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Ü S O DO SUÇUARÂO
BIBLIOTECA PESSOAL
APRESENTAÇÃO

Reunimos nesta publicação — exclusivamente para


circulação interna, e destinada portanto à reflexão e à
produção no âmbito da Escola Letra Freudiana —
documentos essenciais sobre a instituição psicanalítica e
a Escola de psicanálise.

Além das Aias da Letra Freudiana, incluem-se aqui um


debate sobro os Cartéis e os documentos estatutários que,
saídos da pena do Lacan, dão testemunho da ética que os
ordena.

Textos “de trabalho”, que não convocam a outra coisa


senão a... um trabalho, cujo resto terá sido nossa
produção.
í N D íC E

PARTE I: ATAS DA LETRA FREUDIANA


• Ata de Fundação..................................................................................................... g
• Ata de 1987 ..................................................... ;..................................................... n

PARTE II: FUNDAÇÃO DA ESCOLA FREUDIANA DE PARIS


• Ata dc Fundação.................................................................................................. 17
• Nota Anexa...................................................7........................................................ 21
• Preâmbulo.............................................................................................................. 24

PARTE III: PROPOSIÇÃO DE 9 DE OUTUBRO DE 1967


• Proposição sobre o psicanalista da Escola..................................................... 29

PARTE IV: DISSOLUÇÃO


• Carta de Dissolução.............................................................................................. 45
• O Outro falta.......................................................................................................... 47
• D’Écolage................................................................................................................ 50
• Senhor A................................................................................................................. 53
• Luz! ......................................................................................................................... 57
• O mal-entendido....................................................... ......................... ................ 60

PARTE V: A FUNÇÃO DOS CARTÉIS


• Do “mais uma” ....................................................................................................... 65
• Do “mais uma” (continuação)........................................................................... 77
• Do “mais uma” e da matemática....................................................................... 97
• Jornadas de estudo dos cartéis da Escola Freudiana................................. 110
PARTE I

ATAS DA LETRA FREUDIANA


9

FUNDAÇÃO DA LETRA FREUDIANA

I — Letra Freudiana se constitui em lugar que privilegia o pensamento de


Freud e de Lacan na transmissão da psicanálise.
II — A transmissão em psicanálise é portadora dessa condição do discurso
freudiano: não se sustenta em nenhum saber que se suponha acabado nem
encontra seguras garantias.
III — O legado de Freud fala do inconsciente come heterogeneidade
radical. O ser falante, interpelado desde essa Outra Cena, é efeito da articulação
significante inconsciente.
IV — A situação analítica se define em relação ao lugar do Outro. Analista e
analisante estão determinados a sustentar, no discurso da associação livre, a
sujeição às leis do inconsciente.
V — Falamos de transmissão em psicanálise e não de formação. As únicas
formações reconhecidas são as do inconsciente. O analista é sintoma da relação
analítica.
VI — Formar pode pressupor as “formas” às quais os sujeitos estariam
obrigados a se modelar. Podem ouvir-se aí todas as formas imaginárias da
identificação. Portanto ninguém garante, como também não haverá diplomas
nem promoções.
VII — Toda transmissão se realiza na transferência. O desejo inconsciente
usurpa restos que retroagem como objetos de transferência. O desejo
inconsciente na sua realização tende à verdade que só se pode dizer censurada,
num meio-dizer. A psicanálise encontra aí sua dimensão ética.
VIII ■
— A transmissão é sempre de uma falta. O estatuto ético da psicanálise
é da ordem do objeto perdido e do Pai Morto na conjunção com a verdade.
IX — O grupo que é instituído por este ato de fundação situa na estrutura
de Cartel proposta por Lacan os princípios básicos de seu funcionamento. Os
seminários e as aulas, alertas da sedução que exerce todo discurso universitário,
abrirão também uma permanente interrogação: os limites da transmissão.
X — A estrutura de Cartel funciona como um lugar onde os membros, em
número e condições determinados pela estrutura, se reconhecem atentos à cap­
tação imaginária do grupo. O Mais-Um insiste como função. Os grupos se
dissolverão a cada um ou dois anos no máximo, possibilitanto a permutação. A
constituição obedece a sorteio de quem deseje participar.
XI — Os participantes de Cartel se comprometem a informar do produzido
e dos impasses para quem deseje sabê-lo. Só na transferência se possibilita a
produção psicanalítica. O escrito é a forma que adotará o produto de cada um, e
a publicação, seu meio de circulação.
10

XII — A entrada de novos membros para a Instituição dependerá da


apresentação de um escrito sobre as questões abertas da psicanálise.
XIII — Os que assumem este ato desejam instituir um projeto de produção e
propagação no discurso da psicanálise e no campo da cultura.

Rio de Janeiro, 20 de agosto de 1981.


12

ATA DE 1987

Ratificamos, por meio desta, a Ata de Fundação da Letra Freudiana,


consolidada na transferência de trabalho e nos princípios de funcionamento de
Cartéis definidos por Lacan, que tornam possível a circulação de um produto no
âmbito da instituição psicanalítica.
Como efeito da transmissão, do ensino e da experiência acumulada; como
efeito da passagem pelas questões cruciais da Psicanálise e da prática clínica,
esta Instituição passa à nominação de Escola.
Tendo os cartéis como estrutura de base, a Escola se define por função de
formação permanente de analista através de:
1. Uma transmissão e um ensino textuais;
2. Um compromisso com a produção escrita;
3. O exercício de uma clínica sustentada no questionamento rigoroso da
direção da cura e do final de análise.
Assim, a Escola estabelece um laço social que, marcado pela ética do
discurso do analista, difere do grupo concebido pela via imaginária da hieraquia,
do ideal e da chefia. Haverá nominações de membros, e sua única garantia será o
ato de o analista autorizar-se a si mesmo, o que, longe de suprimir responsa­
bilidades, impõe-lhe o dever ético de dar provas desse ato. Essas nominações
respondem, pois, à relação de cada analista com a causa real.

I — DAS NOMINAÇÕES DOS MEMBROS


1) A.M.E. — Analista Membro da Escola: analista que, nomeado pelo Cartel
de Adesão e Garantia, terá dado provas de transferência com a causa da Letra
Freudiana, através da presença e sustentação do discurso da Escola (interna e
externamente) e do ensino, interpretando a teoria e a clínica na transmissão da
psicanálise dentro da formação permanente que a Escola proporciona.
2) M.A. — Membro Analista: aquele que, tendo declarado exercer a função
de analista será admitido como tal, sob a responsabilidade do Cartel de Adesão e
Garantia. Comprometer-se-á a dar testemunho contínuo de um discurso teórico-
clínico através da transferência de trabalho.
3) M.E. — Membro da Escola: aquele que, admitido pelo Cartel de Adesão e
Garantia, deverá dar provas de seu desejo de compromisso teórico com a letra de
Freud e Lacan.
Serão admitidas como Associados as pessoas que expressarem por escrito
seu desejo de manter um vínculo com a Escola, participar de seus eventos e
receber correspondência.
Para diferenciar as nominações A.M.E., M.A. e M.E. dentre os membros
atuais, cada um destes enviará uma carta à Escola declarando sua nominação.
A autorização desse ato se sustenta no trabalho realizado pelos Cartéis
sobre a questão da Escola, que culmina na presente Ata. Aquele que, nesse
trabalho, não tiver chegado à certeza de sua nominação, terá desde já, no Cartel
de Adesão e Garantia, a opção de estabelecê-lo.
12

I I — DOPASSE
A Escola antecipa a nominação de Analista da Escola e a fará vigorar no
momento em que o dispositivo do passe for estabelecido.
A.E. — Analista da Escola: aquele que, tendo realizado sua formação nesta
Escola, decidiu dar testemunho de sua experiência de análise através do
dispositivo do passe, e foi aceito.

III— DO DISCURSO TEÓRICO-CLÍNICO E DA POLÍTICA


Instâncias de sustentação :
#
1. Do Cartel d e A desão e Garantia
A demanda de situar-se em qualquer das nominações como Membro desta
Escola deverá ser feita ao Cartel de Adesão e Garantia. O proponente, através da
apresentação de um trabalho escrito, deverá dar provas de sua relação com a
Causa Freudiana. Esse Cartel tem a função de admitir e administrar as diferentes
nominações.
Será constituído por 4 membros + 1, assim discriminados: 2 A.M.E., 2 M.A.
e + 1, membro do colegiado a ser escolhido pelos quatro membros integrantes do
Cartel.
O Cartel será integrado pelos A.M.E. e os M.A. que manifestarem o desejo
de cumprir essa função, cientes da responsabilidade de ocupar esse lugar. Em
reunião específica dos A.M.E. e M.A., será realizado um sorteio, após
interpelação dos que se candidatarem.
O Cartel terá a duração de 2 anos e apresentará, quando de sua dissolução,
a produção de um trabalho que terá dado conta desse percurso.

2. Do C olegiado
A direção funcionará como um colegiado de cinco membros, tendo cada
um deles a seu cargo um setor, a saber:
a) O rganização e planejam en to, responsável por:
— Administração Geral da Secretaria e Tesouraria;
— Convocação da Comissão deEntrevistas;
— Coordenação das entrevistas dos proponentes às atividades de
transmissão da Psicanálise.
b) E nsino e Sessão Clínica, responsável por:
— Programação anual do Ensino;
— Coordenação dos professores;
— Coordenação da Sessão Clínica.
c) D ivulgação e B iblioteca, responsável por:
— Divulgação das atividades da Escola;
— Organização da Biblioteca e das referências bibliográficas de Freud e
Lacan;
— Divulgação e contato com outras instituições do Campo Freudiano.
13

d) C oordenação de Cartéis, responsável por:


— Inserção dos Cartéis na Escola;
— Reuniões Inter-Cartéis;
— Jornadas de Cartéis.
e) P u blicações e R elações d o Carrípo Freudiano, responsável por:
— Publicações internas e externas;
— Coordenação de eventos internos e externos do Campo Freudiano.

O colegiado terá um mandato de dois anos, a partir de l fi de março de 1987,


e cada setor contará com um Adjunto gõlaborador, A.M.E. ou M.A., que passará
a Titular e, portanto, a membro do Colegiado após dois anos ininterruptos nessa
função. Para exercer a função de Adjunto, é necessária a permanência de três
anos como membro, e será respeitado o critério de tempo de sua nominação.
Quatro meses antes da data em que, por ordem de nominação, corresponda a um
membro ocupar o lugar de Adjunto, este será interpelado pelos A.M.E. e M.A.
quanto a seu desejo de exercer essa função.
No caso de que um membro não aceite, ou não possa exercer a função, o
imediatamente seguinte será então interpelado.

3. Do C onselho
Institui-se, a partir da presente data, e por um período de 5 anos, um
Conselho da Escola formada por três membros indicados por aqueles que
assinam esta Ata. Sua função consistirá em assegurar a continuidade do discurso
teórico-clínico da Escola, podendo tanto ser consultado como ser levado a
pronunciar-se, sempre que necessário, junto ao Colegiado, ao Cartel de Garantia
ou à Assembléia de Membros.

4. Da A ssem bléia de M embros


A Assembléia de Membros, composta pelos A.M.E.,, M.A. e M.E., deverá
reunir-se ordinariamente, no mínimo, uma vez por ano. Nessa ocasião, o
Colegiado prestará' contas de sua administração. Cabe ainda à Assembléia,
conjuntamente com o Cartel de Adesão e Garantia, o Colegiado e o Conselho da
Escola, tanto validar a política institucional da Escola como avaliar a atuação de
seus diferentes setores e instâncias.

IV — DA TRANSMISSÃO E DA FORMAÇÃO PERMANENTE EM PSICANÁLISE


Inscrevem-se cartéis, seminários, aulas, grupos de trabalho, sessão clínica,
jornadas; lugares onde, a partir da sustentação da transferência textual a Freud e
Lacan, se interroga a clínica.

Dos Cartéis
A Escola segue constituindo-se sobre a estrutura de cartel, lugar de trabalho
privilegiado na transmissão da psicanálise, onde se impõe situar a ética que
sustenta a posição do analista.
14

O lugar do Mais-Um, se é qualquer um, deve ser alguém que, estimulando o


trabalho e sua elaboração, se abstenha da mestria.
Fica estabelecido que é na transferência à Escola que se constitui a
experiência do cartel, sendo que o Mais-Um deve ser escolhido dentre os mem­
bros. Abre-se, no entanto, um lugar de escuta na coordenação de Cartéis para
aqueles que, embora não sigam essa norma, sustentam sua proposta de trabalho
no interior da Escola.

V — DA ATA
Os dispositivos instituídos pela presente Ata serão submetidos, após quatro
anos de funcionamento, à reflexão e à crítica decorrentes da experiência, tarefa
de que se incumbirão os membros, em cartéis especialmente constituídos para
tal fim. Essa avaliação determinará a manutenção dos dispositivos, sua alteração
parcial ou mesmo a elaboração de uma Ata que possa vir a reger o funciona­
mento posterior da Escola.

Rio de Janeiro, 26 de Janeiro de 1987

Assinaram a presente ata:

. Ana Lucia Zacharias de Paiva (A.M.E.)


. Andréa Bueno do Prado Bastos Tigre (M.A.)
. Ari Roitman (M.A.j
. Benita Losada Albuquerque Lopes (M.A.)
.■Diana Lidia Mariscai (A.M.E.)
. Eduardo Alfonso Vidal (A.M.E.)
. Esteia Becker Bezerra Cavalcanti (M.A.)
. Elizabeth Tolipan (A.M.E.)
. Leny Almeida Andrade (M.A.)
. Maria Cristina Vecino de Vidal (A.M.E.)
. Myriam Rodrigues Fernandez (M.A.)
. Nilza Ericson Fernandes (A.M.E.)
. Paulo Becker (A.M.E.)
. Sara Pérola Fux (M.A.)
. Tânia Lúcia Marinho de Vasconcelos (MA.)
PARTE II

FUNDAÇÃO DA
ESCOLA FREUDIANA DE PARIS
18

Pela razão de que todo empreendimento pessoal levará seu âutor às


condições de crítica e de controle onde todo trabalho a ser desenvolvido será
submetido à Escola.
Isso não implica de forma alguma uma hierarquia de cabeça para baixo,
mas uma organização circular cujo funcionamento, fácil de programar, se
afi rmará na experiência.
Constituímos três seções, e assegurarei seu funcionamento com dois
colaboradores auxiliando-me em cada uma delas.

1) SEÇÃO DE PSICANÁLISE PURA, ou seja, praxis e doutrina da


psicanálise pfbpriamente dita, que não é outra coisa — o que será estabelecido
em seu lugar — senão a psicanálise didática.
Os problemas urgentes a serem levantados sobre todas as saídas da didática
estarão aqui trilhando a via para uma confrontação mantida entre pessoas que
tenham experiência da didática e candidatos em formação. Sua razão de ser está
fundada sobre o que não deve. ser velado: a necessidade que resulta das
exigências profissionais cada vez que levam o analisado em formação a assumir
uma responsabilidade, por menos analítica que seja ela.
E no interior desse problema, e como caso particular, que deve situar-se a
entrada em controle.1 Prelúdio para definir esse caso segundo critérios diferentes
da impressão de todos e do preconceito de cada um. Pois sabe-se que é
atualmente sua única lei, quando a violação da regra implicada na observância
de suas formas é permanente.
Desde o começo, e em todos os casos, será neste quadro assegurado um
controle qualificado ao praticante em formação r.a nossa Escola.
Serão propostos ao estudo assim instaurado os traços pelos quais eu mesmo
rompo com standards afirmados na prática didática, assim como os efeitos
imputados a meu ensino no curso das minhas análises, quando ocorre que meus
analisados assistam a ele a título de alunos. Serão aí incluídos, se necessário, os
únicos impasses a conservar de minha posição em tal Escola, ou seja, aqueles
que a indução mesma a que meu ensino visa engendraria em seu trabalho.
Esses estudos, cujo avanço é o questionamento da rotina estabelecida, serão
recolhidos pelo diretório da seção que cuidará das vias mais propícias para
sustentar os efeitos de sua solicitação.
Três sub-seções:
• doutrina da psicanálise pura;
• crítica interna de sua praxis como formação;
• controle dos psicanalistas em formação.

(1) Aquilo que, no Brasil, é mais comumente chamado de supervisão. Mantemos o termo
“controle”, tão próximo do-con trôle francês, no intuito de evitar a carga semântica
imaginária contida em “super-visão”(N.T.)
19

Proponho, enfim, como princípio de doutrina, que esta seção, a primeira,


como também aquela da qual direi no título 3) o destino, não se limite em seu
recrutamento à qualificação médica, pois a psicanálise pura, em si mesma, não é
uma técnica terapêutica.

2) SEÇÃO DE PSICANÁLISE APLICADA, o que quer dizer: de terapêutica e


de clínica médica.
Nela serão admitidos grupos médicos, sejam ou não compostos por sujeitos
psicanalisados, ainda que contribuam em pequena medida à experiência
psicanalítica; pela crítica de suas indicações nos seus resultados — pela expe­
rimentação dos termos categóricos e das estruturas que aí introduzi como
sustentáculos da urdidura da praxis freudiana — isto no exame clínico, nas
definições nosográficas, na própria posição dos projetos terapêuticos.
Aqui, mais três sub-seções:
• doutrina da cura e de seus variações;
• casuística;
• informação psiquiátrica e prospecção médica.
Um diretório para autentificar cada trabalho como sendo da Escola, tal que
sua composição exclua todo conformismo preconcebido.

3) SEÇÃO DE INVENTÁRIO DO CAMPO FREUDIANO. Assegurará em


primeiro plano a exposição e a censura crítica de tudo o que oferecem neste
campo as publicações que nele se pretendem autorizadas.
Tratará da atualização dos princípios dos quais a praxis analítica deve
receber seu estatuto na ciência. Estatuto que, tão particular quanto se deva enfim
reconhecê-lo, não poderia ser o de uma experiência inefável.
Ela convocará, enfim, tanto a instruir nossa experiência como a informá-la
daquilo que, instaurado pelo estruturalismo em certas ciências, possa esclarecer
a função do que demonstrei na nossa — e, em sentido inverso, o quê, de nossa
subjetivação, essas mesmas ciências puderem receber como inspiração comple­
mentar.
No limite, uma praxis da teoria é solicitada, sem a qual a.ordem das
afinidades que desenham as ciências que chamamos conjeturais ficará à mercê
dessa deriva política que cresce com a ilusão de um condicionamento universal.
Então, mais três sub-seções:
• comentário contínuo do movimento psicanalítico;
• articulação com as siências afins; •
• ética da psicanálise, que é a praxis de sua teoria.
O fundo financeiro constituído primeiro pela contribuição dos membros
da escola, pelas subvenções que obtiver eventualmente, além dos serviços que
garantirá enquanto Escola, será inteiramente reservado ao seu esforço de
publicação.
20

Em primeiro lugar, um anuário reunirá os títulos e o resumo dos trabalhos


da Escola, sem importar onde tenham sido publicados, no qual figurarão, por
simples solicitação, todos os que nela terão estado em função.
A adesão à Escola se dará mediante a apresentação em um grupo de
trabalho constituído como já dissemos.
A admissão será decidida a princípio por mim mesmo, sem que eu leve em
conta as posições tomadas por qualquer pessoa no passado em relação a mim,
certo como estou de que os que me deixaram terão sempre rancor de mim [m’en
voudront] por não poder retornar, pois não sou eu quem os odeia {leur en veux],
Minha resposta ao restante só concernerá ao que eu poderia presumir ou
constatar sobre o valor do grupo e do lugar que pretenda ocupar primeiramente.
A organização da Escola segundo o princípio de circulação que indiquei
será fixada pelos cuidados de uma comisssão, aprovada por uma primeira
assembléia plenária, que terá lugar em um ano. Essa comissão a elaborará, a
partir da experiência percorrida, no final do segundo ano, quando uma segunda
assembléia haverá de aprová-la.
Não é necessário que as adesões cubram o conjunto deste plano para que
funcione. Não preciso de uma lista numerosa, mas de trabalhadores decididos,
como sei desde agora.
21

NOTA ANEXA

Esta Ata de Fundação considera nulos os simples hábitos. Parecem, no


entanto, abertas certas questões-àqueles que ainda se regem por esses hábitos.
Um guia do usuário, com sete títulos, dá aqui as respostas mais solicitadas,
— de onde se presumirá as questões que elas dissipam.

1) DODIDATA
Um psicanalista é didata a partir da realização de uma ou mais psicanálises
que se revelaram didáticas.
E um reconhecimento de fato, que se passou sempre assim nos fatos, não
dependendo de nada além de um anuário que confirme os fatos, sem que se
possa pretendê-lo exaustivo.
A utilização do consenso dos pares tornou-se caduca por haver permitido a
introdução recente do que se chama “a lista”, já que uma sociedade pôde utilizá-
la com fins que desconheciam, da maneira mais clara, as próprias condições da
análise a ser empreendida como análise em andamento.
Condições onde o essencial é que o analisado seja livre para escolher seu
analista.

2) DA CANDIDATURA À ESCOLA
Uma coisa é a candidatura a uma Escola; outra coisa, a qualificação de uma
psicanálise didática.
A candidatura à Escola exige uma seleção estabelecida segundo seus
objetivos de trabalho.
O cargo será preenchido, a princípio, por um simples comitê de recepção,
chamado Cardo, ou seja, dobradiça em latim, o que indica seu espírito.
Lembremo-nos de que a psicanálise didática só é exigida para a primeira
seção da Escola, embora seja desejável para todas.

3) DA PSICANÁLISE DIDÁTICA
A qualificação de uma psicanálise como didática foi feita, até o momento,
por meio de uma seleção, da qual, para julgá-la, é suficiente constatar que, desde
que existe, não permitiu articular nenhum de seus princípios.
Ninguém tem mais chance de se afastar no futuro, salvo rompendo
primeiro com um hábito que se presta ao desdém.
O único princípio certo a ser proposto, principalmente por ser desconhe­
cido, é o de que a psicanálise se constitui como didática pelo querer do sujeito, e
este deve ser advertido de que a análise questionará esse querer na medida em
que se aproxime do desejo que guarda em segredo.
22

4) DA PSICANÁLISE DIDÁTICA NA PARTICIPAÇÃO NA ESCOLA


Aqueles que empreendem uma psicanálise didática o fazem por iniciativa e
escolha próprias. O título 1) desta nota implica inclusive que eles podem estar
em posição de autorizar seu psicanalista como didata.
Mas a admissão na Escola lhes impõoe a condição de que se saiba que eles
se engajaram no empreendimento, onde e quando.
Pois a Escola, no momento em que o sujeito entra em análise, deve pesar
esse fato com a responsabilidade que não pode declinar de suas conseqüências.
É uma constante que a psicanálise tenha efeitos sobre toda prática do
sujeito que nela se engaja. Quando essa prática procede, por poucos que sejam os
efeitos psicanalíticos, acaba engendrando-os no lugar onde os deve reconhecer.
Como não perceber que o controle se impõe desde o momento em que
aparecem esses efeitos, e em primeiro lugar para proteger deles aquele que vem
em posição de paciente?
Alguma coisa aqui está em jogo com relação a uma responsabilidade que a
realidade impõe ao sujeito quando ele é um praticante; é a de assumir seus
riscos.
Fingir ignorar esse fato é a incrível função que se conserva na prática da
análise didática: supõe-se que o sujeito não pratica, ou se considera que viola
uma regra de prudência e até de honestidade. Que observando essa regra o
sujeito chegue a faltar à sua função, não está fora dos limites do que se passa, já
o sabemos, por outra parte.
A Escola não poderia abst^air-se desse desastroso estado de coisas em razão
do próprio trabalho para cuja garantia ela é feita.
E por isso que ela assegurará os controles que convenham à situação de
cada um, encarando uma realidade da qual faz parte a concordância do analista.
Inversamente, uma solução insatisfatória poderá motivar para ela uma
ruptura de contrato.

5) DO ENGAJAMENTO NA ESCOLA
O engajamento na Escola se dá agora por dois acessos.
1 - O grupo constituído por escolha mútua segundo a Ata de Fundação, e
que se chamará cartel, se apresenta à minha aprovação com o título do trabalho
que cada um pretenda realizar.
2 - Os indivíduos que queiram fazer-se conhecer por qualquer projeto
encontrarão o caminho útil junto a um membro do Cardo: os nomes dos
primeiros a aceitarem o cargo segundo minha demanda serão publicados antes
de 20 de julho. Eu mesmo encaminharei a um deles, que me fará a demanda.

6) DO ESTATUTO DA ESCOLA
Minha direção pessoal é provisória, embora prometida por quatro anos, os
quais nos parecem necessários para colocar a Escola em ação.
23

Se o seu estatuto é desde agora o da associação declarada na lei de 1901,


acreditamos que deveríamos, primeiro, fazer passar no seu movimento o estatuto
interno que será, num prazo fixado, proposto ao consenso de todos.
Lembremo-nos de que a pior objeção que se pode fazer às Sociedades da
forma existente é o esgotamento do trabalho, manifesto até na qualidade, que
cias causam em seus melhores participantes.
O sucesso da Escola se medirá pelo surgimento de trabalhos recebíveis em
seu lugar.

7) DA ESCOLA COMO EXPERIÊNCIA INAUGURAL


Este aspecto se impõe bastante, pensamos, na Ata de Fundação, e deixamos
a cada um descobrir suas promessas e seus obstáculos.
Aqueles que possam perguntar-se sobre o que nos guia, desvendaremos sua
razão.
O ensino da psicanálise só pode ser transmitido de um sujeito a outro
através de uma transferência de trabalho.
Os “seminários”, inclusive o nosso curso na H autes Etudes, nada fundarão
caso não reenviem a essa transferência.
Nenhum aparato doutrinário, e especialmente o nosso, tão propício quanto
possa ser à direção do trabalho, pode prejulgar as conclusões que serão seu resto.
PREÂM BULO

Pode-se levantar a questão, em primeiro lugar, da relação desta fundação


com o ensino, que não deixa sem garantia a decisão de seu ato.
Ficará estabelecido que, por mais qualificados que sejam os que estiverem
capacitados para discutir esse ensino, a Escola não depende dele e nem mesmo o
ministra, já que prossegue lá fora.
Se, para esse ensino, com efeito, a existência de uma audiência que ainda
não tomou sua dimensão foi revelada no mesmo movimento que impôs a Escola,
é ainda mais importante marcar o que os separa.
E scola F reu diana d e Paris — este título, reservado na Ata de Fundação,
anuncia as intenções de onde procede e com quem se relacionam seus termos.
Passemos pelo lugar do qual retomamos — não sem títulos para fazê-lo —
com a insígnia de origem o desafio que implica, já saudado por Freud: a Escola
se afirma, antes de mais nada, como freudiana, pelo fato — se é uma verdade,
que sem dúvida se sustenta numa presença paciente a reiterá-la, mas que por
esse efeito se tornou consciência da área francesa — de que a mensagem
freudiana ultrapassa em muito, na sua radicalidade, o uso que fazem os prati­
cantes de obediência anglófona [anglophon e].
Mesmo se se dá uma mão, na França e em outros lugares, a uma prática
mitigada pela irrupção de uma psicoterapia associada às necessidades de higiene
social, este é um fato ao qual nenhum praticante deixa de mostrar seu mal-estar
ou sua aversão, e até mesmo desdém ou horror, na medida em que surgem
ocasiões em que se deve imergir no lugar aberto onde a prática aqui denunciada
toma forma imperialista: conformismo do alvo, barbarismo da doutrina,
regressão culminada num puro e simples psicologismo — tudo isso mal com­
pensado pelo promoção de um clericato fácil de caricaturar, mas que na sua
constrição é claramente o resto que testemunha a formação pela qual a psica­
nálise não se dissolve naquilo que ela propaga.
Discordância, cuja imagem se tem na evidência que surge ao interrogar se
não é verdade que, em nossa época, a psicanálise está em toda parte — e os
psicanalistas em outro lugar.
Pois não é em vão que possamos surpreender-nos de que o simples nome
de Freud, pela esperança de verdade que ele conduz, tenha dimensão para
enfrentar-se com o nome de Marx, suspeita não dissipada, embora seja patente
que o abismo é impossível de colmar; que na via entreaberta por Freud poderia
perceber-se a razão pela qual o marxismo fracassa ao explicar um poder cada vez
mais desmesurado e mais louco quanto ao político, se é que não tem um efeito
de relançamento de sua contradição.
Que os psicanalistas sejam incapazes de julgar os males onde se banham —
mas se sintam aí em falta — é o suficiente para explicar que respondam com um
enquistamento do pensamento. Demissão que abre o caminho para uma falsa
complacência, portadora para o beneficiário dos mesmos efeitos que teria uma
f.

25

verdadeira; nesse caso, a etiqueta que eles degradam com termos que têm sob
sua guarda para o empreendimento que não é, de forma alguma, a mola-mestra
da economia reinante, mas é cômodo o acondicionamento daqueles que em­
prega, mesmo nos altos escalões: a orientação psicológica e seus diversos ofícios.
Assim, a psicanálise está demasiadamente à espera e os psicanalistas
demasiadamente fora de prumo para que possam desatar o suspense em outro
lugar que não seja o próprio ponto do qual se afastaram: a saber, na formação de
psicanalista.
Não é que a Escola não disponha daquilo que lhe assegura não romper
nenhuma continuidade: a saber, psicanalistas irrepreensíveis sob qualquer ponto
de vista, já que lhes teria bastado, assim como para o resto dos sujeitos formados
por. Lacan, renegar seu ensino para serem reconhecidos por uma certa “Inter­
nacional”, e é notório que só deve à sua escolha é ao seu discernimento o fato de
terem renunciado a esse reconhecimento.
E a Escola que volta a questionar os princípios de uma habilitação patente e
do consentimento daqueles que notoriamente a receberam.
No que se afirma ainda freudiana, o termo Escola vem agora a nosso exame.
Deve ser tomado no sentido que nos tempos antigos queria dizer certos
lugares de refúgio, e até bases de operação contra o que já podia chamar-se de
mal-estar na civilização.
Se nos limitarmos ao mal-estar da psicanálise, a Escola pretende dar seu
campo não somente a um trabalho de crítica: à abertura do fundamento da
experiência, ao questionamento do estilo de vida no qual ela desemboca.
Os que se engajam aqui sentem-se o bastante sólidos para enunciar o estado
de coisas manifesto: que a psicanálise atualmente não tem nada mais seguro para
valorizar seu ativo do que a produção de psicanalistas — deixando esse balanço
bastante a desejar.
Não se trata de nos estarmos deixando levar por alguma auto-acusação.
Estamos conscientes de que os resultados da psicanálise, mesmo cm seu estado
de duvidosa verdade, têm aspecto mais digno do que as flutuações da moda ou
as premissas cegas nas quais se fiam tantas terapêuticas no domínio em que a
medicina não terminou de se delimitar quanto aos critérios (os da recuperação
social são isomorfos aos da cura?), e parece até atrasada quanto à nosografia:
dizemos a psiquiatria, transformada numa questão para todos.
É até muito curioso ver como a psicanálise serve aqui de pára-raios. Como,
sem ela, se levaria a sério aquilo que se orgulha de opor-se-lhe? Daí um statu
qu o no qual o psicanalista fica à vontade mesmo que se saiba de sua insufi­
ciência.
A psicanálise se distingue, no entanto, por permitir um acesso à noção de
cura em seu domínio, ou seja: devolver seus sentidos aos sintomas, dar lugar ao
desejo que eles mascaram, retificar de modo exemplar a apreensão de uma
relação privilegiada — ainda poderíamos ilustrar distinções de estrutura que
exigem as formas de enfermidade, reconhecê-las nas relações do ser que
demanda e que se identifica com essa demanda e com essa identificação.
26

Ainda seria necessário que o desejo e a transferência que as animam


tivessem motivado aqueles que têm a experiência disso, até tornar intoleráveis
os conceitos que perpetuam uma construção do homem e de Deus onde
entendimento e vontade se distinguem de uma pretensa passividade do primeiro
modo, à arbitrária atividade que se atribui ao segundo.
A revisão que do pensamento chama as conexões ao desejo, que Freud
impõe ao psicanalista, parece estar além de seus meios. Sem dúvida, estes se
eclipsam pelos cuidados que os reduzem à debilidade daqueles que são socor­
ridos por ele.
Há um ponto, todavia, em que o problema do desejo não pode ser esca­
moteado: é quando se trata do próprio psicanalista.
E nada é mais típico da tagarelice do que aquilo que dá validade a esta
proposta: é isso que condiciona a segurança de sua intervenção.
Perseguir nos álibis o desconhecimento que se abriga em papéis falsos
exige o encontro do que há de mais valioso numa experiência pessoal com
aqueles que o intimarão a confessar-se, considerando-a um bem comum.
As próprias autoridades científicas são aqui reféns de um pacto de carência
que faz com que não seja de fora que se deva esperar uma exigência de controle,
que estaria na ordem do dia em todos os lugares, alhures.
Este é um assunto unicamente daqueles que — psicanalistas ou não — se
interessam pela psicanálise em ato.
E a eles que se abre a Escola, para que ponham à prova seu interesse — não
lhes estando interdito elaborar a sua lógica.

Jacques Lacan
PARTE III

PROPOSIÇAO DE
9 DE OUTUBRO DE 1967

Publicada em Scilicet nQ1, Paris, du Seuil, 1968.


PR O PO SIÇÃ O SOBRE O PSICANALISTA DA ESCOLA

Antes de lê-la, ressalto que deve ser ouvida tendo


como fundo a leitura, a fazer ou refazer, do meu artigo:
“Situação da psicanálise e formação do psicanalista
em 1956” (páginas 419 — 486 de meus Écríts).

Tratar-se-á de estruturas estabelecidas na psicanálise e dev garantir sua


efetuação no psicanalista.
Isto se oferece à nossa Escola após duração suficiente de órgãos esboçados
sobre princípios limitativos. Instituímos algo novo só no funcionamento . Na
verdade, é dali que aparece a solução do problema da Sociedade psicanalítica.
Que se encontra na distinção entre hierarquia e gradus..
Produzirei no começo deste ano este passo construtivo:
1) produzi-lo — mostrá-lo a vocês;
2) colocá-los em situação de produzir seu aparato, que deve reproduzir
este passo nestes dois sentidos.
Recordemos o que existe entre nós.
Primeiro, um princípio: o psicanalista só se autoriza por si mesmo. Este
princípio está inscrito nos textos originais da Escola, e decide sua posição.
Isto não exclui que a Escola garanta que um analista depende de sua
formação.
Ela pode fazê-lo por si mesma.
E o analista pode querer essa garantia, coisa que, a partir de então, deve
necessariamente ir além: tornar-se responsável pelo progresso da Escola, tornar-
se psicanalista da sua própria experiência.
Nessa perspectiva, se reconhece que a partir de agora é a estas duas formas
que respondem:
I — o A.M.E., ou analista membro da Escola, constituído simplesmente
pelo fato de que a Escola o reconhece como psicanalista que deu suas provas.
Isto é o que constitui a garantia vinda da Escola, distinguida em primeiro
lugar. A iniciativa também retorna à Escola, em cuja base se é admitido
unicamente por um projeto de trabalho, sem distinções de proveniência ou
qualificações. Um analista-praticante só é registrado, a princípio, a mesmo título
com que nela se inscreve um médico, um etnologista e tutti-quanti.
II — O A.E., ou analista da Escola, ao qual se atribui ser daqueles que
podem dar testemunho dos problemas cruciais nos pontos críticos em que se
encontram para a análise, especialmente na medida em que eles mesmos estão
na tarefa, ou pelo menos na via de resolvê-los.
Esse lugar implica que se queira ocupá-lo: só se pode estar aí havendo-se
demandado de fato, se é que não se o fez formalmente.
30

Que a Escola possa garantir a relação do analista com a formação que ela
ministra, está então estabelecido.
Ela pode, e portanto deve fazê-lo.
É aqui que aparece o defeito [défaut]1, a falta [m an q u e] de inventividade
para exercer um ofício (por exemplo, aquele do qual se vangloriam as sociedades
existentes), encontrando assim caminhos diferentes que evitem os inconve­
nientes (e os prejuízos) do regime dessas sociedades.
A idéia de que é necessária a manutenção de um regime semelhante para
regulamentar o gradus deve ser destacada em seus efeitos de mal-estar. Esse mal-
estar não basta para justificar a manutenção da idéia. E meriossainda seu retorno
prático.
A existência de uma regra do gradus está ainda mais implicada numa
Escola, certamente, do que numa sociedade. Pois, afinal, numa sociedade não há
necessidade disso, quando a sociedade não tem outros interesses além dos
científicos.
Mas há um real em jogo na própria formação do psicanalista. Sustentamos
que as sociedades existentes se fundam sobre esse real.
Partimos também do fato, que parece verossímil, de que Freud as quis
assim como elas são.
O fato não é menos patente — e para nós concebível — que esse real
provoque o seu próprio desconhecimento, e inclusive produza sua negação
sistemática.
E claro, então, que Freud assumiu o risco de uma certa detenção. Talvez
mais: que ele a tenha considerado a única proteção possível para evitar a
extinção da experiência.
Que nos defrontemos com a questão assim colocada, não é privilégio meu.
É a conseqüência, digamo-lo pelo menos para os analistas da Escola, da opção
que fizeram pela Escola.
Estão nela agrupados por não haverem querido, mediante um voto, aceitar
o que este implicava: a pura e simples sobrevivência dejum ensino, o de Lacan.
Todo aquele que siga dizendo alhures que se tratava da formação de
analistas, mentiu. Pois bastou que-se votasse no sentido querido pela I.P.A. para
que obtivessem seu ingresso nela a todo vapor, com a ablução recebida por um
curto tempo de uma sigla m ad e in English (não se esquecerá o french-group).
Meus analisados, como se diz, foram até especialmente bem-vindos, e o
seriam ainda se o resultado pudesse ser o de fazer-me ficar calado.
Isto é recordado todos os dias a quem quiser escutar.
É então a um grupo para o qual meu ensino era suficientemente precioso,
inclusive essencial, a ponto de que cada um, deliberando, tenha marcado
preferir sua manutenção à vantagem oferecida — isto sem ver mais longe, da
mesma forma que, sem ver mais longe, eu interrompia meu seminário depois do

(1) Note-se que défau t admite as traduções: “defeito” e “falta”, o que matiza notavelmente
as frases seguintes (N.T.)
31

mencionado voto — , é a esse grupo com dificuldades para encontrar uma saída
que ofereci a fundação da Escola.
Nessa escolha, decisiva para os que estão aqui, marca-se o valor da aposta.
Pode haver aí uma aposta que tenha para alguns suficiente valor a ponto de ser-
lhes essencial, e é o meu ensino.
Se dito ensino é sem rival para eles, o é para todos, como demonstram
aqueles que se lançam aí sem ter pago seu preço, ficando-lhes suspensa a
questão do lucro que lhes é permitido.
Sem rival aqui não quer dizer uma estimativa, mas um fató: nenhum ensino
fala do que é a psicanálise. Em outros lugares, e de forma explícita, só existe a
preocupação de que esta seja conforme as normas [elíe soit conform e]. ®
Existe solidariedade entre a pane, inclusive os desvios que a psicanálise
mostra, e a hierarquia que nela reina, — e que nós designamos, benevolente­
mente, nos permitirão dizer, como a de uma cooptação de sábios.
A razão disso reside em que essa cooptação promove um retomo a um
estatuto da prestância, conjugando a pregnância narcisista com a astúcia
competitiva. Retorno que restaura, pelos reforçamentos do relapso, aquilo que a
psicanálise didática tem por fim liquidar.
É o efeito que põe sua sombra sobre a prática da psicanálise — cuja
terminação, objeto, e inclusive meta se revelam inarticuláveis após meio século
pelo menos de experiência continuada.
Remediá-lo entre nós deve fazer-se a partir da constatação do defeito
[défaut] que assinalei, longe de pensar em ocultá-lo.
Mas é para tomar nesse defeito [défaut] a articulação que falta [manque].
Ela não faz outra coisa senão recortar o que se encontrará em qualquer
lugar, e que é sabido desde sempre — não é suficiente a evidência de um dever
para cumpri-lo. É pelo viés de sua hiância Ibéance] que ele pode ser posto em
ação, e o é todas as vezes que se encontra o meio para usá-lo.
Para introduzi-los nisso, me apoiarei nos dois momentos da junção do que
chamarei respectivamente, nesta dedução, de psicanálise em extensão — quer
dizer, tudo o que resume a função de nossa Escola na medida em que ela
presentifica a psicanálise no mundo, — e a psicanálise em intensão, ou seja, a
didática, — na medida em que não faz outra coisa senão preparar aí operadores.
Esquece-se, com efeito, sua razão de ser pregnante, que é a de constituir a
psicanálise como experiência original, levá-la até o ponto que representa a sua
finitude para permitir-lhe o aprés-coupz, efeito de tempo que, sabemos, lhe é
radical.
Essa experiência é essencial ao isolá-la da terapêutica, que não distorce a
psicanálise apenas por relaxar seu rigor.

(2) A prés-coup: a expressão, considerada geralmente como o equivalente lacaniano do


N achträglich de Freud, é em geral traduzida por a p osteriori. Dada a especificidade da
noção de tempo lógico em Lacan, no entanto, optamos por mantê-la em francês, inclusive
por ser comum a utilização de termos franceses no Brasil. Betty Milan propõe a expressão
“só depois” para traduzi-la (cf. O Sem inário, livro 1 — Ed. Zahar, Rio) (N.T.).

wsk.
32

Farei a observação, com efeito, de que não hã definição possível da


terapêutica que não seja a de restituição de um estado inicial. Definição
justamente impossível de ser posta na psicanálise.
No que se refere ao prím um non n o cere3 não falemos disso, pois é
movediço ao não poder ser determinado prím um de início: a quê escolher não
causar dano! Tentem. E muito fácil nessa condição colocar no ativo de uma cura
qualquer o fato de não ter causado dano a alguma coisa. Este traço forçado só
tem o interesse de possuir, sem dúvida, uma lógica indecidível [in d écid ab le].
Acha-se concluído o tempo no qual ao que se tratava de não causar dano
era à entidade mórbida. Mas o tempo do médico está mais interessado nessa
revolução do que costumamos crer — em todo caso, tornou-se mais precária a
exigência daquilo que determina um ensino como médico ou não. Digressão.
Nossos pontos de junção, nos quais devem funcionar nossos órgãos de
garantia, são conhecidos: trata-se do começo e do fim da psicanálise, assim como
dos fracassos. Por sorte estes são os mais exemplares para a sua estrutura. Tal
sorte deve depender daquilo que chamamos o encontro.
No começo da psicanálise, está a transferência. Está lá graças ao que
chamaremos na orla destas palavras: o psicanalisante4. Não temos que prestar
contas do que o condiciona. Pelo menos aqui. Está no começo. Mas, o que é?
Estou espantado por ninguém haver pensado nunca, tendo em vista certos
termos da minha doutrina, em constestar-me dizendo que a transferência é, em
si mesma, uma objeção à intersubjetividade. Eu o lamento, já que nada é mais
verdadeiro: ela a refuta, é uma pedra no seu caminho. De maneira que para
estabelecer o fundo sobre o qual se pudesse perceber o contraste, promovi
primeiro aquilo que o uso da palavra implica de intersubjetividade. Este termo
foi assim um modo, um modo como outro qualquer, eu diria, se não me tivesse
sido imposto para circunscrever o alcance da transferência.
Daí que, no lugar onde se requer justificar sua sina universitária, é comum
apoderar-se do tal termo, do qual se supõe — sem dúvida por ter sido utilizado
por mim — que é levitatório. Mas quem me lê pode observar o “em reserva” com
que faço participar essa referência da concepção da psicanálise. Isso faz parte
das concessões educativas que tive que fazer ao contexto de ignorantismo
fabuloso em que tive que proferir meus primeiros seminários.
Pode-se duvidar agora de que, ao referir ao sujeito do cogito aquilo que o
inconsciente nos descobre, ao haver definido a distinção entre o outro
imaginário, chamado familiarmente de pequeno outro, e o lugar de operação da

(3) Prímum non n ocere (latim): o primeiro é não causar dano (N.T.).
(4) Isso que se chama comumente: o psicanalisado, por antecipação (Nota d e Jacq u es
Lacan).
Em francês: le psy ch an aly san t. O termo “psicanalisante”, além de ser mais fiel ao
original, sugere uma intervenção mais ativa que o gerúndio “psicanalisando”, tão comum
em português. Cf. analogias com termos presentes no vocabulário lacaniano como
“amante”, “passante”, etc. (N.T.).
33

linguagem colocado como grande Outro, eu indico suficientemente que nenhum


sujeito pode ser suposto [su p p osable] por outro sujeito, — se este termo deve
realmente ser tomado de Descartes. Que lhe faça falta Deus, ou melhor, a
verdade que ele lhe credita, para que o sujeito se aloje sob a mesma capa que
veste com enganadoras sombras humanas — que Hegel, ao retomá-lo, coloca a
impossibilidade da coexistência das consciências na medida em que se trata do
sujeito prometido ao saber — não é isto suficiente para pontuar a dificuldade, da
qual precisamente nosso impasse, o do sujeito do inconsciente, oferece a solução
— a quem sabe formá-la ? -. - _ ~ .v..:.- ,
É verdade que aqui Jean-Paul Sartre, bem capaz de perceber que a luta à
morte não é essa solução, já que não se poderia destruir uín. sujeito, e que ela
está também em Hegel em seu nascimento preposto, pronuncia, portas fechadas
[à huis-clos], a sentença fenomenológica: é o inferno. Mas como isso é falso, e de
maneira legislável [justiciable] na estrutura, mostrando bem o fenômeno que o
covarde, se não está louco, pode arranjar-se perfeitamente com o olhar que o
fixa, essa sentença prova também que não é só nos ágapes de direita que o
obscurantismo tem sempre a mesa posta.
O sujeito suposto saber é para nós o pivô no qual se articula tudo o que se
relaciona com a transferência. Cujos efeitos escapam ao recorrer-se, para pinçá-
los, ao p u n 5 bem sem jeito de estabelecer-se, da necessidade de repetição à
repetição da necessidade.
Aqui, o levitante da intersubjetividade mostrará sua fineza para interrogar:
sujeito suposto por quem? senão por outro sujeito.
Uma lembrança de Aristóteles, uma gota das categorias, imploremos, para
limpar do subjetivo esse sujeito. Um sujeito não supõe nada, é suposto.
Suposto, nós o ensinamos, pelo significante que o representa para outro
significante.
Escrevamos como corresponde o suposto desse sujeito, colocando o saber
em seu lugar de adjacência da suposição.

S > S“
j ( s l s 2, . . . , S n)

Reconhecemos na primeira linha o significante S da transferência, ou seja,


de um sujeito, com sua implicação de um significante que chamaremos
“qualquer”, isto é, que só supõe a particularidade no sentido de Aristóteles
(sempre bem-vindo), que por este fato supõe ainda outras coisas. Se é nomeável
mediante um nome próprio, não o é porque se distinga pelo saber, como
veremos.

(5) Pun (inglês): jogo de palavras, articulado por homonímias e/ou homofonias, do qual a
própria frase em francês é um exemplo:... à fa ir e p in c e p o u r le s saisir du pun... (N.T.)
34

Sob a barra, mas reduzida esta ao palmo supondo [supposaní]6 do primeiro


significance: o s representa o sujeito que disso resulta, implicando no parêntese o
saber, suposto presente, dos significantes no inconsciente, significação que
ocupa o lugar do referente ainda latente nessa relação terceira que o junta
[adjoint] ao par significante-significado.
Vê-se que, se a psicanálise consiste* na manutenção 'd e uma situação
pactada entre dois participantes [partenaires] que nela se colocam como o
psicanalisante e o psicanalista, só pode desenvolver-se às custas do constituinte
ternário que é o significante introduzido no discurso que nela se instaura, o qual
tem um nome: o sujeito suposto saber, formação não de artifício mas de veia [c/e
veine], como destacada do psicanalisante. íí
Temos que ver o que qualifica o analista para responder a essa situação, da
qual vemos que não envolve a sua pessoa. Não só o sujeito suposto saber não é
real, com efeito, mas não é absolutamente necessário que o sujeito em atividade
na conjuntura, o psicanalisante (único a falar de início), lhe faça imposição
deste.
E inclusive tão pouco necessário que, em geral, não é verdade: o que
demonstra, nos primeiros tempos do discurso, uma forma de se assegurar de que
o terno não cabe no psicanalista — garantia contra o temor de que ele, se posso
dizê-lo, faça aí suas pregas cedo demais.
O que nos importa aqui é o psicanalista em sua relação com o saber do
sujeito suposto, não segunda, e sim direta.
E claro que, do saber suposto, não sabe nada. O Sq da primeira linha nada
tem a ver com os S em cadeia da segunda, e só pode achar-se aí por acaso [par
rencon tre]. Apontemos este fãto para reduzir' assim a estranheza ante a
insistência de Freud em recomendar-nos abordar cada caso novo como se nada
houvéssemos adquirido de seus primeiros deciframentos.
Isso não autoriza em absoluto o psicanalista a contentar-se com saber que
não sabe nada, pois do que se trata é do que tem que saber.
O que ele tem que saber pode ser inarcado.com o mesmo aspecto "em
reserva” segundo o qual opera toda lógica digna desse.nppie. Isso não quer dizer
nada de “particular”, mas se articula em cadeia de letras tão rigorosa que, sob a
condição de que não falte nenhuma [n’en p a s rater une], o não-sabido se ordena
como moldura do saber.
0 surpreendente é que com isso se encontre algo, os números transfinitos
por exemplo. Que era deles, antes? Indico aqui sua relação com o desejo que
lhes deu consistência. E útil pensar na aventura de um Cantor, aventura que não
foi precisamente gratuita, para sugerir a ordem — ainda que não seja, por sua
parte, transfinita — em que se situa o desejo do analista.

(6) S u pposan t — aquele que supõe; não havendo equivalente em português, utilizamos o
gerúndio "supondo”, que em francês tem a mesma forma. Observe-se a etimologia do
verbo supor (idêntica em ambos idiomas): p ô r sob — que certamente Lacan teve em conta
ao construir as noções que o incluem (N.T.).
35

Essa situação mostra pelo inverso a comodidade aparente com que se


instalam nos postos de direção das sociedades existentes o que deve ser
chamado de nadas [des néants]. Entendam-me: o importante não é a forma com
que esses nadas se ornamentam (discurso sobre a bondade?) para o exterior, nem
a disciplina que supõe o vazio conservado no interior (não se trata de bobagem);
é que esse nada (do saber) é reconhecido por todos, objeto usual, se podemos
dizer assim, para os subordinados, e moeda corrente de sua apreciação dos
Superiores.
A razão disso se encontra na confusão sobre o zero, ondè sé permanece
num campo no qual ela não é conveniente. Ninguém que se preocupe, no
gradus, em ensinar o que distingue o vazio do nada — que entretanto não são
parecidos —, ou o traço de referência para a medida do elemento neutro
implicado no grupo lógico, nem tampouco a nulidade da incompetência, do não-
marcado da ingenuidade, de onde tantas coisas tomariam seu lugar.
E para enfrentar essa carência que produzi o oito interior, e, em geral, a
topologia na qual se sustenta o sujeito.
O que deve dispor um membro da Escola a semelhantes estudos é a pre­
valência que vocês podem apreender no algoritmo produzido mais acima, que
não persiste menos pelo fato de ser ignorado, prevalência manifesta onde quer
que esteja: tanto na psicanálise em extensão como naquela em intensão, daquilo
que chamarei saber textual para contrapor à noção referencial que a mascara.
De todos os objetos que a linguagem não propõe somente ao saber, mas que
colocou primeiro no mundo da realidade, da realidade da exploração inter-
humana, não podemos dizer que o psicanalista seja especialista. Seria melhor,
mas de fato ocorre muito pouco.
O saber textual não era parasita por ter animado uma lógica na qual a nossa
encontra lições, para sua surpresa (falo daquela da Idade Média), e não é às suas
custas que ela soube enfrentar a relação do sujeito com a Revelação.'
Não é porque o valor religioso desta tornou-se indiferente para nós que seu
efeito na estrutura deve ser negligenciado. A psicanálise tem a consistência dos
textos de Freud — isso é um fato irrefutável. Sabemos o quê, de Shakespeare a
Lewis Carroll, os textos trazem a seu gênio e a seus praticantes.
Eis o campo onde se discerne quem admitir em seu estudo. E aquele do
qual o sofista e o talmudista, o transmissor de histórias e o aedo extraíram sua
força, que a cada instante recuperamos meio desajeitadamente para nosso uso.
Que um Lévi-Strauss, em suas mitológicas, dê a ele seu estatuto científico,
é para facilitar-nos efetivamente a que o convertamos em umbral para nossa
seleção.
Lembremos o guia que meu grafo proporciona à análise e à articulação que
daí se isolado desejo nas instâncias do sujeito.
É para apontar a identidade do algoritmo aqui precisado com o que é
conotado no B an qu ete como ayaX[ia7.
(7) Agálmatas, objetos inestimáveis que Alcebíades deseja em Sócrates, como descreve
Platão em O Banquete. Cf. os extensos comentários de Lacan sobre o tema no Seminário
VIII (N.T.).
36

Em que lugar se disse melhor do que o faz ali Alcebíades que as armadilhas
do amor de transferência não têm outro fim senão o de obter aquilo sobre o qual
pensa que Sócrates é o continente ingrato?
Mas quem sabe melhor do que Sócrates que ele só possui a significação que
ele engendra ao reter esse nada, o que lhe permite remeter Alcebíades ao
destinatário presente de seu discurso, Agatão (como por acaso): isso para
ensinar-lhes que, ao obsecar-se pelo que lhes concerne do discurso do
psicanalisante, vocês ainda não estão aí.
Mas isso é tudo? quando aqui o psicanalisante é idêntico ao cryocX|ia, a ma­
ravilha que nos ofusca, a nós, terceiros, em Alcebíades. Não é para nós a ocasião
de ver ali isolar-se o puro viés do sujeito como relação livre ao significante,
aquele do qual se isola o desejo do saber como desejo do Outro?
Como todos esses casos particulares que constituem o milagre grego, este só
nos apresenta a caixa de Pandora fechada. Aberta, é a psicanálise, da qual
Alcebíades não tinha necessidade.

Com o que chamei o fim de partida, nos encontramos — enfim — no cora­


ção de nosso discurso [propos] desta noite. A terminação da análise, chamada
redundantemente de didática, é a passagem, com efeito, do psicanalisante a
psicanalista.
Nosso propósito [propos] acerca dela é produzir uma equação cuja
constante é o ayaXiia.
O desejo do analista é a sua enunciação, que só poderia operar-se se ele
vem aí em posição do x :
Este x mesmo, a cuja solução o psicanalisante entrega seu ser, e cujo valor
se anota (-cp), a hiância [béance] que se designa como função do falo ao isolá-la
no complexo de castração, ou (a) para aquilo que a obtura com o objeto que se
reconhece sob a função aproximada da relação pré-genital. (É ela que o caso
Alcebíades anula: o que conota a mutilação dos Hermes)
A estrutura assim abreviada lhes permite fazer uma idéia do que ocorre ao
termo da relação de transferência, ou seja: quando o desejo, estando resolvido
quem sustentou o psicanalisante em sua operação, já não tem finalmente
vontade de levantar sua opção, quer dizér, o resto que, determinando sua
divisão, o faz cair de seu fantasma e o destitui como sujeito.
Não é esse o grande m otus 8 que devemos guardar conosco, do qual nós,
analistas, extraímos nossa suficiência, enquanto que a beatitude se oferece para
além de esquecê-lo nós mesmos?
Não iríamos nós, ao enunciar isto, desencorajar os amadores? A destituição
subjetiva inscrita no ticket de entrada..., não será provocar o horror, a indig­
nação, o pânico e até o atentado, em todo caso dar o pretexto para a objeção de
princípio?

(8) Motus (latim) : movimento, agitação, abalo, revolta, paixão, entusiasmo, revolução
política, etc. (N.T.)
37

Só que interditar o que se impõe de nosso ser é oferecermo-nos a um


retorno de destino que é maldição. O que é rechaçado [refusé]Q no simbólico,
recordemos o veredicto lacaniano, reaparece no real.
No real da ciência que destitui o sujeito de modo bem diferente em nossa
época, quando só seus integrantes mais eminentes, um Oppenheimer, enlou­
quecem por isso.
Eis onde nos demitimos daquilo que nos torna responsáveis, a saber: a
posição na qual fixei a psicanálise em sua relação com a ciência, a de extrair a
verdade que lhe responde em termos cujo resto de voz nos é atribuído.
Com que pretexto abrigamos esse rechaço, quando bem sabemos da
despreocupação que protege juntos verdade e sujeitos, e que, ao prometer aos
segundos a primeira, isto só mexe com os que já estão próximos. Falar de
destituição subjetiva nunca deterá o inocente, que não tem outra lei senão o seu
desejo.
Não temos outra escolha a não ser enfrentar a verdade ou ridicularizar
nosso saber.

Essa sombra espessa que recobre a junção [raccord] que me ocupa aqui —
aquela em que o psicanalisante passa a psicanalista — eis o que nossa Escola
pode dedicar-se a dissipar.
Não estou mais longe do que vocês nessa obra, que não pode ser conduzida
a sós, posto que a psicanálise constitui o seu acesso;
Devo contentar-me aqui com precedê-la com um ou dois flash es.
Na origem da psicanálise, como não recordar aquilo que Mannoni
finalmente produziu entre nós: que o psicanalista é Fliess, quer dizer, o medi-
castro, o coçador de narizes, o homem a quem se revelam o princípio macho e o
princípio fêmea nos números 21, 28: não lhes desagrada, em suma, esse saber
que o psicanalisante — Freud, o cientificista, como se exprime a boquinha das
almas abertas ao ecumenismo — rejeita [rejette] com toda a força do juramento
que o liga ao programa de Helmholtz e de seús cúmplices'.'
Que esse artigo haja sido entregue a uma revistá que não permitia de modo
algum que o termo "sujeito suposto saber” aparecesse, a não ser perdido no meio
de uma página, não o despojado valor que pode ter para nós.
Em nos recordando “a análise original”, ele nos remete à base da dimensão
de miragem em que se assenta a posição do psicanalista, e nos sugere que não é

(9) R efusé — termo que parece estar aqui descrevendo o mecanismo da forclu sion
(Verwerfung em Freud), segundo o veredicto lacaniano: o forcluído no simbólico,
reaparece no real. Neste caso, seria esperável encontrar aí a forma fo r c lo s em lugar de
refusé, já que se trataria da psicose.

Utilizamos o verbo rechaçar, entretanto, não impregnado por usos anteriores, levados pela
mesma oscilação que se observa em Lacan quanto ao mecanismo e ao fenômeno descritos.
Cf. nota (10) (N.T.).
38

seguro que esta seja reduzida enquanto uma crítica científica não houver sido
estabelecida em nossa disciplina.
O título se presta à observação de que a verdadeira original só pode ser a
segunda, ao constituir a repetição que da primeira faz um ato, já que é ela que
introduz aí o aprés-cou p característico do tempo lógico, que se marca pelo fato
de que o psicanalisante passou a psicanalista. (Quero dizer o próprio Freud, que
sanciona aí não haver feito uma auto-análise).
Permito-me, por outro lado, lembrar a Mannoni que a escansão do tempo
lógico inclui o que chamei momento de compreender, justamente do efeito
produzido (que ele retome o meu sofisma) pela não-compreensão, e que
eludindo em suma o que coiístitui a alma do seu artigo, ajuda a que se o com­
preenda desviadamente.
Lembro aqui que qualquer um por nós recrutado na base de “compreender
seus doentes” se engaja em um mal-entendido que não é sadio como tal.

Flash agora em nossa situação atual. Com o fim da análise hipomaníaca,


descrita pelo nosso Balint como o último grito, é o caso de dizê-lo, da iden­
tificação do psicanalisante com o seu guia, — atingimos a conseqüência do
rechaço denunciado anteriormente (tortuoso rechaço [refus]: Verleugnung? 10)que
só deixa o refúgio da palavra de ordem, adotada atualmente nas sociedades
existentes, de aliança com a parte sadia do ego, que resolve a passagem a analista
atribuindo-lhe desde o início essa parte sadia. Para quê, então, sua passagem
pela experiência?
Essa é a posição das sociedades existentes. Ela relança o nosso discurso
[p ro p o s] em um além da psicanálise.
A passagem do psicanalisante a psicanalista tem uma porta da qual esse
resto que faz a sua divisão é a dobradiça, pois tal divisão não é outra senão a do
sujeito, do qual esse resto é a causa.
Nessa virada em que o sujeito vê soçobrar a segurança que tomava desse
fantasma, onde se constitui paxa cada um sua janela para o real, o que se percebe
é que a tomada do desejo não é mais que a de um des-ser [désêtre].
Nesse des-ser se desvela o inessencial do sujeito suposto saber, de onde o
psicanalista a vir se consagra ao ocycxfyia da essência do desejo, disposto a pagá-
lo reduzindo-se, ele e seu nome, ao significante qualquer.
Pois ele rejeitou o ser que não sabia a causa de seu fantasma no mesmo
momento em que, afinal, tornou-se esse saber suposto.
“Que ele saiba do que eu não sabia do ser do desejo, o que é dele, chegado
ao ser do saber, e que ele se apague”. Sicut p a lea " , como Thomas diz de sua
obra no final de sua vida — como esterco.

(10) R efus — Já aqui esse rechaço, ou repúdio, ou recusa, como poderia traduzir-se, está
referido explicitamente à Verleugnung, mecanismo descrito por Freud das perversões — o
qual é geralmente mencionado em francês como dénie. Cf. nota (9) (N.T.).
(11) Sicut p a le a (latim ): como a pragana (N.T.)
39

Assim o ser do desejo reencontra o ser do saber, para dele renascer


enlaçando-se ambos numa fita feita da única borda, na qual se inscreve uma
única falta, aquela que o sustenta.
A paz não vem selar imediatamente essa metamorfose em que o parceiro se
esvaece por não ser mais do que um vão saber de um ser que se esquiva.
Sentimos aí a futilidade do termo liquidação para designar esse buraco
onde a transferência se resolve exclusivamente. Só vejo nisso, contra toda a
aparência, denegação [dénégation] do desejo do a n a l i s t a . -
Pois quem, divisando os dois parceiros girarem nas minhas últimas linhas
como as asas de um cata-vento, pode não captar que a transferência nunca foi
outra coisa senão o pivô dessa mesma alternância?
Assim, de quem recebeu a chave do mundo na fenda da impúbere, o
psicanalista já não tem que esperar um olhar, mas se vê tornar-se uma voz.
E esse outro que, criança, encontrou seu representante representativo em
sua irrupção através do jornal aberto, do qual se protegia o despejo dos esgotos
dos pensamentos de seu genitor, remete ao psicanalista o efeito de angústia onde
ele oscila em sua própria dejeção.
Assim, o fim da psicanálise guarda em si uma ingenuidade acerca da qual
se coloca a questão de se este deve ser tomado como uma garantia na passagem
ao desejo de ser psicanalista.
De que lugar poderia então ser esperado um testemunho justo sobre aquele
que franqueia esse passe, senão de um outro que, como ele, o é, ainda, esse
passe, quer dizer — em quem está presente nesse momento o des-ser onde seu
psicanalista guarda a essência do que lhe passou como um luto, sabendo assim,
como qualquer outro em função de didata, que também a eles isso já vai passar.
Quem poderia melhor do que esse psicanalisante no passe autentificar o
que ele tem da posição depressiva? Não expomos ao vento nada de que se possa
dar ares, se não se está aí.
E isso que lhes proporei de imediato como o ofício a confiar para a
demanda de tornar-se analista da Escola a alguns que nela denominaremos :
passadores [passeurs].
Cada um deles terá sido escolhido por um analista da Escola, que pode
responder pelo fato de que eles estejam nesse passe, ou tenham voltado a ele —
em suma, ainda ligados ao desatar de sua experiência pessoal.
E a eles que um psicanalisante, para fazer-se autorizar como analista da
Escola, falará de sua análise — e o testemunho que saberão colher do cerne
mesmo do próprio passado será daqueles que nenhum júri de aprovação [jury
d ’agrément] jamais recolhe. A decisão de tal júri se veria assim esclarecida,
ficando entendido, no entanto, que tais testemunhas não são juizes.
Inútil indicar que esta proposição implica uma acumulação da experiência,
sua compilação e elaboração, uma seriação de sua variedade e uma anotação de
seus graus.
Que possam surgir liberdades da clausura de uma experiência, eis o que
tem a ver com a natureza do aprés-coup na signiücância.
40

De qualquer jeito, essa experiência não pode ser evitada. Seus resultados
devem ser comunicados: primeiro à Escola, para críticas, e correlativamente
postos ao alcance dessas sociedades que, por haver-nos excluído, não deixam de
nos concernir.
O júri em funcionamento não pode então abster-se de fazer um trabalho de
doutrina, para além de seu funcionamento como seletor.

Antes de propor-lhes uma forma, quero indicar-lhes que, conforme a


topologia do plano projetivo, é no horizonte mesmo da psicanálise em extensão
que se enlaça o círculo interior que traçamos como hiância da psicanálise em
intensão.
Esse horizonte, gostaria de centrá-lo em três pontos de fuga perspectivos,
notáveis por pertencer, cada um deles, a um dos registro cuja colusão na
heterotopia constitui a nossa experiência.

No simbólico, temos o mito edípico.


Observemos, com relação ao núcleo da experiência sobre a qual acabamos
de insistir, o que tecnicam ente chamarei de facticidade desse ponto.
Corresponde, com efeito, a uma mitogenia, da qual se sabe que um dos
constituintes é sua redistribuição. Ora, o Édipo, ao ser aí ectópico (caráter
sublinhado por um Kroeber), levanta um problema.
Abri-lo permitiria restaurar, relativizar mesmo, seu caráter radical na
experiência.
Queria simplesmente enfocar minha lanterna sobre o fato de que — retirem
o Edipo, e a psicanálise em extensão, direi, cai totalmente na jurisdição
[justiciable] do delírio do presidente Schreber.
Controlem sua correspondência ponto por ponto, certamente não atenuada
depòis que Freud a assinalou, não declinando sua imputação. Mas deixemos o
que meu seminário sobre Schreber ofereceu àqueles que podiam entendê-lo.
Existem outros aspectos desse ponto relativos a nossas relações com o
exterior, ou, mais exatamente, com nossa extra-territorialidade — termo essen­
cial no Ecrit que considero como prefácio a esta proposição.
Observemos o lugar que toma a ideologia edípica para de algum modo
dispensar a sociologia de tomar partido — após um século, como devia ter feito
antes — acerca do valor da família, da família existente, da família pequeno-
burguesa na civilização — ou seja, na sociedade veiculada pela ciência. Nós nos
beneficiamos ou não com o que aí nos cobrimos sem sabê-lo?

O segundo ponto está constituído pelo tipo existente, cuja facticidade desta
vez é evidente, da unidade: sociedade de psicanálise enquanto coroada por um
executivo em escala internacional.
Já dissemos, Freud assim o quis, e o sorriso embaraçado com que retrata o
romantismo da espécie de Komintern clandestino ao qual deu, de início, carta
branca (cf. Jones, citado em meu Écrit), só faz sublinhá-lo mais.
41

A natureza dessas sociedades e a forma a que elas obedecem se esclarecem


através da promoção, por Freud, da Igreja e do Exécito como modelos do que ele
concebe como estrutura do grupo. (É com este termo, com efeito, que se deveria
traduzir hoje M asse de sua M assenpsychologiey2.
O efeito induzido da estrutura assim privilegiada se esclarece ainda mais se
acrescentarmos a função, na Igreja e no Exército, do sujeito suposto saber.
Estudo para quem quiser empreendê-lo: iria longe.
Mantendo-nos no modelo freudiano, aparece de forma evidente o favor que
nele merecem as identificações imaginárias e ao mesmo tempo a razão que
encadeia a psicanálise em intensão, a limitar a sua consideração e até o seu
alcance.
Um dos meus melhores alunos referiu muito bem seu traçado sobre o
próprio Édipo, ao definir a função do Pai ideal.
Tal tendência, como se diz, é responsável pela relegação ao ponto de
horizonte anteriormente definido daquilo que na experiência é qualificável de
edípico.
A terceira facticidade, real, demasiadamente real, bastante real para que o
real seja mais patamaz [béguele] para promovê-lo que a lingua, é o que torna
falável o termo: campo de concentração, sobre o qual parece-nos que nossos
pensadores, ao vagar do humanismo ao terror, não se concentraram o suficiente.
Abreviemos dizendo que o que vimos emergir daí, para nosso horror,
representa a reação dos precursores com relação ao que se irá desenvolvendo
como conseqüência da recomposição dos agrupamentos sociais pela ciência, e
especialmente pela universalização que ela introduz.
Nosso futuro de mercados comuns encontrará sua balança numa extensão
cada vez mais dura dos processos de segregação.
Deve-se atribuir a Freud o fato de ter querido, tendo em vista sua intro­
dução de nascença no modelo secular desse processo, assegurar em seu grupo o
privilégio da flutuabilidade universal, do qual se beneficiam as duas instituições
acima mencionadas? Não é impensável.
Seja como for, esse recurso não torna mais fácil situar-se nessa conjuntura o
desejo do analista.
Recordamos que, se a I.P.A. da M itteleuropa13 demonstrou sua pré-adap-
tação a essa prova, não perdendo nesses campos um único de seus membros, ela
deve essa proeza ao fato de ver produzir-se depois da guerra uma correria, que
não deixava de ter seu lado de desconto (cem psicanalistas medíocres, lembre­
mos-nos), de candidatos em cujo espírito não estava ausente o motivo de en­
contrar proteção contra a maré vermelha, fantasma de então.
Que a “coexistência", que poderia perfeitamente, também ela, esclarecer-se
com uma transferência, não nos faça esquecer um fenômeno que é uma de nos­

(12) Massenpsychologie und Ichanalyse — Psicologia das massas e análise de eu; Masse:
massa (N.T.).
42

sas coordenadas geográficas, é o caso de dizê-lo (e cuja magnitude é mascarada


pelos resmungos sobre o racismo).

O fim deste documento precisa o modo pelo qual poderia ser introduzido
aquilo que, abrindo uma experiência, só tende a tornar finalmente verdadeiras as
garantias buscadas.
Deixamo-las inteiramente nas mãos daqueles que tenham aquisição.
Não esqueçamos, entretanto, que eles são os que mais padeceram nas
provas impostas pelo debate com a organização existente.
Aquilo que o estilo e os fins dessa organização devem ao blecaute realizado
iaa função da psicanálise didática é evidente a partir do momento em que é
possível dar uma olhada nisso: daí o isolamento com que ela se protege.
As objeções que a nossa proposta encontrou não dependem, em nossa
Escola, de um temor tão orgânico.
O fato de que tenham sido exprimidas sobre um tema motivado já mobiliza
a auto-crítica. O controle das capacidade não é mais inefável por requerer mais
justos títulos.
E numa prova como essa que a autoridade se faz reconhecer.
Que o público dos técnicos saiba que não se trata de contestá-la, mas de
extraí-la da ficção.
A Escola freudiana não deveria cair no tough14 sem humor de um
psicanalista que encontrei em minha última viagem aos E.U.A.: “Eu não atacarei
jamais as formas instituídas, disse-me ele, porque elas me asseguram sem
problemas uma rotina que constitui o meu conforto”.

Jacques Lacan

(13) M itteleuropa (alemão) : Europa Central (N.T.).


(14) Tough (inglês); rebeldia, insubmissão, indisciplina (N.T.).
PARTE IV

DISSOLUÇÃO

. C A R T A D E D IS S O L U Ç Ã O

. 0 O U TRO FA LTA

. D 'É C O L A G E

. SE N H O R A.

. LUZ !

. 0 M A L -E N T E N D ID O

P ub licad os em Ornicar? (20-21), E ditions du S eu il, 1980, salvo os dois últim os


sem inários, que o foram no número seguinte de Ornicar? (22-23), de 1981.
45

CARTA DE D ISSO LU ÇÃ O

Falo sem a menor esperança — de me fazer ouvir de forma especial.


Sei que o faço — acrescentando o que isso comporta de inconsciente.
Esta é a minha vantagem sobre o homem que pensa sem perceber que,
primeiro, fala. Vantagem esta que só devo à minha experiência.
Porque no intervalo entre a palavra que ele desconhece e o que ele crê fazer
pensamento, o homem se atrapalha, o que não é nada encorajador.
De maneira que o homem pensa sem firmeza, e com menos firmeza quanto
mais se zanga... Justamente por atrapalhar-se.
Há um problema da Escola. Não é um enigma. Também, eu aí me oriento,
não rápido demais.
Esse problema se demonstra como tendo uma solução: é a d is 1, a
dissolução.
A ser entendida como a da Associação que dá estatuto jurídico a esta
Escola.
Basta que um vá embora para que todos fiquem livres, é no meu nó
borromeano, verdade de cada um, e em minha Escola é necessário que seja eu.
Decido-me porque se não me intrometesse ela funcionaria na contramão [à
rebours] daquilo para o qual a fundei.
Ou seja, por um trabalho — já o disse — que, no campo aberto por Freud,
restaura a lâmina cortante de' sua verdade — que traz a praxis original que ele
instituiu sob o nome de psicanálise para o dever que retorna a ele em nosso
mundo — que, por meio de uma crítica assídua, denuncie os desvios e os
compromissos que amortecem seu progresso, degradando sua utilização.
Objetivo que mantenho.
E por isso que dissolvo. E não me queixo dos chamados “membros da
Escola Freudiana” — antes lhes agradeço, por haver ensinado onde fracassei • —
quer dizer, me atrapalhei.
Esse ensinamento é precioso para mim. Eu o aproveito.

Dizendo de outra maneira, eu persevero [je persévère].


E chamo a associar-se uma vez mais, neste janeiro de 1980, aqueles que
queiram prosseguir com Lacan.
Que o escrito de uma candidatura me faça conhecê-los o quanto antes.
Dentro de dez dias, para pôr fim à fraqueza circundante, publicarei as primeiras
adesões que tiver aceito como compromissos de “crítica assídua” daquilo que,
em matéria de “desvios e compromissos”, a E.F.P. nutriu.
Demonstrando em ato que não dependerá deles que minha Escola seja
Intituição, efeito de grupo consolidado, em detrimento do efeito de discurso

(1) Jogo fonético entre dis, de je dis (eu digo), e a primeira sílaba da palavra dissolu tion
(N.T.).
46

esperado da experiência, quando esta é freudiana. Sabemos o preço que teve o


fato de Freud ter permitido que o grupo psicanalítico, apropriando-se de seu
discurso, se transformasse em Igreja.
A Internacional, posto que este é seu nome, é apenas o sintoma do que
Freud esperava dela. Mas não é ela que pesa. E a Igreja, a verdadeira, que
sustenta o marxismo enquanto ele lhe dá sangue novo...com um sentido
renovado. Por que não a psicanálise, quando esta dá uma virada no sentido?
Não digo isto com um vão intuito de ridicularizar. A estabilidade da
religião provém do fato de o sentido ser sempre religioso.
Daí minha obstinação no meu caminho de maternas — que não impede
nada, mas testemunha o que seria preciso para colocar o analista no passo de sua
função.
Se eu persevero [je père-sévère]2 6 porque a experiência feita convoca uma
contra-experiência que a compense.
Não preciso de muita gente. E há geníe da qual eu não preciso.
Deixo-os no ar para que me mostrem o que sabem fazer além de obstruir-me
e liquefazer um ensino no qual tudo foi examinado.
Agirão melhor os que admitirei comigo? Pelo menos poderão aproveitar a
chance que lhes deixo.
A diretoria da E.F.P., como foi composta por mim, despachará os assuntos
de rotina até que uma Assembléia extraordinária, que será a última, convocada
no tempo que estipula a lei, proceda à devolução dos seus bens, que terão sido
avaliados pelos tesoureiros, Renè Bailly e Solange Faladé.

Jacques Lacan
Guitrancourt, 05 de janeiro de 1980

(2) A hom ofonia com a frase anterior (p ersévère ) aqui também pode ser lida assim “S e eu
sou um pai severo, é porque a experiência feita...” (N.T.).
47

O O U TR O FALTA

Eu estou no trabalho do inconsciente.


O que ele me demonstra é que não há verdade para responder ao mal-estar
que é particular a cada um daqueles que eu chamo seres-falantes [parlêtres].
Não há aí um impasse comum, pois nada permite supor que todos
confluam.
O uso do um, que só encontramos no significante, não funda em absoluto a
unidade do real. Salvo para fornecer-nos a imagem do grão de areia. Não
podemos dizer que, mesmo fazendo um montão, ele faça tudo. É preciso um
axioma, ou seja, uma posição para dizê-lo tal.
Que possa ser contado, como diz Arquimedes, não é mais do que um signo
do real, não de um universo qualquer.

Já não tenho mais Escola. Eu a desprovi do ponto de apoio (sempre Arqui­


medes) que tomei do grão de areia da minha enunciação.
Agora tenho um montão — um montão de gente que quer que eu os receba.
Não vou fazer com eles um todo.
De jeito nenhum, não há todo [pas de tout].
Já disse que não preciso de muita gente, e é verdade — mas de que serve
dizê-lo, se há muita gente que precisa de mim?
Que, pelo menos, crêem (precisar de mim). Que o crêem a ponto de me
dizerem isso por escrito.
E por que eu também não o creria? Já que me incluo na conta dos otários
[dupes], como todos sabem.
Não espero nada das pessoas, apenas alguma coisa do funcionamento.
Portanto é preciso que eu inove, pois falhei nesta Escola, fracassando ao não
produzir seus Analistas (A.E.) à altura .
Qual, dentre os eleitos por meu júri de aprovação, eu teria aconselhado a
votar em si mesmo se porventura se apresentasse hoje como passante?
Além disso, nada me apressa a refazer escola.
Mas “sem levar em conta as posições tomadas no passado com relação à
minha pessoa” — citação de 1964 —, admito que se associe aquele que faça o
mesmo, havendo declarado prosseguir comigo em termos que em minha opinião
não o desmintam de antemão.
Nada permite prejulgar quem é quem, mas me remeto à experiência a ser
feita, freudiana se for possível.
Assim como o célebre encontro dos apaixonados num baile na Ópera.
Horror quando deixaram cair a máscara: não era ele, e tampouco ela.
Ilustração do meu fracasso nessa Heterança [Hétérité]3 — perdoem-me a
(3) Neologismo, criado possivelmente pela condensação de h étérie (heteria, sociedade
secreta da antiga Grécia com fins políticos) e h éréd ité (herança, no sentido biológico, ou
— em direito — a qualidade de herdeiro, direito que este tem à sucessão ). Optamos, por
isto, pela tradução de h étérité como heterança (N.T.).
48

Hibris4 — que me decepcionou o bastante para que eu lance o enunciado de que


não há relação sexual5.
Freud parte de sua causa6 fálica para daí deduzir a castração. O que
necessariamente deixa arestas, que eu me ocupo de aparar.
Ao contário do que se diz, “a” mulher — me atrevo a dizê-lo porque ela não
existe — não está privada do gozo fálico.
Ela não o tem menos que o homem ao qual se prende seu instrumento
(organon). Por pouco dotada que ela seja (pois reconheçamos que é escasso), não
obtém menos efeito daquilo que limita a outra borda desse gozo, a saber, o
inconsciente irredutível).
E por isso que “as” mulheres — elas sim existem — são as melhores
analistas. As vezes as piores.
Sob a condição de não aturdir-se em absoluto por uma natureza anti-fálica,
da qual não existem rastros no inconsciente, elas podem escutar o que desse
inconsciente não se consegue dizer, mas adjaz [attient] a isso que se elabora,
proporcionando-lhes o gozo propriamente fálico.

O Outro falta. Isso me parece engraçado. Resisto ao golpe, no entanto, o que


os espanta: mas não o faço para isso.
Por outro lado, aspiro pelo dia em que o mal-entendido, vindo de vocês, me
espantará a tal ponto que ficarei comovido a ponto de não poder resistir mais.
Se ocorre que eu me vá, digam que é a fim — de ser, enfim, Outro.
Podemos contentar-nos com ser Outro, como todo mundo, após uma vida
passada a querer sê-lo, apesar da Lei.

15 de janeiro de 1980

O texto deste sem inário fo i p u blica d o no núm ero d o Le M onde de 26 de


jan eiro d e 1980, p reced id o da seguinte carta:

CARTA AO JORNAL “LE MONDE”


Remeto ao M onde o texto desta carta, junto com o meu seminário do dia 15,
esperando que o publiquem na íntegra.
Para que se saiba que ninguém aprendeu junto a mim nada de que possa
vangloriar-se.
Sim, o psicanalista sente horror do seu ato. A tal ponto que o nega, e
denega, e renega — e amaldiçoa aquele que o faz lembrar, Lacan Jacques, para

(4) H ibris (gr.): Desmesura, insolência, abuso, violência, personificação da violência


(N.T.).
(5) R apport sexu el: além de relação, rapport pode ser usado também como: relato, ou
correlação, proporção, etc... (N.T.).
(6) Cause: termo que adquire relevância pela convocação à Cause F reu dien n e, logo após a
dissolução da E.F.P.. Pode remeter, como “causa” em português, às significações: origem,
motivo, ação judicial, partido ou interesse (como em “causa política”), além de vincular-
se com o verbo c a u ser (fr.): tagarelar (N.T.).
49

não nomeá-lo, e até denunciar Jacques-Alain Miller, odioso por se demonstrar


como ao-menos-um que o lê. Sem mais considerações que as devidas aos
“analistas” estabelecidos.
Meu passe os pegou tão tarde que eu já não tenho nada que valha? Ou é por
haver confiado o cuidado a quem dá testemunho de não haver percebido nada
da estrutura que o motiva?
Que os psicanalistas não chorem por aquilo de que eu os alivio. A
experiência, não a abandono. O ato, dou-lhes a chance de fazer-lhe frente.

24 de janeiro de 1980
Jacques Lacan
50

D 'ÉC O LA G E 7

Eis-me aqui: um homem coberto de cartas.


Meu companheiro Drieu era, ou achava que era, o homem coberto de
mulheres — a ponto de intitular assim um de seus romancés.
Título com o qual me denominaram meus colegas de plantão — eu tinha só
duas (mulheres) cuidando de mim, como todo mundo, e discretamente eu lhes
peço que o creiam.
Levei a sério essas cartas. Quero dizer: péguei uma por uma, como se.;faz
com as mulheres, e fiz minha lista.
Cheguei ao final desse montão.
Há pessoas que se queixam de que as esqueci. É possível. Que se dirijam a
Glória.

Acertei no milhar [j’ai tap é dans le mille]*, e mais ainda.


Mas é preciso estabelecer uma diferença entre essas mil. Posto que uns
ficam de luto por uma Escola e outros não.
O luto é um trabalho, é o que se lê em Freud. É este que eu peço àqueles
que, da Escola, queiram ficar comigo para a Causa Freudiana.
A esses escrevi uma carta ontem à noite. Já vão recebê-la.
Eis o que lhes digo:
“D elen da est:9 . Dei o passo, daqui para a frente irreversível, de dizê-lo.
Como o demonstra o fato de que, retornando aí, só encontramos o
grudar-se — onde eu fiz menos Escola...que cola [École...que colle].
Ela está dissolvida a partir do fato do meu dito. Resta que o seja a partir
do seu também.
Faltando isso, a sigla que têm de mim — E.F.P. — cai em mãos de
verdadeiros falsários .
Desfazer a manobra recâi sobre aqueles da Escola que eu reuni neste
sábado.
Creiam-me: não admitirei que ninguém se divirta com a Causa
Freudiana, salvo que esteja seriamente descolarizado [d ’éco lé]10.”
Assinei isto ontem, 10 de março.

(7) A partir do título, e em todo o texto do seminário, Lacan joga com a homofonia entre
d 'écolag e (neologismo derivado de école, que optamos por traduzir como descolarização),
e d eco lla g e (descolagem, ou ainda: decolagem). Não escapará ao leitor que o jogo gira em
torno da dissolução da É cole, da qual Lacan se "desgruda” e "sai voando” (N.T.).
(8) A expressão francesa, usada geralmente como o nosso “adivinhei certinho”, alude aqui
também à quantidade de cartas recebidas (N.T.).
(9) Latim: de D elen da est Cartago (Catargo deve ser destruída). Frase com que Catão
terminava seus discursos durante o confronto entre Catargo e Roma (N.T.).
(10) No sentido de despojado dos vícios da É cole. Em leitura oral também pode ser
entendido como: “salvo que tenha se desgrudado, seriamente”, ou ainda: “que haja
decolado seriamente”(N.T.j.
51

Também assim é a falha de Freud, a de haver deixado os analistas sem


recursos, e, por outro lado sem outra necessidade senão a de sindicalizar-se.
Eu tentei inspirar-lhes outro anseio, o de ex-sistir. E aí triunfei. Isto é
marcado pelas precauções com que se contorce o retorno à trilha.
O que não é verdade para todos, posto que há gente suficiente para seguir
meu rastro, e subsistir através de um laço social jamais surgido até o presente.
Que outro fato pode ser prova de minha formação senão o de acompanhar-
me no trabalho, pois trata-se de um, da dissolução?
Eles devem agora contar-se.

Dirijo-me aos outros, que não têm que fazer esse trabalho por não haverem
participado da minha Escola — sem que por isso não se possa dizer que não
tenham sido também intoxicados.
Com eles, sem demora, dou partida à Causa Freudiana — e restauro em seu
favor o órgão de base retomado da fundação da Escola — ou seja, o cartel — do
qual, feita a experiência, aprimoro a formalização.
Primeiro — Quatro se escolhem para levar a cabo um trabalho que deve ter
seu produto. Preciso: um produto próprio de cada um, e não coletivo.
Segundo — A conjunção dos quatro se faz ao redor de um Mais-Um [PIus-
Un] que, se é qualquer um, deve ser alguém. Será encarregado de velar pelos
efeitos internos do empreendimento e de provocar sua elaboração.
Terceiro — Para prevenir o efeito de cola [de co lle]u , deve-se realizar a
permutação no prazo estabelecido de um ano, no máximo dois.
Quarto — Não se espera outro progresso senão o de uma periódica
exposição dos resultados, assim como das crises do trabalho.
Quinto — O sorteio assegurará a renovação regular dos limites demarcados
com o fim de vetorizar o conjunto.
A Causa Freudiana não é Escola, e sim Campo — onde cada um terá
liberdade para demonstrar o que faz com o saber que a experiência decanta.
Campo que os da E.F.P. reencontrarão desde que tenham se desembaraçado
daquilo que atualmente os incomoda mais do que eu.

Abrevio aqui a regulagem necessária para a partida.


Porque é preciso que eu termine com o mal-entendido, as mulheres de que
disse, no meu último seminário, não estarem privadas do gozo fálico.
Imputaram-me pensar que são homens. Eu os interrogo um pouquinho.
O gozo fálico não as aproxima dos homens, antes as afasta, posto que esse
gozo é obstáculo para acasalá-las com o sexuado da outra espécie.
Desta vez, previno o mal-entendido sublinhando que isso não quer dizer
que elas não possam ter, com um só — escolhido por elas — a satisfação
verdadeira: fálica.

(11) Oralmente, também pode ser entendido como: efeito da escola [d'école] (N.T.).
52

Satisfação que se situa em seu ventre. Mas parecendo responder à palavra


do homem.
Por isso é preciso que ela caia bem. Que ela caia sobre o homem que lhe
fale segundo o seu fantasma fundamental, o dela.
Ela consegue efeito de amor algumas vezes, e de desejo, sempre.
Isso não ocorre tão freqüentemente. E quando ocorre não faz relação
[rapport] na medida em que, escrito, seja ratificado no real.
Disso que chamei a não-relação [non rapport], Freud tinha a idéia, apesar
de sua redução do genital ao fato da reprodução.
Não será, com efeito, o que ele articula sobre a diferença entre a pulsão que
chama fálica e aquela que ele pretende que subsiste do genital?
Teria ele percebido o dualismo sem a experiência, em que estava, da psi­
canálise?
O gozo fálico é justamente aquele que consome o analisante.

Pois bem. Deixo-os.


Gostaria de que me fizessem perguntas. Façam-nas por escrito. Enviem-nas
a mim. Eu as responderei na semana que vem, se elas valerem a pena.
Na semana que vem também lhes direi como trabalha isso — a dissolução.

11 de março de 1980.
Jacques Lacan
53

Senhor A.

O senhor A., filósofo, que apareceu não sei de onde sábado passado para
apertar-me a mão, fez ressurgir para mim um título de Tristan Tzara.
E da época Dada, ou seja, nada da futilidade que começou com Littérature
— revista à qual não forneci nem uma linha.
E imputado a mim de boa vontade um surrealismo que está longe de ser de
meu agrado. Provei isto só contribuindo a ele de forma lateral, e muito tardia­
mente, para deixar zangado André Breton. Devo dizer que Eluard me enternecia.
O Senhor A. não me enternece, pois me fez recordar o título: Senhor Aa., o
anti-filósofo.
Isso me deixou estupefacto.
Então, quando dei a Tzara, que se alojava na mesma casa que eu, na rua de
Lille No.5, A Instância da Letra, ele não lhe prestou grande atenção. Eu achava,
no entanto, estar dizendo algo que devia interessar-lhe.
Pois bem: nem um pouco. Vejam só como a gente se engana.
Tzara só delirava com Villon. E assim mesmo desconfiava desse delírio.
Eu não tinha a menor necessidade de que ele delirasse sobre mim. Já havia
bastante gente que fazia isso. O que ainda continua.
Como não estiveram todos vocês comigo no sábado e no domingo, porque
graças a Deus não são todos da minha pobre Escola, não têm idéia de até onde
pode chegar o delírio sobre mim.
O que me dá esperança é o fato de Tzara ter deixado François Villon cair,
assim como, por outro lado, a mim também.

Esse Senhor A. é anti-filósofo. É o meu caso.


Eu m e insurjo, se posso dizer assim, contra a filosofia. Estou seguro que é
uma coisa acabada. Mesmo esperando que ressurja um broto dali.
Esses ressurgimentos sucedem freqüentemente nas coisas acabadas. Olhem
esta Escola arqui-acabada: até este momento, havia juristas que se tornaram
analistas; agora, vira-se jurista por não haver-se tornado analista.
Inclusive juristas de meia-tijela, como não lhes mandou dizer Pierre n
Legendre.

E necessário que eu precise? Não sonho em absoluto em dissolver a Escola


Normal Superior, onde numa época encontrei a melhor acolhida.
Meu raio12 caiu bem ao lado, na rua Clude Bernard, onde instalei, sobre
seus móveis, a minha Escola.

(12) Ma foudre: alusão ao raio de Júpiter, atributo do Deus e sua arma, lançada nos
momentos de cólera contra quem provocava a sua fúria (N.T.).
54

A Causa Freudiana não tem outro móvel a não ser minha caixa de correio.
Indigência que tem muitas vantagens: ninguém pede para fazer um seminário na
minha caixa de correio.
E preciso que inove, disse — salvo que acrescentando: n ã o sozinho.
Vejo isto assim : que ca d a um p o n h a a í algo d e seu.
Vamos. Reúnam-se vários, grudem-se o tempo necessário para fazer alguma
coisa, e depois dissolvam-se para fazer outra coisa.
Trata-se de que a Causa Freudiana escape do efeito de grupo que eu lhes
denuncio. De onde se deduz que ela só durará pelo aspecto tem porário — quero
dizer: se se desligam antes de ficarem grudados irremediavelmente.
Isso não requer grande coisa:
— uma caix a d e correio, ver acima;
— um correio que faça saber o que, nessa caixa, se propõe como trabalho;
— um congresso, ou melhor, um fóru m onde isso se intercambie;
— enfim, a p u b lica çã o inevitável, para o arquivo.
Também é necessário que, com isso, eu instaure um turbilhão, um
movimento em hélice que lhes seja propício.
Isto, ou o grude assegurado.

Vejam como coloco isto através de pequenos toques. Dou-lhes seu tempo
para compreender.
Compreender o quê? Eu não me gabo de fazer sentido. Tampouco do
contrário. Pois o real é o que se opõe a isso.
Prestei homenagem a Marx como inventor do sintoma. Marx é, no entanto,
o restaurador da ordem pelo simples fato de ter reinsuflado no proletariado a
dimensão [dit-m ension]13 do sentido. Para isso, foi suficiente que ele deno­
minasse como tal o proletariado.
A Igreja tirou daí o exemplo, foi o que lhes disse no dia 5 de janeiro.
Saibam que o sentido religioso vai ter um boom do qual vocês não têm a menor
idéia. Porque a religião é a moradia original do sentido. Isto é uma evidência que
se impõe. Aos que são responsáveis na hieraquia mais que aos outros.
Tento opor-me a isso para que a psicanálise não seja uma religião, como é
sua tendência irresistível desde o momento em que se imagina que a inter­
pretação não opera a não ser pelo sentido. Eu ensino que a sua mola-mestra está
alhures, especificamente no significante como tal.
A isso resistem aqueles aos quais a dissolução provoca pânico.
A hierarquia só se sustenta por gerir o sentido. E por isso que eu não dou
um empurrãozinho a qualquer responsável, na Causa Freudiana. É com o
turbilhão, com a hélice que eu conto. E, devo dizê-lo, com os recursos de
doutrina acumulados em meu ensino.

(13) Jogo de palavras em torno da homofonia entre dim en sion (dimensão); d it m an sion
(mansão do dito); e dit-m ention, (dita menção) (N. T.).
55

Volto às perguntas que, a meu pedido, me foram feitas.


Não vejo porque eu teria objeções a que se formem cartéis da Causa
Freudiana em Quebec. Preciso: com a única condição de que se notifique por
correio à dita Causa.
0 Mais-Um [Plus-Un] se sorteia? — me pergunta Pierre Soury, a quem
respondo que não, os quatro que se associam o escolhem.
Ele me escreve também o seguinte:
“Para o s m il da Causa Freudiana, os cartéis se form arão a prin cipio
p o r esco lh a mútua e, depois, p o r um a redistribuição geral, voltarão a
form ar-se p o r sorteio n o interior do grande conjunto. 0 que im plica
que, entre mil, qualqu er um p o d e ser lev ad o a colaborar, num p eq u en o
grupo, com qualquer outra p e s s o a ”.
Eu lhe assinalo que não foi isso que disse, já que, desses mil, que por outro
lado são mais, eu só convido por enquanto a formar cartéis os não-m em bros da
Escola. Então, nada de “grande conjunto”. E não implica um sorteio geral — mas
somente em compor as instâncias provisórias que serão as referências do
trabalho.
Dito isto, felicito Soury por formular a colaboração na Causa Freudiana de
qualquer um com qualquer um. E exatamente o que se trata de obter, mas com
uma condição: que isso também se agite em turbilhão.
Outra pessoa se inquieta por saber o que quer dizer precisamente ser um
A.E. à altura. É um A.E. quem me pergunta. Pois bem, que releia a minha
P roposição de outubro de 1967. Verá que isso implica pelo menos que ela seja
aberta.
Outra pessoa ainda me pede para articular a relação do que denominei
grude [/a c o lle } com o que Freud chama de fixação a propósito do recalque. Por
outro lado, é uma pessoa que não se contenta em enviar-me essa pergunta —
também anexou textos. Na verdade, não os enviou: deixou-os ontem na minha
casa.
Tráta-se de Christiane Rabant, que ficou comovida, disse, pelo que me
ocorreu articular a propósito da carta de amor.
0 que é fixado ? E o desejo, que por estar preso no processo do recalque, se
conserva em uma permanência que equivale à indestrutibilidade.
Este é um ponto sobre o qual chegamos até o fim, sem dar o braço a torcer.
Nisso, o desejo se diferencia totalmente da mobilidade do afeto.
A perversão é aí bastante indicativa, pois a mais simples fcnomenologia
põe em total evidência a constância dos fantasmas privilegiados.
No entanto, se bem que ela nos mostre o caminho desde os primórdios dos
tempos, não nos abre a entrada, pois foi preciso Freud.
Foi preciso que Freud descobrisse primeiro o inconsciente para que viesse
ordenar sobre essa via o catálogo descritivo desses desejos, cm outras palavras : a
sorte das pulsões — como traduzo T riebschicksale'íi.
Trata-se de formalizar [mettre en fo r m e ] o vínculo dessa fixação do desejo
com os mecanismos do inconsciente.
56

É precisamente a isso que me dediquei, posto que jamais pretendi superar


Freud, como me acusa um de meus correspondentes, mas sim prolongá-lo.

Responderei aos outros na terceira 3a feira de abril. Vocês ainda podem


enviar-me perguntas. Isto não me cansa.
Há pessoas da Escola que querem fazer jornadas sobre o trabalho da
dissolução. Sou a favor. Para isso, falem com Colette Soler, Michel Silvestre ou
Éric Laurent. Digo isto aos membros da Escola.

18 de março de 1980
Jacques Lacan

(14) Em português, o texto de Freud aludido é traduzido por: As p u lsões e seu s d estin os
ou ainda: ... e su as vicissitudes (N.T.).
57

LU Z !

“Faça-se a luz !”
E o que vocês crêem que aconteceu ? A luz se fez !
E certamente incrível que isto faça a entrada na escritura. E o que eu
chamaria um sintoma-tipo do real.
Pois é justamente da luz em seu real que se fez a trilha da ciência. Não
unicamente, é certo, mas entre outras coisas.
Vocês sabem também que a luz — a noção de sua velocidade, mais
precisamente, é única em nos dar um absoluto mensurável do real. E no mesmo
golpe se demonstra sua relatividade.
Que golpe de sorte para os crentes, o tal incrível ! Mas isso não lhes suscita
necessariamente, sabe-se, um gosto particular pelas Luzes, no sentido de
Aufklãrung.,5
Não se deixem impressionar demais por esse golpe de sorte. Para que vocês
se recomponham, constatem só o que se esclarece après-coup: um desconheci­
mento total da diferença radical das “luminárias”, Lua e Sol, em relação à luz
aludida.

O que mais me chateia é que a ênfase dada à palavra [parole] criativa vai no
sentido do que eu penso.
Só que é uma aposta perdida atribuir à palavra o insuportável da luz. E isto
não vai de modo algum no sentido do que eu penso.
O que o inconsciente demonstra é algo totalmente diferente, ou seja, que a
palavra é obscurantista.
Atribuo defeitos demais à palavra para dispensá-la desse obscurantismo. E
seu benefício mais evidente.
Já indiquei nos primeiros tempos do meu ensino a função, no trilhamento
do simbólico, dessas luzinhas chamadas estrelas. As estrelas não dão muita luz.
No entanto, é através delas que os homens se iluminam, o que lhes permitiu
manifestarem a felicidade que experimentam pela noite transparente.

O obscurantismo próprio da palavra se duplica pela crença na Revelação


que atribui a Deus o “faça-se a luz”. Quando isso se triplica de filantropia, e se
quadruplica de progressismo, é a noite negra.
Quando as estrelas se apagam, dá nisso: “O desejo dos homens é socorrer-se
uns aos outros para estarem melhor [m ieux-être]’’.
Recebi-o por correio. Eu pedira que me escrevessem: pois bem — bem feito
para mim.

(15) Aufklärung (alemão): esclarecimento, ilustração, civilização. Referência à primazia


da razão, explicitada na frase pela alusão ao Século das Luzes (N. T.).
58

Devo dizer que nada havia pedido à pessoa que me escreveu isso, pela
simples razão de que ela não vem há longo tempo ao meu seminário.
Françoise Dolto, pois trata-se dela, enviou-me uma cartinha que me distraiu
durante estas férias, as quais, aliás, eu não tirei.
E uma cartinha “para dissipar o mal-entendido”.
Ela me ama tanto, diz-me em resumo, que não pode suportar que a Escola
seja dissolvida.
E por que, não adivinham? Porque a Escola sou eu.
E seu axioma. De modo que, forçosamente, dissolver a Escola seria anular a
mim mesmo. E isso é o que ela não quer.
Há um detalhe, é que sou eu quem dissolve a Escola. Isso não a detém, não
há nada que a detenha.
Ela imagina que eu m e auto-destruo. E por isso que, de acordo com seu
princípio filantrópico, vem em meu socorro.
Estão vendo como tudo isso se sustenta. É lógico. Vê-se que não sacrifica
nada à verossimilhança.
Se fosse exato, isso faria de mim um sujeito do tipo de Sócrates. Sócrates a
desejou, a sua morte, e a obteve da mão daqueles mesmos sobre quem espalhou
seus benefícios.
Isso não lhe foi, aliás, tão mal-sucedido, já que sua morte tornou-se
exemplar.
Mas, felizmente para mim, eu não disse jamais que a Escola freudiana sou
eu. Também poderia ter dito que... Madame Dolto sou eu.
Há gente, ao que parece, que acredita niáso. Bem, é um erro. Eu não me
identifico em absoluto com Françoise Dolto, e muito menos com a Escola
freudiana. E isso o que me justifica precipitar-me ao trabalho para construir a
Causa freudiana.

0 que existe já é suficiente para me desiden tificar da Escola.


Não tive jamais outro objetivo quanto ao meu ensino senão o de mantê-lo
em seu nível. Agora, faço o necessário para preservar o que ele é capaz de dar
àqueles que entram em seu sulco.
Mas meu ato já demonstra que o real que está em jogo na experiência não se
limita, em princípio, só à subsistência da Sociedade psicanalítica.
A sagacidade de meu procedimento consiste nisso, não somente não excluo
ninguém como, além disso, acolho os que chegam.
Devo deplorar que meu significante se mostre apto para veicular qualquer
gracejo? Estou muito satisfeito, pelo contrário, pois não disse outra coisa.
Mas enfim, a brincadeira é muito melhor quando é curta. Isso é o que me
inspirou para abreviar o que, ao se acrescentar de mal-entendidos, estagnava em
impasse • — e até mesmo se petrificava como fraude.
Além de não me agradar, não tenho necessidade de anatemizar os que, com
a injúria na boca, gritam que me amam, pela simples razão de que a fraude como
tal é fonte de angústia.
59

Se 113.0 sempre para seus scentcs, 011 cn ac „/x; /


i ^ uu suaí> vítimas, o e para seus
descendentes.
É por isso que tenho mau augúrio sobre o que farão aqueles em quem
espetei o termo falsarios, e nao me preocupo muito com isso
A experiência psicanalítica dá um lugar eminente à função do engano, ao
sustentar-se no sujeito suposto saber. Isto é o que explica o fato de não haver
retomo, caso o engano vire fraude.

No decorrer do que lhes disse, teci minhas


H , _ ’ “iiimas respostas a varios dos que me
escreveram, que se reconhecerão.
. . ,, Há, ainda alguém
° que me pergunta se eu Por
M nnr acaso nao- imaginaria
• • ser
infalível.
Não sou daqueles que recuam diante do motivo de sua certeza. Isso é o que
me permitiu romper com o que se havia congelado da prática de Freud numa
tradição que claramente obstruía toda transmissão. Aí inventei o que tornou a
abnr-lhes um acesso aireu d , o qual não quero ver fechar-se
Não terei a pretensão de reconhecer-me como infalível, mas, como todo
mundo, que o seja no nível da verdade que fala — e não do saber
Eu não me considero o sujeito do saber. A prova - 6 preciso recordá-lo - é
que o sujeito suposto saber, fui eu que inventei isso, e precisamente para que o
psicanalista, o que e o mais comum, pare de se crer, quero dizer, idêntico a ele.
O sujeito suposto saber não é todo mundo, nem ninguém. Não é todo
sujeito, mas tampouco e um sujeito nom eável. t algum sujeito É o visitante da
noite, ou melhor, é da natureza do signo traçado sobre a porta por uma mão de
anjo. Mais seguro de existir por não ser ontológico, e por vir não se sabe de
bonde16
Aguardo vocês aqui na segunda terça-feira de maio.

15 de abril de 1980.
Jacques Lacan

(16) "... não se sabe de bonde” [on n e sait zou\~ provável ln..r, A..
d ’où (não se sabe de onde), sendo zou expressão onnmi™ - l avras com on ne sa,t
significa: rápido; vamos (N.T.). P 3° onomat° P ^ francesa, regional, que
O M AL-EN TEN DIDO

Não quis deixá-los sem retomar isto — uma vez mais.


Não somente me disse que lhes devia um adeus por mehaverem assistido
este ano, por assistirem este seminário no qual não os cuidei.
Há ainda outra razão para este adeus: é que me vou, vejam só, à Venezuela.

Esses latino-americanos, como .se diz, que jamais me viram, ao contrário


dos que estão aqui, e nem me escutaram ao vivo, bem, isso não os impede de ser
lacanos [lacano]. ~
Parece que isso antes os ajuda. Eu me transmiti lá através do escrito, e
parece que dei frutos. Em todo caso, eles o crêem.
Certamente é o futuro. E é o que, ir lá ver, me interessa.
Interessa-me ver o que acontece quando minha pessoa não opacifica o que
ensino. E bem possível que meu matema ganhe por lá.
Nada impede, se isso me agrada, que eu fique por lá, na Venezuela. Vêem
porque queria dizer-lhes adeus.
Vocês não têm idéia do número de pessoas às quais isso chateia, que eu
chegue lá, e que tenha convocado meus lacano-americanos. Isso chateia aqueles
que se ocuparam tão bem de me representar, que basta com que eu me apresente
para que eles percam o pé nos pedais.
Vou então instruir-me por lá, mas evidentemente vou regressar.
Vou regressar porque minha prática é aqui — e este seminário, que não é da
minha prática, mas a complementa.
Este seminário, eu o tenho menos do que ele me tem.
E por hábito que ele me tem? Certamente não, pois é pelo mal-entendido. E
não está pronto para acabar, precisamente porque não me habituo com esse mal­
entendido.
Sou um traumatizado pelo mal-entendido. Como não me acostumo a ele, eu
me esforço para dissolvê-lo. E, de súbito, eu o alimento. Isso é o que se chama o
seminário perpétuo.

Não digo que o -verbo seja criador. Digo uma coisa bem diferente, porque
minha prática a implica: digoçque o verbo é inconsciente, ou seja, mal­
entendido.
Se crêem que tudo pode ser revelado, bem, vocês se dão mal: não pode. Isso
quer dizer que uma parte não se revelará jamais .
E precisamente disso que a religião se gaba. E é o que dá sua muralha à
Revelação, da qual se vale para explorá-la.
Quanto à psicanálise, sua exploração consiste em explorar o mal-enten-
dido. Com uma revelação, ao final, que é de fantasma.
Isso é o que lhes passou [refilé] Freud. E que filão [filon]!, tenho que dizer.
Tantos quantos vocês são, que são vocês senão mal-entendidos?
r

61

0 chamado Otto Rank chegou perto ao falar do trauma do nascimento. De


trauma, não há outro: o homem nasce mal-entendido.
Posto que me interrogam sobre o estatuto do corpo, já chego para sublinhar
que este só se apreende por aí.
O corpo só aparece no real como mal-entendido.
Sejamos aqui radicais: seu corpo é fruto de uma linhagem da qual boa parte
de suas [vos] desgraças provém de que ela já nadava no mal-entendido o máximo
que podia.
Ela nadava pela simples razão de qué ser-falaria17 a quem fizesse melhor.
E o que lhes transmitiu “dando-lhes a vida”, como se diz. E disso que vocês
herdam. E é o que explica o mal-estar de vocês dentro de sua pele, quando é o
caso.
O mal-entendido já está desde antes. Na medida em que desde antes deste
belo legado vocês fazem parte [vous fa ites partie], ou melhor, participam [vous
fa ite s part] do balbucio dos seus ascendentes.
Não é preciso que vocês mesmos balbuciem. Desde antes, o que os sustenta
a título de o inconsciente, ou seja, do mal-entendido, tem aí suas raízes.

Não há outro trauma do nascimento senão o de nascer como desejado.


Desejado ou não — é a mesma coisa, já que é pelo ser-falante18.
O ser-falante em questão reparte-se, geralmente, em dois falantes. Dois
falantes que não falam a mesma lingua. Dois que não se escutam falar. Dois que
não se escutam, simplesmente. Dois que se conjuram para a reprodução, mas por
um mal-entendido consumado que seu corpo veiculará com tal reprodução.
Admito que a linguagem possa servir para uma comunicação sensata. Não
digo que seja o caso deste seminário. Pela simples razão de que a comunicação
sensata é o diálogo e, no que se refere ao diálogo, não sou bem dotado.
Acrescento que não considero a comunicação científica um diálogo, posto
que não-sensata, o que é sua vantagem.
O diálogo é raro. No que tange à produção de um novo corpo falante, é tão
raro que de fato está ausente. Não o está a princípio, mas o princípio se inscreve
unicamente na simbólica [la sym bolique].
É o caso, por exemplo, do chamado princípio da família.
Sem dúvida, isso sempre foi pressentido. O bastante para que o incons­
ciente fosse tomado como saber de Deus.
O que distingue, no entanto, o saber chamado inconsciente do saber de
Deus é que este último era considerado o de nosso bem.
O que não é sustentável. Daí a pergunta que coloquei: Deus crê em Deus?
Como de costume, quando faço uma pergunta, trata-se de uma pergunta-
resposta.

(17) parlêtrait — condensação lacaniana de parlant (falante) e être (ser), com que produz
o seu parlêtre (ser-falante), aqui conjugado como “ser-falaria" (N.T.).
(18) parlêtre — ver nota anterior (N.T.).
62

Pois bem.
Alguém me chamou a atenção para o fato de que o seminário deste ano não
tinha título. E verdade. Vocês já verão porquê. O título é: Dissolução!
Evidentemente, não poderia tê-lo dito a vocês em novembro, pois meu
efeito teria falhado. Pode-se dizer que é um significante que os prendeu.
Consegui interessá-los de tal forma que não há nada mais além disso.
Alguém me recrimina porque não o faço muito a seu gosto. Está em seu
direito, porque ele não vem a mim. E o contrário: tem a bondade de acolher-me
quando não estou longe.
Então, forçosamente, o escuto. Ele quer um ritmo mais continuado, e eu
estou de acordo. E do que cuidarei — depois do verão.
A Causa freudiana começa a existir por si só, pelo fato de ser invocada
[qu ’on s ’en réclam e], o que quer dizer que já se fez propaganda [une reclam e]
dela.
O que bastaria agora? — um correio, um pequeno boletim que faça o enlace.
Éric Laurent haverá de querer lançar-se ao trabalho para que isso exista, e para
que os novos cartéis, que abundam, se façam conhecer.

10 de junho de 1980.
Jacques Lacan
PARTE V

A FUNÇÃO DOS CARTÉIS

Transcrição das discussões das Jornadas sobre Cartéis (abril/1975), publicada em Lettres
de l'École Freudienne de Paris, n° 18 —1976.
65

I — SESSÃO PLENÁRIA DE SÁBADO À TARDE


D O "MAIS UMA"

(A SESSÃO SE ABRE ÀS 17 HORAS SOB Á PRESIDÊNCIA DE P.MARTIN)

PIERRE MARTIN — Estas jornadas de estudo dos cartéis da Escola


Freudiana não tinham apenas por objetivo a reunião e a assembléia numerosa
que suscitaram; tinham também, no seu projeto, permitir e inclusive suscitar um
debate sobre a função dos cartéis na Escola, como tais.
E, na verdade, interessante, às vezes até o limite, um pouco inquietante —
constatar como estes cartéis, em geral, se constituíram.
O Cartel, na perspectiva da Escola Freudiana, não é uma reunião de gente
que se propõe simplesmente a um intercâmbio de idéias, e menos ainda um
lugar de ensino direto ou magistral, num grupo pequeno ou num grupo mais ou
menos extenso.
O que concerne ao cartel está definido expressamente, e de uma maneira
muito clara, na Ata de Fundação da Escola, Ata de Fundação que data de 1964,
há onze anos portanto.
O que tentamos suscitar em. vocês é, de alguma maneira, ressuscitar um
texto e suas implicações que permanecem, temos que reconhecê-lo, completa­
mente velados.
Um cartel, diz o texto, é, em prim eiro lugar, a co n d içã o de a d m issão na
Escola, dito nos seguintes termos:
A queles qu e venham a esta Escola se com prom eterão a realizar um a tarefa
subm etida a um con trole interno e externo; se lhes assegurará, n esse inter­
câm bio, que n a d a será p o u p a d o p ara qu e tudo o que eles fa ç a m d e valioso
ten ha a rep ercu ssã o qu e m erecer, no lugar qu e lh e convenha.
Para a ex e c u ç ã o deste trabalho, ad otarem os o p rin cípio d e uma ela b o ra çã o
basea d a num p e q u e n o grupo; ca d a um d eles (e tem os um n om e p a ra designar
estes grupos) será com p osto p o r três p essoas, n o m ínim o, e p o r cin co n o m áxim o
— quatro é a m edida, certa. MAIS UMA, encarregada da seleçã o, da d iscu ssão e
do destino reserv ad o a o trabalho de ca d a um.
Eu lhes releio aqui uma passagem, que completarei com outras duas ou
três; mas por que, diabo, é que releio?
Todo mundo tem, ou deveria ter à mão, o anuário da Escola; mesmo sendo
ele (e até os próximos dias) de 1971, contém a Ata de Fundação.
Ora, na verdade não é nesse espírito, creio, ou melhor, dessa forma, que a
maioria dos cartéis que conheço se constituem e agem.
A E scola F reu dian a de Paris — diz Lacan — em sua intenção, represen ta o
organism o o n d e d ev e se realizar um trabalh o que, no c a m p o que Freud abriu,
restaura a lâm in a cortante da sua verdade:
66

1 — Que restabelece a praxis original que ele instituiu, sob o nome de


psicanálise, no dever que retorna a ele no nosso mundo;
2 — Que, por uma crítica contínua, denuncie os desvios e os compromissos
que atenuam seu progresso, degradando seu uso;
3 — A estas três perspectivas corresponde, na Ata de Fundação, a criação
de três seções; uma de Psicanálise pura, outra de Psicanálise aplicada, e a
terceira de Inventário do Campo freudiano. Cada uma assistida por um diretor
de seção encarregado de reunir os trabalhos feitos, de cuidar das vias mais
propícias para sustentar os efeitos de sua solicitação, e assim assegurar também
os intercâmbios entre os cartéis, coisa que, todo mundo concordará, não é das
mais comuns.
Certamente nossa reunião de hoje tinha isto como intenção inicial, mas
teríamos que discutir ainda como a coisa pode ser feita.
E, para terminar, antes de abrir o debate e de que cada um possa se
exprimir, quero dizer-lhes duas coisas.
A primeira é que teremos outra sala aberta ao lado desta, amanhã de
manhã, onde poderão se encontrar justamente aqueles que quiserem discutir
sobre o tema “o que é um cartel”, e como este poderia funcionar nas perspetivas
abertas pela Ata de Fundação.
A segunda é que, depois de ter discutido com muitos colegas que fazem
parte dos cartéis, eu me atrevi a fazer-lhes a seguinte pergunta: qual é o lugar que
vocês deram, na criação e na organização do seu grupo de trabalho, a esta
pequena palavra: “mais uma" [plus une] ?
Não se trata de “um a mais” [u.n en plus], de três mais um que fazem
quatro, de quatro mais um que fariam cinco, e sim: “mais uma”; há aí alguma
coisa que, estou convencido, foi assim colocada para despertar toda uma
problemática; sendo entendido, como é dito no texto (não quero aborrecê-los
com a leitura desse texto, vocês todos o têm, é só ler) mas sendo entendido que
toda chefia, no sentido de atitude professoral de um dos elementos de um cartel,
é abandonada de saída.
Tendo dito istó!, Seriã desejável que, desde agora, alguns de vocês, no maior
número possível, façam-nos conhecer o que entendem por cartel, tomando como
ponto de partida o que eles mesmos constituíram, se é que constituíram alguma
coisa, e, por outro lado, não esqueçam de responder a essa questão do “mais
uma”.
Mas não esperem de mim que veu faça, de uma maneira abrupta, uma
definição do “mais uma”
E justamente isto que seria necessário levantar como base da discussão de
suas intervenções.
JACQUES LACAN — É seguramente com razão que Martin se manifesta
sobre este ponto.
Quero dizer que esse “mais uma” — mereceria uma melhor sorte, já que,
pelo que sei, não parece que esta coisa que, na verdade, não quero me vangloriar
de tê-la antecipado sobre algo que tento articular sob a forma do nó borromeano.
p

67

Não se pode deixar de reconhecer, nesse “mais uma”, aquilo que eu não lhes
disse, evidentemente, da última vez, porque não posso chegar sempre num
seminário a dizer tudo o que trazia, mas, enfim, que se refere estritamente a isso
que escrevi: x + 1 é jjrecisamente o que define o nó borromeano, e é a partir de
reiterar esse 1 — que no nó borromeano é qualquer um — que se obtém a
individualização completa, ou seja, que do que sobra — a saber, do x em questão
— não há mais que um por um.
A questão que Martin lhes propôs, em suma, é opinar sobre esse um — não
digo que vocês tenham se interessado até agora, mas não é razão para que não
lhes peça alguma resposta — esse um, que parece sempre possível como
enlaçando toda a cadeia individual, como concebê-lo? Certamente eu disse
coisas sobre o que Martin acaba de evocar, quer dizer, o “um a mais”. Na época
eu o tinha tratado sob a forma do que constitui o sujeito, que é sempre um “um a
mais”.
Eu pediria que declare quem quiser, já que não posso interrogar cada
pessoa e transformar isso em resposta obrigatória. Pelo menos, que declarem
sobre este tema as pessoas que quiserem: em suma, o que lhe evoca, o que lhe
sugere essa “pessoa” que trato de isolar do grupo, o que não quer dizer que não
possa ser qualquer uma delas.
Certamente o cartel fez, pouco a pouco, seu percurso dentro da Escola;
fizemos grupos, seminários. O que constitui a vida própria de um cartel tem, na
verdade, uma relação estreita com o que tento articular neste instante, no
seminário.
Eu sei o que gostaria de obter como funcionamento dos cartéis; se o limitei,
dizendo que de três a cinco, obtém-se no máximo seis, deve ter uma razão. Não
é, contudo, um enigma.
Deveria normalmente sugerir, pelo menos a alguns, àqueles que têm mais
prática, uma resposta, não estou completamente seguro, mas enfim, essa palavra
tem algum conteúdo: cartel, que pôr si só já evoca quatro1 quer dizer, três mais
um, é, de qualquer maneira, o que considerei que permitiria elucidar o seu
funcionamento, e para chegar até seis, a coisa teria que ser posta à prova; usei a
palavra cartel, mas, na verdade, é a palavra cardo2 que está atrás, quer dizer, a
palavra “dobradiça”. Eu já tinha me referido a essa palavra cardo, evidentemente
esperando que cada um procurasse o que quer dizer. Preferi finalmente a palavra
cartel, porque, ao mesmo tempo, era uma precisão, e a descrição que eu dava em
seguida, falando de no mínimo “três mais um”, permitiria esperar um jogo
eficaz, fazer não só que sejam mais, mas que haja quem desempenhe seu papel,
não só numa das seções que tinha previsto para serem três também, e vale a pena
que se note que fazendo três seções, implica também “mais uma”, ou seja, uma
quarta. Isso quer dizer que a Escola, talvez, não tenha começado ainda a

(1) Em francês, há certa homofonia entre cartel e quatre (N.T.).


(2) Latim : cardo inis: dobradiça, eixo, porta; extremidade, terminação, limite, pólo; região
do céu, céu; caminho, fosso. (N.T.)
I
68

funcionar. Isso pode-se dizer, por que não?


De maneira que, agora, eu esperaria que alguém se manifestasse, e lhe
ficaria reconhecido muito pessoalmente; que alguém declare, por pouco que haja
pensado — afinal deve haver algumas pessoas que leram a Ata de Fundação —
como esse “mais uma” é para ele, digamos, interpretável. Interpretável, certa­
mente, em função do meu ensino.
Colette Soler, você, a quem escutei há pouco — o que me deu um grande
prazer — , por que nunca pensou nisso?
v COLETTE SOLER — Eu pensei nisso.
JACQUES LACAN— Você pensou nisso, então diga o que pensou.
COLETTE SOLER — Eu digo que pensei, mas não tenho, só por isso, grande
coisa a dizer. No cartel onde trabalhei, começamos sendo quatro. A princípio, eu
diria que era o que o senhor chamaria um grupo; somos agora cinco, mas a
pergunta que me faço é se, no fundo, o “mais uma” talvez não seja necessaria­
mente uma pessoa, por um lado, e, além disso, não necessariamente esteja lá.
A meu ver, no nosso cartel, o elemento que talvez fizesse a articulação era a
idéia de que estávamos unidos à Escola pelo viés do cartel, ou talvez ao seu
nome, não sei. Mas não vejo que seja por uma pessoa que tenha tido um papel,
no grupo, de “mais um” [plus un].
MAURICE ALFANDARI — O que me evoca o “mais um”, a propósito dos
cartéis, é um cartel clínico (não sabíamos muito bem como chamá-lo, era assim
como o fazíamos). O “mais um”, me unirei ao que foi dito, não representava uma
pessoa. Mas agora que volto a pensar, tenho a impressão de que representava
uma espécie de lugar vazio, uma função que era intercambiável, que permitiu
que alguma coisa se produzisse; em todo caso, por meu lado, eu não podia fazer
sozinho, me era impossível... o que eu tentava fazer, não podia fazê-lo só.
Eu não sei muito bem como, mas é por causa desse grupo (somos cinco,
creio) que entendo isso assim, o “mais alguma coisa” é um lugar que está vazio,
e que faz possível o funcionamento do grupo e do que ali se elabora, mas sem
que necessariamente se assinale quando isso se produz, porque há alternâncias,
comutações, e essas coisas todas.
JACQUES LACAN — O quê exerce essa função, segundo você, no seu
grupo?
MAURICE ALFANDARI — Não sei. Acho que porque eu não sei é que isso
funciona.
JACQUES LACAN — Sim ...(risos).
Por que você etiquetou esse grupo com o termo cartel clínico? E a clínica,
por exemplo, sua experiência comum, que tem aí uma função de nó?
MAURICE ALFANDARI— Sim, provavelmente, mas o que penso — é assim
que entendo o “mais um” de que o senhor fala — é o fato de que eu e, acho, os
outros também, na elaboração do que fazemos, do que tentamos fazer, acho que
seria impossível se não houvesse alguém (mas isso designa uma pessoa) que
alternativamente cumpra a função do “mais um”. Eu diria: a função do ausente,
função desempenhada alternativamente, eu acho, por uns e outros.
JACQUES LACAN — Será que essa função do ausente pode ser exercida
por alguém que está ausente esse dia, por exemplo?
MAURICE ALFANDARI— Sim, acho que sim.
JACQUES LA C A N —? Então, qual é a relação entre aquele que esse dia está
ausente, e o que eu lembrava neste instante como sugestão, sugestão passageira;
qual é a relação desse ausente com o que poderíamos chamar “objeto” como a
clínica o define?
MAURICE ALFANDARI — E justamente porque está ausente que alguma
coisa é possível.
JACQUES LACAN — A sugestão da função do ausente, foi no seu enun­
ciado que surgiu. A função do ausente, pode-se dizer, de estar ausente no
momento, ausente a uma reunião do cartel, nunca é à toa que alguém esteja
ausente, tentamos sempre dar um alcance à ausência na análise, estamos
acostumados a isso. Pensem, será um suporte possível dessa “mais uma pessoa”,
da qual indiquei não a ausência, mas justamente a presença, pois não há traço de
sinal por ausência no meu “mais uma” no texto; mas por que não se perguntar
sobre isso? Há, talvez, um certo viés por onde essa pessoa pode se focalizar na
pessoa ausente, e sua experiência de um cartel pode lhe sugerir uma resposta
sobre isso. Deixemos tempo para que você pense nisso.
PIERRE KAHN — A experiência que eu posso citar é esta; a experiência de
um cartel não clínico, mas chamado de formação teórica, ou seja, de leitura de
textos. Esse cartel funcionava do ponto de vista do número, nisso que foi
lembrado por Martin, e do ponto de vista de sua maneira de trabalhar. Eu acho
que uma das coisas que nos guiava era a consideração de algo que você disse no
seminário sobre os escritos técnicos, ou seja, comentar um texto analítico é como
fazer uma análise, e mesmo que os participantes do cartel não estivessem de
acordo sobre o sentido dessa formulação, ela estava presente no seu espírito,
cada um a seu modo, certamente. Então, o que quer ela dizer em relação à
pergunta feita sobre o “mais uma”?
Eu assinalo imediatamente que “mais uma”, uma pessoa a mais, não havia.
Não havia ninguém presente; mas, imaginariamente presente, havia. Não
posso falar por meus colegas, mas, no que me concerne, essa pessoa presente a
mais estava lá, e de diferentes maneiras, segundo o caso; podia ser — a cada um
segundo seu lugar — você mesmo, por momentos, podia ser o analista com quem
eu estou em controle, podia ser o meu analista, podia ser um dos meus
pacientes, creio poder dizer que sempre houve, imaginariamente falando, uma
“mais uma”.
JACQUES LACAN — Era uma “mais uma” que mudava, ou seja, era por
exemplo uma “mais uma” diferente nas declarações de cada um? Uma vez que
se tratava de um seminário que você caracterizou como de formação teórica,
seria possível que o discurso de cada um, cada qual por sua vez, trazia uma
“mais uma” diferente?
Uma pessoa qualificável como “mais uma pessoa”, cada vez uma diferente,
como você exemplificou na sua experiência, da qual você estava apto a
testemunhar, já que sabia que pessoa tinha em mente, tendo por isso enumerado
um certo número delas. Penso que de vez em quando Freud estava presente, já
que se tratava de formação teórica, mas você não o citou. Eu compreendo,
certamente, seu controle [contrôleur] ou qualquer outra pessoa, mas você tinha a
sensação de que no discurso dos outros se dava o mesmo? Eu diria que o
discurso dos outros girava em tomo de um eixo não urgente; seria sob esta forma
que o "mais uma” se apresentava?
PIERRE KAHN — Sim, posso dizer que sim, talvez apressadamente, já que
falo em lugar deles, me parece evidente, dentro da estrutura, que já ocupava um
lugar. Mas o que gostaria de acrescentar é o seguinte, e é por isto que digo que
me parece evidente; as pessoas que estavam lá, em presença, se esforçavam para
isso: nesse trabalho de leitura e comentário, no sentido que contei há pouco, eles
se esforçavam para conseguir o que poderíamos chamar, retomando a sua
expressão, uma palavra plena, e, em conseqüência, é evidente que, além dos
interlocutores fisicamente presentes com quem discutiam, eles se dirigiam a
alguém. Esse trabalho, então, se fazia com alguma coisa que, me parece, pagava
um preço; é que as pessoas presentes não ocultavam muito o que podia estar
implicado de sua posição subjetiva em relação ao texto que estudavam. Que seja
um texto seu, um texto de Freud, já que você o mencionou há pouco, etc...
A pergunta que faço, a partir do que Martin nos lançou há pouco, é a
seguinte: nesse trabalho, que foi para mim satisfatório, que diferença teria sido
introduzida se a “mais uma”, que estava lá imaginariamente, tivesse sido não
uma pessoa imaginária, mas uma pessoa real?
'Sem poder acrescentar muito mais sobre isso, quero simplesmente falar da
minha convicção de que teria havido certamente uma mudança no trabalho, se a
pessoa “mais uma” fosse outra coisa que a pessoa imaginária que cada um trazia.
Diferente dò ponto de vista de uma maior aproximação ao objetivo
proposto nesse trabalho, que era chegar, com todos os balbucios que isto
implica, a uma palavra plena.
JACQUES LA C A N — Sr. Alfandari, diga-me o que pensa sobre o que acaba
de .dizer Pierre Kahn.
'.T a lv ez você tenha pensado no funcionamento efetivo do cartel, o que me
parece ser um ponto capital, para dar um estilo analítico às suas reuniões,
porque esse “mais uma” sempre se realiza, sempre há alguém num grupo,
mesmo que seja por um momento, já é bom quando algo acontece e, ao menos
por um momento, alguém detém as coisas e, sobretudo num grupo pequeno
como este, habitualmente — é o caso de dizê-lo — isto é um hábito [habitus],
habitualmente é sempre o mesmo, e acaba nisso sem medir as conseqüências. Eu
diria que todo mundo está minto contente por haver alguém que atue como
aquilo que nós chamamos comumente de líder, aquele que conduz, o Führer.
MAURICE ALFANDARI— O que disse Kahn me lembra um pouco o que eu
senti nesse grupo; me parece que, num cartel, existem dois obstáculos: um, não
há coisas suficientes em comum para que ele se mantenha, e o outro é uma espé­
cie de efeito imaginário de grupos que bloqueia tudo. Mas é só agora que digo
71

isso, eu nunca tinha pensado assim antes, acontece que esse grupo é clínico, mas
as mesmas pessoas desse grupo clínico se encontravam num grupo que não era
clínico, que estava centrado sobre o estudo de outra coisa, da matemática...
JACQUES LA CA N -— Vocês eram o quê? Vocês eram um grupo já um pouco
csclarccido [cfecrassé] matematicamente, se se pode dizer? Porque é verdade, é
preciso passar por isso para saber como é que é, quero dizer, ter tido pelo menos
,um esboço de formação matemática. E muito especial, específica, a formação
matemática. ' - -
MAUMCE ALFAND ARI— É difícil responder sobre o grau de sujeira
[crasse] que tínhamos; eu acho que alguém entre nós estava bastante avançado,
mais que nós, e depois havia o nosso professor, que estava longe de tal sujeira, o
nosso professor era alguém apto para nos levar por essa via; o grupo já dura dois
anos. Então, eram quase as mesmas pessoas nesse grupo teórico, matemático, e
no grupo clínico. Penso no grupo clínico, onde acho que os efeitos não são
visíveis, não se pode delimitá-los muito facilmente, mas simplesmente se pode
delimitá-lo pelo fato de que, para mim, por exemplo, não era possível levar nada
a um certo nível de elaboração fora desse grupo. Isso era possível para mim, mas
eu não saberia dizer em que momento: é a função, na verdade, do grupo.
JACQUES LACAN — Quando os matemáticos se juntam, há esse “mais
uma” incontestável. Quero dizer que é verdadeiramente incrível, mas os
matemáticos, poder-se-ia dizer, não sabem do que falam, mas sabem de quem
eles falam; falam da matemática como se fosse uma pessoa.
Poder-se-ia dizer que, até certo ponto, o que eu chamava de “meus votos”
era o funcionamento de grupos, que funcionassem como um grupo de
matemáticos qualquer.
MICHEL FENNETAUX — Gostaria de dar minha opinião porque trabalho
no grupo de que falou Alfandari. Na verdade, eu nunca me tinha perguntado
sobre o “mais uma”, mas posso dizer o que ele me faz pensar, já que se trata
disso.
JACQUES LA CA N — Isso lhe faz pensar o quê?
MICHEL FENNETAUX— O “mais uma" é, por um lado, efeito do grupo, ou
seja, como disse Alfandari há pouco, o fato de poder reencontrar periodicamente
um certo número de pessoas permite, me permitiu, aprofundar ou poder
formular um certo número de coisas sobre a minha experiência, que eu não
conseguiria fazer só. O segundo sentido que vejo atualmente nesse “mais uma” é
que efetivamente acho que, num grupo, um de nós assume, muitas vezes,
provavelmente por sua experiência mais extensa, essa posição de líder de que se
falou há pouco.
Enfim, há um terceiro sentido; teríamos que falar antes de “menos uma”
que de “mais uma”, da seguinte maneira: nos encontramos entre pessoas que
têm entre si uma relação de confiança e que podem falar desse fato, como disse
Kahn há pouco, indo bem longe em seu relacionamento na prática; esse “menos
uma” é, no fundo, a ausência de supervisor, quer dizer, a ausência desse efeito
de atordoamento que há nos grupos mais importantes, formados por pessoas
72

cujo nome é conhecido na Escola, e onde tem muito mais importância do que
num grupo pequeno o problema do reconhecimento. Num grupo pequeno, como
o cartel, a demanda de reconhecimento pelos outros é, em grande medida,
anulada.
É por isso que o terceiro sentido de “mais uma”, eu definiria melhor como
“menos uma”.
LAURENCE BATAILLE — Eu já participei de um bom número de grupos
que não eram justamente cartéis, e acho que essa pessoa que tem, digamos, um
status diferente, que não chega a ser um semelhante, se encarna sempre numa
das pessoas do grupo. Mas não tenho a impressão de que seja um líder, e sim de
que há uma pessoa no grupo a quem a gente se dirige, a quem se faz testemunha
de alguma coisa, e de quem se espera efetivamente uma espécie de aprovação;
mas, na realidade, isto não cumpre o papel que deveria cumprir, quer dizer, que
esses grupos acabem sempre — enfim eu digo sempre... — então o “a mais”
muda, porque se espera essa mudança de um outro. Eu também experimentei
isso, realmente, de maneira completamente evidente, e quando falei disso num
dos grupos, porque tinha a impressão de que eles também se dirigiam a uma
pessoa em particular, que não era a mesma para todos, parecia que sonhei ou
imaginei que eles olhavam sempre para a mesma pessoa quando falavam.
De repente vamos fazer um grupo, e a gente diz que esse “a mais”
poderíamos fazê-lo funcionar impondo, no fim de cada reunião, a escrita do que
foi o essencial, mesmo que seja só uma frase, e que isso ficaria como
testemunho, se se pode dizer, e faria que o trabalho avance e não se dilua em
pequenas idéias que não podem se desenvolver.
Não sei se isto pode cumprir esse papel, porque a gente deve se reunir
segunda-feira próxima pela primeira vez.
JACQUES LACAN — Eu lhe agradeço.
SOL RABINOVITCH — O que gostaria de dizer sobre o cartel em que
trabalhei é que éramos cinco, cinco membros que nunca faltaram; houve um
sexto que faltou muito e que, além disso, foi substituído por outra pessoa, que
faltou muito também.
O que gostaria de dizer, sobretudo, é que isso não me parecia ser a função
do “um a mais” mas, pelo contrário, a função do “mais um”, que era sustentada
justamente pelos membros presentes e que não faltavam nunca naquele grupo,
quer dizer, como uma função que seria a do ponto cego, uma função de
desconhecimento; há sempre, num determinado momento, alguém; nunca o
mesmo, é claro; sempre é alguém que está lá, que diz; eu não entendo nada, isto
não serve para nada, não estamos produzindo...
JACQUES LA CA N — E isso o “mais uma"? Aquele que não entende nada?
Por que não? [risos).
SOL RABINOVICH — É alguma coisa assim, mas preciso que é uma função
perfeitamente intercambiável; é um papel que se desloca. Teríamos que articular
isso com o fato de que o trabalho de um cartel é um trabalho analítico, portanto
há transferência; é tudo o que queria dizer.
73

ALAIN DIDJER WEILL — Tenho uma idéia sobre esse “mais uma”, em rela­
ção a esta pergunta: por que diferentes cartéis de que participei não alcançaram
o objetivo que achávamos justo alcançar no começo?
Tomemos como exemplo de um cartel onde se faz um comentário de texto:
pode-se dizer que o que nos reúne, nesse caso, é que estamos situados num
contexto metonímico e que, nesse contexto, devemos suportar a palavra de um
Outro, Freud, Lacan. Nesse contexto metonímico, o quê se tornará o ser falante?
Pela primeira vez me ocorre que talvez o “mais uma” seja alguém que tem
relação com o passador [passeur]: o “mais um” poderia ser o lugar onde está, no
esquema L, o $, quer dizer, o testemunho de um atravessar possível do eixo a - a ’,
de um atravessar possível que vai de A a $.
Em outras palavras, o “mais um”, se ele ocupa esse lugar de $, não seria
seguramente um sujeito suposto saber, mas um sujeito que testemunharia que
isso passou, que a mensagem passou, que houve metaforização, que foi
reencontrado, além daquilo que se recebe como adquirido (dessas “idéias
recebidas” que Flaubert acumulava no seu dicionário de "idéias chiques”), o
ponto nevrálgico de onde esse contexto metonímico surgiu de um texto
inaugural metafórico.
JUAN DAVID NASIO — Partirei da experiência de dois cartéis dos quais
participo, experiências diferentes, mas que, em relação às questões do “mais
um”, esse "mais um” está presente nos dois casos.
JACQUES LACAN— Está sempre presente, mas sempre desconhecido.
E é o que eu queria sugerir nesse pequeno texto: é o que os analistas po­
deriam se aperceber; ele é sempre desconhecido porque isso é o Outro do Outro,
esse “mais um” está sempre presente, sob formas diferentes onde ele se encarna;
o caso do líder é manifesto, mas os analistas poderiam se aperceber de que, num
grupo, há sempre um “mais um”, e dirigir sua atenção para isso.
JUAN DAVID NASIO — Não sei se vocês estarão de acordo em se apoiar
numa das fórmulas lacanianas mais conhecidas, ou seja, que o desejo do homem
é o desejo do Outro. O “mais um” é aquele que sustenta, no grupo, o desejo do
Outro. Sustentação do desejo que pode ser feita de mil maneiras, falando,
calandó-se, emprestando a sua casa para a reunião, etc. Há mil maneiras de ser
“mais um ”. Mas há uma outra maneira de dar conta disso. Pensando no
conteúdo do cartel, eu penso no saber do analista. O saber do analista, se é
válida a hipótese de que é isso que está em jogo no cartel — falo dos cartéis de
analistas, pois não se deve esquecer que há cartéis onde não há analistas. O saber
do analista é um saber compartilhado, mas não um saber para intercambiar, acho
que é uma das nossas fórmulas, esta idéia de compartilhar faz referência ao fato
de que só há analistas, seria aí que eu me uniria — não sei se Alain Didier estaria
de acordo — à sua idéia de metonímia. Eu falaria, mais precisamente, sobre a
sucessão das séries; em relação a um analista haverá sempre um outro, um “mais
um”. Se há dois, haverá um terceiro. Nesse momento, haverá quatro. Em suma,
sempre haverá um que estará presente a mais, e essa presença eu a colocaria
como presença daquele que sustenta, no trabalho do grupo, o desejo do outro.
74

JACQUES DONNEFORT — Eu gostaria de tomar como exemplo o que


aconteceu num grupo que funciona há dois anos. No reinicio, este ano, uma
pessoa “a mais” entrou no grupo, e nos propusemos a contar-lhe, de alguma
maneira, o que se tinha elaborado no grupo nos dois anos anteriores; nos
sentimos aborrecidos por ter que prestar contas. Chegamos, nesse momento, a
pensar: parece tão difícil como se se tratasse de falar da própria análise.
Digo isto porque efetivamente nos fez pensar no passe, curiosamente teve
um efeito— essa pessoa que veio a mais, não que seja ela a “mais uma”, mas
assumiu essa função pelo qué acontecia nesse momento naquele grupo — isso
teve um efeito notável; pouco a pouco, no que se tornava um cartel, me parece,
as pessoas começaram a falar sobre sua análise, sobre su~ própria análise, e a
tomar como exemplo eventu'almente alguma coisa que se dizia num plano mais
ou menos teórico — é um grupo que trabalha em torno da pulsão — a
exemplificar, de certa maneira, a partir do que sucedia no nível de sua própria
análise.
E nesse sentido que chegamos ao que foi dito sobre a função do passador e
sobre a presença do analista, e nesse grupo nos encontramos de repente na
posição do analisante.
COLETTE SOLER — Queria dizer ainda outra coisa: no fundo, eu faria a
hipótese de que, se há sempre “mais um”, existe talvez interesse em que este não
esteja encarnado no grupo. Porque quando está encarnado no grupo, realmente
isso funciona sob a forma de que há um líder com todas as...
JACQUES LACAN— Não é seguro que seja sempre tão simples...
COLETTE SOLER — Pensei isso a partir do cartel em que estava, eu me
perguntei muitas vezes quem era o líder, no grupo, e nunca consegui responder.
Quer dizer, não creio que, na verdade, houvesse uma pessoa nessa posição, mas,
pelo contrário, havia aí uma referência, e já disse que se situava pelo lado do seu
[votre] nome; eu disse n om e justamente para indicar que é por isso que a coisa
funcionou, porque um nome no fundo não responde, e é isso que permite que
funcione.
GEORGES BOTVINIK — São justas tais reflexões. Na verdade, contrapõe-se
o “mais um”, que estaria encarnado, ao problema do líder; me parece que isso
insiste como uma dificuldade para as pessoas, e para mim também. Por outro
lado, o "mais um”, que seria um nome ou — eu diria — uma palavra, quer dizer,
um elemento comum do discurso, ao redor do qual o grupo se reúne para
trabalhar: no fundo, um grupo se forma ao redor de uma palavra, um tema, e,
finalmente é uma palavra que não responde: não responderá jamais: para mim, o
“mais um” evoca, assim, o “mais de gozar” [plus de jouir],
Existe uma questão que me parece importante, e que não foi tratada: é a
questão do trabalho. Não quero aprofundar demais esse problema. Escutei a
expressão “temos que produzir”. Não me parece que se possa resolver essa
questão do “um a mais”, seja o que for, por outro lãdo, seja encarnado ou não,
sem se perguntar pelo problema do trabalho, de por que se trabalha, e a relação
que isso tem com o desejo e o gozo. Estes são comentários.
75

GUY LAVAL — Eu gostaria de falar de um cartel que existe há pouco


tempo,, que surgiu de um seminário de Clavreul; digo bem: que surgiu, o que
mostra que houve uma necessidade a partir de um certo momento. O seminário
terminava, se desfazia. Não se mantinha mais, pode-se dizer. Finalmente, num
momento dado, apareceu a necessidade de constituir uma coisa diferente, isso
recebeu o nome de cartel, e a primeira necessidade que se impôs a mim, eu não a
chamaria de “mais uma”, mas me parece dessa ordem, a primeira necessidade
era a de ter uma pessoa sobre quem eu pudesse me apoiar para falar.
Era para mim, talvez, a primeira função “mais uma”; mas Clavreul me
frustrou, designando-me como responsável pelo cartel, responsável e não líder,
ele o precisou bem, já que se trata de um cartel sobre as entrevistas preliminares,
e eu tinha feito um trabalho sobre isso. Tendo sido designado, de repente eu não
tinha mais esse apoio que precisava dentro do cartel.
Mas isso não quer dizer que não ficara uma certa necessidade, e me parece
que essa necessidade provinha mesmo do mal-estar que sentíamos todos diante
do desfiar, pode-se dizer, do discurso nos últimos tempos desse seminário.
Nas primeiras reuniões do cartel sobre as entrevistas preliminares,
continuou havendo esse desvanecimento; por outro lado, era como se houvesse
uma certa necessidade, e o primeiro nome que se pode dar a essa necessidade é
necessidade de formulação, creio.
Acontece que num cartel muito facilmente se conversa em grupo, já que é
mais fácil, somos em menor número, começa-se a falar mais facilmente, mas
pode acontecer de que não se chegue a nada, pode se tornar uma reunião entre
amigos, que se gostam, que podem se falar, mas me parece que a primeira
necessidade (e isto seria talvez também da ordem do “mais uma”) é a ne­
cessidade de formulação que pode ser escrita, que pode ser. transmitida ao
grande grupo e que talvez por isso possa se reconstituir de vez em quando, e
acho que isso chega um pouco mais longe, até alguma coisa que não sei articular
muito bem, que o senhor chamou matema. Quer dizer, me parece que, muito
facilmente, um cartel pode muito bem constituir uma espécie de pequeno grupo
esotérico que, afinal, não dá respostas a nada, não tem que prestar contas de
’ nada.
Acho que o que o senhor articulou como matema também pode remeter a
essa necessidade do “mais uma” no cartel.
ROUDI GERBER — Gostaria de contribuir com uma analogia que eu tiraria
do alpinismo: quando se tem três pontos de apoio, pode-se, na verdade,
permanecer nesses três pontos até que, finalmente, fica-se esgotado e morre-se.
O quarto ponto permite passar e obriga à passagem, o que quer dizer que,
desde que se tem o quarto ponto, você é obrigado a ir além, e me pergunto se o
“mais um" não é aquele a quem o cartel demanda poder testemunhar essa
passagem.
JACQUES LACAN — Eu estou aqui para uma função bem precisa; ela seria
esta coisa que escrevi, e que ninguém certamente se apercebeu, porque não é
mais que um esboço: colocá-la de alguma maneira no que vocês representam
76

como lugar público, e interessá-los pelo assunto. Quero dizer isto que, depois de
tudo, vocês chegam à idéia de que é uma pergunta. É uma pergunta, certamente,
que eu só faço porque tenho a resposta, e tratarei de dizê-la em seguida; quero
dizer o mais rápido possível, claro; não tenho tantos seminários pela frente este
ano, portanto vou tentar fazê-lo.
Mas acho interessante que a pergunta esteja presente na Escola, porque
pode ser considerada, talvez, como o-que eu pretendia fazer com esse texto,
como o ponto nodal para a formação de um pequeno grupo, e o fato de ser
pequeno é essencial para seu funcionamento. Se eu disse que não podia passar
de seis, foi pelas melhores razões, por razões teóricas, mais profundas. A tarefa
de um grupo muito amplo comporta limitações tais, é o que eu penso pelo
menos, que não há grande coisa a se esperar para um progresso real sob os
efeitos da análise.
E isto que me inspirou quando fiz essa Ata de Fundação, à qual não tenho
nenhuma razão para pensar que vocês deviam ser por princípio resistentes; não
vejo em absoluto o que poderia motivar essa resistência, sobretudo se o que
tratei de obter de um certo número, agradeço a todos igualmente, o que tratei de
obter de um certo número; pô-la na ordem do dia.
Haverá uma reunião amanhã de manhã que dará continuidade à de hoje.

(A sessão é su spen sa)


77

II - SESSÃO DE GRUPO DO DOM INGO DE MANHÃ


DO "MAIS UMA" (CONTINUAÇÃO)
JACQUES LACAN — Estou muito interessado naquilo que foi iniciado
ontem cm torno da função dos cartéis, e ficarei reconhecido a quem retomar o
que dissemos.
JUAN DAVID NASIO — Minha função se limita a coordenar este grupo
sobre a função dos cartéis. Lembrarei simplesmente que a definição de cartel, na
Ata de Fundação, comporta certas características:
1) O cartel é o lugar de compromisso com a Escola Freudiana.
2) O cartel deve sustentar um trabalho de elaboração que, como trabalho
crítico, concerne, me parece, ao saber do analista, por um lado, e à
própria experiência analítica.
3) Enfim, o cartel tem uma estrutura bem definida. E sobretudo este
último aspecto que foi discutido ontem.
Dessa estrutura se conclui que a “mais uma” pessoa que compõe o cartel é
uma pessoa presente e desconhecida.
JACQUES LACAN — No entanto, sugerimos que essa pessoa — que é, de
alguma maneira, eco do grupo — existe em todo funcionamento de grupo, só que
ninguém pensa nisso, e seria conveniente que os analistas não a desconheçam,
porque parece que existe desde o início. Tres faciu n t eclesiam 3 diz a sabedoria
das nações, e isso vai longe: por que há esse surgimento de três?
O que gostaria e de ter, como ontem, algumas respostas, respostas que
testemunhem que, pelo menos, algumas pessoas já pensaram nisso. Há o
chamado Pierre Kahn, por exemplo, que interveio ontem e que teve a gentileza
de me acompanhar à minha casa depois dessa pequena sessão e que, nesse curto
tempo, me provou que ele vê muito bem a relação que isso tem com a análise.
Isso implica já, pelo menos, uma pessoa.
JUAN DAVID NASIO — Prefiro passar-lhes a palavra.
HUGUETTE MENARD — Estas são algumas reflexões a partir da reunião de
ontem à noite. Participar de um cartel é se comprometer com um trabalho, uma
produção, em suma, uma mais-valia, e por que não um gozo, gozo efêmero? Um
tempo, se toma como testemunha, como se falou ontem à noite, uma pessoa, o
analista, o controle, o amigo suposto saber mais sobre a psicanálise. Ele é
colocado na posição de líder, mas o caminho é curto, e nos conduz a perceber a
ilusão da qual devemos nos desprender.
No entanto, comprometer-se num cartel é um momento, um pivô, uma
báscula. Há algum tempo uma paciente me repete: “E necessário que eu me
inscreva num cartel”, acrescentando: “Mas é mais doce continuar a sonhar
minha vida”. Eu acrescentaria: é doce o duro desejo de dormir.

(3) Latim: “três fezem uma igreja”. (N.T.)


78

O trabalho em cartel participa de uma maiêutica e continua, com efeito, a


p osteriori, o trabalho da análise, primeiro, e da praxis depois. E o mesmo
processo dialético. Como tentar se tornar analista sem participar de um cartel? É
uma necessidade implacável. Por outro lado, é o que foi dito e escrito na Ata de
Fundação da Escola. Um trabalho que evoca aquele das danaides4: tentar encher
o vazio, a falta.
Uma pergunta então sobre o “mais uma”. E a presença ausente da morte
que nos joga no encantamento da linguagem? Mas atenção! Não se trata de ficar
nas palavras, de falar, como se diz, à toa. Um trabalho só pode ser uma
produção, a do escrito que se expõe, onde á gente se expõe.
JOSÉ GUEY— Gostaria primeiro de dizer o que não consegui dizer ontem à
noite, e não é só uma ilusão no ar. Acrescentaria que, no que me concerne, no
congresso de Montpellier eu tinha preparado um trabalho sobre a questão.
Naquele momento, em relação à pessoa “mais uma”, eu não podia dizer
nada, mas o que me assombrou na Ata de Fundação, e sobre o qual tratava de
articular alguma coisa, é o que se escreveu sobre a “verdadeira transferência de
trabalho”. O senhor escreveu nesse texto que só pelas vias dessa “transferência
de trabalho” pode ser transmitido, de um sujeito a outro sujeito, o ensino da
psicanálise. Ontem, na discussão, me pareceu que se girava em torno do que
acaba de lembrar Huguette Ménard, ou seja, do sujeito suposto saber.
Farei referência ao nosso cartel de Marselha, qye é mais precisamente uma
reunião de cartéis, e que foi promovida por Zlatine; eu o cito porque foi ele
quem o organizou, e tenho que dizer que, desde o início, ele apareceu como o
sujeito suposto saber, que era suposto saber mais disso que os outros.
Há uma regra nesse cartel que é a de produzir uni trabalho, quer dizer que
não se trata, como se fez referência, de uma discussão à toa, mas, assim como as
pessoas da Escola se comprometeram com um trabalho, as pessoas dessa reunião
de cartéis, que não eram todos membros da Escola, aceitam essa regra de
produzir um trabalho, e isso conduz a um trabalho escrito, que não é segura­
mente acessório. Essa regra, que regiu nossas reuniões, teve como resultado um
certo número de textos.
E é uma experiência dialética de discurso, a partir de textos que se com­
binou antes, sejam textos de Freud ou de Lacan, e comentários que se produ­
ziram.
Poderíamos dizer que, a partir desse trabalho, houve um progresso.
Gostaria de assinalar que existe uma sucessão de enunciados diferentes referidos
aos sujeitos da enunciação, mas também em relação aos enunciados que se
acrescentam há cinco anos.
Isso implica também efeitos de resistência, e é por isso que eu citava meu
trabalho de Montpelier, trabalho que tinha redigido e comunicado aos membros
do cartel, mas que não tinha comunicado na Escola, com o falso pretexto de que

(4) Figuras da mitologia grega que — por haver assassinado seus maridos na noite de
núpcias — foram condenadas a encher de água um barril sem fundo. (N.T.)
79

isso não interessava a ninguém e, por outro lado, que minha formulação era
ainda insuficiente.
PIERRE MARTIN — Com o único fim de retomar a discussão, eu queria
lembrar o que me chocou pessoalmente na leitura da Ata de Fundação. É o
número três. Ontem eu sublinhei a “mais uma” pessoa. Hoje gostaria de destacar
o que, repito, prende minha atenção há bastante tempo, que é o numero três
dessa Ata de Fundação. Assinalaria, no segundo parágrafo, o que se poderia fixar
sobre o trabalho que a Escola deve cumprir, onde o autor faz três propostas. Eu
as citei ontem. Essas propostas são seguidas pela organização de três seções.
Cada uma das seções inclui três sub-seções.
E direi, para terminar meu dizer atual, mas de maneira alguma para tirar
uma conclusão sobre o que provoca essas preocupações, que no centro desse
número três, o que retém minha atenção é o “mais uma”.
NICOLE LEV Y— Alguma coisa me incomoda e eu gostaria de comentá-la.
Trata-se de uma espécie de abuso, de uma distorção quando, a propósito do
“mais um”, se fala agora de “mais uma”. Claro, isso pode querer dizer “mais
uma” pessoa, mas eu me perguntava se é disso que se trata, se se trata de uma
pessoa, como se diria “mais um” membro do grupo, e eu me questionava se o
“mais um" não funcionaria para nós como um significante.
A esse respeito, pensava que, no seminário sobre os Quatro con ceitos
fu n dam en tais da psican álise, Lacan introduz desde a abertura um outro sob a
forma do “eu não busco, eu encontro” que preside, de alguma maneira, à
instauração dos quatro conceitos fundamentais. E isso que ele denomina o
achado, isso a que ele se refere, não poderíamos entendê-lo no mesmo registro
que esse “mais um”, ou seja, como algo da ordem do significante? Poderíamos
dizer um significante que funda o desejo, do mesmo modo que podemos lembrar
que esse “mais um” se escreve a partir e numa Ata de Fundação.
GENNIE LEMOINE — Eu gostaria de depor sobre o trabalho feito desde a
reunião de Montpellier no nosso seminário.
Reencontramos naturalmente o caminho que conduziria aos “três” de
Martin. Com o anúncio desse seminário se formou uma multidão e nos
esforçamos por fazer nele um trabalho analítico. A primeira intervenção foi no
sentido de organizar um grupo menor, deslocando-o para que só as pessoas
interessadas pudessem comparecer. Isso foi o grupo das terças-feiras, onde
constituímos finalmente, depois de três anos de trabalho, o que poderia começar
a parecer um cartel. Logo depois, num dos cartéis de quatro pessoas, foi dito que
cada um acabou falando de sua análise, e que então esse trabalho não podia ser
levado à sessão plenária. Mas se falou também que o trabalho do cartel era
justamente chegar a que cada um deixasse de se expor, ou que não tivesse a
sensação de arriscar a vida cada vez que se fala da própria análise, porque se
chega a um certo nível de teoria que se transforma, justamente, nesse terceiro
termo que faz com que o trabalho do cartel permita a cada um passar ao outro
lado, ou, pode-se dizer, enfrentar a castração sem risco de morte. E esse o
trabalho analítico de nossos cartéis: chegar a dar um certo passo e fazer um
80

trabalho analítico. De tal maneira que esse terceiro termo me parece ser
simplesmente um analista.
Nosso trabalho foi transformar esses grupos em cartéis. Demoramos mais de
três anos. Agora... em quarenta ou cinqüenta pessoas, há talvez dois pequenos
grupos que parecem cartéis, um de quatro pessoas e outro de cinco. E somente
um desses dois pequenos grupos perguntou sobre o fato de um sujeito se expor
quando fala.
Eu retomo o termo da Sra. Ménard. O problema é que a gente não se expõe
mais porque fala de um terceiro, ou tem o lugar de um terceiro, que é um outro
grau, o grau da teorização.
NICOLE PEPIN— Num trabalho de cartel, já que se trata de um trabalho
psicanalítico, o que importa é encontrar a mesma estrutura de um trabalho
psicanalítico, ou seja, que a estrutura do inconsciente seja mantida.
Em relação ao número de participantes, o número mínimo, obrigatoria­
mente, seriam três. O “mais um” me parece muito importante, mas que sejam
cinco ou seis, no meu ponto de vista, não tem importância, salvo que dentro dos
três haja a m ais aquele que possa cumprir o papel de “um a mais”.
Esse papel de “o um a mais”, o que é ? Para que vai servir essa pessoa
acrescentada aos três? Para mim, quando penso nesse número três, sempre é o
simbólico, o real e o imaginário, que funcionariam numa relação de triangulação
edípica. O importante, num cartel, se situa não só ao redor da escolha do tema
do trabalho, mas também, e talvez ainda mais, no nível da escolha dos
participantes.
Porque, para que haja trabalho psicanalítico, é necessário que as pessoas
escolhidas não sejam quaisquer pessoas. Não penso que quaisquer pessoas
possam obter esse lugar, que vai permitir elaborar o discurso psicanalítico —
pois se tratará, aí, de um discurso psicanalítico. Pode-se ver quando as pessoas
se impuserem, como foi colocado ontem por alguém que dizia que havia sido
nomeado como responsável de um sub-grupo. Ele havia precisado que, a seu ver,
nesse caso nada podia funcionar.
O que não fica ainda muito claro para mim é o papel exato que cumpriria a
pessoa a mais. De acordo com as experiências que tive até agora dos cartéis — e
foram tão fugazes! (na medida em que, até agora, eu não tive a impressão de que
as condições necessárias para o funcionamento de um cartel tenham sido
respeitadas) — eu acho que essa pessoa a mais é aquela que vai permitir a busca
da coisa, que vai permitir essa articulação, e vai fazer com que haja sempre o
desejo de achar de novo a coisa que será mantida no grupo.
Mme X... — Não entendi por que ontem se fez uma diferença entre os
grandes grupos e um grupo mais restrito. Se os grupos de matemáticos tinham
uma idéia do modo de funcionamento possível dos cartéis, como pode ser que as
regras lógicas que funcionavam para os cartéis não sejam aplicáveis ou
extensíveis a grupos integrados por mais do que um número limitado de seis
pessoas?
GENNIE LEMOINE — Pela razão que creio já haver dito. Passa-se do
81

trabalho da análise própria, da qual se fala num grupo pequeno com a sensação
de se expor, a um nível em que não se arrisca mais e onde se pode passar ao
grupo grande, se se quer, e ainda assim não vejo nenhum interesse. Isso acontece
de uma maneira ou de outra. Mas, a princípio, é essa passagem que se deve
assegurar, e isso só pode ser feito a partir do pequeno grupo de três ou quatro.
Não se pode de entrada falar da própria análise numa multidão.
M me X... — Eu tinha a impressão de que, quando regras lógicas não se
impunham à estruturação de um grupo restrito, isso era válido para um grupo
pequeno e não para um grupo maior, e fazendo uma diferença entre esses dois
tipos de grupos, diferença que mesmo no campo da psicologia social, que se
interessa por grupos, não se reconhece, nesse momento não se tinha meios
críticos ou de elaboração e construção do grupo grande.
GENNIE LEMOINE — Por que você quer construir o grupo grande?
STEPHANE Dl VITTORIO — Essa é a questão: por que construir o grupo
grande? Se eu posso mencionar algumas reflexões que fiz desde ontem, o que
mais me deu certa luz sobre o cartel foi essa evocação do grupo de matemáticos.
Lacan nos disse ontem que, se os tomássemos como exemplo, eles tinham aquela
noção do “um a mais".
O controle não é, tampouco, uma situação onde se fala da própria análise.
Na situação de controle, isso de que se fala é de certa maneira limitado a uma
relação especial, que é o que sucede entre o paciente e o analista. Será que o
cartel não é também uma coisa que implica um assunto bem delimitado, que é o
compartilhar de um saber ser?
Há toda uma série de perguntas que eu faço. A única que não respondi é
aquela do limite superior que se debate neste momento. Constato que a outra
questão que aparece é esta: não se pode fazer um cartel com qualquer um. Acho
que é porque não se pode compô-lo com pessoas que são muito próximas, nem
com pessoas que estão longe demais. Porque o que se trata de compartilhar é
essa produção de discurso necessária, e tenho a impressão de que, se num cartel
há alguém que lhe seja muito próximo, você não pode compartilhar esse saber
que não quer comunicar aos outros, por exemplo.
É por isso que a expressão de Lemoine: se expor, expor a própria análise...
será que num controle se expõe a própria análise? Não se expõe, isso só acontece
se se relaciona de maneira incidental o que se passa entre tal paciente e tal
analista-Mas um controle nunca foi identificado com uma análise, e penso que é
no mesmo sentido que, por exemplo, se dizia em Roma: o controle adquiriu na
Escola Freudiana uma dimensão que não tinha antes, que não tinha em nenhum
outro lugar. Penso que é nessa linha que o cartel se inscreve também. O cartel é
uma invenção específica da Escola Freudiana. É na linha desse desenvolvimento
do controle, mas apoiado sobre outra coisa, quer dizer, sobre o discurso
científico. Por que os matemáticos têm a impressão tão evidente de que há
alguém a mais? Porque eles estão certos de que o discurso matemático é
necessário, que está aí e que cada um extrai o que percebeu dele. Será que o
cartel não consiste também em fazer surgir um discurso necessário, a partir do
82

qual as pessoas se encontram várias vezes, sucessivamente, e não de uma vez


por todas dizendo: “é isso o que sabemos da questão?” Elas vivem, e como elas
se escolheram de uma certa maneira, essa maneira não é muito esclarecedora
neste momento, já que Gennie Lemoine dizia que não se podia fazer um cartel
com qualquer pessoa. As pessoas se escolheram para fazer um cartel, o que quer
dizer que elas compartilham esse saber que aflora sobre um tema, e como existe
aí uma espécie de filiação, pelo menos no tempo, isso talvez não valha grande
coisa, mas a análise veio depois de alguma outra coisa, talvez do discurso da
histérica. Os controles vieram depois, historicamente. A pergunta que eu me
faço é: depois dos cartéis se pode conceber alguma outra coisa?
JUAN DAVID NASIO — No texto do anuário o cartel não é nem o lugar do
controle, nem o discurso analítico, o que quer dizer que ele não é a prática
analítica. Também não é o que se poderia chamar de um lugar de base. O cartel
tem uma especificidade muito própria, e diria até que ele produz as especifici-
dades da Escola Freudiana, pois o primeiro que aparece é que ela é a primeira
sociedade psicanalítica que funciona com uma estrutura que se chama estrutura
dos cartéis, apesar de que falta ainda verificar essa atividade.
Em todo caso, a Escola Freudiana com sua unidade de estrutura, os cartéis,
é uma experiência nova. Na Ata de Fundação a palavra que se deve sublinhar é a
palavra Ata. Eu diria que na Ata de Fundação o cartel se instituiu como um ato5
quer dizer, como algo novo e real das sociedades psicanalíticas. Sobre esse
ponto, penso que o cartel não está longe do que vai, como real, sustentar uma
sociedade de psicanálise.
EDMOND SANQUER — Há sete anos trabalhamos sobre psicose-insti-
tuição; somos seis, que se escolheram entre si, se conhecem perfeitamente e têm
sensivelmente a mesma forma de trabalho. Pois penso que, num cartel, o que
funciona é um trabalho no nível da paixão, paixão apaixonada e passional, quer
dizer que o “mais um" é com freqüência aquele que é ou o sujeito do ódio do
resto do grupo, ou o sujeito do amor do grupo.
Mas muitas vezes isso só se percebe posteriormente. No momento do
funcionamento do cartel, isso não aparece nunca na primeira leitura.
HUGO FREDA — A partir das observações de Martin sobre os “três” no
texto, pensei em seguida que três m ais um é, afinal, a própria estrutura de todo o
discurso analítico. Penso até que ponto, pela maneira de trabalhar, pela maneira
em que acontece um trabalho de cartel, que o determina, penso que é, sobretudo,
essa estruturação de 3+1 toda a estruturação do discurso analítico feito por
Freud.
E que 3+1 é quase a estruturação, é o conceito, no número, da estruturação
edípica. Penso que, afinal, o possível funcionamento, se tem alguma coisa de
novo, é uma concordância muito precisa entre a maneira de escrever 3+1 na Ata
de Fundação da Escola, e apropria estruturação do discurso analítico. Isto é uma
parte.

(5) Em francês, “ata” e “ato” são acte. (N.T.)


83

Penso também, associando, numa palavra que Lacan usa no seminário


sobre as F orm ações do Inconsciente, onde fala dos “sem signos”. Até que ponto
essa formulação, na Ata de Fundação da Escola, esse tipo de escrita (uma coisa
que foi escrita é, na verdade, muito importante), funciona como uma insígnia,
alguma coisa a que faz referência a formação do analista.
Isto quer dizer que fazer referência a uma coisa escrita é realmente muito,
muito importante, na própria teoria analítica.
Penso que tentar encontrar aquilo que se faz referência quando se fala de
três mais um é, na verdade, dirigir-se diretamente ao próprio discurso analítico
na sua problemática interior.
RENÉ EBTINGER — Na Ata de Fundação, se eu li bem, Jacques Lacan
propõe uma estrutura que deve ter uma função: o trabalho.
Vou retomar uma distinção que já fiz há alguns anos, aqui mesmo, na Casa
da Química, mas que me parece necessário relembrar: trabalho e produção,
muitas vezes estes termos vêm indiferenciados, ou estão numa relação de
subordinação: é necessário trabalhar para produzir.
Se tomarmos três termos: trabalho, produção, “mais um”, poderíamos
formular uma questão: o cartel é um lugar de trabalho? E, creio, uma evidência,
que nasce da definição do ato constitutivo desses cartéis; mas é necessário que
produzam, ou a produção pode ser considerada como uma coisa que se somaria
eventualmente?
Como outra coisa na análise; se soma no nível do trabalho escrito, de uma
publicação, mas um trabalho como eu o concebo, isto é, no sentido de Leistung,
que não tem tradução, mas que se pode tomar como desempenho, e que, por
minha parte, eu o entenderia no sentido de um funcionamento do aparelho
psíquico.
E para se atestar que alguma coisa funciona segundo o modo do aparelho
psíquico, a pessoa “mais um” pode ser necessária para testemunhar, para ser
testemunha, testis,6 sem o qual se corre o risco de desaparecer no imaginário, e
que o ou a “mais um” esteja de qualquer maneira presente, mas sob uma forma
completamente imaginária, dando lugar a todos os desvios que Lacan um dia —
creio, espero não traí-lo — qualificou de obscenas em seu funcionamento.
JEAN-PIERRE DREYFUSS — Quero voltar à palavra trabalho, que é usada
na doutrina freudiana em dois lugares em especial: quandose tratado trabalho
do sonho, è quando se trata do trabalho do luto
Não é uma noção que nos pega de surpresa.
Há outro termo que guardei, a palavra expor-se, isto me leva de novo ao que
poderia chamar de clínica do cartel. Constituímo-nos, há três ou quatro anos,
num grupo de trabalho; até há pouco tempo, até ontem à noite, não estava muito
seguro de que, pese às modificações que afetaram esse grupo, ele se transformara
num cartel, porque eu pensava que a “mais uma" se encarnava numa pessoa
determinada, definitivamente, durante o transcurso do grupo.

(6)Em Latim, testis, in significa testemunha.(N.T.)


84

Deixei isso de lado escutando tudo que foi dito desde ontem à noite.
O que gostaria de trazer, desse grupo, é o seguinte:
Esse grupo se reduziu, éramos uma dezena, a princípio, e agora somos seis;
tenho a impressão de que a eliminação, diria quase a auto-eliminação de um
certo número de participantes, foi acompanhada de uma certa eliminação
justamente dos efeitos de grupo, quer dizer, do que ressaltava do ensino sob a
forma tradicional, dito de outra maneira, do “fazer valer”. Justamente o que
tornou possível esse grupo que agora, creio, se transformou em cartel, foi
justamente o expor-se — não necessariamente contar sua análise — mas se
expor, quer dizer, arriscar-se; foi nesse momento que se arriscaram no sentido de
se expor, o que não é a mesma coisa que se exibir.
JEAN JACQUES MOSCOVITZ— Gostaria de dizer uma palavra a propósito
da situação em que estamos, gostaria de formular um preceito, um conceito.
Quer dizer, do preceito de formar um cartel onde vamos tentar perceber como
funciona, como de alguma maneira se poderia transformá-lo em conceito.
Realmente, esse “mais um” ou “mais uma” foi proposto de tal maneira que,
a meu ver, esse “mais uma” seria aquela pequena coisa destacável do todo,
aquilo que definiria todo o resto; mas que também definiria ou permitiria
definir, num momento dado, a idéia de finitude do cartel. Aquela coisa que faria,
por exemplo, num certo momento, com que os participantes do cartel
decidissem que aquilo não é mais um cartel, que teria que parar, parar pelo
menos de chamar-se cartel.
Há aí um problema bem particular, que só se pode tratar superficialmente,
na medida em que, quando o cartel se forma, se concretiza um código entre os
participantes com sua própria história no interior do cartel. Em determinado
momento, provavelmente, alguma coisa acontecerá, o que fará com que aquilo se
termine. Teríamos, talvez, que definir quais são as condições mínimas para fazer
nascer um cartel, e, talvez, delimitar as condições extremas que fariam com que
deixasse de ser um cartel.
Creio que o aspecto mais complicado é o de definir qual é o consenso entre
os participantes do cartel. Isto remete àquela problemática extrema da hipnose,
ou seja, da submissão ao saber do outro, e de aceitar deixar o outro agir o tempo
necessário para poder, num momento dado, dar sinais dessa recepção, dessa
acolhida, desse saber.
Nesse sentido, penso que o “mais uma” poderia definir-se da seguinte
maneira: é aquele que, num momento dado, é um pouquinho mais psicanalista
que todos os outros. Nesse momento, ele se situou de tal maneira que pode se
assombrar com o que se passa, e fazer a pergunta sobre o que está fazendo aí; de
maneira que pode, talvez, partir ou estar ausente na próxima vez; fazer com que
ele próprio seja uma pergunta, sem talvez sabê-lo. Há aí uma coisa que trabalha
na realidade, e é saber se o relativo ao cartel se define verdadeiramente cm
relação ao “mais uma”, e se podemos fazer disso um conceito.
Gostaria de precisar, antes de passar a palavra, duas coisas: primeiro,
ontem se discutiu durante uma hora e meia que o “mais uma” estava sempre
85

presente, e que se tratava de uma pessoa, e não creio que sua função poderia ser
outra senão a de incitar, estimular, provocar o desejo do Outro, entendendo aí
que se trata do cartel.
Ora, vocês sabem, somos analistas; e este estímulo, fazer com que o desejo
seja o desejo do Outro, sustentá-lo, isto pode ser feito por qualquer um, essa é
justamente a capacidade do significante.
É um ponto que me parece muito importante; ontem chegamos a dizer que
não se tratava de alguém que estava ausente, nem de alguém que seja mais
analista do que outro; tratava-se, mais exatamente, de um elemento que atua
num cartel portado por um sujeito, mas me parece também que existe:outra coisa
importante para conduzir a discussão — uma lembrança também do texto; é que
o cartel não é uma criação ex-nihilo, o cartel faz parte das estruturas da Escola
Freudiana; quer dizer, o cartel se situa — dizia agora mesmo — como uma
unidade na estrutura da Escola Freudiana.
É um ponto importante também para discutir. Há no texto uma referência
que se repete, a de que a Escola pode ser considerada como uma experiência
inaugural; será que hoje, onze anos depois, podemos continuar usando o termo
experiência inaugural?
NICOLE PEPIN — Gostaria de continuar ainda com o que dizia há pouco;
na cifra 3 m ais 1 pessoas, o importante para que funcione é a pessoa a mais, e é
aí que não se pode errar na escolha dessa pessoa. Se não, isso não funciona (!),
caso eu tenha razão quando penso que essa pessoa a mais vai fazer com que seja
mantida, num trabalho teórico, a busca da coisa.
Penso que o trabalho de cartel é um avanço; um primeiro passo para a
elaboração teórica, além da análise pessoal.
Não é o caso, creio, de expor sua análise pessoal num trabalho de cartel, é
para além disso que a coisa se situa. Para precisar o interesse que tem a escolha
da pessoa a mais: é só mais tarde, num segundo tempo, deixamos o trabalho de
cartel para reencontrarmo-nos num trabalho a dois (mesmo que o grupo fique -
sendo de 4, 5 ou 6).
Para a elaboração de um trabalho psicanalítico é necessário, obrigatoria­
mente, que um analista tenha o retorno de sua palavra por outro analista; de
outra forma, penso que uma elaboração teórica psicanalítica não é possível.
Ainda o tema da escolha da pessoa — e nos reencontramos, talvez, numa
situação de controle — terá a maior importância, porque não é qualquer pessoa
que poderá sustentar esse papel; é bem evidente que não é qualquer analista que
poderá sustentar esse papel para qualquer outro analista; eu diria que essa
pessoa, a mais, deve ser o "tudo em uma”, que essa pessoa sozinha deve poder
solicitar o desejo inconsciente, essa busca que permitirá, dentro de certo tempo,
uma elaboração teórica.
NICOLE GUILLET— Gostaria de resumir duas ou três coisas que creio ter
compreendido há muito tempo sobre os cartéis. A função do “um a mais” me
interessa particularmente hoje, parece-me que isso foi muito importante em 64,
quando houve essa fundação, e creio que isso não foi bastante discutido na
Escola. É uma coisa, essa espécie de formação de cartel que evita todos os
fracassos, todos os obstáculos que os grupos políticos, entre outros, encontraram
e encontram ainda.
Acho que para um cartel é necessário, primeiro, um desejo de trabalho em
comum de um certo número de pessoas — veremos ainda o número; são
necessários, evidentemente, interesses comuns, uma pesquisa teórica; é uma
espécie de máquina de despertar as cabeças juntas, de querer encontrar juntos,
tem um efeito de estimulação, etc.
Em segundo lugar, é preciso, evidentemente, transferência. Quer dizer, não
se pode trabalhar com pessoas que não são pares,escolhidas como tais,
semelhantes; que possamos falar com elas sem ir à guerra, poder escrever
qualquer coisa, aprender a escrever, elas estão aí porque isso lhes interessa como
a mim, decidiram suportar, me suportar, etc. A gente se escolheu.
Terceiro, há o analítico, quer dizer, existem regras: primeiro, há ritmos de
trabalho, regulares, nenhum cartel pode funcionar sem algum ritmo, é
importante sé se falta, é importante se não se respeita esse ritmo. Há regras, entre
outras a regra do número de pessoas, esse garfo de três a seis pontas me parece
extremamente importante, é o que chamarei de boa consistência subjetiva. Quer
dizer, três, evidentemente, é a família, é dois contra um, etc., e ainda por cima é
a massa, ou seja, qualquer um pode dormir, sonhar, se transformar em um vaso
de flores, enfim, todas as resistências são possíveis, enquanto seis — não sou
bastante experiente, mas me parece que nos pequenos grupos que fazíamos com
freqüência em La Borde, os UTB, etc... se respeitou sempre isso, sem sabê-lo
bem. Por experiência, sempre encontramos esse número, chegávamos até sete,
mas eram coisas diferentes
Quarto, me parece que é preciso o “um a mais”, quer dizer, é o que assegura
que o cartel não vai tornar-se um cartel de cosmonautas, ou não sei o que quer
dizer isso, vai dar uma abertura; uma abertura sobre o quê? Sobre o exterior do
cartel, dos cartéis da Escola Freudiana, hoje se pode dizer que o que fazemos é o
“um a mais” em relação a todos os cartéis, cujos participantes falam hoje. Por
exemplo, me parece que o trabalho que foi explicado ontem de manhã pela Sra.
Soler era interessante, porque o fato de relatar um trabalho funcionou, no cartel
deles, como “um am ais”. Acho que se isto não ocorre, os cartéis fazem rom-rom;
mesmo sendo seis, há uma possibilidade de rom-rom, de funcionar de maneira
fechada, que não é austera — não gosto da palavra produção, produtivo, gosto
mais de “abertura" — e marcada, pontuada por nosso pertencer à Escola
Freudiana.
Nos pequenos grupos que fizemos em La Borde, me parece, evitava-se o
obstáculo do rom-rom porque podia funcionar, ou o fato de estar lá para cuidar
dos loucos poderia funcionar, como disse Lacan ontem, para a matemática. Quer
dizer que isso fazia o “um a mais”, éramos obrigados a encontrar algo, porque
havia a exigência dos sintomas do louco que molestava. Mas fomos obrigados a
criar um grupo, que chamávamos “grupo dos grupos”, que tinha a função
unicamente de controlar os cartéis, saber o que um cartel fazia; se o outro não se
87

transformava, na verdade, num cartel de cosmonautas que estava lá para fazer


outra coisa que não fosse trabalhar?
Mme G... — Queria simplesmente dizer que havíamos formado um cartel,
no começo, com o fim de trabalhar, mas também para ir ao encontro do que
poderíamos chamar um “seminarite” aguda.
Em algumas regiões, cada um faz seu seminário, e se vangloria de seu
seminário, e é para ir contra essa tendência que formamos um cartel sentindo a
necessidade, no início, de referir-nos ao texto, à Ata de Fundação. Penso que
quando, mais ou menos um mês depois, se anunciou a reunião dos cartéis,
sentimos uma grande alegria. &
PHILIPPE GIBARD — Será que o cartel não é uma tentativa de evitar dois
tipos de agrupamentos ou de reagrupamentos, digamos, uma figura totalitária,
com fenômenos de identificação, etc., e uma figura que tem difusão atualmente,
a do liberalismo? Dito de outro modo, o “um a mais” funciona como instrumento
para evitar o que se chama de psicologia de massas, com todos os efeitos que
conhecemos, e, por outro lado, para não mergulhar numa república dos “egos”,
igualdade fictícia, evidentemente.
Em que condições pode-se escapar desses dois modos de instituição do
social, do laço social?
Se tivesse que definir a função dos cartéis, seria em relação a isso; tomando
em consideração tanto as figuras dominantes do passado, como o Exército, a
Igreja, mais recentemente o Partido, a nova ideologia. Por enquanto não tenho
experiência de cartel, ou muito pouca, mas o que se produz em torno disso, para
contornar essas duas dificuldades, não é convincente. Ainda não saímos dessas
dificuldades. Creio que é isso que a Escola Freudiana tenta resolver, não só em
relação ao registro político, mas também no que concerne à instituição analítica.
Os matemáticos — você disse ontem, se entendi bem — conseguem
resolver essas dificuldades, as do “e eu, e eu, e eu” dos grupos liberais, e a do
“Outro” ou do objeto cm feixes, sobre o qual, pelo qual e no qual há
identificação c constituição do “nós outros”.
Os cartéis podem engajar a Escola em vias que não são as da suficiência, da
comunhão tácita e do conformismo, e constituir um meio de formação e um
outro tipo de laço social?
ANNICK DREYFUSS — Tenho uma pequena experiência de cartéis, e
gostaria simplesmente de acrescentar algumas palavras ao que disse Jean-Pierre
Dreyfuss há pouco, porque participo do mesmo cartel que ele e pude observar
essa auto-eiiminação.
Para começar, como ele disse, as pessoas estão lá (somos uma dezena), e há
uma espécie de fascinação recíproca, no sentido do fazer valer, e pela auto-
eliminação se constitui, então, um cartel sem esse famoso “mais um”. Quer
dizer, nos encontramos na posição de analisante (é assim que isto me surge), e,
ao mesmo tempo, de analista. O “mais um” se situava na posição de analista do
cartel, mas sem sabê-lo, e sem ser “um” claramente.
Isso me parece essencial, e me parece agora — depois de tudo o que foi
88

dito, depois da introdução de Nasio — que é uma experiência única. É uma coisa
única: não é nem a base, nem o controle, nem a situação analítica. Mas merece
de qualquer forma um esclarecimento, porque são então dois analisantes e um
analistai e não o analista com os analisantes: trocam-se os papéis, se é ao mesmo
tempo analisante e analista.
Os números 3 — 6, nesse sentido, me pareceram também essenciais; mais
do que seis, constatamos que nãd funciona, há sempre um sobrando, ou dois
sobrando, etc., então o ideal seria entre 3 e 6.
Ainda restam perguntas no que concerne à explicitação de como isso
funciona, me parece misterioso. à
JUAN DA VID NASIO — Gostaria de responder lendo uma citação da Ata de
Fundação: m a is um a — continuo a citação que M. Martin fez ontem —
encarregada da seleçã o , da discu ssão e d o destino reservado a o trabalh o de
ca d a um ... a p ó s um certo tem po d e funcionam ento, se proporá a o s elem en tos
de um grupo sua p erm u tação p a ra outro.
Quer dizer que há um trabalho, um movimento de permutação, não só
inter-cartéis, mas também no interior do cartel, e há ainda algo mais a acres­
centar: o cargo da d ireção n ã o constituirá um caciqu ism o [ch efferie], cujo
serviço p restad o se capitalizaria p e lo a cesso a um grau superior, e ninguém se
con sid erará reba ix a d o p or entrar no nível d o trabalho de base.
PIERRE BASTIN — O que ouvi ontem à noite, a propósito da experiência
de um certo número de grupos, é que eles terminavam tornando-se qualquer
coisa, as pessoas ficavam amigas e conversavam sobre temas triviais; em suma,
isso não funcionava.
E depois se fez a alusão, sem ir além, ao esquema L, ao eixo a-a’. Isto me
leva a fazer uma pergunta: será que a função da “pessoa a m ais” não é,
primeiramente, criar um obstáculo à intersubjetividade, quer dizer, a um grupo
de amigos, onde tudo o que pode funcionar sem uma pessoa a mais pode
instaurar uma relação puramente imaginária, produzir um discurso puramente
linear, e que, na perspectiva do esquema L que foi evocada, essa pessoa a mais se
encontraria sobre o outro eixo, o eixo da transferência: S-A, o que dá a esse
grupo a possibilidade de produzir, de metaforizar, para que uma coisa diferente
possa surgir?
Outras reflexões como: três mais um igual a quatro, e, no esquema L, há
quatro termos; nos quatro discursos: universitário, do analista, da histérica e do
mestre, é também o jogo de quatro termos que, intercambiando-sc, produzem
discursos diferentes. Não posso dizer mais, mas constato que aí também há
quatro termos.
Para responder a uma coisa dita há pouco, a “pessoa a mais” não é um
chefe, não é igual, mas cumpre uma certa função na estrutura desse cartel.
Agora, como é que a “pessoa a mais” vai cumprir essa função?
A propósito da escolha, penso que está bem claro, na Ata de Fundação, que
se trata de pessoas que conversavam sobre um desejo de fazer alguma coisa
juntas; a partir daí, não penso que haja qualidades particulares para ser a pessoa
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a mais, salvo ter sido escolhida por outras três, por consentimento mútuo, para
que, imediatamente, alguma coisa funcione.
MARIA VELISSAROPOULOS — Gostaria simplesmente de sublinhar que se
falou dos quatro discursos; penso que o cartel é o que permite articular alguma
coisa do funcionamento da Escola com os quatro discursos, mas não penso que o
“mais uma” seja o quarto termo dos quatro discursos. Penso que é o que permite
a passagem pela metáfora, a metaforização.
Agora mesmo estava muito admirada de que se fale de uma pessoa, da
escolha de uma pessoa, não sei se é disso que se trata, mas penso que o “mais
uma” pode ser entendido na definição do significante: “o%ignificante é o que
representa o sujeito para um outro significante”, é no nível do “para” que se
encontra o “mais um”.
DOMINIQUE POISSONIER — Gostaria de continuar um pouco o que dizia
Bastin agora mesmo, no sentido de que duas coisas me parecem importantes na
maneira em que percebemos esse “mais um”. Trata-se, ao mesmo tempo, de um
“mais um” que está sempre presente, queiramos ou não, isto me faz pensar que,
numa análise, não há mais que duas pessoas, não se está sobre um eixo
imaginário, e se trata aí de situar esse "mais um”.
Essa delimitação é talvez mais importante, e consiste em que o “mais um”
encontre o seu lugar e permita que algo seja dito nesse nível.
Por outro lado, Nasio o lembrava há um instante, há uma pessoa que se diz
o “mais um”, a quem se confia certas tarefas, certas servidões, e isto evoca em
mim a função do “passa-umbral” [passe-seuil]7: será que a constituição do “mais
um”, em relação ao grupo, não é análoga à situação organizada no passe, onde
um ou dois passadores [passeurs] estão em tal posição que o que diz ao passante
[passant] se perderia em outro lugar; chegamos aí à noção de abertura de
produção, de “para um outro significante”, de alguma coisa que se faz para a
Escola, de maneira também a sair de um discurso fechado, que ficaria entre os
“eu-eu-eu”, em níveis imaginários.
JOSÉ GUEY — Por outro lado, essa questão do “uma a mais” gira em torno
de um lugar ocupado por uma pessoa diferente. Creio que o que foi dito aqui é
que, num cartel, escolhido ou não, não é evidente que seja sémpre a mesma
pessoa que, no interior do cartel, ocupa esse lugar.
Há uma pessoa que ocupa esse lugar, a quem se dirigem, mas só depois,
num prazo mais ou menos longo, a transmissão do trabalho deve fazer-se frente a
outras pessoas da Escola e, mais tarde, por que não, fora da Escola; é assim que
isso funciona, me parece.
Foi importante também esse controle e essa crítica interna e externa.
Por outro lado — e me uno ao exemplo dos matemáticos, que falam da
matemática como de uma pessoa — me parece que se deve marcar o que causa
esses cartéis e, afinal, a própria Escola; é a psicanálise.

(7) Seuil, além da acepção de um umbral, pode ser entendido, em sentido figurado, como
entrada, ingresso, etc. A referência aqui, como se verá, é ao passe (N.T.).
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Quanto aos grandes grupos, me parece que passando de um certo número,


se está numa estrutura de espetáculo — e não mais numa estrutura de discurso.
Por outro lado, se se exclui que um cartel comporta duas pessoas, é porque
temos aí dois discursos que se enfrentam, não confluem, e têm enormes
dificuldades para confluir num terceiro.
JUAN DAVID NASIO — Gostaria simplesmente de lembrar que ontem
estabelecemos a diferença entre o “mais um” e o “um a mais”. O “um a mais” foi
considerado como o que já se produziu, o sujeito, falando em termos próprios da
doutrina psicanalítica; e o “mais um” não é algo que fecha uma estrutura, mas
que, estando no limite da estrutura, torna-a consistente e a abre a outras
estruturas.
Esse “mais um” é o que permite a conexão do cartel com o resto das
estruturas da Escola, é importante marcar isso como diferente. Quanto ao
controle interno-externo, há esta frase: aqu eles que vierem a esta E scola se
com p rom eterão a cum prir um a tarefa, uma tarefa subm etida a um controle
externo e interno.
CHRISTIANE BARDET-GIRAUDON— Será excessivo colocar o problema
da ambivalência em relação ao cartel e o problema dos efeitos do cartel sobre
cada um dos participantes e sobre seu trabalho?
Quer dizer, será que esse efeito do cartel vai resultar automaticamente num
trabalho coletivo? Ou será que não há também momentos em que o efeito do
cartel pode ser forçar a escrever ou encontrar uma determinação para escrever,
mas que talvez não esteja orientada nesse momento para o cartel, mas para outro
lugar? £.
Será que não há uma indeterminação, se realmente se trata de produção e
de trabalho, talvez não nos fins, mas nas orientações do trabalho?
Nesse momento, talvez o caráter lento, o risco de monotonia ou de
esclerosamento do cartel — se ele conta com pouca gente, apesar de tudo isso
não é só um fator positivo, na medida em que nos conhecemos, temos mais
liberdade de falar, o que pode ser também um limite na informação. Talvez não
se possa controlar tampouco o fato de se estar agrupado assim, e não de outra
maneira.
, Minha pergunta era: no final das contas, se se tratava de produção, por que
não se colocou o problema das determinações de escrever? Será que é
unicamente por simpatia pelo outro, no caso do cartel, ou não se pode ter um
sentimento de furor ou de outra coisa? Na determinação de escrever pode haver
ambigüidades nos motivos.
JUAN DAVID NASIO — Traduzirei isto assim — não sei se é possível
falarmos de produção no cartel; não será o cartel uma forma de estrutura que
permite a reprodução? Penso simplesmente no crescimento da Escola como
instituição; se ela é ou não uma instituição, é uma outra questão.
NICOLE GUILLET — Acho que é a questão mais importante, mas me parece
nesse caso que teria que haver um cartel que ajudasse a assegurar essa função do
“a mais”; quer dizer, é evidente que é preciso estabelecer todo tipo de regras,
inclusive as regras de rotação dos cartéis e de rotação dessa função do “um a
mais” no cartel. Tem que ser como um espécie de... Há um monte de palavras
que aparecem e que nos desagradam, não é por nada, eu ia dizer, controles, dar
satisfações à Escola, penso nas funções de secretário, de comissário, etc., isso
evoca toda uma série de coisas muito complexas; talvez seja por isso que Girard
é pessimista.
Quando dizia que, por exemplo, nos pequenos grupos chamados grupos de
palavra ou grupos de psicoterapia de grupo, em que havia um ou dois loucos,
com estruturas que funcionavam como cartéis, no La Borde, o fato de ter um
louco ou dois, ou três, podia evitar uma espécie de rom-rom do grupo. Mas
pode-se dizer, também, que essa função do “um a mais”, se se esperava que fosse
assumida pelo louco que podia representar, é evidente que facilmente o futuro,
ou o Führer, ou a destruição do grupo, este poderia também se tornar um grupo
de loucos, onde a loucura assegurava essa função simbólica. E por tratar-se de
uma função tão importante ■— como assegurá-la, como fazê-la viver?
PIERRE MARTIN — Continuando com as propostas feitas por Nasio, e
talvez para articular certas propostas interessantes, gostaria de fazer participar a
penúltima frase da Ata de Fundação, antes de que o autor aborde a descrição das
três seções;
Isto — quer dizer, o que concerne precisamente à organização estrutural do
cartel — n ão im plica um a hierarquia d e c a b eça para baixo, m as uma organi­
zação circular cujo fu ncion am en to, fá c il de programar, se afirm ará na ex p e­
riência.
PHILIPPE GIRARD — Respondendo às disposições que preconiza Nicole
Guillet, diria que as “rotações" nunca impediram nada. Os comissários se
tornaram “do povo” e os secretários, “gerais”. Não acho que seja através dessas
modalidades que se chega, digamos, a proteger-se dos dois tipos de coletivos que
eu designava. Quanto à negação da autoridade e da hierarquia, que acontece
atualmente, isso não as impediu de funcionar pela própria demanda dos que as
rejeitam.
Estas questões são bem mais complexas do que a chamada ideologia nova,
para diferenciá-la da ideologia chamada burguesa; se faz o esforço para que a
invisibilidade funcione no “entre nós”, na familiaridade, etc. E nada pode
assegurar que ela esteja livre do totalitarismo que tenta afastar.
NICOLE PEPIN — Gostaria de continuar o que já disse, e ligá-lo ao que ouvi
há um tempo, no nível da limitação do trabalho teórico no cartel e da
agressividade que se produzia. Parece-me que, obrigatoriamente, um trabalho
teórico num cartel só pode ser limitado, e não falarei da agressividade, mas da
dimensão do ódio.
Na medida em que há intervenções múltiplas, parasitárias, num grupo por
demais importante, faz-se uma limitação ainda maior, já que não se pode, entre
colegas de trabalho, trabalhar de outra maneira senão percebendo uma dimensão
particular de funcionamento, que chamarei “semblante social”. Quero dizer que,
estando ligados por laços de camaradagem ou de amor, em qualquer grau, haverá
92

sempre algo a preservar que colocará obstáculos a que a “pessoa a mais” possa
cumprir totalmente seu papel.
O papel da “pessoa a mais” se situa, como já disse, no nível da busca da
coisa. Ela vai levar essa busca no sentido de uma provocação — peso minhas
palavras — porque me parece que a pessoa a mais teria que manter a dimensão
da morte para que o discurso teórico e a elaboração teórica possam ser feitos.
Se eu falava há pouco de algo além da situação de cartel, chegando à
situação de controle para dizer que há aí o risco de que a pessoa a mais seja o
“tudo em uma”, é que só nessa situação o analista, que trata de realizar uma
elaboração teórica, é mantido no;.“ser para a morte”: só nessas condições uma
elaboração teórica é possível.
JACQUES CRÉPIN— Gostaria de falar de algo que não chamarei de cartel,
mas de um grupo: o grupo de Amiens -St.^Quentin.
Creio que, a partir destas reuniões de estudo, serão feitas perguntas;
estamos descobrindo, por exemplo, que ainda que tenhamos refletido sobre o
número de pessoas que poderia constituir esse cartel, as reflexões nunca foram
muito longe. Somos atualmente, e desde o começo, nove; confesso que foi só
ontem à noite que começamos a colocar-nos o três e o seis. Direi também que
nunca tínhamos refletido sobre a questão do “mais um” ou do “mais uma”,
provavelmente porque, no momento de instituir-nos como cartel, não tínhamos,
na verdade, lido as Atas de Fundação dos cartéis.
Queria simplesmente indicar que não nos fazemos muitas perguntas, e —
me parece que isso surgiu uma ou duas vezes aqui — uma questão que não foi
colocada (uma questão muito subjacente, mas que está sempre presente) é que
no nosso grupo há dois casais, esta é a questão, que talvez não seja específica
desse grupo, gostaria de assinalar, a título de curiosidade, que a única vez que
houve uma ausência nesse grupo foi quando a nona pessoa partiu para casar-se.
Conto isso a título de episódio, sobre as perguntas que vamos seguramente
formular-nos quando voltemos a Amiens-St.-Quentin, logo mais.
JUAN DAVÍD NASIO — Posso lhe perguntar quais são as coisas que vocês
projetaram, pensaram, depois da discussão de ontem à noite?
JACQUES CRÉPIN —r Só nos encontramos de forma individual, não
estamos todos aqui; há uma coisa, no entanto, que gostaria de dizer também, que
me ocorre enquanto falo: na constituição do cartel, o que nos assombra
posteriormente (provavelmente por isso não somos um cartel), é que, afinal, o
tema escolhido para dar um nome, uma insígnia, ao nosso cartel, foi algo que se
deu muito rápido, como uma espécie de formalidade; falando isso, hoje, me dou
conta de que essa formalidade tem o seu porquê. Chegaria a dizer que o “um a
mais”, para formulá-lo assim, se manifesta no nosso grupo sob a forma de dois
líderes, e não por acaso esses líderes são as duas pessoas que escolheram o tema,
logo aceito pelos sete outros participantes, sem que nunca tivesse sido
questionado. O tema era o primeiro Discurso de Roma.
COLETTE VAN DE POORTER — Você falou de matemática como se fala de
uma pessoa, e disse que é certo e curioso que, quando os matemáticos se
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reúnem, sempre há uma pessoa subentendida presente.


E curioso, e merece ser sublinhado, que as ciências são representadas por
uma mulher, essa pessoa “uma a mais” talvez seja a mulher, enquanto não
existindo e situando-se entre presença e ausência. Agora, na matemática, a
verdade está visível ou subentendida antecipadamente, e o jogo é de ir ao seu
encontro ou negá-la.
Eu me pergunto: Qual é a relação dessa “pessoa a mais” com a verdade?
ANNICK DREYFUSS — Queria simplesmente acrescentar que a experiência
de cartel não tem nada a ver com o que poderíamos chamar de experiências de
dinâmica de grupo; me parece essencial assinalar isto.
NICOLE GU ILLET— Eu acho que os temas de trabalho e sua escolha não
têm tanta importância, mas, num caso extremo, de vez em quando, quando a
Escola precisar, pode-se distribuir os temas de trabalho; eu sempre gostei de
exercícios de piano, quer dizer, de coisas obrigatórias, mas pode-se dizer: “Seria
interessante trabalhar naquele cartel”, inclusive trabalhar num cartel sobre
ficção científica, e isso tem relação com a Escola Freudiana de Paris, quer dizer,
com a psicanálise.
O que me parece, talvez, mais interessante, é a escolha do lugar; pelo
menos se deveria falar isso, porque a função do “um a mais” é, às vezes,
assegurada pelo fato de se reunir na sede da Escola, e também, pelo contrário, o
fato de se reunir na casa de alguém, sempre o mesmo, e não na casa dos outros,
pode ser importante no grupo; acho que isso deve ser considerado: o
apartamento de uma pessoa faz parte de seu corpo. etc.
Não vamos dizer que a função do “um a mais” será assegurada precisa­
mente porque seja na sede da Escola, mas, enfim, me parece que teríamos que
pontuar todas essas coisas.
NICOLE PÉPIN — Falava há pouco de semblante social, o qual poderia pôr
obstáculos à elaboração de um trabalho teórico no cartel, e gostaria de precisar o
que entendo por “semblante social”. O “semblante social” é o que faz com que as
pessoas possam viver em sociedade, é seu modo de adaptação à sociedade, aos
outros, os pequenos outros que as rodeiam. Situo, o “semblante social” no nível
do imaginário, relação imaginária coin umà incursão no simbólico, às vezes.
Outra coisa importante nos obstáculos que se pode encontrar no nível da
elaboração de um trabalho teórico nos cartéis é o que chamaria, para fazer um
paralelo, de “semblante psicanalítico”, que não só é um obstáculo para a
elaboração de um trabalho teórico no cartel, mas é muito mais perigoso do que o
semblante social.
Por que? Porque não se situa no mesmo nível: o “semblante psicanalítico”
só poderia ser utilizado por pessoas que conhecem a análise e o funcionamento
do inconsciente.
Elas colocarão em movimento não só o imaginário e o simbólico, mas
também correm o risco de mobilizar algo no nível do real.
Aí, isso pode provocar reações completamente dramáticas, já constatamos
os efeitos em diferentes grupos de trabalho. Eram importantes, temos que
assinalá-lo. Situo aí os obstáculos ao funcionamento dos cartéis: quando as
pessoas sofrem imposições, por uma terceira pessoa ou por eles mesmos; quando
alguém se designa para ser a “pessoa a mais”.
FRANÇOIS HANAFI — Pensava nos “três mais um”, na relação triangular.
Essa pessoa, presente ou ausente, poderia ser eventualmente o funcionamento da
Escola, já que Lacan nos dizia ontem: será que a Escola funcionou até agora?
Pensava fazer pequenos desenhos no quadro: partindo do triangular, se
pode pôr o pai, a mãe e a criança, e eis o que falta: as referências ao texto, seja o
de Freud, seja o de Lacan.
De maneira que fazendo os três anéis, uns dentro dos outros, para que esses
três existam, para que o cartel exista; 'tem que haver “mais um”, quer dizer, a
reunião de tudo isto.
Que haja alguém capaz de, no centro, ocupar-se disso. Imaginava também
algo no nível do “três mais um”, falando do seis; quer dizer, o famoso triângulo,
unindo-os assim.
Isso forma o triângulo, mas, quando associados, fazem seis pontas; e se é
visto no nível da união, se forma o quatro.
O que pode significar: para o funcionamento de um cartel, há três pessoas;
há eventualmente o analista, e o que se produz, o objeto; para que isso possa
funcionar, deve haver o exterior, quer dizer a reunião desses três.
Havia outra coisa sobre o funcionamento da Escola, o fundador da Escola, a
Escola mesma, nós ou eu, e para que a Escola possa funcionar, para que existam
quatro, falta algo aqui, o cartel, quer dizer, eu pertenço ao cartel, e se pode
chegar a reunir e fazer um círculo em lugar de um quadrado.
Mas, nesse quarto [quatrième], vejo as referências no nível do texto, mas
também no nível da própria pessoa que escreveu os textos, tais como Lacan e
Freud, que foram, a meu ver, postos de lado até agora.
JACQUES LA CA N — Safouan, você estava aqui ontem às cinco horas, pelo
menos quando eu abri a sessão. Não teria algo a dizer sobre o que ontem mesmo
me deu a possibilidade — hoje me abstenho — de um diálogo com várias
pessoas que falaram? Ficaria contente se você dissesse o que pensa dessa “mais
uma pessoa”, que todo cartel literalmente evoca, evocou em todo caso para mim,
e, lamento não tê-lo pontuado há pouco, Philippe Girard marcou muito bem qual
é o objetivo, que é sair da necessidade que se cristaliza no funcionamento de
todo grupo.
MUSTAFA SAFOUAN — Será que pode haver uma reunião esta tarde?
Prefiro esperar pela tarde.
JACQUES LA C A N — De acordo. Há coisas que você escutou esta manhã,
havia outras de ontem que eram extremamente sugestivas.
MUSTAFÁ SAFOUAN — Em todo caso, do que ouvi esta manhã, é
sobretudo o “mais um”, porque é uma função que não tem nenhum equivalente
social a que possa se referir. Como se disse, no plano social, não se pode defini-
lo senão por inversão.
95

JACQUES LACAN — Há, evidentemente, dois pontos: por lado, a organiza­


ção, a vida, se se pode dizer, do cartel como tal, e, depois, o que alguns,
inclusive Nasio, insistiram, ou seja, a produção.
MUSTAFÁ SAFOUAN — Mas não é fácil situar, na topologia subjetiva, a
que responde essa função.
Ainda por cima a questão se ampliou — vejo a novidade, o caráter inédito
da própia idéia de organizar assim uma colaboração entre vários no trabalho.
JACQUES LACAN — Acho que há algo específico na análise que coloca
essa questão que fica sempre mais ou menos apagada, no fim das contas. Acho
difícil que os analistas não se perguntem o que quer dizer, analiticamente, o seu
trabalho enquanto trabalho em comum; o analista deve ficar isolado, por que
não? E o que acontece na prática.
É natural, de qualquer maneira, fazer a pergunta: por que acontece? E o
mínimo. Sc você quiser amadurecer algo para esta tarde...
CHARLES MELMAN — O que pode manter os analistas num grupo de
trabalho? Creio que poderia ser a delimitação do real que os convoca: a mais. Isto
coincidiria com a necessidade de produzir, no grupo, um discurso a mais que
aqueles que um estudo em comum vai inevitavelmente suscitar: mestre, uni­
versitário, histérico...
JACQUES LACAN — Aubry, vocc tem, talvez, coisas a dizer que surgem da
sua experiência... que é grande.
Mme. AUBBY — Minha experiência foi que, cada vez que tentei instalar
algo da ordem do cartel, fui posta em posição de chefia, de tal maneira que não
era suportável. Diz-se que quando sucede alguma coisa, os dois dela participam;
mas não tinha a impressão de que fosse o caso. O que posso dizer é que, antes da
fundação da Escola, quando estava em Paris, pude fazer algo que cada um pôde
tomar seu caminho, o que me parecia responder ao objetivo do cartel; senão ao
seu funcionamento... Quer dizer que cada um fez o seu caminho, no sentido do
que acontecia na sua análise, mas sua marcha pessoal é relativamente solitária,
fazendo parte de algo que tinha valor de significante; estou pensando no
Enfants-m alades. Depois, tentei também voltar a participar de um cartel, em
Paris, mas devo dizer que quando venhor o que é raro, é uma verdadeira
bagunça, e renunciei, embora aí houvesse, com efeito, algo possível.
Não pude funcionar num cartel, com exceção de algo que estaria próximo
do E n fan ts-m alades, pelo menos quanto ao objetivo, que acho que é uma
produção, mas onde o que é coletivo é que cada um pode argumentar com o
outro numa via circular, sendo que cada um deve fazer um caminho original e
pessoal e, creio, a diversidade de pessoas que trabalharam antes no Enfants-
m a la d es , e que são produtivas, e nada parecidas, são um testemunho. Não vejo
o que posso trazer de novo, mas tenho que dizer também que na região de Aix,
quando cheguei, havia uma demanda extraordinária, que se resolveu partindo
cada um para o seu lado, para fazer alguma coisa.
Houve certamente, nesses grupos — que se pode chamar assim, pois não
eram cartéis — , uma elaboração do que podia ser um trabalho analítico, uma
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retomada, para muitos, de uma análise; tantas questões se levantaram, sem que,
naturalmente, eu respondesse diretamente.
MUSTAFÁ SAFOUAN — O que acabo de escutar me faz indagar a quê
responde, de onde surge a necessidade do “mais um” ? A sua pergunta: "Será
que o analista pode trabalhar isolado?”, também mexeu cm alguma coisa. Meu
sentimento é de que se trata de uma função que consiste num segundo olhar, um
segundo olhar lógico sobre o discurso, suas conseqüências lógicas, não sua
significação, mas se pode assinalar a um sujeito, por exemplo, suas contradições
ou as conseqüências secundárias às que ele mesmo não presta atenção.
Nesse sentido, diria que é uma função como a maiêutica socrática, mas
verdadeira, porque se sabe que no diálogo há muita simulação, é o exemplo
típico; pretende-se ignorá-lo para descobri-lo logo, mas pode haver lugar para
uma função verdadeiramente socrática, e é nesse sentido que me parece que
pode haver espaço para o “mais um”. Pessoalmente, nunca tive dificuldade com
coisa alguma, quero dizer que quando não se trabalhava, a gente ia embora, c
isso era tudo.
JACQUES LA CA N — O que prova, senão a sua intervenção, pelo menos o
seu consentimento. Quem quer ainda tomar a palavra?
RADMILA ZYGOURIS — Como cheguei tarde, não sei se já fizeram a
pergunta: quando se faz o trabalho que se faz (se é que isso se pode chamar de
trabalho), essa coisa estranha que se faz quando se é analista, será que se pode
falar disso a mais de duas, três ou quatro pessoas de uma vez? E o que se passa
com o que se fala, que tipo de discurso se sustenta? Tenho a impressão de que
antes mesmo de que o cartel estivesse verdadeiramente constituído, quando se
queria falar do que se fazia como analista, falava-se por telefone, mas não se liga
nunca para mais do que um punhado de pessoas. Depois, quando se pede para
fazer um trabalho, participar de um congresso, trata-se de um outro tipo de
discurso, que faz com que tanta gente se recrimine sempre nos congressos: “Não
é isso, não é isso, é universitário”; será que o analista pode escapar do discurso
universitário quando fala numa assembléia ou quando escreve? A questão que eu
queria colocar é a diferença entre o escrito e o não-escrito. Não é porque se fala
que não é escrito, cada vez que a gente se reúne, que trabalha, está presente um
ou outro aspecto: “com dois isso não funciona”, se está numa relação de iden­
tificação: “como você faz e como eu faço”, se está no savoir-faire unicamente,
falta algo, uma referência comum, e essa referência comum, que status ela tem?
JACQUES LACAN— A sessão está suspensa.
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III — SESSÃO DE GRUPO DO DOM INGO À TARDE


D O "MAIS UMA" E DA M ATEMÁTICA

JUAN DAVID NASIO ■— Não é minha intenção fazer um resumo do que foi
dito de manhã. Só vou tentar pontuar algumas referências que extraí da
discussão.
Nós consideramos, pois, no que se refere aos cartéis, dois registros que
Lacan resumiu ao separar, por um lado, a estrutura, a vida do cartel, e, por outro,
o trabalho que se executa, a produção.
Quanto à sua organização, o problema do “mais um” fica por ser
desenvolvido. Nós sublinhamos a diferença entre “um a mais” [un en plus] e o
“mais um” [plus un], sem dar-lhes ainda uma consistência definitiva.
Esse “mais um ” foi situado na articulação do cartel com o resto da estrutura
da Escola. Sobre este ponto, acrescento agora que esse “mais um”, enquanto
ligado à Escola, faz eco com a fórmula “não existe Outro do Outro”, na medida
em que ele detém qualquer relação infinita. Isto coloca o “mais um”como o corte
que promove a passagem do cartel à Escola.
Por outro lado, foi afirmado por Girard que tal organização poderia evitar
os riscos de um certo totalitarismo ou da igualdade fictícia do liberalismo. Ele
deixou perceber suas dúvidas sobre a eficiência dos cartéis para chegar, como
laço social, mais além de um agrupamento comandado pela figura do chefe ou
dirigido pelo reforçamento dos “egos”.
O segundo aspecto, o do conteúdo, da produção, foi assunto de diferentes
intervenções. Em particular, a noção analítica de “trabalho” tem servido de
referência.
O cartel apareceu como lugar de um trabalho em comum, mas pode-se
dizer que a comunidade analítica encontra nessas unidades seu ponto de
realização? Lembremos que nenhuma sociedade psicanalítica está organizada
sobre essa base.
Desse ponto de vista, temos um termo que mostra o caráter inovador dos
cartéis, que é “ato”.
JACQUES LACAN — Eu lhe ágradeço muito pelo esforço de fazer este
resumo.
Não encontrei na sessão desta manhã o interesse que tinha a de ontem,
presidida por Martin, onde vocês não fizeram outra coisa senão colher seus
resultados.
Espero que Safouan contribua com alguma coisa, ficaria contente se você
falasse.
MUSTAFÁ SAFOUAN — Tive tempo de ler a Ata de Fundação e percebi
que tinha esquecido o texto.
JACQUES LA CA N— Você não é o único!
MUSTAFÁ SAFOUAN — A impressão que fica, no que concerne à origem
dos cartéis, é de que se trata de uma ordem marcada pela preocupação de não
98

fundar a cpJ^b,qr^ç|or-ou o, ;trat>alho, çprnum, jSobre pv.caciquismo [chefferie]-, não


existe neiiluMa-b^aitóz^âo^ué'''pèssafe1immâr ó^caçíquismò em’ uma coleti-
•j í À ' 5 /i t-.fi.-4, 5 .A f‘- /. ■á í l ’ '• r .* j !■ | A f-J- I V ;•
vidade. * *--f ^...j.lLí. .... V .M
E coisa que eu poderia sustentar; se me perguntassem, sustentaria afinal
que a:sociedade, <p o rs e u princípio, a partir de; siia célula de' base. que se chama
família;.,está- fundada sobre o recalque. Mas*, se: não se pode:. eliminar!lo
caciquismo, pelo menos pode-se evitar fundar sobre ele um regime de trabalho
que possa ser chamado de honesto.' . w : r-
.Então é um.ordenámentoi como poderíamos ter concebido outros. O que
nos faz colocar certas questões sobre a eleiçãò do número;,; por exemplo, três, óu
quatro, ou cinco. Isto parece uma sugestão prudente, no sentido de que,
empiricamente,: dentro desses-. limites, o trabalho se mostra .como tendo um
caráter ao mesmo tempo mais confidencial, mais franco e também m ais;sério do
que em outras condições. Nós mesmos, por exemplo, tentamos fazer um trabalho
em:torno do léxico, Enquanto a porta estava aberta a todos* nada foi fòito
seriamente. Fomóá obrigados a limitar o número, e a partir desse momento, ,o
trabalho se.reàlizou.. Isto tem úm caráter empírico. 1 :
Falo isto para chegar ao “mais uma”. Não sei pór que, construí uma idéia
tão exagerada, que cheguei a; falar de Sócrates, tal a -forma, em-que a coisa me
parecia importante na boca dos outros. ' ■! ' :;" ■> - •>
Mas có m o d a é-vista aqui, vejo uma função que-seria-comparávefrà função
de uhi tutor num.colégio inglêsy quero apoiar tudo isto não numa direção teórica.
mas numa ordem que tem um caráter empírico: repito, o estilo me parece ser o
de um tutor de Cambridge ou de Oxford, encarregado da seleção, da discussão e
do resultado do trabalho de cada urn. • ,-n' íc-.J
Existem questões duvidosas. Depois de um certo tempo de funcionamento,
serátqug aos elementos de uih-grupo:se propôs! serem .permutados pelos de um
outro? :Isso; foi feito? Porque-.isso me parece totalmente coerente/com o resto, è
justamente sem essa permutação, o resto não tem valor. Na; medida em .quése
trata, justamente, de dissipar o máximo possível os efeitos do :caciquismo;\a
permutação é necessária. Mas isso foi feito? -y~.
JACQUES LA CA N — Não, não foi feito nunca. ."oiíí" ;•«&
oí?/j MUSTAFÁ >SAFOUAN — Então é uma coisa qüe- me/eeèser feita, porque se
percebe que é coerente com o resto. .
jt : Na verdade, todo mundo está num cartel ?Será. que. eu ostoju. num. cartel?
Será que todo mundo trabalha num.cartel? Eu não posso.dizer qiie trabalhe iium
cartel. .aobiíJíiim
■ JACQUES LACAN ■ Absolutamente. Não existe íveídadei-ra realiz.açSo do
cartel de nenhuma espécie. .u>>üli-‘í
". MUSTAFÁ SAFOU AN —t. É isso. Mas íneu seritiméntp; é'< de. quo. isso
constitui uma grande lacuna na aplicação e que .s.expcdir{n0s.ía,,tpdp.s; ;p.ftra
trabalhar em um cartel, aplicando o princípiodaiperniutaçãOX:isPb'.pQrj<i)àprova
o' narcisismo -de.itodos. •É uma coisa i&seruapHjsada.VístO; queímçAQÇorreu.
Haverá outras.coisas que direi pouco a p o u c o .--jb o? 900 db b .aiònso Bob
99

PIERRE MARTIN — Chamei ontem,a, atenção sobre o “mais um” e.esta


manhã spbre os “tr.es”, E me; pergunto se neste púbiico há. alguém quo possa
tanibém çpiocar a questão d?. própria palavra cartel. No texto, está referida a
cardo, dobradiça, abertura e outras coisas. A palavra, na língua francesa,; tem
aind a outras implicações. Mas me parece ,que. mereceria.talvez .deter-se .nesta
ROBERT MUXD — Justamente, eu, me .perguntei.sob.re a.p.álayr.a “cartel”.
Quando entrei na Escola. Freudiana, fa.z .seis aaos,.quis saber.,qu,aj;,era,..a,regra.
Evidentemente, l i ,os estatutps. Era.o.início de urna.práticg que ainda, naquele
momento, não era:analítica . Eu trabalhava no Énfants-M aJades., pc maneira qúe
estávamos já agrupados, para estudar o Discurso de. Rqma, Eu tinha feito um
pouco de lingüística antês de trabalhar. .con?.o. analista :e;,y por tudo isso,
evidentemente, me interessava, ler o Disçursp de Roma, Àquilo carecia de
estrutura. Fui. ver, nos estatutos, o que era o cartel. Vi: “nós temos um,nome,
para.,,”, e, pcnsçi: então esse nome já preexiste ao seu uso. Pensei nos diferentes
sentidos que podia ter a palavra cartel, Não creio que, se. trate dc .um cartel
político. E me surgiu a idéia de que a palavra cartel.çonté.m tam bém ,o,que ,se
fazia quando se provocava alguma.pessoa para.um.duelo. Existe aqui uma pro­
vocação, no sentido de que Se delimita um campo e uma regra,,segundo a qual as
pessoas não .vão ..se, estrangular. Porque, mesmo assim, ainda há uma
possibilidade de morte, um duelo pode existir, a morte está preisente. E essa
palavra cartel soava para mim,como aquilo que era comum no século passado,
quando as pessoas se batiam cm duelo: falava-se em cartel, j ’pis.essa pro.voçação.
para falar é precisamente o.que,nos parece.ser a grande dificuldade, nas.rqupiões
de quatro pessoas,, que imaginariamente estão.agrupadas em quatrOi mas que têm
muita difiçuidad.e.em acçitar esse traço, ou s,eja, essa separação entre,signifiçapte
e.significado,O, "mais um”, sendo aquele .que garante qpe.as. coisas andem hem
p o r, cima-, da, barra, que;, sejam suficientemente ,. rpetafprizadasj,para . se.r
“.comunicáy.ci^”,compreensíveis por alguém que pão está^em; rejação dual:,(na
análise, por exemplo), que não está em relação de,ideptifi.caçãpí .:k. «r<;H*m3s*ioí;ú
Eu.acho.que o “mais um” desempenha, num cartel, quase o mesmo papel
que Q;dp. analista numa,cura, ou seja, o de estar lá para permitir.que uma palavra,
seja dita com a castração, com o signi.ficante. remetendo,.a .todos os outros,
sign i ficantes., se parad os do signífi cado pela.baçra..,-! ,.. ■\-~s. ví o-:- .' ’;'b "
.... ., Essa distinção me parece primordial em toda, a elaboração, teóriça, visto que
uma teoria é algo que deve..ser cornunicadp, re que o principio da.comunicação é:
que seja compreensível por alguém que nãoosteja participando dçla.;1, ^
Eu mesmo .achei, naquele momento (há 4, ou 5 anos), quç çsta ;“mais uma”
poderia ser.pagas: o quo present ifiçaria a dívida pelo.acesso ao simbólico, , -.
Não digo que tenhamos aplicado isso!... :: rhr.-i
MUSTAFA SAFOU AN — É insustentável o que você diz!, Cada um já se,
encarrega bastante de pagaro mais um! Isto me parece... V .y.rj'-i
ROBERT MUNO — Eu não disse que passam os ao ato, disse que há sejs:
anoS pensei nissOjCOmo íaptasnia. Acho que.de qualquer, maneira, nã 9:\é o fato de
pagar, no real. o que conta. mas.mesmo assim existo algo que.tcm rçlação çom a
100

dívida simbólica no “mais uma”; essa pessoa a mais ou esse “algo" é que
possibilita uma retroação da palavra. Por isso ele é ator, ou seja, organizador de
uma possibilidade de trabalho em cartel, porque isso faz ato, essa pessoa a mais
que é quem escuta.
Eis aí algumas idéias. Poderia contar-lhes todas as dificuldades que
encontrei nos diferentes cartéis nos quais trabalhamos. E isso era cada vez que se
tratava justamente da barra, ou seja, de abandonar o imaginário, que é subjacente
à possibilidade de ser abandonado. E necessário que exista o imaginário para
que se possa abandoná-lo. A dificuldade de abandonar o imaginário é que
produziu, na maioria das vezes, obstrução no trabalho do cartel.
GENNIE LEMOINE — É a palavra “empírico” que me chamou a atenção em
Safouan. Não penso que se proponha três ou quatro porque não se pode
trabalhar com vinte, se não se acha uma outra razão para esse número. Acho que
se se trabalha com três, quatro ou seis, isto significa que é o desdobramento da
situação analítica que se faz efetivamente entre duas pessoas, mas talvez entre
quatro pólos. É o desdobramento, no nível social.
E cada vez mais se poderia, dessa forma, chegar não a uma instituição,
seguramente não, mas a uma sociedade analítica, que devu ser encontrada. Isto
era uma primeira questão, há dez anos: o que é uma sociedade analítica?
MUSTAFA SAFOUAN — Antes de que me esqueça, tenho uma pergunta a
fazer a Jacques Lacan: por que o termo “mais uma” é sublinhado? É o único
termo que está sublinhado nesse texto.
Por que você teve a preocupação de sublinhar este termo?
JACQUES LA C A N — Para que percebam, desde o começo, o que de todo
modo viria mais tarde. Em realidade, só o fato de haver-me expressado assim
deveria ser suficiente para que, “mais uma”, se perceba, ao menos porque não se
pode ver, de outro modo, o porquê de que eu tenha destacado de um grupo esse
“mais um” que se torna um enigma. Enfim, pensei que devia sublinhá-lo
simplesmente para que se detenham nele.
MUSTAFA SAFOUAN — A resposta que achei a esta pergunta é que, na
enumeração dessas funções, a função essencial é a que está indicada pelos
termos da discussão, “encarregado da seleção da discussão”. É o termo
“discussão”, no sentido de que o sujeito, o analista, não está ligado à “mais
uma”, ele está ligado a si próprio. Mas a relação que eu penso ter com o que
tenho ou possa ter a dizer, é uma relação que pode se soltar, e como!...
JACQUES LACAN — Sim, certamente.
MUSTAFA SAFOUAN— Isto não implica a função de amarrar, de alguma
forma, a relação entre ele e os outros membros do cartel, mas sim a de sustentar
a relação que cada um pode ter, no seu trabalho, com o que tem a dizer. E o que
me parece constituir o essencial da função.
JACQUES LACAN — É exatamente o que eu desejava que você, Sibony,
falasse.
DANIEL SIBONY — Escutei algumas palavras como recalque, morte. Isto
me incita a dar-lhes como testemunho algumas reflexões que me surgiram a
101

partir da reunião de ontem, independente de qualquer experiência de cartel,


pois, mesmo tendo funcionado em diversos grupos, eu nunca me encontrei num
grupo que estivesse sob o título de cartel.
Isto me preocupou de tal forma, que concluí, afinal, que não existe outro
problema num grupo senão este do “mais uma”. Quero dizer que não existe nada
além da função do “um”, ou de “uma a mais”, a título de “a mais”. Vou tentar
dar uma explicação sobre isso.
Se se parte de um amálgama, de um conjunto de seres falantes, a pergunta
sobre o que o faz manter-se como tal, conjunto, pois o que faz viver e decompor
essa reunião de seres a priori separados, essa questão está seguramente presente.
Mas direi que o que decide é a maneira pela qual a repetição trabalha o conjunto.
A repetição pode ser puramente numérica: 1 + 1 + 1, etc..., caso no qual os
elementos contam e intervêm atítulo de “um por um”.
Não é verdade que tal conjunto possa ser sustentado por muito tempo, pois
precisamente ele ignora o tempo, ignora o ritmo e a pontuação. E esses
elementos só podem manter-se juntos como mortos. E um nível narcísico
perfeito demais, ou melhor, é o que se poderia chamar de um conjunto trivial.
Eu lhes diria ainda que o que me sugere essa denominação é que um dos outros
nomes do nó borromeano, ou dos nós borromeanos de n elementos, é: nós quase-
triviais.
Isto quer dizer que eles têm o mínimo que é preciso para não ser comple­
tamente triviais. Mas este é um ponto de vista muito ingênuo, pois, em razão dos
efeitos da palavra, os conjuntos humanos, por pequenos que sejam, conhecem as
determinações sensíveis da sua finitude manifesta — não existe reunião infinita
de indivíduos — e acrescentados a esta finitude manifesta, os paradoxos do que
se poderia chamar sua infinitude latente, que vêm como sobrecarga para
sobredeterminar de uma maneira esmagadora e plural os indivíduos presentes.
Assim, o efeito pelo qual tal conjunto foge, o fato de que haja fugas...
JACQUES LACAN — Infinitude latente, é isso justamente que é a “mais
uma”.
DANIEL SIBONY — Justamente é isso que eu queria articular.
Pois o efeito pelo qual tal conjunto se fecha, se abre, apresenta intervalos, é
o efeito pelo qual ficam esboçadas suas fronteiras e seus limites. Vocês não têm
que se surpreender de que esse efeito seja contaminado pela invenção do traço
mínimo como intermediário da denegação, como conseqüência do recalque, da
rejeição, em resumo, esse traço está comprometido com as formas múltiplas e
exuberantes da negação.
E visto que se chega repentinamente aos traços, e por eles à escritura, eu
diria que um conjunto de seres falantes só se sustenta se está filiado a uma
escritura em curso, às impossibilidades de uma escritura, ou ainda, se ela tem a
pretensão de estar acabada, à necessidade de preservá-la, de transmiti-la, e, em
conseqüência, de mastigá-la, ruminá-la e consumi-la.
Assim, o conjunto familiar é limitado àquilo que sobra, a criança,
testemunha e suporte de uma impossibilidade de escrever a relação sexual.
/

102

Quem o consome, quem o nega? : i. . iy-r.


r Outro exemplo: o rpovodo Livro (aquele quâ se denom inaassim ) desfaz
numa leitura a leitura precedente e a- desconipleta. 'a cada vez, de seus
comentários compiemèntaTes: Chego ã algo que me deixou, muito:sensibilizado;
é o que vocês evocaram ontem; <|uando falavam do grupo de matemáticos;
Esse grupo — pois ácòhteée que me é familiar — refere-se á um ser que só
se sustenta numa pura escrita, a matemática. E um grupo nó qual o Coração báte
ao ritmo desse ser. para quem testemunhas são propostas sob forma de
demonstrações, esse ser que se estremece e se nutre de sua aprovação escrita —
ed disse bem: escrita. Quando isso sé escreve é bom, eü não quero dizer quando
se denota em linguagem matemática; há pessoas que confundem a escrita e o fato
de deixar traços coerentes. É toda a questão da escritura què eles eludem.
Pois esse ser, desse complemento-teorema, chega, por assim dizer, a exaltar
sua incompletude e transmiti-la aos seres que estão reunidos sob seu signo.
Se existe um “a mais” nesse grupo, é o “a mais” do teorema im inente, qüero
dizer aquele que não está escrito ainda, mas está a ponto desê-lo.
E importante o teorema iminente que está aqui sobre o tear, no meio do
trabalho, ou seja: aquilo'que vai, daqui há pouco, se a sortólhe sorrir, entrelaçar
uma palavra errante, pontuàr associçõeslivres e Curiosas, à espera.
Espera-se esse “a mais”, essa unidade suplementar que, se se acrescenta ao
escrito, vai avivar a cicatriz desse grande corpo aberto [béant]e. E quando essa
espera impaciente, ativa ou exasperada, chega a uma espécie de grande prise, êu
me perguntava ontem por que às vezes, num grupo, diz-se sobre o teorema que
se acabou de escrever pela primeira vez: "o matamos”. Porém éle não está morto,
e até vamos poder servir-nos dele para fazer muitas coisas.
Mas nó mesmo instante, num instante fiígaz, se o fez chegar, ao mesmo
tempo que o “a mais”, a um lugar de morto.
Uma morte passou por ele, por esse “um a mais”. Ou talvez esse escrito
ténha passado, como um relâmpago, pelo lugar onde a falta desliza e chega ela
mesma a faltar.
É uma idéia muito conhecida, a de que todo aquele que aumenta um saber,
aumenta uma dor. E isso é bem verdadeiro neste caso: esse “mais um”, essa
“mais uma unidade de saber”, faz um buraco, um vazio, e leva consigo um “a
mais” a título de menos, uma ausência insistente que os perfura.
Isto quer dizer que esse “a mais” faz funcionar a morte de um modo muito
ambíguo. Não é o lugar do morto que ele presentifica, pois, ao ser designado,
esse lugar se completa. Talvez seja um traço de morte, em plena decomposição,
viva. Talvez um pedaço da mãe obstinada [rétive], a res9, a coisa-mãe. Pois é
importante que esse mais apareça irisado de feminilidade.

(8) Béanl: grande abertura, derivado de beance, traduzido nos textos lacanianos pelo
neologismo hiância; béant, como adjetivo, pode ter tambóin a acepção de boquiaberto,
surpreso. O verbo de origem é beer. (N.T.)
(9) Res, latim: coisa (N.T.)

i\i
103

O que uni grupo tom em comum -- evidentemente, acho esta expressão


muito ruim — é o fato de suportar conjuntamente o peso'significànte. á tarefa
literal desse : “um a m ais" que é também-o excesso mínirnó para que se
mantenha. Eu disse há pôúco: 0 nó borromeano tem, não no nível do numero de
seüs círculos, três oü quâtrõ, òü trinta e seis, mas em 'súa estrutura, na efusão
desse “um a mais” sobre todos os elementos, ele tem o mínimo nécessárió pàiía
não ser trivial. Isto quer tíizèr que todo sub-nó estrito é trivial. Üm sub-nó, o nó
que sé obtém ao fazer abstração de um elemento.
Um nó trivial significa que os círculos de barbante passeiam pelo ar e não
se ligam entre si.
E pois esse desconhecido, sem o qual issó não se sustenta. Mas; eis que,
pelo fato de que isso se sustenta, esse desconhecido está, pOr assiríi dizer,
dissolvido.
Ele está comprometido com todos os outros, unido a todos os outros. É u r n a
presença que passou a ser potencial por ter sido, pelo menos U m a vez, efetiva.
Há aqui algurha coisa: da ordem do quase, da proximidade do quase, dó quase
nada, de sua proximidade com a função da morte.
JACQUES LACAN— Do quase nada ou do quase tudo?
DANIEL SIBÕNY — Na medida em que essa presença, tórnadâ potencial
por ter sidò, pelo mènos uma vez,' efetiva, é que existe no mínimo um traço a
mais, e faz com que potencialmente qualquer um dós seus traços possa animar
essa função excessiva, essa função do excesso. Há aqui um deslizamento do “ele
existe” ao “qualquer que seja”. O mais importante é que, a partir do momento
em que essa “uma a mais” entra em função, ela já está perdida como tal e é
transformada em efeito evanescente, inalcançável. Se num nó borromeano, por
alguma decisão verdadeiramente'tirânica,'fóiá do real [dêréelle], só üm dos
círculos pode estar cortado para manifestar o caráter quase-trivial. sé então só
um círculo suporta o caráter borromeano, se,’ enfim, um elemento determinado
salva 0 grupo da trivialidade, esse elemento se torna predicado, então nem o nó
nem sua escritura mínima seriam mais quase triviais. Ele se referiria a uma
forma de tagarelice da escritura.
Em sumal esta “uma a mais” se sustenta no objeto do desejo é, ao mesmo
tempo, no “Um” que existe, no sentido ëm que vocês dizem “existe um” [il y a
de 1’Un].
Mas tudo depende de com que Um se defronta ésse grupo. Pela hipótese
absurda que eu fazia, a respeito do nó no qual um único elemento teria o
privilégio, contra toda a necessidade real de salvar o grupo da trivialidade, vocês
podem ver sua significação em que um elemento do grupo imaginaria que sua
ausência ou sua presença sustenta a decisão.
JACQUES LACAN — Contudo, é disso que se trata.
DANIEL SIBONY — É, e então é ainda mais paradoxal que alguém, talvez t
senhor no caso, tenha ligado isto a algo realmente quase trivial, e então un
elemento imagina (existe uma necessidade de que se imaginem coisa;
semelhantes) que suã presença oü sua ausência torna o grupo decidívei. Pois el<
104

se imaginaria o elemento que sustenta o amor ou o ódio absolutos.


Eu disse que tudo depende de com que Um o grupo se defronta. Direi,
portanto, que esse “mais um” (teríamos que interrogar aqui o que quer dizer
“mais”, mas isto seria muito demorado) é um fiapo de escritura.
Se entende que o lugar é muito arriscado, acabo de insistir nisso, que uns e
outros o imaginam predicável, mesmo sendo analistas. Haveria, portanto (é um
dos pontos que temos que aprofundar), nesse “mais um”, a função do resto. O
“Um” seria o resto, estaria abandonado, o mais próximo possível do ponto pelo
qual o real vai insinuar-se no grupo.
JACQUES LACAN — É justamente disso que se trata. De que cada um
imagine ser responsável pelo grupo, ter que responder como tal.
DANIEL SIBONY — Pode-se acrescentar que o resto, fora desse um que se
imagina, pode também imaginar-se — já houve, na história, muitas orgias de
sacrifício por isso...
JACQUES LACAN — Ele não imagina sem motivo, já que, de fato, aquilo
que faz o nó borromeano está submetido à condição de que cada um seja
efetivamente, e não só imaginariamente, o que sustenta todo o grupo.
Então, o que se trata de mostrar não é até que ponto é verdadeiro, mas até
que ponto é real, ou seja, quais são as formas de nó capazes de sustentar
efetivamente esse real que faz com que, ao romper-se um aro, isso seja suficiente
para liberar todos os outros. Isto tem limites que se deve explorar, porque há
coisas que podem ter toda a aparência de um nó borromeano, e, apesar disso,
não existirem como tal, quer dizer, onde a ruptura de um círculo não leva à
dissolução do resto, à separação do resto, um por um. E isto, há maneiras de
ilustrá-lo, e essa questão da ilustração coloca por si mesma uma pergunta: é
suficiente ilustrar um nó — e só se ilustra colocando num plano — para que isso
seja a demonstração? Mostração [mostration] seguramente é, mas demonstração,
onde está ? Será que ela é o verdadeiro sustentáculo da mostração?
DANIEL SIBONY — Sobre isso, adiantarei algumas observações. Primeiro
me referi à função da escritura, e também ao que você chama a impossibilidade
de escrever a relação sexual10; eu diria, mesmo se a fórmula é um pouco abrupta,
que há sempre um “mais um”, ou um “mais uma”, num grupo, é o mesmo que
dizer “há racismo”, sendo as duas preposições, de uma certa maneira, equi­
valentes a uma terceira, que é a sua: não há relação sexual. Este é um primeiro
ponto, não vale a pena dizer nada mais.
Em compensação, sobre o efeito de nó, o que tentei pontuar é que o nó
pode ser um bom nó, digamos, um nó quase trivial que tenha o mínimo
necessário para não se desfazer, se decompor. E todavia, um pouco pela lin­
guagem e pela língua que ele sustenta, um dos círculos se torna privilegiado pelo
imaginário que está à sua frente, e sua presença e sua ausência são decisivas,
sustentam a decisão.

(10) Raport sexuel no texto francês: relação, mas também proporção sexual. (N.T.)
105

Isso me faz pensar em alguma coisa que é, talvez, da ordem da demons­


tração e não da mostração, do lado do nó mental.
JACQUES LACAN — Só existe nó mental.
DANIEL SIBONY— E que, de certa maneira, a importância de um nó é que
elese faz representar por uma língua, ou um fiapo de língua, ou uma linguagem,
de maneira aproximada. E o que há, o que um nó implica, no nível então da
demonstração, quer dizer, necessidade dentro da escritura, da necessidade
literal, implica um indecidível, uma impossibilidade de decisão, não por
ignorância, mas de maneira intrínseca. Para se ajustar a uma metáfora
matemática, se você associa uma letra a cada círculo, e você segue o que se
chama de grupo ou apresentação de grupo associada a esse nó, aparece o que se
chama em inglês the w ord p roblem s — o problema das palavras. Aparece, por
exemplo, a questão de saber, tendo sido dadas as identidades fundamentais,
quando uma palavra pode se juntar com uma de suas identidades, mediante um
algoritmo. Essa é a decisão perfeita, ideal e decepcionante. Infelizmente, e de
certa maneira felizmente, demonstrou-se que é impossível, não porque não se
chegue, mas se chega a demonstrar que é impossível. Isso pode lhe interessar na
medida em que estaria aí o efeito da demonstração, é essa necessidade pela qual
uma certa linguagem quebra a cara diante da impossibilidade desse algoritmo.
Isto é a demonstração.
JACQUES LA CA N — A impossibilidade de afirmar que qualquer coisa seja
demonstrável no que concerne a uma certa proposição.
DANIEL SIBONY — Não, a demonstração da impossibilidade de um
algoritmo. Mas foi demonstrado. Quer dizer, há um algoritmo para demonstrar
que não há. Essa impossibilidade, demonstrada, é o efeito máximo da
demonstração.
JACQUES NASSIF — Por várias razões não posso situar-me no nível de
rigor e exatidão de Sibony. O que Sibony acaba de dizer me agradou e até
confortou-me, mas me situarei do lado de uma experiência, que foi o que foi,
mas da qual acho que só é possível falar agora, muitos anos depois — talvez me
situe num nível de intuição sobre o que era e o que nem sempre era acessível
para mim — creio ter chegado, nesse pequeno grupo que formávamos, a formular
alguma coisa que podia significar o seu fim, e que era o “que ninguém entre aqui
se quiser fazer obra de autor”. Quer dizer, não há necessariamente só a filiação a
uma escritura ou um fiapo de escritura (talvez mais uma vez compreenda as
coisas de maneira vulgar, dentro do que ouvi), mas talvez haja também, num
momento dado, a vontade de contribuir com uma demonstração, justamente, a
vontade irreprimível de situar-se como autor, de fazer um livro ou um escrito,
um escrito que se mantenha, quer dizer, cujo tema se projete e submeta esse
escrito à circulação.
Talvez seja justamente o limite desse tipo de grupo, o ponto a partir do qual
o “mais um” trata de se encarnar em outro lugar, longe do grupo.
JACQUES LACAN — Que pensa você, Sibony, da fórmula que comentei
ontem, e que está evidentemente fundada sobre o tema de Bertrand Russell, de
106

que na matemática não se sabe de, qüe se fala? Substituindo o “que” por um
“quem”, justamente alguma coisa referente à pessoa; ao sujeito,; será qùe se pode
dizer que, para um matemático, é suportável? v?.... v\h'Jhá
Em outros termos-, pode-se dizer qüe! fazer da matemática-algó transmis­
sível; é da ordem de um “quem”? Que a matemática é um :sujeitó? É o “uma a
mais” de todo matemático; Tanto é assim; que toda a comunidade matemática se
rompe se não tem essa “uma a mais”, a matemática, a matemática1comò sujeito.
Bertrand Russell não viu isso porque-estava — o que é curioso para um
matemático centrado no objeto, um objeto que é puro sonho. Não há qualquer
objetividade matemática. Ele o afirmou, o que é bastante curioso para um
matemático. Então, se não é um objeto, o que d ?
DANIEL SIBONY — Gostaria de responder: isso já não é mais um sujeito,
você diz: não se sabe do que se fala, mas se sabe de quem; é o que eu tentava
fazer sentir nessa pulsação pela qual, desde que o “a mais” é adquirido, já está
perdido, quer dizer, desde que entra em função, está caduco.
JACQUES LACAN — Está caduco e, no entanto, é adquirido.
DANIEL.. SIBONY — É adquirido de tal maneira que, fora algumas
satisfações narcísicas importantes— já que falamos do que é. imaginado e não se
fala mais, quer dizer, por um lado não se fala mais — , porém, quanto a saber de
quem se falava, tenho a impressão...falei da mãe obstinada ou da-coisa,-más de
certa maneira não se sabe mais de quem se fala, sob o risco de repetir a tentativa
ou a tentação. E evidente que há um efeito de sujeito. A prova é qùe se pode falar
de três ou quatro, produzir o “a mais”, e então supô-lo.
Se isso interessa, deveríamos chegar a um enunciado como este (só que não
vejo o que se poderia fazer com ele): um grupo de analistas seria então um
conjunto de pessoas com “a mais” a psicanálise ou o objeto da psicanálise. Quer
dizer, seria um grupo de analistas onde cada um se chamaria psicanalista ou
funcionaria como tal.
MUSTAFA SAFO U AN — Em relação essa fórmula, eu não estive aqui
ontem, mas direi que há uma perplexidade que não é única em seu tipo, ou seja,
que, num sentido, não há matemáticos sem matemática, mas não há matemática
sem matemáticos.
Mas quando se propõe a modificação da fórmula que você acabou de dizer
agora, ainda falta explicar o “quem”. É a matemática. Mas o problema volta a
aparecer. A matemática, que seria a “mais uma”, é um sujeito? O que nos dá a
sua especificidade em relação ao matemático, sem o qual não há matemática
possível?
JACQUES LACAN — Sobre isso eu interrogava um matemático. Um mate­
mático se defronta, na matemática, com uma pessoa.
DANIEL SIBONY — Sobre isso podemos estar de acordo.
JACQUES LACAN — E por isso que toda essa gente — não é por nada que
no Ornicar? nos foi mostrada uma imagem simiesca da gramática, porque se
imagina que há outras além da matemática. Quanto à gramática, é tão
problemática quanto a análise. Para a matemática, é certo que é uma pessoa. O
107

fato de que vocês'còncordem ëm dizê-lo tem o valor de testemunho.


DÀNIELSIBONŸ— iSimplemente eu o formularia asSim (acho que é assirn
como você o entende): se fala como do uma ])ossoa. - 1 .
JACQUES LACAN — Um matemático tens o .sentimento do que se passa ou
do que não se passa. Em relação a quê, e-em relação a: quem? A comunidade
matemática não é o ;jüiz último.’ A p ro v a i que quando Cantox expôs toda a sua
máquina, houve uma parte dos matemáticos que lhe cuspiu no rosto, e ele então
se sentia maluco. Contudo, continuou. Tratava-se da matemática. Não é a mesma
coisa com a análise, porque a análise deve ser criada.
JUAN DA VID N A SIO .... Mas eu diria, sem ser matemático: será que essa
pessoa não percebe o fato de que não há matemática sem escritura? Quér dizer
que é na própria escritura que o sujeito, se instala, se produz, entendendo
“escritura” como traço escrito. A comunidade dos matemáticos se faz no papel.
Teríamos que achar analogias e diferenças com o analista. O analista
escreve também. Escreve e fala, quer dizer: ele está em. relação com as duas
singularidades materiais: o traço e a voz.
JACQUES LACAN — Os matemáticos crêem na matemática no sentido que
eu dou a esse termo. E não se pode fazer nada. Eles crêem nela;
CHRISTIANE BARDET..GIRARDON — Sim, eles crêem nela. Há um
consenso matemático. Não há um consenso analítico, e não deve haver uma
cumplicidade analítica: penso que é. aí que se inscreve justamente o
funcionamento do cartel, na medida em que o cartel pode ser, com efeito, algo
original que pode introduzir uma dimensão :analítica numa pesquisa, para
impedi-la de tornar-se matemática ou universitária. Quer dizer, no cartel, ou
pelo menos no que entendemos ou lemos sobre ele, pode-se pensar que a
dificuldade é a- mesma que no. contrato analíticOj ou seja, tem-sé que sustentar
aquele paradoxo que é o encontro de um desejo, o desejo de fazer coisas juntos,
de fazer algo como sujeitos, e, por outo lado, um certo número de regras que são
regras rígidas. E me parece que o cartel, o que tem de propriamente analítico é
justamente essa repetição dos mesmos dados básicos, ou Seja, o enfrentamento
de uma busca, de uma busca de sujeito, que, para conservar sua autenticidade,,
não deve se transformar em cumplicidade.
O específico da matemática é que, no fundo, a pessoa matemática (não sou
completamente uma matemática) se defronta com a verdade, uma verdade que
não é discutível desde o momento em que se é matemático. Cantor não tinha
chance nenhuma de ficar maluco, porque ou se podia seguir seu raciocínio (se
você era matemático), ou, pelo contrário, não se podia refrutá-lo nem questioná-
lo. No que concerne à posição do analista, segundo o meu ponto de vista, é bem
diferente. Então acho que deveria sofrer, também o cartel, uma certa
modificação. Tem gente que pensa — com ou sem razão, não sei, não tenho
muita experiência de cartel — que quem escolhe o tema do cartel é o mestre
[maître]. Não penso que seja assim. Acho que, no cartel, deveriam introduzir-se,
da mesma maneira que usamos o termo analisante, dois term os que seriam:
“cartelizado” e “cartelizante”, e que um cartel só püde funcionar se ele está
108

formado unicamente por cartelizantes. Talvez, com efeito, para sustentar esse
funcionamento, é necessário “uma a mais” em algum lugar, não sendo uma
pessoa, nem uma máscara, que é a própria expressão da pessoa, talvez a morte,
como dizia alguém esta manhã, mas, de qualquer jeito, seria uma função, ou seja,
uma coisa lábil, que se produz numa certa circulação.
JACQUES LACAN (a Daniel Sibony) — Conte o que expressava o seu
sorriso quando eu disse que os matemáticos crêem na matemática. Diga o que
pensa, porque é a única coisa de que se pode dizer que se crê com razão, e que so
apóia nesta fórmula: crer nisto.
Todos os que conheço como matemáticos distinguem bem entre o que é a
matemática e o que não é, e a única coisa em que não crêem, mas na qual crêem,
é na matemática. E o que define um matemático.
A fórmula “crer em” [croire à] lhe parece ter seu peso?
DANIEL SIB O N Y — Se você a utiliza, é que já advertiu seus outros usos,
principalmente crer em Deus [croire en Uieu],
JACQUES LACAN — É isso que me chateia. Está o en. Não é o mesmo que o
à. Crê-se, com efeito, em Deus, quer dizer, no interior desse ser mítico, se é que a
palavra “ser" convém. Dizer “creio em Deus" é perfeitamente adequado, quer
dizer que se está imerso nessa crença. Mas cre à não é a mesma coisa. É por isso
que disse que, no sintoma, se crée à, de maneira que seria levado a pensar que a
matemática é um sintoma, como uma mulher. E por isso que estou contente de
que seja na forma “mais um" que isso se sustenta.
Diga, porque não me considero matemático; se creio em qualquer coisa, não
sou matemático. Mas conheço um certo número deles além de você, que crêem.
Poincaré cria.
DANIEL SIBONY — Talvez isso defina o matemático. É talvez por isso que,
de uma certa maneira...
JACQUES LACAN— O matemático tem a matemática como sintoma.
DANIEL SIBO N Y— Sim, é talvez por isso que produzir matemática não o
define como matemático, ao contrário do que dizia Descartes. Tem que crer. Mas
então, o que séria esse ser, a matemática, que só se sustenta na escritura? O que
seria um sujeito que só se sustentasse na escritura?
JACQUES LA CA N — Será que só se sustenta na escritura? Pode-se apalpar
que se sustenta sempre na escritura. Mas lhe pergunto sobre a diferença entre
mostração e demonstração, é disso que se trata, afinal.
MUSTAFÁ SAFOUAN— Será que um matemático analisado se cura dessa
crença?
JACQUES LACAN — E na verdade uma pergunta. O sintoma matemático é
curável?
DANIEL SIBONY — Queria fazer uma observação; não uma resposta à sua
pergunta...
JACQUES LACAN— Você está curado da matemática ? (risos).
DANIEL SIBONY —- Aí está toda a ambigüidade de crer nela; é que, na
medida em, que ela tem também alguma coisa de jogo, pode-se brincar de crer
109

nela. Ou melhor, pode-se permitir que se nos suponha crentes pela escritura que
passa, e uma vez que esta (a escritura ) está terminada, ser o suposto de haver
crido nela. Mas o matemático incurável, um pouco como meu vizinho sugeria,
crê mas não seria livre para não crer.
JACQUES LACAN— Ele é incontestavelmente não livre para não crer.
DANIEL SIBONY — Mas é uma crença bastante esquisita, já que é afinal
toda a função de sujeito dessa escritura, já que ela pode surpreendê-lo, mas não
o pode enganar.
JACQUES LACAN — É verdade.
DANIEL SIBONY — Ela pode surpreendê-lo até o ponto de uma catástrofe,
mas não enganá-lo até a menor angústia. Dito de outra maneira, seria um
sintoma sem angústia.
JACQUES LACAN— Há mil sintomas sem angústia. É nisso que distingo a
angústia do sintoma, como Freud.
Enfim, creio que, de qualquer maneira, de acordo com o pedido de Faladé,
eu confessei o que há detrás desta espécie de proposição duvidosa que
representa o cartel. Isto fará com que se conheça um pouco mais do que eu quero
dizer, pelo menos.
Então, suspendemos a sessão?

(.A sessão é suspensa às d ezesseis horas).

POST-SCniPTUM— (sobre as provas).


Acrescentaria a seguinte observação, que para mim pode dissipar o
nevoeiro da questão: a “mais uma” é uma presença, a mais, do Um. Há religiões
onde, quando se juntam três “fiéis”, há uma presença do Um que invocam, que
se dispersa com eles. Esta “uma a mais” não tem então qualquer necessidade de
encarnar-se para funcionar, e esse efeito não se mostra, mas se demonstra.
[D. Sibony)
110

IV — JORNADAS DE ESTUDOS DOS CARTÉIS


a- DA ESCOLA FREUDIANA
SESSÃO DE ENCERRAM ENTO
i

SOLÃNGÊ FALADE — Chegóú a hora de' concluir. Se riossas jornadas


tivessem funcionado como um congresso, teríamos que ouvir agora as
exposições dos trabalhos dos diferentes grupos. Nada disso’ Teremos as atas das
jornadas. ........ '
Está sessão, chamada de encerramento, não deve pôr um ponto final nesse
intercâmbio entre os diferentes cartéis da Escola. Trata-àè de uma sessão
inaugural. Quer dizòr; outras reuniões estão previstas, a partir de ágòra.
Além disso, se é verdade que até hoje foram poucos os cartéis (no sentido
em qüe o Dr. Lacan os entende') que funcionaram na Escola, a partir do que foi
trázidtí dúrarite estás jórhadas:se pode prever um relançamento dessa forma de
trabalho.
Como foi sublinhado esta manhã, a estrutura que Lacan quis para esses
cartéis, na Escola, deve permitir que se evitem dois obstáculos: o totalitarismo e
o liberalismo.
No transcurso destas discussões sobre os oartéis, se muitos pontos estão
agora mais claros — muitos pontos esquecidos da Ata de Fundação — ainda
resta um ponto obscuro para muitos dê nós, que é a necessidade dessa “mais
uma pessoa”, sua função ria viria do cariei que talvez o Dr! Lacan pudesse
esclarecer-nos um pouco melhor. ‘ ::
JA C Q U Ê S LACAN —- Disse lamento que minha querida Solange não
tchhá 'esfádó. Tnás'6la não podia1estàr'em 'todá parte ao mesthò'tempo, se bem
que"òssé‘ é ’o sCú costümé — disse certas coi'sas e paráelaVou repeti-lâs, disse
certas coisas cuja essência se referia à matemática, e para dizê-lo partia (já qüe a
lei da palavra é de que a gente se refira às palavras anteriores) partia de Bertrand
Russell, que não é o último a chegar entre os matemáticos, longe disso, já que foi
ele quem, nos Principio, que vocês conhecem, suspeito, que vocês pelos menos
têm o título na cabeça, foi ele que chegou a enunciar que os matemáticos não
sabiam do que falavam. Propus uma modificação desta fórmula a alguém que
tem alguma formação matemática e obtive a aprovação de um outro que não
conhecia, uma jovem que se apresentou a mim, depois, como matemática, e a ela
(não sei se também ao matemático que citei) pareceu satisfazer que eu tenha
substituído esse “ eles não sabem do que falam" por "eles sabem, peló contrário,
muito bem de quem falam”.
Por enquanto me limitarei a isto, porque esse “de quem” em questão, que
pode se sustentar num nome, numa referência, chamá-lo de “a matemática" é
dar à matemática, como me fizeram observar, o valor de uma pessoa. A pergunta
pode ser feita, com algumas objeções. Poderia sustentar-se que uma pessoa,
111

podendo ser considerada essencialmente como aquilo que é substância, para um


pensamento, quer dizer, substância chamada pensante, o que nao exclui, que se
possa ir tão longe quanto identificar a matemática com uma pessoa.
Mas se eu estava presente neste lugar onde se discutia a funçap cio cariei, é.
porque isso tne interessava particularmente. Interessava-me particularmente o
fato dé; qüe ó que éu havia antecipado na minha proposição para o funciona­
mento d a ‘Escola recebeu, dépõis destâs jornàdas, um grande impulso. Gostaria
de que a prática desses cartéis que imaginei se instaurasse de maneira mais
estável na Escola.
O pontò central para aquilo que justifica a indicação do termo "cartel", não
posso dizer, a partir de agora, pois não vejo porque eu faria uma ruptura; até este
momento, cada um fez ato dé candidatura para ser um membro da Escola
somente a título individual, deve ser dito; é assim que isso acontece: foi
examinado, nó nível de üm organismo qüe se chama Diretório, se admitiríamos
ou não, a título de membro, alguém na Escola. Entenda-se bern: foi bem,
colocado, no princípio que regula a admissão à Escola, que não é de nenhuma
maneira obrigatório ser analista, e que, pelo contrário, a Escola tem o que
aprende: de quem, formado em. qualquer outra disciplina que não a análise,
possa contribuir com o que se chama geralmente de conhecimentos para
aumentar o dossiê que, seguramente, a n o s ,,.a n a lis ta s e já foi demasiadamente
provado— , faz-nos falta, e, para trazer-nos algum material com que, possamos em
suma apoiar a nossa.prática. E sobre isso mesmo que repousa a idéia de, anunciar
uni termo, e acontece qu'e este ano escolhi o termo consistência para designar
justamente o que resiste, o que tem chançé de fazer parte de um real.
Então, aquilo que dève ser explicado no meu anúncio, no meu enunciado,
na.minha.pVopósta.de’ que sé entre na Escola nao a,título individual, mas,a título
de um cartel.^seria evidentemente esperável ver realizar-se daqui por diante —, e
é o'que, repito, não pode doravante ser definido como sendo uma condição, mas
seria esperável que entre, nas cabeças,,, é que se entre em várias cabeças, e a nome,
a título cie cariei. . . .: ,
Há um segundo aspecto nessa noção, de .cartel :;é porque ç como,o proponho
(já;.q.ue estamos ainçja qisso^..rco,niç>,,çpnst.itiiíijo por um número nao muito
grande, um número, rpínimpi.porque esse número mínimo, enunciado como
quatro.,, já. que disse, três mais, uma ^pessoa e não piisei-ir além de.,cinco, o que,
adicionando uma pessoa, tórna-se seis’ pois m e parece esperável que o cartel
tenha de quatro a seis, e é isso que deve ser justificado e que espero articular,
talvez já no meu próximo sOmínâfió, ferido'em conta q u e não ,creio qüé tenha
mais, do.que.dqis an.íes de finàlizár ò ano,|já que ó anfiteatro que ocupo, é onde
vocês .são numerosos — numerosos demais para o rtíeü gosto — sérá mobilizado,
p,arq'a^função dos exames'.a pajtif/dé xerto momento de maio, ainda não
determinado. f.'.,- " I V ; . .....
Êntaci,ré aí,„nesses dois..últimos seminários, que esperò justificar; quero!
dí^er jusíificàr.p.ára^Vocês, para o seu entò::dinie:;ío, pòrqüe esse número niíni-'
m o'qekigí^^ pm qu e ha necèssiááde de gue não se yltràpásse esse número.
112

Há aí razões, que espero fazer-lhes entender, que estão ligadas à própria


estrutura, a qual, de qualquer maneira, não situa esse número por baixo de um
certo nível, e considera como muito pouco o dois, e mesmo o três. Isso deveria
ser justificado, porque evidentemente o três, eu insisti nisso o bastante para que
possa parecer desejável. Pois o quatro no começo é, repito, o que falta situar.
Há, no entanto, coisas que deveriam incitar-nos a ter menos prudência,
digamos, uma menor prudência que seria também menos rigor. E uma expe­
riência patente, de qualquer maneira, que existam comunidades que chamamos,
não por acaso, religiosas, as quais nunca viram por si mesmas, e inclusive jamais
viram sem reticências essa limitação do número.
Parece que não há limite para o que a comunidade religiosa possa
representar. Não é certamente sem razão. E são razões que, repito-lhes, espero
fazer vocês apreciarem. O anonimato que preside a comunidade religiosa é algo
que já deve lhes fazer pressentir que, nesse pequeno número, há uma ligação
com o fato de que cada um leve, nesse pequeno grupo, o seu nome.
É certo que não temos o mesmo objeto que domina o fato da comunidade
religiosa, pois o que nos interessa, na nossa prática, não é o que interessa a uma
comunidade religiosa. Quando digo “religiosa”, é uma maneira de dizer; não
ponho todas as religiões num mesmo saco, já especifiquei qual é a que domina
por estes lados, a cristã, que não saiu do nada, saiu da judia, e a leva ainda de
uma maneira bem singular (as relações entre a comunidade judaica e a comu­
nidade cristã estão marcadas por algo para o qual espero que o termo sobre­
vivência, para designar a maneira pela qual a religião judia continua a ser levada
pela cristã, não lhes pareça muito exagerado — é uma maneira de conotá-la,
poderia haver muitas outras maneiras de indicá-la, maneiras às quais talvez
volte em seguida). A comunidade religiosa tem por fundamento o que se pode
impropriamente designar como um mito, o mito que designa esse Deus que está
longe de scr simples, é bem complexo, tão complexo que foi necessário que a
comunidade cristã se deixasse forçar, e o articulasse como trinário; já disse, por
ocasião do meu seminário, o que pensava: só a comunidade cristã se deu conta
de que não havia Deus sustentável que não fosse tríplice.
O curioso é que se falou muito, evidentemente, escreveu-se muito sobre
essa trindade, mas nunca se deu nenhuma justificativa; e eu me sinto, com ou
sem razão, com o privilégio de ter, pelo meu nó de três [noeu d à trois], dado uma
forma do que se poderia denominar seu real.
Alguém me conta ter visto — e eu o assinalo porque o recebo com muito
interesse — na Biblioteca Nacional, numa exposição de miniaturas, uma coisa
que se encontraria atualmente (a pessoa tomou nota) na Biblioteca Municipal de
Chartres; alguém então (espero vê-lo, porque teria que verificar) teria visto um
nó borromeano com o enunciado, ao lado, “trinitas”; ele teria visto os três
pequenos traços com que, vocês sabem, eu simbolizo esse nó borromeano, os três
pequenos traços que se cruzam de certa maneira, da maneira com que se fazem
feixes com fuzis, põe-se três fuzis e aquilo fica em pé, eles se apóiam
circularmente um sobre o outro, e é o mesmo — não o disse no seminário porque
113

não me parecia uma coisa para ser dita, mas todo mundo sabe que, naquela coisa
que serve como símbolo de um certo gaelismo, e até de uma Bretanha que se
desperta, o trískel é uma coisa que realiza essas três pequenas pontas da maneira
como, em geral, eu as desenho no quadro como ponto de partida, e a esse triskel
reduzido, que é tanto um nó borromeano como a forma completa, a esse triskel
estaria agregada a indicação escrita “trinitas”.
O quê, de tudo isso, tem relação conosco? A relação se limita a que, se eu
definisse algo a ser chamado de análise, eu a chamaria não de religião de
qualquer Ser Supremo, como muitos entre nós jamais deixaram de considerar; já
disse que nem sequer estou seguro de não ter sido pego em flagrante de delito de
deísmo, e vocês verão logo: se falo de religião do desejo, e não parece nem
mesmo isso, sobretudo se o desejo me parece ligado não só a uma noção de
buraco, e de buraco onde muitas coisas se turbilhonam a ponto de serem
engolidas, mas só o fato de juntar aí essa noção de turbilhão é, evidentemente,
fazer múltiplo esse buraco, quero com isso dizer: fazê-lo conjunção, pelo menos;
para desenhar um turbilhão, uma hélice, lembrem-se do meu nó em questão; é
necessário pelo menos três para que isso seja um buraco em turbilhão. Se não há
um buraco, não vejo muito bem o que temos que fazer como analistas, e se esse
buraco não é pelo menos triplo, não vejo como poderíamos sustentar nossa
técnica, que se refere essencialmente a algo que é triplo, e que sugere um buraco
triplo.
Em todo caso, no que se refere ao simbólico, é certo que há alguma coisa
sensível que se esburaca. Não só e provável, mas manifesto, que tudo o que se
relaciona com o imaginário, quer dizer, com o corporal — é o que surgiu
primeiro — , aí não só se esburaca, mas a análise pensa nestes termos em tudo o
que se relaciona com o corpo, e toda a questão é saber em quê a incidência da
linguagem, a incidência do simbólico, é necessária para pensar aquilo que, ao
redor do corpo, na análise, foi pensado como ligado, digamos, a diferentes
buracos. Não há necessidade aqui de remarcar como o oral, o anal, sem contar os
outros que achei necessário acrescentar para articular o que é a pulsão, não há
necessidade de remarcar que a função dos orifícios do corpo está aí justamente
para designar que não é um simples equívoco transportar o termo “buraco” do
simbólico ao imaginário.
Sobre o sujeito do real, é claro que tento fazer funcionar esse real a partir
desta simples observação: defini-lo como o universo é impô-lo como cíclico,
como circular, é introduzir aí o Um, pois e essa a noção de universo, é torná-lo
englobante com relação ao corpo que o habita, c fazê-lo mundo. Não estou certo
de que o real faça mundo, e é por isso que tento articular algo que diz, que ousa
enunciar pela primeira vez, que não é seguro que o real forme um todo. E
evidentemente difícil ver que física poderia instaurar-se, se não se admite que
pelo menos algumas porções desse universo são isoláveis, fecháveis [ferm o b les3.
É aí que se assenta, vocês sabem, a própria noção de energia; a idéia de que a
energia é constante é o princípio e a base sobre a qual, em física, pode-se dizer
que repousa a própria noção de lei, e a idéia de que há um todo é algo sem o
224

qual não se pode ver como a ciência se sustentaria.


Mas, afinal, é curioso que já não tenhamos qualquer idéia perceptível dos
confins desse universo, e o que, em suma, anuncio, me atrevo a anunciar, é que a
nós, analistas, nada obriga a fazer do real uma coisa que seja universo, que seja
fechada. A idéia de que esse universo é simplesmente a consistência, a
consistência de um fio que se mantém, não chega a torná-lo cíclico, mas já é
bastante como hipótese, e para nós pode ser suficiente; quero dizer que com dois
ciclos e uma reta até o infinito, o que já é avançar muito para o real, fazemos um
nó, um nó borromeano que se mantém totalmente, que é verdadeiramente um
nó. De maneira que o fato dc podermos sustentar a idéia de que o real não é
tudo, é pelo menos um reasseguro [réassu/unce] que deve interessar aos físicos,
e os físicos se acostumarão com a idéia de que se pode, talvez, pensar o real sem
pôr nele uma constância, a constância chamada energia, e é aí que já se anuncia
a idéia de que a constância não é consistência. Reduzir a constância à
consistência, isso poderia ser sustentado pelos físicos.
Enfim, não é numa física vindoura que estou tentanto engajá-los; nós, nosso
tema, é o de perceber aquilo que é impactante na nossa experiência histórica, e
que é essencial para nós, ou seja: que há nomes. E o fato de que haja nomes
parece ser completamente nodal; quero dizer que, até onde chega a memória
humana, deu-se nomes às coisas, isso subsiste até em Freud, é um fato que deve
deter-nos. Não é por nada, lembro-me que quando escrevi A Coisa Freudiana
tive à minha volta um monte de pessoas que tomaram um ar desdenhoso: “Por
que é que ele chama isso assim, é uma vergonha, tudo o que tentávamos era
justamente opor-nos à reificação”; eu nunca fui dessa opinião, nunca pensei que
quando se produziu uma ruptura, a de 53, era porque divergíamos sobre o fato
de reificar ou de não reificar aquilo de que se tratava na prática; era reificar de
uma boa maneira. Se chamei algo de Coisa, e principalmente Coisa Freudiana, é
evidentemente para indicar que há Freud na Coisa, na Coisa que ele nomeou e
que é o inconsciente, e o termo “freudiana” não tem aí a função de um
predicado, não é uma coisa que a posteriori toma a propriedade de ser freudiana,
o certo é que por Freud tê-la enunciado é que ela é uma coisa, e, como eu sugeria
a alguém recentemente, falar do inconsciente como daquilo que antes de Freud
não existia não é uma maneira tão má de se expressar, por uma boa razão: é que,
afinal de contas, uma coisa só ex-siste, só começa a funcionar a partir do mo­
mento em que é realmente nomeada por alguém.
Então tento, na nossa experiência, reduzir esse nomeável porque, de
qualquer forma, podemos permitir-nos mascarar assim todo tipo de coisas com
nomes, isso sempre se fez a torto e a direito, e tento limitar-me a nomear só o
que chamo, junto com Freud, Urverdrangt, o que se resume, em suma, a nomear
o buraco. É partir da idéia do buraco, é dizer ao invés de fiat lux" : “fiat furo"[/j'af

(11) Latim; “Faça-se a luz”. Frase da Gênese, na qual o Criador estabelece a diferença
entre as trevas e a luz.Usada na metafísica, em referência ao surgimento do ser a partir do
nada (N.T.).
115

trou], e pensem que Freud, enunciando a idéia do inconsciente, não fez outra
coisa. Ele disse logo que havia algo que se faz buraco, que é ao redor disso que se
extende o inconsciente, e que esse inconsciente tem a propriedade de só ser, por
esse buraco, aspirado12, tão bem aspirado que não estamos acostumados a reter
dele nem uma pontinha, ele desaparece inteiro nesse buraco.
Falar da Coisa Freudiana como constituída essencialmente por esse buraco,
esse buraco que tem um lugar, um lugar no simbólico, é dizer algo que, pelo
menos — e posso provar isto —, pode se sustentar por um certo tempo; e como
esse tempo começa a alongar-se [faire une p a y e ], e durante esse tempo não
houve muitas contradições de peso, quero dizer que o que eu enunciava começa
a sustentar-se pelo fato de durar todo esse tempo.
Identifico esse buraco com a topologia; fiz alusão a isso no meu último
seminário. A topologia, acho que já o indiquei, pelo menos fiz sentir a alguns,
não se concebe sem esse nó que, como dizia a outro grupo, não é simplesmente
algo; seja qual for seu aspecto de nó, está no real, mas o interessante é que está
no mental; é a primeira vez que se vê algo que conjuga o mental com o real nesse
ponto; é que no mental isso faz nó também, é verdadeiramente impossível não
situar o nó no mental, e, ao mesmo tempo, perceber que o mental está aí
inadaptado, ou seja, que esse nó ele o pensa tão dificilmente, que não podemos
deixar de ver uma coisa que nos daria o que chamei, no meu último seminário,
algo como um pressentimento, se se pode dizer, do que poderia ser, afinal, o
buraco em questão.
Tudo isso, claro, é uma precipitação , por que não dizê-lo; depois de andar
sem meta, todos sabem que me vangloriei de ser dialético, e que usei o termo
antes de chegar a esse turbilhão, é o caso de perceber que qualquer um que fale
de dialética evoca sempre uma substância. A dialética é sempre predicativa,
produz antinomia, e não há predicado que não se sustente por si mesmo numa
substância; é muito, muito difícil dizer a substantivamente, sobretudo por nos
imaginarmos, cada um de nós, sendo uma substância. E muito difícil,
evidentemente, tirar-lhes isso da cabeça, pois tudo demonstra que vocês são, no
máximo, cada um, um pequeno buraco, um buraco, claro, complexo e agitado,
mas é verdadeiramente muito, muito difícil pensar-se como substância, a não ser
como substância que tem a propriedade de ser pensante, e aí se toma verdadeira­
mente desesperante pensar até que ponto seu pensamento é manifestamente
impotente. Parece que é mais sólido referir-se a outras categorias e perceber que,
por exemplo, pode-se enunciar sem dizer absurdos proposições como esta,
anunciá-las com alguma chance de chegar perto e que se existe o indecidível
(evoquei isto há pouco), é um indecidível que se sustenta só nisso: que o
amarremos [not/ons']; que existe o indecidível, mas que a idéia vem dessa
segurança que a matemática dá, precisamente, a de que não há um não-nó, se
posso dizer, pois é a única definição possível do real, e que apertar oá nós só

(12) Aspiré: como em português, pode ser entendido tanto como desejado, ambicionado,
quanto como inalado, absorvido (N.T.)
116

serviria para não escorregar indefinidamente, e é para isso que nos esforçamos
na análise. Pois o que é análise, no final das contas? É uma coisa que se
diferencia disso, é que nos permitimos uma espécie de irrupção do privado no
público. O privado evoca a muralha, os pequenos assuntos de cada um, que tem
um núcleo perfeitamente característico, o de tratar-se de assuntos sexuais. É esse
o núcleo do privado. E, de qualquer modo, engraçado que esse “público”, no
qual fazemos emergir o privado, tenha um laço completamente manifesto, para
os etimologistas, com publis 13, ou seja, o público é o que emerge do que é vergo­
nhoso, pois como distinguir o privado daquilo de que se tem vergonha?
E claro que a indecência de tudo isso, indecência do que se passa numa
análise, em virtude da castração — da qual a análise foi bem feita para evocar
sua dimensão a partir de Freud — , em virtude da castração, essa indecência
desaparece. Toda a questão é então esta: tirar da castração um gozo, será isso o
mais-de-gozar [plus-de-jouir]? Em todo caso, é tudo o que é permitido até agora,
a qualquer pessoa, se é que a palavra “pessoa” designa pessoa14. Designa uma
substância pensante, sem dúvida, mas o que tentamos, inclusive quando nossas
preocupações não são absolutamente substanciais, nem substantóforas15, o que
tentamos é fazer ingressar isso, essa noção de substância pensante, num real .
Então isso não é tão fácil, porque há um monte de coisas que nos fazem atolar.
Atolamos, por exemplo, na idéia de vida. E uma idéia assim, e é bastante curioso
que, apesar de tudo, Freud tenha promovido o Eros, mas não chegou a identificá-
lo totalmente com a idéia de vida, e distinguiu a vida do corpo e a vida levada
pelo corpo no germe.
A vida, se se pode dizer, apesar do uso que dela fez Freud, tem relação com
aquilo com o que não há nada a fazer, com o que passa por sua antinomia, com a
morte.
A morte, pensemos o que pensemos, é puramente imaginária. Se não
existisse o “corpo” [corps]16, se não houvesse cadáver, o que nos faria a ligação
entre a vida e a morte? Naturalmente essa idéia de cadáveres amarrados como se
fossem legumes, nds nos propomos enlaçar [nouer] isso , é esta a nossa ocupação
principal. Se não houvesse isso e não existissem estátuas, o lado delirante desses
seres chamados humanos para fabricar suas próprias estátuas, ou seja, coisas que
nada têm a ver com o corpo, mas que se parecem a ele. Temos que agradecer às
religiões que proibiram essa obscenidade; além do mais é horrível de se ver! O
que há de mais horrível de se ver do que um ser humano, pergunto! Um ser
humano, uma forma humana. É curioso que... enfim, é necessária a existência da
religião cham ada-católica para achar suas delícias. É evidente que ela tem

(13) Latim: público. Não foi possível encontar a ligação etimológica mencionada por
Lacan. Como hipótese, podemos referir-nos a verbos como pudet : corar, envergonha-se;
ou pudeo: ter ou causar vergonha (N.T.)
(14) Em francês, personne significa: pessoa e ninguém (N.T.).
(15) Neologismo no original francês: substantophores (N.T:)
(16) Corps: século XII: o corpo humano depois da morto. Entre aspas no original (N.T.).
117

alguma coisa a ganhar na transa; é patente, vê-se bem o mecanismo, ela aposta
no belo. Por outro lado, o que é toda essa história chata de Evangelho, é o caso
de dizê-lo, senão a exaltação do belo?; mostrarei isso uma outra vez.
Enfim, perinde ac cadaver17; isto quer dizer que a castração, que nós
mesmos chegamos a perceber que é um gozo, por que será um gozo? Vê-se muito
bem; é porque nos libera da angústia. Então, o que é a angústia?
É curioso que não se tenha pego o exemplo do pequeno Hans, de Freud. A
angústia está precisamente localizada num ponto de evolução desse verme
humano, é o momento em que um pequeno bom homem, ou uma futura boa mu­
lher percebe o quê? Percebe que está casado com o seu pau. Vocês me descul­
parão por chamar isto assim, é o que se chama geralmente pênis ou pinto, e que
aumenta de tamanho quando se percebe que não há nada melhor para fazer falo,
o que é evidentemente uma complicação, uma complicação ligada ao nó, à
existência do nó. Mas se há alguma coisa nas Cinco psicanálises feita para mos-
trar-nos a relação da angústia com a descoberta do peruzinho, chamemos isso
assim também, de qualquer maneira é claro, é concebível que para a menina,
como se diz, isso se extende mais e é por isto que é mais feliz; isso se extende
porque é preciso que ela leve um certo tempo para perceber que não tem
peruzinho; isso lhe produz uma angústia também, mas uma angústia por
referência àquele que está aflito; digo “aflito”, porque falei de casamento e tudo
o que permite escapar desse casamento é evidentemente bem-vindo, daí o êxito
da droga, por exemplo; não há nenhuma outra definição da droga que não seja
esta; o que permite romper o casamento com o peruzinho.
Enfim, deixemos isso de lado e vamos às coisas sérias, quer dizer, não seria
uma maneira ruim de enfrentar o que se chama a vida, a de considerá-la como
parasita? Dizer que ela é parasita da morte seria exagerado, seria fazer um laço
muito apertado no que acabo de dizer, ou seja, que não há a mínima relação, a
não ser esse assunto do corpo que se joga no buraco. E justamente isso que nos
diz o que é a vida, o parasita de algo que só se concebe como buraco, é inclusive
ao redor disso que o real se torna cíclico, e que se pode querer que seja nessa
“cabana” que a vida parasite. Daí tudo se desenrola. Não posso dizer que Freud
chegou até aí, mas ele disse bastante: que o germe é, ao fim das contas, um
parasita, é o que me parece surgir do Além do princípio do prazer. Evidente­
mente, não o disse claramente, mas teria feito menos escândalo do que o que eu
faço agora quando o digo. Mas isso teria também tornado as coisas mais leves,
isso lhe teria permitido chamar de outra maneira o princípio de realidade, que é
simplesmente um princípio de fantasma coletivo, dizia ontem à noite ao júri de
recepção [jury d ’accueil]-. “Quais são os seus critérios?” Perguntam-me pelo júri
de recepção, para nomear alguém A.M.E. Vou lhes dizer: é o que se chama bom

(17) Perinde ac cadaver: em latim no original. Expressão com que Santo Inácio de Loiola,
em suas Constituições, prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus
superiores. Literalmente: “como um cadáver” (N.T).
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senso, quer dizer, a coisa mais difundida no mundo. O bom senso é isso: “Nesse
aí, pode-se ter confiança”, nada mais. Não há nenhum outro critério. Há gente
que propomos para A.M.E., e se as pessoas que estão lá — e que foram
escolhidas incontestavelmente pelo voto, porque a gente confiou nelas sob o
aspecto do bom senso — não .garantem qualquer um, é um princípio de puro
fantasma, de fantasma coletivo, sem dúvida. E isso que quer dizer o princípio de
realidade? É absolutamente certo. A gente percebe, no uso, que todos os
pequenos fantasmas privados se juntam, se juntam em feixes, como dizia há
pouco, o que não é surprendente no que se refere à relação da coisa com a morte,
porque é a propósito dela que eu evoquei o bom senso sem entrar em detalhes,
os passos menos perigosos; é isso que se chama princípio de realidade, e que, na
medida em que se opõe ao princípio do prazer, opõe-se muito seriamente porque
o princípio do prazer não tem estritamente mais do que uma definição possível:
aquela do menor gozo, é o que isso quer dizer. Quanto menos se goza, mais isso
vale.
De maneira que isso nos leva a instalar um certo número de duplas para o
que d do real, do imaginário e do simbólico.
! 'i O real é, evidentemente para nós, no uso, antinômico ao sentido, aquilo
que se opõe ao sentido como o Zero se opõe ao Um. O real é estritamente o que
não tem sentido. Nossa interpretação é algo que não tem a ver com o real, salvo
na medida em que a dosamos. Nós a dosamos e a limitamos à redução do
sintoma. Há sintomas que não se reduzem, é absolutamente certo, e, entre
outros, a psicanálise. A psicanálise é um sintoma, um sintoma social, e é assim
que convem conotar sua existência. Se a psicanálise não é um sintoma, não vejo
porque ela tenha aparecido tão tarde. Aparece tarde na medida em que alguma
coisa tem que se conservar (sem dúvida porque está em perigo) de uma certa
relação com a substância, a substância do ser humano.
Então tentemos formular juntos alguma coisa que situe o imaginário em
relação a outra coisa.
O imaginário não tem outro suporte senão o fato de ter o corpo, e enquanto
esse corpo se»dosata do gozo fálico, o imaginário toma consistência. E muito
precisamente enquanto o gozo fálico passava por outro lugar, e é tema da
história notar como ele era escamoteado, é nessa medida que a idéia de mundo
nasceu. Está aí a oposição não de um “zero” e de um “um", mas a de um menos
e um mais. É na medida em que a castração opera onde há menos falo, que o
imaginário subsiste, todo mundo o sabe, já que é por isso que chamam pré-
genitais os estados que constituem o suporte mais habitual de todos os
comportamentos chamados humanos.
'TO-d E o simbólico, então? O simbólico é simples. Ao simbólico não há oposição,
.há o buraco, o buraco original. O simbólico não tem acompanhante a não ser por
um truque. É na medida em que não há Outro do Outro, quer dizer, que o ser e
sua negação são exatamente a mesma coisa, como todo mundo sabe, e os dia­
léticos dizem logo: o não-ser existe porque você fala dele, isso prova até que
ponto o não-ser é exatamente o equivalente, é a razão de que justamente a
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descoberta da análise seja a seguinte: se bem que o ser e o não-ser sejam a mesma
coisa, é necessário um buraco que mantenha o todo em conjunto, e em suma
tudo se resume nisto: só existe criação, cada vez que avançamos uma palavra,
fazemos surgir do nada, ex-n ihilo, uma coisa; é nossa maneira de ser humanos, e
é por isso que não trepamos, salvo alguma exceção, com uma mulher, mas com a
Coisa.
E as mulheres então, elas criam? Escutei há pouco, de alguém que muito
me agradou (não é para dizer que o que Michéle Montrelay dizia antes não me
tenha agradado também), mas há uma, chamada Anne Colot, que me fez
sublinhar que a mulher não estava completamente feita, e o que ela disse era
bastante pertinente. Ela não usou, felizmente, a palavra criatividade. Ela falou da
criação como algo que faz com que, no fundo, uma mulher saiba quem é o seu
bebê, o bebê é como a vida, é patente no ser humano que ele é um parasita, é
algo que começa a existir se você lhe dá justamente um nome; enquanto não tem
nome, o que é? Então a criatividade... Alguém me fez uma reportagem sobre a
criatividade da mulher. Devo dizer que não sou ardente [chaud], não ó necessá­
rio que uma mulher seja criativa para ser interessante, é suficiente que ela conte,
é isso que tem seu poso.
Então, resumamos-nos. Um sintoma, o que é? É algo que tem uma grande
relação (é o que se vê na prática) com o inconsciente. Então, do quo ou gostaria é
que a psicanálise, como já disse há pouco, continuasse o tempo necessário, nem
um minuto a mais, é claro, como sintoma, porque é, de qualquer maneira, um
sintoma tranqüilizante. [A plausos).

[A s essã o f o i su sp en so às 18:45 horas).