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Costa et al., / Revista Brasileira de Higiene e Sanidade Animal (v.9, n.

3) (2015) 493-505

Revista Brasileira de Higiene e Sanidade Animal


Brazilian Journal of Hygiene and Animal Sanity
ISSN: 1981-2965

I
Hipertensão arterial felina: Abordagem clínica
Feline hypertension: Clinical approach
Paula Priscila Correia Costa ¹
1
Professora de Clínica de Pequenos Animais da Faculdade de Veterinária da
Universidade Estadual do Ceará, UECE, Fortaleza, CE
RESUMO: A hipertensão arterial felina é uma doença que acomete principalmente
felinos geriátricos.Trata-se de uma patologia de extrema importância por ter a capacidade de
lesionar órgãos nobres e essenciais a vida, como o coração, o cérebro, o rim e os olhos. As
lesões , freqüentemente, são irreversíveis. As causas de hipertensão sistêmica podem ser
primárias ou secundárias. Entretanto, a forma secundária é a que ocorre com maior freqüência.
Faz-se importante, a prevenção, ou, que a doença seja descoberta em um estágio inicial, para
uma abordagem correta imediata. Porém, a hipertensão ainda é pouco diagnosticada, sendo,
muitas vezes, descoberta tardiamente. A terapêutica visa a diminuição da sintomatologia
cardiovascular e dos órgãos alvo atingidos a fim de evitar a progressão da doença, elevando,
por conseguinte, a qualidade de vida do animal.

Palavras chave: hipertensão felina, órgãos alvo.

ABSTRACT: Feline Hypertension is a disease that affects mainly geriatric .This is a


condition of extreme importance cats to have the ability to injure vital organs and essential to
life, such as heart, brain, kidney and eyes.The injuries, often they are irreversible. The systemic
hypertension causes may be primary or secondary. However, the secondary form is the one that
occurs most frequently. It will be important, prevention, or that the disease is discovered at an
early stage, to an immediate right approach. However, hypertension is still underdiagnosed and
is often discovered late. Therapy aims at the reduction of cardiovascular symptoms and target
organs affected in order to prevent the progression of the disease, increasing therefore the
quality of life of the animal.

Keywords: feline hypertension, target organs.

________________________

Autor para correspondência e-mail: * paula.priscila@uece.br


Recebido em 03/05/2015; Aceito em 15/09/2015
http://dx.doi.org/10.5935/1981-2965.20150045

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INTRODUÇÃO problemas (MUCHA & CAMACHO,


2003; STEPIEN, 2011).
A hipertensão arterial é o aumento
Segundo (FOX, 1999), quando o
da pressão arterial acima dos valores de
aumento de pressão arterial altera o
normalidade e que pode resultar em
mecanismo de Starling o edema pode
seqüelas clínicas ou patológicas (KIENLE
ocorrer devido a transudação de fluido e
& KITTLESON, 1998). É uma doença
eletrólitos; ou a hemorragia pode ocorrer
grave, “silenciosa”, que acarreta inúmeras
resultante de exudação de proteínas
alterações sistêmicas, em diferentes órgãos
plasmáticas ou componentes celulares
(órgãos-alvo), principalmente nos mais
sanguíneos devido a ruptura microcapilar
irrigados.
e/ou a mudanças de permabilidade capilar.
A hipertensão arterial é
Uma das principais indicações para
fundamentalmente resultante do
a avaliação da pressão arterial num
desequilíbrio dos sistemas de controle da
paciente é a observação de alterações
pressão arterial onde os fatores
clinicas consistentes com lesão
vasoconstritores e pró-mitogênicos:
hipertensiva de órgãos alvo,
sistema renina angiotensina aldosterona
designadamente a nível do sistema ocular
(SRAA), endotelinas e sistema simpático
(retinopatia hipertensiva), renal (azotemia,
passam a predominar sobre os
proteinúria, microalbuminúria),
vasodilatadores e anti-mitogênicos
cardiovascular (hipertrofia ventricular
(sistema NO, peptídeo natriurético atrial -
esquerda, sopro sistólico, epistaxis) e
ANP e prostaciclinas) (KRIEGER,1997).
neurológico (convulsões, estupor)
Embora a hipertensão arterial seja
(REEZIGT & DJURJUKHUS, 2007).
uma das causas mais comuns de morbidade
Os sinais clínicos mais comumente
e mortalidade na medicina humana, na
encontrados em gatos com hipertensão
veterinária, ainda se transita pelas
arterial são polidipsia e perda de peso,
primeiras etapas de diagnóstico e pela sua
além de cegueira aguda, poliúria, vômitos,
compreensão, já que a aferição da pressão
convulsões, alterações cardíacas, nistagmo,
arterial não faz parte da prática clínica
paresia dos membros posteriores, fraqueza
diária. Além disso, não há registros de
ou ataxia e anormalidades de
parâmetros normais em pequenos animais,
comportamento (ELLIOT et al, 2001).
com relação à raça, sexo ou idade, os quais
Entretanto, a letargia, sensibilidade a luz
favoreceriam a melhor identificação dos
com piscar de olhos constante e alteração

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no apetite também são observados incidência em felinos que causam


(BROWN et al., 2007). secundariamente a hipertensão arterial são:
A hipertensão arterial acarreta nefropatias (IRC), diabetes mellitus e
danos em órgãos ricos em suprimento hipertireoidismo. As principais lesões
arteriolar (HENRIK, 1997). É a doença aparecem, em ordem de prevalência, nos
cardiovascular mais importante do gato olhos, rins, coração e cérebro.
idoso, sendo a mais importante doença Patogenia e Sinais clínicos
vascular felina. Alterações cardiovasculares
Etiologia A hipertensão arterial sustentada
A hipertensão sistêmica pode ser resulta em hipertrofia muscular e
classificada como primária ou secundária hiperplasia, necrose fibrinótica, perda ou
(DUKES, 1992; MISHINA et al, 1998; fragmentação da lâmina elástica interna,
ACIERNO & LABATO, 2004;BROWN, hialinização, mioarterite e oclusão capilar
2005). A hipertensão primária é de artérias pequenas e arteríolas. Isquemia,
diagnosticada por exclusão de doenças pré- diminuição da perfusão tecidual e
existentes (DUKES, 1992). Para tanto, hemorragia são conseqüências de lesões
devem ser realizados exames para a vasculares induzidas pela hipertensão
exclusão de quaisquer outras patologias arterial (BARTGES et al, 1996).
que possam resultar em quadro Há danos na vasculatura de forma
hipertensivo. A hipertensão secundária é a que há a hipertrofia do músculo liso
elevação da pressão sanguínea, devido a induzido pelo aumento do Ca+ citosólico,
doenças sistêmicas ou à administração de vasoespasmo e do uso contínuo pelo
certos medicamentos (ACIERNO & organismo de vasopressores. A hipertensão
LABATO, 2004). arterial causa também lesão na túnica
Há algumas doenças capazes de íntima induzida por arterosclerose
induzir uma hipertensão secundária. No danificando as artérias de forma a ficarem
que tange aos felinos, as nefropatias rígidas e espessas.
(insuficiência renal crônica-IRC), a O coração sofre diretamente com o
diabetes mellitus, o hipertiroidismo, e mais aumento excessivo de pressão e com as
raramente, o hiperadrenocorticismo, o conseqüências que ela ocasiona nos vasos
feocromocitoma, o hiperaldosteronismo sanguíneos. Para manter a perfusão ele tem
primário e os tumores produtores de de aumentar a pós-carga, processo que
renina. No entanto, as doenças de maior

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cronicamente ocasiona hipertrofia da comprometida de tal forma que o animal


parede livre ventricular esquerda. pode ter falência múltipla de todos os
A hipertrofia da parede miocárdica órgãos irreversível e morrer.
causa uma diminuição da perfusão Alterações renais
coronariana, havendo o risco de ocorrer A maioria dos cães e gatos
isquemia do miocárdio subendocardial hipertensos têm poliúria e polidpsia,
(DUKES, 1992; SNYDER et al, 2001). possivelmente, devido ao aumento da
O aumento na pós-carga pode pressão de diurese ou a doença renal
lesionar válvulas acarretando um problema primária (FOX et al., 1999).
secundário, o sopro, que posteriormente, Arterioesclerose está associada com
será mais uma fonte de sobrecarga para o a glomeroesclerose (nefroesclerose). A
ventriculo esquerdo. No ecocardiograma as atrofia glomerular assim como a perda de
transformações no miocárdio em felinos néfrons pode ser visualizada. Os danos
são: espessamento do septo interventricular glomerulares predispõem à proteinúria e à
e da parede livre do ventrículo esquerdo, falência renal. Na arteriografia é mostrada
redução do diâmetro interno diastólico a vasculatura intra-renal tortuosa
ventricular e dilatação da aorta próxima. demonstrando a possibilidade de uma
Alterações eletrocardiográficas em doença renal secundária (FOX et al.,1999).
gatos podem indicar aumento ventricular Na hipertensão arterial os rins
esquerdo e bloqueio fascicular cranial aumentam a excreção renal de Na+ e água.
esquerdo (HENRIK, 1997). Na radiografia Inicialmente, agem reduzindo o volume
torácica pode haver o aumento do VHS sanguíneo e, conseqüentemente, o que
(Vertebral heart size) indicando aumento ajuda no controle da hipertensão arterial.
de área cárdica, focal, no caso de Contudo, a elevação da pressão renal
ventrículo esquerdo ou generalizada, provoca uma degeneração tubular e fibrose
cardiomegalia, em casos mais avançados intersticial, enquanto a hipertensão
onde a insuficiência cardíaca congestiva glomerular resulta em glomeruloesclerose,
pode estar presente. atrofia glomerular e glomerulite
Se não tratada corretamente, a proliferativa. Juntas, essas mudanças estão
hipertensão arterial causará a longo prazo associadas com hiperfiltração glomerular e
insuficiência cardíaca congestiva, sendo o progressão dos danos tubulares e
coração incapaz de exercer sua função de glomerulares. O resultado final é a piora da
bomba e a perfusão sistêmica será hipertensão arterial e conseqüentemente a

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falência renal (ACIERNO & LABATO, localizado ou completo (MAGGIO et al,


2004). 2000).
Alterações oculares Devido à dificuldade do
As alterações oculares associadas à diagnóstico precoce de hipertensão arterial
hipertensão arterial são provenientes da em gatos, as lesões oculares são as
falha na auto-regulação vascular das complicações mais comumente detectadas.
artérias da retina. Em resposta ao aumento A hipertensão arterial deve ser considerada
da pressão arterial, há vasoconstrição em gatos idosos, com início súbito de
arteriolar, levando a hipertrofia e cegueira (MAGGIO et al, 2000).
hiperplasia da musculatura lisa. Com a Alterações cerebrais
vasoconstrição crônica, as células da A arterioesclerose no sistema
musculatura lisa vascular apresentam uma nervoso central, vasoespasmos, infartos ou
diminuição da função contrátil, hemorragias podem causar acidentes
desenvolvendo mudanças fibrosas e neurovasculares e acidentes vasculares
permitindo uma perda insidiosa do plasma cerebrais. Em gatos com sinais
para dentro da parede arteriolar, causando neurológicos têm sido observados cérebros
hialinização e necrose da musculatura lisa. com hemorragias multifocais (FOX et al.,
As mudanças degenerativas progressivas, 1999).
na parede dos vasos levam a ruptura das A hipertensão arterial também pode
células endoteliais e musculares, com levar a ruptura de pequenas artérias
perda de sangue e soro para o tecido ao resultando em isquemia localizada
redor da retina, ocasionando lesões (acidente vascular cerebral) (BROWN,
efusivas (edema, hemorragia, 2005).
descolamento de retina), caracterizando a Encefalopatia hipertensiva é
retinopatia hipertensiva. Embora a coróide evidenciada por ataxia, cabeça inclinada,
não seja um leito vascular auto-regulatório, depressão, desorientação, convulsões e
a hipertensão arterial induz a injúrias no coma (DUKES, 1992; ACIERNO &
sistema arterial podendo causar oclusão LABATO, 2004; BROWN, 2005).
dos capilares coroidais, levando a necrose A herniação cerebral é geralmente
e atrofia dos pigmentos epiteliais da retina. uma complicação fatal da encefalopatia
A coriodopatia hipertensiva é caracterizada hipertensiva (BROWN, 2005).
clinicamente, por descolamento de retina

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DIAGNÓSTICO em cães e gatos conscientes. Os critérios


O diagnóstico e controle da para aprovação foram estabelecidos para
hipertensão arterial no paciente clínico são uso em humanos, nos quais os métodos
baseados na aferição da pressão arterial do foram mais padronizados e são mais fáceis
paciente (BROWN et al., 2007). de alcançar (BROWN et al., 2007).
A pressão arterial pode ser aferida A pressão arterial deve ser sempre
diretamente, de maneira intra-arterial, ou avaliada em um ambiente tranqüilo, longe
indiretamente, por meio de aparelhos que de outros animais e distrações, após o
incorporem uma braçadeira compressiva. animal ter se acostumado com o ambiente
Entretanto, no presente momento, (HENRIK, 1997; ACIERNO & LABATO,
dispositivos indiretos se mostram 2004).
clinicamente mais aceitáveis e mais A pressão arterial pode ser afetada
amplamente em uso. Uma nova tecnologia, pela ansiedade, pelo estresse e/ou pela
oscilometria de alta definição, tem sido síndrome do jaleco branco, onde o animal
avaliada em cães e gatos sob anestesia. associa a vestimenta a algum processo que
Resultados preliminares são promissores, possa ser traumático. O proprietário deve
contudo dados aprobativos adicionais se estar ao lado do animal no momento da
fazem necessários para animais mensuração para que ele possa ficar mais
conscientes (BROWN et al., 2007) confiante e menos estressado.
Idealmente, a pressão arterial deve Segundo BROWN & HENRIK
ser aferida com dispositivos que tenham (1998), a visita ao veterinário, a presença
sido previamente aprovados para as de estranhos no ambiente, a tricotomia, a
espécies de interesse. Assim, para o colocação e a inflação da braçadeira, são
diagnóstico de hipertensão arterial em cães fatores que podem ocasionar a liberação de
e gatos, o dispositivo indireto em uso deve catecolaminas, levando a uma falsa
ser um que seja comumente utilizado ou elevação da pressão arterial, fazendo com
designado para uso veterinário e que tenha que o clínico dê o diagnóstico de
sido previamente aprovado para uso em hipertensão arterial erroneamente.
animais conscientes da espécie de interesse Métodos diretos
(BROWN et al,2007). É o método direto o mais fidedigno
Infelizmente, até o presente de mensuração da pressão arterial, pois ele
momento, nenhum dispositivo indireto avalia a pressão diretamente no vaso
satisfez os critérios de aprovação para uso sanguíneo através da canulação do mesmo.

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As artérias mais comumente utilizadas são base da cauda (artéria coccígea); membro
a metatarsiana dorsal, a sublingual e a anterior na região próxima ao carpo
femoral (MUCHA & CAMACHO, 2003). (artéria mediana ou distal ao carpo (artéria
O método direto pode ser utilizado digital palmar); membro posterior, no ramo
em casos de pacientes críticos onde a cranial da safena ou distal a articulação
mensuração exata pode determinar o tíbio-tarsiana (artéria plantar medial).
sucesso de uma cirurgia, sendo utilizado Contudo, na rotina clínica a artéria mais
em monitoração transcirúrgica e em utilizada é a digital palmar na mensuração
animais de experimentação. Porém, na com o doppler.
rotina clínica os efeitos adversos dessa Doppler
técnica incluem: a formação de hematoma O principio físico Doppler se baseia
ou infecção, e pode haver uma falsa na emissão de ondas sonoras na direção de
elevação da pressão arterial secundária a um objeto em movimento, que, ao serem
liberação de catecolaminas associada à dor refletidas, terão freqüência e amplitude
(HENRIK, 1997; MUCHA & diferente consoante o objeto se aproxima
CAMACHO, 2003). ou se afasta. Neste medidor o objeto em
Métodos indiretos movimento são os eritrócitos e a mudança
Os métodos indiretos de medição da freqüência de sinal e convertida num
da pressão arterial são obtidos de uma sinal sonoro (MISHINA et al., 1998).
forma não invasiva utilizando aparelhos Para a mensuração correta é
externos que, através de um manguito necessário que a braçadeira seja colocada
insuflável colocado em redor de uma no mesmo nível da válvula aorta, o local
extremidade, interrompem a circulação onde a sonda irá ser colocada esteja com
sanguínea (KITTLESON & KIENLE, gel, em pacientes bastante peludos dever
1998). São práticos, não dolorosos e, por ser realizada a tricotomia no local. O
isso, os pacientes não precisam ser tamanho da braçadeira deve ser 40% da
sedados. circunferência do membro do animal.
Como métodos indiretos de O processo em si é simples. A
mensuração de pressão arterial, temos o probe do Doppler é colocada sobre a
Doppler, o oscilométrico e a artéria e é escutado o som da pulsação da
pletismografia. De acordo MUCHA & mesma. O manguito é inflado até que o
CAMACHO (2003), os locais mais som do fluxo sanguíneo desapareça. Aos
utilizados para aferição da pressão são: a poucos o manguito vai sendo desinflado

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pelo clínico que irá observar o início do hipertensão sistêmica tais como: os
primeiro som de pulsação correspondente a inibidores da enzima conversora de
pressão arterial mostrada no manômetro. O angiotensina-IECAs (que inibem a
primeiro som corresponde a pressão biotranformação de angiotensina I em
sistólica. A pressão diastólica não é aferida angiotensina II), os bloqueadores de canais
por este método devido a grande de Ca2 + (bloqueiam o influxo de íons
subjetividade que lhe é conferida Ca2+ através dos canais de Ca2+), os β-
(CARVALHO, 2009). bloqueadores (são antagonistas
TRATAMENTO competitivos da adrenalina responsáveis
Uma vez que a hipertensão arterial por bloquear os receptores β), os α e β-
é freqüentemente uma condição silenciosa, Bloqueadores (bloqueiam tanto receptores
de progressão lenta, que muitas vezes α e β-adrenérgicos), os vasodilatadores
requer vigilância e terapia para toda a vida, (atuam diretamente no relaxamento do
e necessário ter uma certeza absoluta músculo liso vascular através do aumento
quanto ao seu diagnóstico (BROWN et al., da concentração sérica de prostaciclina), os
2007). Nos casos em que existam diuréticos (são medicamentos que reduzem
evidências de retinopatia hipertensiva ou a volemia e respectivamente a pós-carga
lesões centrais, a terapia anti-hipertensiva cardíaca). Porém, na medicina felina são
já deve ser instituída na primeira avaliação preconizados os IECAS e, ou, os
(BARTGES e POLZIN, 2011) bloqueadores dos canais de cálcio.
O tratamento deve ser instituído de Inibidores da enzima conversora de
acordo com a doença primária e as doses angiotensina (IECAS)
devem ser ajustadas até se conseguir A utilização dos IECAS mostra-se
manter a pressão arterial dentro da faixa de benéfica na correção do processo de
normalidade para a espécie. disfunção endotelial. Os mecanismos
De acordo com BROWN et al. fisiopatológicos propostos que explicam a
(2007) a decisão para o tratamento deve ser eficácia dos inibidores da ECA na melhora
feita com base na categorização do risco da circulação estariam relacionados ao
quanto a possível existência de lesão de bloqueio na formação de angiotensina II e,
órgãos alvo (ou ao seu agravamento) e portanto, redução do tônus vascular, o qual
caracterização. induz um aumento da bradicinina, que
São muitos os medicamentos que ativa a formação de prostaciclina e
podem ser utilizados em casos de estimula a liberação de fatores de

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relaxamento do endotélio (KRINSKI et al., desta propriedade o benazepril não se


2007). acumula em animais com função renal
A angiotensina II atua como diminuída, indicando a sua potencial
principal mediador desse sistema e, segurança terapêutica em casos de IRC.
portanto, sua hiperatividade está Portanto, sendo indicado na maioria dos
relacionada ao desenvolvimento da casos de hipertensão arterial em felinos.
hipertensão arterial e outras doenças
Em gatos com hipertensão arterial
cardiovasculares e renais. Inibidores desses
induzida experimentalmente, a terapia com
sistemas reduzem a pressão arterial por
inibidor de ECA resulta na diminuição
mecanismos diversos, como redução da
significativa da hipertrofia ventricular
atividade vasoconstrictora da angiotensina
esquerda secundária e arritmias
II, aumento na concentração de
ventriculares associadas com a hipertrofia
bradicinina, redução do tônus simpático,
ventricular esquerda (BROWN & HENIK,
melhora da função endotelial e
1998).
remodelação estrutural dos vasos
Bloqueadores dos canais de Ca2+
sanguíneos (RIBEIRO e FLORÊNCIO,
Os bloqueadores de canais de Ca2+
2000).
são fármacos que têm como mecanismo a
As ações vasodilatadoras e
diminuição da pressão arterial através do
cardioprotetoras dos inibidores da ECA são
bloqueio do influxo de Ca2+ necessário
atribuídas a não formação da angiotensina
para causar a contração do músculo liso
II e a inibição da inativação da bradicinina.
vascular, diminuindo assim a resistência
Entretanto, outra importante ação dos
vascular periférica. Contudo os
IECAs é a proteção da função renal através
bloqueadores dos canais de Ca2+ também
da dilatação preferencial da arteríola
têm a capacidade para bloquear o influxo
eferente, o que aumenta a circulação renal
de Ca2+ a nível das células musculares
ao mesmo tempo que reduz a pressão
cardíacas impedindo o desenvolvimento ou
intraglomerular, por conseguinte, ocorre
a progressão da hipertrofia do ventrículo
diminuição da magnitude da proteinúria
esquerdo.
(FOX et al., 1999).
Dos IECAs disponíveis, enalapril, Há duas classes de bloqueadores de
benazepril, lisinopril, ramipril e captopril, canais de Ca2+ as dihidropiridinas e não-
o benazepril têm a vantagem de ser dihidropiridinas . O verapamil e diltiazem
excretado na bílis e na urina. Por causa são não- dihidropiridinas que têm ação
principal no músculo cardíaco como
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inotrópico negativo e vasodilatação e hipertensão arterial concomitante, pois,


arteriolar. As dihidropiridinas amlodipina e espera-se que a amlodipina tenha uma
nifedipina têm ação mais incisiva que as maior eficácia na diminuição da
não-dihidropiridinas na vasculatura hipertensão arterial, ao mesmo tempo que
promovendo potente efeito hipotensor. os IECAS, pelo seu efeito dilatador ao
A amlodipina é neste momento o nível da arteríola eferente, tenham o
agente anti-hipertensivo de eleição em potencial para reduzir a hipertensão
gatos (EGNER et al., 2003). glomerular e conseqüente proteinúria
Felinos com hipertensão arterial (EGNER et al., 2003; KING et al., 2006;
freqüentemente desenvolvem um quadro BROWN et al., 2007).
de hipertrofia de ventrículo esquerdo. PROGNÓSTICO
Contudo,o uso constante de amlodipina O prognóstico depende de qual é a
pode ocasionar uma redução da hipertrofia causa primária da hipertensão arterial e de
ventricular em gatos hipertensivos quais os órgãos acometidos pela doença.
(SNYDER et al, 2001; SYNDER & De forma que varia entre bom a reservado
COOKE, 2005). e grave.
A amlodipina é com freqüência Quando a hipertensão arterial é
receitada para felinos por ter sua eficácia descoberta em um estágio inicial, onde os
comprovada, baixa freqüência de órgãos alvos não foram acometidos e há
administração e raros efeitos secundários. um controle medicamentoso efetivo do
A sua longa ação permite uma única quadro, o prognóstico é considerado bom.
administração diária e o seu efeito gradual Porém, deve-se salientar que o prognóstico
previne reduções rápidas na pressão está intrinsecamente ligado a patologia
(ACIERNO & LABATO, 2004). De primária da qual a hipertensão arterial
acordo com HENIK (1997), para o deriva. Entretanto, quando a patologia é
tratamento de hipertensão arterial felina descoberta após a existência de lesões em
uma única administração diária, por via órgãos alvo, freqüentemente os danos são
oral, em sistema de monoterapia, é segura irreversíveis, o prognóstico poderá ser
e está associada a bons resultados. considerado reservado ou até mesmo
Entretanto, na literatura consultada alguns grave.
autores vêem com bons olhos a associação CONCLUSÃO
de bloqueadores dos canais de Ca2+ e É importante a mensuração da
IECA’s no tratamento de felinos com IRC pressão arterial na rotina clínica, vista a

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importância dela para a detecção da FELDMAN, E.C. (Ed.6), Textbook of


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