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Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual

As identidades adquirem sentido através da linguagem, em uma rede


complexa de sistemas simbólicos pelos quais são representadas. “A representação
atua simbolicamente para classificar o mundo e nossa relações no seu interior”
(WOODWARD, p.8).
Segundo Woodward (p.9), a identidade sob o ponto de vista simbólico é
definida desde uma série de representações sociais que marcam a diferença entre os
indivíduos pertencentes a uma determinada cultura. Sob esse ponto de vista, a
identidade é relacional, depende de algo externo para existir. A identidade se define
por aquilo que ela não é, mas que fornece as condições de sua existência. Esse
sistema de classificação torna-se problemático, pois se sustenta a partir da exclusão.
Sob outro aspecto, a cultura pode ser definida desde um ponto geopolítico,
Woodward (p.10) descreve o exemplo dos Sérvios e Croatas que estando em guerra,
afirmam ao mesmo tempo serem diferentes, apontando desde o tipo de cigarro que
fumam até o modo como se comportam, mas também iguais pois ambos se
reconhecem como não europeus. Isso revela outra dimensão da constituição das
identidades, a social. Portanto, a luta por estabelecer uma determinada identidade tem
suas consequências materiais, como a guerra. Sendo assim, o estabelecimento da
identidade é tanto simbólico, quanto social.
Outra característica da identidade marcada pela diferença é a sua
especificidade histórica, a cada momento histórico diferentes características são
levadas em conta, tendo mais ou menos importância. No caso do contexto de guerra
usado por Woodward, o recorte de gênero torna-se significante no momento em que
mulheres pouco são levadas em conta, uma identidade masculina salta aos olhos. Os
homens nesse caso, tomam a posição-de-sujeito, tornando a si mesmos referência. A
mulher, nesse caso, se torna significante para a definição da identidade masculina.
(p.10)
Deste modo, uma das formas de se reivindicar uma identidade é por meio do
apelo a história. São vários os exemplos de povos que buscam no passado a
justificativa para o estabelecimento de uma identidade. Para Woodward essa busca
da reprodução passado, diz mais respeito a construção da identidade no presente.
“Assim, essa redescoberta do passado é parte do processo de construção da identidade
que está ocorrendo neste exato momento e que, ao que parece, é caracterizado por
conflito, contestação e uma possível crise.” WOODWARD (p.12)
. Na base dessa discussão se estabelece uma tensão entre uma perspectiva
essencialista da identidade e outra não-essencialista. Uma perspectiva essencialista,
parte da premissa de que as identidades são cristalinas, autênticas, portanto, existem
características partilhadas por todos os membros de um determinado grupo, e essas
características não variam com o passar do tempo. Uma perspectiva não-essencialista
focaria nas diferenças, assim como nas características partilhadas por um mesmo
grupo, ou até mesmo entre grupos. Uma visão não-essencialista também poderia
analisar como essas características mudam com o passar do tempo. WOODWARD
(p.12)

1. Por que o conceito de identidade é importante?

O essencialismo pode se fundamentar tanto biologicamente quanto


historicamente. Deste modo, pode apelar tanto a uma “verdade fixa” em um passado
distante, quanto em uma nacionalidade compartilhada, assim como, argumentar uma
identidade sexual fixa a partir das características corporais ou remetendo-se a
maternidade, por exemplo.
Este tipo de apelo revela uma série de problemas para os debates sobre
identidade. Woodward sugere algumas questões: é possível fundamentar uma
identidade Nacional sem apelar a um passado comum? Que implicações políticas
sugere uma identidade cambiante? Que alternativas são possíveis diante do
essencialismo?
Para resolver essas e outras questões a autora sugere que se analise a
questão da identidade dentro do “circuito da cultura”, em diversos níveis global e local,
assim como em relação a como se forma a identidade e a diferença dentro dos
sistemas de representação. WOODWARD (p.16)

1. 1. Identidade e representação

Para compreendermos os sistemas de representação, precisamos entender a


relação entre cultura e significado. Só é possível entender os significados entendendo
como esses sistemas criam posições-de-sujeitos e dessa forma como sujeitos como
nos posicionamos internamente a ele. O que está sendo sugerido é que nos
desloquemos dos sistemas de representação, para as identidades criadas por ele.

A representação inclui as práticas de significação e os sistemas simbólicos


por meio dos quais os significados são produzidos, posicionando-nos como
sujeito. É por meio dos significados produzidos pelas representações que
damos sentido à nossa experiência e àquilo que somos. WOODWARD (p.17)

Deste modo, os sistemas de discurso e representação constroem o lugar


desde onde é possível localizar a posição dos indivíduos. Alguns exemplos possíveis
são os discursos promovidos pela mídia. Na medida em que almejam vender
determinados produtos, os sistemas de marketing produzem discursos baseados em
certas características que podem ser utilizadas pelos indivíduos ou grupos de forma a
produzirem sua própria identidade. A mídia nos diz que posição-de-sujeito devemos
ocupar, o jovem “esperto” ou pai “descolado”. “A ênfase na representação é o papel-
chave da cultura na produção dos significados que permeiam todas as relações
sociais levam, assim uma preocupação com a identificação.” WOODWARD (p.18)
O conceito de identificação tem sua origem na psicanálise e tem sido
recuperado pelos estudos culturais, principalmente em estudos realizados na área do
cinema. A preocupação está em como, seja por ignorar a diferença, ou pela suposta
similaridade entre os papéis, os indivíduos ativam uma série de desejos inconscientes
ao se exporem as telas.
Nesse ponto chegamos as questões relativas ao poder. Como e por que
algumas representações são mais atrativas do outras? “Todas as práticas de
significação que produzem significados envolvem relações de poder incluindo o poder
para definir quem é incluído e quem é excluído.” WOODWARD (p.18) A cultura molda
e dá sentido a identidade ao abrir um leque de opções representativas pela mídia e
por vários outros meios. No entanto, somos moldados não apenas pelas
representações possíveis, mas também pelas relações sociais.

A identidade marca o encontro de nosso passado com as relações


sociais, culturais e econômicas nas quais vivemos agora... a identidade
é a intersecção de nossas vidas cotidianas com as relações econômicas
e políticas e subordinação e dominação. (Rutherford apud Woodward,
p.19).
Os sistemas simbólicos fornecem novas possibilidades de sentido as relações
sociais forjadas na desigualdade e em grupos estigmatizados. Nesse caso, as
identidades são contestadas. Woodward (p.19) sugere que é necessário a
“emergência de novas posições e de novas identidades, produzidas por exemplo, em
circunstâncias econômicas e sociais cambiantes” e ainda sugere que pode estar
havendo uma crise das identidades.

2. Existe uma crise de identidade?

Segundo Woodward (p.20) a “identidade em crise” é tida por muitos autores


como um problema característico da modernidade tardia (Giddens). Cintando Robins,
a autora explica que a globalização seria uma das responsáveis pelo colapso dos
velhos estados e nações, dando lugar a uma “transnacionalização da vida econômica
e cultural”. TRAZER ALGO DE DUSSEL AQUI. “A globalização envolve uma
interação entre fatores econômicos e culturais, causando mudanças nos padrões de
produção e consumo, as quais, por sua vez, produzem identidades novas e
globalizadas.” Woodward (p.20) Novas identidade simbolicamente caricaturizadas
pelo consumo, representadas em campanhas do MC’Donalds ou Apple, por exemplo,
podem ser ecncontradas em qualquer lugar do mundo, sem serrem distinguidas, o
que segundo a autora da suporte a uma “convergência de culturas e estilos de vida
nas sociedades” Woodward (p.20).
Esse processo, entretanto, cria diferentes resultados, podendo resultar tanto
em distanciamento da identidade local, como também, em resistência por parte destas
culturas, a partir de novas afirmações, ou ainda, novos posicionamentos. Além disso,
tem havido uma dispersão das demandas, não apenas de bens de consumo, mas do
mercado de trabalho. A migração obviamente não é um processo novo, porém como
resultado da globalização, tem havido uma aceleração da dispersão dos povos pelos
territórios. Tendo impacto tanto nos países de origem como no destino. Woodward
(p.21). “A migração produz identidades plurais, mas também identidades contestadas,
em um processo que é caracterizado por grandes desigualdades.” Woodward (p.21).
A migração é representante de um processo característicos de desigualdade. Os
“expulsos” dos países pobres são mais impactantes do que a “atração” dos países
industrializados.