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INTENSIVO I

Aula 02

ROTEIRO DE AULA

(Parte Geral do Código Civil de 2002)

A Parte Geral do CC/2002 é estruturada da seguinte forma:


• Pessoas (Pessoas Naturais e Pessoas Jurídicas);
• Bens;
• Teoria Geral do Negócio Jurídico;
• Prescrição e Decadência;
• Provas (não serão analisadas em Direito Civil, mas sim em Direito Processual Civil).

TEMA: PESSOA NATURAL

1. Conceitos Iniciais sobre a Pessoa Natural

Em provas de Direito Civil utilizar a expressão “Pessoa Natural” (utilizada pelo CC/2002) ou “Pessoa
Humana” (art. 1º, inciso III, CF). Não utilizar as expressões “Pessoa Física” (expressão mais ligada ao Direito
Tributário e ao Direito Bancário) ou “Homem” (utilizada pelo CC/1916).

• Conceito de Pessoa Natural: É o ente dotado de estrutura e de complexidade biopsicológica, possuidor de


Personalidade Jurídica e de Capacidade de Direito.

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ATENÇÃO!: Não se fala mais, conceitualmente, na pessoa natural como o ente biologicamente criado/concebido,
haja vista as criações da pessoa humana por meio dos métodos artificiais (Fertilização “In Vitro” e Inseminação
Artificial).

MÉTODOS ARTIFICIAIS DE CONCEPÇÃO DA PESSOA HUMANA


FERTILIZAÇÃO “IN VITRO” INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL
Concepção: A concepção do embrião ocorre na proveta (in vitro), Concepção: A concepção do embrião ocorre em vivo (in vivo), no
fora do aparelho reprodutor feminino. próprio aparelho reprodutor feminino.
Procedimento: A concepção ocorre na proveta (in vitro), através Procedimento: A concepção ocorre mediante a inserção, por
de processo laboratorial, sendo posteriormente implantado no meio de um método artificial, do gameta masculino no corpo da
corpo da mulher o embrião já concebido laboratorialmente. mulher.

1) Biológica
Formas de Criação
(Natural) 2.1) Fertilização “In Vitro” I) Homóloga
Da Pessoa Humana a) “Inter-Vivos”
(Material Genético
(Pessoa Natural) 2) Artificial do Casal) (em vida)

2.2) Inseminação Artificial II) Heteróloga


b) “Pós-Mortem”
(“In Vivo”) (Material Genético
de Terceiro) (após a morte)

Art. 1º, CC. Toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil.

• Sujeito de Direitos: São os sujeitos habilitados a integrar os polos de uma relação jurídica, ou seja, aqueles a
quem podem ser assegurados direitos e atribuídos deveres na ordem civil.
A Personalidade Jurídica é a aptidão genérica para titularizar direitos e contrair deveres na ordem
jurídica. Quem a possuí é denominado sujeito de direitos (a Personalidade Jurídica é um atributo/particularidade
do sujeito de direito).
A Personalidade Jurídica consiste na qualidade de ser “pessoa”. O Código Civil, em seu art. 1º, conceitua
pessoa como “quem tem capacidade para ser sujeito de direitos e deveres na ordem civil”, ou seja, “pessoa” é
quem tem Personalidade Jurídica. Sem a Personalidade Jurídica, não se é sujeito de direitos (e, por
consequência, não é considerado “pessoa” – a “pessoa” é um ente personalizado).

OBS.¹: O ordenamento jurídico brasileiro confere Personalidade Jurídica tanto às Pessoas Naturais, quanto às
Pessoas Jurídicas, de modo que são esses os sujeitos de direitos.

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A Personalidade Jurídica é atribuída pelo próprio sistema, e de acordo com a legislação vigente (art. 2º,
CC), a pessoa natural já nasce com o direito a ser sujeito de direitos e deveres.

OBS.²: Vale destacar que para uma parcela MINORITÁRIA da doutrina, o atributo da Personalidade Jurídica não
é condição essencial para figurar numa relação jurídica, de modo que de forma supletiva e específica,
reconhecem-se como sujeitos de direitos e deveres certos Entes Despersonificados – entes que não tem
Personalidade Jurídica (ex.: Massa Falida; Espólio; *Nascituro – para os adeptos da Teoria Natalista; Condomínio
Edilício; Sociedades em Comum; etc.).
Desse modo, segundo eles, seria possível estabelecer diferenças entre as categorias sujeito de direito
(gênero – tudo aquilo que o Direito reputa apto a ser titular de direito ou devedor de obrigação) e pessoa (espécie
– física e jurídica). Para eles, ser sujeito de direitos e deveres não implica automaticamente em ser “pessoa”.

OBS.³: Os animais, apesar de serem protegidos pelo Direito, não são sujeitos de direito (são considerados
“coisas”/bens jurídicos – art. 1.313, inciso II e §2º, CC). Logo, no Brasil não podem, em nome próprio, receber
herança ou serem beneficiados por doação, como se sujeito de direitos fossem (certamente por isso é que alguns
sujeitos de direitos utilizam do artifício de abertura de uma fundação de amparo aos animais – pessoa jurídica
de direito privado – para, indiretamente, atingir tal fim).

• A capacidade mencionada pelo art. 1º do CC é a Capacidade de Direito ou Capacidade de Gozo ou Capacidade


de Aquisição, que TODAS as pessoas têm, sem distinção (é adquirida juntamente com a Personalidade Jurídica –
trata-se de atributo inerente a condição de pessoa; portanto, basta ser “pessoa” para ter essa capacidade –
independentemente de possuir documento: RG ou Certidão de Nascimento). É a capacidade para ser sujeito de
direitos e deveres (capacidade para ser apto a adquirir direitos e contrair deveres na ordem jurídica).

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OBS.¹: É necessário ter atenção porque a palavra “gozo” pode dar a entender que é a capacidade para exercer
um direito, mas, na verdade, é a capacidade de adquirir/usufruir o direito.

OBS.²: O conceito de Personalidade Jurídica está umbilicalmente ligado ao de Capacidade de Direito ou


Capacidade de Gozo ou Capacidade de Aquisição, pois com a atribuição de Personalidade Jurídica (feita pela lei
aos nascidos vivos – passa a ser considerada “pessoa”) surge concomitantemente a Capacidade de Direito (a
pessoa natural passa a ser apta a titularizar direitos e contrair obrigações, ainda que não possa fazê-lo
pessoalmente).

• Há ainda a Capacidade de Fato ou Capacidade de Exercício ou Capacidade de Atividade, que é aquela


capacidade para exercer pessoalmente o complexo de direitos e deveres garantido a todos, ou seja, é a
capacidade de exercer os atos da vida civil por si mesmo (sozinho). Algumas pessoas NÃO tem essa capacidade,
tratam-se dos incapazes dos artigos 3º e 4º do CC (os quais foram alterados recentemente pelo Estatuto da
Pessoa com Deficiência).
A Capacidade de Fato/Exercício traz um poder de autodeterminação e de discernimento do indivíduo,
reunindo capacidades físicas e psíquicas de compreender as consequências de seus atos.

OBS.: Aqueles que não são dotados de Capacidade de Fato/Exercício são denominados de Incapazes.

• A Capacidade de Direito/Gozo tem sua existência anterior a Capacidade de Fato/Exercício. A Capacidade de


Fato somente pode existir quando presente a Capacidade de Direito pois, para o exercício de um determinado
direito/dever é preciso que ele efetivamente esteja atribuído a uma pessoa.
Ex.: Um bebê de poucos meses possuí Capacidade de Direito, mas não possuí Capacidade de Fato, já que ele
depende de seus pais ou representantes para o efetivo exercício dos direitos a ele garantidos.

Capacidade de Capacidade de Capacidade Civil


Direito/Gozo/Aquisição Fato/Exercício/Atividade (Jurídica) Plena (Geral) (a
(capacidade para ser (capacidade para exercer pessoa estará em pleno
sujeito de direitos e pessoalmente direitos e gozo e apta ao exercício
→ Fórmula: deveres – é adquirida + deveres – é adquirida = de seus direitos e
juntamente com a paulatinamente, deveres, podendo
Personalidade Jurídica, alcançando-se a plena realizar pessoalmente
não comporta capacidade aos 18 anos). todos os atos da vida
gradação/mitigação). civil).

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• Conceitos correlatos à Capacidade: Há casos em que, mesmo titularizando a Capacidade Civil Plena
(Capacidade de Direito + Capacidade de Fato), a legislação exige da Pessoa Natural uma autorização para a
prática de um determinado ato (é um plus na capacidade), são elas:
1º) Legitimação (Capacidade Específica, Capacidade Negocial ou Capacidade Privada): É uma capacidade
especial para praticar determinados atos ou celebrar certos negócios jurídicos.
A Legitimação é uma capacidade específica para a prática de atos materiais civis.

OBS.: Exemplos de Legitimação: Vênia Conjugal; Tutor e Curador em relação à bens do Tutelado e Curatelado;
Venda de bens de Ascendente para Descendente.

I) Outorga Conjugal (arts. 1.647 e 1.649, CC): A lei exige para a prática de determinados atos a Vênia Conjugal
(concordância do consorte), sob pena de anulabilidade do ato praticado (Nulidade Relativa).
A Outorga Conjugal (gênero) pode ser de 2 espécies: “Uxória” (outorga da esposa) e “Marital” (outorga
do marido).

1) “Uxória”
Outorga Conjugal
(Esposa)
(concordância do
consorte)
2) “Marital”

(Marido)

O artigo 1.647 do CC trata da exigência de Outorga Conjugal para a prática dos atos nele previstos
(Legitimação):
• Art. 1.647, CC. Ressalvado o disposto no art. 1.648, nenhum dos cônjuges pode, sem autorização do outro, exceto no regime da
separação absoluta:

• I - alienar ou gravar de ônus real os bens imóveis;


II - pleitear, como autor ou réu, acerca desses bens ou direitos;
III - prestar fiança ou aval;
IV - fazer doação, não sendo remuneratória, de bens comuns, ou dos que possam integrar futura meação.

#Pergunta: Qual seria a consequência da ausência de Vênia Conjugal?


R.: O artigo 1.649 dispõe sobre a consequência da falta de Outorga Conjugal:
Art. 1.649, CC. A falta de autorização, não suprida pelo juiz, quando necessária (art. 1.647), tornará ANULÁVEL o ato praticado,
podendo o outro cônjuge pleitear-lhe a anulação, até dois anos depois de terminada a sociedade conjugal.

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Portanto, a ausência de outorga gera ANULABILIDADE do ato (Nulidade Relativa), que poderá ser
pleiteada no prazo de até 2 anos após o término da sociedade conjugal.
OBS.: Recorda-se que o ato anulável pode ser convalidado de forma expressa ou tácita (art. 172 do CC).

II) Tutor e Curador em Relação à Bens do Tutelado e do Curatelado (arts. 497, inciso I e 1.749, CC): Visando
proteger o Tutelado e o Curatelado, por sua condição peculiar, o Código Civil estabelece que o Tutor e o Curador,
ainda que autorizados judicialmente, são proibidos de, sob pena de NULIDADE:
- Comprar bens do Tutelado ou Curatelado, ainda que em hasta pública (arts. 497, inciso I e 1.749, inciso I, CC).
Art. 497, CC. Sob pena de nulidade, não podem ser comprados, ainda que em hasta pública:
I - pelos tutores, curadores, testamenteiros e administradores, os bens confiados à sua guarda ou administração;

Art. 1.749, CC. Ainda com a autorização judicial, não pode o tutor, sob pena de nulidade:
I - adquirir por si, ou por interposta pessoa, mediante contrato particular, bens móveis ou imóveis pertencentes ao menor;

- Doar bens do Tutelado ou Curatelado (art. 1.749, inciso II c/c art. 1.774, CC).
Art. 1.749, CC. Ainda com a autorização judicial, não pode o tutor, sob pena de nulidade:
(...)
II - dispor dos bens do menor a título gratuito;

Art. 1.774, CC. Aplicam-se à curatela as disposições concernentes à tutela, com as modificações dos artigos seguintes.

- Constituir-se cessionário de crédito ou de direito contra o Tutelado ou Curatelado (arts. 497, parágrafo único
e 1.749, inciso III, CC).
Art. 497, CC. Sob pena de nulidade, não podem ser comprados, ainda que em hasta pública:
I - pelos tutores, curadores, testamenteiros e administradores, os bens confiados à sua guarda ou administração;
(...)
Parágrafo único. As proibições deste artigo estendem-se à cessão de crédito.

Art. 1.749, CC. Ainda com a autorização judicial, não pode o tutor, sob pena de nulidade:
(...)
III - constituir-se cessionário de crédito ou de direito, contra o menor.

III) Venda de Ascendente para Descendente (art. 496 do CC): Mesmo que haja Capacidade Jurídica Geral ou
Plena, impõe-se, por força da lei, uma autorização dos demais descendentes e do cônjuge do alienante para que
o negócio jurídico seja válido.

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Art. 496, CC. É ANULÁVEL a venda de ascendente a descendente, salvo se os outros descendentes e o cônjuge do alienante
expressamente houverem consentido.
Parágrafo único. Em ambos os casos, dispensa-se o consentimento do cônjuge se o regime de bens for o da separação obrigatória.

#Pergunta: Qual seria a consequência da alienação sem a referida autorização?


R.: A hipótese será de ANULABILIDADE do ato (Nulidade Relativa), que deverá ser pleiteada no prazo decadencial
de 2 anos, contatos da conclusão do contrato, na forma do art. 179 do CC.
Art. 179, CC. Quando a lei dispuser que determinado ato é anulável, sem estabelecer prazo para pleitear-se a anulação, será este de
dois anos, a contar da data da conclusão do ato.

2º) Legitimidade: É capacidade processual, ou seja, capacidade específica para o processo, sendo uma das
condições da ação (artigo 17 do CPC).
A Legitimidade é uma capacidade específica para a prática de atos processuais.

OBS.: Em que pese a própria lei utilizar de forma atécnica “Legitimação” e “Legitimidade” como expressões
sinônimas, há distinção entre elas.
Ex.: Art. 12, parágrafo único, CC: “Em se tratando de morto, terá “legitimação” para requerer a medida
[processual] prevista neste artigo o cônjuge sobrevivente, ou qualquer parente em linha reta, ou colateral até o
quarto grau”.
A lei utilizou a expressão “Legitimação” quando na verdade seria “Legitimidade” (o “caput” do art. 12
prevê Medidas Processuais – Tutela Preventiva/Inibitória e Tutela Reparatória – contra lesão ou perigo de lesão
a Direito da Personalidade).

3º) Personalidade Jurídica: É a soma de caracteres ou aptidões da pessoa. Significa aquilo que a pessoa é para
si e para a sociedade (conceito do autor italiano Adriano de Cupis, seguido por Maria Helena Diniz).

OBS.: Considerações a respeito da Personalidade Jurídica:

a) Distinção entre Personalidade Jurídica e Capacidade Jurídica: A Personalidade Jurídica não pode ser medida (ou
ela está presente ou não está); o mesmo não ocorre com a Capacidade Jurídica (que pode ser fragmentada
conforme as condições pessoais de quem a detém).
• Personalidade Jurídica (“quid”): Tem relação com a essência da pessoa.

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• Capacidade Jurídica (“quantum”): É a medida jurídica da Personalidade (só um dos aspectos da Personalidade).
Existem outros aspectos/características da Personalidade, por exemplo: capacidade, gênero, formação
intelectual, estado civil, etc.
OBS.: A Capacidade Jurídica divide-se em: Capacidade de Direito/Gozo (capacidade para adquirir direitos e
deveres) e Capacidade de Fato/Exercício (capacidade de pessoalmente exercer direitos e contrair deveres).

b) Início da Personalidade Jurídica (Existência da Pessoa Natural) (art. 2º do CC):

#Pergunta¹: Em que momento a pessoa natural adquire Personalidade Jurídica?


R.: O Código Civil, em seu art. 2º, determina que a Personalidade Jurídica “começa do nascimento com vida” (se
alinhando, neste ponto, à Teoria Natalista).

Art. 2º, CC. A personalidade civil da pessoa [existência da pessoa natural] começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde
a concepção, os direitos do nascituro.

Assim, para o Direito brasileiro o nascimento com vida é a única condição imposta para que se inicie a
Personalidade Jurídica da pessoa natural.

#Pergunta²: Mas o que seria “nascimento com vida”?


R.: O marco utilizado para afirmar o nascimento com vida é a respiração (instante em que inicia o
funcionamento do aparelho cardiorrespiratório). Se ao nascer os pulmões encherem-se de ar ao menos 1 vez,
é possível afirmar com propriedade que houve vida, e, portanto, iniciou-se a Personalidade Jurídica.
Logo: respirou, adquiriu Personalidade Jurídica.

OBS.¹: A verificação da entrada de ar nos pulmões do recém-nascido poderá ser realizada através de diversos
meios, inclusive pela perícia médico-legal denominada Docimasia Hidrostática de Galeno.
Docimasia Hidrostática Pulmonar de Galeno: Trata-se de medida pericial, de caráter médico legal, aplicada com a finalidade de
verificar se um neonato nasceu vivo ou morto (eis que, no âmbito jurídico, se a pessoa nasce viva ou morta, as consequências serão
diferentes).
• Procedimento: Após a respiração o neonato tem os pulmões cheios de ar e quando colocados em um vasilhame com água, flutuam;
não acontecendo o mesmo com os pulmões que não respiraram.
Assim, se os pulmões afundarem, é porque não houve respiração (e, portanto, não houve vida); já se os pulmões não afundarem, é
porque houve respiração (e, consequentemente, vida).

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• Atenção!: Em algumas situações pode haver a impossibilidade de utilização desse método principal de investigação (ex.: se o pulmão
do neonato já vier impregnado de líquido). Neste caso, deve-se aplicar outros procedimentos periciais (outras Docimasias realizadas
no pulmão – que não a hidrostática) ou até mesmo outras Docimasias Respiratórias Indiretas (verificação de outros órgãos para tentar
constatar se houve ar circulando no corpo do neonato).

OBS.²: Nessas condições, o recém-nascido que respirou ao menos 1 vez adquire Personalidade Jurídica tornando-
se sujeito de direito, mesmo que faleça depois.
A constatação do nascimento com vida do recém-nascido que tenha vivido, ainda que por curto espaço
de tempo (minutos), é relevante principalmente para fins sucessórios, já que os direitos e obrigações adquiridos
com a Personalidade Jurídica serão transmitidos aos seus sucessores.
Assim, se o recém-nascido (cujo pai já tenha morrido na época em que nascituro era) falece minutos
após o parto, terá adquirido, por exemplo, todos os direitos sucessórios do seu genitor, transferindo-os para a
sua mãe (herdeira).

OBS.³: Para a aquisição da Personalidade Jurídica nada mais é necessário; a não ser o nascimento com vida. Não
precisa ter forma humana e sobreviver mais que 24 horas de maneira extrauterina, não é necessário que seja
uma vida viável, não é necessário o corte do cordão umbilical.

OBS.4: Após o nascimento há de ser realizado o registro da Pessoa Natural (arts. 50 a 66 da LRP – Lei 6.015/1973).
O registro de nascimento da Pessoa Natural é ato meramente declaratório, afinal de contas a Personalidade
Jurídica foi adquirida desde o nascimento com vida, constituindo o registro mera declaração da aquisição
anterior da Personalidade Jurídica, daí seu efeito ex tunc.
Já o registro da Pessoa Jurídica tem natureza constitutiva da Personalidade Jurídica desta, na forma do
artigo 45 do Código Civil, daí seu efeito ex nunc.

OBS.5: Segundo dispõe o art. 6º do CC: “a existência da pessoa natural termina com a morte”. Assim, com a morte
tem-se o fim da Pessoa Natural e da Personalidade Jurídica.
Em suma-síntese: A Personalidade da Pessoa Natural existe desde o nascimento com vida até a morte dessa; já a Personalidade da
Pessoa Jurídica existe desde a inscrição do ato constitutivo no respectivo registro (Cartório de Registro Civil das Pessoas Jurídicas ou
Junta Comercial) até a sua extinção.

• Nascituro: É o ente que foi concebido, mas ainda não nasceu, dotado de vida intrauterina (já se fixou na parede
do útero materno e se encontra em desenvolvimento no ventre de sua genitora – possuí existência intrauterina).
ATENÇÃO!: A dotação de vida intrauterina é o traço distintivo entre o Nascituro e o Embrião Laboratorial (excedentário).

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OBS.¹: Embrião: É o ente que foi concebido artificialmente (através de fertilização in vitro) ou foi concebido
naturalmente (mas ainda não se fixou na parede do útero materno), em ambos os casos ainda não foi agregado
ao útero materno (possuí existência ultrauterina). Quando se fixar na parede do útero materno, será um
Nascituro.

OBS.²: Concepturo: É o ente que nem sequer ainda foi concebido, é a chamada “prole eventual” (prevista pelos
arts. 1.799, inciso I e 1.800, §4º do CC).
Enquanto o Nascituro é o filho que alguém já concebeu, mas ainda não nasceu; o Concepturo é o filho que alguém ainda vai conceber.

OBS.³: Natimorto: É o ente que nasceu morto (saiu do útero materno já falecido, não respirou em nenhum
momento) e que deverá ser registrado em livro próprio do Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais.

OBS.4: #Pergunta: Como a segunda parte do art. 2º do CC assegura os direitos do Nascituro desde a concepção,
teria ele Personalidade Jurídica (seria considerado uma Pessoa Natural)?
R.: A questão não é pacífica na doutrina, sendo necessária a análise das teorias que versam sobre a aquisição da
Personalidade Jurídica. Existem 3 correntes doutrinárias sobre a qualificação jurídica do Nascituro:

1ª Corrente: Teoria Natalista (ou Teoria Negativista) (Silvio Rodrigues, Caio Mário da Silva Pereira e San Tiago
Dantas): Vem da expressão “natal”, a qual significa nascimento. Para essa teoria, a Personalidade Jurídica da
Pessoa Natural somente é adquirida com o nascimento com vida, de maneira que somente se atribuí
Personalidade Jurídica ao ente nascido com vida (antes do nascimento, não há Personalidade Jurídica).
Portanto, o ente já concebido, mas ainda não nascido, não teria Personalidade Jurídica (trata-se de uma
Teoria Negativista para o Nascituro).
Para essa teoria, o Nascituro não é pessoa natural/pessoa humana (teria natureza jurídica de “coisa”),
pois a Personalidade Jurídica (existência da Pessoa Natural) somente seria adquirida a partir do nascimento com
vida.

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• Segundo a Teoria Natalista, ao Nascituro não se reconheceriam direitos (pois ele ainda não nasceu – não tem
Personalidade Jurídica), de modo que ele gozaria de mera expectativa de direitos.

• Essa corrente fundamenta-se na 1ª parte do artigo 2º do CC.

2ª Corrente: Teoria da Personalidade Condicional (ou Teoria Condicionalista) (Washington de Barros Monteiro,
Serpa Lopes e Arnaldo Rizzardo): Para Flávio Tartuce, essa teoria equivale à Teoria Natalista (seria um
desdobramento desta). Sustenta que a aquisição da Personalidade Jurídica pelo Nascituro acha-se sob a
dependência de condição suspensiva (o nascimento com vida), de modo que essa teoria também parte da
premissa que a Personalidade Jurídica tem início com o nascimento com vida.
Segundo ela, teria o Nascituro uma verdadeira Personalidade Jurídica condicional, porque haveria uma
condição pendente para a implementação de sua Personalidade Jurídica (o nascimento com vida).
Portanto, o Nascituro é considerado pessoa natural/pessoa humana se nascer com vida (nascer com
vida é uma condição suspensiva para que o Nascituro seja considerado pessoa; se não nascer com vida o
Nascituro/Natimorto não é considerado pessoa, e sim “coisa”).
→ Conclusão: Essa corrente também condiciona a aquisição da Personalidade Jurídica ao nascimento com vida.
O Nascituro, ao ser concebido, já pode titularizar alguns direitos, em regra, de caráter extrapatrimonial.
Seriam os Nascituros dotados, desde a concepção, de Personalidade Jurídica Formal (conforme denomina Maria
Helena Diniz).
Entretanto, apenas com o nascimento com vida (implementação da condição suspensiva) é que o
atributo da Personalidade Jurídica se completaria, sendo possível a conferência de direitos patrimoniais ao
Nascituro (agora recém-nascido). É o que Maria Helena Diniz denomina de Personalidade Jurídica Material.

→ Conclusão: A Teoria da Personalidade Condicional afirma que desde a concepção o Nascituro já possui os direitos da personalidade
(direitos extrapatrimoniais), estando os direitos patrimoniais – decorrentes de herança, legado ou doação – condicionados ao
nascimento com vida (ficam sob condição suspensiva até o nascimento com vida).
Por isso, observando que os direitos patrimoniais estão condicionados ao nascimento com vida, sustenta essa teoria que a aquisição
da própria Personalidade Jurídica está condicionada, apesar de os direitos da personalidade já serem reconhecidos desde a concepção.

3ª Corrente: Teoria Concepcionista (Silmara Chinellato, Francisco Amaral, Maria Helena Diniz, Giselda
Hironaka, Álvaro Villaça Azevedo, Francisco Amaral, Pablo Stolze e Rodolfo Pamplona, Cristiano Chaves e
Nelson Rosenvald, Flávio Tartuce): Contrapõe-se às anteriores. Para essa teoria, a Personalidade Jurídica é
adquirida a partir do momento da concepção, ou seja, antes do nascimento (portanto, o Nascituro possuí

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Personalidade Jurídica), de modo que o Nascituro é pessoa natural/pessoa humana, titularizando Direitos da
Personalidade desde a concepção.

→ Conclusão: Para os teóricos concepcionistas, se o Nascituro já tem direitos da personalidade desde a concepção é porque já dispõe
da própria Personalidade Jurídica, mesmo que os direitos patrimoniais decorrentes de herança, legado e doação, estejam
condicionados ao nascimento com vida.

Essa teoria estaria alicerçada, corretamente, no próprio Código Civil brasileiro, buscando como
argumento diversas regras que atribuem direitos ao Nascituro, contidas nos arts. 1.609, parágrafo único (que
permite o reconhecimento da filiação do nascituro), 1.779 (versando sobre a possibilidade de nomeação de
curador ao nascituro), 542 (autorizando que se faça doação ao nascituro) e 1.798 (reconhecendo a capacidade
sucessória do nascituro). Ademais, o Nascituro, desde a concepção tem direito a nome, imagem, vida digna,
alimentos gravídicos (Lei 11.804/2008) e atendimento pré-natal (art. 8º, ECA).

TEORIA CONDICIONALISTA TEORIA CONCEPCIONISTA


Não há, efetivamente, distinção prática entre as posições sustentadas pela Teoria Concepcionista e pela Teoria Condicionalista. Já que
ambas reconhecem direitos extrapatrimoniais ao Nascituro, apenas divergindo quanto ao reconhecimento da Personalidade Jurídica.
A aquisição da Personalidade Jurídica estaria submetida a uma A aquisição da Personalidade Jurídica se dá desde o momento da
condição suspensiva (nascer com vida). concepção.
Enfim, a distinção entre a Teoria Condicionalista e a Teoria Concepcionista é, tão somente, relativa à qualificação jurídica do Nascituro:
Os condicionalistas afirmam que, apesar de já titularizar os Para os concepcionistas, se o Nascituro dispõe de direitos da
direitos da personalidade, se os direitos patrimoniais estão personalidade, é porque já tem a própria Personalidade Jurídica,
condicionados, a Personalidade Jurídica, como um todo, está apesar de os direitos patrimoniais ficarem condicionados ao
condicionada ao nascimento com vida (o Nascituro ainda não tem nascimento com vida.
Personalidade Jurídica).

(Advogado da União/Cespe/2012) “Embora a lei proteja o direito sucessório do nascituro, não é juridicamente possível registrar no
seu nome, antes do nascimento com vida, um imóvel que lhe tenha sido doado”.
R.: Correto. Haja vista que o gozo do direito de propriedade (direito de caráter patrimonial) ficará condicionado ao seu nascimento
com vida.

OBS.³: Além da doutrina majoritária contemporânea, a Teoria Concepcionista tem prevalecido no STJ (órgão que
julga Direito Privado em última instância):
• Cabe Dano Moral pela morte do pai do Nascituro ocorrida antes do seu nascimento (REsp n. 399.028/SP e
Ag.Rg. no Ag.Rg. no AREsp n. 150.297/DF): O pai foi atropelado e morreu quando o Nascituro estava na barriga
da mãe, se fosse adotada a Teoria Natalista não caberia indenização por Dano Moral (pois o Nascituro não seria

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considerado “pessoa”, e sim “coisa”), evidenciando que o STJ adotou a Teoria Concepcionista (sendo considerado
“pessoa natural”, passível de sofrer Dano Moral).
DIREITO CIVIL. DANOS MORAIS. MORTE. ATROPELAMENTO. COMPOSIÇÃO FÉRREA. AÇÃO AJUIZADA 23 ANOS APÓS O EVENTO.
PRESCRIÇÃO INEXISTENTE. INFLUÊNCIA NA QUANTIFICAÇÃO DO QUANTUM. PRECEDENTES DA TURMA. NASCITURO. DIREITO AOS
DANOS MORAIS. DOUTRINA. ATENUAÇÃO. FIXAÇÃO NESTA INSTÂNCIA. POSSIBILIDADE. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO.
I - Nos termos da orientação da Turma, o direito à indenização por dano moral não desaparece com o decurso de tempo (desde que
não transcorrido o lapso prescricional), mas é fato a ser considerado na fixação do quantum.
II - O nascituro também tem direito aos danos morais pela morte do pai, mas a circunstância de não tê-lo conhecido em vida tem
influência na fixação do quantum.
III - Recomenda-se que o valor do dano moral seja fixado desde logo, inclusive nesta instância, buscando dar solução definitiva ao caso
e evitando inconvenientes e retardamento da solução jurisdicional (STJ - REsp: 399028 SP 2001/0147319-0, Relator: Ministro SÁLVIO
DE FIGUEIREDO TEIXEIRA, Data de Julgamento: 26/02/2002, T4 - QUARTA TURMA, Data de Publicação: DJ 15.04.2002 p. 232 RSTJ vol.
161 p. 395 RT vol. 803 p. 193)

• Caso Rafinha Bastos x Wanessa Camargo (REsp n. 1.487.089/SP): Tanto a Wanessa Camargo e o seu marido
quanto o Nascituro foram indenizados por Dano Moral, evidenciando que, quanto ao Nascituro, o STJ adotou a
Teoria Concepcionista (reconheceu direito a indenização por Dano Moral em favor do Nascituro – se fosse
considerado “coisa” não caberia direito a essa indenização).

• O STJ tem posição consolidada de que cabe indenização por seguro DPVAT pela morte do Nascituro (REsp n.
1.120.676/SC, 3ª Turma, ano: 2011; e REsp n. 1.415.727/SC, 4ª Turma, ano: 2014): No caso da gestante morrer
em virtude de acidente de veículo, cabe 2 indenizações: uma em razão da morte da gestante e outra em razão
da morte do Nascituro, evidenciando que, quanto ao Nascituro, o STJ adotou a Teoria Concepcionista.
SEGURO DPVAT. MORTE. NASCITURO.
Trata-se de REsp em que se busca definir se a perda do feto, isto é, a morte do nascituro, em razão de acidente de trânsito, gera ou
não aos genitores dele o direito à percepção da indenização decorrente do seguro obrigatório de danos pessoais causados por
veículos automotores de via terrestre (DPVAT).
Para o Min. Paulo de Tarso Sanseverino, voto vencedor, o conceito de dano-morte como modalidade de danos pessoais não se
restringe ao óbito da pessoa natural, dotada de personalidade jurídica, mas alcança, igualmente, a pessoa já formada, plenamente
apta à vida extrauterina, embora ainda não nascida, que, por uma fatalidade, teve sua existência abreviada em acidente
automobilístico, tal como ocorreu no caso. Assim, considerou que sonegar o direito à cobertura pelo seguro obrigatório de danos
pessoais consubstanciados no fato ‘morte do nascituro’ entoaria, ao fim e ao cabo, especialmente aos pais já combalidos com a
incomensurável perda, a sua não existência, malogrando-se o respeito e a dignidade que o ordenamento deve reconhecer, e reconhece
inclusive, àquele que ainda não nascera (art. 7º da Lei n. 8.069/1990, Estatuto da Criança e do Adolescente). Consignou não haver
espaço para diferenciar o filho nascido daquele plenamente formado, mas ainda no útero da mãe, para fins da pretendida
indenização ou mesmo daquele que, por força do acidente, acabe tendo seu nascimento antecipado e chegue a falecer minutos
após o parto. Desse modo, a pretensa compensação advinda da indenização securitária estaria voltada a aliviar a dor, talvez não na

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mesma magnitude, mas muito semelhante à sofrida pelos pais diante da perda de um filho, o que, ainda assim, sempre se mostra
quase impossível de determinar. Por fim, asseverou que, na hipótese, inexistindo dúvida de quem eram os ascendentes (pais) da vítima
do acidente, devem eles figurar como os beneficiários da indenização, e não como seus herdeiros. Diante dessas razões, entre outras,
a Turma, ao prosseguir o julgamento, por maioria, deu provimento ao recurso.
Cumpre registrar que, para o Min. Relator (vencido), o nascituro não titulariza direitos disponíveis/patrimoniais e não detém
capacidade sucessória. Na verdade, sobre os direitos patrimoniais, ele possui mera expectativa de direitos, que somente se
concretizam (é dizer, incorporam-se em seu patrimônio jurídico) na hipótese de ele nascer com vida.
Dessarte, se esse é o sistema vigente, mostra-se difícil ou mesmo impossível conjecturar a figura dos herdeiros do natimorto, tal como
propõem os ora recorrentes. Precedente citado: REsp 931.556-RS, DJe 5/8/2008.
(REsp 1.120.676-SC, Rel. originário Min. Massami Uyeda, Rel. para acórdão Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 7/12/2010 -
DJe: 04/02/2011).

DIREITO CIVIL. ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO. ABORTO. AÇÃO DE COBRANÇA. SEGURO OBRIGATÓRIO. DPVAT. PROCEDÊNCIA DO
PEDIDO. ENQUADRAMENTO JURÍDICO DO NASCITURO. ART. 2º DO CÓDIGO CIVIL DE 2002. EXEGESE SISTEMÁTICA. ORDENAMENTO
JURÍDICO QUE ACENTUA A CONDIÇÃO DE PESSOA DO NASCITURO. VIDA INTRAUTERINA. PERECIMENTO. INDENIZAÇÃO DEVIDA. ART.
3º, INCISO I, DA LEI N. 6.194/1974. INCIDÊNCIA.
1. A despeito da literalidade do art. 2º do Código Civil – que condiciona a aquisição de personalidade jurídica ao nascimento –, o
ordenamento jurídico pátrio aponta sinais de que não há essa indissolúvel vinculação entre o nascimento com vida e o conceito de
pessoa, de personalidade jurídica e de titularização de direitos, como pode aparentar a leitura mais simplificada da lei.
2. Entre outros, registram-se como indicativos de que o direito brasileiro confere ao nascituro a condição de pessoa, titular de
direitos: exegese sistemática dos arts. 1º, 2º, 6º, e 45, caput, do Código Civil; direito do nascituro de receber doação, herança e de
ser curatelado [somente pessoa pode ser curatelada] (arts. 542, 1.779 e 1.798 do Código Civil); a especial proteção conferida à
gestante, assegurando-se-lhe atendimento pré-natal (art. 8º do ECA, o qual, ao fim e ao cabo, visa a garantir o direito à vida e à
saúde do nascituro); alimentos gravídicos, cuja titularidade é, na verdade, do nascituro e não da mãe (Lei n. 11.804/2008); no direito
penal a condição de pessoa viva do nascituro – embora não nascida – é afirmada sem a menor cerimônia, pois o crime de aborto
(arts. 124 a 127) sempre esteve alocado no título referente a "crimes contra a pessoa" e especificamente no capítulo "dos crimes
contra a vida" – tutela da vida humana em formação, a chamada vida intrauterina (MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de direito
penal, volume II. 25 ed. São Paulo: Atlas, 2007, p. 62-63; NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de direito penal. 8 ed. São Paulo: Revista
dos Tribunais, 2012, p. 658).
3. As teorias mais restritivas dos direitos do nascituro – natalista e da personalidade condicional – fincam raízes na ordem jurídica
superada pela Constituição Federal de 1988 e pelo Código Civil de 2002. O paradigma no qual foram edificadas transitava,
essencialmente, dentro da órbita dos direitos patrimoniais. Porém, atualmente isso não mais se sustenta. Reconhecem-se,
corriqueiramente, amplos catálogos de direitos não patrimoniais ou de bens imateriais da pessoa – como a honra, o nome, imagem,
integridade moral e psíquica, entre outros [são os Direitos da Personalidade].
4. Ademais, hoje, mesmo que se adote qualquer das outras duas teorias restritivas, há de se reconhecer a titularidade de direitos da
personalidade ao nascituro, dos quais o direito à vida é o mais importante. Garantir ao nascituro expectativas de direitos, ou mesmo
direitos condicionados ao nascimento, só faz sentido se lhe for garantido também o direito de nascer, o direito à vida, que é direito
pressuposto a todos os demais.

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5. Portanto, é procedente o pedido de indenização referente ao seguro DPVAT, com base no que dispõe o art. 3º da Lei n. 6.194/1974.
Se o preceito legal garante indenização por morte, o aborto causado pelo acidente subsume-se à perfeição ao comando normativo,
haja vista que outra coisa não ocorreu, senão a morte do nascituro, ou o perecimento de uma vida intrauterina.
6. Recurso especial provido.”
(REsp 1.415.727-SC (2013/0360491-3), Rel. Min. Luis Felipe Salomão- Segunda Turma - Julgado em 04/09/2014, DJe 29/09/2014).

HIPÓTESES LEGAIS DE TUTELA DOS DIREITOS DO NASCITURO


A despeito de toda essa profunda controvérsia doutrinária sobre a situação jurídica do Nascituro o fato é que, nos termos da legislação
em vigor, o Nascituro titulariza proteção legal a alguns direitos, a saber:
1) É titular de Direitos da Personalidade (direito à vida, a integridade física, direito à proteção pré-natal, etc.);
OBS.¹: Sobre o direito à vida, recorda-se que o aborto persiste como tipo penal.
OBS.²: Aborto de Feto Anencefálico (ADPF 54): Mesmo com a decisão do STF em favor da possibilidade de interrupção da gravidez de
fetos anencéfalos, se ao revés do aborto houver o parto do anencéfalo, vindo este a respirar, haverá a aquisição da Personalidade
Jurídica com sua posterior perda através da morte.
OBS.³: STF, 1ª Turma, HC. 124.306 (2016): Entendeu que a interrupção gestacional até o 3º mês de gravidez não poderá ser equiparada
ao crime de aborto. A decisão em tela refere-se a um HC, sem efeitos erga omnes e vinculante.
OBS.4: Visando à proteção da vida do Nascituro, os arts. 7º e 8º do ECA regula o direito à assistência pré-natal, o que evidencia a tutela
aos Direitos da Personalidade do Nascituro.

2) Pode receber doação, aceita pelo seu representante legal, conforme o art. 542 do CC.
OBS.: O gozo do direito de propriedade por parte do Nascituro ficará condicionado ao seu nascimento com vida.

3) Pode ser beneficiado por legado ou herança (art. 1.798 do CC – “legitimam-se a suceder as pessoas nascidas ou já concebidas no
momento da abertura da sucessão”).

4) Pode ser-lhe nomeado curador para a defesa dos seus interesses (art. 1779 do CC).

5) Reconhecimento da filiação do nascituro (art. 1.609, parágrafo único, CC).

6) Afirmou o STF na Reclamação Constitucional 2.040 que, como decorrência da proteção conferida pelos Direitos da Personalidade
(direito personalíssimo à ancestralidade ou conhecimento da origem genética), o Nascituro tem direito à realização do Exame de DNA,
para efeito de verificar quem é seu pai.

7) Tem direito à alimentos.


OBS.¹: A Lei 11.804/2008 instituiu a possibilidade do pedido de “alimentos gravídicos”, deferidos à gestante, em favor do Nascituro,
perdurando a obrigação desde a concepção até o parto.
Após o nascimento os alimentos gravídicos deverão ser convertidos em pensão alimentícia, de forma automática, cabendo ao suposto
pai o pedido de revisão (art. 6º, parágrafo único, Lei 11.804/2008).

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OBS.²: Visando proteger os alimentos do Nascituro, o Direito do Trabalho vem reconhecendo estabilidade à gestante empregada
(desde a confirmação da gravidez até 5 meses após o parto – art. 10, inciso II, alínea “b”, ADCT), mesmo na hipótese de admissão
mediante contrato por tempo determinado (Súmula 244 do TST).

8) O STJ, por mais de uma oportunidade, já entendeu pelo deferimento de Danos Morais ao Nascituro.
OBS.: RESP. 399.028/SP e RESP. 9.315.566/RS: Ambos deferiram indenização por Danos Morais em função de acidente de trabalho
que retirou do Nascituro a possibilidade de conhecer e conviver com seu pai.

9) O STJ afirma que a morte do Nascituro em razão de acidente de trânsito gera aos pais o direito ao recebimento do seguro
obrigatório DPVAT. Verifica-se que, em certa medida, a corte reconhece a tutela da vida do Nascituro.

OBS.4: Conforme visto, a Teoria Concepcionista prevalece na visão contemporânea. Inclusive, o Enunciado 1 das
Jornadas de Direito Civil também adotou esta teoria (o Nascituro, desde a sua concepção é considerado pessoa
natural, pois possuí Direitos da Personalidade, inclusive aquele que nasceu morto – Natimorto – também possuí
tais direitos, de modo que já são considerados “pessoa” e dotado de Direitos da Personalidade antes mesmo de
nascer):
Enunciado 1 das Jornadas de Direito Civil: A proteção que o Código Civil de 2002 defere ao nascituro alcança o natimorto no que
concerne aos direitos da personalidade, tais como: nome, imagem e sepultura.

Antes de morrer, o Natimorto foi um Nascituro, sendo tutelado pelo ordenamento jurídico, possuindo
Direitos da Personalidade. Assim, terá assento de óbito, com os elementos que couberem, tal registro será
realizado em livro específico (“C” Auxiliar), conforme art. 53, caput e §1º, da LRP.

• Direito a Sepultura: É o direito do Natimorto de ser enterrado, constituindo um Direito da Personalidade.

2. Teoria das Incapacidades: Os Incapazes no Código Civil de 2002 (Artigos 3º e 4º do CC)

• Considerações sobre o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015):

1ª) Os arts. 3º e 4º do Código Civil foram alterados pela Lei 13.146/2015, o Estatuto da Pessoa com Deficiência
(“EPD”) – também chamado por parte da doutrina de Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência,
alterando significativamente a Teoria das Incapacidades.

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OBS.: O Estatuto da Pessoa com Deficiência regulamenta a Convenção de Nova Iorque sobre as Pessoas com
Deficiência, a qual é um Tratado Internacional de Direitos Humanos que o Brasil é signatário e que tem força de
Emenda à Constituição, conforme art. 5º, § 3º, CF.

2ª) Premissas fundamentais do Estatuto da Pessoa com Deficiência (art. 4º) e da Convenção de Nova Iorque (art.
3º):
I) Igualdade;
II) Inclusão com autonomia;
III) Vedação da discriminação.

OBS.: Antes, para as pessoas com deficiência, a premissa que guiava o tema era “dignidade-vulnerabilidade” (a
pessoa com deficiência tinha sua dignidade protegida quando tratada como vulnerável). Atualmente, ela foi
substituída pela premissa “dignidade-igualdade” (a pessoa com deficiência tem sua dignidade protegida quando
tratada como igual).

3ª) Com o advento do “EPD” a pessoa com deficiência passou a ser, em regra, plenamente capaz (e não mais
incapaz).
A partir do sistema implantado pelo Estatuto, a pessoa com deficiência (física, mental ou intelectual) que
pode exprimir a sua vontade não está submetida ao regime das incapacidades jurídica (possuindo plena
capacidade civil). Somente as pessoas com deficiência que não puderem exprimir a sua própria vontade é que
se emolduram nas compreensões da incapacidade jurídica (CC, art. 4°, III).
Para os atos existenciais familiares sempre haverá capacidade civil plena, tanto é assim que o próprio
EPD afirma, em seu art. 6º, que “a deficiência não afeta a capacidade civil”. Assim, a pessoa com deficiência pode
casar, constituir união estável, praticar atos sexuais e reprodutivos, adotar, exercer planejamento familiar, etc.

Art. 6º, EPD. A deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa, inclusive para:
I - casar-se e constituir união estável;
II - exercer direitos sexuais e reprodutivos;
III - exercer o direito de decidir sobre o número de filhos e de ter acesso a informações adequadas sobre reprodução e planejamento
familiar;
IV - conservar sua fertilidade, sendo vedada a esterilização compulsória;
V - exercer o direito à família e à convivência familiar e comunitária; e
VI - exercer o direito à guarda, à tutela, à curatela e à adoção, como adotante ou adotando, em igualdade de oportunidades com as
demais pessoas.

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No tocante as pessoas com deficiência, as eventuais restrições somente atingem os atos patrimoniais
(arts. 85, caput, EPD).
O mesmo EPD, agora em seu art. 85, §1º, afirma que: “a definição da curatela não alcança o direito ao
próprio corpo, à sexualidade, ao matrimônio, à privacidade, à educação, à saúde, ao trabalho e ao voto” (atos
pessoais existenciais). Portanto, a curatela de pessoas com deficiência afetará tão somente os atos relacionados
aos direitos de natureza patrimonial e negocial.

OBS.¹: Neste caso, no tocante às pessoas com deficiência, a regra não é mais a nomeação de curador (Curatela
Extraordinária), e sim a Tomada de Decisão Apoiada para esses atos patrimoniais e negociais (art. 84, §2º, EPD
e art. 1.783-A, CC), que é um procedimento judicial em que a própria pessoa com deficiência, por sua iniciativa,
indica apoiadores para auxiliá-la no ato (2 pessoas idôneas).
Art. 1.783-A, CC. A tomada de decisão apoiada é o processo pelo qual a pessoa com deficiência elege pelo menos 2 (duas) pessoas
idôneas, com as quais mantenha vínculos e que gozem de sua confiança, para prestar-lhe apoio na tomada de decisão sobre atos da
vida civil, fornecendo-lhes os elementos e informações necessários para que possa exercer sua capacidade.

O referido dispositivo aplica-se aos casos de pessoas que possuem algum tipo de deficiência, mas podem,
todavia, exprimir a sua vontade. O caso típico é o da pessoa com síndrome de Down, que a torna uma pessoa
com deficiência, mas não acarreta, necessariamente, impedimento para a manifestação da sua vontade. Neste
caso, não se justifica a classificação dessa pessoa como relativamente incapaz, sujeita à curatela.

OBS.²: Somente em casos excepcionais caberá a ação de restrição para atos patrimoniais. Porém, há certa
divergência quanto a ação e o diploma legislativo a ser aplicado quando envolver restrição de atos patrimoniais
de pessoa com deficiência:
1ª Corrente: CPC de 2015: Essa ação de restrição para atos patrimoniais é a Ação de Interdição (Relativa) (arts.
747 a 758), já que não existe mais pessoa maior de idade absolutamente incapaz (somente relativamente
incapaz).

2ª Corrente: Estatuto da Pessoa com Deficiência: Essa ação de restrição para atos patrimoniais é a Ação de
Instituição de Curatela Parcial (arts. 84 e 85).

Pelo Direito posto (que está em vigor), a ação adotada para restrição de atos patrimoniais de pessoa com
deficiência seria Ação de Interdição (CPC/2015 – entrou em vigor posteriormente ao “EPD”).

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OBS.: Para parcela da doutrina, a expressão “Ação de Interdição” não se compatibiliza com as novas diretrizes
do Estatuto da Pessoa com Deficiência (“EPD”), razão pela qual prefere-se a expressão “Curatela Extraordinária”
(a expressão “curatela” realça a ideia de proteção e cuidado; já a expressão “extraordinária” por se tratar de
situação processual atípica, a regra é a plena capacidade, inclusive para atos patrimoniais).
Coadunando-se com o dito, o art. 84 do EPD afirma que “a pessoa com deficiência tem assegurado o
direito ao exercício da sua capacidade legal em igualdade de condições com as demais pessoas (caput), razão
pela qual a pessoa com deficiência será colocada em curatela apenas quando necessário (§1º)”.
A medida, portanto, é extraordinária. Tanto isso é verdade que o §3º do art. 84 prescreve que “a
definição de curatela de pessoa com deficiência constitui medida protetiva extraordinária, proporcional às
necessidades e às circunstâncias de cada caso, e durará o menor tempo possível”.

• Considerações sobre a Incapacidade: A Capacidade de Direito/Gozo está ligada à Personalidade Jurídica, que,
por sua vez, é inerente à pessoa e extingue-se apenas com a morte (enquanto a pessoa estiver viva, haverá
Personalidade Jurídica e, logo, Capacidade de Direito).
Já a Capacidade de Fato/Exercício, contudo, pode sofrer algumas limitações. Muitas vezes torna-se
necessário que a lei impeça ou restrinja o livre exercício de direitos por pessoas que não podem ou não
apresentam condições para exercê-los pessoalmente. Surge então a Teoria das Incapacidades.
Fala-se que alguém é incapaz quando não está presente a Capacidade de Fato/Exercício, possuindo a
pessoa restrições ao exercício pessoal dos atos da vida civil.
A incapacidade não atinge nem a Capacidade de Direito/Gozo nem a Personalidade Jurídica (pois elas
são inerentes à pessoa e impassíveis de mitigação). Atingirá, portanto, somente a Capacidade de Fato/Exercício
(a capacidade de exercer pessoalmente os atos da vida civil).

OBS.: As incapacidades no Código Civil das duas uma: ou decorrem de um critério objetivo
(cronológico/etário/idade) ou de um fator subjetivo (psicológico/psíquico).
A verificação do critério objetivo pode ser realizada mediante apresentação do documento de idade.
Afinal, o menor de 18 anos é presumidamente incapaz (absolutamente ou relativamente).
Já a verificação do fator subjetivo será feita por meio de um processo de interdição.

• Incapacidade Absoluta: Os absolutamente incapazes são aqueles que não têm discernimento para praticar
nenhum ato da vida civil.
Sua vontade não produz efeitos jurídicos e devem estar sempre representados, sob pena de Nulidade
Absoluta (são NULOS os atos praticados sem representação – art. 166, inciso I do CC).

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O representante praticará os atos da vida civil em nome do representado (incapaz absolutamente).

• Incapacidade Relativa: Os relativamente incapazes são aqueles que a lei não aboliu por inteiro a Capacidade
de Fato, apenas a restringiu.
Sua vontade é relevante juridicamente, necessitando de um assistente para a completa validade do ato.
Considera-se, ainda que de forma mitigada, a vontade do relativamente incapaz, pois se trata de uma
incapacidade mais branda.
Em regra, devem estar assistidos para que possam exercer seus direitos validamente, sob pena de
ANULABILIDADE (Nulidade Relativa) do ato praticado (art. 171, inciso I do CC).
A assistência é como uma ratificação prestada pelo representante legal dos relativamente incapazes que
tornam válidos os atos por eles praticados (aqui, quem pratica o ato é o relativamente incapaz – e não o
assistente; deve o ato praticado ser assinado pelo relativamente incapaz juntamente com seu assistente). Sem a
assistência, o ato praticado pelo incapaz é ANULÁVEL (produzirá todos os efeitos validamente até que seja
desconstituído judicialmente).

• Análise dos artigos 3º e 4º do Código Civil:

a) Antes do Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015):

ART. 3º: ABSOLUTAMENTE INCAPAZES ART. 4º: RELATIVAMENTE INCAPAZES


(REPRESENTAÇÃO: Devem ser representados sob pena de (ASSISTÊNCIA: Devem ser assistidos sob pena de Nulidade
Nulidade Absoluta do ato praticado – o ato praticado é nulo) Relativa do ato praticado – o ato praticado é anulável)
I – Menores de 16 anos (“Menores Impúberes”). I – Maiores de 16 e menores de 18 anos (“Menores Púberes”).
II – Enfermos e deficientes mentais sem discernimento (para a II – Ébrios habituais (viciados em álcool), viciados em tóxicos e
prática de atos da vida civil). pessoas com discernimento reduzido.
III – Pessoas que por causa transitória ou definitiva não puderem III – Excepcionais sem desenvolvimento completo (portador de
exprimir vontade. Síndrome de Down).
IV – Pródigos.

OBS.¹: Com a entrada em vigor do Estatuto da Pessoa com Deficiência, foram revogados os três incisos do art.
3º, ficando da seguinte forma:
• A previsão que estava contida no inciso I (menores de 16 anos como absolutamente incapazes) continua
prevista, porém, agora no “caput” do art. 3º;

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• A previsão que estava contida no inciso II (enfermos e deficientes mentais sem discernimento) desapareceu
do sistema;
• A previsão que estava contida no inciso III (pessoas que por causa transitória ou definitiva não puderem
exprimir vontade) migrou para o art. 4º, inciso III do CC.

OBS.²: Com a entrada em vigor do Estatuto da Pessoa com Deficiência, no art. 4º as alterações ocorreram nos
incisos II e III, foi retirada a menção às pessoas com discernimento reduzido (inciso II) e revogado o inciso III
(excepcionais sem desenvolvimento completo) e incluída no lugar a previsão que antes estava no inciso III do
art. 3º. Foram mantidas as redações dos incisos I e IV.

b) Após o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015):

ART. 3º: ABSOLUTAMENTE INCAPAZES ART. 4º: RELATIVAMENTE INCAPAZES


(REPRESENTAÇÃO: Devem ser representados sob pena de (ASSISTÊNCIA: Devem ser assistidos sob pena de Nulidade
Nulidade Absoluta do ato praticado – artigo 166, inciso I, CC) Relativa do ato praticado - artigo 171, inciso I, CC )
Menores de 16 anos (“Menores Impúberes”) - *1 I – Maiores de 16 anos e menores de 18 anos (“Menores
OBS.: Não existem mais Maiores de Idade que sejam Púberes”) - *2
absolutamente incapazes (não existe mais Ação de Interdição
Absoluta – somente existe Ação de Interdição Relativa).
Os enfermos e deficientes mentais sem discernimento (para a II – Ébrios habituais e viciados tóxicos. - *3
prática de atos da vida civil) desapareceu do sistema. OBS.: Pessoas com discernimento reduzido não são mais
consideradas relativamente incapazes.
As pessoas que por causa transitória ou definitiva não puderem III – Pessoas que por causa transitória ou definitiva não puderem
exprimir vontade migrou para o inciso III do art. 4º, passando a exprimir vontade. - *4
ser relativamente incapazes. OBS.: Excepcionais sem desenvolvimento completo não são mais
consideradas relativamente incapazes.
IV – Pródigos. - *5

• Observações (de acordo com os * acima):

*1) Artigo 3º, CC: Menores de 16 anos (“Menores Impúberes”).


No art. 3º existe um critério etário de incapacidade absoluta, o que dispensa a necessidade de ação
específica (não existe ação de interdição de menor de idade – não existe Curatela de menor de idade, apenas
Tutela).

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O próprio legislador presumiu que os Menores de 16 anos não têm capacidade alguma para,
pessoalmente, praticar atos da vida civil.
Assim sendo, para que os Menores de 16 anos exerçam validamente seus direitos, dependem de seus
representantes legais, que no mais das vezes, são seus próprios pais (ou na ausência destes, os tutores).

ATENÇÃO!: Tal incapacidade absoluta, contudo, não pode afastar os Menores Impúberes da participação de atos
necessários à vida. Assim, os Menores de 16 anos podem praticar atos de menor complexidade, desde que
demonstrem discernimento bastante para tanto, sendo considerados válidos, são os chamados Atos-Fatos
Jurídicos.
Ex.: A compra de um lanche e um refrigerante em uma lanchonete feita pessoalmente pelo menor de 16 anos é
válida, pois são atos de menor complexidade e o menor tem discernimento para praticar este ato.
O Enunciado 138 das Jornadas de Direito Civil, afirma que, EXCEPCIONALMENTE, a vontade dos
Menores de 16 anos (absolutamente incapaz) deve ser considerada, para as situações existenciais a eles
concernentes, desde que tenham discernimento para tanto. Verifica-se isso nas ações de adoção e guarda, por
exemplo.
Enunciado 138 das Jornadas de Direito Civil: A vontade dos absolutamente incapazes, na hipótese do inc. I do art. 3º [atual caput], é
juridicamente relevante na concretização de situações existenciais a eles concernentes, desde que demonstrem discernimento
bastante para tanto.

Portanto, deve ser considerada a vontade do Menor de 16 anos (quando esta puder ser exprimida)
sempre que estiver a tratar de atos existenciais.

*2) Artigo 4º, Inciso I, CC: Maiores de 16 anos e Menores de 18 anos (“Menores Púberes”).
No art. 4º, inciso I existe um critério etário de incapacidade relativa, o que também dispensa a
necessidade de ação específica (não existe ação de interdição de menor de idade – não existe Curatela de menor
de idade, apenas Tutela).
Devem ser assistidos por seus representantes legais (pais – ou na falta destes, tutores) para a prática de
atos jurídicos válidos.

ATENÇÃO!: Os Menores Púberes podem praticar atos civis mais complexos sem assistência (pode praticar
sozinho), por determinação legal.
Assim, alguns atos EXCEPCIONALMENTE podem ser praticados validamente pelo menor sem necessidade
de assistente, são eles: casar (necessita de autorização especial dos pais, art. 1.517 do CC – e não de assistência),

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fazer testamento (art. 1.860, parágrafo único, CC), reconhecer filho, testemunhar (art. 228, inciso I, CC) e aceitar
mandato extrajudicial (“ad negotia”) (art. 666 do CC), votar (art. 14, §1º, inciso II, alínea “c”, CF).

OBS.: Segundo o art. 180 do CC a incapacidade relativa não pode ser arguida pelo próprio Menor Púbere que,
dolosamente ocultou sua idade quando questionado pela outra parte ou se declarou maior (capaz), em benefício
próprio, para eximir-se de uma obrigação contraída.
Art. 180, CC. O menor, entre dezesseis e dezoito anos, NÃO PODE, para eximir-se de uma obrigação, invocar a sua idade se
dolosamente a ocultou quando inquirido pela outra parte, ou se, no ato de obrigar-se, declarou-se maior.

Neste caso, o Maior de 16 e Menor de 18 anos não poderá eximir-se da obrigação contraída em virtude
de Venire Contra Factum Proprium (proibição de comportamento contraditório) e impossibilidade de alegação
da própria torpeza (princípio geral de direito de que “ninguém pode beneficiar-se da própria torpeza”).

*3) Artigo 4º, Inciso II, CC: Ébrios Habituais (viciados em álcool - alcoólatras) e Viciados em Tóxicos.
Aqui há necessidade de uma Ação de Interdição (Relativa), com laudo médico, devendo a sentença
judicial apontar quais atos jurídicos podem e quais atos jurídicos não podem ser praticados pelo indivíduo.

OBS.: Com o advento do “EPD”, as pessoas com discernimento reduzido foram revogadas do inciso II, de modo
que não são mais consideradas relativamente incapazes (pois eram enquadradas neste inciso as pessoas com
deficiência).

*4) Artigo 4º, Inciso III, CC: Pessoas que por Causa Transitória ou Causa Permanente Não Puderem Exprimir
Vontade (antiga previsão do artigo 3º, inciso III).
Com o advento do EPD passaram a ser consideradas relativamente incapaz (e não mais absolutamente
incapaz), o que, segundo Flávio Tartuce, não tem o menor sentido (o Projeto Lei 757/2015 visa corrigir este erro
voltando a enquadrar pessoas que por causa transitória ou definitiva não puderem exprimir vontade no artigo
3º do CC – como absolutamente incapaz).

• Exemplo de Causas Transitórias que impedem o indivíduo de exprimir vontade: Nas causas transitórias estão
compreendidas todas as formas que podem, temporariamente, retirar da pessoa sua válida manifestação de
vontade, tais como: embriaguez não habitual, efeitos de drogas não habitual, hipnose, etc.

23
Na hipótese das causas transitórias que impedem o indivíduo de exprimir vontade, a interdição é
desnecessária, pois a incapacidade relativa não é duradoura, perdurando tão somente enquanto durar o estado
perturbador da manifestação de vontade, tornando anuláveis os atos praticados neste breve período.
Ex.: Será anulável o ato praticado por alguém que, por estar completamente embriagado, não pôde manifestar
sua vontade válida.

• Exemplos de Causas Permanentes que impedem o indivíduo de exprimir vontade: Estado de coma profundo
(sem previsão de voltar a lucidez), Alzheimer avançado, pessoas em estado vegetativo. Nestes casos, a interdição
é necessária (pois a causa é duradoura).

OBS.¹: Atualmente, o surdo-mudo, o cego e o senil (idade avançada), em regra, são capazes. Se, entretanto, eles
não conseguirem exprimir suas vontades, poderão ser enquadrados como relativamente incapaz por disposição
do art. 4º, inciso III do CC.
No tocante ao senil (idoso), lembre-se o maior de 70 anos, caso venha a se casar, deverá respeitar o
regime da separação obrigatória de bens (art. 1.641, inciso II do CC). Porém, NÃO SE TRATA DE UMA
INCAPACIDADE (as provas costumam dizer que a idade de 70 anos é uma causa de incapacidade – errado!), mas
sim de uma norma protetiva ao patrimônio do idoso.
O surdo-mudo e o cego são pessoas com deficiência, por isso são considerados capazes em virtude do
Estatuto da Pessoa com Deficiência (antes do “EPD” o surdo-mudo era considerado absolutamente ou
relativamente incapaz, o que dependia da sua condição de se comunicar).

OBS.²: Com o advento do “EPD”, o inciso III foi alterado, de modo que os excepcionais sem desenvolvimento
completo (portadores de Síndrome de Down), por serem pessoas com deficiência, passaram a ser considerados
plenamente capazes (não são mais consideradas relativamente incapazes).

*5) Artigo 4º, Inciso IV, CC: Pródigos.


A prodigalidade é um desvio comportamental por meio do qual o indivíduo desordenadamente dilapida
o seu patrimônio, gastando de forma imoderada, desordenada e compulsiva, podendo ocasionar sua completa
falência, atentando contra à garantia do patrimônio mínimo.
Portanto, pródigos são pessoas que gastam de maneira destemperada o seu patrimônio, o que pode
reduzi-los à penúria. Ex.: Viciado em jogo; pessoas que tem compulsão por comprar.

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OBS.: Limites da Interdição do Pródigo: O juiz deverá nomear curador para assistência do pródigo apenas na
realização de atos de disposição patrimonial. Segundo o art. 1.782 do CC, a curatela do pródigo somente diz
respeito a atos de disposição direta de bens (vender, doar, emprestar, hipotecar, transigir, dar quitação, etc.).

Art. 1.782, CC. A interdição do pródigo só o privará de, sem curador, emprestar, transigir, dar quitação, alienar [vender e doar],
hipotecar, demandar ou ser demandado, e praticar, em geral, os atos que não sejam de mera administração.

Porém, não há limites ao pródigo quanto à prática de atos pessoais, como testemunhar, fixar domicílio
e exercer poder familiar.

#Pergunta¹: O pródigo pode se casar livremente?


R.: Sim, pois não se trata de um ato de disposição direta de bens (inclusive, não está previsto no art. 1.782 do
CC).
ATENÇÃO!: Em regra, o regime de bens do casamento do pródigo é o da Comunhão Parcial, e não o da Separação
Obrigatória de Bens (as provas costumam dizer que sim – Errado!), pois ele não está incluso no artigo 1.641 do
CC (que prevê o regime de Separação Obrigatória de Bens – imposta pela lei).

#Pergunta²: Para o pródigo fazer Pacto Antenupcial (contrato para escolher outro regime de bens) há
necessidade de assistência, sob pena de anulabilidade?
R.: Sobre a questão há 2 correntes:
1ª Corrente (José Fernando Simão): Não há necessidade de assistência, pois não há previsão do Pacto
Antenupcial no artigo 1.782 do CC.

2ª Corrente (Carlos Roberto Gonçalves, Flávio Tartuce) (Posição Majoritária): Sim, como o casamento ocasiona
também efeitos patrimoniais, há necessidade de assistência, devendo o curador do pródigo opinar sobre o
regime de bens escolhido, pois a celebração do Pacto Antenupcial é tida como ato de “alienar” (especialmente
se nele for adotado o regime de Comunhão Universal de Bens – há comunicação dos bens anteriores ao
casamento).

#Pergunta³: O pródigo pode fazer testamento?


R.: Sim, predomina o entendimento de que o pródigo pode testar, pois o ato é de disposição patrimonial “post
mortem”, não havendo prejuízo a ele (o art. 1.782 do CC visa protegê-lo em vida). Neste caso, não há necessidade
de assistência.

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2.1. Observações Finais sobre a Teoria das Incapacidades:

1ª) O ausente não é absolutamente incapaz pelo Código Civil de 2002 (ele era pelo CC/1916): Ausente é aquele
que desapareceu de seu domicílio sem deixar notícias (está em local incerto e não sabido).
No CC/2002, a ausência equivale à morte presumida (não é mais causa de incapacidade, como era no
CC/1916).

2ª) Os índios, indígenas ou silvícolas não são relativamente incapazes pelo Código Civil de 2002 (art. 4º,
parágrafo único, CC) (eles eram pelo CC/1916): O CC/2002 prevê, em seu art. 4º, parágrafo único, que a
capacidade dos indígenas será regulada por Lei Especial. Tal lei existe, é a Lei 6.001/1973 (Estatuto do Índio) e
também a Lei 5.371/1967 (lei de instituição da FUNAI).

Art. 4º, parágrafo único, CC. A capacidade dos indígenas será regulada por legislação especial.

Na forma do art. 8º, caput, da Lei 6.001/1973, os silvícolas (índios sem hábitos urbanos, que vivem nas
florestas) são absolutamente incapazes, sendo os seus atos, sem assistência do órgão competente para
representar os interesses dos índios (FUNAI – Fundação Nacional do Índio), NULOS.

Art. 8º, Lei 6.001/1973. São NULOS os atos praticados entre o índio não integrado e qualquer pessoa estranha à comunidade indígena
quando não tenha havido assistência do órgão tutelar competente.
Parágrafo único. Não se aplica a regra deste artigo no caso em que o índio revele consciência e conhecimento do ato praticado, desde
que não lhe seja prejudicial, e da extensão dos seus efeitos.

Assim, se o indígena não estiver integrado a sociedade ele terá um regime tutelar exercido pela FUNAI.
Já os índios integrados, estes são capazes, sendo seus atos válidos independentemente da participação da
FUNAI.
ATENÇÃO! Concurso Ministério Público: Sobre a responsabilidade penal do índio, segundo a Lei 6.001/1973, poderá ser atenuada em
razão do grau de inserção social (art. 56).
#Pergunta: Qual o órgão competente para julgar o Índio?
R.: O STF, no informativo 509 (ano 2008), decidiu que crime comum entre índios, que não se relacione à DIVISÃO DE TERRAS ou
ELEMENTOS DA CULTURA INDÍGENA, bem como entre índio e civil, são de competência da Justiça Estadual.
Portanto, a competência da Justiça Federal, prevista no art. 109, inciso XI da CF, foi delimitada, o que de certa forma já estava
consignado na Súmula 140 do STJ.

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3ª) O condenado criminalmente por meio de decisão penal transitada em julgado, não perde sua capacidade
civil, o art. 3º da LEP assegura aos condenados todos os direitos não atingidos pela sentença ou pela lei.

4ª) Responsáveis Civis pelos atos do incapaz (absoluto e relativo): A responsabilidade civil pelos atos dos
incapazes está capitulada como hipótese de Responsabilidade Civil Indireta ou Responsabilidade Civil por Ato
de Terceiro (quando a responsabilidade incide sobre pessoa diversa daquela que praticou o ato ilícito), prevista
no art. 932, incisos I e II do CC.
Art. 932, CC. São também responsáveis pela reparação civil:
I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia;
II - o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições;

Tais pessoas (genitores, tutores e curadores) respondem de forma objetiva (art. 933 do CC) e solidária
(art. 942, parágrafo único, CC).
Enunciado 451 das Jornadas de Direito Civil: A responsabilidade civil por ato de terceiro funda-se na responsabilidade objetiva ou
independente de culpa, estando superado o modelo de culpa presumida.

OBS.: A responsabilidade civil do incapaz é subsidiária, somente respondendo pelos prejuízos que causar se as
pessoas por ele responsáveis (art. 932, incisos I e II) não tiver obrigação de fazê-lo ou não dispuserem de meios
suficientes. Neste caso, a indenização deverá ser equitativa e não será exigível se privar do necessário o incapaz
ou as pessoas que dele dependam (art. 928, CC).

2.2. Processo de Interdição


A Interdição é o meio pelo qual a autoridade judiciária declara que alguém não está apto a exercer
pessoalmente seus direitos. Se presente a incapacidade, o Juiz nomeará um Curador.
Trata-se o processo de interdição de Procedimento Especial de Jurisdição Voluntária, o qual tramitará na
Vara da Família e cujo objetivo é a decretação de uma incapacidade relativa (haja vista que, com o EPD, não
existe maior de idade absolutamente incapaz, de modo que a ação a ser promovida é a Ação de Interdição
Relativa) mediante prolação de sentença.
A decretação da interdição apenas poderá se dar pela via do processo de interdição, não sendo possível
sua verificação de forma incidental.
O foro competente para o ajuizamento da ação será o do domicílio do interditando, na forma do art. 46
do CPC.

27
OBS.¹: No que tange ao Ministério Público, percebe-se uma legitimidade subsidiária, haja vista que o art. 748 do
CPC estabelece que o MP somente poderá promover a interdição no caso de doença mental grave e se os
legitimados do art. 747 do CPC não existirem, não promoverem a interdição ou forem incapazes.

OBS.²: Quando não for o autor da demanda, é necessária a intervenção do Ministério Público durante todo o
processo como Fiscal da Ordem Jurídica, por versar a ação de interdição sobre o estado da pessoa (art. 752, §1º
do CPC). Não havendo a intervenção do membro do MP, o caso será de Nulidade Absoluta (art. 279 do CPC).

Art. 752, CPC. Dentro do prazo de 15 (quinze) dias contado da entrevista, o interditando poderá impugnar o pedido.
§ 1º. O Ministério Público intervirá como fiscal da ordem jurídica.

Art. 279, CPC. É NULO o processo quando o membro do Ministério Público não for intimado a acompanhar o feito em que deva
intervir.
§ 1º. Se o processo tiver tramitado sem conhecimento do membro do Ministério Público, o juiz invalidará os atos praticados a partir
do momento em que ele deveria ter sido intimado.
§ 2º. A nulidade só pode ser decretada após a intimação do Ministério Público, que se manifestará sobre a existência ou a inexistência
de prejuízo.

OBS.³: A sentença que decreta a interdição precisa ser registrada no Cartório de Registro Civil das Pessoas
Naturais para que produza efeitos erga omnes, na forma do art. 9º, inciso III, do CC e art. 755, §3º do CPC.
Art. 9º, CC. Serão registrados em registro público:
(...)
III - a interdição por incapacidade absoluta ou relativa;

• Natureza Jurídica da Sentença de Interdição: A Sentença de Interdição tem natureza declaratória com eficácia
ex tunc (retroativa), pois o magistrado apenas declara a incapacidade já existente, podendo invalidar eventuais
atos pretéritos.
Apesar do dito, no tocante à incapacitação, a decisão tem natureza constitutiva negativa, pois ela que
desconstitui a capacidade civil plena anterior (tornando-o incapaz).

#Pergunta¹: Os atos anteriores à interdição são nulos ou anuláveis?


R.: Com o advento do EPD, como o processo de interdição tem por objetivo apenas a decretação de uma
incapacidade relativa, os atos pretéritos, acaso atingidos pela decisão judicial, serão ANULÁVEIS. Entretanto,
para invalidar tais atos deve o juiz considerar a inexistência de boa-fé do terceiro que negociou com o
interditando.

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(TJ-Paraíba/Juiz Substituto/2011) “Não se admite a invalidação de negócios jurídicos praticados pela pessoa antes de sua interdição”.
R.: Errado.

#Pergunta²: E se a Sentença de Interdição não tocar nos fatos anteriores a interdição?


R.: A presunção será de validade de tais atos, sendo viável, todavia, a busca de uma ação autônoma de
invalidação.

#Pergunta³: Quando uma pessoa já interditada realiza um ato jurídico em momento de lucidez, este ato é
válido?
R.: Não. Declarada judicialmente a incapacidade, não serão considerados válidos os atos praticados pelo incapaz
após a interdição, serão sempre nulos de pleno direito (Nulidade Absoluta), ainda que praticados nos intervalos
de perfeita lucidez.
Assim, se ficar provado que no momento da prática do ato o interditado estava em um período de
lucidez, ainda assim este ato será NULO.

#Pergunta4: E se a pessoa portadora da incapacidade realizar um ato perante terceiros, antes da sua interdição,
o ato valerá?
R.: A lei é omissa quanto à validade dos atos praticados antes da declaração de interdição. Porém, em que pese
a incapacidade não se encontrar judicialmente declarada, se a incapacidade for clara (de fácil constatação),
aquele que contrata com o incapaz age em desrespeito à boa fé.
Nesse caso, admite-se a invalidação do ato praticado pelo incapaz não oficialmente interditado, se
ficarem demonstrados:
I) Prejuízo ao Incapaz;
II) Má-fé da outra parte (a má-fé daquele que contratou com o incapaz é aferível pela análise das circunstâncias
do negócio jurídico celebrado, devendo ser analisado o caso concreto apresentado).
Todavia, caso o terceiro que praticou o ato com o incapaz esteja de boa-fé (por ter-se na hipótese uma
incapacidade não cristalina), ainda que haja manifesto prejuízo ao incapaz, não há de ser invalidado o ato, por
preservação da boa-fé.

• Levantamento da Interdição: Se o interditado restabelecer a saúde psíquica, poderá formalizar, judicialmente,


pedido de levantamento da interdição, retomando a gestão própria de seu patrimônio (art. 756, CPC). O pedido
deve ser direcionado ao próprio juízo da interdição (apensado aos autos do processo), objetivando o retorno à
gestão patrimonial.

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Se ao final, o pedido for julgado procedente, haverá averbação da sentença no Cartório de Registro Civil
das Pessoas Naturais (art. 756, §3º, CPC).

2.3. Emancipação
A idade de 18 anos é o marco da Maioridade Civil e consequente início da Capacidade Civil Plena (art. 5º,
caput, CC). Porém, em alguns casos expressamente previstos pela lei, poderá ocorrer a Emancipação do Maior
de 16 anos e Menor de 18 anos.
A Emancipação está prevista no art. 5º, parágrafo único, do CC e nela ocorre a antecipação dos efeitos
da maioridade civil (antecipação da Capacidade Civil Plena) para data anterior aos 18 anos.
A Emancipação é uma forma de tornar capaz o menor de idade, de modo que ele não será mais assistido
por seus pais ou tutores, haja vista que haverá a antecipação da Capacidade Civil Plena.

(TJ-AM/Cespe/Juiz de Direito/2016) “Para se adquirir a capacidade civil plena, é necessário alcançar a maioridade civil, mas é possível
que, ainda que maior de dezoito anos, a pessoa natural seja incapaz de exercer pessoalmente os atos da vida civil”.
R.: Foi considerada errada. A Capacidade Civil Plena pode ser alcançada com a Maioridade ou com a Emancipação.

ATENÇÃO!¹: O Menor Púbere emancipado continua sendo menor, mas passa a ser um menor capaz somente
para efeitos civis (efeitos de Direito Privado – negociais/contratuais) (não envolve questões penais).
Ex.: O menor emancipado não pode entrar em boate cuja a idade mínima é de 18 anos; não pode comprar bebida
alcóolica e cigarro; não pode tirar CNH; não pode ser preso (apenas apreendido). Todas essas restrições
envolvem Direito Penal e nesta esfera o menor emancipado não é capaz.

→ Conclusão: A Menoridade cessa aos 18 anos completos; já a Incapacidade Civil pode cessar para os menores
com a Emancipação.

ATENÇÃO!²: Tal Emancipação não tem o condão de afastar a incidência das questões do Estatuto da Criança e
do Adolescente.
Enunciado 530 das Jornadas de Direito Civil: A emancipação, por si só, não elide a incidência do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Art. 5º, CC. A menoridade cessa aos dezoito anos completos, quando a pessoa fica habilitada à prática de todos os atos da vida civil.
Parágrafo único. Cessará, para os menores, a incapacidade [o que cessa é a “incapacidade”, os efeitos da maioridade são antecipados
– e não a “menoridade”]:
I - pela concessão dos pais, ou de um deles na falta do outro, mediante instrumento público, independentemente de homologação
judicial, ou por sentença do juiz, ouvido o tutor, se o menor tiver dezesseis anos completos;

30
II - pelo casamento;
III - pelo exercício de emprego público efetivo;
IV - pela colação de grau em curso de ensino superior;
V - pelo estabelecimento civil ou comercial, ou pela existência de relação de emprego, desde que, em função deles, o menor com
dezesseis anos completos tenha economia própria.

• Modalidades de Emancipação: A Emancipação, segundo o art. 5º, parágrafo único do CC, pode acontecer de 3
formas: voluntária, judicial e legal.
1ª) Emancipação Voluntária: É aquela que ocorre por concessão de ambos os pais (ou de um deles na falta do
outro), através de Escritura Pública (feita no Cartório de Notas e posteriormente registrada no Cartório de
Registro Civil das Pessoas Naturais), independentemente de homologação judicial, tendo o filho no mínimo 16
anos completos.

OBS.¹: A Emancipação Voluntária é uma prerrogativa dos pais (e não direito do menor). Portanto, nunca poderá
ser pleiteada pelo menor.

OBS.²: A Emancipação Voluntária é concedida por Instrumento Público (nunca Instrumento Particular! As provas
sempre trocam para tornar a alternativa errada).

OBS.³: Como ato de vontade que o é, a Emancipação Voluntária poderá ser desconstituída por vício de vontade,
conforme o Enunciado 397 das Jornadas de Direito Civil. Assim, apesar de não ser possível retratar-se da vontade
emancipatória (por ser ato irrevogável e irretratável), é possível anular o ato de emancipação se eivado de vício
no consentimento (como erro, dolo, etc.).
Enunciado 397 das Jornadas de Direito Civil: A emancipação por concessão dos pais ou por sentença do juiz está sujeita a
desconstituição por vício de vontade.

OBS.4: Emancipação concedida por um dos pais na falta do outro: A Emancipação Voluntária será concedida
unilateralmente por um dos pais quando o outro estiver fisicamente impossibilitado de comparecer, como nos
casos de morte, ausência, coma, etc.
A perda da guarda não leva a retirada do Poder Familiar, não autorizando aquele que detém a guarda a
emancipação unilateral do Menor Púbere (necessita da autorização de ambos os pais).

OBS.5: Se houver conflito entre os pais sobre a decisão de emancipar o menor, aplica-se a hipótese padrão para
o conflito no exercício do Poder Familiar, devendo o juiz decidir a questão (art. 1.631, parágrafo único, CC).

31
Art. 1.631. (...)
Parágrafo único. Divergindo os pais quanto ao exercício do poder familiar, é assegurado a qualquer deles recorrer ao juiz para solução
do desacordo.

Neste caso, a doutrina diverge sobre o ato emancipatório ser judicial (em que o juiz deve solucionar o
conflito entre os pais e, se for o caso, emancipar o menor através de sentença judicial) ou voluntário (em que o
juiz apenas solucionaria o conflito, deixando a cargo dos pais a emancipação no cartório).

OBS.6: A Emancipação Voluntária não afasta a responsabilidade civil dos pais de ressarcirem os danos causados
pelos seus filhos menores, prevista no art. 932, inciso I do CC.
A Emancipação Voluntária deverá sempre atender aos interesses do menor, e não servir como
mecanismo para os responsáveis eximirem-se de suas obrigações.
• STJ, RESP. 122.573/PR e RESP. 764.488/MT: O STJ entendeu que a outorga de Emancipação Voluntária pelos
pais não os exonera da responsabilidade civil dos filhos.
A doutrina entende que neste caso os pais são responsáveis SOLIDARIAMENTE com o menor
emancipado pelos danos causados pelo filho que emanciparam.
Enunciado 41 das Jornadas de Direito Civil: A única hipótese em que poderá haver responsabilidade solidária do menor de 18 anos
com seus pais é ter sido emancipado nos termos do art. 5º, parágrafo único, inc. I, do novo Código Civil.

Se o menor não for emancipado, a sua responsabilidade civil pelos danos causados é SUBSIDIÁRIA (art.
928, caput, CC).

OBS.7: Na Emancipação Voluntária, para a produção de seus efeitos far-se-á necessário o registro (art. 9º, inciso
II, CC).
Art. 9º, CC. Serão registrados em registro público:
(...)
II - a emancipação por outorga dos pais ou por sentença do juiz;

2ª) Emancipação Judicial: É aquela que ocorre por suprimento da vontade de um dos pais pelo juiz (quando
houver conflito entre eles) ou por concessão do tutor ao pupilo (que tenha no mínimo 16 anos completos)
mediante decisão judicial.
Ex.: O pai quer emancipar o menor e a mãe não concorda. Neste caso, a Emancipação deve ocorrer através do
suprimento da vontade pelo Juiz.

32
OBS.: A Emancipação do menor sob tutela SOMENTE poderá ser efetuada por Sentença Judicial. Desta forma, o
tutor não pode abrir mão voluntariamente desse ônus que lhe foi imposto, ou seja, não pode eximir-se da
responsabilidade pelo seu pupilo SENÃO por Sentença Judicial que o autorize.

ATENÇÃO!: Na Emancipação Judicial é necessária a intervenção do Ministério Público como Fiscal da Ordem
Jurídica, haja vista envolver interesse de incapaz (art. 178, II, CPC).

OBS.: Na Emancipação Judicial, para a produção de seus efeitos far-se-á necessário o registro da Sentença
Judicial (art. 9º, inciso II, CC). Segundo o art. 91, parágrafo único, da Lei 6.015/1973 (“LRP”), a Sentença que
declara a Emancipação SOMENTE produzirá efeito APÓS levada a registro, o que deverá ser feito DE OFÍCIO pelo
Juiz que a prolatou.
Art. 9º, CC. Serão registrados em registro público:
(...)
II - a emancipação por outorga dos pais ou por sentença do juiz;

Art. 91, Lei 6.015/1973 (“LRP”). Quando o juiz conceder emancipação, deverá comunicá-la, DE OFÍCIO, ao oficial de registro, se não
constar dos autos haver sido efetuado este dentro de 8 (oito) dias.
Parágrafo único. Antes do registro, a emancipação, em qualquer caso, não produzirá efeito.

O registro público da Sentença Judicial tem caráter constitutivo da Capacidade Civil Plena do
Emancipado.

3ª) Emancipação Legal: É aquela que ocorre por disposição expressa da própria lei, decorre da prática de ato
jurídico, previsto em lei, incompatível com a condição de incapaz (pois confere um grau de discernimento
incompatível com a condição de incapaz).
Neste caso, opera-se a emancipação independentemente de decisão judicial (não precisa de ação
judicial) e registro (porém, pode ser registrada diretamente no cartório), produzirá efeitos desde logo, isto é, a
partir do ato ou do fato que a provocou.
A Emancipação Legal prevê 4 causas que fazem cessar a incapacidade, são elas:

I) Casamento (“Emancipação Matrimonial”): Aquele que se casa, emancipa-se (a Emancipação ocorre pelo
casamento e não para o casamento).
Com o casamento a pessoa passa a constituir um novo núcleo familiar e, portanto, não há mais motivos
para que ela continue submetida a autoridade alheia.

33
OBS.¹: O Código Civil, em seu art. 1.517, estabeleceu que homens e mulheres podem se casar a partir dos 16
anos. Percebe-se que o início da Capacidade Núbil (16 anos) é diferente do início da Capacidade Civil Plena (18
anos).

OBS.²: Para o casamento dos Maiores de 16 anos e Menores de 18 anos, é necessária a autorização dos pais ou
responsáveis (art. 1.517 do CC). Tal autorização NÃO será necessária caso o menor já seja emancipado.
Enunciado 512 das Jornadas de Direito Civil: O art. 1.517 do Código Civil, que exige autorização dos pais ou responsáveis para
casamento, enquanto não atingida a maioridade civil, não se aplica ao emancipado.

A autorização para casamento deve ser dada por ambos os pais. Somente será admitida a autorização
unilateral se o outro genitor for falecido, tiver sido declarado ausente ou estiver destituído do Poder Familiar.

OBS.³: Tem-se entendido que a União Estável não emancipa (tendo em vista que poderiam os filhos, que não
conseguem se emancipar por concessão dos pais, burlar a lei, simplesmente vivendo em União Estável).

OBS.4: A Separação e o Divórcio posteriores ao casamento NÃO levam a perda da Emancipação. A dissolução é
tema relativo à eficácia do casamento (e não à validade do casamento), assim, mesmo que ocorra eventual
Separação Judicial, Divórcio ou Morte de um dos cônjuges, a Emancipação perdurará (a Emancipação ocorre pelo
casamento e não para o casamento!).

OBS.5: Se o casamento for declarado NULO, não produzirá quaisquer efeitos e a Emancipação desaparecerá.
Logo, de um casamento inválido não é possível falar-se em Emancipação.
Todavia, caso ambos os cônjuges, ou até mesmo um deles, esteja de boa-fé, os efeitos deste Casamento
Putativo deverão ser resguardados, até a data da Sentença anulatória, permanecendo, por conseguinte, a
Emancipação (art. 1.561, CC). Vale dizer, até a data da Sentença anulatória do casamento todos os atos
praticados pelos nubentes reputam-se válidos, pois são considerados emancipados (capazes).

II) Exercício de Emprego Público efetivo: Entende-se que aquele que se efetivou em um Emprego Público já tem
condições de gerir seus atos de forma satisfatória e, portanto, desnecessário que continue dependente de seus
responsáveis.
O vínculo com a Administração Pública deve ser efetivo. O vínculo temporário não é causa de
Emancipação do indivíduo (ex.: cargo público comissionado).

34
Mesmo que ocorra posterior exoneração, não há que se falar em perda da Capacidade Civil adquirida,
pois a Emancipação é irreversível.

III) Colação de Grau em Curso de Ensino Superior: A norma exige a colação de grau, a simples aprovação no
vestibular NÃO é causa de Emancipação Legal do indivíduo.

IV) Emancipação Profissional ou Emancipação Laboral: É a Emancipação que ocorre por Estabelecimento Civil
ou por Estabelecimento Empresarial ou pela existência de Relação de Emprego. Nestes casos, o menor deve ter
16 anos completos e em função do desempenho dessas atividades ter economia própria (a doutrina entende
que economia própria é auferir como renda pelo menos 1 salário mínimo).
É razoável que o menor que, por suas atividades, consiga auferir economia própria, possa praticar atos
civis por si só.
Ex.¹: Estabelece-se civilmente aquele menor artista plástico (profissão intelectual de natureza artística) que
venha a cuidar pessoalmente de negociar suas obras com as galerias de arte.
Ex.²: Estabelece-se comercialmente o menor que lucra comprando e revendendo algum produto.

OBS.¹: A falta de qualquer dos requisitos previstos no art. 3º da CLT (pessoalidade, salário, não eventualidade e
subordinação) descaracterizará a relação de emprego, logo não haverá Emancipação.

OBS.²: A Emancipação persiste ainda que haja a perda do emprego ou da economia própria, haja vista a
irretratabilidade e irrevogabilidade da Emancipação.

• Em regra, a Emancipação é irrevogável e irretratável, exceto nos casos de invalidação do casamento (nulo e
anulável) (ocorre o efeito retroativo da invalidação – ex tunc, perdendo a Emancipação, voltando a
incapacidade).
ATENÇÃO!: Essa hipótese de revogação da Emancipação não abrange o Divórcio e Separação (apenas a
invalidação do casamento).

• A Maioridade Civil e a Emancipação não ocasionam automaticamente o cancelamento da pensão alimentícia.


Súmula 358 do STJ: O cancelamento de pensão alimentícia de filho que atingiu a maioridade está sujeito à decisão judicial, mediante
contraditório, ainda que nos próprios autos.

35
• A Emancipação Judicial e a Emancipação Legal exoneram a responsabilidade civil dos responsáveis, pois decorre
de ato legitimado pelo Estado.

36