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GUIA DIDÁTICO DE PSICOPATOLOGIA - PROF. ROGÉRIO HENRIQUES – DEPTO.

DE PSICOLOGIA UFS
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2. O Surgimento da Clínica Psiquiátrica


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m 1793, Philippe Pinel, médico, filósofo e ideólogo da Revolução


E Francesa, tornou-se diretor de Bicêtre, um asilo parisiense para homens.
Lá, ele mandou desacorrentar os loucos de suas correntes, gesto mítico que se confunde
com o nascimento da psiquiatria. A complexidade do gesto de Pinel se reflete nas
opiniões díspares a seu respeito: se por um lado, como assinalam Gauchet & Swain
(1980), ele teria sido um libertário, ao devolver a humanidade aos loucos, concebidos e
tratados até então como bichos, por outro, como assinala Foucault (1968; 2000), ele
teria sido um carcereiro, ao inscrever suas loucuras numa nosografia, aprisionando-os
ao saber médico. Pinel esquadrinha o Hospital Geral, classificando e agrupando os
diversos tipos de loucura em classes, gêneros e espécies, com base em seus sinais e
sintomas; seguia o método da história natural, segundo o qual conhecer é classificar,
separar e agrupar os diferentes fenômenos em ordens aproximativas. Escreveu o
Tratado Médico-Filosófico sobre a Alienação Mental, primeira incursão médica sobre a
loucura. Inaugurou a clínica psiquiátrica fundando-a como uma disciplina autônoma,
uma pura ciência da observação. Conhecer a loucura era observar, descrever e
classificar aquilo que às vistas do alienista era estranho ao padrão moral; colocando-se
no lugar do cientista imune às influências sócio-culturais, era ele quem determinava o
que é normal e o que é patológico.
Pinel concebia a loucura como “alienação mental”. Sua concepção revolucionou
a idéia que se tinha dela até então. Considerava o louco não como desarrazoado, à
maneira cartesiana, mas sim como um alienado de sua própria razão; por sua vez, a
loucura não era mais concebida como o outro da razão (desrazão), mas como um
distúrbio da paixão no interior da própria razão (alienação). Voltando à discussão entre
Gauchet & Swain (op. cit.) e Foucault (op. cit.), se, por um lado, Pinel definiu um
estatuto patológico para a loucura, medicalizando-a e, por conseguinte, silenciando-a,
por outro, abriu um campo de possibilidades terapêuticas para ela, pois, até então, a
loucura era considerada uma natureza externa ao humano, estranha à razão e, portanto,
incurável. Em termos práticos, Pinel instituiu a possibilidade de tratamento e cura da
loucura. Se o louco é um alienado de sua razão, e não um desarrazoado, há um resquício
de razão nele. É possível se apegar a este resto de razão e resgatá-la no seu todo,
curando o alienado. Propôs, por conseguinte, o “tratamento moral” da loucura, espécie
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de método de reeducação pedagógica centrado na autoridade do médico, que tinha como


premissa básica o isolamento terapêutico dos loucos nos hospícios. Como ideólogo da
Revolução, Pinel justifica a privação da liberdade dos loucos nos hospícios como um
gesto libertário; na verdade, a alienação mental nada mais é que o estado de privação da
liberdade individual, de perda do livre-arbítrio, sendo o alienista, por intermédio do
tratamento moral, o único que poderia restituir aos loucos sua liberdade subtraída pela
alienação7.
Pinel atribuía a loucura às causas de ordem moral (psicológicas e/ou sociais),
tais como: as paixões intensas, muito contrariadas e prolongadas; os excessos de todos
os tipos, as irregularidades dos costumes e dos hábitos de vida, assim como a educação
perniciosa, fosse por brandura ou dureza excessivas.
Resgatando a tradição hipocrático-galênica, Pinel concebe a loucura como um
desequilíbrio do organismo, um distúrbio de suas paixões, entendendo estas como
modificações desconhecidas da sensibilidade física e moral. Haviam as paixões
debilitantes ou opressivas (desgosto, ódio, temor, saudades, remorsos, ciúmes, inveja
etc.) e as paixões alegres (alegria, orgulho, amor, compaixão etc.). As duas ordens de
paixões poderiam ser perfeitamente normais, se em grau e intensidade adequados;
porém, se em proporções excessivas, exageradas, desmedidas, poderiam ocasionar
alienação.
Contrariando a anátomo-clínica e sua obstinada busca das lesões subjacentes às
doenças através das dissecações dos cadáveres, paradigma médico da época, Pinel
negava qualquer causalidade física à loucura (alienação mental). Sendo esta
predominantemente um distúrbio das paixões, afirmava ser possível curá-la (por
intermédio do tratamento moral) reeducando a mente alienada, indo de encontro ao
dogma da incurabilidade da loucura e ao niilismo terapêutico em voga. Pinel fundou a
“medicina mental” ou “alienismo” como uma medicina especial, já que ele não se
encaixava ao modelo da anátomo-clínica. Consolidando o projeto alienista, Pinel retorna
à clínica geral, deixando seu legado a Esquirol.

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Esta idéia da internação como condição sine qua non para a cura - que srcinaria o chamado “modelo
asilar” de tratamento da loucura – vigoraria por aproximadamente um século e meio, norteando a
psiquiatria até meados do século XX, ocasião na qual uma série de experiências terapêuticas alternativas
ao asilo (Comunidades Terapêuticas, Psiquiatria de Setor, Psiquiatria Comunitária, Psiquiatria
Democrática Italiana etc.) viria questionar a natureza segretativa e iatrogênica das práticas psiquiátricas
até então vigentes. Tal movimento ficaria conhecido como “Reforma Psiquiátrica” e srcinaria o campo
multiprofissional da Saúde Mental.