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Era uma quinta-feira muito corrida. Precisava pular de galho em galho, desde cedo, para cumprir
extensa agenda. Foi um entra e sai do carro, comprando peças e pressionando fornecedores
para que cumprissem suas tarefas no mesmo dia. Lá pelas cinco da tarde, satisfeito com o andar
da carruagem, desci do carro e fechei a porta. Olhar entregue ao longe, me dei conta de que
deixara o dedo. Mal acreditei. Antes da dor, a indignação comigo mesmo. Como pude ser tão
atabalhoado a ponto de fechar a porta no dedo médio da mão direita? Mais de uma semana se
passou e o dedo ainda segue inchado, com a unha escurecida pela coagulação.

Naquela noite a filha caçula dividiria conosco a tarefa de enumerar algumas atividades que não
existem mais, pelo menos em nossas cidades. Um desafio acima do conhecimento de crianças
de oito anos, a menos uma e outra que tenha ancestrais cuja profissão ficou na poeira, com
narrativas melancólicas de família. O livro escolar mencionava alguns ofícios que
desapareceram ou praticamente já não existem, como acendedor de lampiões, telefonista,
cubeiro, datilógrafo e projecionista de cinema. Poderíamos acrescentar outras tantas ocupações
em via de extinção, ou cada vez mais rarefeitas, como é o caso dos sapateiros.

Acompanhando a evolução da tecnologia - com um olho no gato do crescimento demográfico e


outro no peixe do emprego,- temos razões de sobra para nos preocuparmos. Desde o século
XVIII o mundo experimentou três revoluções industriais: a da mecanização, associada às
máquinas a vapor, a revolução da eletricidade e a era da automação. Claro está que os avanços
decorrentes beneficiaram a humanidade, ainda que alguns efeitos colaterais deletérios sejam
igualmente inegáveis, como a poluição e o poder de matar em larga escala.

Trabalho há muitos anos na área de automação industrial e sei que a técnica liberta o homem de
operações simiescas, repetitivas, embrutecedoras e portanto desumanizantes. Uma coisa é o
artesão, a produzir com diversificação e cadência que lhe preservavam a dignidade. Outra coisa
foi o salto acelerador de métodos e processos que Chaplin denunciou como ninguém em
Tempos Modernos. Lembro-me de ter visitado uma fábrica de ferros elétricos na qual meia dúzia
de senhoras aplicavam, roboticamente, um adesivo para montagem do produto. Hoje isto é feito
com robôs e dosadores automáticos. Como imprecar contra isto?

Se as três eras da revolução industrial já desafiaram governos e pensadores a gerar alternativas


e empregos, eis que estamos em plena quarta revolução industrial, denominada 4.0, cujo
objetivo é aumentar a velocidade de tudo, das comunicações à produção de bens físicos,
reduzindo custo e fatalmente substituindo mão-de-obra. Seus tópicos principais são
conectividade, robôs colaborativos – capazes de trabalhar lado a lado com humanos,- e o
conceito de gêmeo digital, que cria uma linha de produção virtual, permitindo o monitoramento
mais eficaz, antecipando problemas e planejando manutenções de forma remota.

Sempre de pires na mão, augurando que capitalistas externos decidam investir no Brasil, não é
surpresa que estejamos mais uma vez atrasados em relação a esta revolução, cujos efeitos
porém se farão sentir rapidamente. Se podemos produzir mais e melhor com aproximadamente
os mesmos insumos e máquinas, algo ficará de fora. Os ganhos de produtividade são e serão
tais que a humanidade deveria refletir para onde caminha em velocidade crescente. Como
prover seguridade social se os governos querem eximir-se até mesmo da previdência?

Dependente do agronegócio extensivo, como na cultura de soja, o Brasil avançou como


exportador de commodities empregando cada vez mais os recursos da agricultura de precisão.
Há que celebrar, assim como há que refletir. Quanta gente foi desaguando nos grandes centros,
oriunda dos rincões agrícolas, multiplicando os problemas na periferia das grandes cidades?

Tenho escutado de amigos, até dos mais ferrenhos globalistas, que o mundo tem mudado de
forma cada vez mais rápida e que, este o ponto, não sabem se isto é bom ou ruim. Penso que
tem boa chance de ser ruim, porquanto o que é bom se enxerga de pronto. Como diminuir
incertezas, como ampliar a garantia de que as pessoas alienadas pelo tsunami das inovações
serão de alguma forma amparadas? Quem se ocupa com isto em escala planetária?