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A POLÍTICA CRIMINAL: FACES DA JUSTIÇA

Maria Nazareth Vasques Mota*1

RESUMO

No presente artigo, pretende-se demonstrar que a Política Criminal, em nosso País atua
de forma diferenciada, em função da possibilidade de consumo das pessoas alvo de tal
política, que esta não é discutida de forma democrática,mas influenciada pela mídia que
possibilita ser o movimento Lei e Ordem vencedor no que se refere ao agravamento de
penas, e ainda criação de tipos penais e que apesar da despenalização trazida pela Lei dos
Juizados Especiais, não avançamos no sentido da descriminalização de condutas ou ainda,
retirada das mesmas do âmbito penal. A política criminal coloca como alvo pessoas
vítimas da seletividade e vulnerabilidade do sistema penal que afinal reproduz um sistema
de desigualdade social pertinente a nossa história.

PALAVRAS-CHAVE: POLÍTICA CRIMINAL - SISTEMA PENAL -


DESIGUALDADE SOCIAL

ABSTRACT

The purpose of the present article is to demonstrate that the Criminal Politics, in our
country, works differently, according to the economical capacity of the people that are in
the aim of such politics. This is not discussed in a democratical way, but influenced by the
opportunity given by the media, which allows the Law and Order movement to be a
winner, regarding to the increase of penalties and to the creation of new types of crimes,
which even though has had a decrease of penalties brought on by Law n. 9.099/95, has not
progressed when relating to the decriminalization of behaviors and still, when removing

1
A autora é Advogada, Professora de Direito Penal e Criminologia, Especialista em Direito Público e
Privado, pela FGV, Especialista em Direito Penal e Processual Penal pela Universidade Federal do
Amazonas, Mestra em Ciências Penais pela Cândido Mendes do Rio de Janeiro e Doutoranda em Ciências
Sociais pela PUC/SP,cursa ainda a Especialização em Direito Educacional.
them from the criminal area. The aim of criminal politics, are the people who are victims
of selectivity and vulnerability of a criminal system which reproduces a system of social
inequality which continues to exist in our history.

KEYWORDS: CRIMINAL POLITICS - PENAL SYSTEM - SOCIAL INEQUALITY

INTRODUÇÃO

Uma das maiores contribuições da sociologia criminal foi, sem dúvida, permitir-nos a
compreensão de que assim como a criminalização é resultado de um pensamento
dominante em determinado momento e local, o criminoso é resultado de seletividade que
se impõe sobre um grupo de pessoas vulneráveis e que correspondem a um esteréotipo,
este o espelho do ser atávico lombrosiano. Desse modo, ao se analisar o pensamento que
preside a legislação criminal, em especial, a da década de 90, portanto em plena vigência,
não só observamos o cumprimento desta lógica mas esta vai além, sendo permeada por
um tratamento diferenciado entre consumidores e não consumidores, excluidos e os
outros.

Para os consumidores, uma lei que despenaliza, para os indivíduos “redundantes”2


outra que fere os princípios constitucionais da dignidade humana. Ao tratar do assunto,
optamos por trabalhar o conceito de Política Criminal e abordar as mais importantes Leis
que aplicadas justificam o que se afirma.

1. CONCEITO DE POLÍTICA CRIMINAL

Para tratar de política criminal deve-se ter em mente a forma como se punem
determinados delitos. Pode-se pensar nos delitos de trânsito, v.g., que recentemente
tiveram sua legislação alterada para aumentar as penas incluindo a possibilidade de perda

2
Bauman Zygmunt - O mal estar da pós modernidade – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1998. O autor ao
explicitar que cada ordem gera os seus próprios estranhos e do sonho de pureza, esclarece:”... Uma vez que o
critério de pureza é a aptidão de participar do jogo consumista, os deixados de fora como um ’ problema ´, como a
‘sujeira’ que precisa ser removida, são consumidores falhos – pessoas incapazes de responder aos atrativos do
mercado consumidor porque lhes faltam os recursos requeridos,pessoas incapazes de ser ‘indivíduos livres’
conforme o senso de ‘ liberdade’ definido em função do poder de escolha do consumidor. São eles os novos
‘impuros’ , que não se ajustam ao novo esquema de pureza. Encarados a partir da nova perspectiva do mercado
consumidor, eles são redundantes – verdadeiramente “objetos fora de lugar”. P.23
da habilitação para dirigir veículos, pelo cometimento de determinadas infrações para as
quais se atribuem pontuações. Ao tratar do conceito de política criminal, Zipf remete
exatamente à questão relativa a punição de uma infração para expressar o sentido prático
do conceito e conclui após várias considerações: Com ello, la Política criminal puede
definir-se brevemente como obtención y realización de criterios directivos en el âmbito de
la justicia criminal. Antes cita vários conceitos de estudiosos renomados do direito
criminal como: Política Criminal é a sabedoria legislativa do Estado. Feuerbach; É o
conjunto sistemático dos princípios fundados na investigação científica das causas do
delito. Von Liszt, entre outros. (Zipf, 1989, p.14).

Sob a ótica de Mireille Delmas Marty3, é o conjunto dos procedimentos através das
quais o corpo social organiza o fenômeno criminal.

Ao tratar de política criminal, Nilo Batista, (1998,1996), em dois trabalhos diferentes


remete-nos a conceitos que além de serem perfeitos são complementares. Se por um lado,
relaciona às mudanças sociais, propostas novas ou antigas de direito penal, verificação do
desempenho de instituições das quais derivam princípios e recomendações para mudança
do órgão e das legislações criminais reputando-os (princípios e recomendações) como
política criminal, por outro lado, inclui no conceito de Zipf, já enunciado, o que segue:

“(...) o desempenho concreto das agências públicas, policiais ou


judiciárias, que se encarregam da implementação cotidiana não só
dos critérios silenciados ou negados pelo discurso jurídico, porém
legitimados socialmente pela recorrência e acatamento de sua
aplicação”.
O exercício arbitrário do poder das agências pertencentes ao sistema penal não pode
continuar sendo descartado, como se simplesmente não existisse. A maneira de agir por
meio de várias condutas tão reiteradas que rotineiras como manutenção de prisões ilegais,
confissões forçadas por violência, desconhecimento de direitos fundamentais e humanos,
entre outras devem ser consideradas sim como parte da política criminal e não como,
práticas já integradas ao cotidiano do combate à criminalidade. Só desta forma é possível
passar de um contexto fantasioso para a realidade.

A política criminal está relacionada com a política social, isto é, seu desenvolvimento
conforma-se com o momento histórico (sócio/cultural/ econômico) em que se vive numa

3
Marty Mirelle Delmas. Modelos e movimentos de Política Criminal, Rio de Janeiro, Revan, 1992.
determinada época. Foi decisão do IV Congresso da ONU de 1970 que a política criminal
deveria estar integrada aos planos de desenvolvimento nacional e ser encarada como um
instrumento de mudança. Como conclusões do V Congresso da ONU foram estabelecidas
as seguintes medidas: (a) A justiça social constitui o melhor meio de combater a
criminalidade; (b) a política penal deve coordenar-se em seus múltiplos aspectos e
integrar-se na política social do país. 4

Viver num Estado democrático de direito, à primeira vista, pode dar a impressão de
que a política criminal em seu conteúdo mais amplo seja a melhor para a sociedade.
Evidentemente, não temos um parâmetro empírico que nos permita avaliar a aceitação
popular de tantas medidas repressivas que ferem direitos de cunho constitucional máxime
quando as mais agressivas são divulgadas e exercitadas em momentos de crimes graves,
amplamente noticiados. Neste contexto, as propostas de legislações para exacerbamento
de penas acabam sendo vistas como forma de contenção da criminalidade e, aliando-se a
isto, observa-se parecer existir um interesse em desviar a atenção da sociedade de outros
problemas, como desemprego, taxas de juros, inflação, pobreza, corrupção entre outros.

A política criminal deve ser orientada por determinadas linhas argumentativas, como
pensa Heinz Zipf, 5e estas devem partir da ótica do que se compreende como pessoa,
cujas definições nem sempre consideram-na inserida em determinada estrutura cultural e
social que deve respeitar o próximo e ter garantido o direito à vida e a integridade
corporal, não se admitindo tratamentos cruéis, humilhantes e nem penas desumanas. A
intervenção penal deve ser humana e pugna-se, na atualidade, por meios de punição mais
benignos embora se verifique grande lentidão para alcançá-los. Devendo ser ainda
considerado que o Direito Penal é subsidiário e fragmentário e por tal só devendo
intervir em questões como ultima ratio, o que significa que só pode ser merecedora de
pena a infração cujo bem jurídico necessite da proteção do direito penal, excluindo-se se
realizado por outros meios protetores. Por fim, deve haver racionalidade, praticabilidade e
efetividade na persecução penal, o que significa exigências de conformidade ética e
exeqüibilidade, sendo inócuo estabelecer medidas de difícil implementação. A efetividade
materializa-se em encontrar e alcançar resultados de forma simples e objetiva.

4
Albergaria, Janson ,1996.
5
Zipf Heinz, 1979.
H.H. Jescheck apud Jason Albergaria estabelece os seguintes princípios de política
criminal:6 a) princípio da culpabilidade, que significa atribuir uma pena em conformidade
com a culpa de maneira a proteger-se o infrator cuja censura relaciona-se com um
comportamento em desacordo com o direito, o princípio da proporcionalidade aplica-se ao
da culpabilidade; b) princípio do Estado de Direito, que abrange a legalidade e a
exclusividade do juiz. Delito é o que está descrito em lei e a pena deve ser aplicada pelo
Juiz, mas o preso tem direito a ser protegido em face do Estado Democrático de Direito e;
c) princípio da Humanidade determinando que o indivíduo não pode ser tratado de forma
a ter desrespeitada sua condição humana por tortura ou humilhações, bem como
desrespeito a sua integridade física.

1.1. ABRANGÊNCIA DA POLÍTICA CRIMINAL

A política criminal é parte da política social e esta é tratada de forma a que acreditemos
num Estado, que apesar de grandes dificuldades, procura atender aos seus cidadãos e, para
este fim, suas ações são voltadas a manutenção do status, ou seja, os ricos, permanecem
ricos e os pobres conformados, dando a impressão de que estão de alguma forma
alterando sua condição. Evidentemente, o comportamento do Estado não se mostra
explícito como colocado.

Integram a política criminal a criminologia e a dogmática penal. Em face da necessidade


de atendimento as suas diretrizes políticas, devem ser consideradas as agências que a
executam. A criminologia e a dogmática penal têm função independente, mas são
interdependentes e inseparáveis, e a política criminal não pode desconsiderá-las para sua
implementação. Da forma como forem integrados à política criminal, o direito penal e a
criminologia é que se delineará a imagem da justiça criminal. Ancel apud Zipf, se
expressa, como abaixo, sobre o assunto:

“(...) la criminología, que investiga el fenómeno criminal bajo


todos sus aspectos, el Derecho penal, que establece los preceptos
positivos con que la sociedad afronta este fenómeno criminal , y
finalmente la Política criminal , arte y ciencia al propio tiempo,
cuya función práctica es, en último término posibilitar la mejor

6
H.H. Jesscheck – Tratado de Derecho Penal.Barcelona:Bocsh,1981 apud Jason Albergaria – Das Penas
e da Execução Penal, Belo Horizonte:Del Rey, 1996.
estructura de estas regias legales positivas y dar las
correspondientes líneas de orientación, tanto al legislador que ha de
dictaría ley como al juez que ha de aplicaría, o a la Administración
ejecutiva que ha de transponer a la realidad el pronunciamiento
judicial. ”7

1.3. ELABORAÇÃO DAPOLÍTICA CRIMINAL

A política criminal deveria, primeiramente, fazer parte de um planejamento de atuação


que fosse delineado pari passu pela mobilização dos vários segmentos sociais, agencias de
controle, juristas etc. Poder-se-ia começar a partir da elaboração de um diagnóstico que
contemplasse o estudo da criminalidade em determinados locais e necessidades, não
para enfrentamento à criminalidade, mas de efetiva prevenção, que provavelmente poderá
se dar mais pelo envolvimento de outras disciplinas (saúde, sociais etc) do que
propriamente jurídica.

A política criminal, diferentemente de outras políticas não vem comportando


discussão democrática. A sociedade civil, ao discutir alguma questão relacionada à
criminalidade, não percebe o impacto provocado pela divulgação sensacionalista da mídia,
que impede um julgamento imparcial e opiniões isentas de manipulação.

É urgente estabelecer mudanças de conduta, no sentido de espargir a discussão sobre


política criminal, tais como: a) colocar a discussão na voz dos conhecedores do assunto,
isto é, juristas, criminalistas, operadores do direito e, b) ampliar a discussão, retirando-a
do fórum elitizados e incluindo a participação da sociedade.

Alberto M. Binder8, esposa pensamento, em consonância, com o acima evidenciado, in


verbis:

“Por lo tanto misión de denuncia será tanto develar el


funcionamiento del sistema penal., descubrir a los centros
productores de política criminal democratizar la discusión, llevarla
al seno mismo de la sociedad y de los grupos organizados. En
definitiva, la política criminal no es única sino que tiene un carácter
transaccional – como toda la política -; ella se nutre de pactos,
acuerdos, lucha por la hegemonía e imposiciones. Del resultado de
esa dinámica saldrá, en definitiva, la política criminal de un
Estado”.

7
Ancel, 1970, 5 apud Heinz Zipf, op. cit., 1979.
8
Binder, Alberto M. Política Criminal – de la formulacion a la práxis, Argentina: ad-hoc, 1997.p. 121
O mesmo jurista pugna que cada grupo formule sua proposta de política criminal, ou
seja, sindicatos, movimentos de base, organizações de bairro e populares, minorias etc.
Para ele, uma política criminal democrática pressupõe a participação de todos em sua
formulação. Observa que da maneira como ocorre, atualmente, ou seja, discutida na vida
acadêmica ou em congressos universitário, sem a participação da comunidade o se
convierter en un diálogo entre sordos, o se convierte en una ratificación colectiva de lo
que todos y cada uno ya conoce, pero sus efectos sociales son ínfimos. 9

A mídia, cada vez mais tem participação na política criminal e atua de forma eficaz na
elaboração deleis que representam contundente retrocesso, conforme se constata com a
edição da lei de crimes hediondos e, ainda, pela forma como a questão penitenciária vem
sendo tratada. Não há como convencer de que amontoar pessoas em um espaço onde não
cabem todas deitadas não seja tratamento humilhante e indigno.

Não há como não se indignar com penas elevadas, aplicadas sem atendimento aos
preceitos da política de execução como, possibilidade de trabalho, progressão de regime,
entre outros.

Alexandro Baratta, ao tratar da falência da prevenção penal constata que o sistema de


justiça criminal apresenta-se inadequado a despeito de sua função declarada. Para ele, a
pena como instrumento principal deste sistema é falível com respeito a prevenção da
criminalidade.10

A Lei de Crimes Hediondos não é só resultado de um momento específico, assentado


em determinado tipo de criminalidade. É muito mais. É resultado do método de
colonização colocado em prática e da evolução do processo de entronização das
desigualdades econômico-financeiras e sociais em nosso país.

Os criminosos alcançados por esta lei são os: (...) ontem escravos, hoje massas
marginais urbanas, só conhecem a cidadania pelo seu avesso, na ‘trincheira auto
defensiva’ da opressão dos organismos do nosso sistema penal. 11

9
Binder, op. Cit.
10
Alexandro Baratta – Os Novos Horizontes da Prevenção – A Falência da Prevenção Penal – mimeo.
11
Nilo Batista – Fragmentos de um Discurso Sedicioso apud Vera Malaguti Batista – Difíceis ganhos
Fáceis: Drogas e Juventude Pobre do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1998, p.48. A autora trata do
significado de cidadania negativa.
A constatação de que também os crimes hediondos praticados por estes homens, não
tratados como seres humanos nas penitenciárias onde cumprem penas sem direitos,
constitui resultado da seletividade que é anterior à prática dos mesmos atos. Seletividade
que lhes impede a educação e fomenta a ignorância.

Nilo Batista observa que são as pessoas sem acesso positivo à comunicação os agentes
dos atos mais grosseiros, atos que são divulgados como delitos e os que os praticam são
rotulados como delinqüentes.12

O cometimento de atos grosseiros e a fixação de uma imagem que corresponde ao


delinqüente resultam em sinergia retroalimentada pelo sistema que divulga um estereótipo
que também funciona como um modelo de redefinição para a suposta maioria não
13
criminal e, ainda, delimita a zona do bem e do mal. Aqueles que não se enquadram no
estereótipo pertencem a classe dos não criminosos. A sociedade se divide então entre
criminosos e não criminosos.

A Lei de Crimes Hediondos representa uma política criminal perversa e dissonante do


pensamento criminológico atual, pois que a partir da percepção da seletividade do sistema
penal, não se pode encarar a questão criminal como uma simples e pura determinação em
nível pessoal, a contrário senso, faz parte de um processo de controle social favorecedor
da política de exclusão dos mais pobres em favor de uma segurança fictícia necessária às
boas relações de caráter econômico.

Essa face da justiça inaugurada com a Lei de crimes hediondos guarda consonância
com o implemento da política econômica mundial, que, entre nós, serviu para aumentar as
desigualdades sociais. Os que não possuiam possibilidade de consumo mas que ao
mesmo tempo almejavam os padrões impostos pela “aldeia global” viram o Estado
ampliar a criminalização de condutas antes sem importância para o Direito Penal.

Mais grave, entretanto é que em nome da política econômica neoliberal o sistema


punitivo vai ajustando-se de forma a abandonar a idéia (pouco eficaz entre nós – em face

12
Batista, Nilo e Zaffaroni, Eugenio Raúl – Direito Penal Brasileiro I, Rio de Janeiro, Revan,2003.
13
Lola Aniyar de Castro – Publicidad del Delito e Inseguridad Ciudadana – capítulo criminológico n.14 –
ano 1986 – mimeo. A autora ensina que os estereótipos são elementos simbólicos facilmente manipuláveis
em sociedades complexas, funciona como bode expiatório e o estereótipo de delinqüente é de alguém: “
pertencente as classes subalternas, de condições afetivas e familiares precárias,agressivo,incapaz de
incorporar-se , com êxito,ao aparato produtivo”.
da forma como a execução penal ocorre) de “inclusão” para a de exclusão, no dizer de
Bauman “a preocupação do novo big brother é a exclusão – identificar as pessoas
“desajustadas” no lugar onde estão e baní-las de lá, deportá-las para o lugar “que é delas”,
ou melhor, jamais permitir que se aproximem.”14

Foi sob a linha retórica da impunidade e aumento da criminalidade que se votou à


maioria das leis que criaram e qualificaram tipos penais durante a década de 90 as quais
inclusive legitimaram a inclusão da delação premiada em leis, contrariando uma ética que
já fazia parte de nossa tradição jurídica, da não utilização de meios como este.15

Os meios de comunicação favoreceram a implementação do movimento, Law in Order,


que acabou gerando a supramencionada legislação , onde se pode incluir a alta tecnologia
implica potencialmente: uniformar critérios , de anular individualidades, de inducir
comportamientos, pudiera incidir en cada uno de los espacios de la vida cotidiana. Para,
Lola Aniyar de Castro, os meios de comunicação constroem as ideologias e em
conseqüência as atitudes e os valores. (Lola Aniyar de Castro, 1986).

Alberto Silva Franco apud Zaffaroni , referindo-se ao intervencionismo penal na década


de 90, manifestou-se como a seguir:

“(...) Há por toda parte, um intervencionismo penal cada vez mais


intenso e abrangente. Criam-se novos delitos, em especial , na área
socioeconômica e ambiental, e quase todos eles com a característica
de crimes de perigo abstrato. Amplia-se o conteúdo de tipos já
existentes. Alargam-se, sem nenhum critério idôneo e com total
desrespeito ao princípio da proporcionalidade, as margens
punitivas”.
E continua mais adiante :

“a intervenção penal não objetiva mais tutelar, com eficácia, os bens


jurídicos considerados essenciais para a convivencialidade, mas
apenas produzir um impacto tranqüilizador sobre o cidadão e sobre
a opinião pública, acalmando os sentimentos, individual ou coletivo,
de insegurança”. 16

14
Zigmund Bauman , vidas desperdiçadas, Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2005.

15
Entre as inúmeras Leis podemos citar: 9034/95; 9455/97; 8038/90;9296/96;9613/98.
16
Alberto Silva Franco , no prefácio da 1a. edição apud Zaffaroni;Pierangeli - Manual de Direito Penal
Brasileiro – Parte Geral , SP: RT, 1999.
Entretanto, nada foi mais agressivo que a edição da Lei n. 10.792/ 2003, que
estabeleceu o Regime Disciplinar Diferenciado, este prevê: isolamento celular, visita
semanal de 02 adultos, crianças podem, 02 horasdiárias de banho de sol, podendo ser
renovado por período igual. A mencionada Lei surgiu como resposta a rebeliões de presos
, estas sempre transmitidas ao vivo pelos noticiários da TV.

As construções de prisões de segurança máxima passam também a ser meta do Estado,


visando a contenção dos Comando de Crimes nas Penitenciárias. As medidas, do Estado
pretendem banir o que não conseguem resolver a criminalidade dentro e fora das
penitenciárias. São o reflexo da própria impossibilidade do Estado no controle do crime.

Já a Lei dos Juizados Especiais Criminais , outra face da Justiça, à primeira vista,
representa um avanço no sentido de que atende ao movimento de política criminal
alternativa já que redunda, na maioria das situações, em despenalização fundada no
cognominado espaço de consenso. A lei impede a prisão, motivo porque, resulta em
descarcerização. Foi considerada uma revolução em matéria penal no Brasil.

Entretanto é importante enfatizar que o Movimento de Política Criminal Alternativa


assim iniciado não contemplou a descriminalização ou desinstitucionalização de delitos
que na década de 90, se sabe, proliferaram. Não se vislumbrou qualquer possibilidade de
modificação real do sistema penal. Para Alexandro Baratta, o princípio cardeal do
modelo de uma política criminal alternativa não é a criminalização alternativa, “mas a
descriminalização , a mais rigorosa redução possível do sistema penal.”17

O fato é que a Lei dos Juizados Especiais Criminais, ao ser operacionalizada em torno
do espaço de consenso induz a aplicação das medidas despenalizadoras sem o
atendimento , na prática, de princípios inerentes ao Direito Penal e Processo Penal. Em
relação ao primeiro, descura-se do princípio da culpabilidade, uma vez que não comporta
na transação tal discussão. Quanto ao segundo, substitui-se a verdade material pelo
consenso. (Alberto Silva Franco apud Zaffaroni ; Pierangelli). Por mais que se tente
justificar a falta de atendimentos a principios por uma visão meramente legal, isto é a de
que este é o procedimento da Lei, não se pode olvidar que acresce a tal desatendimento

17
Baratta, Alexandro. Criminologia Crítica e Crítica ao Direito Penal – Introdução a Sociologia do
Direito Penal, Rio de Janeiro: Revan, 1997.
dos procedimentos geradores de segurança ao sistema, a forma inadequada como a Lei
vem sendo aplicada na maioria dos Estados.

A propagação de tipos penais observados na década de 90, em nosso país, caminha


contra o moderno pensamento criminológico do Direito Penal Mínimo e contrafaz a idéia
da intervenção penal somente nas situações em que não existam outros meios de solução
para condutas leves.

Em tal contexto, desenvolve-se uma política de negação ao princípio da


insignificância que atuando como instrumento de interpretação restritiva do tipo penal ,
com o significado sistemático e político criminal de expressão da regra constitucional do
nullum crimen sine lege , que nada mais faz do que revelar a natureza subsidiária e
fragmentária do direito penal, que deixa de ser aplicado em nosso direito.18

Relacionando-se com o princípio da intervenção mínima, estão as características da


fragmentariedade e subsidiariedade do Direito Penal, no sentido de que este deve limitar
19
sua atuação aos bens jurídicos relevantes. . Tratando do mesmo princípio, Nilo Batista
20
, doutrina que:

“(...) A subsidiariedade do direito penal , que pressupõe sua


fragmentariedade, deriva de sua consideração como ‘remédio
sancionador extremo’, que deve portanto ser ministrado apenas
quando qualquer outro se revele ineficiente ; sua intervenção se dá
“unicamente quando fracassam as demais barreiras protetoras do
bem jurídico predispostas por outros ramos do direito”.

A eleição pelo legislador constituinte da expressão infrações de menor potencial


ofensivo (art. 98 –I, da Constituição da República), que prevê a criação dos juizados
especiais e resultou na Lei n. 9.099/95, dos Juizados Especiais Criminais, para Vico
Manãs21 revelou-se extremamente infeliz, pois ao considerar a infração de menor

18
(Vico Mañas, 1994).
19
Idem,p.57
20
Nilo Batista, 1996
21
Manãs, Carlos Vico.O princípio da insignificância como excludente da tipicidade no direito penal , São
Paulo:Saraiva,1994.
potencial ofensivo, coloca-a fora do objeto do direito penal, em face do princípio da
intervenção mínima e características de fragmentariedade e subsidiariedade.

Dessa forma, a legislação não contemplou nem, a descriminalização e, nem a


desinstitucionalização. Permanecemos com um sistema penal em que a cada dia mais
tipos penais refletem as mais variadas condutas.

A Lei 10.259/2001 instituiu os Juizados Especiais Civeis e Criminais no âmbito da


Justiça Federal, aumentando no parágrafo único do art. 2º. a pena máxima de dois anos
aos crimes da categoria “menor potencial ofensivo”.

CONCLUSÃO

O grande vencedor da década de 90 foi o movimento Law in Order, apropriado para


administrar a pobreza oriunda da diminuição pelo Estado dos recursos empregados em
programas sociais, fórmula utilizada não só para países de terceiro mundo.

Nos Estados Unidos da América do Norte, em duas décadas, quadriplicou-se o número


de pessoas presas, fato ocorrido pela previsão de encarceramento que atinge os
delinqüentes sejam violentos ou não. Segundo Loïc Wacquanti, o aumento do índice de
encarceramento, nos Estado Unidos, não se deveu a mudança na criminalidade , mas sim
:

“a atitude dos poderes públicos em relação às classes pobres


consideradas como seu principal foco.Classes junto às quais o
Estado Penal se encarrega de reafirmar os imperativos cívicos do
trabalho e da moralidade com força crescente na proporção em que
a precarização do emprego e a contração das políticas sociais os
colocam em situação ainda pior”.22
A legislação , em especial, as Lei de Crimes Hediondos e a dos Juizados Especiais
Criminais, produzidas na década de 90, estabeleceram políticas distintas para o pequeno
infrator e o perigoso e, tal fato relaciona-se com a política econômica desenvolvida a
partir de 1990, no Brasil, ou seja, o neoliberalismo, que provocou o incremento da
exclusão.

22
Loïc Wacquanti – Punir os Pobres – A Nova Gestão da Miséria nos Estados Unidos; , Rio de Janeiro:
Freitas Bastos, ICCrim, 2001.
Consoante Nilo Batista,23 a distinção no tratamento de infratores é herança da milenar
tradição ibérica expressada pela matriz da diferenciação penal e, na prática, resulta no
tratamento desigual dado ao bom delinqüente e ao infrator perigoso. As respostas, para
eles, não são iguais. O primeiro é preservado, o segundo deve ser preso e lá permanecer
pelo maior tempo possível.

A política criminal que gera tratamentos tão diferenciados é para Nilo Batista uma só
política criminal e seu caráter binário deriva da mesma orientação, mesmos princípios.
Indo além, leciona como a seguir:

“Uma das características dos novos sistemas penais do


empreendimento neoliberal consiste numa radical transformação
nas finalidades da privação da liberdade, que passam daquilo que
Zaffaroni chamou de “ideologias re” ( reinserção social,recuperação
laborativa, redisciplinamento etc) a uma assumida técnica de
neutralização do condenado. Zygmunt Bauman, chocado por
entusiástica reportagem do Los Angeles Times sobre a prisão de
Pelican Bay , na Califórnia, afirma que “nas atuais circunstâncias, o
confinamento é antes uma alternativa ao emprego, uma maneira de
neutralizar uma parcela considerável da população que não é
necessária à produção e para a qual não há trabalho ao qual se
integrar. O que os internos de Pelican Bay fazem em suas celas
solitárias não importa. O que importa é que fiquem ali”.24

Entre nós, a política criminal neoliberal, como já visto, reservou para o infrator
perigoso a Lei de Crimes Hediondos que busca exclui-lo definitivamente do convívio
social, retirando qualquer chance de ressocialização, colocando-o em permanente risco de
vida em face das rebeliões sangrentas, que ocorrem no interior da penitenciária. Lola
Aniyar de Castro proclama sobre os excluídos da possibilidade de consumir, o que se
transcreve a seguir:

“(...) e toda a vida está organizada em função do consumo porque é


do interesse da classe economicamente poderosa e dominante, que
os indivíduos na tenham outro objetivo vital que o de consumir,
pois isto lhe produz riquezas. Nesta espécie de círculo vicioso
criam-se necessidades vitais e impele-se o homem cada vez mais,
entrar dentro da mecânica produção consumo. As pessoas que não
são aptas a produzir nesta sociedade, estão marginalizadas não

23
Batista, Nilo, 2000
24
Nilo Batista - Prezada Senhora Viegas – O Anteprojeto de Reforma no Sistema de Penas, 2001.
interessam a ninguém. Os inválidos, os jovens, as pessoas com
problemas mentais , os cegos, os anciãos, os delinqüentes, os
ociosos, não interessam a sociedade de consumo , porque são
improdutivos. Por esta razão é que são excluídos, os abandonados,
os relegados a estas zonas de depósitos que são os asilos, os
cárceres e as escolas porque não entram no terreno competitivo ao
menos que sejam significativos como sujeitos de consumo. A
sociedade capitalista é, pois, podemos dizê-lo, uma sociedade
altamente negativa, egoísta e criminosa por natureza”.25

Para o bom delinqüente, estabeleceu-se a Lei dos Juizados Especiais Criminais, que
impede sua prisão, já que , se não compõe o dano, recebe uma prestação alternativa que
pode ser inclusive, o pagamento de cestas básicas à instituição de caridade. Ou, quem
sabe, recebe uma pena de prestação de serviços à comunidade? Com a promessa da
extinção de punibilidade, o infrator vai para casa com a impressão de que vive numa
sociedade justa e senta-se em frente à televisão, instrumento que nem suspeita ser seu
controle e a sua consciência. Observa Nilo Batista que:

“Temos, todos, dentro de nossas casas, a janelinha pela qual nos


fita, extasia e controla, o olho do poder. Chama-se televisão, e este é
o novo nome do Panótico. E algumas pessoas se admiram pelo fato
de existirem, nas casas dos pobres brasileiros , mais televisões que
geladeiras. Poderia ser diferente ?”26

Finalmente, a nossa história desde o colonialismo caminhou neste sentido,isto é, de


uma legislação que pudesse contemplar diferentes faces, estas em concordância com o
indivíduo a que se aplica.

REFERÊNCIAS DAS FONTES CITADAS

ALBERGARIA, Jason. Das penas e da Execução Penal, Belo Horizonte: Del Rey, 1996.
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