Você está na página 1de 4

IFAL ■ Campus Santana do Ipanema │ PROF.

JONATAS XAVIER DE SOUZA│


HISTÓRIA
José Jobson de A. Arruda e Nelson Piletti. “O Império de Alexandre Magno”. In: Toda a História. São Paulo: Ática, 2004, p. 53-56.

C A P Í TU L O 10 pouco tempo, toda a Grécia estava dominada. Com astúcia


política, conhecedor do individualismo das cidades-estados,
O Império de Alexandre Magno Filipe respeitou sua autonomia. Pôde, assim, organizar os
gregos para um ataque contra os persas. Mas, em 336 a.C.,
Tratados por muito tempo como bárbaros pelos quando acabava de ser eleito chefe da liga militar, em
habitantes da Hélade, os macedônio eram, como os gregos, Corinto, foi assassinado por uma aristocrata a quem
de origem ariana. Habitavam uma região ao norte da ofendera.
Grécia, cercado por inimigos, como a Ilíria, a Trácia e o
Épiro. Isolados, tinham uma economia agrária e pouco 2 As conquistas de Alexandre Magno
desenvolvida, dificultada pela inexistência de uma saída
para o mar. Para realizar suas atividades comerciais com o Alexandre magno, filho de Filipe II, assumiu o trono da
exterior precisavam utilizar o porto grego de Olinto. Sua Macedônia logo após a morte do pai. Sua formação fora
organização política caracterizava-se pela concentração de extremamente influenciada por seu preceptor, o filósofo
poder nas mãos dos proprietários de terra. Esse quadro grego Aristóteles. Com ele aprendeu a admirar a cultura
começou a se alterar quando o rei Filipe II assumiu o grega: apreciava a Ilíada e a Odisseia e a obra dos grandes
governo. poetas, como Ésquilo e Eurípides. De Aristóteles, herdou
também uma profunda aversão aos persas.
1 Uma nova Macedônia Quando Alexandre assumiu o governo, a Macedônia era
um Estado organizado e com um exército poderoso. Mas
Filipe II viveu em Tebas durante o apogeu dessa cidade. existiam dois problemas: a revolta das cidades gregas,
Aproveitou sua estada para observar as cidades gregas, na iniciada com a morte de Filipe, e os numerosos herdeiros
época enfraquecidas pelas guerras fratricidas. Familiarizou- deixados pelo pai. Para resolvê-los, Alexandre fez uso da
se, por exemplo, com a organização do exército tebano e violência. A cidade de Tebas, líder da revolta, foi destruída;
com o uso das longas lanças de madeira iniciado por só ficaram os templos e casa do poeta Píndaro; seus
Epaminondas. Em 356 a.C., quando se tornou rei da habitantes acabaram transformados em escravos. Quanto
Macedônia, usou o conhecimento para arquitetar a aos herdeiros, convidou os irmãos para um banquete, em
conquista das cidades gregas. que tratariam da herança; no meio da festa, porém mandou
À frente do governo da macedônia, Filipe II confiscou as assassinar todos.
terras dos grandes proprietários e as distribuiu aos Após controlar a revolta das cidades gregas, Alexandre
camponeses. A medida enfraqueceu as elites e ampliou a iniciou uma política de expansão. Considerava-se líder
aceitação do monarca entre os indivíduos mais humildes da supremo da cultura grega e com a obrigação de libertar as
sociedade, que não tardara a se incorporar, em grande colônias dominadas pelos persas na Ásia – seu desejo era
número, ao exército. Com isso, os tradicionais inimigos da conduzir os povos da Hélade a vingar-se dos persas. Em
Macedônia foram vencidos e as fronteiras passaram a ser 334 a.C. apossou-se da Ásia Menor. Em seguida, venceu o
mais bem vigiadas. exército persa comandado pelo rei Dario III. Marchou então
Contornando antigos problemas, Filipe II deu início a para a Fenícia e tomou o porto de iro, centro do poder
uma política expansionista. Os primeiros territórios a serem marítimo persa. A etapa seguinte foi o Egito, dominado
anexados foram os da Potidêia, da Anfípolis e da Pidna, pelos persas de 525 a.C. Foi recebido como salvador: no
controlados por Atenas. Para financiar a expansão, foi templo de Amon-Rá tornou-se filho do deus.
fundamental a exploração das minas de ouro do monte Diante do poder de Alexandre, Dario propôs um acordo
Pangeu. de paz, que foi sumariamente recusado. Em 331 a.C., os
persas seriam derrotados definitivamente. Estava aberto o
A conquista da Grécia caminho para a conquista das principais cidades antes
dominadas por esse povo, como Babilônia, Susa e
Filipe II interveio diretamente na Grécia depois que os Persépolis.
exércitos da Tessália invadiram terras do Santuário de Como imperador dos persas, Alexandre avançou para a
Delfos. A pedido dos sacerdotes, subornados por Filipe II, o Índia, percorreu a região do rio Indo e só não chegou ao rio
exército macedônico esmagou os invasores e tomou seu Ganges porque os soldados se recusaram a segui-lo. De
lugar na Liga Anfictiônica, constituída apenas por Estados volta a Susa, desposou a filha de Dario e começou a se
gregos. Pressentindo o perigo, Demóstenes, grande orador preparar para nova campanha, provavelmente contra
ateniense, começou a alertar seus concidadãos sobre o Cartago, no norte da África, quando foi acometido por uma
avanço inimigo, Seus discursos ficaram conhecidos como febre violenta. Morreu na Babilônia, 323 a.C., com 33 anos,
Filípicas. deixando um dos mais vastos impérios criados até então.
Quando os gregos se deram conta do perigo, já era
tarde. Em 338 a.C., na batalha de Queroneia, atenienses e
tebanos foram derrotados pelas forças macedônicas. Em
IFAL ■ Campus Santana do Ipanema │ PROF. JONATAS XAVIER DE SOUZA│
HISTÓRIA
José Jobson de A. Arruda e Nelson Piletti. “O Império de Alexandre Magno”. In: Toda a História. São Paulo: Ática, 2004, p. 53-56.
O fim do Império
Livros e leituras no mundo helenístico
Sem um herdeiro, e após uma série de conflitos internos,
o Império de Alexandre acabou dividido entre seus Na época helenística o livro passa a desempenhar papel
principais generais. O Reino da Macedônia, incluindo a fundamental. Toda a literatura passa a depender da escrita e
do livro: a esses instrumentos são confiadas a composição, a
Grécia, ficou com Antígono. O Reino do Egito, com
circulação e a conservação das obras. Aliás, os escribas
Ptolomeu. A Ásia, como os selêucidas, descendentes de
alexandrinos transformam em livros – ainda que um livro
Seleuco, com duas capitais: Antioquia, na Síria, e Selêucia,
dedicado à literatura erudita – toda uma obra antiga que
na Mesopotâmia. Muito vasto e heterogêneo, esse Estado
nascera para ser assim fixada. Estudiosos helenísticos, em
logo se desagregaria. Toda a Ásia Menor se separou,
suma, impõem a ideia de que uma obra só existe se for escrita;
dando origem aos reinos de Pérgamo, Galácia, Capadócia, obra é um texto escrito de que podemos nos apropriar graças
Bitínia e Ponto Euxino (mar Negro). A partir do século III ao livro que a conserva. A biblioteca de Alexandria, principal
a.C., todo o planalto Persa constituiu o Reino dos Partas; exemplo das grandes bibliotecas helenísticas, é biblioteca ao
aos selêucidas restaram apenas a Síria e a Mesopotâmia. mesmo tempo “universal” e “racional”: universal, porque é
Nos séculos II e I a.C., os reinos helenísticos foram destinada à conservação dos livros de todos os tempos e de
conquistados paulatinamente pelos romanos, que se todo o mundo conhecido; racional, porque nela os próprios
tornaram assim os verdadeiros sucessores do império livros devem obedecer a uma ordem, entrar em um sistema de
criador por Alexandre Magno. A anexação romana será classificação que permite organizá-los por autor, obra e
analisada com maior detalha no capítulo 14, sobre as conteúdo.
conquistas romanas no Mediterrâneo. As grandes bibliotecas helenísticas, todavia não eram
bibliotecas de leitura. Eram, por um lado, símbolo da
“grandeza” das dinastias que estavam no poder. Por outro,
A organização do Império instrumento de trabalho para um círculo de eruditos e literatos.
Alexandre considerava-se um soberano de origem Ainda que estivessem tecnicamente dispostos para a leitura, os
divina. Egípcios e persas não se opunham a essa ideia, livros eram mais acumulados do que realmente lidos.
Sobre as bibliotecas do mundo helenístico, é preciso
pois, para eles, o poder de Estado tinha essas
perguntar: qual era sua função? E quem possuía realmente
características. Gregos e macedônios, entretanto, resistiam
condições de frequentá-las? Parece que a leitura era praticada,
a essa concepção. Por causa disso, Alexandre aproximou-
de preferência, na intimidade, por aqueles que a dominavam. O
se mais dos persas e dos egípcios. Ao exército foram
repertório dos mais ou menos importantes fragmentos de rolos
incorporados muitos soldados persas: 80 mil chegaram a
greco-egípcios que foram preservados revela-se tradicional,
fazer parte de suas fileiras; 30 mil deles treinados e composto em sua maioria de textos da época clássica. No
educados à moda grega: eram os epígonos. Os período helenístico, assiste-se também ao florescer de
governantes nas áreas conquistadas, porém, em geral eram manuais de caráter técnico, como textos de crítica filológica e
gregos ou macedônios. literária ou tratados de uso meramente prático (tática militar,
Nas áreas conquistadas foram fundadas 33 novas agricultura). Neste último caso, trata-se, talvez, mais de textos
cidades, com instituições semelhante às das cidades de referência para profissionais do que de obras dedicadas a
gregas. Elas tinham uma autonomia aparente, pois um público mais amplo.
dependiam de um forte poder central. A arte estatutária e os túmulos da época mostram cada vez
A política adotada por Alexandre procurava facilitar a com maior freqüência figuras de leitores; porém, ao contrário
integração das culturas agrupadas em suas conquistas. da época clássica, estamos quase sempre diante de leituras
Quando Alexandre desposou a princesa da Pérsia, por solitárias, como se tivesse sido estabelecida uma relação mais
exemplo, 10 mil de seus soldados também se casaram com íntima e particular com o livro. Da leitura como momento de
mulheres de origem persa. Com essa política, abria-se vida associativa própria da pólis, passara-se à leitura como
dobrar-se sobre si mesmo, como procura interior, refletindo
caminho para a integração dos mundos grego, persa e
bem as atitudes culturais e as correntes de pensamento da
egípcio. A cultura que originou da integração de valores tão
civilização helenística.
diferentes, sob hegemonia grega, recebeu o nome de
Apesar de o livro começar a ser fundamental na época
helenística.
helenística, é importante destacar que no mundo antigo –
assim como durante toda a Idade Média e nos século XVI e
Alexandre e o helenismo XVII – a leitura de numerosos textos é uma oralização, e seus
“leitores” são os ouvintes de uma voz leitora. Dirigido assim
A cultura helenística foi o resultado da fusão de diversas tanto ao ouvido quanto aos olhos, o texto joga com formas e
culturas, principalmente a grega, a persa e a egípcia. No fórmulas aptas a submeter o escrito às exigências próprias da
Oriente Médio surgiram novos pólos irradiadores de cultura: performance oral.
Alexandria, Antioquia, Pérgamo. Enquanto isso, na Hélade,
Adaptado de: Guglielmo Cavallo e Roger Chartier (orgs.). História da
as cidades de Esparta e Atenas agonizavam. leitura no mundo ocidental. São Paulo, Ática, 1998.
IFAL ■ Campus Santana do Ipanema │ PROF. JONATAS XAVIER DE SOUZA│
HISTÓRIA
José Jobson de A. Arruda e Nelson Piletti. “O Império de Alexandre Magno”. In: Toda a História. São Paulo: Ática, 2004, p. 53-56.
Dos novos pólos culturais, Alexandria, no Egito, tornou-
se o mais importante. A cidade ganhou fama no Ocidente e
no Oriente. Sua população era numerosa, assim como a
produção artesanal, os museus e as bibliotecas (a principal,
com 400 mil obras). Essas condições favoreceram o
desenvolvimento dos estudos da Matemática, da Geometria
e das ciências de cura. O pensamento filosófico, por sua
vez, era dominado por duas correntes: o estoicismo, que
acentuava a firmeza do espírito, a indiferença à dor, a
submissão à ordem natural das coisas e a independência
em relação aos bens materiais; e o epicurismo, que
aconselhava a busca do prazer. No âmbito da literatura,
destacou-se o poeta Teócrito, com uma obra voltada à
natureza e à simplicidade da vida no campo.
A arquitetura helenística foi marcada pela construção de
templos grandiosos e monumentais, como o de Zeus, em
Pérgamo. Novos deuses ganharam projeção, como Ísis,
Serápis, Afrodite, Apolo e Eros, deus do amor. Os artistas
retratavam com perfeição a natureza e o movimento dos
corpos.

Ordem, equilíbrio, harmonia, simplicidade. Esses eram, entre outros,


os calores que os escultores gregos do período clássico (século V a.C.)
procuravam transmitir em suas obras. Na foto, escultura de Policleto
conhecida como Doríforo (ou O homem que carrega a lança, século V
a.C.). Não há nessa obra nenhuma influência da escultura egípcia
nem se encontra nela a tensão e a dramaticidade dos trabalhos do
período helenístico. Compare-a com as duas outras imagens desta
página.

Realizada por volta de 530 a.C., esta escultura revela a influência


egípcia na fase inicial da arte grega. Compare-a com a estátua do
faraó Miquerinos. O rosto impassível, o tronco rígido, os braços
descansando ao longo do corpo, as mãos fechadas, o pé esquerdo
que avança são características presentes nas duas obras.

Observe agora o conjunto escultórico Laocoonte e seus filhos, de


Agesandro, escultor que viveu no período helenístico. A obra
representa a luta de Laocoonte e seus filhos contra uma gigantesca
serpente. O rosto do herói aparece crispado pela dor e pela angústia.
Todo o conjunto transmite esforço, violência e tensão, em contraste
com a serenidade das esculturas do período clássico (século V a.C.).
IFAL ■ Campus Santana do Ipanema │ PROF. JONATAS XAVIER DE SOUZA│
HISTÓRIA
José Jobson de A. Arruda e Nelson Piletti. “O Império de Alexandre Magno”. In: Toda a História. São Paulo: Ática, 2004, p. 53-56.

QU E S T ÕE S P R OP OS T A S
1 Qual era a situação da Macedônia antes de Filipe II
assumir seu governo?
2 Que medidas foram tomadas por Filipe II no governo da
macedônia?
3 Qual a relação de Alexandre Magno com a cultura
grega?
4 De que forma Alexandre Magno transformou a
Macedônia em um grande Império?
5 Em relação à cultura grega, que política seguiu
Alexandre para construir seu Império?
6 De que forma Alexandre difundiu a cultura grega no
Oriente Médio?