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G. K.

Chesterton

O OBJETIVO DE UM NOVO ANO


O objetivo de um novo ano não é que tenhamos um novo ano. É que devemos ter uma nova alma e um novo nariz;
pés novos, uma nova espinha dorsal, novos ouvidos e novos olhos.

A menos que um homem em particular fizesse resoluções de Ano Novo, ele não faria nenhuma resolução.

A menos que um homem comece de novo sobre as coisas, ele certamente não fará nada eficaz.

A menos que um homem comece com a estranha suposição de que ele nunca existiu antes, é certo que ele nunca
existirá depois. A menos que um homem nasça de novo, ele de modo algum entrará no Reino dos Céus.

G.K. Chesterton

REFLEXÕES DE G. K. CHESTERTON SOBRE O NATAL


Sobre o Natal

O Natal é um obstáculo ao progresso moderno. Enraizado no passado, inclusive no passado remoto, ele não pode ser
útil a um mundo em que a ignorância da história é a única evidência clara do conhecimento científico. Nascido entre
milagres, relatados há dois mil anos atrás, não se pode esperar que impressione aquele senso comum robusto que
pode resistir à evidência mais clara e palpável de milagres acontecendo neste momento. O Natal não é moderno; o
Natal não é marxista; o Natal não se amolda ao padrão dessa grande era da Máquina, que promete uma época de
felicidade e prosperidade ainda maior do que aquela que já trouxe às massas até o presente momento. O Natal é
medieval. O Natal é uma superstição… O Natal é uma sobrevivência do passado.

Sobre as canções de Natal

É nas velhas canções natalinas, canções que remontam à Idade Média, que encontramos não só o que torna o Natal
poético, repousante e grandioso, mas antes de tudo o que torna o Natal empolgante. A qualidade empolgante do
Natal consiste, assim como todos os outros exemplos que mencionei, num antigo e reconhecido paradoxo. Consiste
no grande paradoxo de que o poder e o centro de todo o universo podem ser encontrados em algo aparentemente
pequeno, de modo que as estrelas em seu curso possam se mover como uma roda em movimento ao redor de um
desprezado cômodo de fundo de uma hospedaria. E é extraordinário notar como esse sentimento do “paradoxo da
manjedoura” escapou completamente aos teólogos mais brilhantes e engenhosos, na mesma proporção em que foi
mantido pelas canções de Natal, que nunca esqueceram do seguinte: o principal assunto da história que tinham para
contar era que o absoluto governava o universo a partir de uma estrebaria.

Sobre cartões de Natal

Um cartão de Natal que emociona um cristão frio e distante, intrinsecamente idólatra, não é um cartão de Natal. Se
o cartão nos surpreende com o paganismo sombrio que existia antes do cristianismo — ou com aquele paganismo
muito mais sombrio que, em muitos lugares, vem depois dele — não é uma mensagem do Menino Jesus ou de São
Nicolau.

Sobre os presentes de Natal

O próprio Cristo foi um presente de Natal. A tradição de presentes de Natal começa antes mesmo de Ele nascer, nos
primeiros movimentos dos sábios orientais e da estrela. Os Três Reis chegaram a Belém trazendo ouro, incenso e
mirra. Se eles tivessem trazido apenas coisas abstratas, como Verdade, Pureza e Amor, não teria havido arte cristã
nem civilização cristã.

Os três presentes
Havia três coisas prefiguradas e prometidas pelos presentes na gruta de Belém, com respeito à Criança que as
recebeu: que Ele seria coroado como um rei; que Ele deveria ser adorado como um Deus; e que Ele deveria morrer
como um homem. E essas coisas soariam como bajulação oriental, não fosse pelo terceiro.

https://www.thecatholicthing.org/2009/12/29/chesterton-on-christmas/

https://opusmaterdei.blog/2018/12/13/reflexoes-de-g-k-chesterton-sobre-o-natal/

Para encerrar este artigo, gostaria de citar o belo poema de G. K. Chesterton, The
Ballad of the White Horse (A Balada do Cavalo Branco).
O Rei Alfred vem lutando pelos dinamarqueses há muito tempo. Nossa Senhora aparece para o rei, que lhe pergunta
se a guerra finalmente chegaria a um fim. É assim que nossa Mãe Santíssima lhe responde:

(Texto Original) (Tradução Literal)

I tell you naught for your comfort, Nada que digo é para teu conforto,

Yea, naught for your desire, Sim, nada para teu desejo,

Save that the sky grows darker yet Salvo que o céu fica ainda mais escuro

And the sea rises higher. E o mar ainda mais alto.

Night shall be thrice night over you, A noite será três vezes noite sobre ti,

And heaven an iron cope. E o céu uma abóbada de ferro.

Do you have joy without a cause, Tens alegria sem uma causa,

Yea, faith without a hope? Sim, fé sem uma esperança?

Alfred não perdeu a coragem. O Rei continuou reunindo homens cristãos:

Enquanto um homem restar, grande guerra


restará,
While a man remains, great
war remains, Agora é uma guerra de homens.

Now is a war of men.

https://permanencia.org.br/drupal/node/5470

257ª Nota - Maníacos fatalistas

Consideremos, primeiramente, o caso mais evidente de materialismo. Como uma explicação do mundo, o
materialismo tem uma espécie de louca simplicidade, e a sua argumentação é, precisamente, a de um doido. Temos
a sensação de que ela abrange tudo e, ao mesmo tempo, deixa todas as coisas de fora. Se observarmos qualquer
arguto e sincero materialista, como, por exemplo, o senhor Mc Cabe, teremos exatamente essa sensação ímpar. O
seu cosmos pode ser completo em cada rebite ou em cada roda dentada, mas, ainda assim, é um cosmos menor do
que o nosso mundo. De qualquer forma, o seu esquema, como o lúcido esquema do louco, parece inconsciente das
energias alheias e da grande indiferença da Terra; não se ocupa das coisas reais da Terra, tais como as lutas dos
povos, o orgulho das mães, o primeiro amor ou o medo do mar. A Terra é tão grande e o cosmos é tão pequeno. O
cosmos é quase o menor buraco onde o homem pode esconder a cabeça. (...)

O Cristianismo admite que o Universo é multiforme e, por vezes misto, exatamente como o homem normal admite a
própria complexidade. O homem são sabe, perfeitamente, que há em si qualquer coisa de animal, de demônio, de
santo e de cidadão, chegando mesmo a admitir, quando é verdadeiramente são, que há em si alguma coisa de louco.
Mas o mundo do materialista é perfeitamente simples e sólido, exatamente como o louco está convencido de que é
uma criatura perfeitamente sã. O materialismo julga que a história tem sido, simples e unicamente, uma cadeia de
causalidade, como aquele interessante indivíduo, a quem há pouco nos referimos, que estava convencido de que
era, simples e unicamente, um verdadeira frango. Os materialistas e os doidos nunca têm dúvidas.

As doutrinas espiritualistas não limitam a mente, como as negativas materialistas. Se acredito na imortalidade, não
preciso pensar nela; mas, se não acredito, não devo pensar sobre isso. No primeiro caso, o caminho está aberto e eu
posso ir tão longe quanto me apraz; no segundo, o caminho está fechado. O caso, porém, é ainda mais marcante e o
paralelo com a loucura é ainda mais estranho. A nossa questão contra a exaustiva e lógica teoria dos lunáticos era
que tal teoria, bem ou mal, destruía gradualmente a sua humanidade: agora, a acusação que lançamos contra as
principais deduções dos materialistas é que tais deduções, bem ou mal, destroem gradualmente a sua humanidade.
Não me refiro apenas à bondade, mas, também, à esperança, à coragem, à poesia, à iniciativa, enfim, a tudo quanto
é humano. Quando, por exemplo, o materialismo arrasta os homens para o mais absoluto fatalismo (como
geralmente acontece), será absolutamente inútil pretender que ele seja, de qualquer forma, uma força libertadora. É
absurdo afirmar que estamos avançando no que diz respeito à liberdade, quando nos servimos do pensamento livre
somente para destruir o livre arbítrio. Os deterministas amarram, não libertam. Por essa razão bem podem chamar à
sua lei a cadeia de causalidade, pois se trata da pior cadeia que tem agrilhoado a Humanidade. (...)

Observo que é uma verdadeira fraude afirmar-se que o fatalismo materialista é, de certo modo, favorável ao perdão
e à abolição de castigos cruéis ou de castigos de qualquer espécie. Tal afirmação é exatamente o contrário da
verdade. É perfeitamente sustentável que a doutrina do determinismo não altera absolutamente em nada as coisas.
Aquele que castiga continua a castigar, e o amigo bondoso continua a dar os seus conselhos. Se, porém, o
determinismo tiver influências sobre algum deles, é sobre o que dá conselhos. O fato de os pecados serem
inevitáveis não evita o castigo; se evita alguma coisa, é precisamente, a persuasão. O determinismo não é
incompatível com o tratamento cruel dos criminosos; aquilo com o que ele talvez seja incompatível é com o
tratamento generoso dos criminosos, com qualquer apelo que se possa fazer a seus melhores sentimentos ou com
qualquer espécie de estímulo à sua luta moral. O determinista não acredita no apelo à vontade, mas acredita na
mudança de ambiente. Ele nunca poderá dizer ao pecador: “vai e não peques mais”, porque o pecador não pode
deixar de pecar. Mas pode metê-lo em uma panela de azeite fervendo, porque esse azeite será um novo ambiente.
Considerado, portanto, como uma figura, o materialista tem o fantástico contorno da figura de um doido. Ambos
ocupam uma posição que é, ao mesmo tempo, irrespondível e insustentável.

(G. K. CHESTERTON, em ORTODOXIA)

"Jamais a superstição tem revolucionado tanto o mundo como agora.


Só depois que toda uma geração declarou dogmaticamente, e de uma vez por todas, a impossibilidade de que haja
espíritos, a mesma geração deixou-se assustar por um pobre pequeno espírito. Estas superstições são invenções de
seu tempo, poderia se dizer em sua desculpa.

Já faz muito, entretanto, que a Igreja Católica tenha provado não ser ela uma invenção de seu tempo: ela é obra de
seu Criador, e continua sendo capaz de viver o mesmo em sua velhice como em sua primeira juventude; e seus
inimigos, no mais profundo de suas almas, perderam já a esperança de vê-la morrer algum dia."

Santo Che, no seu "Porquê me converti ao catolicismo".


Palavras de Etienne Gilson sobre a biografia de Santo Tomás de Aquino escrita por Chesterton: “Considero-o, sem a
menor possibilidade de comparação, o melhor livro jamais escrito sobre Santo Tomás... Chesterton foi um dos
pensadores mais profundos de todos os tempos”

São Jorge, poema de @santochesterton

"São Jorge, ele era amigo da Inglaterra,

E vejam seu espírito bretão!

Bebeu, num jarro inglês, cerveja inglesa,

Antes de ir matar o seu dragão.

E embora ele jejue de bom grado,

Mortificando a carne com espinhos,

É perigoso oferecer-lhe nozes

Sem dar também uns cálices de vinho.

São Jorge, ele era amigo da Inglaterra:

Livrou, galante, a virgem indefesa

Que, amarrada num tronco, serviria

Ao pérfido dragão, de sobremesa.

Mas, sendo defensor desta Inglaterra

E zeloso da inglesa tradição,

É crucial fritar alguns toucinhos

Pra acompanhar seu prato de feijão.

São Jorge, ele é amigo da Inglaterra,

E erguerá seu escudo, como outrora,

Sempre que, erguendo alto a Cruz da Guerra,

Marcharmos de armadura campo afora.

Mas embora ele seja boa gente,

Um bonachão que canta e que graceja,

Não é seguro oferecer-lhe um bolo

Sem lhe dar uns quartilhos de cerveja."

Tradução: José Francisco Botelho

Via Pequenas catequeses


"No terceiro dia, os amigos de Cristo vieram para o local ao romper da manhã e encontraram o túmulo vazio e a
pedra removida. De várias formas eles perceberam a nova maravilha, mas até mesmo eles mal se deram conta de
que o mundo havia morrido naquela noite. O que estavam contemplando era o primeiro dia de uma nova criação,
com um novo céu e uma nova terra."

O Homem Eterno

“Notre-Dame não é um mito. Notre-Dame não é uma teoria. O interesse por ela não surge da ignorância mas do
conhecimento, de uma cultura complexa com centenas de controvérsias e revoluções. Distinta, por dentro ela
entalha uma incrível floresta e um labirinto de detalhes fascinantes, sobre os quais podemos conversar por vários
dias. Ela não é grande porque existem poucas como ela, mas ela é grande porque há um grande acordo por detrás
dela (…) Notre-Dame, em seu lado meramente humano, é a civilização medieval”.

"Fancies Versus Fads" (1923)

Traduzido de G.K. Chesterton

“[...] estas foram as pessoas entre as quais nasci. Peço desculpas se o ambiente ou as pessoas parecem
decepcionantemente respeitáveis e até mesmo sensatas, e deficientes em todas aquelas desagradáveis qualidades
que tornam uma biografia realmente popular [...]. Lamento por isso [...]. Não posso cumprir meu dever como um
verdadeiro homem moderno, e amaldiçoar todos os que me tornaram seja lá o que sou [...]. Sou forçado a confessar
que olho para trás, para o panorama dos meus primeiras dias, com um prazer que sem dúvida deveria ser reservado
para as Utopias do futurista.

- G. K. Chesterton, Autobiografia

THE DONKEY
G.K.Chesterton

When fishes flew and forests walked


And figs grew upon thorn,
Some moment when the moon was blood
Then surely I was born;

With monstrous head and sickening cry

And ears like errant wings,

The devil's walking parody

On all four-footed things.

The tattered outlaw of the earth,

Of ancient crooked will;

Starve, scourge, deride me: I am dumb,

I keep my secret still.

Fools! For I also had my hour;

One far fierce hour and sweet:

There was a shout about my ears,

And palms before my feet.

O BURRO
Quando os peixes voavam e as florestas

Moviam-se e espinheiros davam figos,

Num momento em que a lua era de sangue,

Eu decerto nasci: tempos antigos.

Com uma cabeça enorme e um grito ascoso

E orelhas – duas asas aberrantes –,

Sou a paródia mesma do demônio

Por entre todos mais quadrupedantes.

A andrajosa escumalha deste mundo,

Cuja perversidade não tem fim,

Escarnece-me, bate-me, esfomeia-me,

E eu guardo o meu segredo para mim.

Estultos! Eu também tive uma hora,

Distante e doce e minha – uma hora ardente:

Bradava a multidão à minha volta

E espalhava-me palmas pela frente.

(Tradução do prof. @sérgiopachá)

Esse foi o grande acontecimento da ética cristã: a descoberta de um novo equilíbrio. O paganismo tinha sido como
uma pilar de mármore, perpendicular e com proporcional simetria. O Cristianismo foi como um enorme, escarpado e
romântico rochedo, que, embora oscile sobre o seu pedestal quando se lhe toca, exatamente porque suas
exageradas escarpas se equilibram umas nas outras, repousa, no entanto, entronizado há milhares de anos.

Numa catedral gótica, as colunas eram todas diferentes, mas todas eram necessárias. Cada suporte parecia acidental
e fantástico, cada contraforte era um contraforte suspenso no ar. Assim, no Cristianismo, equilibram-se coisas que
parecem acidentais.

Do livro Ortodoxia.

Sei de certos pedantes malucos que tergiversaram, sustentando que educação não é instrução e que de maneira
alguma se ensina com uso de autoridade. Apresentam o processo não como algo que venha de fora, do professor,
mas como algo que parte completamente de dentro da criança. Educação, dizem eles, é uma palavra latina que
significa sacar ou extrair as faculdades dormentes de cada um. Em algum lugar das profundezas da alma infantil
moraria um desejo primordial de aprender a acentuação da língua grega ou de manter os colarinhos limpos. O
professor não faria mais que libertar delicada e docilmente esse desígnio aprisionado. [...] O educador não faria mais
que instigar a criança a pôr para fora seu imperceptível amor pelas longas divisões e extrair dela sua preferência
levemente velada por pudim de leite em relação às tortas. Não sei se devo acreditar nessa pretensa etimologia da
palavra 'educação', pois ouvia a ignominiosa sugestão de que 'educador', quando aplicado a um mestre romano, não
designava aquele que liberta as jovens funções, mas apenas aquele que leva garotinhos para dar com essa doutrina.
Penso que dizer que a criança produz seu próprio leite seria algo tão sensato quanto dizer que seus méritos
educacionais provêm dela mesma. Em cada ser vivente há, de fato, um conjunto de forças e funções. Mas ou a
educação significa dar-lhes determinadas formas e treiná-las para fins particulares, ou não significa absolutamente
nada. A fala é o exemplo mais prático disso. É possível 'extrair' guinchos e grunhidos de uma criança com o simples
ato de empurrá-la ou de puxá-la, um passatempo agradável, ainda que cruel, em que muitos psicólogos estão
viciados. Será preciso, contudo, aguardar e observar com muita paciência até conseguir extrair a língua inglesa dela.
Ela, você terá de introduzir na criança; e fim da questão.
O que há de errado com o mundo, p. 157.

Via Contra os Acadêmicos

Era incomensurável como a maravilha da dádiva, mesmo que fosse única. [a ascensão contra a monogamia]
Demonstrava não uma sensibilidade exagerada ao sexo, mas uma peculiar insensibilidade a ele. É um tolo aquele
que protesta por não poder entrar no Éden por cinco portais simultâneos. A poligamia é uma ausência da plenitude
sexual; é como um homem que colhe cinco pêras simplesmente para colher algo.

Ortodoxia

Chesterton vivia num mundo moderno, numa Inglaterra decadente mas que ainda colhia os frutos do seu legado
católico e romano. Acostumado a combater os erros da filosofia moderna (algo que ele faz com muito bom humor
no livro Hereges), Chesterton percebeu o mesmo em relação à Igreja Católica. Todos os seus inimigos, certos em
algumas acusações (como os protestantes) mas errados em suas conclusões, concorreram para que ele visse ai um
sinal comum do homem moderno: sua anti-catolicidade. E todos que esperavam a morte da Igreja Católica já haviam
desistido de tal empreitada, tanto que repetiam as mesmas falsas ou parciais acusações de sempre, o que só
confirmava a razão de Chesterton ter se convertido à Santa Igreja: a Igreja Católica é a Verdade.

"Lembro-me especialmente agora destes dois casos: Alguns autores sérios lançavam graves acusações contra o
catolicismo e, curiosamente, o que eles condenavam me pareceu algo precioso e desejável.

No primeiro caso — acredito que se tratava de Horton e Hocking — mencionavam com estremecido pavor, uma
terrível blasfêmia sobre a Santíssima Virgem de um místico católico que escrevia:

'Todas as criaturas devem tudo a Deus; mas a Ela, até mesmo Deus deve algum agradecimento.'

Isto me sobressaltou como um som de trombeta e me disse quase em voz alta: "Que maravilhosamente dito!"
Parecia com se o inimaginável fato da Encarnação pudesse com dificuldade encontrar expressão melhor

e mais clara que a sugerida por aquele místico, sempre que soubesse entendê-la.

No segundo caso, alguém do jornal Daily News (então eu mesmo ainda era alguém do Daily News) como exemplo
típico do 'formalismo morto' dos ofícios católicos, citou o seguinte:

Um bispo francês havia se dirigido a alguns soldados e operários cujo cansaço físico lhes tornava dura a assistência
na Missa, dizendo-lhes que Deus se contentaria apenas com sua presença, e que lhes perdoaria sem dúvida seu
cansaço e sua distração.

Então eu disse outra vez a mim mesmo: 'Que sensata é essa gente! Se alguém corresse dez léguas por mim, eu
estaria muito agradecido, também, que dormisse em seguida em minha presença'.

Junto com estes dois exemplos, poderia citar ainda muitos outros procedentes daquela primeira época em que os
incertos indícios de minha fé católica se nutriram quase com exclusividade de publicações anti-católicas."

Do artigo Porquê me converti ao catolicismo, de Santo Che.

O encanto das crianças está nisto: em que com cada uma delas todas as coisas são refeitas, e o universo é julgado
novamente. Quando andamos pela rua e vemos abaixo de nós aquelas encantadoras cabeças arredondadas, com o
triplo do tamanho em relação ao corpo, que caracterizam esses cogumelos humanos, deveríamos sempre nos
lembrar primeiro de que dentro de cada uma dessas cabeças há um novo universo, tão novo quanto o que havia no
sétimo dia da crianção. Em cada uma dessas esferas há um novo sistema de estrelas, nova grama, novas cidades,
novo mar.

Santo Che, no Em Defesa da Veneração pelos Bebês.

Contudo, há uma característica do passado que mais do que todas as outras desafia e deprime os modernos,
levando-os a um futuro sem traços característicos. Refiro-me à presença, no passado, de grandes ideais não
cumpridos e por vezes abandonados. A contemplação desses esplêndidos fracassos é melancólica para uma geração
impaciente e um tanto mórbida. Mantém-se um estranho silêncio sobre eles – às vezes um silêncio inescrupuloso.
Foram completamente banidos dos jornais e quase completamente dos livros de história. Com alguma freqüência,
hão de dizer-lhe, por exemplo, numa exaltação do porvir, que estamos caminhando na direção dos Estados Unidos
da Europa. Mas empregarão todo o zelo em esconder-lhe que, na verdade, estamo-nos afastando dos Estados
Unidos da Europa e que tal já existira literalmente em Roma e, sobretudo, na Idade Média. Nunca admitem que os
ódios internacionais (a que chamam “bárbaros”) são, na verdade, muito recentes, frutos do colapso do Sacro
Império Romano. Ou dirão ainda que está para ocorrer uma revolução social, um grande levante dos pobres contra
os ricos; mas nunca insistirão em que a França já fez essa magnífica tentativa sem qualquer ajuda e que nós e o
mundo inteiro permitimos que fosse pisoteada e esquecida. Afirmo terminantemente que não há nada tão marcante
na escrita moderna quanto a predição de tais ideais no futuro combinada à ignorância deles no passado. Qualquer
um pode prová-lo por si mesmo. Leia quaisquer trinta ou quarenta páginas ou panfletos advogando paz na Europa e
você verá quantos deles louvam os papas e imperadores antigos por conseguirem manter a paz na Europa. Leia um
bocado de ensaios e poemas em louvor da social democracia e você verá quantos deles louvam os antigos jacobinos
que criaram a democracia e por ela morreram. Essas ruínas colossais são para o homem moderno apenas enormes
monstruosidades. Ele olha para trás, para o vale do passado, e vê uma perspectiva de esplêndidas, mas inacabadas
cidades. Estão inacabadas nem sempre por causa de inimigos ou de acidentes, mas muitas vezes por inconstância,
por fadiga mental ou por cobiçarem filosofias estrangeiras. Nós não só deixamos por fazer as coisas que deveríamos
ter feito, mas também deixamos por fazer as coisas que queríamos fazer.

É muito comum ouvir a sugestão de que o homem moderno é o herdeiro de todas as épocas, que tirou o que havia
de bom em cada um dos sucessivos experimentos humanos. Não sei que resposta dar a isso, a não ser pedir ao leitor
que contemple o homem moderno da mesma forma como acabo de olhar para ele: no espelho. Será mesmo
verdade que você e eu somos duas torres radiantes construídas a partir das mais altaneiras visões do passado? Será
que satisfizemos todos os grandes ideais históricos um após o outro, desde nosso desnudo antepassado que era
bravo o bastante para matar um mamute com uma faca de pedra, passando pelo cidadão grego e o santo cristão, até
nosso avô ou bisavô, mortos a sabre pelo Manchester Yeomanry ou a tiro em 48? Será que ainda somos fortes o
bastante para lancear mamutes, mas agora também delicados o bastante para poupá-los? Há no mundo algum
mamute que já tenhamos lanceado ou poupado? Quando nos negamos abertamente a hastear a bandeira vermelha
e a abrir fogo por detrás de uma barricada, como faziam nossos avós, nós o fazemos por deferência aos sociólogos
ou aos soldados? Será que ultrapassamos o guerreiro e passamos à frente do santo asceta? Temo que só tenhamos
ultrapassado o guerreiro no sentido físico de que provavelmente fugiríamos dele. E, se passamos à frente do santo
asceta, temo que tenhamos passado por ele sem prestar-lhe reverência.

Do livro O Que Há de Errado com o Mundo.

Via Contra os Acadêmicos

Aquilo que os milagres têm de francamente espantoso é o facto de acontecerem. Um par de nuvens agrega se no
céu e forma um olho humano. Uma árvore avistada no meio da paisagem, no decurso de uma viagem duvidosa, tem
exactamente a elaborada forma de um ponto de interrogação. Nos últimos dias, eu próprio testemunhei uma coisa e
outra. Nelson morre no momento da vitória; e um homem chamado Williams assassina, inteiramente por acaso, um
homem chamado Williamson – no que é quase uma espécie de infanticídio. Em suma, há na vida uma componente
de mágica coincidência, de que as pessoas que só atentam no prosaico correm o risco de nunca se aperceber. Como
bem salienta o paradoxo de Poe, a sabedoria deve atentar no imprevisto.

Padre Brown e a Cruz Azul.

Esse é o romance da Ortodoxia. As pessoas caíram no tolo hábito de falar da ortodoxia como algo pesado, monótono
e seguro. Mas nunca existiu algo tão perigoso ou excitante quanto a ortodoxia. Era a sanidade: e ser são é mais
dramático que ser louco. [...]

Teria sido mais fácil aceitar o poder terreno dos arianos; ter caído no abismo sem fim da predestinação junto ao
calvinismo do delicioso século XVII. É fácil ser louco e herético. É sempre fácil deixar que o espírito da época
prevaleça; o difícil é ir contra ele. Também é sempre fácil ser modernista; tão simples quanto ser um esnobe. Teria
sido simples cair em uma dessas armadilhas abertas do erro e do exagero que moda após moda, e seita após seita,
colocam-se no meio da trajetória histórica da Cristandade. É sempre simples cair; há uma infinidade de ângulos para
a queda e somente um para o equilíbrio vertical. Ter caído em alguma das novidades do Gnosticismo à Ciência Cristã
teria sido de fato óbvio e lânguido. Mas evitar todas elas tem sido uma aventura alucinante; e em minha visão a
carruagem celeste voa como o trovão pelas eras, deixando as tolas heresias prostradas e dispersas, enquanto a
poderosa verdade permanece de pé mesmo que abalada.

Ortodoxia - G. K. Chesterton

"(...) era precisamente por conhecer a razão que Valentin conhecia os limites da razão. Só um homem que nada sabe
sobre motores pode dizer que eles andam sem gasolina; só um homem que nada sabe sobre a razão pode afirmar
que ela funciona sem o recurso a um conjunto de primeiros princípios, consistentes e indiscutíveis."

A Cruz Azul.

Chesterton escreveu bastante sobre o que ele observou nos EUA. Certa vez, um congressista chamado Frank O.
Smith, de Maryland, escreveu um panfleto em favor da Eugenia. Chesterton respondeu:

"O Sr. Smith é um americano, mas a Eugenia é a grande negação da Declaração da Independência, pois conclui que
além de nem todos nascerem iguais, um número deles não deve nem nascer. Sobre eles terem direito à vida,
liberdade e a buscar a felicidade, eles terão negadas uma forma de liberdade e felicidade que nem mesmo o mais
loucos dos inquisidores sonhou em mexer".

- G.K. Chesterton (artigo em "The Collected Works of G.K. Chesterton, vol. 30")

A matéria é também alcançada pela Redenção de Cristo, e por isso os Sacramentos instituídos pela Igreja são sinais
visíveis (corpóreos, como a água, o pão, o vinho, o óleo etc.) da graça de Deus:

"(...) a Igreja, ao mesmo tempo que diz que é nossa tarefa trabalhar para a sociedade, também diz outras coisas que
proíbem a injustiça individual. Ou novamente, soa muito piedoso dizer: “Nosso conflito moral deve terminar com a
vitória do espiritual sobre o material”. Siga essa sugestão e você terminará com a loucura dos maniqueus, dizendo
que um suicídio é bom porque é um sacrifício, que a perversão sexual é boa porque não produz vida, que o demônio
fez o sol e a lua porque eles são materiais. Então, você pode começar a adivinhar a razão de o cristianismo insistir
que há espíritos maus e bons; que a matéria também pode ser sagrada, como na Encarnação ou na Missa, no
Sacramento do matrimônio e na ressurreição da carne."

Do artigo “Por que sou católico”.

"(...) a todos os grandes impérios, uma vez que se afastavam de Roma, passava-lhes exatamente o mesmo que a
todos aqueles seres que desprezavam as leis ou a natureza: tinham um leve êxito momentâneo, mas logo
experimentavam a sensação de estar enlaçados por um nó, em uma situação da qual eles mesmos não podiam se
libertar."

Santo Che, ao relatar sua conversão à Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

“A nossa civilização pretende ser científica pelo modo como coloca as coisas; infelizmente nunca é científica com o
uso das palavras. É difícil acreditar que pessoas que são negligentes com a linguagem possam ser responsáveis com
as outras coisas. Se um astrónomo for negligente com as palavras podemos duvidar que seja responsável com as
estrelas. Se um botânico for vago com as palavras, pode ser superficial com as plantas. O homem moderno vê-se
como um segundo Adão. Deu a todas as criaturas nomes novos. Quando descobrimos que ele é tolo sobre os nomes,
podemos pensar que ele é tolo sobre as criaturas. Imagino que em toda a história do mundo, nunca as palavras
foram usadas de forma tão idiota e fora do contexto do seu real significado.”

Na biografia de São Tomás de Aquino.

“Toda a minha vida expliquei que o meu compromisso foi para com as pessoas normais na sua vida normal. Não sou
um pedante. Sem as pessoas normais (normal significa comum ou, matematicamente, norma, o valor que mais se
repete), todo o mundo moderno colapsaria; tornar-se-ia um asilo psiquiátrico. As pessoas comuns encontram-se
numa posição de transição (entre os intelectuais e a realidade).”

Extrato de uma conferência de Chesterton na sociedade filosófica britânica em 1926.


“Lutamos e andamos enredados numa linguagem decaída, como homens enrolados nas pregas do pano de uma
tenda colapsada. O homem que não acredita nos sentidos e o que só acredita nos seus sentidos estão ambos loucos.
O erro não é do argumento, mas da sua forma de vida. Peço desculpa mas eu não sou um filósofo profissional; sou
mais parecido com um charlatão, porque não perco o meu tempo em abstrações. Conheci em tempos um filósofo
em Oxford que estava tão fascinado com a sonoridade da palavra quá, que resolveu escrever um livro chamado Quá,
quá, quá.”

Palestra na Sociedade Britânica de Filosofia, 1923.

Além de Defensor da Ortodoxia Católica, Chesterton sempre foi exímio crítico da Filosofia Moderna, e ao analisar o
pensamento de René Descartes, pai do relativismo moderno, o faz com aquele fino bom-humor de sempre:

“Eu e tu temos, espero, esta enorme vantagem sobre esses novos filósofos muito espertos: é que não somos loucos.
Todos acreditamos na Catedral de S. Paulo; muitos de nós acreditam em S. Paulo. Mas deixem-me alertar para o
facto de que nós também acreditamos num sem-número de coisas que são parte da nossa existência, mas que não
podem ser demonstradas. Deixemos a religião de fora desta questão. Todos os homens sãos acreditam de forma
firme e constante num determinado número de coisas que não estão provadas nem podem ser provadas. Vamos
enumerar algumas:

(1) Todo o homem são acredita que o mundo e as pessoas à sua volta são reais, e não um sonho ou uma ilusão.
Nenhum homem incendeia Londres na convicção de que o seu criado o acorda a seguir para tomar o pequeno-
almoço. Mas o facto de que eu não sou um sonho não pode ser indiscutivelmente provado. Que tudo não exista
excepto eu próprio não se consegue provar.

(2) Todo o homem são acredita que este mundo não só existe como importa. Todo o homem são acredita que nos
devemos interessar pelo panorama da vida. Ninguém pensa ser correcto alguém dizer: aquela senhora está a ser
assassinada no andar de baixo, mas eu vou dormir e não me interessa que apanhem o criminoso. Que exista este
dever de cidadania não é susceptível de prova.

(3) Todo o homem são sabe que existe algo a que se chama ego e que é contínuo. Nada do que aconteceu comigo há
dez anos deixa de fazer parte de mim. Embora a matéria do meu cérebro não seja a mesma de há dez anos atrás, se
eu salvei um homem numa batalha sinto-me orgulhoso, se eu fugi e o abandonei sinto vergonha. Isto não só não se
consegue provar, como é negado por muitos metafísicos.

(4) Por último, a maioria dos homens sãos acreditam, e na prática assumem, que têm o poder de livre escolha e a
decorrente responsabilidade nas acções que tomam…

(5) Talvez seja bom enumerar estes pontos aos cépticos para sabermos com que podemos contar. E se à juventude
do futuro não se puder ensinar nenhuma religião, ao menos que se ensine de forma firme e inequívoca estas três ou
quatro coisas sensatas e certezas do livre pensamento humano.”

A Plea for a Popular Philosophy (Daily News, 22 Junho de 1907).

Via Sociedade Chesterton Portugal

Chesterton e a enorme vantagem em ser católico:

"Se Bernard Shaw tivesse vivido durante os últimos trezentos anos, teria se convertido há muito tempo ao
catolicismo. Teria compreendido que o mundo gira sempre com a mesma órbita e que pouco se pode confiar em
seu, assim chamado, progresso. Teria visto também como a Igreja foi sacrificada por uma superstição bíblica, e a
Bíblia por uma superstição darwinista. E um dos primeiros a combater estes feitos tivesse sido ele. Seja como for,
Bernard Shaw desejava para cada um uma experiência de trezentos anos. E os católicos, muito ao contrário de todos
os outros homens, têm uma experiência de dezenove séculos. Uma pessoa que se converte ao catolicismo, chega,
pois, a ter de repente dois mil anos."

Do artigo "Porquê me converti ao catolicismo".


Chesterton demonstrando o sentido exato do bom ecumenismo, nos moldes de São Pio XII: o Catolicismo é superior
a todas as demais religiões.

"É certo que todas as religiões contêm algo bom. Mas o bom, a quinta-essência do bom, a humildade, o amor e o
fervoroso agradecimento "realmente existente" para com Deus, não se encontram entre elas. Por mais que as
penetremos, por mais respeito que lhes demonstremos, com maior claridade ainda reconhecemos também isto: No
mais profundo delas, há algo diferente do puramente bom; há, às vezes, dúvidas metafísicas sobre a matéria; às
vezes, havia nelas a voz forte da natureza; outras — e isto no melhor dos casos — existe um medo da Lei e do
Senhor.

Se exageramos tudo isto, nasce nas religiões uma deformação que chega até ao diabolismo. Só podem ser
suportadas enquanto se mantiver razoáveis e comedidas.

Enquanto estiverem tranqüilas, podem chegar a ser estimadas, como aconteceu com o protestantismo vitoriano.
Pelo contrário, a mais alta exaltação pela Santíssima Virgem, ou a mais estranha imitação de São Francisco de Assis,
seguiriam sendo, em sua quinta-essência, uma coisa sadia e sólida. Ninguém negará por isso seu humanismo, nem
desprezará o seu próximo. O que é bom, jamais poderá chegar a ser bom demais. Esta é uma das características do
catolicismo que me parece singular e ao mesmo tempo universal."

"Porquê me converti ao catolicismo".

"Aqueles que em outro tempo exigiam aos gritos a extinção dos conventos, destroem hoje sem dissimulação a
família. Este é um dos tantos fatos que testemunham a seguinte verdade: na Religião Católica, os votos e as
profissões mais altas e "menos razoáveis" — por assim dizer — são, entretanto, os que protegem as melhores coisas
da vida diária."

Do artigo "Porquê me converti ao catolicismo".

"Creio que estas minhas revelações pessoais evidenciam com claridade a razão de meu catolicismo, razão que logo
foi se fortificando. Poderia acrescentar agora como continuei reconhecendo depois, que a todos os grandes
impérios, uma vez que se afastavam de Roma, passava-lhes exatamente o mesmo que a todos aqueles seres que
desprezavam as leis ou a natureza: tinham um leve êxito momentâneo, mas logo experimentavam a sensação de
estar enlaçados por um nó, em uma situação da qual eles mesmos não podiam se libertar. Na Prússia há tão pouca
perspectiva para o prussianismo, como em Manchester para o individualismo manchesteriano."

Santo Che.

"Existe entre os homens uma curiosa espécie de agnósticos, ávidos esquadrinhadores da arte, que averiguam com
sumo cuidado tudo o que em uma catedral é antigo e tudo o que nela é novo. Os católicos, ao contrário, outorgam
mais importância ao fato de se a catedral foi construída para voltar a servir como o que é, quer dizer, como catedral.

Uma catedral! A ela se parece todo o edifício da minha fé; desta minha fé que é grande demais para uma descrição
detalhada; e da que, com grande esforço, posso determinar as idades de suas diversas pedras."

Do artigo "Porquê me converti ao catolicismo".

"Quando os modernos, descerrando a mais negra das cortinas do obscurantismo que jamais obscureceu a história,
decidiram que nada importava muito antes da Renascença ou da Reforma, deram instantaneamente início a suas
carreiras, caindo num grande disparate; um disparate acerca do platonismo. Eles encontraram, rodando nas cortes
de príncipes arrogantes do século XVI (que é o mais longe na história que se permitem chegar), certos artistas e
literatos anticlericais que se diziam entediados com Aristóteles e que estavam suposta e secretamente entregando-
se a Platão.

Os modernos, completamente ignorantes de toda a história dos medievais, caíam instantaneamente na armadilha.
Supunham que Aristóteles era alguma amarga antiguidade e tirania da mais profunda das profundezas da Idade das
Trevas, e que Platão era uma nova delícia pagã nunca antes saboreada pelos homens cristãos.
Padre Knox mostrou em que estado surpreendente de inocência está a mente do Sr. H. L. Meneken, por exemplo,
sobre essa questão. De fato, a história é exatamente o inverso. Na realidade, o platonismo era a velha ortodoxia e o
aristotelismo a mais moderna revolução. E o líder dessa nova revolução era o homem que é o assunto deste livro."

G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino.

"O humanitarismo moderno pode amar todas as opiniões, mas não consegue amar todos os homens; ele parece as
vezes, no êxtase de seu humanitarismo, até mesmo odiar todos os homens. Esse humanitarismo consegue amar
todas as opiniões, inclusive a opinião de que os homens são odiáveis".

Santo Che, em Introdução a 'Tempos Difíceis'.

Sobre o Homem: Herdeiro de todas as eras - G. K. Chesterton (1934)

"Se o homem moderno é de fato o herdeiro de todas as eras, ele é muitas vezes o tipo de herdeiro que diz ao
advogado da família para vender toda a maldita propriedade [...] Ele certamente não é o tipo de herdeiro que já
visitou sua propriedade: e, se ele realmente possui todas as terras históricas da história antiga e moderna, ele é um
senhorio muito ausente. Ele realmente não desce as minas na propriedade histórica, sejam elas as cavernas dos
Homens das Cavernas ou as catacumbas dos cristãos, mas se contenta com um relatório muito apressado e muitas
vezes enganoso de um especialista em mineração muito superficial e às vezes desonesto. [...] E eu, por exemplo,
acredito que a mente do homem é a maior, e especialmente a mais ampla, quando sente a irmandade da
humanidade conectando-se com coisas remotas, primitivas e até bárbaras. [...]"

Há a lição de "Cinderela", que é a mesma do Magnificat — EXALTAVIT IIUMILES. Há a grande lição de "A Bela e a
Fera", dizendo que uma criatura precisa ser amada ANTES de ser amável. Há a terrível alegoria de "A Bela
Adormecida", dizendo como a criatura humana foi abençoada com todos os seus dons recebidos ao nascer, e, no
entanto, amaldiçoada com a morte; e como a morte pode ser suavizada em sono.

[...]

Alguns leitores dirão que isso é mera fantasia. Eu respondo que isso é a história real da humanidade. Isso mostra, de
fato, como as cidades se tornaram grandes. Volte às mais sombrias raízes da civilização, e você descobrirá que elas
estão presas em volta de alguma pedra sagrada ou em torno de algum poço sagrado. As pessoas primeiro prestaram
homenagem a um local e depois conquistaram a glória para ele. Roma não foi amada por ser grande. Ela foi grande
por ter sido amada."

Ortodoxia.

"Todos aqueles que assumiram sua missão na tragédia divina trouxeram consigo fragmentos tangíveis que se
tornaram as jóias das igrejas e das cidades. São José carregou a taça que continha o vinho da Última Ceia e o sangue
da crucificação para aquele santuário em Avalon que agora chamamos de Glastonbury, que se tornou o coração de
todo um universo das lendas e dos romances, não apenas para a Grã-Bretanha mas para toda a Europa".

Santo Che, em Uma Pequena História da Inglaterra.

"Lembro-me de quando o Sr. H.G. Wells teve uma alarmante explosão de filosofia nominalista e verteu livro após
livro para argumentar que tudo é único e atípico; como aquele argumento de que um homem é tão individual que
não é nem mesmo um homem.

É um fato estranho e quase cômico que essa caótica negação atraia especialmente aqueles que estão sempre
reclamando do caos social, e que propõem substituí-lo pelas mais amplas regras sociais. O homem que afirma que
nada pode ser classificado é o mesmo que diz que tudo deve ser codificado."

Da biografia sobre São Tomás de Aquino.

"Eles não traziam algo novo ao cristianismo, no sentido de alguma coisa pagã ou herética; ao contrário, traziam o
cristianismo à cristandade. Mas faziam isso contra a pressão de certas tendências históricas, que se cristalizaram em
hábitos em muitas grandes escolas e autoridades da Igreja Católica; e usaram para tal ferramentas e armas que
pareciam s muitos estarem associadas à heresia e ao paganismo. São Francisco usou a natureza tanto quanto Santo
Tomas se valeu de Aristóteles; e a alguns eles pareciam estar usando uma deusa pagã e um sábio pagão."

Santo Tomas de Aquino, de Santo Che, na edição da Editora Ecclesiae.

“O Santo é um medicamento, porque ele é um antídoto. Certamente é por isso que o santo é muitas vezes um
mártir, ele é confundido com um veneno, porque ele é um antídoto. Ele geralmente será procurado para restaurar a
sanidade do mundo, exagerando o que o mundo ignora, que nem sempre é o mesmo elemento em todas as idades.
No entanto, cada geração procura o seu santo por instinto, e ele não é o que as pessoas querem, mas sim o que o
povo precisa”. (...) ”Por isso, é o paradoxo da história, que cada geração é convertida pelo santo que contradiz mais.”

Trecho da biografia de Santo Tomás de Aquino escrita por Santo Chesterton e traduzida pelo prof. Carlos Nougué,
São Paulo: LTr, 2003.

"A família é a fábrica que produz a humanidade, e o inimigo do amor e da família é o próprio eu. O individualismo é
uma ilusão de adolescente. Alguém declara seu amor e pede em casamento a mulher amada propondo-lhe se ela
quer ajudá-lo a livrá-lo de si mesmo."

Santo Che

Aos que pretendem iniciar seus estudos sobre a filosofia de Santo Tomás de Aquino, recomendamos a leitura da
pequena grande biografia de 174 páginas feita por Santo Che. Tamanha clareza da obra impressionara à época até
mesmo um dos maiores estudiosos no assunto, o historiador Étienne Gilson (vide o seu depoimento em 'Chesterton
as Seen by His Contemporaries').

Deixo aqui trecho da obra que, cheia dos paradoxos chestertonianos, consegue expor com otimismo a única teologia
otimista possível, a saber, a teologia tomista, essência do catolicismo:

"O mal está sempre dentro e fora da Igreja; mas fora, de uma forma mais feroz, e dentro de uma forma mais branda.
Assim foi, novamente, no século XVII, quando havia o calvinismo fora e o jansenismo dentro. E assim foi no século
XIII, quando o perigo exterior óbvio era a revolução dos albigenses, mas o perigo potencial interno era o próprio
tradicionalismo dos agostinianos. Pois os agostinianos descendiam de Agostinho, e Agostinho descendia de Platão,
que estava certo, mas não totalmente certo. É um fato matemático que se uma linha não está perfeitamente
direcionada a um ponto, ela dele se afasta à medida que dele se aproxima. Depois de um período de mil anos, o
cálculo mal feito do platonismo se aproximara muito do maniqueísmo.

Erros populares sempre estão próximos do acerto. Eles sempre se referem a alguma realidade fundamental, sobre a
qual aqueles que os corrigem estão, eles próprios, errados. É uma coisa muito estranha que o "amor platônico"
tornou-se algo muito mais puro e inocente para o iletrado do que para o erudito. Todavia, mesmo aqueles que
percebem o grande mal grego podem bem dar-se conta de que a perversidade, não raro, surge da espécie errada de
pureza. Assim, aconteceu que a mais íntima mentira dos maniqueus foi que identificaram a pureza com a
esterelidade. Isso é singularmente com a linguagem de Santo Tomás, que sempre relaciona pureza com fertilidade,
quer seja natural ou sobrenatural. E, por mais estranho que pareça, há uma espécie de realidade no coloquialismo
vulgar ao dizer que o caso entre João e Maria é "muito platônico". É verdade que, aparte perversões localizadas,
havia, em Platão, um tipo de ideia de que as pessoas estariam em melhor estado sem seus corpos; que suas mentes
poderiam desprender-se e se encontrar no céu num casamento meramente intelectual, como os querubins nas
pinturas."

Da tradução publicada no Brasil pela Editora Ecclesiae.

O Camponês que se tornou Papa

Dentre as muitas expressões verdadeiras e tocantes de respeito pela tragédia do Vaticano [a morte de São Pio X],
muitos comentaram sobre o fato de que o falecido Papa era por nascimento um camponês. Contudo, poucos ou
ninguém, penso eu, tiraram desse fato sua mais interessante ou mesmo tremenda conclusão. Pois a verdade é que o
velho papado é praticamente a única autoridade na Europa em que isto poderia ter acontecido. É o mais antigo,
imensuravelmente o mais antigo, trono na Europa; e o único a que um camponês poderia ascender. Esta é a única
monarquia eletiva no mundo; e aquela a qual qualquer camponês pode ainda ser eleito.
Aqueles que mais o admiravam, admiravam sua simplicidade e sanidade de um camponês. Aqueles que mais
murmuravam contra ele, reclamavam da obstinação e relutância de um camponês. Mas por esta razão exatamente,
está claro que a instituição representativa mais antiga da Europa está funcionando: quando todas as outras já
sucumbiram.

O Papa nunca pretendeu ter um intelecto extraordinário; mas ele professava estar certo: e ele estava. Todos os
ateus honestos, todos os calvinistas honestos, todos os homens honestos que dizem algo, ou acreditam ou negam
algo, terá razão em agradecer suas estrelas (um hábito pagão) pelo camponês naquele elevado lugar. Ele matou a
heresia que afirma que ter duas cabeças é melhor que ter uma; quando elas crescem no mesmo pescoço. Ele matou
a ideia pragmática de comer o bolo e o ter ao mesmo tempo. Ele permitiu que se concordasse ou discordasse de seu
credo; mas não que o adulterasse. É exatamente o que qualquer camponês de qualquer colina ou planície da face da
terra faria. Mas há algo mais nele que não existe num camponês ordinário. Por todo este tempo ele chorou por
nossas lágrimas; e partiu seu coração por nosso banho de sangue.

– G. K. Chesterton, Illustrated London News, 1914

"Se você discutir com um louco, é extremamente provável que leve a pior; pois sob muitos aspectos a mente dele se
move muito mais rápido por não se atrapalhar com coisas que costumam acompanhar o bom juízo. Ele não é
embaraçado pelo senso de humor ou pela caridade, ou pelas tolas certezas da experiência. Ele é muito mais lógico
por perder certos afetos da sanidade."

Do livro Ortodoxia.

"(...) por exemplo, nas crianças, quando elas descobrem algum jogo ou brincadeira com que se divertem de modo
especial. Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as
crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas
repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço.
Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia. Mas talvez Deus seja forte o suficiente para
exultar na monotonia. É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: “Vamos de novo”; e todas as noites à lua:
“Vamos de novo”. Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que
Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno
apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós".

Do livro Ortodoxia.

“O novo rebelde é um céptico e não confia em coisa nenhuma. Não possui lealdade, portanto nunca poderá ser um
verdadeiro revolucionário.

O facto de que ele duvida de tudo atrapalha-o imenso quando ele quer denunciar alguma coisa. Porque toda a
denúncia implica uma doutrina moral e o revolucionário moderno duvida não só da instituição que ele denuncia
como da doutrina de que se serve para a denunciar…

Portanto o homem moderno em revolta é um inútil mesmo para o propósito da revolta. Ao revoltar-se contra tudo,
ele perde o direito de se revoltar seja contra o que for”.

A Utopia dos Usurários.

"Os dois fatos que fazem com que praticamente todas as pessoas normais sintam-se atraídas por bebês são,
primeiro, que eles são muito sérios e, segundo, que são conseqüentemente muito felizes. São alegres com a
plenitude que só é possível na ausência do humor. As escolas e sábios mais insondáveis nunca alcançaram a
gravidade que existe nos olhos de um bebê de três meses de idade."

Em defesa de veneração pelos bebês

"Vivemos dias em que se espera que o cristão respeite todas as crenças, exceto a sua própria".

– Illustrated London News, Aug. 11, 1928.


Santo Che comentando sobre o enigma filosófico por detrás do livro de Jó e, como sempre, dando uma surra nos
modernos ceticistas/racionalistas. Cada linha de defesa da realidade e dos mistérios do Ser equivale a um gole de
chopp 🍺 para alma:

"A presente importância do livro de Jó não pode ser expressa adequadamente mesmo ao dizer que ele é o mais
interessante dos livros antigos. Nós quase podemos dizer que o livro de Jó é o mais interessante dos livros
modernos. Na verdade, é claro, nenhuma das duas frases dá conta do problema, porque a religiosidade essencial do
homem e a irreligiosidade essencial são ambas novas e velhas; a filosofia ou é eterna ou não é filosofia.

O hábito moderno de dizer “Isto é a minha opinião, mas eu posso estar errado” é totalmente irracional. Se eu digo
que eu posso estar errado, eu digo que esta não é minha opinião. O costume moderno de dizer que “Cada homem
tem uma diferente filosofia; esta é a minha e me serve bem” – o costume de dizer isso é apenas fraqueza de espírito.
Uma filosofia do cosmos não é construída para servir num homem; uma filosofia do cosmos é construída para
ajustar-se ao cosmos. Um homem não pode possuir uma religião particular pela mesma razão que ele não pode
possuir um sol ou uma lua particular.

A primeira das belezas intelectuais do livro de Jó é que ele é todo preocupado com este desejo de conhecer a
realidade; o desejo de saber o que é, e não somente o que parece. Se autores modernos estivessem escrevendo o
livro, nós provavelmente acharíamos que Jó e seus consoladores se davam muito bem entre si pelo simples
expediente de explicar suas diferenças por aquilo que é chamado de temperamento, dizendo que os consoladores
eram naturalmente “otimistas” e que Jó era, da mesma forma, um “pessimista”. E eles estariam muitos confortáveis,
tal como as pessoas podem freqüentemente ficar, por algum tempo ao menos, quando acordam em dizer algo que é
obviamente falso. Porque se a palavra “pessimista” significa alguma coisa em absoluto, então, energicamente, Jó
não é um pessimista. Seu caso, por si só, é suficiente para refutar a absurdidade moderna de ligar tudo ao
temperamento físico. Em nenhum sentido Jó vê a vida com desesperança. Se desejar ser feliz e estar sempre pronto
a sê-lo constitui um otimista, então Jó é um otimista.

Ele é um otimista perplexo; ele é um otimista exasperado; ele é um otimista ultrajado e insultado. Ele deseja que o
universo se justifique a si mesmo, não porque ele deseja surpreendê-lo, mas porque realmente deseja que o
universo seja justificado. Ele exige uma explicação de Deus, mas ele de maneira alguma o faz no mesmo espírito em
que John Hampden pôde demandar uma explicação de Charles I. Ele o faz no espírito em que uma esposa poderia
pedir explicações ao seu marido a quem ela muito respeita. Ele argumenta com seu Criador porque ele está
orgulhoso do seu Criador. Ele até mesmo fala do Todo- Poderoso como seu inimigo, mas ele nunca duvida, no fundo
de sua alma, que o seu inimigo é um caso que ele não entende. Numa fina e famosa blasfêmia ele diz: “Oh, meu
inimigo escreveu um livro!” (Jó 31, 35). Mas nunca lhe ocorreu que poderia ser um livro ruim. Ele está ansioso por
ser convencido, isto é, ele acha que Deus poderia convencê-lo. Em suma, podemos novamente dizer que se a palavra
otimista significa alguma coisa (o que eu duvido), Jó é um otimista. Ele abala os pilares do mundo e investe
insanamente contra os céus; ele flagela as estrelas, não para silenciá-las, mas para fazê-las falar. Da mesma maneira
nós podemos falar dos otimistas oficiais, os consoladores de Jó. Novamente, se a palavra pessimista significa alguma
coisa (o que eu duvido), os consoladores de Jó podem ser chamados mais propriamente de pessimistas do que de
otimistas.

Tudo em que eles realmente acreditam não é que Deus é bom, mas sim que Deus é tão forte que é mais prudente
chamá-Lo de bom. Seria de uma censura exagerada chamá-los de evolucionistas; mas eles têm algo do erro vital do
otimismo evolucionista. Eles continuarão dizendo que tudo no universo ajusta-se a tudo o mais; como se houvesse
algum conforto no fato de um certo número de coisas más todas ajustando-se umas às outras. Veremos mais tarde
como Deus, no grande clímax do poema, virará esse argumento inteiro de cabeça para baixo. Quando, no fim do
poema, Deus aparece (um pouco abruptamente), é vibrada a esplêndida e repentina nota que faz tudo ser tão
grande como realmente é. Todos os seres humanos durante a história, e Jó especialmente, fazem perguntas para
Deus. Um poeta mais trivial teria feito Deus aparecer para responder as questões em um sentido ou em outro. Por
um toque verdadeiramente inspirado, quando Deus entra, é para formular mais perguntas por sua própria conta.
Neste drama do ceticismo, Deus Em Pessoa assume o papel de cético. Ele faz o que todas as grandes vozes que
defendem a religião sempre têm feito. Ele fez, por exemplo, o que Sócrates fez. Ele faz o racionalismo virar-se contra
si mesmo. Ele parece dizer que se o negócio é formular perguntas, Ele pode fazer perguntas que deitarão por terra e
esmagarão todos os questionadores possíveis. O poeta por uma requintada intuição fez ironicamente Deus aceitar
uma espécie de controversa igualdade com Seus acusadores. Ele está disposto a considerar esse duelo como se fosse
um duelo intelectual justo: “Cinge teus rins como um valente; porque vou interrogar-te e tu me responderás.” (Jó
38, 3)

“Alguns possuem a extraordinária idéia de que os céticos em milagres os consideram impossíveis com base numa
razão puramente lógica, enquanto os crentes em milagres os aceitam apenas com base na fé. MAS, na realidade, a
verdade é o inverso. Crentes aceitam a existência de milagres baseados em evidências concretas, enquanto os
céticos rejeitam os milagres porque sua fé é contrária à possibilidade deles”.

[trecho retirado da obra Ortodoxia, capítulo 9]

"Os calvinistas tomaram a ideia católica do conhecimento e poder absoluto de Deus, tratando ela como um truísmo
rochoso irredutível que de tão sólido nada poderia ser construído sobre ele, a não ser esmagamento ou crueldade.
Eles estavam tão confiantes em sua lógica e no seu único primeiro princípio da predestinação, que torturaram o
intelecto e a imaginação com deduções terríveis a respeito de Deus, que pareciam transformá-Lo num demônio. "

The Collected Works Of G.K. Chesterton, Vol. 3, 152p.

Sem o cristianismo os pagãos modernos seriam humanistas?

"Claro que houve uma Idade de Trevas que se seguiu ao declínio da velha civilização pagã (a queda do Império
Romano do ocidente); mas não foi pela religião que a civilização caiu.

Pelo contrário, foi pela religião que essa idade foi iluminada. Muita gente afirma que sem "superstição" (ou seja,
religião) teria havido sempre progresso; pelo contrário, sem "superstição" só haveria selvajaria.

Era como se os Hunos, se tivessem permanecido pagãos, fossem humanistas; pelo contrário, se os Hunos não se
tivessem convertido seriam apenas Hunos."

Santo Che em 'Modern Doubt and Questioning

“Existe o costume de nos queixarmos da correria e do árduo trabalho da nossa época. Mas na verdade a marca
principal da nossa época é uma profunda preguiça e fadiga. O fato é que a verdadeira preguiça é a causa da aparente
correria. Tomemos um caso totalmente externo: as ruas são barulhentas, cheias de táxis e carros. Mas isso não se
deve à atividade humana, mas sim ao repouso. Haveria menos correria se houvesse maior atividade, se as pessoas
simplesmente andassem a pé. O mundo seria mais silencioso se houvesse mais trabalho.”

De Ortodoxia.

“A verdade é que o mundo moderno tem se comprometido com duas concepções totalmente diferentes e
inconsistente sobre educação. Ele está sempre tentando expandir o propósito da educação; e ao mesmo tempo
sempre excluindo desse mesmo propósito a Religião e a Filosofia.

Mas isso é puro nonsense. Aceita-se ter uma educação que ensine ateísmo por considerá-lo verdadeiro, e isto é tido,
desse ponto de vista próprio, como uma educação completa. Mas você é proibido de ter uma educação que
reivindique o ensino da verdade completa, e em seguida discutir se o ateísmo é verdadeiro.” (do livro The Common
Man).

“É típico do nosso tempo que, quanto mais duvidamos do valor da Filosofia, mais certos estamos do valor da
Educação. Isto quer dizer que, quanto mais desconfiamos de alguma verdade, mais certeza temos (aparentemente)
de que nós podemos ensiná-la às crianças. Quanto menor a fé no ensino dos doutos, maior a fé nos doutores do
ensino”.

(Illustrated London News de 12 de Janeiro de 1907)

“Nada diverte mais os católicos do que a sugestão, decorrente em parte da velha propaganda protestante, de que
eles deveriam ser libertos da superstição chamada de Mariolatria, assim como as pessoas são libertas de um fardo à
luz do dia. Toda a espiritualidade espontânea, distinta da necessária doutrina ortodoxa, se encontra acima da
extensão, e até mesmo do excesso, que se pode dar a esse culto. Se os católicos tivessem sido deixados nessa
questão a seu próprio julgamento privado, à sua própria experiência pessoal religiosa, a seu próprio senso do que
seja o espírito essencial de Cristo e do Cristianismo, a todo tipo de teste liberal ou latitudinal sobre a verdade, eles
teriam exaltado Nossa Senhora à altura da supremacia de um super-homem e ao esplendor que realmente colocaria
em risco a pureza do Monoteísmo de acordo com o Credo. Sobre todos esses níveis de opinião popular Maria
poderia ter sido uma deusa mais universal do que fora Isis*. Ai entra, portanto, a necessária autoridade da Igreja de
Roma ao prevenir cada católico de cair nessa tal Mariolatria: a exata definição que distingue uma mulher perfeita de
um Homem divino.”

Do livro The Catholic Church and Conversion (A Igreja Católica e a Conversão).

*Ísis (em egípcio: Aset; em grego antigo: Ἶσις) foi uma das principais divindades na religião do Antigo Egito cuja
veneração espalhou-se também para o mundo greco-romano. Ela foi mencionada pela primeira vez no Império
Antigo como uma das personagens principais do mito de Osíris, em que ressuscita seu marido, o rei Osíris, e produz
e protege seu herdeiro, Hórus. Fonte: Wikipédia.

"Há uma extravagante ideia de que os que não crêem em milagres o fazem por uma razão de pura lógica, enquanto
os crentes em milagres os aceitam apenas pela fé. MAS, na realidade, ocorre justamente o inverso. Os crentes
aceitam a existência dos milagres porque possuem evidências deles, enquanto os descrentes as rejeitam porque sua
fé é contrária à existência dos milagres".

Trecho do capítulo 9 de Ortodoxia.

Esta é a sua atitude: o homem deve parar de pensar [como um lunático], se quiser continuar a viver. Se sua CABEÇA
o faz pecar, corte-a; pois é melhor em vez de simplesmente entrar no Reino dos Céus como uma criança, fazê-lo
como um imbecil, do que ser lançado com todo o seu intelecto no inferno – ou em Hanwell [hospício].

Ortodoxia, de Santo Che.

"A maioria das pessoas modernas costumam dizer que 'ações só devem ser consideradas erradas se causarem algum
prejuízo à sociedade'. A se entender assim, cedo ou tarde haverá uma multidão de bárbaros ou uma cidade pagã,
instituindo-se inclusive a escravidão como meio mais barato de ter mão-de-obra ou, para ser mais exato, mais
eficiente de produção, torturando tais escravos como prova de que a pessoa individual não significa nada perante o
Estado, inclusive sob a justificativa de que um homem inocente precisa morrer em favor do povo, assim como
fizeram com o Cristo".

Santo Che, no texto 'Por que sou Católico?'.

"Possuir convicções e ter caridade são duas coisas mais relacionadas do que a maioria das pessoas pensa. Dickens
era capaz de amar todas as pessoas; mas ele recusou amar todas as opiniões.

O humanista moderno afirma amar igualmente todas as opiniões, mas não se considera capaz de amar todos os
homens; ele aparenta muitas vezes, no êxtase do seu humanismo, odiá-los a todos. Ele pode enamorar-se por todas
as opiniões, incluindo a opinião de que as pessoas não devem ser amadas."

Santo Che, no livro Críticas aos Trabalhos de Charles Dickens, Tempos Difíceis.

Uma das análises mais brilhantes de Chesterton em Ortodoxia é sobre o papel da Igreja Católica na restauração e
criação da cultura ocidental. Ele argumenta contra a acusação moderna de que ela perpetuou uma era de trevas
durante a idade média. Ele diz "E na história reparei que o Cristianismo, londe de extender a idade das trevas, foi o
único caminho pela idade das trevas que não foi negro" (tradução própria). Presos num pequeno continente ilhado
pelos muçulmanos, diversas heresias e resquícios de paganismo, a única que soube lidar com a confusão moral e
intelectual com grandes feitos arquitetônicos, bélicos e morais foi a Igreja.

"É plenamente verdadeiro que em seguida o navio afundou [depois da queda de Roma]; mas é mais extraordinário
ainda que o navio voltou à superfície: repintado e ornado brilhantemente, com a Cruz ainda no topo. essa é uma
coisa incrível que a religião fez: ela fez de um navio afundado um submarino." (tradução própria).

A igreja é sempre o que vem por último numa velha sociedade, como Roma, mas sempre a primeira quando
ascende-se uma nova, como a medieval.
Santo Che, com sua exímia capacidade de prever os resultados dos velhos erros apresentados como novas idéias
modernas, previu até mesmo as consequências últimas da ideologia vegana e panteísta:

"Em seguida, houve a escola oposta. Entre eles, o Sr. Edward Carpenter, que achava que em breve deveríamos
retornar à Natureza, e viver de forma simples e lenta, como os animais fazem. E Edward Carpenter foi seguido por
James Pickie (do Pocohontas College), que disse que os homens melhoravam imensamente pela ruminação,
comendo seu alimento de forma lenta e continuamente, à maneira das vacas. E ele disse que tinha, com os
resultados mais encorajadores, colocado alguns citadinos de quatro num campo cheio de costeletas de vitela. Em
seguida, Tolstoi e os Humanitários disseram que o mundo estava crescendo mais misericordioso, e, portanto,
ninguém jamais teria o desejo de matar. E o Sr. Mick não só se tornou um vegetariano, mas posteriormente declarou
o vegetarianismo condenado (“o derramamento”, como ele chamou finamente, “do sangue verde dos animais
silenciosos”), e previu que os homens de uma era melhor viveriam apenas de sal. E então veio o panfleto do Oregon
(onde a proposta foi tentada), o panfleto chamado “Por que o Sal deve sofrer?”, e houve mais problemas."

Do Capítulo I, Observações Introdutórias sobre a Arte da Profecia, do livro O Napoleão de Notting Hill.

"Nove dentre dez coisas que nós chamamos de idéias nova são apenas erros velhos. A Igreja Católica tem como um
de seus deveres principais prevenir as pessoas de cometerem aqueles erros velhos, os quais são praticados repetida
e recorrentemente, mas que elas acreditam sempre que existiram somente no passado.

A verdade a respeito da atitude católica diante da heresia – ou como alguns gostam de dizer, diante da liberdade –
pode talvez melhor ser expresso pela metáfora do mapa. A Igreja Católica carrega consigo um pequeno mapa da
mente o qual se parece com o mapa de um labirinto, mas que é, de fato, um guia para andar nesse labirinto. Este
mapa tem sido construído através do conhecimento que, ainda que considerado humano, não encontra nenhum
paralelo com algo humano.

Não há outro caso em que uma instituição inteligente continuamente vem pensando e pensando ao longo de dois
mil anos. Tamanha experiência naturalmente supera quase todas as demais experiências; e especialmente quase
todos os erros. O resultado é um mapa em que todos os becos sem saída e os maus caminhos estão claramente
marcados, os quais se revelaram inúteis pela melhor das evidências: a evidência daqueles que tropeçaram neles.

Do artigo "Por que eu sou Católico", publicado pela Sociedade Chesterton Americana.

O suicídio não é apenas um pecado; é o pecado. É o mal último e absoluto, é a recusa a ter qualquer interesse pela
existência e a recusa a prestar um juramento de fidelidade à vida. O homem que mata um homem, mata um
homem; o homem que se mata, mata todos os homens. O seu ato é pior do que qualquer estupro ou atentado a
dinamite. Quando um homem se enforca numa árvore, as folhas caem, raivosamente, e os pássaros fogem para
longe, furiosos, porque cada um deles recebeu uma afronta pessoal. Li uma solene bobagem escrita por
determinado livre-pensador. Ele dizia que o suicida era exatamente igual ao mártir. Esse manifesto sofisma ajudou a
esclarecer a questão. O suicida é, evidentemente, o oposto do mártir. O mártir é o homem que se interessa tanto
por algo que lhe é exterior, que esquece da própria vida. O suicida é o homem que tem tão pouco interesse por
aquilo que lhe é exterior, que não deseja ver nada. Um deseja que alguma coisa comece; o outro deseja que tudo
acabe. Em outras palavras: o mártir é nobre exatamente porque (embora renuncie ao mundo ou abomine toda a
humanidade) confessa possuir este último laço que o prende à vida; põe o coração para fora de si: morre para que
alguma coisa possa viver. O suicida é ignóbil porque não tem qualquer laço que o prenda à vida; é um mero
destruidor e, espiritualmente, destrói o Universo.

De Ortodoxia.

“Beba por estar feliz, mas nunca por se sentir extremamente infeliz. Nunca beba quando estiver infeliz por não ter
uma bebida, ou irá parecer um triste alcoólatra caído na calçada. Mas beba quando, mesmo sem a bebida, estaria
feliz, e isso o tornará parecido com um risonho camponês italiano. Nunca beba por precisar disso, pois tal ato
racional é o caminho para a morte e o inferno. Mas beba por não precisar disso, pois beber irracionalmente é a
antiga fonte de saúde do mundo.”

Gilbert K. Chesterton, no livro Hereges (cap. VII).


O próprio significado gramatical (etimológico) da palavra "mártir" deita por terra a noção da religião ser apenas do
foro privado.

Os martírios cristãos foram mais do que demonstrações; foram anúncios.

Nos dias de hoje, a nova moral do espiritual pretende alterar tudo isso. Permitiria que Cristo fosse crucificado se tal
fosse necessário, mas, em nome da boa educação, deveria ser crucificado num quarto particular. Declara que o facto
de um mártir ser trucidado por um leão é, em si mesmo, comum e sensacional, desde que, claro, ele seja trucidado
pelo leão na sala de estar destes intelectuais, rodeados pelos seus amigos íntimos.

Chesterton , The Defendant, 1901.

No prefácio ao livro El Estado Servil, de Hilarie Belloc, edição El Buey Mudo, Madrid, 2010.

"El campesino es más libre que el hombre asalariado, esta es la tesis que se afirma en El Estado Servil. Para Rop-ke,
en el mismo sentido, «el campesino libre de deudas en disfrute de un predio suficiente, es el hombre más libre e
independiente entre nosotros; nunca le preocupará que pueda faltarle el alimento o el trabajo, y su sumisión a los
caprichos de la naturaleza humana, contribuyen a ennoblecerla”. La sociedad de tipo campesino, compuesta por una
amplia clase de propietarios de bienes inmuebles, educa al hombre en el rigor de la naturaleza y en la libertad de la
responsabilidad ante las decisiones presentes y futuras, evitando que caiga en el fenómeno de la masificación.

*El mundo campesino representa hoy, junto con otros peque ños sectores de la sociedad, el último gran islote que
todavía no ha sido inundado por la pleamar de la masificación, el último gran dominio donde se ofrece una forma de
vida y de trabajo humanas, es tables por sí mismas y que satisfacen las necesidades vitales». W. Ropke, op. cit., p.
379."

“O homem simples segue sonhando todas as noites com sua velha ideia de ter uma casa normal. Pedia tão pouco e
lhe ofereciam tanto! Ofereceram-lhe o Éden e a Utopía, e a Nova Jerusalém, e ele apenas queria uma casa, que lhe
fora negada. Os ricos jogaram literalmente na sarjeta os pobres da velha casa, dizendo-lhes que isso era o caminho
para o progresso. Obrigaram-nos literalmente a entrar em fábricas e no moderno sistema de escravidão assalariada,
assegurando-lhes o todo tempo que esse era o único caminho em direção à riqueza e à civilização. Assim como
haviam tirado a comida dos camponeses e a cerveja dos conventos dizendo que as ruas do Céu estavam
pavimentaras com ouro, agora apartaram a comida e a cerveja do povo alegando que as ruas de Londres estavam
pavimentadas com ouro. Assim como entramos no triste pórtico do puritanismo, também entramos no triste pórtico
do industrialismo, depois que lhe disseram que ambos eram a porta de entrada para o futuro”.

Santo Che, no livro O que há de errado no mundo (tradução livre).

Em defesa da veneração pelos bebês.

"Os dois fatos que fazem com que praticamente todas as pessoas normais sintam-se atraídas por bebês são,
primeiro, que eles são muito sérios e, segundo, que são conseqüentemente muito felizes. São alegres com a
plenitude que só é possível na ausência do humor. As escolas e sábios mais insondáveis nunca alcançaram a
gravidade que existe nos olhos de um bebê de três meses de idade. É a gravidade do espanto perante o universo, e o
espanto perante o universo não é misticismo, mas um transcendente bom senso. O encanto das crianças está nisto:
em que com cada uma delas todas as coisas são refeitas, e o universo é julgado novamente. Quando andamos pela
rua e vemos abaixo de nós aquelas encantadoras cabeças arredondadas, com o triplo do tamanho em relação ao
corpo, que caracterizam esses cogumelos humanos, deveríamos sempre nos lembrar primeiro de que dentro de
cada uma dessas cabeças há um novo universo, tão novo quanto o que havia no sétimo dia da crianção. Em cada
uma dessas esferas há um novo sistema de estrelas, nova grama, novas cidades, novo mar."

Do livro O Defensor (na tradução da editora Ecclesiae).

A dificuldade em expor o “o porquê de eu ser um Católico” decorre do fato de existirem milhares de razões e todas
elas condensadas numa única: que o Catolicismo é a verdade. Eu poderia preencher todo meu espaço com sentenças
separadas começando cada uma delas com as seguintes palavras, “É a única coisa que…” como, por exemplo, (1) É a
única coisa que realmente previne um pecado de ser um segredo. (2) É a única coisa que não permite que o superior
seja superior, no sentido da arrogância. (3) É a única coisa que liberta um homem da escravidão degradante de ser
uma criançola de seu tempo. (4) É a única coisa que fala como se isto fosse a verdade; como se fosse um mensageiro
verdadeiro recusando a adulterar a verdade de sua mensagem. (5) É o único tipo de Cristianismo que realmente
contém todo tipo de homem, até mesmo o honesto. (6) É a única grande tentativa de mudar o mundo pelo lado de
dentro, trabalhando nas vontades humanas e não pela imposição de leis. E assim por diante.

Traduzido do artigo Why I Am A Catcholic, obtido do site da Sociedade Chesterton Americana.

Estudar as biografias escritas por Santo Che (que vão desde o literário inglês Charles Dickenes a santos da
envergadura de São Tomás de Aquino), constata-se que os paradoxos chestertonianos são verdadeiras obras-primas
da descrição poética da realidade a respeito da pessoa biografadas, e não meros recursos retóricos para
impressionar o leitor. Vejam por vocês mesmo essa descrição que ele faz sobre São Francisco:

“A um materialista poderá não interessar se as inconsistências se reconciliem ou não. O católico poderá não ver
inconsistência alguma que reconciliar. Mas aqui estou dirigindo-me ao homem moderno comum, simpatizante mas
cético, e só posso vagamente esperar que, abeirando-me da história deste grande santo pelo que ela tenha de
evidentemente pitoresca e popular, ampliarei um pouco a compreensão do leitor acerca da incongruência de um
caráter complexo que, entrando desta forma, poderemos ao menos vislumbrar o porquê do poeta que, louvando o
Seu senhor o Sol, amiúde se escondia numa caverna escura; o porquê do santo que, tão brando com o seu irmão
lobo, era tão rude com o seu irmão burro (como ele batizara o próprio corpo); o porquê do trovador que, dizendo
que o amor lhe lançava chamas ao coração, se afastava das mulheres; o porquê do cantor que, regozijando-se da
potência e alegria das chamas, rolava deliberadamente na neve; o porquê da própria canção que, clamando com a
paixão ardente de um pagão: ‘Louvado seja Deus pela nossa Irmã, a mãe terra, que gera variadas frutas, ervas e
flores brilhantes’, quase termina com as palavras: ‘Louvado seja Deus pela nossa irmã, a morte do corpo’.”

São Francisco de Assis (na tradução de Matheus Leme, pela editora Ecclesiae).

É bastante comum ver pessoas que desistem de estudar a vida e a obra de Gilbert K. Chesterton por considerar difícil
ou complicada sua forma de pensar e escrever. Realmente, porque fomos acostumados a um discurso analítico e
que preza por uma ordem muito lógica e muitas vezes sem vida, temos muita dificuldade de ler um discurso
altamente retórico e poético, cheio de truísmos e percepções filosóficas da vida.

E esse é o ponto central de 99% das pessoas que lêem Chesterton e desistem. Isso se dá porque elas querem
entender em sentido literal algo que ele disse apenas em sentido simbólico ou analógico. Não conseguem, assim,
captar as hipérboles, as metonímias e os eufemismo usados propositalmente para trazer o leitor à realidade
complexa da vida, exercitando sua imaginação acerca da relação entre o mundo real e o mundo possível (do devir,
que também é real em sentido metafísico).

Fiz questão, como exemplo disso, de usar o twite abaixo retirado de um perfil no Twiter (@GKCdaily) que sempre
posta trechos de escritos do Chesterton e que recebeu uma resposta bastante comum ao leitor não-iniciado em sua
filosofia.

"Os Três Reis-Magos se dirigiram a Belém trazendo ouro, incenso e mirra. Se eles tivessem trazido apenas Verdade,
Pureza e Amor não teria existido Arte Cristã e nenhuma Civilização Cristã."

À referida frase, bem provável por desconhecer o pensamento e vida de Chesterton, veio a seguinte pergunta: "A
referida frase é uma ironia?".

E a resposta é "sim e não".

"Sim", pois há um óbvio e proposital exagero na afirmação, caso seja entendida em sentido literal (erro que muitos
cometem).

E "não", porque Chesterton era absolutamente anti-iconoclasta e anti-puritano, e sabia quanto a arte sacra (com
seus ícones, imagens, afrescos, cantos e arquitetura) havia contribuído para a propagação do Evangelho por todo o
mundo, e em especial pela Europa, uma vez que a mensagem da Boa Nova era transmitida principalmente pela
razão, fortalecida pela imaginação, que o discurso mito-poético das Escrituras incutia nos povos através da arte.
Chesterton também sabia quão prejudicial era a redução da capacidade imaginativa para o homem comum, e essas
era um dos malefícios causados pelo heresia iconoclasta, que considerava errado representar Deus e suas criaturas
através da arte, quando na verdade Ele sempre desejou que Sua Palavra e Seus feitos fossem lembrados pelo seu
povo ("shamá ó Israel, lembre-se do Senhor teu Deus) através de registros físicos (livros, pinturas e esculturas).

Eis, portanto, um exemplo da necessidade de conhecer o contexto do pensamento e a vida de Chesterton para se
entender melhor sua obra e sua filosofia.

Sobre a falta de senso de proporções na moral moderna, Chesterton já dizia ainda no início do século XX o seguinte:

"Temos a mesma doutrina loucamente desproporcional do efeito da limpeza física sobre o caráter moral.
Educadores e políticos da educação declaram, entre calorosas aclamações, que a limpeza é de longe muito mais
importante que todas as contendas sobre ensino moral e religioso. Isso dá a entender que, contanto que um
rapazinho lave suas mãos, não importa se é para limpar a geléia da mãe ou o sangue do irmão. Temos a mesma
pretensão insincera de que o esporte sempre fomenta um sentido de honra, quando sabemos que ele muitas vezes
o destrói. Acima de tudo, sustentamos a mesma grande suposição de classe alta de que as grandes instituições
fazem melhor as coisas, uma vez que dispõem de grandes somas de dinheiro e têm poder para controlar todo o
mundo; e de que a caridade trivial e impulsiva é, de algum modo, desprezível. Como diz o sr. Blatchford: “O mundo
não quer piedade, mas sabão... e socialismo.”

Trecho do livro O Que Há de Errado com o Mundo.

“Meu cachorro está a minha frente enrolado em frente a uma fogueira, como muitos cachorros estiveram frente a
muitas fogueiras. Eu sento ao lado dessa lareira, como muitos outros homens se sentaram em frente a muitas
lareiras. De alguma forma, esta criatura completou minha masculinidade; por alguma razão, que não posso explicar,
um homem deve ter um cachorro. Um homem deve ter seis pernas, aquelas outras quatro pernas do cachorro são
parte dele. Nossa aliança é mais antiga que qualquer explicação passageira e pedante que é oferecida por qualquer
um de nós. Antes que a evolução fosse, nós éramos. Você pode encontrar escrito em um livro que sou um mero
sobrevivente de uma disputa de macacos antropoides; e talvez eu seja. Estou certo que não tenho objeção a isso.
Mas meu cachorro sabe que eu sou um homem, e você não perceberá o significado dessa palavra escrita em
qualquer livro tão claramente quanto a que está inscrita na alma dele.”

Do livro Lunacy and Letters.

Os sete males sociais são:

Política sem princípio.

Riqueza sem trabalho.

Prazer sem consciência.


Conhecimento sem caráter.
Economia sem moralidade.
Ciência sem humanidade.
Adoração sem sacrifício.

- Canon F. L. Donaldson, Westminister Abbey 1925.

"No dia do meu casamento, a certa altura do caminho, parei para beber um copo de leite numa loja e comprar um
revólver com cartuchos noutra. Alguns tomaram isto como singulares presentes de casamento que um noivo se dava
a si mesmo; e se a noiva não o conhecesse como conhecia, poderia talvez tomá-lo por um suicida ou por um
assassino, ou, o que é ainda mais grave, por um abstémio.

Todavia aqueles objectos parecem-me a coisa mais natural desta vida. Não comprei a pistola para matar-me ou à
minha mulher. Nunca fui um personagem assim muito moderno. Comprei-a porque era aquele o primeiro dia da
maior aventura da minha juventude e eu ligava a isso uma vaga ideia de protecção devida a minha mulher contra os
piratas que infestavam Norfolk Broads."

De sua Autobiografia.
Em defesa da veneração pelos bebês.

"Os dois fatos que fazem com que praticamente todas as pessoas normais sintam-se atraídas por bebês são,
primeiro, que eles são muito sérios e, segundo, que são conseqüentemente muito felizes. São alegres com a
plenitude que só é possível na ausência do humor. As escolas e sábios mais insondáveis nunca alcançaram a
gravidade que existe nos olhos de um bebê de três meses de idade. É a gravidade do espanto perante o universo, e o
espanto perante o universo não é misticismo, mas um transcendente bom senso. O encanto das crianças está nisto:
em que com cada uma delas todas as coisas são refeitas, e o universo é julgado novamente. Quando andamos pela
rua e vemos abaixo de nós aquelas encantadoras cabeças arredondadas, com o triplo do tamanho em relação ao
corpo, que caracterizam esses cogumelos humanos, deveríamos sempre nos lembrar primeiro de que dentro de
cada uma dessas cabeças há um novo universo, tão novo quanto o que havia no sétimo dia da crianção. Em cada
uma dessas esferas há um novo sistema de estrelas, nova grama, novas cidades, novo mar."

Do livro O Defensor (ed. Ecclesiae).

O que há de errado com o Mundo?

"O cérebro entra em colapso ante a insuportável virtude da humanidade. Houve tantas fés flamejantes, que não as
podemos suportar; houve heroísmos tão severos, que não somos capazes de imitá-los; empregaram-se esforços tão
grandes na construção de edifícios monumentais ou na busca da glória militar, que hoje nos parecem a um tempo
sublimes e patéticos. O futuro é um refúgio onde nos escondemos da competição feroz de nossos antepassados. São
as gerações passadas, não as futuras, que vêm bater à nossa porta.

(...)

Ora, não há na história uma única revolução que não seja uma restauração. Dentre as muitas coisas que me fazem
ter dúvidas quanto ao hábito moderno de fixar os olhos no futuro, nenhuma é mais forte do que esta: todos os
homens da história que fizeram algo pelo futuro tinham os olhos fixos no passado. E não preciso mencionar o
Renascimento, pois o nome fala por si próprio. A originalidade de Michelangelo e Shakespeare principiou com o
desenterrar de vasos e manuscritos velhos. O ardor selvagem dos poetas ergueu-se, sem dúvida, da tranquilidade
dos antiquários. Assim também o ressurgimento medieval foi uma recordação do Império Romano. Assim também a
Reforma voltou os olhos para a Bíblia e os tempos bíblicos. Assim também o moderno movimento católico voltou os
olhos para os tempos da patrística. Mas aquele movimento moderno que tantos considerariam o mais anárquico de
todos é, em certo sentido, o mais conservador de todos. Nunca o passado foi tão venerado pelos homens quanto na
Revolução Francesa. Os revolucionários invocaram as pequenas repúblicas da Antiguidade com a confiança plena de
quem invoca dos deuses".

Teoria materialista da História


A teoria materialista da história – que afirma que toda a política e a ética são expressões da economia – é uma
falácia, de facto, muito simples. Ela consiste, simplesmente, em confundir as necessárias condições de vida com as
normais preocupações da vida, que são coisas muito diferentes. É como dizer que porque o homem pode andar
somente sobre duas pernas, então, ele só pode caminhar se for para comprar meias e sapatos. O homem não pode
viver sem os amparos da comida e da bebida, que os suporta sobre duas pernas; mas, sugerir que esses têm sido os
motivos para todos os seus movimentos na história é como dizer que o objetivo de todas as suas marchas militares
ou peregrinações religiosas deve ter sido a perna dourada da Senhora Kilmansegg ou a perfeita e ideal perna do
Senhor Willoughby Patterne. Mas, são esses movimentos que constituem a história da espécie humana e sem eles
não haveria praticamente história. Vacas podem ser puramente económicas, no sentido de que não podemos ver
que elas façam muito mais do que pastar e procurar o melhor lugar para isso; e essa é a razão pela qual a história
das vacas em doze volumes não seria uma leitura estimulante. Ovelhas e cabras podem ser economistas em suas
acções externas, pelo menos; mas, essa é a razão das ovelhas dificilmente serem heróis de guerras épicas e impérios,
importantes suficientes para merecerem uma narração detalhada; e mesmo o mais activo quadrúpede não inspirou
um livro para crianças intitulado Os Feitos Maravilhosos das Cabras Galantes.

Mas, em relação a serem económicos os movimentos que fazem a história do homem, podemos dizer que a história
somente começa quando os motivos das ovelhas e das cabras deixam a cena. Será difícil afirmar que os Cruzados
saíram de suas casas em direcção a uma horrível selvageria da mesma forma que as vacas tendem a ir das selvas
para pastagens mais confortáveis. É difícil afirmar que os exploradores do Ártico foram em direcção ao norte
imbuídos dos mesmos motivos materiais que fizeram as andorinhas ir para o sul. E se deixarmos, de fora da história
humana, coisas tais como todas as guerras religiosas e todas a aventuras exploratórias audaciosas, ela não só deixará
de ser humana, mas deixará de ser história. O esboço da história é feito dessas curvas e ângulos decisivos,
determinados pela vontade do homem. A história económica não seria sequer história.

Gilbert Keith Chesterton in «O Homem Eterno».

A superioridade da Igreja Católica


A Igreja contém o que o mundo não contém. A própria vida não atende tão bem como a Igreja a todas as
necessidades de viver. A Igreja pode orgulhar-se da sua superioridade sobre todas as religiões e sobre todas as
filosofias.

Onde têm os estóicos e os adoradores do passado um Menino Jesus? Onde está a Nossa Senhora dos muçulmanos, a
mulher que não foi feita para nenhum homem e que está sentada por cima de todos os anjos? Qual é o S. Miguel dos
monges de Buda, cavaleiro e clarim que guarda para cada soldado a honra da espada? Quem poderia representar S.
Tomás de Aquino na mitologia do bramanismo, ele que restabeleceu a ciência e o raciocínio da Cristandade?

E o mesmo nas filosofias ou heresias modernas. Como passaria Francisco, o Trovador, entre os calvinistas e, ainda,
entre os utilitaristas da escola de Manchester? Como passaria Joana d'Arc, uma mulher, esgrimindo a espada que
conduzia os homens à guerra, entre os Quakers ou a seita tolstoiana dos pacifistas? E, entretanto, homens como
Bossuet e Pascal são tão lógicos e tão analistas como qualquer calvinista ou utilitarista, e inumeráveis santos
católicos passaram suas vidas predicando a paz e evitando as guerras.

G. K. Chesterton in «The Everlasting Man».

O ateísmo é o ópio do povo


Lenine disse que a religião é o ópio do povo... Mas é apenas crendo em Deus que nós podemos criticar o Estado.
Uma vez abolido Deus, e o Estado torna-se Deus. Este facto está escrito em toda a história humana; mas está escrito
mais claramente na história recente da Rússia; que foi criada por Lenine... Lenine apenas caiu num pequeno erro: ele
percebeu tudo ao contrário. A verdade é que o ateísmo é o ópio do povo. Onde quer que as pessoas não acreditem
em algo para além do mundo, elas irão adorar o mundo.

Gilbert Keith Chesterton in «Christendom in Dublin».

A verdadeira coragem

Não há realmente coragem alguma em atacar coisas velhas ou antiquadas, mais do que oferecer luta a uma avó. O
homem verdadeiramente corajoso é aquele que desafia tiranias novas como a manhã e superstições frescas como as
primeiras flores. O único verdadeiro livre-pensador é aquele cujo intelecto é tão mais livre do futuro como do
passado.

Gilbert Keith Chesterton in «What's Wrong with the World».

A Cruz e o Círculo

O círculo é perfeito e infinito por natureza, mas ele está para sempre amarrado a suas dimensões, não podendo
crescer ou diminuir, já que na sua definição o raio é constante. Mas a cruz, embora tenha no centro uma colisão e
uma contradição, pode sempre estender os braços sem modificar sua forma. Pelo facto de abrigar um paradoxo em
seu centro, a cruz pode crescer sem mudar. O círculo volta-se sobre si mesmo como prisioneiro. A cruz abre seus
braços aos quatro ventos e serve de marco indicador aos viajantes livres.

Gilbert Keith Chesterton in «Ortodoxia».

O triunfo dos porcos


Hoje não há uma só blasfémia ou imoralidade que seja proibida... Uma obra moderna pode consistir numa dança
desenfreada de todos os demónios e de todos os porcos. Pode incluir qualquer coisa e qualquer pessoa, excepto
alguém capaz de exorcizar os demónios e espantar os porcos.

G. K. Chesterton in «On Lying in Bed and Others Essays».

As Cruzadas não foram agressivas, mas defensivas


O crítico das Cruzadas fala como se elas tivessem atacado uma tribo inofensiva ou um templo no interior do Tibete,
que desconhecia antes de a invadir. Parecem esquecer que antes de os cruzados sonharem em ir a Jerusalém, os
muçulmanos quase chegaram a Paris. Parecem esquecer que se os cruzados quase conquistaram a Palestina, isso
apenas foi uma reacção aos muçulmanos que quase conquistaram a Europa.

G. K. Chesterton in «The New Jerusalem».

Não precisamos de pragmáticos

Surgiu no nosso tempo uma moda muito peculiar: a ideia de que, quando as coisas estão a correr muito mal, do que
nós precisamos é de um homem pragmático. Ora, é bastante mais correcto afirmar que, quando as coisas estão a
correr muito mal, do que nós precisamos é de um homem que não seja pragmático; precisamos, pelo menos, de um
teórico. Um homem pragmático é um homem que só conhece a prática do dia-a-dia, o modo como as coisas
habitualmente funcionam. Quando as coisas não funcionam, temos de recorrer ao pensador, ao homem que tem
algum conhecimento da razão pela qual elas funcionam. É má ideia tocar harpa enquanto Roma está a arder; mas é
uma excelente ideia estudar hidráulica enquanto Roma está a arder.

G. K. Chesterton in «Disparates do Mundo».

Não são humanos, são humanistas


Tendo repugnância por todos os soldados, por todos os padres, pelos mercadores, reis e príncipes, pelos
legisladores, sentindo irritação pela gente do povo, desdenhando da classe média, tendo sido sempre ensinados que
os camponeses são imobilistas e supersticiosos, estando aptos a aceitar que os operários não servem como material
adequado ao verdadeiro Estado Científico ou Utopia dos Intelectuais – tendo rejeitado todas as tradições humanas
para cada uma das suas versões do progresso, são deixados com uma humanidade que apenas pode amar o
abstracto mas dificilmente o concreto.

Não sobra muito de humanidade quando se eliminam todas as pessoas tidas como obstáculo ao progresso da
humanidade. O esboço que eles traçam de um mundo sem guerra é curiosamente um esboço difícil e em branco.
Eles podem fazer mapas e diagramas sobre como evitar a morte, mas não conseguem pintar quadros; isto é, quadros
de pessoas alegres que aproveitam a vida.

G. K. Chesterton in «The Illustrated London News», 9 de Outubro de 1926.

Os perigos do socialismo
“É demasiado fácil falar que a propriedade deve ser distribuída, porém, quem é o agente do verbo? Quem deve
distribuir? Parte-se da idéia que o poder central, que condescende com a distribuição, há de ser sempre justo, sábio,
prudente e representante legítimo da consciência da comunidade. Nós, entretanto, colocamo-la em cheque.
Afirmamos que deveria haver no mundo uma grande massa de poderes, privilégios, limites e pontos de resistência
disseminados que permitiriam ao povo resistir à tirania. E afirmamos que, nesse controle central, por mais que
possam tê-lo designado para ser um distribuidor da riqueza de maneira igualitária, há a possibilidade permanente da
conversão numa tirania.

Não creio que seja difícil imaginar como isso poderia acontecer. No momento em que um grupo de pessoas
começasse a comportar-se de alguma forma que o grupo governante julgasse anti-cívica, poder-se-ia negar-lhes,
sem dificuldade e com a aprovação deste mesmo grupo governante, alimentos e suprimentos.

Eles propõem a distribuição das riquezas; eu proponho a distribuição do poder.”


(Gilbert Keith Chesterton, Do We Agree?

Tradução de Agnon Fabiano

O Herege - G. K. Chesterton
Ao menos do ponto de vista humano, o teste e momento crítico da conversão é tão inteiramente racional e até
mesmo racionalista, que somos tentados a ser impacientes com a falta de racionalidade com que é discutido por aí.
É uma questão de saber se um certo mensageiro é ou não é o que ele diz ser.

Não é uma questão de saber se a mensagem é exatamente o que nós esperamos que ela seja; não é o caso em que
não há nada nela que nos surpreenda, ou nada nela que nos intrigue, ou nada que nós mesmos alteraríamos. Não é
uma questão de se deveríamos ter enviado outra mensagem; mas sim uma questão de saber quem enviou a
mensagem.

Um homem me traz um bilhete ou um recado de meu amigo Robinson, solicitando que me encontre com ele no
sexto poste em frente da casa com hibiscos numa determinada rua em Hungerford; e seria bem razoável para mim
duvidar, em linhas gerais, se o mensageiro veio a pedido do meu amigo Robison afinal. Ele pode estar esmolando um
drinque, ou me atraindo para um covil de ladrões, ou simplesmente aplicando em mim uma brincadeira de primeiro
de abril. Mas não é razoável que eu acolha a mensagem como genuína, verdadeiramente vinda de meu amigo que
quer um encontro e então dizer ao mensageiro “Você não acha que poderíamos marcar o encontro numa casa com
girassóis ao invés de hibiscos, por que hibiscos não são minhas flores favoritas?”. Ou então “Vamos mudar do sexto
para o sétimo poste por que sete é um número de sorte”. Ou ainda “Eu não imagino por que deveríamos ir à
Hungerford, por isso da minha parte eu irei esperar por ele em Hampstead”.

Esta atitude não é razoável, por que não é relevante para a natureza da mensagem se a mensagem é a mais trivial ou
a mais extraordinária. É lógico duvidar de uma mensagem ou dispensar um mensageiro, ou negar que o mensageiro
seja um mensageiro de verdade. Mas não é lógico pedir ao mensageiro que altere sua mensagem.

Esta lógica básica, o cerne da questão, é tão familiar a nós que somos tentados à irritação, como disse, quando
descobrimos o quão incomum se tornou este bom senso em nossos contemporâneos.

Mas há um ponto de vista mais sutil e compassivo a todo este assunto, e há variações e gradações de significado que
podem ser encontrados neste silogismo tão simplificado. Mesmo entre os que rejeitam a mensagem, e entre os que
rejeitam esdrúxulos fragmentos dela, há variados tipos e alguns mais estranhos e desafiadores. Mas apenas um
deles deve ser selecionado, neste sentido prático, como um herege.

Eu não estou, obviamente, empregando nenhuma destas palavras no sentido autoritário da ciência teológica, em
que elas poderiam ser relacionadas com muitos tópicos teológicos, mas eu as considero somente em sua variedade
psicológica. E neste sentido prático, há um tipo de ser humano na história que talvez possa, com especial precisão,
ser chamado herege. Ele não é, por exemplo, o mesmo tipo de um fanático; apesar de frequentemente o fanatismo
ser o cadáver ou fóssil de uma heresia morta. Ele é alguma coisa diferente de um mero pagão não convertido; e ele é
muito provavelmente o oposto do agnóstico ou do cético.

A coisa estranha sobre o herege é esta. Todos nós sabemos que a heresia na verdade é escolher e selecionar, assim
como meu sujeito imaginário escolheu pedaços da carta do Sr. Robinson. Mas há uma qualidade sobre o escolher e
selecionar dos hereges, em especial dos grandes heresiarcas, que nunca foi adequadamente percebida. O mistério
de Maomé ou Lutero ou Calvino, ou de qualquer um dos grandes fundadores de sistemas heréticos, sempre foi este;
primeiro, que eles aceitaram a ideia de um plano Divino como já estabelecido; e então eles duvidaram e depois
negaram que o antigo sistema fosse divino; e terceiro e mais surpreendente de tudo, que eles nunca duvidaram por
um instante da singular doutrina que eles escolheram crer em um sistema que eles recusaram, e nunca sequer
pareceram desconfiar que qualquer um poderia um dia arriscar-se a negá-la.

Tal heresiarca foi sua própria testemunha para o fato de que um homem poderia negar mil coisas que foram
aclamadas como Divinas. Mas ele parece não ter antecipado que alguém poderia negar alguma parte do que ele
absteve-se de negar. Se ele preservou alguma relíquia dos efeitos da revolta e da destruição, ele parece crer que
todos, até o fim do mundo, também irão sempre preservar a mesma parte em qualquer revolta ou destruição. Esta é
a excentricidade que distingue o herege original do cético ou mesmo do crítico inconsistente. É o fanatismo com que
ele afirma a coisa que ele não nega.

O seu lugar na parábola acima não é o do sujeito que recusa ou aceita o mensageiro, nem mesmo o do que realiza
criativas modificações na mensagem. Ele é o sujeito que se fixa em um característica da história do mensageiro e a
torna não apenas mais importante que o resto, mas mais importante que qualquer outra coisa. Ele irá se opor a todo
o resto, desmentindo e blasfemando no último grau. Ele irá professar que se evite Hungerford como se lá fosse o
inferno. Ele irá desfolhar todas os hibiscos que existem, como se fossem uma erva venenosa ou uma jardim de
plantas peçonhentas. Mas o sexto poste não só será correto como será sagrado; uma lâmpada a guiar todos os
nossos passos, uma luz a purificar todos os homens que venham ao mundo.

Isto não é um exagero, considerando a história da heresia. Por exemplo, os Puritanos tomaram o sétimo dia
exatamente como o sexto poste. Em uma centena de outras maneiras eles se privam, confundem e descolorem
quase todos os tipos de rituais ou pompa religiosa.

Através das sobras de seus preconceitos, milhares de homens modernos ainda são assombrados com aqueles
pedaços de perfeitas más psicologia e teoria educacional; a noção de que todas as cerimônias são sem significado ou
obstáculos ou perigosas para a pureza. Eles manobraram para reter isto mesmo sendo devotos extremos do Velho
Testamento, que é pleno de cerimônias. Ainda assim eles se agarraram numa fanática obsessão pelo Sabbath. Que
era um pedaço específico, não só da tradição Cristã, mas da peculiarmente complicada e ritualizada lei Judaica. E por
fim eles criaram o Sabbath Escocês, que era consideravelmente mais sombrio que o Shabbat Judaico.

A coisa estranha é que nunca parece ter-lhes ocorrido que homens poderiam negar o Shabbat assim como eles
negaram o Sacramento. Isso não é simplesmente uma questão sobre a enorme tradição do Sacramento na história
da Cristandade. Ele surgiria de qualquer forma a partir da condição do Sabbath na história de Jesus de Nazaré; o
mais simples e objetivo apelo na história no Novo Testamento.

Seria mais fácil realizar um ataque primitivo às coisas dos Evangelhos que eles guardaram do que às coisas que eles
rejeitaram. Não há simplesmente qualquer evidência de que Jesus Cristo desaprovasse os rituais. Ele sempre se
referia às celebrações no Templo, que eram muito ritualizadas, como todo o serviço religioso de Seu povo. Ele
introduziu as ofertas comuns e tradicionais em Suas parábolas, e sempre em um bom sentido.

A única instituição Judaica em que Ele possa ser interpretado como contestador foi o Shabbat. Ninguém o acusou de
denunciar os sacrifícios ou o candelabro de sete velas; as pessoas o acusaram de blasfemar contra o Shabbat. E ainda
assim, por uma enorme perturbação artificial e invertida, estes hereges típicos manobraram para aterrorizar nações
inteiras com uma idolatria cega do velho Sabbath judeu; quando eles próprios estavam assustados de acender uma
vela e odiavam até as sombras, ou a mística repetição, de um sacrifício.

Este é apenas um exemplo histórico; há outras centenas na história. A questão é que o herege é um fanático a
respeito de uma coisa, e um cético sobre centenas de outras coisas. E ainda assim ele sempre encontra a coisa pela
qual ele é fanático no sistema a respeito do qual ele é um cético.

Não há incontáveis exemplos desta contradição apenas em épocas passadas; mas existe uma forma ainda mais
contraditória desta contradição nos tempos modernos; a respeito da qual eu talvez me esforce por escrever alguma
coisa em uma próxima ocasião. Mas talvez seja melhor concluir aqui sobre os erros religiosos mais evidentes e viris
que o Puritanismo do século XVII tenha sido talvez o último.

O Calvinista estava pronto para matar três quartos da Cristandade e morrer pela última parte. Mas ao menos ele
sabia que seu fragmento favorito da Cristandade era Cristão. Nos tempos modernos estamos cercados com uma
nova e mais ignorante classe de hereges, que sabe tão pouca história que não conhece sequer sua própria história;
ou a história de suas próprias ideias. No fundo, porém, eles agiram pelo mesmo estranho princípio, tanto em relação
as coisas em que acreditam quanto as que não acreditam. Eles não sabem de onde veio seu credo; e eles certamente
ignoram para onde suas descrenças irão em seguida. Mas elas são tão divertidas que exigem serem tratadas em
separado.
Nota: os hereges mais modernos sempre vão valorizar de forma mais ilusória as coisas mais antigas. Nesse texto o
grande escritor inglês e católico menciona os puritanos. Mas bem que tudo que é falado nesse texto pode ser dito
dos pentecostais, neopentecostais, adventistas, testemunhas de jeova...

Fonte: ohomemeterno

Chesterton e o distributismo
Excertos do capítulo I ("Algumas ideias gerais") do livro Um esboço da sanidade: Pequeno manual do distributismo:

"Solicitaram-me o republicar destas notas -que apareceram num jornal semanal- como um esboço grosseiro sobre
certos aspectos da instituição da propriedade privada, agora quase inteiramente olvidada em meio a júbilos
jornalísticos ao redor da iniciativa privada. O fato mesmo de que os publicistas falem tanto desta e tão pouco
daquela é, em si, uma medida do tom moral dos nossos tempos. Um batedor de carteiras é obviamente um
campeão da iniciativa privada. Mas seria, talvez, um exagero dizer que um batedor de carteiras é um campeão da
propriedade privada. O problema com o capitalismo e o comercialismo, propagados como têm sido recentemente, é
que eles são realmente defendidos como uma extensão do comércio em vez de uma preservação dos pertences; e
têm tentado, na melhor das hipóteses, disfarçar o batedor de carteiras com algumas das virtudes do pirata. O
problema com o comunismo é que ele apenas reforma o batedor ao impedir a existência dos bolsos" (G. K.
Chesterton, Um esboço da sanidade: Pequeno manual do distributismo. Trad. Raul Martins. Campinas: Ecclesiae,
2016, p. 7).

"Se o capitalismo significar a propriedade privada, então sou um capitalista. Se o capitalismo significar capital, somos
todos capitalistas. Mas se o capitalismo significar esta condição particular do capital, apenas repassado à massa sob
a forma de salários, então de fato significa algo, ainda que devesse significar outra coisa.

A verdade é que aquilo a que chamamos capitalismo deveria chamar-se proletarianismo. O ponto disso não é que
algumas pessoas possuem capital, mas sim que a maioria das pessoas tem salários simplesmente por não possuírem
capital" (Ibid., p. 10).

"Um governo socialista é um cuja natureza mesma não tolera qualquer oposição real e verdadeira. Pois lá o governo
fornece todas as coisas; e seria absurdo pedir a um governo que ele fornecesse uma oposição" (Ibid., p. 12).

"A propriedade é uma questão de honra. O antônimo verdadeiro da palavra 'propriedade' é 'prostituição'. E não é de
modo algum verdade que um ser humano há de sempre vender o que é sagrado àquele senso de autopropriedade,
quer seu corpo, quer suas fronteiras" (Ibid., p. 22).

"Ora, o sistema capitalista, bom ou mal, correta ou erroneamente, repousa sobre duas ideias: a de que o rico será
sempre suficientemente rico para contratar o pobre; e de que o pobre será sempre suficientemente pobre para
desejar ser contratado" (Ibid., p. 27).

"O capitalismo é contraditório assim que está completo; pois lida com a massa de homens de duas maneiras opostas
ao mesmo tempo. Quando a maioria dos homens é assalariada, torna-se mais e mais difícil que a maioria dos
homens tornem-se clientes. Pois o capitalista está sempre tentando cortar o que seu funcionário lhe exige e, ao fazê-
lo, está a cortar o que seu cliente pode gastar. Assim que vê seu negócio em dificuldades, como é o caso atual do
ramo de carvão, ele tenta reduzir seus gastos nos salários, e ao fazê-lo acaba por reduzir o que outros têm para
gastar em carvão. Essa contradição no capitalismo não se mostra nos primeiros estágios, pois ainda há populações
não reduzidas à condição do proletário comum. Mas assim que os ricos como um todo estão empregando os
assalariados como um todo, a contradição fita-os com o irônico semblante da perdição e do juízo" (Ibid., p. 30).

"Não oferecemos a perfeição; o que oferecemos é a proporção. Desejamos corrigir as proporções do estado
moderno; mas a proporção se dá sempre entre coisas variadas; e dificilmente a reduziríamos a um padrão. É como
se estivéssemos desenhando a figura de um homem vivo, e julgassem-nos a desenhar um diagrama de engrenagens
e linhas para a construção de um robô. Não propomos que se devam manter todas as terras de maneira igual em
uma sociedade saudável; ou que se devam manter todas as propriedades sob as mesmas condições; ou que todos os
cidadãos devam ter a mesma relação para com a cidade. É todo o nosso argumento que o poder central precisa ter
menos poderes para balancear e checar, e que esses devem ser os mais diversos: alguns individuais, alguns
comunais, alguns oficiais, e assim por diante. É bem provável que alguns abusem de seus privilégios; mas preferimos
esse risco àquele do Estado ou do truste, que abusam da sua onipotência" (p. 53).

CONSELHO DE CHESTERTON PARA OS JOVENS


"O que temos de ensinar aos jovens do futuro é como se divertir. Até que possa se divertir consigo mesmo, ele se
tornará cada vez mais farto de se divertir com todas as demais coisas. O que temos que ensiná-lo é a se alegrar.
Neste momento, o jovem está cada vez mais subordinado a certas coisas que ele acredita que o divertirão. E, a julgar
pela expressão de sua fisionomia, elas não o divertem muito. Quando consideramos o que ele recebe, isto de fato é
o milagre, a fartura e a concentração do mais esplendoroso divertimento. Ele pode viajar em um carro de corrida
quase tão rápido quanto em uma bala de canhão; e ainda ter seu carro equipado com antenas de radiotransmissão
de todos os cantos do mundo. Pode captar Viena e Moscou; pode ouvir o Cairo e Varsóvia; e se não pode ver a
Inglaterra, por onde ele calha de estar viajando, isto é, afinal de contas, um problema menor. Em um século, sem
dúvida, seu carro viajará como um cometa, e suas antenas ouvirão os sons da lua. Mas tudo isso não o ajuda quando
o carro para; e que ele tem de ficar à toa batendo o pé no chão em uma estrada, com nada em que pensar. Tudo isso
não o ajuda tampouco quando o rádio para e ele tem de se sentar bem quieto em um carro silencioso sem nada
sobre o que falar. Se se considerar que as coisas são lançadas sobre ele, as que ele recebe são de fato cataratas
gigantescas de coisas; Niágaras Cósmicas*, jamais lançadas antes sobre ser humano algum, estão sendo lançadas
sobre ele. Mas se se considera o que vem dele, como um resultado de toda essa assimilação, o resultado que temos
de registrar é bem sério. Na maioria dos casos, nada. Nem, ao menos, uma troca de ideias, como era o costume. Ele
efetivamente não tem argumentos extensos, como os jovens faziam quando eu era jovem. O primeiro e
surpreendente efeito de todo este barulho é o silêncio. O segundo, quando tem a ânsia de escrever ou dizer alguma
coisa, é sempre uma ânsia no sentido de uma irritação." pp. 179-180.

G. K. Chesterton. O tempero da vida e outros ensaios. Ed. Graphia.

*Niágras Cósmicas - Chesterton está se referindo ao enorme volume de informações inúteis que são geradas e
transmitidas aos jovens.

Os humanistas
Como os modernos intelectuais desaprovam o patriotismo, uma estranha frieza e irrealidade paira sobre o seu amor
pelos homens. Se lhes perguntar se amam a humanidade, eles responderão prontamente que sim. Mas se lhes
perguntar a respeito das classes que compõem essa mesma humanidade, descobrirá que as odeiam todas. Odeiam
reis, odeiam padres, odeiam soldados, odeiam marinheiros, desconfiam dos homens de ciência, denunciam as
classes médias, desprezam os trabalhadores, mas adoram a humanidade. Eles falam sempre da humanidade como
se fosse uma curiosa nação estrangeira. Eles estão a separar-se cada vez mais dos homens para exaltar a estranha
raça da humanidade. Estão a deixar de ser humanos, num esforço para serem humanistas.

G. K. Chesterton in «The Patriotic Idea», 1904.

Um Sermão Sobre Tabernas – Primeiro Capítulo de “A Taberna Ambulante”


O mar, dum pálido verde élfico, ondeava numa tarde que já fora tocada pelo condão do anoitecer, enquanto uma
jovem senhorita, com cabelos pretos e um vestido cor de cobre, drapeado mui artisticamente, passeava um tanto
lânguida ao longo do passeio público de Pebblewick-on-Sea, a arrastar uma sombrinha e fitar o horizonte marinho.
Tinha uma razão para fitá-lo assim instintivamente: a mesma razão que outras tantas e inúmeras mulheres já haviam
tido, desde que o mundo é mundo. Mas não havia velas à vista.

Na praia ao pé do passeio, viam-se várias turbas pequenas apinhadas ao redor dos oradores habituais da beira-mar;
sejam negros ou socialistas, palhaços ou clérigos. Aqui, havia um homem a fazer sabe-se lá o quê com caixas de
papelão, e por horas a fio os turistas ficavam a ver tudo o que fazia, na esperança de descobrir o que afinal de contas
fazia; acolá, um homem, com um chapelão alto, uma Bíblia enorme nas mãos e uma esposa miúda e muda ao lado,
trovejava, furibundo, com os punhos cerrados, contra a heresia do sublapsarianismo,[1] tão em voga nas praias
badaladas. Não era coisa fácil entendê-lo — o homem estava tão alvoroçado — mas de quando em quando
ressoavam, num tom que vai entre o escárnio e o choro, as palavras: “os nossos amiguinhos sublapsarianos”. Logo
ao lado, estava um jovem a falar sobre o que ninguém (exceto ele mesmo) sabia, e, segundo tudo indicava, contava
cair nas boas graças do público sobretudo por ter um anel cenouras ao redor do chapéu. Tinha mais dinheiro à sua
frente do que os outros. A seguir, havia negros. Depois, havia uma como que escola dominical, conduzida por um
homem de cujos ombros despontava um pescoço espichado, e que marcava o tempo com uma pequena vareta de
madeira. Mais ao longe, havia um ateu, a arder de cólera, que lhes apontava de quando em vez o dedo rijo e entrava
a discursar sobre como as coisas mais puras da Natureza estavam a ser corrompidas pelos segredos da Inquisição
Espanhola – pelo homem com a pequena vareta, é claro. O ateu (que usava uma roseta vermelha) não era menos
mordaz com a sua própria audiência. — Hipócritas! — gritava ele; e eles lhe jogavam dinheiro. — Palermas!
Covardes! — e eles lhe jogavam mais dinheiro. Entre o ateu e as crianças, porém, estava um senhorzinho nanico,
com cara de coruja e um tarbuche vermelho na cabeça, a balançar anemicamente um velho guarda-chuva verde. Seu
cenho castanho sulcado por rugas parecia uma noz; seu nariz fazia lembrar a Judéia; já sua barba, negra e
pontiaguda, a longínqua Pérsia. A jovem nunca o vira antes; era um novo espécime no museu, que a estas tantas já
lhe era familiar, de esquisitões e charlatões. A senhorita era uma daquelas pessoas em cujo espírito há uma tensão
contínua entre um senso de humor genuíno dum lado e, do outro, uma certa tendência temperamental ao tédio e à
melancolia: deixou-se estar ali por um momento, e então se inclinou na balaustrada para ouvi-lo.

Ao menos quatro minutos passaram-se sem ela conseguir distinguir-lhe uma só palavra que lhe saía da boca; havia,
em seu inglês, um sotaque tamanho que a jovem chegou a pensar que o homem estava a falar em sua própria língua
oriental. Não havia som naquela articulação que não fosse estranho; além dos artigos que comia, dos gêneros que
invariavelmente trocava e do seu “r” desesperadamente arrastado, o senhorzinho muitas vezes movia, ao sabor do
acaso e do sotaque, as sílabas tônicas das palavras. Aos poucos, a garota foi-se habituando ao dialeto e começou a
entender-lhe os termos; conquanto mais um bom tanto de tempo tenha se passado até ser capaz de conjeturar qual
era o assunto de que as palavras poderiam estar tratando. Eventualmente, pareceu-lhe que o homem tinha alguma
fantasia sobre a civilização inglesa ter sido fundada pelos turcos; ou, talvez, pelos sarracenos, depois de sua vitória
nas Cruzadas. Parecia crer, também, que dentro em breve os ingleses haveriam de voltar àquela maneira de pensar,
e apresentava, aos berros, o crescimento da abstemia país afora como prova de sua teoria. A garota era a única
pessoa que o escutava.

— Véjam — ele dizia, a brandir um dedo trigueiro, recurvo como um sabre — véjam os seus tábernas (a sua versão
de “taberna”). Os tábernas sóbre o qual escrrevem em sua livrros! Estes táberrnas não surgiram parra vénder parra
vocês a bébida alcoólica cristão. Surgiram parra vender parra vocês o bébida não alcoólica islâmico. É só ólhar parra
a nome de seus tábernas. São nomes orrientais, nomes asiáticas. Vocês têm um táberna famosa, parra o qual vão as
suas ônibuzes em perregrinação. Chama-se “O Eléfante e Castelo”. Isto não é nome inglesa. É nome asiática. Vocês
dirrão que há castelo no Inglaterra, e eu concordo. Há o Castelo Windsor. Mas ónde — bradou ele, implacável, a
agitar o seu guarda-chuva verde em direção à garota, num arroubo retórico repleto de fúria — ónde ésta a Eléfante
de Windsor? Procurraram pór toda o Parque de Windsor. Nenhum eléfante.

A garota com os cabelos pretos sorriu; e começou a pensar, com seus botões, que se tinha aí um homem melhor que
todos os outros. Fiel ao estranho sistema, prevalente nas praias, de se fazer doações a religiões rivais, ela lhe deixou
uma moeda de dois xelins na bandeja redonda de cobre aos seus pés. Com afã honroso e desinteressado, o velho
cavalheiro com o tarbuche vermelho não lhe prestou atenção alguma e continuou, afável se bem que obscuramente,
com o seu argumento.

— Então, vocês têm uma lúgar parra se beber neste cidade, chamado “O Tourro”.

— Nós geralmente o chamamos de “O Touro” — disse a jovem senhorita, algo intrigada, com uma voz melodiosa.

— Vocês têm uma lúgar parra se beber neste cidade, chamado “O Tourro”! — ele reiterou, com uma raiva por assim
dizer abstrata — e, com cérrteza, sabem que é tudo muito ridículo!

— Não, não — disse a garota, maviosa, a fazer-lhe pouco caso.

— Por qual rázão deverria haver uma Tourro — ele clamou, arrastando os erres, sem dó nem piedade — Por qual
rázão deverria haver uma Tourrro em conexão com um festividade lócal? Quem pensa numa Tourro quando está em
járdim de deleite? Parra que serve uma Tourro quando assistimos às dónzelas cor de túlipa dánçando ou enchendo
os taças de bébida espumante? — Vocês, meus amigas — e, radiante, olhou em volta praia afora, como se uma
enorme multidão estivesse a ouvi-lo — vocês têm um provérbio: ‘Não é de esperrar que prromova a prósperidade
ter uma Tourro num loja de pórcelanas.’ Igualmente, meus amigas, não serria de ésperar que manter uma Tourro
num loja de vinhos vá prómover a prósperidade. Tudo isto é clarro.

Espetou o guarda-chuva na areia e tamborilou os dedos de uma mão com os dedos da outra, qual um homem que,
finalmente, chegou ao que interessa.

— É tão clarro quanto a Sol na meio-dia — disse ele, solenemente — É tão clarro quanto o Sol na meio-dia que este
pálavra ‘Toourrro’, despróvido de qualquer associações pácificas ou aprrazíveis, não é senão o corruptela de outrro
pálavra, que possui associações pácificas e apráziveis. O pálavra não é “tourro”; é Mourro! — Subitamente, sua voz
se ergueu e encorpou qual o som duma trombeta, e ele escancarou os braços como as folhas pontiagudas de uma
palmeira.

Passado o grande efeito, conteve-se um pouco mais e se apoiou, mui grave, no guarda-chuva que fincara na areia. —
Vocês irrão éncontrar a mesmo trraço de nomenclatûrra asiático nos nomes de todas os seus tábernas inglesas —
continuou. — Mais, irrão encontrá-lo, estou quase cêrto, em todas os térmos que esteja de algum môdo ligados a
seus festas e répousos. Orra, meus bons ámigos, o nome mêsma daquele espírrito insidioso com que tôrnam os seus
bébidas fortes é um pálavra arrábico: álcool. É óbvio, não é, que temos aí ártigo arrábico ‘Al’, como Alhambra, como
Álgebra; e não serria préciso enumerrar os numerrosas apárições do sufixo em conexão com o seus instítuições
féstivos, como seu cerveja Alsop, o seu Ally Sloper,* e em seu instítuição parrcialmente féstiva do Albert Memorrial.
Ácima de tûdo, naquela grrande dia féstivo, neste seu Nátal, que vocês tão érroneamente supõem estarr conectado
com o seu religião. O que vocês dizem, então? Dizem as nomes dos nações cristáos? Dizem vocês, ‘Oh, acho que vou
pégar um pouco de França. Uma tántinho de Irlanda. Uma bocado de Escócia. Uma ou dois pédaços de Espanha?
Nããão! — E o som da negativa ressoou como o balir de um bode. — Vocês dizem, ‘eu vou pégar pouco da carne
de marreco[3]; e tódos sabem que marreco vém de Márrocos, que é a nóme que dão ao País dos sêrvos do Prrofeta!

* Ally Sloper é um personagem fictício da tiras de quadrinhos com o mesmo nome. É um dos primeiros personagens
a aparecer, de modo recorrente, em mais de uma tirinha. É um malandro vadio, perpetuamente bêbado, com o
nariz vermelho de tanta pinga, que vive a escapulir de seus credores.

E uma vez mais espraiou formidavelmente os braços para leste e oeste, apelando a Céu e Terra. A jovem senhorita, a
fitar o horizonte esverdeado das águas com um sorriso nos lábios, entrou a bater palmas, suavemente, com as suas
mãos enluvadas, como se em peroração. Mas o homenzinho com o tarbuche estava longe de acabar.

— Em résposta, vocês irrão objetar… — recomeçou.

— Oh, não, não — gaguejou e tartamudeou a senhorita, como se num arrebatamento sonhador. — Eu não objeto.
Não objeto nadinha!

— Em résposta, vocês irrão objetar — prosseguiu o seu preceptor — que as nómes de alguns tábernas vêm, na
verrdade, dos símbolos de seus superrstições nácionais. Logo virrão me dizer que o Gólden Cross está em frrente
ao Charing Cross, e irrão discorrer, com détalhes, sobre King’s Cross, e Gerrard’s Cross, e os muitos crrûzes que se
podem êncontrar em Londrres e em seus prroximidades. Mas vocês não dévem esquécer — e aqui sacudiu,
velhacamente, com a ponta voltada à garota, o guarda-chuva verde, como se quisesse espetá-la —, nenhum de
vócês, meus ámigos, devem esquécer quantas Créscentes[4] há em Londrres! Denmark Crescent, Mornington
Crescent, St. Mark’s Crescent, St. George’s Crescent, Grosvenor Crescent, Regent’s Park Crescent! Mais, Royal
Crescent! E por que deverríamos esquécer de Pelham Crescent?[5] Porr que, de fato? Em tódas os lugarres, digo eu,
préstarram-se homenagens à símbolo ságrado do religião do Prófeta! Comparrem, com este rede e pádrão de
créscentes, com este cidade quase feito de créscentes, a parrca exibição de crrûzes, que áinda ésta porr aí apenas
parra evidenciar o superstição efêmerra ao qual vocês, numa mómento de frraqueza, se sentirram inclinados.”

Como já estivesse próxima a hora do chá, os magotes na praia se iam rarefazendo rapidamente. À medida em que
caía a noite, o céu a oeste ia-se tornando cada vez mais límpido e desanuviado, até que a luz do Sol como que
mergulhou por trás do pálido horizonte d’água e de lá brilhou, como através duma fina camada de vidro esverdeado.
O translúcido mesmo do céu e do mar poderia insinuar àquela garota, que via nas águas o romance e a tragédia,
qualquer coisa como uma radiante desesperança. A cheia, feita de um milhão de esmeraldas, estava a recuar tão
morosamente quanto o Sol estava a afundar; mas o rio de baboseiras humanas corria eternamente.
— Não digo, absólutamente — continuou o velho — que não há dificuldades no que prroponho; ou que todos as
exemplos são tão ôbviamente verrdadeirros quanto os que ágorra elenquei. Nããão!. Ésta óbvio, dígamos, que “O
Cabeça do Sárraceno” é um corruptela do verrdade histórrico, “O Sarraceno é o Cábeça.” Não digo que é igûalmente
óbvio que “O Drragão Verde” tenha sido, orriginalmente, “Vede o Drogomano”; conquanto esperre próva-lo, na
livrro que estou escrrevendo. Aqui, dirrei apenas que é muito mais próvavel que alguém, querrendo atrair o viajante
na déserrto, fosse se comparrar a uma guia ou aio ámigavel e pérsuadivel, e não a uma monstrro devórrador. Às
vezes, é muito difícil rastrrear o orrigem verdadeira; como no caso do táberna que homenageia o nosso grrande
guérreiro muçulmana, Al-Bahair Dameer, nóme que vocês abrreviaram – um tanto éxcentricamente, diga-se – para
Bar do Ademir. Outrros vézes, os coisas são ainda mais difíceis parra quem busca o vérdade. Há uma lûgar de
bébidas aqui perrto chamado “O Velho Návio”…

O olhar da garota continuou pregado na linha do horizonte, tão imóvel quanto a linha mesma; mas a sua face se
corara e transformara. Já não havia quase ninguém na praia agora: o ateu tornara-se tão inexistente quanto o seu
Deus; e aqueles que haviam acalentado a esperança de saber o que é que se estava a fazer com as caixas de papelão
foram embora para os seus chás sem sabê-lo. Mas a jovem continuava debruçada sobre o parapeito. O seu rosto
como que tomara vida de repente; seu corpo parecia paralisado.

— Eu ádmito — baliu o velho com o guarda-chuva verde — que não há quálquer sinal auto-évidente do
nomenclaturra asiático nos velhas pálavras “O Velho Návio”. Mesma aqui, porrém, quem busca o vérdade pode
descóbrir fatos. Questionei o proprrietário desta “O Velho Návio”, que é, de acorrdo com os notas que tenho áqui
cómigo, uma cerrto sr. Pumph.

Os lábios da garota tremeram.

— Pobre Hump! — disse ela. — Minha nossa, havia me esquecido completamente dele. Deve estar ele quase tão
preocupado quanto eu! Espero que este homem não entre a falar bobagens sobre isso! O melhor seria se falasse de
outro assunto qualquer!

— E a sr. Pumph disse-me que quem derra a nome ao táberna forra um ámigo íntimo seu, um írlândes que havia sido
capitão no Marrinha Real Brritânico, mas renunciara a carrgo, indignado com a trratamento dado à Irrlanda. E muita
emborra houvesse abandonado a serrviço militar, o capitão conserrvou ainda um tanto de supérstição de seus
marinheirros ócidentais, e quis que o táberna de seu amigo ficasse com o nóme de sua velho barrco. Como, porrém,
o nome do barrco era A Reino Unido”…

Sua pupila, conquanto não estivesse exatamente sentada aos seus pés, estava indubitavelmente inclinada à frente,
com um olhar sôfrego que se não lhe despegava. Em meio à solidão da praia, gritou, numa voz sonora e límpida: —
Você pode me dizer o nome do capitão?

O senhorzinho deu um salto, piscou e entrou a fitá-la com os olhos esbugalhados de uma coruja aturdida. Tendo
falado por horas a fio como se para uma audiência de milhares, ele de súbito pareceu um tanto embaraçado ao
descobrir que tinha, afinal de contas, uma audiência em absoluto. Àquelas tantas da tarde, não parecia haver outras
criaturas humanas na beira-mar que não os dois; não parecia haver outras criaturas vivas, exceto as gaivotas. O Sol,
pondo-se enfim, esparramou-se vermelho no céu como uma laranja de sangue poderia esparramar-se no chão; e
linhas de luz carmesim haviam sido vertidas ao longo do céu cindido, baixo e liso. Este esplendor abrupto e tardio
roubou ao tarbuche e ao guarda-chuva do homem o vermelho e o verde; a sua silhueta, no entanto, recortada
contra o mar e o pôr do Sol, permanecia a mesma de antes – apenas mais alvoroçada do que antes.

— A nome — disse ele — a nome do cápitão. Salvo engano, erra Dalroy. Mas o que querro fazer notar, o que desejo
demonstrrar, é que áqui, mais uma vez, aquele que está em busca do vérdade pode encontrrar o conexão de suas
ideias. O sr. Pumph explicou-me que o táberna estava sendo rearranjada, de modo considerrável, parra o retorrno
muito ésperada do capitão em questão, que havia, ao que parrece, sérvido em algum pequena marrinha, mas a
deixarra e estava a voltar parra casa. Ágora, prrestem muito atenção, meus ámigos — disse ele às gaivotas — pois
mesmo áqui se pode verr que o lógica é impecável.

Dissera-o às gaivotas pois a jovem senhorita, após cravar-lhe uns olhos rútilos por um instante, debruçando-se ainda
mais sobre o parapeito, virara as costas e desaparecera, ligeira, no crepúsculo. Após o som de seus passos
apressados diminuir, e enfim morrer ao longe, não havia na praia outro som senão o quebrar-se, sumido se bem que
poderoso, das ondas no mar, o guincho ocasional de uma ave marinha e o som contínuo de um solilóquio.

— Prrestem átenção, todas vocês — prosseguiu o velho, a brandir o guarda-chuva com uma fúria tamanha que por
pouco não o abriu e fê-lo voar, qual uma bandeira verde desfraldada, para logo depois fincá-lo fundo na areia, na
areia em que os seus pais guerreiros tão amiúde fincaram as suas tendas. — Prrestem átenção, vocês todas, nesta
fato marravilhoso! Que eu, por álguns instantes atônito – embarraçado até; sem sáber o que fázer, como vocês
dirriam – com o ausência de qualquerr evidência ábsoluta sobre o influência orriental no frrase “O Velho Návio”,
quando perguntei, vejam bem, de que páis o capitão estava retorrnando, o sr. Pumph me réspondeu, sólene: “Do
Turquia”. Do Turquia! Do páis mais prróxima à Religião! Sei que as homens dizem que esse não é nosso páis. Mas
que imporrta de onde viemos se trrazemos um ménsagem do Parraíso? O trrazemos com a éstrondo do galope dos
cávalos, e não temos tempo parra parrar. O que trrazemos, pórem, é a único crredo que levou em conta áquilo a que
vocês chamam, com seus pálavras grrandiloquentes, o virrgindade do razão do homem; a único crredo que não fez
de homem álgum maiorr do que uma prófeta, e rrespeitou o sólidão de Deus.

E uma vez mais abriu e esticou os braços, como se tivesse por plateia uma multidão de milhões, completamente
sozinho na praia escura.

[1] Sublapsarianismo: doutrina que, conquanto calvinista, opõe-se ao supralapsarianismo e diz que Deus apenas
permitiu, e não decretou, a Queda. Parte dos seguidores de Calvino aderiram a esta, parte àquela. É bastante similar
ao infralapsarianismo.

[2] No original, Chesterton faz um trocadilho intraduzível com “Bull” (touro) e “Bulbul” (pequeno pássaro, oriundo da
Ásia). A fim de manter a piada e evitar que você, caro leitor, seja obrigado a vir até aqui ler esta nota para entender
alguma coisa, fiz um trocadilho eu mesmo com “touro” e “mouro”. Se algo mais óbvio que o original, foi ao fim e ao
cabo um achado.

[3] Turkey, no original: palavra que pode designar tanto o afamado peru de Natal quanto o país Turquia.

[4] Crescente: o símbolo da meia-lua, adotado por alguns países islâmicos.

[5] Respectivamente, uma vila e paróquia civil no distrito de Wealden, em East Sussex; uma junção de três ruas no
centro de Londres, próxima à Trafalgar Square; um distrito do borough de Camdem, em Londres, e uma cidadezinha
e paróquia civil situada no distrito de South Bucks, em Buckinghamshire.

https://www.sociedadechestertonbrasil.org/um-sermao-sobre-tabernas-primeiro-capitulo-de-taberna-ambulante/

Religião e Sexo
Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo

O homem honesto que diz que deseja que o cristianismo seja meramente prático e não teórico ou teológico,
raramente consegue explicar o que ele exatamente quer dizer. Essa é a razão de haver tanta repetição simplesmente
verbal no que ele diz. Geralmente, os pobres teóricos e teólogos têm de explicá-lo o que ele quer dizer. De qualquer
forma, ele quer dizer algo mais ou menos assim. Um número muito grande de pessoas saudáveis e bondosas é, hoje,
oportunista. Todos acreditamos que devemos cortar nosso casaco de acordo com o tecido que temos, no sentido de
que ninguém pode fabricar um casaco sem tecido. Mas se o costureiro me diz que todo o tecido em estoque é
amarelo-mustarda brilhante, decorado com caveiras escarlates, terei de adiar o quanto puder o uso desse tecido
para meu novo casaco, podendo até constranger-me, e ao costureiro, sugerindo-lhe procurar outro tipo de tecido

Contudo, há um tipo de homem que usará prontamente o casaco amarelo pela simples existência do casaco
amarelo. Ele é um oportunista num sentido diferente do meu. Há uma diferença entre um cliente que consegue o
que quer, tanto quanto lhe seja possível e aquele que consegue o que não quer porque isso lhe é possível.

Em outras palavras, há uma diferença entre conseguir o que se quer, sob certas condições e permitir que as
condições lhe digam o que você pode conseguir, ou mesmo o que você quer. No entanto, é possível passar pela vida
sendo controlado pelas circunstâncias dessa forma. Se minha quadra de tênis for inundada, posso, claro, transformá-
la num lago ornamental. Ou posso me dar o trabalho de drenar o campo e protegê-lo contra inundações,
permanecendo fiel ao ideal abstrato e dogmático de uma quadra de grama. Se uma árvore cai sobre minha casa e faz
um buraco no teto, posso transformar o buraco numa clarabóia e a árvore numa saída de emergência. Mas se eu
não quiser uma clarabóia e uma saída de emergência, estou sendo manipulado pela árvore. E isso é uma posição
indigna para um homem.

É a posição indigna da maioria dos homens modernos. Eles são oportunistas, não só no sentido de conseguirem o
que querem da forma mais prática, mas de tentarem querer a coisa mais prática; isto é, meramente a coisa mais
fácil. Essa é a razão de eles não entenderem a base do idealismo cristão em muitas questões e especialmente na
questão do sexo. Eles estão sempre sendo desviados pelas inundações e árvores caídas, especialmente aquela
árvore do conhecimento que é o símbolo da queda e que certamente fez um buraco na casa, no sentido do lar. Mas
a questão aqui é que essas pessoas constroem um novo plano ou propósito sexual depois de cada eventual novo
acontecimento. Quando há mais mulheres do que homens, eles começam a falar sobre poligamia. Quando há mais
crianças do que é conveniente para os indivíduos criarem com um salário decente, eles começam a falar de alguns
truques que são um tipo de substituto para o infanticídio.

Ninguém pode entender a teoria do sexo cristã sem entender a idéia do homem ter um plano que ele deseja impor
sobre as circunstâncias, ao invés de esperar pelas circunstâncias para então ver que plano ele vai ter. O cristão
deseja criar as condições para que o casamento cristão seja possível e digno em si; não aceitar qualquer coisa
possível nas mais indignas condições. Porque ele o quer e o que ele realmente é, consideraremos num momento;
mas é necessário tornar claro de início que o casamento cristão não é algo que nos é sugerido pelas condições
sociais do nosso entorno; é algo que nos é sugerido por Deus, pela nossa consciência comum e pelo sentido de
honra da humanidade em geral. E isso é o que nosso pobre amigo quer dizer quando diz que nós não somos práticos;
ele quer dizer que nós não estamos sempre consertando nossa casa e alterando nosso jardim para acolher em seu
interior uma árvore caída ou uma tromba d’água.

Ele quer dizer que temos um plano para nossa casa e jardim e que estamos sempre tentando restaurá-los e
reconstruí-los de acordo com o plano. Não propomos rasgar o plano original e seguir uma seqüência de acidentes;
até que a casa seja enterrada sob árvores caídas e os campos sejam inundados e todo o trabalho do homem seja
levado pela enxurrada. Isso é o que ele entende por nossa impraticabilidade, e ele está certo.

Descrito em termos humanos, o plano é substancialmente este. Que o amor que faz a juventude bela, e é a fonte
natural de tanta canção e romance, tem por objetivo final um ato de criação, a fundação da família. Ao mesmo
tempo em que é um ato criativo, como o de um artista, é também um ato coletivo, como o de uma pequena
comunidade. É, talvez, o único trabalho artístico em que a colaboração é um sucesso e mesmo uma necessidade. É
preciso de dois para começar uma briga, especialmente uma briga de amantes. Precisa-se também de dois para
estabelecer um acordo de amantes segundo o qual seu amor deve ser colocado acima da briga. Mas, por definição, o
acordo dos dois não é simplesmente concernente aos dois; mas, num sentido terrível, a outros. A fundação de uma
família, como todo ato criativo, é uma responsabilidade tremenda. Em outras palavras, a fundação de uma família
significa a alimentação de uma família, o treinamento, o ensinamento e a proteção de uma família. É o trabalho de
uma vida inteira, e muitos casamentos têm uma vida muito curta. Sua continuidade é garantida, não por “leis
matrimoniais” que nossas modernas plutocracias podem criar ao seu bel-prazer, mas por um voto voluntário ou
invocação a Deus feita pelas duas partes, que eles vão se ajudar nesse trabalho até a morte. Para aqueles que
acreditam em Deus e também acreditam no significado das palavras, isso é final e irrevogável.

Esse ato criativo é em si um ato livre. Esse ato criativo, como todos os atos criativos, não envolve uma perda de
liberdade. O homem que constrói uma casa não recupera aquele castelo que ele construiu e reconstruiu no ar
quando ele estava planejando a casa. Nesse sentido, podemos dizer, se quisermos, que o homem que constrói uma
casa, constrói uma prisão. Há algo de final em todo grande trabalho, mas é possível sentir nesse trabalho um tipo
peculiar de finalidade. A paixão de um homem em sua juventude encontrou seu caminho verdadeiro e alcançou seu
objetivo e, apesar do amor não precisar acabar, a busca por ele terminou.

Pelo teste desse objetivo e consecução, todas as coisas condenadas pela ética cristã se encaixa em seus vários níveis
de erro. Prolongar a busca de uma forma sentimental, muito depois de ela ter qualquer relação com o trabalho real
do homem é um erro em vários níveis; quase sempre isso não é mais que ridículo e indigno; turpe senilis amor.
Permitir que a busca perambule de forma a destruir outros lares saudavelmente estabelecidos é, por essa definição,
obviamente errado. Cultivar uma perversão mental que realmente remova o desejo por um ato frutífero é
horrivelmente errado. Comprar um prazer estéril de uma classe estéril é errado. Manobrar cientificamente de forma
a furtar o prazer sem assumir a responsabilidade pelo ato, é lógica e inerentemente errado. É como andar por aí com
uma medalha sem ter ido à guerra.

Nós acreditamos, sem uma sombra de dúvida e hesitação, que onde as condições se aproximam desse ideal, a
humanidade é mais feliz. Assim, o nascimento da paixão é usado com um menor grau de destruição. Assim, a morte
da Paixão é aceita com um menor grau de desilusão. Um trabalho construtivo da idade adulta segue naturalmente o
trabalho criativo da juventude; à paixão é dada uma extraordinária oportunidade de se perpetuar como afeição, e a
vida do homem é tornada plena. Há nela tragédias, como há igualmente tragédias fora dela. Não podemos livrar a
vida de tragédias sem livrá-la da liberdade. Não podemos controlar a atitude emocional dos outros nem numa
condição de anarquia sexual, nem nas condições de lealdade doméstica. O amor é realmente excessivamente livre
para os propósitos dos amantes livres. Mas onde os homens são treinados pela tradição a considerar esse processo
normal, e a não esperar por nada diferente, há muito menos probabilidade de trágicos relacionamentos do que no
amor chamado livre. Se observamos a literatura real do amor irresponsável, encontraremos um contínuo e dolorido
lamento sobre falsas amantes e torturantes casos amorosos.

Em resumo, nós não acreditamos, de forma alguma, na grande felicidade prometida à humanidade pela dissolução
de lealdades de uma vida toda; não sentimos o menor respeito pela retórica sentimental e grosseira com que isso
nos é recomendado. Mas o resultado prático de nossa convicção e de nossa confiança é este: que quando as pessoas
nos dizem – “Seu sistema não é muito inadequado para o mundo moderno,” respondemos – “Se isso é verdade, as
coisas parecem bem podres no pobre e antigo mundo moderno.” Quando eles dizem – “Seu ideal de casamento
pode ser um ideal, mas não pode ser uma realidade, ” dizemos – “é um ideal numa sociedade doente, é uma
realidade numa sociedade saudável. Pois, onde ele é real, ele faz a sociedade saudável.” Não dizemos perfeitamente
saudável, pois acreditamos em outras coisas além do casamento; como, por exemplo, na Queda do Homem. Mas a
questão é que queremos o que é prático, no sentido de que queremos fazer algo, criar famílias cristãs. Mas eles só
querem o que é prático, no sentido do que é mais fácil no momento.

Assim, de acordo com a teoria geral do casamento, a paixão é purificada por sua própria frutificação, quando esta
frutificação é o seu dignificante e decente objetivo final. Em poucas palavras, podemos dizer que substituiríamos a
meia-verdade do “amor pelo amor”, por uma verdade superior do “amor pela vida”. O amor é sujeito à leis porque é
sujeito à vida. É verdade, não só metafisicamente, nem mesmo simplesmente num sentido místico, mas num sentido
material, que podemos ter vida e que a podemos ter mais abundantemente. Isso não quer dizer, claro, que o amor
não tenha seu próprio valor espiritual, quando honoráveis acidentes o impedem de ser frutífero. Mas isso não
significa que, em geral, possamos julgar os amores dos homens por outra metáfora mística que é também um fato
material e por seus frutos os conheceremos.

Tal princípio é, ou era até recentemente, compartilhado por todos os que se dizem cristãos. Há um apêndice a este
princípio que é professado por todos os que se dizem católicos. É uma idéia mais mística; e talvez somente os
católicos se esforçaram em defini-lo racional e filosoficamente. Não é verdade, contudo, que somente católicos já o
sentiram. Os antigos pagãos já o sentiram sutilmente em suas visões de Atenas, Ártemis e das Virgens Vestais. Os
agnósticos modernos o sentem debilmente em sua adoração pela inocência infantil – em Peter Pan ou no Child’s
Garden of Verses. Essa idéia é a de que há, para alguns, uma felicidade ainda mais divina que a do divino sacramento
do matrimônio. Este é um assunto muito especial e muito grande para ser tratado aqui; mas dois fatos deveras
singulares devem, sobre ele, ser notados. Primeiramente, que os estados industriais modernos estão invocando o
pesadelo da super-população, depois de terem, eles próprios destruído as irmandades monásticas que foram uma
limitação voluntária e viril a esse pesadelo. Em outras palavras, eles estão, muito relutantemente, recorrendo ao
controle de natalidade, depois de realmente suprimirem a prova de que os homens são capazes de auto-controle.
Em segundo lugar, se tal abstenção fosse realmente exigida, essa tradição religiosa poderia dar a ela um entusiasmo
positivo e poético, onde todas as outras fariam dela apenas uma mutilação negativa. Os católicos acreditam na razão
e gostam de ver as coisas práticas provadas; e, atualmente, a necessidade não está provada; somente mencionada
como se tivesse, como se comentassem a respeito de Darwin e Einstein. Mas, mesmo se ela estivesse provada, os
católicos teriam uma resposta muito melhor do que a dos outros: as trombetas de São Francisco e São Domingos. E
os bons protestantes irão finalmente concordar que a resposta é melhor do que a alternativa de um tipo de anarquia
secreta e silenciosa, na qual os motivos são estreitos e os resultados nulos. E por este caminho, voltamos ao tema
original do casamento ideal; e à verdade principal sobre ele. Uma coisa tão humana não irá, finalmente, desaparecer
por entre acidentes de uma sociedade anormal. Essa sociedade nunca será capaz de julgar o casamento. O
casamento julgará essa sociedade; e pode possivelmente condená-la.

Em defesa das Promessas Temerárias


Capítulo do livro O Defensor , publicado pela Editora Ecclesiae.

Tradução de Mateus Leme.

Se um próspero homem moderno, de cartola e fraque, se comprometesse solenemente perante todos os seus
funcionários e amigos a contar as folhas de uma em cada três árvores em Holland Walk, pular em um pé só até a
City todas as quintas-feiras, repetir setenta e seis vezes do começo ao fim “A Liberdade” de Mill, colher trezentos
dentes-de-leão em campos que pertencessem a pessoas com o nome Brown, ficar por trinta e uma horas segurando
sua orelha esquerda com a mão direita, cantar os nomes de todas as suas tias em ordem de idade de cima de um
ônibus, ou outra promessa igualmente estranha, concluiríamos imediatamente que o homem estaria louco, ou,
como às vezes se diz, era “um artista na vida”. Porém estes votos não são mais extraordinários do que aqueles que
eram feitos na Idade Média e em outros períodos similares, não apenas por fanáticos, mas pelas maiores figuras da
civilização nacional e cívica — por reis, juízes, poetas e sacerdotes. Um homem jurou prender duas montanhas
juntas com uma corrente, e lá ficou a grande corrente, pelo que se conta, durante eras, como um monumento
àquele místico disparate. Outro jurou que encontraria o caminho para Jerusalém com os olhos vendados, e morreu
procurando. Não é fácil entender que essas duas façanhas, julgadas de um ponto de vista estritamente racional,
sejam mais sensatas do que os atos sugeridos antes. Uma montanha é geralmente um objeto estacionário e
confiável, que não é preciso acorrentar à noite como um cachorro. E não é muito fácil à primeira vista entender que
um homem esteja fazendo uma grande homenagem à Cidade Santa ao partir à sua procura sob condições que
tornam extremamente improvável que algum dia chegue lá.

Porém há algo surpreendente a ser notado nisso. Se os homens se comportassem dessa maneira em nosso tempo,
como dissemos, considerá-los-íamos como símbolos de “decadência”. Mas aqueles que o fizeram então não eram
decadentes; pertenciam em geral às classes mais robustas daquela que é geralmente considerada uma época
robusta. Da mesma forma, dir-se-á que se homens essencialmente sãos realizaram tais insanidades, foi sob a
caprichosa orientação de um supersticioso sistema religioso. E isto também não se sustenta; pois, nos setores
puramente terrestres e mesmo sensuais da vida, como o amor e a luxúria, os príncipes medievais demonstram as
mesmas loucas promessas e façanhas, a mesma imaginação deformada e a mesma monstruosa autoimolação.
Temos aqui uma contradição, e para explicá-la é necessário considerar toda a natureza dos votos desde o princípio.
E, se considerarmos séria e corretamente a natureza dos votos, chegaremos, a menos que eu esteja muito
enganado, à conclusão de que é perfeitamente são, e mesmo sensato, jurar acorrentar montanhas, e que, se a
insanidade estiver envolvida de alguma forma, é no sentido de que é um pouco insano não o fazer.

O homem que faz um voto assume um compromisso consigo mesmo em algum lugar ou momento distante. O perigo
é que não consiga honrar o compromisso. E nos tempos modernos este terror que as pessoas sentem sobre a
própria fraqueza e mutabilidade aumentou perigosamente, e é a verdadeira base para a objeção a votos de qualquer
natureza. Um homem moderno evita jurar contar as folhas de uma em cada três árvores em Holland Walk, não
porque seja algo tolo a se fazer (pois faz muitas outras coisas mais tolas), mas porque tem a profunda convicção de
que, antes que chegue à tricentésima septuagésima nona folha da primeira árvore, estará excessivamente farto do
assunto e quererá ir para casa tomar o chá. Em outras palavras, tememos que naquela hora ele será, na expressão
comum mas odiosamente significativa, outro homem. Ora, é este horrível conto de fadas de um homem mudando-
se constantemente em outros homens o que é a alma da Decadência. Que John Paterson queira, com aparente
calma, ser um certo General Barker na segunda-feira, Dr. Macgregor na terça, Sir Walter Carstairs na quarta e Sam
Slugg na quinta, pode parecer um pesadelo; mas a esse pesadelo damos o nome de cultura moderna. Um grande
decadente, que agora está morto, publicou um poema há algum tempo, em que resumiu com grande força todo o
espírito do movimento ao declarar que era capaz de colocar-se no pátio da prisão e compreender
completamente os sentimentos de um homem prestes a ser enforcado:

“Pois aquele que vive mais do que uma vida


Mais do que uma morte deve sofrer.”

E o final de tudo isso é aquela enlouquecedora e horrorosa perda do sentido de realidade que se abate sobre os
decadentes, e comparada com a qual a própria dor física teria o frescor de uma coisa jovem. Aquele inferno que a
imaginação deve conceber como o mais infernal é o de estar eternamente interpretando uma peça sem sequer a
mais estreita e suja coxia onde ser humano. E esta é a condição do decadente, do esteta, do amante-livre. Estar
perpetuamente atravessando perigos que sabemos que não nos podem atingir, fazendo juramentos que sabemos
que não nos podem comprometer, desafiando inimigos que sabemos que não nos podem conquistar — esta é a
sorridente tirania da decadência que chamamos liberdade.

Voltemo-nos, por outro lado, para aquele que faz promessas. O homem que fez um voto, não importa o quão
disparatado, expressou de forma saudável e natural a grandeza de um grande momento. Prometeu, por exemplo,
prender duas montanhas com uma corrente, talvez como símbolo de algum grande alívio, ou amor, ou aspiração.
Por mais breve que seja o momento de sua resolução, foi, como todos os grandes momentos, um momento de
imortalidade, e o desejo de poder dizer exegi monumentum aere perennius era o único sentimento que satisfaria
sua mente. O esteta moderno perceberia facilmente, é claro, a oportunidade emocional, e prometeria acorrentar
duas montanhas. Mas prometeria também com a mesma jovialidade acorrentar a terra à lua. E a débil consciência
de que não queria dizer o que disse, de que não estava, na realidade, dizendo nada de grande importância, tiraria
dele exatamente aquele sentido de ousada realidade que é o que torna um voto excitante. Pois o que poderia ser
mais enlouquecedor do que uma existência em que nossa mãe ou tia reagissem à informação de que iríamos
assassinar o rei ou construir um templo em Ben Nevis com a amável compostura de costume?

A revolta contra os votos foi levada em nossos dias até o ponto de uma revolta contra o típico voto do casamento. É
muito divertido escutar os oponentes do casamento sobre esse assunto. Parecem imaginar que o ideal de fidelidade
foi um jugo misteriosamente imposto à humanidade pelo diabo, ao invés de ser, como é, um jugo consistentemente
imposto por todos os apaixonados sobre si mesmos. Inventaram uma frase, que é uma clara contradição em termos
em duas palavras — “amor livre” — como se um amante alguma vez tenha sido ou possa algum dia ser livre. É da
natureza do amor prender-se, e a instituição do casamento simplesmente fez ao homem comum o cumprimento de
tomá-lo ao pé da letra. Os sábios modernos oferecem ao amante, com um sorriso desagradável, as maiores
liberdades e a mais plena irresponsabilidade; porém não o respeitam como a igreja antiga respeitava; não escrevem
seu juramento nos céus, como o registro do seu momento mais elevado. Dão-lhe todas a liberdades, exceto a de
vender sua própria liberdade, que é a única que deseja.

Na brilhante peça “O Namorador”, do Sr. Bernard Shaw, temos uma vívida imagem deste estado de coisas. Charteris
é um homem perpetuamente em busca de ser um amante livre, o que é o mesmo que tentar ser um solteiro casado
ou um negro branco. Perambula em uma ávida busca de uma certa felicidade que só consegue atingir quando tem a
coragem de parar de perambular. Os homens eram mais espertos do que isso nos tempos antigos — por exemplo,
nos tempos dos heróis de Shakespeare. Em Shakespeare, quando os homens são realmente celibatários, louvam as
indubitáveis vantagens do celibato: liberdade, irresponsabilidade, uma contínua possibilidade de mudança. Mas não
são tolos a ponto de continuarem a falar de liberdade quando chegam a uma condição na qual poderiam se tornar
felizes ou desgraçados pelo movimento da sobrancelha de outra pessoa. Suckling junta o amor com as dívidas em
seu elogio da liberdade:

“E quem de ambos livre está

Ditoso é entre os homens.

Vive naquela era de ouro,

Em que tudo era de todos;

Fuma seu cachimbo, bebe seu vinho,

Sem temer mulher ou homem”

“And he that’s fairly out of both


Of all the world is blest.

He lives as in the golden age,

When all things made were common;

He takes his pipe, he takes his glass,

He fears no man or woman.”

Esta é uma posição perfeitamente possível, racional e varonil. Porém o que têm os apaixonados a ver com ridículas
afetações de não temer mulher ou homem? Eles sabem que ao movimento de uma mão toda a engrenagem cósmica
até a estrela mais remota pode tornar-se um instrumento musical ou um instrumento de tortura. Ouvem uma
canção mais antiga do que a de Suckling, e que sobreviveu a uma centena de filosofias: “Quem é esta que olha pela
janela, bela como o sol, clara como a lua, temível como um exército em ordem de batalha?”

Como dissemos, é exatamente esta porta dos fundos, esta noção de termos uma rota de fuga atrás de nós que é,
para as nossas mentes, o espírito esterilizador no prazer moderno. Em todo lugar há o esforço persistente e insano
de obter prazer sem pagar por isso. Assim, na política, os jingoístasmodernos praticamente dizem: “Tenhamos os
prazeres dos conquistadores sem as dores dos soldados: vamos sentar-nos em sofás e ser uma raça corajosa”. Assim,
na religião e na moral, os místicos decadentes dizem: “tenhamos a fragrância da santa pureza sem o sofrimento do
autodomínio; cantemos hinos alternadamente à Virgem e a Príapo”. Assim, no amor os amantes livres dizem:
“Tenhamos o esplendor de nos oferecermos sem o perigo de nos entregarmos; vejamos se não é possível cometer
suicídio um número ilimitado de vezes”.

Enfaticamente, não vai funcionar. Há momentos emocionantes, sem dúvida, para o espectador, o amador e o esteta;
porém há uma emoção que é conhecida apenas pelo soldado que luta por sua própria bandeira, pelo asceta que
passa fome para sua própria iluminação, pelo apaixonado que finalmente toma a sua decisão. E é esta transfigurante
autodisciplina que torna o voto algo verdadeiramente sensato. Deve ter sido satisfatório, mesmo para a gigantesca
fome da alma de um amante ou poeta, saber que, em consequência de um instante decisivo, aquela estranha
corrente ficaria pendurada por séculos nos Alpes entre o silêncio das estrelas e a neve. À toda nossa volta está a
cidade dos pequenos pecados, abundante em saídas dos fundos e rotas de fuga, mas certamente, mais cedo ou mais
tarde, chamas violentas se erguerão do porto anunciando que o reino dos covardes acabou e um homem está
queimando seus navios.

1. Região mais antiga do centro de Londres, hoje um importante distrito empresarial. (N do T)

2. Obra do filósofo John Stuart Mill, publicada em 1859, que defende os princípios do utilitarismo. (N do T)

3. Citação da “Balada da Prisão de Reading”, de Oscar Wilde. O texto original é “For he who lives more lives than
one/ More deaths than one must die.” (N do T)

4. “Erigi um monumento mais duradouro do que o bronze”, verso de um poema do livro III das Odes de Horácio. (N
do T)

5. Maior montanha das ilhas britânicas, localizada na Escócia, com altitude de 1344m. (N do T)

6. Referência ao poema “Love and Debt – alike troublesome” [“Amor e Dívida – dois problemas”], de John Suckling
(1609-1642), poeta inglês renomado por um tom alegre e descuidado. No poema em questão, critica em conjunto o
amor e as dívidas, pois ambos geram compromissos, e canta os louvores de uma vida sem maiores
responsabilidades. (N do T)

7. Citação do Cântico dos Canticos, 6,10: “Quem é esta que surge como a aurora, bela como a lua, brilhante como o
sol, temível como um exército em ordem de batalha?” (N do T)

8. Termo que designa um patriotismo exagerado e beligerante, o equivalente britânico do “chauvinismo” francês. (N
do T)

https://www.sociedadechestertonbrasil.org/em-defesa-das-promessas-temerarias/
Dragões mortos, então e agora
“Dead Dragons, Then a Now”, January 16, 1932. The Collected Works of G.K. Chesterton, Volume 21

Por Gilbert Keith Chesterton

Tradução de Raul Martins, tradutor do livro de Chesterton “Um esboço de Sanidade“

Vi, neste jornal — a cintilar com boas e científicas novas –, que um peixe de sangue verde fora encontrado no mar;
de fato, uma criatura toda esverdeada, e além de verdosa até este ichor* que lhe corre nas veias, enorme e
peçonhenta. De algum modo, foi debalde que tentei tirá-lo da cabeça, vez que o título sugeria um refrão perfeito
para uma Balada: um peixe de sangue verde foi encontrado no mar. Afinal, a coisa tem uma aplicação crítica e
filosófica das mais largas. Eu mesmo tenho conhecido tantos peixes de sangue verde cá na terra, andando pelas ruas
e sentados pelos clubes, sobretudo nos comitês. Peixes de sangue verde à farta têm escrito livros e críticas de livros,
têm lecionado em instituições de ensino e fundado escolas de filosofia, de modo que poucos lhes falta para que
façam de si mesmos o produto biológico típico do estágio atual da evolução.

Não há um debate que seja na Casa dos Comuns, especialmente sobre a eugenia ou a amputação compulsória dos
pobres, que não tenha peixes de sangue verde aos montes, com as caudas mantendo-lhes eretos para os seus
discursos. Onde houver uma petição ou carta à imprensa urgindo pela transformação das tabernas em casas de chá
ou museus locais, lá haverá toda uma fileira desses peixes e seu esverdeado sangue; peixes, aliás, fedorentos que só.
Por alguma razão, contudo, o fardo dessa balada não-existente não se me despegou da cabeça, e acabou por volver-
me os pensamentos na direção de monstros peçonhentos no geral; de todos aqueles dragões, híbridos e
sanguinolentas criaturas que figuram, em histórias primitivas, como os principais inimigos do homem. Já se sugeriu
que tais lendas na verdade referem-se a algum período pré-histórico em que o homem, à força das circunstâncias,
tinha de bater-se com animais gigantescos que desde então se extinguiram. E, então, ocorreu-me: suponha que os
heróis primitivos os tenham matado justo quando estavam a extinguir-se. Quero dizer, suponha que teriam sido
extintos, mesmo se o Homem das Cavernas, não se dando ao trabalho de os exterminar, houvesse escolhido uma
pedra em sua caverna, nela se sentado confortavelmente e feito coisa nenhuma.

Suponha que Perseu tenha transformado o monstro marinho em pedra quando este já andava avançado no
processo de transformar-se num fóssil. Suponha que São Jorge tenha chegado, não apenas logo antes da morte da
Princesa, mas logo antes da morte do Dragão. Suponha que ele tenha irrompido, indelicado que só, no leito de
morte do monstrengo, e apenas tenha finalizado com a lança o trabalho de verdade que o dragão-doutor fizera com
a lanceta. Em suma, será que os heróis poderiam ter-se poupado ao trabalho de lutar tão-só houvessem medido a
pulsação ou checado a temperatura do moribundo inimigo da humanidade? O dragão é pintado sempre com
mandíbulas escancaradas, das quais desponta uma língua bifurcada e chamejante. Mas, quem sabe, ele esteja
apenas mostrando uma língua ao seu médico particular? Vá saber se todos os monstros que figuram em canções e
histórias não estivessem mal das pernas, física tanto quanto moralmente. Parando pra pensar um pouco, isso bem
que poderia explicar o peixe de sangue verde que foi encontrado no mar. Talvez não seja uma espécie, mas, sim,
uma doença. Quem sabe o peixe com seu sangue esverdeado padeça, se não precisamente de anemia, ao menos de
alguma forma sutil de cloranemia pisciana, ou de seja lá o nome que receberá a obscura enfermidade assim que
descoberta. Ocorre que os pescadores científicos o safaram de todos os seus problemas, assim como Perseu
acelerara o processo de ossificação crônica da criatura.

A fantasia pode criar variações sem conta às histórias de fadas. Nos é dito sempre como a caverna do monstro ou
gigante está cercada pelos ossos de milhares de vítimas. Podemos imaginar o herói a contá-los, cuidadoso, e fazer
cálculos sobre o estágio de indigestão a que deve ter chegado qualquer monstrengo depois de semelhante refeição.
No departamento especial de Gigantes há uma história sobre Jack o Matador de Gigantes e uma polenta, enfim
devorada pelo Gigante. Eu de minha parte não sei o que é uma polenta, mas imagino que a refeição tenha sido algo
de esbaforida. Isso tudo não poderia ser bom para a saúde dos Gigantes como um todo. Dickens, aliás, conhecedor
ele mesmo de vários Gigantes, dá testemunho de como é delicada a constituição dos titânicos.

Admito, porém, que, enquanto meu subconsciente à larga divagava sobre o antiquíssimo tema, eu entrava a pensar
em sua aplicação moderna. Por vezes me pergunto se vale a pena atacar todo e qualquer monstro de anarquia e
absurdidade moderna tal como surgem no campo do pensamento, ou se eles não haveriam de se matar mesmo se
não fossem mortos. Muita vez, parecem matar-se quase rápido demais para que consigamos matá-los. Contra
alguns, hoje mortos há anos, lembro-me de haver travado guerras por meses a eito. Lembro-me de gigantes de
blasfêmia ou filosofia bárbara; titãs que à força do gigantismo pareciam não apenas sobrancear a terra como
obstruir o firmamento. Qual Golias, lançaram desafio a um mundo que, à vista de todas as ossadas que lhes
cercavam as cavernas, acautelara-se quanto a aceitá-lo. Agora, contudo, são seus ossos que jazem espalhados, e
mesmo um trapeiro dificilmente abaixar-se-á para pegá-los.

À guisa de exemplo, havia Haeckel e o cru e concreto materialismo de seus dias. Por anos a fio, ocupei minha vida
com a peleja contra o Sr. Blatchford e outros sobre o homem, apontando as falácias, para não dizer as inverdades,
de Haeckel. E onde está ele agora? O sr. Blatchford parece ter esquecido tudo sobre Haeckel, exemplo seguido por
todos os demais. Os novos homens de ciência rejeitaram-no por completo. Bem me recordo, porém, de quando cada
novo homem da ciência, e sobretudo homens da nova ciência da sociologia ou eugenia (um peixe de sangue verde
foi encontrado no mar), haviam-no aceitado como o fundador de uma nova religião. E de quando o sr. Belloc
escrevera a envoi¹ de outra Balada

—“Prince, if you meet upon a bus

A man who makes a great display

Of Dr. Haeckel, argue thus,

The wind has blown them all away”* —

*”Príncipe, se no ônibus topar / em homem a sobre Haeckel palestrar / não deixe de lhe falar / como o vento para
longe entrou todos a soprar.”

Versos que à época tinham algo duma audácia profética. Hoje, soam como truísmos: tornaram-se verdade.

Então, veio Lombroso e todo o charlatanismo daquilo a que chamavam criminologia. Lembro-me de quando
Lombroso soava como o nome de Newton ou Faraday; agora, não vejo menções frequentes ao nome, que dirá entre
homens de ciência. É para a eterna glória do sr. H. G. Wells que mesmo então, conquanto tomasse o partido
materialista em muitas questões, ele tenha denunciado o dogmatismo prematuro com que pedantes tagarelavam
sobre o “crânio criminal” ou a “orelha criminosa,” e que conclamavam os jovens e ingênuos a carimbarem
tendências criminosas hereditárias por meio de seleção ou segregação (um peixe de sangue verde foi encontrado no
mar). Será que valeu a pena altercar com toda a grande ciência da criminologia no final do século dezenove? O
dragão teria morrido de morte natural, se é que lhe havia qualquer coisa de natural.

Poderia relatar inúmeros outros casos; controvérsias outras com coisas moribundas que eu julgara dominantes; com
coisas de fato já mortas. Houve a proposta de que gente pobre demais para mover uma ação judicial por calúnia
deveria ser posta numa lista negra como escroques que gostavam demais de cerveja (um peixe de sangue verde foi
encontrado no mar); houve a teoria absurda que dizia ser hereditário gostar muito de cerveja, seguida pela proposta
(levada a cabo pelos peixes) de que os bebedores de cerveja deveriam ser proibidos de criar seus filhos. Havia toda a
suposição de que nada senão a perfeição poderia ser o resultado final de algo feito pelo Estado, e que seus
funcionários públicos eram todos Super-Homens. Eis aí o que foi, outrora, o nosso pesadelo. Enfrentá-lo, porém, era
bater num cachorro que, se não morto, estava ao menos nas últimas. Eu, por mim, arrependo-me de ser assim tão
desumano.

1 . Envoi ou envoy: estrofe curta que em certas formas de verso, como por exemplo a Balada de que Chesterton está
a falar, é dedicatória ou sumário de suas principais ideias.

https://www.sociedadechestertonbrasil.org/dragoes-mortos-entao-e-agora-2/

Reforma Social versus Controle de Natalidade


G. K. Chesterton

Tradução de Pedro Gontijo Menezes

Social Reform versus Birth Control [1]


A verdadeira história do mundo está cheia dos mais estranhos casos de ideias que foram viradas de ponta-cabeça e
se contradizem completamente. O exemplo mais recente é a ideia extraordinária de que o chamado “controle de
natalidade” seria uma reforma social, a qual acompanha outras reformas sociais preferidas pelos progressistas.

É mais ou menos como dizer que cortar fora a cabeça do Rei Carlos era uma das modas cavalheirescas mais
elegantes para penteados. É como afirmar que a decapitação é um avanço da odontologia. Pode ser correto ou não
decapitar o rei, pode ser certo ou errado cortar a própria cabeça quando se tem dor-de-dente. Porém, qualquer um
pode ver que, ao simplificarmos as coisas cortando cabeças, não precisaremos mais de penteados, será
desnecessário levar os mortos ao dentista ou fazer filantropia aos que não nasceram — aos que nunca vieram a ser.
Não iremos prover sustento aos nossos descendentes dizendo que a destruição de nossos descendentes tornará
desnecessário provê-los com qualquer coisa. Talvez esta destruição seja apenas no sentido de negação e se permita
que alguns poucos descendentes sobrevivam. No entanto, é óbvio que essa negação é um mero pessimismo,
opondo-se à noção mais otimista de que algo pode ser feito para toda a família humana. Não é surpresa para
nenhum ser pensante descobrir que isso foi exatamente o que aconteceu.

A história começou com Godwin [2], amigo de Shelley [3] e fundador de tantas esperanças sociais
ditas revolucionárias. Independentemente da nossa opinião acerca dos detalhes de sua teoria, ele certamente
inspirou os jovens mais generosos de seu tempo com a sede de justiça e igualdade social que inspiram o socialismo e
outros ideais. E, o que é ainda mais gratificante, ele cobriu os velhos ricos de sua época com um terror tenso e
imperioso. Cerca de três quartos do discurso dos Conservadores e dos Liberais daquele tempo consistiu em sofismas
e desculpas inventadas para remendar um acordo corrupto da oligarquia contra os apelos por fraternidade e
humanidade fundamentais, feitos por homens como Godwin e Shelley.

Malthus: Uma resposta a Godwin

Os velhos oligarcas usariam qualquer ferramenta contra os novos democratas, e certo dia tiveram a sorte funesta de
utilizar uma ferramenta chamada Malthus [4]. Malthus escreveu uma resposta aberta e declarada a Godwin. Seu
livro sombrio é unicamente destinado a responder Godwin. Onde quer que Godwin tentasse demonstrar que a
humanidade pode ser mais feliz e mais humana, Malthus tentava provar que a humanidade nunca terá a
possibilidade de ser feliz e mais humana. O argumento utilizado foi este: se os homens famintos
fossem toleravelmente livres ou suficientemente prósperos, eles casariam e teriam vários filhos e não haveria
comida para todos. A inferência era, evidentemente, que os deixasse morrer de fome. Maltuhs sustentou a questão
sobre o aumento do número de filhos com uma fantástica fórmula matemática de progressão geométrica, e todo ser
humano vivo pode ver claramente que tal fórmula é inaplicável a qualquer coisa viva. Nada que dependa do humano
poderá seguir em progressão geométrica, e a população certamente não segue nada do tipo.

Porém, o ponto é que Malthus quis apresentar seu argumento como um argumento contra toda reforma social. Ele
nunca pensou em usá-lo para outra coisa exceto para se opor a toda reforma social. Ninguém mais jamais pensou
em usá-lo como qualquer coisa, naqueles dias de lógica, a não ser um argumento contra a reforma social. Malthus
chegou a utilizá-lo contra o antigo hábito da caridade humana. Ele alertou as pessoas contra qualquer tipo de
obra de caridade. Sua teoria sempre foi um balde de água fria em qualquer proposta de distribuir propriedade ou
de melhorar o status do homem pobre. Esta é a nobre história do nascimento do Controle de Natalidade.

A única diferença entre aquele tempo e os dias de hoje é que os velhos capitalistas eram mais sinceros e científicos,
enquanto os capitalistas modernos são mais hipócritas e obscuros. O homem rico de 1850 usou o argumento
em teoria para oprimir os pobres. O homem rico de 1927 só vai usá-lo para oprimir os pobres na prática. Sendo
incapaz de teorizar, incapaz de pensar, ele só fará duas coisas: uma, que ele chama de pragmatismo, ou outra, que
chamo de sentimentalismo. Uma vez que ele não é um homem como Malthus, ele não suportará ser um pessimista,
então se transformará em um sentimentalista. Ele mistura essa ideia crua e brutal (de que os pobres devem ser
impedidos de procriar) com um monte de ideais e promessas sociais desleixadas e doentias, completamente
incompatíveis com a primeira. Mas o capitalista é, de qualquer forma, um homem prático, e será tão brutal quanto
seus antepassados ao partir para a prática. O resultado prático dessa coisa toda é muito claro: se ele pode evitar que
seus empregados tenham famílias, ele não precisa sustentar essas famílias. Por que diabos precisaria?

Um Teste Simples
Se alguém duvida de que este é o único motivo para o argumento malthusiano, vamos testá-lo com as afirmações
simples feitas por vários apoiadores do controle de natalidade na Inglaterra, como o deão da Catedral de São Paulo,
em Londres. Eles nunca dizem que sofremos de uma oferta generosa de banqueiros, ou que financistas cosmopolitas
não devem ter famílias grandes. Eles não dizem que a muvuca elitista e bem vestida em Ascot [5] precisa encolher,
ou que é desejável reduzir em um décimo as pessoas que jantam no Ritz ou no Savoy. Embora, Deus o sabe, se existe
algo humano que parece uma selva subumana, com flores tropicais e ervas altamente venenosas, é a multidão de
ricos que se reúne em um hotel moderno e americanizado.

Os adeptos do controle de natalidade não têm o menor desejo de controlar essa selva. É uma selva muito perigosa
para ser tocada. Ela abriga tigres. Eles nunca falam do perigo das classes confortáveis, nem mesmo da seção mais
respeitável das classes confortáveis. O deão melancólico não está melancólico por haver muitos duques e nem,
naturalmente, por haver muitos deões. Ele não está aborrecido com o político que possui toda uma população
de favorecidos, embora ele tenha de arranjar cargos e salários públicos para todos esses favorecidos. Economia
Política significa que todos devem ser econômicos, exceto os políticos.

O promotor do controle de natalidade não se preocupa com nenhuma dessas coisas pela razão pura e simples de
que essas não são as pessoas que ele quer controlar. O que ele quer controlar é o povão, e quase declara
isso abertamente. Ele sempre insiste que um trabalhador não tem o direito de ter tantos filhos, ou que um cortiço é
perigoso porque produz muitos filhos. A pergunta que ele mais teme é: “Por que o trabalhador não tem um salário
melhor? Por que a família do cortiço não tem uma casa melhor?” — ele escapa dessas perguntas sugerindo uma
família menor ao invés de uma casa maior. O dono do imóvel e o patrão dizem com proximidade e compaixão: “Você
não pode esperar que eu abra mão do meu dinheiro. Mas farei um sacrifício: vou abrir mão dos seus filhos”.

Uma dentre muitas

Enquanto o ataque malthusiano contra a esperança democrática tornava mais forte e rígida a resistência reacionária
de reformar este país, outras forças já estavam em campo. Devo notar que Malthus e seu sofisma contra toda
reforma social não estavam sozinhos. Ele foi uma no meio de todo um conjunto de desculpas científicas inventadas
pelos ricos como razões para negar a justiça aos pobres, especialmente quando o velho glamour supersticioso
dos reis e nobres esvaneceu-se no século dezenove. Uma delas era as Leis de Ferro de Economia Política: fingia que
alguém, em algum lugar, havia provado com números em um quadro que a injustiça é incurável. Outra era uma
massa brutal de devaneios sobre darwinismo e luta pela vida, na qual o diabo deve capturar o mais fraco. Na
realidade, ela é uma luta por riqueza, na qual o diabo geralmente captura o mais forte. Todas essas desculpas
tinham como característica a tentativa de distorcer a nova ferramenta da ciência para transformá-la em uma arma
da velha tirania do dinheiro.

Tais forças, embora poderosas numa plutocracia industrial doente, não eram as únicas forças que haviam, nem
mesmo no século dezenove. Ao final daquele século, havia outro movimento em marcha, em especial no continente
europeu, notavelmente entre socialistas cristãos, os ditos democratas católicos, e outros. Não há espaço para
descrevê-lo aqui; no entanto, o interessante é que ele é a inversão exata do argumento do malthusianismo e
do controle de natalidade. Este movimento não se contentava com o teste do salário de sobrevivência: ele insistia
particularmente no que preferia de chamar de salário familiar. Em outras palavras, ele defendia que nenhum salário
é justo ou adequado se não contemplar e proteger o homem, considerado não apenas como indivíduo, mas como
pai de uma família normal e razoavelmente numerosa. Um movimento desse tipo é o verdadeiro oposto do controle
de natalidade e ambos provavelmente ganharão força até chegarem num tremendo choque de controvérsia. Divirto-
me refletindo sobre esta grande batalha vindoura e lembrando que, quanto mais meus oponentes praticarem o
controle de natalidade, existirão menos deles para lutar contra nós no futuro.

O conflito

Minha grande dificuldade é fazer com que meus oponentes, em meio à confusão mental que encobre esta
questão, percebam o simples fato de que estas alegações são, antes de tudo, contrárias entre si. No início de toda
essa discussão está o fato elementar de que limitar as famílias é a razão para limitar salários, e não para aumentá-
los. Você pode gostar da limitação por outras razões, assim como pode ser contra a limitação, também por outras
razões. Você pode arrastar a discussão para questões completamente diferentes como, por exemplo, se as mulheres
são escravas nos lares comuns. Você pode ceder a um meio-termo em consideração ao empregador ou por outro
motivo, comprometendo-se a tomar somente meio pão ou a ter meia família. Mas as alegações são
fundamentalmente opostas. É toda a verdade naquela teoria de luta de classes sobre o qual os jornais dizem tanta
besteira. O posicionamento do pobre é ter o que ele considera uma família grande. Se você reduzi-la para adequá-la
aos salários, você faz uma concessão para conformar-se às condições capitalistas. Abordarei a aplicação prática
mais adiante; neste momento, estou tratando da contradição lógica primária. Se ambos os métodos podem ser
cumpridos, eles o serão de maneira a um contradizer e excluir o outro. Um não é necessário ao outro, pode
dispensar ou destruir o outro. Se você pode aumentar os salários, não há necessidade de diminuir as famílias. Se
você pode diminuir as famílias, não há necessidade de aumentar os salários. Alguém poderia julgar qual dos
métodos o capitalista governante iria preferir; mas se ele utilizar um, não terá necessidade do outro.

Há, obviamente, muito mais a dizer sobre este assunto; resolvi lidar com somente um aspecto do controle de
natalidade — sua origem extremamente desagradável. Eu disse que ele é puramente capitalista e reacionário, e
acredito tê-lo provado totalmente. Existem, no entanto, muitos outros aspectos deste mal: ele é impuro à luz dos
instintos; não é natural em relação à afeição; é uma tentativa de arrastar o povão para uma rotina de charlatanismo
médico e pseudociência; mistura-se à ideia confusa de que as mulheres são livres quando servem a seus
empregados, mas escravas quando ajudam seus maridos; ignora a existência de lares reais nos quais a prudência
surge do acordo e da livre vontade. Estes e muitos outros aspectos seriam extraordinariamente interessantes de se
discutir. Porém, para não ocupar muito espaço, tomarei o título como limite para o texto.

Um embuste

A própria expressão “controle de natalidade” é puro embuste. É um daqueles eufemismos descarados usados nas
manchetes dos jornais. É como “reforma tributária”, ou “trabalho livre”. Ela é feita para não significar nada e pode
significar qualquer coisa, de preferência algo totalmente diferente do que ela diz. Todo mundo acredita em controle
de natalidade e quase todo mundo já exerceu algum controle sobre as condições do nascimento. As pessoas não se
casam sonâmbulas, nem tem filhos enquanto dormem. Ao longo de eras imemoriais, em inúmeras nações, o
controle de natalidade real e verdadeiro chama-se autocontrole. Se alguém diz que isso nunca funciona, eu digo que
funciona. Em muitas classes sociais de vários países onde esse charlatanismo é desconhecido, populações inteiras de
pessoas livres mantiveram-se dentro dos limites razoáveis de tradições sólidas de frugalidade e responsabilidade.
Mas a coisa que os jornais capitalistas chamam de controle de natalidade não é controle nenhum. É a ideia de que as
pessoas devem ser total e completamente descontroladas, contanto que possam escapar de tudo que seja positivo,
criativo, inteligente e digno de pessoas livres. Trata-se de um nome dado à sucessão de expedientes diversos, pela
qual seria possível surrupiar o prazer que vem com um processo natural enquanto se frustra o próprio processo de
maneira violenta e antinatural.

Um dos paralelos mais próximos e respeitáveis seria o do epicurista romano, que tomava eméticos ao longo do dia
para que pudesse comer cinco ou seis jantares nababescos todos os dias. Agora, qualquer pessoa de bom senso,
livre da enganação dos jornais científicos e de palavras compridas, diria ao epicurista que, no longo prazo, uma
rotina dessas faria mal para a digestão e quase certamente para seu caráter. Os homens têm, sozinhos, senso o
bastante para saberem quando um hábito toma o gosto pela perversão e pelo perigo. Se fosse moda, nos
ambientes elegantes, chamar esse expediente romano de “controle de dieta” e falar do assunto com ares
superiores, dizendo que se trata da “melhoria da vida e do serviço à vida” (como se não significasse nada mais do
que o domínio do homem sobre suas refeições), deveríamos tomar a liberdade de dizer que é tudo fanfarronice, sem
qualquer relação com a realidade em questão.

O erro

O fato, imagino, é que eu me revolto contra as condições do capitalismo industriais, enquanto os defensores do
controle de natalidade se revoltam contra as condições da vida humana. Quanto ao que eles querem dizer quando
me acusam de instigar “uma guerra de classes contra as mães”, só posso especular. Se a intenção deles foi dizer que
cometo o erro imperdoável de acreditar que as mães desejarão continuar sendo mães, então eles têm toda a razão.
Duvido que as mães possam escapar da maternidade no socialismo. Os defensores do controle de natalidade, no
entanto, parecem desejar que algumas delas escapem da maternidade no capitalismo. Eles demonstram simpatia
com aquelas que preferem “o direito de ganhar a vida fora de casa”, ou (em outras palavras) o direito de serem
escravas assalariadas e trabalharem para um total estranho porque, por acaso, é alguém mais rico. Nunca
conseguirei compreender, nem em uma vida inteira, que contorcionismo intelectual inimaginável levou a considerar
isso uma condição mais livre para a mulher do que viver com o homem que ela própria aceitou livremente. O único
ponto que faz sentido para mim é que o trabalho proletário, embora obviamente mais senil e subordinado do que a
paternidade, ainda é mais seguro e mais irresponsável porque não é parental. Posso facilmente acreditar que
existem pessoas que preferem trabalhar numa fábrica ao invés de numa família, pois sempre há algumas pessoas
que preferem escravidão à liberdade, serem governados no lugar de governar. Penso que sua disputa com a
maternidade não é como a minha, uma disputa sobre condições desumanas, mas simplesmente uma disputa sobre a
vida. Dada a chance de escaparem da natureza das coisas, chegaremos a uma situação do tipo “escola de creche
para nossos filhos com outras mães e mulheres solteiras treinadas profissionalmente como funcionárias”.

Não adicionarei mais nada a essa imagem aterrorizante, a não ser especular, com certa satisfação, acerca do mundo
no qual as mulheres não poderão cuidar dos próprios filhos, mas cuidarão dos filhos das outras. No entanto, penso
que isto é um indício do abismo entre arranjos naturais e antinaturais, que deverá ser superado antes de tratarmos
daquele que deveria ser o próprio tema da discussão.

Notas:

[1] Publicado no livro Chesterton Collected Works, Ignatius Press, datado de 1927.

[2] William Godwin, jornalista e filósofo político inglês, um dos pioneiros do utilitarismo e do anarquismo.

[3] Percy Bysshe Shelley, poeta do romantismo inglês, casou-se com a filha de Godwin, Mary, escritora famosa.

[4] Thomas Malthus, economista inglês famoso pela teoria sobre o descompasso entre o crescimento populacional e
a oferta de recursos, que levaria inexoravelmente a uma crise de escassez.

[5] Famosa corrida de cavalos realizada na cidade de Ascot, frequentada pela família real e pela elite britânica e
européia.

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A esposa é como o fogo


Ou, melhor dizendo, o fogo é como a esposa.

Trecho do capítulo “Feminismo ou erro em relação à mulher” do livro “O Que Há de Errado com o Mundo”.

A tradição decidiu que somente metade da humanidade precisa ser monomaníaca. Decidiu que em cada lar há de
haver um comerciante e um faz-tudo. Mas também decidiu, entre outras coisas, que esse faz-tudo deve ser uma faz-
tudo. Acertadamente, ou não, decidiu que essa especialização e esse universalismo deveriam ser divididos entre os
sexos, que se deveria deixar a inteligência para os homens e a sabedoria para as mulheres; pois a inteligência mata a
sabedoria, e essa é uma das poucas coisas certas e tristes.

Mas esse ideal de capacidade compreensiva (ou senso comum), que é próprio das mulheres, deve ter se esvaído há
muito, deve ter derretido nas pavorosas fornalhas da ambição e do ávido tecnicismo. Um homem tem de ser, até
certo ponto, um homem de uma só idéia, visto que é um homem de uma só arma — e é lançado nu à luta. As
demandas do mundo chegam diretamente a ele; a sua mulher, chegam indiretamente. Em suma, ele tem de dar “o
melhor de si” (como pregam os livros de receita de sucesso); e que pequena parte de um homem é “o melhor de si”!
Seu segundo e seu terceiro “melhor” são frequentemente muito melhores. Se ele é o primeiro violino, terá de tocá-
lo a vida inteira; não precisará se lembrar que é um ótimo quarta gaita-de-foles, um razoável quinquagésimo taco de
bilhar, um florete, uma caneta-tinteiro, uma mão no uíste, uma arma e uma imagem de Deus (…).

(…) Mas há somente uma forma de conservar no mundo aquela elevada leveza e aquela perspectiva mais calma que
corresponde à antiga visão do universalismo; e esta consiste em permitir que exista uma metade da humanidade
parcialmente protegida, uma metade a que as agressivas demandas da indústria decerto afligem, mas apenas
indiretamente. Em outras palavras, em cada núcleo da humanidade é essencial a presença de um ser humano
apoiado num plano mais amplo, alguém que não “dê o melhor de si”, mas que se dê por inteiro.
Nossa antiga analogia do fogo continua sendo a mais funcional. O fogo não precisa luzir como a eletricidade ou
ferver como a água; importa que ilumine mais do que a água e aqueça mais do que a luz.

A esposa é como o fogo, ou, colocando as coisas em sua devida proporção, o fogo é como a esposa.

Como o fogo, é de esperar que a mulher cozinhe, e cozinhe melhor do que seu marido, enquanto ele lhe obtém o
coque à custa de conferências sobre botânica ou quebrando pedras. Como o fogo, espera-se que a mulher conte a
filhos histórias- nãos histórias que primem pela originalidade ou sejam obras de arte, mas simplesmente histórias,
histórias mais interessantes do que contaria um chefe de cozinha. Como o fogo, espera-se que a mulher ilumine e
ventile — não com alarmantes revelações ou com os mais selvagens sopros de pensamento, mas que o faça melhor
que um homem faria depois de quebras pedras ou fazer prelações.

O que não se pode esperar de uma mulher é que suporte algo como esse dever de cunho universal, quando tem
igualmente de suportar a crueldade direta de um trabalho competitivo ou burocrático. A mulher deve ser cozinheira,
mas não uma cozinheira competitiva; professora, mas não uma professora competitiva; decoradora de interiores,
mas não uma decoradora competitiva; costureira, mas não uma costureira competitiva. Ela não deve ter um ofício,
mas vinte hobbies. E, ao contrário do homem, ela pode-se permitir desenvolver todas as qualidades em que
alcançaria um modesto segundo lugar.

Isto é o que na verdade se pretendia com aquilo a que chamam “reclusão, ou mesmo “opressão” da mulher. As
mulheres não foram mantidas nos lares par conservá-los estreitos; ao contrário, foram mantidas nos lares para
conservá-los amplos. Do lado de fora do lar, o mundo era uma massa de exigüidades, um labirinto de vias estreitas,
um manicômio de monomaníacos. E foi somente com limitá-la e protegê-la parcialmente, que ela se fez capaz de
desempenhar cinco ou seis profissões e, com isso, aproximar-se tanto de Deus quanto a criança quando brinca de
cem coisas diferentes. Mas as ocupações da mulher, ao contrário das da criança, eram todas verdadeiramente — e
quiçá terrivelmente — frutíferas; tão tragicamente reais que nada as impediria de se tornarem meramente mórbidas,
não fosse a universalidade e o equilíbrio da mulher. Isso é o que há de substancial na discussão que proponho sobre
o papel histórico das mulheres.

Não nego que mulheres foram prejudicadas ou mesmo torturadas. Mas duvido que em algum momento tenham
sofrido tortura maior do que esta que lhes impõe a absurda tentativa moderna de fazer delas a um só tempo
imperatrizes do lar e funcionárias competitivas.

Não nego que, mesmo sob a antiga tradição, as mulheres tiveram vidas mais árduas que os homens; e é por esse
motivo que lhes tiramos nossos chapéus. Não nego que todas essas variadas funções femininas foram exasperantes;
mas afirmo que havia algum fim e sentido em conservar tal variedade. Tampouco nego que a mulher tenha sido uma
serva; mas ela, ao menos, era uma serva faz-tudo. (…)

(…) Elas possuem a propriedade de, como o remédio, varias sua atuação de acordo com a doença. Para o marido
mórbido, há que ser uma otimista; mas uma pessimista salutar para o marido tomado de uma alegria irresponsável e
cega. Ela tem de impedir que o Dom Quixote seja pisado e que o brigão pise os outros. O rei da França escreveu: “A
mulher sempre varia / louco o que nela se fia”. Que a mulher sempre varia é fato; porém, é exatamente tal fato que
justifica sempre confiarmos nela.

Corrigir toda a aventura e extravagância ministrando o antídoto do senso comum não é — como os modernos
parecem pensar — estar na posição de um espião ou de um escravo; é estar na posição de Aristóteles ou — baixando
ao mais rasteiro dos níveis — de Herbert Spencer, é ser uma moral universal, todo um sistema de pensamento. O
escravo bajula, o moralista integral censura. Em suma, é ser um trimmer, no sentido primeiro e verdadeiro deste
ilustre termo — o sentido de “estivador” — que por alguma razão é sempre empregado numa acepção exatamente
contrária — a de oportunista, vira-casaca. De fato, parecem supor que um trimmer seja uma pessoa covarde que
sempre passar para o lado mais forte, quando, na verdade, o termo originalmente faz referência a um homem
altamente cavalheiro que sempre passa para o lado mais fraco, tal como aquele que redistribui a carga de um barco
indo sentar-se onde poucos estão sentados. A mulher é um trimmer, um estivador, e seu ofício é generoso, perigoso
e ao mesmo tempo romântico.

(O que há de errado com o mundo —G.K. Chesterton)


OS PERIGOS DO SOCIALISMO
G. K. Chesterton.

Tradução de Agnon Fabiano

Revisão de Raul Martins

“Tenho ouvido de quase todos os socialistas que conheço uma mesma frase. Uma frase, creio, com a qual todo o
mundo haveria de concordar e que se repete com frequência na filosofia coletivista: “os meios de produção
deveriam pertencer ao povo”.

Quando diz-se que os meios de produção deveriam pertencer ao povo, o que quer-se dizer? Esta é a questão
fundamental.

O coletivismo colocou todos os seus ovos num único cesto. Não julgo que alguém realmente creia que duzentos
milhões de homens, digamos, possam levar o cesto, ou vigiá-lo, ou ter qualquer controle real sobre os ovos que lhe
colocaram. Creio que o cesto será controlado de forma centralizada por um punhado de pessoas. As tais podem ser
um tanto corretas ou um tanto necessárias. Porém, qualquer um em são juízo reconhecerá que certos limites ser-
lhe-ão necessários, e que tal controle não é a mesma coisa que o controle do povo sobre os meios de produção.

O que querem dizer não é que todo o povo deva controlar os meios de produção, mas, antes, que o produto deva
ser distribuído entre a vasta massa do povo, e isso é totalmente diferente. De forma alguma significa controlar os
meios de produção. Se a cada um dos cidadãos corresponde simplesmente uma parcela equitativa das rendas do
Estado, então eles não têm controle algum sobre o capital.

Se colocássemos no centro do Estado uma máquina gigantesca, e lhe girássemos a manivela e alguém, forçosamente
um funcionário dessa empresa e, portanto, um governante, repartisse, equitativamente, entre todos, o alimento ou
o que quer que a máquina produzisse, sem que ninguém receba mais que qualquer outro, mas tão somente a parte
que lhe cabe, estaríamos diante do ideal absoluto de igualdade. No entanto, ainda sim, nenhum desses cidadãos
teria controle algum sobre os meios de produção.

Utilizei a metáfora dos coletivistas de ter todos os seus ovos numa só cesta. Pois bem, há homens aos quais
chamamos, com prazer, ovos podres (nem todos estão na política) e, por outro lado, há homens que merecem o
elogio de serem chamados de ovos bons. Falando de outra forma, existe uma determinado número de homens bons
e um determinado número de homens maus no meio da comunidade. A fim de resumir a questão, poder-se-ia dizer
que toda a teoria da distribuição mecânica igualitária depende de um determinado uso da voz passiva. É demasiado
fácil falar que a propriedade deve ser distribuída, porém, quem é o agente do verbo? Quem deve distribuir? Parte-se
da ideia que o poder central, que condescende com a distribuição, há de ser sempre justo, sábio, prudente e
representante legítimo da consciência da comunidade. Nós, entretanto, colocamo-la em cheque. Afirmamos que
deveria haver no mundo uma grande massa de poderes, privilégios, limites e pontos de resistência disseminados que
permitiriam ao povo resistir à tirania. E afirmamos que, nesse controle central, por mais que possam tê-lo designado
para ser um distribuidor da riqueza de maneira igualitária, há a possibilidade permanente da conversão numa
tirania.

Não creio que seja difícil imaginar como isso poderia acontecer. No momento em que um grupo de pessoas
começasse a comportar-se de alguma forma que o grupo governante julgasse anti-cívica, poder-se-ia negar-lhes,
sem dificuldade e com a aprovação deste mesmo grupo governante, alimentos e suprimentos.

Eles propõem a distribuição das riquezas; eu proponho a distribuição do poder”.

Título dado pelo tradutor. Retirado do livro “Do we agree?”.

Levando em conta que o livro é um debate entre Chesterton e Bernard Shaw, para deixarmos o texto mais
impessoal, já que as ideias de Chesterton são do âmbito de seu pensamento geral, substituímos o nome de Shaw por
um pronome de terceira pessoa. Também, onde se faz referência à população inglesa da época, adaptamos para a
população brasileira atual.

https://www.sociedadechestertonbrasil.org/os-perigos-do-socialismo/
Conselho Chesterton aos jovens
“O que temos que ensinar aos jovens é como se divertir. Até que possa se divertir consigo mesmo, ele se tornará
cada vez mais farto de se divertir com todas as demais coisas. O que temos de ensiná-lo é a se alegrar.

Neste momento, o jovem está cada vez mais subordinado a certas coisas que ele acredita que o divertirão. E, a julgar
pela expressão de sua fisionomia, elas não o divertem muito. Quando considerarmos o que ele recebem isto de fato
é o milagre, a fartura e a concentração do mais esplendoroso divertimento. Ele pode viajar em um carro de corrida
quase tão rápido quanto uma bala de canhão; e ainda ter seu carro equipado cm antenas de radiotransmissão de
todos os cantos do mundo. Pode captar Viena e Moscou; pode ouvir o Cairo e Varsóvia; e se não pode ver a
Inglaterra, por onde ele calha de estar viajando, isto é, afinal de contas, um problema menor. Em um século, sem
dúvida, seu carro viajará como um cometa, e suas antenas ouvirão os sons da lua. Mas tudo isso não o ajuda
tampouco quando o rádio para e ele tem de se sentar bem quieto em um carro silencioso sem nada sobre o que
falar. Se se considerar que coisas são lançadas sobre ele, as que ele recebe são de fato cataratas gigantescas de
coisas; Niágaras cósmicas, jamais lançadas antes sobre ser humano algum, estão sendo lançadas sobre ele. Mas se se
considerar o que vem dele, como resultado de toda essa assimilação, o resultado que temos de registrar é bem
sério. Na maioria dos casos, nada. Nem, ao menos uma troca de ideias, como era o costume. Ele efetivamente não
tem argumentos extensos, como os jovens faziam quando eu era jovem. O primeiro e surpreendente efeito de todo
este barulho é o silêncio. O segundo, quando tem ânsia de escrever ou dizer alguma coisa, é sempre uma ânsia no
sentido de uma irritação.

G. K. Chesterton. O tempero da vida e outros ensaios. Editora Graphia, p.178.

https://www.sociedadechestertonbrasil.org/conselho-chesterton-aos-jovens/

Um comentário chestertoniano sobre São Francisco de Assis e Santo Tomás


de Aquino.
(Trecho do livro Santo Tomás de Aquino)

“São Francisco era um homenzinho fisicamente frágil e ativo, magro como um barbante e vibrante como a corda de
um arco, e, em seus movimentos, parecia uma flecha saindo do arco. Toda sua vida foi uma série de saltos e
carreiras: disparar atrás de um mendigo; ir depressa, despido, para a floresta; entrar escondido no navio
desconhecido; aparecer de repente na tenda do sultão e oferecer-se para se jogar no fogo. Em termos de aparência,
ele deve ter sido como uma folha outonal esquelética e fina, amarronzada, dançando eternamente no vento, mas a
verdade é que ele era o próprio vento.

São Tomás era um homem imenso e bem sólido, gordo, lento e de gestos controlados; muito amável e magnânimo,
mas não muito sociável; tímido, mesmo se ignorarmos a humildade do santo; e distraído, mesmo sem levar em
conta suas casuais, e cuidadosamente escondidas, experiências de êxtase ou de transe. São Francisco era tão agitado
e até irrequieto que os eclesiásticos diante dos quais ele de repente aparecia julgavam-no louco. São Tomás
controlava tanto suas emoções que os professores das escolas que ele frequentou regularmente o julgaram tolo. Na
verdade, ele era o tipo de aluno, não incomum, que preferia ser um tolo a ter seus sonhos pessoais invadidos por
tolos mais ativos ou animados.

Esse contraste externo alcança quase todos os aspectos dessas duas personalidades.

O paradoxal em São Francisco era que, não obstante sua paixão por poemas, desconfiava bastante dos livros. O que
havia de notável a respeito de São Tomás era sua adoração pelos livros, sua vida dedicada aos livros. Ele levou
exatamente a vida do estudioso de Os Contos da Cantuária, de Geoffrey Chaucer, que preferia ter mil livros de
Aristóteles, e sua filosofia, do que qualquer riqueza que o mundo pudesse lhe dar. Quando lhe perguntaram o que
mais tinha a agradecer a Deus, ele respondeu simplesmente: ‘Entendi todas as páginas que li’.

São Francisco era bem vívido em seus poemas e bem descuidado em seus documentos; São Tomás dedicou toda a
vida a documentar sistemas completos de literaturas, pagã e cristã, e de vez em quando, nas horas vagas, escrevia
um hino.
Eles viam um mesmo problema a partir de ângulos diferentes, um sob a ótica da simplicidade; o outro, da sutileza.
São Francisco julgava que era suficiente dizer o que sentia aos maometanos para convencê-los a não adorar Maomé.
São Tomás ficava examinando todo tipo de distinção e de dedução, por menor que fosse, sobre o absoluto ou o
acidente, só para evitar que os maometanos entendessem Aristóteles de maneira errada.

São Francisco era o filho de um comerciante, ou mercador de classe média, e embora toda sua vida fosse uma
revolta contra a atividade mercantil do pai, mesmo assim conservou algo da agilidade e da adaptabilidade social que
faz o mercador zumbir como uma colmeia. Na frase comum, embora adorasse os campos verdes, nunca deixou a
grama crescer debaixo de seus pés. Era o que os milionários e gângsteres americanos chama de ‘fio vivo’ (pessoa que
nunca para). As pessoas modernas de mente mecânica, mesmo quando tentam imaginar uma coisa viva, em geral só
conseguem pensar numa metáfora mecânica a partir de uma coisa morta. Há minhocas vivas, mas não há fios vivos.
São Francisco teria concordado enfaticamente que era minhoca, mas uma minhoca muito viva. O maior de todos os
inimigos do ideal do ‘ir-conseguir’ (do empreendedor aquisitivo), São Francisco por certo deixou de lado o
‘conseguir’, mas nunca parou de ‘ir’.

São Tomás, por outro lado, veio de um mundo em que poderia ter se dedicado ao lazer, e continuou a ser um desses
homens para os quais o trabalho tem algo da placidez do lazer. Trabalhava com muita dedicação, mas
provavelmente ninguém diria que era uma pessoa apressada. Trazia em si algo indefinível que distingue as pessoas
que trabalham sem precisar trabalhar, pois era por nascimento um cavalheiro de uma casa importante, e essa
facilidade poder permanecer como um hábito depois de ter deixado de ser impulso. Mas, nele, isso só se manifestou
em seus elementos mais agradáveis; por exemplo, era possível que houvesse algo disso em sua cortesia e paciência.

Todo santo é homem antes de ser santo, e um santo pode ser feito a partir de todo tipo de homem

(Santo Tomás de Aquino; Gilbert Keith Chesterton)

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A família livre
"Conheci muitos casamentos felizes, mas nenhum compatível.

A única finalidade do casamento é combater permanentemente

e ultrapassar o instante em que a incompatibilidade é evidente,

pois homem e mulher, como tais, são incompatíveis."

G.K. Chesterton, “Disparates do mundo”, p. 42-46.

Consideraremos as tendências políticas e cósmicas apenas naquilo em que ferem esse teto único e ancestral.
Pouquíssimas palavras bastarão para tudo o que quero dizer sobre a família em si. Abandonarei as especulações
sobre a sua origem animal e os pormenores da sua reconstrução social; o meu único fito é tratar da sua palpável
onipresença. Ela é uma necessidade da humanidade; é (se assim o quiserem) uma armadilha, uma prisão, para a
humanidade. (...)

Pode dizer-se que esta instituição do lar é a única instituição anárquica que existe. O mesmo é dizer que é mais
antiga do que a lei e se firma fora do Estado. Pela sua natureza, rejuvenesce ou corrompe-se pelo jogo das
indefiníveis forças do costume ou do parentesco. Não se entenda que o Estado não tem autoridade sobre as famílias
ou que a autoridade do Estado não possa e deva ser invocada em muitos casos anormais; mas, na maioria dos casos
de alegrias e desgostos de família, o Estado não tem nunca que intervir. Não é certo dizer-se que a lei não deve
interferir; o certo é não poder fazê-lo. Tal como há domínios demasiado distantes dos caminhos da lei, outros há
demasiado próximos: assim, é mais fácil a um homem ver o Polo Norte do que a sua própria coluna vertebral. Tanto
escapam à vigilância os problemas minúsculos e próximos como os grandes e remotos problemas, e as reais dores e
alegrias familiares constituem um flagrante exemplo disto mesmo. Se uma criança pede a lua, o polícia não pode
satisfazê-la, mas também não a pode fazer calar.

Criaturas tão próximas uma da outra como marido e mulher ou mãe e filho têm poderes para mutuamente se
fazerem felizes ou infelizes, sem que qualquer medida coercitiva legal se lhes possa aplicar. Se todas as manhãs se
pudesse dissolver o casamento, não era isso que devolveria ao homem o repouso noturno que lhe fora roubado por
uma descompostura da mulher; e qual será a vantagem de dar ao homem um grande poder, se o que ele quer é um
pouquinho de paz? O filho deve obedecer à pior das mães; a mãe deve ser dedicada ao mais indigno dos filhos; para
tais parentescos, as desforras legais são vãs. Mesmo nos casos anormais em que a lei tem serventia eventual,
encontra-se sempre aquela dificuldade, como bem sabem tantos magistrados perplexos. Terão que salvar da fome
filhos, roubando-lhes quem lhes ganha o sustento e frequentemente terão que partir o coração da mulher por o
marido já lhe ter partido a cabeça. O Estado não tem ferramenta assaz delicada para extrair os hábitos enraizados e
as complexas afeições familiares; os dois sexos, felizes ou infelizes, estão colados um ao outro demasiado
solidamente para que possamos introduzir entre eles o bisturi legal. O homem e a mulher são uma só carne — sim,
mesmo quando não formam um só espírito. O homem engatinha. Sobre aquela íntima e anárquica intimidade
ancestral os vários tipos de governo têm pouco ou nenhum efeito; será feliz ou infeliz consoante a sua sanidade
sexual e cordialidade de hábitos, quer esteja na república da Suíça ou no despotismo do Sião. Nem no Sião uma
república se esforçaria muito para libertar irmãos siameses.

O problema não é de casamento, mas de sexo, e faria sentir-se mesmo no mais livre dos concubinatos. Contudo, a
esmagadora maioria nunca acreditou em liberdade neste assunto, mas sempre em laços mais ou menos duradouros.
Tribos e civilizações divergem sobre os casos em que os laços podem ser desapertados, mas todos concordam em
que há um laço a desapertar e não a desatar total e simplesmente. Para as finalidades deste livro não tenho a
intenção de analisar nele a concepção mística do casamento que aliás perfilho — a grande tradição europeia fez do
matrimônio um sacramento. Bastará aqui dizer que tanto os gentios como os cristãos consideraram o casamento
como um laço, um ato que normalmente não poderá ser desligado. Em resumo, esta crença do homem num vínculo
sexual assenta num princípio muito mal estudado pelas mentalidades modernas.

A comparação talvez mais adequada faz-se com o princípio do segundo passo ao aprender a andar: só custa dar o
primeiro passo. A essência deste princípio é a seguinte: em tudo o que vale a pena possuir, mesmo em todos os
prazeres, há um ponto doloroso ou entediante que deve ser ultrapassado para que o prazer volte e seja duradouro.
A alegria da batalha vem depois do primeiro medo da morte; o prazer de ler Virgílio só o temos depois de uma
estopante aprendizagem; o bem-estar do banhista chega após o choque gélido do mergulho e o êxito do casamento
depois do malogro da lua de mel. Todos os votos, leis e contratos humanos são outros tantos meros processos para
ultrapassar com êxito aquele ponto crítico, momento de potencial capitulação.

Em tudo o que neste mundo vale a pena fazer há uma fase em que ninguém o faria, exceto por necessidade ou para
salvar a honra. É então que as instituições amparam o homem e o ajudam a alcançar o terreno mais firme à sua
frente. Se esta real característica da natureza humana é ou não suficiente para justificar a sublime consagração do
casamento cristão é assunto completamente diferente; é mais do que suficiente, porém para justificar o sentimento
humano geral de que o casamento é ato imutável, cuja dissolução é criminosa ou, pelo menos, ignominiosa. O
elemento essencial não é tanto a duração, mas sim a segurança. Duas pessoas têm que se ligar para se apreciarem
mutuamente; vinte minutos num baile ou vinte anos de casamento. Em ambos os casos o ponto a notar é que, se um
homem se aborrece nos primeiros cinco minutos, tem que continuar e esforçar-se por alcançar a felicidade. A
coerção tem o seu quê de animador, enquanto que a anarquia (ou o que alguns chamam a liberdade) é
essencialmente opressiva por essencial lhe ser o desânimo. Se flutuássemos no ar como bolas de sabão, sujeitos a
sermos arrastados para qualquer ponto a todo o momento, o resultado prático seria que ninguém havia de ter a
coragem de iniciar qualquer conversa. Seria terrivelmente embaraçoso começar uma frase num murmúrio amistoso
e ter que terminá-la aos gritos por o nosso interlocutor vogar em sentido contrário ao nosso no livre e informe éter.
Ambos teriam que se unir para se entenderem. Se os americanos se divorciam por «incompatibilidade de gênios»
não compreendo porque ainda não estão todos divorciados.

Conheci muitos casamentos felizes, mas nenhum compatível. A única finalidade do casamento é combater
permanentemente e ultrapassar o instante em que a incompatibilidade é evidente, pois homem e mulher, como
tais, são incompatíveis.

Este texto foi editado para publicação em meio eletrônico e melhor aproveitamento do leitor.

O Napoleão de Noting Hill: o jogo “engane o profeta”


by Salveregina on 05/03/2016 in Literatura
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O Napoleão de Noting Hill

Chesterton

Livro I

Capítulo I

Observações introdutórias sobre a Arte da Profecia

A raça humana, a que muitos de meus leitores pertencem, diverte-se com jogos infantis desde o início dos tempos, e
provavelmente vai fazê-lo até o fim, o que é um incômodo para as poucas pessoas crescidas. E um dos jogos
prediletos é chamado deMantenha o amanhã misterioso, e que também é chamado (pelos camponeses em
Shropshire, não tenho dúvida) Engane o Profeta. Os jogadores ouvem com muita atenção e respeito a tudo o que os
homens inteligentes têm a dizer sobre o que deve acontecer na próxima geração. Os jogadores então esperam até
que todos os homens inteligentes estejam mortos, e os enterram com respeito. Então, fazem alguma outra coisa.
Isto é tudo. Para uma raça de gostos simples, no entanto, é muito divertido.

A humanidade, como uma criança, é teimosa e adora segredinhos. E desde o início do mundo nunca fez o que os
sábios dizem ser inevitável. Eles apedrejaram os falsos profetas, diz-se, mas eles poderiam ter apedrejado os
verdadeiros profetas com um prazer maior e mais justo. Individualmente, os homens podem apresentar uma
aparência mais ou menos racional, comer, dormir, ou planejar algo. Mas a humanidade como um todo é mutável,
mística, inconstante, deliciosa. Os homens são homens, mas o Homem é uma mulher.

Mas, no início do século XX, o jogo Engane o Profeta se tornou bem mais difícil do que nunca. A razão era que havia
tantos profetas e tantas profecias que era difícil evitar todas as suas ocorrências. Quando o homem fazia algo
frenético, livre e totalmente seu, um pensamento horrível o feria depois: que seu ato poderia ter sido previsto.
Sempre que um duque escalava um poste, quando um Superintendente ficava bêbado, ele não poderia ser
realmente feliz, ele não poderia ter certeza de que não estava cumprindo algumas profecias. No início do século XX
não se podia ver o chão em que pisavam os homens inteligentes. Eles eram tão comuns que um homem estúpido
era absolutamente excepcional, e quando o encontravam, multidões na rua o seguiam, guardavam e davam-lhe
algum alto posto no Estado. E todos os homens inteligentes se dedicavam a informar o que iria acontecer na
próxima era, visões muito claras, mordazes e severas, e todas muito diferentes entre si. E parecia que o bom e velho
jogo de enganar seus antepassados não poderia realmente ser ganho neste momento, porque os antepassados
negligenciavam a carne, o sono e a prática da política, para que pudessem meditar dia e noite sobre o que seus
descendentes estariam propensos a fazer.

Mas a forma como os profetas do século XX passaram a trabalhar foi a seguinte: eles pegavam uma coisa ou outra
que certamente estava acontecendo no seu tempo, e então diziam que esta iria ocorrer cada vez mais até que algo
extraordinário aconteceria. E muitas vezes acrescentavam que em algum lugar estranho esse algo extraordinário já
havia acontecido, e que isso constituía um sinal dos tempos.

Assim, por exemplo, havia o Sr. HG Wells e outros, que pensavam que a ciência iria tomar conta do futuro, e assim
como o automóvel é mais rápido que o coche, então alguma coisa linda seria mais rápida do que o automóvel e
assim por diante para sempre. E surgiu, a partir de suas cinzas, o Dr. Quilp, que disse que um homem podia ser
enviado tão rápido ao redor do mundo em sua máquina que poderia manter uma longa conversa com alguém de
uma aldeia do velho mundo dizendo uma palavra de uma frase a cada vez que desse uma volta. E foi dito que a
experiência havia sido tentada com um velho major apoplético, que foi enviado em volta ao mundo tão rápido que
parecia (para os habitantes de outra estrela) uma faixa contínua de bigodes brancos, pele vermelha e tecido tweed,
como um anel de Saturno.

Em seguida, houve a escola oposta. Entre eles, o Sr. Edward Carpenter, que achava que em breve deveríamos
retornar à Natureza, e viver de forma simples e lenta, como os animais fazem. E Edward Carpenter foi seguido por
James Pickie (do Pocohontas College), que disse que os homens melhoravam imensamente pela ruminação,
comendo seu alimento de forma lenta e continuamente, à maneira das vacas. E ele disse que tinha, com os
resultados mais encorajadores, colocado alguns citadinos de quatro num campo cheio de costeletas de vitela. Em
seguida, Tolstoi e os Humanitários disseram que o mundo estava crescendo mais misericordioso, e, portanto,
ninguém jamais teria o desejo de matar. E o Sr. Mick não só se tornou um vegetariano, mas posteriormente declarou
o vegetarianismo condenado (“o derramamento”, como ele chamou finamente, “do sangue verde dos animais
silenciosos”), e previu que os homens de uma era melhor viveriam apenas de sal. E então veio o panfleto do Oregon
(onde a proposta foi tentada), o panfleto chamado “Por que o Sal deve sofrer?”, e houve mais problemas.

Citadinos de quatro num campo cheio de costeletas de vitela.

E por outro lado, algumas pessoas previam que as linhas de parentesco se tornariam mais estreitas e rigorosas. Entre
elas, o Sr. Cecil Rhodes, que pensava que a única coisa do futuro seria o Império Britânico, e que haveria um abismo
entre aqueles que eram do Império e aqueles que não eram, entre o chinês em Hong Kong e o chinês de fora, entre
o espanhol no Rochedo de Gibraltar e do espanhol fora dele, semelhante ao abismo entre o homem e os animais
inferiores. E da mesma forma seu impetuoso amigo, Dr. Zoppi (“o Paulo do anglo-saxonismo”), foi ainda mais longe,
e declarou que, como resultado desse ponto de vista, o canibalismo deveria significar comer um membro da
Império, e não comer um membro dos povos submetidos, que deveriam, segundo ele, ser mortos sem dor
desnecessária. Seu horror à ideia de comer um homem da Guiana Inglesa mostrou as pessoas como elas não haviam
compreendido seu estoicismo, que o consideravam desprovido de sentimento. Ele ficou, no entanto, em uma
posição difícil, pois foi dito que ele tinha tentado o experimento, e, vivendo em Londres, tinha subsistido
inteiramente de moídos de italianos. O seu fim foi terrível, pois quando ele tinha recém começado, Sir Paul Swiller
leu seu grande artigo na Royal Society, provando que os selvagens não apenas faziam muito bem em comer seus
inimigos, mas tinham direito por razões morais e de higiene, pois era verdade que as qualidades do inimigo comido,
passavam para o comedor. A noção de que a natureza de um órgão de um homem italiano estava irrevogavelmente
crescendo e florescendo dentro dele era mais do que o velho e gentil professor poderia suportar.

Havia também o Sr. Benjamin Kidd, que disse que a marca crescente de nossa raça seria o cuidado e conhecimento
do futuro. Sua ideia foi desenvolvida com mais força por William Borker, que escreveu aquela passagem que todo
estudante sabe de cor, sobre os homens em eras futuras chorando pelos túmulos de seus descendentes, e os
turistas que estão sobre a cena da histórica batalha que deveria realizar-se alguns séculos depois.

E o Sr. Stead, também proeminente, que achava que a Inglaterra no século XX se uniria a América; e seu jovem
tenente, Graham Podge, que incluiria os estados de França, Alemanha e Rússia na União Americana, o Estado da
Rússia sendo abreviado para Ra.

Havia também o Sr. Sidney Webb, quem disse que que o futuro veria um aumento continuo da ordem e limpeza na
vida das pessoas, e seu pobre amigo Fipps, que enlouqueceu e correu o país com um machado, cortando os galhos
das árvores, sempre que não tivesse o mesmo número em ambos os lados.

Todos estes homens inteligentes estavam profetizando com toda a sorte de engenhos o que iria acontecer em breve,
e todos eles fizeram isso da mesma maneira, tomando algo de “forte tendência”, como se diz, e esticando-o tanto
quanto a sua imaginação aceitava. Isso, segundo eles, era o verdadeiro e simples caminho de antecipar o futuro.
“Assim”, disse o Dr. Pellkins, em uma bela passagem, “quando vemos um porco em uma ninhada maior do que os
outros porcos, sabemos que por uma lei inalterável do Inescrutável, este porco vai algum dia ser maior do que um
elefante, da mesma forma como sabemos, quando vemos ervas daninhas e dentes de leão crescendo mais grossos
em um jardim, que estes devem, apesar de todos os nossos esforços, crescer mais altos do que as chaminés e
encobrir a casa, do mesmo modo que sabemos reverentemente reconhecer que, quando qualquer poder na política
humana atinge considerável destaque por algum período de tempo, este vai continuar até atingir o céu.”

Certamente parece que os profetas haviam colocado as pessoas (envolvidas no velho jogo de Engane o Profeta) em
uma dificuldade sem precedentes. Parecia muito difícil fazer qualquer coisa sem cumprir algumas de suas profecias.
Mas havia, no entanto, nos olhos dos trabalhadores nas ruas, dos camponeses nos campos, dos marinheiros e das
crianças, e especialmente as mulheres, um olhar estranho que manteve os homens sábios em um perfeito estado de
dúvida. Eles não podiam imaginar a alegria imóvel em seus olhos. Eles ainda tinham algo na manga, pois eles ainda
estavam jogando o jogo de Enganar o Profeta. Então nos sábios cresceu uma dúvida selvagem, que os agitava de cá
para lá e passaram a gritar: “O que pode ser? O que pode ser? O que será de Londres daqui a um século? Há algo
que não se tenha pensado? Casas de cabeça para baixo… mais higiênicas, talvez? Homens andando em mãos-pés
flexíveis, talvez? … Veículos lunares motorizados … sem cabeça….” E assim, eles se agitavam e se perguntavam até
que morreram e foram respeitosamente enterrados. Então o povo foi e fez o que queria. Não vou mais esconder a
dolorosa verdade. As pessoas tinham enganado os profetas do século XX. Quando a cortina sobe nesta história,
oitenta anos após a data presente, Londres é quase exatamente como é agora.

O Napoleão de Noting Hill: Entra um Lunático


Chesterton

Livro II

Entra um Lunático

O Rei das Fadas, que foi, presumidamente, o padrinho do rei Auberon, deve ter favorecido muito o seu fantástico
afilhado neste dia em particular, pois com a entrada da guarda do superintendente de Notting Hill havia uma certa
adição mais ou menos inexplicável para o seu deleite. Os trabalhadores braçais miseráveis e homens-sanduíche que
levavam as cores de Bayswater ou South Kensington, contratados apenas para o dia para satisfazer o passatempo
real, ficavam na sala com um ar comparativamente compungido, e uma grande parte do prazer intelectual do rei
consistia no contraste entre a arrogância de suas espadas e penas e a mansa miséria de seus rostos. Mas esses
alabardeiros de Notting Hill, em suas túnicas vermelhas com cinto de ouro, tinham o ar de uma gravidade absurda.
Eles pareciam, por assim dizer, tomar parte da brincadeira. Eles marcharam e desfilavam em suas posições com uma
quase surpreendente dignidade e disciplina.

Eles carregavam uma bandeira amarela com um grande leão vermelho, nomeado pelo Rei como o emblema de
Notting Hill, por causa de uma taverna no bairro que costumava frequentar.

Entre as duas linhas de seguidores avançou em direção ao rei um homem alto, de cabelos vermelhos jovem, de alta
categoria e ousados olhos azuis. Ele teria sido chamado de bonito, mas que um certo ar indefinível causado pelo seu
nariz ser grande demais para seu rosto, e seus pés para as pernas, dava-lhe uma aparência de estranheza e extrema
juventude. Suas vestes eram vermelhas, de acordo com a heráldica do rei, e, sozinho entre os superintendentes, ele
estava cingido com uma grande espada. Este era Adam Wayne, o superintendente intratável de Notting Hill.

O rei atirou-se para trás na cadeira, e esfregou as mãos.

— Que dia, que dia! — disse para si mesmo. Agora vai haver barulho. Não sabia que seria tão divertido. Estes
superintendentes são tão indignados, tão razoáveis, tão certinhos. Este homem, pelo olhar em seus olhos, é ainda
mais indignado do que o resto. Nenhum sinal em seus grandes olhos azuis, de ter ouvido falar de uma brincadeira.
Ele vai reclamar dos outros, e eles vão reclamar dele, e todos vão ficar suntuosamente felizes em reclamar comigo.

— Bem-vindo, meu Lorde — disse ele em voz alta. — Quais são as novidades do Morro das Cem Lendas? O que tem
para o ouvido de vosso Rei? Sei que problemas surgiram entre você e estes outros, nossos primos, mas estes
problemas devem ser o nosso orgulho de se resolver. E não duvido, e não se pode duvidar, que o seu amor por mim
não é menos sensível, nem menos ardente, que o deles.

O sr. Buck fez uma amarga careta e as narinas de James Barker se curvaram; Wilson começou a rir baixinho, e o
superintendente de West Kensington fez o mesmo de uma forma discreta. Mas os grandes olhos azuis de Adam
Wayne nunca mudaram, e ele gritou pelo corredor com sua voz singular e infantil:

— Trago a minha homenagem ao rei. Trago-lhe a única coisa que tenho: a minha espada.

E, com um grande gesto, a colocou no chão, e ajoelhou-se em um dos joelhos.

Houve um silêncio de morte.

— Como disse? — disse o Rei, sem expressão.

— Fala bem, senhor — disse Adam Wayne —, como sempre fala, quando diz que meu amor não é menor do que o
amor deles. Pequeno seria se não fosse maior. Porque sou o herdeiro de seu projeto, a criança da grande Carta.
Estou aqui pelos direitos que a Carta me deu, e juro, por sua coroa sagrada, que onde permaneço, permaneço firme.

Os olhos dos cinco homens se arregalaram.


Em seguida, Buck disse, com sua voz extremamente forte:

— Todo o mundo ficou louco?

O rei levantou-se, e seus olhos brilharam:

— Sim — gritou, numa voz de júbilo —, todo o mundo é louco, exceto Adam Wayne e eu. É certo como a morte o
que lhe disse há muito tempo, James Barker. A seriedade envia os homens a loucura. Você é louco, porque se
importa com política, tão louco como um homem que coleciona passagens de bonde. Buck é louco, porque ele se
importa com o dinheiro, tão louco como um homem viciado em ópio. Wilson é louco, porque ele acha-se correto,
tão louco como um homem que pensa que é o Deus Todo Poderoso. O superintendente de West Kensington é louco,
porque acha que é respeitável, tão louco como um homem que pensa que é uma galinha. Todos os homens são
loucos, exceto o humorista, que não se preocupa com nada e possui tudo. Pensava que só havia um humorista na
Inglaterra. Tolos! Abram seus olhos bovinos; há dois! Em Notting Hill, naquela pouca promissora elevação, nasceu
um artista! Tentaram estragar a minha piada, e me intimidar, tornando-se mais modernos, mais práticos, mais
agitados e racionais. Oh, que festivo foi para eu responder, tornando-me mais augusto, mais gracioso, mais
antiquado e maduro! Mas este rapaz viu como me mover. Ele me respondeu de volta, vanglória por vanglória,
retórica por retórica. Ele levantou o escudo que eu não posso quebrar, o escudo da impenetrável pomposidade.
Ouçam. Veio, meu Lorde, por Pump Street?

— Pela cidade de Notting Hill — respondeu Wayne, com orgulho —, do qual Pump Street é uma parte viva e alegre.

— Não é uma parte muito grande — disse Barker, com desprezo.

— Aquilo que é grande o suficiente para os ricos cobiçar — disse Wayne, elevando sua cabeça — é grande o
suficiente para os pobres defender.

O Rei deu um tapa nas suas pernas, e agitou seus pés no ar por um segundo.

— Toda pessoa respeitável em Notting Hill — cortou Buck, com sua voz grossa e fria — apoia-nos e é contra ti. Tenho
muitos amigos em Notting Hill.

— Seus amigos são aqueles que aceitaram o seu ouro para comprar outros lares, meu Lorde Buck — disse o
superintendente Wayne. — Posso muito bem acreditar que são seus amigos.

— Eles nunca venderam brinquedos sujos, de qualquer maneira — disse Buck, rindo brevemente.

— Eles venderam coisas mais sujas — disse Wayne, calmamente. — Eles se venderam.

— Isso não é bom, meu Buckito — disse o Rei, rolando sobre a cadeira. — Não consegue lidar com essa eloquência
cavalheiresca. Não pode lidar com um artista. Não pode lidar com o humorista de Notting Hill. Oh, nunc dimittis, pois
vivi para ver este dia! Superintendente Wayne, permanece firme?

— Deixe-os esperar e ver — disse Wayne. — Se permanecia firme antes, acha que enfraquecerei agora que vi o rosto
do Rei? Pois luto por algo maior, se pode haver algo maior que os lares do meu povo e o Senhorio do Leão. Luto por
sua visão real, por seu grande sonho da Liga das Cidades Livres. Você mesmo me deu essa liberdade. Se eu fosse um
mendigo e tivesse me atirado uma moeda, ou se eu fosse um camponês numa dança e tivesse me arremessado um
presente, acha que teria deixado sua oferta ser levada por qualquer bandido na estrada?

— É demais, é demais — disse o rei. — A natureza é fraca. Preciso falar com você, irmão artista, sem mais disfarce.
Deixe-me lhe fazer uma pergunta solene. Adam Wayne, alto lorde superintendente de Notting Hill, não acha isso
esplêndido?

— Esplêndido — gritou Adam Wayne! Tem o esplendor de Deus.

— Desviou novamente — disse o rei. — Vai manter a pose. Engraçado, é claro, é sério. Mas, seriamente, não é
engraçado?

— O quê? — perguntou Wayne, com os olhos de um bebê.

— Pare tudo, não jogo mais. O negócio todo da Carta das Cidades. Não é imenso?
— Imenso não é uma palavra indigna para o glorioso projeto.

— Oh, pare! Mas, é claro, entendo. Você quer que eu limpe o quarto destes bobos razoáveis. Quer os dois
humoristas juntos sozinhos. Deixe-nos, senhores.

Buck lançou um olhar azedo em Barker, e com um sinal mal-humorado, saíram da sala como um desfile todo de azul
e verde, de vermelho, ouro, púrpura, deixando apenas os dois no grande salão, o rei sentado em seu assento
tablado, e a figura avermelhada ainda ajoelhado no chão ante a sua espada caída.

O Rei limitou-se a descer os degraus e bateu nas costas do superintendente Wayne.

— Antes das estrelas serem feitas — gritou ele — fomos feitos um para o outro. É muito bonito. Pensar na valente
independência de Pump Street. Isso é real. É a deificação do ridículo.

A figura ajoelhada levantou-se ferozmente:

— Ridículo?! — gritou ele, com um rosto em fogo.

— Oh, pare, pare — disse o rei, impaciente —, não precisa manter isso comigo. Os áugures devem piscar algumas
vezes por pura fadiga das pálpebras. Vamos aproveitar por meia hora, e não como atores, mas como os críticos
dramáticos. Não é uma piada?

Adam Wayne olhou para baixo como um menino, e respondeu em uma voz constrangido:

— Não entendo a sua Majestade. Não posso acreditar que, enquanto luto por sua carta régia, sua majestade me
abandona para estes cães caçadores de ouro.

— Oh, droga… Mas o que é isso? Que diabo é isso

O rei olhou para o rosto do jovem superintendente, e na penumbra da sala começou a ver que seu rosto estava
muito branco e os lábios tremendo.

— Em nome de Deus, qual é o problema? — gritou Auberon, segurando seu pulso.

Wayne virou seu rosto, e as lágrimas brilhavam sobre ele.

— Sou apenas um menino, mas é verdade. Pintaria o Leão Vermelho em meu escudo mesmo que tivesse só o meu
sangue.

Rei Auberon soltou a mão e ficou sem mexer, atordoado.

— Meu Deus do Céu! Será possível que alguém dentro dos quatro mares da Grã-Bretanha realmente leva Notting
Hill a sério?

— Meu Deus do Céu! — Wayne disse apaixonadamente. — É possível que haja, dentro dos quatro mares da Grã-
Bretanha um homem que não a leve a sério?

O rei não disse nada, mas apenas voltou a subir os degraus da tribuna, como um homem atordoado. Caiu
novamente para trás em sua cadeira e chutou seus calcanhares.

— Se esse tipo de coisa continuar… — disse fracamente — Vou começar a duvidar da superioridade da arte à vida.
Em nome dos Céus, não brinque comigo. Você realmente quer dizer que você (Deus me ajude!) um patriota de
Notting Hill? Você é…

Wayne fez um gesto violento, e o Rei o acalmava freneticamente.

— Tudo bem, tudo bem, vejo que você é; mas deixe-me continuar. Você realmente propõe lutar contra estes
renovadores modernos, com seus conselhos, inspetores e agrimensores e todo o resto?

— Eles são tão terríveis? — perguntou Wayne, com desdém.

O rei continuou a olhar como se ele fosse uma curiosidade humana.


— E suponho que você acha que os dentistas, pequenos comerciantes e senhoras solteiras que habitam Notting Hill,
vão se reunir com hinos de guerra seguindo seu estandarte.

— Se eles têm sangue, irão — disse o superintendente.

— E acho — disse o Rei, com a cabeça para trás entre as almofadas — que nunca passou pela sua mente que… —
sua voz parecia perder-se exuberantemente — nunca passou pela sua cabeça que qualquer um pensou que a ideia
de um idealismo por Notting Hill é.. er.. um pouco.. pouco ridícula?

— Claro que pensam assim — disse Wayne.

— Qual era o significado de zombar dos profetas?

— De onde — perguntou o rei, inclinando-se para frente —, de onde em nome do Céu tirou essa ideia
milagrosamente fútil?

— Você foi meu tutor, Senhor — disse o superintendente —, em tudo que é alto e honroso.

— Eh? — disse o rei.

— Foi Sua Majestade quem primeiro colocou meu patriotismo em chamas. Dez anos atrás, quando eu era um
menino (tenho apenas 19), estava brincando na encosta de Pump Street, com uma espada de madeira e um
capacete de papel, sonhando em grandes guerras. Num transe de raiva batia com a minha espada, e fiquei
petrificado, pois vi que tinha te batido, Senhor, meu Rei, enquanto vagava em nobre segredo, cuidando do bem-
estar das pessoas. Mas não precisava ter medo. Pois me ensinou a entender a realeza. Você nem se encolheu ou
franziu a testa. Nem convocou nenhum guarda. Nem impôs punições. Mas, em palavras ardentes e augustas, que
estão escritas na minha alma, para nunca mais serem apagadas, disse-me para sempre virar a minha espada contra
os inimigos da minha cidade inviolada. Como um sacerdote apontando para o altar, me apontou para o monte de
Notting. “Enquanto estiver pronto para morrer pela montanha sagrada, mesmo que seja cercado por todos os
exércitos de Bayswater.” Não me esqueci das palavras, e tenho razão agora para me lembrar delas, pois é chegada a
hora para coroar sua profecia. A colina sagrada está cercada pelos exércitos de Bayswater, e estou pronto para
morrer.

O rei estava deitado para trás na cadeira, uma espécie de ruína.

— Oh, Senhor, Senhor, Senhor — ele murmurou. — Que vida! Oh vida! Tudo meu trabalho! Parece que fiz tudo isso.
Então você é o menino de cabelos vermelhos que me bateu no colete. O que fiz? Deus, o que fiz? Pensei que tinha
feito uma piada, e criei uma paixão. Tentei compor uma paródia, e parece estar no meio da transformação num
épico. O que é feito com um mundo assim? Em nome do Senhor, a piada não era grande e ousada o suficiente?
Abandonei meu humor sutil para diverti-lo, e parece-me que trouxe lágrimas aos seus olhos. O que deve ser feito
para as pessoas entenderem que você escreve uma pantomima? Chamar as salsichas de festões clássicos, e fazer o
policial cortar uma tragédia em duas por dever público? Mas por que estou falando? Por que estou fazendo
perguntas a um cavalheiro jovem e bonito que é totalmente louco? Qual é o propósito? Qual é o propósito de
qualquer coisa? Oh, Senhor! Oh, Senhor!

De repente, ele levantou-se.

— Acha mesmo que a sagrada Notting Hill não é absurda?

— Absurda? — perguntou Wayne, sem expressão. — Por que deveria?

O rei olhou para trás igualmente sem expressão:

— Como?

— Notting Hill — disse o superintendente, simplesmente — é um terreno elevado de terra comum, em que homens
construíram casas para viver, onde eles nascem, se apaixonam, rezam, casam e morrerem. Por que devo achar
absurdo?

O rei sorriu.
— Porque, meu Leônidas — começou, então, de repente, não sabia, sua mente era um branco total. Afinal, por que
era um absurdo? Por que era um absurdo? Ele sentiu-se como se o chão de sua mente tivesse sumido. Ele sentiu o
que todos os homens sentem quando seus principais fundamentos são duramente atingidos por uma pergunta.
Barker sempre se sentia assim quando o rei dizia: “Por que se preocupar com política?”

Os pensamentos do rei estavam em uma espécie de debandada, não podia recolhê-los.

— A percepção geral é de ser um pouco engraçado — disse vagamente.

— Suponho — disse Adam virando-se com rapidez — que considera a crucificação como algo sério?

— Bem — começou Auberon —, admito que, em geral, achei que tinha um lado mais grave.

— Então está errado — disse Wayne, com incrível violência. — A crucificação é cômica. É primorosamente divertida.
Era um tipo absurdo e obsceno de empalação reservado para as pessoas que foram feitas para serem ridicularizadas,
para escravos e provinciais, para dentistas e pequenos comerciantes, como você diria. Vi a grotesca forca, que os
garotos de rua romanos rabiscaram como uma piada vulgar, em chamas sobre os pináculos dos templos do mundo.
E devo continuar?

O rei não respondeu.

Adam continuou, a sua voz ressoando no telhado.

— Esse riso com que os homens tiranizam não é o grande poder que acredita. Pedro foi crucificado, e crucificado de
cabeça para baixo. O que poderia ser mais engraçado do que a ideia de um Apóstolo de idade respeitável de cabeça
para baixo? O que poderia ser mais ao estilo de seu humor moderno? Mas qual foi o fim dele? De cabeça para baixo
ou do lado certo, Pedro era Pedro para a humanidade. De cabeça para baixo ele paira sobre a Europa, e milhões se
movem e respiram na vida da sua Igreja.

Rei Auberon levantou-se distraído:

— Há algo no que você diz. Parece que esteve pensando, jovem.

— Apenas sentindo, senhor — respondeu o superintendente. — Nasci, como os outros homens, num ponto da terra
que amei, porque brinquei jogos de meninos lá, e me apaixonei, e conversei com os meus amigos em noites que
eram noites dos deuses. E sinto o mistério. Estes pequenos jardins onde dissemos nossos amores. Essas ruas onde
nós colocamos nossos mortos. Por que deveriam ser comuns? Por que deveriam ser absurdos? Por que deveria ser
grotesco dizer que uma caixa de correio é poética quando, por um ano não podia ver uma caixa de correio vermelha
contra o amarelo do anoitecer numa determinada rua sem ser sacudido por algo que Deus guarda em segredo, mas
que é mais forte do que a alegria ou a tristeza? Por que alguém deveria levantar uma risada, ao dizer a “causa de
Notting Hill”? Notting Hill, onde milhares de espíritos imortais brilham ora com esperança, ora com medo.

Auberon estava sacudindo a poeira de sua luva com uma nova seriedade em seu rosto, distinta da solenidade de
coruja que era a pose de seu humor.

— É muito difícil — disse finalmente. — É uma dificuldade maldita. Vejo o que você quer dizer. Até concordo com
você em certo ponto ou gostaria de concordar, se eu fosse jovem o suficiente para ser um profeta ou poeta. Sinto
uma verdade em tudo que diz, até chegar às palavras ’Notting Hill’. E então lamento dizer que o velho Adão acorda
morrendo de rir e acaba com o novo Adão, cujo nome é Wayne.

Pela primeira vez o superintendente Wayne ficou em silêncio, e ficou olhando sonhadoramente para o chão. A noite
se aproximava, e o quarto tinha ficado mais escuro.

— Eu sei — disse ele, numa voz estranha, quase sonolenta. — Também há verdade no que diz. É difícil não rir com
nomes comuns, digo apenas que não se devia. Tenho pensado num remédio, mas tais pensamentos são bastante
terríveis.

— Que pensamentos? — perguntou Auberon.

O superintendente de Notting Hill parece ter caído em uma espécie de transe, nos seus olhos havia uma luz élfica.
— Sei de uma varinha mágica, mas é uma varinha que apenas um ou dois podem usar corretamente, e só raramente.
É uma varinha de grande medo, mais forte do que aqueles que a usam, muitas vezes assustadora, muitas vezes
perversa. Mas o que é tocado com ela nunca mais é totalmente comum, o que é tocado recebe uma magia fora do
mundo. Se eu tocar, com esta varinha, as ferrovias e as estradas de Notting Hill, os homens irão amá-las, e terão
medo delas para sempre.

— Do que diabo você está falando? — perguntou o rei.

— Ela fez paisagens medianas serem magníficas, e casebres durarem mais do que catedrais — continuou o louco. —
Por que não poderia fazer de postes de luz mais mágicos do que as lâmpadas gregas? E um passeio de ônibus, como
de um navio pintado. O toque dela é o dedo de uma estranha perfeição.

— O que é a sua varinha? — gritou o rei, impaciente.

— Aí está — disse Wayne, e apontou para o chão, onde a sua espada estava lisa e brilhante.

— A espada! — gritou o rei, e levantou-se em frente do estrado.

— Sim, sim — gritou Wayne, com voz rouca. — As coisas tocadas por ela não são vulgares, as coisas tocadas por
ela…

O rei Auberon fez um gesto de horror.

— Vai derramar sangue por isso! — gritou. — Por um maldiçoado ponto de vista…

— Oh, vocês reis! — gritou Adam, em uma explosão de desprezo. — Quão humano são vocês, quão carinhosos, quão
atenciosos! Fazem a guerra por uma fronteira, ou pelas importações de um porto estrangeiro! Derramam sangue
pelos direitos de impostos, ou como a saudação de um almirante. Mas para as coisas que tornam a vida digna ou
miserável, quão humanos são! Digo aqui, e sei bem o que eu falo, nunca houve guerras necessárias, mas as guerras
religiosas. Nunca houve guerras justas, mas as guerras religiosas. Havia nunca nenhuma guerra humana, mas as
guerras religiosas. Pois estes homens estavam lutando por algo que afirmava, pelo menos, ser para a felicidade do
homem, a virtude do homem. Um cruzado pensou, pelo menos, que o Islã feria a alma de cada homem, rei ou
funileiro, tudo o que poderia cair em seu domínio. Acho que Buck, Barker e estes abutres ricos ferem a alma de cada
homem, ferem cada centímetro do chão, ferem cada tijolo das casas, tudo o que cai em seus domínios. Acha que
não tenho o direito de lutar por Notting Hill, quando seu governo inglês tantas vezes lutou por tolices? Se, como
dizem seus amigos ricos, não há deuses, e acima de nós há somente os céus escuros, para o que deve lutar o
homem, mas pelo lugar onde teve o Éden da infância e o curto céu do primeiro amor? Se não houver templos e não
são sagradas as escrituras, o que é sagrado, senão a própria juventude do homem?

O rei andou um pouco inquieto para cima e para baixo no estrado.

— É difícil — disse ele, mordendo os lábios — ser favorável a uma visão tão desesperada, tão responsável

Enquanto falava, a porta da sala de audiência abriu entreaberta, e pela abertura veio, como um súbito trino de um
pássaro, a voz alta, nasal, mas bem-educada de Barker:

— Eu disse a ele de forma muito clara, o interesse público…

Auberon se voltou para Wayne com violência:

— Que diabos é isso? O que estou dizendo? O que você está dizendo? Você me hipnotizou? Malditos sejam seus
misteriosos olhos azuis! Deixe-me ir. Devolva-me o meu senso de humor. Devolva-me, eu digo!

— Eu lhe asseguro solenemente — disse Wayne, inquieto, com um gesto, como sentindo sobre si — que não o
tenho.

O rei caiu para trás em sua cadeira, e com uma gargalhada rabelaisiana:

— Não acho que tenha — exclamou.


Ora, para expressar o caso numa linguagem popular, poderia ser verdade que o
sol se levante regularmente por nunca se cansar de levantar-se. Sua rotina talvez
se deva não à ausência de vida, mas a uma vida exuberante. O que quero dizer
pode ser observado, por exemplo, nas crianças, quando elas descobrem algum
jogo ou brincadeira com que se divertem de modo especial. Uma criança balança
as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de
as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente
impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre
dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço.
Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia.
Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol:
“Vamos de novo”; e todas as noites à lua: “Vamos de novo”. Talvez não seja uma necessidade automática que torna
todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-
las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais
jovem do que nós. A repetição na natureza pode não ser mera recorrência; pode ser um bis teatral.”

G. K. Chesterton, Ortodoxia

“Aqui, neste momento, encontra-se talvez seu [de Santo Tomás de Aquino] único momento de paixão pessoal, com
exceção daquela efusão solitária durante as dificuldades da sua juventude. E mais uma vez ele está lutando contra
seus inimigos com uma tocha ardente. No entanto, mesmo neste isolado apocalipse de fúria, há uma frase que
poderia ser recomendada às pessoas de todos os tempos que às vezes ficam irritadas por muito menos. Se há uma
frase que poderia ser esculpida em mármore para representar a racionalidade mais calma e resistente, é a frase que
surgiu juntamente com todo o resto desta lava derretida. Se há uma frase que passou para a história como típica de
Tomás de Aquino, é a frase sobre o seu próprio argumento: “Não se baseia em documentos da fé, mas nas razões e
nas afirmações dos próprios filósofos”. Que bom teria sido se todos os doutores ortodoxos da Igreja, quando
enraivecidos, tivessem sido tão razoáveis quanto Aquino! Que bom seria se todos os apologistas cristãos se
lembrassem daquela máxima e a escrevessem em letras grandes na parede antes de pregar ali suas teses. No auge
da sua fúria Tomás de Aquino entende o que muitos defensores da ortodoxia não conseguem entender. É inútil dizer
a um ateu que é ateu; ou atirar contra um negador da imortalidade a infâmia da sua negação; ou imaginar que
alguém pode forçar um adversário a admitir que está equivocado demonstrando que está equivocado segundo os
princípios de outra pessoa e não de acordo com seus próprios princípios. Após o grande exemplo de Santo Tomás,
foi estabelecido o princípio — ou deveria ter sido estabelecido para sempre — de que, ou não devemos discutir com
uma pessoa de forma alguma, ou devemos fazê-lo em seu próprio terreno e não no nosso. Podemos fazer outras
coisas em vez de discutir, de acordo com nossa concepção de ações moralmente admissíveis; mas, se nós
discutimos, devemos fazê-lo “com as razões e as afirmações dos próprios filósofos”. Este é o senso comum contido
em uma frase atribuída a um amigo de Tomás, o grande São Luis, rei de França, que as pessoas superficiais citam
como exemplo de fanatismo e cujo significado é: ou te dedicas a discutir com um infiel como somente um
verdadeiro filósofo pode discutir, ou então “crava-lhe uma espada no corpo o mais profundamente possível”. Um
verdadeiro filósofo (mesmo um da escola contrária) seria o primeiro a concordar que São Luis foi inteiramente
filosófico neste assunto.”

G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino

“Nietzsche, como todos sabem, pregou uma doutrina que ele e seus seguidores aparentemente consideravam muito
revolucionária; sustentaram que a moral altruísta simplesmente havia sido uma invenção de uma classe escrava para
evitar que, em tempos posteriores, alguém surgisse para combatê-la e dominá-la. Os modernos, concordando ou
não com Nietzsche, sempre se referem a essa idéia como algo novo e jamais visto. Com tranqüilidade e insistência,
se supõe que os grandes escritores, digamos Shakespeare, por exemplo, não sustentou essa idéia porque jamais
havia pensado nela. Recorramos ao último ato de Ricardo III de Shakespeare e encontraremos não só tudo o que
Nietzsche tinha a dizer, resumido em duas linhas, mas também as mesmas palavras de Nietzsche. Ricardo o
corcunda, disse:

Consciência é só uma palavra que usam os covardes,

Criada, a princípio, para infundir terror aos fortes.

Como já falei, o fato é evidente. Shakespeare havia pensado na idéia de Nietzsche e na Moralidade Suprema; porém
o deu seu próprio valor e pôs no lugar que lhe corresponde. Este lugar é a boca de um corcunda meio louco nas
vésperas da derrota. Essa raiva contra os debilitados só é possível em um homem morbidamente admirável, mas
profundamente enfermo; um homem como Ricardo; um homem como Nietzsche. Este caso deveria destruir a
fantasia absurda de que estas filosofias modernas são modernas no sentido de que os grandes homens do passado
não pensaram nelas. Não é que Shakespeare não tenha visto a idéia de Nietzsche; ela a viu, porém viu além dela.”

G. K. Chesterton, The Common Man

“Há duas formas conhecidas de discutir com um comunista; e ambas estão erradas. Há também uma terceira forma
que é correta mas que não é conhecida. Agora tenho a noção de que, por um motivo ou outro, uma parte
considerável do nosso tempo cedo ou tarde será consumida discutindo com comunistas. E vou descrever em poucas
palavras o que considero ser a forma certa de fazê-lo. Curiosamente, as duas maneiras mais comuns de contradizer o
comunismo também se contradizem entre si. A primeira consiste em acusar o bolchevista de todos os vícios. A
segunda, curiosamente, consiste em acusá-lo de todas as virtudes. Consiste realmente em contrapor os nossos vícios
às virtudes, ou supostas virtudes, dele.

Este é o truque mais perigoso e até suicida dos dois, e sua natureza exige uma pequena explicação. O primeiro
método, ou método convencional, é bastante simples. O capitalista diz ao comunista, “Você não entrará em minha
casa, pois sei que você irá destruí-la; você não falará com minha família, pois sei que você a explodiria; você é um
ladrão e assassino qualquer, eu sou uma pessoa moral e respeitável. Não somo como os russos.” Eu não gostaria de
falar assim com um bolchevista, porque eu não falaria assim nem com um ladrão. É portar-se como um fariseu; e o
fariseu é um inimigo do cristão mais antigo que o marxista.

Eu prefiriria o outro método, o qual me parece extremamente comum entre aqueles que afirmam defender a
propriedade ou o individualismo contra a heresia marxista. Consiste em dizer ao comunista que ele é um idealista,
ou, em outras palavras, que ele está errado porque tem ideais. Neste segundo caso, o capitalista diz ao comunista,
“Você acredita em um monte de bobagens sobre a irmandade entre os homens; mas eu digo, como um homem
prático, que cada um quer obter o máximo possível para si, e agrediria o próprio irmão por um negócio se pudesse.
Cada homem deve obedecer o seu instinto aquisitivo.” (Eu li exatamente estas palavras em um ataque à teoria
bolchevista.) “Não se pode manter as coisas funcionando sem empresas privadas; e não se pode produzir empresas
privadas sem suborná-las ou recompensá-las com os louros oriundos da propriedade privada.” As pessoas usam
estes argumentos contra o comunismo como se estes fossem argumentos somente contra o comunismo, e depois se
surpreendem porque um grande número de jovens entusiasmados se tornam comunistas.

Eles não percebem que, para os jovens, o capitalista em questão parece estar dizendo simplesmente, “Eu sou um
patife ganancioso, e proíbo você de ser qualquer coisa diferente disso.”

Mas o verdadeiro argumento final e completo contra o comunismo é que a propriedade privada é muito mais
importante que a empresa privada. Um batedor de carteiras realiza um empreendimento privado, mas não se pode
dizer que ele apoia a propriedade privada. A propriedade privada não é uma recompensa que existe para manter a
empresa privada. Pelo contrário, a empresa privada é somente uma ferramenta ou uma arma, que pode às vezes ser
útil para preservar a propriedade privada. E é necessário preservar a propriedade privada simplesmente porque ela é
um outro nome para a liberdade. Não é meramente um respeito convencional. Pelo contrário, é somente o homem
com alguma propriedade e privacidade que pode viver sua própria vida livremente. E tampouco é uma simples
licença comercial, e menos ainda uma licença para a fraude. Pelo contrário, toda a questão da propriedade gira em
torno do fato de que ela somente pode ser nutrida com o sentimento da honra. Seria necessário mais espaço aqui
para expor esta tese, e levaria mais tempo ainda para expô-la a um comunista. Mas um comunista certamente a
escutaria por mais tempo do que a um homem meramente gabando-se de sua própria retidão ou a um homem que
se gaba da própria avareza.”
G. K. Chesterton, How Not To Do It

Chestertoninas: O homem das cavernas


Esse aposento secreto de rocha, ao ser iluminado depois de sua longa noite de séculos incontáveis, revelou em suas
paredes enormes e alastrados contornos feitos dom argila de várias cores; e, quando os visitantes acompanharam
suas linhas, reconheceram, através daquele vasto vão de séculos, o movimento e o gesto de uma mão humana.
Eram desenhos ou pinturas de animais; e foram desenhados ou pintados não apenas por um homem, mas por um
artista. Apesar de todas as limitações possíveis, eles exibiam o amor pelo traço grande e curvo ou longo e ondulado
que qualquer um que já desenhou ou tentou desenhar há de reconhecer; e a respeito desse traço nenhum artista
aceitará ser contestado por nenhum cientista. Os desenhos mostravam o espírito experimental e aventureiro do
artista, o espírito que em vez de evitar, tenta o que é difícil; como no ponto onde o desenhista havia representado o
movimento da rena ao virar completamente a cabeça para farejar a própria cauda, ação bastante comum no cavalo.
Mas há muitos modernos pintores de animais para quem representar essa cena seria uma tarefa bastante difícil.
Nesse e em outros vinte detalhes fica claro que o artista havia observado os animais com certo interesse e
presumivelmente com certo prazer. Nesse sentido pareceria que ele não era apenas um artista, mas também um
naturalista; o tipo de naturalista que é realmente natural.

Sendo assim, nem é preciso observar, a não ser de passagem, que não há absolutamente nada na atmosfera das
cavernas que sugira a atmosfera sombria e pessimista das cavernas dos ventos dos jornais, vociferando e soprando
ao nosso redor com inúmeros ecos a respeito do homem das cavernas. Na medida em que algum caráter humano
pode ser sugerido por esses traços, esse caráter humano é muito humano e até mesmo humanitário. Certamente
não se trata do ideal de um caráter desumano, como a abstração invocada na ciência popular. Quando romancistas
educadores e psicólogos de todos os tipos falam do homem das cavernas, eles nunca o imaginam em conexão com
coisa alguma que de fato está na caverna. Quando o realista de romances de sexo escreve “Rubras faíscas dançavam
no cérebro de Dagmar Pinto; ele sentia o espírito do homem das cavernas crescendo dentro dele”, os leitores do
romancista se sentiriam muito decepcionados se Dagmar apenas sumisse e fosse desenhar enormes vacas na parede
da sala de visitas. Quando o psicanalista escreve a um paciente “Os instintos submersos do homem das cavernas
sem dúvida estão estimulando você a satisfazer um impulso violento”, ele não está se referindo ao impulso de pintar
uma aquarela; ou de fazer estudos introspectivos sobre como o gado mexe a cabeça quando está pastando. No
entanto, nós temos provas de que o homem das cavernas de fato fazia essas coisas meigas e inocentes; e não temos
o menor sinal de evidência de que ele praticasse alguma dessas atividades violentas e ferozes. Em outras palavras, o
homem das cavernas tal e qual ele nos é comumente apresentado é apenas um mito, ou melhor, mera confusão;
pois um mito tem no mínimo um esquema imaginativo de verdade. Toda essa maneira atual de falar é simplesmente
uma confusão e um mal-entendido, que não se funda em nenhuma espécie de evidência científica e é apreciado
apenas como desculpa para um estado de espírito anarquista que é muito moderno. Se algum cavalheiro quer bater
numa mulher, ele sem dúvida pode ser um grosseirão sem denegrir o caráter do homem das cavernas, acerca do
qual não sabemos quase nada a não ser o que se consegue deduzir de algumas inofensivas e agradáveis pinturas
numa parede.

G. K. Chesterton, O Homem Eterno

Chestertoninas: Evolução
A maioria das modernas histórias da humanidade começa com a palavra evolução, e com muita exposição bastante
prolixa da evolução, em grande parte pelo mesmo motivo operante nesse caso. Há algo lento e reconfortante e
gradual envolvendo essa palavra e mesmo essa ideia. Na realidade, não se trata, com respeito a essas coisas
primárias, de uma palavra muito prática ou de uma ideia muito proveitosa. Ninguém se aproxima nem sequer um
centímetro disso mediante a explicação de como alguma coisa poderia se transformar em alguma outra coisa. É de
fato muito mais lógico começar dizendo “No começo Deus criou o céu e a terra”, mesmo que se só se queira dizer
“No começo algum poder inimaginável começou algum processo inimaginável”. Pois Deus é por natureza um nome
misterioso, e ninguém jamais supôs que o homem pudesse imaginar como o mundo foi criado e muito menos que
ele pudesse criar um mundo. Mas de fato a evolução é erroneamente tomada como uma explicação. Ela tem o
condão fatal de deixar em muitas mentes a impressão de que elas a entendem e entendem todo o resto; da mesma
forma que muitos alimentam a falsa impressão de que leram A origem das espécies.
Mas essa noção de algo suave e lento, como a subida de uma encosta, constitui grande parte da ilusão. É absurdo
assim como ilusório, pois a lentidão nada tem a ver com o caso. Um acontecimento não é nem um pouco
intrinsecamente mais inteligível ou ininteligível devido ao ritmo em que se desenrola. Para uma pessoa que não
acredita em milagres, um milagre lento seria exatamente tão inacreditável quanto um rápido. É possível que a bruxa
grega tenha transformado marinheiros em porcos com um toque de vara de condão. Mas ver um general da marinha
de nosso círculo de conhecidos parecendo-se cada dia mais com um suíno, até acabar com quatro pés de porco e um
rabinho enrolado, já seria motivo de preocupação. Poderia sim ser uma experiência mais misteriosa capaz de causar
arrepios. É possível que o bruxo medieval tenha voado pelos ares saltando de uma torre; mas com certeza um
cavalheiro idoso caminhando pelos ares, num passeio tranquilo e despreocupado, aparentemente ainda exigiria
alguma explicação. No entanto, perpassa todo o tratamento racionalista da história essa ideia curiosa e confusa de
que a dificuldade é evitada, ou até mesmo o mistério é eliminado, pela consideração da simples protelação ou de
algo que retarde o processo das coisas. Haverá mais a dizer sobre exemplos particulares em outras partes do livro; a
questão aqui é a falsa atmosfera de facilidade e despreocupação conferida pela mera sugestão de ir devagar; tipo
de conforto que se pode dar a uma nervosa senhora de idade viajando de carro pela primeira vez.

G. K.Chesterton, O Homem Eterno

Chesterton: el mayor poder del Estado es arrebatar la educación de los hijos


“Mientras que el Estado esté a cargo de la Educación, no enseñamos nada, y el mismo tipo de nada, a todos.”
(Gilbert Keith Chesterton)

“La manera en la que el Estado ha conseguido su mayor poder, arrebatándolo a los padres y a la Iglesia, es cuando se
apoderó de la Educación. Nunca antes en la historia del mundo había tenido el Estado tanto poder como cuando ha
obligado a todos los niños a ir al colegio. El objetivo de la educación obligatoria, ha sido “privar a la gente normal de
su sentido común.”. (Illustrated London News, 7 sept., 1929).

“Y no es tanto que se enseñe una filosofía no adecuada como que no se enseñe ninguna. Mientras que el Estado esté
a cargo de la Educación, no enseñamos nada, y el mismo tipo de nada, a todos. Porque a lo que obligamos a todas
las familias, por el poder de la policía, no es a una filosofía, sino al arte de leer y escribir sin filosofía.” (Illustrated
London News, 3 oct, 1931).

“Borrarán la antigua autoridad de los padres. Su lugar no lo va a ocupar ni la libertad ni la licencia, sino la autoridad
del Estado mucho más supresora y destructiva” (Illustrated London News 24 nov., 1928).

Aquela palavra chamada "Conservadorismo"


G. K. Chesterton * 1874 / + 1936

Tradução: Wendy Aelson Carvalho.

Publicado originalmente no The Illustrated London News, 6 Julho de 1912.

Traduzido do site chesterton.wordpress.com

Vejo que o Sr. Wells descreveu o ideal que temos eu e alguns amigos com grande senso de humor e considerável
precisão, pois define-o como “uma concepção de homens vínicos [ébrios], cantores espalhafatosos, terrosos
[vulgares], trabalhadores, moralistas, robustos e imundos.” Uma concepção por demais engraçada, eu acho. Mas
não é deste egotismo que venho tratar, e sim de um assunto mais interessante ao público, inerente ao posterior.
Aquelas palavras de Wells eu não as li no seu livro, mas num ótimo semanário, onde foram publicadas. Depois de
proferi-las, o crítico não se demorou em citar Wells e resumiu-o (suponho) assim: “Não nos voltamos ao
Conservadorismo, ou mesmo ao desplanificado progressismo de um Radical ou Socialista.” Veja a palavra
Conservadorismo e pense – pense bem, e a Inglaterra poderá ser salva.

[…]

Ora, o que quis dizer este crítico ao me chamar “Conservador” (sua impudência confunde; pois seu artigo foi muito
bom)? Reitero, o que ele quis dizer chamando-me “Conservador” e relacionando a homens ébrios, que cantam alto,
vínicos, terroso, moralistas, robustos, imundos e tudo o mais? Conservadorismo, eu presumo, significa tentar
conservar seu pais tal como é. Como o nosso país está nesta manhã

Cantando aos berros? Em parte pelo fato de que o país tenha pouco sobre o que cantar, é notório que ele não canta:
é notório que agora, como há bastante tempo, o inglês prefere jactar-se de não demonstrar seus sentimentos de
maneira estrondosa, lírica ou simbólica.

Será que o país está vínico? Não existem vinhas desde a Idade Média; e nenhum quarentão poderia produzir o mais
barato vinho que seja. E embora os subúrbios estejam cheios de embriagados e a Smart Set (muito pior), de
drogados, o Sr. Wells é muito mais magnânimo e compreensivo ao sugerir que quero as pessoas naquele estilo
vínico.

O país seria terroso? Obviamente que não. “Sujo” estaria muito mais enquadrado e mais justo. Toda a organização
da Civilização é industrial, não agrícola; precisaríamos explodi-lo em pedaços a fim de que modelássemos um país
agrícola.

É trabalhador? Sim; sem canção, sem vinho, sem a vista da Natureza: mas com certeza é trabalhador – ou melhor,
sem certeza. Esta é a única coisa que nosso progresso tem lutado para “conservar”: a maldição depois da Queda.
Mas mesmo aqui a frase é infeliz, pois o grande fenômeno de nosso dias é a abstenção do trabalho, aquela coisa
engraçada que foi tão aclamada por certa classe como uma coisa prazerosa e agora é usado como arma por outra.

Moralista? Muito pelo contrário. Em determinadas grandes cidades e, mais ainda, nos distritos ao redor delas, as
pessoas ficam cada vez mais nômades; e uma pedra a rolar não costuma nada. Pai e filho estão mais liberais um com
o outro, e em diferentes maneiras (mesmo em sala de aula), do que qualquer sociedade já conhecida antes.

O país é – para usar a agradável e última antítese do Sr. Wells – robusto e imundo? Seria difícil conceber uma
sociedade onde houvesse tanto saneamento e tão pouca robustez.

Isso tudo pode ser calmamente resumido no seguinte: pelo fato de eu querer algo que ainda não exista; querer
transformar as pessoas silenciosas em cantoras espalhafatosas; por dever me regozijar se um país sóbrio venha a ser
crescentemente ébrio; pela possibilidade de eu tornar um mundo de escravos assalariados um mundo de
contratados; porque eu possivelmente fomentaria empregos saudáveis em vez de um hediondo desemprego; por
querer que o povo, agora guiados por manias alheias, seja guiado por suas próprias leis e liberdades; por odiar a
sujeira estabelecida e mais ainda a limpeza estabelecida; por querer, em suma, mudar quase tudo o que há. Por
esses motivos, um maldito, altivo, orgulhoso, instruído, salvador do mundo, sofisticado, minucioso, animal
acadêmico, um comum reformador social e escritor que, exaltado, chama-me um Conservador!

“Como seria essa coisa assombrosa que as pessoas queriam tanto contradizer a
ponto de fazê-lo sem importar-se em contradizer a si mesmas?
Assim, certos céticos escreveram que o grande crime do cristianismo fora o seu ataque contra a família; ele arrastara
as mulheres à solidão e contemplação do claustro, longe de sua casa e filhos.

Mas, em contrapartida, outros céticos (ligeiramente mais avançados) disseram que o grande crime do cristianismo
foi obrigar-nos ao casamento e à constituição de uma família; que o cristianismo condenava as mulheres à
escravidão de sua casa e filhos, e lhes proibia a solidão e a contemplação. A acusação foi realmente invertida. Ou,
ainda, certas frases das epístolas ou do ritual do casamento, na opinião de anticristãos, mostravam desprezo pelo
intelecto da mulher. Mas descobri que os próprios anticristãos nutriam o desprezo pelo intelecto feminino; pois “sua
grande chacota contra a igreja na Europa era que "apenas mulheres" a freqüentavam.

Ou então, o cristianismo era censurado por seus hábitos despojados e estéreis; pelo burel e as ervilhas secas. Mas no
minuto seguinte o cristianismo era censurado por sua pompa e ritualismo; seus templos de pórfiro e paramentos de
ouro. Ele era ofendido por ser simples demais e por ser demasiado colorido. De novo, o cristianismo sempre fora
acusado de limitar em excesso a sexualidade, quando o malthusiano Bradlaugh descobriu que ele a limitava pouco
demais. Ele é muitas vezes acusado ao mesmo tempo de afetada respeitabilidade e de extravagância religiosa.
Entre as capas do mesmo panfleto ateu eu vi a fé censurada por sua desunião ("Um pensa uma coisa, outro pensa
outra.") e censurada também por sua união ("É a diferença de opinião que preserva o mundo de sucumbir."). Na
mesma conversa um livre-pensador, amigo meu, censurava o cristianismo por desprezar os judeus, e depois ele
mesmo o desprezava por ser judaico.

A única explicação que imediatamente me ocorria era que o cristianismo não provinha do céu, mas do inferno.
Realmente, “se Jesus de Nazaré não era o Cristo, ele devia ter sido o anticristo.

Depois, numa hora de quietude, um estranho pensamento me ocorreu feito um raio. De repente me entrara na
cabeça outra explicação. Suponhamos que ouvíssemos muita gente fazendo menções a um desconhecido.
Suponhamos que ficássemos intrigados por ouvir alguns dizendo que ele era alto demais; outros, baixo demais.
Alguns faziam objeções à sua obesidade; outros lamentavam a sua magreza. Alguns o achavam escuro demais;
outros, louro demais.

Uma explicação seria que ele fosse uma figura estranha. Mas há outra explicação. Ele poderia ser a figura certa.
Homens exageradamente altos poderiam achá-lo baixo. Homens demasiado baixos poderiam achá-lo alto. Velhos
machões a caminho da corpulência poderiam considerá-lo fisicamente mal fornido; velhos janotas a caminho da
fraqueza poderiam sentir que ele se encorpara excedendo as linhas minuciosas da elegância. Talvez os suecos (que
têm o cabelo amarelo como uma espiga de milho) o chamassem de pardo, ao passo que os negros o consideravam
distintamente louro.

Talvez, em suma, essa coisa extraordinária seja realmente a coisa ordinária; pelo menos a coisa normal, o equilíbrio.
Talvez, no fim das contas, o cristianismo fosse sadio e todos os seus críticos fossem loucos — de maneiras variadas.”

- G. K. Chesterton. “Ortodoxia.”

SOCIALISMO, BENS E LIBERDADE


"É estupidez que os antissocialista se lamentem da brutalidade antinatural e desequilibrada do Governo socialista*
ao assolar toda oposição política. Porque ali, é o Governo que provê tudo, e é absurdo pedir ao Governo que proveja
uma oposição.

Não se pode recorrer ao Sultão para reprovar-lhe dizendo: "Você não tem provido as coisas necessárias para que o
seu irmão o destrone e se apodere do califado". Não se pode pedir ao rei medieval: "Tenha abondade de me
emprestar duas mil lanças e mil arqueiros, pois quero rebelar-me contra vossa majestade".

A oposição e a revolta dependem de bens e de liberdade. Só podem ser toleradas onde se permita que outros
direitos, além do direito central do governante, possam fixar raízes. Estes direitos devem estar protegidos por uma
moralidade que até o governo vacilará em desafiá-los. O crítico do Estado só pode existir quando um senso religioso
do direito protege suas pretensões de ter seu próprio arco e sua própria lança, ou, pelo menos, de ter sua própria
pena e sua própria imprensa".

-G. K. Chesterton, The Outline of Sanity.

(Tradução por Agnon Fabiano)

*No original "bolshevik", aqui usado como sinônimo de "socialista".

A propriedade é uma questão de honra. A palavra verdadeiramente oposta à "propriedade" é "prostituição". Pois
não é certo que o homem venda aquilo que é sagrado, seja seu corpo, seja seu lindeiro.

- G. K. Chesterton, The Outline of Sanity.

"Grandes poetas são obscuros por duas razões opostas; ora porque estão falando sobre algo grande demais para
qualquer um entender, ora porque estão falando sobre algo pequeno demais para qualquer um ver."

Gilbert Keith Chesterton, "Considerando Todas as Coisas".


Disse Juan Manuel de Prada no Alfa y Omega, falando a respeito de Chesterton: «Morreu em 1936, porém previu o
Holocausto, a Segunda Guerra Mundial (inclusive onde ela começaria), o nascimento e a queda do Comunismo
russo. Disse que «se exaltaria a luxúria e se proibiria a natalidade», que o aborto seria um símbolo do progresso…;
que o Estado substituiria a autoridade paterna; que alguns cristãos louvariam «todos os credos menos o seu
próprio».

Assim, Chesterton viu um mundo do qual ele dizia que tinha que «odiá-lo o suficiente para querer mudá-lo, bem
como amá-lo o suficiente para querer fazê-lo».

William Pitt, certa vez escreveu o seguinte trecho, onde enaltecia o valor de nosso lar, dizia ele:

"O lar de um homem é o seu castelo. O homem mais pobre desafia, em sua casa, todas as forças da coroa. A sua
cabana pode ser muito frágil, o teto pode tremer, o vento pode soprar entre as portas mal ajustadas, a trombeta
pode penetrar, mas o Rei da Inglaterra não pode nela entrar".

Chesterton complementa essa cotação de forma extraordinária:

"O homem que disse que a casa de um Inglês é o seu castelo disse muito mais do que ele pensou. O Inglês pensa na
sua casa como algo fortificado, e provisionado, e as grandes ameças que vêm sobre ele é o cerne de sua origem
romântica. Neste sentido, ele seria mais forte nas noites de inverno mais selvagens, quando o portão trancado e a
ponte elevadiça levantada obstrui não somente os de fora, mas também os dentro. A casa do Inglês é quase sagrada,
não meramente quando o Rei não pode nela entrar, mas também quando o Inglês não pode dela sair".

Chesterton, sobre certa lei inglesa que pretendia obrigar às crianças pobres raparem a cabeça para evitar surtos de
piolhos e outras doenças.

"Com uma fai ́sca da cabeleira ruiva de uma garota de rua, atearei fogo na civilização moderna inteira. Porque se uma
garota precisa ter cabelos longos, ela precisa ter cabelos limpos. Para tê-los limpos, não pode ter uma casa suja. Para
não ter uma casa suja, ela precisa ter uma mãe livre e desocupada. Para ter uma mãe livre, não podem ter um
senhorio usurário. Para que o senhorio não seja usurário, é preciso de uma redistribuição de propriedade. E para
tanto será preciso uma revolução.

Aquela garota maltrapilha de ruiva cabeleira – que acabo de ver vagando junto a minha casa – não será aparada,
mutilada ou alterada. Seu cabelo não será cortado curto como o de um condenado. Não! Todos os reinos da terra
serão talhados e mutilados para a ela se adaptarem. Os ventos do mundo serão temperados para esse cordeiro não
tosquiado. Todas as coroas que não couberem em sua cabeça serão quebradas. Todo o traje e toda a construção que
não estiver em harmonia com sua glória serão jogados fora.

Pode ser que a mãe a proi ́ba de prender o cabelo, pois a mãe é uma autoridade natural. Mas o Imperador do Planeta
não ousará impor-lhe tal proibição. Ela é a imagem humana e sagrada. Ao seu redor, a estrutura social irá inclinar-se,
trincar e cair. Os pilares da sociedade estremecerão e os telhados dos tempos desmoronarão. E nenhum fio de
cabelo de sua cabeça será prejudicado".

- G. K. Chesterton, O que há de errado com o mundo.

"Uma espécie de teósofo me disse: 'O bem e o mal, a verdade e a mentira, a loucura e a sanidade, são apenas
aspectos do mesmo movimento ascendente do Universo'. Já nessa época me ocorreu perguntar: 'Supondo que não
exista diferença entre o bem e o mal, ou entre a verdade e a mentira, qual é a diferença entre ascendente e
descendente?'"

Gilbert Keith Chesterton, "Ortodoxia".

Não pude deixar de lembrar do próprio Chesterton com relação à sua ainda pequena difusão no meio literário
brasileiro.

"A verdade é que acerca de todas essas coisas, na vida e na morte, paira sobre São Tomás um enorme silêncio. Ele
foi uma daquelas coisas grandes que ocupam pouco espaço".
- G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino

CHESTERTON, COMO SEMPRE, MUITO ATUAL!


(Sobre socialismo, capitalismo, democracia, etc)

"Afirma-se que o homem andava sobre quatro patas e que agora anda sobre duas. A inferência lógica seria que na
próxima etapa de sua evolução terá que se apoiar em uma só perna. E isso teria grande importância para o
capitalista e para os poderes burocráticos que 'cuidam' do homem. Significaria, por um lado, que só seria necessário
proporcionar à classe operária a metade de sapatos. Porém, eu declararei no fim de tudo, bem como fiz desde o
princípio, que eu creio no homem que se apóia sobre duas pernas e necessita de dois sapatos, e desejo que esses
sapatos sejam de sua propriedade. Poderão dizer que querer isso é ser conservador, que buscar consegui-lo é ser
revolucionário. Se isso é ser conservador, eu sou conservador; se isso é ser revolucionário, sou revolucionário;
porém, de qualquer forma, democrata demais para ser evolucionista...

A moral antiga acreditava que os homens comuns estavam investidos de poderes e privilégios e de uma forma de
autoridade. O homem comum tinha direito de julgar sobre sua própria saúde, e sobre os riscos que corria com as
coisas ordinárias ao seu redor; essa é uma objeção ao proibicionismo e a muitas outras coisas. O homem comum
tinha o direito de opinar sobre a saúde de seus filhos e, em geral, de criá-los como melhor pudesse; essa é a objeção
a muitas interpretações da moderna educação pelo Estado.

Ora, em todas estas coisas primordiais nas quais a antiga religião mostrava sua confiança no homem, a nova filosofia
mostra sua desconfiança. Ela insiste em que é preciso uma espécie rara de homem para poder ter algum direito
nessas questões; e quando pertence a esta espécie rara, tem mais direito de governar sobre os outros do que sobre
si mesmo. Este profundo ceticismo para com o homem comum é o ponto onde coincidem os elementos mais
contraditórios do pensamento moderno. Por isso o senhor Bernard Shaw quer produzir um novo animal que viva
mais tempo e chegue a ser mais sábio que o homem comum. Por isso o senhor Sidney Webb quer reunir os homens
em rebanhos, como as ovelhas ou qualquer outro animal mais tonto que o homem. Não se rebelam contra o que
consideram uma tirania anormal; rebelam-se contra o que consideram uma tirania normal, isto é, contra a tirania
dos seres normais. Não se lançam contra o rei, lançam-se contra o cidadão.

O velho revolucionário, quando se encontrava nos telhados e olhava a cidade, costumava dizer: 'Vejam como
desfrutam em seus palácios os príncipes e nobres, vejam como os capitães e suas tropas passam a cavalo pelas ruas
e pisoteiam as pessoas'. Porém, não são essas as reflexões do novo revolucionário. Ele diz: ‘Vejam a todos esses
homens estúpidos que habitam nessas casas vulgares e bairros ordinários. Imaginem como educam seus filhos,
imaginem como tratam seus cachorros e como ferem os sentimentos de seus papagaios’.

Resumindo, estes 'sábios', certos ou errados, não confiam que o homem comum possa governar sua própria casa,
quanto mais que possam governar o Estado. Na verdade, não querem lhe conceder nenhum poder político. Estão
dispostos a lhe outorgar o voto, porque há muito tempo descobriram que o voto não lhe outorga poder. Não estão
dispostos a lhe possibilitar ter uma casa, nem uma mulher, nem um filho, nem um cachorro, nem uma vaca, nem um
pedaço de terra, porque essas coisas outorgam poder. Costumava-se chamar a república de 'nação de reis'. Todos os
governos modernos, sejam prussianos ou russos, todos os movimentos modernos, sejam capitalistas ou socialistas,
usurpam o reino do rei. Como lhes desagrada a independência desse reino, eles se opõem à propriedade privada.
Como lhes desagrada a fidelidade desse reino, eles se opõem ao casamento. Estou conformado em sonhar com a
antiga tarefa da democracia, de dar a todo ser humano tanta humanidade quanto seja possível. Na verdade, acredito
que quando perderem o orgulho de sua propriedade pessoal, perderão algo que pertence a sua dignidade e a sua
jornada e equilíbrio sobre o planeta. Enquanto isso, sento-me no metrô entre manadas de empregados que
trabalham demais e operários que ganham pouco, e ao ler sobre o grande conceito de ‘Homens Como Deuses’,
pergunto-me: 'quando serão homens como homens?'"

- G. K. Chesterton, The Outline of Sanity

Tradução: Agnon Fabiano

"A única coisa que nunca é ensinada na atmosfera das escolas públicas [e privadas] é exatamente isso - que há uma
verdade nas coisas, e que ao conhecê-la e dizê-la somos felizes."
Gilbert Keith Chesterton, "Considerando todas as coisas".

“Todos os homens sensatos podem ver que a sensatez é uma espécie de equilíbrio; que uma pessoa pode ser louca e
comer demasiado, como pode ser louca e não comer o suficiente.”

- G. K. Chesterton. “Ortodoxia.”

"O modernista puro é simplesmente um esnobe; não suporta estar um mês atrás da moda."

Gilbert Keith Chesterton

"O casamento descansa sobre o fato de que não é possível, ao mesmo tempo, guardar a torta e comê-la. Não se
pode dar o coração e ficar com ele".

G. K. Chesterton

“A seriedade não é uma virtude. Seria uma heresia, mas uma heresia muito mais sensata, dizer que a seriedade é um
vício. É na verdade um lapso ou tendência natural a levar-se muito a sério, porque é a coisa mais fácil de fazer. É
muito mais fácil escrever um bom artigo de fundo para o TIMES do que escrever uma boa piada para a PUNCH. Pois
a solenidade flui dos homens naturalmente; mas o riso é um salto. É fácil ser pesado, é difícil ser leve. Satanás caiu
devido à força da gravidade.”

- G. K. Chesterton. “Ortodoxia.”

"O secularista afirma que o cristianismo produziu crueldade e tumultos. Parece supor que isto prova que é uma coisa
má, porém também pode provar que é uma coisa boa, pois os homens não cometem crimes somente por razões
más, mas também, muitas vezes, por boas razões. Pois nenhuma coisa pode ser desejada com tanta paixão nem
persistência como são desejadas as coisas boas.

Se em algum momento da história os homens comuns e bondosos se tornassem cruéis, certamente não seria por
estarem a serviço de algo que é por si mesmo tirânico (por que fariam algo assim?). Certamente seria sinal de que
algo que eles valorizam está em perigo, como a comida, suas crianças, a castidade de suas mulheres ou a
independência seu país. E quando algo que não somente é valioso, como também bastante novo aparece na frente
deles, a visão repentina, a oportunidade de ganhá-lo, de perdê-lo, torna-los-á loucos. Tem o mesmo efeito no
mundo moral que o descobrimento de ouro no mundo econômico. Altera os valores e cria uma espécie de febre
cruel.

Homens arrasaram uma cidade com a guilhotina, um continente com a espada, pois a liberdade, a igualdade e a
fraternidade eram preciosas demais para que se perdessem. Não poderia o cristianismo ser mais precioso e,
portanto, mais enlouquecedor?"

- G. K. Chesterton, The Blatchford Controversies.

"Para a religião, todos os homens são iguais assim como todos os centavos são iguais, pois só há valor neles porque
carregam a imagem do Rei. Este fato não é suficientemente observado no estudo dos heróis religiosos. A piedade
produz grandeza intelectual precisamente porque ela é indiferente à grandeza intelectual. A força de Oliver
Cromwell (Lorde protetor da Inglaterra no séc. XVII) residia no fato de que ele se importava com a religião. Mas a
força da religião é que ela não se importa com Cromwell, não mais do que com qualquer outra pessoa. Ele e seu
séquito são igualmente bem-vindos aos lugares quentes e hospitaleiros do inferno. Tem sido afirmado, muito
acertadamente, que a religião é a coisa que faz o homem ordinário se sentir extraordinário; é uma verdade
igualmente importante que a religião é a coisa que faz o homem extraordinário se sentir ordinário.

"Estou certo de que não há futuro para o mundo moderno, a menos que ele possa compreender que não tem de
simplesmente buscar o que é mais e mais excitante, porém, antes, a tarefa ainda mais excitante de descobrir a
excitação em coisas chamadas monótonas."

G. K. Chesterton, 'O tempero da vida e outros ensaios'.


"Estou absolutamente convicto de que todo o nosso mundo terminará em agonia, a menos que haja alguma forma
de fazer a própria mente, o pensamento comum que temos em horas comum, mais saudável e mais feliz do que
parecem ser agora, a julgar pelos romances e poemas mais modernos. Deve-se ser feliz naqueles momentos
tranquilos em que se recorda que se está vivo; não naqueles momentos ruidosos em que se esquece disso. A menos
que possamos aprender novamente a apreciar a vida, não apreciaremos por muito tempo os temperos da vida."

G. K. Chesterton, 'O tempero da vida e outros ensaios'.

"O cinema é uma máquina para desenrolar certos padrões regulares chamados imagens; expressando as mais
vulgares noções milionárias do gosto dos milhões mais vulgares."

G. K. Chesterton

ECLESIASTES
Há um pecado: chamar cinza a uma folha verde,

Isso faz o sol vacilar no céu.

Há uma blasfémia: desejar a morte,

Pois só Deus conhece o mérito da morte.

Há um credo: por baixo, nada – a ala do terror

As maçãs já não crescem nas macieiras.

Apenas uma coisa é necessária— o Tudo —

O resto é vaidade das vaidades.

G. K. Chesterton, tradução António Campos + Anália Carmo

Há um significado muito mal compreendido daquelas palavras dirigidas aos primeiros santos: “Vós sois o sal da
terra”, que fizeram o ex-Kaiser observar, com toda solenidade, que seus vigorosos alemães eram o sal da terra,
significando meramente que eles eram os mais vigorosos da terra e, portanto, os melhores. Mas o sal tempera e
preserva a carne, não porque é como a carne, mas porque é muito diferente dela. Cristo não disse a seus apóstolos
que eles eram apenas pessoas excelentes, ou as únicas pessoas excelentes, mas que eram pessoas excepcionais,
pessoas permanentemente incongruentes e incompatíveis; e o texto sobre o sal da terra é de fato tão afiado,
contundente e ácido quanto o gosto do sal. Por serem pessoas excepcionais, eles não deviam perder sua qualidade
excepcional. “Se o sal se tomar insosso, com que o salgaremos?” é uma questão muito mais relevante do que
qualquer mero lamento sobre o preço da melhor came. Se o mundo se tomar muito mundano, pode ser repreendido
pela Igreja; mas se a Igreja se tomar muito mundana, ela não pode ser devidamente repreendida pelo mundo por
sua mundanidade.

- G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino

"São Francisco era muito vívido em seus poemas e bastante vago em seus documentos; São Tomás dedicou toda sua
vida a documentar sistemas inteiros de literatura pagã e cristã, e ocasionalmente escrevia um hino, como um
homem tirando uma folga. Eles enxergavam o mesmo problema sob diferentes ângulos de simplicidade e sutileza.
São Francisco pensava que seria suficiente abrir seu coração aos muçulmanos para persuadi-los a não cultuar
Maomé. São Tomás ocupava a cabeça com toda distinção e dedução sutil sobre o Absoluto ou o Acidental,
meramente para impedir os mesmos muçulmanos de compreender erroneamente Aristóteles".

- G. K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino.

"Dedicarmo-nos a uma só mulher é paga pequena demais para a dádiva tamanha de ver uma mulher. Queixar-me de
que só podia casar-me apenas uma vez equivaleria a queixar-me por ter nascido uma só vez."

"Keeping to one woman is a small price for so much as seeing one woman. To complain that I could only be married
once was like complaining that I had only been born once."
Gilbert Keith Chesterton

“Foi ele [Herbert Spencer] quem popularizou a insensata noção de que o tamanho do sistema solar devia intimidar o
dogma espiritual do homem. Por que motivo um homem haverá de abdicar da sua dignidade perante o sistema solar
mais do que perante uma baleia? Se o simples tamanho provasse que o homem não é a imagem de Deus, então uma
baleia poderia ser a imagem de Deus – uma imagem um tanto quanto sem forma, que poderíamos chamar de um
retrato impressionista. É inútil argumentar que o homem é pequeno comparado ao cosmos, porque o homem
sempre foi pequeno, comparado à árvore mais próxima.”

Gilbert Keith Chesterton


"O Sr. Blatchford fez uma descrição bastante divertida de como seria difícil persuadir um juiz inglês em um tribunal a
respeito da verdade da Ressurreição. É um fato muito correto; seria impossível. Porém, parece que não lhe ocorre
que nós, os cristãos, não teríamos tão extravagante reverência pelos juízes ingleses como parece ter o Sr. Blatchford.

A experiência dos primeiros cristãos talvez nos tenha deixado uma vaga dúvida sobre as cortes legais".

- G. K. Chesterton, The Blatchford Controversies.

"O Sr. Blatchford [crítico do Cristianismo] e sua escola assinalam que há muitos mitos paralelos com relação à
história cristã. Pelo que sei, pode muito bem haver Cristos Pagãos, reencarnações de Peles Vermelhas e crucificações
na Patagônia. Porém, o Sr. Blatchford não vê o outro lado desses fatos?

Se o Deus cristão fez a raça humana, não haveria a raça humana se tornado tendente a elaborar rumores e
perversões do Deus cristão? Se o centro de nossa vida é um fato concreto, as pessoas que estivessem distantes
desse centro não fariam suas próprias e confusas versões? Se estamos num estado que precisamos que o Filho de
Deus nos salve, seria estranho que os Patagônicos sonhassem com o Filho de Deus?

A posição do Sr. Blatchford na realidade se reduz a isso: como uma certa coisa está enraizada a milhões de pessoas
totalmente distintas e distantes como algo provável e necessário, então não pode ser verdadeira.

Quando céticos me dizem: 'Você está a par de que a tribo dos kafires tem uma história sobre a encarnação?'. Eu
respondo: 'Falando como leigo, não, eu não sabia. Porém, falando como um cristão, eu estaria muito surpreso era se
não a tivessem".

- G. K. Chesterton, The Blatchford Controversies.

"Fui honrado pelo Sr. Blatchford que, em God and My Neighbour, diz de mim: “O Sr. Chesterton, em defesa ao
Cristianismo, disse que ‘ninguém pode negar que o Cristianismo cometeu crimes que provavelmente enojem os
Céus’.” Isso eu disse e repito. Entretanto, ali eu dizia algo mais. Dizia que ninguém pode negar que a totalidade das
grandes e eficazes instituições é igualmente criminosa.

E por que será que toda grande instituição foi criminosa? Não basta dizer que “o Cristianismo foi persecutório;
abaixo o Cristianismo!”, muito menos que “um Confucionista roubou minha escova de cabelo; abaixo o
Confucionismo.” Ambicionamos saber se a causa para o roubo da escova de cabelos é uma causa inerente ao
homem enquanto confucionista ou se é uma causa inerente ao homem enquanto homem".

- G. K. Chesterton, The Blatchford Controversies.

Meu livro de teologia favorito é "Deus e meu vizinho" (uma crítica à religião ) do Sr. Blatchford. Se eu dissesse cada
uma das razões pelas quais sou cristão, um grande número delas seriam as mesmas razões pelas quais o Sr.
Blatchford, em seu livro, diz que não o é.

G. K. Chesterton, The Blatchford Controversies.

Geralmente pode-se lidar com o argumento filosófico contra os milagres com facilidade. E a facilidade é essa: não há
argumento filosófico contra os milagres. Racionalmente falando, há o que chamamos de leis da natureza. E o que
todo mundo sabe a respeito é apenas isto:que a natureza se repete. O que todo mundo sabe é que os pés de
abóboras produzem abóboras. O que ninguém sabe é por que não haveriam de produzir elefantes ou girafas.
Há uma só pergunta filosófica a respeito dos milagres, apenas uma. Muitos hábeis racionalistas modernos não
parecem sequer serem capazes de enfiá-la na cabeça. E a pergunta é esta: sabem por que um pé de abóbora
continua a produzir apenas abóboras? Se não sabem, não há possibilidade de que saibam se uma abóbora pode
converter-se ou não em uma carruagem. E isso é tudo.

Todas as outras expressões científicas que estão acostumados a utilizar durante suas refeições são palavras ao
vento. Dizem: "É uma lei da natureza que as abóboras continuem produzindo abóboras". Porém isso só significa que
as abóboras continuam sendo abóboras, o que é óbvio. Entretanto, não menciona o por quê. Dizem: "A experiência
é contra essa mudança". Mas isso só significa:"Conheço abóboras intimamente e nenhuma delas se converteu em
carruagem".

Houve um grande racionalista irlandês nesta escola de pensamento. Quando lhe disseram que uma testemunha o
havia visto cometer um crime, ele disse que podia trazer centenas de testemunhas que não o havia visto cometê-lo.

Dizem: "A ciência vai de encontro a essa possibilidade". Porém significa apenas que enquanto as abóboras sejam
abóboras, seu comportamento será abobarado, e não se parece de maneira alguma com carruagens. Isto é bastante
óbvio.

O que a cristandade diz é simplesmente isso: que esta repetição na natureza tem sua origem não em algo que se
assemelha a um lei, mas em algo parecido com uma vontade. Em resumo, crê que um Deus que é capaz de uma
coisa tão extraordinária como fazer com que abóboras continuem produzindo abóboras, é, como disse o profeta
Habacuque, "capaz de tudo".

- G. K. Chesterton, The Blatchford Controversies.

Um trecho pertinente do excelente livro “Ortodoxia", de G. K. Chesterton:

“Na moderna controvérsia surgiu o hábito imbecil de argumentar que este ou aquele credo pode ser seguido em
uma época, mas não o poderá ser em outra. Certo dogma, dizem-nos, era crível no século XII, mas não no século XX.
Com base em semelhante princípio, poderemos afirmar que determinada filosofia pode ser boa na segunda-feira,
mas deixa de ser na terça. Da mesma forma, poderemos asseverar que certa maneira de encarar o cosmos é
justificada às três e meia, mas deixará de sê-lo às quatro e meia. Aquilo em que um homem acredita depende da sua
filosofia e não do relógio ou do século. Se um homem acredita numa lei inalterável, não pode crer em nenhum
milagre, seja en que época for. Se um homem acredita numa vontade que existe para além da lei, pode acreditar no
milagre, seja em que época for. Suponhamos, para efeito de argumentação, que se trate do caso de uma cura
taumatúrgica. Um materialista do século XII não poderia acreditar nisso mais que um materialista do século XX. No
entanto, um cientista cristão do século XX pode acreditar nessa cura tanto como um cristão do século XII. Depende,
simplesmente, da teoria que o homem tiver das coisas. Ao tratarmos, portanto, de qualquer resposta histórica, a
questão não está em saber se tal resposta foi dada no nosso tempo, mas se foi dada como resposta à nossa
pergunta. E, quanto mais penso em como e quando o Cristianismo surgiu no mundo, mais me convenço de que ele
veio exatamente para responder a essa pergunta."

"Este é o tempo no qual minorias ínfimas e teóricas podem conquistar maiorias inconscientes e não-teóricas."

G. K. Chesterton

Geralmente pode-se lidar com o argumento filosófico contra os milagres com facilidade. E a facilidade é essa: não há
argumento filosófico contra os milagres. Racionalmente falando, há o que chamamos de leis da natureza. E o que
todo mundo sabe a respeito é apenas isto:que a natureza se repete. O que todo mundo sabe é que os pés de
abóboras produzem abóboras. O que ninguém sabe é por que não haveriam de produzir elefantes ou girafas.

Há uma só pergunta filosófica a respeito dos milagres, apenas uma. Muitos hábeis racionalistas modernos não
parecem sequer serem capazes de enfiá-la na cabeça. E a pergunta é esta: sabem por que um pé de abóbora
continua a produzir apenas abóboras? Se não sabem, não há possibilidade de que saibam se uma abóbora pode
converter-se ou não em uma carruagem. E isso é tudo.

Todas as outras expressões científicas que estão acostumados a utilizar durante suas refeições são palavras ao
vento. Dizem: "É uma lei da natureza que as abóboras continuem produzindo abóboras". Porém isso só significa que
as abóboras continuam sendo abóboras, o que é óbvio. Entretanto, não menciona o por quê. Dizem: "A experiência
é contra essa mudança". Mas isso só significa:"Conheço abóboras intimamente e nenhuma delas se converteu em
carruagem".

Houve um grande racionalista irlandês nesta escola de pensamento. Quando lhe disseram que uma testemunha o
havia visto cometer um crime, ele disse que podia trazer centenas de testemunhas que não o havia visto cometê-lo.

Dizem: "A ciência vai de encontro a essa possibilidade". Porém significa apenas que enquanto as abóboras sejam
abóboras, seu comportamento será abobarado, e não se parece de maneira alguma com carruagens. Isto é bastante
óbvio.

O que a cristandade diz é simplesmente isso: que esta repetição na natureza tem sua origem não em algo que se
assemelha a um lei, mas em algo parecido com uma vontade. Em resumo, crê que um Deus que é capaz de uma
coisa tão extraordinária como fazer com que abóboras continuem produzindo abóboras, é, como disse o profeta
Habacuque, "capaz de tudo".

- G. K. Chesterton, The Blatchford Controversies.

Meu livro de teologia favorito é "Deus e meu vizinho" (uma crítica à religião ) do Sr. Blatchford. Se eu dissesse cada
uma das razões pelas quais sou cristão, um grande número delas seriam as mesmas razões pelas quais o Sr.
Blatchford, em seu livro, diz que não o é.

G. K. Chesterton, The Blatchford Controversies.

"A educação deve ser uma lanterna dada a um homem para explorar tudo, mas muito especialmente as coisas mais
distantes dele."

-G. K. Chesterton, A Superstição da Escola

-http://www.sociedadechestertonbrasil.org/educacao/1289/

"Se a humildade foi desacreditada como virtude em nossos dias, não é totalmente irrelevante observar que este
descrédito surgiu ao mesmo tempo em que houve um grande colapso da alegria na literatura e filosofia atuais.

Os homens reviveram o esplendor da autoafirmação grega ao mesmo tempo em que reviveram o amargor do
pessimismo grego.

Surgiu uma literatura que nos ordena arrogar-nos a liberdade de divindades autossuficientes, ao mesmo tempo em
que nos expõe a nós mesmos como loucos que deveriam ser acorrentados como cães".

- G. K. Chesterton, O Defensor.

O ateísmo é, a rigor, o mais ousado de todos os dogmas; é mais ousado do que uma visão detalhada do dia do juízo
final, pois constitui a afirmação de uma negativa universal; porque se um homem diz que não há Deus no universo, é
como dizer que não há insetos em nenhuma das estrelas.

[...]

O centro de toda a existência do homem é um sonho. Morte, doença, insanidade, são, meramente, acidentes
materiais, como uma dor de dente ou uma torção no tornozelo. Que essas forças brutais sempre sitiam e,
frequentemente, capturam a cidadela, não prova que elas são a cidadela.”

~ G. K. Chesterton. Twelve Types (Doze Tipos).

"O ateísmo, a rigor, é o mais ousado de todos os dogmas, mais ousado que a visão de um palpável dia do juízo final,
pois constitui a afirmação de uma negativa universal." p. 90

G. K. Chesterton, Doze Tipos. Topbooks, 1993. Tradução de Ivan Junqueira.

"As escolas e sábios mais insondáveis nunca alcançaram a gravidade que existe nos olhos de um bebê de três meses
de idade. É a gravidade do espanto perante o universo, e o espanto perante o universo não é misticismo, mas um
transcendente bom senso.
O encanto das crianças está nisto: em que com cada uma delas todas as coisas são refeitas, e o universo é julgado
novamente. Quando andamos pela rua e vemos abaixo de nós aquelas encantadoras cabeças arredondadas, com o
triplo do tamanho em relação ao corpo, que caracterizam esses cogumelos humanos, deveríamos sempre nos
lembrar primeiro de que dentro de cada uma dessas cabeças há um novo universo, tão novo quanto o que havia no
sétimo dia da criação. Em cada uma dessas esferas há um novo sistema de estrelas, nova grama, novas cidades, novo
mar".

- G. K. Chesterton, O Defensor.

A IRONIA DE CHESTERTON.

"Uma criança tem dificuldade em alcançar o milagre da fala, consequentemente achamos seus erros quase tão
maravilhosos quanto seus acertos. Se ao menos adotássemos a mesma atitude em relação aos Primeiros-Ministros e
Secretários da Fazenda, se encorajássemos amavelmente suas hesitantes e deliciosas tentativas de falar como seres
humanos, ficaríamos em um estado de espírito bem mais sábio e tolerante".

- G. K. Chesterton, O Defensor.

"A sensibilidade é a essência do amor, é parte do seu destino; e qualquer um que se oponha àquela, abre mão
também deste".

G. K. Chesterton, O Defensor.

Mulheres Torturadas - Gilbert Keith Chesterton


Em sua casa, uma mulher pode ser decoradora, contadora-de-histórias, desenhadora de moda,expert em cozinha,
professora... Mais que uma profissão, o que ela desenvolve são vinte passatempos e todos seus talentos. Por isso
não se faz estagnada e estreita mentalmente, mas sim criativa e livre. Esta é a substância do que foi o papel histórico
da mulher. Não nego que muitas foram maltratadas e inclusive torturadas, mas duvido que tenham sido torturadas
tanto como agora, quando se pretende que levem as rédeas da família e ao mesmo tempo triunfem
profissionalmente. Não nego que antes a vida era mais dura para as mulheres que para os homens. Por isso nos
vemos ante elas.

É a mesma Natureza quem rodeia a mulher de filhos muito pequenos que requerem que se lhes ensine, não
qualquer coisa, mas sim todas as coisas. Os bebês não necessitam aprender um ofício, mas sim que se lhes introduza
a um mundo inteiro. A criança é um ser humano capaz de fazer todas as perguntas possíveis, e muitas das
impossíveis. Se alguém diz que responder a essa criança insaciável é uma tarefa exaustiva, tem razão. Se diz que é
uma tarefa desagradável, admito que pode ser tão desagradável como a de um cirurgião ou bombeiro. Em
contrapartida, quando alguém diz que essa tarefa feminina não somente é cansativa, mas também trivial e odiosa,
me é impossível entender o que querem dizer. Se odioso quer dizer insignificante, descolorido e intranscedente,
confesso que não o entendo. Porque decidir e organizar quase tudo; ser ministra da economia que investe e compra
roupas, livros, materiais e comidas; ser Aristóteles que ensina lógica, ética, bons costumes e higiene... Tudo isto
pode deixar a uma pessoa exausta, mas o que não posso imaginar é como poderia fazê-la estreita e limitada.

A maneira mais breve de resumir minha postura é afirmar que a mulher representa a ideia de saúde mental, é o lar
intelectual à que a mente regressará depois de cada excursão pela extravagância. Corrigir cada aventura e
extravagância com seu antídoto de senso comum não é -como parecem pensar muitos- ter a posição de um escravo.
É estar na posição de um Aristóteles ou de um Spencer, isto é, possuir uma moral universal, um sistema completo de
pensamento. Uma mulher assim tem que saber equilibrar muito para consertar e resolver quase tudo, para adaptar-
se ao que faz falta. E equilibrar pode ser próprio de pessoas covardes, que se aconchegam ao mais forte. Mas
também define as pessoas de caráter nobre, que sempre se colocam ao lado do mais fraco, como o marinheiro que
equilibra um barco sentando-se onde há necessidade de seu peso. Assim é a mulher, seu trabalho é generoso,
perigoso e romântico. Sua carga é pesada, mas a humanidade pensou que valia a pena colocar esse peso nas
mulheres para manter o senso comum no mundo.

“La mujer y la familia”, Editorial Styria.

Disponível em Grupo Dom Bosco e Syllabus (em espanhol).


Tradução: Ir. João da Cruz

O cristianismo e a lógica
É exatamente esta reivindicação que eu quero fazer em favor do cristianismo: o cristianismo não só deduz as
verdades lógicas, como ainda, se de repente se torna ilógico, é porque encontrou, por assim dizer uma verdade
ilógica. Não somente acerta ao falar das coisas, mas erra – se é que se pode dizer assim – exatamente onde as coisas
estão erradas. Seu plano ajusta-se perfeitamente às irregularidades ocultas e prevê o imprevisível. É simples ao
tratar de verdades simples, mas é teimoso ao tratar de verdades sutis. Admitirá que o homem tem duas mãos, mas
não admitirá – por mais que os modernos uivem – a dedução óbvia de que tem dois corações.

A única intenção que me move agora é, pois, mostrar esse fato, isto é, mostrar que, sempre que alguma coisa nos
parece estranha na doutrina cristã, logo descobrimos que há algo de estranho na realidade.

Aludi noutra parte a uma frase sem sentido, que afirma que não se pode crer nesta ou naquela religião nos tempos
atuais. Ora, é óbvio que qualquer coisa pode ser crida em qualquer época. Mas, por estranho que pareça, num certo
sentido é verdade que determinado credo, se se acredita nele realmente, pode ser crido com mais firmeza numa
sociedade complexa do que numa sociedade simples.

Se uma pessoa pensa que o cristianismo é verdadeiro em Birmingham, realmente tem razões mais claras para ter fé
do que se nele acreditasse em Mércia*. Pois quanto mais a coincidência. Se os flocos de neve que caem tivessem,
por exemplo, a forma exata de um coração, poderia ser um mero acaso. Mas se caíssem na forma exata do labirinto
de Hampton Court**, penso que se poderia chamar a isso um milagre. A filosofia do cristianismo veio a parecer-me
exatamente um milagre deste tipo. A complicação do nosso mundo moderno prova a verdade da fé com mais
perfeição do que o fazia qualquer problema simples nas eras da fé: foi em Notting Hill e Battersea*** que comecei a
ver que o cristianismo era verdadeiro.

É por isso que a fé tem esses requintes de doutrina e de detalhes que tanto desesperam os que admiram o
cristianismo sem acreditar nele. Uma vez que se aceita um credo, tem se o orgulho da sua complexidade da sua
ciência: isto mostra como ela é rica em descobertas; e se está correta, é um elogio afirma que está correta até nos
menores detalhes.

Uma estaca pode encaixar num buraco ou uma pedra numa depressão por mero acaso. Mas tanto uma chave como
uma fechadura são complexas e, se uma se ajusta à outra, sabemos que se trata da chave certa.
*Mércia foi um dos reinos anglo-saxões do século VIII; Birmingham é um dos maiores centros industriais da Grã-
Bretanha moderna. O autor, pelo contraste, enfatiza a diferente complexidade dessas sociedades.

** Palácio real em Londres, com mais de mil dependências.

*** Distritos industriais e operários de Londres.

CHESTERTON, G.K. Os paradoxos do cristianismo****. Tradução de Henrique Elfes. São Paulo: Quadrante, 1993.
p.17-19.

****Os paradoxos do cristianismo: capítulo do livro Ortodoxia (1908), de autoria de G. K. Chesterton

https://pt-br.facebook.com/notes/chesterton-brasil/o-cristianismo-e-a-l%C3%B3gica/549924575074066
"A próxima grande heresia consistirá simplesmente num ataque à moralidade; e
especialmente à moralidade sexual. E ela está vindo, não somente de uns poucos
socialistas sobreviventes da Sociedade Fabiana, mas da energia viva e exultante
dos ricos, decididos a aproveitar a vida sem Papa ou puritanismo ou socialismo
para contê-los... As raízes da nova heresia, sabe Deus, são tão profundas quanto
a própria natureza, cuja flor é a luxúria da carne e a luxúria dos olhos e o orgulho
da vida. Eu digo que o homem que não pode ver isso não pode ver os sinais dos
tempos; não é sequer capaz de ver os luminosos na rua que são como que os
novos sinais do paraíso. A loucura de amanhã não está em Moscou, mas muito
mais em Manhattan..."
__________________

G.K. Chesterton: “G.K.’s Weekly,” June 19, 1926.

Carta a una niña-G.K.CHESTERTON


Carta a una niña-G.K.CHESTERTON

Prologo de Meadows of play de Margaret Arndt (1909), publicado también en Maestro de Ceremonias de
G.K.Chesterton

Mí querida ahijada:

Tu madre escribió estos pequeños poemas infantiles para sus dos pequeñas hijas, y es por eso que merecen ser
difundidos entre todos los niños y niñas del mundo.

Es cosa sabida que nunca se comprende bien lo que es esta tierra grande, mientras no se posee algún pedacito de
ella, tampoco se sabe bien nada referente a las demás cosas del mundo, ya se trate de gatos y hasta de ángeles sin
haber tenido una de ellas. Pero tú, como eres una niña buena, probablemente tengas un gato y, con toda seguridad,
tienes un ángel. Hace poco tiempo que yo compre un perro, y desde entonces miro a todos los perros que veo en las
calles o en las salas, a los que nunca hubiera pensado en mirar en otros tiempos, y los miro ahora porque son perros
simpáticos, y además, porque no son tan lindos como el mío, naturalmente. También fue por eso, en parte, que tu
madre escribió esas canciones; porque ama a todos los niños del mundo, y también porque os ama a vosotras más
que a todos ellos.

Estoy seguro de que sabes que tu madre se fue de mi país al tuyo antes que tú nacieras. Partió de Inglaterra, donde
las ropas de los soldados y los buzones son rojos, y se fue a Alemania, donde los soldados y los buzones son azules.
Habrá tal vez otras diferencias, pero esas del color son las primeras que se ofrecen a la vista. Hay en el mundo
mucha gente, mi querida ahijada, que tratara de enseñarte que esas diferencias son lo que hay de mas importante, y
que hay grandes naciones conocidas principalmente por el color de sus buzones o por la manera con que sus
soldados se abotonan las chaquetas. Hay gente que tratan de hacer que esas naciones peleen por causas todavía
más insignificantes que ésas.

Algunos ingleses te dirán que los alemanes van a hacer volar con pólvora a Inglaterra, y habrá alemanes que te dirán
que los ingleses harán otro tanto con Alemania, empleando gases, dinamita o alguna otra cosa desagradable. No les
creas; son personas que quieren hacer daño valiéndose de cosas tan insignificantes como son los colores azules o
rojos de los buzones. Yo deseo que siempre recuerdes lo que es verdaderamente importante en tu gran país, y
también que pienses un poco en lo que es grande en el mundo. En cuanto a Inglaterra, júzgala siempre pensando en
tu madre; de ese modo nunca nos juzgaras mal. Pero en cuanto a Alemania, me gustaría saber que durante toda tu
vida te acordaras de tu niñez, suceda lo que suceda en Alemania, en Inglaterra, en todos los países cristianos.
Alemania es un buen país para los niños, Barbará. Ningún país ha comprendido tan bien como Alemania que todos
los niños viven en la tierra de los elfos, y también que todos, hombres y mujeres, cuando éramos pequeños, hemos
vivido allí durante un poco del tiempo. ¿Te acuerdas de aquellos hombrecitos con bonetes rojos que tú y yo
dibujábamos para hacer con ellos mutuos regalos? Tu madre los ha encontrado, sin duda, en los bosques de
Alemania; además, ella sabe muchas cosas respecto de las hadas que hay en Inglaterra. También aquí, en mi país,
sabemos que todo lo que es muy bueno para los niños viene de Alemania. Por ejemplo, casi todos nuestros juguetes
vienen de allá. Y cuando queremos nombrar al alegre anciano que, sin duda alguna, baja por la chimenea la víspera
de Navidad (sea su nombre cual fuere, bien sabemos que viene), lo llamamos Santa Claus, como hacéis vosotros. El
nuestro se llama Padre christmas; yo lo represente una vez en una fiesta infantil. Pero es demasiado grueso, para
bajar por la chimenea.

Y ahora, Barbará, no teniendo nada más que decir, hablemos de las canciones, aunque es mucho mejor cantarlas
que hablar de ellas. Muchos de esos pequeños poemas deben ser puestos en música. Como tú has nacido en
Alemania, es posible que llegues a ser una música notable y les adaptes algún acompañamiento muy sutil. Pero si no
ocurriera eso, no importa. Hay una que me gusta mucho y que comienza así:

Niñito del cumpleaños, tienes un año

¿Querías tener un trono de oro?

Esta canción me parece muy inesperada y muy linda. Pero no vayas a creer que tu madre tiene un trono dentro de la
casa; ella es poetisa y los poetas muy raras veces tienen cosas semejantes. Pero es muy cierto que cuando los niños
tienen un año de edad, como hemos tenido tú y yo, son tan simpáticos que se les daría todo lo mejor. La gran
cuestión, Barbará, es esa: ¿Podremos seguir siendo tan simpáticos como éramos en esa época? Yo lo dudo, pero al
menos podemos intentarlo. Sería muy divertido que lo consiguiéramos, y así, cuando tú te murieras, a los 97 años de
edad, y yo a los 127, encontraríamos todavía en alguna parte un trono de oro. Yo no lo sé, Barbará, pero estoy
seguro de que tu madre bien los sabe.

Tu desvalido padrino, Gilbert Chesterton.

Como escribir un cuento policíaco- G.K.CHESTERTON


Como escribir un cuento policíaco- G.K.CHESTERTON

Que quede claro que escribo este articulo siendo totalmente consciente de que he fracasado en escribir un cuento
policíaco. Pero he fracasado muchas veces. Mi autoridad es por lo tanto de naturaleza practica y científica, como la
de un gran hombre de estado o estudioso de lo social que se ocupe del paro o el problema de la vivienda. No tengo
la pretensión de haber cumplido el ideal que aquí propongo al joven estudiante; soy, si os place, ante todo el terrible
ejemplo que debe evitar. Sin embargo creo que existen ideales para la narrativa policíaca, como existen para
cualquier actividad digna de ser llevada a cabo; Y me pregunto porque no se exponen con más frecuencia en la
literatura didáctica popular que nos enseña a hacer tantas otras cosas menos dignas de efectuarse. Como por
ejemplo, la manera de triunfar en la vida. La verdad es que me asombra que el titulo de este articulo nos vigile ya
desde lo alto de cada quiosco. Se publican panfletos de todo tipo para enseñar a la gente las cosas que no pueden
ser aprendidas como tener personalidad, tener muchos amigos, poesia y encanto personal. Incluso aquellas facetas
del periodismo y la literatura de las que resulta más evidente que no pueden ser aprendidas, son enseñadas con
asiduidad. Pero he aquí una muestra clara de sencilla artesanía literaria, más constructiva que creativa, que podría
ser enseñada hasta cierto punto e incluso aprendida en algunos casos muy afortunados. Más pronto o más tarde,
creo que esta demanda será satisfecha, en este sistema comercial en que la oferta responde inmediatamente a la
demanda y en el que todo el mundo esta frustrado al no poder conseguir nada de lo que desea. Más pronto o más
tarde, creo que habrá no solo libros de texto explicando los métodos de la investigación criminal sino también libros
de texto para formar criminales. Apenas será un pequeño cambio de la ética financiera vigente y, cuando la vigorosa
y astuta mentalidad comercial se deshaga de los últimos vestigios de los dogmas inventados por los sacerdotes, el
periodismo y la publicidad demostraran la misma indiferencia hacia los tabúes actuales que hoy en día demostramos
hacia los tabúes de la edad media. El robo se justificará al igual que la usura y nos andaremos con los mismos tapujos
al hablar de cortar cuellos que hoy tenemos para monopolizar mercados. Los quioscos se adornaran con títulos
como “La falsificación en quince lecciones” o “¿Por qué aguantar las miserias del matrimonio?” ,con una divulgación
del envenenamiento que será tan científica como la divulgación del divorcio o los anticonceptivos.

Pero, como a menudo se nos recuerda, no debemos impacientarnos por la llegada de una humanidad feliz y,
mientras tanto, parece que es tan fácil conseguir buenos consejos sobre la manera de cometer un crimen como
sobre la manera de investigarlos o sobre la manera de describir la manera en que podrían investigarse. Me imagino
que la razón es que el crimen, su investigación, su descripción y la descripción de la descripción requieren, todas
ellas, algo de inteligencia. Mientras que triunfar en la vida y escribir un libro sobre ello no requieren de tan
agotadora experiencia.

En cualquier caso, he notado que al pensar en la teoría de los cuentos de misterio me pongo lo que algunos
llamarían teórico. Es decir que empiezo por el principio, sin ninguna chispa, gracia, salsa ni ninguna de las cosas
necesarias del arte de captar la atención, incapaz de despertar o inquietar de ninguna manera la mente del lector.

Lo primero y principal es que el objetivo del cuento de misterio, como el de cualquier otro cuento o cualquier otro
misterio, no es la oscuridad sino la luz. El cuento se escribe para el momento en el que el lector comprende por fin el
acontecimiento misterioso, no simplemente por los múltiples preliminares en que no. El error solo es la oscura
silueta de una nube que descubre el brillo de ese instante en que se entiende la trama. Y la mayoría de los malos
cuentos policíacos son malos porque fracasan en esto. Los escritores tienen la extraña idea de que su trabajo
consiste en confundir a sus lectores y que, mientras los mantengan confusos, no importa si les decepcionan. Pero no
hace falta solo esconder un secreto, también hace falta un secreto digno de ocultar. El clímax no debe ser
anticlimatico. No puede consistir en invitar al lector a un baile para abandonarle en una zanja. Más que reventar una
burbuja debe ser el primer albor de un amanecer en el que el alba se ve acentuada por las tinieblas. Cualquier forma
artística, por trivial que sea, se apoya en algunas verdades valiosas. Y por más que nos ocupemos de nada más
importante que una multitud de Watsons dando vueltas con desorbitados ojos de búho, considero aceptable insistir
en que es la gente que ha estado sentada en la oscuridad la que llega a ver una gran luz; y que la oscuridad solo es
valiosa en tanto acentúa dicha gran luz en la mente.

Siempre he considerado una coincidencia simpática que el mejor cuento de Sherlock Holmes tiene un titulo que, a
pesar de haber sido concebido y empleado en un sentido completamente diferente, podría haber sido compuesto
para expresar este esencial clarear: el título es Silver Blaze, resplandor plateado.

El segundo gran principio es que el alma de los cuentos de detectives no es la complejidad sino la sencillez. El secreto
puede ser complicado pero debe ser simple. Esto también señala las historias de más calidad. El escritor esta ahí
para explicar el misterio pero no debería tener que explicar la propia explicación. Ésta debe hablar por sí misma.
Debería ser algo que pueda decirse con voz silbante (por el malo, por supuesto) en unas pocas palabras susurradas o
gritado por la heroína antes de desmayarse por la impresión de descubrir que dos y dos son cuatro. Ahora bien,
algunos detectives literarios complican más la solución que el misterio y hacen el crimen más complejo aun que su
solución.

En tercer lugar, de lo anterior deducimos que el hecho o el personaje que lo explican todo, deben resultar familiares
al lector. El criminal debe estar en primer plano pero no como criminal tiene que tener alguna otra cosa que hacer
que, sin embargo, le otorgue el derecho de permanecer en el proscenio. Tomaré como ejemplo el que ya he
mencionado, Silver Blaze. Sherlock Holmes es tan conocido como Shakespeare. Por lo tanto, no hay nada de malo en
desvelar, a estas alturas, el secreto de uno de estos famosos cuentos. A Sherlock Holmes le dan la noticia de que un
valioso caballo de carreras ha sido robado y el entrenador que lo vigilaba asesinado por el ladrón. Se sospecha,
justificadamente, de varias personas y todo el mundo se concentra en el grave problema policial de descubrir la
identidad del asesino del entrenador. La pura verdad es que el caballo le asesinó.

Pues bien, considero el cuento modelico por la extrema sencillez de la verdad. La verdad termina resultado algo muy
evidente. El caballo da titulo al cuento, trata del caballo en todo momento, el caballo esta siempre en primer plano,
pero siempre haciendo otra cosa. Como objeto de gran valor, para los lectores, va siempre en cabeza. Verlo como el
criminal es lo que nos sorprende. Es un cuento en el que el caballo hace el papel de joya hasta que olvidamos que
una joya puede ser un arma.
Si tuviese que crear reglas para este tipo de composiciones, esta es la primera que sugeriría: en términos generales,
el motor de la acción debe ser una figura familiar actuando de una manera poco frecuente. Debería ser algo
conocido previamente y que este muy a la vista. De otra manera no hay autentica sorpresa sino simple originalidad.
Es inútil que algo sea inesperado no siendo digno de espera. Pero debería ser visible por alguna razón y culpable por
otra. Un gran parte de la tramoya, o el truco, de escribir cuentos de misterio es encontrar una razón convincente,
que al mismo tiempo despiste al lector, que justifique la visibilidad del criminal, más allá de su propio trabajo de
cometer el crimen. Muchas obras de misterio fracasan al dejarlo como un cabo suelto en la historia, sin otra cosa
que hacer que delinquir. Por suerte suele tener dinero o nuestro sistema legal, tan justo y equitativo, le habría
aplicado la ley de vagos y maleantes mucho antes de que le detengan por asesinato. Llegamos al punto en que
sospechamos de estos personajes gracias a un proceso inconsciente de eliminación muy rápido. Por lo general,
sospechamos de él simplemente porque nadie lo hace. El arte de contar consiste en convencer, durante un
momento, al lector no solo de que el personaje no ha llegado al lugar del crimen sin intención de delinquir si no de
que el autor no le ha puesto allí con alguna segunda intención. Porque el cuento de detectives no es más que un
juego. Y el lector no juega contra el criminal sino contra el autor.

El escritor debe recordar que en este juego el lector no preguntará, como a veces hace en una obra seria o realista:
¿Por qué el agrimensor de gafas verdes trepa al árbol para vigilar el jardín del medico?. Sin sentirlo ni dudarlo, se
preguntará: ¿Porque el autor hizo que el agrimensor trepase al árbol o cual es la razón que le hizo presentarnos a un
agrimensor?. El lector puede admitir que cualquier ciudad necesita un agrimensor sin reconocer que el cuento pueda
necesitarlo. Es necesario justificar su presencia en el cuento ( y en el árbol) no solo sugiriendo que le envía el
Ayuntamiento sino explicando porque le envía el autor. Más allá de las faltas que planea cometer en el interior de la
historia debe tener alguna otra justificación como personaje de la misma, no como una miserable persona de carne y
hueso en la vida real. El lector, mientras juega al escondite con su autentico rival el autor, tiende a decir: Si soy
consciente de que un agrimensor puede trepar a un árbol, y sé que existen árboles y agrimensores. ¿Pero qué esta
haciendo con ellos? ¿Por qué hace usted que este agrimensor en concreto trepase a este árbol en particular, hombre
astuto y malvado?.

Esto nos conduce al cuarto principio que debemos recordar. La gente no lo reconocerá como practico ya que, como
en los otros casos, los pilares en que se apoya lo hacen parecer teórico. Descansa en el hecho que, entre las artes,
los asesinatos misteriosos pertenecen a la gran y alegre compañía de las cosas llamadas chistes. La historia es un
vuelo de la imaginación. Es conscientemente una ficción ficticia. Podemos decir que es una forma artística muy
artificial pero prefiero decir que es claramente un juguete, algo a lo que los niños juegan. De donde se deduce que el
lector que es un niño, y por lo tanto muy despierto, es consciente no solo del juguete, también de su amigo invisible
que fabricó el juguete y tramó el engaño. Los niños inocentes son muy inteligentes y algo desconfiados. E insisto en
que una de las principales reglas que debe tener en mente el hacedor de cuentos engañosos es que el asesino
enmascarado debe tener un derecho artístico a estar en escena y no un simple derecho realista a vivir en el mundo.
No debe venir de visita solo por motivos de negocios, deben ser los negocios de la trama. No se trata de los motivos
por los que el personaje viene de visita, se trata de los motivos que tiene el autor para que la visita ocurra. El cuento
de misterio ideal es aquel en que es un personaje tal y como el autor habría creado por placer, o por impulsar la
historia en otras áreas necesarias y después descubriremos que esta presente no por la razón obvia y suficiente sino
por las segunda y secreta. Añadiré que por este motivo, a pesar de las burlas hacia los noviazgos estereotipados, hay
mucho que decir a favor de la tradición sentimental de estilo más lector o más victoriano. Habrá quien lo llame un
aburrimiento pero puede servir para taparle los ojos al lector.

Por ultimo, el principio de que los cuentos de detectives, como cualquier otra forma literaria empiezan con una idea.
Lo que se aplica también a sus facetas más mecánicas y a los detalles. Cuando la historia trata de investigaciones,
aunque el detective entre desde fuera el escritor debe empezar desde dentro. Cada buen problema de este tipo
empieza con una buena idea, una idea simple. Algún hecho de la vida diaria que el escritor es capaz de recordar y el
lector puede olvidar. Pero en cualquier caso la historia debe basarse en una verdad y, por más que se le pueda
añadir, opio no puede ser simplemente una alucinación.

La cólera de las rosas-G.K.CHESTERTON


La cólera de las rosas-G.K.Chesterton
Publicado en Alarmas y digresiones y en La cólera de las rosas.

La posición de las rosas entre las flores es igual a la de los perros entre los animales. No se trata tanto de que ambos
están domesticados cuanto de que tenemos el profundo sentimiento de que siempre lo han sido. Existen rosas
silvestres y perros salvajes. No conozco a los perros salvajes; las rosas silvestres son muy bonitas. Pero nadie piensa
jamás en ellos si el nombre es mencionado de repente en una charla o en un poema. Por otra parte, existen tigres
domesticados y cebras domesticadas, pero si alguien dijese «Tengo una cebra en mi bolsillo» o «Hay un tigre en el
salón de música», el adjetivo «domesticado» le debería ser añadido muy rápidamente. Si se habla de bestias, lo
primero que se piensa es en animales salvajes; si de flores, se piensa primero en flores silvestres.

Pero existen dos grandes excepciones, vencidas completamente por la rueda de la civilización humana, embrolladas
inalterablemente sus antiguas emociones e imágenes, tanto que el producto artificial nos parece más natural que el
natural. Los perros no son una parte de la historia natural, sino una parte de la historia humana, y la verdadera rosa
crece en un jardín. Todos miramos al elefante como algo temible, pero amansado; y muchos, especialmente en
nuestros grandes centros culturales, miran a cada toro como a un toro bravo. De la misma manera, pensamos que
casi todos los árboles y plantas del jardín son feroces creaciones del bosque o de los pantanos, finalmente
domesticados para soportar el cautiverio.

Pero en cuanto se trata de rosas o perros, ese primitivo instinto se trastrueca. Cuando se trata de ellos, pensamos en
lo artificial como en el arquetipo; nacidos de la tierra como errática excepción. Pensamos vagamente en el perro
salvaje como si hubiese huido de la casa, como un gato descarriado. Y no podemos dejar de imaginarnos que la
maravillosa rosa silvestre de nuestro seto se ha escapado saltando el seto. Tal vez han huido juntos la rosa y el perro;
una singular, en conjunto, e imprudente fuga. Tal vez el perro traidor se ha salido arrastrando de la perrera y la rosa
rebelde del cantero, y encontraron juntos la salida, uno con sus dientes, el otro con sus espinas. Posiblemente ese
sea el motivo por el cual mi perro se torna salvaje cuando ve rosas y da patadas por doquier. Posiblemente éste es el
motivo por el cual se les dice a las rosas silvestres «rosas perrunas» (1). Y puede que no sea así.

Pero hay un grado de profunda y bárbara verdad en esa singular leyenda antigua que acabo de inventar. Es decir,
que en estos dos casos el producto civilizado es conocido como el más feroz, hasta como el más salvaje.
Aparentemente nadie se asusta de un perro salvaje: está clasificado entre los chacales y las bestias serviles. El
terrible «cave canem» es una creación del hombre. Cuando leemos «Cuidado con el perro», significa cuidémonos de
un perro domesticado, por cuanto el perro terrible es el domesticado. Es terrible en la misma proporción en que es
manso; son su lealtad y sus virtudes las que son terribles para el forastero, hasta para el forastero que está dentro de
sus dominios, se alarma de esa inútil y furiosa docilidad; huye del gran monstruo manso.

Y bien, tengo casi el mismo sentimiento cuando miro las rosas lozanas, rojas y tupidas y muy resueltas alrededor del
jardín; me parecen valientes y hasta tumultuosas. Me apresuro a decir que tengo aún menos conocimientos de mi
propio jardín que de los jardines de los otros. No sé nada respecto a las rosas, ni siquiera sus nombres. Conozco
únicamente el nombre de Rosa; y Rosa es, en cualquier sentido de la palabra, un nombre cristiano. Es cristiano en el
sentido absoluto y primordial del cristianismo que nos viene de la era pagana. Podemos ver y hasta oler la rosa en
poemas griegos, latinos, provenzales, góticos, renacentistas y puritanos. Y exceptuando que la palabra Rosa como el
vino y otras palabras nobles es la misma en todos los idiomas de los hombres blancos, literalmente no sé nada más.
Sé que hay una flor que se llama la Gloria de Dijon, y supongo que se trata de la Catedral. De cualquier manera el
haber producido una rosa y una Catedral significa no solamente el haber producido dos cosas gloriosas y muy
humanas, sino también (como lo sostengo) dos cosas guerreras y desafiadoras. También conozco una rosa que se
denomina Mariscal Neil (nótese, una vez más, el sonido militar).

Y los otros días, mientras estaba paseando por mi jardín, le hablé a mi jardinero (una empresa para la que se precisa
mucho valor) y le pregunté el nombre de una extraña rosa obscura que se había apoderado singularmente de mi
imaginación. Parecía como si me recordara un elemento turbio de la historia y del alma. Su rojo no era solamente
negruzco, sino ahumado; había algo congestivo y furioso en su colorido. Era simultáneamente teatral y
malhumorada. El jardinero me dijo que se la denominaba Víctor Hugo.

**
Éste es el motivo por el que presiento que las rosas poseen ellas un poder secreto, hasta sus nombres significan algo
en relación con ellas mismas, por lo que difieren de todos los hijos de los hombres. Pero la rosa en sí es real y
peligrosa; en todo el tiempo que permanezca en la rica casa de la civilización jamás depondrá sus armas La rosa tiene
siempre el aspecto de un caballero italiano medieval, con una capa carmesí y una espada, por cuanto la espina es la
espada de la rosa.

En este asunto existe una verdadera moraleja: que debemos recordar que la civilización tal como se está
desarrollando no sólo deberá acordarse de tornarse más luchadora, sino que deberá crecer más pronta para luchar.
Lo más precioso y reposante es el orden que debemos guardar; por lo tanto, nuestro extremo sentido de vigilancia y
violencia potencial deberá ser viviente. Y cuando me paseo en el verano por el jardín, puedo comprender cómo esos
altos y locos caballeros de la Edad Media, antes de que sus espadas se entrechocaran, tomaban una rosa por
insignia, como emblema de sus dominios y rivalidades. Por cuanto, para mi, cada jardín está lleno de guerras de las
rosas.

NOTA

(1) Perro, en inglés, se dice «dog», de allí un juego de palabras que es intraducible en nuestro idioma, ya que el autor
juega con la igualdad de «dog», perro, y «dag-rose», perro-rosa.

Las tres clases de hombre-G.K.CHESTERTON


Las tres clases de hombre-G.K.CHESTERTON

Publicado en Alarmas y digreciones y también en La cólera de las rosas.

Hablando brutalmente hay tres clases de gente en este mundo. La primera clase de gente es el Pueblo; posiblemente
integra la clase más amplia y de más valor. Debemos a esa clase las sillas en las que nos sentamos, las ropas que
vestimos, las casas que habitamos; y verdaderamente (cuando llegamos a pensar en ello) probablemente nosotros
mismos pertenecemos a esa clase. La segunda clase se podría denominar por conveniencia la de los Poetas; por lo
general, son un mal para sus familias, pero una bendición para la humanidad. La tercera clase es la de los Profesores
e Intelectuales, algunas veces descritos como la gente pensadora; y éstos son un tizón y un objeto de desolación
para sus familias y para la humanidad. Se comprende que la clasificación exagera algunas veces, como todas las
clasificaciones. Algunas buenas personas son, por lo general, poetas, y algunos malos poetas son, por lo general,
profesores. Pero la división sigue la línea de una verdadera hendidura psicológica. Yo no la ofrezco a la ligera. Ha sido
el fruto de más de diez y ocho minutos de examen y seria reflexión.

La clase que se denomina Pueblo (a la que ustedes y yo con tanto orgullo nos sentimos ligados) tiene ciertas casuales
y, sin embargo, profundas presunciones, designadas «lugares comunes», como la que se refiere a que los niños son
encantadores, o que el crepúsculo es triste y sentimental, o que un hombre luchando contra tres es un hermoso
espectáculo. Ahora bien, estos sentimientos no son imperfectos, ni siquiera son simples. El encanto de los niños es
muy sutil; hasta es complejo, al punto de ser casi contradictorio. En su forma sencilla y entremezclada, es una
consideración hilarante y una consideración de desamparo. El crepúsculo engendra un sentimiento que hasta en la
canción de salón más vulgar o en la más baja pareja de amantes, puede llegar a ser un sentimiento sutil. Está
extrañamente balanceado entre la pena y el placer; también se lo podría designar como un placer que proporciona
pena. La arremetida de caballerosidad por la que todos admiramos al hombre que lucha contra la desigualdad no es
muy fácil de definir por separado; significa muchas cosas: compasión, sorpresa dramática, deseo de justicia, deleite
de experimentar y lo indeterminado. Las ideas del populacho son, en realidad, ideas muy sutiles; pero el populacho
no las expresa en forma sutil. De hecho, no las expresa de ninguna manera, excepto en aquellas ocasiones (ahora
solamente demasiado raras) en que se entregan a insurrecciones o matanzas.

Ahora bien, esto justifica, en otro sentido, el hecho insensato de la existencia de los poetas. Poetas son aquellos que
comparten esos sentimientos populares, y pueden expresarles de tal manera que parecen ser las cosas extrañas y
delicadas que en realidad son. Los poetas hacen que sobresalga el humilde refinamiento del populacho. Donde el
hombre común oculta la emoción más original, diciendo: «Excelente abuelo», Víctor Hugo habría escrito: «L’art
detre grand-pére»; cuando el agente de cambios diría bruscamente: «La tarde se está cerrando», mister Yeats
escribiría: «En medio del crepúsculo»; donde el peón podría únicamente refunfuñar algo respecto a lo de arrancar y
de que es «una preciosa caza», Homero nos mostrará al héroe harapiento desafiando a los príncipes en sus propios
festines. Los poetas elevan los sentimientos populares en un grado más ardiente y espléndido; pero debemos
recordar siempre que son guardianes de los sentimientos populares. Ningún hombre pudo jamás escribir una buena
poesía para demostrar que la infancia era chocante, o que el crepúsculo era alegre y burlesco, o que un hombre era
despreciable porque había cruzado su espada con otros tres. Los individuos, que sostienen esto son los profesores o
los majaderos.

Son poetas aquellos que se elevan sobre el pueblo entendiéndolo. En realidad muchos poetas lo han escrito en
prosa: por ejemplo, Rabeláis y Dickens. Los majaderos se elevan sobre el pueblo rehusando comprenderlo diciendo
que sus turbias y extrañas preferencias son los prejuicios y las supersticiones. Los majaderos hacen que el pueblo se
sienta estúpido; los poetas hacen que el pueblo se sienta más sabio de lo que jamás ha podido imaginar. Hay muchos
elementos del destino en esa situación. El más dispar de todos es la suerte de los dos factores en la política práctica.
Muy a menudo los poetas que abrazan y admiran al pueblo son apedreados y crucificados. A los majaderos que
desprecian al pueblo se les regala muy a menudo tierras y se les corona. Por ejemplo en los Comunes hay un
respetable número de majaderos y comparativamente muy pocos poetas. Y de ninguna manera encontramos allí al
Pueblo.

Por poetas, como ya hemos dicho, no me refiero de manera alguna a los individuos que escriben poesías o cualquier
otra cosa. Me refiero a los que teniendo cultura e imaginación, las usan para comprender y compartir los
sentimientos de sus semejantes; en contraposición a aquellos que las utilizan para lo que ellos denominan alcanzar
un lugar más preponderante. Crudamente, los poetas difieren del populacho por su sensibilidad; los profesores
difieren del populacho por su insensibilidad. No tienen fineza y sensibilidad suficientes, para simpatizar con el
populacho. Las únicas nociones que tienen consisten en contradecir groseramente; tomar por el atajo, de acuerdo
con su plan propio y presuntuoso; para decirse a sí mismos, sobre cualquier cosa que digan los ignorantes, que
probablemente están equivocados. Olvidan que muy a menudo la ignorancia tiene la exquisita intuición de la
inocencia.

***

Pondré un ejemplo que va a subrayar la línea del debate. Abran el primer periodico cómico que encuentren y dejen
que sus ojos se posen amorosos sobre el primer chiste que se refiere a la suegra. Ahora bien, el chiste, por ser un
chiste para el populacho, será un chiste simple; la anciana señora será alta y robusta, y el gallina del marido será
pequeño y cobarde. Pero por todo esto, una suegra no es una idea simple. Es una idea muy sutil. El problema no
consiste en que ella sea grande y arrogante; frecuentemente es pequeña y extraordinariamente hermosa. El
problema de la suegra consiste en que es como el crepúsculo: mitad una cosa y mitad otra.

Ahora bien, la verdad del crepúsculo, esa fina y hasta tierna perturbación, nos puede ser transmitida tal como es
únicamente por un poeta solamente que en este caso el poeta deberá ser un novelista muy sincero y penetrante,
como George Meredith, o el señor H. G. Wells, cuya «Ana Verónica», justamente estoy ahora leyendo con deleite.
Creo lo que dicen los buenos poetas y novelistas por cuanto siguen el maravilloso ovillo que les da «Recortes
cómicos». Pero supongan que aparezca el profesor, y supongan que diga (como seguramente lo hará), «La suegra es
meramente una conciudadana. Las consideraciones del sexo no deben entremezclarse con la camaradería. Las
consideraciones de la edad no deben influir en el intelecto. La suegra es meramente Otra Mentalidad. Debemos
emanciparnos y librarnos de la jerarquía y de los grados de la tribu». Ahora bien, cuando el profesor haya dicho esto
(como lo hace siempre), yo le diré: «Señor, es usted más burdo que los «Recortes cómicos». Usted es más vulgar y
más desatinado comparado con el artista más elefantino de café cantante. Es usted más ciego y más espeso que el
populacho. Estos vulgares tunantes han logrado, finalmente, conseguir un matiz social y una verdadera distinción
mental, aunque sólo pueden expresarla torpemente. Pero usted es tan torpe que no tiene ni de qué asirse. Si usted
realmente no puede ver que la madre del novio y la novia tienen algunas razones que las obligan a desconfiar,
entonces no es usted ni bien educado ni humano; no tiene usted simpatía hacia los profundos y dudosos afectos del
género humano. Mejor es exponer las dificultades como lo hacen los seres vulgares que ser insolentemente
inconsciente de todas las dificultades.»

La misma cuestión puede ser bastante bien considerada en el viejo proverbio que dice: «Dos son una compañía y
tres ninguna». Este proverbio es la verdad expuesta de una manera popular; es decir, es la verdad expuesta
equivocadamente. Ciertamente no es verdad que tres no sean compañía. Tres son una espléndida compañía; tres es
el número ideal para la camaradería pura: como acontece en los tres mosqueteros. Pero si usted rechaza todo el
proverbio y se dice que dos o tres es la misma clase de compañía; si no puede ver que tres es un abismo mayor entre
dos y tres que entre tres y tres millones, entonces siento tener que decirle que pertenece a la tercera clase de seres
humanos; que no tendrá compañía, tanto si se trata de dos como de tres, y que deberá permanecer solo y aullar en
el desierto hasta la muerte.

La Pesadilla-G.K.CHESTERTON
La Pesadilla-G.K.CHESTERTON

Publicado en Alarmas y Digresiones de G.K.Chesterton.

Un crepúsculo de cobre y oro había culminado desmenuzándose en el poniente, los colores grises se extendían sobre
todas las cosas del cielo y la tierra; además un viento frió soplaba con fuerza creciente, un viento que tocaba con su
frió dedo la carne y el alma. En la parte de atrás de mi jardín, los arbustos empezaron a susurrar como conspiradores
y después a agitar las manos haciendo una señal. Yo intentaba leer, bajo las ultimas luces que se apagaban sobre el
jardín, un largo poema del periodo decadente. Un poema sobre los viejos dioses de Babilonia y Egipto, sobre sus
templos, brillantes y obscenos, sobre sus rostros, crueles y colosales.

¿Es que el Señor de las moscas por ti fue amado

quien hasta la cintura de vino salpicado

persiguió a los judíos?

¿ O amaste a Pasht que miraba por ojos de verdes berilos?

Estaba leyendo este poema porque tenía que criticarlo para el Daily News pero, a su manera, es verdadera poesía.
Exhalaba autentica atmósfera. Un humo dulce y sofocante que realmente parecía proceder del cautiverio de
Babilonia y la servidumbre de Tiro. Gracias a Dios, mi jardín, con su horizonte inglés verdiazul como telón, no tiene
mucho que ver con esas visiones demenciales de palacios decorados con frescos, enormes ídolos decapitados y
monstruosas soledades de arena dorada o carmesí. Pero, como me reconocí a mí mismo, durante una puesta de sol
tormentosa como esta, puedo imaginarme un olor de muerte y miedo como aquel. El ocaso asolado parece, de
verdad, uno de sus templos: un montón de destrozado mármol, dorado y verde.

Algo negro y aleteante se aparta de la copa de uno de los oscuros árboles y revolotea hasta otra. No sé si es un búho
o un murciélago pero puedo imaginarme que es un querubín negro, un infernal querubín de las tinieblas. No con las
alas de un pájaro y la cabeza de un bebe sino con las alas de un murciélago y la cabeza de un duende. Supongo que,
si hubiera luz, podría quedarme aquí sentado y escribir un cuento de miedo bastante aceptable: trataría de como fui
por el camino tortuoso que va mas allá de la iglesia y allí me encontré con algo. Digamos un perro, un perro tuerto.
Después me encontraría con un caballo, un caballo sin jinete. El caballo también estaría tuerto. Entonces, el silencio
inhumano se rompería, me encontraría con un hombre (¿Tengo que especificar que tuerto?) quien me preguntaría
por el camino hasta mi propia puerta. O tal vez me dijese que esta había ardido hasta los cimientos. Creo que podría
contar un cuentecillo encantador con este esquema.

O podría soñar con trepar para siempre por los árboles oscuros que se yerguen sobre mí. Son tan altos que siento
que en sus copas encontraría el nido de los ángeles. Pero, en este ambiente, seria ángeles oscuros y temibles:
ángeles de la muerte.

*****

Pero dese cuenta que este ambiente es pura tontería. No me lo creo en lo mas mínimo. Este universo de un solo ojo,
con sus hombres y bestias tuertas, fue creado por un guiño universal. En la cima de esa trágica floresta, no
encontraría el nido de los ángeles, solamente el cubil de las pesadillas. El nido, onírico y celestial, no esta ahí. En el
cubil de las pesadillas hallaría el enorme huevo, turbio y opalescente, de cuyo roto cascarón nace la pesadilla Y es
que no hay nada más delicioso que una pesadilla cuando la reconoces como tal.
Esto es lo esencial. Este es el rígido limite que se impone a todos los artistas que trabajan con ese lujo que es el
miedo. El terror debe ser fundamentalmente frívolo. La cordura puede jugar con la locura pero es inadmisible que la
locura juegue con la cordura.

Naturalmente, los poetas, como el que estaba leyendo en mi jardín, deben ser libres para imaginar los dioses
violentos y los paisajes escandalosos que les plazca. Por supuesto hay que permitirles deambular por sus paisajes y
capiteles inspirados por el opio. Pero estas enormes deidades, esas grandes ciudades, son juguetes. Ni por un
instante, debe permitirse que sean otra cosa. El hombre, un niño gigantesco, debe jugar con Babilonia y Nivine, con
Isis y Astarte. Desde luego que debe permitírsele soñar con el cautiverio de Babilonia, mientras esté libre del mismo.
Dejadle tomar sobre si la servidumbre de Tiro, mientras se la tome a la ligera. Los viejos dioses deben ser sus
juguetes no sus ídolos.

Las cosas centrales en que se apoya, sus verdaderas posesiones, deben ser cristianas y sencillas. Y como un niño
valora ante todo un caballo de madera y una espada que no es mas que dos palos en cruz, así el hombre, el gran
niño, debe atesorar las cosas antiguas y austeras, hechas de poesía y piedad: el caballo de madera que fue la épica
caída de Troya o esa cruz de madera que redimió y conquisto el mundo.

***

En una carta de Stevenson, hay un chiste, típico en él, sobre la tremenda impresión que le causaron, siendo niño, las
bestias de ojos múltiples del libro de las revelaciones. “¿ Si eso era el cielo, como caramba sería el infierno?”. Ahora
bien, hablando en serio, hay una idea magnifica en estos monstruos del Apocalipsis. Consiste, supongo, en que seres
en realidad más bellos o universales que nosotros, podrían parecernos temibles e incluso desconcertantes. En
concreto, parecerían poseer un numero superior de sentidos que nosotros. Sentidos que, nos parecerían, a un
tiempo, de mayor complejidad y alcance que los nuestros. Una idea muy imaginativamente expresada en la multitud
de ojos. Me encantan esos monstruos al pie del trono. Es cuando uno de ellos vagabundea por el desierto y se busca
su propio trono, que nacen las creencias malignas y hay que cuadrar cuentas con el diablo, sea con bailarinas o con
sacrificios humanos.

Mientras estos deformes poderes elementales rodean el trono, recuerda que lo que adoran tiene la apariencia de
una persona.

***

Creo que este es el punto de vista correcto en la cuestión de los cuentos de miedo y cosas semejantes. Considero
que un escritor debe estar firmemente convencido de esto o terminara saltándose la tapa de los sesos o escribiendo
mal.

La humanidad, piedra angular del mundo, debe erguirse recta. A su alrededor, árboles y bestias, espíritus
elementales y demonios, pueden retorcerse y agazaparse como humo si de eso gustan. Toda la literatura
verdaderamente imaginativa trata del contraste entre las extrañas curvas de la naturaleza y la rectitud del alma. El
ser humano puede contemplar cualquier horror que le apetezca, si esta seguro de que no lo va a adorar. Pero los hay
tan débiles que veneraran algo solamente porque es feo. A estos hay que encadenarlos a la Belleza. Ni siquiera está
siempre mal hacer como hizo Dante al asomarse al borde del abismo para contemplar el infierno. Cuando nos
postramos ante el infierno, se comete probablemente un error grave.

***

Por lo tanto no veo nada malo en cabalgar sobre la pesadilla esta noche. Me llama relinchando desde las copas de
los árboles que se mecen, desde el viento que aúlla. La atraparé y cabalgaré sobre ella en este aire terrible. Árboles y
arbustos por igual tiran de sus raíces, como si deseasen volar con nosotros hasta la luna, como aquel toro salvaje y
enamorado cuya cría es el cuarto creciente. Nos alzaremos hasta ese loco infinito donde no existe arriba ni abajo, la
elevada confusión de los cielos. Cabalgare sobre la pesadilla pero llevare las riendas.

La calle furiosa (un mal sueño)-G.K. CHESTERTON


La calle furiosa (un mal sueño)-G.K. CHESTERTON
Publicado en Enormes Minucias de G.K.Chesterton. Este ensayo también es conocido como “Una anécdota mas bien
improbable”.

No recuerdo si esta historia es verdad o no. Si la leyese con cuidado, sospecho que decidiría que no. Pero por
desgracia no puedo leerla con cuidado porque aún no la he escrito. Durante gran parte de mi infancia, la idea y la
imagen de la misma permanecieron conmigo. Puede que lo soñase antes de aprender a hablar, o que me la contase
a mí mismo antes de saber leer, o que la leyese antes de tener recuerdos conscientes. Sin embargo, estoy
completamente seguro de no haberla leído ya que los niños tienen memorias muy claras de cosas semejantes. Y, de
los libros que me encantaban, recuerdo no solo la forma, el volumen y la encuadernación sino incluso la posición de
las palabras impresas en muchas de las paginas. Teniéndolo todo en cuenta, me inclino a creer que me aconteció
antes de mi nacimiento.

***

En cualquier caso, contemos el cuento con todas las ventajas de la atmósfera que lo ha ido empapando. Pueden
ustedes imaginarme, por así decirlo, sentado comiendo en uno de esos restaurantes de comida rápida donde la
gente come tan rápido que lo que ingieren pierde la categoría de comida, y donde pasan su media hora libre tan
deprisa que pierde la categoría de descanso, aunque apresurarse en el descanso es la actitud menos profesional que
uno puede adoptar. Todos tenían puestos sus sombreros de copa, como si no pudiesen perder ni un instante en
colgarlos de una percha. Todos tenían un ojo ligeramente hipnotizado por el enorme ojo del reloj. En resumen, eran
esclavos de la moderna cautividad y podía escucharse rechinar sus grilletes. Cada uno estaba de hecho, sujeto por
una cadena, la más pesada que nunca ató a un hombre: la cadena de su reloj de chaleco..

Ahora bien, entre los que entraban y se sentaban frente a mí, hubo uno que, casi inmediatamente, inicío un
monologo que nadie interrumpió. Estaba vestido como todos los demás hombres, sin embargo su conducta era
sorprendentemente distinta. Tenia puestas la chistera y el frac pero los llevaba de la manera en que objetos tan
solemnes deben llevarse. Llevaba el sombrero de seda como si fuese una mitra y el frac como si fuese la túnica de un
gran sacerdote. No solo había colgado su sombrero si no que, era tal su decoro, que casi pareció pedirle permiso y
pedir disculpas de la percha por utilizarla. Cuando se sentó en la silla, lo hizo en la manera que lo haría alguien que
tuviese en cuenta los sentimientos de la silla y haciendo una pequeña reverencia a la mesa de madera, como si fuese
un altar. No pude evitar hacer un comentario porque aquel era un hombre robusto, vigoro y de aspecto próspero y,
aún así, trataba las cosas con un cuidado que parecía nerviosismo.

Por decir algo para demostrar mi interés, dije:

-Estos muebles parecen sólidos pero, desde luego, la gente los trata demasiado descuidadamente.

Mientras le observaba dubitativo me fije en sus ojos, no pude apartarlos de su mirada apocalíptica. Le había tomado
por un hombre corriente al entrar, excepto por su manera de comportarse extraña y cautelosa. Pero si los demás se
hubiesen fijado en él, habrían escapado gritando de la habitación. No se fijaron y siguieron haciendo ruido, con el
resonar de sus tenedores y el murmullo de su conversación. Pero el rostro de aquel hombre era el de un demente.

-¿Quiere Vd. decir algo con eso?- Contestó al rato y su cara recuperó el color.

-Nada en absoluto- repliqué – Aquí nadie dice nada coherente. Amarga la digestión..

Se reclinó en su silla y se enjuagó el sudor de su ancha frente con un gran pañuelo, sin embargo parecía haber una
nota de decepción en su alivio.

-Supuse que quizá – susurró – otra se había estropeado.

-Si se refiere a otra digestión defectuosa – dije- nunca oí que ninguna fuese buena. Este es el corazón del imperio y
los demás órganos están iguales de deteriorados.

-No, quise decir otra calle estropeada- dijo lenta y claramente- pero, como supongo que esto no le aclara nada,
tendré que contarle la historia. Lo hago con toda tranquilidad al ser consciente de que usted no me creerá. Durante
cuarenta años de mi vida, invariablemente me he marchado de mi oficina, que se encuentra en la calle Leadenhall, a
las cinco y media de la tarde, llevando en la mano derecha un paraguas y en la izquierda un maletín. Durante
cuarenta años, dos meses y cuatro días abandoné la oficina por la puerta lateral, anduve por la acera izquierda, tome
el primer giro a la izquierda y el tercero a la derecha, compré el periódico de la tarde, seguí por la acera de la
derecha rodeando dos ángulos obtusos y terminé saliendo justo al lado de la estación, donde cogí el tren hasta casa.
Durante cuarenta años, dos meses y cuatro días, hice esto por la fuerza de la costumbre. No era una calle larga,
tardaba en hacer el recorrido cuatro minutos y medio. Después de cuarenta años, dos meses y cuatro días, al quinto
día, comencé a hacer lo mismo hasta que noté que andar por la calle de siempre me cansaba más que de costumbre.
Cuando doblé la esquina, pensé que me había equivocado. Ahora la calle se levantaba en cuesta, como las que se
ven en la parte de Londres que se levanta sobre colinas, y en esa parte de Londres no había colinas. Sin embargo no
me había equivocado, el nombre escrito en la pared era el mismo, las tiendas cerradas, las farolas, toda la
perspectiva era idéntica. Pero ahora se inclinaba hacia arriba como un borracho. Olvidándome del agotamiento y la
fatiga, eché a correr rápidamente hasta que alcancé la segunda de las esquinas que yo habitualmente doblaba,
desde la cual debería poder ver la estación. Cuando giré en la esquina, casi me caigo al suelo. Porque ahora la calle
se elevaba como una escalera escarpada, como las de los costados de una pirámide. En millas a la redonda, no
existen cuestas como las de Ludgate Hill. Y esta era como el Matterhorn. Toda la calle se elevaba como en una única
ola, pero cada mota y cada detalle eran idénticos. Identifiqué en las alturas, como si estuviesen en un pasaje alpino,
las letras rosas del cartel de mi papelería.

Entonces corrí como loco, dejando atrás las tiendas, y llegue a una parte de la calle en que hay una larga fila de
chalets grises. Tuve, no sé por qué, el presentimiento irracional, de que era un largo puente de hierro extendiéndose
sobre él vació. Me dejé llevar y alcé la tapa de una carbonera. Al mirar hacia abajo, vi el espacio vació y las estrellas.

Cuando levante la vista, había un hombre de pie en el jardín de la puerta de su casa. Estaba mirándome apoyado en
la verja. Nos encontrábamos solos en esa calle de pesadilla. Su rostro estaba en penumbras, su ropa era corriente y
de un color discreto, pero de alguna manera supe que no pertenecía a este mundo. Las estrellas que había detrás de
su cabeza, eran mayores y más brillantes de lo que deberían soportar los ojos de los hombres.

“Si es usted un ángel amable”, dije” o un sabio demonio o si tiene algún vinculo con la humanidad dígame que
sucede en esta calle poseída”

Tras un largo silencio replicó diciendo “¿Qué calle cree que es?”

“Es la calle Bumpton, por supuesto”le contesté en el acto” va a la estación Oldgate”

“Si, a veces va allí” reconoció muy serio”pero en este preciso momento, va al paraíso”

“¿Al paraíso?¿Porqué?”Dije yo.

“Porque busca justicia. La debéis haber maltratado. Recuerda siempre que hay algo que no puede ser soportado por
nada ni por nadie. Esa cosa insoportable es ser explotado y despreciado. Por ejemplo, se puede explotar a las
mujeres. Todo el mundo lo hace. Pero te desafió a que encima las desprecies. Puedes despreciar a los vagabundos, a
los gitanos y a todos los demás marginados mientras no los explotes. Ni una bestia del campo, ni un caballo, ni un
perro pueden soportar por mucho tiempo que les exijan que hagan más trabajo del que les corresponde pero que, al
mismo tiempo, tengan algo menos que su honor. Es lo mismo con las calles. Debéis haber agotado a esta calle hasta
la muerte, sin recordar nunca su existencia. Si tuvieseis una democracia saludable, aunque fuese pagana, habríais
decorado esta calle con guirnaldas y la habríais alabado como una diosa. Entonces se habría quedado tranquila. Pero
al fin se ha cansado de vuestra incansable arrogancia. Corcovea y levanta la cabeza hacia el cielo. ¿Has montado
alguna vez en un caballo que corcovea?”

Miré la larga calle gris, durante un instante tuvo el aspecto del largo cuello de un caballo alzado hacia el cielo. Pero al
instante, mi cordura regresó.

“Pero todo esto no es más que tonterías” dije “Las calles van a donde deben ir. Toda calle debe llegar a su fin”.

“¿Porqué piensa eso de las calles?”Preguntó, muy quieto.


“Porque siempre la he visto hacer la misma cosa” contesté razonablemente enfadado “Día tras día, año tras año,
siempre ha conducido a la estación Oldgate. Día tras...” Paré al notar que había erguido su cabeza con la furia de la
calle rebelde.

“¿Y usted?” Dijo con un grito terrible”¿Qué piensa de usted la calle? ¿Cree que está vivo? ¿Estas vivo? Día tras día,
año tras año, siempre te has dirigido a la estación Oldgate...” Desde entonces he respetado los objetos a lo que
llaman inanimados.

Y haciendo una leve reverencia al bote de mostaza, el hombre se fue del restaurante.

12 Hombres-G.K.CHESTERTON
12 Hombres-G.K.CHESTERTON

Publicado en el libro Enormes Minucias de G.K.Chesterton

El otro día, mientras estaba pensando en cuestiones de moral y en el Sr.H.Pitt, fui, por así decirlo, secuestrado e
introducido en un banco de jurado para juzgar a alguien. El secuestro duró unas semanas pero no dejo de parecerme
algo repentino y arbitrario. Me sentaron ahí porque vivo en el barrio de Battersea y mi apellido empieza por la letra
C. Mirando por el tribunal, vi una autentica multitud que había acudido a la citación del juzgado. Toda esta procesión
vivía en Battersea y su nombre empezaba por C.

Parece ser que siempre citan al jurado haciendo estos barridos alfabéticos. De un plumazo oficial, por así decirlo,
Battersea queda desnudo de sus C y se tiene que apañar como pueda con el resto de alfabeto. De una calle falta un
tal Cumberpath, de otra un Chizzolpop, tres Chucksterfields de la mansión Chucksterfield, los niños lloran la ausencia
de Cadgerboy, la comadre de la esquina llora por su Coffintop y no admite consuelo. Nos acomodamos juguetones
en nuestros asientos, ( somos una especie temeraria los C de Battersea, no nos preocupan las consecuencias) y nos
toma juramento de forma totalmente inaudible un sujeto que parece un cirujano militar que hubiese entrado en su
segunda infancia. Entendemos sin embargo que debemos juzgar bien y fielmente el asunto que enfrenta al Tribunal,
la Corona y el prisionero. Los tres están, de momento, por aparecer.

***

Justo cuando daba por hecho que la corona y el acusado estaban seguramente llegando a un acuerdo amistoso en
otra sala, apareció la cabeza del acusado por encima del banquillo. El cargo es robo de bicicletas y es la viva imagen
de un amigo mío. Nos metemos con detenimiento en el asunto de robo de bicicletas. Juzgamos bien y fielmente el
asunto de las bicicletas que enfrentan a la corona y al acusado. Acordamos, tras una discusión breve pero profunda,
que la corona no esta implicada en modo alguno. Después nos ocupamos de una mujer acusada de descuidar a sus
hijos. Parece como si algo o alguien hubiese sido descuidado con ella. Soy uno de los que están más bien
convencidos de ello.

Durante el tiempo en que el ojo observó estas apariciones y la mente formuló estos frívolos comentarios, el corazón
sintió una pena primitiva y un miedo que el ser humano ha sido incapaz de formular desde el principio. Pero es lo
que da su fuerza a la mitad de los poemas del mundo. Este estado de animo no puede ni sugerirse a no ser diciendo
que la tragedia es la máxima expresión del valor de una vida humana. Nunca me había encontrado tan próximo al
dolor y nunca tan lejos del pesimismo. Por lo general, no diría palabra de estas emociones oscuras, hablar de ellas es
demasiado difícil. Las menciono ahora a cuento de una razón, concreta y especifica, que inmediatamente expondré.
Las menciono porque con su calor encontré, de forma curiosa, la confirmación de una verdad política o social. Vi con
una claridad rara e indescriptible en que consiste realmente el jurado y porque nunca debemos abandonarlo.

Hasta la fecha, nuestra época se ha orientado de manera consistente hacia la especialización y la profesionalidad.
Tenemos ejércitos profesionales porque luchan mejor, cantantes profesionales porque cantan mejor, cómicos
profesionales porque se ríen mejor, etcétera. Numerosos escritores modernos han planteado esta idea para el
derecho y la política. Muchos socialistas fabianos han insistido en que la mayor parte de nuestra actividad política
debería realizarse por expertos. Muchos juristas han planteado que el jurado lego debe ser suplantado por el juez
profesional.

***
Bueno, si este fuese un mundo realmente razonable, no creo que hubiese nada que objetar. Pero lo que realmente
aprendemos de la experiencia, la verdadera base de toda religión, es que la cuatro o cinco cosas más esenciales que
debe conocer un hombre, son todas ellas lo que llamamos paradojas. Es decir que por más que resulten evidentes en
la vida diaria, difícilmente podemos formularlas sin parecer culpables de contradicciones verbales. Una de ellas es,
por ejemplo, el indiscutible tópico de que la persona que más disfruta consigo misma es la que menos lo pretende.
Otra es la paradoja del valor que consiste en que la forma de evitar morir es no temiéndolo en exceso. Al que le
importa tan poco partirse un hueso que trepa a una roca sobre las olas, puede que salve su vida con ese descuido. El
que pierda su vida la salvará. Como ven un comentario totalmente prosaico y practico.

Pues bien, entre estas cuatro o cinco paradojas que deberían enseñarse a cada bebé que juega en las rodillas de su
madre, se encuentra la siguiente: a más mira una persona algo menos la ve, a más la estudia menos sabe de ello. El
argumento fabiano a favor del experto, que debemos confiar en personas entrenadas, sería totalmente
inexpugnable que fuese cierto que la gente que estudia algo y lo práctica cada día, entiende el significado y la
importancia de ese algo cada vez mejor. No lo hace. Cada vez ve menos de su sentido e importancia. De la misma
manera en que nosotros, a no ser que nos recordemos que debemos ser humildes y agradecidos, vemos cada día
menos el sentido y la importancia del cielo y las montañas, lo que es una pena.

***

Es un asunto tremendo señalar a alguien para que reciba la venganza de los demás. Pero es algo a lo que se puede
uno acostumbrar. Uno se acostumbra a cosas terribles, como el sol. Lo verdaderamente horrible de toda la
administración de justicia, incluso de los mejores de entre jueces, magistrados, abogados, detectives y agentes de
policía, no es que sean malos ( algunos son buenas personas) ni que sean idotas (un puñado es muy inteligente), es
sencillamente que se han acostumbrado.

Hablando con propiedad, no ven al acusado en el banquillo. Solamente pueden ver al hombre de siempre en su lugar
habitual. No contemplan el imponente tribunal donde se imparte justicia, solo su lugar de trabajo. Por lo tanto, la
civilización cristiana ha decidido muy sabiamente que en cada nueva ocasión reciban una transfusión de sangre e
ideas nuevas procedente de las calles. Que lleguen personas capaces de ver el tribunal y la multitud, los rostros
vulgares de agentes y rateros, los rostros consumidos de los viciosos, el rostro inverosímil de los abogados mientras
gesticulan. Y ver todo esto como uno mira un cuadro nuevo o el estreno de una obra de teatro.

Nuestra civilización ha decidido, con toda razón, que determinar la inocencia o culpabilidad de alguien es un asunto
demasiado trascendental como para confiárselo a los profesionales. Si desea iluminar un asunto tan terrible, solicita
doce hombres de la calle tan ignorantes del derecho como yo mismo, pero capaces de sentir lo que yo sentí en el
banco del jurado. Cuando lo que quiere es que se catalogué correctamente una biblioteca, conocer las dimensiones
del sistema solar o cualquier otra cosa irrelevantes, utiliza a especialistas. Pero cuando quiere hacer algo realmente
importante coge a doce hombres corrientes que andaban por ahí. Si no recuerdo mal, el fundador del cristianismo,
no hizo otra cosa.

Democracia y Capitalismo-G.K.CHESTERTON
Democracia y Capitalismo-G.K.CHESTERTON

Aparecido por primera vez en la columna del Illustrated London News, en Julio de 1932.

Cada día esta más claro para los que nos agarramos a ideas y dogmas en decadencia, y defendemos las ideas
agonizantes del medioevo, que pronto nos quedaremos solos en la defensa del más deteriorado de estos antiguos
dogmas: la idea llamada democracia. Se ha tardado una generación, más o menos mi generación, en arrastrarla de la
cima de su éxito, su supuesto éxito, al lodo de su fracaso, su supuesto fracaso. A finales del siglo diecinueve, millones
de hombres aceptaron la democracia sin saber la razón. Parece que, finalizando el siglo veinte, millones hombres la
rechazarán sin conocer tampoco el motivo. De una manera así de lógica, recta y sin vacilaciones, avanza la mente del
ser humano por el gran sendero del progreso.

En cualquier caso, en este momento la democracia esta siendo atacada y, lo que es más, atacada injustamente. La
gente crítica el sufragio universal solo porque no es tan culta como para criticar el pecado original. Hay un examen
muy sencillo para determinar si un problema social es causado por el pecado original. Consiste en hacer lo qué no
están haciendo ninguno de estos críticos modernos: plantear algún merito moral para los sistemas políticos
alternativos. La esencia de la democracia es muy simple y, como escribió Jefferson, evidente. Si diez hombres
naufragasen juntos en una isla desierta, su comunidad la compondrían ellos, su bienestar la razón de estar juntos, y
en circunstancias generales la voluntad colectiva sería la ley. ¿Si por su carácter no están capacitados para
autogobernarse, quien de ellos puede decir que, por su forma de ser, debe gobernar a los demás?

Decir que gobernará el más listo o el más valiente es eludir la cuestión. Si emplean sus capacidades a favor del
colectivo, destilando agua o planeando expediciones, están al servicio de los demás. Que serian, en este sentido, sus
gobernantes. Si emplean sus capacidades contra los demás, robando el ron o envenenando el agua potable ¿Por qué
debería el resto tolerarlo? ¿Hasta que punto es probable que lo hagan?

En un ejemplo tan sencillo, todo el mundo ve el fundamento popular del sistema, y las ventajas del gobierno por
consenso. El problema con la democracia es que, en la época actual, raramente surge un caso así. En otras palabras,
el problema con la democracia no reside en ella. Reside en ciertas cosas, artificiales y antidemocráticas, que, de
hecho, han surgido en el mundo moderno para frustrar y destruir la democracia.

La modernidad no es democracia. La maquinaria industrial no es democracia. Dejar todo en manos del comercio y el
mercado no es democracia. El capitalismo no es democracia. Esta más bien en contra de la democracia por su
sustancia y sus tendencias. Por definición la plutocracia no es democracia. Pero todas estas cosas modernas se
abrieron camino en el mundo al mismo tiempo, o poco después, que los grandes idealistas como Rousseau y
Jefferson estudiaban el ideal de la democracia. Puede defenderse que el ideal democrático era demasiado optimista
como para triunfar. Lo qué no se puede mantener es que lo que fracasó es el mismo que las cosas que triunfaron.
Una cosa es que un tonto se pierda en el bosque y se lo coman las fieras, otra que el tonto sobreviva en el bosque
como una fiera más. En la práctica, la democracia lo tiene todo en contra y de hecho puede decirse que, en la teoría,
también hay algo contra ella. Podría decirse que la naturaleza humana esta contra ella. De hecho, es seguro que el
mundo moderno lo está. La sociedad científica y trabajadora del ultimo siglo ha sido un lugar mucho más inadecuado
para cualquier experimento de autogobierno de lo que lo habrían sido las antiguas condiciones de vida en el campo
o incluso la vida de los nómadas. La vida en las mansiones feudales no era democrática, pero se podía haber
convertido en democrática más fácilmente. La vida de los campesinos de épocas posteriores, en Francia o en Suiza,
podría haberse convertido muy fácilmente en democrática. Lo que es horrorosamente difícil es convertir el moderno
capitalismo industrial en democrático.

Por eso la gente empieza a decir que el ideal democrático no está vigente en el mundo moderno. Estoy totalmente
de acuerdo. Pero me quedo con el ideal democrático, que es al menos un ideal y por lo tanto una idea, antes que
con que el mundo moderno, que no es más que la actualidad y por lo tanto ya es historia antigua. He notado que los
lunáticos, o con mejor educación idealistas, ya se están apresurando en abandonar este ideal. Un pacifista famoso,
con quien yo discutí cuando era un radical en los periódicos radicales y que más tarde se ha convertido en un
republicano modelo de la nueva republica, el otro día se tomó muchas molestias para poder decir que la voz del
pueblo es, en términos generales, la voz de Satanás. A decir verdad, estos liberables nunca tuvieron mucha fe en el
gobierno por el pueblo como no la tuvieron en nada que fuese de la gente como las tabernas o las quinielas de
Dublín. No creían en la democracia que invocaban contra los reyes y los sacerdotes. Yo si y sigo creyendo en ella.
Pero prefiero invocarla contra pedantes y maniáticos. Aún creo que sería el gobierno más humano si pudiese
ponerse en práctica en otra época menos inhumana.

Por desgracia, las ideas humanitarias han sido el signo distintivo de una época inhumana. Con esto no me refiero a la
simple crueldad. Me refiero a la situación en que hasta la crueldad ha dejado de ser humana. Cuando el rico, en lugar
de ahorcar a seis o siete de sus enemigos porque los odia, simplemente arruina y mata de hambre a seis o siete mil
personas a las que no odia al no haberlas visto nunca. La única razón es que viven al otro lado del mundo. Me refiero
a la situación en la que el lacayo o cortesano de un hombre rico en vez de entretenerse mezclando un nuevo y
original veneno para los Medici o labrando una daga exquisita para los objetivos políticos de los Medici, se aburre en
una fabrica haciendo un determinado tipo de tornillo, que encaja en una lamina que no ha visto, que sirve para
montar una pistola que nunca verá. Qué se disparará durante un combate del cual nunca tendrá noticia, y sobre
cuyas circunstancias concretas sabe todavía menos de lo que sabía el canalla renacentista sobre los fines del veneno
y la daga. En resumen, que el problema del capitalismo es que es indirecto. Todo se retuerce hasta las cosas que
deberían ser rectas. Y en este, el sistema más indirecto de todos, intentamos aplicar la idea más directa que existe.
La democracia, una idea simple hasta la medula, ha sido aplicada inútilmente a una sociedad compleja hasta la
locura. No es sorprendente que una idea tan visionaria se haya desvanecido de nuestro entorno. A mí me gusta la
idea, pero tiene que haber de todo en este mundo. Y de hecho hay personas, que pasean tranquilas bajo la luz del
sol, a las que parece gustar el entorno.

Carta pública de G.K.CHESTERTON


Carta pública de G.K.C.

Milord: Le dirijo una carta pública, pues se trata de una cuestión pública. Es improbable que le moleste a usted con
una carta particular sobre una cuestión privada; especialmente sobre la cuestión privada que ahora ocupa mi
espíritu. Sería imposible desconocer la ironía que, en estos últimos días, ha puesto término al gran duelo del asunto
Marconi en que usted y yo, hasta cierto punto, representamos los papeles de segundos; esta parte personal del
asunto terminó al hallar Cecil Chesterton la muerte en las trincheras, a las que había ido por su voluntad; y al ser
rechazada la apelación de Godfrey Isaacs por los mismos tribunales a los que en otro tiempo apeló con éxito. Pero,
créame, no escribo sobre ningún asunto personal; ni escribo, aunque parezca extraño, con ninguna acrimonia
personal. Por el contrario, hay algo en estas tragedias que, casi contra lo natural, aclara y ensancha el espíritu; y creo
que, en parte, escribo porque quizá nunca me sienta otra vez tan magnánimo. Sería irracional pedir su simpatía;
pero me siento sinceramente impulsado a ofrecer la mía. Usted es mucho más desgraciado; pues se hermano
todavía vive.

Al volver la vista hacia usted y su tipo de política, no lo hago entera y únicamente mediante la abstracción que, en
momentos de pena, lleva a un hombre a mirar fijamente una mancha de los manteles o un insecto en el suelo. Me
doy cuenta, por supuesto, con esa clase de insulsa claridad, de que es usted en la práctica una mancha en el paisaje
inglés y de que los políticos que le ensalzaron figuran entre las cosas de la tierra que se arrastran. Pero siento ahora,
con toda sinceridad, menos el humor de burlarme de las falsas virtudes que exhiben, que el de probar de imaginar
las virtudes más reales que ocultan con éxito. En su caso de usted hay menos dificultad, por lo menos en una
cuestión. Estoy dispuesto a creer que fue la dependencia mutua de los miembros de su familia lo que ha requerido el
sacrificio de la diginidad e independencia de mi país; y que si está decretado que la nación inglesa ha de perder su
honor, será en parte porque ciertos hombres de la tribu de Isaacs mantuvieron su propia extraña lealtad privada.
Estoy dispuesto a contárselo como una virtud; según su propio código quizá interprete las virtudes; pero este hecho
sólo sería bastante para hacerme protestar contra cualquier hombre que profese su código e interprete nuestra ley.
Y sobre este punto de su posición pública, y no con motivo de sentimientos personales, me dirijo hoy a usted.

No se trata de antipatía hacia ninguna raza, ni siquiera de antipatía hacia ninguna persona. No promueve la cuestión
de detestarle a usted; más bien promovería, de algún extraño modo, la cuestión de amarle a usted. ¿Se le ha
ocurrido alguna vez cuánto tendría que amarle a usted un buen conciudadano para tolerarle? ¿Ha considerado cuán
caluroso, y aun loco, ha de ser nuestro afecto para el determinado corredor de bolsa que, de algún modo, se ha
convertido en Presidente del Tribunal Supremo, para ser lo bastante fuerte para hacérnosle aceptar como tal
Presidente? No se trata de cuánto nos desagrada usted, sino de cuánto nos agrada; de si le amamos a usted más que
a Inglaterra, más que a Europa, más que a Polonia, columna de Europa, más que el honor, más que la libertad, más
que los hechos. No se trata, en resumen de cuánto nos desagrada, sino de hasta qué punto se puede esperar que le
adoremos, muramos por usted, decaigamos y degeneremos por usted; que por su causa seamos despreciados, que
por su causa seamos despreciables.

¿Consideró usted alguna vez, en un momento de meditación, cuán curiosamente valioso tendría que ser usted
realmente para que los ingleses se desentendiesen de todas las cosas que usted ha corrompido y se mostrasen
indiferentes a todas las cosas que puede usted destruir todavía? ¿Hemos de perder la guerra que ya ganamos? Esto,
y no otra cosa, significa el perder la plena satisfacción de la demanda nacional de Polonia. ¿Existe algún hombre que
dude de que la Internacional judía es adversa a esa plena demanda nacional? ¿Existe algún hombre que dude de que
usted será favorable a la Internacional judía? Nadie que sepa algo de los hechos internos de la Europa moderna tiene
la menor duda sobre cualquiera de estos puntos. Nadie duda si lo sabe, impórtele o no. ¿Imagina usted seriamente
que los que saben, los que se interesan, son tan idólatras de Rufus Daniel Isaacs que toleran tal riesgo, que se
expongan a tal ruina? ¿Tenemos que exaltar como representantes de Inglaterra a un hombre que es una burla
contra Inglaterra? Esto, y no otra cosa, significa el hacer del ministro de los Marconis nuestro principal ministro en el
extranjero. Es precisamente en esos países extranjeros con los que tal ministro tendría que tratar, donde su nombre
sería, y ha sido, una especie de proverbio de pantomima como Panamá o la Estafa de Mar del Sur. Los extranjeros no
fueron amenazados con multa y prisión por llamar pan al pan y especulación a la especulación; los extranjeros no
fueron castigados por una ley sobre calumnias, completamente sin ley, por decir acerca de unos hombres públicos lo
que estos hombres mismos tuvieron después que confesar públicamente. Los extranjeros fueron especuladores que
realmente pudieron ver la mayor parte del juego, mientras nuestro público no veía nada; y no se divirtieron poco
con él. ¿Habrá que dejar que en adelante se diviertan con todo lo que se diga o haga en nombre de Inglaterra en
todos los asuntos de Europa? ¿Tiene usted la grave insolencia de llamarnos antisemitas porque no sentimos por un
judío determinado un cariño lo bastante exagerado para hacernos soportar esto por él solo? No, milord; las bellezas
de su carácter no nos cegarán hasta el punto de no ver todos los elemntos de razón y defensa propia; aun podemos
dominar nuestros afectos; nuestro cariño por usted no llega a tal extremo. Aunque lo seamos todo menos
antisemitas, no somos prosemitas de este modo peculiar y personal; aunque seamos amantes, no vamos a
suicidarnos por amor. Después de pesar y evaluar todas sus virtudes, las cualidades de nuestro propio país toman su
parte debida y proporcional en nuestra estima. No morirá por su causa.

No sabemos de qué manera siente usted mismo su extraña posición, ni hasta qué punto sabe que es una posición
falsa. A veces he creído ver, en los rostros de hombres tales como usted, que sufren toda esta experiencia como
irreal, siempre mascarada; con la misma sensación que yo tendría si por una suerte fantástica, en la antigua y
fantástica civilización de la China, me viera elevado del Botón Amarillo al Botón de Coral, o del Botón de Coral a la
Pluma de Pavo Real. Precisamente por lo grotesco de tales cosas quizá apenas las sintiera como incongruas.
Precisamente por no significar nada para mí, acaso disfrutaría de ellas sin avergonzarme de mi insolencia como
extraño advenedizo. Probablemente por no poder sentir su dignidad, no sabría qué había degradado. Mi idea puede
ser equivocada; es sólo una de muchas tentativas que he hecho para imaginar y tener en cuenta una psicología
extraña en este asunto; y si usted, y otros judíos mucho más dignos que usted, son prudentes, no descartarán como
antisemitismo lo que quizá resulte el último intento serio por simpatizar con el semitismo. Tengo en cuenta su
posición más que la mayoría de los hombres, más, sin duda alguna, de lo que la tendrán en cuenta la mayoría de los
hombres en los días más sombríos que han de venir. Es absolutamente falso sugerir que yo, o un hombre mejor que
yo cuya tarea heredo, deseamos este desastre para usted y los suyos; no les deseo tan horrible castigo. Daniel, hijo
de Isaac, vaya en paz; pero váyase.

Suyo,

G. K. Chesterton

PD: Esta carta fue escrita en el contexto del caso Marconi, mas tarde escribiría Chesterton en el prologo del libro de
su hermano, "Historia de los Estados Unidos" edición de 1918, también publicado en Maestro de Ceremonias de
Chesterton, Pág. (97-105). Chesterton comenta lo siguiente hablando de su ya difunto hermano Cecil Chesterton:

"Se acusaba a los ministros de que, mientras se trataba de un contrato del gobierno, ellos intentaban ganar dinero
valiéndose de un dato secreto, que les era proporcionado por el agente con quien, se suponía, su gobierno estaba
negociando su contrato. Fue esto lo que afirmo su acusador, Cecil Chesterton, pero no fue a esta acusación que ellos
contestaron; mediante una acusación basada, no en lo que el dijo del gobierno, si no en algo secundario que había
dicho acerca del contratista del gobierno; este, el señor Georges Isaac, obtuvo una sentencia por la calumnia y el
juez impuso una multa de 100 libras esterlinas. Tal vez los electores hayan conocido algunos incidentes posteriores
referentes a la vida del señor Isaac, pero no trato aquí si no de los que se relacionaban con una persona mucho mas
interesante que él."

Girolamo Savonarola-G.K.CHESTERTON
Girolamo Savonarola-G.K.CHESTERTON
Título original: «Girolamo Savonarola», en Twelve Types

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/


Savonarola es un hombre al que seguramente no comprenderemos hasta que sepamos cuánto horror puede haber
en el corazón de la civilización. Esto no lo sabremos hasta que estemos civilizados. En cierto sentido es de esperar
que nunca comprendamos a Savonarola.

Los grandes libertadores han salvado a los hombres de calamidades que todos reconocemos como males,
calamidades que son viejos enemigos de la humanidad. Los grandes legisladores nos salvaron de la anarquía; los
grandes físicos, de la peste; los grandes reformadores, del hambre. Pero hay un mal inmenso e insaciable comparado
con el cual estos son simples molestias, la más terrible maldición que puede abatirse sobre hombres y pueblos, un
mal sin nombre al que llamamos satisfacción. Savonarola no nos salvó de la anarquía, sino del orden; no nos salvó de
la peste, sino de la parálisis; no nos salvó del hambre, sino del lujo. Los hombres como Savonarola adivinaron la
tremenda realidad psicológica que hay detrás de la mente de cada hombre, pero a la que nunca se ha dado un
nombre: que la vida fácil es el peor enemigo de la felicidad, y la civilización, el fin potencial del hombre.

Pues creo que el vehemente desafío que Savonarola lanzó a la suntuosidad de su época iba mucho más allá de la
simple cuestión del pecado. Los modernos admiradores racionalistas de Savonarola, de George Eliot para abajo,
hacen no poco hincapié en la legítima justificación ética de su furia, en el carácter espantoso y extravagante de los
crímenes que ensangrentaban los palacios del Renacimiento. Pero no necesitan insistir tanto en que Savonarola no
era un asceta, en que no hizo más que identificar las negras manchas de maldad con la beata clarividencia de un
miembro de la Sociedad Ética.° Sin duda odió la civilización de su tiempo y no simplemente sus pecados; y por eso
fue mucho más profundo que ningún moralista moderno. Vio que los pecados mismos no eran los únicos males: que
robar joyas, envenenar vinos y pintar cuadros obscenos eran simplemente los síntomas; que la enfermedad era la
completa dependencia de las joyas, el vino y los cuadros. Es este un hecho que se olvida constantemente al juzgar a
ascetas y puritanos del pasado. Denunciar los deportes inofensivos no siempre implica un odio ignorante por lo que
solo un moralista estricto llamaría pernicioso. A veces implica un odio muy clarividente por lo que el mismo
moralista estricto llamaría inofensivo. Los ascetas van a veces por delante de los demás, tanto como por detrás.

Ese fue al menos el odio de Savonarola. No luchó contra los pecados triviales, sino contra la beatitud descreída e
ingrata, contra la costumbre de la felicidad, el pecado místico por el cual toda creación es derribada. Predicaba esa
severidad que es el sello distintivo de la juventud y la esperanza. Predicaba ese espíritu atento, ágil y alerta que tan
necesario es para conseguir placer como para conseguir santidad, que tan indispensable es en un amante como en
un monje. Un crítico ha señalado justamente que Savonarola no pudo oponerse realmente al arte porque era amigo
de Miguel Ángel, Botticelli y Luca della Robbia. Lo cierto es que esa purificación y austeridad es incluso más necesaria
para apreciar la vida y la risa que para ninguna otra cosa. No dejar que ningún pájaro pase inadvertido, fijarse
pacientemente en cada piedra y en cada hierba, almacenar en la mente un ocaso tras otro, requiere disciplina en el
placer y educación en la gratitud.

La civilización que rodeaba a Savonarola era una civilización que había tomado ya el mal camino; el camino que lleva
a inventar sin fin y a no descubrir nada, en el que lo nuevo se vuelve viejo con velocidad pasmosa, pero en el que lo
viejo nunca se vuelve nuevo. La monstruosidad de los crímenes del Renacimiento no era señal de imaginación, sino,
como toda monstruosidad, de pérdida de imaginación. Solo cuando dejamos de ver a un caballo como es,
inventamos un centauro; solo cuando un buey deja de sorprendernos, adoramos al diablo. Lo diabólico es el
estimulante de las imaginaciones estragadas, el etilismo del artista. Savonarola se consagró a la más ardua de las
tareas, la de hacer que los hombres volvieran atrás y se maravillaran de las cosas sencillas que habían aprendido a
ignorar. Es curioso que la menos popular de todas las doctrinas es la que enseña que la vida normal es divina. La
democracia, de la que Savonarola fue tan fogoso exponente, es el más arduo de los evangelios; nada nos asusta
tanto como el que decreten que todos somos reyes. El cristianismo, que Savonarola identificaba con la democracia,
es el más arduo de los evangelios; nada nos infunde tanto miedo como el que nos digan que somos hijos de Dios.

Savonarola y su república cayeron. La droga del despotismo fue administrada al pueblo y el pueblo olvidó lo que
había sido. Hoy día hay quienes tienen un respeto tan extraño por el arte y las letras y por los solos hombres de
genio, que consideran que el reinado de los Medici constituyó un progreso con respecto al de la gran república
florentina. De estas personas y de su civilización debemos tener miedo hoy día. En muchas partes vemos los mismos
síntomas que provocaron la ira de Savonarola: un hedonismo más ahíto de felicidad que un inválido de dolor, un
sentido artístico que recurre al crimen porque ha agotado la naturaleza. En muchas obras modernas hallamos
velados y horribles indicios de un sentido de la belleza de la sangre, de la poesía del asesinato, que es propiamente
renacentista. La imaginación agotada y depravada no ve que un hombre vivo es más dramático que un hombre
muerto. Y emparejado con ello va, como en tiempos de los Medici, el dejarse caer en los brazos del despotismo, el
desear al hombre fuerte que es desconocido entre los hombres fuertes. Se adora al héroe dominante como lo
adoran los lectores de Bow Bells Novelettes, y por la misma razón: un profundo sentimiento de debilidad personal.°
Esta tendencia a delegar nuestros deberes se apodera de nosotros, y ese es el espíritu de la esclavitud, lo mismo si
para sus serviles tareas emplea a siervos como a emperadores. Contra todo esto alzó el clérigo republicano su
incesante protesta, prefiriendo fracasar a que el rival triunfase. La alternativa sigue siendo él o Lorenzo, la
responsabilidad de la libertad o el libertinaje de la esclavitud, los peligros de la verdad o la seguridad del silencio, el
placer del esfuerzo o la fatiga del placer. Los partidarios de Lorenzo el Magnífico están sin duda entre nosotros,
hombres para quienes las naciones y los imperios existen solo para satisfacer el momento, hombres para los que la
última y tórrida hora del verano es mejor que una larga primavera invernal. Tienen un arte, una literatura, una
filosofía política que solamente valen por su efecto inmediato en los gustos, no por lo que prometen del destino del
espíritu. Sus estatuillas y sonetos son obras perfectas y acabadas, comparadas con las cuales Macbeth es un
fragmento y el Moisés de Miguel Ángel un esbozo. Para ellos sus campañas y batallas son siempre victoriosas, y
César y Cromwell lloran por mil humillaciones. Y al final de todo ello está el infierno de no oponer resistencia, de la
infinita molicie, en el que la naturaleza toda cae en la locura y el aposento de la civilización deja de ser un mullido
apartamento para convertirse en una celda acolchada.

Savonarola previó esta última y la peor de las miserias humanas, y dedicó todas sus colosales energías a encarrilar a
la humanidad. Pocos lo entendieron; para unos era un loco, para otros un charlatán, para otros un enemigo de la
alegría. No lo habrían entendido aunque se lo hubiera explicado, aunque les hubiera dicho que lo que quería era
salvarlos de la catástrofe de una satisfacción que había de acabar juntamente con las alegrías y las penas. Pero hoy
día hay quienes perciben el mismo silencioso peligro y oponen la misma silenciosa resistencia. También se cree que
luchan por algún trivial escrúpulo político.

El señor Hardy dice, en defensa de Savonarola, que el número de obras de arte que se destruyeron en la Hoguera de
las Vanidades ha sido exagerado. Confieso que espero que la pira contuviera montones de incomparables obras
maestras si el sacrificio hizo que aquel momento único fuera más real. De una cosa estoy seguro: de que Miguel
Ángel, amigo de Savonarola, habría hecho con sus propias estatuas una pila y las habría reducido a cenizas de haber
sabido que el resplandor que se proyectaba en el cielo era el alba de un mundo más joven y sabio.

Tolstoy- G.K.CHESTERTON
Tolstoy- G.K.CHESTERTON

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

Quien desee comprender lo profundo de la influencia del gran hombre que encabeza este articulo y la autentica
naturaleza de dicha influencia, no debe dirigirse a sus novelas, por más que sean espléndidas, ni a sus puntos de
vista éticos, aun estando tan bien concebidos y claramente explicados. Debe fijarse en la noticia, que acaba de
llegarnos de Canadá, sobre un grupo de anarquistas cristianos rusos que han dejado en libertad a sus animales
domésticos por considerar inmoral poseerlos o controlarlos. Hay algo en un incidente así que es totalmente
independiente la idea puesta en practica .De que sea correcta o equivocada, cuerda o demencial,. Nos hace ver que
el mundo sigue siendo joven. Aún quedan formas de pensar tan locamente cuerdas como las que se debatieron bajo
el cielo azul de Atenas Aun hay muestras de una fe tan fuerte y practica como la de los musulmanes que
conquistaron toda África y Europa al grito de una única palabra. A nuestros políticos y filósofos contemporáneos, en
su languidez, les parecerá algo sacado de un sueño que en nuestra época mecánica, homogénea, sujeta con cadenas
de hierro, un grupo de europeos, vestidos con chalecos y botas, se dedique a soltar al percherón del trolebús, al
cerdo de la cochiquera y al perro de su caseta; solamente por una teoría o un escrúpulo moral. Es como una pagina
arrancada de un cuento de hadas, los miembros de la secta Doukhabor acompañando solemnes a su gallina hasta la
puerta del corral y deseándola benévolos la mejor de las fortunas al inicio de sus viajes. Todo esto le debe parecer
absurdo y confuso al típico líder de nuestra sociedad en esta década, a hombres como el Sr.Balfour o el
Sr.Wyndham. Pero hay algo que añadir. Si el Sr.Balfour se convirtiese a una religión que le indicase la obligación
moral de entrar en la Cámara de los Comunes haciendo el pino, y entrase haciendo el pino y si el Sr.Wyndham
aceptase una creencia que le impusiese teñirse el pelo de azul, y se lo tiñese; ambos serian casi indescriptiblemente
mejores y más felices de lo que lo son ahora. Pues solo hay una felicidad que sea posible o imaginable bajo el sol y es
el entusiasmo. Esa palabra, rara y espléndida, que ha sufrido tantas vicisitudes. En el siglo XVIII se equiparaba a la
locura, en la Grecia clásica a la presencia de un dios.

Este gran acto de coherencia llevada a extremos heroicos que ha sucedido en Canadá, es el mejor ejemplo de la obra
de Tolstoy. Tengo por algo cierto que la secta Doukhabor es de un origen totalmente independiente del gran
moralista ruso. Sin embargo, apenas cabe duda de que su actual notoriedad y su desarrollo, han sido influenciados
por el admirable resumen y defensa que ha efectuado el novelista de sus perspectivas éticas. Tolstoy, además de ser
un gran novelista, es uno de los pocos hombres vivos que tienen un punto de vista sólido, autentico y serio sobre la
vida. Es una iglesia católica compuesta de un solo miembro que es, a la vez, un Papa algo arrogante y un lego algo
sumiso. Es uno de los dos o tres hombres que hay en Europa, con un punto de vista tan propio, que inevitablemente
pueden dar su opinión sobre cualquier cosa: la ley de autonomía de las colonias, un poema hindú o una pizca de
tabaco. Hay tres hombres vivos semejantes: Tolstoy, el Sr.Bernard Shaw y mi amigo el Sr.Hillarie Belloc. Son
diametralmente opuestos pero tienen eso en común, que considerando el abono de sus ideas y el suelo de sus
convicciones, las opiniones sobre cualquier tema terrenal nacen como flores en un prado. Hay ciertos puntos de
vista que deben adoptar. No se forman una opinión más bien sus opiniones les dan forma a ellos. Tomemos la lista
que escribí al azar antes: la ley de autonomía de las colonias, un poema hindú o una pizca de tabaco. Tolstoy diría:
“Creo que nuestro estilo de vida debe ser lo más simple posible. Por lo tanto, esa chistera es una monstruosidad
negra.” Él diría: “Creo que nuestro estilo de vida debe ser lo más simple posible. Por lo tanto, la ley de autonomía de
las colonias se queda a medio camino de forma mezquina. De nada sirve dividir un imperio en naciones si no divide
las naciones en personas individuales “. Él diría: “Creo que nuestro estilo de vida debe ser lo más simple posible. Por
lo tanto, este poema hindú me interesa. Con todo su aparente barroquismo, los puntos de vista de la ética oriental
son más sencillos que los de occidente y por lo tanto me son más próximos”. Él diría: “Creo que nuestro estilo de
vida debe ser lo más simple posible. Por lo tanto esta pizca de tabaco es algo maligno. Lleváosla.”. Todo en este
mundo, desde la Biblia hasta un par de botas, puede ser eliminado, y lo es, aplicando este principio fundamental de
las ideas de Tolstoy: la simplificación de la vida. Cuando tratamos una doctrina semejante con encontramos ante un
incidente infinitamente más importante dentro de la historia europea que la ascensión de Napoleón Bonaparte.

La aparición de Tolstoy, con su ética tan sencilla y tan terrible, es importante de muchas maneras. Entre otras cosas,
es un comentario muy interesante a la opinión que viene siendo adoptada desde hace medio siglo por los oponentes
de lo religioso. El pensador laico y el escéptico han atacado el cristianismo ante todo por fomentar el fanatismo,
porque el fervor religioso hace que la gente queme a sus vecinos y dance desnuda por las calles. Parece raro. La
religión podría desaparecer y quedarían sistemas éticos y filosóficos capaces de producir suficiente fanatismo como
para llenar el mundo. El fanatismo no tiene nada que ver con la religión. Hay teorías científicas serias que, llevadas
hasta la última consecuencia, producirían idénticas hogueras en los mercados e idéntica desnudez. Hay partidarios
de la moda que se pasearían como Adán y Eva si pudiesen hacerlo de forma elegante. Hay modernos estudiosos
científicos de la moral que quemarían vivos a sus oponentes. Y lo harían tan contentos si pudiesen quemarlos
empleando algún producto químico nuevo. Si alguien duda de esto, de que el fanatismo es ajeno a la religión pero
propio de la naturaleza humana, solo tiene que fijarse en el caso de Tolstoy la secta Doukhabor. Una secta que
empezó sin teología alguna, solo con la sencilla idea de que debemos amar al prójimo y nunca jamás emplear la
fuerza física contra él, y terminaron considerando algo malvado llevar una maleta de cuero o ir montado en un carro.
Un gran escritor contemporáneo borra por completo la teología, niega de un plumazo la validez de las escrituras y de
las iglesias, desarrolla un sistema ético en que el amor será el instrumento para la reforma y termina diciendo que no
tenemos derecho de golpear a un hombre que esta torturando a un niño en nuestras narices. Continua
desarrollando una teoría de la mente y las emociones que podría ser aceptada por el ateo más rígido y termina
proclamando que las relaciones sexuales, de donde procede la humanidad, son, no ya inmorales, sino antinaturales.
Esto es el fanatismo como siempre ha sido y siempre lo será. Destruid hasta el último ejemplar de la Biblia, habrá
persecuciones y orgías salvajes basadas en “Filosofía Sintética” del Sr.Herbert Spencer. Algunos de los pensadores
más abiertos de miras de la edad media creían en apilar las gavillas junto a la estaca, y algunos de los pensadores del
siglo XIX más abiertos de miras creen en la dinamita.

La realidad es que a Tolstoy con toda su genialidad, con su fe de coloso, con su gran valor y amplios conocimientos
de la vida, le falta una sola cosa: no es un místico. Tiene por lo tanto, tendencia a perder la razón. La gente habla de
las extravagancias y los frenesís provocados por el misticismo. No es más que una gota de agua en el mar. Desde el
comienzo de los tiempos, el misticismo nos ha mantenido cuerdos. Lo que hace enloquecer es la lógica.

Es significativo que con todo lo que se ha dicho sobre la fragilidad mental de los poetas, solo un poeta inglés se ha
vuelto loco. Y perdió la razón a consecuencia de un sistema lógico de teología. Se trata de Cowper y su poesía freno
el avance de la enfermedad durante muchos años. La poesía, lo que le falta a Tolstoy, siempre ha sido algo curativo.
Lo único que ha frenado a la raza humana de los desvaríos del convento, la galera pirata, el cabaret y la cámara de
gas, ha sido el misticismo y la idea de que la lógica puede resultar engañosa y algo no ser siempre lo que parece.

Ensayo sobre dos ciudades-G.K.CHESTERTON


Ensayo sobre dos ciudades-G.K.CHESTERTON

Título original: «An essay on two cities», en All Things Considered

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

Hace poco caí de Inglaterra en la ciudad de París. Si un hombre cayera de la luna en París, conocería que es la capital
de una gran nación. En cambio, si cayera (digamos desde otra parte de la luna) en la ciudad de Londres, no conocería
fácilmente que es la capital de una gran nación, y en ningún caso que la nación es tan grande como es. Y sería así aun
en el supuesto de que el hombre de la luna no entendiera nuestro alfabeto, como presumiblemente no lo
entendería, a menos que la educación elemental en aquel planeta haya alcanzado niveles insospechados. Pero es
verdad que lo que distingue a París de Londres puede verse en gran medida en los nombres. Los verdaderos
demócratas dicen que Inglaterra es un país aristocrático. Los verdaderos aristócratas dicen (por alguna misteriosa
razón) que es un país democrático. Si alguien tiene alguna duda acerca de esta cuestión, solamente ha de fijarse en
el nombre de las calles. Casi todas las calles adyacentes al Strand,* por ejemplo, llevan el primer, segundo, tercer,
cuarto, quinto y sexto nombre de alguna familia noble, o de parientes y amigos suyos, o de sus lugares de residencia:
Arundel Street, Norfolk Street, Villiers Street, Bedford Street, Southampton Street y muchas más. Los nombres son
muy variados, a fin de que una misma familia figure con el mayor número de apellidos posible; tenemos así Arundel
Street y Norfolk Street, Buckingham Street y Villiers Street. Decir que esto no es aristocrático es pura desvergüenza
intelectual. Yo soy un ciudadano normal y corriente, me llamo Gilbert Keith Chesterton. Y confieso que si en el
Strand me encontrara tres calles seguidas llamadas Gilbert Street, Keith Street y Chesterton Street, me consideraría
una persona socialmente más importante de lo que sería bueno para la sociedad. Si los franceses mandasen en
Londres (Dios no lo quiera), tan disparatado les parecería que esas calles se llamaran como el duque de Buckingham,
como que se llamaran como yo. Esas calles están junto a una de las principales vías de Londres. Si adoptásemos el
sistema francés, una de ellas se llamaría Shakspere Street, otra Cromwell Street, otra Wordsworth Street, y habría
estatuas de estas personas al final de sus correspondientes vías, y si alguna calle quedase por nombrar, se la llamaría
con la fecha en la que se aprobó la reforma tributaria o se implantó el sistema de tarifas postales.

Imaginemos que un hombre quisiera encontrar personas en Londres guiándose por el nombre de los lugares. Sería el
protagonista de una graciosa comedia que ilustraría nuestra falta de lógica. Conociendo que Buckingham Street fue
bautizada así en honor de la familia Buckingham, iría, como es natural, a Buckingham Palace en busca del duque de
Buckingham. Para su sorpresa, encontraría a una persona muy distinta.** Su sencilla lógica lunar lo llevaría a
suponer que si quisiera ver al duque de Marlborough (lo que parece poco probable), lo hallaría en Marlborough
House. A quien encontraría sería al príncipe de Gales. Y cuando por fin se enterase de que los duques de
Marlborough viven en Blenheim Palace, residencia así llamada por la victoria del duque en la batalla de Blenheim,
allá se iría sin duda. Pero si, siguiendo este principio, buscara al duque de Wellington, de nuevo se equivocaría
pidiendo al cochero que lo llevase a Waterloo. Me sorprende que nadie haya escrito una novela narrando las
disparatadas aventuras de semejante alienígena, en busca de los grandes aristócratas ingleses sin más guía que los
topónimos; en busca del duque de Bedford en la ciudad de ese nombre, y en Norfolk al duque de Norfolk. Podría
viajar a Wellington, Nueva Zelanda, buscando el lugar de origen de los Wellington. Y en la última escena podría
aparecer aprendiendo galés para poder hablar con el príncipe de Gales.

Pero aun si nuestro imaginario viajero desconociese el alfabeto terrestre, creo que seguiría siendo capaz de ver
diferencias entre Londres y París, y sobre todo la gran diferencia. No podría leer las palabras «Quai Voltaire», pero sí
vería la socarrona estatua y las calles firmes y rectas; sin saber quién fue Voltaire, sabría que la ciudad era volteriana.
No sabría que la londinense calle Fleet se llamó así por la prisión de Fleet, pero sí vería que el mismo espíritu
nacional que hizo la prisión cerrada y angosta, ha hecho la calle cerrada y angosta. O, si quieren ustedes, la calle
acogedora y acogedora la prisión. Yo creo que me sentiría más cómodo en la prisión de Fleet, cómodo en el sentido
inglés de la palabra, que al pie de la estatua de Voltaire. Creo que el hombre de la luna conocería Francia sin conocer
a los franceses, como creo que conocería Inglaterra sin haber oído la palabra Inglaterra. Porque, como último
recurso, todos los hombres hablamos por señas, por signos. Hablar por signos es hablar por estatuas, por ciudades.
Columnas, palacios, catedrales, templos, pirámides, constituyen un enorme alfabeto mudo: como si un gigante nos
hablara por señas de piedra. Las cosas más importantes se han dicho siempre con signos, aunque fueran, como la
Cruz de Saint Paul, signos en el cielo. Si los hombres no entienden los signos, jamás entenderán las palabras.

Por eso me sentiría inclinado a pensar que el objeto principal de la educación debe ser el de devolver la simplicidad.
Y si se me apura, diré que el principal objeto de la educación no es aprender cosas, sino desaprenderlas;
desaprender lo que hay de pesado y malo en el mundo y volver a ese estado de exaltación y alegría que
instintivamente sentimos al escribir para niños. Si a mí me nombraran examinador de examinadores (lo que no
parece muy probable), no solo preguntaría a enseñantes y maestros cuánto conocimiento han impartido; les
preguntaría cuánta espléndida y desdeñosa ignorancia han erigido, cual regia torre fortificada. E insistiría en que lo
importante es enseñar a la gente la simplicidad que les permita ver las cosas de pronto y tal como son. Poco me
importa que puedan leer los nombres de las tiendas. Me importa mucho más que puedan leer las tiendas. Poco me
preocupa que no puedan decir dónde se halla Londres en el mapa, si saben dónde se halla Brixton camino de su
casa. Ni siquiera me interesa que sepan sumar dos y dos en el sentido matemático; me contento con que sepan
sumar dos y dos en el sentido metafórico. Aunque toda esta larga digresión puede resumirse en la metáfora que
antes he empleado. Me importa muy poco que no conozcan el alfabeto, mientras conozcan el alfabeto mudo.

Por desgracia, tengo observado que, en muchos aspectos de nuestra educación popular, esto no se hace así en
absoluto. Enseñamos a nuestros chicos londinenses a ver Londres con ojos simples y desprevenidos. Y Londres es
mucho más difícil de ver bien que ningún otro sitio. Londres es un acertijo. París es una explicación. La educación del
niño parisino es algo que se corresponde con las claras avenidas y las geométricas plazas de París. El niño parisino
que aprende lo que es la razón francesa y el orden romano, puede salir y verlos plasmados en la forma de muchos
espléndidos lugares públicos, en las esquinas de muchas calles. Pero el niño inglés que sale a la calle habiendo
aprendido algo acerca de un vago progreso y un vago idealismo, no puede verlos en ningún sitio. No puede ver nada
en ningún sitio, excepto anuncios de Sapolio*** y el Daily Mail. Debemos o cambiar Londres para adaptarla a los
ideales de nuestra educación, o cambiar nuestra educación par adaptarla a la gran belleza de Londres.

*Calle céntrica de Londres.

**A la reina Victoria

***Marca de jabón famosa precisamente por su publicidad.

Apología-G.K.CHESTERTON
Apología-G.K.CHESTERTON

Primer artículo del número de muestras (adelantado) del "G.K. Weekly" (8 noviembre 1924), semanario dirigido por
Chesterton.

Me propongo dar a esta publicación muy mal nombre y aferrarme a él. Cuando se me sugirió que empleará en el
título las iniciales de mi nombre, la proposición me inspiró un horror que se ha convertido en aversión. Debo al
lector una breve exposición de las razones que me inducieron a aceptarla: la principal de las cuales es que a causa de
circunstancias peculiares, es difícil encontrar otro título. Es cierto que los títulos periodísticos son por lo común
inadecuados. El periódico llamado Daily Herald probablemente muestre poca afición a la heráldica. El periódico
titulado The Nation se ha mostrado siempre particularmente hostil a la nacionalidad. Hasta se podría decir que el
órgano de las guildas, llamado New Age (nueva era), debiera llamarse más bien Middle Age (edad media). Pero en
nuestra situación hay algo que difiere de todos estos periódicos; no es por simple vanidad que decimos es a la vez
universal y único en su clase.
Deseo que esta publicación represente ciertas ideas muy normales y muy humanas; pero es un hecho indiscutible
que no serían publicadas en ningún periódico más que en este. No son manías; son sólo tradiciones que serían
desestimadas, mientras que las manías son bien recibidas por estar a la moda. Tampoco son excentricidades; no son
sino las ideas centrales de la civilización que han sido olvidadas en un maremágnum de excentricidades. Pero por
haber sido olvidadas, vuelven a ser nuevas, y porque han sido olvidadas en otras partes, las hallará aquí solamente.
Son verdades de sentido común en un mundo en que ese sentido ha dejado de ser común.

Tomaré como principal ejemplo el problema actual de la pobreza y de la riqueza. En el problema, mi posición
parecería singularmente sencilla. Y es, sencillamente, que me opongo cordialmente al bolchevismo y a los Trust.
Creo que es posible restablecer y perpetuar una razonable y justa distribución de la propiedad privada; y en este
periódico daré las razones que inducen a creerlo. Por el momento, lo importante es esto: ninguna otra publicación
en este país puede ser cordialmente opuesta, tanto al bolcheviquismo, como a los Trust. Un diario como el Daily Mail
opina que debemos tolerar algo de los Trust, porque la única alternativa es el bolcheviquismo. Y él Daily Herald
opina que debemos tolerar algo del bolcheviquismo, porque la única alternativa son los trust. El Daily Mail no puede
tratar de destruir los trust, porque él forma parte de un Trust. El Daily Herald no puede tratar de derrocar el
bolcheviquismo, porque su mejor apoyo lo halla entre los bolcheviques. Para ellos no hay más que dos partidos que
tomar, y son opuestos. Pero para mí hay otro, el tercero; y ningún otro diario lo defendería, ni siquiera lo
mencionaría. Este tercer camino a seguir ha sido llamado "distributismo", expresando que habría las esperanzas de
distribuirla equitativamente la propiedad privada. Pero si yo le diera a este periódico el título de "la revista
distributiva" (como se ha sugerido), produciría justamente la impresión que desea evitar. Daria la idea de que un
distributista es algo así como un socialista; un pretencioso, un pedante, una persona con una nueva teoría de la
naturaleza humana. Mi opinión es que esta solución es simplemente humana y que las otras soluciones son
deshumanizadas. Esta es mi opinión. Decir que debemos tener socialismo o capitalismo es como decir que debemos
optar por que todos los hombres entren a los conventos o que unos pocos tengan harenes. Si yo negara esa
alternativa sexual, no sería necesario llamarme a mí mismo monógamo; me contentaría con llamarme hombre.
Apelaría a toda nuestra tradición normal y nacional de virilidad. Si fundara un diario que negara esa alternativa, no
querría titularlo "La revista monógama". Y si lo hiciera, 9 personas de cada 10 pensarían que yo era algún otro
pedante, levemente distintos de los anteriores, y tendría la vaga idea de que un monógamo era tan loco como un
mormón. El paralelo es bastante exacto en este caso. Porque el gran Trust no tiene más derecho de absorber en un
monopolio todas las fortunas privadas y afirmar que así defienden la institución de la propiedad, que el que tiene el
gran turco de raptar a todas las mujeres y encerrarnos en un harem, afirmando que así defienden la santidad del
matrimonio.

Cualquier otro paralelo sería igualmente bueno, en cuanto se tratase del insensato dilema y de la sensata
alternativa; y tal vez cuanto más fantástico juega en paralelo, tanto más exactamente se lo podría aplicar al caso. Si
todos los diarios hubieran llevado al público la idea de que debemos elegir entre ser vegetarianos o caníbales,
podríamos necesitar algún diario indicara ya que esa alternativa era un disparate. Pero no mostraremos muy
brillante criterio periodístico si lo tituláramos "El antiantropófago carnívoro". Sería una correcta descripción de
nuestra costumbre normal de comer carne de carnero, pero no de comer hombres. Es una bárbara mezcla de griego
y del latín, pero con todo, parece ser una palabra realmente científica. Lógicamente si no lingüísticamente, es un
término de exactitud perfecta. Pero aunque casi todos somos carnívoros antiantropófago, nunca lo mencionamos,
especialmente si queremos convencer a nuestros vecinos de que somos sencillamente personas sensatas; y lo
somos, en efecto. La dificultad consiste en que cualquier título que define nuestra doctrina, la hace parecer
doctrinal. Y es que la verdadera idea de la propiedad privada ha sido descuidada por la que tan largo tiempo en
Inglaterra, que no hay fraseología popular fácil que se refiere a ella. Ha tenido que inventar sus propios términos y
son necesariamente confusos y complicados; y es tan antigua esa idea que ha llegado a se nueva. Al mismo tiempo,
necesito un título que indique que el periódico es de controversia y que ésta es la tendencia general que defiende.
Necesito algo que sea reconocido como bandera aunque esta sea fantástica y ridícula, que algún punto represente
un desafío, aunque éste sea recibido con cierta benévola ironía. No quiero un nombre incoloro, y lo más parecido a
un símbolo que se me ocurre es sencillamente mi propia bandera.

Por ejemplo, la primera prueba de que algo es familiar, es cuando resulta divertido. Hay bromas respecto a los que
se benefician con las guerras y también respecto a los socialistas. Pero no las hay con respecto al Distributista.
Cualquiera puede dibujar una caricatura convencional de un socialista poniéndole una corbata roja. Pero nadie
puede hacer una caricatura de un hombre que cree en la pequeña propiedad privada bien distribuida, porque no
está familiarizado con la teoría ni con el tipo. Ningún visionario puede aventurarse a imaginar cómo sería el cabello
de un distributista. Ningún poeta, mojando su pincel en los colores del terremoto y del eclipse, puede colorear la
corbata del distributista. No hay imagen familiar que podamos evocar para recordar amigos y enemigos lo que
queremos decir. Pero, aunque no haya bromas referentes a la pequeña propiedad, las hay referentes a mí.
Comienzan con la antigua y admirable historia de que mi anticuada caballerosidad indujo a ceder mi asientos a tres
damas, y siguen con una anécdota más reciente y realista de que mis vecinos se quejaron al administrador de una
ruidosa fábrica local con el motivo de que "el señor Chesterton no podía escribir bien", y recibieron está tranquila
respuesta: "sí, ya sabemos eso". Nadie cuya notoriedad se base en tales cuentos puede sentirse muy orgulloso de
ella. No digo que mi reputación periodística sea particularmente elevada, pero debo reconocer que es probable que
sea más difundida que mis opiniones sobre distribución económica. Este ideal sociológico tan natural, ha sido
descuidado en Inglaterra tan ciega y totalmente, que creó con sinceridad que mi ideal normal es menos conocido
que mi nombre. Es por eso que me veo inducido a emplear el nombre como la única introducción familiar a ese
ideal.

Tengo la esperanza de ver invertida esa relación trabajaré en este periódico con el anhelo de que la familiaridad con
el nombre disminuya, y aumente el conocimiento de la causa. Tal vez entonces una generación más feliz, que viva en
un estado social más sano, se sienta intrigada por las iniciales impresas en el encabezamiento de esta página. Los
sabios profesores meditaran sobre el significado de este G. K. jeroglífico; los que conserven la bárbara teoría del siglo
XX las interpretarán así: "Good Killing" (Buena Matanza), mientras los que idealizan más piadosamente ese pasado,
la traducirán como "Greather Knowlogde" (Mayor Conocimiento). Los estudiosos de la literatura contemporánea
supondrán que forman una especie de monograma de "God and Kippling" (Dios y Kippling) o posiblemente Kipps,
mientras los historiadores dinásticos probarán que no era sino una transposición de "George King" (Rey Jorge). Pero
no me preocupará mucho lo que digan, siempre que sea en un país libre, donde los hombres puedan volver a poseer
algo.

No hay destinos más noble que ser olvidado como enemigos de una herejía olvidada, ni mayor éxito que llegar a ser
superfluo; bien esta aquel que puede ver su paradoja implantada de nuevo como un lugar común, o su fantasía
desechada como una pluma cuando las naciones renuevan su juventud, a la manera de las águilas; y cuando no sea
absurdo decir que la granja deba pertenecer al granjero, y ni que parezca una idea brillante sugerir que el hombre
debe vivir en su casa, así como es dueño de su sombrero. Entonces, las trompetas del triunfo nos dirán quizá ya no
somos necesarios.

¿Por qué creo en el Cristianismo?-G.K.CHESTERTON


¿Por qué creo en el Cristianismo?-G.K.CHESTERTON.

Traducción: Alfred Cappra (http://escritorescatolicos.blogspot.com)

Reimpreso en The Religious Doubts of Democracy (1904) (La Religión duda de la Democracia Y "The Blatchford
Controversies" (in The Collected Works of G.K. Chesterton, Vol. 1) (Las controversias con Blatchford)

No es mi intención faltarle el respeto al Sr. Blatchford al decir que nuestra dificultad yace enormemente en el hecho
de que él, igual que masas de inteligentes personas estos días, no entiende qué es teología. Cometer errores en la
ciencia es una cosa, equivocar su naturaleza es otra. Y al leer “Dios y mi Vecino” (God and My neighbour),
gradualmente vine a mi la convicción de que él cree que teología es el estudio respecto de si los cuentos sobre Dios
relatados en la Biblia son históricamente demostrables. Esto es como si él tratara de probar a un hombre que el
Socialismo era Economía Política, y comenzara a darse cuenta, a la mitad del camino, que el hombre pensaba que
Economía Política significaba el estudio sobre si los políticos son economistas.

Es muy difícil de explicar brevemente la naturaleza de todo el estudio viviente, sería igual de difícil como explicar
política o ética. Por más grande y obvia que sea una cosa, y nos mire directamente a la cara, más difícil nos es de
explicar. Cualquier persona puede definir zoología (conchology) Nadie puede definir Moral.

Sin Embargo, tenemos la idea de tratar de explicar esta filosofía religiosa, que era, y que será nuevamente, el estudio
de las inteligencias más elevadas, y la fundación de las naciones más poderosas, pero que nuestra pequeña
civilización a olvidado por un tiempo, al igual como ha olvidado como bailar y como vestirse a si misma. Voy a tratar
y explicar, por qué creo que una filosofía religiosa es necesaria, y por qué creo que el Cristianismo es la mejor
filosófica religiosa. Pero antes de hacerlo, quiero que tengan en mente dos hechos históricos. No les pido que
dibujen mi deducción de ellos ni ninguna deducción de ellos. Les pido que los recuerden como meros hechos a
través de ésta discusión

1.- El Cristianismo se levanto y esparció en una cultura y un mundo muy cínico, un mundo muy moderno. Lucrecio
fue tan materialista como Haeckel, y un escritor mucho más persuasivo. El mundo romano ha leído “Dios y mi
Vecino”, y de una manera un tanto cansada pensó que era bastante verdadero. Vale la pena notar que la religión casi
siempre se levanta de estas civilizaciones escépticas. Un libro reciente sobre la literatura Pre-Mahometana de Arabia
describe una vida enteramente pulida y lujosa. Era tan Buda, nacida en el vigor de una antigua civilización. Así fue
con el Puritanismo en Inglaterra y la Renovación Católica en Francia e Italia, las cuales ambas nacieron en el
racionalismo del Renacimiento. Es así hoy día; siempre es así. Vayan a los dos centros de libre pensadores más
modernos, Paris y América, y los encontrarán llenos de demonios y ángeles, de viejos misterios y nuevos profetas. El
Racionalismo esta luchando por su vida en contra de unas jóvenes y vigorosas supersticiones.

2.- El Cristianismo, el cual es una religión muy mística, ha sido, sin embargo, la religión de la parte más práctica de la
humanidad. Tiene lejos muchas más paradojas que las filosofías Orientales, pero también construye lejos mejores
carreteras.

Los Musulmanes tienen una pura y lógica concepción de Dios, el Monista Ala. Pero él se mantiene bárbaro en
Europa, y el pasto no va a crecer donde el ponga su pie. El Dios Cristiano es Trino, “la complicada trinidad”, que
pareciera una contradicción caprichosa en sus términos. Pero en acción él domina la tierra, e incluso el más
inteligente Oriental sólo puede combatirlo imitándolo primero. El Este tiene lógica y vive de arroz. La Cristiandad
tiene misterios y autos a motor. No importa, como decía, la inferencia, registremos los hechos.

Ahora con estas dos cosas en la mente, déjame tratar y explicar lo que la teología Cristiana es.

El completo Agnosticismo es la actitud obvia del hombre. Todos somos Agnósticos hasta que descubrimos que el
Agnosticismo no funcionará. Después, adoptamos alguna filosofía, la del Sr. Blatchford o la mía o la de algún otro,
pero por supuesto, el Sr. Blatchford no es más Agnóstico de lo que yo soy. El Agnóstico diría que no sabe si el
hombre es responsable por sus pecados. El Sr. Blatchford dice que él sabe que el hombre no lo es.

Aquí tenemos la semilla de todo el tremendo árbol del dogma. ¿Por qué el Sr. Blatchford va más allá del
Agnosticismo y afirma que ciertamente no hay libre albedrío? El desea que ningún hombre sea condenado por sus
pecados. Por lo tanto, el tiene que dejar a sus discípulos bastante seguros de que Dios no los creó libres, y por ello
culpables.

Ninguna duda Cristiana debe correr por la mente del Determinismo. Ningún demonio debe susurrarle, en algún
momento de enojo, que a lo mejor el promotor de la compañía fue responsable de fraudulentamente enviarlo al
trabajo arduo (workhouse) Ningún repentino escepticismo debe sugerirle, que a lo mejor el rector del colegio fue
culpable de azotar a un niño pequeño hasta la muerte. La fe Determinista debe mantenerse firme, o sino,
ciertamente, la debilidad de la naturaleza humana llevará a los hombres a estar enojados cuando son calumniados o
patearan de vuelta cuando sean pateados. En breve, el libre albedrío pareciera a primera vista pertenecer a lo
Desconocido. Y todavía el Sr. Blatchford no puede predicar lo que para él parece caridad común sin afirmar un
dogma sobre el tema. Y yo no puedo predicar lo que a mi parecer es honestidad común sin afirmar otro.

Aquí esta la falla del Agnosticismo. Que nuestra visión-diaria de las cosas que (en el sentido común) sabemos, en
realidad depende de la visión de las cosas que (en el sentido común) no sabemos. Está de los más bien decirle a un
hombre, como lo hacen los Agnósticos, “cultive su jardín” Pero suponga que un hombre ignora todas las cosas que
están fuera de su jardín, y entre ellas ignora el sol y la lluvia

Este es el hecho verdadero. No se puede vivir sin dogmas respecto a estas cosas. No se puede actuar, por
veinticuatro horas sin decidir si tener o no a las personas por responsables. La teología es un producto mucho más
práctico que la química.

Algunos Deterministas imaginan que el Cristianismo invento un dogma como el libre albedrío para divertirse- una
mera contradicción. Esto es absurdo. Uno tiene la contradicción donde quiera que esté. Los Deterministas me dicen,
con un grado de verdad, que el Determinismo no hace diferencia en el diario vivir. Eso quiere decir – que aunque los
Deterministas sepan que las personas no tienen libre albedrío, igual van y las tratan como si lo tuvieran.

La diferencia entonces es muy simple. El Cristiano pone la contradicción dentro de su filosofía. El Determinista la
pone en su diario vivir. El Cristiano declara como de Perogrullo el misterio que el Determinista llama sinsentido. El
Determinista tiene el mismo sinsentido para desayunar, almorzar, tomar once, y cenar todos los días de su vida.

El Cristiano, repito, pone el misterio dentro de su filosofía. Ese misterio, por su oscuridad, ilumina todas las cosas.
Una vez concedido eso, la vida es vida, el pan es pan y el queso es queso; puede reír y pelear. El Determinista hace el
tema de la voluntad lógico y lucido; y en la luz de la lucidez todas las cosas son oscurecidas, las palabras no tienen
significado, acción ni propósito. Ha hecho su filosofía un silogismo y a él mismo un lunático incoherente.

No es una cuestión entre misticismo y racionalismo. Es una cuestión entre misticismo y locura. Por el misticismo, y el
misticismo sólo, se ha mantenido al hombre cuerdo desde el principio del mundo. Todos los caminos rectos de la
lógica han guiado a una especie de pandemónium, al Anarquismo o a una obediencia pasiva, a tratar al universo
como una sustancia mecánica o sino como un engaño de la mente. Solamente el Místico, el hombre que acepta las
contradicciones, es quien puede reír y caminar fácilmente a través del mundo.

¿Estas sorprendido de que la misma civilización que cree en la trinidad descubrió el vapor? Todas las grandes
doctrinas Cristianas son de este tipo. Vean las cuidadosamente y con justicia por ustedes mismos. Tengo sólo espacio
para dos ejemplos. El primero es la idea Cristiana de Dios. Justo como todos hemos sido Agnósticos así todos hemos
sido Panteístas. En la divinidad de la juventud es facil decir, “¿Por qué un hombre no puede ver a Dios en un ave
volando y no estar contento?” Pero después viene un tiempo en el que seguimos y decimos, “Si Dios esta en las aves,
no nos dejemos ser solamente hermosos como las aves; seamos tan crueles como las aves; dejémonos vivir en la
locura, roja de la naturaleza” Y algo que es sano en nosotros se resiste y dice, “Mi amigo, te estas volviendo loco”

Después viene el otro lado y decimos: “Las aves son odiosas, las flores son vergonzosas. No dare una alabanza para
en ella basar al universo” Y la parte sana en nosotros dice: “Mi amigo, te estas volviendo loco”

Después viene una cosa fantástica y nos dice: “Estas en lo correcto en disfrutar a las aves, pero equivocado en
copiarlas. Hay una cosa buena detrás de todas estas cosas, pero, todas estas cosas están por debajo de ti. El
Universo esta en lo correcto; Pero el Mundo es malvado. La cosa que esta detrás de todo no es cruel, como un ave;
sino bueno, como un hombre” Y la cosa sana en nosotros dice: “He encontrado el camino correcto”

Ahora, cuando el Cristianismo vino, el mundo antiguo acababa de llegar a este dilema. Escuchaba la Voz del Culto a
la Naturaleza gimiendo, “Todas las cosas naturales son buenas. La Guerra es tan sana como las flores. La Lujuria tan
limpia como las estrellas.” Y escuchaba también el llanto de los desesperanzados Estoicos e Idealistas “Las flores
están en guerra; las estrellas están sucias; nada salvo la conciencia del hombre está bien, y esta está completamente
vencida.”

Ambas miradas eran consistentes, filosóficas y exaltadas; su única desventaja era que, la primera lógicamente al
homicidio y la segunda al suicidio. Después de una agonía del pensamiento el mundo vio el camino sano entre las
dos. Era el Dios Cristiano. El hizo la Naturaleza pero El era Hombre.

Finalmente, queda una palabra por ser dicha respecto a la Caida. Solo puede ser una palabra, y es esta. Sin la
doctrina de la Caída toda la idea del progreso no tiene ningún significado. El Sr. Blatchford dice que no hubo una
Caida sino un ascenso gradual. Pero la misma palabra “ascenso” implica que sabes para donde estas ascendiendo. A
no ser que haya un estándar en que no puedes decir si es que estas ascendiendo o descendiendo. Pero el punto
central es que la Caída, como cualquier otro largo camino del Cristianismo esta formado en el lenguaje común
ocupado arriba de un autobús. Cualquiera podría decir “Muy pocos hombres son realmente Varoniles” Nadie diría,
“Muy pocas ballenas son realmente ballenescas”

Si quieres disuadir a un hombre de beber su décimo whisky tendrías que darle una palmada en la espalda y decirle,
“Se un hombre” Nadie que desee disuadir a un cocodrilo de comer a su décimo explorador le daría una palmada en
la espalda y diría “Se un cocodrilo” Porque nosotros no tenemos ninguna noción de lo que es un perfecto cocodrilo;
ninguna alegoría de una ballena expulsada de su ballenesco Eden. Si una ballena se acercara a nosotros y dijera: “Soy
una nueva especie de Ballena; he abandonado la (whalebone)” nosotros no debemos preocuparnos. Pero si un
hombre se nos acerca (como muchos se nos acercaran muy pronto) a decir, “Yo soy una nueva especie de hombre.
Yo soy el súper-hombre. He abandonado la piedad y la justicia”; nosotros debemos contestar, “Sin dudar tu eres
nuevo, pero no estas cerca de ser un hombre perfecto, porque el ya ha estado en la mente de Dios. Nosotros hemos
caído con Adán y nosotros ascenderemos con Cristo, pero preferimos caer con Satán, que ascender contigo”

La abuela del dragón- G.K.CHESTERTON


La abuela del dragón- G.K.CHESTERTON.

Publicado en Enormes Minucias.

Encontré el otro día un hombre que no creía en los cuentos de hadas. No me refiero en que no creyese en los
incidentes que en ellos se narran: que no creyese que una calabaza confitera pudiera convertirse en una carroza.
Desde luego, padecía esa curiosa incredulidad. Y como todas las demás personas que yo he conocido y a quienes los
cuentos entretenían aquel era enteramente incapaz de darme una razón inteligente de su escepticismo. Intento
aludir a las leyes de la naturaleza, pero pronto desistió. Luego dijo que en las habituales condiciones de la
experiencia ordinaria, las calabazas confiteras son inmutables y que todos contamos con su infinitamente
prolongada calabacidad. Pero yo le hice notar que semejante actitud no es la que adoptamos especialmente hacia
las maravillas imposibles, sino simplemente la actitud que adoptamos hacia todo lo desusado, Si estuviéramos
seguros de los milagros no contaríamos con ellos. Las cosas que suceden muy rara vez, quedan fuera de nuestros
cálculos, sean o no milagros. Yo no espero que un vaso de agua se convierta en un vaso de vino, pero tampoco
espero que un vaso de agua este envenenado con acido prúsico. Yo no procedo en el curso de mis tratos corrientes
sobre la base de que el redactor jefe del periódico es un hada; pero tampoco procedo sobre la base que es un espía
ruso o el ignorado heredero del sacro imperio romano. Lo que en la vida habitual asumimos no es que el orden
natural es inalterable, sino que es mucho mas seguro apostar sobre la probable que sobre lo improbable. Lo cual no
afecta a la incredulidad de cada historia que se alegue sobre un espía ruso o una calabaza confitera convertida en
carroza. Si yo hubiera visto con mis propios ojos una calabaza confitera convertida en un torpedo panhard, esto no
me inclinaría mas a dar por hecho que volvería a ocurrir otra vez la misma cosa. No se me ocurría invertir gruesas
sumas de dinero en calabazas confiteras con un propósito financiero con la producción de automóviles. Cenicientas
obtuvo del hada un traje de baile; pero no me figuro porque ese suceso dejase despeas de cuidar, como antes su
propia ropa.

Pero la opinión de que los cuentos de hadas no pueden en realidad haber sucedido, aunque disparatada, es
corriente. El hombre del que hablo era escépticos sobre los cuentos de hadas en un sentido aun más absurdo y
perverso. Creía en realidad que los cuentos de hadas no se les deben contar a los niños. Este es uno de esos errores
intelectuales que pueden clarasificarse extraordinariamente cerca de los pecados mortales ordinarios. Hay alguna
negativas que aunque pueden realizarse, pudiera decirse por motivos de conciencia, acarrean en el mismo acto de
ejecutarlas tal abundancia de su propio horror, que un hombre, al perpetrarlas, no solamente ha de enmudecer, sino
de corromper ligeramente su corazón. Una de esas negativas fue la de conceder leche a las madres jóvenes cuando
sus maridos estaban en el campo opuesto a nosotros. Otra es negarse a que se les cuenten a los niños cuentos de
hadas.

*****

Aquel hombre que había venido a verme a propósito de cierta sociedad tonta de la que soy miembro entusiasta. Era
un joven de lozanos colores y corto de vista. Levaba una singular corbata verde y tenía el cuello larguísimo; he
observado que los idealistas suelen tener larguísimo el cuello. Quizás es que su eterna aspiración eleva poco a poco
sus cabezas más y más cerca de los astros. O quizás tiene algo que ver con el hecho de que mucho de ellos son
vegetarianos: quizá evolucionan lentamente hacia el pescuezo de la jirafa para poder así ramonear en las copas de
los arboles en los jardines de Kensington. Estas cosas están por encima de mí en todos los sentidos. Sea como quiera,
así era el joven que no creía en los cuentos de hadas, y por curiosa coincidencia entro en la habitación cuando yo
acababa de dar un vistazo a una pila de libros de literatura amena contemporánea y había empezado a leer los
cuentos de Grimm como natural resultado.

Las novelas modernas se alzaban de todos modos ante mí en un rimero; y el lector puede imaginar por si mismo sus
títulos. Había una “Instigación suburbana: relato psicológico”, y otra “Psicología instigación: relato psicológico”.
Había otra: "Trixy, o un temperamento” y otra. “Odio viril: monocromo” y otra porción de lindezas semejantes. Las
leí con real interés, pero, cosa curiosa, acabe por cansarme de ellas y cuando vi los cuentos de Grimm que reposaban
accidentalmente sobre la mesa, lance una exclamación de indecorosa alegría. Aquí, aquí por fin podía uno encontrar
un poco de sentido común. Abrí el libro y mis ojos cayeron sobre esas esplendidas y satisfactorias palabras: “La
Abuela del Dragón”. Por último encontraba algo razonable; por ultimo encontraba algo comprensible; por ultimo
encontraba algo verdadero. “¡La Abuela del Dragón!” Mientras estaba paladeando con delicia este primer atisbo de
realidad humana corriente, alce de pronto los ojos y vi a aquel monstruo de la corbata verde plantado en la puerta.

****

Confío en que escuché con una simple cortesía lo que me dijo acerca de la sociedad; pero cuando incidentalmente
aludió a que no creía los cuentos de hadas, explote enteramente fuera de mí.

- ¿Y quien en usted, que no creen los cuentos de hadas? Es mucho más fácil creer en Barba Azul que creer en usted.
Una barba azul es una desventura. Pero hay otras corbatas verdes que son un pecado. Es muchísimo más hacedero
creer en un millón de cuentos de hadas que creer en un hombre al que no le gustan los cuentos de hadas. Yo besaría
a Grimm en lugar de besar la Biblia para jurar por todos sus cuentos como si fueran 39 artículos, antes que decir en
serio y con el corazón en la mano que puede existir un hombre como usted; que usted no es una tentación del
diablo, o algún embaimiento brotado del vacío. Observé estas sencillas, hogareñas, prácticas palabras: "La abuela del
dragón". Esto está bien; esto esta dentro del orden; esto es racional casi hasta la linde del racionalismo. Si hubo un
dragón, hubo de tener una abuela. Pero usted, ¡usted no tiene abuela!, si la tuviese le hubiera enseñado a amar los
cuentos de hadas. Usted no tiene padre, usted no tiene madre; no puede haber causas naturales que puedan
explicar su existencia. Usted no puede existir. Yo creo muchas cosas que no he visto. Pero de cosas tales como usted
puede decirse: ¡bienaventurados los que vieron y no creyeron!

****

Me parece advertir que no me seguía suficiente sensibilidad, y en vista de ello modere el tono.

-¿No comprende usted -dije- que los cuentos de hadas en su esencia son perfectamente sólidos y rectos, y todas
estas interminables novelas sobre la vida moderna son por su naturaleza esencialmente increíbles? Según la fantasía
popular, el alma es cuerda, pero el universo es un agitado conjunto de maravillas. El realismo sostiene que el mundo
es una cosa obtusa y cuajada de rutina, pero que el alma está enferma y se queja. El problema del cuento de hadas
es este: ¿Que hará un hombre sano con un mundo fantástico? El problema de la novela moderna es: ¿Que hará un
hombre loco con un mundo tardo e insípido? En los cuentos de hadas, el cosmos enloquece, pero el héroe no
enloquece. En las novelas modernas, el héroe está loco antes que comience el libro, y sufre por la firmeza
inconmovible y la cruel cordura del cosmos. En el excelente cuento “La abuela del dragón” y en todos los demás
cuentos de Grimm, se da por sentado que el joven lanzado a sus peripecias tendrá en sí mismo todas las verdades
sustanciales; que será valeroso, lleno de fe, razonable, que respetará a sus padres, cumplirá su palabra, socorrerá o
rescatara a algunas gentes, retara a otras, “parcere subjectis et debellare”, etc., y luego una vez colocado en este
centro de cordura, el escritor se divierte imaginando qué sucedería si todo el mundo circunstante se volviese loco, si
el sol se volviese verde y la luna azul, si los caballos tuvieran seis patas y dos cabezas los gigantes. Pero esa moderna
literatura se coloca en la insania como centro. Por consiguiente, pierde hasta el interés de la demencia. Un lunático
no es interesante para si mismo, porque es enteramente serio; eso es lo que le hace ser lunático. Un hombre que
piensa ser un huevo pasado por agua es ante sí mismo una cosa tan sencilla y corriente como huevo pasado por
agua. Un hombre que cree ser una res vacuna, es para sí mismo cosa tan corriente y vulgar como una res vacuna.
Sólo la cordura es la que puede ver en la insania incluso una violenta poesía. Por tanto, esos sabios viejos cuentos
hacen al héroe corriente y moliente, y extraordinaria a la propia narración. Pero esa otra literatura moderna hace
extraordinario al héroe y ordinaria la narración; ordinaria, si, tan extraordinariamente ordinaria…

Vi que me con hablaba con los ojos fijos. Alguno de mis nervios dio en mí un chasquido bajo aquella mirada
hipnótica. Me alce sobre los pies y exclamé:

-¡En el hombre de Dios y de la democracia y de "La abuela del dragón" y en nombre de todas las cosas buenas, te
conmino a huir y no volver a frecuentar esta casa!

Fuese o no efectivo resultado del exorcismo, lo cierto es que se marchó definitivamente.


Pd: Sepan disculpar los errores de ortografía, les pido que me avisen si encuentran, pasa que últimamente he estado
con poco tiempo y no he podido hacer correcciones finales.

El cochero extraordinario-G.K.CHESTERTON
El cochero extraordinario-G.K.CHESTERTON

Articulo publicado en Enormes Minucias.

El día en que encontré al cochero extraordinario había estado comiendo en un pequeño restaurante en Soho con
tres o cuatro de mis mejores amigos. Mis mejores amigos son todos o escépticos irremediables o creyentes
absolutos; así que nuestra discusión durante la comida giro sobre las más extremas y terribles ideas. Y la discusión
acabó por girar exclusivamente sobre este punto: sobre si un hombre puede tener certidumbre sobre alguna cosa.
Yo creo que puede tenerla, porque si (como dije a mi amigo, blandiendo furiosamente una botella vacía) es
intelectualmente imposible tener certidumbre, ¿qué certidumbre es esa imposible detener? Si yo no he
experimentado nunca lo que es certeza, no puedo ni aún decir que nada hay cierto. De modo semejante, si nunca he
visto el color verde, no puedo ni siquiera decir que mi nariz no es verde. Puede ser verde, verdísima, y no enterarme
de ello si realmente no sé en qué consisten en verde. Nos lanzábamos, pues, imprecaciones el uno al otro y la
habitación se estremecía; porque la metafísica es la única cosa completamente emocionante. Y la diferencia que lo
separaba era profundísima, porque era una diferencia en cuanto a la finalidad de todo lo que llamamos amplitud
espíritu con inteligencia abierta. Porque mi amigo decía que abría su intelecto, como el sol abre los abanicos de una
palmera, abriéndolos por abrirnos, abriéndolos de una vez y para siempre. Pero yo dije que yo habría ni intelecto
como abría la boca, precisamente para volver a cerrarla sobre algo sólido. Estaba haciéndolo en aquel instante. Y,
como señalé acaloradamente, resultaría extraordinariamente idiota y continuarse con la boca abierta sin motivo y
de una vez y para siempre.

Bueno, pues cuando la discusión llegó a su término, o por lo menos cuando la dimos por terminada (porque terminar
no terminaría nunca) salí a la calle con uno de mis compañeros, que en la confusión y relativa demencia de unas
elecciones generales había, no se sabía cómo, resultado miembro del parlamento, y fui con él en un cab desde la
esquina de Leicester square hasta la entrada reservada a los miembros de la Cámara de los comunes, donde el
policía me recibió con tolerancia perfectamente desacostumbrada si el policía supuso que mi amigo era mi loquero,
o si supuso era yo el loquero de mi amigo, es una discusión entre nosotros y dura todavía..

Es indispensable guardar en esta narración lama extremada exactitud en los detalles. Después de dejar a mi amigo
en la Cámara, continuar en el cab unos cuantos cientos de yardas hasta una oficina en victoria street, donde tenía
que hacer una visita. Luego salí y ofrecía cochero una cantidad mayor que la correspondiente según tarifa. La miró,
pero no con la hosca duda y general disposición de comprobar si estaba bien, que no es cosa inaudita entre cochero
normales. Pero aquel no era un cochero normal, quizás no eran ni aún un cochero humano. Miro las monedas con
asombro apagado e infantil, auténtico con toda evidencia.

-¿Se da cuenta, señor- dijo -, de que solamente me da un chelin y ocho peniques?

Manifesté, no sin cierta sorpresa, que sí, que lo sabía.

-¿Y no sabe, señor- dijo del modo más amable, razonable, suplicante -, no sabe que esa no es la tarifa desde Euston?

-¿Euston?- Repetí vagamente, porque la palabra me sonaba en aquel momento como me hubiera sonado "China" o
"Arabia"-. ¿Que diablos tiene que ver aquí Euston?

-Usted tomó el coche precisamente a la salida de la estación de Euston- el peso del hombre a decir con precisión
asombrosa -, y luego usted me dijo...

-pero, ¡por el tártaro tenebroso!, ¿qué está usted diciendo? - Dije con cristiana paciencia -. Sólo tome el coche en la
esquina sudeste de Leiscester square.

-¿Leicester square?- Exclamó, perdiéndose en una especie de catarata de desprecio-; ¡si no hemos estado en todo el
día cerca de Leiscester square! Usted tomó el coche a la salida de la estación de Euston y me dijo...

-¿está usted loco, o lo estoy yo? -Pregunté con científica calma.


Miguel cochero. Ningún otro, habitualmente falto de honradez, hubiera pensado en inventar una mentira tan sólida,
tan colosal y tan original. Y aquel hombre no era un cochero falto de honradez. Si alguna vez un rostro humano fue
tranquilo y sencillo y humilde, y tuvo grandes ojos azules protuberante como los de una rana; si alguna vez (para no
cansar) un rostro humano fue cuanto un rostro humano debe ser, lo era el rostro de aquel quejoso y respetuoso
cochero. Mire arriba y abajo de la calle, parecía estar cayendo sobre ella un crepúsculo anormalmente oscuro. Y
durante un instante, la añeja pesadilla del escéptico loco toco con sus dedos mis nervios más sensibles. ¿Qué era la
certeza racional? ¿Estaba alguien cierto de alguna cosa? ¡Hay que ver los surcos monótonos en que se eternizan los
escépticos que andan preguntando si tenemos una vida futura...! La cuestión realmente emocionante para el
auténtico escepticismo es si tenemos una vida pasada. ¿Qué es "hace un minuto", racionalmente considerado, sino
una tradición y una pintura? La oscuridad se acentúa. El cochero me dio tranquilamente los más complicados
detalles de los ademanes, las palabras, el complejo, pero consistente conjunto de actos que habían sido los míos
desde aquella memorable ocasión en que yo alquile el coche a la salida de la estación de Euston. ¿Cómo podría yo
saber (dirían mis amigos escépticos) que yo no lo había alquilado a la salida de Euston? Yo me Aferraba con firmeza a
mi aseveración: el estaba igualmente firme y aferraba la suya. Era palmariamente tan honrado como yo y miembro,
además, de una profesión mucho más respetable. En aquel momento el universo y las estrellas se separaron el
grueso de un cabello de su equilibrio y los cimientos de la tierra se conmovieron. Pero por la misma razón que creó
en beber vino, por la misma razón que creo en el libre albedrío, por la misma razón que creo en el carácter fijo de la
virtud, razón que no puede expresarse sino diciendo que no prefiero estar loco, continúe creyendo que aquel
honrado cochero se equivocaba. Y le repetí que en realidad ya había alquilado en la esquina de Leiscester square. El
comenzó con la misma evidente y ponderada sinceridad:

-usted alquilo el coche a la salida de la estación de Euston, y dijo usted...

En aquel momento se produjo en sus facciones una especie generosa trasfiguración de vivido asombro, como si le
hubieran encendido por dentro como una lámpara.

-Hombre, le pido perdón, señor- dijo -le pido perdón. Le pidió perdón. Usted alquilo coche en Leiscester square.
Ahora me acuerdo. Le pido perdón.

Y así si mas, aquel asombroso cochero hizo sonar su látigo con un agudo chasquido y el coche arrancó.

Todos lo transcrito es estrictamente verdad, lo juro ante el estandarte de San Jorge.

Pd: Sepan disculpar los errores de ortografía, les pido que me avisen si encuentran, pasa que últimamente he estado
con poco tiempo y no he podido hacer correcciones finales.

Por qué soy Católico- G.K.CHESTERTON


Por qué soy Católico- G.K.CHESTERTON

Traducción: Alfred Cappra (http://escritorescatolicos.blogspot.com)

Extraido de Doce Apóstoles Modernos y sus Credos (1926). Hay otra versión de este ensayo, en el libro The Thing en
el cual Chesterton lo complementó.

La dificultad de explicar “por qué soy un católico”, es porque hay mil razones que se juntan en una sola: El
Catolicismo es Verdadero. Podría llenar todo mi espacio con distintas frases en que cada una partiera con las
palabras: “Es la única cosa que…” Como por ejemplo (1) Es la única cosa que realmente previene al pecado de ser un
secreto. (2) Es la única cosa en la que el superior no puede ser superior; en el sentido displicente. (3) Es la única cosa
que libera al hombre de la degradante esclavitud de ser un niño de su edad (4) Es la única cosa que habla como si
fuera la Verdad; como si fuera el verdadero mensajero que se rehúsa a alterar el verdadero mensaje. (5) Es el único
tipo de Cristianismo que realmente contiene a todo tipo de hombre; incluso al hombre respetable. (6) Es el único
gran intento por cambiar al mundo desde adentro; trabajando a través de las voluntades y no de la ley; y así sigue.

O podría trata el asunto personalmente y describir mi propia conversión; pero sucede que tengo un fuerte
sentimiento de que este método hace ver el asunto mucho mas pequeño de lo que realmente es.
Numerosos hombres, mucho mejores, han sido sinceramente convertidos a religiones mucho peores. Yo preferiría
mucho mas tratar de decir aquí sobre la Iglesia Católica precisamente las cosas que no se pueden decir incluso de sus
respetables rivales.

En fin, voy a decir precisamente respecto de la Iglesia Católica que es católica. Me gustaría tratar de sugerir que no
es solamente más grande que yo, sino que más grande que cualquier cosa en el mundo; que es, de hecho, más
grande que el mundo. Pero como este espacio es corto, y solo puedo tomar una sección, la voy a considerar en su
capacidad de ser guardiana de la Verdad.

El otro día un bien-conocido escritor, en otro sentido bien-informado, dijo que la Iglesia Católica es la enemiga de las
nuevas ideas. Es probable que no se le ocurriera que su propio comentario no era exactamente de la naturaleza de
las nuevas ideas. Es una de las nociones que los católicos tienen que estar continuamente refutando, porque es una
muy vieja idea. De hecho, aquellos que se quejan que el catolicismo no puede decir nada nuevo, rara vez piensan
que es necesario decir cualquier cosa nueva sobre el catolicismo. En cuanto a los hechos, un verdadero estudio de la
historia demostrará que es curiosamente contrario a los hechos. En cuanto a que las ideas son realmente ideas, y en
cuanto a que cualquiera de esas ideas puede ser nueva, los católicos continuamente han sufrido por apoyar esas
ideas cuando realmente eran nuevas; cuando eran demasiado nuevas para encontrar a cualquier otro que las
apoyara. El Católico no solo era el primero en el campo, sino que estaba sólo en el campo; y ahí no había nadie que
pudiera entender lo que él allí había encontrado.

De esta manera, por ejemplo, cerca de dos mil años antes de la Declaración de Independencia y la Revolución
Francesa, en una era devota al orgullo y alabanza de príncipes, el Cardenal Bellarmino y Suárez el Hispano lograron
explicar lucidamente toda la teoría de la democracia real. Pero en la era del Derecho Divino ellos solo dieron la
impresión de ser unos sofistas y sanguinarios Jesuitas, arrastrándose con dagas para efectuar el asesinato del rey. Y,
de nuevo, el Cauists de los colegios católicos dijo todo lo que realmente se puede decir para las obras problemáticas
y las novelas problemáticas de nuestro propio tiempo, dos mil años antes de que fueran escritas. Ellos dijeron que
realmente hay problemas de conducta moral; pero ellos tuvieron el infortunio de decirlo dos mil años muy
adelantados. En un tiempo de gran (tub.thumping) fanatiquismo y libre y fácil vituperio, casi logran que les llamen
mentirosos y (shufflers) por ser psicológicos, antes de que la psicología estuviera de moda. Sería fácil dar otros
numerosos ejemplos hasta el tiempo presente, y el caso de que hay ideas que todavía son muy nuevas para ser
comprendidas. Hay pasajes de la “Encíclica Laboral” del Papa León XII {también conocida como Rerum Novarum,
publicada en 1891} que sólo ahora están empezando a ser usadas como pistas para los movimientos sociales mucho
más nuevos que el socialismo. Y cuando el Sr. Belloc escribió acerca del Estado Servil, él avanzó una teoría
económica tan original que difícilmente alguien se ha dado cuenta qué es. Una cuantas centurias más adelante,
probablemente otras personas las repitan, y la repitan mal. Y después, si los Católicos objetan, sus protestas serán
fácilmente explicadas por los bien conocidos hechos de que los Católicos nunca se han interesado por nuevas ideas.

Sin embargo, el hombre que hizo el comentario sobre los Católicos quería decir algo; y es solamente justo para él, el
entenderlo mas bien claramente de cómo él lo dijo.

Lo que él quiso decir era que, en el mundo moderno, la Iglesia Católica es, de hecho, la enemiga de muchas modas
influenciables; muchas de las cuales todavía proclaman el ser nuevas, aunque muchas de ellas están empezando a
ser un poco rancias. En otras palabras, en cuanto a lo que quiso decir, que la Iglesia usualmente ataca lo que el
mundo en cualquier momento apoya, estaba perfectamente en lo cierto. La Iglesia usualmente se pone en contra de
las modas de este mundo que pasan de moda; Y ella tiene experiencia suficiente para saber como cuan rápido
pasaran de moda. Pero para entender exactamente lo que esto envuelve, es necesario más bien tomar un punto de
vista más amplio y considerar la finalidad natural de las ideas en cuestión, considerar, por así decirlo, la idea de la
idea.

Nueve de cada diez de las ideas que llamamos nuevas son en realidad viejos errores. La Iglesia Católica tiene por una
de sus principales obligaciones el prevenir a la gente que cometa esos viejos errores; de cometerlos una y otra vez
para siempre, como la gente siempre hace cuando se las deja a ellas solas. La verdad sobre la actitud Católica
respecto a la herejía, o como algunos dirían, hacia la libertad, puede ser mejor expresada, a lo mejor, usando la
metáfora de un mapa.
La Iglesia Católica lleva una especie de mapa de la mente que se parece mucho a un mapa de un laberinto, pero que
de hecho es una guía para el laberinto. Ha sido compilada por el conocimiento, que incluso considerándolo como
conocimiento humano, no tiene ningún paralelo humano.

No hay ningún otro caso de una continua institución inteligente que haya estado pensando sobre pensar por dos mil
años. Su experiencia naturalmente cubre casi todas las experiencias, y especialmente casi todos los errores. El
resultado es un mapa en el que todos los callejones ciegos y malos caminos están claramente marcados, todos los
caminos que han demostrado no valer la pena por la mejor de las evidencias; la evidencia de aquellos que los han
recorrido.

En este mapa de la mente los errores son marcados como excepciones. La mayor parte de el consiste en patios de
recreos y felices lugares de caza, donde la mente puede tener tanta libertad como quiera; sin mencionar cualquier
numero de terrenos de batalla intelectuales donde la batalla esta indefinidamente abierta e indecisa. Pero
definitivamente toma la responsabilidad de marcar ciertos caminos que llevan a ninguna parte, o que te llevan a la
destrucción, a una muralla en blanco, o a un precipicio total.

Por estos medios, previene a los hombres de perder el tiempo o perder la vida por caminos que han sido
encontrados fútiles o desastrosos una y otra vez en el pasado, pero que puede, por lo demás, atrapar a viajeros una
y otra vez en el futuro. La Iglesia se hace responsable de prevenir a su gente en contra de esto: y respecto a esto
depende el verdadero problema del caso.

Ella defiende dogmáticamente a la humanidad de sus peores enemigos, esos anticuados, horribles y devoradores
monstruos que son los viejos errores.

Ahora, todos estos falsos problemas tienen una forma de parecer bastante frescos, especialmente para nuestra
nueva generación. Su primera declaración siempre suena inofensiva y plausible.

Voy a dar sólo dos ejemplos. Suena inofensivo decir, como la mayoría de la gente moderna ha dicho: “Las acciones
son solamente malas cuando son malas para la sociedad” Siguiendo esto a cabalidad, tarde o temprano tu vas a
tener la inhumanidad de una colmena o una ciudad pagana, estableciendo la esclavitud como el mas barato y seguro
medio de producción, torturando a los esclavos por evidencia porque los individuos son nada para el Estado,
declarando que un hombre inocente debe morir por el pueblo, como hicieron los asesinos de Cristo. Entonces, a lo
mejor, vas a volver a las definiciones Católicas, y encontraras que la Iglesia, que mientras también dice que es
nuestro deber trabajar para la sociedad, dice otras cosas además que prohíben la injusticia individual.

O denuevo, suena bastante piadoso decir “Nuestro conflicto moral debe terminar con una victoria de lo espiritual
sobre lo material” Siguiendo esto a cabalidad, terminaras en la locura de los Maniqueos, diciendo que el suicidio es
bueno porque es un sacrificio, que una perversión sexual es buena porque no produce vida, que el demonio hizo el
sol y la luna ya que son materiales. Entonces pondrías comenzar a suponer por que el Catolicismo insiste en que hay
espíritus malos al igual que hay espíritus buenos; y que lo material también puede ser sagrado, como en la
Encarnación o en la Misa, en el Sacramento del Matrimonio o en la Resurrección del Cuerpo.

Ahora no hay otra mente corporativa en el mundo que actúe de ésta manera para prevenir a las mentes se
encaminen al error.

El policía viene muy tarde, cuando trata de prevenir al hombre de que se vuelva malo. El doctor viene muy tarde,
porque el sólo viene a buscar a un loco, no a advertir a uno sano en como no volverse loco. Y todas las demás sectas
y escualas son inadecuadas para tal propósito. Esto no es porque cada una de ellas pueda no contener una verdad,
sino que precisamente porque cada una de ellas contiene una verdad; y se contente con contener una verdad.
Ninguna de esas otras en verdad pretende contener la verdad. Ninguna de las otras en realidad pretende esta
mirando en todas las direcciones al mismo tiempo. La Iglesia no esta meramente armada contra las herejías del
pasado, ni siquiera las del presente, sino igualmente contra las del futuro, que pueden ser exactamente lo opuesto a
la del presente.

Catolicismo no es ritualismo; puede que en el futuro esté luchando contra una suerte de supersticiosa e idolatra
exageración de un ritual. Catolicismo no es ascetismo; en el pasado ha estado una y otra vez en contra de la fanática
y cruel exageración del ascetismo. Catolicismo no es meramente misticismo; está incluso ahora defendiendo a la
razón humana contra el misticismo de los Pragmáticos.

Así, cuando el mundo se transformó en Puritano en el siglo diecisiete, la Iglesia estaba cargada con pujante caridad
hasta el punto del sofismo, al hacer todo más fácil con la permisividad de lo confesional.

Ahora el mundo no se esta volviendo Puritano sino Pagano, es la Iglesia la que esta en todas partes protestando
contra el relajo Pagano del vestir y los modales. Es hacer lo que los Puritanos quieren hecho cuando realmente lo
quieren. Con toda probabilidad, todo lo que es bueno en el Protestantismo va a sobrevivir en el Catolicismo; y en el
sentido de que todos los Católicos van a seguir siendo Puritanos cuando los Puritanos se vuelvan Paganos así, por
ejemplo, Catolicismo, en un sentido pocamente entendido, se para fuera de la disputa como el Darwinismo en
Dayton. Se para fuera debido a que está en alrededor de todo, como una casa se para toda alrededor de dos
incongruentes piezas de muebles.

No es una sectaria presunción el decirlo antes y después y mas allá de todas estas cosas en todas las direcciones. Es
imparcial en la pelea entre los Fundamentalistas y la teoría del Origen de las Especies, porque va más atrás que el
origen de ese Origen; porque es más fundamental que los Fundamentalistas. Sabe de donde viene la Biblia. También
sabe a donde van la mayoría de las teorías de la Evolución, sabe que hubo muchos otros Evangelios, y que los otros
solo fueron eliminados por la autoridad de la Iglesia Católica. Sabe que hay otras muchas teorías de la evolución
además de la teoría Darwiniana; y que está última es bastante probable que sea eliminada por los avances
científicos. No acepta, en el sentido convencional de la frase, las conclusiones de la ciencia, por la simple razón que
la ciencia no ha concluido. Concluir es callarse; y el hombre de ciencia no es para nada probable que se calle. No
cree, en el sentido convencional de la frase, “lo que la Biblia dice”, por la simple razón de que la Biblia no dice nada.
No puedes poner a la Biblia en el estrado de los testigos y preguntarle que es lo realmente quería decir. La
controversia Fundamentalista por si misma destruye al Fundamentalismo. La Biblia por si sola no puede ser una base
para el acuerdo cuando es ella misma la causa del desacuerdo; no puede ser el piso común de los Cristianos cuando
algunos la toman alegóricamente y otros literalmente. Los Católicos se refieren a algo que puede decir algo, a la
viviente, consistente y continua mente de la cual yo he hablado; la mente más grande del hombre guiada por Dios.

Cada momento incrementa en nosotros la necesidad moral de una mente inmortal como esa. Debemos tener algo
que siga sosteniendo las cuatro esquinas del mundo, mientras nosotros hacemos nuestros experimentos sociales o
construimos nuestras Utopías. Por ejemplo, debemos tener un acuerdo final, aunque sea en la evidente hermandad
humana, que resista alguna reacción de la brutalidad humana. Nada es mas probable ahora que la corrupción del
gobierno representativo llevará, todo a la vez, al rico rompimiento suelto, y pisoteando todas las tradiciones de
igualdad con mero orgullo pagano. Debemos tener lo evidente en todas partes reconocido como verdad. Debemos
prevenir la mera reacción y la lúgubre repetición de viejos errores. Debemos hacer al mundo intelectual seguro para
la democracia. Pero en las condiciones de la mentalidad anárquica moderna, ni siquiera ese o cualquier otro ideal
esta a salvo, así como los Protestantes apelaron de sacerdotes a la Biblia, y no se dieron cuanta de que la Biblia
también podía ser interrogada, así que los republicanos apelaron de los reyes al pueblo, y no se dieron cuenta de
que el pueblo también podía revelarse. No hay término para la disolución de ideas, la destrucción de todas las
pruebas de verdad, que ha surgido, posiblemente, desde que el hombre ha abandonado el intento de guardar una
central y civilizada Verdad, de contener todas las verdades y rastrear y refutar todos los errores. Desde entonces,
cada grupo a tomado una verdad y a gastado su tiempo en volverla falsedad. Hemos tenido nada más que
movimientos; o, en otras palabras, monomanías. Pero la Iglesia no es un movimiento sino un lugar de encuentro;
lugar de encuentro de toda la verdad en el mundo.

El Condimento de la Vida- G. K. CHESTERTON


El Condimento de la Vida- G. K. CHESTERTON

Traducción: Alfred Cappra (http://escritorescatolicos.blogspot.com)

Perdónenme si comienza por representar el papel que he jugado en tantas cenas, quiero decir, el papel del
esqueleto del festín. Perdónenme si las pocas primeras palabras que lo alcanzan se parecen a una voz hueca de la
tumba. Ya que la verdad es que el título mismo de esta serie me hace sentir un poco fúnebre. Cuando me pidieron
hablar sobre el Condimento de la Vida, lamento decir que el primer pensamiento que cruzó mi perversa y mórbida
mente era que los condimentos, como condimentos, están tan asociados con la muerte cuanto con la vida. Los
cadáveres embalsamados y conservados siempre eran envueltos entre condimentos; las momias también, supongo.
No soy ningún Egiptólogo para decidir el punto. Pero incluso si ellas eran, usted apenas iría a oler alrededor de una
momia en el Museo Británico, tomando profundos respiros y diciendo, " Esto es en verdad el condimento de vida"
Egipto era casi una civilización organizada como un cortejo fúnebre; esto es difícilmente una exageración para decir
que los vivos viven para servir a los muertos. Y aún supongo que un egipcio actual que andaba caminando por ahí
vivo, no estaba en ninguna prisa para ser condimentado. O tome una escena casera más cerca a casa. Supóngase que
usted es perseguido por un loco toro; no discutiremos cual animal disfruta más del condimentos de la vida; pero
ambos en el momento darán inequívocos signos de vida. Pero el cuadrúpedo debe esperar hasta que él sea matado
y cortado en una ternera fría, antes de que él pueda tener el orgullo y el privilegio de ser una ternera condimentada.
En breve quiero que usted recuerde ante todo que hubo en la historia, no sólo el condimento de la vida, pero algo
más que puede con justicia ser llamado el condimento de la muerte. Y lo menciono primero porque es una especie
de parábola; y hay muchas cosas en el mundo moderno que me parecen estar muertas, no decir condenadas, y aún
son consideradas muy condimentadas.

No hablaré extensamente de este mórbido paralelo. Que el cielo prohíba que yo pudiera sugerir que algunas damas
se parezcan más bien a momias que andan por ahi, con muy hermosas caras pintadas sobre los sarcófagos: o que
algunos jovenes caballeros que van al paso exponen toda la cultura y la sutileza selectiva de toros locos. Estoy
preocupado con una pregunta mucho más importante detrás de ésta. Me parece que muchísima gente, a quienes
estoy lejos de llamar momias o toros locos, están en este momento poniendo más bien demasiada atención a los
condimentos de la vida, y bastante poca atención a la vida. No me malinterpreten. Soy muy aficionado a la ternera
condimentada y todos los condimentos; siempre he temido que los Puritanos reformadores de repente prohibirán la
mostaza y la pimienta como ellos hicieron la malta y el lupulo; sobre el absurdo fundamento de que la sal y la
mostaza son tan innecesarias como la música. Pero mientras me resisto a la sugerencia que nosotros debemos
comer ternera sin la mostaza, reconozco que hay ahora un peligro mucho más profundo y más sutil que los hombres
pueden querer comer la mostaza sin la ternera. Quiero decir que ellos pueden perder su apetito; su apetito para
ternera y pan y queso y la amplia luz del día de la vida; y dependan completamente de especias y condimentos.
Incluso he sido culpado de defender el condimento de la vida contra lo que llamaban la Vida Simple. He sido culpado
hacerme un campeón de la cerveza y los bolos. Por suerte, si yo era un campeón de los bolos, no había ningún
peligro de que yo fuera un campeón en los bolos. Pero he jugado juegos ordinarios como los bolos, siempre mal;
pero toda la gente sana convendrá que usted nunca se disfruta de un juego hasta que disfrutas ser perdedor en el
juego. Aún he jugado al golf en Escocia antes de que Arthur Balfour lo trajera a Inglaterra y se volviera una moda y
luego una religión. He sido desde entonces inhibido por una dificultad en cuanto a considerar un juego como una
religión, y el secreto horrible de mi fracaso consiste en que yo nunca pude ver la diferencia entre el cricket y el golf,
como los jugué cuando yo era un muchacho, " y el minino en la esquina " y potes de miel como los jugué cuando yo
era un niño. Quizás aquellos juegos de niñez ahora están olvidados; de todos modos, no revelaré cuan buenos eran
esos juegos, no sea que ellos se pongan de moda. Si una vez fueran tomados en serio en aquel mundo más serio, el
mundo de Deporte, enormes resultados seguirán. Las tiendas venderán unas Pantuflas especiales para Cazar las
pantuflas, o un caddy seguirá al jugador con un bolso lleno de quince pantuflas diferentes. Los potes de miel
significarán potes de dinero; y habrá 'una esquina' en " el minino en la esquina".

De todos modos, he disfrutado al igual que todos de aquellos deportes y condimentos de la vida. Pero estoy más y
más convencido que ni en tus condimentos especiales ni en los míos, ni en potes de miel ni potes de cuarto de galón,
ni en la mostaza ni en la música, ni en cualquier otra distracción de la vida, esta el secreto que todos estamos
buscado, el secreto de disfrutar de la vida. Estoy absolutamente seguro de que todo nuestro mundo acabará en la
desesperación, a no ser que haya algún modo de hacer que la mente misma, el pensamiento ordinario que tenemos
en tiempos ordinarios, más sanas y más felices de lo que ellos parecen estar en este momento, juzgados por las
novelas y poemas más modernos. Tienes que estar feliz en aquellos momentos tranquilos cuando recuerdas que
estás vivo; no en aquellos momentos ruidosos cuando lo olvidas. A no ser que nosotros podamos aprender otra vez a
disfrutar de la vida, no podremos disfrutar por mucho tiempo de los condimentos de la vida. Una vez leí un cuento
de hadas Francés que expresó exactamente lo que quiero decir. Nunca crea que el ingenio Francés es superficial; es
la brillante superficie de la ironía Francesa, que es insondable. Era sobre un poeta pesimista que decidió ahogarse; y
iba bajando por el río, él regaló sus ojos a un hombre ciego, sus oídos a un hombre sordo, sus piernas a un hombre
cojo, etcétera, hasta el momento cuando el lector esperaba el chapoteo de su suicidio; pero el autor escribió que
este tronco insensato se colocó sobre la orilla y comenzó a experimentar la alegría de la vida: la joie de vivre. La
alegría de estar vivo. Tienes que ir con mayor profundidad, y quizás envejecer, para saber cuan verdadera es esa
historia.

Si tuviera que preguntarme a mi mismo cuando y donde he sido mas feliz, yo podría, por supuesto, dar las obvias
respuestas, verdaderas para mi como para cualquier otro; en algún baile o festín en el tiempo romántico de la vida;
en algún triunfo juvenil de un debate; en alguna vista de cosas hermosas en tierras extrañas. Pero es mucho más
importante recordar que he sido intensa e imaginativamente feliz los sitios mas extraños porque son más tranquilos.
He estado interiormente lleno de vida en una sala de espera fría en una unión desierta de ferrocarril. He estado
completamente vivo sentado en un asiento de hierro bajo un horrible poste de luz en un balneario de tercera clase.
En breve he experimentado el mero entusiasmo de la existencia en los sitios que comúnmente llamarían tan
embotado como el agua estancada. ¿Y a propósito, el agua estancada es aburrida? Los naturalistas con microscopios
me han dicho que esta rebalsada con una tranquila diversión. Incluso aquella frase proverbial demostrará que no
siempre podemos confiar en lo que es proverbial, cuando profesa describir qué es prosaico. Dudo si es que las
quince efusivas fuentes encontradas en tu jardín ornamental contienen a criaturas tan divertidas como aquellas que
le microscopio revela; como los perfiles de políticos en caricatura. Y este es sólo un ejemplo fuera de mil, de las
cosas que en la vida diaria llamamos aburridas que no son realmente tan aburridas después de todo. Y estoy seguro
que no hay ningún futuro para el mundo moderno, a no ser que entienda que no tiene que buscar meramente lo
que es más y más excitante, pero más bien el negocio aún más excitante de descubrir la excitación en las cosas que
llaman aburridas.

Lo que tenemos que enseñar al joven del futuro, es como disfrutar de él mismo. Hasta que pueda disfrutarse él
mismo, se cansara mas y mas de disfrutar de todo lo demas. Lo que tenemos que enseñarle es a divertirse. En este
momento él esta más y más dependiente de cualquier cosa que él piensa que lo divertirá. Y, al juzgar por la
expresión de su cara, no lo divierte mucho. Cuando consideramos lo que él recibe, es de verdad la maravilla más
magnífica y la riqueza y la concentración del entretenimiento. Él puede viajar en un coche de carrera casi tan rápido
como una bala de cañón; y todavía tener su coche hecho a la medida y escuchar radios de todos los rincones de la
tierra. Él puede conseguir a Viena y a Moscú; él puede oír El Cairo y Varsovia; y si él no puede ver Inglaterra, por la
cual él resulta estar viajando, que es después de todo un pequeño asunto. En un siglo, sin duda, su coche viajará
como un cometa, y su radio oirá los ruidos en la luna. Pero todo esto no le ayuda cuando el coche se para; y él tiene
que pararse sobre una línea, con nada en que pensar. Todo esto no le ayuda incluso cuando la radio se para y él
tiene que quedarse inmóvil en un coche silencioso con nada de que hablar. Si usted considera cuales son las cosas
vertidas en él, cuales son las cosas que él recibe, entonces de verdad ellas son las cataratas colosales de cosas,
Niagaras cósmicos que nunca antes habian sido vertidas en un ser humano ahora son vertidas en él. Pero si
consideras lo que sale de él, como consecuencia de toda esta absorción, el resultado que tenemos que registrar es
bastante serio. En la vasta mayoría de los casos, nada. Ni siquiera una conversación, como solía ser. Él no conduce
argumentos largos, como los jóvenes hacian cuando yo era jóven. El primer y alarmante efecto de todo este ruido es
el silencio. Segundo, cuando él realmente tiene el picor para escribir o decir algo, es siempre un picor en el sentido
de una irritación.

Todo tiene una mejor y mas solida base; y hay irritación e irritación. Hay mucha diferencia entre la irritación de
Aldous Huxley y la irritación de unos pequeños repugnantes degenerados en una novela por Aldous Huxley. Pero
honestamente no pienso que soy injusto con toda la tendencia de la epoca, si digo que estan intelectualmente
irritados; y por lo tanto sin aquel rico tipo de reposo en la mente con el cual quiero decir, cuando digo que un
hombre cuando esta solo puede ser feliz porque él está vivo. Por ejemplo, un hombre de genio (inteligente) de la
misma generación, para quien tengo una admiración muy especial, es el Sr. T. S. Eliot. Pero nadie negará que alli
había un sentido en el cual, originalmente, aún su inspiración era la irritación. Él comenzó con puro pesimismo; él
desde entonces ha encontrado cosas mucho más finas y más sutiles; pero apenas pienso que él ha encontrado
reposo. Y es solamente aquí que tendré el descaro para distinguir entre su generación y la mía. Se solía pensador
que era impudente para un muchacho criticar a un viejo caballero, Ahora requiere una impudencia mucho más
sublime para un hombre más viejo criticar a uno más joven. Aún defenderé mi propia idea del condimento espiritual
de la vida aún contra la espiritualidad que encuentra esta vida ordinaria completamente sin condimento. Sé muy
bien que el Sr. Eliot describió la desolación que encontró más que la desolación que él sintió. Pero pienso que `The
Waste Land' era a lo menos un mundo en el cual él había vagado. Y como estoy describiendo el mundo reciente,
también puedo describirlo como él lo ha descrito, en ` Los Hombres Huecos ' - aunque nadie lo describiría como un
hombre hueco. Esto es la impresión de muchas impresiones.

De esta manera terminara el mundo

De esta manera terminara el mundo

De esta manera terminara el mundo

No con un estallido, sino con un lamento

Ahora perdóneme si digo, en mi manera tradicional, que estaría condenado su alguna vez me sintiera así. Reconozco
las grandes realidades que el Sr. Eliot ha revelado; pero no admito que esto sea la realidad más profunda. Estoy listo
para admitir que nuestra generación hizo demasiado del romance y la comodidad, pero incluso cuando yo estaba
incómodo estaba más cómodo que esto. Estaba más cómodo en el asiento de hiero. Estaba más feliz en la fría sala
de espera. Yo sabia que el mundo era perecible y que iba a terminar, pero no pensé que terminaría con un lamento,
pero si de alguna forma con el triunfo de la muerte. Esto es indudablemente un espectáculo grotesco que los
bisabuelos todavía deberían estar bailando con indecente jolgorio, cuando la juventud está tan grave y triste; pero
en este caso del condimento de la vida, defenderé el apetito espiritual de mi propia edad. Aún seré tan
indecentemente frívolo para romperme cantando, y diré a los jóvenes pesimistas:

Unos se mofan; unos se burlan; unos sonríen con afectación;

En la juventud donde nos reímos y cantábamos,

Y ellos podrán terminar con un lamento

Pero nosotros terminaremos con un estallido

Una defensa de las novelitas de a penique-G.K.CHESTERTON


Una defensa de las novelitas de a penique-G.K.CHESTERTON

Uno de los ejemplos más raros de la manera en que se desprecia la vida corriente está en la literatura popular, la
gran mayoría de la cual nos conformamos con considerar vulgar. Las novelitas para adolescentes pueden carecer de
merito literario. Lo que equivale a decir que la novela moderna es pobre en un sentido químico, económico o
astronómico. Pero no son intrínsecamente vulgares. En la practica, son el centro de un millón de imaginaciones
ardientes.

En siglos pasados, las personas cultivadas ignoraban en bloque la literatura del vulgo. La ignoraban y, por lo tanto,
hablando con propiedad, no la despreciaban. Pasar algo por alto sintiendo indiferencia no infla de orgullo a la
persona. Uno no se pasea por la calle, retorciéndose arrogante los mostachos, pensando en su superioridad sobre
cierta clase de peces avísales. Los antiguos sabios dejaron todo el averno de la literatura popular en una oscuridad
semejante.

Hoy en día, sin embargo, aplicamos el principio opuesto. Despreciamos las obras vulgares sin ignorarlas. Corremos
cierto peligro de volvernos mezquinos en nuestro estudio de la mezquindad. Actúa de fondo un axioma temible,
semejante a la magia de Circe, que dice que si el alma se acerca demasiado al suelo para estudiar algo puede no
volver a levantarse jamás. Creo que no hay categoría de la literatura popular sobre la que existan mayor número de
errores y exageraciones, el colmo de ridículos, que el estrato mas bajo de la literatura popular para muchachos.

Es un tipo de composición que puede suponerse que siempre ha existido y siempre existirá. Carece de cualquier
pretensión de ser buena literatura. Al igual que las conversaciones de sus lectores tampoco pretenden ser oratoria
elevada ni los pisos y pensiones que habitan arquitectura sublime. Pero las personas tienen que conversar, estar
bajo techo y escuchar cuentos. La necesidad básica de un mundo ideal en que personajes de ficción representan
libremente su papel, es infinitamente más antigua y más profunda que las reglas del buen arte. Y es mucho más
importante. Durante la infancia, cada uno de nosotros construye un reparto semejante con actores invisibles, pero
nunca se le ocurrió a nuestras niñeras corregir su composición mediante una cuidadosa comparación con Balzac. En
el oriente, el cuentacuentos profesional viaja de pueblo en pueblo con su pequeña alfombra y de verdad me gustaría
que alguien tuviese el valor moral de extender esa alfombra en la plaza Ludgate. Pero no es probable que todos los
cuentos del portador de la alfombra sean pequeñas joyas originales. La literatura y la ficción son cosas por completo
diferentes. La literatura es un lujo pero la ficción es una necesidad vital. Es dudoso que una obra de arte pueda ser
demasiado bréve porque su mérito reside en alcanzar una cima de intensidad. Un cuento nunca puede ser
demasiado largo, porque su conclusión es simplemente algo lamentable como las ultimas monedas o la ultima
cerilla. Y así, al igual que el aumento de la conciencia artística guía las obras más ambiciosas hacia la brevedad, la
extensión fruto de la laboriosidad, aun marca al autentico fabricante de basura romántica. No hay fin a las baladas
de Robín Hood, no hay fin a los libros sobre el infalible Dick o los nueve vengadores. Ambos héroes,
conscientemente, han sido creados inmortales.

Pero en lugar de basar nuestro debate en reconocer, lo que es de sentido común, que los jóvenes de las clases
trabajadoras siempre han tenido, y siempre tendrán, algún tipo de literatura romántica, infinita y desgarbada, para
después hacer algún tipo de arreglo para que la misma sea sana; empezamos, por lo general, atacando este tipo de
lecturas en su conjunto de una manera exagerada, sorprendidos e indignados porque los recaderos no leen “El
egoísta" ni “El arquitecto”. Es costumbre, sobre todo entre jueces, echar la culpa de la mitad de los crímenes que se
cometen en la metrópoli a las novelitas baratas. Si un niño de la calle se escapa con una manzana, el magistrado
hace notar astutamente que el niño sabía que las manzanas quitan el hambre gracias a sus lecturas. Los propios
chavales, cuando les pillan, acusan frecuentemente a las novelitas haciendo gala de gran resentimiento. Es lo
mínimo que debemos esperar de gente joven poseedora de un nada despreciable sentido del humor. Si yo hubiera
falsificado un testamento, y pudiese despertar compasión echando la culpa del incidente a las novelas del Sr.George
Moore, disfrutaría en grado sumo en el empeño.

En cualquier caso, parece ser una idea firmemente asentada en la mente de la mayoría que los chicos de barrio, al
contrario que el resto de su comunidad, encuentran los principios rectores de su conducta en los libros.

Sin embargo esta claro que esta objeción, la objeción de los magistrados, nada tiene que ver con la calidad literaria.
El Sr.Hall Caine pasea libremente por las calles y no se le puede detener por un anticlímax. La objeción descansa en
la teoría de que la mayoría de estas novelitas para adolescentes tiene un tono criminal y envilecido, su mezquino
atractivo reside en su codicia y su crueldad. Esta es la teoría de los magistrados y es basura.

Hasta el punto en que he podido comprobarla, en los tenderetes más sucios de los barrios más pobres, esta es la
realidad: todo el desconcertante conjunto de la literatura juvenil trata de aventuras, enmarañadas, inconexas e
infinitas. No expresa pasión de ningún tipo al no contener personalidad humana alguna. Recorre eternamente los
mismos carriles, situados en ciertos tiempos y lugares. El caballero medieval, el duelista dieciochesco y el vaquero
aparecen una y otra vez con la misma rígida simplicidad que las figuras humanas estilizadas en el dibujo de una
alfombra oriental. Tan posible me resulta imaginar que a un ser humano se le despierten apetitos desenfrenados
contemplando una alfombra turca de ese tipo como por la lectura de una narrativa tan austera y deshumanizada
como esta.

Algunas de estas historias tratan con simpatía las aventuras de ladrones, forajidos y piratas. Presentan a ladrones y
piratas como Dick Turpin o Claude Duval, bajo una luz favorecedora y romántica. Es decir que hacen exactamente lo
mismo que Ivanhoe de Scott, Rob Roy de Scott, La dama del lago de Scott, El Corsario de Byron, La tumba de Rob Roy
de Wodsworth, Macaire de Stevenson, El pirata de hierro del Sr.Max Pemberton y otras mil obras que se reparten
por sistema como regalo de Navidad o premio. A nadie se le ocurre que admirar a Locksey en Ivanhoe llevara a un
chico a dispararle flechas japonesas a los ciervos de Richmond Park, a nadie se pasa por la imaginación que el
imprudente principio del poema de Wodsworth sobre Rob Roy le convertirá de por vida en chantajista. En nuestra
propia clase social, somos conscientes de que esta vida salvaje es contemplada con placer por los jóvenes no por su
parecido con la suya propia, sino por sus diferencias. Podemos suponer que, sea cual sea la razón, por la que el joven
recadero esta leyendo La roja venganza, seguro que no es porque este empapado con la sangre de amigos y
parientes.

En este asunto, como en todos los semejantes, nos perdemos al utilizar la expresiòn clases trabajadoras cuando lo
que queremos decir es toda la humanidad menos nosotros mismos. Esta literatura romántica sin importancia no es
especialmente plebeya: sencillamente es humana. El filántropo jamás olvida la clase social y la profesión. Dirá,
presumiendo un poco, que ha invitado a veinticinco obreros a tomar el te. Si dijese que ha invitado a veinticinco
contables, es evidente lo ridículo de clasificar de forma tan burda a la gente. Pero eso es lo que hemos hecho con ese
bosque de tontos cuentos: lo hemos estudiado como si fuese una nueva y monstruosa enfermedad cuando, de
hecho, no es otra cosa que el corazón, tonto y valiente, del ser humano. Los hombres corrientes siempre serán
sentimentales porque el sentimental no es otra cosa que un hombre con sentimientos que no se preocupa de
inventar una nueva manera de expresarlos. A estas publicaciones, comunes y corrientes, les falta en lo fundamental
cualquier maldad. Expresan los tópicos, vigorosos y heroicos, en los que se apoya la civilización. Esta claro que la
civilización o se apoya en tópicos o carece de fundamento. Es evidente que no habría seguridad en una sociedad en
la que el comentario del presidente del Tribunal Supremo diciendo que matar a la gente esta mal, fuese considerado
un epigrama deslumbrante por su originalidad.

Si los autores y editores del infalible Dick, y otras obras igual de distinguidas, de repente decidiesen atacar a la clase
culta, hacer listas con el nombre de todas las personas, por importantes que fuesen, vistas en una conferencia de
posgrado, confiscar todas nuestras novelas y advertirnos que debíamos enmendar nuestras vidas, nos enfadaríamos
muchísimo. Sin embargo, tendrían más derecho a hacerlo que nosotros ya que ellos, con toda su estupidez, son los
normales y nosotros los anormales. Es la moderna literatura culta, no la inculta, la que es clara y agresivamente
criminal. Libros que recomiendan el pesimismo y el libertinaje, que harían temblar a cualquier recadero, descansan
en las mesas de todos nuestros salones. Si él más ruin propietario del tenderete más sucio de Whitechapel se
atreviese a mostrar obras que realmente recomendasen la poligamia o el suicidio, los ejemplares seria secuestrados
inmediatamente por la policía. Esos son nuestros lujos. Y con una hipocresía tan ridícula que no tiene paralelo en la
historia, al mismo tiempo que despreciamos los chicos barriobajeros por inmorales, discutimos junto a ambiguos
profesores de universidad alemanes, si la moral tiene algún valor real. En el mismo instante en que maldecimos las
novelitas por promover los robos, estudiamos la idea que la propiedad es un robo. En el mismo momento en que las
acusamos muy injustamente de lubricidad e indecencia, leemos alegremente a filósofos que se enorgullecen de su
lubricidad e indecencia. A la vez que las acusamos de incitar a los jóvenes a destruir la vida, discutimos
tranquilamente si la vida es digna de ser salvada.

Pero somos nosotros la excepción enfermiza, nosotros somos los criminales. Ese debe ser nuestro gran consuelo. La
mayoría de la humanidad, con su mayoría de libros vanos y palabras vanas, nunca ha dudado ni dudara que el valor
es algo espléndido, la fidelidad digna de alabanza, las damas en peligro deben ser rescatadas y los enemigos
vencidos perdonados.

Hay una gran cantidad de personas educadas que dudan de estas normas para la vida diaria, también hay mucha
gente que cree ser el Príncipe de Gales. Y tengo entendido que ambas categorías de personas son capaces de
mantener conversaciones muy interesantes. Pero el hombre o muchacho corriente escribe cada día en ese diario de
su alma que llamamos las novelitas de a penique, un evangelio más claro y mejor que las iridiscentes paradojas
éticas que las personas a la moda cambian tan a menudo como de corbata. Puede que disparar a un traidor voluble y
falso sea un objetivo moral sumamente limitado. Pero es mejor que ser un traidor voluble y falso, lo que me parece
un buen resumen de muchos modelos modernos de conducta, del Sr.D´Annunzio en adelante.

Mientras la sustancia, vulgar y débil, de la simple literatura popular permanezca ajena a una cultura mezquina nunca
será sustancialmente inmoral. Siempre está de lado de la vida. Los pobres, los esclavos que realmente han gemido
bajo el yugo de la vida, a menudo han estado locos, han sido estúpidos y crueles. Pero nunca les ha faltado la
esperanza. Eso es un privilegio de clase social, como los cigarros puros. Su pésima literatura será siempre una
literatura “ a sangre y fuego”, como en el fuego del cielo y la sangre de los hombres.

Un trozo de tiza- G.K.Chesterton


Un trozo de tiza- G.K.Chesterton

Publicado en Enormes Minucias

Recuerdo una espléndida mañana durante las vacaciones de verano, toda azul y plata, en la que, con muy pocas
ganas, conseguí apartarme de la tarea de no hacer nada en concreto. Me puse algún tipo de sombrero, recogí mi
bastón y me guarde en el bolsillo seis trozos de tiza de brillantes colores. Después entré en la cocina, (que junto al
resto de la casa era propiedad de una señora muy honrada y razonable, vecina de una aldea de Sussex) para pedirle
a la dueña y ocupante de la cocina, un poco de papel marrón (papel de cartón). Tenía mucho, de hecho, incluso
demasiado. Pero estaba equivocada respecto a para que sirve el papel marrón. Ella creía que, si uno quiere papel
marrón, es para hacer paquetes, algo que yo no planeaba. A decir verdad es algo que supera mi capacidad mental.
Pero la señora le daba muchas vueltas a como algunos papeles eran más resistentes que otros. Aclaré que lo único
que pretendía era dibujar, así que no me preocupaba lo que pudiese durar el papel. Lo que me interesaba no era que
el papel fuese duro sino absorbente, algo que es indiferente en un paquete. Cuando comprendió que yo quería
dibujar, me abrumó con ofertas de papel de cartas. Aparentemente, dio por sentado que si escribo mis notas y
cartas en papel marrón viejo es para ahorrar.

Entonces, intenté explicar este delicado matiz lógico: no solo me gusta el papel marrón me gusta el colorido marrón
en el papel, como me gusta en los bosques en octubre. O en la cerveza, o en los arroyos que corren entre las
turberas en el norte. El papel marrón encarna los primeros trabajos en el primer amanecer de la creación. Con un
par de tiza de colores, encuentras en él puntos de fuego, llamaradas de oro, vetas rojas como la sangre y verdes
como el mar, como las primeras estrellas que brillaron en la oscuridad. Todo esto se lo dije de pasada a mi casera,
mientras me guardaba el papel marrón en el bolsillo junto a las tizas y, posiblemente, otras cosas. Se me ocurre que
todos hemos meditado en alguna ocasión sobre lo poéticas y fundamentales que son las cosas que llevamos en los
bolsillos. La navaja, por ejemplo, prototipo de toda herramienta humana cuya hija es la espada. Una vez, empecé a
escribir un libro de poemas que trataba solamente de las cosas que encontré en mi bolsillo. Pero iba a ser demasiado
largo y los poemas épicos están pasados de moda.

****

Con mi bastón, mi navaja, mis tizas y mi papel marrón, eché a andar por los blancos acantilados. Trepé por esos
contornos colosales que representan lo mejor de Inglaterra al ser a la vez grandes y suaves. Su suavidad es similar a
la de los grandes percherones o los abedules. Proclaman a los cuatro vientos, contradiciendo nuestras teorías
cobardes y crueles, que los fuertes son misericordiosos. El valle que abarcaba mi vista era tan amable como
cualquiera de sus casas pero ,en cuestión de fuerza, era como un terremoto. Saltaba a la visa que las aldeas en aquel
inmenso valle habían disfrutado de seguridad durante siglos, pero toda la tierra era como una ola inmensa alzándose
para arrastrarlas.

Anduve de un prado a otro, buscando un lugar para sentarme a dibujar. Por lo que más quieran, no supongan que
iba a hacer un boceto del natural. Iba a dibujar diablos y arcángeles, ciegos dioses que la humanidad adoraba antes
del amanecer de la razón, santos vestidos con brillantes túnicas carmesíes, extraños mares verdes y todos esos
símbolos, sagrados o monstruosos, que quedan tan bien dibujados con tizas brillantes sobre papel marrón de dibujo.
Son más dignos de ser dibujados que la naturaleza. Y además son mucho más fáciles de dibujar

Un vulgar artista hubiera dibujado la vaca que estaba pastando en el prado frente a mí, pero, como siempre me
equivoco con las patas traseras de los cuadrúpedos, plasmé el alma de la vaca. Podía verla paseando frente a mí a
plena luz del día. El alma tenía siete cuernos, era plateada y carmesí, con el misterio de todos lo animales. Así que
por más que no pudiese sacar lo mejor del paisaje con un lápiz, no crean que el paisaje no sacaba lo mejor de mí.
Creo que este es el error que se comete al estudiar los antiguos poetas anteriores a Woodsworth. La idea general es
que no les interesaba la naturaleza ya que no la describieron mucho.

Puede que prefiriesen escribir sobre los grandes hombres a escribir sobre las grandes colinas. Pero estaban sentados
sobre las colinas al escribir. Nos dieron menos sobre la naturaleza pero estaban empapados en ella. Pintaron de
blanco la túnica de la sagrada virgen con nieve deslumbrante como la que miraban todo el día. Decoraron los
escudos de sus paladines con la púrpura y el dorado de sus heráldicas puestas de sol. El verdor de mil hojas se
agrupó en la figura verde de Robín Hood. El azul de cientos de olvidados cielos se cambió en el azul de los mantos de
la Virgen. Recibían la inspiración en los rayos del sol , como enviada por Apolo.

***

Pero mientras garabateaba en el papel marrón, noté, muy irritado, que había dejado en casa la tiza más exquisita e
importante. Revolví todos mis bolsillos pero no encontré nada de tiza blanca. Aunque los conocedores de la filosofía,
mejor dicho religión, de dibujar sobre papel marrón conocen la importancia del blanco, tan positivo como esencial,
no puedo evitar explicar ahora su significado moral. Una de las grandes verdades que nos revela el arte de dibujar
sobre el papel marrón en que el blanco es un color, no su simple ausencia. Es algo brillante y agresivo, tan fiero
como el rojo, tan concreto como el negro. Cuando, por así decirlo, tu lápiz esta al rojo vivo, dibuja rosas. Si esta
candente, estrellas. Y una de las dos o tres verdades más importantes de la mejor filosofía religiosa, del verdadero
cristianismo por ejemplo, es exactamente esa. La principal afirmación de la moral religiosa es que el blanco es un
color. La virtud no es la ausencia de vicios o huir de los peligros morales. La virtud es algo concreto e independiente.
La misericordia no es abstenerse de crueldad o perdonar el castigo o la venganza. Es algo real y concreto como el sol
que uno ha visto o no. La castidad no es abstenerse de una sexualidad malsana, es algo ardiente como Juana de
Arco. En pocas palabras, Dios pinta con una amplia paleta pero nunca con tanta hermosura, y casi diría que tan
llamativamente, como cuando pinta con el blanco. En nuestra época acepta este hecho y lo expresa en la ropa triste.
Porque si fuese cierto que el blanco es algo negativo y discreto, se usaría en los funerales de esta época tan
pesimista, en vez del negro o el gris. Veríamos a los señores en las oficinas con abrigos de impecable lino plateado y
chistera maravillosamente blancas como lirios del valle. Lo que no sucede.

Pero yo seguía sin encontrar mi tiza.

***

Estaba sentado en la colina a punto de desesperarme. La ciudad más cercana era Chichester y no era ni
remotamente probable que allí hubiese una tienda de material de dibujo. Pero sin el blanco, mis dibujitos eran tan
absurdos como lo sería el mundo sin gente buena. Me quede mirándolos devanándome los sesos. De repente, me
levante soltando carcajadas ,hasta tal punto que las vacas se pusieron a observarme reunidas en comité. Imaginaos
alguien que en el Sahara lamentase no tener arena para un reloj de arena, alguien que en medio del océano
lamentase no haber traído agua salada para un experimento de química. Estaba sentado sobre un inmenso almacén
de tiza blanca. Todo el paisaje estaba compuesto de tiza blanca. La tiza blanca estaba amontonada hasta tocar el
cielo. Me incliné y arranque un trozo de la roca sobre la que estaba sentado. No pintaba tan bien como la de las
tiendas pero sirvió. Y me quede allí, encantado al darme cuenta que el sur de Inglaterra es algo más que una gran
península, una tradición o una civilización. Es algo incluso más admirable: un trozo de tiza.*

*…a piece of chalk. Piece es pedazo y también pintura, obra o pieza.

En defensa del desatino- G.K.CHESTERTON


En defensa del desatino- G.K.CHESTERTON

Hay dos iguales y eternas maneras de mirar este crepuscular mundo nuestro: podemos verlo como el crepúsculo de
la tarde o como el crepúsculo de la mañana; podemos pensar en cualquier cosa, hasta en una bellota caída, como
descendiente o como antecesor. Hay veces en que estamos casi abrumados, no tanto con la carga de la maldad
como con la de la bondad de la humanidad, cuando sentimos que no somos más que los herederos de un esplendor
humillante. Pero hay otras ocasiones en que todo parece primitivo, cuando las antiguas estrellas no son más que
chispas salidas de una fogata de muchacho, cuando toda la tierra parece tan joven y experimental que hasta el pelo
blanco del anciano, en la exquisita frase bíblica, es como almendros en flor, como el albo espino dado en mayo. Que
es bueno para un hombre comprender que él es "el heredero de todo el pasado", suele decirse; punto menos
popular, pero de pareja importancia, es que a veces le resulta bueno comprender que no es solamente antecesor,
sino también antecesor de prístina antigüedad; resultaba bueno para él preguntarse si no es acaso héroe, y
experimentar ennoblecedoras dudas sobre si no es acaso mito solar.

Los asuntos que más cabalmente evocan este sentido de la perdurable infancia del mundo son los realmente
nuevos, bruscos y originales de cada edad; y si nos preguntasen cuál fue la mejor prueba de esta intrépida juventud
en el siglo XIX, diríamos, con el mayor respeto por sus portentosas ciencia y filosofía, que ella habría de encontrarse
en los versos de Mr. Edward Lear en la literatura del desatino. El dong de nariz luminosa, por menos, es original,
como fueron originales el primer buque y el primer arado.

Es verdad en cierto sentido que algunos de los más grandes escritores que el mundo ha visto -Aristófanes, Rabelais y
Sterne- han escrito desatinos; pero, a menos que nos equivoquemos, es en sentido muy diferente.
El desatino de esos hombres era satírico, es decir, simbólico; una especie de exuberante cabrioleo alrededor de una
verdad descubierta. Existe la mayor diferencia del mundo entre el instinto de la sátira, que, viendo en los mostachos
del káiser algo típico de él, se los dibuja cada vez más grandes, y el instinto del desatino, el cual, por ninguna razón
absolutamente, imagina cómo le quedarían esos mostachos al actual arzobispo de Canterbury si se los dejara en un
acceso de abstracción. Nos inclinamos a pensar que ninguna edad que no fuera la nuestra podría haber
comprendido que el Quangle-Wangle no significaba absolutamente nada, y que las Tierras de los Bollitos no estaban
en ninguna parte. Nos imaginamos que si la narración del juicio de la Sota en Alicia en el país de las maravillas se
hubiera publicado en el siglo XVII, habríase igualado al Juicio del fiel de Bunyan, como parodia de las persecuciones
del Estado en esa época. Nos imaginamos que si El dong de la nariz luminosa hubiera aparecido en el mismo periodo,
todos la habrían supuesto una insípida sátira sobre Oliverio Cromwell.

Es del todo deliberado que citemos principalmente los Versos desatinados de Mr. Lear. A nuestro parecer Mr Lear es
cronológica y esencialmente el padre del desatino; lo consideramos superior a Lewis Carroll. En un sentido, por
cierto, Lewis Carroll lleva gran ventaja. Nosotros sabemos qué era Lewis Carroll en la vida cotidiana: un caballero
singularmente serio y convencional, universalmente respetado, pero con mucho de pedante y algo de filisteo. Así, su
extraña doble vida en la tierra y en la región de los sueños acentúa la idea que está en el fondo del desatino: la idea
de evasión, de evasión hacia un mundo donde las cosas no se hallan horriblemente fijadas en una eterna justeza,
donde los perales dan manzanas y cualquier hombre raro con que uno se cruce puede tener tres piernas. Lewis
Carroll, viviendo una vida en la cual habría tronado moralmente contra cualquiera que caminara sobre la parcela de
hierba que no le correspondía, y otra vida en la cual habría llamado con alegría verde al sol y azul a la luna, era, por
su misma índole dividida, con un pie en cada uno de los dos mundos, un tipo perfecto de la posición del desatino
moderno. Su país de las maravillas es una región poblada por matemáticos locos. Sentimos que todo es evasión
hacia un mundo de mascarada; sentimos que si pudiéramos penetrar sus disfraces, habríamos de descubrir que
Humpty Dumpty y la Liebre de Marzo eran profesores y doctores en teología disfrutando de un feriado mental. Este
sentido de la evasión resulta sin duda menos enfático en Edward Lear, a causa de lo completo de su ciudadanía en el
mundo de la sinrazón. No conocemos su prosaica biografía como conocemos la de Lewis Carroll. Lo aceptamos como
figura puramente fabulosa, según la descripción que hace de sí:

Su cuerpo es perfectamente esférico

y lleva un sombrero de tres cuernos.

Mientras que el país de las maravillas de Lewis Carroll es puramente intelectual, Lear introduce otro elemento del
todo diferente: el elemento de lo poético y hasta emocional. Carroll trabaja con la razón pura, pero éste no es
contraste tan fuerte; porque después de todo la humanidad, en general, siempre ha considerado la razón como un
poco de chanza. Lear introduce sus palabras faltas de sentido y sus criaturas amorfas no con la pompa de la razón,
sino con el romántico preludio de ricos matices y obsesionantes ritmos.

Lejanas y escasas, lejanas y escasas,

son las tierras donde moran los jumblies,

es un tipo de poesía por entero diferente al exhibido en Jabberwocky. Carroll, con sentido de pulcritud matemática,
hace de todo su poema un mosaico de palabras nuevas y misteriosas. Pero Edward Lear, con sutil y plácida
desfachatez, está siempre introduciendo migajas de su dialecto de duendes en medio de relatos simples y racionales,
hasta que quedamos poco menos que pasmados al comprobar que sabemos su significado. Hay un genial
campanilleo de sentido común en versos como éstos:

Porque su tía Johiska decía:

"Todos saben que es mejor un Pobble cuando le faltan

los dedos de los pies..

lo cual está más allá del alcance de Carroll. El poeta parece tan natural en el asunto, que casi nos mueve a pretender
que comprendemos lo que quiere decir, que conocemos las peculiares dificultades de un Pobble, que viajamos hace
tanto tiempo como él por la "llanura grombooliana".
Nuestra pretensión de que el desatino es una nueva literatura (casi podríamos decir un nuevo sentido) sería por
completo-indefendible si el desatino no fuese nada más que simple capricho estético. Nada sublimemente artístico
ha surgido nunca del mero arte, nada más que algo en esencia racional ha surgido nunca de la pura razón. Siempre
debe haber un rico terreno moral para cualquier gran producción estética. El principio del arte por el arte es muy
buen principio si significa que existe una vital diferencia entre la tierra y el árbol que tiene sus raíces en la tierra;
pero es muy mal principio si significa que el árbol puede crecer también con las raíces en el aire. Toda gran literatura
ha sido siempre alegórica de una visión del universo entero. La Iliada es grande sólo porque toda la vida es un
combate, la Odisea porque la vida es un viaje, el Libro de Job porque toda la vida es un enigma. Existe una actitud en
la cual pensamos que toda la existencia podría resumirse en la palabra espectros; otra, algo mejor, en la cual
pensamos que se resume en las palabras sueño de una noche de verano. Hasta el melodrama o novela policial más
vulgares pueden ser buenos si expresan algo del goce que se siente al pensar en posibilidades siniestras: el saludable
anhelo de oscuridad y terror que puede invadirnos cualquier noche al caminar por una calle oscura. Por ello, si el
desatino va a ser realmente la literatura del futuro, tiene que ofrecer su versión propia del cosmos; el mundo no
debe ser sólo lo trágico, lo romántico, lo religioso, debe ser también lo desatinado. Y aquí nos imaginamos que el
desatino, de modo sumamente inesperado, vendrá en ayuda de la visión espiritual de las cosas. La religión ha estado
tratando, por espacio de siglos, de hacer que los hombres se regocijen en las maravillas de la creación; pero ha
olvidado que una cosa no puede ser por completo maravillosa en tanto que continúe siendo lógica. Mientras
consideremos un árbol como cosa obvia, natural y razonablemente creada para alimentar a una jirafa, no podemos
maravillarnos cabalmente de él. Cuando lo consideramos como prodigiosa ola de la tierra viviente, que se alarga
hacia los cielos sin ninguna razón particular, sólo entonces nos quitamos el sombrero, para asombro del guardián del
parque. Todo tiene en realidad otra cara para él, como la luna, hada madrina del desatino. Visto desde otro lado, un
pájaro es flor desprendida de la cadena de su tallo; un hombre es cuadrúpedo mendigando sobre sus patas traseras;
una casa es sombrero gigantesco para proteger a un hombre del sol; una silla es aparato de cuatro piernas de
madera para un tullido que sólo cuenta con dos.

Esta es la faz de las cosas que tiende más realmente al asombro espiritual. Es significativo que en el más grande
poema religioso que se ha creado, el Libro de Job, él argumento que convence al infiel no sea (como lo ha
representado el fariseísmo meramente racional del siglo XVIII) un cuadro de la ordenada caridad de la creación; sino,
por el contrario, un cuadro de su enorme e indescifrable falta de razón. "¿Tú has hecho llover sobre el desierto
donde no hay hombres?" Esta simple sensación de maravilla ante las formas de las cosas, y ante su exuberante
independencia de nuestras normas intelectuales y de nuestras triviales definiciones, es la base de la espiritualidad, y
también del desatino. Desatino y fe (por extraña que pueda parecer la conjunción) son las dos aseveraciones
simbólicas de la verdad de que sondear el alma de las cosas con un silogismo es tan imposible como sondear a
nuestro Leviatán con un anzuelo. La bien intencionada persona que, por el mero estudio del lado lógico de las cosas,
ha decidido que "la fe es desatino", no sabe con qué precisión habla; más tarde puede volver a él bajo la forma de
que el desatino es fe.

Lepanto-G.K.CHESTERTON
Lepanto-G.K. CHESTERTON

Versión de Jorge Luis Borges


(publicada originalmente en el primer número
-noviembre de 1938- de la revista argentina Sol y Luna)

Blancos los surtidores en los patios del sol;

El Sultán de Estambul se ríe mientras juegan.

Como las fuentes es la risa de esa cara que todos temen,

Y agita la boscosa oscuridad, la oscuridad de su barba,

Y enarca la media luna sangrienta, la media luna de sus labios,

Porque al más íntimo de los mares del mundo lo sacuden sus barcos.
Han desafiado las repúblicas blancas por los cabos de Italia,

Han arrojado sobre el León del Mar el Adriático,

Y la agonía y la perdición abrieron los brazos del Papa,

Que pide espadas a los reyes cristianos para rodear la Cruz.

La fría Reina de Inglaterra se mira en el espejo;

La sombra de los Valois bosteza en la Misa;

De las irreales islas del ocaso retumban los cañones de España,

Y el Señor del Cuerno de Oro se está riendo en pleno sol.

Laten vagos tambiores, amortiguados por las montañas,

Y sólo un príncipe sin corona, se ha movido en un trono sin nombre,

Y abandonando su dudoso trono e infamado sitial,

El último caballero de Europa toma las armas,

El último rezagado trovador que oyó el canto del pájaro,

Que otrora fue cantando hacia el sur, cuando el mundo entero era joven.

En ese vasto silencio, diminuto y sin miedo

Sube por la senda sinuosa el ruido de la Cruzada.

Mugen los fuertes gongs y los cañones retumban,

Don Juan de Austria se va a la guerra.

Forcejean tiesas banderas en las frías ráfagas de la noche,

Oscura púrpura en la sombra, oro viejo en la luz,

Carmesí de las antorchas en los atabales de cobre.

Las clarinadas, los clarines, los cañones y aquí está él.

Ríe Don Juan en la gallarda barba rizada.

Rechaza, estribando fuerte, todos los tronos del mundo,

Yergue la cabeza como bandera de los libres.

Luz de amor para España ¡hurrá!

Luz de muerte para África ¡hurrá!

Don Juan de Austria

Cabalga hacia el mar.

Mahoma está en su paraíso sobre la estrella de la tarde

(Don Juan de Austria va a la guerra.)

Mueve el enorme turbante en el regazo de la hurí inmortal,

Su turbante que tejieron los mares y los ponientes.

Sacude los jardines de pavos reales al despertar de la siesta,


Y camina entre los árboles y es más alto que los árboles,

Y a través de todo el jardín la voz es un trueno que llama

A Azrael el Negro y a Ariel y al vuelo de Ammon:

Genios y Gigantes,

Múltiples de alas y de ojos,

Cuya fuerte obediencia partió el cielo

Cuando Salomón era rey.

Desde las rojas nubes de la mañana, en rojo y en morado se precipitan,

Desde los templos donde cierran los ojos los desdeñosos dioses amarillos;

Ataviados de verde suben rugiendo de los infiernos verdes del mar

Donde hay cielos caídos, y colores malvados y seres sin ojos;

Sobre ellos se amontonan los moluscos y se encrespan los bosques grises del

mar,

Salpicados de una espléndida enfermedad, la enfermedad de la perla;

Surgen en humaredas de zafiro por las azules grietas del suelo,-

Se agolpan y se maravillan y rinden culto a Mahoma.

Y él dice: Haced pedazos los montes donde los ermitaños se ocultan,

Y cernid las arenas blancas y rojas para que no quede un hueso de santo

Y no déis tregua a los rumíes de día ni de noche,

Pues aquello que fue nuestra aflicción vuelve del Occidente.

Hemos puesto el sello de Salomón en todas las cosas bajo el sol

De sabiduría y de pena y de sufrimiento de lo consumado,

Pero hay un ruido en las montañas, en las montañas y reconozco

La voz que sacudió nuestros palacios -hace ya cuatro siglos:

¡Es el que no dice "Kismet"; es el que no conoce el Destino,

Es Ricardo, es Raimundo, es Godofredo que llama!

Es aquel que arriesga y que pierde y que se ríe cuando pierde;

Ponedlo bajo vuestros pies, para que sea nuestra paz en la tierra.

Porque oyó redoblar de tambores y trepidar de cañones.

(Don Juan de Austria va a la guerra)

Callado y brusco -¡hurrá!

Rayo de Iberia

Don Juan de Austria

Sale de Alcalá.
En los caminos marineros del norte, San Miguel está en su montaña.

(Don Juan de Austria, pertrechado, ya parte)

Donde los mares grises relumbran y las filosas marcas se cortan

Y los hombres del mar trabajan y las rojas velas se van.

Blande su lanza de hierro, bate sus alas de piedra;

El fragor atraviesa la Normandía; el fragor está solo;

Llenan el Norte cosas enredadas y textos y doloridos ojos

Y ha muerto la inocencia de la ira y de la sorpresa,

Y el cristiano mata al cristiano en un cuarto encerrado

Y el cristiano teme a Jesús que lo mira con otra cara fatal

Y el cristiano abomina de María que Dios besó en Galilea.

Pero Don Juan de Austria va cabalgando hacia el mar,

Don Juan que grita bajo la fulminación y el eclipse,

Que grita con la trompeta, con la trompeta de sus labios,

Trompeta que dice ¡ah!

¡Domino Gloria!

Don Juan de Austria

Les está gritando a las naves.

El rey Felipe está en su celda con el Toisón al cuello

(Don Juan de Austria está armado en la cubierta)

Terciopelo negro y blando como el pecado tapiza los muros

Y hay enanos que se asoman y hay enanos que se escurren.

Tiene en la mano un pomo de cristal con los colores de la luna,

Lo toca y vibra y se echa a temblar

Y su cara es como un hongo de un blanco leproso y gris

Como plantas de una casa donde no entra la luz del día,

Y en ese filtro está la muerte y el fin de todo noble esfuerzo,

Pero Don Juan de Austria ha disparado sobre el turco.

Don Juan está de caza y han ladrado sus lebreles-

El rumor de su asalto recorre la tierra de Italia.

Cañón sobre cañón, ¡ah, ah!

Cañón sobre cañón, ¡hurrá!

Don Juan de Austria

Ha desatado el cañoneo.
En su capilla estaba el Papa antes que el día o la batalla rompieran.

(Don Juan está invisible en el humo)

En aquel oculto aposento donde Dios mora todo el año,

Ante la ventana por donde el mundo parece pequeño y precioso.

Ve como en un espejo en el monstruoso mar del crepúsculo

La media luna de las crueles naves cuyo nombre es misterio.

Sus vastas sombras caen sobre el enemigo y oscurecen la Cruz y el Castillo

Y velan los altos leones alados en las galeras de San Marcos;

Y sobre los navíos hay palacios de morenos emires de barba negra;

Y bajo los navíos hay prisiones, donde con innumerables dolores,

Gimen enfermos y sin sol los cautivos cristianos

Como una raza de ciudades hundidas, como una nación en las ruinas,

Son como los esclavos rendidos que en el cielo de la mañana

Escalonaron pirámides para dioses cuando la opresión era joven;

Son incontables, mudos, desesperados como los que han caído o los que huyen

De los altos caballos de los Reyes en la piedra de Babilonia.

Y más de uno se ha enloquecido en su tranquila pieza del infierno

Donde por la ventana de su celda una amarilla cara lo espía,

Y no se acuerda de su Dios, y no espera un signo-

(¡Pero Don Juan de Austria ha roto la línea de batalla!)

Cañonea Don Juan desde el puente pintado de matanza.

Enrojece todo el océano como la ensangrentada chalupa de un pirata,

El rojo corre sobre la plata y el oro.

Rompen las escotillas y abren las bodegas,

Surgen los miles que bajo el mar se afanaban

Blancos de dicha y ciegos de sol y alelados de libertad.

¡Vivat Hispania!

¡Domino Gloria!

¡Don Juan de Austria

Ha dado libertad a su pueblo!

Cervantes en su galera envaina la espada

(Don Juan de Austria regresa con un lauro)

Y ve sobre una tierra fatigada un camino roto en España,

Por el que eternamente cabalga en vano un insensato caballero flaco,


Y sonríe (pero no como los Sultanes), y envaina el acero...

(Pero Don Juan de Austria vuelve de la Cruzada.)

La mentira del éxito- G.K.CHESTERTON


La mentira del éxito- G.K.CHESTERTON

Han surgido en nuestros días, un tipo en particular de libros y artículos que creo firmemente que pueden
considerarse los más idiotas que ha conocido la humanidad. Son más descabellados que la novela de caballerías más
absurda , más aburridos que el más soporífero panfleto religioso. Con la agravante de que las novelas de caballerías
trataban del ideal del caballero andante, los panfletos religiosos de la religión, pero estos no tratan de nada. Tratan
de lo que llaman triunfar. En cada quiosco y en cada revista, encuentras obras que le explican a la gente como
triunfar en lo qué sea. Están escritos por gente que ni siguiera triunfa en escribir un libro. Para empezar, no existe,
por supuesto, el éxito. O, por así decirlo, no hay nada que no lo sea. Decir que algo es un éxito sencillamente es decir
que existe. El millonario es un éxito siendo un millonario y un asno siendo un asno. Cualquier persona viva triunfa en
la empresa de seguir viviendo, y cualquier muerto puede decirse que ha tenido éxito suicidándose. Pero, al igual que
hacen estos escritores, pasemos por alto la mala filosofía y deficiente lógica de la frase, usaremos el sentido común
de la expresión que dice que el éxito es ganar mucho dinero o triunfar en sociedad. Estos escritores pretenden
decirle a un hombre corriente cómo puede triunfar en su trabajo o negocio. Si es un albañil, cómo triunfar poniendo
ladrillos. Si es un agente de bolsa, cómo triunfar negociando valores. Pretenden decirle cómo, si es un tendero, se
convertirá en el dueño de un yate, si es un periodista de tercera, en un par del reino, si es un alemán, en un inglés. Es
una clara proposición mercantil y creo que la gente que compra estos libros, si es que alguien lo hace, tiene el
derecho moral, si no legal, de exigir que les devuelvan el dinero. Nadie se atrevería a publicar un manual sobre
electricidad que literalmente no dijese nada sobre la electricidad, o una articulo de botánica que dejase claro que el
escritor no sabe que extremo de la planta hecha raíces en el suelo. Sin embargo, el mundo actual esta repleto de
libro sobre el éxito y los triunfadores que, hablando estrictamente, no contienen idea alguna y apenas están
redactados coherentemente.

Está muy claro que en cualquier trabajo honrado, cómo poner ladrillos o escribir libros, solo hay dos maneras de
triunfar. Una es trabajando muy bien, otra engañando a la gente. Las dos son demasiado sencillas cómo para
requerir que las expliques en un libro. Si te dedicas al salto de altura, o saltas más alto o de alguna forma aparentas
que lo has hecho. Si quieres triunfar jugando al whist, o juegas muy bien o llevas cartas marcadas. Puedes desear un
libro sobre el salto de altura, puedes desear un libro sobre la cómo jugar al whist, puedes desear un libro sobre la
manera de hacer trampas jugando al whist. Lo que no puedes desear es un libro sobre el éxito. Y menos como los
que encuentras por centenares esparcidos por el mercado editorial. Puede que desees saltar o jugar a las cartas,
pero lo que no puedes desear es leer frases inconexas que te dicen que saltar es saltar o que los juegos los ganan los
ganadores.

Si, por poner un ejemplo, esta gente escribiese algo sobre el éxito en el salto de altura, sería algo así: El saltador
debe tener un objetivo definido en frente de sí. Debe desear saltar más alto que los demás competidores. No debe
permitir que patéticos sentimientos de piedad, propios de pacifistas o partidarios de los Boers, le frenen a la hora de
dar lo mejor de sí mismo. Debe recordar que una competición de salto es competitiva y como Darwin ha declarado
para su gloria LOS DEBILES AL PAREDÓN.

Esto es lo que pondría en un libro de estos. Podría resultar sin dudarlo, muy útil. Sobre todo si se lee, en voz baja y
tensa, a un hombre joven que estuviese a punto de participar en una competición de salto.

O supongamos que estos filósofos del éxito, en uno de sus paseos, se encontrasen con nuestro segundo ejemplo. Eso
es lo que dirían: jugando a las cartas, es necesario evitar el error, en el que incurren con frecuencia humanitarios
sentimentales y partidarios del libre comercio, de permitir ganar al contrario. Hacen falta agallas y entrar para ganar.
Los tiempos del idealismo y la superstición han pasado. Vivimos en una época de ciencia y sentido común, y se ha
demostrado científicamente que en un juego para dos personas, GANA UNO DE LOS DOS.

Por supuesto, todo esto es muy emocionante. Pero jugando a las cartas, preferiría tener un librito que explicase las
reglas del juego. Más allá de las reglas del juego, es cuestión de talento o de falta de escrúpulos. Ya me ocuparé yo
de proporcionar uno u otra. Aunque no diré cual.
Cogiendo un ejemplar de una revista de amplia circulación, me encuentro con un ejemplo raro y divertido. Es un
artículo titulado “El instinto que enriquece a la gente”, en su primera pagina hay un retrato enorme de Lord
Rothschild. Hay mucho métodos concretos, honrados y fraudulentos, de amasar una fortuna. El único instinto que
conozco que haga esto, es el instinto que la teología cristiana llama, con tanta ordinariez, “ el pecado de avaricia” Lo
que, por supuesto, queda al margen de la cuestión que nos ocupa. Citaré un párrafo, una muestra exquisita del típico
consejo sobre la manera de triunfar. Es tan práctico que apenas deja lugar a la duda sobre cual debe ser el siguiente
paso.

"El apellido Vanderbilt es sinónimo de riqueza amasada por empresas modernas. Cornelio, el fundador del clan, fue
el primer gran magnate americano del comercio. Empezó en la vida como el hijo de un granjero pobre, terminó
siendo veinte veces millonario.

Suyo era el instinto de ganar dinero. Atrapó al vuelo las oportunidades que le proporcionaron las maquinas de vapor,
el comercio trasatlántico y el nacimiento del sistema de ferrocarriles en Estados Unidos, dotados de recursos
materiales que estaban por explotar. Por todo ello, amasó una fortuna inmensa.

Por supuesto, esta claro que no se pueden seguir exactamente los pasos de este monarca de los ferrocarriles. Las
oportunidades concretas que se le aparecieron no surgen ante nosotros. Las circunstancias han cambiado. Pero
aunque esto sea así, en nuestro entorno podemos aplicar sus métodos generales. Podemos atrapar las
oportunidades que se nos ofrecen y así darnos a nosotros mismos una buena posibilidad de alcanzar la riqueza."

En estos comentarios tan raros, vemos claramente lo que subyace en estos artículos y libros. No es simplemente el
mundo de los negocios, ni siquiera el puro cinismo. Es misticismo, el horrible misticismo del dinero. El autor de ese
párrafo, esta resulta evidente que no tenia la más remota idea de cual fue la manera en que Vanderbilt amasó su
fortuna ni de la manera en que nadie lo hace. Termina su argumentación defendiendo una especie de plan que no
tiene nada que ver con Vanderbilt. Simplemente, ansiaba postrarse a los pies del misterio de un millonario. Porque
cuando de verdad se adora algo, amamos tanto su claridad como su oscuridad. Nos sentimos exultantes ante su
invisibilidad. Por ejemplo, un hombre que ama a una mujer encuentra un placer especial incluso en los momentos en
que ella se muestra poco razonable. O, por poner otro ejemplo, un poeta místico muy piadoso, alabando a su
creador, se enorgullece al decir que misteriosos son sus caminos.

Ahora bien, el autor de este párrafo, es evidente que no quiere saber nada de Dios y a juzgar por lo poco practico de
su carácter, es dudoso que alguna vez conociese, de verdad, el amor de una mujer. Pero trata al objeto de su
adoración, Vanderbilt, con idéntico misticismo. Se regodea en que su dios, Vanderbilt, le oculta algo. Tiene el alma
embelesada de astucia, un éxtasis propio de un sacerdote, con la pretensión de que va a revelar a las multitudes el
terrible secreto que él mismo ignora.

Hablando del sentido que enriquece, el mismo autor escribe:

"En la antigüedad, su existencia era claramente reconocida. Los griegos la sacralizaron en la historia de Midas, que
convertía en oro cuanto tocaba. Su vida era un paseo por entre la riqueza. Convertía en metal precioso todo lo que
se le ponía por delante. Una leyenda estúpida, dijeron los sabios victorianos. Una verdad, decimos hoy en día. Todos
conocemos hombres semejantes. Siempre estamos leyendo sobre hombres capaces de convertir todo en oro,
incluso les vemos en persona. El éxito les sigue como un perro faldero. El sendero de su vida siempre les conduce a
las alturas. Son incapaces de fracasar.."

Pero, desgraciadamente, Midas podía fracasar. Fracasó. El sendero de su vida no le condujo siempre hacia las
alturas. Se murió de hambre por que cada vez que tocaba una galleta o un bocadillo de jamón se convertían en oro.
Eso era lo fundamental de la historia por más que el autor lo censure. Lo que me parece de muy buena educación al
escribir al pie de un retrato de Lord Rothschild. Las viejas fábulas de la humanidad son, en verdad, insondablemente
sabias, no debemos permitir que las censuren para favorecer a Lord Rothschild. No debemos tolerar que nos pongan
a Midas como modelo de éxito. Fue un fracaso de un tipo raro por lo doloroso. Además tenia orejas de burro. Como
otras personas prominentes y ricas, intentó ocultarlo. Si no recuerdo mal, busco a este respecto la confianza de su
barbero. Y fue su barbero, quien en lugar de comportarse como un triunfador de la escuela del éxito a toda costa y
chantajear a Midas, fue y susurró este magnifico cotilleo a los juntos, que disfrutaron del mismo enormemente.
También se dice que los juncos se lo susurraron a los cuatro vientos mientras estos les mecían. Contemplo admirado
el retrato de Lord Rothschild, leo admirado sobre las andanzas del Sr.Vanderbilt. Sé que no puedo convertir en oro
cuanto toco. Pero es que nunca lo he intentado porque prefiero otras cosas, como la hierba o el buen vino. Sé que
estas personas ciertamente han triunfado en algo, es seguro que han derrotado a alguien, sé que son monarcas de
una manera en que ningún hombre lo fue previamente, que crean mercados y dominan los continentes. Sin
embargo, me parece a mí que nos están ocultando alguna pequeña anécdota de su intimidad domestica, y, a veces,
he creído escuchar en el viento las carcajadas de los juncos.

Esperemos al menos que viviremos para ver estos absurdos libros cubiertos del escarnio que merecen y siendo
olvidados. No enseñan a la gente a triunfar pero sí a ser arrogantes sin razón. Enseñan una poesía maligna de lo
mundano. Los puritanos siempre están atacando los libros que excitan la sexualidad. ¿Qué haremos con libros que
excitan las pasiones más mezquinas del orgullo y la codicia?

Hace cien años, contábamos con el ideal del aprendiz trabajador. Se decía a los muchachos que si trabajaban mucho
y ahorraban llegarían a ser senadores. Era mentira pero era viril. Contenía al menos algo de verdad moral. En nuestra
sociedad, la templaza no ayuda a un hombre pobre a enriquecerse pero eleva su autoestima. Un trabajo bien hecho
no le hará rico, pero le convertirá en un buen trabajador. El aprendiz trabajador ascendía por medio de virtudes que
eran estrechas y angostas. Pero eran virtudes. ¿Pero qué se puede hacer con este nuevo evangelio del aprendiz
trabajador que asciende, no por medio de sus virtudes, si no dejándose llevar descaradamente por sus vicios?

El optimismo de Byron- G.K. CHESTERTON


El optimismo de Byron- G.K. CHESTERTON Título original: «The optimism of Byron», en Twelve Types Traducción de
Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/ Todo se opone a que
comprendamos el espíritu y la época de Byron. La época que ha pasado nos parece lo que un sueño cuando
despertamos por la mañana: algo increíble que pasó hace siglos. El mundo de Byron se nos antoja triste y desvaído,
extraño e inhumano, un mundo en el que los hombres eran románticos con patillas, las mujeres parecían vivir bajo
pérgolas y las mismas palabras sonaban teatrales. La poesía de esa época abunda en rosas y ruiseñores con la
elegancia monótona de un motivo de papel pintado. Es como una gran fiesta de muertos vivientes, con trajes
espléndidos y cara de bobos. Ahora bien, cuanto más detenidamente examinamos una época, menos tendemos a
tacharla de «artificial». Nada ha sido nunca artificial. De muchas costumbres, de muchas maneras de vestir, de
muchas obras de arte decimos que son artificiales porque parecen amaneradas y vanas, como si la vanidad no fuera
un sentimiento profundo y elemental, como el amor, el odio, el miedo a la muerte. Hay vanidad en los desiertos
penumbrosos, en el ermitaño y en las alimañas que se arrastran a su alrededor. La vanidad puede ser buena o mala,
pero nunca es artificial: es una voz que viene del abismo. Sin embargo, es curioso –y muy importante a la hora de
juzgar hoy la figura de Byron– que lo que no nos es familiar, lo que es fruto de una época o una mentalidad remotas,
nos parezca, no salvaje o terrible, sino sencillamente artificial. Se me ocurren muchos ejemplos. Uno muy claro son
las plantas y las aves tropicales. No pensamos que esas floraciones lujuriantes y monstruosas que vemos en las
selvas ecuatoriales sean estallidos de la naturaleza, reventones mudos de su terrible poder. Nos cuesta creer que no
sean flores de cera sacadas de vitrinas. No pensamos que esas aves tropicales que consisten en cuerpecillos
diminutos pegados a picos gigantescos sean fenómenos engendrados por la feroz ironía de la Creación. Casi creemos
que son juguetes infantiles que alguien ha tallado y coloreado. Pues lo mismo acontece con esa gran convulsión de la
naturaleza que conocemos con el nombre de byronismo. No pensamos que es un volcán hoy extinto, sino el palo
caído de un cohete. No pensamos que son las cenizas de un fuego natural, sino artificial. Pero Byron y el byronismo
fueron algo inconmensurablemente más grande que nada de lo que esas palabras representan: su valor y su
significado real ni siquiera se han entendido bien. El primer error que se comete con Byron es considerarlo un
pesimista. Cierto es que él mismo se tenía por tal, pero poco y mal conocerá un crítico a Byron si no tiene en cuenta
que él se conocía menos de lo que ningún hombre inteligente se conoció jamás. El pesimismo supuesto de Byron
merece más estudio que el pesimismo real de nadie. Peculiaridad constante de este curioso mundo nuestro es que
casi todas las cosas que en él hay han sido ensalzadas entusiásticamente, y siempre en detrimento de todas las
demás. De casi todos los fenómenos del universo se ha dicho sucesivamente que son capaces por sí solos de hacer
que la vida merezca la pena. Los libros, el amor, los negocios, la religión, el alcohol, la verdad abstracta, las
emociones de la vida privada y de la vida sencilla, el misticismo, el trabajo duro, la vida cerca de la naturaleza y la
vida cerca de Belgrave Square, de todas estas cosas ha dicho alguien con pasión que son tan buenas que redimen el
mal del mundo, el cual sin ellas sería insoportable. De esta manera, al tiempo que se condena el mundo en general,
se lo justifica y aun se lo enaltece detalle a detalle. La existencia la han elogiado y absuelto todo un coro de
pesimistas, que se han repartido ingeniosamente, como en otros tiempos, la tarea de dar gracias a Dios:
Schopenhauer, especie de bibliotecario en la casa del Señor, loa los austeros goces de la mente; Carlyle, el
administrador e intendente, encomia la vida y las labores del campo; Omar Khayyam, que se ha instalado en el
sótano, jura que es la única estancia de la casa. Incluso el más sombrío de los artistas pesimistas disfruta de su arte, y
la satisfacción que siente por haber dado remate a alguna virulenta e implacable invectiva contra la Creación no hace
sino sumarse al coro de la gratitud universal, junto con la fragancia de la flor silvestre y el trino de los pájaros. Pues
bien, la inmensa popularidad de que gozó Byron, en la medida en que puede explicarse con palabras, se fundó en su
pesimismo. Lo adoraba muchísima gente, casi todos aquellos a los que la mayoría de la gente despreciaba. Pero a
poco que ahondamos en la cuestión, empezamos a creer menos en esta popularidad del pesimista. La popularidad
del pesimismo puro es cosa muy rara; es casi una contradicción en los términos. Los hombres no reciben la noticia
del fracaso de la existencia o de la armoniosa hostilidad de las estrellas con júbilo y regocijo público, como no
encienden fuegos para dar la bienvenida a la peste ni se ponen a bailar de contento cuando los condenan a la horca.
El pesimista solamente puede ser popular cuando muestra, no que todo está mal, sino que algo está bien. Los
hombres solo se unen en coro para elogiar, aunque sea elogiar la denuncia. La persona que es popular no puede no
ser optimista en algo, aunque lo sea únicamente en el pesimismo. Y este fue el caso de Byron y de los byronianos. Su
popularidad se fundaba en realidad no en que lo condenaban todo, sino en que encomiaban algo. Colmaban de
maldiciones al ser humano, pero era porque lo necesitaban como contraste. Lo que en realidad querían era elogiar
las potencias de la naturaleza. El hombre era para ellos lo que la charla y la moda eran para Carlyle, lo que las
disputas filosóficas y religiosas eran para Omar, lo que la humanidad ávida de placeres materiales era para
Schopenhauer: aquello que debía ser censurado para que otra cosa pudiera exaltarse. No era sino admitir que para
escribir con tiza blanca se necesita una pizarra negra. Es ridículo creer que el amor de Byron por lo desolado e
inhumano de la naturaleza es prueba de su escepticismo y su temperamento depresivo. El joven que elige
voluntariamente pasear solo junto a un mar proceloso en invierno, que goza exponiéndose a la lluvia y escalando
cimas vertiginosas, que se identifica con la anárquica melancolía de la vieja tierra, podemos deducir con certeza
lógica que es muy joven y muy feliz. Cuando miramos el vino en la sombra, vemos cierta obscuridad, la misma que
vemos también en la noche que se cierra tras un magnífico ocaso. El vino parece negro y al mismo tiempo intensa,
casi imposiblemente rojo; el cielo parece negro y al mismo tiempo de un color mezcla de púrpura y verde muy
oscuro. No otra fue la obscuridad que envolvió a los byronianos: una obscuridad que era un púrpura profundo.
Prefirieron la sombría hostilidad de la tierra porque en medio del frío y la obscuridad sus corazones llameaban como
lumbres. Muy distinto es el caso de la más moderna escuela de la duda y el lamento. El último movimiento pesimista
lo representan quizá los dibujos alegóricos del señor Aubrey Beardsley. Es este un pesimismo que no tiende
naturalmente hacia los antiguos elementos de la naturaleza, sino hacia los más recientes y fantásticos oropeles de la
vida artificial. El byronismo tiende al desierto; el nuevo pesimismo, al restaurante. El byronismo se rebela contra lo
artificial; el nuevo pesimismo, en favor de lo artificial. El joven byroniano afecta sinceridad; el decadente, dando un
paso más allá en el camino de lo irreal, afecta afectación. Y es por su dandismo y su frivolidad por lo que sabemos
que su siniestra filosofía es sincera; en sus luces, sus guirnaldas y sus cintas vemos su desesperación interior. Lo
mismo ocurría con Byron: sus momentos frívolos era sus momentos más amargos. Durante años clamó por fuego
contra la humanidad, invocó el diluvio y el destructivo mar y todas las fuerzas colosales de la naturaleza para que
barriesen las colonias de larvas humanas. Pero, pese a ello, en su subconsciencia no era un desesperado; al
contrario, hay una especie de indómita fe en esas potencias terribles e inmemoriales. Este calor y esta genialidad
interiores no los perdió hasta que escribió Don Juan, momento en que una estruendosa risotada anunció al mundo
que Lord Byron se había convertido en un pesimista de verdad. Uno de los mejores modos de saber lo que un poeta
quiere decir es su poesía. Puede ser un hipócrita en su metafísica, pero no en sus versos. Y por mucho que el
lenguaje de Byron esté lleno de horror y de vacío, su poesía es un danzar alegre y saltarín. Puede echar las más
horribles pestes de la existencia, condenarla con el más desolador de los veredictos, pero no puede evitar que en un
paseo una mañana de primavera, activos todos nuestros miembros y palpitante toda nuestra sangre, nos acudan a
los labios versos como estos: Oh, there’s not a joy the world can give like that it takes away, when the glow of early
youth declines in beauty’s dull decay; ’tis not upon the cheek of youth the blush that fades so fast, but the tender
bloom of heart is gone ere youth itself be past.° There’s not a joy the world can give like that it takes away when the
glow of early thought declines in feeling’s dull decay; ’tis not on youth’s smooth cheek the blush alone, which fades
so fast, but the tender bloom of heart is gone, ere youth itself be past. Se me ocurre de momento esta traducción:
No hay un gozo que el mundo pueda dar como el que quita al decaer la luz del primer pensar en pasión oscura; no
solo la flor de la juventud, pronto marchita, mas antes que ella, del corazón se ha ido la frescura. Esta recitación
automática es toda la respuesta al pesimismo de Byron. La verdad es que Byron fue una de esas personas a las que
podríamos llamar optimistas inconscientes, que muy a menudo son, por cierto, los más empedernidos pesimistas
conscientes, pues su exuberante naturaleza exige por adversario un dragón no menos grande que el mundo. Pero
todo su ser esencial e inconsciente estaba lleno de vida y confianza, y ese ser inconsciente, largo tiempo disfrazado y
oculto bajo emociones artificiales, sale de pronto a la luz ante una necesidad política ardua y fría. En Grecia oyó la
voz de la realidad, y muriendo empezó a vivir. Oyó de improviso la llamada de esa felicidad secreta y subconsciente
que yace en todos nosotros, y que puede emerger de repente al ver la hierba de un prado o las lanzas del enemigo.

Tolstoy y el culto a la sencillez- G.K.CHESTERTON


Tolstoy y el culto a la sencillez- G.K.CHESTERTON Título original: «Tolstoy and the cult of simplicity», en Twelve
TypesTraducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/ El mundo
entero está destinado a una gran simplicidad y sencillez, no deliberada, sino antes bien inevitablemente. No es una
simple moda de inocencia falsa, como la de los aristócratas franceses de antes de la Revolución, que erigieron un
altar a Pan e impusieron tributos a los campesinos para pagar los enormes gastos que les suponía hacer la vida
sencilla de los campesinos. La simplicidad a la que el mundo está abocado es el resultado necesario de todos
nuestros sistemas y especulaciones, y de nuestra contemplación profunda y constante de las cosas. Pues el universo
es como todo lo que contiene; hemos de mirarlo una y otra vez antes de poder verlo. Solo cuando lo hemos visto
cien veces, lo vemos por vez primera. Cuanto más contemplamos las cosas, más tienden a unificarse y por lo tanto a
simplificarse. La simplificación de algo es siempre impresionante. Y la más impresionante de las simplificaciones es el
monoteísmo: es como si observáramos largo rato un dibujo hecho con mil objetos inconexos que, de pronto, con un
estremecimiento de asombro, viéramos unirse para formar un gran rostro que nos mira. Poca gente discutirá el
hecho de que los movimientos de nuestro tiempo tienden todos a la simplificación. Cada sistema quiere ser más
fundamental que el resto; quiere, literalmente, socavar los fundamentos del resto. En el arte, por ejemplo, la vieja
concepción del hombre, clásica como el Apolo de Belvedere, fue primero recusada por los realistas, que piensan que
el hombre, como realidad de la historia natural, es una criatura de pelo incoloro y cara pecosa. A estos siguen los
impresionistas, que van más allá y afirman que, a sus ojos físicos, que son lo único fidedigno, el hombre es una
criatura con el pelo rojo y la cara gris. Vienen luego los simbolistas, y dicen que, para su alma, que es lo único
fidedigno, el hombre es una criatura con el pelo verde y la cara azul. Y todos los grandes escritores de nuestro
tiempo intentan también, cada cual a su manera, restablecer esa comunicación con lo elemental o, como a veces se
dice más vaga y engañosamente, volver a la naturaleza. Unos piensan que volver a la naturaleza consiste en no
beber vino; otros, que en beber mucho más del que conviene. Unos creen que volver a la naturaleza es convertir las
espadas en rejas de arado; otros, que convertir las rejas de arado en bayonetas del ministerio de la guerra británico
que no sirvan para nada.° Según los patriotas radicales, es natural que un hombre mate a otros con pólvora y se
mate a sí mismo con ginebra. Según los pacifistas radicales, es natural matar a otros con dinamita y matarse uno
mismo con vegetarianismo. Si consideramos la ingente cantidad de argumentos paradójicos que necesitan unos y
otros para convencerse a sí mismos y convencer a los demás de la verdad de sus conclusiones, sería ciertamente
filisteo creer que su pretensión de obedecer a la llamada de la naturaleza merece interés. Pero no cabe duda de que
los grandes hombres de nuestro tiempo tiene en común el sostener por muy diferentes vías esta idea del regreso a
la simplicidad. Ibsen vuelve a la naturaleza por la descarnada exterioridad de los hechos, Maeterlinck, por la eterna
tendencia a la fábula. Whitman vuelve a la naturaleza queriendo ver cuánto puede aceptar, Tolstoi queriendo ver
cuánto puede rechazar. Ahora bien, este heroico deseo de volver a la naturaleza es, en algunos aspectos, como el
heroico deseo de un gato de alcanzar su rabo. Un rabo es un objeto simple y bonito, de forma ondulada y textura
acariciante; y, aunque secundario, es sin duda un atributo característico el que cuelgue detrás. No se puede negar
que perdería parte de su identidad si estuviera pegado a cualquier otra parte del cuerpo. Pues bien, la naturaleza se
parece a un rabo en que es de vital importancia que esté siempre detrás para que desempeñe su verdadera función.
Suponer que podemos ver la naturaleza, sobre todo la nuestra, cara a cara, es una locura, incluso una blasfemia. Es
como el gato de algún cuento fantástico que se recorriera el mundo con la firme convicción de encontrar su rabo en
medio de un prado, como si fuera un árbol. Y la impresión que causan los viajes de los filósofos en busca de la
naturaleza se parece mucho a las vueltas de un gato buscándose el rabo, con mucho entusiasmo pero poca dignidad,
con mucho ruido y poquísimo rabo. La grandeza de la naturaleza estriba en que es omnipotente e invisible, en que
quizá nos gobierna más cuando menos atención pensamos que nos presta. «Eres un Dios que se oculta», dijo el
poeta judío.° Con toda reverencia puede decirse que el espíritu de la naturaleza se esconde en la espalda del
hombre. Es esta consideración la que da cierto aire de futilidad incluso a las inspiradas simplicidades y veracidades
estentóreas de Tolstoi. Nosotros creemos que nadie puede hacerse más sencillo meramente por luchar contra la
complejidad; es más, creemos, en nuestros momentos de mayor cordura, que nadie puede hacerse más sencillo de
ningún modo. Una sencillez forzada puede muy bien ser mucho más artificial que el mismísimo lujo. Como que gran
parte de la pompa y suntuosidad de la historia era sencilla en el verdadero sentido de la palabra. Era fruto de una
receptividad casi infantil; era el lujo de hombres que tenían ojos para asombrarse y oídos para oír. El rey Salomón
trajo mercaderes porque deseaba pavos reales, abejas y marfil, de Tarsis a Tiro.° Pero esta actitud no era parte de la
sabiduría de Salomón; era parte de su locura... casi iba a decir de su inocencia. Tolstoi, creemos, no se contentaría
con reprobar y denunciar «toda la gloria de Salomón», sino que, con lógica impecable y feroz, daría un paso más y se
pasaría noches y días despojando a los lirios del campo de su impúdica corola carmesí.° La nueva colección de
Cuentos de Tolstoi, traducidos y editados por el señor R. Nisbet Bain, está pensada para llamar la atención sobre este
aspecto ético y ascético de la obra de Tolstoi. En un sentido, en el más profundo, la obra de Tolstoi es, por supuesto,
un llamamiento a la sencillez noble y genuino. La idea estrecha de que un artista no debe enseñar está hoy día
prácticamente desacreditada. Pero la verdad es que un artista enseña mucho más por su solo ambiente y carácter,
su paisaje, sus costumbres, su idioma y su técnica, toda esa parte, en fin, de su obra de la que seguramente no es
consciente, que por las sentencias morales grandilocuentes y redichas que toma con agrado por sus opiniones. La
diferencia entre la ética del gran arte y la ética del arte artificioso y didáctico reside en el simple hecho de que la
mala fábula tiene una moral y la buena es una moral. Y la verdadera moral de Tolstoi recorre estos relatos, la gran
moral que late en toda su obra, de la que sin duda él no es consciente y muy probablemente renegaría con
vehemencia. La curiosa luz matinal blanca y fría que ilumina todos los relatos, la folclórica sencillez con la que habla
de «un hombre» o «una mujer» sin mayor especificación, el amor, casi se diría la voluptuosidad, que siente por las
calidades de la materia bruta, la dureza de la madera, la blandura del barro, la creencia inveterada en la bondad
prístina del hombre, todo esto es influencia moral pura. Cuando lo comparamos con el vocinglero, furioso y absurdo
Tolstoi didáctico, que clama por una obscena pureza, por una paz inhumana, que reduce la vida a mil pecados, que
desprecia a hombres, mujeres y niños por amor a la humanidad, que combina, en un caos de contradicciones, al
puritano pusilánime y al bárbaro beato, apenas sabemos entonces dónde hemos perdido a Tolstoi. No sabemos qué
hacer con ese moralista diminuto y ruidoso que vivía en un rincón de un hombre grande y bueno. Cuesta en
cualquier caso reconciliar al gran artista que fue Tolstoi con el reformador casi ponzoñoso que fue también. Cuesta
creer que un hombre que dibuja con trazos tan nobles la dignidad de la vida cotidiana del hombre considere un mal
el divino acto de procreación por el cual esa dignidad se renueva de generación en generación. Cuesta creer que un
hombre que pinta con tan terrible crudeza el sobrecogedor vacío de la vida del pobre, le escatime todos y cada uno
de sus placeres humildes, desde el cortejo al tabaco. Cuesta creer que un poeta en prosa que describe con tanta
elocuencia el carácter telúrico del hombre, los íntimos lazos que lo unen al suelo en el que vive, niegue una virtud
tan elemental como es el amor a sus antepasados y a su tierra. Cuesta creer que el hombre que padece tanto por la
soberbia odiosa del opresor, no lo derribe, si pudiera, de un puñetazo. Pues bien, a esto lleva la búsqueda de una
sencillez falsa, el querer ser, si se me permite decirlo así, más natural de lo que es natural ser. No solo sería más
humano, sino más humilde, conformarnos con ser complejos. El verdadero amor a la humanidad es hacer lo que la
humanidad ha hecho siempre, aceptar con deportividad la condición que nos ha sido dada, la estrella de nuestra
felicidad y la suerte de la tierra en la que nacimos. La obra de Tolstoi tiene un segundo y más particular significado.
Constituye la reafirmación de cierto sentido común tremendo que es característico de las enseñanzas más extremas
de Cristo. Es verdad que no podemos ofrecer la mejilla al que nos abofetea; es verdad que no podemos dar la capa al
que nos roba; el hombre civilizado es demasiado complejo, demasiado orgulloso, demasiado emotivo. El que nos
roba se jactaría; nosotros nos ruborizaríamos. Es decir, que tanto el que nos roba como nosotros somos unos
sentimentales. El mandamiento de Cristo es imposible, pero no es demencial; más bien es predicar cordura en un
planeta de locos. Si el sentido del humor se apoderase de pronto del mundo, cumpliríamos el Sermón de la Montaña
de una manera mecánica. No son las realidades sencillas de la vida las que nos impiden cumplirlo, sino pasiones
como la vanidad, la autosuficiencia, la sensibilidad enfermiza. Si no podemos ofrecer la mejilla al que nos abofetea,
es por la pura y simple razón de que no nos atrevemos. Tolstoi y sus seguidores han demostrado que sí se atreven, y
aunque pensemos que se equivocan, por esta señal conquistan.° Esta doctrina tiene la fuerza de lo absolutamente
coherente. Promueve esa mansedumbre y esa no resistencia que son la última y más valiente forma de resistencia a
cualquier poder. La gran huelga de los cuáqueros es más eficaz que muchas revoluciones sanguinarias. Si los seres
humanos fueran algún día capaces de una resistencia realmente pasiva, serían fuertes con la formidable fuerza de
los seres inanimados, tendrían la calma exasperante del roble y del hierro, conquistarían sin violencia y serían
conquistados sin humillación. La teoría del deber cristiano que los tolstoianos predican es que nunca debemos
conquistar con la fuerza, sino siempre, si podemos, con la persuasión. En su mitología, san Jorge no conquistó al
dragón: le ató al cuello una cinta rosa y le puso un platito de leche. Según ellos, fuertes dosis de amabilidad habrían
convertido a Nerón en algo a lo que solo remotamente se parecería Alfredo el Grande.° Y la política que esta escuela
recomienda para tratar con la bovina estupidez y la bovina crueldad del mundo la resumen perfectamente estos
famosos versos del señor Edward Lear: Hubo un viejo que así se preguntaba: ¿Cómo escapar de esta terrible vaca? Y
sentado en la cerca se quedaba sonriendo para ablandar a la vaca. Su fe en la naturaleza humana es honrosa y
magnífica; reviste la forma del rechazo a creer a la inmensa mayoría de los hombres, incluso cuando están
dispuestos a explicar sus motivos. Pero aunque casi todos tendamos en un primer momento a considerar esta nueva
secta cristiana menos escandalosa que algunas alborotadoras sectas de la Reforma, caeríamos en un singular error si
así lo hiciéramos. El cristianismo de Tolstoi es, bien considerado, uno de los acontecimientos más perturbadores y
dramáticos de la civilización moderna. Es un tributo a la religión cristiana más sensacional que la rotura de los sellos
y la caída de las estrellas. Desde el punto de vista racionalista, el mundo se ha vuelto más irracional desde que existe
el socialismo cristiano. Este fenómeno pone el universo científico patas arriba y hace esencialmente posible que la
clave de la evolución social pueda hallarse en el polvoriento ataúd de alguna creencia desacreditada. No estará de
más examinar este fenómeno tal y como es. La religión de Cristo, como muchas otras cosas verdaderas, ha sido
refutada numerosísimas veces. La refutaron los filósofos neoplatónicos ya cuando iniciaba su asombrosa y universal
carrera. La refutaron muchos escépticos del Renacimiento solo unos años antes de que su segunda y espectacular
encarnación, el protestantismo, triunfara sobre muchos reyes y conquistara continentes. Convendremos en que
estas escuelas de negación no fueron sino interludios en su historia; pero la de nuestros días, convendremos
también natural e inevitablemente, es una auténtica subversión del cosmos teológico, un Armagedón, un Ragnorak,
el crepúsculo de los dioses.° El hombre del siglo diecinueve, como un colegial del dieciséis, cree que sus dudas y sus
traumas son símbolos del fin del mundo. Los grandes ateos que destronaron a Dios y pusieron a los ángeles a sus
pies, han sido hoy día superados y convertidos en monótonos ortodoxos. Una nueva raza de escépticos ha
encontrado algo infinitamente más excitante que hacer que clavar la tapa de millones de ataúdes y un cuerpo en una
sola cruz. Han cuestionado no solo las creencias elementales, sino también las leyes elementales de la humanidad, la
propiedad, el patriotismo, la obediencia civil. Han encausado a la civilización tan abiertamente como los
materialistas a la teología; han rebajado a los filósofos incluso más que a los santos. Miles de hombres modernos se
mueven tranquila y convencionalmente entre sus prójimos con ideas sobre los límites de la nación y la propiedad de
la tierra que harían sobrecogerse a Voltaire como a una monja una sarta de blasfemias. Y el último y más brutal
episodio de esta orgía de escepticismo, la escuela que va más allá que ninguna de las que han ido muy lejos, la
escuela que niega la validez moral de esos ideales de valor y obediencia que hasta los piratas reconocen, esa escuela
se basa en palabras literales de Cristo, como el doctor Watts y los señores Moody y Sankey. Nunca en la historia del
mundo se había hecho tan grande homenaje a la vitalidad de un antiguo credo. Comparado con esto, sería poca cosa
que las aguas del mar Rojo se separasen o el sol quedase inmóvil en su cenit. Nos hallamos ante el fenómeno de una
serie de revolucionarios cuyo desprecio por los ideales de familia y nación provocaría horror entre delincuentes,
revolucionarios que pueden prescindir de aquellos instintos elementales del hombre y del caballero que nuestra
civilización lleva en la masa de la sangre, pero no de la influencia de dos o tres remotas anécdotas ocurridas en
oriente y escritas en griego corrupto. La cosa tiene, si bien se mira, algo alucinante e hipnótico. Ante este fenómeno,
el más convencido racionalista se ve asaltado por una visión extraña y antigua; ve las grandes cosmogonías
escépticas de nuestra época como sueños que siguen las huellas de mil olvidadas herejías y cree por un momento
que los oscuros mensajes transmitidos a lo largo de dieciocho siglos pueden contener la semilla de revoluciones con
las que apenas hemos empezado a soñar. A esta escuela pertenecen sin duda los tolstoianos, a quienes, a grandes
rasgos, podemos describir como nuevos cuáqueros. Con su extraño optimismo y su casi terrible valentía lógica,
honran al cristianismo como ninguna ortodoxia lo honra. No puede menos de llamar la atención una revolución en la
que gobernantes y rebeldes marchan bajo la misma bandera. Sin embargo, la teoría de la no resistencia, con todas
sus teorías anejas, no se caracteriza, creo, por esa evidencia y necesidad intelectuales que sus partidarios le
suponen. A la vista tenemos un folleto en el que figuran mil afirmaciones sobre el Nuevo Testamento cuya veracidad
no es en absoluto tan llamativa como su seguridad. Para empezar, debemos protestar contra la costumbre de citar y
parafrasear al mismo tiempo. Cuando un hombre habla de lo que Jesús quiso decir, pidámosle que primero diga lo
que Jesús dijo, no lo que los hombres creen que habría dicho si se hubiera expresado con más claridad. He aquí el
ejemplo de una pregunta y una respuesta: Pregunta. ¿Cómo resumió nuestro Maestro la ley en unas palabras?
Respuesta. Sed misericordiosos, sed perfectos como vuestro Padre; vuestro Padre en el mundo de los espíritus es
misericordioso y es perfecto. A excepción de la abominable expresión moderna «el mundo de los espíritus», quizá no
haya nada en esas palabras que Cristo no hubiese podido decir; pero afirmar que hay constancia de que lo dijo es
como decir que la hay de que prefería las palmeras a los sicomoros. Es pura y simplemente mentira. El autor debería
saber que esas palabras han significado mil cosas para miles de personas, y que si sectas más antiguas las hubieran
parafraseado tan alegremente como él, nunca habría dispuesto del texto en el que funda su teoría. En un folleto en
el que no pueden figurar solas palabras claras y directas, no sorprende que haya falsedades o equivocaciones en
temas de mayor amplitud. He aquí una afirmación clara y filosóficamente enunciada que no podemos sino negar con
rotundidad: «El quinto mandamiento de nuestro Señor dice que debemos esforzarnos de manera muy particular por
cultivar hacia las gentes de países extranjeros y en general hacia quienes no son de los nuestros o incluso nos son
hostiles, los mismos sentimientos que tenemos hacia nuestra propia gente y hacia quienes nos son afines». Me
gustaría muchísimo saber en qué parte del Nuevo Testamento ha encontrado el autor esta quimérica e inmoral
proposición. Cristo no sentía lo mismo por todo el mundo. Específicamente se nos dice que había ciertas personas a
las él amaba de manera especial. Es más que improbable que sintiera por otras naciones lo que sentía por la suya. El
recuerdo de su país natal lo emocionaba, y su mayor elogio fue: «He aquí a un verdadero israelita».° El autor ha
confundido dos cosas enteramente distintas. Cristo nos mandaba amar a todos los hombres, pero aun amándolos
por igual, decir que debemos amarlos con el mismo amor es decir un disparate y querer confundir las cosas. La
impresión que nos causará una persona a la que de verdad amemos diferirá radicalmente de la que nos causará otra
a la que también amemos. Decir que debemos sentir lo mismo por ambas es tan sensato como preguntar a un
hombre si prefiere la velocidad o el tocino. Cristo no amaba a la humanidad, nunca dijo que la amara: amó a
hombres. Ni él ni nadie puede amar a la humanidad: es como amar a un ciempiés gigante. La razón de que los
tolstoianos conciban siquiera la posibilidad de un sentimiento equitativamente repartido, es que su amor a la
humanidad es un amor lógico, un amor que les mandan sus teorías, un amor que sería un insulto hasta para un gato
macho. Pero el mayor error de todos consiste en reducir las enseñanzas del Nuevo Testamento a cinco
mandamientos. Tan genial idea olvida la característica principal de la enseñanza: su absoluta espontaneidad. El
abismo entre Cristo y todos sus modernos exégetas es que él, que nos conste, nunca escribió una sola palabra,
excepto con su dedo en la arena. Lo demás es la historia de una continua y sublime conversación. Miles de
mandamientos se han deducido de ella antes de que los tolstoianos dedujeran los suyos, y mil más se deducirán
después. No por proclamaciones grandilocuentes, no por tiradas de rebuscados volúmenes impresos, sino por unas
cuantas palabras espléndidas y sencillas, se erigió la cruz en el Calvario, se abrió la tierra y el sol se oscureció al
mediodía.

Las fábulas- G.K. CHESTERTON


Las fábulas- G.K. CHESTERTON Título original: «Fairy tales»,en All Things Considered Traducción de Juan Manuel
Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/ Ciertas gentes graves y superficiales (pues
casi todas las personas superficiales son graves) han dicho que las fábulas son inmorales, fundándose en lances o
incidentes lamentables de la lucha entre zagales y gigantes, en los que los primeros urden engaños y aun bromas
poco plausibles. Sin embargo, la acusación no solo es falsa, sino exactamente contraria a la verdad. Las fábulas no
son solo morales en el sentido de inocentes, sino que lo son en el sentido de didácticas, de moralizantes. Muy bien
está hablar de la libertad del mundo de las fábulas, pero a juzgar por los mejores relatos oficiales, libertad hay muy
poca en ese mundo. El señor W.B. Yeats y otras almas sensibles, considerando que la vida moderna es casi la más
negra de las esclavitudes que jamás oprimieron al género humano (en lo que llevan mucha razón), describen el país
de las fábulas como un mundo de pura holganza y albedrío, en el que cada cual puede campar a sus anchas, como el
viento. La ciencia denuncia la idea de un Dios caprichoso; la escuela del señor Yeats mantiene que en ese mundo
cada cual es un dios caprichoso. El mismo Yeats ha hecho cien veces, en ese estilo literario triste y espléndido que lo
convierte en el primero de los poetas que hoy escriben en inglés (y no digo de los poetas ingleses porque los
irlandeses son muy dados al ataque físico),° ha hecho, digo, cien veces la pintura de la terrible libertad de las fábulas,
que representan la última anarquía del arte: Donde nadie se hace viejo, flaco ni sabio, donde nadie se hace viejo, pío
ni grave. Y, sin embargo (mucho me cuesta decirlo), dudo que el señor Yeats conozca la verdadera esencia de las
fábulas. El señor Yeats no es lo bastante simple, no es lo bastante estúpido. Yo, aunque no debería decirlo, le gano
en estupidez sana y humana. Yo gusto más a los duendes que el señor Yeats; a mí pueden engañarme mejor. Y tengo
mis dudas sobre si este concepto de los espíritus libres y montaraces se corresponde con el del espíritu simple del
folclore. Creo que los poetas se equivocan: como el mundo de las fábulas es más bonito y variado que el mundo real,
creen que también es menos moral; la verdad es que es más bonito y más variado porque es más moral.
Supongamos que un ser humano naciese en una prisión moderna. Es cosa imposible, lo sé, porque nada humano
puede ocurrir en una prisión moderna, aunque sí pudo ocurrir a veces en una antigua mazmorra; una prisión
moderna es siempre inhumana, incluso cuando no es infrahumana. Pero bien; supongamos que un hombre naciese
en una prisión moderna; supongamos que creciese habituado al silencio sepulcral y a la terrible indiferencia, y que
de pronto lo soltaran en medio de la animación y las risas de Fleet Street. Sin duda pensaría que los literarios
hombres de Fleet Street eran libres y felices; ¡mas qué triste, qué irónicamente es esto contrario a la verdad! Por lo
mismo, esos laboriosos siervos de Fleet Street, cuando se figuran a los duendes, se los figuran como seres libérrimos.
Pero, en esto como en muchas otras cosas, los duendes son como los periodistas; parecen seres llenos de encanto
que viven en un mundo anárquico, y demasiado exquisitos para condescender al feo deber de cada día. Pero no es
sino una ilusión, creada por la súbita gracia de su presencia. Los periodistas viven sujetos a leyes, lo mismo que el
mundo fabuloso.° Si leemos detenidamente las fábulas, veremos que hay una idea que las recorre todas: la idea de
que la paz y la felicidad solo pueden darse bajo ciertas condiciones. Esta noción, que es la clave de la ética, es la
clave de los cuentos infantiles. Toda la dicha del mundo fabuloso pende de un hilo, de un único hilo. Cenicienta
puede llevar un vestido tejido en telares prodigiosos y resplandecer de luz sobrenatural, pero ha de regresar antes
de que den las doce. El rey puede invitar al bautismo a los duendes, pero ha de invitarlos a todos o sucederán cosas
terribles. La mujer de Barbazul solo puede abrir una puerta entre todas. Incumplir la promesa hecha a un gato, o a
un enano amarillo, es poner el mundo patas arriba. Una muchacha puede ser la novia del mismísimo dios del Amor,
siempre que no lo vea; lo ve y él se desvanece. A una muchacha le dan una caja con la condición de que no la abra; la
abre y todos los males del mundo escapan. A un hombre y a una mujer los ponen en un jardín con la condición de
que no coman de un fruto; comen de ese fruto y pierden el derecho a disfrutar de todos los frutos de la tierra. Esta
gran idea, pues, es el pilar de todo folclore: la idea de que la felicidad depende de una prohibición; todo goce
positivo depende de uno negativo. Hay muchas ideas filosóficas y religiosas afines a esta o por esta simbolizadas,
pero ahora no voy a tratar de ellas. Lo que quiero dejar claro es que toda ética debe aprender de la fábula; que, si
uno olvida lo que se le ha prohibido, se arriesga a perder lo que se le ha dado. El hombre que incumple lo prometido
a su esposa debe recordar que, aunque ella sea un gato, el gato de la fábula enseña que su comportamiento es
temerario. El ladrón que va a abrir una caja fuerte debe recordar que puede pasarle lo mismo que a Pandora: que si
abre la tapa prohibida podrá dejar sueltos males desconocidos. El chaval que come una manzana del árbol ajeno
debe saber que se halla en un momento místico de su vida, en el que una manzana puede costarle todas las
manzanas. Esta es la profunda moral de los cuentos fantásticos: que, lejos de carecer de ley, apuntan a la raíz de
toda ley. En vez de buscar un fundamento racional para cada uno de los mandamientos (como hacen los libros de
ética corrientes), buscan el gran fundamento místico de todos los mandamientos. Estamos en este mundo fabuloso a
regañadientes; no nos corresponde a nosotros cuestionar las condiciones bajo las cuales disfrutamos de esta extraña
visión del mundo. Las prohibiciones son tremendas, pero también lo son las concesiones. La idea de la propiedad, la
idea de unas manzanas ajenas, son ideas peregrinas; pero no lo es menos la de que haya manzanas. Resulta extraño
que no pueda beberme diez botellas de champaña sin que me pase nada; pero no menos extraño es el champaña
mismo, bien mirado. Si he bebido la bebida de los duendes, no es sino porque debo beber conforme a las leyes de
los duendes. Quizá no veamos el nexo lógico y directo entre tres preciosas cucharas de plata y un policía gordo y feo,
mas ¿quién, en los cuentos fabulosos, ve el nexo lógico y directo entre tres osos y un gigante, o entre una rosa y una
bestia gruñidora? No es solo que las fábulas puedan disfrutarse porque son morales, sino que la moral puede
disfrutarse porque nos coloca en el mundo de las fábulas, mundo lleno a la vez de lucha y de maravilla.

El caso Zola- G.K. CHESTERTON


El caso Zola- G.K. CHESTERTON Título original: «The Zola controversy»,en All Things Considered Traducción de Juan
Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/ La coincidencia de estar en estos
momentos Francia e Inglaterra debatiendo la oportunidad de erigir un monumento a un literato puede ilustrar la
diferencia entre dos grandes ciudades. Francia está considerando la conmemoración del difunto Zola; Inglaterra, la
del recientemente fallecido Shakspere.°El tiempo transcurrido tiene ya cierta significación nacional. Podrá parecer
una muestra de impaciencia y falta de delicadeza este temprano ataque a Zola o esta deificación de él; pero también
la nación que ha estado cruzada de brazos trescientos años desde la muerte de Shakspere puede haber llevado la
delicadeza demasiado lejos. Con todo, hay en juego cosas más profundas que una simple cuestión de tiempo. La
diferencia fundamental es que los franceses están debatiendo si habrá o no monumento, mientras que los ingleses
debaten qué monumento habrá. Es decir, los franceses están debatiendo una cuestión viva, y nosotros una cuestión
muerta. O, más que muerta, resuelta, lo que es muy diferente. Cuando una cuestión de orden intelectual queda
resuelta, no está muerta: antes bien, es inmortal. La tabla de multiplicar es inmortal, e inmortal es la fama de
Shakspere. En cambio, la fama de Zola no está muerta ni es inmortal; está en tela de juicio, está puesta en la balanza,
y es posible que se le niegue. Tienen razón, pues, los franceses en considerarla una cuestión viva. Está viva porque
aún no ha sido resuelta. La de Shakspere, por el contrario, no es una cuestión viva: es una respuesta viva. Por mi
parte, creo que la controversia francesa en torno al caso Zola es mucho más práctica y excitante que la controversia
inglesa en torno al caso Shakspere. La admisión de Zola en el Panteón puede considerarse un modo de determinar la
posición de Zola. Pero nadie dirá que una estatua de Shakspere, aunque mida cuatro metros y se la coloque en lo
alto de la catedral de San Pablo, determina la posición de Shakspere. Lo que determina es nuestra posición con
respecto a él. Él está fijo; nosotros nos movemos. Lo más parecido al caso Zola entre nosotros sería proponer que un
autor controvertido y repulsivo reposara junto a los restos de los grandes poetas ingleses. Verbigracia, que se
quisiera enterrar al señor Rudyard Kipling en la abadía de Westminster. Yo estaría en contra, primero porque el
señor Rudyard Kipling está vivo (y creo que él mismo convendría en lo justo de mi protesta), y segundo porque me
gustaría que ese espacio rápidamente menguante se reservara para las grandes figuras perdurables de la literatura
inglesa, no para los advenedizos momentáneamente interesantes. No querría en la abadía de Westminster ni al
señor Kipling ni al señor Moore, por mucho que el primero haya captado mejor que el segundo la crueldad fría y
lúcida del cuento corto francés. Estoy segurísimo de que Geoffrey Chaucer y Joseph Addison están muy bien juntos
en el Rincón de los Poetas, pese a los siglos que los separan.° Sin embargo, creo que el señor George Moore sería
mucho más feliz en Père-Lachaise, con una turbulenta estatua de Rodin coronando su tumba, y el señor Kipling
descansaría más contento bajo algún enorme monumento asiático, esculpido con todas las crueldades de los dioses.
En cuanto al monumento a Shakspere, digamos que cada pueblo tiene su propio estilo conmemorativo, y pienso que
a favor del nuestro hay mucho que decir. El estilo monumental francés consiste en erigir estatuas pomposísimas,
muy bien hechas. El estilo monumental alemán consiste en erigir estatuas pomposísimas, muy mal hechas. Y el estilo
monumental inglés, el gran estilo estatuario inglés, consiste en no erigir estatua alguna. Una estatua puede o no ser
digna, pero su ausencia siempre lo es. Y el hecho de que no haya una estatua de Shakspere es, creo yo, algo
edificantemente simbólico que dice mucho sobre la nación inglesa. Cierto es que hay una en Leicester Square, pero
el sitio en el que fue emplazada demuestra que la erigió un extranjero para extranjeros.° Hay sin duda algo modesto
y viril en el hecho de renunciar a expresar a nuestros más grandes poetas en las artes plásticas en las que no
destacaron. Honramos a Shakspere como los judíos honran a Dios: no atreviéndonos a esculpir su imagen. Nuestra
escultura, nuestras estatuas, van bien para banqueros y filántropos, que son nuestra maldición, no para él, que es
nuestra bendición. ¿Por qué celebrar el arte en el que triunfamos con el arte en el que fracasamos? A Inglaterra se la
comprende mejor cuando se piensa que es un país de aficionados. Es sobre todo un país de soldados aficionados (los
voluntarios), de políticos aficionados (los aristócratas), y no sería insensato ni inconveniente pensar que es sobre
todo un país que ve la literatura con ojos desatentos y perezosos. Shakspere no tiene un monumento académico por
la misma razón que no tiene una educación académica. Sabía poco latín y menos griego, y (en el mismo espíritu)
nunca ha sido conmemorado en epitafios latinos ni en mármol griego. Si no hay nada claro y fijo en los emblemas de
su fama, es porque no hay nada claro y fijo en los orígenes de ella. Los grandes colegios y universidades que
observan a un hombre en su juventud pueden registrarlo en su muerte; pero Shakspere no tuvo estas unificadoras
tradiciones. Lo único que podemos decir de él es lo que podemos decir de Dickens: que no vino de parte alguna y a
todas partes fue. Un monumento suyo estaría fuera de lugar en cualquier lugar. Una fría estatua en esta o aquella
plaza le convendría tan poco como a Dickens. Si mañana erigiéramos una estatua a Dickens en Portland Place,
sentiríamos la rigidez poco natural. Temeríamos que por la noche la estatua se echase a pasear por la calle. En
Francia, en cambio, plantearse si Zola debe o no ir al Panteón ahora que está muerto es tan posible como plantearse
si debió o no ir a prisión cuando estaba vivo. La cuestión es qué manera de pensar adoptará la nación. Erigir un
monumento a Zola no es solo erigir un trofeo; es también señalarse con el dedo. Es una cuestión que deberán
resolver la mayoría de los países europeos; pero, como en tales cuestiones, primero se ha planteado en Francia
porque Francia es el campo de batalla del cristianismo. A grosso modo, la cuestión es la siguiente: si en ese mal
delimitado terreno de la licencia verbal en temas escabrosos es una atenuación o una agravación de la falta de
delicadeza el que sea deliberada y solemne. ¿Es la indecencia más indecente cuando es seria o cuando es alegre? Por
mi parte, confieso que en esta cuestión soy de la vieja escuela. Cuando un libro o una obra de teatro me parecen un
crimen, no me tranquiliza que me digan que es un crimen serio. Si un hombre escribe algo horrible, no me consuela
que me expliquen que es lo que quería hacer. Conozco todos los males de la frivolidad, no me gustan los que se ríen
de la virtud. Pero los prefiero a los que lloran ante ella y se quejan amargamente de que exista. Cuando la moral es
tan salvaje como el canibalismo, no me tranquiliza el que sea también tan seria y sincera como el suicidio. Y creo que
es claramente engañoso el violento contraste que algunos modernos ven entre la aversión del público al drama de
IbsenFantasmas y la popularidad de comedias como Dear Old Charlie. No quepa duda de que nada misterioso o poco
filosófico hay en la preferencia popular. La comedia Dear Old Charlie tiene aceptación... porque es una comedia. El
drama Fantasmas es exorcizado... porque son fantasmas. En esto consiste ni más ni menos la cuestión de Zola. Yo
soy un adulto y la inmoralidad de este escritor me trae sin cuidado. Lo que no soporto es su moralidad. Si hubo
alguien en el mundo que encarnara la terrible frase: «Pues si la luz que hay en ti son tinieblas, ¡cuántas tinieblas
habrá!»,° ese alguien fue sin duda él. Grandes hombres como Ariosto, Rabelais y Shakspere incurren en lugares
inmundos, flaquean con pecados violentos, pero veniales, se revuelcan a lo largo de páginas en su enorme debilidad,
son sucios, son indefendibles; pero luego se yerguen de nuevo y siguen hablando con cordialidad convincente y
honor intacto sobre lo mejor que hay en el mundo: Rabelais, sobre la instrucción de la fogosa y austera juventud;
Ariosto, sobre la caballería sagrada; Shakspere, sobre la paz maravillosa de la piedad. Pero en Zola incluso los ideales
son indeseables; la piedad de Zola es más fría que la justicia... mejor dicho, la piedad de Zola es más amarga que la
justicia. Cuando Zola nos da una lección, no nos lleva, como Rabelais, al feliz terreno de la enseñanza humanista. Nos
lleva a la escuela de la enseñanza inhumana, donde no hay libros ni flores, vino ni sabiduría, sino solo deformidades
en botellas de cristal, y donde la norma se enseña por las excepciones. La verdad para Zola consiste en describir con
exactitud el esqueleto del armario, es decir, algo que la costumbre doméstica prohíbe descubrir, pero que está
muerto incluso cuando lo descubre. Decía Macaulay que los puritanos odiaban las peleas de perros y osos no porque
infligiesen dolor al oso, sino porque daban placer al espectador.° Así es este puritano que perdió a su Dios. Un
puritano como él es peor que el puritano que odia el placer porque es malo. Este hombre odia el mal porque es
placentero. Zola es peor que un pornógrafo, es un pesimista. Hizo algo peor que estimular el pecado: estimuló el
desconsuelo. Hizo odiosa la lujuria porque para él la lujuria era la vida.

Charlotte Brontë- G.K.CHESTERTON


Charlotte Brontë- G.K.CHESTERTON Título original: «Charlotte Brontë», en Twelve Types Traducción de Juan Manuel
Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/ Una objeción corriente que se hace a la
biografía realista es que revela cosas importantes y aun sagradas de la vida de una persona. La verdadera objeción es
más bien que revela lo que menos importa. Revela, explica y repite precisamente aquellas circunstancias de la vida
de una persona que ella misma menos presente tiene: su clase social, la vida y milagros de sus antepasados, su
actual paradero. En rigor, este tipo de cosas no están a la vista, no son cosas que tengamos en mente ni –podemos
decir casi con la misma seguridad– tampoco en la vida. Nadie piensa más en sí mismo como el que vive en la tercera
casa de cierta calle de Brixton, que como un curioso animal bípedo. Cómo se llamaba una persona, cuánto ganaba,
con quién estaba casada, dónde vivía, no son cosas sacrosantas; son cosas irrelevantes. El caso de las hermanas
Brontë es en este sentido ejemplar. Charlotte Brontë es la típica loca del pueblo; sus excentricidades dan inagotable
pábulo a la inocente conversación de esos plácidos y bucólicos tertulianos que son los literatos. Los cotillas literarios
como Augustine Birrell y Andrew Lang, por otro lado encantadores, no se cansan de coleccionar cuanto vislumbre,
anécdota, sermón, comentario y curiosidad podrán constituir un museo Brontë. De todos los autores victorianos,
ellas son de las que más se habla en términos personales, y el foco de la biografía ha dejado muy pocos rincones
oscuros de la vieja casa oscura de Yorkshire.° Y, sin embargo, toda esta investigación biográfica, con ser natural y
pintoresca, se compadece mal con las hermanas Brontë. Pues el genio de ellas consistía sobre todo en afirmar la
suprema irrelevancia de lo aparente. Hasta entonces se había supuesto que la verdad existía más o menos en la
novela de costumbres. Charlotte Brontë asombra al mundo demostrando que una novela en la que nadie, ni bueno
ni malo, tiene costumbre alguna, puede transmitir una verdad infinitamente más antigua y elemental. Su obra
representa la primera gran afirmación de que la monótona vida de la civilización moderna puede ser tan postiza y
engañosa como un traje de disfraces. Charlotte demostró que en el alma de una institutriz puede haber abismos, y
eternidades en la de un fabricante; su heroína es una típica solterona, con vestido de lana merina y un alma llena de
fuego. Significativamente, fue la primera que, siguiendo de manera consciente o inconsciente el impulso de su genio,
despojó a la protagonista no solo del oro y los diamantes artificiales de la riqueza y la moda, sino incluso del oro y los
diamantes naturales de la belleza física y la gracia. Sintió instintivamente que había que hacer feo todo lo exterior
para poder hacer sublime todo lo interior. Eligió a la más fea de las mujeres en el más feo de los siglos, para revelar
dentro de una y de otro los infiernos y los cielos de Dante. Creo, pues, que puede decirse legítimamente que la vida
exterior de Brontë, con ser en sí misma muy pintoresca, es menos relevante que la de casi cualquier otro escritor.
Nos interesa saber si Jane Austen conocía la vida de los oficiales y las mujeres elegantes que figuran en sus obras; si
Dickens vio algún naufragio o pisó alguna vez un asilo de pobres. Nos interesa porque gran parte de la convicción
que estos autores transmiten se debe, más que a su fidelidad a la realidad, a su conocimiento de ella. Pero en el caso
de Brontë, todo el sentido y la razón de ser de su obra es mostrar que la cosa más insignificante del mundo es
auténtica. La historia deJane Eyre es tan monstruosa que no puede ser confundida con una fábula o un cuento de
hadas. Los personajes no hacen lo que deberían hacer, ni lo que podrían hacer, ni tan siquiera –nos es lícito decir, en
vista de lo demencial del mundo que los rodea– lo que quieren hacer. El comportamiento de Rochester es tan
primitiva e inhumanamente bárbaro que la admirable parodia de Bret Harte apenas lo exagera.° Una escena como la
descrita con estas palabras: «Y entonces, con sus maneras de siempre, me arrojó las botas a la cabeza y se fue»,
tiene mucho de caricaturesca. Y algo parecido a aquella en la que Rochester se viste como un viejo gitano
difícilmente se encontrará en ninguna otra rama del arte, salvo en la de la comedia, en la que vemos al emperador
convertido en un payaso. Sin embargo, pese a ese mundo de pesadilla, ilusión, locura e ignorancia, Jane Eyre es
quizá el libro más verdadero que jamás se haya escrito. Su esencial fidelidad a la vida nos permite respirar. No
fidelidad a las apariencias, que son siempre falsas, ni a los hechos, que casi siempre son falsos, sino fidelidad a lo
único verdadero, al mínimo irreductible, al germen indestructible: la emoción. Poco importaría que una historia de
Brontë fuera cien veces más lunática e inverosímil que Jane Eyre, o cien veces más lunática e inverosímil que
Cumbres borrascosas. Poco importaría que George Read caminara con la cabeza y la señora Read cabalgase un
dragón, que Fairfax Rochester tuviera cuatro ojos y St John Rivers tres piernas: seguiría siendo la historia más
verdadera del mundo. Es más, el típico personaje de Brontë es una especie de monstruo, en el que todo menos lo
esencial está deformado: tiene las manos en las piernas, los pies en los brazos y la nariz en la frente, pero el corazón
está en su sitio. La grande y perdurable verdad que la obra de Brontë representa es una verdad importantísima que
tiene que ver con el eterno espíritu juvenil: la de la íntima relación entre el terror y la alegría. La protagonista de
Brontë, desharrapada, sin instrucción, víctima de una inexperiencia que la humilla y de una especie de fatídica
inocencia, es capaz, en virtud de su misma soledad y tosquedad, de sentir el mayor goce que le es dado sentir a un
ser humano: el goce de la esperanza, el goce de una ignorancia radiante y apasionada. Su figura demuestra cuán
falso es creer que el placer consiste en vestir con elegancia todas las noches e ir al teatro todos los estrenos. No es el
hedonista quien sabe lo que es el placer; no es el hombre de mundo quien aprecia el mundo. El hombre que ha
aprendido a hacer todo lo convencional de manera perfecta, ha aprendido también a hacerlo de manera prosaica. Es
el hombre rústico, al que no le sientan bien los trajes elegantes, al que no le entran los guantes, el que no sabe hacer
cumplidos, quien de verdad es capaz de sentir el antiguo éxtasis de la juventud. Teme lo bastante a la sociedad como
para disfrutar de sus propios triunfos. Posee esa capacidad de miedo que es uno de los ingredientes eternos de la
dicha. Este es el espíritu que anima la novela de Brontë, la épica del júbilo del hombre temeroso. Y por eso es de un
valor incalculable en nuestro tiempo, cuya maldición es no poder gozar con reverencia por no poder gozar con
miedo. La discreta y mal vestida institutriz de Charlotte Brontë, con sus miras estrechas y sus creencias estrechas,
sabe más de las pavorosas y elementales fuerzas del universo que mil rebeldes poetas menores. Ella contempla el
mundo con verdadera sencillez y, en consecuencia, con auténtico miedo y con auténtica fruición. Teme, por decirlo
así, la legión de las estrellas, y esto le infunde la única fuerza que puede impedir que la alegría se vuelva tan gris y
árida como la rutina. La capacidad de tener miedo es el primero y más delicado de los poderes del deleite. El miedo
de Dios es el principio del placer. En general, pues, creo que puede decirse que la juventud oscura y asilvestrada de
las hermanas Brontë en su oscuro y asilvestrado hogar de Yorkshire ha sido un tanto exagerada como factor
necesario en su obra y en su visión del mundo. La emociones que ellas trataron son emociones universales,
emociones de la aurora de la existencia, la alegría y el terror juveniles. Todos hemos tenido de críos pesadillas de
obstáculos insuperables y amenazas terribles en las que sentimos, bajo mil formas tontas, toda la angustia y el
pánico deCumbres borrascosas. Todos hemos soñado despiertos con un futuro que no era un ápice más razonable
que el de Jane Eyre. Y la verdad que las hermanas Brontë vienen a decirnos es que el amor no lo apaga toda el agua
del mundo, ni un secreto entusiasmo toda la respetabilidad provinciana. Clapham, como cualquier otra ciudad del
mundo, está construida sobre un volcán. Miles de personas van y vienen por una jungla de cemento y ladrillos,
ganan sueldos mezquinos, profesan credos mezquinos, visten ropas mezquinas, miles de mujeres que jamás han
hallado otro modo de expresar su exaltación o su tragedia que trabajando cada vez más duro en empleos tristes y
rutinarios, regañando a niños, cosiendo camisas. Hasta que de pronto, entre tanta gente silenciosa, alguien alza la
voz para dar testimonio de lo que ve, y ese alguien se llama Charlotte Brontë. La gran ciudad extiende a nuestro
alrededor sus interminables tentáculos como una inmensa figura geométrica, y hay veces en que creemos
enloquecer, si no lo estamos ya, ante la multiplicidad de sus espantosas perspectivas, la suma demencial de su
innumerable población. Pero esta impresión es falsa. No hay montones de casas, no hay masas de hombres. El
colosal diagrama de calles y casas no es sino una ilusión, el sueño alucinado de un constructor especulativo. Todas y
cada una de esas personas están supremamente solas y son supremamente importantes para sí mismas. Todas y
cada una de esas casas son el centro del mundo. No hay una sola de esos millones de casas que no haya parecido
alguna vez a alguna persona el centro de todas las cosas y la meta del viaje.

Caricatura y presunción- G.K.CHESTERTON


Caricatura y presunción- G.K.CHESTERTON

Título original: «Conceit and caricature», en All Things Considered

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

Si no tenemos más remedio que presumir, mejor será que sea de talentos o méritos que no tengamos. Porque
entonces nuestra vanidad será superficial, un simple error, como el de quien cree tener sangre real o un sistema
infalible para ganar en Montecarlo. Como no son méritos reales, no corromperán ni desvirtuarán nuestros méritos
reales. Y aunque presumamos de virtudes que no tenemos, siempre podremos ser humildes con las que sí tenemos.
Las cualidades que de verdad nos honran conservarán su inocencia original, porque no podremos verlas ni viciarlas.
Que se nos haya metido en la cabeza que somos grandes violinistas no tiene por qué impedir que seamos unos
caballeros. Pero si nos creemos mucho que somos unos caballeros, seguro que pronto dejamos de serlo. Hay, sin
embargo, un tercer género de satisfacción que no es ni orgullo por virtudes que tenemos ni orgullo por virtudes que
no tenemos, del que últimamente he conocido un par de ejemplos. Y es la satisfacción que se siente por poseer o no
poseer ciertas cualidades sin preguntarnos si eso constituye una virtud. Podemos felicitarnos por no ser malos en un
determinado sentido, cuando la verdad es que no lo somos en ese sentido porque no somos lo bastante buenos.
Dirá algún gazmoño cleriguillo: «Tengo razones para congratularme de ser una persona civilizada y no tan
sanguinaria como el Mad Mullah».° Y alguien tendría que decirle: «Un hombre realmente bueno sería menos
sanguinario que el Mullah. Pero si es usted menos sanguinario que él, no es porque sea mejor hombre, sino porque
es mucho menos que un hombre. No es sanguinario porque perdone a su enemigo, sino porque huiría de él». Por lo
mismo, dirá algún puritano de árida piedad: «Tengo razones para jactarme de no adorar ídolos como los infieles
griegos antiguos». Y alguien tendría también que decirle: «Quizá la mejor religión no adore ídolos, pues ve más allá
de ellos. Pero si usted no adora ídolos, es solo por ser moral y mentalmente incapaz de esculpirlos. Quizá la religión
esté por encima de la idolatría. Pero usted está por debajo de la idolatría. No es usted lo bastante santo ni aun para
adorar un trozo de piedra». El señor F.C. Gould, el brillante y feliz caricaturista, ha hablado hace poco sobre la
naturaleza y estado actuales del arte de la caricatura inglés. Hay pocos motivos para el orgullo; seguramente el
mayor es el mismo F.C. Gould. Pero el señor F.C. Gould, impedido por modestia de aducir esta excelente causa de
optimismo, recurrió a decir algo que ha dicho mucha más gente, pero que tal vez nadie con la autoridad de un
eminente dibujante ha dicho últimamente. Declaró que creía «que podíamos felicitarnos de que el estilo de
caricatura que hoy gustaba era muy diferente del de las sátiras de antes». «Si volvemos la vista atrás», dice, según
cita el periódico, «y observamos las sátiras políticas de la época de Rowlandson y Gilray,° nos parecerán groseras y
brutales. En algunos países, incluso en América, la caricatura política era del tipo de la porra. Y la verdad es que
hemos superado la época de la porra. Si eran brutales atacando a una persona, incluso por razones políticas,
despertaban simpatía por esa persona. Lo que tenían que hacer era masajear el punto que querían destacar lo más
suavemente posible.» (Risas y aplausos.) Los que lean estas palabras, y todos los que las oyeron, pensarán sin duda
que están llenas de verdad, así como de genialidad. Pero con esa verdad y esa genialidad corre pajeras el falso
optimismo basado en la falacia de la que he hablado antes. Antes de felicitarnos por que nuestra nación o sociedad
carezca de ciertas faltas, debemos preguntarnos por qué carece de ellas. ¿Es porque tenemos las virtudes opuestas,
o porque tenemos las faltas opuestas? Bien está ser inocente de todo exceso; pero asegurémonos de que no somos
inocentes de exceso simplemente porque somos culpables de defecto. ¿De verdad es nuestra sátira política tan
moderada porque es magnánima, misericordiosa, santa? ¿Porque está penetrada de caridad mística, de ternura
psicológica? Si evitamos herir los sentimientos del ministro, ¿es porque a través de sus aparentes crímenes y
desmanes calamos las oscuras virtudes que su misma alma ignora? ¿Debemos ser suaves con el líder de la oposición
porque con nuestro grandísimo corazón comprendemos y apreciamos su ánimo esforzado? En suma, ¿hemos dejado
de ser brutales porque somos generosos y magnánimos? ¿Somos de verdadmejores que la brutalidad? ¿Hemos
pasado la época de la porra? Temo que hay, cuando menos, otro aspecto del asunto. ¿No es más que probable que
la lenidad de nuestra sátira política, comparada con la de nuestros mayores, se deba simplemente a la profunda falta
de realidad de nuestra actual política? Rowlandson y Gilray no luchaban simplemente porque eran groseros y
pendencieros por naturaleza, sino porque tenían algo por lo que luchar; es muy fácil ser refinados en cosas que no
importan; pero los hombres pataleaban y a veces caían en ese portentoso combate en el que se tambaleaban,
aturdidas por igual ante el peligro, la independencia de Inglaterra, la independencia de Irlanda, la independencia de
Francia. Si queremos una prueba de que la falta de refinamiento no deriva solamente de la brutalidad, la prueba es
fácil. La prueba es que en aquella lucha fueron las personalidades más refinadas las que se mostraron más brutales.
Nadie fue más violento e intolerante que los que por naturaleza eran educados y sensibles. Nelson, por ejemplo,
tenía el temperamento y las buenas maneras de una mujer: supongo que nadie en su sano juicio lo calificaría de
«brutal». Pero cuando le tocaban la cuestión nacional, prorrumpía en juramentos y lo único que podía decir era:
«Muerte, muerte, muerte a los malditos franceses». Igual de fácil sería poner ejemplos en el otro bando. Camille
Desmoulins era una persona por el estilo, no solo elegante y afable de carácter, sino casi nerviosamente tímido y
compasivo. Pero estaba dispuesto, decía, «a pasar por encima de un montón de cadáveres para abrazar la libertad».
En Irlanda hubo incluso más casos. Robert Emmet fue solo un ejemplo famoso de toda una familia a la vez delicada y
brutal. Creo que el señor F.C. Gould se equivoca por completo al hablar de esta ferocidad política como si fuera un
vestigio de épocas más duras, como un hacha de sílex o un hombre peludo. La crueldad es quizá el peor de los
pecados. La crueldad intelectual es sin duda la peor de las crueldades. Pero no hay nada bárbaro o ignorante en ella.
Los grandes artistas del Renacimiento que mezclaron pigmentos exquisitamente, mezclaron venenos no menos
exquisitamente; los grandes príncipes del Renacimiento que diseñaron instrumentos musicales diseñaron también
instrumentos de tortura. La brutalidad, la maldad, el deseo de herir al prójimo, son cosas malas que se engendran en
ambientes de intensa realidad, en los que grandes naciones o grandes causas están en guerra. Quizá nos es lícito
alegrarnos de no ser brutales, malos o crueles, pero también es peligroso enorgullecernos. Quizá es que no somos lo
bastante grandes para serlo. Quizá algunas grandes virtudes deben engendrarse, al igual que en hombres como
Nelson o Emmet, antes de que podamos tener esos vicios, ni aun como tentaciones. Por mi parte, creo que si
nuestros caricaturistas no odian a sus enemigos, no es porque sean demasiado grandes para odiarlos, sino porque
no lo son sus enemigos. No creo que hayan pasado los tiempos de la porra. Creo que no hemos llegado a ellos.
Debemos ser mejores, más valientes y más puros antes de llegar. Sintámonos, pues, todo lo orgullosos que
queramos de las virtudes que no tenemos, pero no nos ufanemos demasiado de las virtudes que no podemos evitar
tener. Puede que un hombre que viva en una isla desierta tenga derecho a felicitarse por poder meditar tranquilo.
Pero no debe felicitarse por estar en una isla desierta y al mismo tiempo por el dominio de sí que demuestra al no
irse de fiesta todas las noches. Por lo mismo, la Inglaterra de hoy puede tener derecho a felicitarse por lo tranquila,
cordial y monótona que es nuestra política, pero no por eso y a la vez por el dominio de sí que demuestra no
tirándose a sí misma y a los ciudadanos los trastos a la cabeza. Entre dos consejeros reales, el lenguaje educado es
una muestra de cortesía, no realmente de magnanimidad. Unida a esta cuestión va otra de la que muy a menudo
presumen los británicos ilusos, a saber, la de que nuestros políticos se llevan muy bien en privado, pese a ocupar en
el parlamento escaños opuestos. Tampoco en este caso hay que hacerse ilusiones. Nuestros políticos no son
monstruos de mística generosidad y lógica demente, capaces de odiar a una persona de tres a doce y de amarla de
doce a tres. Si las relaciones sociales de nuestros políticos son más pacíficas que las de los políticos franceses,
americanos o de la Inglaterra de hace un siglo, no es sino porque nuestros políticos son más pacíficos, y
probablemente también porque son más falsos. Si nuestros políticos congenian más en privado, es por la sencilla
razón de que congenian más en público. Y la razón de que congenien tanto en privado como en público es que
pertenecen a la misma clase social, y por tanto la vida de sociedad coincide con la privada. Conservadores y liberales
se llevan bien no porque sean más expansivos, sino porque son más exclusivos.

El mártir moderno-G.K.CHESTERTON
El mártir moderno-G.K.CHESTERTON

Título original: «The modern martyr»,en All Things Considered

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/


El incidente de las sufragistas que se encadenaron a la verja de Downing Street constituye una buena alegoría irónica
de lo que es el martirio moderno, el cual suele consistir en encadenarnos para quejarnos de que no somos libres.
Unos dicen que estos numeritos retardan la causa del sufragio femenino, otros que son lo único que la hace avanzar.
Hablando en puridad, no creo que tengan el menor efecto ni en un sentido ni en el otro.

La idea moderna de llamar la atención con simples demostraciones de impopularidad, como hacer que nos echen de
un mitin o una asamblea o nos metan en la cárcel, es un gran error. Se funda en una falacia que tiene que ver con el
verdadero sentido popular del martirio. La gente mira a la historia y ve que muchas veces las persecuciones no solo
han dado publicidad a una creencia perseguida sino que hasta la han hecho progresar, dando de su validez el
horrible y público testimonio de hombres moribundos. Esta paradoja supo expresarla pictóricamente el arte
cristiano, representando a los santos que blanden como armas los instrumentos con los que fueron martirizados. Y
como su martirio es arma para el mártir, hoy día pensamos que cualquiera que cause alguna que otra molestia en
público se volverá al instante clamorosamente popular. Este tipo de martirio mal entendido no es exclusivo de las
sufragistas; lo practican muchos movimientos que respeto y algunos que apruebo. Existió, por ejemplo, en el de los
Resistentes Pasivos, parte de cuyos bienes fueron puestos en venta. La idea es que si uno muestra sus ideas (o
incluso sus ambiciones políticas) siendo una molestia para sí mismo y para el prójimo, adquirirá la fuerza de los
grandes santos que murieron en el rogo. Cualquiera al que empujen cinco minutos en un vestíbulo o pase cinco días
en la cárcel habrá realizado lo que se entiende por martirio y se habrá ganado la aureola en el arte cristiano del
futuro. La señora Pankhurst será representada con un policía en cada mano, los instrumentos de su martirio. El
resistente pasivo será representado cargando con la tetera que le arrebataron unos subastadores tiránicos.°

Pero hay una falacia en esta analogía del martirio, pues el especial carisma que confiere el ser perseguido solo se da
en caso de persecución extrema. Lo único que demuestra el entusiasta moderno que pasa alguna incomodidad por
sus creencias o ideas es que las tiene, de lo cual nadie dudaba. Nadie duda de que al apóstol del inconformismo le
importa más el inconformismo que su tetera. Nadie duda de que la señora Pankhurst desea más poder votar que
pasar una tarde tranquila sentada en un sillón. Todas nuestras opiniones merecen que nos peleemos un poco por
ellas: recuerdo que durante la guerra de los bóers, un día, a la salida de Queen’s Hall, reñí con un oficinista partidario
del imperio, y le reventé y me reventó la nariz; pero dudo de que este incidente pueda causar el mismo efecto
psicológico que el que causaba el anfiteatro romano o la hoguera. Porque lo que de verdad impresiona no es el
hecho de que un hombre sacrifique su tiempo y su comodidad por defender lo que piensa. El martirio de los
cristianos no impresionaba a los paganos simplemente porque demostraba lo convencidos que estaban de sus
creencias. El caso del martirio extremo es mucho más sutil. Es que da la impresión de que al mártir lo respalda algo
especialmente fuerte, de que está poseído por algún poder. Mas esto solo ocurre cuando su integridad física es
destruida, cuando todas las fibras de su cuerpo se retuercen de dolor. Si vemos a un hombre tronchándose de risa
mientras lo despellejan vivo, con buen acuerdo podremos deducir que en algún rincón de su mente está pensando
en algún buen chiste. Análogamente, los espectadores que veían reír y cantar (como reían y cantaban) a unos
hombres a los que estaban escaldando o despedazando, creían en la existencia de algo que no era simple honestidad
intelectual: creían en la existencia de un placer nuevo e ininteligible que, era de presumir, venía de algún sitio. Podía
ser la fuerza de la locura, o un falso espíritu infernal, pero era algo efectivo y extraordinario, tan efectivo como el
brandy y tan extraordinario como la prestidigitación. El pagano se decía: «Si el cristianismo hace feliz a un hombre al
que un león come las piernas, ¿no podría hacerme feliz a mí, que me paseo tranquilamente con mis dos piernas
intactas?». Los laicistas se empeñan en explicar que el martirio no prueba la verdad de una fe, como si hubiera
alguien tan necio que lo pensara. Lo que el martirio probaba o, mejor dicho, daba a entender poderosamente, era
que en la psicología humana había entrado algo más fuerte que el más fuerte de los dolores. Cuando lo único que
veía una joven a la que azotaban hasta matarla era una corona que descendía del cielo hacia ella, lo primero que se
pensaba no era que sus creencias fuesen verdaderas, sino que de algún sitio sacaba su fuerza. Esta es la impresión
psicológica que no inspiran ni de lejos los actuales casos de incomodidad o molestia públicamente exhibidas. La
alegría de la señora Pankhurst no requiere explicaciones místicas. Si estuvieran quemándola viva como a una bruja y,
en puro éxtasis, alzase la vista al cielo y viese descender una urna, entonces diría que el incidente, si no concluyente,
sí sería tremendamente impresionante. No demostraría su derecho a votar, ni el derecho a votar de nadie, pero sería
prueba de que en el voto había algo sacramental, algo de lo que el alma podía sacar una fuerza y un placer efectivos
e intensos, capaces de oponerse al dolor efectivo y abrumador.
Aconsejo, pues, a los agitadores modernos que abandonen este método: el método de hacer grandísimos esfuerzos
para ganarse pequeñísimos castigos. Así no pasarán a la historia, se lo aseguro; el castigo es demasiado leve, los
esfuerzos son demasiado obvios. Sus sacrificios no tienen la efectividad de los crueles martirios antiguos, porque no
dejan a la víctima absolutamente sola con su causa, de manera que esta sea lo único que la sostiene. Al mismo
tiempo tienen ese elemento de pantomima y absurdo que fue lo más cruel en la muerte y escarnio de los verdaderos
profetas. San Pedro fue crucificado boca abajo por una broma inhumana; pero su humana seriedad sobrevivió a la
inhumana befa, porque en cualquier postura habría muerto por su fe. Los mártires modernos como la señora
Pankhurst se exponen a caer en el absurdo sin sufrir lo bastante para eclipsar la absurdidad. Son como san Pedros
que se pusieran cabeza abajo diez segundos y esperaran luego que los canonizasen.°

También podemos plantear la cuestión así: los martirios modernos fracasan incluso como demostración, porque ni
siquiera demuestran que los mártires sean completamente serios. Yo pienso que los mártires modernos sí son por lo
general serios, incluso demasiado serios, pero que su martirio no lo demuestra, y el público no siempre los cree. No
cabe duda de que el doctor Clifford está muy sinceramente indignado por lo que él considera clericalismo, pero no lo
demuestra haciendo que le subasten la tetera; porque uno puede querer que le subasten la tetera como una actriz
que le roben los diamantes: por propaganda personal. Es verdad que la señora Pankhurst se toma muy en serio la
cuestión del voto femenino; pero no lo demuestra haciendo que la echen de los mítines y reuniones. A una persona
pueden expulsarla de un mitin por lo mismo que expulsan a los jóvenes de un music-hall: porque se divierten. Pero
nadie se ha arrojado a los leones por llamar la atención. Ninguna mujer se ha dejado asar en una parrilla por
diversión. A Santa Perpetua y a santa Fe pongo por testigos.° Claro es que estos entusiastas no tienen la culpa de no
ser sometidos a los contundentes castigos de antaño; seguro que pasarían por ellos tan triunfalmente como santa
Águeda.° Simplemente estoy dándoles un consejo político, dadas las circunstancias. Y les digo que sus sacrificios no
impresionan a nadie porque no son ni pueden ser más decisivos que los sacrificios que la gente hace por divertirse
cuando ha bebido. Los borrachos interrumpen mítines y pagan las consecuencias. En cuanto a que subasten teteras,
supongo que es algo que daría grandísimo placer a todo borracho que se precie. La propaganda no basta; no dice
nada. Si a mí tuvieran que martirizarme por una opinión (lo cual es más difícil que decirlo), sería sin duda por una o
dos de mis opiniones más sagradas. Quizá me dejaría matar por Inglaterra, pero ciertamente no por el imperio
británico. Es posible que diese mi vida por la libertad política, pero ciertamente no por el librecambio. Pero el
alboroto que arman las sufragistas yo estaría dispuesto a armarlo tanto por mi opinión más superficial como por mi
opinión más profunda. Nunca sería nada peor que una molestia, ni nada mejor que una juerga. Por eso el ciudadano
británico, sobre todo de las clases trabajadoras, mira estas manifestaciones con indiferencia; porque, aunque
respondan a los más fanáticos motivos, también pueden responder a los más frívolos.

Patriotismo y deporte-G.K.CHESTERTON
Patriotismo y deporte-G.K.CHESTERTON

Título original: «Patriotism and sport», en All Things Considered

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

Veo que en algunos periódicos, sobre todo en aquellos que se dicen patrióticos, ha cundido el pánico al ver que
hemos sido dos veces derrotados en sendas pruebas deportivas, por un francés en golf y por unos belgas en remo.
Supongo que la circunstancia importará mucho a quienes creen en la legendaria superioridad de los ingleses en
achaque de deportes. Supongo que hay gente que cree confusamente que un francés no puede vencernos, pese a
que muchas veces nos han vencido franceses y una vez una francesa. En las viejas viñetas de Punch se puede ver una
sátira recurrente: los caricaturistas ingleses dan por supuesto que un francés no sabe correr zorros ni disfrutar de la
caza a estilo inglés. No parecen darse cuenta de que los que inventaron el estilo de caza inglés era franceses. Los
primeros reyes y nobles que corrieron zorros hablaban francés. Y gran parte de los ingleses que siguen cazando así
tienen nombres franceses. Supongo que a todo aquel que ignore tan evidentes hechos le interesará saberlos.
Supongo que a los que alguna vez han creído que los ingleses tenemos algún derecho sagrado y exclusivo a ser los
mejores deportistas, estas derrotas les habrán parecido tremendas y dolorosas. Se sentirán como si, al mismo
tiempo que el verdadero sol sale por el este, vieran otro sol saliendo por el noroeste. En beneficio de estas personas,
beneficio moral e intelectual, debe señalarse que en este caso han derrotado a los anglosajones precisamente
aquellos competidores a los que siempre consideraron inferiores: competidores latinos, y dentro de estos, los menos
esforzados y temibles; no solo franceses, sino belgas. Esto, digo, debe señalarse a toda persona inteligente que crea
en la arrogante teoría de la superioridad anglosajona. Solo que ninguna persona inteligente creerá en la arrogante
teoría de la superioridad anglosajona. Ningún inglés auténtico creyó nunca en ella. Y al inglés auténtico no
entristecerán estas derrotas.

El auténtico patriota inglés sabe que la fuerza de Inglaterra nunca ha dependido de eso; que la gloria de Inglaterra
nunca ha tenido que ver con eso, excepto para gran parte de los ricos y para unos cuantos pobres que emulan a los
ociosos ricos. Estas gentes darán gran importancia a nuestros fracasos, desde luego, como darán mucha importancia
a nuestros éxitos. El típico patriota radical que ha admirado a sus compatriotas por ser conquistadores los
despreciará por dejarse conquistar. Pero el inglés que de verdad ama a Inglaterra sabe que las derrotas deportivas
no demuestran que Inglaterra es débil, como sabe que los éxitos deportivos no demuestran que Inglaterra es fuerte.
Porque el deporte, como todo lo demás, especialmente lo moderno, es terriblemente individualista. Los ingleses que
ganan premios deportivos son la excepción entre los ingleses, por la sencilla razón de que lo son también entre los
hombres. Los deportistas ingleses representan a Inglaterra tanto como los fenómenos de circo del señor Barnum
representan a América. Hay tan pocos como ellos en el mundo que poco importa de qué país sean.

Si alguien quiere una prueba de lo que estoy diciendo, es fácil de aportar. Si los grandes deportistas ingleses no son
ingleses excepcionales, no suelen ser ni ingleses. Es más, muchos de ellos pertenecen a razas cuyos individuos no
parecen en general especialmente aptos para el deporte. Por ejemplo, se supone que los ingleses dominan a los
indios en virtud de su superior audacia, su superior actividad y su superior salud de mente y cuerpo. Y se supone que
los indios son nuestros súbditos porque les gusta menos la acción, la sociedad y el aire libre; en una palabra, porque
les gusta menos el críquet. Pero resulta que el mejor jugador inglés de críquet es hindú. Pongamos otro ejemplo:
podemos convenir en que los judíos son en general un pueblo pacífico, intelectual, indiferente a la guerra, como los
hindúes, o incluso enemigo de ella, como los chinos; y, sin embargo, uno o dos de los mejores boxeadores ingleses
han sido judíos.

Este es uno de los casos más notables de ese mal que resulta de nuestro modo peculiar de adorar el deporte.
Consiste en fijarse demasiado en el éxito individual. Empezamos queriendo, como es justo y natural, que gane
Inglaterra. Queremos, en segundo lugar, que ganen algunos ingleses. Queremos, en tercer lugar (en medio de la
ansiedad y emoción de una determinada prueba) que gane algún inglés en concreto. Y acabamos, por último,
descubriendo que ni siquiera es inglés.

En esta cuestión sí creo que podría decirse algo en favor de Lord Roberts y de sus más bien vagas ideas, que van de
la fundación de clubes de tiro con rifle hasta la implantación del servicio militar obligatorio. Sean cuales sean las
ventajas o desventajas de estas ideas, son al menos ideas para procurar cierta igualdad y una especie de nivel medio
en la capacidad deportiva de la gente, y podrían constituir un correctivo a nuestra tendencia de considerarnos
deportistas excepcionales. Como que hay millones de ingleses que creen a pie juntillas que somos una raza muscular
porque C.B. Fry es inglés. Y no pocos de ellos creen también confusamente que el deporte debe pertenecer a
Inglaterra porque Ranjitsinhji es indio.°

Pero la verdadera fuerza histórica de Inglaterra, física y moral, nunca tuvo que ver con el deporte, que más bien la ha
entorpecido. Alguien dijo que la batalla de Waterloo se ganó en los campos de juego de Eton. Fue un comentario
especialmente desafortunado, pues la contribución inglesa a la victoria dependió, mucho más de lo que es habitual
en las victorias, de la resistencia de las tropas en una situación casi desesperada. La batalla de Waterloo la ganó la
tenacidad de los soldados rasos, vale decir, de hombres que nunca estuvieron en Eton. Pero si es absurdo decir que
la batalla de Waterloo se ganó en los campos de juego de Eton, sí podríamos decir con toda justicia que se ganó en
prados y parques donde niños torpes jugaba torpes partidas de críquet. En una palabra, la ganó gente común y
corriente, que son los fuertes, y las glorias del deporte dicen muy poco de la capacidad media de una nación.
Waterloo no la ganaron los buenos jugadores de críquet, sino los malos, una masa de hombres que tenían mínimos
instintos y hábitos deportivos.

Es una buena señal que en una nación esas cosas se hagan mal. Prueba que todo el mundo las hace. Y es una mala
señal que se hagan muy bien, porque eso significa que solo las hacen unos cuantos especialistas y excéntricos, y el
resto de la nación se limita a mirar. Supongamos que andar significase siempre en Inglaterra andar cuarenta y cinco
millas al día sin cansarse. Podríamos estar bien seguros de que solo unos cuantos andarían, y que todos los demás
súbditos británicos serían llevados en silla de ruedas. En cambio, si andar significase andar despacio, trabajosamente
y con fatiga, sabríamos que el conjunto de la nación andaría. Sabríamos que Inglaterra iría literalmente a patita.

El problema, pues, es que el actual incremento del nivel deportivo ha perjudicado seguramente al deporte nacional.
El deporte, en lugar de ser un saludable torneo en el que todo el mundo puede participar y probar fortuna, se ha
convertido en una palestra exclusiva en la que justan unos pocos caballeros con los que ningún hombre común y
corriente puede medir sus fuerzas. Si Waterloo se ganó en los campos de críquet de Eton, fue seguramente porque
el críquet de Eton era entonces mucho más chapucero que ahora. Mientras que el juego era un juego, todo el
mundo quería participar. Cuando se convirtió en un arte, todos quisieron mirarlo. Cuando era frívolo, pudo ganar
Waterloo; cuando fue serio y eficiente, perdió Magersfontein.°

En tiempos de Waterloo el deporte era una práctica lúdica y generalizada del inglés medio. Esto no puede recrearlo
el críquet, ni el servicio militar, ni ningún otro medio artificial. Era algo del alma, era fruto de la risa, de la religión, del
espíritu del lugar. Pero era como el duelo moderno en una cosa: en que podía ocurrirle a cualquiera. Si yo fuera un
periodista francés, podría muy bien suceder que Monsieur Clemenceau me desafiara a pistola. En cambio, no creo
probable que el señor C.B. Fry me desafíe al bate de críquet.

El secreto político-G.K.CHESTERTON
El secreto político-G.K.CHESTERTON

Título original: «On political secrecy», en All Things Considered

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

Por lo general, los hombres, de una manera instintiva y sin ninguna razón especial, odian pensar que algo esté
escondido, esto es, que esté escondido sin remedio. Todos conocemos el juego del escondite, en el que lo
importante es encontrar lo escondido. La gente normal (enorme e inagotable en su capacidad de goce) se divierte
mucho jugando a ese juego que consiste en esconder un dedal, pero lo que en realidad la divierte es encontrarlo.
Supongamos que los jugadores no encontrasen el dedal, que este no apareciese nunca: entones no sería un juego,
sino una tragedia. El dedal se les aparecería en sueños a los jugadores y los obsesionaría, los jugadores morirían en
un manicomio. Lo divertido es ese momento excitante en que se pasa de lo desconocido a lo conocido. Las historias
de misterio son muy populares, sobre todo si se venden baratas; pero lo son porque revelan cosas. No gustan
porque sus autores inventen misterios, sino porque los desvelan. Nadie se atrevería a publicar un relato detectivesco
en el que el misterio quedara sin resolver: esto llevaría a la revolución incluso al público londinense. Nadie se
atrevería a publicar un relato detectivesco en el que nada se detectara.

Hay tres grandes clases de cosas en las que la penetración del hombre consiente el secreto. Una acabo de mentarla:
los juegos de escondite y las novelas policiacas, en las que se tolera el secreto con el fin de que sea desvelado: el
autor crea primero un concienzudo misterio en torno a la muerte del obispo, con el único objeto de anunciar al final
a los cuatro vientos la buena nueva de que lo mató la institutriz. La ignorancia solo tiene sentido en este caso porque
es el mejor modo de prepararse a recibir las terribles revelaciones del gran mundo. Ser agnóstico es por lo mismo el
mejor modo de prepararse a recibir las buenas nuevas de san Juan.

Podemos pasar por alto este primer tipo de secreto, ya que su objeto último no es ser guardado sino revelado. Hay
una segunda y mucho más importante clase de cosas que los hombres consienten de buen grado en ocultar. Son tan
importantes que no podemos tratarlas aquí, aunque todo el mundo sabe a cuáles me refiero. En este sentido hago
notar que, aunque son cosas secretas, son siempre un «secreto a voces». En el tema del sexo y similares, todos
formamos una especie de hermandad, una hermandad con disciplina, pero no sin libertad: se nos pide que callemos
esas cosas, no que las ignoremos. Al contrario, en los temas fundamentales sucede al revés: lo que más conocen los
hombres es lo que más ocultan. Sencillamente porque lo saben tan bien que no necesitan decirlo.

Hay un tercer tipo de cosas en las que el hombre civilizado consiente el secreto, que se resisten a la inquisición o la
explicación. Son aquellas cosas que no se explican porque no pueden explicarse, porque son demasiado etéreas,
instintivas o intangibles: caprichos, impulsos súbitos, prejuicios inocentes... No podemos exigir de nadie que nos
explique por qué es tan hablador, sencillamente porque no lo sabe. A nadie se le piden explicaciones (ni aun en
Alemania) de por qué camina despacio o deprisa, porque no puede darlas. Las personas cruzan un bosque por este o
aquel camino y emplean sus vacaciones de este o de aquel modo no porque tengan razones poderosas para hacerlo,
sino porque apenas las tienen: porque se les antoja hacerlo así, y no podrían explicarlo a un policía si de pronto les
saliera al encuentro de entre los arbustos. Actúan movidos por impulsos porque esos impulsos no tienen
importancia y quizá no vuelvan a repetirse. Si se prefiere, actúan por impulso porque el impulso no merece un
instante de reflexión. Todos pensamos que este tipo de antojos son privados y ni aun los fabianos han propuesto
nunca interferir en ellos.°

Pues bien, en los últimos quince días han venido los periódicos llenos de los más variados comentarios acerca del
secreto en que se tiene cierta parte de las finanzas políticas y en especial la financiación de los partidos. Algunos no
han entendido en absoluto dónde está el problema. Afirman que el partido nacionalista irlandés y el partido
laborista están bajo sospecha, e incluso, como algunos dicen, más que bajo sospecha. El motivo de esta tremenda
afirmación no parece ser, visto detenidamente, sino el siguiente: que irlandeses y laboristas reciben dinero por lo
que hacen. Que yo sepa, todas las personas reciben dinero por lo que hacen; la única diferencia es que algunos,
como los del partido nacionalista irlandés, lo hacen.

No creo que nadie pueda sostener que los hombres no deben recibir dinero. El asunto es que, sabiendo que hay
dinero que se da bien y otro que se da mal, un elemental sentido común nos lleva a mirar con indiferencia el dinero
que se da en plena calle y en cambio con singular desconfianza el que se da a escondidas. Quiero decir que es
absurdo poner en duda lo legítimo de la financiación, pero que lo que hasta los idiotas sí pueden poner en duda es la
legitimidad de su ocultamiento. La cuestión, pues, que debemos considerar es si ocultar las transacciones
económicas de la política, las compras de títulos nobiliarios, el pago de las campañas electorales, entra dentro de
alguna de las tres clases de secreto antes mencionadas que la costumbre y el instinto de los hombres consienten. He
enumerado tres categorías de secretos de esta naturaleza. ¿Puede el ocultamiento de la finanzas políticas
defenderse como incluido en alguna de ellas?

La pregunta, pues, que debemos responder es si el secreto político puede considerarse legítimo. De las tres clases en
que hemos dividido sumariamente los secretos legítimos, la primera es la de aquellos secretos que solo se guardan
para ser revelados, como el de las historias detectivescas. La segunda es la de los secretos que se guardan porque
todo el mundo los conoce, como el del sexo. Y la tercera es la de los secretos que se guardan porque son demasiado
vagos y sutiles para ser explicados, como la razón de elegir este o aquel camino en el campo. ¿Comprende alguna de
estas tres grandes categorías el ocultamiento de la financiación y cuentas de los partidos políticos? Sería absurdo,
incluso chistoso, decir que sí. Sería un disparate de lo más gracioso decir que los políticos guardan secretos solo
porque quieren hacer revelaciones. Un nuevo noble pretende haberse ganado el título solamente para poder
declarar luego, de manera más dramática y con un grito de júbilo y desdén, que en realidad lo compró. Un baronet
dice haber merecido su título solo para saborear mejor el asombroso acontecimiento histórico de reconocer que no
lo merecía. Seguro que esto parece muy improbable. Seguro que ningún político guarda secretos que lo
comprometen pensando en el excitante momento en que se arrepentirá en el lecho de muerte. El escritor de
historias detectivescas hace a un hombre duque únicamente para arruinarlo acusándolo de robo. Pero seguro que el
primer ministro no hace a un hombre duque para arruinarlo acusándolo de soborno. No; la teoría detectivesca del
secreto de la financiación política debe ser (con un suspiro) descartada.

Tampoco podemos decir que el secreto político se justifique por pertenecer a la segunda categoría, a saber, la de los
secretos tan secretos que no resulta fácil revelarlos en público. En algunos asuntos elementales se observa una
reserva especial precisamente porque todo el mundo los conoce bien. Sin embargo, la reserva en materia de
financiación política y compras de títulos nobiliarios no se debe a que la mayoría de la gente sepa lo que pasa, sino
precisamente a que no lo sabe. La cortina de decoro cubre los procedimientos normales. Pero nadie dirá que ser
sobornado es un procedimiento normal.

Si, por último, aplicamos la tercera categoría al caso del secreto político, la cosa resulta todavía más clara y divertida.
Seguro que nadie sostiene que comprar títulos nobiliarios y demás operaciones se mantienen en secreto porque son
cosas tan leves, impulsivas e irrelevantes que han de considerarse puro capricho personal. Un niño ve una flor y su
primer impulso es cogerla. Pero seguro que nadie cree que un cervecero ve una corona y lo primero que piensa es
que quiere ser noble. El impulso del niño no ha de ser explicado a la policía por la sencilla razón de que no podría
explicársele a nadie. Sin embargo, ¿cree nadie que las laboriosas ambiciones políticas de los actuales hombres de
negocios tienen este carácter etéreo e incomunicable? Un hombre tumbado en la playa puede arrojar piedras al mar
sin ninguna razón especial. Pero ¿cree nadie que el cervecero arroja monedas al bolsillo de los partidos políticos sin
ninguna razón especial? Lamentablemente, esta explicación del secreto de la financiación política ha de ser
descartada, junto con las otras dos posibles justificaciones. Es un secreto que no puede excusarse ni por ser el de un
juego divertido, ni por pertenecer al común de los hombres, ni por ser un inexplicable antojo. Curiosamente, de
hecho, incumple las tres condiciones y clases. No es un secreto que se oculte para ser revelado, sino para que siga
oculto. Tampoco se guarda por ser un secreto que todos los hombres conocen, sino porque nadie debe conocerlo. Ni
tampoco se guarda porque es demasiado insignificante para ser revelado, sino porque es demasiado importante
para que pueda desvelarse. En suma, estamos ante un auténtico y quizá infrecuente fenómeno de gobierno oculto.
Tenemos una doctrina exotérica y otra esotérica. A Inglaterra la gobiernan en realidad simoníacos, no curas.
Tenemos en este país todo lo que siempre se ha objetado a la religión: una clase privilegiada, palabras sagradas que
no pueden pronunciarse, cosas importantes que solo conocen unos cuantos. De hecho, tenemos todo menos
religión.

La mujer-G.K.CHESTERTON
La mujer-G.K.CHESTERTON

Título original: «Woman», en All Things Considered.

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

Me escribe un corresponsal una carta de gran interés y competencia a propósito de ciertas alusiones mías a la
cuestión de las cocinas comunitarias. Él las defiende lucidísimamente desde el punto de vista del colectivista
calculador. Pero, como muchos otros de su escuela, parece no comprender que la cosa puede verse de otra manera,
que nada tiene que ver con tales cálculos. Afirma que sería más barato que todos comiéramos a la misma hora, a fin
de que usáramos la misma mesa. Es verdad. También sería más barato que todos durmiéramos a distintas horas, a
fin de usar solo un par de pantalones. El asunto, sin embargo, no es lo barato que compramos, sino qué es lo que
compramos. Es barato tener un esclavo. Y aún lo es más serlo.

Dice también mi corresponsal que la costumbre de comer fuera, en restaurantes, etc., está creciendo. Lo mismo,
creo, que la costumbre de suicidarse. No es que quiera relacionar ambos hechos. Parece bastante evidente que un
hombre no pueda salir a comer en un restaurante porque acabe de suicidarse, y quizá sería demasiado decir que se
ha suicidado porque acababa de comer en un restaurante. Pero ambos casos, puestos uno junto a otro, bastan para
demostrar lo falso y ruin de esa eterna discusión sobre lo que está de moda. La cuestión para los hombres de bien no
es si algo está incrementándose, sino si estamos incrementándolo nosotros. Yo como en restaurantes con mucha
frecuencia, pues así lo aconseja la índole de mi trabajo: pero si pensase que haciéndolo contribuyo a la difusión de la
comida comunitaria, no volvería a pisar ninguno; me llevaría pan y queso en el bolsillo o sacaría chocolate de las
máquinas automáticas. Y es que hay cosas cuyo carácter personal es sagrado. El otro día lo dijo perfectamente el
señor Will Crooks: «Lo más sagrado es poder cerrar nuestra puerta».°

Dice mi corresponsal: «¿No se ahorrarían nuestras mujeres la pesada tarea de cocinar y todas las preocupaciones
que ello conlleva, quedando libres para dedicarse a la alta cultura?». Lo primero que se me ocurre decir es muy
simple y forma parte, creo, de la experiencia de cada cual. Si mi corresponsal encuentra el modo de evitar que las
mujeres se preocupen, será un hombre muy, pero que muy notable. Creo que el asunto es más profundo. Ante todo,
mi corresponsal obvia una distinción que es fundamental en la naturaleza humana. Teóricamente, supongo que todo
el mundo quiere verse libre de preocupaciones. Pero seguro que nadie quiere verse libre de actividades que
preocupan. A mí me placería en extremo (lo digo como lo siento en este momento) verme libre de la penosa faena
de escribir este artículo. Pero eso no significa que me gustaría librarme también de la penosa faena de ser un
periodista. Que algo nos preocupe no quiere decir que no nos interese. La verdad es lo contrario. Lo que no nos
interesa, ¿por qué habría de preocuparnos? Las mujeres se preocupan por el gobierno de la casa, pero son las más
interesadas las que más se preocupan. Les preocupan mucho sus maridos y sus hijos. Y supongo que si
estrangulásemos a estos y aturdiésemos a aquellos, les quedaría tiempo para dedicarse a la alta cultura. O sea,
quedarían libres para preocuparse por la alta cultura. Pues las mujeres se preocuparían por eso tanto como se
preocupan por cualquier otra cosa.
Yo creo que este modo de hablar de las mujeres y de su alta cultura es una excrecencia exclusiva de las clases que (a
diferencia de la periodística a la que pertenezco) disponen siempre de elevadas sumas de dinero. Una cosa curiosa
observo. Quienes sobre ello escriben parecen olvidar que existen las clases trabajadoras y asalariadas. Como mi
corresponsal, dicen, eterna letanía, que la mujer es esclava del trabajo. Pues ¿qué es el hombre, por los clavos de
Cristo? Esta gente se figura que todos los hombres son ministros. Hablan del hombre como si no pensara más que en
conquistar poder, labrarse un porvenir, dejar huella en el mundo, mandar y ser obedecido. Esto quizá sea cierto para
ciertas clases sociales. Los duques, por ejemplo, no son esclavos del trabajo; pero entonces tampoco lo son las
duquesas. Las damas y caballeros de la alta sociedad sí están libres para dedicarse a la alta cultura, que de
preferencia consiste en pasearse en coche y jugar al bridge. Pero los millones de hombres normales y corrientes que
integran nuestra civilización no son más libres para dedicarse a la alta cultura que sus mujeres.

Diré más, no lo son tanto como ellas. La mujer ocupa una posición privilegiada respecto del hombre. Ella reina en un
mundo en el que puede hacer lo que le plazca; la mayoría de los hombres han de obedecer órdenes y no hacer otra
cosa; han de poner ladrillo sobre ladrillo monótonamente, sin hacer otra cosa; han de sumar cifras y cifras
monótonamente, sin hacer otra cosa. Quizá el mundo de la mujer es pequeño, pero ella puede cambiarlo. Una mujer
puede decirle cuatro verdades al comerciante de turno. El empleado que haga lo mismo con su jefe se verá por lo
general de patitas en la calle, o –por evitar el vulgarismo– se verá libre para dedicarse a la alta cultura. Y sobre todo,
como dije en un artículo anterior, el trabajo de la mujer es hasta cierto punto creativo e individual. Puede disponer
las flores o los muebles según su fantasía. No creo que el albañil pueda hacer lo mismo con los ladrillos, sin grave
riesgo de su persona y la del prójimo. Si la mujer ha de poner un simple remiendo en la alfombra, puede elegirlo por
el color; pero no creo que al de la oficina de correos le esté permitido franquear un paquete según el color de los
sellos, y preferir por ejemplo uno más barato porque es malva claro a uno más caro que es rojo chillón. Una mujer
quizá no siempre cocine artísticamente, pero puede hacerlo. Puede variar la composición de una sopa de manera
personal e imperceptible. Pero ¡ay del empleado que varíe de manera personal e imperceptible la cifras de la
contabilidad!

Lo bueno es que la cuestión que aquí planteo, que es la verdadera, no se discute. Lo que se alega es una cuestión de
dinero, no de personas. Lo que me parece falso no son tanto las propuestas de estos reformadores como su
mentalidad y sus argumentos. Estoy menos seguro de que las cocinas comunitarias son un error como de que sus
defensores están en un error. De entrada, desde luego, hay una gran diferencia entre las cocinas comunitarias de las
que hablamos y las comidas comunitarias (monstrum horrendum, informe) que, con intención bárbara y diabólica,
evoca mi corresponsal.° Pero en ambos casos el error es el mismo: sus defensores no las defenderán como
instituciones humanas. No les interesará el evidente hecho psicológico de que hay cosas que un hombre o una mujer
pueden desear hacer por sí mismos. Cosas que él o ella han de hacer de manera creativa, artística, individual... en
una palabra, mal. Una de tales cosas es, quién lo diría, elegir esposa. ¿Es otra elegir la comida del marido? Esta es la
cuestión: que nadie se plantea.

Y ahora la alta cultura. Conozco esa cultura. Si puedo evitarlo, yo no liberaré a nadie para que se dedique a la alta
cultura. Sus efectos sobre los hombres ricos que tienen tiempo para dedicarse a ella son tan horribles que resulta
peor que ningún otro de los entretenimientos del millonario, peor que el juego, peor incluso que la filantropía. La
alta cultura es creer que el poeta más pequeño de Bélgica es más grande que el poeta más grande de Inglaterra. Es
perder todo sentimiento democrático. Es ser incapaz de hablar con un peón sobre deportes, sobre cerveza, sobre la
Biblia, sobre las carreras de caballos, sobre la patria o sobre cualquier otra cosa de la que él, el peón, quiera hablar.
Es tomarse la literatura en serio, como los aficionados. Es perdonar la indecencia solamente cuando es sombría. Los
discípulos de la alta cultura llamarán pala a una pala solo si es para cavar tumbas. La alta cultura es triste, mezquina,
desabrida, antipática, poco honesta y nada relajada. Es «alta», en suma: este epíteto abominable (que también se
aplica al juego) la describe perfectamente.

No; si se me pide que liberemos a la mujer para otra cosa, quizá esté más dispuesto. Si se me promete, en privado y
solemnemente, que las liberaremos para que bailen en las montañas como ménades, o para que adoren a alguna
divinidad monstruosa, estaré más de acuerdo. Si se me asegura que las señoras de Brixton, tan pronto como dejen la
cocina, se pondrán a aporrear tantanes y soplar cuernos en el bosque, convendré en que al menos son ocupaciones
humanas y acaso divertidas. Las mujeres han sido liberadas para ser bacantes, para ser vírgenes mártires, para ser
brujas. No les pidamos ahora que se rebajen al nivel de la alta cultura.
Yo tengo mis propias ideítas sobre la emancipación de la mujer, pero me temo que nadie las tomará en serio si las
expongo. Apoyaré toda iniciativa que aumente la enorme autoridad de la mujer en la casa y su acción creativa en
ella. La mujer, por regla general, es una déspota; el hombre, por regla general, es un siervo. Aprobaré toda
propuesta que vuelva a la mujer más déspota. Lejos de querer que se traiga de fuera la comida hecha, deseo que
cocine ella misma con mayor libertad e imaginación de lo que lo hace. Lejos de querer que vaya siempre por la
misma comida al mismo sitio, deseo que invente, si le place, un plato todos los días de su vida. Que la mujer sea más
hacedora, no menos. Y llevamos razón al hablar de «la mujer»; solo los canallas hablan de mujeres. Los hombres, en
cambio, hablan de hombres, y esta es la gran diferencia. Los hombres representan el elemento democrático y
deliberante de la vida. La mujer encarna el elemento despótico.

El vino si es rojo-G.K.CHESTERTON
El vino si es rojo-G.K.CHESTERTON

Título original: «Wine if it es red», en All Things Considered

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

Imagino que causará no poco revuelo el reciente manifiesto firmado por una serie de doctores eminentísimos acerca
del llamado «alcohol». A juzgar por como suena, la palabra es arábiga, como «álgebra» y «Alhambra», otras dos
cosas desagradables. Nunca he visto la Alhambra española; me han dicho que es una construcción ramplona y
laberíntica; yo me refiero al mucho más digno edificio de Leicester Square. Si es verdad, como presumo, que
«alcohol» es un término árabe, resulta curioso que la palabra con la que genéricamente designamos la esencia del
vino, la cerveza y otras bebidas por el estilo provenga de unas gentes que lo combaten de manera particularmente
enconada. Supongo que algún anciano jefe musulmán se sentó un día a la entrada de su tienda y, maldiciendo por
entre la negra barba el símbolo cristiano del vino, y discurriendo con ceño fruncido alguna fea palabra que expresara
cabalmente su odio racial y religioso, vino a escupir el terminacho «alcohol». El que los médicos hayan de usar esta
palabra a efectos de claridad científica les es de gran impedimento para juzgar la cosa con justicia. Porque la palabra
encierra una de esas peticiones de principio que tanto complican esta clase de cuestiones morales. Es un craso error
suponer que un hombre que desea una bebida alcohólica desea por fuerza alcohol.

Todo aquel que camine diez millas seguidas un caluroso día de verano por un camino polvoriento, sabrá pronto por
qué se inventó la cerveza. El que la cerveza tenga cierta propiedad estimulante no es parte a que la pida sino en
pequeñísima medida. No es, en fin, que desee alcohol; lo que desea es cerveza. Cierto es, con todo, que la cuestión
no puede plantearse en términos tan simples. El problema al que en verdad nos enfrentamos, y especialmente se
enfrentan los doctores, es que el puesto singularísimo que el hombre ocupa en el universo físico imposibilita casi por
completo el considerarlo un ser puramente físico. Sea lo que sea el ser humano, constituye una excepción. Si no es la
imagen de Dios, entonces es una excrecencia del polvo. Si no es un ser divino que cayó del cielo, no puede ser sino
un animal que perdió la cabeza. Y en ninguno de los dos casos podemos argüir gran cosa del cuerpo del hombre
teniéndolo únicamente por el cuerpo de un animal lleno de salud e inocencia. El cuerpo del hombre se halla
demasiado unido a su alma, como se ve en el caso supremo del sexo. Puede valer la pena advertir a los filántropos e
idealistas ricos que el argumento de lo animal no debe usarse sin reflexión, ni aun contra los atroces males del
exceso; es un argumento que prueba muy poco o que prueba demasiado.

No cabe duda de que emborracharse es poco natural. Pero en el fondo, también el hombre es poco natural. No cabe
duda de que el obrero que se emborracha gasta su salud bebiendo; pero nadie sabe cuánto gasta su salud
trabajando el obrero sobrio. Nadie sabe cuánto gasta su salud el filántropo rico hablando o, en rarísimas ocasiones,
pensando. Todo lo humano es más peligroso que nada que afecte al bruto: sexo, poesía, propiedad, religión. Lo malo
de beber no es que saque a la bestia, sino que saque al Diablo. A la bestia no la saca, y poco importa si lo hace: la
bestia suele ser una criatura más bien mansa y amable, como lo son las vacas. El ser humano es siempre algo peor o
algo mejor que un animal, y el mero argumento de la perfección de este no lo afecta. En el sexo, ningún animal es
caballeroso u obsceno. Tampoco ningún animal ha inventado nada tan malo como la embriaguez... ni tan bueno
como el beber.

El pronunciamiento de estos doctores es claro y rotundo; hoy día, incluso merece cierto crédito por su valentía
moral. Casi todo el mundo convendrá con ellos, desde luego, en que las bebidas alcohólicas son a menudo de
grandísima utilidad en casos de enfermedad extremos; pero no pocos, me temo, se escandalizarán al ver que se
refieren a ellas como si fueran simples bebidas; porque no se conforman con declarar que beber con moderación no
hace daño: dicen abiertamente que es beneficioso. Creo, sin embargo, que esta verdad médica va de algún modo
contra la opinión común. Creo que la mayoría de los médicos saben por experiencia que administrar alcohol al
enfermo (si bien muchas veces necesario) es casi la forma moralmente más peligrosa de administrarlo. En lugar de
suministrarlo a una persona sana que tiene muchas otras posibilidades de vida, se lo damos a una persona
desesperada para la que esa es la única posibilidad de vida. Difícilmente podemos censurar al inválido si por alguna
contingencia de su precaria condición acaba pensando que el alcohol es una especie de agua de vida y lo usa como
tal. Si el hábito de beber es un pecado, no lo es por salvaje, sino por domesticado; no por anárquico, sino por
esclavo. La peor forma de beber es beber por razones médicas. La más inocua, hacerlo sin preocuparse; sin
preocuparse de nada, y menos aún preocuparse de beber.

El médico, desde luego, debe estar facultado para poner freno en casos de sed perniciosa; pero más allá de esto,
solo cabe esperar que la conciencia pública sobre el tema se acrezca o, mejor dicho, se concentre. Yo tengo al
respecto mi propia modesta opinión, que siempre he mantenido con firmeza. Si el bar fuera un lugar tan solitario y
reservado como la oficina de correos o la estación de trenes, al que acudiera toda clase de gentes en busca de toda
clase de refrescos, ofrecería contra las personas de conducta desordenada las mismas garantías que ofrece la oficina
de correos: bastaría la presencia de gente normal. El loco que quisiera beber un número ilimitado de whiskys sería
tratado con la misma severidad con la que las autoridades de correos tratarían al amable loco que quisiera lamer un
número ilimitado de sellos. Poco importa que en uno y otro caso se emplee una negativa de orden técnico. Lo
importante es que en ambos casos se pueda llamar prontamente a los amigos o familiares de la persona perturbada.
Por lo menos, la empleada de correos no tentaría al entusiasta con una ristra de sellos de seis peniques cuando se lo
llevaran con la lengua fuera. Si beber fuese algo público y abierto, se bebería también con mayor despreocupación.
En estas cosas, lo sano está en ser despreocupado. Por eso ni los borrachos ni los musulmanes pueden
despreocuparse del alcohol.

Ciencia y religión-G.K.CHESTERTON
Ciencia y religión-G.K.CHESTERTON

Título original: «Science and religion»,


en All Things Considered

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

Estos días nos acusan de atacar a la ciencia porque queremos que sea científica. Seguro que no es faltar al respeto a
nuestro médico decir que es nuestro médico, no nuestro cura, nuestra esposa o nosotros mismos. No incumbe al
médico decir si debemos o no debemos tomar las aguas; lo que le incumbe decir es qué efectos tiene en la salud
tomar las aguas. Tras lo cual, claro es, toca a nosotros decidir. La ciencia es como una suma: o es exacta o es falsa.
Mezclar ciencia y filosofía no produce más que una filosofía sin valor ideal y una ciencia sin valor práctico. Quiero
que mi médico de cabecera me diga si esta o aquella comida me matará. Corresponde a mi filósofo de cabecera
decirme si debo morir. Pido perdón por todas estas perogrulladas, pero es que acabo de leer un folleto cuyos
autores, hombres sumamente inteligentes, no parecen haber oído ni una sola de estas perogrulladas en su vida.

Los que detestan al inofensivo autor de esta columna se limitan (en el paroxismo de su abominación) a llamarlo
«brillante», lo que en nuestro periodismo hace tiempo que es una expresión despreciativa. Pero me temo que
incluso este desdeñoso calificativo me honra en exceso. Cada vez estoy más convencido de que padezco, no una
impertinencia relumbrante y llamativa, sino una simpleza que raya en la estupidez. Cada vez estoy más persuadido
de que soy tonto de remate, y de que todos los demás son la mar de listos. Acabo de leer esta importante
recopilación de escritos, que me han enviado en nombre de una serie de personas a las que tengo en gran estima, y
que se titula La nueva teología y la religión aplicada, y juro que he leído párrafos y párrafo sin saber de qué hablaban
sus autores. O hablan de una religión oscura y salvaje en la que se educaron y de la que yo no sé nada, o hablan de
una visión de Dios radiante y cegadora que ellos han tenido, que yo nunca he tenido y cuyo resplandor les confunde
la razón y la palabra. El mejor ejemplo que puedo citar tiene que ver con la cuestión de la ciencia que acabo de
mencionar. Las siguientes palabras las firma un señor cuya inteligencia respeto, pero no les encuentro ni pies ni
cabeza:

Cuando la ciencia moderna declaró que en la evolución del cosmos no hubo ningún acontecimiento histórico que se
correspondiese con el pecado original, sino que, al contrario, ha sido un ascenso incesante en la escala del ser, es
evidente que el planteamiento paulino –esto es, el polémico planteamiento paulino de la salvación– perdió todo su
fundamento, pues ¿no consistía dicho fundamento en la total depravación del género humano heredada de sus
primeros padres? ... Pero si no hubo pecado original, no hay depravación ni peligro inminente de perdición eterna. Y,
caída la base, cae el edificio que en ella se sustentaba.

Son palabras sesudas y están bien dichas; algo deben de significar. Pero ¿qué? ¿Cómo puede la ciencia demostrar
que el ser humano no está depravado? No se abre a un hombre en canal para verle los pecados, ni se lo hierve hasta
que echa el inconfundible humo verde de la depravación. ¿Cómo iba a encontrar la ciencia rastro alguno de
depravación moral? ¿Qué rastros esperaba encontrar el autor de las citadas líneas? ¿Esperaba encontrar el fósil de
Eva con el fósil de una manzana en su interior? ¿Suponía que el tiempo le conservaría el esqueleto completo de
Adán, con una hoja de parra algo descolorida pegada a él? El párrafo citado no es más que una sarta de frases
incoherentes, falsas en sí mismas e ilógicas entre sí. La ciencia nunca ha dicho que no hubo pecado original. Podría
haber habido diez pecados originales, uno tras otro, sin que ello supusiese incoherencia alguna con todo lo que las
ciencias nos enseñan. La humanidad podría haber evolucionado moralmente a peor durante millones de siglos sin
que ello contradiga el principio de la evolución. Los hombres de ciencia (no locos de atar) nunca han dicho que
hubiera «un ascenso incesante en la escala del ser», pues un ascenso incesante significa un ascenso sin caídas ni
retrocesos, y la evolución física está llena de caídas y retrocesos. Hubo sin duda caídas en la evolución física; puede
haber habido caídas en la evolución moral. Por eso me llenan de perplejidad, como digo, pasajes como el citado, en
los que personas instruidas afirman que, puesto que los geólogos no han hallado pruebas del pecado original, toda
creencia en la depravación del hombre es falsa. Como la ciencia no ha encontrado lo que obviamente no puede
encontrar, algo que es del todo diferente, el sentido psicológico del mal, es falso. Podemos resumir los argumentos
del autor en la abrupta, pero fiel, forma siguiente: «En ninguna excavación han aparecido los huesos del arcángel
Gabriel, quien presumiblemente no tenía huesos, luego los niños, abandonados a sí mismos, no serán egoístas». A
mí esto me parece disparatado; es como si alguien dijera: «El fontanero no ha encontrado nada mal en el piano,
luego supongo que mi esposa me quiere».

No voy a entrar ahora en la cuestión de qué sea realmente el pecado original, ni a discutir la probablemente falsa
versión de él que el autor de la nueva teología llama la doctrina de la depravación. Pero sea lo que sea esta o
cualquier otra doctrina de la depravación, es siempre fruto de una convicción de orden espiritual. El hombre piensa
que la humanidad es mala porque él mismo se sabe malo. Si un hombre se siente malo, no veo por qué habría de
sentirse bueno porque alguien le diga que sus antepasados tenían rabo. Por lo que sabemos, el hombre puede haber
perdido la pureza e inocencia originales junto con el rabo. Lo único que de la pureza e inocencia originales sí
sabemos a ciencia cierta, es que no las tenemos. Nada resulta más ridículo, en el estricto sentido de la palabra, que
oponer cosas tan oscuras como las vagas conjeturas que los antropólogos hacen sobre el hombre primitivo a algo
tan sólido como es el sentido del pecado. Por naturaleza, la prueba del Edén es imposible de encontrar. Pero la del
pecado, por naturaleza, es imposible de no encontrar.

Hay algunas afirmaciones con las que no estoy de acuerdo; otras no las entiendo. Si alguien dice: «Creo que el ser
humano sería mejor si se abstuviera por completo de las bebidas fermentadas», entiendo lo que quiere decir y sé
cómo puede defenderse su opinión. Si alguien dice: «Quiero abolir la cerveza porque soy abstemio», no entiendo lo
que quiere decir. Es como decir: «Deseo abolir las carreteras porque me gusta caminar». Si alguien dice: «No creo en
la Trinidad», entiendo. Pero si dice (como una señora me dijo una vez): «Creo en el Espíritu Santo en el sentido
espiritual», me deja turulato. ¿En qué otro sentido se puede creer en el Espíritu Santo? Pues siento decir que este
librito de pensamiento religioso progresista está lleno de pasmosas observaciones por el estilo. ¿Qué quiere decir la
gente cuando dice que la ciencia ha cambiado su concepto del pecado? ¿Qué concepto del pecado tenía antes de
que la ciencia se lo cambiara? ¿Pensaba que era algo que se comía? Cuando la gente dice que la ciencia ha hecho
vacilar su fe en la inmortalidad, ¿qué quiere decir? ¿Pensaba que la inmortalidad era un gas?

Lo cierto es, desde luego, que la ciencia no ha introducido ningún nuevo factor en la cuestión de la fe. Un hombre
puede ser cristiano hasta el final del mundo por la misma razón que otro puede haber sido ateo desde el principio. El
materialismo de las cosas está a la vista; descubrirlo no requiere ciencia alguna. Un hombre que ha vivido y ha
amado muere y se lo comen los gusanos. Esto es materialismo. Esto es ateísmo. Si la humanidad ha creído pese a
ello, puede creer pese a todo. Pero el porqué de que nuestro destino sea más desesperado por saber el nombre de
los gusanos que nos comen o de las partes de nuestro cuerpo que se comen, es algo que cuesta descubrir a una
mente inquiridora. Mi principal objeción a estos revolucionarios seudo científicos es que no son revolucionarios. Son
los defensores del lugar común. No hacen vacilar la religión: más bien es la religión la que parece hacerlos vacilar a
ellos. Su única respuesta a la gran paradoja es repetir la obviedad.

La adoración de la riqueza-G.K.CHESTERTON
La adoración de la riqueza-G.K.CHESTERTON

Título original: «The worship of the wealthy»,


en All Things Considered

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

Observo que se ha introducido en nuestra literatura y periodismo una nueva forma de lisonjear al rico y al grande. En
tiempos más sencillos y honestos, la lisonja era también más sencilla y honesta; la falsedad, más verdadera. El pobre
que quería agradar al rico le decía que era el más sabio, valiente, alto, fuerte, benévolo y apuesto del mundo, y
aunque el rico seguramente sabía que nada de eso era verdad, ningún daño había. Cuando los cortesanos hacían el
elogio de un rey, le atribuían cosas de todo punto improbables, diciendo que se parecía al sol del cenit, que cuando
entraba en la estancia debían cubrirse los ojos, que sus súbditos no podían vivir sin él o que había conquistado
Europa, Asia, África y América con su sola espada. Lo que salvaba esta especie de alabanza era lo artificioso de ella;
entre el rey y su imagen pública no había relación alguna. En cambio, los modernos han inventado un tipo de elogio
mucho más sutil y ponzoñoso, que consiste en hacer un retrato creíble de la personalidad del príncipe o del rico,
reputándolo verbigracia por persona seria, campechana o reservada, o amante del deporte o del arte, para entonces
poner por los cuernos de la luna el valor e importancia de estas cualidades naturales. Los que alaban al señor
Carnegie no dicen que es sabio como Salomón y valiente como Marte; ojalá lo hicieran. La segunda cosa honesta que
a continuación harían sería confesar la verdadera razón de sus elogios, que no es otra que la de que tiene dinero. Los
periodistas que escriben sobre el señor Pierpont Morgan no dicen que es tan bello como Apolo; ojalá lo hicieran.° Lo
que hacen es tomar la vida superficial del hombre rico, sus costumbres, ropa, aficiones, amor a los gatos, desprecio
de los médicos y demás, y, fundados en este realismo, convertirlo en un profeta y un mesías de su clase, cuando no
es sino un tonto común y corriente al que gustan los gatos o disgustan los médicos. El cumplimentador de antes
daba por sentado que el rey era un hombre como cualquier otro y se esforzaba por hacerlo extraordinario; el
cumplimentador de hoy, más listo, da por sentado que es extraordinario, y que, en consecuencia, aun lo más
ordinario de él reviste interés.

Tengo observada una manera curiosísima de hacer esto. Es la manera que se aplica a seis de los hombres más ricos
de Inglaterra en un libro de entrevistas publicado por un conocido y competente periodista. El adulador sabe
envolver con ingenio la estricta verdad en una atmósfera de deferencia y misterio, gracias al sencillo método de
presentarla en negativo. Supóngase que escribimos un estudio benigno sobre el señor Pierpont Morgan. Quizá no
haya mucho que decir acerca de lo que piensa, gusta o admira; pero podemos insinuar todo un mundo de gustos y
pensamientos ponderando por extenso aquello que no piensa, gusta ni admira. Por ejemplo: «Poco atraído por las
más modernas escuelas de la filosofía alemana, se mantiene alejado de las tendencias del panteísmo trascendental
con no menor determinación que de los estrechos éxtasis del neocatolicismo». O supóngase que hemos de hacer el
elogio de una asistenta que acaba de entrar en casa, y que sin duda lo merece con creces. Digamos: «Sería un error
reputar a la señora Higgs por seguidora de Loisy, ya que su posición es en muchos aspectos diferente. Pero no menos
erróneo sería identificarla con el hebraísmo de Harnack». Es un método excelente, pues da ocasión al
cumplimentador de hablar de algo que no es propiamente el cumplimentado, y confiere a este un chocante, pero
luminoso, halo intelectual, como de persona que ha atravesado crisis filosóficas de las que antes no tenía conciencia.
Método excelente, digo, que, empero, me gustaría ver aplicado más veces a las asistentas que a los millonarios.

Hay otra manera de adular a las personas eminentes que, observo, es muy común entre quienes escriben en
periódicos o en otras partes. Consiste en calificarlas de «sencillas», «tranquilas» o «modestas» sin razón ni
justificación alguna. Ser sencillo es lo mejor del mundo; ser modesto, lo segundo mejor del mundo. No estoy tan
seguro de que ser tranquilo vaya aparejado. Más bien me inclino a pensar que las personas modestas alborotan
mucho. Que también lo hacen las personas sencillas es algo que salta a la vista. Pero sencillez y modestia son, al
menos, virtudes muy raras, que no deben atribuirse a la ligera. Pocos hombres, y esos solo ocasionalmente, se han
elevado a la categoría de modestos; a nadie con diez o veinte años han vuelto sencillo largas guerras, como pueden
haber vuelto sencillo a un soldado veterano. Estas virtudes no pueden prodigarse por simple adulación; muchos
profetas y hombres rectos han deseado verlas y no las han visto. En cambio, se las usa, con mucha frecuencia y sin
ningún juicio, para referir el nacimiento, vida y muerte de muchos hombres ricos. Cuando un periodista quiere
describir cómo un político eminente o un hombre de negocios (que vienen a ser la misma cosa) entran en una
habitación o andan por la calle, dice siempre: «El señor Midas iba modestamente vestido con un abrigo negro, un
chaleco blanco, unos pantalones gris perla, una corbata verde y una sencilla flor en el ojal». Como si alguien hubiera
esperado verlo vestido con un traje rojo o unos pantalones de lentejuelas, y con una girándula ardiendo en el ojal.

Pero este método, si ya es bastante absurdo aplicado a la vida cotidiana de la gente de mundo, resulta intolerable
cuando se lo aplica, como siempre se hace, a una circunstancia que es seria incluso en la vida de los políticos: la
muerte. Cuando nos han dado bastante la lata describiéndonos el sencillo vestuario del millonario, que es tan
complicado como cualquier vestido que pudiera ponerse sin parecer loco; cuando nos han hablado de la modesta
casa del millonario, que suele ser demasiado inmodesta para llamarse casa; cuando nos lo han dado a conocer por
medio de todas estas alabanzas huecas, al final se nos pide que admiremos también su tranquilo funeral. No sé qué
otra cosa piensa la gente que puede ser un funeral sino tranquilo. Sin embargo, una y otra vez, esta irritante
cantinela de la modestia y la sencillez se entona sobre la tumba de todos esos pobres hombres ricos –sobre la tumba
de Beit, sobre la tumba de Whiteley–, por los cuales deberíamos sentir más que nada una inefable piedad. Recuerdo
que cuando Beit murió, la prensa dijo que toda la gente importante iba en los coches fúnebres, que los tributos
florales fueron suntuosos y espléndidos, pero que, con todo, fue un entierro tranquilo y sencillo. ¿Cómo se pensaban
que podía ser, en el nombre de Aqueronte? ¿Creían que habría sacrificios humanos, inmolación en la lápida de
esclavas orientales? ¿Que desfilarían bailarinas orientales contoneándose en un paroxismo de lamentación? ¿Que se
celebrarían los juegos fúnebres de Patroclo? Temo que esos periodistas carecen de tan magnífico sentido pagano.
Temo que solo usaban las palabras «tranquilo» y «modesto» para llenar una página, porque son un recurso de esa
hipocresía automática demasiado común entre quienes han de escribir mucho y rápido. La palabra «modesto» será
pronto como la palabra «honorable» para los japoneses, que la usan al parecer precediendo toda palabra en frases
de cortesía: «Deje el honorable paraguas en el honorable paragüero». En el futuro leeremos que el modesto rey
déjase ver con su modesta corona, cubierto de arriba abajo de modesto oro y acompañado por sus diez mil
modestos condes, con las espadas modestamente desenvainadas. ¡No! Si tenemos que pagar por el esplendor,
permítasenos que lo elogiemos por esplendoroso, no por modesto. La próxima vez que vea a un hombre rico por la
calle, pienso abordarlo con exageración oriental. Seguro que echa a correr.

Franceses e ingleses-G.K.CHESTERTON
Franceses e ingleses-G.K.CHESTERTON

Título original: «French and English», en All Things Considered

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

Es obvio que hay una gran diferencia entre ser internacional y ser cosmopolita. Todas las buenas personas son
internacionales. Casi todas las malas personas son cosmopolitas. Si queremos ser internacionales, primero debemos
ser nacionales. Que quienes a sí mismos se llaman «amigos de la paz» tengan tan poco peso en las naciones a las que
pertenecen se debe en gran medida a que no han reflexionado lo bastante en esta distinción. La paz internacional
significa la paz entre las naciones, no la paz después de la destrucción de las naciones, como la paz budista es la paz
después de la destrucción de la personalidad. La edad de oro del buen europeo es como el cielo del cristiano, un
lugar en el que nos amaremos unos a otros, no como el cielo de los hindúes, un lugar en el que ellos serán unos y
otros. Esto podemos verlo de una manera curiosa en el caso del carácter nacional. Creo que estaremos de acuerdo
en que cuanto más aprecie y admire un hombre el alma de un pueblo, menos querrá imitarla; será consciente de
que hay en ella algo demasiado profundo e indómito para ser imitado. El inglés al que simplemente le guste Francia
intentará ser francés; el inglés que de verdad admire Francia se empeñará en seguir siendo inglés. Esto puede
observarse muy bien en nuestra relación con los franceses, porque una de las mayores peculiaridades de estos es
que todos sus vicios están en la superficie y sus extraordinarias virtudes escondidas. Casi puede decirse que sus
vicios son la flor de sus virtudes.

Su obscenidad, por ejemplo, es una manifestación de su afán por sacarlo todo a la luz. La avaricia de sus campesinos
demuestra la independencia de sus campesinos. Lo que los ingleses llaman su rudeza en las calles es una cara de su
igualdad social. La grave mirada de sus mujeres es la expresión de la responsabilidad de sus mujeres, y cierta
inconsciente brutalidad y precipitación con la que se mueven y actúan los hombres, señal de su inagotable y
extraordinario valor militar. De todos los países, pues, Francia es el que menos puede admirar un necio superficial.
Que el necio odie Francia: si la amara, pronto sería un granuja. La admirará sin duda no solo por cosas poco
encomiables, sino sobre todo por cosas que no tiene. Admirará su gracia e indolencia, cuando es el más industrioso
de los pueblos. Admirará su romanticismo y fantasía, cuando son las más respetables y adocenadas de las gentes.
Este error cometerá el inglés que admire Francia precipitadamente, pero el error que cometa con Francia será leve
comparado con el que cometa consigo mismo. Un inglés que dice que le gustan las novelas realistas francesas, que
se siente bien en un teatro francés moderno, que no lo impresionan las brutales caricaturas francesas, comete un
error muy peligroso para su propia sinceridad. Admira algo que no entiende. Recoge donde no sembró, toma de
donde no puso, intenta comer el fruto sin haber trabajado el árbol, quiere recolectar la exquisita cosecha del cinismo
francés sin haber labrado el duro pero rico suelo de la virtud francesa.

Todo esto solo lo entenderá un inglés si volvemos las tornas. Imaginemos a un francés que viene de la democrática
Francia a vivir en Inglaterra, donde la sombra de las grandes casas cae por doquier y hasta la libertad fue, en su
origen, aristocrática. Si el francés viera nuestra aristocracia y le gustara, si viera nuestra arrogancia clasista y le
gustara, si él mismo las imitara, todos sabemos lo que sentiríamos. Sentiríamos que ese francés es un bicho
repugnante. Imitaría a la aristocracia inglesa, imitaría el vicio inglés. Pero no entendería el vicio que copia: no
entendería sobre todo que el vicio es en parte una virtud. No entendería aquellos rasgos del carácter inglés que
compensan su aristocratismo y lo hacen humano: su gran amabilidad, su hospitalidad, su inconsciente poesía, su
conservadurismo sentimental, que tanto admira a la alta burguesía. El realista francés ve que los ingleses aman a su
rey. Pero no comprende que a la vez que es abyecto por adorar a un rey, es casi noble por adorar a un rey sin poder.
La impotencia de los soberanos de la casa de Hanover ha elevado al leal súbdito inglés poco menos que a la dignidad
de hidalgo jacobita. El francés ve que el criado inglés es respetuoso, pero no comprende que también es
irrespetuoso; no sabe que hay una tradición inglesa del criado jocoso y leal que es tan característico como su amo:
Caleb Balderstone, Sam Weller;° ve que los ingleses admiran a un noble, pero no tiene en cuenta que lo admiran más
cuando no se comporta como un noble. A los ingleses les gustan los nobles inconscientes y amables: el siervo puede
ser humilde, pero el amo no debe ser soberbio. El noble representa la vida como a ellos les gustaría disfrutarla, y uno
de los goces que más sinceramente desean que represente es el de la generosidad, el de repartir dinero a manos
llenas o, por usar el noble término medieval, el de la largueza... el placer de la largueza. Por eso nos dice un cochero
que no somos unos caballeros cuando le damos solo lo justo. No solamente herimos su bolsillo, sino también su
alma. Herimos su ideal. Defraudamos su idea del perfecto aristócrata. Sé que esto es muy sutil y escurridizo, y que
en el amor que los ingleses profesan a los señores es muy difícil distinguir lo que es una especie de vicaria nobleza
del mero servilismo. A los franceses le costará mucho distinguirlo. Creerán que es simple servilismo y si lo adoptan
serán unos siervos. Por lo mismo deben de creer los ingleses (al principio) que la franqueza francesa es simple
grosería. Y si la adoptan serán unos groseros. Son rasgos del carácter nacional difíciles de comprender. Se requieren
largos años de paz y abundancia, el lento crecimiento de los grandes parques, el curado de las vigas de roble, el
oscuro envejecimiento del vino tinto en sótanos y bodegas, todo el ocio y toda la vida de Inglaterra durante varios
siglos, para que al final se produzca el generoso y genial fruto del aristocratismo inglés. Y se requieren revueltas y
barricadas, cantos callejeros y hombres andrajosos que mueran por una idea, para que se produzca y se justifique la
terrible flor de la indecencia francesa.

Hace poco estuve en París y fui con un amigo inglés a un teatro en el que representaban, en rápida sucesión, una
serie de brillantísimas obras teatro francesas de unos veinte minutos de duración. Todas eran de grandísimo efecto,
pero una lo era a tal extremo que cuando salimos del teatro mi amigo y yo nos peleamos y casi tuvo que intervenir la
policía. La idea de la obrita era mostrar cómo reaccionan los hombres en un naufragio o en un desastre naval, cómo
se desesperan, gritan, luchan unos contra otros sin objeto y solo movidos por el odio. A esto se añadía una escena
llena de esa horrible ironía que empezó con Voltaire, en la que un gran político pronunciaba un discurso en el que
hablaba de los fallecidos como de héroes muertos en un abrazo fraternal. Cuando mi amigo y yo salimos del teatro,
dijo él, como habría dicho un francés, pues llevaba mucho tiempo viviendo en París: «¡Qué admirable drama! ¿No te
parece estupendo?». «No», le contesté yo, tomando en la medida que pude la tradicional actitud de John Bull en las
viñetas de Punch.° «No es estupendo. Quizá es absurdo, y si lo es, no me importa. Pero si no es absurdo, si tiene un
sentido, el sentido es este: que bajo su apariencia caballeresca los hombres no son más que unos animales, unos
animales acorralados. No conozco mucho a la humanidad, menos aún a la humanidad que habla francés, pero sí sé
cuándo una cosa está hecha para elevar el ánimo y cuándo para deprimirlo. Sé queCyrano de Bergerac (comedia en
la que los actores hablan incluso más rápido) fue hecho para infundir ánimos. Y sé que eso está hecho para
abatirlos.» «Esa visión del arte sentimental y moral», empezó a decir mi amigo, y yo lo atajé de manera fulminante:
«Déjame que te diga lo que Jaurès le dijo a Liebknecht en el congreso socialista: “Tú no has muerto en las
barricadas”. Tú eres un inglés, como yo, y debes ser tan amable como yo. Esta gente tiene cierto derecho a ser
terrible en arte porque ha sido terrible en política. Pueden sufrir torturas falsas en el escenario porque en las calles
han sufrido torturas reales. Han padecido por la democracia, han padecido por el catolicismo. Para ellos puede ser
natural padecer por la literatura. ¡Pero, por Dios, para mí no lo es en absoluto! Y lo peor de todo es que yo, que soy
un inglés y me gusta la tranquilidad y el orden, deba sentirme tranquilo viendo estas cosas. Los franceses no buscan
aquí tranquilidad, sino tumulto. Este pueblo inquieto quiere estar siempre en un estado de constante tensión
revolucionaria. Los franceses, que aman las revoluciones, pueden hallar estimulante el ver a la humanidad
humillada. ¡Pero no quiera Dios que dos ingleses amantes del placer se deleiten nunca en ello!»

Los "cockneys" y su humor-G.K.CHESTERTON


Los "cockneys" y su humor-G.K.CHESTERTON

Título original: «Cockneys and their jokes»,en All Things Considered

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

Un escritor del Yorkshire Evening Post está enfadadísimo conmigo por lo que escribo en esta columna. Su reproche
reza literalmente: «El señor G.K. Chesterton no es un humorista: ni siquiera es un humorista cockney». No me
importa que diga que no soy un humorista –en lo que, a decir verdad, tiene razón–, pero me molesta que diga que
no soy cockney.° Admito que la envenenada flecha da en el blanco. Si un escritor francés dijera de mí: «No es un
metafísico: ni siquiera es un metafísico inglés», podría tolerar que insulte mi metafísica, pero no que insulte a mi
patria. No afirmo, pues, que soy un humorista, pero sí insisto en que soy cockney. Si fuera un humorista, sería desde
luego un humorista cockney; si fuera un santo, sería desde luego un santo cockney. No enumeraré el magnífico
catálogo de santos cockneys que han escrito su nombre en las iglesias de nuestra noble y vetusta ciudad. No
importunaré al lector con la larga lista de humoristas cockneys que han pagado sus cuentas (o dejado de pagarlas)
en las tabernas de nuestra noble y vetusta ciudad. Podemos llorar la pena del pobre ciudadano de Yorkshire, cuyo
condado no ha producido jamás ningún humor que no sea inteligible para el resto del mundo. Y podemos sonreír
cuando dice de alguien que «ni siquiera» es un humorista cockney, como Samuel Johnson o Charles Lamb. Es de
sobra evidente que el mejor humor de nuestra lengua es humor cockney. Chaucer era cockney; vivía cerca de la
Abadía. Dickens era cockney; decía que no podía pensar sin las calles de Londres. En las tabernas de Londres se
oyeron siempre las más originales y sabrosas conversaciones, las de Ben Johnson en el Mermaid o las de Sam
Johnson en el Cock. Incluso en nuestros días puede observarse que el humor más vivo y genuino sigue escribiéndose
en Londres. Así la amable y humana ironía que caracteriza los estudios del señor Pett Ridge de nuestras grises
callecitas. Así el sencillo pero estupendo humor de los mejores relatos del señor W.W. Jacobs que describen la niebla
y el centellear del Támesis. Sí; reconozco que no soy un humorista cockney; reconozco que no merezco serlo. Puede
que algún día, después de vivir tristes y agotadoras vidas en el más allá, después de pasar por arduas y apocalípticas
encarnaciones, en algún peregrino mundo allende las estrellas, llegue por fin a ser un humorista cockney. En ese
paraíso potencial pasearé con los humoristas cockneys, si no como un igual, al menos como un camarada. Podré
sentir por un momento en mi hombro la mano cordial de Dryden y recorrer los laberintos de la afable demencia de
Lamb. Pero eso solamente podría ocurrir si yo fuera no solo más inteligente, sino también mucho mejor de lo que
soy. Antes de llegar a esa esfera tendré que haber dejado atrás la esfera en la que moran los ángeles e incluso
aquella reservada en exclusiva para los de Yorkshire.
Sí, aquí se ataca a Londres por su mejor cualidad. Londres es la más grande de las grandes ciudades modernas; es la
más contaminada, la más sucia, la más sombría, la más miserable, si se quiere. Pero también es sin duda la más
divertida. Se podrá alegar que es la más trágica; no por ello deja de ser la más cómica. En el peorísimo de los casos
somos unos hipócritas del humor. Disimulamos nuestra pena con carcajadas estridentes. Se habla de los que ríen
entre lágrimas; nosotros presumimos de ser los únicos que lloramos entre risas. Siempre tendremos ese gran
orgullo, que es quizá el mayor orgullo que le es dado al ser humano. El gran orgullo, a saber, de que los más infelices
de nuestros ciudadanos son también los que más ríen. El pobre puede olvidar este problema social que nosotros (los
moderadamente ricos) nunca debemos olvidar. Bendito sean los pobres; pues son los únicos que no tienen siempre
presentes a los pobres. El pobre honrado puede a veces olvidar la pobreza. El rico honrado nunca.

Creo firmemente en el valor de las ideas vulgares, sobre todo en el de los chistes vulgares. Quien oye un chiste
vulgar puede tener la seguridad de que ha oído un concepto sutil y espiritual. Los hombres que inventan chistes ven
algo profundo que no pueden expresar sino con algo tonto y rotundo. Ven algo delicado que solo pueden expresar
con algo indelicado. Recuerdo que el señor Max Beerbohm (que tiene todos los méritos menos el de la democracia)
probó a analizar los chistes que hacen gracia a la gente. Los clasificó en tres categorías: chistes sobre humillaciones
físicas, chistes sobre cosas ajenas, como los extranjeros, y chistes sobre el queso podrido. El señor Max Beerbohm
creyó entender los dos primeros tipos; pero yo no estoy tan seguro. Para entender el humor vulgar no basta con
tener sentido del humor. Hay que ser también vulgar, como yo. En el primer caso está claro que no es el simple
hecho de que algo salga malparado lo que nos hace reír (como espero que nos haga reír) cuando vemos a un primer
ministro sentándose en su sombrero. Si así fuera, nos reiríamos siempre que viéramos un funeral. No reímos por el
mero hecho de que algo caiga; nada hay risible en que caigan las hojas o en que el sol decline. No nos reímos cuando
se nos derrumba la casa. Todas las aves del cielo podrían caernos alrededor cual perpetua granizada sin arrancarnos
una sonrisa. Si nos preguntamos seriamente por qué reímos cuando vemos a un hombre caerse en la calle,
descubriremos que la razón no es solo recóndita, sino últimamente religiosa. Todos los chistes sobre personas que se
sientan en su sombrero son en el fondo chistes teológicos; tienen que ver con la doble naturaleza del hombre. Se
refieren a la elemental paradoja de que el hombre es superior a todas las cosas y sin embargo está a merced de
ellas.

Igual de sutil y espiritual es la idea que subyace a la risa motivada por lo extranjero. Tiene que ver con la casi
torturadora verdad de algo que es y no es como uno mismo. Nadie ríe de lo que es completamente extraño; nadie
ríe de una palmera. Pero sí hace gracia ver la familiar imagen de Dios disfrazada de francés con barba negra o de
negro con tez oscura. Ninguna gracia tienen los sonidos enteramente inhumanos, el ulular de las fieras o del viento.
Pero que un ser humano empiece a hablar como nosotros pero con sílabas diferentes nos hará mucha gracia si
somos también seres humanos, aunque reprimamos las ganas de reír si somos bien educados.

El señor Max Beerbohm, recuerdo, asegura comprender las dos primeras formas de ingenio popular, pero dice que la
tercera lo desconcierta. No puede ver qué tiene de gracioso el queso podrido. Se lo diré ahora mismo. No capta la
idea porque es sutil y filosófica, y él buscaba algo tonto y superficial. El queso podrido da risa porque es (lo mismo
que el extranjero o el hombre que se cae) un ejemplo típico del paso o trascendencia de un gran límite místico. El
queso podrido simboliza la conversión de lo inorgánico en lo orgánico. Simboliza el maravilloso prodigio de la
materia que cobra vida. Simboliza el origen de la vida misma. Y únicamente de cosas tan serias como el origen de la
vida condesciende la democracia a reírse. De ahí, por ejemplo, los chistes democráticos sobre el matrimonio; porque
el matrimonio es parte de la humanidad. En cambio, del amor libre jamás se dignará reír la democracia, porque el
amor libre es simple mojigatería.

De hecho, se convendrá en que los chistes populares son falsos en la letra, pero verdaderos en el espíritu. Por decirlo
paradójicamente, el chiste vulgar refleja la verdad pero no la realidad. Por ejemplo, no es verdad que las suegras
sean insufribles y dominantes; la mayoría son abnegadas y serviciales. Todas las suegras que yo he tenido eran
personas maravillosas. Y, sin embargo, la imagen que dan de ellas los periódicos satíricos es profundamente
verdadera. Apunta al hecho de que es mucho más difícil ser una buena suegra que ser bueno en cualquier otra clase
de relación humana. Las caricaturas pintan a la peor de las suegras como un monstruo, para decir que ser la mejor es
muy difícil. Lo mismo vale para los clásicos chistes de esposas hurañas y maridos calzonazos. Son una gran
exageración, pero una exageración de la verdad; por lo mismo que todo el moderno clamor sobre las mujeres
oprimidas son exageraciones de una mentira. Si leemos incluso al mejor de los intelectuales de hoy, veremos que
dice que en la masa democrática la mujer es una pertenencia de su señor, como el baño o la cama. Pero si leemos la
literatura humorística de la democracia, veremos que el señor se esconde bajo la cama huyendo de la ira de su
pertenencia. Esto no es la realidad, pero sí está mucho más cerca de la verdad. Todo hombre casado sabe de sobra
no solo que no considera a su mujer una pertenencia, sino que ningún hombre puede verosímilmente haberlo hecho
nunca. El chiste plasma una verdad última, una verdad sutil. Y que no es fácil de decir correctamente. Quizá lo más
correctamente que se puede decir es declarando que incluso cuando mejor lleva puestos los calzones, sabe el
hombre que es un calzonazos.

Pero los periódicos satíricos populares son tan sutiles y verdaderos que resultan hasta proféticos. Si de verdad
queremos conocer el futuro de nuestra democracia, no leamos las profecías modernas, no leamos ni siquiera las
utopías del señor Wells, aunque desde luego debemos leerlas si apreciamos a los hombres de bien y a los buenos
ingleses. Si queremos saber lo que pasará con nuestra democracia, estudiemos las páginas de Snaps o dePatchy Bits
como si fueran las negras tablas de los oráculos divinos. Pues, por humildes y groseras que sean, reflejan, y lo digo
muy en serio, lo que no refleja ninguna de las utopías y conjeturas sociológicas actuales: las costumbres y deseos
verdaderos de los ingleses. Si de verdad queremos saber qué acabará siendo la democracia, no lo sabremos leyendo
la literatura que estudia al pueblo, sino la literatura que el pueblo estudia.

Pondré dos ejemplos al azar en los que se ve que el chiste común o cockney fue mucho más profético que las
concienzudas observaciones del más sesudo observador. Cuando antes de las últimas elecciones generales estaba
Inglaterra agitada por la cuestión de la mano de obra china, hubo una clara diferencia entre el tono de los políticos y
el tono del pueblo. Los políticos que condenaban la mano de obra china se cuidaban muy bien de explicar que de
ningún modo desaprobaban a los chinos mismos. Según ellos, era una cuestión de pura legalidad, de si ciertas
cláusulas del contrato de aprendizaje eran compatibles con nuestras tradiciones constitucionales: según ellos, habría
sido lo mismo si hubieran sido negros o ingleses. Todo parecía maravillosamente lúcido e ilustrado, y en
comparación con ello, el humor popular resultaba, claro está, muy pobre. Pues el humor popular criticaba a los
trabajadores chinos simplemente porque eran chinos; era un tipo de ataque a lo extraño, a lo extranjero; los
periódicos populares hacían mil burlas de las coletas y las caras amarillas. Parecía que los políticos liberales se
oponían a un dudoso documento del Estado, y que el pueblo radical simplemente se desternillaba con risa tonta de
los chinos. Pero el instinto popular tenía razón, porque los vicios denunciados eran vicios chinos.

El segundo ejemplo es más amable y más a la moda. Los periódicos populares insistían en representar a la «nueva
mujer sufragista» como una mujer fea, gorda, con gafas, mal vestida, y cayéndose casi siempre de una bicicleta.
Hablando en puridad, no hay ni pizca de verdad en eso. Las líderes del movimiento por la emancipación de la mujer
no son feas en absoluto, la mayoría son muy bien parecidas. Ni son tampoco indiferentes al arte del bien vestir;
muchas de ellas son alarmantemente aficionadas a él. Pero el instinto popular no se equivocaba. Porque el instinto
popular veía en ese movimiento, con o sin razón, un elemento de indiferencia a la dignidad de la mujer, de una
novísima voluntad de las mujeres de ser grotescas. Esas mujeres desprecian realmente la mayestática condición de
la mujer. Y en nuestras calles y en torno a nuestro parlamento hemos visto a la majestuosa mujer de arte y cultura
convertirse en la risible mujer del Comic Bits. Y creamos o no justificable la exhibición, la profecía de los periódicos
satíricos sí está justificada: las sanas y vulgares masas eran conscientes de que un enemigo oculto de nuestras
tradiciones ha salido hoy a la luz, de que las escrituras podrían cumplirse. Pues lo que más odia en el mundo una
persona sana es una mujer que no es digna y un hombre que lo es.

El voto y la Cámara-G.K.CHETERTON
El voto y la Cámara-G.K.CHETERTON

Título original: «The vote and the House»,


en All Things Considered

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

A muchos nos pedirán pronto el voto, supongo, y algunos hasta lo pediremos. Nada me inducirá a decir para qué
partido lo pediré yo, aunque sí afirmo que será casualmente para el único partido por el que un patriota con
elevados principios y espíritu cívico puede mostrar siquiera un momentáneo interés. Sobre la cuestión misma de
pedir el voto, en cambio, sí creo que podemos opinar, pues es una cuestión imparcial. Las normas por las que debe
regirse un agente electoral las conocerá bien todo aquel que alguna vez lo haya sido. Figuran impresas en la tarjetita
que lleva consigo y pierde. Una de esas normas creo que le prohíbe convidar a los electores a comer o a beber. Por
muy hospitalario que se sienta con ellos en sus casas, jamás debe llevarles de almorzar. No debe sacar chuletas de
ternera del bolsillo del frac, ni esconder en su persona huevos escalfados, ni extraer patatas asadas del sombrero
como si fuera una especie de prestidigitador. En suma, el agente electoral no debe alimentar al elector de ninguna
de las maneras. Si a este le está permitido alimentar a aquel, invitarlo a chuletas de ternera y a patatas asadas, es un
artículo de ley sobre el que nunca he podido informarme. Cuando yo pedía el voto a un señor, me sentía a veces
tentado de preguntarle si sabía de alguna norma que le impidiese invitarme a comer o a beber; pero era una
pregunta delicada. Su actitud parecía a veces darme a entender que dudaba si me habría invitado, aunque hubiera
podido. Pero seguro que hay electores a los que interesa saber si existe alguna ley que les prohíba sobornar a un
agente electoral. Podrían sobornarlo para que se fuera.

La segunda norma que figuraba impresa en la tarjetita vedaba al agente inducir a nadie a hacerse pasar por elector.
Ignoro lo que significa. Que sea vestirse como un elector medio parece algo vago. Por lo que yo sé, no hay ningún
uniforme con chaleco cívico y bigote patriótico claramente reconocible. Esto sería como lo que hizo un amigo mío
rico, que fue a un baile de disfraces disfrazado de caballero. O quizá se refiere a la práctica de hacerse pasar por un
elector en concreto. El agente penetra sigilosamente en la casa de su cómplice con una bolsa, de la que saca un par
de bigotes blancos y un monóculo capaces de dar a la más corriente de las personas un sorprendente parecido con el
coronel que vive en el número 80. O bien le planta la larga nariz y la calva cabeza que harán creer que se trata del
mismísimo profesor Budger. No voy a imponerme la tarea de aclarar la cuestión. Solamente puedo decir que, cuando
yo era agente electoral, la tarjetita me prohibía, con la mayor seriedad y autoridad, inducir a nadie a hacerse pasar
por elector: y con la mano en el pecho afirmo que nunca lo hice.

La tercera prohibición que figuraba en la tarjetita me parecía a mí que, interpretada literalmente, minaba los
fundamentos mismos de nuestro sistema político. Decía que «no debíamos dirigir al elector ningún tipo de
amenazas». Es indudable que se refería a las amenazas de carácter personal e ilegítimo, como en el caso de que un
candidato con dinero amenace con subir todos los alquileres o erigirse una estatura a sí mismo. Pero tal como está
expresada, parece abarcar también esas amenazas generales de desastre para toda la comunidad que son el
principal argumento del debate político. Cuando un agente electoral dice que si el candidato de la oposición gana
será la ruina del país, está haciendo al elector amenazas muy claras. Cuando el librecambista dice que si se aplican
aranceles los ciudadanos de Brompton o Bayswater caminarán a gatas comiendo hierba, está amenazándolos.
Cuando el partidario de la reforma arancelaria dice que si el librecambio dura un año más la catedral de Saint Paul
será una ruina y Ludgate Hill quedará más despoblada que Stonehenge, también está amenazando. ¿Y qué gracia
tiene ser reformador arancelario si no se puede decir eso? ¿Qué sentido tiene ser político o parlamentario si no
podemos decirle al pueblo que si el otro llega al poder, Inglaterra será invadida y esclavizada al instante, correrá la
sangre Strand abajo y todas las damas inglesas serán arrastradas a los harenes? Pues todo esto son, al fin y al cabo,
amenazas.

Es hoy opinión de la mayoría de las personas refinadas que se abusa de la práctica de pedir el voto. Del mismo modo
es opinión de la mayoría de las personas refinadas (generalmente las mismas personas refinadas) que se abusa de la
práctica de entrevistar a famosos. A mí me parece muy curioso que ese refinado mundo reserve toda su indignación
para estas dos actividades, que comparativamente son inocentes y honradas. Hay mucha corrupción e hipocresía en
nuestros políticos; casi lo más limpio que hay en ese sucio mundo es pedir el voto. Un hombre no tiene derecho a
«comprar» un distrito electoral con enérgicas obras de caridad, prodigando parques y bibliotecas, abriendo vagas
perspectivas de futura benevolencia; todo eso, que se hace impunemente, es soborno, ni más ni menos. Pero sí
tiene derecho a pedirle educadamente a otro hombre libre que vote por él. Se puede pedir, dar o rechazar la
información sin que ninguna de las dos partes pierda un ápice de dignidad, lo que no se puede decir de los parques.
Lo mismo vale para el caso de las entrevistas. En un mundo en el que hay laberintos de hipocresía como es el
periodismo, las entrevistas son lo más sencillo y sincero que hay. El agente electoral, cuando quiere saber lo que
opina una persona, va y se lo pregunta. Puede ser cargante, pero es casi lo más franco y limpio que puede hacer. Y el
entrevistador, cuando quiere saber lo que opina una persona, va y se lo pregunta. De nuevo puede ser cargante;
pero de nuevo es casi lo más franco y limpio que puede haber. En cambio, el resto de las prácticas cínicas de nuestro
periodismo, que son reales y sistemáticas, quedan impunes y aun pasan desapercibidas: los móviles económicos de
la política, los carteles engañosos, la supresión de cartas de reclamación justas... Se pueden decir cosas sobre otros
que son infames mentiras, pero se leen tranquilamente. En cambio, que alguien diga algo sobre sí mismo a un
entrevistador parece imperdonablemente vulgar. El periódico puede dar una imagen falsa o mala de nosotros y no
pasa nada; pero que nosotros demos nuestra propia imagen es de mal gusto. El gran error en ambos casos es que las
personas refinadas critican la política y el periodismo por ser vulgares. Claro está que la política y el periodismo
pueden ser vulgares. Pero eso no es lo peor que tienen. Hay tantas cosas malas en ambos que, por una vez, el que
sean vulgares es lo mejor. Por lo menos es una vulgaridad ruidosa; el gran peligro es ese silencio que siempre
envuelve la corrupción. La persuasión verbal en tiempo de elecciones es perfectamente humana y racional; lo
absolutamente pernicioso es la persuasión callada.

Que la Cámara de los Comunes no dé cabida a todos los representantes es un excelente ejemplo de lo que llamamos
anomalías de la Constitución inglesa, así como es un excelente ejemplo, creo yo, de lo altamente indeseables que
dichas anomalías son. La mayoría de los ingleses dicen que no tiene importancia; no se avergüenzan de ser ilógicos;
se enorgullecen de ser ilógicos. Lord Macaulay (típico inglés romántico, poético, racista) dijo que él no votaría por
suprimir una anomalía que no constituyera también un agravio para alguien. Lo mismo dicen muchos otros
románticos ingleses con igual firmeza. Se jactan de nuestras anomalías; se jactan de nuestra falta de lógica; dicen
que eso demuestra lo muy prácticos que somos. Se equivocan de medio a medio. Lord Macaulay, en este asunto
como en otros, se equivoca de medio a medio. Las anomalías son muy serias y hacen mucho daño; las abstracciones
ilógicas son muy serias y hacen mucho daño. Y eso por una razón que cualquiera que tenga cierto conocimiento de la
naturaleza humana puede entender. Todas las injusticias empiezan en la mente. Y la anomalías habitúan a la mente
a lo irracional y a lo falso. Supongamos que por alguna ley prehistórica tengo poder para obligar a todos los
habitante de Battersea a cabecear tres veces antes de levantarse de la cama. Los políticos prácticos dirán que este
poder es una anomalía inofensiva; que no constituye ningún agravio. No perjudica a mis súbditos ni me beneficia a
mí. Los ciudadanos de Battersea, dirán, podrían someterse a ello sin peligro. Pero los ciudadanos de Battersea no se
someterían a ello sin peligro, por todo eso. Si durante cincuenta años los he obligado a mover la cabeza, con mucha
mayor facilidad podría acabar cortándosela. Porque habrían inculcado en sus mentes la creencia de que mi poder
fantástico e irracional era algo natural. Habrían vivido habituándose a la locura.

Y es que para que los hombres combatan la injusticia no solo es necesario que crean que la injusticia es
desagradable; han de creer también que es absurda; han de creer que es sorprendente. Han de ser capaces de un
asombro virgen. Esto explica el curioso hecho que debe de chocar a mucha gente cuando piensa en la relación entre
filosofía y reforma. El hecho, quiero decir, de que los optimistas son reformadores más prácticos que los pesimistas.
Visto superficialmente, uno pensaría que el que se queja será el que reforme; que el que piensa que todo está mal
será el que lo arregle todo. La experiencia histórica demuestra que ocurre lo contrario; que, curiosamente, son las
personas que piensan que las cosas están bien como están las que en realidad las mejoran. El optimista Dickens
reformó más cosas que el pesimista Gissing. Un hombre como Rousseau tiene una idea de la naturaleza humana de
lo más halagüeña, pero trajo una revolución. Un hombre como David Hume piensa que casi todas las cosas son
desoladoras; pero es un conservador y desea que sigan igual. Un hombre como Godwin cree que en la vida hay que
ser amables, pero es un rebelde. Un hombre como Carlyle cree que en la vida hay que ser crueles, pero es un tory.
Los hombres que cambian las cosas empiezan siempre amando las cosas. Y la explicación del éxito del reformador
optimista, del fracaso del reformador pesimista, es, después de todo, muy sencilla: el optimista ve lo malo no solo
con indignación, sino también con asombro. Cuando el pesimista ve una iniquidad, piensa que no es sino una
iniquidad más de la existencia. Los tribunales de justicia no tienen remedio... como la humanidad. La Inquisición es
abominable... como el universo. En cambio, el optimista ve la injusticia como algo discordante e inesperado, que lo
impulsa a la acción. Lo injusto puede enfadar al pesimista, pero solo sorprenderá al optimista.

El mismo efecto producen las anomalías en una mente lógica. El pesimista reacciona ante lo malo (como Lord
Macaulay) únicamente si constituye un agravio. El optimista reacciona también porque es anómalo, porque
contradice su idea de cómo han de funcionar las cosas. Y no carece de importancia, sino, muy al contrario, tiene la
máxima importancia, el que las cosas, en política y en todo, sean lúcidas, explicables y defendibles. Cuando uno se
acostumbra a lo irracional, la injusticia deja pronto de sorprenderlo. Cuando uno se familiariza con lo anómalo,
puede ver hasta qué punto es un agravio, hasta qué punto es grave; pero pronto deja de ver hasta qué punto es
extraño. Pongamos el ejemplo mencionado más arriba, aunque solo sea porque es excelente, esto es, el de los
escaños, o más bien la falta de escaños, de la Cámara de los Comunes. Puede que sea verdad que ni en las mejores
condiciones podrían estar todos los miembros. Puede que la asistencia plena nunca se dé. Pero ¿quién sabe en qué
medida ha influido en dejar a miembros fuera esa tranquila asunción de que se quedarían fuera? ¿Cómo podemos
esperar de nadie que contribuya a la plena asistencia si sabe que en realidad está prohibida? ¿Cómo pueden los
hombres que forman la Cámara hacer su deber sensatamente cuando los hombres que la construyeron no hicieron
el suyo también sensatamente? Si la trompeta emite un sonido dudoso, ¿quién se preparará para la batalla? ¿Y qué
pasa si la trompeta dice: «Te ordeno, por tu amor al rey y a la patria, que asistas al consejo; pero sé que no podrás»?

Correr tras el sombrero-G.K.CHESTERTON


Correr tras el sombrero-G.K.CHESTERTON

Título original: «On running after one’s hat»,


en All Things Considered

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

Siento casi una envidia rabiosa al oír que Londres se ha inundado en mi ausencia, estando yo en el campo. Tengo
entendido que Battersea, mi barrio, ha sido especialmente favorecido por las aguas. Si Battersea ya era, huelga
decirlo, la más bonita de las localidades, ahora que goza del adicional esplendor de los grandes mantos de agua, mi
romántica ciudad debe de resultar un paisaje (una marina) incomparable. Battersea debe de ser una visión de
Venecia. La barca que transporta la carne del matadero debe de haber surcado aquellas calles de ondeante plata con
la rara suavidad de una góndola. El verdulero que lleva coles a la esquina de Latchmere Road debe de haberse
inclinado sobre el remo con la gracia sobrenatural de un gondolero. No hay nada tan poético como una isla; y
cuando un barrio se inunda se convierte en un archipiélago.

Algunos reputan esta romántica contemplación de inundaciones o incendios algo falta de realismo. Pero en realidad
esta contemplación romántica de tales fenómenos es tan pragmática como cualquier otra. El optimista que ve en
ellos una ocasión de disfrutar es tan lógico y mucho más sensato que el «indignado contribuyente» que ve una
ocasión de quejarse. El verdadero dolor, el de ser quemado en la hoguera o el de muelas, por ejemplo, es algo real;
podemos soportarlo pero difícilmente disfrutarlo. Aunque, después de todo, las muelas no suelen dolernos y, en
cuanto a ser quemados en la hoguera, es cosa que nos ocurre muy de tarde en tarde. La mayoría de las
circunstancias que hacen a los hombres maldecir y a las mujeres llorar son circunstancias sentimentales o
imaginarias, cosas puramente mentales. Por ejemplo, a menudo oímos a personas adultas quejarse de tener que
esperar un tren yendo y viniendo por la estación. ¿Se ha quejado alguna vez un niño de tener que esperar un tren
yendo y viniendo por una estación? No; porque para él una estación es como una caverna llena de maravillas y un
palacio lleno de poéticos placeres. Porque para él la luz roja y la luz verde de la señal son como un nuevo sol y una
nueva luna. Porque para él el travesaño que cae de pronto es como el bastón del rey que da la señal para que
comience un estrepitoso torneo de trenes. Yo mismo tengo hábitos infantiles en estas cosas. También valen para
quienes simplemente están quietos y esperan el tren de las dos quince. Sus meditaciones pueden ser muy ricas y
fructíferas. Muchas de mis más inspiradas horas las he pasado en Clapham Junction, que ahora estará, supongo, bajo
agua. Muchas veces he estado allí de un ánimo tan místico y absorto que el agua podría haberme llegado a la cintura
sin darme plena cuenta de ello. Pero en el caso de todas estas molestias, como he dicho, todo depende de nuestro
estado emocional. Podemos tranquilamente aplicar el mismo criterio a casi todos los comúnmente considerados
típicos fastidios de la vida diaria.

Por ejemplo, se tiene la impresión de que correr tras el sombrero es algo feo. ¿Por qué había de ser feo para una
mente piadosa y cabal? No simplemente por tener que correr, que cansa. Corremos más veloces en juegos y
deportes. Corremos más impetuosamente tras una insignificante pelota de cuero que tras un lindo sombrero de
seda. Pensamos que correr tras el sombrero es humillante; y cuando decimos que es humillante, queremos decir que
es cómico. Ciertamente lo es; pero el hombre es una criatura harto cómica, y muchas de las cosas que hace son
cómicas, comer, verbigracia. Y lo más cómico de todo es precisamente aquello que más merece la pena hacer, como
el amor. Correr tras un sombrero no es ni la mitad de ridículo que correr tras una esposa.

Pues bien: si supiéramos tomárnoslo bien, podríamos correr tras el sombrero con el más viril de los ardores y el más
sublime de los júbilos. Podríamos considerarnos joviales cazadores persiguiendo un animal salvaje, pues ningún
animal puede ser más salvaje. De hecho, me inclino a creer que la caza del sombrero en días de viento será el
deporte de las clases altas en el futuro. Habrá encuentros de damas y caballeros en cotas altas en mañanas de fuerte
viento y se les dirá que el personal de marras ha soltado un sombrero en tal o cual matorral, o como técnicamente
se llame. Obsérvese que esta práctica aunará en sumo grado lo deportivo con lo humanitario. Los cazadores sabrán
que no están infligiendo dolor. Mejor dicho, sabrán que están proporcionando placer, un placer intenso, casi salvaje,
a las personas que los estén viendo. Hace poco vi en Hyde Park a un anciano señor correr tras su sombrero y le dije
que un pecho tan bondadoso como el suyo debía sentirse henchido de paz y gratitud al pensar cuánto placer sincero
estaban dando en aquel momento a la multitud sus gestos y movimientos corporales.

El mismo principio puede aplicarse a todos los demás cuidados típicos de la vida diaria. Solemos creer que sacar una
mosca de la leche o un trocito de corcho del vaso de vino es motivo bastante para irritarnos. Pensemos por un
momento en la paciencia de esos pescadores que se sientan al borde de oscuros estanques, y veremos como nos
invade el alma un sentimiento de paz y gratitud. También he conocido a gente de mentalidad muy moderna que,
llevada de la angustia, usaba términos teológicos a los que no conceden significado doctrinal alguno, simplemente
porque un cajón se había atrancado y no podían abrirlo. Un amigo mío sufría especialmente por esto. Todos los días
se le atrancaba el cajón, y en consecuencia todos los días soltaba por aquella boca. Yo le hice notar que esa
sensación de agravio era subjetiva y relativa; que descansaba enteramente sobre la premisa de que el cajón podía y
debía abrirse fácilmente. «Pero», añadí, «si te imaginas luchando contra algún enemigo poderoso y opresivo, la cosa
te resultará emocionante en lugar de exasperante. Figúrate que estás en el mar tirando de un bote salvavidas.
Figúrate que estás sacando a un compañero de la grieta de un glaciar alpino. Figúrate que has vuelto a tu niñez y
estás halando de la cuerda en una competición entre franceses e ingleses.» Al poco de decirle esto me despedí; pero
no dudo de que mis palabras dieron el mejor fruto. No dudo de que todos los días de su vida mi amigo se agarra al
tirador de ese cajón con el rostro y los ojos inflamados en ardor guerrero, y se da voces de ánimo y se figura oyendo
en torno el clamor y los aplausos de un público.

No pienso, pues, que sea completamente absurdo o increíble suponer que también las inundaciones de Londres
pueden ser vistas y disfrutadas de una manera poética. Parece que no han causado nada más que molestias; y las
molestias, como he dicho, son solo un aspecto, el aspecto menos imaginativo y más accidental de unas
circunstancias realmente románticas. Una aventura no es más que una molestia bien considerada. Una molestia no
es más que una aventura mal considerada. Si acaso, las aguas que rodean las casas y comercios de Londres no han
hecho sino aumentar el hechizo y la maravilla que ya tenían. Pues, así como el sacerdote católico romano del chiste
dijo: «El vino va bien con todo menos con agua», así nosotros podemos decir: «El agua va bien con todo menos con
vino».

En defensa de lo efímero-G.K.CHESTERTON
En defensa de lo efímero-G.K.CHESTERTON

Título original: «The case for the ephemeral»,


en All Things Considered

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

No puedo entender a la gente que se toma en serio la literatura; pero puedo amarla y la amo. Por eso le recomiendo
que no coja este libro. Es una colección de papeles rudimentales e informes sobre temas de actualidad, temas
corrientes o más bien volantes, que han de ser publicados tal como están. En general, los escribí en el último
momento, los entregué justo antes de que fuera demasiado tarde y no creo que los cimientos de nuestro estado de
bienestar se hubieran estremecido de haberlo hecho justo después. Ahí van ahora con todas sus imperfecciones, que
más bien son las mías; pues sus defectos son tan vitales que no los enmendarían unos tachones, ni nada que yo
pueda imaginar, salvo la dinamita.

Su principal defecto es que suelen ser muy graves: no tuve tiempo de aligerarlos. ¡Es tan fácil ser solemne! ¡Es tan
difícil ser frívolo! Cierre el sincero lector los ojos unos momentos y pregúntese, ante el tribunal de su conciencia, qué
preferiría que le pidieran escribir en las siguientes dos horas, si la portada del Times, que está llena de largos
artículos serios, o la del Tit-Bits, que está llena de chistes cortos.° Si el lector es la persona honrada y cabal que yo
creo que es, se apresurará a contestar que, al pronto, antes preferiría escribir diez artículos para elTimes que un solo
chiste para el Tit-Bits. Hablar con responsabilidad, la responsabilidad profunda y prudente, es lo más fácil del mundo;
todo el mundo puede hacerlo. Por eso se meten a políticos tantos hombres cansados, viejos y ricos. Son
responsables porque no les queda energía mental para ser irresponsables. Es más digno estarse tranquilamente
sentado que ponerse a bailar. También es más fácil. En estas páginas yo me mantengo en general al nivel del Times y
solo ocasionalmente me elevo al del Tit-Bits.

Retomo la defensa de este libro indefendible. Estos artículos tienen otra pega, fruto de la urgencia con la que fueron
escritos: son prolijos y rebuscados. Uno de los inconvenientes de la prisa es que lleva mucho tiempo. Si tengo que
estar en High-gate hoy, quizá pueda ir por el camino más corto. Si tengo que estar ahora mismo, mejor será que vaya
por el más largo. En estos ensayos (ahora que los releo) noto que me irrito tremendamente a mí mismo por no ir al
grano más deprisa; pero es que no tuve tiempo de correr. Hay algunos casos exasperantes en los que empleo dos o
tres páginas para describir un concepto cuya esencia podría expresarse con un epigrama; solo que no había tiempo
para epigramas. No me arrepiento ni de una coma de lo aquí manifestado; pero sí creo que podría haberlo
manifestado de una manera mucho más breve y exacta. Por ejemplo, late en estas páginas una especie de protesta
contra los escritores que se jactan de novedosos. Se precian de que su filosofía del universo es la última filosofía, o la
nueva filosofía, o la filosofía avanzada y progresista. Digo muchas cosas contra un mero modernismo. Con la palabra
«modernismo» no me refiero solamente al conflicto que existe hoy en la Iglesia Católica Romana, aunque no deja de
sorprenderme que un grupo de intelectuales acepte un nombre tan vago y tan poco filosófico. Me resulta
incomprensible que un pensador pueda tranquilamente llamarse a sí mismo modernista; es como llamarse
Juevesista. Pero, dejando aparte esta contrariedad, decía que en estas páginas late una irritación general contra los
que presumen de progresismo y modernidad al debatir sobre religión, pero en ningún momento consigo decir de
forma clara y directa cuál es el problema del modernismo. La verdadera objeción al modernismo es que es una
forma de presunción, ni más ni menos. Es querer aplastar a un adversario racional no con razones, sino con una
especie de misteriosa superioridad, dando a entender que uno está particularmente puesto al día o enterado.
Presumir de que todos los últimos libros nos han llegado de Alemania es sencillamente vulgar; es como presumir de
que todos los últimos sombreros nos han llegado de París. Introducir en los debates filosóficos una mueca de desdén
por la antigüedad de un credo es como introducir una mueca de desdén por la edad de una mujer. Es de mal gusto
porque es irrelevante. El modernista puro no es más que un esnob; no puede soportar ir un mes por detrás de la
última moda. Análogamente, veo que en estas páginas he intentado formular la verdadera objeción al filántropo y
no lo he conseguido. No he sabido expresar la simplísima objeción a las causas defendidas por ciertos idealistas
ricos; causas de las que la llamada abstinencia del alcohol es la más representativa. He usado contra ella muchos
términos críticos, denominándola puritanismo, arrogancia, aristocracia; pero no he sabido ver ni decir la simplísima
objeción a la filantropía; que es la de que es persecución religiosa. La persecución religiosa no consiste en
instrumentos de tortura ni en quemas de herejes; la esencia de la persecución religiosa es esta: que el hombre que
ostenta poder material en el Estado, porque es rico o porque ocupa un cargo oficial, gobierne a sus compatriotas no
según la religión o la filosofía de ellos, sino según las suyas. Es persecución religiosa que, por ejemplo, a una nación
vegetariana, si tal cosa existiera; si a una gran masa unida que deseara vivir según los preceptos vegetarianos, yo les
dijera, por usar los enfáticos términos de cierto arrogante marqués francés de antes de la Revolución francesa: «Que
coman hierba». A lo mejor este oligarca francés era una persona humanitaria –muchos oligarcas lo son–, y cuando
les decía a los campesinos que comieran hierba, estaba en realidad recomendándoles la higiénica sencillez de un
restaurante vegetariano; pero esta, aunque muy interesante, no es la cuestión. La cuestión es que una nación
vegetariana permita a sus gobernantes hacerle sentir todo el horrible peso del vegetarianismo; que les permita
ofrecer a los huéspedes de Estado banquetes oficiales vegetarianos; que les permita ofrecerles, en el sentido más
literal y atroz de la palabra, judías. Y este tipo de tiranía aún tiene pase; pues es el pueblo el que tiraniza al pueblo.
Pero los reformadores por la abstinencia son como grupitos de vegetarianos que silenciosa y sistemáticamente
obraran conforme a un supuesto ético del todo ajeno al conjunto del pueblo. Harían pares del reino a los verduleros,
nombrarían comisiones parlamentarias para investigar la vida privada de los carniceros, obligarían a todo hombre
que vieran a su merced, a los pobres, a los reclusos, a los locos, a rematar su inhumano aislamiento haciéndose
vegetarianos; en los comedores de los colegios solo servirían comida vegetariana, las casas públicas serían casas
públicas vegetarianas. Comparado con la abstinencia, aún sale ganando con mucho el vegetarianismo. Ninguna
filosofía puede considerar embriaguez el beberse un vaso de cerveza; pero esa filosofía sí puede considerar
asesinato el matar a un animal. La objeción a ambos credos, el abstemio y el vegetariano, no es que sean
inadmisibles; es sencillamente que no son admitidos. Son persecución religiosa porque no se basan en la vigente
religión de la democracia. Piden al pobre que acepte en práctica lo que saben perfectamente que no aceptaría en
teoría. Esto es la persecución. Yo me opuse a la pretensión de los Tories de imponerles a los ingleses una teología
católica en la que no creen. Aún me opongo más a la de imponerles una moral musulmana que activamente
rechazan.

Digo lo mismo del caso del periodismo anónimo. Tengo la impresión de haber dicho muchas cosas sin haber dicho
ninguna clara y terminante. El periodismo anónimo es peligroso; emponzoña nuestra presente vida porque la está
volviendo cada vez más anónima. Esto es lo terrible de nuestra sociedad actual: que está convirtiéndose en una
sociedad secreta. El tirano moderno es malo porque es escurridizo. Es más anónimo que su esclavo. No es menos
cruel que los tiranos del pasado, pero sí más cobarde. El editor rico puede tratar al poeta pobre mejor o peor de lo
que antiguamente el maestro trataba al aprendiz. Pero el aprendiz escapaba y el maestro corría tras él. Hoy día es el
poeta el que persigue al editor y en vano intenta depurar responsabilidades. Y el editor es el que escapa. Despiden al
secretario del señor Solomon; despiden, o mejor dicho despachan, a la bella esclava griega del sultán Sulimán. Pero
aunque la esclava desaparece bajo las negras aguas del Bósforo, al menos su verdugo no desaparece. Se lo
encuentra a lomos de un elefante blanco precedido por trompetas doradas. En el caso del secretario, por contra, casi
tan difícil es saber de dónde viene el despido como adónde va el secretario. Tan pronto puede haberlo despedido el
mismo señor Solomon, como el jefe del señor Solomon, como la tía rica del señor Solomon que vive en Cheltenham,
como el acreedor rico del señor Solomon que vive en Berlín. La intrincada maquinaria que en otros tiempos se ponía
en marcha para hacer responsables a los hombres funciona ahora para rehuir responsabilidades. Se habla de la
soberbia de los tiranos, pero hoy nosotros no sufrimos por la soberbia de los tiranos. Sufrimos por la timidez de los
tiranos; por la apocada modestia de los tiranos. Por eso no debemos animar la timidez de los editorialistas; no
debemos estimular su ya demasiada modestia. Al contrario, debemos incitarlos a ser fatuos y ostentosos; para que
su ostentación pueda llevarlos al fin a la honradez.

El último defecto de este libro es el peor de todos. Este: que si todo va bien, no será sino una ininteligible bobería.
Pues consiste sobre todo en criticar posturas y actitudes que son por naturaleza accidentales y no han de durar. Por
corta que sea la vida de un libro así, aún durará veinte minutos más que las filosofías que ataca. Y al final lo
importante no será si escribimos bien o mal, ni si luchamos con látigos o palos. Lo importante será de qué parte
luchamos.

Robert Louis Stevenson-G.K.CHESTERTON


Robert Louis Stevenson-G.K.CHESTERTON

Título original: «Robert Louis Stevenson», en Twelve Types

Traducción de Juan Manuel Salmerón, extraída de su pagina Web: http://juanmanuelsalmeron.com/

Una reciente circunstancia ha acabado de convencernos de que Stevenson era, como sospechábamos, un gran
hombre. Ya sabíamos, por los últimos libros reseñados, por el desdén que le demuestran Ephemera Critica y el señor
George Moore,° que Stevenson cumplía el primer requisito esencial del hombre grande: el de no ser entendido por
sus detractores. Pero el libro que acaba de publicar la editorial Chatto & Windus con la misma encuadernación que
las obras de Stevenson, Robert Louis Stevenson, del señor H. Bellyse Baildon, nos entera además de que cumple
también el otro requisito esencial: el de no ser entendido por sus admiradores. El señor Baildon tiene muchas cosas
interesantes que decirnos acerca de Stevenson, al que conoció en la universidad. Y su crítica no carece en absoluto
de valor. La que dedica a su teatro, sobre todo a Beau Austin,° es muy sesuda y acertada. Pero resulta sumamente
curioso, y más que demostrativo de esa inasible característica que, como decimos, es propia de los grandes
hombres, que este estudioso y admirador de Stevenson pueda enumerar y clasificar todas las obras del maestro, así
como repartir elogios y censuras con determinación y aun severidad, sin pensar un momento en los principios éticos
y artísticos que en nuestra opinión Stevenson se esforzó ímprobamente por expresar.

El señor Baildon, por ejemplo, habla en todo momento del «pesimismo» de Stevenson; curiosa acusación contra el
hombre que, más que ningún artista moderno, ha hecho que nos avergoncemos de sentir vergüenza de la vida.
Lamenta, por ejemplo, que en El señor de Ballantrae y en El doctor Jekyll y míster Hyde, el mal triunfe sobre el bien.
Pero si hubo algo en lo que Stevenson insistió siempre y con pasión, fue en que debemos querer el bien por su
propio valor y belleza, sin preocuparnos de victorias ni de derrotas. «Emprendamos lo que emprendamos», dijo,
«nada nos dice que lo logremos.» Que el curso de los astros se oponen a la virtud, que la humanidad es por
naturaleza una empresa desesperada, fue el mensaje que toda su obra transmite al hombre valeroso. La historia de
Henry Durie es harto funesta, mas ¿puede nadie pararse ante la tumba de este borrachín monomaníaco sin sentir
respeto por él? Es extraño que los hombres encontremos sublime inspiración en las ruinas de una vieja iglesia y no
en las de un hombre.

El señor Baildon piensa las cosas más peregrinas sobre los relatos de Stevenson en que hay muertes y saqueos; cree
que demuestran que Stevenson tenía, por usar su misma expresión, una especie de «manía homicida». Stevenson,
dice, «llega poco más o menos a la paradoja de que casi lo mejor que puede hacer uno es matar». Por lo mismo
podría decirse que Conan Doyle se complace en cometer inexplicables crímenes, Clark Russell es un notorio pirata y
Wilkie Collins cree que casi lo mejor que puede hacer uno es robar diamantes y falsificar partidas de matrimonio.
Pero no es el señor Baildon el único que cae en este error: poca gente ha entendido en su justo sentido esta
fascinación de Stevenson por la violencia y la sangre. Stevenson fue fundamentalmente el bravo colegial que dibuja
esqueletos y horcas en su gramática latina. No se recreaba en la muerte, sino en la vida, en toda acción fuerte y
enérgica de la vida, aunque fuera la de matar.

Supongamos que un hombre lanza un cuchillo contra otro y lo deja clavado a la pared. Está claro que hay dos modos
de ver esta acción. Uno es el punto de vista del hombre clavado, el punto de vista trágico y moral, que Stevenson
demuestra comprender en historias como El señor de Ballantrae yEl Weir de Hermiston. El otro punto de vista es el
que ve en ese acto una explosión de vitalidad física, como el de romper una roca de un martillazo o franquear una
entrada cerrada con barrotes. Este es el punto de vista de la fantasía y la aventura, y el alma de La isla del tesoro y
de The Wrecker. No es, insisto, que Stevenson amara menos a los hombres; es que amaba más las pistolas y las
porras. En el ávido universalismo de su alma, sentía un verdadero amor por los seres inanimados, un amor como no
se conocía desde san Francisco, que llamaba hermano al sol y a la fuente hermana. Sentimos que amaba de verdad
la muleta que Silver lanza al aire en el ocaso, el cofre que Billy Bones deja en la posada del Admiral Benbow, el
cuchillo que Wicks clava en la mesa traspasándose la mano. Siempre hay en su obra una especie de tajante
angulosidad que nos recuerda que le gustaba cortar madera con un hacha.

Pero esta poesía profundamente arraigada de la vista y del tacto no puede verla el nuevo biógrafo de Stevenson. Le
imputa como crímenes cosas que Stevenson quiso que fueran objetos. De esa grandiosa orgía de horror que es «El
ángel destructor», en El dinamitero, dice que es «muy fantástica y nos resulta difícilmente creíble». Es más o menos
como tildar de «poco convincentes» los viajes del barón Munchausen. Toda la historia de El dinamitero es una
especie de pesadilla humorística, e incluso la de «El ángel destructor» no parece sino una extravagante mentira
impulsiva. Es un sueño dentro de un sueño, y reprocharle que es inverosímil es como reprocharle al cielo ser azul.
Esta rica y romántica ironía de las historias londinenses de Stevenson es la que el señor Baildon, bien por haber leído
deprisa, bien por tener otros gustos, no puede comprender. Dice, por ejemplo, que el príncipe Florizel de Bohemia,
ese prodigioso monumento de humor, «pese a la evidente admiración que su creador le profesa, a mí me resulta
una presencia bastante irritante». Lo que casi nos lleva a creer (mal que nos pese) que el señor Baildon piensa que
hay que tomarse en serio al príncipe Florizel, como si fuera una persona real. Declaramos que el príncipe Florizel casi
es nuestro personaje de ficción predilecto, pero nos apresuramos a añadir que si nos lo encontrásemos en la vida
real, lo mataríamos.

Lo cierto es que las virtudes espirituales e intelectuales de Stevenson se han visto parcialmente frustradas por una
virtud adicional: su gran destreza artística. Si, como Walt Whitman, hubiera garabateado su mensaje en una pared,
este nos habría escandalizado como una blasfemia. Pero escribió sus atolondradas paradojas con mano tan correcta
y fluida que todos creímos que los sentimientos también eran correctos. Su polifacetismo lo perjudicaba, no porque
no hiciera bastante bien cada faceta, como erróneamente se ha dicho, sino por hacerlas todas demasiado bien. Sus
disfraces de niño, cockney, pirata o puritano eran tan logrados que casi nadie vio al mismo hombre bajo todos ellos.
No es justo que llamemos «admirable Crichton» a un hombre porque sepa tocar el violín, dar consejos jurídicos y
limpiar botas, y en cambio lo consideremos un violinista, un jurista y un limpiabotas normales y corrientes porque en
cada una de estas tres actividades sea muy bueno.° Esto es lo que nos ocurre con Stevenson. Si El doctor Jekyll,El
señor de Ballantrae, The Child’s Garden of Verses yAcross the Plains hubieran sido un poquito menos perfectos de lo
que son, todos habríamos visto que formaban parte del mismo mensaje; pero obrando el maravilloso milagro de
estar en cinco sitios a la vez, Stevenson nos convenció a todos de que era cinco personas. Sin embargo, su mensaje
es tan sencillo como el de Mahoma, tan moral como el de Dante, tan confidencial como el de Whitman y tan práctico
como el de James Watt.°
El denominador común de la variada obra de Stevenson es la idea de que la fantasía, o la visión de las posibilidades
de las cosas, es mucho más importante que los simples hechos: que aquella es el alma de nuestra vida, y estos son el
cuerpo, y que lo que vale es el alma. El germen de todas sus historias es la creencia de que todo paisaje o escenario
tiene un alma, y que esa alma es una historia. Viendo un desmedrado huerto con un muro derruido, podemos
conocer el simple hecho de que nadie salvo una vieja cocinera ha pasado por él. Pero todo existe en el alma humana:
ese huerto crece en nuestra mente y se convierte en el santuario y teatro de la rara existencia de una chica, un poeta
andrajoso o un granjero loco. Para Stevenson, las ideas son hechos: las aventuras que imaginamos son las aventuras
que vivimos. Pensar en una vaca con alas es esencialmente haber visto una vaca con alas. Y esta es la razón de la
gran variedad de su obra: él tiene que contar una historia tan rica como un rojo crepúsculo, otra tan gris como un
antiguo monolito: porque la historia es el alma, o más bien el significado, de la visión real. Es sumamente impropio
juzgar al Contador de Historias (como lo llamaban los samoanos) por cada uno de los relatos que escribió, como
podemos juzgar al señor George Moore por Esther Waters.°Esos relatos no son sino las dos o tres aventuras de su
alma que llegó a contar. Y murió con miles más en su corazón.

Razão e revelação em São Tomás de Aquino


(…) o argumento de Tomás de Aquino em favor da revelação é bastante racionalista; e, por outro lado, claramente
democrático e popular. Esse argumento nada tem contra a razão. Ao contrário, parece inclinado a admitir que
poderíamos alcançar a verdade através de um processo racional, se fôssemos suficientemente racionais; e também
se continuássemos racionais durante o tempo necessário para isso. Na verdade, algo de seu caráter, que em outro
lugar chamei de otimismo, e para o qual não conheço outro termo mais próximo, levou-o antes a exagerar o grau até
o qual todos os homens acabariam por ouvir a voz da razão. Em suas controvérsias, São Tomás sempre supõe que os
homens vão ouvir a voz da razão. Isto é, ele acredita firmemente que é possível convencê-los por meio da
argumentação, quando eles conseguem acompanhá-la até o fim. Só que seu senso comum lhe disse ainda que a
argumentação não termina nunca. Eu poderia convencer um homem de que a matéria como origem da mente é algo
bem insensato se ele e eu gostássemos muito um do outro, e discutíssemos acaloradamente um com o outro todas as
noites durante quarenta anos. Mas, bem antes de ele se convencer, já no leito de morte, teriam nascido mil outros
materialistas, e ninguém seria capaz de explicar tudo a todos. São Tomás julga que a alma de todas as pessoas
comuns que trabalham duro e têm uma mente não sofisticada é tão importante como a alma dos pensadores e dos
que se dedicam à busca da verdade; e pergunta como todas essas pessoas poderiam encontrar tempo para a
quantidade de raciocínios necessária para a descoberta da verdade. Todo o tom da passagem mostra tanto o
respeito pela pesquisa científica como uma forte simpatia pelo homem comum. Seu argumento em favor da
revelação não é um argumento contra a razão, e sim a favor da revelação. A conclusão que ele tira disso é que os
homens têm de receber as verdades mais elevadas de maneira miraculosa, pois do contrário a maioria não as
receberia. Seus argumentos são racionais e naturais, mas suas deduções são todas favoráveis ao sobrenatural; e,
como é comum no caso de sua argumentação, não é fácil encontrar nenhuma dedução a não ser na própria dedução
que ele faz. E, quando chegamos lá, descobrimos que é algo tão simples quanto o próprio São Francisco teria
desejado que fosse: a mensagem vinda do céu, a história contada a partir do céu, o conto de fadas que na realidade
é verdadeiro.

G. K. Chesterton

[Chesterton, G. K. São Tomás de Aquino: as complexidades da razão. In:Chesterton, G. K. São Tomás de Aquino e
São Francisco de Assis. Tradução Adail Ubirajara Sobral / Maria Stela Gonçalves. – Rio de Janeiro: Ediouro, 2009, p.
208.]

http://blog.opovo.com.br/sincronicidade/razao-e-revelacao-em-sao-tomas-de-aquino/

Sexo e Propriedade
Gilbert Keith Chesterton

Traduzido pelo editores do blog: A cigarrilha de Chesterton.

Título que os editores deram: ‘Sexo, Propriedade, Marxismo, Capitalismo‘.

Capítulo retirado do livro, The Well and the Shallows (1935), título original Sex and Property.
Na linguagem torpe, insonsa, desarticulada e desconcertada a que muita da discussão moderna se acha reduzida, é
imperativo afirmar que vemos em voga aquela mesma falácia que é aplicada aos tópicos do sexo e da propriedade.
Naquela linguagem mais arcaica e desinibida na qual os homens podiam falar e cantar, parece mais cândido se
afirmar que o mesmo espírito ruim se precipita contra as duas grandes bênçãos que nos presenteiam com a poesia
da vida: o amor pela mulher e o amor pela terra. É importante observar, de início, que ambas estas coisas estavam
intimamente associadas desde que a humanidade é humana – e até quando era pagã. Deveras, estavam
estreitamente associadas, mesmo quando se tratava da mais decadente macumbaria. Porém, nem tanto a
pestilência dum paganismo decadente fôra tão má como o odor de um cristianismo decadente. Assim é a
decadência do que há de mais puro!

Havia, por exemplo, durante toda a Antiguidade, nos seus momentos primeiros e últimos, formas de idolatria e
iconolatria das quais os homens cristãos dificilmente eram capazes de relatar: “Que não sejam [esses pagãos] sequer
contados entre vós!”. Os homens se perdiam na simples sexualidade duma mitologia do sexo; organizavam a
prostituição como um sacerdócio, para o serviço dos seus templos; fizeram da pornografia a sua única lírica;
parodiaram emblemas que quase tornavam a sua arquitectura numa espécie de frio e colossal exibicionismo. Muitos
livros eruditos foram redigidos em todas estas seitas fálicas; e bem podeis prescrutar os seus detalhes, que pouco
me importa. Mas o que me interessa é isto: que de certa fora, todo este pecado antigo era infinda e
imesuravelmente mais nobre que o pecado moderno. Todos seus estudiosos concordam pelo menos num ponto: de
que era o culto da fertilidade. Era, infelizmente, comummente aglotinada com o culto da fertilidade da terra. Porém,
estava, pelo menos, do lado da natureza. Estava – concedamos – do lado da vida. Fôra deixado para os derradeiros
cristãos, ou melhor, para os primeiros cristãos inteiramente comprometidos a blasfemar e a renegar o cristianismo,
a invenção uma nova forma de veneração do sexo, que nem chega a ser uma veneração da vida. Foi incumbido aos
derradeiríssimos modernistas proclamar uma religião erótica que, duma vez só, exalta a luxúria, mas proíbe a
fertilidade. O novo paganismo merece literalmente a desfeita de Swinburne, no seu luto pelo velho paganismo, pois
“não eleva o dote requintado e não estende já o banquete paternal”. Os novos sacerdotes abolem a paternidade e
guardam o banquete para si mesmos. São piores que os pagãos de Swinburne. Os sacerdotes de Príapo e Cotito mais
facilmente alcançam o Reino dos Céus que aqueles.

É natural que esta separação desnaturada entre o sexo e a fertilidade que até mesmo os pagãos teriam por
perversão se tenha feito acompanhar com uma separação e uma perversão semelhantes da natureza do amor à
terra. Em ambos os contextos a falácia é a mesma; de que é muito verosímil a sua defesa. A razão por que os nossos
compatriotas contemporâneos não compreendem quando lhes dizemos que o que entendemos por ‘propriedade’ é
a de que eles apenas a têm por dinheiro; no sentido de ‘salário'; no sentido de algo que é imediatamente
consumido, gozado e gasto; algo que lhes confere prazer momentâneo e desaparece. Não compreendem o que
entendemos por ‘propriedade’ algo que inclui esse prazer, por incidência; mas que começa e finda com algo mais
exímio e digno e criativo. O homem que planta um pomar onde havia outrora um mato e decide quem o há-de
herdar, também aprecia o sabor de maçãs; e, esperemos nós, também o sabor da cidra. Porém, ele faz algo de muito
mais gratificante que tão-somente comer uma maçã. Ele impõe a sua vontade no mundo segundo o regulamento
que foi dado pela vontade de Deus; ele afirma que a sua alma a si lhe pertence e não ao Departamento de Inspecção
da Pomicultura, ou o Monopólio do Comércio da Maçã. Mas ele também faz algo que estava implícito em todas as
religiões antigas da terra; naqueles grandes panoramas rurais e rituais que seguiam a sucessão sazonal na China e na
Babilónia; ele venera a fertilidade do mundo. Agora a noção de reduzir a propriedade ao mero fruir do dinheiro é
idêntica à noção de reduzir o amor ao simples gozo do sexo. Em ambos os casos, um prazer acidental, isolado, servil
e até secreto é preterido a uma participação no grande processo criativo; até mesmo na grande criação do mundo.

E diga-se que duas coisas podem ser observadas lado a lado no sistema da Rússia bolchevique, porque o comunismo
é o único modelo cabal e lógico do capitalismo. A primeira, já se admitiu, é a de todo o sistema se direccionava para
o encorajamento ou coação do trabalhador para o gastar do seu salário; para que nada houvesse a pagar no
seguinte fim de mês; para que de tudo gozasse e tudo consumisse e nada desperdiçasse; em suma, para que se
aterrorizasse com a ideia de cometer um só crime em particular: o crime de economizar. Fôra uma extravagância
domesticável; uma negligência disciplinada; uma prodigalidade humilde e submissa. No tempo em que o escravo
cessava de esbanjar todo o seu ganho, em que começou a esconder e armazenar alguma propriedade, ele começava
a economizar algo que, em última instância, compraria a sua liberdade. Poderia começar a contar como alguém
perante o Estado; isto é, ele poderia tornar-se menos escravo e em algo mais parecido com um cidadão.
Moralmente considerado, nada houve de mais daninho que esta generosidade bolchevique.

Mas que fique entendido que é o mesmo espírito e tom que grassa na forma com que se vem a lidar com a outra
questão. O sexo é para ser apreendido pelo escravo apenas como gozo, para que nunca lhe confira poder. É
imperativo que ele saiba o menos possível, ou que pelo menos pense o mínimo que seja capaz sobre o prazer, senão
outra coisa que não o ser um gozo; de pensar ou saber de nada sobre donde vem ou para onde vai, desde o
momento em que a ferramenta de lavoura lhe passa pelas próprias mãos. Ele não deve incomodar ninguém ao
questionar sobre a sua origem dentro do propósito de Deus ou das suas sequelas na posteridade do homem. Em
todo e qualquer contexto, ele não se deve afirmar um proprietário, mas apenas um consumidor; ainda que seja um
consumidor dos elementos mais primários, como a vida e fogo, no quanto estes são consumíveis, pois ele não deve
ter uma qualquer noção da Sarça Ardente, essa que arde e não é consumida. Pois tal sarça só cresce do solo, na terra
real que os seres humanos podem apropriar; e o lugar onde eles se encontram de pé é terra santa.

E assim, há uma paralelo exacto entre as duas ideias modernas – sejam morais ou imorais – do que entende por
reforma social. O mundo esqueceu-se simultaneamente que a criação de uma quinta é algo de muito maior que a
criação de lucro, ou até de um produto, no sentido da apreciação do açúcar de plantio; e que a fundação duma
família é algo muito maior que o sexo, como se vê limitado na acepção que vemos na literatura contemporânea; que
foi reatada numa só pincelada através de um só verso de George Meredith: “E comamos o nosso pote de mel no
sepulcro”.

Bebês e distributivismo
Por G.K. Chesterton

Tradução de Fábio Vieira Junges

Tradução de Babies and Distributism

Eu espero que não seja um segredo arrogante dizer que eu não penso ser excepcionalmente arrogante; ou se eu fui
minha religião me preveniria de ser orgulhoso do meu orgulho. Não obstante, para aqueles de tal filosofia, há uma
grande e terrível tentação ao orgulho intelectual, no encharcarmento de filosofias inúteis e cheias de palavras que
nos cercam hoje. Ainda não há muitas coisas que me movem a algo como o desprezo pessoal. Eu não sinto nenhum
desprezo por um ateísta, que é comumente um homem limitado e constrangido por sua lógica a uma muito triste
simplificação. Eu não sinto nenhum desprezo por um Bolchevique, que é um homem dirigido a mesma simplificação
negativa por uma revolta contra erros muito positivos. Mas há um tipo de pessoa por qual eu sinto o que eu só
posso chamar de desprezo. E é o propagandista popular do que ele ou ela absurdamente descrevem como controle
de natalidade.

Eu desprezo o controle de natalidade porque primeiro é uma palavra fraca e vacilante e covarde. Ela é também uma
palavra totalmente sem significado; e é usada como tal para arranjar permissão até mesmo daqueles que recuariam
primeiro ao ouvir seu real significado. O procedimento desses médicos charlatões recomenda que não se controle
nenhum nascimento. Ele só deixa certo de que nunca deve haver nenhum nascimento para se controlar. Ele não
pode, por exemplo, determinar o sexo, ou até fazer nenhuma seleção no estilo da pseudociência da eugenia.
Pessoas normais podem apenas agir como tal para produzir nascimentos; e essas pessoas podem só agir como tal
para evitar nascimentos. Mas essas pessoas sabem perfeitamente bem como eu de que a própria palavra prevenção
de nascimento atingiria com um calafrio o público, num instante elas seriam estampadas nas manchetes, ou
proclamadas em plataformas, ou espalhadas em anúncios como qualquer outra prática de medicina charlatã. Eles
não ousam chamá-la por seu próprio nome, porque seu nome é um muito mau anúncio. Portanto eles usam uma
palavra convencional e sem significado, com a qual eles fazem a medicina charlatã soar menos inócua.

Segundo, eu desprezo o controle de natalidade porque ele é uma coisa fraca e vacilante e covarde. Ele não é sequer
um só passo ao longo da rua enlameada que eles chamam de eugenia; é uma recusa plana a dar o primeiro e mais
óbvio passo ao longo da via da eugenia. Uma vez que garantem que a sua filosofia está certa, e seu curso de ação é
óbvio; e eles não ousam tomá-lo; eles não ousam declará-lo inclusive. Se não há autoridade alguma em coisas as
quais Cristandade tem chamado moral porque suas origens foram místicas, então eles estão claramente livres para
ignorar todas as diferenças entre animais e homens; e tratar homens como nós tratamos animais. Eles não precisam
barganhar com o velho e tímido compromisso e convenção chamada controle de natalidade. Ninguém a aplica ao
gato. O curso óbvio dos eugenistas é agir em relação a bebês como agem em relação aos gatinhos. Deixem todos os
bebês nascerem; e deixo-nos afogar aqueles que nós não gostamos. Eu não vejo nenhuma objeção a isso; exceto a
objeção de tipo moral ou mística que nós promovemos contra a prevenção de nascimentos. E isso seria eugenismo
real e até sensato; para nós podermos então selecionar o melhor, ou ao menos o mais saudável, e sacrificar o que
são chamados os inapropriados. Pelo fraco compromisso da prevenção de nascimentos, nós provavelmente estamos
sacrificando o adequado e só produzindo os inapropriados. Os nascimentos que evitamos podem ser os nascimentos
das melhores e mais bonitas crianças; aquelas que permitimos, as mais fracas e piores. De fato, é provável; pelo
hábito desencorajar a paternidade de pessoas jovens e vigorosas; e as deixar adiarem a experiência para anos mais
tarde, maioria por motivos mercenários. Até eu ver um pioneiro real e líder progressista saindo com um bom,
arrojado, programa científico para afogamento de bebês, eu não me juntarei ao movimento.

Mas há uma terceira razão para meu desprezo, muito mais profunda e mais difícil de expressar; na qual todas
minhas razões por ser nada do que eu sou ou tento ser; e acima de tudo, por ser um distributivista. Talvez o mais
próximo de uma descrição disto é dizer isso: que meu desprezo ferve em mau comportamento quando eu ouço a
sugestão comum que um nascimento é evitado porque pessoas querem ser “livres” para ir ao cinema ou comprar
um gramofone ou um megafone. O que me faz querer andar sobre essas pessoas como capachos é que eles usam a
palavra “livre”. Por cada ato desse tipo eles prendem a si mesmos ao sistema mais servil e mecânico já tolerado pelo
homem. O cinema é uma máquina para desenrolar certos padrões regulares chamados imagens; expressando as
mais vulgares noções milionárias do gosto dos milhões mais vulgares. O gramofone é uma máquina para gravação de
certas musicas como certas lojas e outras organizações escolhem vender. O sem fio é melhor; mas mesmo esse é
marcado pela marca moderna de todos três; a impotência da parte receptiva. O amador não desafia o ator; o dono
da casa vai achar vão ir e gritar dentro do gramofone; o povo não pode atirar pedras no alto falante moderno,
especialmente quando é um megafone. É tudo um mecanismo central dando ao homem exatamente o que seus
mestres pensam que eles deviam ter feito.

Agora um filho é o sinal e sacramento próprio da liberdade pessoal. Ele é uma vontade livre nova adicionada às
vontades do mundo; ele é algo que seus pais têm escolhido livremente produzir e o qual eles concordam livremente
em proteger. Eles podem sentir qualquer divertimento que ele dá (que normalmente é considerável) realmente vêm
dele e deles de mais ninguém. Ele tem nascido sem a intervenção de nenhum senhor ou lorde. Ele é uma criação e
uma contribuição; ele é sua própria contribuição criativa a criação. Ele é também uma coisa muito mais bonita,
maravilhosa, divertida e surpreendente do que qualquer das musicas de histórias velhas ou jazz a tilintar produzidas
pelas maquinas. Quando os homens não sentem mais que ele é tal, eles então perderam a apreciação das coisas
primárias, e, portanto todo senso de proporção acerca do mundo. Pessoas que preferem os prazeres mecânicos, a
tal milagre, estão exaustas e escravizadas. Elas estão preferindo as próprias escorias da vida a as primeiras fontes da
vida. Elas estão preferindo as coisas, últimas, tortas, indiretas, emprestadas, repetidas e esgotadas da nossa
civilização capitalista que está morrendo, a realidade que é o único rejuvenescimento de toda a civilização. São eles
que estão pondo nos braços as correntes da sua velha escravidão; esse é o filho que está pronto para o mundo
novo.

O que a Idade Média significou para a Europa


G. K. Chesterton * 1874 / + 1936

Traduzido do inglês por Alex Catharino

Comprometi-me a falar sobre a Idade Média. Tentarei ser impiedosamente neutro, deixar de lado tudo de
controverso, e não dizer nada que não seja admitido pelos historiadores de praticamente todas as escolas.
Entretanto, para começar, quero fazer uma ressalva. Desejo ser justo convosco e, por isso, também desejo que sejais
justos comigo. Não sejais tão tendenciosos, supondo previamente que sou preconceituoso. Como podeis ver, tenho
uma desvantagem, já que a própria palavra “medieval” é usada como um termo pejorativo. As pessoas têm
chamado de medieval o gás venenoso, embora seja mais moderno do que os telefones. Mas isso porque
simplesmente chamam de “medieval” qualquer coisa que não gostam. Ao menos adotai o medievalismo por seus
méritos intrínsecos, como fizestes com as grandes culturas da Hélade e da China, sobre as quais trataram dois
homens ilustres ao vos dirigir a palavra. Quando estais aborrecidos com vossa tia, não sibilais a palavra “helênica”,
mas podeis chamá-la de “medieval”, apenas porque tal adjetivo significa que é velha, embora a Grécia Clássica seja
muito mais antiga que a Idade Média. Ou, então, dirão: “O sr. Chesterton, com sua mentalidade medieval, acha que
a cidade de Lincoln tem uma bela catedral”. Mas, não vão dizer: “o sr. Arthur Leigh Ashton (1897-1983), com sua
mentalidade mongol, pensa que Confúcio (571-479 a.C.) foi um grande homem”. Permitis que Leigh possa pensar
que Confúcio era grande, porque era; permitais que pense que as catedrais são grandes, porque são. Ou ainda, lá
vem toda aquela conversa sobre “voltar à Idade Média”. Não pensais que o sr. Leigh desejasse que todos deixassem
crescer tranças porque elogiou a China, nem é provável que todos saíssem correndo para o oráculo de Delfos, ou
adorassem Diana, ou qualquer coisa tão bela. Entretanto, as pessoas “têm” uma ideia confusa de que qualquer
elogio a alguma coisa medieval signifique desejar que todos aprendam a utilizar o arco longo ou as técnicas de
falcoaria. Podemos abandonar o uso dessa palavra como um jargão e concordamos em ser mais justos com nossos
antepassados como se fossem gregos ou chineses?O termo “Idade Média” é utilizado de modo pouco rigoroso para
o período da longa transição entre o colapso do Império Romano e da expansão comercial e material de hoje,
iniciada, grosso modo, com a expansão geográfica europeia que descobriu a América em 1492. Ora, a primeira coisa
que me surpreende, a partir de uma leitura bem ampla e sem pretender tornar-me um especialista, é que o Império
Romano terminou muito lentamente, ou que ninguém soube exatamente quando acabou. Estamos acostumados a
coisas sensacionais acontecendo, nos jornais e noutros lugares, e temos uma vaga ideia de alguém lendo uma
manchete: “A queda de Roma”. Mas Roma nunca caiu dessa forma. Já existiam chefes locais e pequenos reis em
todos os lugares sob o domínio do Império Romano, que gradualmente foram expandindo seus domínios, saindo do
feudalismo para as grandes nações, mas mesmo assim o Império se reafirmou como o Sacro Império Romano
Germânico na metade da Idade Média. Tende esta imagem clara — o pano de fundo do grande império cosmopolita
apenas mudando lentamente, porque essa é a chave para muitas coisas medievais, boas e ruins. Assim, como um
exemplo do que poderíamos chamar de bom, o mundo era, naquela ocasião, muito mais internacional; agora é
muito mais nacional. Esquecemo-nos disso, precisamente porque agora estamos muito ligados à ideia do nacional.
Somos ingleses, e espero que patriotas, mas a questão vai muito além. Milhares de nós não podem imaginar
qualquer coisa que não seja inglesa, e é assim com a maioria das outras nações modernas.Isso é bastante
característico das nações modernas. São grandes o suficiente para serem limitadas, pois são suficientemente vastas
para pensarem ser o mundo quando não o são. Um homem ao viver no meio da Alemanha ou no meio dos Estados
Unidos ou da Rússia vive num mundo que se fecha para o mundo. Houve patriotismo local acirrado nas cidades
gregas antigas, mas todos sabiam que eram cidades gregas, e foi assim nas repúblicas católicas da Itália medieval ou
ainda o é nas modernas repúblicas da América do Sul, onde todos sabem que são repúblicas católicas. Na Idade
Média havia duas coisas: por um lado, a pequena unidade local amada pelos homens que, por vezes, lutavam por ela
e, por outro, a grande civilização do Império e da Igreja a que também pertenciam. Mas vivemos numa terceira
coisa: a nação imperial, grande o suficiente para parecer universal e que nos torna simplesmente nacionais. O
motivo das guerras modernas serem tão imensas e horríveis, e de demorarem tanto tempo, é cada Estado
realmente achar que representa os princípios fundamentais do universo. A Idade Média tinha intermináveis disputas
locais, mas possuía uma visão mais universal do cosmo. Havia um homem que andava pelos portões da cidade
agitando a lança e bradando as conquistas vindouras; sua cidade estava em guerra com a comuna de Perúgia, que
era algo como se existisse uma guerra entre os distritos londrinos de Richmond e Kew. Mas após a paz ser feita esse
homem voltou-se para outros interesses. Seu nome era Francisco de Assis (1181-1226). Como o patriota moderno,
poderia ser tão bom homem e ter ido para o túmulo acreditando que o objetivo principal de Deus era o extermínio
dos peruginos.Este é um dos resultados do lento declínio da unidade romana que devemos considerar bom: as
nações estavam mais próximas umas das outras, porque estavam mais perto de suas origens. Outro exemplo, mas
que poderíamos chamar de ruim, é o fato da escravidão do mundo romano antigo ter acabado de forma muito lenta
— há a mesma controvérsia sobre quando teve fim. Basta dizer aqui, e ninguém há de negar que, até onde sei, ao
começar a Idade Média os servos eram escravos (no antigo sentido pagão) e, quando ela terminou, os servos de
algum modo tinham se tornado algo bastante diferente: eram muito mais parecidos com o que chamamos de
camponeses. Se isso foi a evolução econômica ou o lento crescimento da consciência cristã (que é muito lento na
maioria de nós) ou qualquer outra coisa, é uma questão controversa e, por isso, não vou contestar. Meu objetivo
aqui é simplesmente mostrar outro exemplo da Antiguidade mudando lentamente, sem qualquer ruptura definitiva.

Ouvireis duas críticas ao medievalismo. Ambas ilustram a continuidade romana. A primeira é que o mundo medieval
aceitava a autoridade, o que é verdade, mas, curiosamente, não só a autoridade da Igreja, como também, às vezes, a
autoridade pagã que quase se opunha à autoridade da Igreja. Por exemplo, o médico de Geoffrey Chaucer (1343-
1400) era cético a respeito da religião, mas estava satisfeito com a ciência médica, porque estava baseada na
Astrologia. Dificilmente corremos para os hospitais no distrito de Harley Street para consultar um astrólogo.
Sabemos que Igreja foi contra a astrologia, mas que Aristóteles (384-322 a.C.) e muitos na antiguidade eram a favor
dessa prática. Em segundo lugar, que o mundo medieval não era progressista, e concordo que não se “sentia”
progressista. E, pelo mesmo motivo, lamentava a grande civilização que fora internacional. Não vos assusteis, não
falo da Liga das Nações, mas a maioria dos homens modernos procura o internacionalismo no futuro, os medievais
buscavam por ele no passado. Na verdade, eram progressistas na prática, não na teoria. A Idade Média inventou
algumas coisas inteiramente novas. Qualquer arquiteto dirá que o gótico foi realmente uma nova invenção da
Engenharia. Surgiram os parlamentos e a imprensa foi inventada naquela ocasião, mas esses dois fatores são
raramente notados porque, como disse, as pessoas chamam de “medieval” as coisas que não gostam. Caso
pensemos, algum dia, ficar enfastiados dos jornais, acho que deveríamos dizer: “A imprensa é uma relíquia
medieval”; caso os políticos se tornem impopulares (algo impensável), devemos dizer: “O Parlamento evidencia sua
origem medieval bárbara”. Então correremos para a radiotelegrafia, e ouviremos que não há nada melhor.

Esta é a grande linha histórica. Embora tenha havido um lento declínio da civilização romana, certamente houve o
grande nascimento da civilização medieval. O século XIII foi ápice da inteligência humana — pelo menos o de
algumas mentes humanas. Há passagens em Santo Tomás de Aquino (1225-1274) sobre política que parecem uma
utopia moderna, só que mais saudável. Contudo, durante todo o período, à distância de uma flecha do mosteiro, as
condições eram quase bárbaras e muitas vezes abomináveis. Não sabemos se os melhores ideais prevaleceram sobre
as piores realidades, provavelmente não, mas de qualquer forma, estavam assimetricamente posicionados entre
dois grandes fatos históricos, o primeiro a frustrar o progresso e o segundo a matá-lo. Ambos vieram do Oriente, o
primeiro, a religião de Maomé (570-632), e o segundo, a Peste Negra.

O maometanismo teve o justo crédito de pregar uma maior igualdade entre um homem e o outro, e uma igualdade,
embora menor, entre o homem e a mulher. Foi um verdadeiro rival para o cristianismo, e agora ninguém percebe o
quanto verdadeiramente rivalizou. Em grande parte, infelizmente, o efeito da igualdade islâmica foi o aumento de
nossa desigualdade. Já havíamos herdado os males da civilização antiga, como a escravidão; os males de sua
decadência, como o feudalismo; tínhamos muito da formação militar, em parte da antiguidade, do modelo de Roma
e, noutra parte, o da guerra contra os bárbaros. Nessas circunstâncias, vejo que a explosão do Oriente nos paralisou
e nos firmou na formação militar. Todos os títulos nobiliárquicos são simplesmente patentes militares, como nos
casos de duque ou marquês e assim por diante. Poderíamos ter desenvolvido melhor a nossa própria religião, não
fosse a guerra com uma religião rival. Uma democracia pode organizar uma guerra, mas uma aristocracia não pode,
ao mesmo tempo, organizar uma democracia “e” uma guerra. O inimigo lhe abaterá. Havia um perigo permanente.
Tomemos as cruzadas. Não me importo o quanto podeis atacar as cruzadas como uma agressão, caso não vos
lembreis: elas foram um contra-ataque. Os muçulmanos conquistavam a Espanha e a Sicília, e foram detidos em
Tours. Ora, um invasor a vagar no meio da França não pode fingir ser um morador inofensivo, perdido num bairro de
Meca. Mas as cruzadas fracassaram, e então, além dessa tragédia, veio no encalço a grande peste, que matou os
melhores sacerdotes e o povo, deixando um tipo de gente inferior que havia esquecido o melhor dos ideais
medievais, e levou a Idade Média ao fim.

Ao tentar uma síntese, retorno à construção gótica. Em primeiro lugar porque foi realmente uma coisa nova, em
segundo lugar porque foi uma nova forma de construção, superior à anterior. Talvez, só dos pináculos, senão do
mais exíguo pináculo podeis ver a mais extensa paisagem. A visão medieval era muito universal; não devemos
subestimá-la. Não menosprezemos a cavalaria e o romance de Dante Alighieri (1265-1321) e sua Beatriz, que era
novo, pois não era o mesmo de Catulo (84-54 a.C.) e Lesbia, e está na história do que se chamava de Vida Nova.
Aldous Huxley (1894-1963) pediu ao mundo moderno, em vão, que seguisse a razão conforme progredisse; não
zombemos dos escolásticos, caso tenham seguido a razão um pouco além. O amor e a lógica eram mais novos e
livres, embora limitados por más condições, assim como altas igrejas eram quase sempre construídas em ilhas. As
comunicações eram ruins. Atualmente, as comunicações são muito boas e temos a maravilhosa tecnologia da
radiofonia pela qual falo com pessoas que nunca vi. Portanto, agora não tenho nada a fazer senão emanar uma
poesia tão fresca quanto a de Dante e uma filosofia tão grandiosa quanto a “Suma Teológica”. Só que agora, quando
posso me comunicar com todos, não tenho o que dizer.

—————————
Em 27 de março de 1936, G. K. Chesterton deu uma palestra na rádio BBC para as escolas da Grã-Bretanha. O texto
do presente ensaio é a transcrição da apresentação, tal como apareceu na edição de 1º de abril de 1936 na revista
“Listener”.Em língua portuguesa o artigo foi publicado originalmente, numa versão acrescida de notas do tradutor,
no seguinte periódico: “The Chesterton Review (Edição Especial em Português)”, Volume II, Número 2, 2010: 7-13.

Este artigo é protegido pelas leis de Direitos Autorais, sua reprodução é proibida sem a autorização do Centro
interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP). A publicação do artigo no site Chesterton Brasil foi
gentilmente permitida pelo CIEEP.

Introdução de Chesterton ao livro “George Macdonald and His Wife”


Por G. K. Chesterton

Traduzido por William Campos da Cruz

Introdução de Chesterton ao livro “George Macdonald and His Wife”, de Greville M. MacDonald, 1924.)

Disponível no site da American Chesterton Society

Certas revistas têm simpósios (eu os chamaria simposia, se me fosse permitido chamar duas coleções do South
Kensington de “musea”) em que se pergunta às pessoas o nome de “livros que as influenciaram”, na mesma linha de
“Hinos que as ajudaram”. Não é um processo realista, como regra, pois nossas mentes são, na maioria das vezes,
uma biblioteca não catalogada; e, para um homem ser fotografado com um dos livros em suas mãos, geralmente, na
melhor das hipóteses, este foi escolhido aleatoriamente, e, na pior, ele está fazendo pose para impressionar. Mas,
em certo sentido especial, posso realmente testemunhar que um livro fez diferença em toda a minha existência, que
me ajudou a ver as coisas duma certa maneira desde o princípio; uma visão das coisas que mesmo uma real
revolução, como uma conversão de confissão religiosa, substancialmente apenas coroou e confirmou. De todas as
histórias que li, incluindo até todos os romances do mesmo autor, esta continua sendo a mais real, mais realista, no
exato sentido da frase – mais parecida com a vida. Ela se chama “A princesa e o Goblin”, e seu autor é George
MacDonald, o homem de que trata este livro.

Quando digo que é semelhante à vida, o que quero dizer é o seguinte: ele descreve uma princesinha que mora num
castelo nas montanhas que é perpetuamente escavado, por assim dizer, por demônios subterrâneos que às vezes
vêm à superfície através da adega. Ela sobe as escadas do castelo até o quarto da governanta ou aos outros quartos;
agora, no entanto, e mais uma vez, as escadas não levam para o destino usual, mas a um novo quarto que ela nunca
tinha visto antes e que em geral não pode encontrar de novo. Aqui uma boa Tetravó, que é um tipo de fada
madrinha, está perpetuamente fiando e falando palavras de sabedoria e incentivo. Quando eu li como criança, senti
que a coisa toda era um acontecimento dentro de uma casa humana real, não essencialmente diferente da casa em
que eu mesmo vivia e que também tinha escadas, e quartos e adega. Era aí que o conto de fadas diferia de muitos
outros contos; acima de tudo, era aí que a filosofia diferia de muitas outras filosofias. Sempre senti certa
insuficiência no ideal de Progresso, mesmo da melhor espécie, que é o progresso do Peregrino. Dificilmente este
sugere quão próximo a nós estão as melhores e as piores coisas desde o princípio; especialmente talvez mesmo no
princípio. E embora, como toda pessoa sensata, eu valorize e respeite o conto de fadas ordinário do terceiro filho do
moleiro que partiu para procurar sua sorte (uma forma que o próprio MacDonald seguiu na continuação chamada “A
princesa e Curdie”), a sugestão de viajar para um mundo das fadas, distante, que é a alma dele, impede de atingir
este fim particular que é tornar todas as escadas, portas e janelas ordinárias coisas mágicas.

Dr. Greville MacDonald, nestas memórias interessantíssimas de seu pai, penso, menciona em algum lugar o sentido
deste estranho simbolismo das escadas. Outra imagem recorrente em seus romances é a de um grande cavalo
branco; o pai da princesa tinha um, e havia outro em The Back of the North Wind [Por trás do vento norte]. Até este
dia, não posso ver um grande cavalo branco na rua sem uma repentina sensação de coisas indescritíveis. Mas, por
ora, estou falando do que pode enfaticamente ser chamado a presença de deuses domésticos – e goblins
domésticos. E a imagem da vida nesta parábola não é somente mais verdadeira que a imagem de uma viagem, como
a do Peregrino; é sempre mais verdadeira do que a mera imagem de um sítio como o da Guerra Santa. Há algo não
somente imaginativo, mas intimamente verdadeiro a respeito da ideia de goblins que estão debaixo da casa e são
capazes de importuná-la a partir da adega. Quando as coisas más que nos importunam de fato aparecem, elas não
aparecem do lado de fora, mas de dentro. De alguma maneira, aquela simples imagem de uma casa que é o nosso
lar, que é sinceramente amada como nosso lar, mas da qual dificilmente conhecemos o melhor ou o pior, e deve
sempre esperar por um deles e observá-lo contra o outro, sempre permaneceu em minha cabeça como algo
singularmente sólido e irrefutável; e era ainda mais corroborado do que corrigido quando vim a dar um nome
definitivo para a senhora que zela por nós desde a torre, e talvez a assumir uma visão mais prática dos goblins
debaixo do piso. Desde que li pela primeira vez aquela história, cinco filosofias alternativas do universo chegaram às
nossas faculdades, vindas da Alemanha, soprando o mundo como o vento leste. Mas, para mim, aquele castelo ainda
permanece nas montanhas e a luz em sua torre não se extingue.

Todas as demais histórias de George MacDonald, interessantes e sugestivas de diversas maneiras, parecem ser
ilustrações e mesmo disfarces daquele único disfarce, pois esta é a mais importante diferença entre o seu tipo de
mistério e a mera alegoria. A alegoria comum assume seu objeto como lugares-comuns ou convenções necessárias
para homens e mulheres comuns, e tenta torná-los agradáveis ou pitorescos, vestindo-os como princesas, ou goblins
ou fadas. Mas George MacDonald, na verdade, acreditava que as pessoas eram princesas e goblins e fadas, e os
vestia como homens ou mulheres comuns. O conto de fadas está dentro da história comum, não fora. Um resultado
disso é que todos os objetos inanimados que são as propriedades do cenário da história retêm aquele glamour
ignorado que têm num conto de fadas literal. A escadaria em “Robert Falconer” é tão mágica como a escadaria em
“A princesa e o Goblin”; e quando os meninos estão construindo o barco e a menina está recitando versos para eles,
em “Alec Forbes”, e alguns velhos cavalheiros dizem galhofeiramente que se erguerá para cantar como um navio
mágico escandinavo, sempre me parece como se ele estivesse descrevendo a realidade, sem levar em conta a
aparência, do incidente. Os romances enquanto romances são irregulares; mas como contos-de-fadas são
extraordinariamente coerentes. Ele nunca, nem por um momento, perde seu fio interior que corre através da colcha
de retalhos, e é o fio que a Tetravó põe nas mãos de Curdie para tirá-lo das armadilhas dos goblins.

A originalidade de George MacDonald tem também uma significância histórica, que talvez seja mais bem estimada
ao compará-lo com seu grande conterrâneo Carlyle. É uma medida do real poder e mesmo da popularidade do
Puritanismo na escócia que Carlyle nunca tenha perdido o humor Puritano, mesmo quando ele perdeu toda a
teologia puritana. Se uma fuga do viés do ambiente for um teste de originalidade, Carlyle nunca escapou
completamente, mas George Macdonald, sim. Ele desenvolveu, a partir de suas próprias meditações místicas, uma
teologia alternativa completa que levava a um humor completamente oposto. E nessas meditações místicas ele
aprendeu segredos muito além da mera extensão da indignação Puritana com a ética e a política. Pois no gênio real
de Carlyle havia um toque de intimidação, e onde quer que haja um elemento de intimidação há um elemento de
trivialidade, de reiteração e de ordens repetidas. Carlyle nunca pôde dizer nada tão sutil e simples como a frase de
MacDonald de que Deus é fácil de agradar e difícil de satisfazer. Carlyle estava demasiadamente obviamente
ocupado com a insistência em que Deus era difícil de satisfazer; exatamente como alguns otimistas estão, sem
dúvida, ocupados em insistir que Ele é fácil de agradar. Em outras palavras, MacDonald tinha criado para si mesmo
um tipo de ambiente espiritual, um espaço e transparência de luz mística, que era absolutamente excepcional em
seu ambiente nacional e denominacional. Ele disse coisas semelhantes aos ditos dos cavaleiros místicos, dos santos
católicos, algumas vezes dos platônicos ou swedenborgianos, mas não pelo menos aos dos calvinistas, mesmo
quando o calvinismo permanecia em um homem como Carlyle. E quando ele vier a ser mais cuidadosamente
estudado como um místico, como eu acho que ele será quando as pessoas descobrirem a possibilidade de recolher
suas joias dispersas em um conjunto muito irregular, perceber-se-á, imagino, que ele se posta antes como um ponto
de mutação na história do cristianismo, como um representante da nação cristã da Escócia. Como os protestantes
falam da estrela da manhã da Reforma, devemos estar autorizados a notar tais nomes aqui e ali como estrelas da
Reunião.

A coloração espiritual da Escócia, como a cor local de tantos sarracenos escoceses, é um roxo que sob algumas luzes
pode parecer cinza. A característica nacional é na realidade intensamente romântica e apaixonada; na verdade,
excessiva e perigosamente romântica e apaixonada. Sua torrente emocional tem apenas muito frequentemente se
dirigido para a vingança, ou luxúria, ou crueldade ou bruxaria. Não há embriaguês como a embriaguês escocesa; ela
tem em si o barulho antigo e a estridência selvagem dos Mênades das montanhas. E, claro, é igualmente verdade
quanto ao lado bom, como na grande literatura da nação. Stopford Brooke e outros críticos apontaram com razão
que um senso vívido de cores aparece nos poetas escoceses medievais antes deste aparecer de fato entre qualquer
poeta inglês. E é absurdo falar da dura e perspicaz sobriedade do tipo nacional que se tem feito mais bem conhecido
por toda parte no mundo moderno pelo literalismo prosaico do “Tesouro da ilha” e o realismo monótono de “Peter
Pan”. No entanto, por um estranho acidente histórico, este povo vívido e colorido foi forçado a vestir-se de preto
numa espécie de funeral sem fim num eterno Sabá. Na maioria das peças e quadros, entretanto, em que eles são
representados quando vestidos de preto, alguns instintos fazem o ator ou o artista verem que eles não combinam
muito bem. E assim o fazem.

Os escoceses apaixonados e poéticos – como os italianos apaixonados e poéticos –devem, obviamente, ter tido uma
religião que competia com a beleza e vivacidade das paixões, que não deixava o diabo ter todas as cores brilhantes,
que respondia glória com glória e fogo com fogo. Isso teria equilibrado Leonardo com São Francisco; nenhum jovem
ou pessoa viva realmente pensa que isso pode ser equilibrado com John Knox. A consequência foi que este poder
nas letras escocesas, especialmente no dia (ou noite) da plena ortodoxia calvinista, foi enfraquecida e desperdiçada
centenas de vezes. Em Burns ela foi levada para fora de seu curso como loucura; em Scott, somente era tolerada
como memória. Scott somente podia ser um medievalista tornando-se o que ele chamaria um antiquário, ou o que
chamaríamos um esteta. Ele tinha de fingir que seu amor estava morto para que pudesse ser autorizado a amá-la.
Assim como Nicodemos foi até Jesus à noite (ver Jo 3:1), o esteta somente vai à igreja à noite.

Agora, entre os muitos homens de gênio que a Escócia produziu no século XIX, havia apenas um tão original para
voltar a sua origem. Havia apenas um que realmente representava o que a religião escocesa deveria ter sido, se
tivesse mantido a coloração da poesia escocesa medieval. Em seu tipo particular de obra literária, ele de fato
percebeu o aparente paradoxo de São Francisco de Aberdeen, vendo o mesmo tipo de halo em torno de uma flor e
de um pássaro. Não é a mesma coisa que a apreciação da beleza da flor ou do pássaro. Um bruto pode sentir isso e
continuar bruto, ou, em outras palavras, continuar triste. É um certo senso especial de significância, que a tradição
que mais a valoriza chama sacramental. Ter voltado para isso, ou avançado para isso, num salto de meninice, para
fora do negro Sabá de uma cidade calvinista, foi um milagre de imaginação.

Ao notar que ele bem pode ter este lugar na história, no sentido da religião e da história nacional, eu não tento aqui
fixar seu lugar na literatura. Em todo caso, ele é um dos tipos que é mais difícil de classificar. Ele não escreveu nada
vazio; mas ele escreveu muito que é tão cheio e cuja apreciação depende antes de uma simpatia com a substância
do que à primeira vista com a forma. De fato, os místicos não são com frequência homens de letras em seu sentido
perfeito e quase profissional. Um homem cuidadoso encontrará mais sobre o que pensar em Vaughan ou Crashaw
do que em Milton, mas ele também encontrará muito a criticar; e ninguém precisa negar que, no sentido ordinário,
um leitor casual pode desejar que haja menos de Blake e mais de Keats. Mas mesmo essa permissão não deve ser
exagerada; e é exatamente no mesmo sentido em que nos compadecemos de um homem que perdeu tudo de Keats
ou de Milton, que podemos sentir compaixão pelo crítico que não caminhou na floresta de Phantastes ou não tomou
conhecimento do Sr. Cupples nas aventuras de Alec Forbes.

Por Que Sou Católico – The Thing


Gilbert Keith Chesterton

Capítulo Why I am a catholic publicado publicado no livro The Thing (1929).

*Existe um outro artigo de Chesterton com o mesmo título e pode ser lido aqui.

Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo

Este texto foi cedido generosamente pelo blog do Angueth

O editorial de um jornal diário foi devotado ao Novo Livro de Oração;[1] sem ter nada de novo a falar sobre ele.
Assim, o texto consistiu, principalmente, na repetição, pela milésima vez, que o inglês comum deseja uma religião
sem dogma (seja lá o que isso queira dizer), e que as discussões sobre as questões da Igreja são inúteis e estéreis de
quaisquer dos dois lados. Mas, tendo lembrado repentinamente que essa equalização dos dois lados tinha a
possibilidade de envolver uma leve concessão ou consideração pelo nosso lado, o escritor rapidamente se corrigiu.
Ele sugeriu que, embora seja errado ser dogmático, é essencial ser dogmaticamente protestante. Sugeriu também
que o inglês comum (aquele sujeito útil) estava muito convencido, apesar de sua aversão a todas as diferenças
religiosas, que era vital à religião diferir do catolicismo. Ele estava convencido (ficamos sabendo) que a “Inglaterra é
tão protestante quanto o mar é salgado.” Observando reverentemente o profundo protestantismo do Sr. Michael
Arlen, ou do Sr. Noel Coward, ou da mais recentejazz dance em Mayfair,[2] podemos ser tentados a perguntar: se o
sal perde seu sabor, com que ele deve ser salgado? Mas visto que podemos justificadamente deduzir dessa
passagem que Lord Beaverbrook, o Sr. James Douglas, o Sr. Hannen Swaffer e todos os seus seguidores são
verdadeiramente austeros e inflexíveis protestantes (e como sabemos que os protestantes são famosos por seu
detalhado e apaixonado estudo das Escrituras, livres das influências do Papa e dos padres), podemos mesmo tomar
a liberdade de interpretar o que foi afirmado à luz de um texto menos familiar. Será possível que ao comparar o
protestantismo com o sal marinho o jornalista estivesse assombrado com alguma débil memória de outra passagem,
em que a mesma Autoridade falava de uma fonte sagrada e singular de água viva, porque era água vivificante, que
realmente saciava a sede dos homens; enquanto todos os outros lagos e poças eram diferentes porque os que deles
bebiam voltavam a ter sede? Isto é uma coisa que acontece ocasionalmente a quem bebe água salgada.

Este é talvez um modo provocativo de iniciar a apresentação de minha mais forte convicção; mas gostaria de
respeitosamente alegar que a provocação veio do protestante. Quando o protestantismo afirma calmamente
governar todas as almas da forma com que a Britannia governa os mares, é permissível retorquir que a quintessência
mesma de tal sal pode ser abundantemente encontrada no Mar Morto. Mas é ainda mais permissível retorquir que o
protestantismo está afirmando o que nenhuma outra religião pode, no momento, afirmar. Ele está calmamente
alegando a fidelidade de milhões de agnósticos, ateus, pagãos hedonistas, místicos independentes, investigadores
psíquicos, teístas, teosofistas, seguidores de cultos orientais e alegres companheiros que vivem como as bestas que
perecem. Pretender que todos eles sejam protestantes é rebaixar consideravelmente o prestígio e a significância do
protestantismo. É fazê-lo meramente negativo; e o sal não é negativo.

Tomando isto como um texto e um teste do presente problema da escolha religiosa, encontramo-nos a princípio
frente ao dilema sobre a religião tradicional de nossos pais. O protestantismo como o aqui mencionado é ou uma
coisa negativa ou uma coisa positiva. Se o protestantismo for uma coisa positiva, não há nenhuma dúvida de que ele
está morto. Na medida em que ele foi realmente um conjunto de crenças espirituais, ele não é mais crido. O credo
protestante genuíno não é agora mantido por quase ninguém – muito menos pelos protestantes. Eles perderam tão
completamente a fé nele, que quase esqueceram o que ele era. Pergunte a qualquer homem moderno se salvamos
nossas almas apenas por meio de nossa teologia ou se fazer o bem (ao pobre, por exemplo) nos ajudará no caminho
até Deus; e ele responderá, sem hesitação, que boas obras são provavelmente mais agradáveis a Deus que teologia.
Seria provavelmente uma surpresa para ele saber que, por trezentos anos, a fé na fé apenas foi o distintivo do
protestante, e a fé nas boas obras o vergonhoso distintivo de um papista infame. O inglês comum (para introduzir
nosso velho amigo uma vez mais) não teria nenhuma dúvida sobre o mérito da longa contenda entre o catolicismo e
o calvinismo. E aquela foi a mais importante contenda intelectual entre o catolicismo e o protestantismo. Se ele
acredita num Deus, ou mesmo que ele não acredite, ele muito certamente preferiria um Deus que tivesse criado
todos os homens para o contentamento, e desejasse salvá-los todos, a um Deus que tivesse deliberadamente criado
alguns para o pecado involuntário e para a miséria imortal. Mas esta era a contenda, e era o católico que mantinha a
primeira posição e o protestante a segunda. O homem moderno não apenas não compartilha, ele sequer
compreende, a aversão anormal dos puritanos a toda arte e beleza em relação à religião. Mesmo assim, esse foi o
real protesto protestante; e as matronas protestantes de meados do período vitoriano ficavam chocadas com
vestidos brancos, quem dirá com uma vestimenta colorida. De praticamente toda a acusação essencial pela qual a
Reforma realmente colocou Roma no banco dos réus, Roma foi, desde então, absolvida pelos jurados de todo o
mundo.

É a mais pura verdade que encontramos erros reais, que provocaram rebelião, na Igreja Romana pouco antes da
Reforma. O que não conseguimos encontrar é um daqueles erros que a Reforma reformou. Por exemplo, era um
abuso abominável que a corrupção dos monastérios algumas vezes permitisse que um nobre rico se passasse por
patrão ou mesmo abade, ou se valesse das rendas que supostamente pertenciam a uma irmandade pobre e
caridosa. Mas tudo que a Reforma fez foi permitir que o mesmo nobre rico tomasse posse de TODA a renda,
apoderasse de toda a casa e a transformasse num palácio ou numa pocilga, e apagasse totalmente a última inscrição
da pobre irmandade. As piores coisas de um catolicismo mundano foram feitas piores pelo protestantismo. Mas as
melhores coisas permaneceram de alguma forma através da era da corrupção; não, elas sobreviveram até mesmo a
era de reforma. Elas sobrevivem hoje em todos os países católicos, não somente na cor, poesia e popularidade da
religião, mas nas mais profundas lições da psicologia. Elas foram tão completamente justificadas, depois do
julgamento de quatro séculos, que cada uma delas está agora sendo copiada, até mesmo por aqueles que a
condenaram; ocorre, contudo, que a cópia é, muitas vezes, apenas uma caricatura. A psicanálise é a Confissão sem a
salvaguarda confessional; o comunismo é o movimento franciscano sem o moderado equilíbrio da Igreja; e as seitas
americanas, tendo urrado por três séculos contra a teatralidade papista e o mero apelo aos sentidos, agora
“abrilhantam” suas cerimônias com filmes super-teatrais e com raios de luz vermelha caindo sobre a cabeça do
ministro. Se tivéssemos um raio de luz para lançar, não deveríamos lançá-lo no ministro.

Por outro lado, o protestantismo pode ser uma coisa negativa. Em outras palavras, ele pode ser uma lista nova e
totalmente diferente de acusações contra Roma; uma continuação apenas, pois ainda é contra Roma. Isto é o que,
em grande medida, ele é; e isso é presumivelmente o que realmente quis dizer o DAILY EXPRESS quando disse que
nosso país e nosso compatriota estão saturados de protestantismo como o estão de sal. Em outras palavras, a lenda
de que Roma está errada de qualquer forma, é ainda uma coisa viva, embora todas as características do monstro
estejam agora inteiramente alteradas na caricatura. Mesmo isso é um exagero, se aplicado à Inglaterra atual; mas há
ainda uma verdade nisso. Ocorre que a verdade, quando verdadeiramente percebida, dificilmente será satisfatória
para um honesto e genuíno protestante. Pois, afinal, que tipo de tradição é esta, que conta uma história diferente a
cada dia ou a cada década, e se satisfaz contanto que todas as lendas contraditórias sejam ditas contra um homem
ou uma instituição. Que tipo de causa santa a ser herdade de nossos ancestrais é essa que nos faz continuar a odiar
algo ou a ser consistentes apenas no ódio; enquanto somos volúveis e falsos em tudo o mais, mesmo em nossa razão
para odiar? Poremo-nos seriamente a inventar um novo conjunto de histórias contra o conjunto de nossos
companheiros cristãos? É isto o protestantismo; e vale a pena compará-lo ao patriotismo ou ao mar?

De todo modo, essa era a situação que me descobri enfrentando quando comecei a pensar nessas coisas, a criança
de uma ancestralidade puramente protestante e, no sentido comum, de um lar protestante. Mas, de fato, minha
família tendo se tornado liberal, não era mais protestante. Fui criado como um tipo de universalista e unitarista; aos
pés daquele homem admirável, Stopford Brooke. Não era protestantismo, exceto num sentido muito negativo.
Muitas vezes era o oposto completo do protestantismo, mesmo naquele sentido. Por exemplo, o universalista não
acredita no Inferno; e era enfático em dizer que o paraíso era um estado mental feliz – “uma disposição mental”.
Mas ele tinha a percepção para ver que a maioria dos indivíduos não vive ou morre num estado mental tão feliz que
lhes assegurará um paraíso. Se o paraíso for uma disposição mental, ele certamente não será universal; e muitos
passam pela vida numa miserável disposição mental. Se todos estes forem possuir o paraíso, apenas por meio da
felicidade, parecia claro que algo devia lhes acontecer primeiro. O universalista, portanto, acreditava num progresso
depois da morte, ao mesmo tempo castigo e aprendizado. Em outras palavras, ele acreditava no Purgatório; embora
não acreditasse no Inferno. Certo ou errado, ele obviamente contradizia completamente o protestante, que
acreditava no Inferno, mas não no Purgatório. O protestantismo, através de toda a história, travou uma incessante
guerra a esta idéia de Purgatório ou progresso além túmulo. Vim a perceber na visão católica completa verdades
muito mais profundas sobre todas as três idéias; verdades relativas à vontade, criação e o mais glorioso amor de
Deus pela liberdade. Mas mesmo no começo, embora não pensasse em nada de catolicismo, eu não conseguia
perceber por que devia ter qualquer preocupação como o protestantismo; que sempre dissera o diametralmente
oposto ao que um liberal agora devia dizer.

Descobri, em resumo, que não havia mais nenhuma razão para me apegar à fé protestante. Era uma simples questão
de me apegar ou não do feudo protestante. E com enorme perplexidade, descobri muitos de meus companheiros
liberais ansiosos em continuar no feudo protestante, embora não mais professassem a fé protestante. Não tenho o
direito de julgá-los; mas pareceu-me, confesso, como uma feia indignidade. Descobrir que você vem difamando
alguém por alguma coisa, recusar a se desculpar e inventar outra história plausível contra tal pessoa de forma que
você possa manter o espírito de difamação, pareceu-me de início um modo muito vil de comportamento. Resolvi
pelo menos considerar os próprios méritos da instituição difamada original e a primeira e mais óbvia pergunta era:
por que os liberais eram tão pouco liberais em relação a ela? Qual era o significado do feudo, tão constante e tão
inconsistente? Essa questão levou um longo tempo para ser respondida e levaria agora muito mais tempo para ser
descrita. Mas ela me levou à única resposta lógica, que cada fato da vida agora confirma; que a coisa é odiada, como
nada mais é odiado, simplesmente porque ela é, no exato sentido da expressão popular, como nada neste mundo.
Há aqui espaço apenas para indicar uma dentre milhares de coisas que confirmam o mesmo fato e confirmam umas
às outras. Eu poderia escolher qualquer assunto aleatoriamente, da carne de porco à pirotecnia, e mostrar que ele
ilustra a verdade da única verdadeira filosofia; tão realista é a observação de que todos os caminhos levam à Roma.
De todos eles, tomo aqui apenas um fato; que a coisa é perseguida época após época por um ódio irracional que
muda permanentemente sua razão. Ora, quase todas as heresias mortas estão, pode ser dito, não só mortas como
condenadas; isto é, estão condenadas ou serão condenadas pelo senso comum, mesmo fora da Igreja, uma vez que
sua atmosfera e mania tiverem passado. Ninguém hoje deseja reviver o Direito Divino dos reis que os primeiros
anglicanos defenderam contra o Papa. Ninguém hoje deseja reviver o calvinismo que os primeiros puritanos
defenderam contra o rei. Ninguém hoje lamenta que os iconoclastas foram impedidos de destruir todas as estátuas
na Itália. Ninguém hoje se lamenta de que os jansenistas fracassaram em destruir todos os dramas da França.
Ninguém que saiba alguma coisa sobre os albigenses deplora que eles não tenham convertido o mundo ao
pessimismo e à perversão. Ninguém que realmente compreenda a lógica dos Lollards (um grupo de indivíduos muito
mais simpáticos) anseia realmente que eles tivessem sido bem sucedidos em tirar todos os direitos e privilégios
políticos daqueles que não estivessem em estado de graça. “Autoridade fundada na Graça” era um ideal devoto, mas
considerado como um plano para desrespeitar um policial irlandês que controla o tráfego no Picadilly, até que
descubramos se ele se confessou recentemente a um padre irlandês, é falta de realismo. Em nove entre dez casos, a
Igreja simplesmente foi o esteio da sanidade e do equilíbrio social contra hereges que eram às vezes muito parecidos
com lunáticos. Mesmo assim, em cada momento particular, a pressão do erro predominante era muito grande; o
exagerado erro de toda a geração, como a força da Escola de Manchester nos “anos cinqüenta” ou o Socialismo
Fabiano como uma moda, em minha própria juventude. O estudo de casos históricos mostra-nos comumente o
espírito da época indo na direção errada, e os católicos indo na direção, pelo menos, relativamente certa. É como
uma mente sobrevivendo a centenas de diferentes estados de humor.

Como eu disse, esse é apenas um aspecto; mas foi o primeiro que me afetou e que me levou aos outros. Quando um
martelo acerta o prego certo bem na cabeça centenas de vezes, acabamos por suspeitar que não é inteiramente por
coincidência. Mas essas provas históricas não seriam nada sem as provas humanas e pessoais, que demandariam
uma descrição completamente diferente. Basta dizer que aqueles que conhecem a prática católica a consideram não
somente certa, mas sempre certa quando tudo o mais está errado; tornando a Confissão o trono mesmo da
sinceridade, quando o mundo lá fora fala dela como um tipo de conspiração; preservando a humildade, quando
todos estão louvando o orgulho; carregada de caridade sentimental, quando o mundo fala de um brutal utilitarismo;
carregada de severo dogmatismo, quando o mundo está ruidoso e dissoluto com seu vulgar sentimentalismo – com
acontece hoje. No lugar em que os caminhos sem encontram, não há dúvida da convergência. Um homem pode
pensar todo o tipo de coisas, a maioria delas honesta e muitas delas verdadeiras, sobre o lado certo para o qual se
virar no labirinto de Hampton Court. Mas ele não pensa que está no centro; ele sabe.

[1] Uma das muitas versões do livro publicado em 1549, produto da Reforma Inglesa. É um livro que contém o missal,
todos os ritos sacramentais – batismo, confirmação, casamento, etc. – cânticos, ladainhas e os Salmos. (N. do T.)

[2] Área central de Londres. (N. do T.)

Por que acredito no cristianismo


G. K. Chesterton

Publicado em The American Chesterton Society


Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo
Este texto foi cedido generosamente pelo blog do Angueth

Não tenho a intenção de desrespeitar o Sr. Blatchford dizendo que nossa dificuldade, em grande medida, está em
que ele, como a maioria das pessoas inteligentes atualmente, não entende o que é Teologia. Equivocar-se em ciência
é uma coisa, mas equivocar-se sobre a natureza da ciência é outra. Na medida em que leio “God and My Neighbour
(Deus e o meu vizinho)”, cresce minha convicção de que ele pensa que Teologia é o estudo sobre se as diversas
lendas que a Bíblia conta sobre Deus é historicamente demonstrável. É como se ele estivesse tentando provar a um
sujeito que o Socialismo seria, na verdade, a sólida ciência da Economia Política[2] e começasse a perceber, no meio
do caminho, que o sujeito considerava a Economia Política o estudo sobre se os políticos eram econômicos.

É muito difícil de explicar brevemente a natureza de todo um ativo campo de estudo, tanto quanto o é explicar o que
é política ou ética. Pois, quanto maior e mais óbvia é uma coisa, e quanto mais ela te encara face a face, mais difícil é
defini-la. Todo mundo pode definir concologia.. Ninguém pode definir a moral.

No entanto, toca-nos tentar explicar essa filosofia religiosa que era, e de novo será, o estudo dos maiores
intelectuais e a fundamentação das mais fortes nações, mas que nossa diminuta civilização, há algum tempo,
esqueceu, da mesma forma que esqueceu como dançar e como se vestir decentemente. Tentarei explicar porque eu
considero necessária uma filosofia religiosa e porque eu considero o cristianismo a melhor filosofia religiosa. Mas,
antes que eu faça isso, quero que você se lembre de dois fatos históricos. Não peço para que você tire deles as
minhas conclusões ou mesmo qualquer conclusão. Peço que você se lembre deles como simples fatos, ao longo da
discussão.

1. O cristianismo surgiu e se expandiu num mundo muito refinado e cínico – num mundo muito moderno. Lucrécio
era tão materialista quanto Haeckel e um escritor muito mais persuasivo. O mundo romano tinha lido “God and My
Neighbour”, e de uma maneira um tanto sonolenta o considerou verdadeiro. Vale a pena notar que as religiões
quase sempre surgem nessas civilizações céticas. Um livro recente sobre a literatura pre-maometana da Arábia
descreve uma vida inteiramente luxuosa e refinada. Foi assim com Buda, nascido em berço de ouro, numa antiga
civilização. Foi assim com o Puritanismo na Inglaterra e com a Restauração Católica na França e Itália, ambas
advindas do racionalismo da Renascença. É assim hoje, e será sempre assim. Vá a dois dos mais modernos centros
do pensamento moderno, Paris e EUA, e você encontra-los-á cheios de anjos e demônios, de velhos mistérios e
novos profetas. O racionalismo está lutando pela própria vida contra as novas e vigorosas superstições.

2. O cristianismo, que é uma religião muito mística, tem sido, contudo, a religião das porções mais práticas da
humanidade. Ele tem mais paradoxos que as filosofias orientais, mas ele também constrói as melhores rodovias. O
mussulmano tem uma concepção lógica e pura de Deus, o Alah monístico. Mas ele permanece bárbaro na Europa e a
grama não renascerá por onde ele passar. O cristão tem um Deus Trino, “uma trindade oblíqua,” que parece uma
caprichosa contradição em termos. Mas, em ação, ele abarca a terra e, mesmo, o mais inteligente oriental só pode
com ele lutar, imitando-o a princípio. O Oriente tem sua lógica e vive do arroz. A cristandade tem seus mistérios – e
seus automóveis. Não importa a inferência. Como eu disse, registremos os fatos.

Agora com essas duas coisas em mente, deixe-me tentar explicar o que é a Teologia Cristã.

O agnosticismo completo é a atitude óbvia para o homem. Todos somos agnósticos até descobrirmos que o
agnosticismo não funciona. Então, adotamos alguma filosofia, a do Sr. Blachford ou a minha, ou alguma outra, pois,
o Sr. Blatchford não é mais agnóstico que eu, é claro. O agnóstico diria não estar certo se o homem é responsável
pelos seus pecados. O Sr. Blatchford diz que ele tem certeza de que o homem não é.

Aqui temos a semente de toda uma imensa árvore de dogmas. Por que o Sr. Blatchford vai além do agnosticismo e
afirma que não há, certamente, livre arbítrio? Porque ele não pode desenvolver seu sistema moral sem afirmar a
inexistência do livre arbítrio. Ele deseja que nenhum homem seja culpado de pecado. Portanto, ele tem de
convencer seus discípulos de que Deus não os fizeram livres e, por conseguinte, culpáveis. Nenhuma mínima dúvida
cristã pode passar pela mente do determinista. Nenhum demônio pode sussurrá-lo, numa hora de angústia, que,
talvez, o promotor de vendas fraudulento foi o responsável por ele estar no asilo. Nenhum ataque de ceticismo deve
sugeri-lo que, talvez, o professor primário foi o culpado pela surra de matar dada no pequeno garoto. A fé do
determinista deve permanecer firme, senão a fraqueza da natureza humana, certamente, fará com que os homens
se enfureçam quando são difamados ou devolvam o soco, quando são socados. Em resumo, o livre arbítrio parecerá,
em princípio, pertencer ao Desconhecido. Mesmo assim, o Sr. Blatchford não conseguirá pregar o que a ele pareça
mera caridade sem afirmar, sobre isso, um dogma. E eu não conseguirei pregar o que me parece ser mera
honestidade, sem afirmar outro.
Aqui está a falha do agnosticismo. Que a nossa visão cotidiana das coisas que sabemos (do senso comum),
realmente depende de nossa visão de coisas que não sabemos (do senso comum). Tudo bem dizer a um homem,
como faz o agnóstico, “cultive seu jardim.” Mas, suponha que ele ignore tudo fora do seu jardim, inclusive o sol e a
chuva?

Isso é fato real. Você não pode viver sem dogmas sobre as coisas. Você não pode agir vinte e quatro horas por dia
sem decidir se as pessoas são responsáveis ou não. A Teologia é um produto muito mais prático que a Química.

Alguns deterministas imaginam que o cristianismo inventou um dogma como o livre arbítrio por diletantismo – uma
simples contradição. Isso é absurdo. Você se confronta com contradições onde quer que você esteja. Os
deterministas me dizem, com um grau de verdade, que o determinismo não faz diferença na vida diária. Isso significa
que, apesar do determinismo saber que os homens não têm livre arbítrio, mesmo assim, ele continua tratando-os
com se tivessem.

A diferença, então, é muito simples. O cristão coloca a contradição em sua filosofia. O determinista a coloca em seus
hábitos diários. O cristão afirma, como um mistério declarado, o que o determinista chama nonsense. O
determinista tem o mesmo nonsense em seu café da manhã, em seu almoço, em seu chá e em seu jantar, todos os
dias de sua vida.

O cristão, repito, coloca o mistério em sua filosofia. Este mistério, pela sua escuridão, ilumina todas as coisas. Depois
disso, vida é vida, pão é pão e queijo é queijo: ele pode sorrir e lutar. O determinista torna a questão lógica e lúcida:
e à luz dessa lucidez, todas as coisas são obscurecidas, as palavras perdem o sentido, e as ações, o objetivo. Ele fez
de sua filosofia um silogismo e dele próprio um lunático delirante. [3]

Essa não é uma questão entre misticismo e racionalidade. É uma questão entre misticismo e loucura. Pois, o
misticismo, e somente o misticismo, tem mantido o homem são, desde o início dos tempos. Todos os caminhos
retilíneos da lógica levam ao caos, à anarquia ou à obediência passiva, por tratar o universo como uma pura
engrenagem material ou então como uma ilusão da mente. É somente o místico, o homem que aceita as
contradições, que pode sorrir e caminhar livremente pelo mundo.

Você está surpreso pelo fato de que a mesma civilização que acreditou na Trindade descobriu a máquina a vapor?
Todos as grandes doutrinas cristãs são deste tipo. Examine-as você mesmo, cuidadosa e justamente. Tenho espaço
para apenas dois exemplos. O primeiro é a idéia cristã de Deus. Tal como temos todos sido agnósticos, também
temos sido panteístas. Com uma ingenuidade infantil é fácil dizer, “Por que o homem não pode enxergar Deus num
vôo de um pássaro e ser feliz?” Mas, vem o tempo em que, indo além, dizemos, “Se Deu está nos pássaros, sejamos
não só bonitos como eles, mas sejamos cruéis como os pássaros, vivamos a vida louca e colorida da natureza.” E algo
que mantém sua própria inteireza dentro de nós resiste e nos alerta, “Meu amigo, você está enlouquecendo.”

Então vem o outro lado e dizemos: “Os pássaros são odiosos, as flores são vergonhosas. Um universo com tais coisas
não merece meu tributo.” E a coisa inteira em nosso íntimo diz: “Meu amigo, você está enlouquecendo.”

Então vem uma coisa fantástica e nos diz: “Você está certo de gostar dos pássaros, mas errado em copiá-los. Há uma
coisa boa em todas essas coisas, mas todas essas coisas são menores que você. O Universo está certo, mas o Mundo
está errado. A coisa por trás de tudo não é cruel como um pássaro, mas bondosa como um homem.” E a coisa inteira
dentro de nós diz: “Encontrei o caminho da montanha.”

Assim, quando o cristianismo surgiu, o mundo antigo tinha acabado de chegar a esse dilema. Ele ouviu a Voz do
Culto à Natureza que rezava, “Todas as coisas naturais são boas. A guerra é saudável como as flores. A luxúria é tão
cândida como as estrelas.” E ele ouviu também o lamento dos desesperados Estóicos e Idealistas. “As flores estão
em guerra: as estrelas estão maculadas: nada é certo além da consciência do homem e esta foi completamente
vencida.”
Ambas as visões eram consistentes, filosóficas e exaltadas: suas únicas desvantagens eram que a primeira levava
logicamente ao assassinato, e a segunda, ao suicídio. Depois de uma agonia do pensamento, o mundo descobriu um
caminho saudável entre os dois. Era o Deus cristão. Ele fez a Natureza mas, Ele era Homem.

Finalmente, há uma palavra a dizer sobre a Queda. Só poderá ser uma palavra, e ela é esta. Sem a doutrina da
Queda, toda a idéia do progresso é sem sentido. O Sr. Blatchford diz que não houve uma Queda, mas uma ascensão
gradual. Mas, a própria palavra “ascensão” implica que você saiba em que direção está ascendendo. A menos que
haja um padrão, você não pode se dizer em ascensão ou em queda. Mas o ponto principal é que a Queda, tal como
todos os outros largos caminhos do cristianismo, está embebida, invisivelmente, na linguagem comum. Qualquer um
pode dizer, “Muito poucos homens são realmente humanos.” Ninguém diria, “Muito poucas baleias são realmente,
‘baleiais’.”

Se você quisesse dissuadir um homem de beber sua décima dose de whisky, você bateria em suas costas e diria,
“Seja homem.” Ninguém que desejasse dissuadir um crocodilo de comer seu décimo explorador, bateria nas costas
da fera e diria, “Seja crocodilo.” Pois, não temos nenhuma noção de um crocodilo perfeito, nenhuma alegoria de
uma baleia expulsa do Éden ‘baleial’. Se uma baleia viesse ao nosso encontro e dissesse: “Eu sou um novo tipo de
baleia, eu abandonei a ‘baleiez’,” não deveríamos nos preocupar. Mas, se um homem viesse até nós (como muitos
logo virão) e dissesse, “Eu sou um novo tipo homem. Eu sou o super-homem. Eu abandonei a misericórdia e a
justiça;” deveríamos responder, “Sem dúvida você é novo, mas nem um pouco parecido com o homem perfeito, pois
este sempre esteve na mente de Deus. Caímos com Adão e ascenderemos com Cristo; mas preferimos cair com Satã,
que ascender com você.”

[1]Reproduzido de The Religious Doubts of Democracy (1904) e de “The Blatchford Controversies” (in The Collected
Works of G.K. Chesterton, Vol. 1) (N. do T.)

[2] Nome que a Economia tinha na época. (N. do T.)

[3] A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força
divina. Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por
loucura a sabedoria deste mundo? Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria
divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem (…) mas nós pregamos Cristo crucificado,
escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a
fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. (1 Cor. 1, 18; 20-21; 23;25) (N. do T.)

Para entender a Idade Média


Por Gilbert Keith Chesterton

Illustrated London News, 15 de novembro de 1913

Tradução: Quadrante (Getting to Know the Middle Ages)


É inteiramente razoável que os homens prósperos do nosso tempo não saibam História. Se a conhecessem, teriam
de conhecer a história muito pouco edificante de como se tornaram prósperos…

É inteiramente razoável, digo, que não saibam História: mas por que raios pensam que sabem? Aqui está uma
opinião, tomada a esmo do livro de um dos mais cultos dentre os nossos jovens críticos, obra muito bem escrita e
inteiramente digna de confiança – quando trata do seu próprio tema, que é um tema moderno. Diz esse escritor:
“Na Idade Média, houve pouco ou nenhum avanço social ou político” até a Reforma e a Renascença.

Ora, eu poderia igualmente bem afirmar que, no século XIX, houve pouco avanço na ciência e na técnica até a vinda
de William Morris (1), e depois justificar essa afirmação dizendo que não tenho nenhum interesse pessoal por teares
a vapor ou águas-vivas – o que certamente é o caso. Porque isto é tudo o que o escritor realmente quis dizer: que
não tem nenhum interesse pessoal por arautos ou abades mitrados. Tudo isso está muito bem; mas por que, ao
escrever sobre coisas que não existiam na Idade Média, esse autor sente a necessidade de dogmatizar sobre um
assunto de que evidentemente nunca ouviu falar? E sobre o qual, apesar de tudo, talvez ainda se pudesse contar
uma História muito interessante?

Pouco antes da conquista pelos normandos (2), países como o nosso apresentavam um feudalismo ainda incipiente
e completamente pulverizado, sulcado por contínuas ondas de bárbaros, bárbaros que nunca tinham montado um
cavalo. Praticamente não havia casa de pedra ou de tijolo na Inglaterra; quase não havia estradas, apenas sendas
batidas; praticamente não havia lei, apenas costumes locais. Essa era a Idade das Trevas, da qual surgiria a Idade
Média.

Mas tomemos agora a Baixa Idade Média, duzentos anos depois da conquista normanda e praticamente outro tanto
antes do início da Reforma. As grandes cidades surgiram; os cidadãos são privilegiados e importantes; os
trabalhadores organizaram-se em Corporações de Ofício livres e responsáveis; os Parlamentos são poderosos e
litigam com os próprios reis; a escravidão desapareceu quase por completo; abriram-se as grandes Universidades,
que ministram esse programa de ensino tão admirado por Huxley (3); repúblicas tão orgulhosas e patrióticas como
as dos antigos pagãos erguem-se como estátuas de mármore ao longo da costa mediterrânea; e por todo o norte os
homens construíram igrejas tão grandiosas que os homens talvez nunca mais as igualem. E isso – que, na sua maior
parte, foi realizado mais propriamente não em dois, mas em um século –, é a isso é o que o nosso crítico chama
“pouco ou nenhum avanço social ou político”. Praticamente não há instituição moderna importante que tenha
influenciado a sua vida – da escola em que estudou ao Parlamento que o governa –, que não teve os seus principais
avanços na Idade Média.

Se alguém pensa que escrevo isso por pedantismo, espero poder mostrar-lhe em um momento que tenho um
objetivo mais humilde e mais prático. Quero considerar a natureza da ignorância, e começo por dizer que, em
qualquer sentido escolar e acadêmico, sou eu mesmo muito ignorante. Assim como dizemos de um homem como
Lord Brougham (4) que tinha um grande conhecimento geral, eu diria que tenho uma grande ignorância geral.

Só que este é exatamente o ponto a que pretendia chegar. É um conhecimento geral e uma ignorância geral: sei
pouco de História, mas sei um pouco de quase toda a História. Não sei muito, digamos, sobre Martinho Lutero e sua
Reforma, mas sei que ela fez uma diferença enorme; ora, não saber que o rápido progresso dos séculos XII e XIII fez
uma diferença enorme é pelo menos tão extraordinário como nunca ter ouvido falar de Martinho Lutero. Também
não estou muito bem informado sobre os budistas, mas sei que se interessam por filosofia; não saber que os
budistas se interessam por filosofia, acredite em mim, seria tão chocante como não saber que os medievais se
interessavam pela experimentação e pelo progresso políticos.

Da mesma forma, não sei muito sobre Frederico o Grande. Na minha infância, a enorme coleção de volumes de
Carlyle sobre o assunto inspirava-me medo: parecia haver tantas coisas a conhecer! No entanto, apesar desses
receios, eu seria perfeitamente capaz de adivinhar, com uma razoável probabilidade de acerto, o tipo de assunto
que esses volumes continham. Por exemplo, eu arriscaria (penso que não incorretamente) que os volumes deviam
conter a palavra “Prússia” em um ou mais lugares; que, de tempos a tempos, se falaria de guerra; que se faria
alguma menção de tratados e fronteiras; que a palavra “Silésia” poderia ser encontrada caso se procurasse
diligentemente, bem como os nomes de Maria Teresa e Voltaire; que em algum lugar de todos aqueles volumes, o
seu grande autor diria se Frederico o Grande tivera um pai, se chegara a casar-se, se possuíra grandes amigos, se
tivera algum hobby ou aficção literária de qualquer tipo, se havia morrido no campo de batalha ou na cama, e assim
por diante. Se eu tivesse reunido coragem suficiente para abrir um daqueles volumes, provavelmente teria
encontrado alguma coisa, ao menos nessas linhas gerais.

Agora, troque a imagem; imagine o jornalista ou homem de letras comum, jovem e bem educado, recém-saído de
uma escola pública ou faculdade, parado diante de uma coleção ainda maior de livros ainda maiores das bibliotecas
da Idade Média – digamos, todos os volumes de São Tomás de Aquino. Digo-lhe que, de nove casos em dez, aquele
jovem bem-educado não tem a menor noção do que iria encontrar naqueles volumes encadernados em couro.
Pensa que irá encontrar discussões sobre as capacidades dos anjos de se equilibrarem sobre pontas de agulhas, e
talvez o fizesse. Mas afirmo que ele não pensa – nem de longe – que irá encontrar um professor universitário a
discutir quase todas as coisas que Herbert Spencer discutiu: política, sociologia, formas de governo, monarquia,
liberdade, anarquia, propriedade privada, comunismo, e todas as variadas idéias que, no nosso tempo, se dedicam a
brigar em nome do futuro “socialismo”.

Igualmente, não sei muito sobre Maomé ou o maometanismo. Não levo o Alcorão para ler na cama toda noite. Mas,
se em determinada noite o fizesse, há pelo menos um sentido em que sei o que não encontrarei nele. Suponho que
a obra não transbordará de fortes encorajamentos ao culto dos ídolos; que não se cantarão ali em alta voz os
louvores do politeísmo; que o caráter de Maomé não será submetido a nada que se parece com o ódio e o ridículo; e
que a grande doutrina moderna da irrelevância da religião não será enfatizada sem necessidade.
Mas troque novamente a imagem, e imagine o homem moderno (o pobre homem moderno) que tivesse levado um
volume de teologia medieval para a cama. Ele esperaria encontrar ali um pessimismo que não há, um fatalismo que
não há, um amor à barbárie que não há, um desprezo pela razão que não há.
Aliás, seria na verdade muito bom que fizesse a experiência. Far-lhe-á bem de uma forma ou de outra: ou o fará
dormir – ou o fará acordar.
——
(1) William Morris (1834-1896): Artista e escritor inglês, contribuiu com grande sucesso para a valorização e o
aprimoramento das mais variadas formas de arte (desde a decoração até a arquitetura e a iluminura), chegando
mesmo a fundar empresas bem-sucedidas nesse ramo (entre elas, a tipografia Kelmscott Press, em 1890). Ao fim da
vida, deixou de lado os seus êxitos artísticos e empresariais para dedicar-se a difusão de idéias socialistas.
(2) A conquista da Inglaterra pelos normandos comandados por Guilherme o conquistador ocorreu no ano de 1066.
(3) Thomas Henry Huxley (1825-1895): biólogo inglês, amigo de Charles Darwin e um dos maiores defensores e
divulgadores da teoria evolucionista, o que fez especialmente através do seu livro Man´s Place in Nature (“O lugar do
homem na natureza”, 1863), em que pela primeira vez os princípios do evolucionismo são aplicados ao homem.
(4) Henry Peter, Lord Brougham (1778-1868): político britânico nascido em Edimburgo. Suas numerosas obras, às
vezes contraditórias entre si, cobriram quase todos os ramos do conhecimento da época, tendo ele escrito sobre
Filosofia, Teologia, Economia e até Matemática. Destacou-se também por ter fundado revistas e sociedades de
difusão do conhecimento e por ter realizado reformas no Parlamento britânico.

Como escrever uma história de detetive


G. k. Chesterton

Traduzido por Luciana Viégas

Publicado G.K.’s Weekly, 17 de outubro de 1925. Disponível no livro “O Tempero da Vida e Outros Ensaios“

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Deixemos claro que escrevo este artigo como alguém inteiramente consciente de que falhou ao escrever
uma história de detetive. E tenho falhado muitas vezes. Minha autoridade é portanto experimentada e científica,
como a de alguns grandes estadistas ou cientistas sociais analisando o Desemprego ou o Problema Habitacional. Não
finjo que alcancei o ideal que estabeleço aqui para o jovem estudante; sou, se desejam, muito mais um exemplo
ruim a ser evitado por ele. No entanto, creio que existam modelos de textos de detetive, assim como de tudo o mais
que valha a pena fazer; e me admira que eles não sejam mais frequentemente exibidos em toda aquela literatura
didática popular que nos ensina como fazer tantas outras coisas que valem muito menos a pena serem feitas; do
tipo, por exemplo, como ser bem sucedido. De fato, me admira muitíssimo que o título no alto desse artigo não nos
fite de todas as estantes de livros. Editam-se panfletos ensinando às pessoas toda a espécie de coisas que
possivelmente não podem ser aprendidas, tais como personalidade, popularidade, poesia e charme. Mesmo aqueles
aspectos da literatura e do jornalismo que mais obviamente não podem ser aprendidos são assiduamente ensinados.
Mas eis aqui uma certa habilidade literária franca e clara, mais construtiva do que criativa, que poderia até certo
ponto ser ensinada e, até, em circunstâncias de muita sorte, ser aprendida. Mais cedo ou mais tarde suponho que a
carência será suprida, naquele sistema comercial em que a oferta imediatamente responde à demanda, e em que
todos parecem estar inteiramente descontentes e incapazes de alcançar qualquer coisa que desejem. Mais cedo ou
mais tarde, suponho, não haverá apenas manuais didáticos para investigadores criminais, mas manuais ensinando
aos criminosos. Isto nada será senão uma leve mudança do tom atual da ética financeira, e quando a vigorosa e
perspicaz mente empresarial tiver escapado da derradeira influência dos dogmas inventados pelos sacerdotes, o
jornalismo e a propaganda mostrarão a mesma indiferença aos tabus de hoje como se faz hoje com os tabus da
Idade Média. Um furto será explicado como usura, e não haverá mais disfarce em torno de gargantas degoladas
quanto há em torno de mercados monopolizados. As estantes serão ilustradas com títulos como “Falsificação em
quinze lições” e “Por que suportar a miséria conjugal?”, com a popularização do envenenamento de forma tão
integralmente científica quanto a popularização do Divórcio e do Controle da Natalidade.

Mas, como tantas vezes nos lembram, não devemos nos inquietar pela chegada de uma humanidade feliz; e,
enquanto isso, parecemos estar muito provavelmente tão preparados para receber bons conselhos sobre a prática
de crimes quanto bons conselhos sobre como descobri-los, ou sobre a descrição de como eles poderiam ser
descobertos. Imagino que a explicação é que o crime, a descoberta, a descrição e a descrição da descrição, tudo isto
exige um princípio mínimo de pensamento, enquanto conseguir realizar e escrever um livro sobre o sucesso de
forma alguma necessita desta cansativa experiência. De qualquer maneira, acho que, quando começo a pensar sobre
a teoria das histórias de detetive, me torno o que alguns chamariam de um teórico. Isto é, começo pelo começo,
sem qualquer ânimo, esperteza, vigor ou outra qualidade da arte de capturar a atenção, de modo algum inquietando
ou despertando a mente.

O primeiro e fundamental princípio é que o alvo de uma história de mistério, como de toda outra história e todo
outro mistério, não é a escuridão mas a luz. A história é escrita para o momento em que o leitor a compreende, não
simplesmente para os vários momentos preliminares em que ele não a compreende. A incompreensão significa
apenas um enfumaçado contorno de nuvem para realçar o esplendor daquele instante de inteligibilidade; e muitas
histórias ruins de detetive são ruins porque falham neste ponto. Os escritores têm a estranha noção de que é
tarefa deles confundir o leitor; e de que, contanto que o confundam, não importa se o desapontam. Mas não é
necessário apenas esconder um segredo, é também necessário ter um segredo; e um segredo que mereça ser
escondido. O clímax não deve ser um anticlímax; não pode consistir em conduzir o leitor numa dança e largá-lo num
fosso. O clímax não deve ser somente o estouro de uma bolha, mas, ainda mais, a irrupção de um alvorecer; tão
somente de maneira que o romper da aurora seja acentuado pela escuridão. Qualquer forma de arte, ainda que
banal, se refere a algumas sérias verdades; e embora estejamos lidando com alguma coisa não mais importante que
uma legião de Watsons, todos observando com seus olhos redondos como corujas, é ainda admissível insistir em que
é a pessoa que mergulhou na escuridão quem vê uma grande luz; e que a escuridão só é preciosa ao tornar vívida a
grande luz na mente. Sempre me tocou como uma divertida coincidência que a melhor das histórias de Sherlock
Holmes traga, com uma formulação e um significado totalmente diferentes, um título que poderia ter sido inventado
para expressar esta luz primordial; o título de “Estrela de Prata”.

O segundo grande princípio é que a alma da ficção detetivesca não é a complexidade, mas a simplicidade. O segredo
pode dar a impressão de ser complexo, mas deve ser simples; e nisto também está um símbolo dos mistérios mais
elevados. O escritor está ali para explicar o mistério; mas não convém ser necessário que ele explique a explicação. A
explicação deve explicar a si mesma; deve ser alguma coisa que possa ser cochichada (pelo vilão, claro) em algumas
poucas palavras sussurradas ou gritada preferencialmente pela heroína antes que ela desmaie sob o choque da
percepção tardia de que dois e dois são quatro. Hoje em dia, alguns detetives da literatura tornam a solução mais
complicada do que o mistério, e o crime mais complicado do que a solução.

Em terceiro lugar, portanto, o fato ou a personagem que tudo esclarece deve, tanto quanto seja possível, ser um
fato ou uma personagem familiar. O criminoso deve estar em primeiro plano, não na qualidade de criminoso, mas
em alguma outra qualidade que, todavia, lhe dê o direito natural de estar em primeiro plano. Tomarei como
exemplo propício um já citado: a história de “Estrela de Prata”. Sherlock Holmes é tão conhecido quanto
Shakespeare; logo não há injustiça, a esta altura, em divulgar agora o segredo de um dos primeiros destes contos
famosos. Levam a Sherlock Holmes notícias de que um valioso cavalo de corridas havia sido roubado, e o treinador
que o vigiava fora assassinado pelo ladrão. Várias pessoas, é claro, são plausivelmente suspeitas do roubo e do
assassinato; e todos se concentram no sério problema policial de quem pode ter matado o treinador. A simples
verdade é que o cavalo matou-o. Assim sendo, tomo este como um modelo porque a verdade é muito simples. A
verdade é realmente óbvia demais.

De qualquer forma, a questão é que o cavalo é muito óbvio. A história tem o nome do cavalo; tudo gira em torno do
cavalo; o cavalo está em primeiro plano todo o tempo, mas sempre em alguma outra qualidade. Na medida em que
é uma coisa de grande valor, ele permanece para o leitor como o Favorito; somente como um criminoso ele é um
cavalo sem chances de vitória. É uma história de roubo em que o cavalo desempenha o papel de uma joia até que
nos esquecemos de que uma joia também pode desempenhar o papel de uma arma. Esta é uma das primeiras regras
que eu gostaria de sugerir, se tivesse de criar regras para esta forma de composição. Falando em termos genéricos, o
agente deveria ser uma figura conhecida em uma função desconhecida. A coisa que compreendemos deve ser uma
coisa que reconhecemos; isto é, deve ser alguma coisa previamente sabida, e convém que seja alguma coisa exposta
com destaque. Senão, não há surpresa na simples inovação. É inútil para uma coisa ser inesperada se não vale a
pena a espera. Mas ela deve ser destacada por uma razão e responsável por outra. Muito da arte ou da malícia de
escrever histórias de mistério consiste em achar uma razão convincente ainda que enganosa, para o destaque do
criminoso, acima e além de sua legítima ocupação de praticar o crime. Vários mistérios falham por deixá-lo solto na
história, com aparentemente nada a fazer que não seja cometer o crime. Geralmente ele está em boa situação,
ou nossas justas e equânimes leis provavelmente já o teriam detido como um vagabundo muito antes de o ter
detido como um assassino. Atingimos o estágio de suspeitar de um personagem deste tipo por um processo de
eliminação muito rápido, quiçá inconsciente. Geralmente suspeitamos dele simplesmente porque ele não tem
despertado suspeita. A arte da narrativa consiste em convencer o leitor por um tempo, não apenas de que o
personagem aparece em cena sem qualquer intenção de cometer um delito, mas de que o autor o colocou ali com
alguma intenção que não é delituosa. Pois a história de detetive é apenas um jogo; e neste jogo o leitor de fato não
está lutando com o criminoso mas com o autor.

O que o escritor tem de lembrar, nesta espécie de jogo, é que o leitor não dirá, como algumas vezes fará diante de
um estudo sério ou realista: “Por que o inspetor de óculos verdes escalou a árvore para examinar o jardim da
médica?” Ele, insensível e inevitavelmente, dirá: “Por que o autor fez o inspetor escalar uma árvore, ou,
afinal, apresentou um inspetor?” O leitor pode admitir que a cidade em qualquer caso necessitaria de um inspetor,
sem admitir que o conto em qualquer caso necessitaria também. É preciso explicar a presença dele no conto (e a
árvore) não apenas sugerindo por que razão o conselho da cidade colocou-o lá, mas por que o autor colocou-o lá.
Além de alguns poucos crimes com os quais ele pode pretender se deliciar, no interior da história, ele deve ter desde
então alguma outra justificativa como personagem na história e não apenas como uma simples e miserável criatura
na vida real. O instinto do leitor, brincando de pique-esconde com o autor, que é seu real inimigo, é sempre falar
com desconfiança, Sim, sei que um inspetor poderia escalar uma árvore; estou bastante consciente de que há
árvores e de que há inspetores, mas o que você está fazendo com eles? Por que você fez este inspetor especial
escalar esta árvore especial neste conto especial, sujeito astuto e malvado!

Este que devo chamar de o quarto princípio a ser relembrado, como nos outros casos, as pessoas provavelmente
não compreenderão que seja útil, porque os preceitos em que se baseia parecem teóricos. Ele se baseia no fato de
que, na classificação das artes, misteriosos assassinatos pertencem à grande e alegre companhia das coisas
chamadas de brincadeiras. A história é uma fantasia; uma declarada ficção fictícia. Podemos dizer, se quisermos, que
é uma forma de arte muito artificial. Preferiria dizer que é claramente um brinquedo de estimação, uma coisa com
que as crianças “fingem”. Disto segue-se então que o leitor, que é uma simples criança e, por esta razão,
completamente desperto, está consciente não apenas do brinquedo mas do companheiro de diversão invisível que é
o criador do brinquedo, e o autor da travessura. A criança inocente é muito severa e nem um pouco desconfiada. E
uma das primeiras regras, repito, para o criador de um conto que pretenda ser uma travessura, é lembrar que o
ladrão mascarado deve ter um direito artístico de estar em cena e não simplesmente um direito realista de estar no
mundo. Ele não deve vir para casa a serviço, mas a serviço da história; não é somente uma questão do motivo da
visita mas do motivo do autor. A história de mistério ideal é aquela em que ele é um personagem que o autor teria
criado por si mesmo, ou para fazer com que a história se movimente em outros assuntos necessários, daí a presença
dele ser reconhecida ali, não por uma razão óbvia e suficiente, mas por uma segunda e secreta razão. Acrescentarei
que por esta razão, apesar do riso de escárnio pelo “interesse amoroso”, há muito a ser dito em favor da tradição do
sentimento e da narração mais lenta, ou mais vitoriana. Alguns podem chamá-la de um tédio, mas ela pode
funcionar como um subterfúgio.

Por último, o princípio de que a história de detetive, como toda forma literária, começa com uma ideia, e não
meramente parte para encontrar alguma, aplica-se também a seus detalhes estruturais mais concretos. Onde a
história de detetives se volta para a descoberta, é ainda necessário que o escritor comece do interior, embora o
detetive aborde pelo exterior. Todo bom problema deste tipo tem origem em uma noção positiva, que é em si uma
noção simples; alguns fatos da vida diária que o escritor pode lembrar e o leitor pode esquecer. Mas, em todo caso,
um conto tem de estar fundado sobre uma verdade; e embora algum ópio possa ser adicionado, não pode ser
apenas um devaneio.

A Ortodoxia de Hamlet
Gilbert Keith Chesterton

Tradução: Marcio de Paula S. Hack

Disponível no site da American Chesterton Society

Por vezes me sinto tentado a pensar (como uma em cada duas pessoas que de fato pensa) que todo mundo estaria
sempre certo, contanto que não fosse educado. Mas este é, obviamente, um jeito bem errado de formular a
questão. A verdade é que não existe essa coisa chamada educação; existe apenas esta educação e aquela educação.
Estamos todos prontos a morrer para dar às pessoas essa educação, e (espero que sinceramente) prontos a morrer
para evitar que as pessoas tenham aquela educação. O dr. Strong, em “David Copperfield”, educava garotinhos; mas
o Sr. Fagin, em “Oliver Twist”, também educava garotinhos; eram ambos o que hoje chamamos de “especialistas em
educação”.

Mas embora a formulação da primeira afirmação seja certamente errônea, às vezes ela nos volta à memória, quando
consideramos o caso do teatro. Eu gosto demais de teatro para me tornar um crítico teatral; e acho que nessa
questão, estou junto das pessoas que nunca abrem a boca. Se alguém quer saber o que é a democracia política, a
resposta é simples; é uma tentativa desesperada e quase impraticável de chegar às opiniões das melhores pessoas –
isto é, das pessoas que não confiam em si mesmas. Um homem pode subir a qualquer posto em uma oligarquia. Mas
a oligarquia é simplesmente a premiação da impudência. Uma oligarquia diz que o vitorioso pode ser qualquer tipo
de homem, contanto que não seja um homem humilde.

Um homem em um estado oligárquico (como o nosso) pode ficar famoso por ter dinheiro, ou por ter um bom olho
para cores, ou por ter sucesso social, financeiro ou militar. Mas não pode ficar famoso por ser humilde, como os
grandes santos.

Consequentemente, todos os homens simples e hesitantes são mantidos completamente fora da corrida; e os
cafajestes representam o homem comum, embora na verdade sejam uma minoria entre os homens comuns. Assim
é, especialmente, com o teatro. É completamente falso dizer que o povo não gosta de Shakespeare. A parte do povo
que não gosta de Shakespeare é simplesmente a parcela do povo que se despopularizou. Se uma certa multidão de
cockneys fica entediada com “Hamlet”, os cockneys não estão entediados por que são complexos e engenhosos
demais para “Hamlet”. Eles sentem que aquela excitação das tavernas, do ringue de apostas, do jornal barato, do
teatro de variedades local, é mais complexa e engenhosa do que “Hamlet”; e é mesmo.

No senso mais estrito da palavra, os cockneys são artísticos demais para gostar de “Hamlet”. Eles estimularam e
cansaram demais seus sentimentos artísticos para que possam gozar algo que é simplesmente belo. Eles são estetas;
e um esteta, por definição, é um homem experiente o bastante para admirar uma bela pintura, mas não
inexperiente o bastante para vê-la. Mas se você realmente levasse pessoas simples, camponeses honestos, criados
velhos e bondosos, vagabundos sonhadores, ladrões cordiais e bandoleiros para ver “Hamlet”, eles simplesmente
sentiriam pena de Hamlet. Isto é, eles simplesmente peceberiam o fato de que é uma grande tragédia.

Ora, eu acredito no julgamento de todas as pessoas incultas; mas é minha desdita que eu seja a única pessoa
completamente inculta na Inglaterra a escrever artigos. Meus pares estão em silêncio. Eles não me apoiarão; têm
coisas melhores a fazer. Mas uns dias atrás, quando vi a senhorita Julie Marlowe e o Sr. Sothern
representarem’”Hamlet” muito habilmente, certas coisas vieram à mente sobre aquela peça, que tenho certeza que
outras pessoas incultas têm em comum comigo. Mas elas nada dirão; com uma estranha modéstia, escondem sua
incultura.

Há uma piada antiga que chama a galeria de um teatro “os deuses”. Da minha parte, aceito essa piada com muita
seriedade. As pessoas na galeria são os deuses. São a autoridade última, até o ponto em qualquer coisa humana
pode ser a autoridade última. Eu não vejo nada de excessivo no ator convocá-las com o mesmo gesto que convoca o
monte Olimpo. Quando o ator olha para baixo, meditando em desespero ou invocando o negro Erebus ou os
espíritos do mal, então, em tais momentos, por favor deixem-no curvar suas negras sobrancelhas e olhar para os
lugares logo abaixo de si. Mas se existe em qualquer peça montada qualquer coisa que o faça erguer o coração aos
céus, então, por Deus, ao olhar para o céu, que veja os pobres.

Há uma pequena questão, por exemplo, na qual acho que o público se enganou sobre Hamlet, não sozinho, mas pela
influência dos críticos. Há uma questão na qual os não-educados provavelmente estariam certos, se apenas não
fossem pervertidos pelos educados. A questão é: todos no mundo moderno falam de Hamlet como um cético. O
mero fato de ver a peça representada muito fina e vivamente pela senhorita Marlowe e pelo Sr. Sother
simplesmente varreu os últimos farrapos desta heresia pra fora da minha mente. O que é realmente interessante em
Hamlet é que ele não era de modo algum um cético. Ele nunca duvidava, a não ser no sentido em que todo homem
são duvida, incluindo papas e cruzados. O ponto essencial é bem claro. Se Hamlet fosse um pouquinho cético, não
haveria a tragédia de Hamlet. Se tivesse qualquer ceticismo a exercitar, poderia tê-lo feito já no caso do altamente
improvável fantasma de seu pai. Poderia ter chamado aquela eloquente pessoa de uma alucinação, ou de outra
coisa que nada quer dizer, casado com Ofélia, e seguir comendo pão com manteiga. Este é o primeiro ponto
evidente.

A tragédia de Hamlet não é que Hamlet seja um cético. A tragédia de Hamlet é ele ser um filósofo bom demais para
ser um cético. Seu intelecto é tão claro que ele vê de imediato a possibilidade racional dos fantasmas. Mas o erro
rematado de considerar Hamlet um cético tem muitos outros exemplos. A teoria toda surgiu do costume de citar
passagens empoladas fora de seus contextos, como o “Ser ou não ser”, ou (muito pior) a passagem em ele que diz,
com um gesto quase grosseiro de cansaço, “Ora, para vós então não é; pois nada é bom ou mau, a não ser por força
do pensamento”. Hamlet diz isso por que não aguenta mais a companhia de dois homens tolos; mas se alguém
deseja ver como a atitude de Hamlet é exatamente a contrária, pode vê-lo na mesma conversação. Se alguém deseja
ouvir as palavras de um homem que, no sentido mais definitivo, não é um cético, aqui estão elas:

“Esta bela estrutura, a terra, me parece um promontório estéril; este magnífico dossel, o ar, vede este esplêndido
firmamento suspenso, este majestoso teto trabalhado com um fogo de ouro, apenas me parece uma repulsiva e
pestilenta congregação de vapores… Que obra de arte é um homem, que nobre na razão, que infinito nas
faculdades, na expressão e nos movimentos, que determinado e admirável nas ações; que parecido a um anjo de
inteligência, que semelhante a um deus! A beleza do mundo; a flor dos animais; e contudo, para mim, que é esta
quintessência do pó?”

Estranhamente, ouvi esta passagem citada como uma passagem pessimista. Talvez seja a passagem mais otimista
em toda a literatura humana. É a expressão absoluta do fato essencial da fé de Hamlet; sua fé de que, embora ele
não possa ver que o mundo é bom, ele certamente é bom; sua fé de que, embora não consiga ver o homem como a
imagem de Deus, ainda assim é certamente a imagem de Deus. O homem moderno, assim como a concepção
moderna sobre Hamlet, acredita apenas em estados de ânimo. Mas o Hamlet real, como a Igreja Católica, acredita
na razão. Muitos bons otimistas louvaram o homem quando sentiram que o homem era louvável. Só Hamlet louvou
o homem quando sentia vontade de chutá-lo como a um macaco. Muitos poetas, como Shelley e Whitman, foram
otimistas quando se sentiram otimistas. Só Shakespeare foi otimista quando se sentiu pessimista. Isto é a definição
de uma fé. Fé é aquilo capaz de sobreviver a um estado de ânimo. E Hamlet tem isso do início ao fim. Cedo ele
protesta contra uma lei que reconhece: “Oh, não tivesse o Eterno posto a sua lei contra o suicídio!” Antes do fim,
declara que de nossa desastrada conduta será feita alguma coisa, “por mais que nós lhe demos a demão de início”.

Se Hamlet fosse um cético, teria tido uma vida fácil. Não teria sabido que seus estados de ânimo eram estados de
ânimo. Ele os teria chamado Pessimismo ou Materialismo, ou qualquer outro nome imbecil. Mas Hamlet era uma
grande alma, grande o suficiente para saber que ele não era o mundo. Ele sabia que havia uma verdade além de si
mesmo, portanto acreditava firmemente nas coisas mais diferentes de si, em Horácio e no fantasma. Ao longo de
toda a história, podemos ler sua convicção de que ele está errado. E isto, para uma mente clara como a dele, é
apenas outro modo de dizer que existe algo que é certo. O verdadeiro cético nunca pensa que está errado; pois o
cético real não acredita que exista um errado. Ele despenca através de chão após chão, num universo sem fundo.
Mas Hamlet era o próprio inverso de um cético. Ele era um pensador.
Por que sou católico
G. K. Chesterton

Capítulo Why I am a Catholic, disponível na obra Twelve Modern Apostles and Their Creeds (1926)

Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo

Este texto foi cedido generosamente pelo blog do Angueth

A dificuldade em explicar “Por que eu sou Católico” é que há dez mil razões para isso, todas se resumindo a uma
única: o catolicismo é verdadeiro. Eu poderia preencher todo o meu espaço com sentenças separadas, todas
começando com as palavras, “É a única coisa que …” Como, por exemplo, (1) É a única coisa que previne um pecado
de se tornar um segredo. (2) É a única coisa em que o superior não pode ser superior; no sentido da arrogância e do
desdém. (3) É a única coisa que liberta o homem da escravidão degradante de ser sempre criança. (4) É a única coisa
que fala como se fosse a verdade; como se fosse um mensageiro real se recusando a alterar a verdadeira mensagem.
(5) É o único tipo de cristianismo que realmente contém todo tipo de homem; mesmo o respeitável. (6) É a única
grande tentativa de mudar o mundo desde dentro; usando a vontade e não as leis; etc.

Ou posso tratar o assunto de forma pessoal e descrever minha própria conversão; acontece que tenho uma forte
impressão de que esse método faz a coisa parecer muito menor do que realmente é. Homens muito melhores, em
muito maior número, se converteram a religiões muito piores. Preferiria tentar dizer, aqui, coisas a respeito da Igreja
Católica que não se podem dizer mesmo sobre suas mais respeitáveis rivais. Em resumo, diria apenas que a Igreja
Católica é católica. Preferiria tentar sugerir que ela não é somente maior que eu, mas maior que qualquer coisa no
mundo; que ela é realmente maior que o mundo. Mas, como neste pequeno espaço, disponho apenas de uma
pequena seção, abordarei sua função como guardiã da verdade.

Outro dia, um conhecido escritor, muito bem informado em outros assuntos, disse que a Igreja Católica é uma
eterna inimiga das novas idéias. Provavelmente não ocorreu a ele que sua própria observação não é exatamente
uma nova idéia. É uma daquelas noções que os católicos têm de refutar continuamente, porque é uma idéia muito
antiga. Na realidade, aqueles que reclamam que o catolicismo não diz nada novo, raramente pensam que seja
necessário dizer alguma coisa nova sobre o catolicismo. De fato, o estudo real da História mostrará que isso é
curiosamente contrário aos fatos. Na medida em que as idéias são realmente idéias, e na medida em que tais idéias
são novas, os católicos têm sofrido continuamente por apoiarem-nas quando elas são realmente novas; quando elas
eram muito novas para encontrar alguém que as apoiasse. O católico foi não só o pioneiro na área, mas o único; e
até hoje não houve ninguém que compreendesse o que se tinha descoberto lá.

Assim, por exemplo, quase duzentos anos antes da Declaração de Independência e da Revolução Francesa, numa era
devotada ao orgulho e ao louvor aos príncipes, o Cardeal Bellarmine e Suarez, o Espanhol, formularam lucidamente
toda a teoria da democracia real. Mas naquela era do Direito Divino, eles somente produziram a impressão de serem
jesuítas sofisticados e sanguinários, se insinuando com adagas para assassinarem os reis. Então, novamente, os
casuístas das escolas católicas disseram tudo o que pode ser dito e que constam de nossas peças e romances atuais,
duzentos anos antes de eles serem escritos. Eles disseram que há sim problemas de conduta moral, mas eles tiveram
a infelicidade de dizê-lo muito cedo, cedo de dois séculos. Num tempo de extraordinário fanatismo e de uma
vituperação livre e fácil, eles foram simplesmente chamados de mentirosos e trapaceiros por terem sido psicólogos
antes da psicologia se tornar moda. Seria fácil dar inúmeros outros exemplos, e citar o caso de idéias que são ainda
muito novas para serem compreendidas. Há passagens da Encíclica do Papa Leão sobre o trabalho [conhecida como
Rerum Novarum, publicada em 1891] que somente agora estão começando a ser usadas como sugestões para
movimentos sociais muito mais novos do que o socialismo. E quando o Sr. Belloc escreveu a respeito do Estado
Servil, ele estava apresentando uma teoria econômica tão original que quase ninguém ainda percebeu do que se
trata. E então, quando os católicos apresentam objeções, seu protesto será facilmente explicado pelo conhecido fato
de que católicos nunca se preocupam com idéias novas.

Contudo, o homem que fez essa observação sobre os católicos quis dizer algo; e é justo fazê-lo compreender muito
mais claramente o que ele próprio disse. O que ele quis dizer é que, no mundo moderno, a Igreja Católica é, de fato,
uma inimiga de muitas modas influentes; muitas delas ainda se dizem novas, apesar de algumas delas começarem a
se tornar um pouco decadentes. Em outras palavras, na medida em que diz que a Igreja freqüentemente ataca o que
o mundo, em cada era, apóia, ele está perfeitamente certo. A Igreja sempre se coloca contra a moda passageira do
mundo; e ela tem experiência suficiente para saber quão rapidamente as modas passam. Mas para entender
exatamente o que está envolvido, é necessário tomarmos um ponto de vista mais amplo e considerar a natureza
última das idéias em questão, considerar, por assim dizer, a idéia da idéia.

Nove dentre dez do que chamamos novas idéias são simplesmente erros antigos. A Igreja Católica tem como uma de
suas principais funções prevenir que os indivíduos comentam esses velhos erros; de cometê-los repetidamente,
como eles fariam se deixados livres. A verdade sobre a atitude católica frente à heresia, ou como alguns diriam,
frente à liberdade, pode ser mais bem expressa utilizando-se a metáfora de um mapa. A Igreja Católica possui uma
espécie de mapa da mente que parece um labirinto, mas que é, de fato, um guia para o labirinto. Ele foi compilado a
partir de um conhecimento que, mesmo se considerado humano, não tem nenhum paralelo humano.

Não há nenhum outro caso de uma instituição inteligente e contínua que tenha pensado sobre o pensamento por
dois mil anos. Sua experiência cobre naturalmente quase todas as experiências; e especialmente quase todos os
erros. O resultado é um mapa no qual todas as ruas sem saída e as estradas ruins estão claramente marcadas, todos
os caminhos que se mostraram sem valor pela melhor de todas as evidências: a evidência daqueles que os
percorreram.

Nesse mapa da mente, os erros são marcados como exceções. A maior parte dele consiste de playgrounds e alegres
campos de caça, onde a mente pode ter tanta liberdade quanto queira; sem se esquecer de inúmeros campos de
batalha intelectual em que a batalha está eternamente aberta e indefinida. Mas o mapa definitivamente se
responsabiliza por fazer certas estradas se dirigirem ao nada ou à destruição, a um muro ou ao precipício. Assim, ele
evita que os homens percam repetidamente seu tempo ou suas vidas em caminhos sabidamente fúteis ou
desastrosos, e que podem atrair viajantes novamente no futuro. A Igreja se faz responsável por alertar seu povo
contra eles; e disso a questão real depende. Ela dogmaticamente defende a humanidade de seus piores inimigos,
daqueles grisalhos, horríveis e devoradores monstros dos velhos erros. Agora, todas essas falsas questões têm uma
maneira de parecer novas em folha, especialmente para uma geração nova em folha. Suas primeiras afirmações
soam inofensivas e plausíveis. Darei apenas dois exemplos. Soa inofensivo dizer, como muitos dos modernos dizem:
“As ações só são erradas se são más para a sociedade.” Siga essa sugestão e, cedo ou tarde, você terá a
desumanidade de uma colméia ou de uma cidade pagã, o estabelecimento da escravidão como o meio mais barato
ou mais direto de produção, a tortura dos escravos pois, afinal, o indivíduo não é nada para o Estado, a declaração
de que um homem inocente deve morrer pelo povo, como fizeram os assassinos de Cristo. Então, talvez, voltaremos
às definições da Igreja Católica e descobriremos que a Igreja, ao mesmo tempo que diz que é nossa tarefa trabalhar
para a sociedade, também diz outras coisas que proíbem a injustiça individual. Ou novamente, soa muito piedoso
dizer, “Nosso conflito moral deve terminar com a vitória do espiritual sobre o material.” Siga essa sugestão e você
terminará com a loucura dos maniqueus, dizendo que um suicídio é bom porque é um sacrifício, que a perversão
sexual é boa porque não produz vida, que o demônio fez o sol e a lua porque eles são materiais. Então, você pode
começar a adivinhar a razão de o cristianismo insistir que há espíritos maus e bons; e que a matéria também pode
ser sagrada, como na Encarnação ou na Missa, no sacramento do casamento e na ressurreição da carne.

Não há nenhuma outra mente institucional no mundo que está pronta a evitar que as mentes errem. O policial
chega tarde, quando ele tentar evitar que os homens cometam erros. O médico chega tarde, pois ele apenas chega
para examinar o louco, não para aconselhar o homem são a como não enlouquecer. E todas as outras seitas e
escolas são inadequadas a esse propósito. E isso não é porque elas possam não conter uma verdade, mas
precisamente porque cada uma delas contém uma verdade; e estão contentes por conter uma verdade. Nenhuma
delas pretende conter a verdade. A Igreja não está simplesmente armada contra as heresias do passado ou mesmo
do presente, mas igualmente contra aquelas do futuro, que podem estar em exata oposição com as do presente. O
catolicismo não é ritualismo; ele poderá estar lutando, no futuro, contra algum tipo de exagero ritualístico
supersticioso e idólatra. O catolicismo não é ascetismo; ele, repetidamente no passado, reprimiu os exageros
fanáticos e cruéis do ascetismo. O catolicismo não é mero misticismo; ele está agora mesmo defendendo a razão
humana contra o mero misticismo dos pragmatistas. Assim, quando o mundo era puritano, no século XVII, a Igreja
era acusada de exagerar a caridade a ponto da sofisticação, por fazer tudo fácil pela negligência confessional. Agora
que o mundo não é puritano mas pagão, é a Igreja que está protestando contra a negligência da vestimenta e das
maneiras pagãs. Ela está fazendo o que os puritanos desejariam fazer, quando isso fosse realmente desejável. Com
toda a probabilidade, o melhor do protestantismo somente sobreviverá no catolicismo; e, nesse sentido, todos os
católicos serão ainda puritanos quando todos os puritanos forem pagãos.

Assim, por exemplo, o catolicismo, num sentido pouco compreendido, fica fora de uma briga como aquela do
darwinismo em Dayton. Ele fica fora porque permanece, em tudo, em torno dela, como uma casa que abarca duas
peças de mobília que não combinam. Não é nada sectário dizer que ele está antes, depois e além de todas as coisas,
em todas as direções. Ele é imparcial na briga entre fundamentalistas e a teoria da Origem das Espécies, porque ele
se funda numa origem anterior àquela Origem; porque ele é mais fundamental que o Fundamentalismo. Ele sabe de
onde veio a Bíblia. Ele também sabe aonde vão as teorias da Evolução. Ele sabe que houve muitos outros evangelhos
além dos Quatro Evangelhos e que eles foram eliminados somente pela autoridade da Igreja Católica. Ele sabe que
há muitas outras teorias da evolução além da de Darwin; e que a última será muito provavelmente eliminada pela
ciência mais recente. Ele não aceita, convencionalmente, as conclusões da ciência, pela simples razão de que a
ciência ainda não chegou a uma conclusão. Concluir é se calar; e o homem de ciência dificilmente se calará. Ele não
acredita, convencionalmente, no que a Bíblia diz, pela simples razão de que a Bíblia não diz nada. Você não pode
colocar um livro no banco das testemunhas e perguntar o que ele quer dizer. A própria controvérsia fundamentalista
se destrói a si mesma. A Bíblia por si mesma não pode ser a base do acordo quando ela é a causa do desacordo; não
pode ser a base comum dos cristãos quando alguns a tomam alegoricamente e outros literalmente. O católico se
refere a algo que pode dizer alguma coisa, para a mente viva, consistente e contínua da qual tenho falado; a mais
alta consciência do homem guiado por Deus.

Cresce a cada momento, para nós, a necessidade moral por tal mente imortal. Devemos ter alguma coisa que
suportará os quatro cantos do mundo, enquanto fazemos nossos experimentos sociais ou construímos nossas
Utopias. Por exemplo, devemos ter um acordo final, pelo menos em nome do truísmo da irmandade dos homens,
que resista a alguma reação da brutalidade humana. Nada é mais provável, no momento presente, que a corrupção
do governo representativo solte os ricos de todas as amarras e que eles pisoteiem todas as tradições com o mero
orgulho pagão. Devemos ter todos os truísmos, em todos os lugares, reconhecidos como verdadeiros. Devemos
evitar a mera reação e a temerosa repetição de velhos erros. Devemos fazer o mundo intelectual seguro para a
democracia. Mas na condição da moderna anarquia mental, nem um nem outro ideal está seguro. Tal como os
protestantes recorreram à Bíblia contra os padres e não perceberam que a Bíblia também podia ser questionada,
assim também os republicanos recorreram ao povo contra os reis e não perceberam que o povo também podia ser
desafiado. Não há fim para a dissolução das idéias, para a destruição de todos os testes da verdade, situação tornada
possível desde que os homens abandonaram a tentativa de manter uma Verdade central e civilizada, de conter todas
as verdades e identificar e refutar todos os erros. Desde então, cada grupo tem tomado uma verdade por vez e
gastado tempo em torná-la uma mentira. Não temos tido nada, exceto movimentos; ou em outras palavras,
monomanias. Mas a Igreja não é um movimento e sim um lugar de encontro, um lugar de encontro para todas as
verdades do mundo.

Santo Tomás de Aquino


G. K. Chesterton, publicado originalmente na revista The Spectator,

em 27 de fevereiro de 1932, antes do autor lançar seu livro sobre Santo Tomás de Aquino.

A versão original está disponível aqui.

Retirado com autorização Memoriaeindentidade

Tradução: Rafael Carneiro Rocha

A dificuldade de falar sobre Santo Tomás de Aquino neste breve artigo é selecionar qual aspecto de sua mente
multifaceteada seria melhor para sugerir a dimensão ou a escala dela. Por causa do seu corpo opulento que
carregava seu igualmente maciço cérebro, ele era chamado de “O boi”. É assim: qualquer tentativa de reduzir
tamanha inteligência para um artigo de tablóide se parece com todas as piadas possíveis sobre um boi numa xícara
de chá. Ele foi um dos dois ou três gigantes; um dos dois ou três maiores homens que já viveram; e eu não ficaria
surpreso se ele realmente fosse, independentemente da santidade, o maior deles. Outra maneira de considerar
Santo Tomás de Aquino com outros gigantes é assumir que a proporção varia de acordo com o que os outros
homens são comparáveis ou não a ele. Não teremos uma escala de grandiosidade até constatar que poucas criaturas
históricas poderiam rivalizar com o santo.

Assim, para começar, poderemos situá-lo no contexto da vida ordinária de seu tempo e narrar suas aventuras no
meio dos contemporâneos dele. Sozinho, ele lançou uma luz sobre a história, a despeito da luz que lançara sobre a
filosofia. Nascido em berço de ouro, não muito distante de Nápoles, quando este filho de um grande nobre de
Aquino revelou seu desejo de se tornar monge, pareceria, de acordo com aquela época, que tudo seria facilitado
para ele. Uma figura influente poderia ser admitada, com decoro, na hoje antiga rotina dos beneditinos; como o filho
mais novo de um escudeiro teria se tornado um pároco daquelas redondezas. Mas o mundo de então havia sido
pisoteado em todos os seus caminhos por uma revolução religiosa. Quando o jovem Tomás insistiu em se tornar um
dominicano – um frade vagante e pedinte – seus irmãos se utilizaram de táticas como perseguição, sequestro e
silêncio no cárcere. Era como se o filho de um latifundiário se tornasse um cigano ou um comunista. Contudo, ele
conseguiu se tornar frade e o discípulo preferido do grande Santo Alberto Magno (1). Em seguida, se estabeleceu em
Paris, onde foi um proeminente defensor das ordens mendicantes (2) que surgiam em Sorbonne e onde quer que
fosse. Adiante, ele se encontrou no cerne da controvérsia sobre Averróis (3) e Aristóteles, que refletiu na
reconciliação entre a fé cristã e a filosofia pagã. Mesmo em sua vida social, as preocupações de espírito lhe
ocupavam muito. Homem grande, corpulento, manso e bem-humorado, às vezes era dado a transes. Durante um
jantar com São Luís (4), o rei francês, Santo Tomás ensimesmou-se de tal forma que, subitamente, bateu na mesa
com o punho e bradou: “Isto vai liquidar os maniqueus!” O rei, com a fineza irônica e inocente, pediu para um
serviçal anotar o raciocínio de Santo Tomás, para que as palavras não fossem esquecidas.

Então, ele poderia ser comparado com santos e teólogos mais místicos do que dogmáticos. Como homem sensato,
Santo Tomás era místico privadamente e, em público, um filósofo. Tudo bem que ele tinha “experiência religiosa”;
mas ele não pedia, à maneira moderna, que outras pessoas racionalizassem sua experiência. Sua vivência religiosa
incluía casos bem comprovados de levitação em êxtase; e uma aparição da Santíssima Virgem, que o confortou com
a ótima notícia de que ele nunca se tornaria um bispo. Similarmente, poderíamos comparar a filosofia tomista com
outras, nos aspectos em que se diferenciava de Escoto (5) ou São Boaventura (6). Mas não há espaço para distinções
aqui, além de uma genérica: que Santo Tomás tende relativamente para o racional, enquanto os outros se
aproximam do místico, ou poderíamos dizer, romântico. Em qualquer caso, é certo que nunca houve um teólogo
maior, e provavelmente, nunca um santo tão grandioso. Porém, afirmar que ele era maior do que São Domingos ou
São Francisco não sinalizaria (no sentido que pretendemos) para o quão grande ele foi.

Para entender a sua importância, devemos opor Santo Tomás a duas ou três possibilidades de credos cósmicos: ele é
todo o intelecto cristão falando ao paganismo ou ao pessimismo. Ele argumenta ao longo dos tempos com Platão ou
com Buda; e tem sempre o melhor raciocínio. Sua mente era tão vasta e suas conexões tão bonitas que sugeri-la
seria discutir um milhão de coisas. Mas talvez a melhor simplificação seja esta: São Tomás confronta outros credos
do bem e do mal, sem negar todo o mal com uma teoria de dois níveis de bondade. A ordem sobrenatural é o bem
supremo, como para qualquer mística oriental; mas a ordem natural é boa, tão solidamente boa como é para
qualquer transeunte das cidades. Isto é o que “liquida os maniqueus”. A fé é maior do que a razão, mas a razão é
maior do que qualquer outra coisa, e tem direito supremo em seu próprio domínio. Isto é o que antecipa e responde
o clamor antirracional de Lutero e dos outros; como um poeta pagão me disse certa vez: “A Reforma aconteceu
porque as pessoas não tiveram cérebro para entender Aquino”. a Igreja é mais imortalmente importante do que o
Estado, mas por tudo, o Estado tem os seus direitos. Esta dualidade cristã sempre esteve implícita, assim como a
distinção de Cristo entre Deus e César, ou a diferença dogmática entre as naturezas de Cristo. Mas Santo Tomás tem
a glória de ter apanhado a duplicidade como indício de milhares de coisas; e assim forjou o único credo em que os
santos podem ser sãos. Talvez ele apresenta, principalmente para o mundo moderno, o único credo em que os
poetas podem ser sãos. Por agora não há ninguém para liquidar os maniqueus; e toda a cultura está infectada com
um senso vago e imundo de que a natureza e todas as coisas atrás e debaixo de nós são más, e que só há glórias
para os elevados eruditos. Santo Tomás exaltou a Deus sem diminuir o homem, e exaltou o homem sem rebaixar a
Natureza. Desse modo, ele fez um cosmos do senso comum e a vientum terra, a terra dos vivos. Sua filosofia, assim
como a sua teologia, é do senso comum. Não se tortura o cérebro com desesperadas tentativas de explicar a
existência, explicando-a. Os primeiros passos da mente tomista são os primeiros passos de qualquer mente honesta;
assim como as primeiras virtudes de seu credo podem ser de qualquer camponês de boa vontade. Ele, que
combinou tantas coisas, combinou também a sutileza intelectual e a simplicidade espiritual.
O sacerdote que compareceu ao leito de morte deste Titã da energia intelectual, cujo cérebro tinha devassado as
raízes do mundo, perfurado cada estrela e caminhado por todo o universo do pensamento e até do ceticismo, disse
que, ao ouvir a confissão do moribundo, imaginou de repente que ouvia a primeira confissão de uma criança de
cinco anos.

Notas do tradutor:

(1) Doutor da Igreja, também conhecido como Alberto de Colônia, morreu em 1280. Foi pioneiro nos estudos de
Aristóteles aplicados ao pensamento cristão e se dedicou a diversas ciências, como agricultura, física, mineração,
navegação e química.

(2) Os frades e as freiras das ordens mendicantes, como os agostinianos e os carmelitas, vivem em comunidades
fechadas, mas tem apostolado vagante em serviço aos pobres. São Francisco de Assis e São Domingos são exemplos
importantes de fundadores de ordens mendicantes, os franciscanos e dominicanos.

(3) Os árabes contribuíram para a redescoberta de Aristóteles na Europa medieval. O filósofo muçulmano Abu al-
Walid Muhammad Ibn Ahmad Ibn Munhammad Ibn Ruchd, ou na denominação latina Averróis, foi um dos grandes
estudiosos do grego naquela época. Porém, apesar de ter inspirado Santo Tomás, Averróis, que viveu um século antes
dele, defendia teses que se chocavam com o pensamento cristão. Em sua teoria da dupla verdade, a alma é imortal e
o mundo é criado (de acordo com a fé), e a alma é corruptível e o mundo é eterno (de acordo com a razão). Santo
Tomás de Aquino, firme na tese agostiniana de que a verdade é única, se opunha ao naturalismo racional de
Averróis.

(4) São Luís da França foi rei dos doze anos até o fim de sua vida, em 1270. É considerado um monarca cristão ideal,
cuja aura de santidade afetou as épocas vindouras. Diversas insituições e locais ao redor do mundo recebem o seu
nome.

(5) Beatificado em 1993 pelo Papa João Paulo II, Duns Scot (ou Scotus) se posicionava contrário à filosofia de Santo
Tomás de Aquino. Conhecido como o “Doutor Sutil”, ele sustentava a separação entre a fé e a razão. Viveu de 1265 a
1308.

(6) São Boaventura (1221-1274), contemporâneo de Santo Tomás de Aquino, foi eleito ministro-geral dos
franciscanos. Assim como Escoto, sua filosofia tinha matiz agostiniana e confrontava o aristotelismo.

O Objetivo Religioso da Educação


G.K. Chesterton

Publicado originalmente pela The American Chesterton Society

Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo

Publicação autorizada pelo blog do Angueth

É somente por um definitivo e deliberado estreitamente mental que conseguimos manter a religião fora do sistema
educacional. Não nego que isso possa ser, em certos casos, o menor de muitos males; que possa ser um tipo de
lealdade para com um compromisso político; que seja certamente melhor que uma injustiça política. Mas a
educação secular[1] é uma limitação, mesmo que seja apenas uma auto-limitação. A coisa natural é dizer o que você
pensa sobre a natureza; e especialmente, por assim dizer, sobre a natureza da natureza. A coisa primeira e mais
óbvia em que uma pessoa está interessada é em que tipo de mundo está vivendo; e porque está nele vivendo. Se
você não sabe, não poderá, claro, dizê-lo; mas o simples fato de não ser capaz de responder à questão mais provável
a ser formulada pela outra pessoa pode ou não ser o que alguns chamam educação, mas não é uma forma brilhante
de instrução. Se você tem convicções sobre essas coisas cósmicas e fundamentais, sejam negativas ou positivas, você
é um instrutor que está recusando ensinar uma das coisas mais importantes. Seus motivos podem ser generosos, ou
podem ser meramente tímidos; mas isso não é certamente, em si mesmo, educação.

Diz-se algumas vezes que os devotos de uma doutrina religiosa, que são tão freqüentemente descritos como burros,
estão, nessas questões, usando viseiras. A palavra não é sabiamente escolhida pelos críticos; e, em certo sentido, é
muito mais aplicável ao próprio crítico. O homem que apresenta respostas oficiais a perguntas fundamentais,
mesmo que ele diga que o mundo foi criado a partir de abóboras, pode estar dogmatizando, perseguindo ou
tiranicamente estabelecendo a lei sobre todas as coisas, mas ele não está usando viseiras. Isso implicaria limitar
deliberadamente seu campo visual. Sua visão por ser, para nós, uma ilusão; mas se ela lhe é muito vívida, não
podemos censurá-lo por descrevê-la; e, de qualquer forma, ele a está descrevendo totalmente. Se houver no mundo
tal coisa como um burro usando deliberadamente viseiras, este é o educador iluminado que está sempre fazendo
um receoso esforço para excluir de sua tarefa de transmitir conhecimentos, qualquer referência a coisas que os
homens, desde o início do mundo, sempre tiveram o maior desejo de conhecer. Estas coisas não são, em absoluto,
meros objetos periféricos de uma curiosidade especial. Sejam elas conhecidas ou não, elas não apenas merecem ser
conhecidas, mas são o tipo de conhecimento mais simples e elementar. É uma coisa boa que as crianças percebam
que há um mundo objetivo fora delas, tão sólido quanto o poste de luz na calçada. Mas mesmo quando fazemos o
poste bastante objetivo, não é estranho perguntarmos qual é seu objetivo. Um naturalista, observando os objetos
comuns da rua, pode notar muitos fatos e escrevê-los num caderno. Um ciclista pode trombar num poste de luz; um
vagabundo pode encostar-se ao poste; um bêbado pode abraçar o poste ou mesmo, num momento mais ousado,
tentar subir no poste. Mas não é um tipo estranho ou especializado de conhecimento notar que o poste de luz tem
uma lâmpada.

Pois educação secular realmente significa que todos deverão olhar para a calçada para evitar que, por um acaso
fatal, alguém olhe para a lâmpada acima. A lâmpada da fé que realmente iluminou a rua para grande parte da
humanidade em quase todas as eras da história, não foi apenas um fogo itinerante visto por visionários a flutuar
pelo ar; foi também, para muitos, a explicação do poste. Se uma nuvem baixa como a fog de Londres cobrir, de fato,
aquela chama,[2] então é um fato objetivo que o objeto permanecerá principalmente um objeto a ser trombado.
Não culpo quem só consegue considerar o mundo a partir daquela luz altamente objetiva. Mesmo que o poste de luz
pareça um poste sem lâmpada e, portanto, um poste sem propósito, pode ser possível ter diferentes pontos de vista
a seu respeito. O estóico, como o vagabundo, pode encostar-se nele; o otimista, como o bêbado, pode abraçá-lo; o
progressista pode tentar subir nele etc. Assim acontece com quem tromba com um mundo sem cabeça como em um
poste sem lâmpada; para quem o mundo é um grande e objetivo obstáculo. Apenas digo que há uma diferença, que
não é pequena ou secundária, entre aqueles que sabem e aqueles que não sabem para que serve o poste.

O mais profundo dos desejos por conhecimento é o desejo de conhecer o propósito do mundo e de nós mesmos.
Aqueles que acreditam poder responder a essa questão devem poder respondê-la como a primeira questão e não a
última. Um homem que não possa respondê-la tem o direito de recusar respondê-la; apesar de que talvez ele tenda
a confortar-se com o assaz dogmático dogma de que ninguém mais possa respondê-la se ele não pode. Mas nenhum
homem tem o direito de responder à questão, ou mesmo prepará-la para ser respondida, como se ela fosse um tipo
peculiar e pedante de questão adicional, que somente um tipo peculiar e pedante de estudante pudesse responder.
A educação secular é mais razoável uma educação que incluísse a religião como uma atividade extra; como aprender
a fazer grega ou falar português. E esse princípio é importante em relação à controvérsia sobre a educação religiosa,
pois ele envolve toda a questão que foi tão proeminente na controvérsia, a questão do que é chamada de
“atmosfera”. O que isso significa é que qualquer um que tenha o direito de responder à questão tem o direito de
respondê-la como um tipo de questão que ela realmente é; uma questão que afeta a natureza de todo o mundo e o
propósito de cada porção da vida humana. Se um homem ensina religião, é absurdo pedi-lo para ensiná-la como se
fosse algo diferente, que não se aplicasse a todas as atividades do homem. A expressão “uma hora de religião” é
algo muito próximo a uma contradição em termos. E é divertido notar que o mesmo cético casual que está sempre
zombando do ortodoxo pelo seu comportamento e limitações, que está sempre falando de sua religião de domingo
e sua separação das coisas sagradas e profanas, é geralmente o mesmo homem que mais prontamente faz pilhéria
sobre a idéia de uma atmosfera religiosa nas escolas. Isto é, ele é exatamente quem mais se opõe às coisas sagradas
e profanas serem unidas e a uma religião que funciona tanto nos dias de semana quanto aos domingos. A verdade é
que a idéia de atmosfera é simplesmente uma peça da elementar psicologia infantil. Em qualquer outra questão,
essas pessoas seriam as primeiras a nos dizer que a educação deve observar todas as influências que formam a
mente, não importa quão aparentemente leve ou acidental. Eles se horrorizam se a criança tiver de olhar para o
papel de parede errado; eles assumem seriamente a responsabilidade de garantir, no papel de parede, a correta
imagem do wombat;[3] mas eles nos dizem não se importar que a criança tenha a correta imagem do mundo.

Não estou afirmando, claro, que não haja nenhum valor no entusiasmo social secular; ou mesmo que, na linguagem
que alguns usam sinceramente e até utilmente, que ele não mereça ser chamado de religião. O que duvido é que ele
mereça, neste sentido, ser chamado de razão. Ele não satisfaz a fome intelectual primária de um significado da vida,
do qual certas pessoas falam bem, mesmo quando duvidam que isso signifique alguma coisa. A verdade é que há
implícito em quase todo idealismo um número de idéias que os idealistas raramente seguem. Há a noção de uma
escolha que é misteriosamente oferecida e que é seguida de igualmente misteriosas conseqüências; de um valor
místico atribuído a uma parte de nossa natureza sem qualquer autoridade para avaliá-lo; de um tipo de elevado
namoro com ninguém em particular; em resumo, todos os ricos matizes de uma fog londrina circundando um poste
de luz sem a lâmpada. Estou longe de faltar ao respeito por este idealismo tateante; apenas digo que, baseado em
sua própria confissão, ele é muito incompleto em comparação com o idealismo de alguém que professe uma
completa filosofia, pois este tem um credo. E não tenho a intenção de ofender quando digo que qualquer um que
tenha este tipo de educação é uma pessoa meio-educada.

Mas há outro aspecto do caso, que ilustra a verdade real no puritanismo assaz rústico das pessoas que criaram uma
confusão em Dayton.[4] Para alguns de nós, parece estranho que tal protestantismo muito antiquado deva
supostamente representar a religião. Parece estranho que tal darwinismo muito antiquado deva representar a
ciência. Mas, de fato, o protesto e o processo naquela ocasião representaram algo. Mostraram o forte instinto
popular de que, não sem justificativa, a ciência estava sendo manipulada de forma a significar muito mais do que ela
realmente diz. Uma educação evolucionária é algo muito diferente de uma educação sobre evolução. Tal como uma
escola religiosa aberta e admitidamente proporciona uma atmosfera religiosa, uma aula científica às vezes
proporciona, consciente ou inconscientemente, uma atmosfera materialista. Um professor secularista teria tanta
dificuldade quanto um padre de não dar sua própria resposta a questões que são as que mais merecem ser
respondidas. Ele também fica um pouco incomodado de não colocar as coisas primeiras em primeiro lugar. Tende a
cada vez mais transformar sua ciência em filosofia. Talvez seja discutível e provocativo chamar essa filosofia
materialista. É mais educado e igualmente correto chamá-la monista. Mas a questão é que essa filosófica tem algo
em si que é completamente estranha, não somente a todas as religiões que se referem à vontade de Deus, mas
também a todas as moralidades que revolvem em torno da vontade do homem. Sua imagem do universo, certa ou
errada, não é aquela de um poste instalado com o objetivo de ter uma lâmpada em seu topo; é mais a de um poste
que cresce como uma árvore; um poste de luz que produz afinal sua própria lâmpada. Assim, considerando essa
visão de um vago crescimento simplesmente como uma atmosfera e uma impressão nas mentes dos jovens
(independente de sua veracidade ou falsidade), não há dúvidas de que ela tende à noção de que as coisas têm muito
de algo em comum, são igualmente frutos inevitáveis da mesma árvore; e certamente não tende na direção da idéia
de uma escolha moral e de um conflito; de um contraste entre o preto e o branco, ou a batalha entre a luz e a
escuridão.

Não estou escrevendo polemicamente, nem querendo pressionar alguém afirmando isso como uma necessidade
individual. Estou escrevendo educacionalmente, e considerando a impressão psicológica provável de certas
atmosferas e matizes sutis. Digo que uma grande evolução na educação não faria a educação muito insistente em
idéias de livre arbítrio e de moralidade guerreira; de escolhas e desafios dramáticos. Por que um fruto desafiaria
outro fruto da mesma árvore; e como poderia haver uma escolha preto-e-branco em lentas gradações de verde?
Assim, mesmo que ignoremos a questão primeira da religião, no sentido do propósito da criação, há o mesmo tipo
de problema a respeito da religião mesmo que usemo-la no sentido do propósito de fazer o bem. Se um homem
acredita que há um abismo entre o vício e a virtude tal com aquele entre a vida e a morte, ele quererá dizê-lo. E se
outros homens somente dizem que tudo é produto de um crescimento evolucionário, ele não admitirá que eles
disseram o que ele desejava dizer. Não é somente uma questão de que a educação secular parece indiferente à
religião, mas que a educação científica parece indiferente à ética. Estou falando de efeitos educacionais, como os
educadores fazem; e recusando todo tipo de recriminação sentimental sobre os objetivos puros e nobres dos
homens de ciência. Muitos que desprezariam algo tão clássico como o ensino da retórica, estão sempre prontos a
usar uma grande quantidade de retórica em louvor do ensino da ciência. Não estou atacando o ensino da ciência,
muito menos os professores de ciência; estou dizendo que o ensino da evolução, se se tornar uma atmosfera, não
pode ser uma atmosfera favorável à chama moral ou a um espírito guerreiro. Para resumir: o ensino da evolução é
dificilmente um treinamento para revolução.

Ele dificilmente proporcionará uma força especial ao sentimento de que algumas coisas são intrinsecamente
intoleráveis e outras imperativamente justas. Quando um reformador puder apenas dizer para um motorista-
escravo, “Você está evoluindo muito vagarosamente; você deve ter emergido do estado-escravo”, o motorista-
escravo pode apenas responder, “O senhor está evoluindo muito rapidamente; o senhor deve esperar até o século
XXI.” Tal discussão dificilmente acenderá a chama do fanatismo de Harpers Ferry.[5] Parece-me, portanto, que os
pobres puritanos de Tennessee não estão totalmente errados, na questão de psicologia educacional, se eles dizem
que a educação evolucionária, mesmo que não seja um ataque à doutrina cristã, pode se tornar uma atmosfera
muito estranha à moral cristã; e a qualquer tipo combativo e viril de moral. Depois da doutrina de que a existência é
o resultado de um design, a próxima coisa mais interessante é que ela é o resultado de uma escolha; e mesmo que
os homens fossem ensinados a ser ateus, duvido que o mero evolucionismo ter-lhes-ia ensinado a serem ateus
impetuosos e guerreiros. E ver os ateus perderem sua única grande virtude da ferocidade seria, de fato, uma grande
perda para a religião.

_____________________________________________________________

[1] O que se chama no Brasil de educação laica. (N. do T.)

[2] Chesterton aqui se refere à lâmpada à gás, não à lâmpada elétrica. (N. do T.)

[3] Tipo de animal australiano. (N. do T.)

[4] Este artigo foi escrito em 1925, mesmo ano do famoso julgamento em Dayton, cidadezinha no Tennessee, EUA,
de um professor que ensinava a teoria da evolução numa escola pública. (N. do T.)

[5] Harpers Ferry é uma cidade da Virgínia Ocidental, EUA, que foi local de uma rebelião abolicionista em 1859. (N.
do T.)

Milagres e a Moderna Civilização


G.K. Chesterton

Publicado originalmente pela The American Chesterton Society

Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo

Publicação autorizada pelo blog do Angueth


Nota do tradutor: Este ensaio é um dos quatro que fazem parte da tremenda batalha travada entre Chesterton e
Robert Blatchford, em 1903-04. Blatchford escrevera um livro intitulado Deus e Meu Próximo, que era um credo
racionalista, ao estilo do século que acabara havia pouco tempo. Como editor do jornal Clarion, Blatchford
generosamente abriu as páginas do jornal para os que dele discordavam, entre os quais, e principalmente, se incluía
G.K. Chesterton. Os textos do grupo liderado por Chesterton veio a ser publicado num volume intitulado As Dúvidas
da Democracia, mas os textos de Chesterton foram depois reunidos e publicados, pela Ignatius Press, sob o título
Controvérsias com Blatchford. Há um delicioso trecho em Hereges em que Chesterton se refere à controvérsia
dizendo: “… o Sr. Blatchford, que começou uma campanha contra o cristianismo e mesmo sendo advertido por
muitos que isso arruinaria seu jornal, continuou por causa de um senso honorável de responsabilidade intelectual. Ele
descobriu, contudo, que enquanto chocava indubitavelmente seus leitores, seu jornal muito prosperava. Passou a ser
comprado – primeiramente, por todos que concordavam com ele e o queriam ler; depois, por todos que discordavam
dele e queriam escrever-lhe cartas. Tais cartas eram volumosas (eu ajudei, fico feliz em dizer, a engordar o jornal) e
eram geralmente publicadas quase sem cortes. A grande máxima do jornalismo foi assim acidentalmente descoberta
(como aconteceu com a máquina a vapor): que se um editor conseguir enfurecer as pessoas suficientemente, elas
escreverão, de graça, metade do jornal para ele.” Outro dos ensaios da controvérsia já foi traduzido por este blog:
Por que acredito no cristianismo.

___________________________________

O Sr. Blatchford resumiu tudo o que lhe é importante em três frases. Elas são perfeitamente honestas e claras.
Tampouco elas são menos honestas e claras por serem as duas primeiras falsas e a terceira uma falácia. Ele diz: “O
cristão nega os milagres do muçulmano. O muçulmano nega os milagres do cristão. O racionalismo nega todos os
milagres igualmente.”

Com o erro histórico das duas primeiras observações me ocuparei daqui a pouco. Concentro-me no momento na
corajosa admissão do Sr. Blatchford de que o racionalista nega todos os milagres igualmente. Ele não os questiona.
Ele não pretende ser agnóstico em relação a eles. Ele não suspende o juízo até que eles sejam postos á prova. Ele os
nega. Frente a tal extraordinário dogma, perguntei ao Sr. Blatchford porque ele pensa não existirem milagres. Ele
respondeu que o Universo é governado por leis. Obviamente, esta resposta é completamente inútil. Pois, não
podemos considerar algo impossível porque o mundo seja governado por leis, a menos que conheçamos quais leis.
Conhecerá o Sr. Blatchford todas as leis do Universo? E se ele não conhecer todas as leis, como será possível que ele
conheça algo sobre as exceções?

Pois, obviamente, o mero fato de que uma coisa aconteça raramente, sob circunstâncias estranhas e que não haja
nenhuma explicação que conheçamos, não é prova de que ela seja contra a lei natural. Isto se aplica aos gê