inteligência e permite seguir a passo os pensamentos alheios e deixar-se levar por palavras, por
comentários, por capítulos, Por tomos. A série de excitações assim provocadas arruina as energias, como a constante
vibração estraga o aço. Não esperemos trabalho verdadeiro de quem cansou os olhos e as meninges a devorar livros;
esse encontra-se, espiritualmente, em estado de cefalalgia, ao passo que o trabalhador, senhor de si, lê com calma e
suavidade somente o que quer reter, só retém o que deve servir, organiza o cérebro e não o maltrata com
indigestões absurdas.

Ide antes dar um passeio, ler no livro imenso da natureza, respirar o ar fresco, distrair-vos. Depois da actividade
tomada voluntariamente, organizai a distracção voluntária, em vez de vos entregardes a um automatismo que de
intelectual só tem a matéria, mas que em si é tão banal como o escorregar por uma encosta ou o escalar uma
montanha.
Fala-se da necessidade de estar 'ao corrente', e decerto um intelectual não pode ignorar o género humano, menos
ainda desinteressar-se do que se escreve na esfera da sua especialidade; cuidado, porém, não vá a 'corrente'
arrastar todas as disponibilidades laboriosas e, em vez de vos levar para diante, imobilizar-vos. Para avançar, é
preciso remar; nenhuma corrente, por si só, vos conduzirá aonde quereis chegar. Abri, por vós próprios, o caminho,
e não enveredeis por todas as sendas que se vos oferecem.

A restrição deve afectar sobretudo as leituras menos substanciais e menos sérias. Não falemos do veneno dos
romances. Um ou outro de quando em quando por distracção e para não perder de vista alguma glória literária; mas
que seja pura concessão porque a maior parte dos romances abalam e não repousam, agitam e desorientam os
pensamentos.

Quanto aos jornais, defendei-vos deles tanto mais energicamente quanto mais constantes e indiscretos são os seus
ataques. Convém saber o que os jornais contêm; mas é tão reduzido o conteúdo! E seria tão fácil informar-se dele,
sem necessidade de se instalar em intermináveis sessões da preguiça! Em todo o caso, há horas mais adaptadas para
a corrida às notícias do que a hora do trabalho. O trabalhador consciencioso deveria contentar-se com a crónica
semanal ou bimensal duma Revista, e recorrer aos jornais só quando lhe apontem algum artigo notável ou
acontecimento grave.

Em resumo: podendo recolher-vos, ponde de parte a leitura; lede unicamente, excepto nos momentos de distracção,
o que respeita ao fim em vista, e lede pouco, para não devorar o silêncio.

Capítulo retirado do livro "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges.

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CAPITULO VII - A preparação do trabalho

A. – A LEITURA

III – Quatro espécies de leitura.

Concretizando um pouco mais, distingo quatro espécies de leitura. Lemos para nos formarmos e ser alguém; lemos
com a mira nalgum fim particular; lemos para nos animarmos a trabalhar e praticar o bem; lemos por motivo de
distração. Há leituras de fundo, leituras de ocasião, leituras de estímulo ou de edificação, leituras de repouso.

Estes gêneros de leitura devem utilizar as nossas observações; cada uma apresenta também exigências particulares.
As leituras de fundo requerem docilidade, as Leituras de ocasião requerem mestria, as leituras de estímulo
requerem ardor, as leituras de repouso requerem liberdade.

Quem se forma e deve adquirir quase tudo, não está em período de iniciativas. Quer se trate da primeira formação,
de cultura geral, quer se encete o estudo de nova disciplina, de problema até aí descurado, precisamos mais de crer
nos autores consultados do que criticá-los e, em vez de aproveitá-los, acomodando-os à nossa maneira de pensar,
sigamos o caminho por eles primeiro trilhado. Querer agir demasiado cedo prejudica a aquisição; pede a prudência
que comecemos por nos dobrar. ”É preciso acreditar no professor”, diz S. Tomás, depois de Aristóteles. O próprio
Santo dá exemplo dessa obediência, que só lhe foi proveitosa.

Não quero dizer que nos entreguemos às cegas. Um espírito nobre não consente que o encadeiem. Mas assim como
não se aprende a arte de mandar se não obedecendo, assim o domínio do pensamento só se obtém pela disciplina.
Uma atitude de respeito, de confiança, de fé provisória, enquanto se não possuem todas as normas do juízo, é
necessidade evidente que só passa despercebida aos presumidos e vaidosos.

Ninguém é infalível; mas o aluno é-o muito menos do que o mestre, e se recusa submeter-se, por uma vez que terá
razão, subtrai-se vinte vezes à verdade e serra vítima das aparências. Pelo contrário, o crédito e a relativa
passividade, que ao mestre concedem alguma coisa do que é devido à verdade, aproveitam a esta última e
permitem utilizar as insuficiências, e as ilusões do professor. Ninguém sabe o que falta a um homem senão
calculando a sua riqueza.

Comecemos por escolher os guias em quem confiar. A escolha dum pai intelectual é negócio muito sério.
Aconselhamos S. Tomás para as doutrinas superiores; contudo, não podemos circunscrever-nos a ele. Três ou quatro
autores estudados a fundo para a cultura geral, três ou quatro para a especialidade e outros tantos para cada
problema que surja, é quanto basta recorremos a outras fontes a título de informação, não a titulo de formação, e
só com isso já será diferente a atitude de espírito.

Essa atitude será mesmo diversa sob certos respeitos, pois quem se informa e quer utilizar não se encontra já em
estado de pura passividade, mas tem as suas ideias prediletas, o seu plano; a obra consultada servir-lhe-á apenas de
esteio. Requere-se, é certo, uma dose de submissão à verdade mais do que ao escritor, mas também a este último se
deve dar fé, fé ( 1) Op.cit., pág. 246. compatível com a liberdade de seguir ou de rejeitar as conclusões a que ele
chega.

Estas questões de atitude revestem suma importância; porque, consultar, como quem estuda, é perder tempo, e
estudar como quem consulta, é ficar sozinho consigo e perder o beneficio que um iniciador vos oferece. Quem lê,
com a mira num trabalho, tem o espírito dominado pelo que pretende realizar; não mergulha na onda, bebe nela;
fica na margem, guarda a liberdade de movimentos, reforça as próprias ideias com o que de fora lhe advém, em vez
de as afogar nas ideias de outrem, e sai da leitura enriquecido e não despojado, como sucederia, se a fascinação da
leitura prejudicasse o intuito de utilização que a justificava.

Nas leituras de estímulo, a seleção, além das regras gerais apontadas, deve apelar para a experiência de cada qual.
Aquilo que uma vez deu bom resultado d provável que o torne a dar segunda vez. Uma influência começa sempre
por se reforçar, embora depois tenda a gastar-se com o tempo; o hábito aviva-a; uma penetração mais íntima
aclimata-a em nós; a associação das ideias e dos sentimentos prende, a tal página, estados de alma que com ela
despertam.

Ter assim, nos momentos de depressão intelectual ou espiritual, autores favoritos, páginas reconfortantes, tê-las à
mão, prestes para inocularem no espírito a boa seiva, é recurso incomparável. Conheço pessoas a quem a peroração
do Discurso fúnebre do Grand Condé reanimou anos seguidos, todas as vezes que se lhes secava a inspiração.
Outros, no domínio espiritual não resistem ao Mistério de Jesus de Pascal, a uma Oração de S. Tomás, a um capítulo
da Imitação de Cristo, a uma parábola do Evangelho. Observe-se cada qual, repare nos seus resultados, reúna em
volta de si os remédios para as doenças da alma, e não hesite em repetir, até se fartar, o mesmo cordial ou o mesmo
antídoto.

No que toca às leituras distrativas, parece não ter tanta importância a seleção; de fato, não a tem, relativamente.
Contudo, não é indiferente distrair-se deste ou daquele modo, quando o fim em vista é voltar, nas melhores
condições, ao que é a nossa razão de ser. Leituras há que não distraem suficientemente; outras distraem demasiado,
com prejuízo do recolhimento que se lhes deve seguir; outras desviam-nos, no sentido etimológico, isto é, levam-nos
para fora dos nossos caminhos.

Sei de alguém que se distraía de trabalhos árduos, lendo a História da Filosofia Grega de Zeller: era uma distração,
mas insuficiente. Alguns saboreiam histórias apimentadas ou fantásticas que os dissociam; outros entregam-se a
tentações que os fazem desanimar e lhes prejudicam a alma. Tudo isto é mau. Se os livros são servos, como os
objetos de uso necessário à vida, devem-no ser sobretudo aqueles que só têm a desempenhar papel acessório.
Ninguém se sacrifica por um leque.

Muitos pensadores encontram alívio e atrativo nas histórias de viagens e explorações, na poesia, na crítica de arte,
na comédia lida em casa, nos livros de memórias. Cada qual tem seus gostos e o gosto, aqui, é o principal. Segundo
S. Tomás, uma só coisa repousa verdadeiramente: a alegria; seria contra-senso querer distrair-se no tédio.

Lede o que agrada, o que não entusiasma demasiado, o que não prejudica e, já que sois consagrado, mesmo quando
vos distraís, tende a inteligência de ler, em igualdade de proveito e de repouso, o que for útil de outra maneira e
ajudar a completar-vos, a ornar o espírito, a ser homem.

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Escolher o que ler - "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges

Capítulo retirado do livro "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges.

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CAPITULO VII - A preparação do trabalho

A. – A LEITURA

II – Escolher.
Nestas observações está incluído o principio de seleção. ‘Muito discernimento é preciso, escreve Nicole, para
escolher o que há-de nutrir o espírito e servir de semente dos pensamentos. O que hoje lemos com indiferença
despertará mais tarde e apresentar-nos-á, sem que nisso reparemos, pensamentos que serão causa de salvação ou
de ruína. Deus sugere os bons pensamentos para nos salvar; o demónio acorda os maus pensamentos em nós
latentes’(1).

Portanto, é urgente selecionar: selecionar os livros e selecionar nos livros. Selecionar os livros. Não acreditar no
reclamo interesseiro nem no chamariz dos títulos. Ter conselheiros dedicados e sabedores. Dessedentar-se só nas
fontes. Freqüentar apenas o escol dos pensadores. O que nem sempre é possível em matéria de relações pessoais, é
fácil, e convém aproveitar, em matéria de leituras. Admirar de alma e coração o que merece ser admirado, sem
contudo prodigar a admiração. Desdenhar das obras mal feitas, que provavelmente são mal pensadas.

Ler só obras de primeira mão, onde brilham as ideias mestras. Ora estas são pouco numerosas. Os livros repetem-se,
diluem-se, ou então contradizem-se, o que é outra maneira de se repetirem. Olhando de perto, verificamos serem
raras as descobertas do pensamento; o fundo antigo, ou antes o fundo permanente é o melhor; é mister que nele
nos apoiemos para comungar verdadeiramente com a inteligência do homem, longe das pequenas individualidades
balbuciantes ou bulhentas. É uma comerciante de modas (M.elle Bertin) quem diz: ”só é novo aquilo que se
esqueceu”.

A maior parte dos escritores são apenas editores; é já alguma coisa. Voltemos, porém, ao assunto. Haveis de ler, sem
prevenção, o que se escreve de bem; lereis os autores modernos, e tanto mais quanto precisardes de informações,
de noções positivas em evolução ou em crescimento; quereis ser do vosso tempo; não deveis ser um ’tipo arcaico’.
Contudo, não tenhais a superstição da novidade; gostai dos livros eternos, que encerram as verdades eternas.

Em seguida, deveis selecionar nos livros. Nem tudo é igual. Nem por isso haveis de assumir atitude de juiz; sede
antes, para com o autor, um irmão, na verdade, amigo, e amigo inferior, visto que, pelo menos debaixo de certos
aspectos, o tomais por guia. Sendo o livro um irmão mais velho, é mister honrá-lo, abri-lo sem orgulho, escutá-lo
sem prevenção, suportar-lhe os defeitos, buscar o grão da palha. Mas sois homem livre; permaneceis responsável:
reservai-vos o bastante para guardar a alma e, se necessário for, para a defender.

”Os livros são obras dos homens, diz ainda Nicole, e a corrupção do homem imiscui-se na maior parte das suas
ações, e como ela consiste na ignorância e na concupiscência, quase todos os livros se ressentem destes dois
defeitos (1)”. Daí a necessidade de filtrar para depurar, muitas vezes, durante a leitura. Para isso, confiar em Deus e
no melhor de si, na parte de si que é filha de Deus e na qual um instinto de verdade, um amor do bem servirá de
resguardo.

Além disso, lembrai-vos que até certo ponto um livro vale o que vós valeis, e o que o fizerdes valer. Leibniz utilizava
tudo; S. Tomás extraiu dos hereges e dos paganizantes do seu tempo grande número de ideias, sem sofrer de
nenhuma. O homem inteligente encontra em toda a parte inteligência, o louco projeta sobre todas as paredes a
sombra da sua fronte estreita e inerte. Escolhei o melhor que puderdes; mas procurai que tudo seja bom, largo,
aberto ao bem, prudente e progressivo.

( 1) Nicole, essais de morale contenus en divers traité, t.II, pág. 244, Paris, 1733.

Conhecer: um trabalho permanente


Por A. D. Sertillanges

Nossa inteligência está sempre ativa, sempre querendo conhecer. Que desperdício seria que não a aplicássemos
sempre para compreender cada vez mais sobre a vida, as pessoas e o mundo! O autor dá alguns conselhos práticos
para não deixarmos de encarar todas as situações como ocasiões de aprendizado.

Instintivamente queremos conhecer do mesmo modo que pedimos pão. Se os mais dos homens se deixam prender
por desejos errôneos, o pensador é obsidiado pelo desejo de saber; porque o não utilizará, aproveitando-o como se
aproveita um curso de água para mover uma turbina?

Será isso possível? Sim, é; a experiência e a psicologia o ensinam. O cérebro trabalha sem remissão; as turbinas, que
reclamo, existem, giram, arrastando em suas voltas um sistema de rodas donde se escapam as idéias como as
centelhas dum dínamo em pleno rendimento. Os processos nervosos encadeiam-se em série contínua e não param,
do mesmo modo que os movimentos do coração ou dos pulmões. Que falta para aproveitar, em favor da verdade,
esta vida permanente? Só a disciplina. É preciso que os dínamos estejam ligados às turbinas, as turbinas à corrente
de água; é preciso que o desejo de conhecer acione regularmente, e não por intermitências, o funcionamento
cerebral, consciente ou inconsciente.

A maior parte da atividade nervosa de nada serve, pela simples razão de não ser captada. A falar a verdade, nunca o
será totalmente, porque o nosso poder sobre ela é relativo, e, se tentarmos forçar o rendimento, arriscamo-nos a
quebrar a máquina. Mas para obter o possível, basta relativamente pouca dessa atividade, desde que saibamos
cultivar o hábito. Este, bem montado, opera como segunda natureza. Têm aqui lugar os nossos conselhos práticos.

“Empenha-te em encerrar no cofre do espírito tudo quanto puderes, como quem pretende encher um vaso”,
recomenda São Tomás ao homem de estudo. Mais abaixo voltaremos a esta comparação, que pode dar margem a
equívocos; aqui trata-se do cuidado em adquirir, não da maneira. O que importa ao homem de verdade é
compreender que a verdade está em toda a parte, como corrente contínua capaz de acionar a alma, mas que ele
deixa passar em vão.

A sabedoria clama nas ruas, diz a Bíblia; eleva a voz nas praças públicas; prega à entrada dos lugares ruidosos, às
portas da cidade: até quando, ó ignorantes, amareis a ignorância?... Convertei-vos... que sobre vós espalharei o meu
espírito... estendo a mão e ninguém me dá atenção (Prov. 1, 20-24). Se esse apelo incessante em favor da verdade
fosse escutado, alargaria o espírito e enriquecê-lo-ia mais do que muitas sessões laboriosas. Estas são necessárias;
mas a luz que aí se concentra expandir-se-ia até iluminar quase toda a vida; estabelecer-se-ia uma corrente que
atrairia para a lâmpada os resultados do pensamento difuso, e de lá reverteria para este mesmo pensamento, a fim
de lhe comunicar orientação e fecundidade.

Que sucede quando quereis mobiliar um quarto? Em princípio, nem sequer pensáveis nos móveis. Circuláveis pelas
ruas de Paris, onde abundam as lojas de antiquários, mas não reparáveis nelas. Desconhecíeis as tendências da
moda, o valor provável de tal ou tal achado, a especialidade de tal bairro, os preços, etc. Mas, uma vez estimulado o
espírito pelo desejo, tudo vos impressiona, tudo vos retém; dir-se-ia que Paris é um vasto armazém e no espaço de
oito dias ficais ao par do que não lograríeis conhecer durante a vida inteira.

Ora, a verdade está mais espalhada que os móveis: clama nas ruas e não nos desampara, se a não desamparamos.
As idéias estão nos fatos; estão também nas conversações, nos acasos, nos espetáculos, nas visitas e nos devaneios,
nas leituras, por banais que sejam. Tudo contém tesouros, porque tudo está em tudo, e algumas leis da vida ou da
natureza governa o mais.
Newton não teria descoberto a gravitação, se a atenção ao real o não tivesse advertido e disposto a reparar que as
maçãs caem como os universos. As leis da gravitação dos espíritos, as leis sociológicas, filosóficas, morais, artísticas,
não têm menos aplicação em toda a parte. Qualquer fato pode gerar um sublime pensamento. Em toda a
contemplação, mesmo na de uma mosca ou de uma nuvem que passa, há oportunidade de reflexões sem-fim. Toda
a captação de luz pode conduzir ao sol; todo o caminho aberto é corredor para Deus.

Ora, podemos captar todas essas riquezas estando presentes. Olhando tudo com espírito de inspiração, veremos em
toda a parte lições, profecias da verdade ou confirmações, causas e conseqüências. Mas no mais das vezes estamos
ausentes, nós ou a nossa atenção. “Toda a gente olha o que eu olho, mas ninguém vê o que eu vejo”, dizia Lamartine
diante do mar encapelado. Habituai-vos, pois, a estar presentes a este jogo do universo material e moral. Aprendei a
olhar; confrontai o que se vos oferece com as idéias que vos são familiares ou secretas. Numa cidade não vejais
somente casas, mas vida humana e história. Que um museu vos não mostre apenas quadros, mas escolas de arte e
de vida, concepções do destino e da natureza, orientações sucessivas ou diversas da técnica, do pensamento
inspirador, dos sentimentos. Que uma oficina vos não fale apenas de ferro e de madeira, mas da condição humana,
do trabalho, da economia antiga e moderna, das relações entre as classes. Que as viagens vos ensinem a conhecer a
humanidade; que as paisagens evoquem a vossos olhos as grandes leis do mundo; que as estrelas vos falem das
durações incomensuráveis; que as pedras do caminho sejam para vós o resíduo da formação da terra; que a vista
duma família se associe em vós à das gerações, e que a menor conversa vos informe sobre a alta concepção do
homem. Se não souberdes olhar assim, tornar-vos-eis banais, se já não sois. O pensador é filtro onde a passagem da
verdade deixa o melhor da sua substância.

Aprendei a escutar, e escutai, primeiro, quem quer que seja. Se na praça se aprende a língua materna, como
pretendia Malherbe, também na praça, isto é, na vida corrente se pode aprender a língua do espírito. Nas mais
simples conversas circulam verdades sem conta. A mais pequena palavra escutada com atenção pode ser oráculo. Há
ocasiões em que um camponês mostra maior sabedoria que um filósofo. Todos os homens se encontram no íntimo
de si próprios, sempre que lá refluem, e se uma profunda impressão, se um regresso instintivo ou virtuoso à
simplicidade original afastar os convencionalismos e as paixões que ordinariamente nos escondem a nossos olhos e
aos dos outros, ouve-se um discurso divino todas as vezes que um homem fala.

Em cada homem está o homem todo, e daí podemos retirar uma profunda iniciação. Se fosseis romancistas, quanta
riqueza aí recolheríeis! O maior romancista forma-se no limiar das portas, o menor na Universidade ou nos salões. Só
que, em vez de se imiscuir, o grande observador reserva-se, vive para si, sobe, e, a mais insignificante vida afigura-
se-lhe um soberbo espetáculo.

Ora, o que o romancista busca pode servir a todos, porque todos precisam desta experiência intensa. O pensador só
é verdadeiramente pensador se encontrar no mais pequeno impulso de fora, a ocasião dum entusiasmo ardente. O
seu caráter consiste em conservar, pela vida afora, a curiosidade da infância, a vivacidade de impressão, a tendência
para ver tudo sob o ângulo do mistério, a feliz faculdade de encontrar em toda a parte surpresas fecundas.

No entanto, atenção, sobretudo se tendes a dita de tratar com alguém que sabe e que pensa. É pena que os homens
de escola sejam tão pouco úteis aos que os rodeiam! Praticamente assemelham-nos aos simples de espírito; toma-se
o que têm de comum e não o que têm de raro. Há neles um tesouro, mas brinca-se com a chave sem o abrir. As
vezes sorrimo-nos do seu acanhamento, das pequenas excentricidades de pessoas abstratas, e nisso não há mal; o
ridículo é tomar ares de superioridade, que esquecem o valor dos outros.
Os grandes valores estão assaz disseminados para que os deixemos sem uso. Empregam-se a si próprios e toda a
gente se utiliza deles sem o saber; mas sabendo-o, recebe deles instrução e impulso capazes de decidirem, às vezes,
duma vida inteira. Quantos que foram santos, generais, exploradores, sábios, artistas, por terem encontrado uma
personalidade eminente e ouvido o som duma alma! Esse apelo mudo ecoou neles através de toda a existência; era
um clamor que os impelia para a frente; levava-os uma onda invisível. A palavra de um grande homem, como a de
Deus, é, por vezes, criadora.

Mas os grandes homens só são grandes após a morte. Em vida, quase ninguém repara neles. Talvez haja a vosso lado
quem valha um Descartes e não lhe prestais atenção, não o interrogais, discutis com ele só por discutir, cortais-lhe a
palavra para proferir bagatelas. E, se a despeito da sua potente grandeza de espírito, não revela tão potente
envergadura, nem por isso consintais que ele sepulte ou gaste em silêncio a sua riqueza.

Observando e escutando – não falo da leitura, porque lá voltaremos – assimilareis e adaptareis às vossas
necessidades o que houverdes adquirido. As grandes descobertas são apenas reflexões sobre fatos comuns a todos.
Quantas vezes passamos sem nada ver, até que um dia o homem de gênio observa os laços existentes entre o que
ignoramos e o que vemos constantemente. Que é a ciência senão a lenta e sucessiva cura da nossa cegueira? É
verdade que a observação precisa ser preparada por estudos e soluções anteriores. Encontramos o que procuramos.
Só é dado àquele que tem. Por isso eu falava dum vaivém entre as luzes interiores e as exteriores. O espírito deve
manter-se em perpétua disposição de refletir, como em perpétua disposição de ver, de ouvir, de apontar a presa
que passa, como bom caçador.

Precisando mais, dizemos que esta atenção de espírito pode aproveitar não só a nossa cultura geral, mas a nossa
especialidade, ao nosso estudo atual, ao trabalho em gestação. Levai convosco os vossos problemas. O cavalo de
aluguel entra na cocheira após a corrida; mas o corcel em liberdade sempre respira à vontade.

Encontrando-se a verdade em toda a parte e estando todas as coisas ligadas entre si, por que não havemos de
estudar cada questão, relacionando-a com as demais? Tudo deve alimentar a nossa especialidade. Tudo deve
testemunhar pró ou contra as nossas teses. O universo é, em grande parte, obra nossa. O pintor só vê a sua volta
formas, cores, movimentos, expressões; o arquiteto equilibra massas; o músico percebe ritmos e sons; o poeta,
motivos de metáforas; o pensador, idéias em ato.

Nessas atitudes não há particularismos estreitos; é questão de método. Não podemos abarcar tudo. Reserva-se o
interesse para a livre observação, consagramos, a uma pesquisa particular, a atenção de sobresselente, e, “pensando
sempre nisso”, como Newton, recolhemos elementos para uma obra.

O segredo está em ter sempre pensamento em expectativa. O espírito do homem é um ruminante. O animal olha ao
longe, mastiga lentamente, colhe aqui um tufo, ali uma vergôntea, toma o prado a sua conta, e também o horizonte,
compondo com aquele o leite, e com este a sua alma obscura.

Ensinam-nos a viver na presença de Deus; por que não viver também na presença da verdade? A verdade é como
que a divindade especial do pensador. Tal verdade particular ou tal objeto de estudo podem estar de contínuo
presentes ao espírito. Será sensato, será normal deixar o investigador no gabinete de trabalho, ter assim duas almas:
a do trabalhador e a do homem folgado que circula? Tal dualismo é inatural, pois leva a crer que buscamos o bem
por ofício e não por nobre paixão.
“Há tempo para tudo” (cfr. Ecle 3, 17), diz a Bíblia, e concordo que não se pode evitar a divisão; mas se de fato
pensamos todo o tempo, por que não utilizaremos o pensamento em benefício do que nos inquieta?

Dir-se-á que semelhante tensão é incompatível com a saúde cerebral e com as condições da vida? De acordo; mas
também não se trata de tensão, nem mesmo, ordinariamente, de vontade atual. Falei de hábito; falemos, se
quiserdes, de subconsciência. O espírito tem o poder de funcionar sem nós, por pouco que preparemos a faina e
tracemos de leve o esforço dos canais por onde correrão os seus veios obscuros.

Radicado em nós o desejo de saber e ateada a paixão da verdade, concentrada a atenção consciente sobre os fatos
da vida próprios para entreter o fogo e satisfazer o desejo, o espírito assemelha-se a um galgo pronto para a caça. A
tarefa já lhe não custa; obedece a uma nova natureza. Pensais tão facilmente numa direção, como outrora ao acaso.

Esta direção é, sem dúvida, só aproximada e seria absurda uma tensão excessiva; mas convirá recusar o que se pode,
argüindo com o que se não pode? Tendes aí um imenso recurso; empregai-o, introduzindo um pouco de disciplina
num trabalho cerebral que se efetua, mas sem vós e de maneira anárquica. Regulai esse trabalho, de sorte que o
cérebro seja, também ele, um intelectual.

Mostrar-vos-á a experiência que isto não cansa, que, pelo contrário, poupa muitas canseiras; porque as descobertas
feitas assim ao acaso, sem as buscarmos, simplesmente porque nos resolvemos e decidimos a não ser cegos, estas
invenções, muitas vezes mais felizes porque mais espontâneas, incutem ânimo ao investigador, conservam-no alerta
e bem disposto; ele espera com delícia a hora de retiro para fixar e desenvolver o resultado das pesquisas.

Alcança-se muitas vezes, desse modo, a ligação difícil, a saída que embalde se procurara à mesa de trabalho. O que
não tinha relação com o trabalho conduz a alguma coisa que constitui o fundo do mesmo trabalho. A ciência
laboriosa recebe daí nova luz; o homem sabe para onde vai e brevemente um lucro inesperado virá coroar os
esforços envidados.

Este processo de acaso responde as contingências cerebrais e ao trabalho obscuro da associação das idéias. Muitas
leis se verificam aí, sem que haja lei para a sua aplicação a uma ou a outra, a tal ou a qual hora, e tudo isto se
combina sem nossa intervenção – quer dizer, sem que a vontade intervenha, só debaixo da impressão do desejo que
é a alma do pensador e que o qualifica; como o jogo qualifica a infância, como o amor qualifica a mulher – isto não é
o excesso de carga que se supõe.

Cansa-se porventura a mulher que, durante o passeio, detém-se a espiar as homenagens dos transeuntes, ou a moça
à cata de ocasião de rir, ou o rapaz a espreita da oportunidade de brincar? O espírito que espreita a verdade por
amor, não por constrangimento, por tendência a princípio instintiva, depois cultivada, mas amorosa e
apaixonadamente, também não sofrerá mais por isso. Diverte-se, caça, entrega-se a um desporto útil e inebriante,
longe do esforço concreto e voluntário das horas de concentração.

Deste modo o sábio passeia, por todos os tempos e em todas as estradas, um espírito maduro para aquisições que o
vulgo descura. A seus olhos, a mais humilde ocupação é o prolongamento da mais sublime; as visitas de cerimônia
são inquéritos felizes, os passeios explorações, as suas audições e respostas mudas um diálogo que mantém, nele, a
verdade de acordo consigo própria. Por toda a parte o seu universo interior se confronta com o outro, a sua vida
com a Vida, o seu trabalho com o incessante trabalho dos seres, e ao sair do estreito espaço em que o seu estudo se
concentra, sente a impressão, não de abandonar a verdade, mas de lhe abrir a porta de par em par, a fim de o
mundo drenar para ele toda a verdade que se gasta nos seus potentes folguedos.

Fonte: Trecho do livro A vida intelectual

Tradução: -

http://www.quadrante.com.br/artigos_detalhes.asp?id=87&cat=3&pagina=2

Como e Porque Estudar

Hoje em dia, está na moda dizer que devemos ser autodidatas. Há mesmo aqueles que afirmam que isso é o que as
escolas deveriam ensinar. Lendo esses chavões modernos, chegamos a pensar que só os ‘sábios’ contemporâneos,
com todas as ferramentas da moderna pedagogia, podem nos aconselhar, quando o assunto é o estudo e o
aprendizado.

Se alguém quiser desfrutar de uma tradição de aconselhamento de como e porque estudar que remonta à Idade
Média, convém começar com o ‘Opúsculo sobre o Modo de Aprender e de Meditar’ de Hugo de São Vitor (1096-
1141), continuar com o ‘Sobre o Modo de Estudar (De Modo Studendi)’ de Santo Tomás de Aquino (1125-1274) e
chegar ao nosso tempo com ‘Le Vie Intellectuelle’, escrito em 1934, por A.D. Sertillanges, um beneditino francês.
Existe uma edição em inglês dessa obra, publicada pela CUA (Catholic University of America) Press, como o título
‘The Intellectual Life: Its Spirit, Conditions, Methods’.

O filósofo brasileiro Olavo de Carvalho tem se ocupado, freqüentemente, deste tema em seus artigos semanais em
jornais brasileiros e em palestras em vários fóruns. Alguns deles são de aconselhamento, como este . Outros, são de
análise da conjuntura atual, mas que inclui uma boa dose de conselhos sobre como estudar, como este. Alguns deles
são longas digressões sobre a educação em geral, como este.

Voltando ao beneditino francês, seu livro é, de fato, um tesouro. Para dar uma pálida idéia do seu conteúdo, traduzo
alguns trechos de seu prefácio, escrito pelo jesuíta James V. Schall, para a edição de 1998. A propósito, Padre Schall
também escreveu um livro de conselhos sobre como estudar. Não o conheço, mas quem se interessar pode adquiri-
lo aqui.

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Os prazeres e as dores do pensar

Uma vocação não é realizada por leituras vagas e escritos esparsos.-- A.D. Sertillanges, Introdução à Edição de 1934

Muitos de nós, mais velhos, desejaríamos que, quando mais jovens, alguém nos tivesse falado sobre certas coisas,
ou sobre certos livros que, freqüentemente, quando os analisamos em retrospectiva, teriam nos ajudado,
tremendamente, no projeto de nossas vidas e, em particular, nos teriam ajudado a conhecer as coisas verdadeiras.
Alguns desses livros são orientados ao que é verdadeiro, à realidade, ao que é, mas alguns deles são mais
direcionados à questão do “como começar a conhecer?” (...)

Sertillanges oferece muito mais do que um bom começo. Ele, explicitamente, diz como começar, como ler e
escrever, como disciplinar nosso tempo, de fato, como disciplinar nossa alma. Ele também se ocupa com a vida do
espírito na qual a verdadeira vida intelectual existe. Talvez, já tenhamos ouvido de Aristóteles que somos animais
racionais, que a vida contemplativa é algo a que devemos aspirar. Mas, praticamente ninguém nos diz o que isso
significa, se isso é algo que está disponível a nós sob alguma condição que não nos é fácil compreender. Mas, mesmo
que nós, vagamente, saibamos que a vida intelectual é uma vida elevada, sabemos muito pouco sobre o que tal vida
nos poderia exigir. Estamos, também, conscientes que a sabedoria vem muito mais tarde na vida do que,
inicialmente, suspeitávamos,. Mesmo assim, suspeitamos que haveria caminhos que nos ajudassem, se pelo menos
nós os conhecêssemos. (...)

Este breve prefácio é, simplesmente, uma explicação da razão pela qual esse livro maravilhoso e útil deve estar,
sempre, disponível e ser, permanentemente, consultado por jovens estudantes de graduação, de pós-graduação,
pelo pessoal mais velho e, enfim, por todos. Toda vez que usei esse livro em sala de aula, usualmente quando
lecionava um curso sobre Santo Tomás de Aquino, tive alunos de graduação que, posteriormente, me disseram
lembrar do livro porque ele os ensinou muito sobre como continuar pondo em prática a curiosidade intelectual, de
uma maneira efetiva, não meramente enquanto estudavam, mas ao longo de suas vidas.

À primeira vista, como já insinuei, esse é um livro incomum. Depois, ele se torna um livro tremendamente exigente.
Sertillanges, meticulosamente, nos diz como tomar notas, como começar a escrever e a publicar, como organizar
nossas anotações e com isso, nosso pensamento. Assim, usei a palavra incomum porque nós não usamos mais, como
fez Sertillanges, canetas e máquinas de datilografia, mas computadores sofisticados e processos de impressão que o
teriam impressionado. Mas, lembre-se que Tomás de Aquino, sobre quem Sertillanges escreveu tão bem e de cuja
inspiração deriva este livro, teve, talvez, somente vinte e cinco anos de atividade produtiva no século XIII. Ele não
teve nenhuma das facilidades que mesmo Sertillanges teve nos anos 20 do século XX. Mesmo assim, Aquino
produziu uma quantidade, estonteante, de material brilhante e profundo.

Como ele o fez? É altamente duvidoso que ele tivesse escrito mais ou melhor se ele dispusesse do mais avançado
computador. De fato, num certo sentido, isso poderia ter sido um obstáculo. Pois, Santo Tomás desenvolveu uma
memória prodigiosa e uma fantástica capacidade de acesso a todo o conhecimento dos grandes escritores seus
ancestrais, incluindo a Bíblia. Essa sabedoria foi adquirida às custas de livros e leitura, mesmo para Santo Tomás,
mas ele sabia como fazer essas coisas. O que Sertillanges nos ensina é como, do nosso próprio jeito, imitar as lições
que podemos encontrar no grande Dominicano medieval, sobre como desenvolver uma verdadeira vida intelectual,
uma vida cheia de honestidade e oração, por meio de um trabalho diligente e, no final, uma vida com o deleite de
conhecer.

Ao ler o livro de Sertillanges, não podemos evitar o sentimento de que ele está nos revelando alguns dos segredos
da vasta produtividade e intuição de Santo Tomás. Há tantas horas num dia, numa semana, num mês. Sertillanges
não nos pede para abrirmos mão de nossa vida cotidiana e nos devotarmos, completamente, à vida intelectual da
maneira como Santo Tomás fez. Ao contrário, Sertillanges nos ensina, de uma forma prática, como podemos
organizar nossas vidas a fim de adquirirmos uma base inicial sólida – com sorte, quando ainda somos jovens – e
continuarmos a construir sobre essa firme fundação, pelo resto de nossos dias. Em resumo, Sertillanges nos ensina
sobre hábitos, sobre disciplina, sobre, sim, produtividade e verdade. Ele pensa que podemos viver uma verdadeira
vida intelectual se conseguirmos reservar uma ou duas horas diárias para uma busca séria das coisas superiores. Ele
não sugere nada rígido ou inexeqüível. Além disso, quando falamos em termos de horas, tendemos a perder de vista
ao que Sertillanges se refere.

Qualquer tipo de aprendizado, no início, exigirá um esforço penoso. Podemos chamá-lo de um tipo de trabalho.
Precisamos chegar a ponto de nos deleitarmos pelo que estamos aprendendo, a ponto de ficarmos ansiosos para
voltarmos para nossas considerações, ou escritos, ou reflexões sobre algum assunto. Qualquer coisa que existe é
fascinante. Chesterton, cuja vida intelectual parece ter sido tão vibrante, certa vez observou que não há coisas
desinteressantes, apenas pessoas desinteressadas. Grande parte desse desinteresse existe, precisamente, porque
nunca aprendemos como ou porque enxergar o que está lá.

Sertillanges nos ensina a examinar nossas vidas. Ele não deixa de mencionar que nossas falhas morais, as sérias e as
mais leves, podem, de fato, nos impedir de sermos livres o suficiente para enxergarmos o que não seja ‘nós
mesmos’, para enxergarmos o que é. “Você deseja ter uma vida intelectual?” Sertillanges responde, em sua
Introdução da edição de 1934. “Comece por criar dentro de si uma zona de silêncio.” Vivemos num mundo cercado
por barulho, por um tipo de agitação que preenche nossos dias e noites. Temos tantas coisas para nos distrair,
mesmo que, às vezes, pensamos que elas nos educam. Sertillanges tem certeza que temos tempo. Mas, ele,
também, tem certeza que não notamos que temos tempo porque nossas vidas parecem ser ocupadas, saturadas.
Encontramos tempo nos tornando, primeiramente, interessados, desejosos de saber. Sertillanges exige um exame
de consciência tanto sobre nossos pecados, quanto sobre o uso do nosso tempo.

Uma vida intelectual, contemplativa, é, em si, cheia de atividade, mas atividade proposital, que quer saber e saber a
verdade. O que, comumente, chamamos “intelectual” atualmente não é, provavelmente, o que Sertillanges tinha em
mente quando ele falava de “vida intelectual”. Pode-se dizer que os intelectuais como classe, como Paul Johnson
escreveu em seu livro “Os Intelectuais”, desenvolvem teorias e explicações, precisamente, como um produto de suas
próprias desordens morais internas. Não devemos nunca esquecer que uma vida intelectual é uma vida perigosa. O
maior de todos os pecados não se origina da carne mas do espírito, como dizia Agostinho. O mais brilhante dos anjos
foi o anjo caído. Essas considerações sóbrias explicam porque gosto deste pequeno livro de Sertillanges. Ele não
hesita em nos alertar sobre a relação íntima entre nosso conhecimento da verdade e o não direcionamento de nossa
alma ao bem. A vida intelectual pode ser e, com freqüência, é uma vida perigosa. Mas, isso não é razão para
negarmos sua glória. E Sertillanges é muito cuidadoso em nos direcionar para aquelas coisas que devem ser
perseguidas porque elas nos explicam o que somos, nos explicam o mundo e Deus. (...)

Tendemos a pensar que a vida intelectual é alguma enorme intuição que vem a nós numa agradável manhã,
enquanto nos barbeamos ou tomamos café. Sertillanges não nega que alguma intuição nos chega dessa forma. Mas,
o curso normal das coisas exigirá, ao contrário, uma preocupação permanente em perseguir a verdade, em
conhecer, em ser curioso sobre a realidade. (...)

Eu colocaria A Vida Intelectual sobre a escrivaninha de todo estudante sério e da maioria dos negligentes. De fato,
Platão disse que nossas vidas não são “sérias” em comparação com a de Deus. Algo do relaxado lazer, daquela
sensação de liberdade que vem com o conhecimento e com o desejo de conhecimento, é instilado em nossas almas
por este livro. Sua mera presença em nossas escrivaninhas ou estantes é um estímulo constante, um lembrete visível
de que a vida intelectual não é algo estranho, algo que não podemos, do nosso jeito, alcançar.

Jesus Cristo, o Único Necessário.

"Se sempre foi verdade dizer que nenhum homem chega a Deus senão por Cristo, que em Cristo a humanidade toda
é oferecida a Deus, aceita por Deus e unida a Deus para uma vida eterna, bem necessário se torna que, de uma
maneira ou de outra, Cristo tenha existido sempre, sempre à disposição de quem quer que, homem de ontem ou de
hoje, daqui ou dacolá, procurasse o caminho para o Único Necessário e o Único Suficiente da alma humana. Há uma
gravitação universal das almas, e Cristo lhes é o sol.

Somente n'Ele está a grandeza, a inocência e a felicidade da terra. Religião viva, se assim posso falar, já que Ele se
apresenta como Vínculo, a Ponte, a Entrada, a Porta que faz comunicar e estabelece numa vida comum o homem e
Deus, deve Ele dominar a raça na sua dupla extensão, espacial e temporal. De tão longe quanto venhamos sobre o
imenso meridiano do universo moral, e qualquer que seja o momento do tempo em que situemos a nossa frágil
existência, cumpre que, de uma maneira ou de outra, toquemos nesse ponto, para tocarmos no divino que lhe é
parcialmente idêntico. Só aí a tangente infinita toca o círculo humano." A. D. Sertilanges, no livro "O Milagre da
Igreja".

http://porquecreio.blogspot.com.br/2013/04/jesus-cristo-o-unico-necessario.html