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Leão XIII

Encíclicas

CARTA ENCÍCLICA

DIUTURNI TEMPORIS
DE SUA SANTIDADE
LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA

Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.

Proteção de Maria sobre o Pontificado de Leão XIII

1. Quando refletimos sobre o longo período de tempo que, por vontade de Deus, temos passado na
suprema dignidade do Pontificado, não podemos deixar de reconhecer havermos experimentado de modo
o mais tangível a singular assistência da Providência Divina. Na verdade, pensamos deva isto
principalmente atribuir-se às orações unânimes, e, por isto mesmo, eficacíssimas, que agora toda a Igreja
incessantemente eleva a Deus por Nós, como outrora por Pedro. Por isto, antes de tudo agradecemos do
mais profundo do coração ao Senhor, dispensados de todos os bens.

E, enquanto tivermos vida, a Nossa alma conservará uma fiel recordação de cada singular benefício d'Ele
recebido. Mas logo depois o Nosso pensamento suavemente se volve para a maternal proteção da augusta
Rainha do Céu; e esta piedosa lembrança viverá indelével no Nosso coração, para nos mover a magnificar
os benefícios de Maria e a nutrir para com ela a mais sentida gratidão. Dela, com efeito, como de um canal
repleto, desce a onda das graças celestes: "nas suas mãos se acham os tesouros das divinas misericórdias"
(S. João Damasceno, Sermo I de Nativitate) "É vontade de Deus que ela seja o princípio de todos os bens"
(S. Ireneu, Contra Valent. 1, III, c. 33). E Nós firmemente esperamos poder encerrar a Nossa vida terrena
no amor desta terníssima Mãe: amor que com todas as Nossas forças sempre nos esforçamos por cultivar e
estender sempre mais.

A Obra do Pontífice para a devoção ao Rosário

2. Já de há tempo Nós, movido pelo desejo de colocar na tão aumentada devoção para com a Virgem,
como numa rocha inexpugnável, a salvação da humanidade, nunca cessamos de promover entre os fiéis a
piedosa prática do "santo Rosário". Para este fim, já desde o primeiro dia de Setembro do ano de 1883,
publicamos uma Carta Encíclica, e, como todos vós bem sabeis, em seguida temos promulgado sobre este
assunto vários outros decretos. E, já que os desígnios da divina misericórdia nos concedem ver, ainda este
ano, a aproximação do mês de Outubro, já reiteradamente por Nós dedicado e consagrado à celeste
Rainha do Rosário, não queremos deixar de renovar-vos a Nossa exortação. Portanto, a fim ,de que sejam
brevemente resumidos todos os esforços por Nós até agora feitos para o incremento desta singular forma
de oração, entendemos de coroar a Nossa obra com um último documento que quer demonstrar, com
evidência ainda maior, o Nosso zelo e a Nossa solicitude por esta louvabilíssima manifestação de piedade
mariana, e ao mesmo tempo estimular o ardor dos fiéis a conservar piedosamente na sua integridade a
bela prática do santo Rosário.
Resumo dos documentos pontifícios sobre o Santo Rosário

3. Portanto, impelido pelo constante desejo de manifestar ao povo cristão o poder e a grandeza do Rosário
mariano, Nós recordamos antes de tudo a origem, mais celeste que humana, desta oração. E, para este
fim, pusemos em evidência que esta maravilhosa coroa é um enredo de saudações angélicas, intercaladas
pela oração dominical, unidas pela meditação. Assim composto, o Rosário constitui a mais excelente forma
de oração, e o meio mais eficaz para alcançar a vida eterna, visto como, além da excelência das suas
orações, ele nos oferece uma sólida defesa da nossa fé e um sublime modelo de virtude, nos mistérios
propostos à nossa contemplação. Além disto demonstramos que o Rosário é uma prática fácil e adaptada à
índole do povo, a qual apresenta, outrossim, na recordação da Família de Nazaré, o ideal mais perfeito da
vida doméstica. Por tais motivos os fiéis sempre lhe experimentaram o salutar poder.

O Mês de Outubro e a Festa do Rosário

4. Depois de havermos inculcado, especialmente com estas razões e com os Nossos reiterados apelos, a
prática do santo Rosário, Nós, seguindo o exemplo dos Nossos Predecessores, demo-nos, além disso,
pressa de juntar a importância e a solenidade do seu culto. Dos Nossos Predecessores, Sixto V, de feliz
memória, aprovou o antigo costume de recitar o Rosário; Gregório XIII instituiu a festa do Rosário;
Clemente VIII introduziu-a no Martirológio; Clemente XI estendeu-a a toda a Igreja; e Benedito XIII
inseriu-a depois no Breviário Romano. Assim Nós, em perene testemunho do Nosso apreço por esta forma
de piedade, além de havermos decretado que dita festa e o seu Oficio sejam celebrados em toda a Igreja,
com rito duplo de segunda classe, também quisemos que o mês de Outubro inteiro fosse consagrado a
esta devoção. Enfim, prescrevemos que nas Ladainhas Lauretanas se acrescentasse a invocação: "Rainha
do sacratíssimo Rosário", como augúrio de vitória na presente luta.

Indulgências anexas à recitação do Santo Rosário

5. Depois disto, não restava senão fazer conhecer aos fiéis o imenso valor e as grandíssimas vantagens
ligadas ao Rosário mariano, pelos numerosos privilégios e direitos com que ele foi enriquecido, e sobretudo
pelo tesouro de Indulgências de que goza. E certamente não é difícil compreender o quanto estas
vantagens devam ser estimadas por aqueles que pensam seriamente na sua eterna salvação. Com efeito,
aqui se trata de obter, total ou parcialmente, a remissão da pena temporal a pagar nesta ou na outra vida,
mesmo depois de haver sido cancelada a culpa. Tesouro este, sem dúvida, preciosíssimo, porque
constituído pelos méritos de Cristo, aos quais se juntaram os da Mãe de Deus e dos Santos. A tal tesouro,
o Nosso Predecessor Clemente VI com razão referia aquelas palavras da Sabedoria: "Inexaurível tesouro é
ela para os homens: aqueles que dela fazem uso proporcionam-se amizade junto a Deus" (Sab. 7, 14). Já
os Romanos Pontífices, por força do seu supremo poder recebido de Deus, abriram largamente os
mananciais de tais graças aos membros das Confrarias do Santo Rosário, e àqueles que rezam o Rosário
com devoção.

Anúncio de uma constituição sobre as confrarias do Rosário

6. Também Nós, portanto, persuadidos de que estas graças e estas Indulgências, como outras tantas
fúlgidas jóias bem dispostas, aumentam o esplendor da Coroa de Maria, após madura reflexão decidimos
promulgar uma "Constituição" sobre os direitos, privilégios, Indulgências, reservados às Confrarias do
Rosário. Seja essa "Constituição" considerada um público testemunho do Nosso amor à augusta Mãe de
Deus e, ao mesmo tempo, um estímulo e um prêmio à piedade dos fiéis, a fim de que, na hora extrema tia
sua vida, possam ser confortados pelo seu auxílio, e suavemente adormecer sobre o seu seio.

7. É esta a graça que rogamos a Deus, pela intercessão da Rainha do sacratíssimo Rosário. E,
entrementes, como penhor e auspício dos favores celestes, concedemos a vós, Veneráveis Irmãos, ao
vosso clero e ao vosso povo a Bênção Apostólica.

Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 5 de Setembro de 1898, vigésimo primeiro ano do Nosso Pontificado.
LEÃO PP. XIII.

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_05091898_diuturni-
temporis.html

CARTA ENCÍCLICA
AUGUSTISSIMAE VIRGINIS MARIAE
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA

Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.

Exortação à devoção para com Maria

1. Quem quer que considere o grau sublime de dignidade e de glória a que Deus elevou a augustíssima
Virgem Maria, facilmente pode compreender que vantagem traz à vida pública e privada o contínuo
desenvolvimento e a sempre mais ardente difusão do seu culto. De fato, Deus escolheu-a desde a
eternidade para vir a ser Mãe do Verbo, que se encarnaria; e, por este motivo, entre todas as criaturas
mais belas na ordem da natureza, da graça e da glória, Ele a distinguiu com privilégios tais, que a Igreja
com razão aplica a ela aquelas palavras: "Saí da boca do Altíssimo, primogênita antes de toda criatura"
(Ecli. 24, 5). Quando, pois, se iniciou o curso dos séculos, aos progenitores do gênero humano, caídos na
culpa, e aos seus descendentes, contaminados pela mesma mancha, ela foi dada como penhor da futura
reconciliação e da salvação.

2. Depois, o Filho de Deus, por sua vez, fez sua santíssima Mãe objeto de evidentes demonstrações de
honra. De feito, durante a sua vida privada, Ele escolheu-a como sua cooperadora nos dois primeiros
milagres por Ele operados. O primeiro foi um milagre de graça, e teve lugar quando, à saudação de Maria,
a criança exultou no seio de Isabel; o segundo foi um milagre na ordem da natureza; e teve lugar quando,
nas bodas de Caná, Cristo transformou a água em vinho. Chegado, depois, ao termo da sua vida pública,
quando estava em via de estabelecer e selar com o seu sangue divino o Novo Testamento, Ele confiou-a
ao seu Apóstolo predileto, com aquelas suavíssimas palavras: "Eis aí tua mãe!" (Jo. 19, 27).

Portanto, Nós, que, embora indignamente, representamos na terra Jesus Cristo, Filho de Deus, enquanto
tivermos vida nunca cessaremos de promover a glória dela. E, como sentimos que, pelo peso grande dos
anos, a Nossa vida não poderá durar ainda muito, não podemos deixar de repetir a todos os Nossos filhos
e a cada um deles em particular as últimas palavras que Cristo nos deixou como testamento, enquanto
pendia da cruz: "Eis aí tua Mãe!". Oh! como nos consideraríamos felizes se as Nossas recomendações
chegassem a fazer com que cada fiel não tivesse na terra nada mais importante ou mais caro do que a
devoção a Nossa Senhora, e pudesse aplicar a si mesmo as palavras que João escreveu de si: "O discípulo
tomou-a consigo" (Jo. 19, 27).

3. Ora, ao aproximar-se o mês de Outubro, não queremos que, nem também este ano, Veneráveis Irmãos,
vos falte uma Nossa Carta, para, com o ardor de que somos capazes, recomendar de novo a todos os
católicos quererem ganhar para si mesmos e para Igreja, tão trabalhada, a proteção da Virgem, com a
recitação do Rosário. Prática esta que, no descambar deste século, por divina disposição se tem
maravilhosamente afirmado, para despertar a esmorecida piedade dos fiéis; como claramente atestam
notáveis templos e célebres santuários dedicados à Mãe de Deus.

4. Depois de havermos dedicado a esta divina Mãe o mês de Maio com o dom das nossas flores,
consagremos-lhe também, com afeto de singular piedade, o mês de Outubro, que é mês dos frutos. De
feito, parece justo dedicar estes dois meses do ano àquela que disse de si: "As minhas flores tornaram-se
frutos de glória e de riqueza" (Ecli. 24, 23).

A Confraria do Rosário

5. O espírito de associação, fundado na própria índole da natureza humana, talvez nunca tenha sido tão
vivo e universal como agora. E certamente ninguém condenaria isto; se muitas vezes essa naturabilíssima
tendência natural não fosse orientada para o mal: isto é, se os ímpios, movidos por um mesmo intento,
não se reunissem em sociedades de vário gênero, "contra o Senhor e o seu Messias" (Salmo 2, 2).

Por outro lado, entretanto, pode-se discernir, e certamente com grandíssima alegria, que, também entre os
católicos cresce o amor às associações pias: associações bem compactas, que se tornam como que
famílias, nas quais os membros estão de tal forma ligados entre si pelo vínculo da caridade cristã, a ponto
de parecerem, antes, de serem verdadeiramente irmãos.

E, de feito, se se elimina a caridade de Cristo, não pode haver fraternidade, como já energicamente
demonstrava Tertuliano, dizendo: "Somos vossos irmãos por direito de natureza, natureza que é mãe
comum, se bem que sejais muito pouco homens, por serdes maus irmãos. Mas quão melhor convém o
nome e a dignidade de irmãos àqueles que reconhecem por seu pai comum Deus, àqueles que se
imbuíram do mesmo espírito de santidade, e que, embora nascidos do mesmo seio da comum ignorância,
depois se nutriram da mesma luz de verdade!" (Tertuliano, Apolog. c. 39).

A forma destas utilíssimas sociedades, constituídas entre os católicos, é a mais variada: círculos, caixas
rurais, recreatórios festivos, patronatos para a proteção da juventude, irmandades, e muitíssimos outros,
todos instituídos com nobilíssimos intentos. Certamente, todas estas associações têm nomes, formas e fins
próprios e imediatos modernos, mas são antiquíssimas na substância, pois se lhes podem distinguir os
vestígios desde os inícios do cristianismo. Mais tarde foram reforçadas com leis, distinguidas com divisas
próprias, enriquecidas de privilégios, ordenadas ao culto divino nas igrejas, ou então destinadas ao bem
das almas e ao alívio dos corpos, e designadas com nomes diversos, segundo os tempos. E, com o correr
do tempo, o seu número aumentou tanto, que, sobretudo na Itália, não há cidade, aldeia ou paróquia que
não as tenhas muitas, ou ao menos uma.

6. Ora, entre essas associações não hesitamos em dar um lugar eminente à confraria que toma o nome do
santo Rosário. Com efeito, se se considerar a sua origem, ela figura entre as mais antigas; porquanto é
fama que a haja fundado o próprio Patriarca S. Domingos; depois, se se lhe considerarem os privilégios,
ela é riquíssima deles pela munificência dos Nossos Predecessores. Por último, forma e como que alma
dessa instituição é o Rosário mariano, cuja eficácia já havemos, em outras circunstâncias, longamente
tratado.

Eficácia do Rosário recitado em comum

7. Mas a eficácia e o valor do Rosário aparecem ainda maiores se o considerarmos como um dever imposto
à confraria que dele tira o nome. Na verdade, ninguém ignora o quanto é necessária para todos a oração,
não porque com ela se possam modificar os divinos decretos, mas porque, como diz S. Gregório: "Os
homens, com a oração, merecem receber aquilo que Deus onipotente desde a eternidade decidiu dar-lhes"
(Diálogorum Libros 1, c. 8). E S. Agostinho acrescenta: "Quem sabe bem rezar, sabe também viver bem"
(In Psalmos 118).

E a oração justamente alcança a sua eficácia máxima em impetrar o auxílio do Céu, quando é elevada
publicamente, com perseverança e concórdia, por muitos fiéis que formem um só coro de suplicantes. Isto
resulta evidente dos Atos dos Apóstolos, onde se diz que os discípulos de Cristo, à espera do Espírito Santo
prometido, "perseveravam unânimes na oração" (At. 1,14).
Os que oram deste modo certissimamente obterão sempre o fruto da sua oração. E isto justamente se
verifica entre os confrades do santo Rosário. Com efeito, assim como a oração do Ofício divino feita pelos
sacerdotes é uma oração pública e contínua, e por isto eficacíssima; assim também, em certo sentido, é
pública, contínua e comum a oração dos confrades do Rosário: definido este, em razão disto, por alguns
Pontífices Romanos, "O Breviário da Virgem".

8. Depois, conforme já dissemos, como as orações públicas têm uma excelência e uma eficácia maiores do
que as privadas, por isto a Confraria do Rosário também foi chamada pelos escritores eclesiásticos "milícia
orante, alistada pelo Patriarca Domingos, sob as insígnias da divina Mãe"; isto é, daquela que a Sagrada
Escritura e os fastos da Igreja saúdam como vencedora do demônio e de todas as heresias. E isto porque o
Rosário mariano liga com um vínculo comum todos aqueles que podem associar-se a ela, fazendo-os, como
que irmãos e co-milicianos.

E assim eles formam uma fortíssima falange, inteiramente armada e pronta a repelir os assaltos dos
inimigos, quer internos, quer externos. Por isto, os membros desta pia associação podem com razão aplicar
a si mesmos aquelas palavras de S. Cipriano: "Nós temos uma oração pública e comum, e, quando oramos,
não oramos por um simples indivíduo, mas pelo povo todo, porque, quantos somos, formamos uma coisa
só" (S. Cipriano, De Oratione Dominica).

9. Aliás, a história da Igreja atesta a força e a eficácia destas orações, recordando-nos a derrota das
forças turcas na batalha naval de Lepanto, e as esplêndidas vitórias alcançadas no século passado sobre os
mesmos Turcos em Temesvar, na Hungria, e perto da ilha de Corfu. Do primeiro fato permanece como
monumento perene a festa de Nossa Senhora das Vitórias, instituída por Gregório XIII, e depois
consagrada e estendida à Igreja universal por Clemente XI, sob o nome de festa do Rosário.

Justificação do Rosário

10. Pelo fato, pois, de estar esta milícia orante "alistada sob a bandeira da divina Mãe", ela adquire uma
nova força e se ilustra de nova alegria, como sobretudo demonstra, na recitação do Rosário, a freqüente
repetição da saudação angélica depois da oração dominical. Esta prática, longe de ser incompatível com a
dignidade de Deus ― como se insinuasse que nós devemos confiar mais em Maria Santíssima do que no
próprio Deus ― tem, ao contrário, uma particularíssima eficácia para O comover e no-lo tornar propício. De
feito, a fé católica nos ensina que nós devemos orar não só a Deus, mas também aos Santos (Concilum
Tridentinum Sessio 25), embora de maneira diferente: a Deus, como fonte de todos os bens; aos Santos,
como intercessores.

"De dois modos pode-se dirigir a alguém um pedido, diz S. Tomás: com a convicção de que ele possa
atendê-lo ou com a persuasão de que ele possa impetrar aquilo que se pede. Do primeiro modo só oramos
a Deus, porque todas as nossas preces devem ser dirigidas à consecução da graça e da glória, que só Deus
pode dar, como é dito no Salmo 83, 12: "A graça e a glória dá-a o Senhor". Da segunda maneira
apresentamos o mesmo pedido aos santos Anjos e aos homens; não para que, por meio deles, Deus venha
a conhecer os nossos pedidos, mas para que, pela intercessão deles e pelos seus méritos, as nossas preces
sejam atendidas.

E por isto, no capítulo VIII, 4 do Apocalipse se diz que o fumo dos aromas, pelas orações dos Santos, subiu
da mão do Anjo à presença de Deus" (S. Thomas de Aquino, II-II q. 83, a. 4). Ora, entre todos os Santos
que habitam as mansões bem-aventuradas, quem poderá competir com a augusta Mãe de Deus em
impetrar a graça? Quem poderá com maior clareza ver no Verbo eterno de Deus as nossas angústias e as
nossas necessidades? A quem foi concedido maior poder em comover a Deus? Quem como ela tem
entranhas de maternal piedade? É este precisamente o motivo pelo qual nós não oramos aos Santos do
Céu do mesmo modo como oramos a Deus; "porquanto à SS. Trindade pedimos que tenha piedade de nós,
ao passo que a todos os outros Santos pedimos que roguem por nós" (S. Th., II-II q. 83, a. 4).

Em vez disto, a oração que dirigimos a Maria tem algo de comum com o culto que se presta a Deus; tanto
que a Igreja a invoca com esta expressão, que se costuma endereçar a Deus: "Tem piedade dos
pecadores". Portanto, os confrades do santo Rosário fazem muito bem em entrelaçar tantas saudações e
tantas preces a Maria, como outras tantas coroas de rosas. De feito, diante de Deus Maria é "tão grande e
vale tanto que, a quem quer graças e a ela não recorre, o seu desejo quer voar sem asas".

Os confrades do Rosário imitam os anjos

11. À confraria de que estamos falando cabe, depois, outro título de louvor, que não queremos passar em
silêncio. Cada vez que na recitação do Rosário mariano consideramos os mistérios da nossa salvação, de
certo modo imitamos e emulamos os ofícios outrora confiados à milícia angélica. Foram eles, os anjos, que
nos tempos estabelecidos revelaram estes mistérios, nos quais tiveram grande parte e intervieram
infatigavelmente, compondo o seu semblante ora segundo a alegria, ora segundo a dor, ora segundo a
exaltação da glória triunfal.

Gabriel é enviado à Virgem para lhe anunciar a Encarnação do Verbo eterno. Na gruta de Belém os Anjos
acompanham com os seus cantos a glória do Salvador, há pouco vindo à luz. Um Anjo adverte José a fugir
e a dirigir-se para o Egito com o Menino. Enquanto Jesus no Horto sua sangue por causa da sua tristeza,
um Anjo com a sua palavra compassiva, conforta-o.

Quando Jesus, triunfando sobre a morte, se levanta do sepulcro, Anjos noticiam isso às piedosas mulheres.
Anjos anunciam que Ele subiu ao Céu, e prenunciam que de lá Ele voltará entre as falanges angélicas, para
unir a elas as almas dos eleitos, e conduzi-las consigo para entre os coros celestes, acima dos quais "foi
exaltada a santa Mãe de Deus".

Por isto, de modo especial aos associados que praticam a devoção do Rosário se adaptam às palavras que
S. Paulo dirigia aos novos discípulos de Cristo: "Chegastes ao monte de Sião e à cidade do Deus vivo, à
Jerusalém celeste e às miríades de Anjos" (Heb 12, 22). Que pode haver de mais excelente e de mais
suave do que contemplar a Deus e rogá-lo juntamente com os Anjos? Como devem nutrir uma grande
esperança e uma grande confiança de gozarem um dia no Céu a beatíssima companhia dos Anjos aqueles
que na terra, de certo modo, compartilharam o ministério deles!

Auspícios par a difusão da confraria

12. Por tais motivos, os Pontífices Romanos sempre exaltaram com grandíssimos louvores esta confraria
dedicada a Maria. Entre outros, Inocêncio VIII define-a uma "devotíssima confraria" (Inocêncio VIII,
Constitutio "Splendor Paternae Gloriae", 26 de fev. 1491). Pio V atribui à influência dela os seguintes
resultados: "Os fiéis transformaram-se rapidamente em outros homens; as trevas da heresia se dissipam; e
a luz da fé católica manifesta-se" (S. Pio V, Constitutio "Consueverunt RR. PP.", 17 set. 1569). Sisto V,
observando o quanto esta instituição tem sido fecunda de frutos para a religião, professa-se devotíssimo
dela; muitos outros, enfim, enriqueceram-na de preciosas e abundantíssimas indulgências, ou colocaram-
na sob a sua particular proteção, inscrevendo-se nesta, e manifestando-lhe por diversos modos a sua
benevolência.

13. Movidos por estes exemplos dos Nossos Predecessores, Nós também, ó Veneráveis Irmãos, vivamente
vos exortamos e vos conjuramos ― como já muitas vezes temos feito ― a quererdes dedicar um cuidado
todo particular a esta sagrada milícia; de modo que, graças ao vosso zelo, cada dia se organizem em toda
parte novas falanges. Que, pela vossa obra e da parte de clero a vós subordinado, que tem cura de almas,
venha o resto do povo a conhecer e a avaliar na justa medida a grande eficácia desta confraria, e a sua
vantagem em ordem à eterna salvação dos homens.

O Rosário perpétuo

14. E tanto mais insistimos em tal recomendação quanto recentemente refloriu uma belíssima
manifestação de piedade mariana: o Rosário "perpétuo". De bom grado abençoamos esta iniciativa, e
vivamente desejamos que vos apliqueis com solicitude e zelo ao seu incremento. De feito, nutrimos viva
esperança de que não poderão deixar de ser bastante eficazes os louvores e as preces que saem
incessantemente da boca e do coração de uma imensa multidão, e que, alternando-se dia e noite pelas
várias regiões do mundo, unem a harmonia das vozes à meditação das divinas verdades.
E certamente a continuidade destes louvores e destas preces foi prefigurada pelas palavras com que Ozias
cantava a Judit: "Bendita és tu, filha, ante o Senhor Deus altíssimo, sobre todas as mulheres da terra...
porque Ele hoje tornou tão grande o teu nome, que o teu louvor nunca faltará nos lábios dos homens". E a
este augúrio todo o povo de Israel respondia em voz alta: "Assim é, assim seja..." (Judit. 18, 23; 25, 26).

Entrementes, como auspício dos benefícios celestes, em testemunho da Nossa benevolência, de grande
coração concedemos, no Senhor, a Bênção Apostólica a vós, Veneráveis Irmãos, ao clero e a todo o povo
confiado à vossa fiel vigilância.

Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 12 de Setembro de 1897, vigésimo ano do Nosso Pontificado.

LEÃO PP. XIII.

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_12091897_augustissimae-
virginis-mariae.html

CARTA ENCÍCLICA

DIVINUM ILLUD MUNUS

DEL SUMO PONTÍFICE

LEÓN XIII

SOBRE LA PRESENCIA
Y VIRTUD ADMIRABLE DEL ESPÍRITU SANTO

INTRODUCCIÓN

1. Aquella divina misión que, recibida del Padre en beneficio del género humano, tan santísimamente
desempeñó Jesucristo, tiene como último fin hacer que los hombres lleguen a participar de una vida
bienaventurada en la gloria eterna; y, como fin inmediato, que durante la vida mortal vivan la vida de la
gracia divina, que al final se abre florida en la vida celestial.

Por ello, el Redentor mismo no cesa de invitar con suma dulzura a todos los hombres de toda nación y
lengua para que vengan al seno de su Iglesia: Venid a mí todos; Yo soy la vida; Yo soy el buen pastor.
Mas, según sus altísimos decretos, no quiso El completar por sí sólo incesantemente en la tierra dicha
misión, sino que, como El mismo la había recibido del Padre, así la entregó al Espíritu Santo para que la
llevara a perfecto término. Place, en efecto, recordar las consoladoras frases que Cristo, poco antes de
abandonar el mundo, pronunció ante los apóstoles: «Os conviene que yo me vaya, porque si no me voy,
no vendrá vuestro abogado; en cambio, si me voy, os lo enviaré» (Jn 16, 7).

Y al decir así, dio como razón principal de su separación y de su vuelta al Padre el provecho que sus
discípulos habían de recibir de la venida del Espíritu Santo; al mismo tiempo que mostraba cómo éste era
igualmente enviado por El y, por lo tanto, que de El procedía como del Padre; y que como abogado, como
consolador y como maestro concluiría la obra por El comenzada durante su vida mortal. La perfección de
su obra redentora estaba providentísimamente reservada a la múltiple virtud de este Espíritu, que en la
creación adornó los cielos (Job 26, 13) y llenó la tierra (Sab 1, 7).

2. Y Nos, que constantemente hemos procurado, con auxilio de Cristo Salvador, príncipe de los pastores y
obispo de nuestras almas, imitar sus ejemplos, hemos continuado religiosamente su misma misión,
encomendada a los apóstoles, principalmente a Pedro, cuya dignidad también se transmite a un heredero
menos digno[1]. Guiados por esa intención, en todos los actos de nuestro pontificado a dos cosas
principalmente hemos atendido y sin cesar atendemos. Primero, a restaurar la vida cristiana así en la
sociedad pública como en la familiar, tanto en los gobernantes como en los pueblos; porque sólo de Cristo
puede derivarse la vida para todos. Segundo, a fomentar la reconciliación con la Iglesia de los que, o en la
fe o por la obediencia, están separados de ella; pues la verdadera voluntad del mismo Cristo es que haya
sólo un rebaño bajo un solo Pastor. Y ahora, cuando nos sentimos cerca ya del fin de nuestra mortal
carrera, place consagrar toda nuestra obra, cualquiera que ella haya sido, al Espíritu Santo, que es vida y
amor, para que la fecunde y la madure. Para cumplir mejor y más eficazmente nuestro deseo, en vísperas
de la solemnidad de Pentecostés, queremos hablaros de la admirable presencia y poder del mismo Espíritu;
es decir, sobre la acción que El ejerce en la Iglesia y en las almas merced al don de sus gracias y
celestiales carismas. Resulte de ello, como es nuestro deseo ardiente, que en las almas se reavive y se
vigorice la fe en el augusto misterio de la Trinidad, y especialmente crezca la devoción al divino Espíritu, a
quien de mucho son deudores todos cuantos siguen el camino de la verdad y de la justicia; pues, como
señaló San Basilio, toda la economía divina en torno al hombre, si fue realizada por nuestro Salvador y
Dios, Jesucristo, ha sido llevada a cumplimiento por la gracia del Espíritu Santo[2].

EL MISTERIO DE LA TRINIDAD

3. Antes de entrar en materia será conveniente y útil tratar algo sobre el misterio de la sacrosanta Trinidad.

Este misterio, el más grande de todos los misterios, pues de todos es principio y fin, se llama por los
doctores sagrados sustancia del Nuevo Testamento; para conocerlo y contemplarlo han sido , creados en el
cielo los ángeles y en la tierra los hombres; para enseñar con más claridad lo prefigurado en el Antiguo
Testamento, Dios mismo descendió de los ángeles a los hombres: «Nadie vio jamás a Dios; el Hijo
unigénito que está en el seno del Padre, El nos lo ha revelado» (Jn 1,18).

Así pues, quien escriba o hable sobre la Trinidad siempre deberá tener ante la vista lo que prudentemente
amonesta el Angélico: «Cuando se habla de la Trinidad, conviene hacerlo con prudencia y humildad, pues
—como dice Agustín— en ninguna otra materia intelectual es mayor o el trabajo o el peligro de equivocarse
o el fruto una vez logrado»[3]. Peligro que procede de confundir entre sí, en la fe o en la piedad, a las
divinas personas o de multiplicar su única naturaleza; pues la fe católica nos enseña a venerar un solo Dios
en la Trinidad y la Trinidad en un solo Dios.

4. Por ello, nuestro predecesor Inocencio XII no accedió a la petición de quienes solicitaban una fiesta
especial en honor del Padre. Si hay ciertos días festivos para celebrar cada uno de los misterios del Verbo
Encarnado, no hay una fiesta propia para celebrar al Verbo tan sólo según su divina naturaleza; y aun la
misma solemnidad de Pentecostés, ya tan antigua, no se refiere simplemente al Espíritu Santo por sí, sino
que recuerda su venida o externa misión. Todo ello fue prudentemente establecido para evitar que nadie
multiplicara la divina esencia, al distinguir las Personas. Más aún: la Iglesia, a fin de mantener en sus hijos
la pureza de la fe, quiso instituir la fiesta de la Santísima Trinidad, que luego Juan XXII mandó celebrar en
todas partes; permitió que se dedicasen a este misterio templos y altares y, después de celestial visión,
aprobó una Orden religiosa para la redención de cautivos, en honor de la Santísima Trinidad, cuyo nombre
la distinguía.

Conviene añadir que el culto tributado a los Santos y Ángeles, a la Virgen Madre de Dios y a Cristo,
redunda todo y se termina en la Trinidad. En las preces consagradas a una de las tres divinas personas,
también se hace mención de las otras; en las letanías, luego de invocar a cada una de las Personas
separadamente, se termina por su invocación común; todos los salmos e himnos tienen la misma doxología
al Padre, al Hijo y al Espíritu Santo; las bendiciones, los ritos, los sacramentos, o se hacen en nombre de la
santa Trinidad, o les acompaña su intercesión. Todo lo cual ya lo había anunciado el Apóstol con aquella
frase: «Porque de Dios, por Dios y en Dios son todas las cosas, a Dios sea la gloria eternamente» (Rm 11,
36); significando así la trinidad de las Personas y la unidad de naturaleza, pues por ser ésta una e idéntica
en cada una de las Personas, procede que a cada una se tribute, como a uno y mismo Dios, igual gloria y
coeterna majestad. Comentando aquellas palabras, dice San Agustín: «No se interprete confusamente lo
que el Apóstol distingue, cuando dice "de Dios, por Dios, en Dios"; pues dice "de Dios", por el Padre; "por
Dios", a causa del Hijo; "en Dios", por relación al Espíritu Santo»[4].
Apropiaciones

5. Con gran propiedad, la Iglesia acostumbra atribuir al Padre las obras del poder; al Hijo, las de la
sabiduría; al Espíritu Santo, las del amor. No porque todas las perfecciones y todas las obras ad extra no
sean comunes a las tres divinas Personas, pues «indivisibles son las obras de la Trinidad, como indivisa es
su esencia»[5], porque así como las tres Personas divinas son inseparables, así obran
inseparablemente[6]; sino que por una cierta relación y como afinidad que existe entre las obras externas
y el carácter «propio» de cada Persona, se atribuyen a una más bien que a las otras, o —como dicen— «se
apropian». Así como de la semejanza del vestigio o imagen hallada en las criaturas nos servimos para
manifestar las divinas Personas, así hacemos también con los atributos divinos; y la manifestación deducida
de los atributos divinos se dice «apropiación»[7].

De esta manera, el Padre, que es principio de toda la Trinidad[8], es la causa eficiente de todas las cosas,
de la Encarnación del Verbo y de la santificación de las almas: «de Dios son todas las cosas»; «de Dios»,
por relación al Padre; el Hijo, Verbo e Imagen de Dios, es la causa ejemplar por la que todas las cosas
tienen forma y belleza, orden y armonía, él, que es camino, verdad, vida, ha reconciliado al hombre con
Dios; «por Dios», por relación al Hijo; finalmente, el Espíritu Santo es la causa última de todas las cosas,
puesto que, así como la voluntad y aun toda cosa descansa en su fin, así El, que es la bondad y el amor
del Padre y del Hijo, da impulso fuerte y suave y como la última mano al misterioso trabajo de nuestra
eterna salvación: «en Dios», por relación al Espíritu Santo.

El Espíritu Santo y Jesucristo

6. Precisados ya los actos de fe y de culto debidos a la augustísima Trinidad, todo lo cual nunca se
inculcará bastante al pueblo cristiano, nuestro discurso se dirige ya a tratar del eficaz poder del Espíritu
Santo. Ante todo, dirijamos una mirada a Cristo, fundador de la Iglesia y Redentor del género humano.
Entre todas las obras de Dios ad extra, la más grande es, sin duda, el misterio de la Encarnación del Verbo;
en él brilla de tal modo la luz de los divinos atributos, que ni es posible pensar nada superior ni puede
haber nada más saludable para nosotros. Este gran prodigio, aun cuando se ha realizado por toda la
Trinidad, sin embargo se atribuye como «propio» al Espíritu Santo, y así dice el Evangelio que la
concepción de Jesús en el seno de la Virgen fue obra del Espíritu Santo (Mt 1, 18.20), y con razón, porque
el Espíritu Santo es la caridad del Padre y del Hijo, y este gran misterio de la bondad divina (1 Tim 3, 16)),
que es la Encarnación, fue debido al inmenso amor de Dios al hombre, como advierte San Juan: «Tanto
amó Dios al mundo, que le dio su Hijo Unigénito» (Jn 3, 16)). Añádase que por dicho acto la humana
naturaleza fue levantada a la unión personal con el Verbo, no por mérito alguno, sino sólo por pura gracia,
que es don propio del Espíritu Santo: El admirable modo, dice San Agustín, con que Cristo fue concebido
por obra del Espíritu Santo, nos da a entender la bondad de Dios, puesto que la naturaleza humana, sin
mérito alguno precedente, ya en el primer instante fue unida al Verbo de Dios en unidad tan perfecta de
persona que uno mismo fuese a la vez Hijo de Dios e Hijo del hombre[9].

Por obra del Espíritu Divino tuvo lugar no solamente la concepción de Cristo, sino también la santificación
de su alma, llamada unción en los Sagrados Libros(Hch 10, 38), y así es como toda acción suya se
realizaba bajo el influjo del mismo Espíritu[10], que también cooperó de modo especial a su sacrificio,
según la frase de San Pablo: «Cristo, por medio del Espíritu Santo, se ofreció como hostia inocente a Dios»
(Heb 9,14). Después de todo esto, ya no extrañará que todos los carismas del Espíritu Santo inundasen el
alma de Cristo. Puesto que en El hubo una abundancia de gracia singularmente plena, en el modo más
grande y con la mayor eficacia que tenerse puede; en él, todos los tesoros de la sabiduría y de la ciencia,
las gracias gratis datas, las virtudes, y plenamente todos los dones, ya anunciados en las profecías de
Isaías (4, 1; 11, 2.3), ya simbolizados en aquella misteriosa paloma aparecida en el Jordán, cuando Cristo
con su bautismo consagraba sus aguas para el nuevo Testamento.

Con razón nota San Agustín que Cristo no recibió el Espíritu Santo siendo ya de treinta años, sino que
cuando fue bautizado estaba sin pecado y ya tenía el Espíritu Santo; entonces, es decir, en el bautismo, no
hizo sino prefigurar a su cuerpo místico, es decir, a la Iglesia en la cual los bautizados reciben de modo
peculiar el Espíritu Santo[11]. Y así la aparición sensible del Espíritu sobre Cristo y su acción invisible en su
alma representaban la doble misión del Espíritu Santo, visible en la Iglesia, e invisible en el alma de los
justos.
EL ESPÍRITU SANTO Y LA IGLESIA

En los apóstoles, obispos y sacerdotes

7. La Iglesia, ya concebida y nacida del corazón mismo del segundo Adán en la Cruz, se manifestó a los
hombres por vez primera de modo solemne en el celebérrimo día de Pentecostés con aquella admirable
efusión, que había sido vaticinada por el profeta Joel (2, 28.29); y en aquel mismo día se iniciaba la acción
del divino Paráclito en el místico cuerpo de Cristo, posándose sobre los apóstoles, como nuevas coronas
espirituales, formadas con lenguas de fuego, sobre sus cabezas[12].

Y entonces los apóstoles descendieron del monte, como escribe el Crisóstomo, no ya llevando en sus
manos como Moisés tablas de piedra, sino al Espíritu Santo en su alma, derramando el tesoro y fuente de
verdades y de carismas[13]. Así, ciertamente se cumplía la última promesa de Cristo a sus apóstoles, la de
enviarles el Espíritu Santo, para que con su inspiración completara y en cierto modo sellase el depósito de
la revelación: «Aún tengo que deciros muchas cosas, mas no las entenderíais ahora; cuando viniere el
Espíritu de verdad, os enseñará toda verdad» (Jn 16, 12.13). El Espíritu Santo, que es espíritu de verdad,
pues procede del Padre, Verdad eterna, y del Hijo, Verdad sustancial, recibe de uno y otro, juntamente con
la esencia, toda la verdad que luego comunica a la Iglesia, asistiéndola para que no yerre jamás, y
fecundando los gérmenes de la revelación hasta que, en el momento oportuno, lleguen a madurez para la
salud de los pueblos. Y como la Iglesia, que es medio de salvación, ha de durar hasta la consumación de
los siglos, precisamente el Espíritu Santo la alimenta y acrecienta en su vida y en su virtud: «Yo rogaré al
Padre y El os mandará el Espíritu de verdad, que se quedará siempre con vosotros» (Ibíd 14, 16.17). Pues
por El son constituidos los obispos, que engendran no sólo hijos, sino también padres, esto es, sacerdotes,
para guiarla y alimentarla con aquella misma sangre con que fue redimida por Cristo: «El Espíritu Santo ha
puesto a los obispos para regir la Iglesia de Dios, que Cristo adquirió con su sangre»(Hch 20, 28); unos y
otros, obispos y sacerdotes, por singular don del Espíritu tienen poder de perdonar los pecados, según
Cristo dijo a sus apóstoles: «Recibid el Espíritu Santo: a los que perdonareis los pecados, les serán
perdonados, y a los que se los retuviereis, les serán retenidos»(Jn 20, 22.23).

En las almas

8. Nada confirma tan claramente la divinidad de la Iglesia como el glorioso esplendor de carismas que por
todas partes la circundan, corona magnífica que ella recibe del Espíritu Santo. Baste, por último, saber que
si Cristo es la cabeza de la Iglesia, el Espíritu Santo es su alma: «Lo que el alma es en nuestro cuerpo, es
el Espíritu Santo en el cuerpo de Cristo, que es la Iglesia»[14].Si esto es así, no cabe imaginar ni esperar
ya otra mayor y más abundante manifestación y aparición del Divino Espíritu, pues la Iglesia tiene ya la
máxima, que ha de durarle hasta que, desde el estadio de la milicia terrenal, sea elevada triunfante al coro
alegre de la sociedad celestial.

No menos admirable, aunque en verdad sea más difícil de entender, es la acción del Espíritu Santo en las
almas, que se esconde a toda mirada sensible.

Y esta efusión del Espíritu es de abundancia tanta que el mismo Cristo, su donante, la asemejó a un río
abundantísimo, como lo afirma San Juan: «Del seno de quien creyere en Mí, como dice la Escritura,
brotarán fuentes de agua viva»; testimonio que glosó el mismo evangelista, diciendo: «Dijo esto del
Espíritu Santo, que los que en El creyesen habían de recibir» (Jn 7, 38.39).

En el Antiguo Testamento y en el Nuevo Testamento

9. Cierto es que aun en los mismos justos del Antiguo Testamento ya inhabitó el Espíritu Santo, según lo
sabemos de los profetas, de Zacarías, del Bautista, de Simeón y de Ana; pues no fue en Pentecostés
cuando el Espíritu Santo comenzó a inhabitar en los Santos por vez primera: en aquel día aumentó sus
dones, mostrándose más rico y más abundante en su largueza[15]. También aquéllos eran hijos de Dios,
mas aún permanecían en la condición de siervos, porque tampoco el hijo se diferencia del siervo, mientras
está bajo tutela (Gál 4, 1.2); a más de que la justicia en ellos no era sino por los previstos méritos de
Cristo, y la comunicación del Espíritu Santo hecha después de Cristo es mucho más copiosa, como la cosa
pactada vence en valor a la prenda, y como la realidad excede en mucho a su figura. Y por ello así lo
afirmó Juan: «Aún no había sido dado el Espíritu Santo, porque Jesús no había sido glorificado»(Jn 7, 39).
Inmediatamente que Cristo, ascendiendo a lo alto, hubo tomado posesión de su reino, conquistado con
tanto trabajo, con divina munificencia abrió sus tesoros, repartiendo a los hombres los dones del Espíritu
Santo (Ef4, 8): «Y no es que antes no hubiese sido mandado el Espíritu Santo, sino que no había sido dado
como lo fue después de la glorificación de Cristo»[16]. Y ello porque la naturaleza humana es
esencialmente sierva de Dios: «La criatura es sierva, nosotros somos siervos de Dios según la
naturaleza»[17]; más aún: por el primer pecado toda nuestra naturaleza cayó tan baja que se tornó
enemiga de Dios: «Éramos por la naturaleza hijos de la ira» Ef 2, 3). No había fuerza capaz de levantarnos
de caída tan grande y rescatarnos de la eterna ruina. Pero Dios, que nos había creado, se movió a piedad;
y por medio de su Unigénito restituyó al hombre a la noble altura de donde había caído, y aun le realzó con
más abundante riqueza de dones. Ninguna lengua puede expresar esta labor de la divina gracia en las
almas de los hombres, por la que son llamados, ya en las Sagradas Escrituras, ya en los escritos de los
Padres de la Iglesia, regenerados, criaturas nuevas, participantes de la divina naturaleza, hijos de Dios,
deificados, y así más aún. Ahora bien: beneficios tan grandes propiamente los debemos al Espíritu Santo.

El es el Espíritu de adopción de los hijos, en el cual clamamos: «Abba»,«Padre»; inunda los corazones con
la dulzura de su paternal amor: da testimonio a nuestro espíritu de que somos hijos de Dios (Rom 8,
15.16). Para declarar lo cual es muy oportuna aquella observación del Angélico, de que hay cierta
semejanza entre las dos obras del Espíritu Santo; puesto que por la virtud del Espíritu Santo Cristo fue
concebido en santidad para ser hijo natural de Dios, y los hombres son santificados para ser hijos
adoptivos de Dios[18]. Y así, con mucha mayor nobleza aún que en el orden natural, la espiritual
generación es fruto del Amor increado.

En los sacramentos

10. Esta regeneración y renovación comienza para cada uno en el bautismo, sacramento en el que,
arrojado del alma el espíritu inmundo, desciende a ella por primera vez el Espíritu Santo, haciéndola
semejante a sí: «Lo que nace del Espíritu es espíritu»(Jn 3, 7). Con más abundancia se nos da el mismo
Espíritu en la confirmación, por la que se nos infunde fortaleza y constancia para vivir como cristianos: es
el mismo Espíritu el que venció en los mártires y triunfó en las vírgenes sobre los halagos y peligros.
Hemos dicho que «se nos da el mismo Espíritu»: «La caridad de Dios se difunde en nuestros corazones por
el Espíritu Santo que nos ha sido dado»(Rom 5, 5). Y en verdad, no sólo nos llena con divinos dones, sino
que es autor de los mismos, y aun El mismo es el don supremo porque, al proceder del mutuo amor del
Padre y del Hijo, con razón es don del Dios altísimo. Para mejor entender la naturaleza y efectos de este
don, conviene recordar cuanto, después de las Sagradas Escrituras, enseñaron los sagrados doctores, esto
es, que Dios se halla presente a todas las cosas y que está en ellas: por potencia, en cuanto se hallan
sujetas a su potestad; por presencia, en cuanto todas están abiertas y patentes a sus ojos; por esencia,
porque en todas se halla como causa de su ser[19]. Mas en la criatura racional se encuentra Dios ya de
otra manera; esto es, en cuanto es conocido y .amado, ya que según naturaleza es amar el bien, desearlo
y buscarlo. Finalmente, Dios, por medio de su gracia, está en el alma del justo en forma más íntima e
inefable, como en su templo; y de ello se sigue aquel mutuo amor por el que el alma está íntimamente
presente a Dios, y está en él más de lo que pueda suceder entre los amigos más queridos, y goza de él con
la más regalada dulzura.

En la inhabitación

11. Y esta admirable unión, que propiamente se llama inhabitación, y que sólo en la condición o estado,
mas no en la esencia, se diferencia de la que constituye la felicidad en el cielo, aunque realmente se
cumple por obra de toda la Trinidad, por la venida y morada de las tres divinas Personas en el alma
amante de Dios, vendremos a él y haremos mansión junto a él (Jn 14, 23), se atribuye, sin embargo, como
peculiar al Espíritu Santo. Y es cierto que hasta entre los impíos aparecen vestigios del poder y sabiduría
divinos; mas de la caridad, que es como «nota» propia del Espíritu Santo, tan sólo el justo participa.

Añádase que a este Espíritu se le da el apelativo de Santo, también porque, siendo el primero y eterno
Amor, nos mueve y excita a la santidad, que en resumen no es sino el amor a Dios. Y así, el Apóstol,
cuando llama a los justos templos de Dios, nunca les llama expresamente templos «del Padre» o «del
Hijo», sino «del Espíritu Santo»: «¿Ignoráis que vuestros miembros son templo del Espíritu Santo, que está
en vosotros, pues le habéis recibido de Dios?»(1 Cor 6, 19). A la inhabitación del Espíritu Santo en las
almas justas sigue la abundancia de los dones celestiales. Así enseña Santo Tomás: «El Espíritu Santo, al
proceder como Amor, procede en razón de don primero; por esto dice Agustín que, por medio de este don
que es el Espíritu Santo, muchos otros dones se distribuyen a los miembros de Cristo[20]. Entre estos
dones se hallan aquellos ocultos avisos e invitaciones que se hacen sentir en la mente y en el corazón por
la moción del Espíritu Santo; de ellos depende el principio del buen camino, el progreso en él y la salvación
eterna. Y puesto que estas voces e inspiraciones nos llegan muy ocultamente, con toda razón en las
Sagradas Escrituras alguna vez se dicen semejantes al susurro del viento; y el Angélico Doctor sabiamente
las compara con los movimientos del corazón, cuya virtud toda se halla oculta: «El corazón tiene una cierta
influencia oculta, y por ello al corazón se compara el Espíritu Santo que invisiblemente vivifica a la Iglesia y
la une»[21].

En los siete dones y en los frutos

12. Y el hombre justo, que ya vive la vida de la divina gracia y opera por congruentes virtudes, como el
alma por sus potencias, tiene necesidad de aquellos siete dones que se llaman propios del Espíritu Santo.
Gracias a éstos el alma se dispone y se fortalece para seguir más fácil y prontamente las divinas
inspiraciones: es tanta la eficacia de estos dones, que la conducen a la cumbre de la santidad; y tanta su
excelencia, que perseveran intactos, aunque más perfectos, en el reino celestial. Merced a esos dones, el
Espíritu Santo nos mueve y realza a desear y conseguir las evangélicas bienaventuranzas, que son como
flores abiertas en la primavera, cual indicio y presagio de la eterna bienaventuranza. Y muy regalados son,
finalmente, los frutos enumerados por el Apóstol(Gál v.22) que el Espíritu Santo produce y comunica a los
hombres justos, aun durante la vida mortal, llenos de toda dulzura y gozo, pues son del Espíritu Santo que
en la Trinidad es el amor del Padre y del Hijo y que llena de infinita dulzura a las criaturas todas[22].

Y así el Divino Espíritu, que procede del Padre y del Hijo en la eterna luz de santidad como amor y como
don, luego de haberse manifestado a través de imágenes en el Antiguo Testamento, derrama la
abundancia de sus dones en Cristo y en su cuerpo místico, la Iglesia; y con su gracia y saludable presencia
alza a los hombres de los caminos del mal, cambiándoles de terrenales y pecadores en criaturas
espirituales y casi celestiales. Pues tantosy tan señalados son los beneficios recibidos de la bondad del
Espíritu Santo, la gratitud nos obliga a volvernos a El, llenos de amor y devoción.

EXHORTACIONES

Foméntese el conocimiento y amor del Espíritu Santo

13. Seguramente harán esto muy bien y perfectamente los hombres cristianos si cada día se empeñaren
más en conocerle, amarle y suplicarle; a ese fin tiende esta exhortación dirigida a los mismos, tal como
surge espontánea de nuestro paternal ánimo.

Acaso no falten en nuestros días algunos que, de ser interrogados como en otro tiempo lo fueron algunos
por San Pablo «si habían recibido el Espíritu Santo», contestarían a su vez: «Nosotros, ni siquiera hemos
oído si existe el Espíritu Santo» (Hch 19, 2). Que si a tanto no llega la ignorancia, en una gran parte de
ellos es muy escaso su conocimiento sobre El; tal vez hasta con frecuencia tienen su nombre en los labios,
mientras su fe está llena de crasas tinieblas. Recuerden, pues, los predicadores y párrocos que les
pertenece enseñar con diligencia y claramente al pueblo la doctrina católica sobre el Espíritu Santo, mas
evitando las cuestiones arduas y sutiles y huyendo de la necia curiosidad que presume indagar los secretos
todos de Dios. Cuiden recordar y explicar claramente los muchos y grandes beneficios que del Divino Dador
nos vienen constantemente, de forma que sobre cosas tan altas desaparezca el error y la ignorancia,
impropios de los hijos de la luz. Insistimos en esto no sólo por tratarse de un misterio, que directamente
nos prepara para la vida eterna y que, por ello, es necesario creer firme y expresamente, sino también
porque, cuanto más clara y plenamente se conoce el bien, más intensamente se le quiere y se le ama. Esto
es lo que ahora queremos recomendaros: Debemos amar al Espíritu Santo, porque es Dios: Amarás al
Señor tu Dios con todo tu corazón, con toda tu alma y con toda tu fortaleza (Deut 6, 5). Y ha de ser
amado, porque es el Amor sustancial eterno y primero, y no hay cosa más amable que el amor; y luego
tanto más le debemos amar cuanto que nos ha llenado de inmensos beneficios que, si atestiguan la
benevolencia del donante, exigen la gratitud del alma que los recibe. Amor este que tiene una doble
utilidad, ciertamente no pequeña. Primeramente nos obliga a tener en esta vida un conocimiento cada día
más claro del Espíritu Santo: El que ama, dice Santo Tomás, no se contenta con un conocimiento
superficial del amado, sino que se esfuerza por conocer cada una de las cosas que le pertenecen
intrínsecamente, y así entra en su interior, como del Espíritu Santo, que es amor de Dios, se dice que
examina hasta lo profundo de Dios[23]. En segundo lugar, que será mayor aún la abundancia de sus
celestiales dones, pues como la frialdad hace cerrarse la mano del donante, el agradecimiento la hace
ensancharse. Y cuídese bien de que dicho amor no se limite a áridas disquisiciones o a externos actos
religiosos; porque debe ser operante, huyendo del pecado, que es especial ofensa contra el Espíritu Santo.
Cuanto somos y tenemos, todo es don de la divina bondad que corresponde como propia al Espíritu Santo;
luego el pecador le ofende al mismo tiempo que recibe sus beneficios, y abusa de sus dones para
ofenderle, al mismo tiempo que, porque es bueno, se alza contra El multiplicando incesantes sus culpas.

No le entristezcamos

14. Añádase, además, que, pues el «Espíritu Santo es espíritu de verdad, si alguno falta por debilidad o
ignorancia, tal vez tenga alguna excusa ante el tribunal de Dios; mas el que por malicia se opone a la
verdad o la rehúye, comete gravísimo pecado contra el Espíritu Santo. Pecado tan frecuente en nuestra
época que parecen llegados los tristes tiempos descritos por San Pablo, en los cuales, obcecados los
hombres por justo juicio de Dios, reputan como verdaderas las cosas falsas, y al príncipe de este mundo,
que es mentiroso y padre de la mentira, le creen como a maestro de la verdad: Dios les enviará espíritu de
error para que crean a la mentira (2 Tes 2, 10): en los últimos tiempos se separarán algunos de la fe, para
creer en los espíritus del error y en las doctrinas de los demonios (1 Tim 4, 1): Y por cuanto el Espíritu
Santo, según antes hemos dicho, habita en nosotros como en su templo, repitamos con el Apóstol: «No
queráis contristar al Espíritu Santo de Dios, que os ha consagrado»(Ef 4, 30). Para ello no basta huir de
todo lo que es inmundo, sino que el hombre cristiano debe resplandecer en toda virtud, especialmente en
pureza y santidad, para no desagradar a huésped tan grande, puesto que la pureza y la santidad son las
propias del templo. Por ello exclama el mismo Apóstol: «Pero ¿es que no sabéis que sois templo de Dios y
que el Espíritu de Dios habita en vosotros? Si alguno osare profanar el templo de Dios, será maldito de
Dios, pues el templo debe ser santo y vosotros sois este templo»(1 Cor 3, 16.17); amenaza tremenda, pero
justísima.

Pidamos el Espíritu Santo

15. Por último, conviene rogar y pedir al Espíritu Santo, cuyo auxilio y protección todos necesitamos en
extremo. Somos pobres, débiles, atribulados, inclinados al mal: luego recurramos a El, fuente inexhausta
de luz, de consuelo y de gracia. Sobre todo, debemos pedirle perdón de los pecados, que tan necesario nos
es, puesto que es el Espíritu Santo don del Padre y del Hijo, y los pecadores son perdonados por medio del
Espíritu Santo como por don de Dios[24], lo cual se proclama expresamente en la liturgia cuando al
Espíritu Santo le llama remisión de todos los pecados[25].

Cuál sea la manera conveniente para invocarle, aprendámoslo de la Iglesia, que suplicante se vuelve al
mismo Espíritu Santo y lo llama con los nombres más dulces de padre de los pobres, dador de los dones,
luz de los corazones, consolador benéfico, huésped del alma, aura de refrigerio; y le suplica
encarecidamente que limpie, sane y riegue nuestras mentes y nuestros corazones, y que conceda a todos
los que en El confiamos el premio de la virtud, el feliz final de la vida presente, el perenne gozo en la
futura. Ni cabe pensar que estas plegarias no sean escuchadas por aquel de quien leemos que ruega por
nosotros con gemidos inefables (Rom 8, 26). En resumen, debemos suplicarle con confianza y constancia
para que diariamente nos ilustre más y más con su luz y nos inflame con su caridad, disponiéndonos así
por la fe y por el amor a que trabajemos con denuedo por adquirir los premios eternos, puesto que El es la
prenda de nuestra heredad (Ef 1, 14).

Novena del Espíritu Santo

16. Ved, venerables hermanos, los avisos y exhortaciones nuestras sobre la devoción al Espíritu Santo, y
no dudamos que por virtud principalmente de vuestro trabajo y solicitud, se han de producir saludables
frutos en el pueblo cristiano. Cierto que jamás faltará nuestra obra en cosa de tan gran importancia; más
aún, tenemos la intención de fomentar ese tan hermoso sentimiento de piedad por aquellos modos que
juzgaremos más convenientes a tal fin. Entre tanto, puesto que Nos, hace ahora dos años, por medio del
breve Provida Matris, recomendamos a los católicos para la solemnidad de Pentecostés algunas especiales
oraciones a fin de suplicar por el cumplimiento de la unidad cristiana, nos place ahora añadir aquí algo
más. Decretamos, por lo tanto, y mandamos que en todo el mundo católico en este año, y siempre en lo
por venir, a la fiesta de Pentecostés preceda la novena en todas las iglesias parroquiales y también aun en
los demás templos y oratorios, a juicio de los Ordinarios.

Concedemos la indulgencia de siete años y otras tantas cuarentenas por cada día a todos los que asistieren
a la novena y oraren según nuestra intención, además de la indulgencia plenaria en un día de la novena, o
en la fiesta de Pentecostés y aun dentro de la octava, siempre que confesados y comulgados oraren según
nuestra intención. Queremos igualmente también que gocen de tales beneficios todos aquellos
que, legítimamente impedidos, no puedan asistir a dichos cultos públicos, y ello aun en los lugares donde
no pudieren celebrarse cómodamente —a juicio del Ordinario— en el templo, con tal que privadamente
hagan la novena y cumplan las demás obras y condiciones prescritas. Y nos place añadir del tesoro de la
Iglesia que puedan lucrar nuevamente una y otra indulgencia todos los que en privado o en público
renueven según su propia devoción algunas oraciones al Espíritu Santo cada día de la octava de
Pentecostés hasta la fiesta inclusive de la Santísima Trinidad, siempre que cumplan las demás condiciones
arriba indicadas. Todas estas indulgencias son aplicables también aun a las benditas almas del Purgatorio.

El Espíritu Santo y la Virgen María

17. Y ahora nuestro pensamiento se vuelve adonde comenzó, a fin de lograr del divino Espíritu, con
incesantes oraciones su cumplimiento. Unid, pues, venerables hermanos, a nuestras oraciones también las
vuestras, así como las de todos los fieles, interponiendo la poderosa y eficaz mediación de la Santísima
Virgen. Bien sabéis cuán íntimas e inefables relaciones existen entre ella y el Espíritu Santo, pues que es su
Esposa inmaculada. La Virgen cooperó con su oración muchísimo así al misterio de la Encarnación como a
la venida del Espíritu Santo sobre los apóstoles. Que Ella continúe, pues, realzando con su patrocinio
nuestras comunes oraciones, para que en medio de las afligidas naciones se renueven los divinos prodigios
del Espíritu Santo, celebrados ya por el profeta David: «Manda tu Espíritu y serán creados, y renovarás la
faz de la tierra» (Sal 103, 30) .

Dado en Roma, junto a San Pedro, el día 9 de mayo del año 1897, vigésimo de nuestro pontificado.

LEÓN PP. XIII

Notas

[1] S. León M., Sermo 2 in anniv. ass. suae.

[2] De Spiritu Sancto 16,39.

[3] I q.31 a.2; De Trin. 1,3.

[4] De Trin. 6 10; 1,6.

[5] S. Agustín, De Trin., 1,4 y 5.

[6] S. Agustín, ibíd.

[7] S. Th., I q.39 a.7.


[8] S. Agustín, De Trin. 4,20.

[9] Enchir. 30. S. Thom., II q.32 a.l.

[10] S. Basil., De Sp. S. 16.

[11] De Trin. 15,26.

[12] Cir. Hierosol., Catech. 17.

[13] In Mat, hom.l; 2 Cor 3,3.

[14] S. Agustín, Serm. 187 de temp.

[15] S. León M., Hom. 3 de Pentec.

[16] Agustín, De Trin. 1,4, c.20.

[17] S. Cir. Alex., Thesam. 1,5, c.5.

[18] S. Th. III q.32, a.l

[19] S. Th. I q.8, a.3.

[20] S. Th. I q.38, a.2. S. Agustín, De Trin. 15,19.

[21]. S. Th.II q.8, a.l.

[22]. S. Agustín, De Trin. 5,9.

[23]. 1 Cor 2,10; S. Th. I-II q.28, a.2.

[24]. S. Th. III q.3, a.8 ad 3.

[25] In Miss. Rom. fer. 3 post Pent.

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/es/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_09051897_divinum-illud-
munus.html

CARTA ENCÍCLICA
FIDENTEM PIUMQUE ANIMUM
DE SUA SANTIDADE
LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA


Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.

Devoção do Pontífice para com o Rosário

1. Durante o Nosso Sumo Pontificado freqüentemente temos tido ocasião de dar públicas provas da
confiança e da piedade, para com a Santíssima Virgem, que sempre nutrimos desde os mais tenros anos, e
que depois nos temos esforçado por alimentar e aumentar em toda a Nossa vida. Incidindo, com efeito,
em tempos não menos infaustos para a Igreja do que cheios de perigos para a própria sociedade civil,
facilmente havemos compreendido o quanto era útil recomendarmos com máximo calor esse baluarte de
salvação e de paz que Deus, na sua grande misericórdia, quis dar à humanidade, na pessoa de sua
augusta Mãe, e que depois ele tornou insigne nos fastos da Igreja por uma série ininterrupta de
acontecimentos favoráveis.

E os povos católicos têm correspondido aos Nossos votos e às Nossas exortações com múltiplas e
pressurosas iniciativas, mas especialmente reavivando a devoção para com o Rosário, com abundante
messe de esplêndidos frutos. Mas Nós não nos podemos cansar de exaltar a Mãe de Deus, que é
verdadeiramente "digníssima de todo louvor", nem de inculcar um terno amor para com ela, que também é
Mãe dos homens, e que é "cheia de misericórdia e cheia de graça". Antes, quanto mais a Nossa alma,
fatigada pelas solicitudes apostólicas, sente avizinhar-se a hora da sua partida, tanto mais ardente e
confiantemente volve o olhar para aquela que é como a aurora bendita da qual surgiu o dia de uma
felicidade e de uma alegria sem ocaso.

Oh! quanto nos consola, Veneráveis Irmãos, a lembrança das Cartas periodicamente escritas para
recomendar o Rosário, tão grato àquela a quem se quer honrar, tão útil àqueles que o rezam bem! Mas
não é menos caro ao Nosso coração o termos ainda a possibilidade de reafirmar insistentemente o Nosso
propósito; mesmo porque, assim fazendo, temos ótima ocasião de exortar paternalmente as mentes e os
corações a um sempre maior apego à religião, e de revigorar neles a esperança das imortais recompensas.

As principais condições da oração

2. A forma de oração de que falamos foi chamada com o belo nome de Rosário como que para exprimir, a
um tempo, o perfume das rosas e a graça das coroas. Nome que, enquanto é indicadíssimo para significar
uma devoção destinada a honrar aquela que justamente é saudada como "Rosa Mística" do Paraíso, e que,
cingida de uma coroa de estrelas, é venerada como Rainha do universo, parece também simbolizar o
augúrio das alegrias e das grinaldas que Maria oferece aos seus fiéis.

3. E esta asserção aparece ainda mais evidente se se considerar a natureza do Rosário mariano. De feito,
nada nos é mais recomendado pelos preceitos e pelos exemplos de Cristo e dos Apóstolos do que a
obrigação de invocarmos a Deus e de suplicarmos o seu auxilio. Depois, os Padres e os Doutores da Igreja,
por sua parte, nos ensinam que este dever é de tal importância, que quem o descurasse debalde confiaria
em alcançar a eterna salvação. Mas, embora quem reza tenha, pela própria virtude da oração e pela
promessa de Cristo, a possibilidade ímpar das graças divinas, todavia, como todos sabem, a oração tira a
sua maior eficácia principalmente destas duas condições, a saber: da assídua perseverança, e da união de
muitos corações na mesma oração.

A primeira condição é claramente posta em evidência pelas amorosas instâncias de Cristo: "Pedi, procurai,
batei" (Mt. 7, 7); instâncias que pintam Deus como o mais terno dos pais, o qual quer, sim, acolher os
desejos de seus filhos, mas também se alegra de sentir-se por eles longamente rogado, antes como que
cansado pelas súplicas deles, para ligar sempre mais estreitamente a si os seus corações. Depois, sobre a
outra condição, o próprio Senhor em várias circunstâncias proclamou: "Se dois de vós se puserem juntos
na terra para pedir qualquer coisa, eu estarei no meio deles" (Mt 18, 19-20). Ensinamento do qual tirou
inspiração aquela vigorosa sentença de Tertuliano: "Reunimo-nos juntos em assembléia e em sociedade
como que para tomar de assalto a Deus com as nossas preces; é esta uma forma de violência, porém
muito do agrado de Deus" (Tertuliano, Apologet., c. 39). Além disto, é digno de menção, a este propósito,
o que escreve o Aquinate: "É impossível que não sejam escutadas as orações de muitos juntos, quando
não formam senão uma só oração" (S. Thomas de Aquino, In Evangelium Matthaei, c. 18).
A união e a perseverança na recitação do Rosário

4. Ora, ambas estas condições se acham perfeitamente unidas no Rosário. Nele, com efeito, - para
omitirmos outras reflexões - pela nossa repetição das mesmas orações nós demonstramos querer obter do
Pai Celeste o seu reino de graça e de glória; e com as nossas reiteradas súplicas à Virgem Mãe imploramos
para nós pecadores o seu auxílio e a sua intercessão durante toda a nossa vida e na nossa hora extrema,
que é a porta da eternidade. Depois, a própria forma do Rosário presta-se otimamente para a oração em
comum; tanto que, com razão, foi ele chamado "Saltério mariano".

Mantenha-se, portanto, com religiosa exatidão, ou se reponha em honra, o uso que tanto floresceu entre
os nossos antepassados, quando as famílias cristãs, nas cidades e nos campos, consideravam como um
sagrado dever o reunir-se, à noite, depois dos labores do dia, diante de uma imagem da Virgem, para
recitar alternativamente o Rosário. E ela se comprazia tanto nesta fiel e concorde homenagem, que, como
uma mãe entre a coroa de seus filhos, assistia propícia aqueles seus devotos, e concedia-lhes o dom da
paz doméstica, penhor da paz do Céu.

5. E foi justamente refletindo na eficácia desta oração em comum que, entre as Nossas muitas outras
disposições sobre o Rosário, explicitamente declaramos "ser Nosso vivo desejo que ele fosse recitado todo
os dias nas catedrais das simples Dioceses, e todos os dias de festa nas igrejas paroquiais" (Leão XIII,
Carta Apostólica Salutaris Ille, 24 dez. 1883). Observe-se, pois, com solicitude e com constância essa nossa
disposição. De resto, vemos com profunda satisfação que a santa prática se divulga e se conjuga com
outras públicas manifestações de piedade, como, por exemplo, com as peregrinações aos santuários mais
insignes: costume que se afirma sempre mais, com grande comprazimento Nosso.

6. Mas esta união de preces e de louvores marianos apresenta também outros aspectos, que proporcionam
muita alegria e muita utilidade às almas. E Nós mesmo - alegra-se-nos o coração ao reavivarmos aqui esta
lembrança - tivemos meios de fazer a experiência disso em algumas circunstâncias particulares do Nosso
Pontificado: quando, na Basílica Vaticana, estávamos cercados por uma multidão imensa de fiéis de todas
as categorias, os quais, unidos a Nós nas intenções, na voz e na meditação dos mistérios do Rosário,
suplicavam a poderosíssima Auxiliadora do povo cristão.

O Rosário apresenta-nos Maria como mediadora

7. E quem quererá considerar excessiva e censurar a grande confiança depositada no auxilio e na proteção
da Virgem? Todos estão de acordo em admitir que o nome e a função de perfeito Mediador não convém
senão a Cristo: porque só Ele, conjuntamente, Deus e Homem, reconciliou o gênero humano com seu
sumo Pai: "Um mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus Homem, aquele que a si mesmo se deu
como preço de resgate por todos" (1 Tim. 2, 5-6). Mas se, como ensina o Angélico, "nada proíbe que
algum outro se chame, sob certos aspectos, mediador entre Deus e os homens, quando dispositiva e
ministerialmente coopera para a união do homem com Deus" (S. Thomas de Aquino, 3 q. 26 a. 1), como é
o caso dos Anjos, dos Santos, dos profetas e dos sacerdotes do velho e do novo Testamento, sem dúvida
alguma tal título de glória convém, em medida ainda maior, à Virgem excelsa.

Com efeito, é impossível imaginar outra criatura que tenha realizado ou esteja para realizar uma obra
semelhante à dela, na reconciliação dos homens com Deus. Foi ela que, para os homens fadados à eterna
ruína, gerou o Salvador; quando, ao anúncio do mistério de paz trazido à terra pelo Anjo, ela deu o seu
admirável assentimento, "em nome de todo o gênero humano" (S. Thomas de Aquino, 3 q. 30 a. 1). Ela é
aquela "da qual nasceu Jesus", sua verdadeira Mãe, e por isto digna e agradabilíssima "Mediadora junto ao
Mediador”.

8. Como estes mistérios são sucessivamente propostos, no Rosário, à meditação dos fiéis, segue-se que
esta oração põe em evidencia os méritos de Maria na obra da nossa reconciliação e da nossa salvação.
Ninguém - assim pensamos pode subtrair-se a uma suave emoção ao contemplar a Virgem, ou quando
visita a casa de Isabel para lhe dispensar os divinos carismas, ou quando apresenta seu filho pequenino
aos pastores, aos reis, a Simeão. E que não sentirá a alma fiel quando refletir que o Sangue de Cristo,
derramado por nós, e os membros nos quais ele mostra ao Pai as feridas recebidas "como penhor da nossa
liberdade", não são outra coisa senão carne e sangue da Virgem? E, na realidade: "A carne de Jesus é
carne de Maria; e, embora sublimada pela glória de ressurreição, todavia a natureza dessa carne
permaneceu e permanece a mesma que foi tomada de Maria" (De Assumptione B. M. V., c. V, inter
operas S. Augustini, PL, XL, Incerti Auctoris ac Pii, col. 1141-1145).

O Rosário fortifica a nossa fé

9. Mas, como de outra vez lembramos, o Rosário produz outro fruto notável, adequado às necessidades
dos nossos tempos. É este: que, numa época em que a virtude da fé em Deus está cada dia exposta a tão
graves perigos e assaltos, o cristão acha no Rosário meios abundantes para alimentá-la e reforçá-la.

10. As Sagradas Escrituras chamam a Cristo "condutor e aperfeiçoador da fé" (Heb. 12, 2). "Condutor",
porque ensinou aos homens grande número de verdades que eles devem crer, especialmente as que dizem
respeito a "Aquele em quem "habita toda a plenitude da Divindade" (Col. 2, 9); e, ademais, porque, com a
graça e como que com a unção do Espírito Santo, concede generosamente o dom da fé. "Aperfeiçoador",
porque no Céu, onde converterá o hábito da fé na clareza da glória, Ele tornará evidentes aquelas coisas
que os homens, na vida mortal, perceberam como através de um véu. Ora, todos sabem que, na prática do
Rosário, Cristo tem esse lugar de proeminência que lhe compete. De fato, é a sua vida que nós
contemplamos na meditação: a privada, nos mistérios gozosos; a pública, em meio aos graves incômodos
e a padecimentos mortais; a gloriosa, enfim, que da sua triunfal ressurreição chega até à eternidade d'Ele,
sentado à destra do Pai.

E, como é necessário que a fé, para ser digna e perfeita, se manifeste exteriormente, "pois que com o
coração se crê para a justiça, e com a boca se faz a profissão para a salvação" (Rom. 10, 10), no Rosário
achamos também excelente meio para professarmos a nossa fé. E, realmente, com as orações vocais de
que ele se tece, podemos exprimir a nossa fé em Deus, nosso Pai providentíssimo, na vida futura, na
remissão dos pecados, nos mistérios da augusta Trindade, do Verbo encarnado, da maternidade divina, e
em outras verdades ainda. Ora, ninguém ignora o quanto é grande o valor e o, mérito da fé: semente
seletíssima que hoje faz desabrochar as flores de todas as virtudes que nos tornam agradáveis a Deus, e
que um dia produzirá frutos que durarão eternamente: "O conhecer a ti é perfeita justiça, e o saber a tua
justiça e poder é raiz de imortalidade" (Sab. 15, 3).

O Rosário dá-nos lições de penitência

11. E aqui afigura-se oportuno um chamamento aos deveres das virtudes que a fé justamente impõe. Entre
estas, por mais de um motivo é obrigatória e salutar a virtude da penitência, da qual é uma manifestação a
"abstinência". Se a Igreja mostra, sobre este ponto, sempre maior brandura para com seus filhos, é
entretanto dever destes compensar com outras obras meritórias a sua maternal indulgência. Ora, também
para tal fim apraz-nos, em primeiro lugar, inculcar a prática do Rosário, que pode produzir "bons frutos de
penitência", especialmente pela meditação dos sofrimentos de Jesus e de sua Mãe Santíssima.

Facilidade e preciosidade do Rosário

12. Aqueles, pois, que se esforçam por atingir o seu bem supremo, um admirável desígnio da Providência
ofereceu o auxílio do Rosário: auxilio mais fácil e mais prático do que qualquer outro. Porque basta um
conhecimento, mesmo modesto, da religião, para se aprender a rezar com fruto o Rosário; e, por outro
lado, isso requer tão pouco tempo, que na realidade não pode acarretar prejuízo a outros afazeres. Além
de que isto é confirmado por oportunos e luminosos exemplos da história da Igreja; onde se lê que em
todos os tempos houve pessoas que, conquanto desempenhassem ofícios muito pesados, ou fossem
absorvidas por fatigantes ocupações, todavia nem sequer por um só dia relaxaram este piedoso costume.

13. Isto se explica por esse íntimo sentimento de piedade que transporta as almas para esta sagrada
coroa, até a amá-la ternamente e a considerá-la como a companheira inseparável e fiel amparo da sua
vida. Apertando-a entre os dedos nas supremas agonias, eles estão mais seguros de ter em mão um
penhor da "imarcescível coroa de glória". Tal esperança é, depois, grandemente reforçada pelos tesouros
"das indulgências" com que o Rosário foi enriquecido na mais larga medida pelos Nossos Predecessores e
por Nós mesmo; contanto que, entende-se, delas se tenha devida estima. Não há dúvida que essas
indulgências, como que dispensadas pelas mãos da Virgem misericordiosa, ajudam muito os moribundos e
os defuntos, apressando para eles as alegrias da suspirada paz e da luz eterna.

Para o retorno dos dissidentes

14. Eis aí, ó Veneráveis Irmãos, os motivos que nos impelem a não desistir de louvar e de recomendar aos
católicos uma forma tão excelente de piedade, uma devoção tão útil para chegar ao porto da salvação. Mas
a isto somos movidos também por outra razão de extraordinária importância sobre a qual já muitas vezes
temos manifestado o nosso pensamento em Cartas e Alocuções, como seja:

15. Sentindo-nos cada dia mais fortemente estimulado e impelido á obra pelo ardente desejo - em nós
ateado pelo sacratíssimo Coração de Jesus - de favorecei a reconciliação dos dissidentes, compreende que
esta admirável unidade não pode ser mais bem preparada e realizada do que em virtude da oração. Temos
presente ao Nosso espírito o exemplo de Cristo, que suplicou longamente seu Pai para que os seguidores
da sua doutrina fossem "uma coisa só" na fé e na caridade. Depois disso, que a prece da Virgem também
seja eficacíssima para este fim, disto temos uma prova eloqüente na história apostólica. Aquela página
que, enquanto nos apresenta a primeira reunião dos Discípulos, em suplicante espera da prometida efusão
do Espírito Santo, faz especial menção de Maria, em oração com eles: "Todos eles perseveravam unânimes
na oração com Maria, Mãe de Jesus" (At 1, 14).

Portanto, assim como a Igreja nascente justamente se uniu na oração a ela - a mais nobre fautora e
guardiã da unidade, - o mais possível oportuno é que outro tanto façam, nos nossos dias, os católicos;
especialmente durante o mês de Outubro, que Nós, já de longa data, temos querido dedicado e
consagrado à divina Mãe, com a recitação solene do Rosário, para implorar o auxílio dela nas presentes
angústias da Igreja. Acenda-se, pois, por toda parte o ardor por esta oração, com a finalidade precípua de
alcançar a santa unidade. Nada poderá ser mais suave e mais grato a Maria. Unida intimamente a Cristo,
ela deseja sobretudo e quer que aqueles que receberam o dom do mesmo batismo, por Ele instituído,
estejam também unidos, por uma mesma fé e por uma perfeita caridade, com Cristo e entre si mesmos.

16. Que, mediante o Rosário, os mistérios augustos desta fé penetrem tão profundamente nas almas, que
nós possamos - queira-o Deus! -"imitar aquilo que eles contêm, e alcançar o que prometem !"
Entrementes, em auspício dos divinos favores, e em atestado do Nosso afeto, concedemos de grande
coração a cada um de vós, ao vosso clero e ao vosso povo a Bênção Apostólica.

Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 20 de Setembro de 1896, décimo nono ano do Nosso Pontificado.

LEÃO PP. XIII

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_20091896_fidentem-piumque-
animum.html

CARTA ENCÍCLICA SATIS COGNITUM


DEL SUMO PONTÍFICE

LEÓN XIII

SOBRE LA UNIDAD DE LA IGLESIA

Introducción
1. Bien sabéis que una parte considerable de nuestros pensamientos y de nuestras preocupaciones tiene
por objeto esforzarnos en volver a los extraviados al redil que gobierna el soberano Pastor de las almas,
Jesucristo. Aplicando nuestra alma a ese objeto, Nos hemos pensado que sería utilísimo a tamaño designio
y a tan grande empresa de salvación trazar la imagen de la Iglesia, dibujando, por decirlo así, sus
contornos principales, y poner en relieve, como su distintivo más característico y más digno de especial
atención, la unidad, carácter insigne de la verdad y del invencible poder que el Autor divino de la Iglesia ha
impreso en su obra. Considerada en su forma y en su hermosura nativa, la Iglesia debe tener una acción
muy poderosa sobre las almas, y no es apartarse de la verdad decir que ese espectáculo puede disipar la
ignorancia y desvanecer las ideas falsas y las preocupaciones, sobre todo aquellas que no son hijas de la
malicia. Pueden también excitar en los hombres el amor a la Iglesia, un amor semejante a la caridad, bajo
cuyo impulso Jesucristo ha escogido a la Iglesia por su Esposa, rescatándola con su sangre divina; pues
Jesucristo amó a la Iglesia y se entregó El mismo por ella[1].

Si para volver a esta madre amantísima deben aquellos que no la conocen, o los que cometieron el error
de abandonarla, comprar ese retorno, desde luego, no al precio de su sangre (aunque a ese precio la pagó
Jesucristo), pero sí al de algunos esfuerzos y trabajos, bien leves por otra parte, verán claramente al
menos que esas condiciones no han sido impuestas a los hombres por una voluntad humana, sino por
orden y voluntad de Dios, y, por lo tanto, con la ayuda de la gracia celestial, experimentarán por sí mismos
la verdad de esta divina palabra: «Mi yugo es dulce y mi carga ligera»[2].

Por esto, poniendo nuestra principal esperanza en el «Padre de la luz, de quien desciende toda gracia y
todo don perfecto»[3], en aquel que sólo «da el acrecentamiento»[4]. Nos le pedimos, con vivas
instancias, se digne poner en Nos el don de persuadir.

2. Dios, sin duda, puede operar por sí mismo y por su sola virtud todo lo que realizan los seres creados;
pero, por un consejo misericordioso de su Providencia, ha preferido, para ayudar a los hombres, servirse
de los hombres. Por mediación y ministerio de los hombres da ordinariamente a cada uno, en el orden
puramente natural, la perfección que le es debida, y se vale de ellos, aun en el orden sobrenatural, para
conferirles la santidad y la salud.

Pero es evidente que ninguna comunicación entre los hombres puede realizarse sino por el medio de las
cosas exteriores y sensibles. Por esto el Hijo de Dios tomó la naturaleza humana, El, que teniendo la forma
de Dios..., se anonadó, tomando la forma de esclavo y haciéndose semejante a los hombres[5]: y así,
mientras vivió en la tierra, reveló a los hombres, conversando con ellos, su doctrina y sus leyes.

Pero como su misión divina debía ser perdurable y perpetua, se rodeó de discípulos, a los que dio parte de
su poder, y haciendo descender sobre ellos desde lo alto de los cielos «el Espíritu de verdad», les mandó
recorrer toda la tierra y predicar fielmente a todas las naciones lo que El mismo había enseñado y
prescrito, a fin de que, profesando su doctrina y obedeciendo sus leyes, el género humano pudiese adquirir
la santidad en la tierra y en el cielo la bienaventuranza eterna.

Naturaleza sacramental de la Iglesia

3. Tal es el plan a que obedece la constitución de la Iglesia, tales son los principios que han presidido su
nacimiento. Si miramos en ella el fin último que se propone y las causas inmediatas por las que produce la
santidad en las almas, seguramente la Iglesia es espiritual; pero si consideramos los miembros de que se
compone y los medios por los que los dones espirituales llegan hasta nosotros, la Iglesia es exterior y
necesariamente visible. Por signos que penetran en los ojos y por los oídos fue como los apóstoles
recibieron la misión de enseñar; y esta misión no la cumplieron de otro modo que por palabras y actos
igualmente sensibles. Así su voz, entrando por el oído exterior, engendraba la fe en las almas: «la fe viene
por la audición, y la audición por la palabra de Cristo»[6].

Y la fe misma, esto es, el asentimiento a la primera y soberana verdad, por su naturaleza, está encerrada
en el espíritu, pero debe salir al exterior por la evidente profesión que de ella se hace: «pues se cree de
corazón para la justicia; pero se confiesa por la boca para la salvación»[7]. Así, nada es más íntimo en el
hombre que la gracia celestial, que produce en él la salvación, pero exteriores son los instrumentos
ordinarios y principales por los que la gracia se nos comunica: queremos hablar de los sacramentos, que
son administrados con ritos especiales por hombres evidentemente escogidos para ese ministerio.
Jesucristo ordenó a los apóstoles y a los sucesores de los apóstoles que instruyeran y gobernaran a los
pueblos: ordenó a los pueblos que recibiesen su doctrina y se sometieran dócilmente a su autoridad. Pero
esas relaciones mutuas de derechos y de deberes en la sociedad cristiana no solamente no habrían podido
ser duraderas, pero ni aun habrían podido establecerse sin la mediación de los sentidos, intérpretes y
mensajeros de las cosas.

4. Por todas estas razones, la Iglesia es con frecuencia llamada en las sagradas letras un cuerpo, y también
el cuerpo de Cristo. «Sois el cuerpo de Cristo»[8]. Porque la Iglesia es un cuerpo visible a los ojos; porque
es el cuerpo de Cristo, es un cuerpo vivo, activo, lleno de savia, sostenido y animado como está por
Jesucristo, que lo penetra con su virtud, como, aproximadamente, el tronco de la viña alimenta y hace
fértiles a las ramas que le están unidas. En los seres animados, el principio vital es invisible y oculto en lo
más profundo del ser, pero se denuncia y manifiesta por el movimiento y la acción de los miembros; así, el
principio de vida sobrenatural que anima a la Iglesia se manifiesta a todos los ojos por los actos que
produce.

De aquí se sigue que están en un pernicioso error los que, haciéndose una Iglesia a medida de sus deseos,
se la imaginan como oculta y en manera alguna visible, y aquellos otros que la miran como una institución
humana, provista de una organización, de una disciplina y ritos exteriores, pero sin ninguna comunicación
permanente de los dones de la gracia divina, sin nada que demuestre por una manifestación diaria y
evidente la vida sobrenatural que recibe de Dios.

Lo mismo una que otra concepción son igualmente incompatibles con la Iglesia de Jesucristo, como el
cuerpo o el alma son por sí solos incapaces de constituir el hombre. El conjunto y la unión de estos dos
elementos es indispensable a la verdadera Iglesia, como la íntima unión del alma y del cuerpo es
indispensable a la naturaleza. La Iglesia no es una especie de cadáver; es el cuerpo de Cristo, animado con
su vida sobrenatural. Cristo mismo, jefe y modelo de la Iglesia, no está entero si se considera en El
exclusivamente la naturaleza humana y visible, como hacen los discípulos de Fotino o Nestorio, o
únicamente la naturaleza divina e invisible, como hacen los monofisitas; pero Cristo es uno por la unión de
las dos naturalezas, visible e invisible, y es uno en las dos: del mismo modo, su Cuerpo místico no es la
verdadera Iglesia sino a condición de que sus partes visibles tomen su fuerza y su vida de los dones
sobrenaturales y otros elementos invisibles; y de esta unión es de la que resulta la naturaleza de sus
mismas partes exteriores.

Mas como la Iglesia es así por voluntad y orden de Dios, así debe permanecer sin ninguna interrupción
hasta el fin de los siglos, pues de no ser así no habría sido fundada para siempre, y el fin mismo a que
tiende quedaría limitado en el tiempo y en el espacio; doble conclusión contraria a la verdad. Es cierto, por
consiguiente, que esta reunión de elementos visibles e invisibles, estando por la voluntad de Dios en la
naturaleza y la constitución íntima de la Iglesia, debe durar, necesariamente, tanto como la misma Iglesia
dure.

5. No es otra la razón en que se funda San Juan Crisóstomo cuando nos dice: «No te separes de la Iglesia.
Nada es más fuerte que la Iglesia. Tu esperanza es la Iglesia; tu salud es la Iglesia; tu refugio es la Iglesia.
Es más alta que el cielo y más ancha que la tierra. No envejece jamás, su vigor es eterno. Por eso la
Escritura, para demostrarnos su solidez inquebrantable, le da el nombre de montaña»[9]. San Agustín
añade: «Los infieles creen que la religión cristiana debe durar cierto tiempo en el mundo para luego
desaparecer. Durará tanto como el sol; y mientras el sol siga saliendo y poniéndose, es decir, mientras
dure el curso de los tiempos, la Iglesia de Dios, esto es, el Cuerpo de Cristo, no desaparecerá del
mundo»[10]. Y el mismo Padre dice en otro lugar: «La Iglesia vacilará si su fundamento vacila; pero ¿cómo
podrá vacilar Cristo? Mientras Cristo no vacile, la Iglesia no flaqueará jamás hasta el fin de los tiempos.
¿Dónde están los que dicen: La Iglesia ha desaparecido del mundo, cuando ni siquiera puede
flaquear?»[11].

Estos son los fundamentos sobre los que debe apoyarse quien busca la verdad. La Iglesia ha sido fundada
y constituida por Jesucristo nuestro Señor; por tanto, cuando inquirimos la naturaleza de la Iglesia, lo
esencial es saber lo que Jesucristo ha querido hacer y lo que ha hecho en realidad. Hay que seguir esta
regla cuando sea preciso tratar, sobre todo, de la unidad de la Iglesia, asunto del que nos ha parecido
bien, en interés de todo el mundo, hablar algo en las presentes letras.

Unicidad de la Iglesia

6. Sí, ciertamente, la verdadera Iglesia de Jesucristo es una; los testimonios evidentes y multiplicados de
las Sagradas Letras han fijado tan bien este punto, que ningún cristiano puede llevar su osadía a
contradecirlo. Pero cuando se trata de determinar y establecer la naturaleza de esta unidad, muchos se
dejan extraviar por varios errores. No solamente el origen de la Iglesia, sino todos los caracteres de su
constitución pertenecen al orden de las cosas que proceden de una voluntad libre; toda la cuestión
consiste, pues, en saber lo que en realidad ha sucedido, y por eso es preciso averiguar no de qué modo la
Iglesia podría ser una, sino qué unidad ha querido darle su Fundador.

Si examinamos los hechos, comprobaremos que Jesucristo no concibió ni instituyó una Iglesia formada de
muchas comunidades que se asemejan por ciertos caracteres generales, pero distintas unas de otras y no
unidas entre sí por aquellos vínculos que únicamente pueden dar a la Iglesia la individualidad y la unidad
de que hacemos profesión en el símbolo de la fe: «Creo en la Iglesia una»...

«La Iglesia está constituida en la unidad por su misma naturaleza; es una, aunque las herejías traten de
desgarrarla en muchas sectas. Decimos, pues, que la antigua y católica Iglesia es una, porque tiene la
unidad; de la naturaleza, de sentimiento, de principio, de excelencia... Además, la cima de perfección de la
Iglesia, como el fundamento de su construcción, consiste en la unidad; por eso sobrepuja a todo el mundo,
pues nada hay igual ni semejante a ella»[12]. Por eso, cuando Jesucristo habla de este edificio místico, no
menciona más que una Iglesia, que llama suya: «Yo edificaré mi Iglesia». Cualquiera otra que se quiera
imaginar fuera de ella no puede ser la verdadera Iglesia de Jesucristo.

7. Esto resulta más evidente aún si se considera el designio del divino Autor de la Iglesia. ¿Qué ha
buscado, qué ha querido Jesucristo nuestro Señor en el establecimiento y conservación de la Iglesia? Una
sola cosa: transmitir a la Iglesia la continuación de la misma misión del mismo mandato que El recibió de
su Padre.

Esto es lo que había decretado hacer y esto es lo que realmente hizo: «Como mi Padre me envió, os envío
a vosotros»[13]. «Como tú me enviaste al mundo, los he enviado también al mundo»[14]. En la misión de
Cristo entraba rescatar de la muerte y salvar «lo que había perecido»; esto es, no solamente algunas
naciones o algunas ciudades, sino la universalidad del género humano, sin ninguna excepción en el espacio
ni en el tiempo. «El Hijo del hombre ha venido... para que el mundo sea salvado por El»[15]. «Pues ningún
otro nombre ha sido dado a los hombres por el que podamos ser salvados»[16]. La misión, pues, de la
Iglesia es repartir entre los hombres y extender a todas las edades la salvación operada por Jesucristo y
todos los beneficios que de ella se siguen. Por esto, según la voluntad de su Fundador, es necesario que
sea única en toda la extensión del mundo y en toda la duración de los tiempos. Para que pudiera existir
una unidad más grande sería preciso salir de los límites de la tierra e imaginar un género humano nuevo y
desconocido.

8. Esta Iglesia única, que debía abrazar a todos los hombres, en todos los tiempos y en todos los lugares,
Isaías la vislumbró y señaló por anticipado cuando, penetrando con su mirada en lo porvenir, tuvo la visión
de una montaña cuya cima, elevada sobre todas las demás, era visible a todos los ojos y que representaba
la Casa de Dios, es decir, la Iglesia: «En los últimos tiempos, la montaña, que es la Casa del Señor, estará
preparada en la cima de las montañas»[17].

Pero esta montaña colocada sobre la cima de las montañas es única; única es esta Casa del Señor, hacia la
cual todas las naciones deben afluir un día en conjunto para hallar en ella la regla de su vida. «Y todas las
naciones afluirán hacia ella y dirán: Venid, ascendamos a la montaña del Señor, vamos a la Casa del Dios
de Jacob y nos enseñará sus caminos y marcharemos por sus senderos»[18]. Optato de Mileve dice a
propósito de este pasaje: «Está escrito en la profecía de Isaías: La ley saldrá de Sión, y la palabra de Dios,
de Jerusalén».
No es, pues, en la montaña de Sión donde Isaías ve el valle, sino en la montaña santa, que es la Iglesia, y
que llenando todo el mundo romano eleva su cima hasta el cielo... La verdadera Sión espiritual es, pues, la
Iglesia, en la cual Jesucristo ha sido constituido Rey por Dios Padre, y que está en todo el mundo, lo cual
es exclusivo de la Iglesia católica[19]. Y he aquí lo que dice San Agustín: «¿Qué hay más visible que una
montaña?» Y, sin embargo, hay montañas desconocidas que están situadas en un rincón apartado del
globo... Pero no sucede así con esa montaña, pues ella llena toda la superficie de la tierra y está escrito de
ella que está establecida sobre las cimas de las montañas[20].

9. Es preciso añadir que el Hijo de Dios decretó que la Iglesia fuese su propio Cuerpo místico, al que se
uniría para ser su Cabeza, del mismo modo que en el cuerpo humano, que tomó por la Encarnación, la
cabeza mantiene a los miembros en una necesaria y natural unión. Y así como tomó un cuerpo mortal
único que entregó a los tormentos y a la muerte para pagar el rescate de los hombres, así también tiene
un Cuerpo místico único en el que y por medio del cual hizo participar a los hombres de la santidad y de la
salvación eterna. «Dios le hizo (a Cristo) jefe de toda la Iglesia, que es su cuerpo»[21].

Los miembros separados y dispersos no pueden unirse a una sola y misma cabeza para formar un solo
cuerpo. Pues San Pablo dice: «Todos los miembros del cuerpo, aunque numerosos, no son sino un solo
cuerpo: así es Cristo»[22]. Y es por esto por lo que nos dice también que este cuerpo está unido y ligado.
«Cristo es el jefe, en virtud del que todo el cuerpo, unido y ligado por todas sus coyunturas que se prestan
mutuo auxilio por medio de operaciones proporcionadas a cada miembro, recibe su acrecentamiento para
ser edificado en la caridad»[23]. Así, pues, si algunos miembros están separados y alejados de los otros
miembros, no podrán pertenecer a la misma cabeza como el resto del cuerpo. «Hay —dice San Cipriano—
un solo Dios, un solo Cristo, una sola Iglesia de Cristo, una sola fe, un solo pueblo que, por el vínculo de la
concordia, está fundado en la unidad sólida de un mismo cuerpo. La unidad no puede ser amputada; un
cuerpo, para permanecer único, no puede dividirse por el fraccionamiento de su organismo»[24]. Para
mejor declarar la unidad de su Iglesia, Dios nos la presenta bajo la imagen de un cuerpo animado, cuyos
miembros no pueden vivir sino a condición de estar unidos con la cabeza y de tomar sin cesar de ésta su
fuerza vital; separados, han de morir necesariamente. «No puede (la Iglesia) ser dividida en pedazos por el
desgarramiento de sus miembros y de sus entrañas. Todo lo que se separe del centro de la vida no podrá
vivir por sí solo ni respirar»[25]. Ahora bien: ¿en qué se parece un cadáver a un ser vivo? «Nadie jamás ha
odiado a su carne, sino que la alimenta y la cuida como Cristo a la Iglesia, porque somos los miembros de
su cuerpo formados de su carne y de sus huesos»[26].

Que se busque, pues, otra cabeza parecida a Cristo, que se busque otro Cristo si se quiere imaginar otra
Iglesia fuera de la que es su cuerpo. «Mirad de lo que debéis guardaros, ved por lo que debéis velar, ved
lo que debéis tener. A veces se corta un miembro en el cuerpo humano, o más bien se le separa del
cuerpo una mano, un dedo, un pie. ¿Sigue el alma al miembro cortado? Cuando el miembro está en el
cuerpo, vive; cuando se le corta, pierde la vida. Así el hombre, en tanto que vive en el cuerpo de la Iglesia,
es cristiano católico; separado se hará herético. El alma no sigue al miembro amputado»[27].

La Iglesia de Cristo es, pues, única y, además, perpetua: quien se separa de ella se aparta de la voluntad y
de la orden de Jesucristo nuestro Señor, deja el camino de salvación y corre a su pérdida. «(Quien se
separa de la Iglesia para unirse a una esposa adúltera, renuncia a las promesas hechas a la Iglesia. Quien
abandona a la Iglesia de Cristo no logrará las recompensas de Cristo... Quien no guarda esta unidad, no
guarda la ley de Dios, ni guarda la fe del Padre y del Hijo, ni guarda la vida ni la salud»[28].

Unidad de la Iglesia

10. Pero aquel que ha instituido la Iglesia única, la ha instituido una; es decir, de tal naturaleza, que todos
los que debían ser sus miembros habían de estar unidos por los vínculos de una sociedad estrechísima,
hasta el punto de formar un solo pueblo, un solo reino, un solo cuerpo. «Sed un solo cuerpo y un solo
espíritu, como habéis sido llamados a una sola esperanza en vuestra vocación»[29].

En vísperas de su muerte, Jesucristo sancionó y consagró del modo más augusto su voluntad acerca de
este punto en la oración que dirigió a su Padre: «No ruego por ellos solamente, sino por aquellos que por
su palabra creerán en mí... a fin de que ellos también sean una sola cosa en nosotros... a fin de que sean
consumados en la unidad»[30]. Y quiso también que el vínculo de la unidad entre sus discípulos fuese tan
íntimo y tan perfecto que imitase en algún modo a su propia unión con su Padre: «os pido... que sean
todos una misma cosa, como vos mi Padre estáis en mí y yo en vos»[31].

Unidad de fe y comunión

11. Una tan grande y absoluta concordia entre los hombres debe tener por fundamento necesario la
armonía y la unión de las inteligencias, de la que se seguirá naturalmente la armonía de las voluntades y el
concierto en las acciones. Por esto, según su plan divino, Jesús quiso que la unidad de la fe existiese en su
Iglesia; pues la fe es el primero de todos los vínculos que unen al hombre con Dios, y a ella es a la que
debemos el nombre de fieles.

«Un solo Señor, una sola fe, un solo bautismo»[32], es decir, del mismo modo que no tienen más que un
solo Señor y un solo bautismo, así todos los cristianos del mundo no deben tener sino una sola fe. Por esto
el apóstol San Pablo no pide solamente a los cristianos que tengan los mismos sentimientos y huyan de las
diferencias de opinión, sino que les conjura a ello por los motivos más sagrados: «Os conjuro, hermanos
míos, por el nombre de nuestro Señor Jesucristo, que no tengáis más que un mismo lenguaje ni sufráis
cisma entre vosotros, sino que estéis todos perfectamente unidos en el mismo espíritu y en los mismos
sentimientos»[33]. Estas palabras no necesitan explicación, son por sí mismas bastante elocuentes.

La Sagrada Escritura

12. Además, aquellos que hacen profesión de cristianismo reconocen de ordinario que la fe debe ser una.
El punto más importante y absolutamente indispensable, aquel en que yerran muchos, consiste en discernir
de qué naturaleza es, de qué especie es esta unidad. Pues aquí, como Nos lo hemos dicho más arriba, en
semejante asunto no hay que juzgar por opinión o conjetura, sino según la ciencia de los hechos hay que
buscar y comprobar cuál es la unidad de la fe que Jesucristo ha impuesto a su Iglesia.

La doctrina celestial de Jesucristo, aunque en gran parte esté consignada en libros inspirados por Dios, si
hubiese sido entregada a los pensamientos de los hombres no podría por sí misma unir los espíritus. Con la
mayor facilidad llegaría a ser objeto de interpretaciones diversas, y esto no sólo a causa de la profundidad
y de los misterios de esta doctrina, sino por la diversidad de los entendimientos de los hombres y de la
turbación que nacería del choque y de la lucha de contrarias pasiones. De las diferencias de interpretación
nacería necesariamente la diversidad de los sentimientos, y de ahí las controversias, disensiones y
querellas, como las que estallaron en la Iglesia en la época más próxima a su origen: He aquí por qué
escribía San Ireneo, hablando de los herejes: «Confiesan las Escrituras, pero pervierten su
interpretación»[34]. Y San Agustín: «El origen de las herejías y de los dogmas perversos, que tienden lazos
a las almas y las precipitan en el abismo, está únicamente en que las Escrituras, que son buenas, se
entienden de una manera que no es buena»[35].

El Magisterio de los apóstoles y sus sucesores

13. Para unir los espíritus, para crear y conservar la concordia de los sentimientos, era necesario, además
de la existencia de las Sagradas Escrituras, otro principio. La sabiduría divina lo exige, pues Dios no ha
podido querer la unidad de la fe sin proveer de un modo conveniente a la conservación de esta unidad, y
las mismas Sagradas Escrituras indican claramente que lo ha hecho, como lo diremos más adelante.
Ciertamente, el poder infinito de Dios no está ligado ni constreñido a ningún medio determinado, y toda
criatura le obedece como un dócil instrumento. Es, pues, preciso buscar, entre todos los medios de que
disponía Jesucristo, cuál es el principio de unidad en la fe que quiso establecer.

Para esto hay que remontarse con el pensamiento a los primeros orígenes del cristianismo. Los hechos que
vamos a recordar están confirmados por las Sagradas Letras y son conocidos de todos.

Jesucristo prueba, por la virtud de sus milagros, su divinidad y su misión divina; habla al pueblo para
instruirle en las cosas del cielo y exige absolutamente que se preste entera fe a sus enseñanzas; lo exige
bajo la sanción de recompensas o de penas eternas. «Si no hago las obras de mi Padre, no me creáis»[36].
«Si no hubiese hecho entre ellos obras que ningún otro ha hecho no habrían pecado»[37]. «Pero si yo
hago esas obras y no queréis creer en mí, creed en mis obras»[38]. Todo lo que ordena, lo ordena con la
misma autoridad; en el asentimiento de espíritu que exige, no exceptúa nada, nada distingue. Aquellos,
pues, que escuchaban a Jesús, si querían salvarse, tenían el deber no sólo de aceptar en general toda su
doctrina, sino de asentir plenamente a cada una de las cosas que enseñaba. Negarse a creer, aunque sólo
fuera en un punto, a Dios cuando habla es contrario a la razón.

14. A1 punto de volverse al cielo, envía a sus apóstoles revistiéndolos del mismo poder con el que el Padre
le enviara, les ordenó que esparcieran y sembraran por todo el mundo su doctrina. «Todo poder me ha
sido dado en el cielo y sobre la tierra. Id y enseñad a todas las naciones... enseñadles a observar todo lo
que os he mandado»[39]. Todos los que obedezcan a los apóstoles serán salvos, y los que no obedezcan
perecerán.

«Quien crea y sea bautizado será salvo; quien no crea será condenado[40]. Y como conviene
soberanamente a la Providencia divina no encargar a alguno de una misión, sobre todo si es importante y
de gran valor, sin darle al mismo tiempo los medios de cumplirla, Jesucristo promete enviar a sus
discípulos el Espíritu de verdad, que permanecerá con ellos eternamente. «Si me voy, os lo enviaré (al
Paráclito)... y cuando este Espíritu de verdad venga sobre vosotros, os enseñará toda la verdad»[41]. «Y
yo rogaré a mi Padre, y El os enviará otro Paráclito para que viva siempre con vosotros; éste será el
Espíritu de verdad»[42]. «El os dará testimonio de mí, y vosotros también daréis testimonio»[43].

Además, ordenó aceptar religiosamente y observar santamente la doctrina de los apóstoles como la suya
propia. «Quien os escucha me escucha, y quien os desprecia me desprecia»[44].

Los apóstoles, pues, fueron enviados por Jesucristo de la misma manera que El fue enviado por su Padre:
«Como mi Padre me ha enviado, así os envío yo a vosotros»[45]. Por consiguiente, así como los apóstoles
y los discípulos estaban obligados a someterse a la palabra de Cristo, la misma fe debía ser otorgada a la
palabra de los apóstoles por todos aquellos a quienes instruían los apóstoles en virtud del mandato divino.
No era, pues, permitido repudiar un solo precepto de la doctrina de los apóstoles sin rechazar en aquel
punto la doctrina del mismo Jesucristo.

Seguramente la palabra de los apóstoles después de haber descendido a ellos el Espíritu Santo, resonó
hasta los lugares más apartados.

Donde ponían el pie se presentaban como los enviados de Jesús. «Es por El (Jesucristo) por quien hemos
recibido la gracia y el apostolado para hacer que obedezcan a la fe, para gloria de su nombre en todas las
naciones»[46]. Y en todas partes Dios hacía resplandecer bajo sus pasos la divinidad de su misión por
prodigios. «Y habiendo partido, predicaron por todas partes, y el Señor cooperaba con ellos y confirmaba
su palabra por los milagros que la acompañaban»[47].

¿De qué palabra se trata? De aquella, evidentemente, que abraza todo lo que habían aprendido de su
Maestro, pues ellos daban testimonio públicamente y a la luz del sol de que les era imposible callar nada de
lo que habían visto y oído.

15. Pero, ya lo hemos dicho, la misión de los apóstoles no era de tal naturaleza que pudiese perecer con
las personas de los apóstoles o para desaparecer con el tiempo, pues era una misión pública e instituida
para la salvación del género humano. Jesucristo, en efecto, ordenó a los apóstoles que predicasen «el
Evangelio a todas las gentes», y que «llevasen su nombre delante de los pueblos y de los reyes», y que le
sirviesen de testigos hasta en las extremidades de la tierra.

Y en cumplimiento de esta gran misión les prometió estar con ellos, y esto no por algunos años, o algunos
periodos de años, sino por todos los tiempos, «hasta la consumación de los siglos». Acerca de esto escribe
San Jerónimo: «Quien promete estar con sus discípulos hasta la consumación de los siglos, muestra con
esto que sus discípulos vivirán siempre, y que El mismo no cesará de estar con los creyentes»[48].

¿Y cómo había de suceder esto únicamente con los apóstoles, cuya condición de hombres les sujetaba a la
ley suprema de la muerte? La Providencia divina había, pues, determinado que el magisterio instituido por
Jesucristo no quedaría restringido a los límites de la vida de los apóstoles, sino que duraría siempre. Y, en
realidad, vemos que se ha transmitido y ha pasado como de mano en mano en la sucesión de los tiempos.

16. Los apóstoles, en efecto, consagraron a los obispos y designaron nominalmente a los que debían ser
sus sucesores inmediatos en el «ministerio de la palabra». Pero no fue esto solo: ordenaron a sus
sucesores que escogieran hombres propios para esta función y que les revistieran de la misma autoridad y
les confiasen a su vez el cargo de enseñar.

«Tú, pues, hijo mío, fortifícate en la gracia que está en Jesucristo, y lo que has escuchado de mí delante de
gran número de testigos, confíalo a los hombres fieles que sean capaces de instruir en ello a los
otros»[49]. Es, pues, verdad que, así como Jesucristo fue enviado por Dios y los apóstoles por Jesucristo,
del mismo modo los obispos y todos los que sucedieron a los apóstoles fueron enviados por los apóstoles.

«Los apóstoles nos han predicado el Evangelio enviados por nuestro Señor Jesucristo, y Jesucristo fue
enviado por Dios. La misión de Cristo es la de Dios, la de los apóstoles es la de Cristo, y ambas han sido
instituidas según el orden y por la voluntad de Dios... Los apóstoles predicaban el Evangelio por naciones y
ciudades; y después de haber examinado, según el espíritu de Dios, a los que eran las primicias de
aquellas cristiandades, establecieron los obispos y los diáconos para gobernar a los que habían de creer en
lo sucesivo... Instituyeron a los que acabamos de citar, y más tarde tomaron sus disposiciones para que,
cuando aquéllos murieran, otros hombres probados les sucedieran en su ministerio»[50].

Es, pues, necesario que de una manera permanente subsista, de una parte, la misión constante e
inmutable de enseñar todo lo que Jesucristo ha enseñado, y de otra, la obligación constante e inmutable
de aceptar y de profesar toda la doctrina así enseñada. San Cipriano lo expresa de un modo excelente en
estos términos: «Cuando nuestro Señor Jesucristo, en el Evangelio, declara que aquellos que no están con
El son sus enemigos, no designa una herejía en particular, sino denuncia como a sus adversarios a todos
aquellos que no están enteramente con El, y que no recogiendo con El ponen en dispersión su rebaño: El
que no está conmigo —dijo— está contra mí, y el que no recoge conmigo esparce»[51].

17. Penetrada plenamente de estos principios, y cuidadosa de su deber, la Iglesia nada ha deseado con
tanto ardor ni procurado con tanto esfuerzo cómo conservar del modo más perfecto la integridad de la fe.
Por esto ha mirado como a rebeldes declarados y ha lanzado de su seno a todos los que no piensan como
ella sobre cualquier punto de su doctrina.

Los arrianos, los montanistas, los novacianos, los cuartodecimanos, los eutiquianos no abandonaron,
seguramente, toda la doctrina católica, sino solamente tal o cual parte, y, sin embargo, ¿quién ignora que
fueron declarados herejes y arrojados del seno de la Iglesia? Un juicio semejante ha condenado a todos los
fautores de doctrinas erróneas que fueron apareciendo en las diferentes épocas de la historia. «Nada es
más peligroso que esos heterodoxos que, conservando en lo demás la integridad de la doctrina, con una
sola palabra, como gota de veneno, corrompen la pureza y sencillez de la fe que hemos recibido de la
tradición dominical, después apostólica»[52].

Tal ha sido constantemente la costumbre de la Iglesia, apoyada por el juicio unánime de los Santos Padres,
que siempre han mirado como excluido de la comunión católica y fuera de la Iglesia a cualquiera que se
separe en lo más mínimo de la doctrina enseñada por el magisterio auténtico. San Epifanio, San Agustín,
Teodoreto, han mencionado un gran número de herejías de su tiempo. San Agustín hace notar que otras
clases de herejías pueden desarrollarse, y que, si alguno se adhiere a una sola de ellas, por ese mismo
hecho se separa de la unidad católica.

«De que alguno diga que no cree en esos errores (esto es, las herejías que acaba de enumerar), no se
sigue que deba creerse y decirse cristiano católico. Pues puede haber y pueden surgir otras herejías que no
están mencionadas en esta obra, y cualquiera que abrazase una sola de ellas cesaría de ser cristiano
católico»[53].

18. Este medio, instituido por Dios para conservar la unidad de la fe, de que Nos hablamos, está expuesto
con insistencia por San Pablo en su epístola a los de Efeso, al exhortarles, en primer término, a conservar
la armonía de los corazones. «Aplicaos a conservar la unidad del espíritu por el vínculo de la paz»[54]; y
como los corazones no pueden estar plenamente unidos por la caridad si los espíritus no están conformes
en la fe, quiere que no haya entre todos ellos más que una misma fe. «Un solo Señor y una sola fe».

Y quiere una unidad tan perfecta que excluya todo peligro de error, «a fin de que no seamos como niños
vacilantes llevados de un lado a otro a todo viento de doctrina por la malignidad de los hombres, por la
astucia que arrastra a los lazos del error». Y enseña que esta regla debe ser observada no durante un
periodo de tiempo determinado, sino «hasta que lleguemos todos a la unidad de la fe, en la medida de los
tiempos de la plenitud de Cristo». Pero ¿dónde ha puesto Jesucristo el principio que debe establecer esta
unidad y el auxilio que debe conservarla? Helo aquí: «Ha hecho a unos apóstoles, a otros pastores y
doctores para la perfección de los santos, para la obra del ministerio, para la edificación del Cuerpo de
Cristo».

19. Esta es también la regla que desde la antigüedad más remota han seguido siempre y unánimemente
han defendido los Padres y los doctores. Escuchad a Orígenes: «Cuantas veces nos muestran los herejes
las Escrituras canónicas, a las que todo cristiano da su asentimiento y su fe, parecen decir: En nosotros
está la palabra de la verdad. Pero no debemos creerlos ni apartarnos de la primitiva tradición eclesiástica,
ni creer otra cosa que lo que las Iglesias de Dios nos han enseñado por la tradición sucesiva»[55].

Escuchad a San Ireneo: «La verdadera sabiduría es la doctrina de los apóstoles... que ha llegado hasta
nosotros por la sucesión de los obispos... al transmitirnos el conocimiento muy completo de las Escrituras,
conservado sin alteración»[56].

He aquí lo que dice Tertuliano: «Es evidente que toda doctrina, conforme con las de las Iglesias
apostólicas, madres y fuentes primitivas de la fe, debe ser declarada verdadera; pues que ella guarda sin
duda lo que las Iglesias han recibido de los apóstoles; los apóstoles, de Cristo; Cristo, de Dios... Nosotros
estamos siempre en comunión con las Iglesias apostólicas; ninguna tiene diferente doctrina; éste es el
mayor testimonio de la verdad»[57].

Y San Hilario: «Cristo, sentado en la barca para enseñar, nos hace entender que los que están fuera de la
Iglesia no pueden tener ninguna inteligencia con la palabra divina. Pues la barca representa a la Iglesia, en
la que sólo el Verbo de verdad reside y se hace escuchar, y los que están fuera de ella y fuera
permanecen, estériles e inútiles como la arena de la ribera, no pueden comprenderle»[58].

Rufino alaba a San Gregorio Nacianceno y a San Basilio porque «se entregaban únicamente al estudio de
los libros de la Escritura Santa, sin tener la presunción de pedir su interpretación a sus propios
pensamientos, sino que la buscaban en los escritos y en la autoridad de los antiguos, que, a su vez, según
era evidente, recibieron de la sucesión apostólica la regla de su interpretación»[59].

Integridad del depósito de la fe

20. Es, pues, incontestable, después de lo que acabamos de decir, que Jesucristo instituyó en la Iglesia un
magisterio vivo, auténtico y además perpetuo, investido de su propia autoridad, revestido del espíritu de
verdad, confirmado por milagros, y quiso, y muy severamente lo ordenó, que las enseñanzas doctrinales de
ese magisterio fuesen recibidas como las suyas propias. Cuantas veces, por lo tanto, declare la palabra de
ese magisterio que tal o cual verdad forma parte del conjunto de la doctrina divinamente revelada, cada
cual debe creer con certidumbre que eso es verdad; pues si en cierto modo pudiera ser falso, se seguiría
de ello, lo cual es evidentemente absurdo, que Dios mismo sería el autor del error de los hombres. «Señor,
si estamos en el error, vos mismo nos habéis engañado»[60]. Alejado, pues, todo motivo de duda, ¿puede
ser permitido a nadie rechazar alguna de esas verdades sin precipitarse abiertamente en la herejía, sin
separarse de la Iglesia y sin repudiar en conjunto toda la doctrina cristiana?

Pues tal es la naturaleza de la fe, que nada es más imposible que creer esto y dejar de creer aquello. La
Iglesia profesa efectivamente que la fe es «una virtud sobrenatural por la que, bajo la inspiración y con el
auxilio de la gracia de Dios, creemos que lo que nos ha sido revelado por El es verdadero; y lo creemos no
a causa de la verdad intrínseca de las cosas, vista con la luz natural de nuestra razón, sino a causa de la
autoridad de Dios mismo, que nos revela esas verdades y que no puede engañarse ni engañarnos»[61].
«Si hay, pues, un punto que haya sido revelado evidentemente por Dios y nos negamos a creerlo, no
creemos en nada de la fe divina». Pues el juicio que emite Santiago respecto de las faltas en el orden
moral hay que aplicarlo a los errores de entendimiento en el orden de la fe. «Quien se hace culpado en un
solo punto, se hace transgresor de todos»[62]. Esto es aún más verdadero en los errores del
entendimiento. No es, en efecto, en el sentido más propio como pueda llamarse transgresor de toda la ley
a quien haya cometido una sola falta moral, pues si puede aparecer despreciando a la majestad de Dios,
autor de toda la ley, ese desprecio no aparece sino por una suerte de interpretación de la voluntad del
pecador. Al contrario, quien en un solo punto rehúsa su asentimiento a las verdades divinamente
reveladas, realmente abdica de toda la fe, pues rehúsa someterse a Dios en cuanto a que es la soberana
verdad y el motivo propio de la fe. «En muchos puntos están conmigo, en otros solamente no están
conmigo; pero a causa de esos puntos en los que no están conmigo, de nada les sirve estar conmigo en
todo lo demás»[63].

Nada es más justo; porque aquellos que no toman de la doctrina cristiana sino lo que quieren, se apoyan
en su propio juicio y no en la fe, y al rehusar «reducir a servidumbre toda inteligencia bajo la obediencia de
Cristo[64] obedecen en realidad a sí mismos antes que a Dios. «Vosotros, que en el Evangelio creéis lo que
os agrada y os negáis a creer lo que os desagrada, creéis en vosotros mismos mucho más que en el
Evangelio»[65].

21. Los Padres del concilio Vaticano I nada dictaron de nuevo, pues sólo se conformaron con la institución
divina y con la antigua y constante doctrina de la Iglesia y con la naturaleza misma de la fe cuando
formularon este decreto: «Se deben creer como de fe divina y católica todas las verdades que están
contenidas en la palabra de Dios escrita o transmitida por la tradición, y que la Iglesia, bien por un juicio
solemne o por su magisterio ordinario y universal, propone como divinamente revelada»[66].

Siendo evidente que Dios quiere de una manera absoluta en su Iglesia la unidad de la fe, y estando
demostrado de qué naturaleza ha querido que fuese esa unidad, y por qué principio ha decretado asegurar
su conservación, séanos permitido dirigirnos a todos aquellos que no han resuelto cerrar los oídos a la
verdad y decirles con San Agustín: «Pues que vemos en ellos un gran socorro de Dios y tanto provecho y
utilidad, ¿dudaremos en acogernos en el seno de esta Iglesia que, según la confesión del género humano,
tiene en la Sede Apostólica y ha guardado por la sucesión de sus obispos la autoridad suprema, a despecho
de los clamores de los herejes que la asedian y han sido condenados, ya por el juicio del pueblo, ya por las
solemnes decisiones de los concilios, o por la majestad de los milagros? No querer darle el primer lugar es
seguramente producto de una soberana impiedad o de una arrogancia desesperada. Y si toda ciencia, aun
la más humilde y fácil, exige, para ser adquirida, el auxilio de un doctor o de un maestro, ¿puédese
imaginar un orgullo más temerario, tratándose de libros de los divinos misterios, negarse a recibirlo de
boca de sus intérpretes y sin conocerlos querer condenarlos?»[67].

Fe y vida cristiana

22. Es, pues, sin duda deber de la Iglesia conservar y propagar la doctrina cristiana en toda su integridad y
pureza. Pero su papel no se limita a eso, y el fin mismo para el que la Iglesia fue instituida no se agotó con
esta primera obligación. En efecto, por la salud del género humano se sacrificó Jesucristo, y a este fin
refirió todas sus enseñanzas y todos sus preceptos, y lo que ordenó a la Iglesia que buscase en la verdad
de la doctrina fue la santificación y la salvación de los hombres. Pero este designio tan grande y tan
excelente, no puede realizarse por la fe sola; es preciso añadir a ella el culto dado a Dios en espíritu de
justicia y de piedad, y que comprende, sobre todo, el sacrificio divino y la participación de los sacramentos,
y por añadidura la santidad de las leyes morales y de la disciplina.

Todo esto debe encontrarse en la Iglesia, pues está encargada de continuar hasta el fin de los siglos las
funciones del Salvador; la religión que, por la voluntad de Dios, en cierto modo toma cuerpo en ella es la
Iglesia sola quien la ofrece en toda su plenitud y perfección; e igualmente todos los medios de salvación
que, en el plan ordinario de la Providencia, son necesarios a los hombres, sólo ella es quien los procura.

Unidad de régimen
23. Pero así como la doctrina celestial no ha estado nunca abandonada al capricho o al juicio individual de
los hombres, sino que ha sido primeramente enseñada por Jesús, después confiada exclusivamente al
magisterio de que hemos hablado, tampoco al primero que llega entre el pueblo cristiano, sino a ciertos
hombres escogidos ha sido dada por Dios la facultad de cumplir y administrar los divinos misterios y el
poder de mandar y de gobernar.

Sólo a los apóstoles y a sus legítimos sucesores se refieren estas palabras de Jesucristo: «Id por todo el
mundo y predicad el Evangelio... bautizad a los hombres... haced esto en memoria mía... A quien
remitierais los pecados le serán remitidos». Del mismo modo, sólo a los apóstoles y a sus legítimos
sucesores se les ordenó apacentar el rebaño, esto es, gobernar con autoridad al pueblo cristiano, que por
este mandato quedó obligado a prestarles obediencia y sumisión. El conjunto de todas estas funciones del
ministerio apostólico está comprendido en estas palabras de San Pablo: «Que los hombres nos miren como
a ministros de Cristo y dispensadores de los misterios de Dios»[68].

De este modo, Jesucristo llamó a todos los hombres sin excepción, a los que existían en su tiempo y a los
que debían de existir en adelante, para que le siguiesen como a Jefe y Salvador, y no aislada e
individualmente, sino todos en conjunto, unidos en una asociación de personas, de corazones, para que de
esta multitud resultase un solo pueblo, legítimamente constituido en sociedad; un pueblo verdaderamente
uno por la comunidad de fe, de fin y de medios apropiados a éste; un pueblo sometido a un solo y mismo
poder.

De hecho, todos los principios naturales que entre los hombres crean espontáneamente la sociedad
destinada a proporcionarles la perfección de que su naturaleza es capaz, fueron establecidos por Jesucristo
en la Iglesia, de modo que, en su seno, todos los que quieran ser hijos adoptivos de Dios pueden llegar a
la perfección conveniente a su dignidad y conservarla, y así lograr su salvación. La Iglesia, pues, como ya
hemos indicado, debe servir a los hombres de guía en el camino del cielo, y Dios le ha dado la misión de
juzgar y de decidir por sí misma de todo lo que atañe a la religión, y de administrar, según su voluntad,
libremente y sin cortapisas de ningún género, los intereses cristianos.

24. Es, por lo tanto, no conocerla bien o calumniarla injustamente el acusarla de querer invadir el dominio
propio de la sociedad civil o de poner trabas a los derechos de los soberanos. Todo lo contrario; Dios ha
hecho de la Iglesia la más excelente de todas las sociedades, pues el fin a que se dirige sobrepuja en
nobleza al fin de las demás sociedades, tanto como la gracia divina sobrepuja a la naturaleza y los bienes
inmortales son superiores a las cosas perecederas.

Por su origen es, pues, la Iglesia una sociedad divina; por su fin y por los medios inmediatos que la
conducen es sobrenatural; por los miembros de que se compone, y que son hombres, es una
sociedad humana. Por esto la vemos designada en las Sagradas Escrituras con los nombres que convienen
a una sociedad perfecta. Llámasela no solamente Casa de Dios, la Ciudad colocada sobre la montaña y
donde todas las naciones deben reunirse, sino también Rebaño que debe gobernar un solo pastor y en el
que deben refugiarse todas las ovejas de Cristo; también es llamada Reino suscitado por Dios y que durará
eternamente; en fin, Cuerpo de Cristo, Cuerpo místico, sin duda, pero vivo siempre, perfectamente
formado y compuesto de gran número de miembros, cuya función es diferente, pero ligados entre sí y
unidos bajo el imperio de la Cabeza, que todo lo dirige.

Y pues es imposible imaginar una sociedad humana verdadera y perfecta que no esté gobernada por un
poder soberano cualquiera, Jesucristo debe haber puesto a la cabeza de la Iglesia un jefe supremo, a quien
toda la multitud de los cristianos fuese sometida y obediente. Por esto también, del mismo modo que la
Iglesia, para ser una en su calidad de reunión de los fieles, requiere necesariamente la unidad de la fe,
también para ser una en cuanto a su condición de sociedad divinamente constituida ha de tener de
derecho divino la unidad de gobierno, que produce y comprende la unidad de comunión. «La unidad de la
Iglesia debe ser considerada bajo dos aspectos: primero, el de la conexión mutua de los miembros de la
Iglesia o la comunicación que entre ellos existe, y en segundo lugar, el del orden, que liga a todos los
miembros de la Iglesia a un solo jefe[69].

Por aquí se puede comprender que los hombres no se separan menos de la unidad de la Iglesia por
el cisma que por la herejía. «Se señala como diferencia entre la herejía y el cisma que la herejía profesa un
dogma corrompido, y el cisma, consecuencia de una disensión entre el episcopado, se separa de la
Iglesia»[70].

Estas palabras concuerdan con las de San Juan Crisóstomo sobre el mismo asunto: «Digo y protesto que
dividir a la Iglesia no es menor mal que caer en la herejía»[71]. Por esto, si ninguna herejía puede ser
legítima, tampoco hay cisma que pueda mirarse como promovido por un buen derecho. «Nada es más
grave que el sacrilegio del cisma: no hay necesidad legítima de romper la unidad»[72].

El Primado de Pedro

25. ¿Y cuál es el poder soberano a que todos los cristianos deben obedecer y cuál es su naturaleza? Sólo
puede determinarse comprobando y conociendo bien la voluntad de Cristo acerca de este punto.
Seguramente Cristo es el Rey eterno, y eternamente, desde lo alto del cielo, continúa dirigiendo y
protegiendo invisiblemente su reino; pero como ha querido que este reino fuera visible, ha debido designar
a alguien que ocupe su lugar en la tierra después que él mismo subió a los cielos.

«Si alguno dice que el único jefe y el único pastor es Jesucristo, que es el único esposo de la Iglesia única,
esta respuesta no es suficiente. Es cierto, en efecto, que el mismo Jesucristo obra los sacramentos en la
Iglesia. El es quien bautiza, quien remite los pecados; es el verdadero Sacerdote que se ofrece sobre el
altar de la cruz y por su virtud se consagra todos los días su cuerpo sobre el altar, y, no obstante, como no
debía permanecer con todos los fieles por su presencia corpórea, escogió ministros por cuyo medio
pudieran dispensarse a los fieles los sacramentos de que acabamos de hablar, como lo hemos dicho más
arriba (c.74). Del mismo modo, porque debía sustraer a la Iglesia su presencia corporal, fue preciso que
designara a alguien para que, en su lugar, cuidase de la Iglesia universal. Por eso dijo a Pedro antes de su
ascensión: "Apacienta mis ovejas"»[73].

26. Jesucristo, pues, dio a Pedro a la Iglesia por jefe soberano, y estableció que este poder, instituido
hasta el fin de los siglos para la salvación de todos, pasase por herencia a los sucesores de Pedro, en los
que el mismo Pedro se sobreviviría perpetuamente por su autoridad. Seguramente al bienaventurado
Pedro, y fuera de él a ningún otro, se hizo esta insigne promesa: «Tú eres Pedro, y sobre esta piedra
edificaré mi Iglesia»[74]. «Es a Pedro a quien el Señor habló; a uno solo, a fin de fundar 1a unidad por
uno solo»[75].

«En efecto, sin ningún otro preámbulo, designa por su nombre al padre del apóstol y al apóstol mismo (Tú
eres bienaventurado, Simón, hijo de Jonás), y no permitiendo ya que se le llame Simón, reivindica para él
en adelante como suyo en virtud de su poder, y quiere por una imagen muy apropiada que así se llame al
nombre de Pedro, porque es la piedra sobre la que debía fundar su Iglesia»[76].

Según este oráculo, es evidente que, por voluntad y orden de Dios, la Iglesia está establecida sobre el
bienaventurado Pedro, como el edificio sobre los cimientos. Y pues la naturaleza y la virtud propia de los
cimientos es dar cohesión al edificio por la conexión íntima de sus diferentes partes y servir de vínculo
necesario para la seguridad y solidez de toda la obra, si el cimiento desaparece, todo el edificio se
derrumba. El papel de Pedro es, pues, el de soportar a la Iglesia y mantener en ella la conexión y la solidez
de una cohesión indisoluble. Pero ¿cómo podría desempeñar ese papel si no tuviera el poder de mandar,
defender y juzgar; en una palabra: un poder de jurisdicción propio y verdadero? Es evidente que los
Estados y las sociedades no pueden subsistir sin un poder de jurisdicción. Una primacía de honor, o el
poder tan modesto de aconsejar y advertir que se llama poder de dirección, son incapaces de prestar a
ninguna sociedad humana un elemento eficaz de unidad y de solidez.

27. Por el contrario, el verdadero poder de que hablamos está declarado y afirmado con estas palabras: «Y
las puertas del infierno no prevalecerán contra ella».

«¿Qué es decir contra ella? ¿Es contra la piedra sobre la que Jesucristo edificó su Iglesia? ¿Es contra la
Iglesia? La frase resulta ambigua. ¿Será para significar que la piedra y la Iglesia no son sino una misma
cosa? Sí; eso es, a lo que creo, la verdad; pues las puertas del infierno no prevalecerán ni contra la piedra
sobre la que Jesucristo fundó la Iglesia, ni contra la Iglesia misma»[77]. He aquí el alcance de esta divina
palabra: La Iglesia apoyada en Pedro, cualquiera que sea la habilidad que desplieguen sus enemigos, no
podrá sucumbir jamás ni desfallecer en lo más mínimo.

«Siendo la Iglesia el edificio de Cristo, quien sabiamente ha edificado su casa sobre piedra, no puede estar
sometida a las puertas del infierno; éstas pueden prevalecer contra quien se encuentre fuera de la piedra,
fuera de la Iglesia, pero son impotentes contra ésta»[78]. Si Dios ha confiado su Iglesia a Pedro, ha sido
con el fin de que ese sostén invisible la conserve siempre en toda su integridad. La ha investido de la
autoridad, porque para sostener real y eficazmente una sociedad humana, el derecho de mandar es
indispensable a quien la sostiene.

28. Jesús añade aún: «Y te daré las llaves del reino de los cielos», y es claro que continúa hablando de la
Iglesia, de esta Iglesia que acaba de llamar suya y que ha declarado querer edificar sobre Pedro como
sobre su fundamento. La Iglesia ofrece, en efecto, la imagen no sólo de un edificio, sino de un reino; y
además nadie ignora que las llaves son la insignia ordinaria de la autoridad. Así, cuando Jesús promete dar
a Pedro las llaves del reino de los cielos, promete darle el poder y la autoridad de la Iglesia. «El Hijo le ha
dado (a Pedro) la misión de esparcir en el mundo entero el conocimiento del Padre y del Hijo y ha dado a
un hombre mortal todo el poder de los cielos al confiar las llaves a Pedro, que ha extendido la Iglesia hasta
las extremidades del mundo y que la ha mostrado más inquebrantable que el cielo»[79].

29. Lo que sigue tiene también el mismo sentido: «Todo lo que atares en la tierra será también atado en el
cielo, y lo que desatares en la tierra será desatado en el cielo». Esta expresión figurada: atar y desatar,
designa el poder de establecer leyes y el de juzgar y castigar. Y Jesucristo afirma que ese poder tendrá
tanta extensión y tal eficacia, que todos los decretos dados por Pedro serán ratificados por Dios. Este
poder es, pues, soberano y de todo punto independiente, porque no hay sobre la tierra otro poder superior
al suyo que abrace a toda la Iglesia y a todo lo que está confiado a la Iglesia.

30. La promesa hecha a Pedro fue cumplida cuando Jesucristo nuestro Señor, después de su resurrección,
habiendo preguntado por tres veces a Pedro si le amaba más que los otros, le dijo en tono imperativo:
«Apacienta mis corderos... apacienta mis ovejas»[80].

Es decir, que a todos los que deben estar un día en su aprisco les envía a Pedro como a su verdadero
pastor. «Si el Señor pregunta lo que no le ofrece duda, no quiere, indudablemente, instruirse, sino instruir
a quien, a punto de subir al cielo, nos dejaba por Vicario de su amor... Y porque sólo entre todos Pedro
profesaba este amor, es puesto a la cabeza de los más perfectos para gobernarlos, por ser él mismo más
perfecto»[81]. El deber y el oficio del pastor es guiar al rebaño, velar por su salud, procurándole pastos
saludables, librándole de los peligros, descubriendo los lazos y rechazando los ataques violentos; en una
palabra: ejerciendo la autoridad del gobierno. Y pues Pedro ha sido propuesto como pastor al rebaño de
fieles, ha recibido el poder de gobernar a todos los hombres, por cuya salvación Jesucristo dio su sangre
«¿Y por qué vertió su sangre? Para rescatar a esas ovejas que ha confiado a Pedro y a sus sucesores»[82].

31. Y porque es necesario que todos los cristianos estén unidos entre sí por la comunidad de una fe
inmutable, nuestro Señor Jesucristo, por la virtud de sus oraciones, obtuvo para Pedro que en el ejercicio
de su poder no desfalleciera jamás su fe. «He orado por ti a fin de que tu fe no desfallezca»[83].

Y le ordenó además que, cuantas veces lo pidieran las circunstancias, comunicase a sus hermanos la luz y
la energía de su alma: «Confirma a tus hermanos»[84]. Aquel, pues, a quien, designado como fundamento
de la Iglesia, quiere que sea columna de la fe. Pues que de su propia autoridad le dio el reino, no podía
afirmar su fe de otro modo que llamándole Piedra y designándole como el fundamento que debía afirmar
su Iglesia[85].

Soberanía de Cristo

32. De aquí que ciertos nombres que designan muy grandes cosas y que «pertenecen en propiedad a
Jesucristo en virtud de su poder, Jesús mismo ha querido hacerlas comunes a El y a Pedro por
participación[86], a fin de que la comunidad de títulos manifestase la comunidad del poder. Así, El, que es
la piedra principal del ángulo sobre la que todo el edificio construido se eleva como un templo sagrado en
el Señor»[87], ha establecido a Pedro como la piedra sobre la que debía estar apoyada su Iglesia. «Cuando
dice: Tú eres la piedra, esta palabra le confiere un hermoso título de nobleza. Y, sin embargo, es la piedra,
no como Cristo es la piedra, sino como Pedro puede ser la piedra. Cristo es esencialmente la piedra
inquebrantable, y por ésta es por quien Pedro es la piedra. Porque Cristo comunica sus dignidades sin
empobrecerse... Es sacerdote y hace sacerdotes... Es piedra y hace de su apóstol la piedra»[88].

Es, además, el Rey de la Iglesia, «que posee la llave de David; cierra, y nadie puede abrir; abre, y nadie
puede cerrar»[89], y por eso, al dar las llaves a Pedro, le declara jefe de la sociedad cristiana. Es también
el Pastor supremo, que a sí mismo se llama el Buen Pastor[90], y por eso también ha nombrado a Pedro
pastor de sus corderos y ovejas. Por esto dice San Crisóstomo:

«Era el principal entre los apóstoles, era como la boca de los otros discípulos y la cabeza del cuerpo
apostólico... Jesús, al decirle que debe tener en adelante confianza, porque la mancha de su negación está
ya borrada, le confía el gobierno de sus hermanos. Si tú me amas, sé jefe de tus hermanos»[91].
Finalmente, aquel que confirma «en toda buena obra y en toda buena palabra»[92] es quien manda a
Pedro que confirme a sus hermanos.

San León el Grande dice con razón: «Del seno del mundo entero, Pedro sólo ha sido elegido para ser
puesto a la cabeza de todas las naciones llamadas, de todos los apóstoles, de todos los Padres de la
Iglesia; de tal suerte que, aunque haya en el pueblo de Dios muchos pastores, Pedro, sin embargo, rige
propiamente a todos los que son principalmente regidos por Cristo»[93]. Sobre el mismo asunto escribe
San Gregorio el Grande al emperador Mauricio Augusto: «Para todos los que conocen el Evangelio, es
evidente que, por la palabra del Señor, el cuidado de toda la Iglesia ha sido confiado al santo apóstol
Pedro, jefe de todos los apóstoles... Ha recibido las llaves del reino de los cielos, el poder de atar y desatar
le ha sido concedido, y el cuidado y el gobierno de toda la Iglesia le ha sido confiado»[94].

Los sucesores de Pedro

33. Y pues esta autoridad, al formar parte de la constitución y de la organización de la Iglesia como su
elemento principal, es el principio de la unidad, el fundamento de la seguridad y de la duración perpetua,
se sigue que de ninguna manera puede desaparecer con el bienaventurado Pedro, sino que debía
necesariamente pasar a sus sucesores y ser transmitida de uno a otro. «La disposición de la verdad
permanece, pues el bienaventurado Pedro, perseverando en la firmeza de la piedra, cuya virtud ha
recibido, no puede dejar el timón de la Iglesia, puesto en su mano»[95].

Por esto los Pontífices, que suceden a Pedro en el episcopado romano, poseen de derecho divino el poder
supremo de la Iglesia. «Nos definimos que la Santa Sede Apostólica y el Pontífice Romano poseen la
primacía sobre el mundo entero, y que el Pontífice Romano es el sucesor del bienaventurado Pedro,
Príncipe de los Apóstoles, y que es el verdadero Vicario de Jesucristo, el Jefe de toda la Iglesia, el Padre y
el Doctor de todos los cristianos, y que a él, en la persona del bienaventurado Pedro, ha sido dado por
nuestro Señor Jesucristo el pleno poder de apacentar, regir y gobernar la Iglesia universal; así como está
contenido tanto en las actas de los concilios ecuménicos como en los sagrados cánones»[96]. El cuarto
concilio de Letrán dice también: «La Iglesia romana..., por la disposición del Señor, posee el principado del
poder ordinario sobre las demás Iglesias, en su cualidad de madre y maestra de todos los fieles de Cristo».

34. Tal había sido antes el sentimiento unánime de la antigüedad, que sin la menor duda ha mirado y
venerado a los Obispos de Roma como a los sucesores legítimos del bienaventurado Pedro. ¿Quién podrá
ignorar cuán numerosos y cuán claros son acerca de este punto los testimonios de los Santos Padres? Bien
elocuente es el de San Ireneo, que habla así de la Iglesia romana: «A esta Iglesia, por su preeminencia
superior, debe necesariamente reunirse toda la Iglesia»[97].

San Cipriano afirma también de la Iglesia romana que es «la raíz y madre de la Iglesia católica[98], la
Cátedra de Pedro y la Iglesia principal, aquella de donde ha nacido la unidad sacerdotal»[99]. La llama
«Cátedra de Pedro», porque está ocupada por el sucesor de Pedro; «Iglesia principal», a causa del
principado conferido a Pedro y a sus legítimos sucesores; «aquella de donde ha nacido la unidad», porque,
en la sociedad cristiana, la causa eficiente de la unidad es la Iglesia romana.
Por esto San Jerónimo escribe lo que sigue a Dámaso: «Hablo al sucesor del Pescador y al discípulo de la
Cruz... Estoy ligado por la comunión a Vuestra Beatitud, es decir, a la Cátedra de Pedro. Sé que sobre esa
piedra se ha edificado la Iglesia»[100].

El método habitual de San Jerónimo para reconocer si un hombre es católico es saber si está unido a la
Cátedra romana de Pedro. «Si alguno está unido a la Cátedra romana de Pedro, ése es mi hombre»[101].
Por un método análogo, San Agustín declara abiertamente que en la Iglesia romana está siempre
contenido lo principal de la Cátedra apostólica[102], y afirma que quien se separa de la fe romana no es
católico. «No puede creerse que guardáis la fe católica los que no enseñáis que se debe guardar la fe
romana»[103].

Y lo mismo San Cipriano: «Estar en comunión con Cornelio es estar en comunión con la Iglesia
católica»[104].

El abad Máximo enseña igualmente que el sello de la verdadera fe y de la verdadera comunión consiste en
estar sometido al Pontífice Romano. «Quien no quiera ser hereje ni sentar plaza de tal no trate de
satisfacer a éste ni al otro... Apresúrese a satisfacer en todo a la Sede de Roma. Satisfecha la Sede de
Roma, en todas partes y a una sola voz le proclamarán pío y ortodoxo. Y el que de ello quiera estar
persuadido, será en vano que se contente con hablar si no satisface y si no implora .al bienaventurado
Papa de la santísima Iglesia de los Romanos, esto es, la Sede apostólica». Y he aquí, según él, la causa y
la explicación de este hecho... La Iglesia romana ha recibido del Verbo de Dios encarnado, y según los
santos concilios, según los santos cánones y las definiciones posee, sobre la universalidad de las santas
Iglesias de Dios que existen sobre la superficie de la tierra, el imperio y la autoridad, en todo y por todo, y
el poder de atar y desatar. Pues cuando ella ata y desata, el Verbo, que manda a las virtudes celestiales,
ata y desata también en el cielo[105].

35. Era esto, pues, un artículo de la fe cristiana; era un punto reconocido y observado constantemente, no
por una nación o por un siglo, sino por todos los siglos, y por Oriente no menos que por Occidente,
conforme recordaba el sínodo de Efeso, sin levantar la menor contradicción el sacerdote Felipe, legado del
Pontífice Romano: «No es dudoso para nadie y es cosa conocida en todos los tiempos que el Santo y
bienaventurado Pedro, Príncipe y Jefe de los apóstoles, columna de la fe y fundamento de la Iglesia
católica, recibió de nuestro Señor Jesucristo, Salvador y Redentor del género humano, las llaves del reino,
y que el poder de atar y desatar los pecados fue dado a ese mismo apóstol, quien hasta el presente
momento y siempre vive en sus sucesores y ejerce por medio de ellos su autoridad»[106]. Todo el mundo
conoce la sentencia del concilio de Calcedonia sobre el mismo asunto: «Pedro ha hablado... por boca de
León», sentencia a la que la voz del tercer concilio de Constantinopla respondió como un eco: «El soberano
Príncipe de los apóstoles combatía al lado nuestro, pues tenemos en nuestro favor su imitador y su sucesor
en su Sede... No se veía al exterior (mientras se leía la carta del Pontífice Romano) más que el papel y la
tinta, y era Pedro quien hablaba por boca de Agatón»[107]. En la fórmula de profesión de fe católica,
propuesta en términos precisos por Hormisdas en los comienzos del siglo VI y suscrita por el emperador
Justiniano y los patriarcas Epifanio, Juan y Mennas, se expresó el mismo pensamiento con gran vigor:
«Como la sentencia de nuestro Señor Jesucristo, que dice: "Tú eres Pedro, y sobre esta piedra edificaré mi
Iglesia", no puede ser desatendida, lo que ha dicho está confirmado por la realidad de los hechos, pues en
la Sede Apostólica la religión católica se ha conservado sin ninguna mancha»[108].

No queremos enumerar todos los testimonios; pero, no obstante, nos place recordar la fórmula con que
Miguel Paleólogo hizo su profesión de fe en el segundo concilio de Lyón: «La Santa Iglesia romana posee
también el soberano y pleno primado y principal sobre la Iglesia católica universal, y reconoce con verdad y
humildad haber recibido este primado y principado con la plenitud del poder del Señor mismo, en la
persona del bienaventurado Pedro, príncipe o jefe de los apóstoles, y de quien el Pontífice romano es el
sucesor. Y por lo mismo que está encargado de defender, antes que las demás, la verdad de la fe, también
cuando se levantan dificultades en puntos de fe, es a su juicio al que las demás deben atenerse»[109].

El Colegio episcopal

36. De que el poder de Pedro y de sus sucesores es pleno y soberano no se ha de deducir, sin embargo,
que no existen otros en la Iglesia. Quien ha establecido a Pedro como fundamento de la Iglesia, también
«ha escogido doce de sus discípulos, a los que dio el nombre de apóstoles»[110]. Así, del mismo modo que
la autoridad de Pedro es necesariamente permanente y perpetua en el Pontificado romano, también los
obispos, en su calidad de sucesores de los apóstoles, son los herederos del poder ordinario de los
apóstoles, de tal suerte que el orden episcopal forma necesariamente parte de la constitución íntima de la
Iglesia. Y aunque la autoridad de los obispos no sea ni plena, ni universal, ni soberana, no debe mirárselos
como a simples Vicarios de los Pontífices romanos, pues poseen una autoridad que les es propia, y llevan
en toda verdad el nombre de Prelados ordinarios de los pueblos que gobiernan.

37. Pero como el sucesor de Pedro es único, mientras que los de los apóstoles son muy numerosos,
conviene estudiar qué vínculos, según la constitución divina, unen a estos últimos al Pontífice Romano. Y
desde luego la unión de los obispos con el sucesor de Pedro es de una necesidad evidente y que no puede
ofrecer la menor duda; pues si este vínculo se desata, el pueblo cristiano mismo no es más que una
multitud que se disuelve y se disgrega, y no puede ya en modo alguno formar un solo cuerpo y un solo
rebaño. «La salud de la Iglesia depende de la dignidad del soberano sacerdote: si no se atribuye a éste un
poder aparte y sobre todos los demás poderes, habrá en la Iglesia tantos cismas como sacerdotes»[111].

Por esto hay necesidad de hacer aquí una advertencia importante. Nada ha sido conferido a los apóstoles
independientemente de Pedro; muchas cosas han sido conferidas a Pedro aislada e independientemente de
los apóstoles. San Juan Crisóstomo, explicando las palabras de Jesucristo (Jn 21,15), se pregunta: «¿Por
qué dejando a un lado a los otros se dirige Cristo a Pedro?», y responde formalmente: «Porque era el
principal entre los apóstoles, como la boca de los demás discípulos y el jefe del cuerpo apostólico»[112].
Sólo él, en efecto, fue designado por Cristo para fundamento de la Iglesia. A él le fue dado todo el poder
de atar y de desatar; a él sólo confió el poder de apacentar el rebaño. Al contrario, todo lo que los
apóstoles han recibido en lo que se refiere al ejercicio de funciones y autoridad lo han recibido
conjuntamente con Pedro. «Si la divina Bondad ha querido que los otros príncipes de la Iglesia tengan
alguna cosa en común con Pedro, lo que no ha rehusado a los demás no se les ha dado jamás sino con
él». «El solo ha recibido muchas cosas, pero nada se ha concedido a ninguno sin su participación»[113].

Por donde se ve claramente que los obispos perderían el derecho y el poder de gobernar si se separasen
de Pedro o de sus sucesores. Por esta separación se arrancan ellos mismos del fundamento sobre que
debe sustentarse todo el edificio y se colocan fuera del mismo edificio; por la misma razón quedan
excluidos del rebaño que gobierna el Pastor supremo y desterrados del reino cuyas llaves ha dado Dios a
Pedro solamente.

La necesaria unión con Pedro

38. Estas consideraciones hacen que se comprenda el plan y el designio de Dios en la constitución de la
sociedad cristiana. Este plan es el siguiente: el Autor divino de la Iglesia, al decretar dar a ésta la unidad
de la fe, de gobierno y de comunión, ha escogido a Pedro y a sus sucesores para establecer en ellos el
principio y como el centro de la unidad. Por esto escribe San Cipriano: hay, para llegar a la fe, una
demostración fácil que resume la verdad. El Señor se dirige a Pedro en estos términos: «Te digo que eres
Pedro»... Es, pues, sobre uno sobre quien edifica la Iglesia. Y aunque después de su resurrección confiere
a todos los apóstoles un poder igual, y les dice: «Como mi Padre me envió...», no obstante, para poner la
unidad en plena luz, coloca en uno solo, por su autoridad, el origen y el punto de partida de esta misma
unidad[114].

Y San Optato de Mileve: «Tú sabes muy bien —escribe—, tú no puedes negarlo, que es a Pedro el primero
a quien ha sido conferida la Cátedra episcopal en la ciudad de Roma; es en la que está sentado el jefe de
los apóstoles, Pedro, que por esto ha sido llamado Cefas. En esta Cátedra única es en la que todos debían
guardar la unidad, a fin de que los demás apóstoles no pudiesen atribuírsela cada uno en su Sede, y que
fuera en adelante cismático y prevaricador quien elevara otra Cátedra contra esta Cátedra única»[115].

De aquí también esta sentencia del mismo San Cipriano, según la que la herejía y el cisma se producen y
nacen del hecho de negar al poder supremo la obediencia que le es debida: «La única fuente de donde han
surgido las herejías y de donde han nacido los cismas es que no se obedece al Pontífice de Dios ni se
quiere reconocer en la Iglesia un solo Pontífice y un solo juez, que ocupa el lugar de Cristo»[116].
39. Nadie, pues, puede tener parte en la autoridad si no está unido a Pedro, pues sería absurdo pretender
que un hombre excluido de la Iglesia tuviese autoridad en la Iglesia. Fundándose en esto, Optato de
Mileve, reprendía así a los donatistas: «Contra las puertas del infierno, como lo leemos en el Evangelio, ha
recibido las llaves de salud Pedro, es decir, nuestro jefe, a quien Jesucristo ha dicho: "Te daré las llaves del
reino de los cielos, y las puertas del infierno no triunfarán jamás de ellas". ¿Cómo, pues, tratáis de
atribuiros las llaves del reino de los cielos, vosotros que combatís la cátedra de Pedro?»[117]

Pero el orden de los obispos no puede ser mirado como verdaderamente unido a Pedro, de la manera que
Cristo lo ha querido, sino en cuanto está sometido y obedece a Pedro; sin esto, se dispersa necesariamente
en una multitud en la que reinan la confusión y el desorden. Para conservar la unidad de fe y comunión, no
bastan ni una primacía de honor ni un poder de dirección; es necesaria una autoridad verdadera y al
mismo tiempo soberana, a la que obedezca toda la comunidad. ¿Qué ha querido, en efecto, el Hijo de Dios
cuando ha prometido las llaves del reino de los cielos sólo a Pedro? Que las llaves signifiquen aquí el poder
supremo; el uso bíblico y el consentimiento unánime de los Padres no permiten dudarlo. Y no se pueden
interpretar de otro modo los poderes que han sido conferidos, sea a Pedro separadamente, o ya a los
demás apóstoles conjuntamente con Pedro. Si la facultad de atar y desatar, de apacentar el rebaño, da a
los obispos, sucesores de los apóstoles, el derecho de gobernar con autoridad propia al pueblo confiado a
cada uno de ellos, seguramente esta misma facultad debe producir idéntico efecto en aquel a quien ha sido
designado por Dios mismo el papel de apacentar los corderos y las ovejas. «Pedro no ha sido sólo
instituido Pastor por Cristo, sino Pastor de los pastores. Pedro, pues, apacienta a los corderos y apacienta a
las ovejas; apacienta a los pequeñuelos y a sus madres, gobierna a los súbditos y también a los prelados,
pues en la Iglesia, fuera de los corderos y de las ovejas, no hay nada»[118].

40. De aquí nacen entre los antiguos Padres estas expresiones que designan aparte al bienaventurado
Pedro, y que le muestran evidentemente colocado en un grado supremo de la dignidad y del poder. Le
llaman con frecuencia «jefe de la Asamblea de los discípulos; príncipe de los santos apóstoles; corifeo del
coro apostólico; boca de todos los apóstoles; jefe de esta familia; aquel que manda al mundo entero; el
primero entre los apóstoles; columna de la Iglesia».

La conclusión de todo lo que precede parece hallarse en estas palabras de San Bernardo al papa Eugenio:
«¿Quién sois vos? Sois el gran Sacerdote, el Pontífice soberano.

Sois el príncipe de los obispos, el heredero de los apóstoles... Sois aquel a quien las llaves han sido dadas,
a quien las ovejas han sido confiadas. Otros además que vos son también porteros del cielo y pastores de
rebaños; pero ese doble título es en vos tanto más glorioso cuanto que lo habéis recibido como herencia
en un sentido más particular que todos los demás. Estos tienen sus rebaños, que les han sido asignados a
cada uno el suyo; pero a vos han sido confiados todos los rebaños; vos únicamente tenéis un solo rebaño,
formado no solamente por las ovejas, sino también por los pastores; sois el único pastor de todos. Me
preguntáis cómo lo pruebo. Por la palabra del Señor. ¿A quién, en efecto, no digo entre los obispos, sino
entre los apóstoles, han sido confiadas absoluta e indistintamente todas las ovejas? Si tú me amas, Pedro,
apacienta mis ovejas. ¿Cuáles? ¿Los pueblos de tal o cual ciudad, de tal o cual comarca, de tal reino? Mis
ovejas, dice. ¿Quién no ve que no se designa a una o algunas, sino que todas se confían a Pedro? Ninguna
distinción, ninguna excepción»[119].

Todos los obispos y cada uno en particular

41. Sería apartarse de la verdad y contradecir abiertamente a la constitución divina de la Iglesia pretender
que cada uno de los obispos, considerados aisladamente, debe estar sometido a la jurisdicción de los
Pontífices romanos; pero que todos los obispos, considerados en conjunto, no deben estarlo. ¿Cuál es, en
efecto, toda la razón de ser y la naturaleza del fundamento? Es la de poner a salvo la unidad y la solidez
más bien de todo el edificio que la de cada una de sus partes.

Y esto es mucho más verdadero en el punto de que tratamos, pues Jesucristo nuestro Señor ha querido
para la solidez del fundamento de su Iglesia obtener este resultado: que las puertas del infierno no puedan
prevalecer contra ella. Todo el mundo conviene en que esta promesa divina se refiere a la Iglesia universal
y no a sus partes tomadas aisladamente, pues éstas pueden, en realidad, ser vencidas por el esfuerzo de
los infiernos, y ha ocurrido a muchas de ellas separadamente ser, en efecto, vencidas.
Además, el que ha sido puesto a la cabeza de todo el rebaño, debe tener necesariamente la autoridad, no
solamente sobre las ovejas dispersas, sino sobre todo el conjunto de las ovejas reunidas. ¿Es acaso que el
conjunto de las ovejas gobierna y conduce al pastor? Los sucesores de los apóstoles, reunidos, ¿serán el
fundamento sobre el que el sucesor de Pedro debería apoyarse para encontrar la solidez?

Quien posee las llaves del reino tiene, evidentemente, derecho y autoridad no sólo sobre las provincias
aisladas, sino sobre todas a la vez; y del mismo modo que los obispos, cada uno en su territorio, mandan
con autoridad verdadera, así a los Pontífices romanos, cuya jurisdicción abraza a toda la sociedad cristiana,
tiene todas las porciones de esta sociedad, aun reunidas en conjunto, sometidas y obedientes a su poder.
Jesucristo nuestro Señor, según hemos dicho repetidas veces, ha dado a Pedro y a sus sucesores el cargo
de ser sus Vicarios, para ejercer perpetuamente en la Iglesia el mismo poder que El ejerció durante su vida
mortal. Después de esto, ¿se dirá que el colegio de los apóstoles excedía en autoridad a su Maestro?

42. Este poder de que hablamos sobre el colegio mismo de los obispos, poder que las Sagradas Letras
denuncian tan abiertamente, no ha cesado la Iglesia de reconocerlo y atestiguarlo. He aquí lo que acerca
de este punto declaran los concilios: «Leemos que el Pontífice romano ha juzgado a los prelados de todas
las Iglesias; pero no leemos que él haya sido juzgado por ninguno de ellos»[120]. Y la razón de este hecho
está indicada con sólo decir que «no hay autoridad superior a la autoridad de la Sede Apostólica»[121].

Por esto Gelasio habla así de los decretos de los concilios: «Del mismo modo que lo que 1a Sede primera
no ha aprobado no puede estar en vigor, así, por el contrario, lo que ha confirmado por su juicio, ha sido
recibido por toda la Iglesia»[122]. En efecto, ratificar o invalidar la sentencia y los decretos de los concilios
ha sido siempre propio de los Pontífices romanos. León el Grande anuló los actos del conciliábulo de Efeso;
Dámaso rechazó el de Rímini; Adriano I el de Constantinopla; y el vigésimo octavo canon del concilio de
Calcedonia, desprovisto de la aprobación y de la autoridad de la Sede Apostólica, ha quedado, como todos
saben, sin vigor ni efecto.

Con razón, pues, en el quinto concilio de Letrán expidió León X este decreto: «Consta de un modo
manifiesto no solamente por los testimonios de la Sagrada Escritura, por las palabras de los Padres y de
otros Pontífices romanos y por los decretos de los sagrados cánones, sino por la confesión formal de los
mismos concilios, que sólo el Pontífice romano, durante el ejercicio de su cargo, tiene pleno derecho y
poder, como tiene autoridad sobre los concilios, para convocar, transferir y disolver los concilios.

Las Sagradas Escrituras dan testimonio de que las llaves del reino de los cielos fueron confiadas a Pedro
solamente, y también que el poder de atar y desatar fue conferido a los apóstoles conjuntamente con
Pedro; pero ¿dónde consta que los apóstoles hayan recibido el soberano poder sin Pedro y contra Pedro?
Ningún testimonio lo dice. Seguramente no es de Cristo de quien lo han recibido.

Por esto, el decreto del concilio Vaticano I que definió la naturaleza y el alcance de la primacía del Pontífice
romano no introdujo ninguna opinión nueva, pues sólo afirmó la antigua y constante fe de todos los
siglos».

43. Y no hay que creer que la sumisión de los mismos súbditos a dos autoridades implique confusión en la
administración.

Tal sospecha nos está prohibida, en primer término, por la sabiduría de Dios, que ha concebido y
establecido por sí mismo la organización de ese gobierno. Además, es preciso notar que lo que turbaría el
orden y las relaciones mutuas sería la coexistencia, en una sociedad, de dos autoridades del mismo grado y
que no se sometiera la una a la otra. Pero la autoridad del Pontífice es soberana, universal y del todo
independiente; la de los obispos está limitada de una manera precisa y no es plenamente independiente.
«Lo inconveniente sería que dos pastores estuviesen colocados en un grado igual de autoridad sobre el
mismo rebaño. Pero que dos superiores, uno de ellos sometido al otro, estén colocados sobre los mismos
súbditos no es un inconveniente, y así un mismo pueblo está gobernado de un modo inmediato por su
párroco, y por el obispo, y por el papa»[123].

Los Pontífices romanos, que saben cuál es su deber, quieren más que nadie la conservación de todo lo que
está divinamente instituido en la Iglesia, y por esto, del mismo modo que defienden los derechos de su
propio poder con el celo y vigilancia necesarios, así también han puesto y pondrán constantemente todo su
cuidado en mantener a salvo la autoridad de los obispos.

Y más aún, todo lo que se tributa a los obispos en orden al honor y a la obediencia, lo miran como si a
ellos mismos les fuere tributado. «Mi honor es el honor de la Iglesia universal. Mi honor es el pleno vigor
de la autoridad de mis hermanos. No me siento verdaderamente honrado sino cuando se tributa a cada
uno de ellos el honor que le es debido»[124].

Exhortaciones finales

44. En todo lo que precede, Nos hemos trazado fielmente la imagen y figura de la Iglesia según su divina
constitución. Nos hemos insistido acerca de su unidad, y hemos declarado cuál es su naturaleza y por qué
principio su divino Autor ha querido asegurar su conservación.

Todos los que por un insigne beneficio de Dios tienen la dicha de haber nacido en el seno de la Iglesia
católica y de vivir en ella, escucharán nuestra voz apostólica, Nos no tenemos ninguna razón para dudar de
ello. «Mis ovejas oyen mi voz»[125]. Todos ellos habrán hallado en esta carta medios para instruirse más
plenamente y para adherirse con un amor más ardiente cada uno a sus propios Pastores, y por éstos al
Pastor supremo, a fin de poder continuar con más seguridad en el aprisco único y recoger una mayor
abundancia de frutos saludables.

Pero «fijando nuestras miradas en el autor y consumador de la fe, Jesús»[126], cuyo lugar ocupamos y por
quien Nos ejercemos el poder, aunque sean débiles nuestras fuerzas para el peso de esta dignidad y de
este cargo, Nos sentimos que su caridad inflama nuestra alma y emplearemos, no sin razón, estas palabras
que Jesucristo decía de sí mismo: «Tengo otras ovejas que no están en este aprisco; es preciso también
que yo las conduzca, y escucharán mi voz»[127]. No rehúsen, pues, escucharnos y mostrarse dóciles a
nuestro amor paternal todos aquellos que detestan la impiedad, hoy tan extendida, que reconocen a
Jesucristo, que le confiesan Hijo de Dios y Salvador del género humano, pero que, sin embargo, viven
errantes y apartados de su Esposa. Los que toman el nombre de Cristo es necesario que lo tomen todo
entero. «Cristo todo entero es una cabeza y un cuerpo, la cabeza es el Hijo único de Dios; el cuerpo es su
Iglesia: es el esposo y la esposa, dos en una sola carne. Todos los que tienen respecto de la cabeza un
sentimiento diferente del de las Escrituras, en vano se encuentran en todos los lugares donde se halla
establecida la Iglesia, porque no están en la Iglesia. E, igualmente, todos los que piensan como la Sagrada
Escritura respecto de la cabeza, pero que no viven en comunión con la autoridad de la Iglesia, no están en
la Iglesia»[128].

45. Nuestro corazón se dirige también con sin igual ardor tras aquellos a quienes el soplo contagioso de la
impiedad no ha envenenado del todo, y que, a lo menos, experimentan el deseo de tener por padre al Dios
verdadero, creador de la tierra y del cielo. Que reflexionen y comprendan bien que no pueden en manera
alguna contarse en el número de los hijos de Dios si no vienen a reconocer por hermano a Jesucristo y por
madre a la Iglesia.

A todos, pues, Nos dirigimos con grande amor estas palabras que tomamos a San Agustín: «Amemos al
Señor nuestro Dios, amemos a su Iglesia: a El como a un padre, a ella como una madre. Que nadie diga:
Sí, voy aún a los ídolos, consulto a los poseídos y a los hechiceros, pero, no obstante, no dejo a la Iglesia
de Dios, soy católico. Permanecéis adherido a la madre, pero ofendéis al padre. Otro dice poco más o
menos: Dios no lo permita; no consulto a los hechiceros, no interrogo a los poseídos, no practico
adivinaciones sacrílegas, no voy a adorar a los demonios, no sirvo a los dioses de piedra, pero soy del
partido de Donato: ¿De qué os sirve no ofender al padre, que vengará a la madre a quien ofendéis? ¿De
qué os sirve confesar al Señor, honrar a Dios, alabarle, reconocer a su Hijo, proclamar que está sentado a
la diestra del Padre, si blasfemáis de su Iglesia? Si tuvieseis un protector, a quien tributaseis todos los días
el debido obsequio, y ultrajaseis a su esposa con una acusación grave, ¿os atreveríais ni aun a entrar en la
casa de ese hombre? Tened, pues, mis muy amados, unánimemente a Dios por vuestro padre, y por
vuestra madre a la Iglesia»[129].

Confiando grandemente en la misericordia de Dios, que pueda tocar con suma eficacia los corazones de los
hombres y formar las voluntades más rebeldes a venir a El, Nos recomendamos con vivas instancias a su
bondad a todos aquellos a quienes se refiere nuestra palabra. Y como prenda de los dones celestiales, y en
testimonio de nuestra benevolencia, os concedemos, con grande amor en el Señor, a vosotros, venerables
hermanos, a vuestro clero y a vuestro pueblo la bendición apostólica.

Dado en Roma, en San Pedro, a veintinueve de junio del año 1896, decimonoveno de nuestro pontificado.

LEÓN PP. XIII

Notas

[1] Ef 5,25.

[2] Mt 11,30.

[3] Sant 1,17.

[4] 1Cor 3,6.

[5] Flp 2,6-7.

[6] Rom 10,17.

[7] Ibíd., 10.

[8] 1Cor 12,27.

[9] Hom. De capto Eutropio n. 6.

[10] In Psalm. 71 n.8.

[11] Enarrat. in Psalm. 103 serm.2 n.2.

[12] Clemente Alej., Stromata VII c.17.

[13] Jn 20,21.

[14] Jn 17,18.

[15] Jn 3,17.

[16] Hech 4,12.

[17] Is 2,2.

[18] Is 2,3.

[19] De schism.donatist. III n.2.

[20] In epist. Ioann. tract. 1 n.13.

[21] Ef 1,22-23.
[22] 1Cor 12,12.

[23] Ef 4,15-16.

[24] San Cipriano, De cathol.Eccl.unitate n.23.

[25] Ibíd.

[26] Ef 5,29-30.

[27] San Agustín, Serm. 267 n.4.

[28] San Cipriano, De cathol. Eccl. unitate n.6.

[29] Ef 4,4.

[30] Jn 17,20-23.

[31] Jn 27,21.

[32] Ef 4,5.

[33] 1Cor 1,10.

[34] San Ireneo, Adver.haeres. III c.12 n.12.

[35] San Agustín, In Ioann. evang. tract. 18 c.5 n.1.

[36] Jn 10,37.

[37] Jn 15,24.

[38] Jn 10,38.

[39] Mt 28,18-20.

[40] Mc 16,16.

[41] Jn 16,7-13.

[42] Jn 14,16-17.

[43] Jn 15,26-27.

[44] Lc 10,16.

[45] Jn 20,21.

[46] Rom 1,5.

[47] Mc 16,20.

[48] San Jerónimo, In Matth. IV c.28 v.20.

[49] 2 Tim 2,1-2.


[50] San Clemente Rom., Epist. I ad Cor. c.42,44.

[51] San Cipriano, Epist. 50 ad Magnum n. 1.

[52] Autor del Tract. de fide orthod. contra Arianos.

[53] San Agustín, De haeresibus n. 88.

[54] Ef 4,3ss.

[55] Orígenes, Vetus interpretatio commentariorum in Matth. n.46.

[56] San Ireneo, Adver. haeres. IV c.33 n.8.

[57] Tertuliano, De praescript. c.21.

[58] San Hilario, Commentar. in Matth. 31 n.1.

[59] Rufino, Hist. Eccl. II c.9.

[60] Ricardo de S. Víctor, De Trinit. I c.2.

[61] Concilio Vaticano I, ses.3 c.3.

[62] Sant 2,10.

[63] San Agustín, Enarrat. in Psalm. 54 n.19.

[64] 2 Cor 10,5.

[65] San Agustín, Contra Faustum manich. XVII c.3.

[66] Concilio Vaticano I, ses.3 c.3.

[67] San Agustín, De utilit. credenci c.17 n.35.

[68] 1 Cor 4, 1.

[69] Santo Tomás de Aquino, Summa theol. II-II C.39 a.1.

[70] San Jerónimo, Commentar. in epist. ad Titum c.3 v.10-11.

[71] San Juan Crisóstomo, Hom. 11 in epist. ad Ephes. n.5.

[72] San Agustín, Contra epist. Parmeniani II c.l l n.25.

[73] Santo Tomás de Aquino, Contra Gentes IV c.76.

[74] Mt 16,13.

[75] San Paciano, Epist. 3 ad Sempronium n.11.

[76] San Cirilo Alej., In evang. Ioann. II c.l v.42.

[77] Orígenes, Comment. in Matth. XII n.11.


[78] Ibíd.

[79] San Juan Crisóstomo, Hom. 54 int Matth. n.2.

[80] Jn 21,16-17.

[81] San Ambrosio, Exposit. in evang. sec. Luc. X n.175-176.

[82] San Juan Crisóstomo, De sacerdotio II.

[83] Lc 22,32.

[84] Ibíd.

[85] San Ambrosio, De fide IV n.56.

[86] San León Magno, Serm. 4c.2.

[87] Ef 2,21.

[88] San Basilio, Hom. de poenitentia n.4.

[89] Ap 3,7.

[90] Jn 10,11.

[91] San Juan Crisóstomo, Hom. 88 in Ioann. n.1.

[92] 2 Tes 2,16.

[93] San León Magno, Serm. 4 c.11.

[94] San Gregorio Magno, Epistolarum V epist.20.

[95] San León Magno, Serm.3 c.3.

[96] Concilio Florentino.

[97] San Ireneo, Adver. haeres. III c.3 n.2.

[98] San Cipriano, Epist.48 ad Cornelium n.3.

[99] San Cipriano, Epist.59 ad Cornelium n.14.

[100]. San Jerónimo, Epist.15 ad Damasum n.2.

[101] San Jerónimo, Epist.16 ad Damasum n.2.

[102] San Agustín, Epist.43 n.7.

[103] San Agustín, Serm.120 n.13.

[104] San Cipriano, Epist.55 n.l.

[105] Máximo Abad, Defloratio ex epistola ad Petrum illustrem.


[106] Concilio de Efeso, actio 3.

[107] Concilio de Constantinopla III, actio 18.

[108] Fórmula de profesión de fe católica, post epist.26 ad omnes episc. Hispan. n.4.

[109] Concilio II de Lyón, actio 4: Fórmula de profesión de fe de Miguel Paleólogo.

[110]. Lc 6,13.

[111] San Jerónimo, Diálogo Contra luciferianos n.9.

[112] San Juan Crisóstomo, Hom.88 in Ioann. n.1.

[113] San León Magno, Serm.4 c.2.

[114] San Cipriano, De unitate Ecclesiae n.4.

[115] San Optato de Mileve, De schismate donatistarum II.

[116] San Cipriano, Epist.l2 ad Cornelium n.5.

[117] San Optato de Mileve, De schismate donatistarum II n.4-5.

[118] Bruno Obispo, Commentarium in Ioann. p.III c.21 n.55.

[119] San Bernardo, De consideratione II c.8.

[120] Adriano II, In allocutione III ad Synodum Romanam (a.869). Act. VII Concilii Constant.IV.

[121] Nicolás, In epist.86 Ad Michael imp.: Patet profecto Sedis Apostolicae cuius auctoritate maior non
est, iudicium a nemine fore retractandum, neque cuiquam de eius liceat iudicare iudicio.

[122] Gelasio, Epist.26 ad episcopos Dardaniaen.5.

[123] Santo Tomás de Aquino, In IV Sent. dist.17 a.4 ad c.4 ad 13.

[124] San Gregorio Magno, Epistolarum VIII epist.30 ad Eulogium.

[125] Jn 10,27.

[126] Heb 12,2.

[127] Jn 10,16.

[128] San Agustín, Contra donatistas epist. sive de unitate ecclesiae c.4 n.7.

[129] San Agustín, Enarratio in Psalm. 88 serm.2 n.14.

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/es/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_29061896_satis-cognitum.html
CARTA ENCÍCLICA
ADIUTRICEM POPULI
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA

Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.

Consolador despertar da piedade mariana

1. É coisa boa celebrar com louvores sempre maiores e implorar com sempre mais viva confiança a Virgem
Mãe de Deus, poderosa e misericordiosíssima auxiliadora do povo cristão. Com efeito, os motivos desta
confiança e destes louvores são multiplicados por esse rico e variado tesouro de benefícios sempre mais
abundantes derramados em toda parte por Maria para o bem-estar comum.

E, em troca de tal munificência, os católicos certamente não têm faltado ao seu dever de profundo
reconhecimento. Visto como hoje, mais do que nunca, não obstante a presente luta contra a religião,
podemos ver aumentados e sempre mais afervorados, em todas as classes da sociedade, o amor e o culto
para com a beata Virgem.

E a reconstituição e a multiplicação das confrarias sob o seu patrocínio; a construção de suntuosos


monumentos dedicados ao seu augusto nome; as peregrinações de multidões devotíssimas aos santuários
mais venerados; os congressos que têm como finalidade uma sempre maior difusão da sua glória; e
inúmeras outras manifestações deste gênero, excelentes por si mesmas e de feliz augúrio para o futuro,
são luminosa prova deste fato.

Mas a Nós apraz recordar aqui de modo especial que, entre as múltiplas formas de piedade para com
Maria, a mais estimada e praticada é a, tão excelente, do santo Rosário. Isto, dizíamos, é de grande alegria
para nós; porquanto, se temos dedicado parte notável das Nossas solicitudes a propagar a devoção do
Rosário, tocamos com a mão a realidade de com que benevolência a Rainha do Céu, assim invocada, tem
correspondido aos Nossos votos; como esperamos que Ela quererá também amenizar as dores e as
amarguras que os próximos dias nos preparam.

Orar pelo retorno dos dissidentes

2. Mas é sobretudo para a difusão do Reino de Cristo que Nós esperamos do poder do santo Rosário um
socorro mais eficaz. O intento que Nós agora com mais vivo desejo nos prefixamos, como muitas vezes
temos dito, é a reconciliação dos povos separados da Igreja; declarando, ao mesmo tempo, que o êxito
devemos esperá-lo sobretudo das fervorosas preces dirigidas à onipotência divina. Isto Nós também
recentemente afirmamos, por ocasião da solenidade de Pentecostes, recomendando fossem dirigidas,
nesta intenção, preces especiais ao Espírito Santo. E sabemos que o nosso convite foi correspondido em
toda parte com grande solicitude.

Mas, dada a importância da difícil empresa, e a necessidade de perseverar em toda santa ousadia, vem
aqui muito a propósito o conselho do Apóstolo: "Perseverai na oração" (Col. 4, 2); tanto mais quanto os
felizes inícios da obra são de incitamento a esta perseverança na oração. Portanto, ó Veneráveis Irmãos,
fareis a coisa mais útil para este fim, e para Nós mais grata, se, durante todo o próximo Outubro, vós e os
vossos fiéis invocardes conosco devotissimamente a Virgem Mãe, com a recitação do santo Rosário nas
formas prescritas. Poderosos motivos impelem-nos a, com absoluta confiança, confiar à sua proteção os
Nossos projetos e os Nossos votos.

Maria no Cenáculo mestra dos apóstolos

3. O mistério do imenso amor de Cristo a nós teve, "entre outras, uma luminosa manifestação quando Ele,
perto de morrer, quis confiar ao seu discípulo João aquela mãe, sua própria Mãe, com aquele solene
testamento: "Eis aí teu filho!" Ora, na pessoa de João, segundo o pensamento constante da Igreja, Cristo
quis indicar o gênero humano, e, particularmente, todos aqueles que a Ele adeririam pela fé. E é
justamente neste sentido que S. Anselmo de Cantuária exclama: "O' Virgem, que privilégio pode ser tido
em maior consideração do que esse pelo qual és a mãe daqueles para os quais Cristo se digna de ser pai e
irmão?" (S. Anselmo de Cantuária., Oratio 47).

Por sua parte, Maria generosamente aceitou e tem cumprido essa singular e pesada missão, cujo inícios
foram consagrados no Cenáculo. Desde então ela ajudou admiravelmente os primeiros fiéis com a
santidade do seu exemplo, com a autoridade dos seus conselhos, com a doçura dos seus incentivos, com a
eficácia das Suas orações, tornando-se assim verdadeiramente mãe da Igreja e mestra e rainha dos
Apóstolos, aos quais comunicou também aqueles divinos oráculos que ela "conservava ciosamente no seu
coração".

Do Céu, Maria vela sobre a Igreja

4. Impossível seria, pois, dizer que amplitude e que eficácia hajam adquirido os seus socorros, quando ela
foi levada para junto de seu divino Filho, àquele fastígio de glória que convinha à sua dignidade e ao
esplendor dos méritos. Com efeito, de lá do alto, consoante os desígnios de Deus, ela começou a velar
sobre a Igreja, a assistir-nos e a proteger-nos como uma mãe; de modo que, depois de ter sido a
cooperadora da redenção humana, tornou-se também, pelo poder quase ilimitado que lhe foi conferido, a
dispensadora da graça que em todos os tempos jorra dessa redenção.

Por isto, com bem razão as almas cristãs, obedecendo como que a um instinto natural, sentem-se
arrastadas para Maria, para lhe comunicarem com toda confiança os seus projetos e as suas obras, as suas
angústias e as suas alegrias; para recomendarem com filial abandono suas pessoas e suas coisas à
bondade e solicitude d'Ela. Por este justíssimo motivo, todos os povos e todos os ritos têm-lhe tributado
louvores, que têm vindo sempre crescendo com o sufrágio dos séculos. Donde os títulos a ela dados de
"Mãe nossa, nossa Mediadora" (S. Bernardo, Sermo II in Advento Domini, n. 5), "Reparadora do mundo
inteiro" (S. Tharasius, Oratio in Praesentatione Deiparae), "Dispensadora dos dons celestes" (In Off.
Graec., 8 dec., post oden 9).

Maria e a difusão do Evangelho

5. Ora, já que a fé é o fundamento e princípio dos dons divinos pelos quais o homem é elevado, acima da
ordem da natureza, aos bens eternos, com toda a razão se celebra a mística influência de Maria para fazer
adquirir e frutificar a fé. Maria, com efeito, é aquela que gerou o "autor da fé", e que, em razão da sua fé,
foi saudada "Bem-aventurada" "Ninguém, ó Virgem, tem pleno conhecimento de Deus senão por ti;
ninguém se salva senão por ti, ó Mãe de Deus; ninguém, senão por ti, recebe dons da misericórdia divina"
(S. Germano Constantinopolitano, Oratio II in Dormitione B. M. V.). E, certamente, não poderá parecer
exagerada a afirmação de que especialmente pela sua guia e pelo seu auxílio foi que, mesmo entre
enormes obstáculos e adversidades, a sabedoria e as ordenações evangélicas se difundiram tão
rapidamente em todo o mundo, instaurando por toda parte uma nova ordem de justiça e de paz.

Consideração esta que sem dúvida devia estar presente ao ânimo de S. Cirilo de Alexandria quando,
dirigindo-se à Virgem, lhe dizia: "Por ti os Apóstolos pregaram aos povos a doutrina da salvação; por ti a
santa Cruz é louvada e adorada no mundo inteiro; por ti os demônios são afugentados e o homem
chamado de novo ao céu; por ti toda criatura, detida pelos erros da idolatria, é reconduzida ao
conhecimento da verdade; por ti os fiéis chegaram ao batismo, e em toda parte do mundo foram fundadas
as Igrejas" (S. Cirilo de Alexandria, Homilia contra Nestorium).

Maria, cetro da verdadeira fé

6. Além disto, consoante o louvor do mesmo Doutor, ela foi vigorosíssimo "cetro da verdadeira fé" (S. Cirilo
de Alexandria, Homilia contra Nestorium), pelo contínuo cuidado que teve de manter firme, intacta e
fecunda, entre os povos, a fé católica. E disto existem provas numerosíssimas e assaz conhecidas,
confirmadas às vezes por acontecimentos prodigiosos. Sobretudo nas épocas e nas regiões em que se
houve de deplorar a fé esmorecida por causa da indiferença, ou atacada pelo pernicioso contágio dos
erros, foi que o clemente socorro da Virgem se fez particularmente sentir.

Foi então que, graças ao seu impulso e ao seu apoio, surgiram homens, eminentes por santidade e por
zelo apostólico, prontos a repelir os ataques dos perversos, a reconduzir as almas à prática e ao fervor da
vida cristã. Sozinho, mas poderoso como muitos juntos, Domingos de Gusmão consagrou-se a esta dupla
tarefa, tendo posto com êxito a sua confiança no Rosário de Maria.

E ninguém poderá pôr em dúvida que grande parte tenha a Mãe de Deus nos serviços prestados pelos
veneráveis Padres e Doutores da Igreja, que tão notavelmente trabalharam em defender e ilustrar a
doutrina católica. De fato, é a ela, sede da divina sabedoria, que eles atribuem com gratidão a fecunda
inspiração dos seus escritos; foi por obra da Virgem Santíssima, e não pelo mérito deles, conforme eles
mesmos atestam, que a malícia dos erros foi debelada.

Enfim, príncipes e Pontífices Romanos, guardas e defensores da fé tiveram o costume de recorrer sempre
ao nome da divina Mãe: uns na direção das suas guerras sagradas, outros na promulgação dos seus
solenes decretos; e sempre lhe experimentaram o poder e a proteção.

7. Por isto a Igreja e os Padres dirigem a Maria estas expressões não menos verdadeiras do que
esplêndidas: "Ave, ó boca sempre eloqüente dos Apóstolos; ó sólido fundamento da fé; ó rocha inabalável
da Igreja" (Do hino dos Gregos Theotokion). "Ave: por ti nós fomos computados entre os cidadãos da
Igreja, una, santa, católica e apostólica" (S. João Damasceno, Oratio in Annunciatione Dei Genitricis, n. 9).
"Ave, ó divina fonte da qual os rios da eterna sabedoria, correndo com as puríssimas e limpidíssimas águas
da ortodoxia, prostram a multidão dos erros" (S. Germano Constantinopolitano, Oratione in Dei
Praesentatione, n. 4). "Alegra-te, já que só tu conseguiste destruir todas as heresias no mundo inteiro!"
(no Ofício da B. V. M.).

Maria e a unidade da fé

8. Esta parte tão importante que a Santíssima Virgem teve e tem no curso de expansão, nos combates, nos
triunfos da fé católica, torna mais luminoso o plano divino a seu respeito, e deve despertar em todos os
bons uma grande esperança para a consecução de todas as finalidades que estão hoje nos anseios de cada
um.

9. É preciso confiar em Maria; é preciso invocar Maria! Oh! quão eficaz será o seu poder para a solícita
realização do novo e tão desejado triunfo da religião, isto é, que no meio dos povos cristãos uma única
profissão de fé deva manter unidas as mentes, e um único vínculo de perfeita caridade estreite os
corações! Que não estará ela disposta a fazer para que todas as nações caminhem unidas "na maravilhosa
luz de Deus", quando com tanta insistência o seu Unigênito pediu ao Pai a união delas, e, por meio do
batismo, as chamou a participar "da herança da salvação", adquirida com imenso preço? Poderá ela deixar
de demonstrar a sua amorosa providência, quer para aliviar os longos trabalhos que para tal fim a Igreja,
Esposa de Cristo, enfrenta, quer para realizar na família cristã esse dom da união que é o fruto precioso da
sua maternidade?

A antiga unidade e o culto de Maria

10. E um sinal de que o augúrio não está tão longe de verificar-se está na opinião e na confiança, tão
ardentes nas almas piedosas, de que Maria será o feliz laço que, com a sua força, unirá todos aqueles que
amam a Cristo, onde quer que estejam, formando deles um só povo de irmãos, prontos a obedecer, como
a um pai comum, ao Vigário de Cristo na terra, o Pontífice Romano.

Aqui o pensamento reporta-se espontaneamente, através dos fastos da Igreja, aos magníficos exemplos da
primitiva unidade, e com mais gosto se detém na recordação do grande Concílio de Éfeso. Porquanto a
plena concórdia da fé, a participação nos mesmos sacramentos, que então unia o Oriente e o Ocidente,
aqui parece realmente afirmar-se com singular firmeza e brilhar de nova glória, quando os padres do
Concílio anunciaram autorizadamente o dogma da divina Maternidade de Maria: a notícia de tal
acontecimento, promanando daquela religiosíssima cidade exultante, encheu o mundo católico da mesma
incontida alegria.

A oração pelos dissidentes, agradável a Maria

11. Todas estas razões, que sustentam e aumentam a confiança de ser ouvido pelo poder e pela bondade
da Virgem, devem ser, para os católicos, outros tantos incitamentos para a rogarem - como Nós vivamente
recomendamos - com fervoroso empenho. Reflitam os fiéis em quanto é para eles decoroso e útil, e ao
mesmo tempo quão aceito e grato para a Virgem Santíssima, este empenho.

De feito, possuindo eles a unidade da fé, dessarte manifestam que justamente têm grandíssimo apreço o
valor deste benefício, e que querem guardá-lo com todo escrúpulo. Nem podem eles manifestar de melhor
forma o seu amor fraterno para com os separados, do que ajudando-os eficazmente de modo que possam
reencontrar o maior de todos os bens. Tal afeto fraterno, verdadeiramente cristão, sempre operoso em
toda a história da Igreja, achou sempre a sua força principal na Mãe de Deus, excelente fautora de paz e
de unidade. S. Germano de Constantinopla assim a invocava: "Lembra-te dos cristãos, que são teus servos;
ah! recomenda as orações de todos; conforta as esperanças de todos; reforça a fé; estreita as igrejas na
unidade!" (S. Germano Constantinopolitano, Oratio Hist. in Dormitione Deiparae).

O culto de Maria entre os Orientais

12. E ainda hoje os Gregos lhe dirigem esta oração: "Ó Virgem toda pura, que podes sem temor
aproximar-te de teu Filho, roga-o, ó toda santa, para que Ele dê a paz ao mundo e inspire um mesmo
sentimento a todas as igrejas; e todos nós te aclamaremos!" (Men., 5 maii, post oden 9 de S. Ireneu V. M).
E aqui se junta aos outros um motivo especial pelo qual é lícito esperar que a Santíssima Virgem escutará
com maior benignidade as nossas preces em favor dos povos dissidentes, e esse motivo é o dos insignes
méritos que eles - mas especialmente os orientais adquiriram para com ela. Porque é a eles que muito se
deve se a sua devoção tanto se difundiu e cresceu.

Entre eles surgiram grandes apologistas e defensores da sua dignidade; panegiristas célebres pelo fogo e
pela delicadeza da sua eloquência; "imperatrizes diletíssimas a Deus" (S. Cirilo de Alexandria, De Fide ad
Pulcheriam et Sorores Reginas) que imitaram os exemplos da puríssima Virgem e lhe tributaram
homenagens com a sua munificência; e, por último, igrejas e basílicas erguidas em sua honra com
esplendor régio.

As imagens de Maria do Oriente ao Ocidente

13. A esta altura apraz-nos aditar uma consideração que, enquanto não é estranha ao assunto, ao mesmo
tempo redunda em glória da santíssima Mãe de Deus. É esta: todos sabem que muitíssimas das suas
augustas imagens, em diversas épocas, foram trazidas do Oriente para o Ocidente, e, especialmente na
Itália e em Roma, foram acolhidas com suma piedade e honradas com magnificência pelos nossos avós, e
veneradas depois pelos seus descendentes com não menor transporte.

Ora, Nós gostamos de verificar neste fato unia disposição e um benefício da amorosíssima Mãe, já que isso
parece querer significar que essas imagens são, junto a nós, como que, palpitantes monumentos de outros
tempos, em que a família cristã vivia unida em toda parte do mundo; e como que preciosos penhores de
uma comum herança. Por isto, ao contemplá-las, como que por inspiração da própria Virgem devem as
almas piedosamente lembrar-se daqueles que a Igreja Católica chama com amorosa solicitude à antiga
concórdia e à alegria que já provaram no seu seio.
O Rosário, oração eficaz para os dissidentes

14. Assim, um grande auxílio em vantagem da unidade da Igreja é-nos por Deus oferecido em Maria. E,
conquanto este auxílio de muitos modos, possa ser merecido, Nós cremos que o melhor e o mais eficaz é o
do Rosário já de outras vezes fizemos observar que não última entre as vantagens do santo Rosário é
fornecer ao cristão um meio prático e fácil para alimentar a sua fé e preservá-la da ignorância e do perigo
do erro; como manifestamente nos demonstram as suas próprias origens.

Ora, não é menos claro o quanto toca de perto a Maria esta fé, que se exercita quer com a repetida oração
vocal, quer com a meditação dos mistérios. Porquanto, toda vez que nos pomos em oração diante dela e
recitamos com devoção a santa Coroa segundo o rito prescrito, nós recordamos a obra maravilhosa da
nossa redenção, de modo a contemplarmos, como se se desenrolassem agora todos aqueles fatos que
sucessivamente concorrem para torná-la ao mesmo tempo Mãe de Deus e Mãe nossa.

A excelência desta dupla dignidade e o fruto deste duplo ministério mostram-se-nos sob uma vivíssima luz,
se piedosamente considerarmos a Virgem Maria ao lado de seu divino Filho nos mistérios gozosos,
dolorosos e gloriosos. Daí resulta sentir-se a alma inflamada de um vivo sentimento de gratidão para com
ela; e, desdenhando todas as coisas deste mundo, esforçar-se com firme propósito por se tornar digna de
tal Mãe e dos seus benefícios.

Aliás, já que Maria, a mais amorosa de todas as mães, não pode deixar de se enternecer e de se mover à
compaixão para com os homens por esta freqüente e piedosa recordação de tais mistérios, o santo Rosário
será., como temos dito, a oração mais oportuna para advogar junto a ela a causa de nossos irmãos
dissidentes. Isto entra em cheio na missão da sua maternidade espiritual.

De fato, aqueles que pertencem a Cristo, não os gerou Nossa Senhora, nem podia gerá-los, senão na
unidade da fé e do amor a Ele. "Acaso Cristo foi feito em pedaços?" (1 Cor. 1, 13). Por isto, todos nós
devemos viver juntos a vida de Cristo, de modo a podermos "colher frutos para Deus" (Rom. 7, 4), num só
e idêntico corpo. Necessário é, pois, que todos aqueles que a maldade dos acontecimentos separou desta
unidade sejam de novo, por assim dizer, gerados para Cristo, desta mesma Mãe que Deus tornou
perenemente fecunda de santa prole.

Ela, por sua parte, nenhuma outra coisa deseja mais ardentemente; e, se nós lhe oferecermos coroas
tecidas desta oração a ela tão cara, Alaria lhes obterá em abundância os auxílios do "Espírito vivificados".
Praza a Deus que eles não recusem secundar os desejos desta sua misericordiosíssima Mãe; e que,
lembrados da sua eterna salvação, escutem este amoroso convite: "Ó filhos, por quem de novo sinto as
dores do parto, até que Cristo seja formado em vós" (Gal. 4, 19).

O Rosário difundido na Igreja do Oriente

15. Havendo observado o grande poder do santo Rosário em tal terreno, alguns dos Nossos Predecessores
procuraram por todos os meios difundi-lo nos países orientais. Primeiro entre todos, Eugênio IV com a sua
Constituição Apostólica "Advesperascente", de 1139; depois Inocêncio XII e Clemente XI, que com a sua
autoridade concederam, para este fim, largos privilégios à Ordem dos Frades Pregadores.

E os frutos não se fizeram esperar longamente, graças ao zelo e à atividade dos religiosos dessa Ordem,
como está provado por inúmeros e claros documentos; se bem que aos progressos de tal obra fizesse não
pouco dano a prolongada contrariedade dos tempos. Mas, nos nossos dias, naquelas regiões tem voltado a
reflorir em muitos corações o mesmo entusiasmo pela devoção ao santo Rosário, que louvamos no
principio desta Carta. E esperamos que este fato, tão condizente com os Nossos desígnios, seja utilíssimo à
realização dos Nossos votos.

Novo templo à Virgem do Rosário em Patras

16. A esta esperança se junta um fato consolador, que diz respeito tanto ao Oriente quanto ao Ocidente, e
que é plenamente conforme aos Nossos desejos. Queremos referir-nos ao propósito, expresso no célebre
Congresso Eucarístico de Jerusalém, de erigir-se um templo em honra da Rainha do Santíssimo Rosário em
Patras, na Acácia, não longe daqueles lugares nos quais a proteção de Maria fez brilhar as glórias do nome
cristão.

Já muitos de vós, exortados pela Comissão, surgida com a Nossa aprovação, pressurosamente
contribuístes para essa obra com subscrições, juntando-lhes também a promessa de um constante
interesse até que a coisa esteja realizada. E, com isto, já se proveu a quanto basta para iniciar, sem mais,
os trabalhos com a grandiosidade que convém a esta obra; e Nós já autorizamos lançar-se solenemente, o
mais breve possível, a primeira pedra desse edifício. O templo surgirá em nome do povo cristão, qual
monumento de perene gratidão à nossa Auxiliadora e Mãe celeste. Lá ela será invocada incessantemente
em rito latino e grego, a fim de que, com sempre mais benévola assistência, se digne de ajuntar aos
antigos novos favores.

Mostra-te Mãe!

17. E agora, ó Veneráveis Irmãos, a Nossa exortação volta ao ponto do qual partiu. Eia, pois! que todos,
pastores e rebanhos, especialmente no próximo mês, se coloquem, cheios de confiança, sob a proteção da
augusta Virgem. Em público e em particular não cessem, com cantos, orações e votos, de invocar e
suplicar concordemente a Mãe de Deus e Mãe nossa: "Ah! mostra-te Mãe!". Que a sua clemência maternal
queira preservar de todo perigo sua família inteira: que a conduza a uma verdadeira prosperidade, e
sobretudo a estabeleça na santa unidade. Guarde ela com benevolência os católicos de todas as nações, e,
unindo-os pelos vínculos da caridade, torne-os mais ativos e mais constantes em sustentar a honra da
religião, da qual promanam, mesmo para os povos, os bens mais preciosos.

Guarde, depois, com suma benevolência também os dissidentes: essas grandes e ilustres nações, essas
almas eleitas, que sentem a dignidade cristã. Suscite nelas salutares desejos, e depois os alimente e os
leve a cumprimento. Redundem em vantagem dos dissidentes orientais a ardente devoção que eles
professam para com Nossa Senhora, e os numerosos feitos realizados pelos seus antepassados para a
glória dela. Depois, em vantagem dos dissidentes ocidentais redunde a lembrança do salutar patrocínio
com que ela teve como cara e recompensou a extraordinária piedade que todas as classes sociais lhe
professaram por muitas gerações.

Para estes dissidentes e para todos os outros, onde quer que se achem valha a voz unânime e suplicante
de todos os povos católicos, e valha a Nossa voz, que até o último alento invocará: "Mostra-te Mãe!".

Entrementes, como auspício dos dons celestes e em atestado da Nossa benevolência, de todo coração
concedemos a cada um de vós, ao vosso clero e ao vosso povo a Nossa Bênção Apostólica.

Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 5 de Setembro de 1895, no décimo oitavo ano do Nosso Pontificado.

LEÃO XIII PAPA

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_05091895_adiutricem.html
CARTA ENCÍCLICA
IUCUNDA SEMPER EXPECTATIONE
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA

Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.

Viva confiança no Rosário

1. Com alegre expectativa e com renovada confiança olhamos sempre a volta do mês de Outubro; porque,
desde quando começamos a exortar os fiéis a consagrarem este mês à beatíssima Virgem, ele tem
acarretado em toda parte uma poderosa floração do Rosário entre os católicos. Qual tenha sido o motivo
elas Nossas exortações, já mais de uma vez o expusemos. Visto que os tempos, prenunciadores de
desgraças para a Igreja e para a sociedade, exigiam o auxílio poderoso de Deus, Nós achamos dever
implorá-lo justamente mediante a intercessão de sua Mãe, e sobretudo com essa fórmula de oração cuja
salutar eficácia o povo cristão pôde sempre experimentar.

Experimentou-a, com efeito, desde as origens do Rosário mariano, quer na defesa da santa fé contra os
nefastos ataques dos hereges, quer no repor em honra aquelas virtudes que haviam sido sufocadas pela
corrupção do mundo. Experimentou-a por uma série ininterrupta de benefícios, privados e públicos, cuja
lembrança por toda parte foi imortalizada até mesmo com insignes instituições e monumentos. E também
nos nossos tempos, trabalhados por múltiplas crises, folgamos de reconhecer que justamente do Rosário
têm provindo frutos salutares. Todavia, olhando em volta, Veneráveis Irmãos, vós mesmos vedes que
ainda permanecem, e em parte agravados, os motivos para convidarmos, ainda este ano, os vossos fiéis a
reavivarem o fervor das suas súplicas para com a Rainha do Céu.

2. Além disto, quanto mais fixamos o pensamento na íntima natureza do Rosário, tanto mais claramente se
nos manifesta a sua excelência e utilidade. E por isto cresce em Nós o desejo e a esperança de que a
Nossa recomendação seja tão eficaz que dê o mais amplo desenvolvimento a esta santíssima oração,
difundindo-lhe sempre mais o conhecimento e a prática.

Confiança em Maria como mediadora

3. Para tal fim não evocaremos aqui os argumentos que, sob vários aspectos, expusemos sobre este
mesmo assunto nos anos precedentes; mas, antes, apraz-nos considerar e expor como, de acordo com os
divinos desígnios da Providência, o Rosário desperta no ânimo de quem reza uma suave confiança de ser
atendido, e move a maternal piedade da Virgem bendita a corresponder a tal confiança com a ternura dos
seus socorros. 4. O nosso suplicante recurso ao patrocínio de Maria funda-se no seu ofício de Mediadora da
graça divina; ofício que ela ― agradabilíssima a Deus pela sua dignidade e pelos seus méritos, e de longe
superior em poder a todos os Santos ― continuamente exerce por nós junto ao trono do Altíssimo. Ora,
este seu ofício talvez por nenhum outro gênero de oração seja tão vivamente expresso como pelo Rosário,
onde a parte tida pela Virgem na Redenção dos homens é posta tão em evidência que parece desenrolar-
se agora ante o nosso olhar; e isto traz um singular proveito à piedade, seja na sucessiva contemplação
dos sagrados mistérios, seja na recitação repetida das preces.
Nos mistérios gozosos

5. Primeiramente se nos apresentam os mistérios gozosos. O Filho eterno de Deus abaixa-se até aos
homens, feito Ele próprio homem mas com o assentimento de Maria, "que o concebe do Espírito Santo".
Daí ser João, por uma graça especial, "santificado" no seio materno e enriquecido de escolhidos dons "para
preparar os caminhos do Senhor". Mas isto sucede em seguida à saudação de Maria, que, por divina
inspiração, vai visitar sua parenta. Finalmente vem à luz o Cristo, "o esperado das nações", e vem à luz do
seio da Virgem. Os pastores e os Magos, primícias da fé, dirigem-se com ânsia pressurosa ao seu berço, e
"acham o Menino com Maria sua Mãe". Depois Ele quer ser levado em pessoa ao templo para se oferecer
publicamente em holocausto a Deus Pai. Mas é por obra da Mãe que ali "é apresentado ao Senhor". É
sempre ela que, na misteriosa perda do Filho, o procura com ansiosa solicitude e o reencontra com alegria
imensa.

Nos mistérios dolorosos

6. No mesmo sentido falam os mistérios dolorosos. É verdade que Maria não está presente no horto de
Getsêmani, onde Jesus treme e está triste até à morte, e no pretório, onde é flagelado, coroado de
espinhos, condenado à morte. Mas já desde tempo ela conhecera e vira claramente todas estas coisas.
Com efeito, quando ela se ofereceu a Deus como escrava, para depois se tornar sua mãe, e quando no
templo se consagrou inteiramente a Ele, juntamente com o Filho, já desde então, em virtude destes dois
fatos, ela se tornou participante da dolorosa expiação de Cristo, para vantagem do gênero humano. Não
há, pois, dúvida alguma de que, mesmo por tal razão, durante as cruéis angústias e torturas do Filho ela
experimentou no seu coração as mais agudas dores.

Aliás, na sua própria presença e sob seus olhos devia consumar-se aquele divino sacrifício para o qual, com
o próprio leite, ela generosamente criara a vítima. Isto se contempla no último e mais comovente destes
mistérios. "Estava junto à Cruz de Jesus Maria sua Mãe", a qual, movida por um imenso amor a nós, para
nos ter como seus filhos ofereceu, ela mesma, seu Filho à justiça divina, e com Ele morreu no seu coração,
traspassada pela espada da dor.

Nos mistérios gloriosos

7. Finalmente, nos mistérios gloriosos, que seguem os dolorosos, é mais copiosamente confirmado este
mesmo misericordioso ofício da Virgem excelsa. Com tácita alegria ela saboreia a glória do Filho triunfante
sobre a morte; segue-o depois com maternal afeto na sua volta à sede celeste. Mas, conquanto digna do
Céu, ela é mantida na terra, como suprema consoladora e mestra da Igreja nascente; "ela penetrou, além
de tudo o que se possa crer, nos profundos arcanos da sabedoria divina" (S. Bernardo, De Praerogativis B.
M. V., n. 3).

E, pois que a obra santa da redenção dos homens não podia dizer-se completa antes da descida do Espírito
Santo, prometido por Cristo, eis que a vemos lá naquele Cenáculo cheio de recordações, a orar-lhe,
juntamente com os Apóstolos e em vantagem dos Apóstolos, com gemidos inenarráveis; a apressar para a
Igreja a sabedoria do Espírito consolador, supremo dom de Cristo, tesouro que nunca lhe faltará. Porém
em medida ainda mais cheia e perene poderá ela advogar a nossa causa quando tiver passado à vida
imortal.

E, assim, deste vale de lágrimas vemo-la assunta à cidade santa de Jerusalém, por entre as festas dos
coros angélicos; veneramo-la elevada acima da glória de todos os Santos, coroada de estrelas por seu
divino Filho, sentada junto d'Ele, rainha e senhora do universo. Em todos estes mistérios, ó Veneráveis
Irmãos, se tão bem se manifesta "o desígnio de Deus, desígnio de sabedoria e desígnio de misericórdia"
(S. Bernardo, Sermo in Nativitate B. M. V., n. 6), não menos claramente brilhai ao mesmo tempo os
grandíssimos benefícios da Virgem Mãe para conosco: benefícios que não podem deixar de nos encher de
alegria, porque nos infundem a firme esperança de obtermos, pela mediação de Maria, a clemência e a
misericórdia de Deus.

Nas orações vocais


8. Para este mesmo fim, em perfeita harmonia com os mistérios, tende a oração vocal. Procede, como é
justo, a oração dominical dirigida ao Pai celeste. Em seguida, após haver invocado o mesmo Pai com a
mais Pobre das orações, do trono da sua majestade a nossa suplicante volve-se para Maria, em obséquio à
lembrada lei da sua, mediação e da sua intercessão, expressa por S. Bernardino de Sena com as seguintes
palavras: "Toda graça que é comunicada a esta terra passa por três ordens sucessivas. De Deus é
comunicada a Cristo, de Cristo à Virgem, e da Virgem a nós" (S. Bernardino de Sena, Sermo VI in Festis B.
M. V., De Annunciatione, a. 1, c. 2).

E nós, na recitação do Rosário, passamos por todos os três graus desta escala, em diversa relação entre
eles; porém mais longamente, e de certo modo com mais gosto, detemo-nos no último, repetindo por dez
vezes a saudação angélica, como que para nos elevarmos com maior confiança aos outros graus, isto é,
por meio de Cristo a Deus Padre.

Porquanto, se tornamos a repetir tantas vezes a mesma saudação a Maria, é para que a nossa oração,
fraca e defeituosa, seja reforçada pela necessária confiança, confiança que surge em nós se pensarmos
que Maria, mais do que rogar por nós, roga em nosso nome. De certo as nossas vozes serão mais
agradáveis e eficazes na presença de Deus se forem apoiadas pelos rogos da Virgem; à qual Ele mesmo
dirige o amoroso convite: "Ressoe a tua voz ao meu ouvido, porque suave é a tua voz" (Cânt. 2, 14).

Por esta mesma razão, no Rosário nós tornamos tantas vezes a celebrar os seus gloriosos títulos de
Mediadora. Em Maria saudamos aquela que "achou favor junto a Deus"; aquela que foi por Ele, de modo
singularíssimo, "cumulada de graça", para que tal superabundância se entornasse sobre todos os homens;
aquela a quem o Senhor está unido pelo vínculo mais estreito que existir possa; aquela que, "bendita entre
as mulheres", "só ela dissolveu a maldição e trouxe a bênção" (S. Tom., op. VIII, Sobre a Saudação
Angélica, n. 8), ou seja o fruto bendito do seu seio, no qual "todas as nações são benditas"; aquela, enfim,
que invocamos como "Mãe de Deus".

Pois bem, em virtude de uma dignidade tão sublime, que coisa haverá que ela não possa pedir com
segurança "para nós pecadores", e, por outro lado, que coisa haverá que não possamos esperar nós, em
toda a vida e nas nossas extremas agonias?

9. Quem com toda diligência houver recitado estas orações e meditado com fé estes mistérios, não poderá
deixar de admirar os desígnios divinos que uniram a Virgem Santíssima à salvação dos homens; e, com
comovida confiança, desejará refugiar-se sob a sua proteção e no seu seio, repetindo a súplica de S.
Bernardo: "Lembrai-vos, ó piedosíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que alguém que tenha
recorrido à vossa proteção, implorado o vosso auxílio, invocado a vossa intercessão, tenha sido por vós
desamparado".

O Rosário comove Maria em nosso favor

10. Porém a virtude que o Rosário tem de inspirar a confiança em quem o reza, possui-a também em
mover à piedade para conosco o coração da Virgem. Quanto deve ser suave para ela o ver-nos e o
escutar-nos, enquanto entrelaçamos em coroa pedidos para nós justíssimos e louvores para ela belíssimo!
Assim rezando, nós desejamos e tributamos a Deus a glória que lhe é devida; procuramos unicamente o
cumprimento dos seus acenos e da sua vontade; exaltamos a sua bondade e a sua munificência,
chamando-lhe Pai e pedindo-lhe, embora indignos deles, os dons mais preciosos.

Com tudo isto Maria exulta imensamente, e, pela nossa piedade, de coração "magnifica o Senhor". Porque,
quando nos dirigimos a Deus pela oração dominical, nós o suplicamos mediante uma oração digna d'Ele.
11. Mas às coisas que nela pedimos, já de per si tão retas e ordenadas e tão conformes à fé, à esperança,
à caridade cristã, junta-se um valor que não pode deixar de ser sumamente apreciado pela Virgem
Santíssima. Este: que à nossa voz se une a de seu Filho Jesus, o qual, depois de nos haver ensinado,
palavra por palavra, essa fórmula de oração, autorizadamente no-la impõe, dizendo: "Vós, pois, rezareis
assim" (Mt. 6, 9).
Certos estejamos, pois, de que, se formos fiéis a este mandato com a recitação do Rosário, de sua parte
Maria não deixará de exercer com maior benevolência o seu ofício de solícita caridade; e, acolhendo com
semblante benigno estas místicas coroas de orações, recompensar-nos-á com abundância de graças.
O Rosário ajuda-nos a bem orar

12. Outra fortíssima razão para contarmos com maior segurança com a generosa bondade de Maria reside
na própria natureza do Rosário, tão adequado para nos fazer rezar bem. Pela sua fragilidade, o homem,
durante a oração, muitas vezes é levado a distrair-se do pensamento de Deus e a faltar ao seu louvável
propósito.

Ora, quem considera atentamente este fenômeno logo verá quão eficaz é o Rosário não só para fazer
aplicar a mente e para sacudir a preguiça da alma, como também para excitar um salutar arrependimento
das culpas, e, finalmente, para elevar o espírito às coisas celestes. E isto porque, como é bem sabido, o
Rosário é composto de duas partes, distintas entre si, porém inseparáveis: a meditação dos mistérios e a
oração vocal.

Por conseqüência, este gênero de oração requer da parte do fiel uma atenção particular que não só o faz
elevar, de algum modo, a mente a Deus, mas o leva também a refletir tão seriamente sobre as coisas
propostas à sua consideração e contemplação, que ele é induzido também a tirar delas estímulo para uma
vida melhor e alimento para toda forma de piedade. Realmente, não há nada maior ou mais maravilhoso
do que estas coisas, que são como que o resumo da fé cristã, e que, com a sua luz e íntima força, têm sido
fonte de verdade, de justiça e de paz, e que assinalaram para o mundo uma nova ordem de coisas, rica de
frutos maravilhosos.

13. Atente-se, além disto, no modo como estes profundíssimos mistérios são apresentados a quem reza o
Rosário: isto é, um modo que bem se adapta às mentes mesmo dos simples e dos menos instruídos. O
Rosário não tem em mira fazer-nos perscrutar os dogmas da fé e da doutrina cristã, mas principalmente
pôr como que diante do nosso olhar e evocar à nossa memória fatos.

Visto como os fatos que são apresentados quase nas mesmas circunstâncias de lugar, de tempo e de
pessoa em que aconteceram, impressionam mais a alma e a comovem salutarmente. E, visto que estas
coisas são geralmente inculcadas e gravadas nas almas desde a infância, daí se segue que, apenas
enunciado um mistério, todo aquele que efetivamente tem amor à oração percorre-o sem nenhum esforço
de imaginação, mas com movimento espontâneo da mente e do coração, e, pelo auxílio de Maria, tira dele
em abundância um orvalho de graças celestes.

O Rosário prova a Maria o nosso reconhecimento

14. Mas há outra razão que torna as nossas coroas mais agradáveis e mais meritórias em presença da
Virgem. Quando, com devota recordação, repetimos a tríplice ordem dos mistérios, vimos a demonstrar-lhe
mais claramente o nosso afetuoso reconhecimento; porque com isto nós professamos que nunca nos
fartamos de recordar os benefícios dispensados pela sua inexaurível caridade, para a nossa salvação. Ora,
nós podemos ter apenas uma vaga idéia da alegria, sempre nova, que a lembrança destes grandiosos
fatos, repetidos com freqüência e com amor em sua presença, pode infundir no seu ânimo bendito,
movendo-o a sentimentos de solicitude e de generosidade materna.

Além disto, estas mesmas lembranças fazem com que as nossas orações se tornem mais ardentes e
eficazes: porque cada mistério que passa diante do nosso pensamento fornece-nos um novo estímulo para
orar, maximamente eficaz perante a Virgem. Sim, a ti recorremos, santa Mãe de Deus; e tu não desprezes
estes míseros filhos de Eva!

A ti suplicamos, ó poderosa e benigna Mediadora da nossa salvação, conjuramos-te com toda a alma; pelas
suaves alegrias recebidas de teu Filho Jesus; pela participação nas suas indizíveis dores, pelo esplendor da
sua glória que em ti se reflete. Eia, pois, escuta-nos, se bem que indignos, e atende-nos!

A moderna perseguição contra a Igreja

15. A excelência do Rosário mariano, focalizada também pelas duas considerações que acabamos de vos
expor, dir-vos-á ainda mais claramente, Veneráveis Irmãos, por que razão Nós não nos cansamos de
inculcá-lo e de promovê-lo com todo cuidado.
Conforme desde o princípio observamos, a nossa época tem, cada vez mais, necessidade dos auxílios
celestes; especialmente pelas muitas tribulações que a Igreja sofre, contrariada no seu direito e na sua
liberdade, e, depois, pelos muitos perigos que ameaçam as próprias bases da prosperidade e da paz dos
povos cristãos. Pois bem: mais uma vez declaramos solenemente que no Rosário depositamos as maiores
esperanças de obter esses auxílios.

Queira Deus ― é este um ardente desejo Nosso ― que esta prática de piedade retome em toda parte o
seu antigo lugar de honra! Nas cidades e nas aldeias, nas famílias e nas oficinas, entre os nobres e os
plebeus seja o Rosário amado e venerado como o mais nobre distintivo da profissão cristã, e como o
auxílio mais eficaz para nos propiciar a divina clemência.

Os últimos excessos da impiedade

16. E, pois que a insensata perversidade dos ímpios a tudo já agora recorre ― com o dolo e com a audácia
― para provocar a cólera divina e atrair sobre a pátria o peso de um justo castigo, necessário é que a
piedosa prática do Rosário seja seguida com sempre maior empenho.

Além disto, todos os bons sofrem conosco, porque no próprio seio dos povos católicos há muitos que,
satisfeitos de se regozijar com as ofensas de qualquer modo feitas à religião, eles mesmos, fortes de uma
incrível licença de propaganda, mostram não ter em mira outra coisa senão expor ao desprezo e ao
escárnio do povo as coisas mais santas da religião e sua experimentada confiança na intercessão da
Virgem.

Nestes últimos meses, pois, não se tem poupado nem sequer a augustíssima pessoa de Jesus Cristo
Salvador. Não se tem tido pejo de apoderar-se dela para os atrativos do palco, já agora sobejamente
contaminado de infâmias, e de representarmo-la despojada da majestade da sua natureza divina; sem a
qual necessariamente rui o próprio fundamento da redenção do gênero humano. E levou-se ao cúmulo a
afronta quando se quis reabilitar da infâmia dos séculos o homem réu da criminosa perfídia que a história
tem estigmatizado como a mais abominável e a mais monstruosa: o traidor de Cristo.

17. Ante tais excessos, cometidos ou em via de sê-lo pelas cidades da Itália, tem-se levantado um brado
geral de indignação e um enérgico protesto pela violação dos sacrossantos direitos da religião, naquela
nação que justamente considera sua precípua ufania o ser católica.

Ante tais excessos, como era natural, levantou-se a vigilante solicitude dos bispos, que apresentaram
justíssimas recriminações àqueles que têm o inalienável dever de tutelar a honra da religião pátria; e não
só têm avisado os seus rebanhos da gravidade do perigo, mas os têm exortado também a especiais atos
de reparação da ímpia ofensa lançada contra o amorosíssimo Autor da nossa salvação.

Nós temos apreciado imensamente as múltiplas e notáveis demonstrações de zelo dadas pelos bons nestas
circunstâncias, e delas temos haurido um vivo conforto para a Nossa alma, profundamente ferida. Mas,
dado que temos ocasião de falar, não podemos abafar a voz do Nosso altíssimo ministério. E por isto
falamos, para ajuntar o Nosso mais enérgico protesto aos já levantados pelos bispos e pelos fiéis.

18. Mas, enquanto lamentamos e detestamos esse sacrílego crime, com o mesmo ardor do Nosso ânimo
apostólico dirigimos uma cálida exortação a todos os cristãos, mas particularmente aos Italianos, para que
guardem intacta, defendem estrenuamente e continuem a alimentar com obras honestas e piedosas essa
fé avoenga que constitui a sua herança mais preciosa.

Recurso à poderosa Rainha do Céu

19. É esta mais uma razão pela qual Nós vivamente desejamos que durante o mês de Outubro os simples
fiéis e as confrarias porfiem em honrar a grande Mãe de Deus, a poderosa Auxiliadora do povo cristão, a
gloriosíssima Rainha do Céu. Por Nossa parte, de todo coração confirmamos os favores das santas
Indulgências anteriormente concedidos a este propósito.
20. E Deus, ó Veneráveis Irmãos, que "na sua misericordiosa bondade nos deu uma Mediadora tão
poderosa" (S. Bernardo, De C II Praerogativis B. M. V., n. 2), "e quis que tudo nos viesse pelas mãos de
Maria" (S. Bernardo, Sermo in Nativitatem B. M. V., n. 7), pela intercessão e pelo favor dela acolha propício
os votos e satisfaça as esperanças de todos. Como auspício, pois, destes bens, juntamos de todo coração
para vós, para o vosso clero e para o vosso povo a Bênção Apostólica.

Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 8 de Setembro de 1894, décimo sétimo do Nosso Pontificado.

LEÃO PP. XIII.

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_08091894_iucunda-semper-
expectatione.html

CARTA ENCÍCLICA

PROVIDENTISSIMUS DEUS

DEL SUMO PONTÍFICE

LEÓN XIII

SOBRE LOS ESTUDIOS BÍBLICOS

1. La providencia de Dios, que por un admirable designio de amor elevó en sus comienzos al género
humano a la participación de la naturaleza divina y, sacándolo después del pecado y de la ruina original, lo
restituyó a su primitiva dignidad, quiso darle además el precioso auxilio de abrirle por un medio
sobrenatural los tesoros ocultos de su divinidad, de su sabiduría y de su misericordia[1]. Pues aunque en la
divina revelación se contengan también cosas que no son inaccesibles a la razón humana y que han sido
reveladas al hombre, «a fin de que todos puedan conocerlas fácilmente, con firme certeza y sin mezcla de
error, no puede decirse por ello, sin embargo, que esta revelación sea necesaria de una manera absoluta,
sino porque Dios en su infinita bondad ha destinado al hombre a su fin sobrenatural»[2]. «Esta revelación
sobrenatural, según la fe de la Iglesia universal», se halla contenida tanto «en las tradiciones no escritas»
como «en los libros escritos», llamados sagrados y canónicos porque, «escritos bajo la inspiración del
Espíritu Santo, tienen a Dios por autor y en tal concepto han sido dados a la Iglesia»[3]. Eso es lo que la
Iglesia no ha cesado de pensar ni de profesar públicamente respecto de los libros de uno y otro
Testamento. Conocidos son los documentos antiguos e importantísimos en los cuales se afirma que Dios —
que habló primeramente por los profetas, después por sí mismo y luego por los apóstoles— nos ha dado
también la Escritura que se llama canónica[4], y que no es otra cosa sino los oráculos y las palabras
divinas[5], una carta otorgada por el Padre celestial al género humano, en peregrinación fuera de su
patria, y transmitida por los autores sagrados[6]. Siendo tan grande la excelencia y el valor de las
Escrituras, que, teniendo a Dios mismo por autor, contienen la indicación de sus más altos misterios, de
sus designios y de sus obras, síguese de aquí que la parte de la teología que se ocupa en la conservación y
en la interpretación de estos libros divinos es de suma importancia y de la más grande utilidad.

2. Y así Nos, de la misma manera que hemos procurado, y no sin fruto, gracias a Dios, hacer progresar con
frecuentes encíclicas y exhortaciones otras ciencias que nos parecían muy provechosas para el
acrecentamiento de la gloria divina y de la salvación de los hombres, así también nos propusimos desde
hace mucho tiempo excitar y recomendar este nobilísimo estudio de las Sagradas Letras y dirigirlo de una
manera más conforme a las necesidades de los tiempos actuales. Nos mueve, y en cierto modo nos
impulsa, la solicitud de nuestro cargo apostólico, no solamente a desear que esta preciosa fuente de la
revelación católica esté abierta con la mayor seguridad y amplitud para la utilidad del pueblo cristiano, sino
también a no tolerar que sea enturbiada, en ninguna de sus partes, ya por aquellos a quienes mueve una
audacia impía y que atacan abiertamente a la Sagrada Escritura, ya por los que suscitan a cada paso
novedades engañosas e imprudentes.

3. No ignoramos, ciertamente, venerables hermanos, que no pocos católicos sabios y de talento se dedican
con ardor a defender los libros santos o a procurar un mayor conocimiento e inteligencia de los mismos.
Pero, alabando a justo título sus trabajos y sus frutos, no podemos dejar de exhortar a los demás cuyo
talento, ciencia y piedad prometen en esta obra excelentes resultados, a hacerse dignos del mismo elogio.
Queremos ardientemente que sean muchos los que emprendan como conviene la defensa de las Sagradas
Letras y se mantengan en ello con constancia; sobre todo, que aquellos que han sido llamados, por la
gracia de Dios, a las órdenes sagradas, pongan de día en día mayor cuidado y diligencia en leer, meditar y
explicar las Escrituras, pues nada hay más conforme a su estado.

4. Aparte de su importancia y de la reverencia debida a la palabra de Dios, el principal motivo que nos
hace tan recomendable el estudio de la Sagrada Escritura son las múltiples ventajas que sabemos han de
resultar de ello, según la promesa cierta del Espíritu Santo: «Toda la Escritura, divinamente inspirada, es
útil para enseñar, para argüir, para corregir, para instruir en la justicia, a fin de que el hombre de Dios sea
perfecto y pronto a toda buena obra»[7]. Los ejemplos de Nuestro Señor Jesucristo y de los apóstoles
demuestran que con este designio ha dado Dios a los hombres las Escrituras. Jesús mismo, en efecto, que
«se ha conciliado la autoridad con los milagros y que ha merecido la fe por su autoridad y ha ganado a la
multitud por la fe»[8], tenía costumbre de apelar a la Sagrada Escritura en testimonio de su divina misión.
En ocasiones se sirve de los libros santos para declarar que es el enviado de Dios y Dios mismo; de ellos
toma argumentos para instruir a sus discípulos y para apoyar su doctrina; defiende sus testimonios contra
las calumnias de sus enemigos, los opone a los fariseos y saduceos en sus respuestas y los vuelve contra el
mismo Satanás, que atrevidamente le solicitaba; los emplea aun al fin de su vida y, una vez resucitado, los
explica a sus discípulos hasta que sube a la gloria de su Padre.

5. Los apóstoles, de acuerdo con la palabra y las enseñanzas del Maestro y aunque El mismo les concedió
el don de hacer milagros[9], sacaron de los libros divinos un gran medio de acción para propagar por todas
las naciones la sabiduría cristiana, vencer la obstinación de los judíos y sofocar las herejías nacientes. Este
hecho resalta en todos sus discursos, y en primer término en los de San Pedro, los cuales tejieron en gran
parte de textos del Antiguo Testamento el apoyo más firme de la Nueva Ley. Y lo mismo aparece en los
evangelios de San Mateo y San Juan y en las epístolas llamadas Católicas; y de manera clarísima en el
testimonio de aquel que se gloriaba de haber estudiado la ley de Moisés y los Profetas «a los pies de
Gamaliel», para poder decir después con confianza, provisto de armas espirituales: «Las armas de nuestra
milicia no son carnales, sino poderosas para con Dios»[10].

6. Que todos, pues, y muy especialmente los soldados de la sagrada milicia, comprendan, por los ejemplos
de Cristo y de los apóstoles, en cuánta estimación deben ser tenidas las divinas Letras y con cuánto celo y
con qué respeto les es preciso aproximarse a este arsenal. Porque aquellos que deben tratar, sea entre
doctos o entre ignorantes, la doctrina de la verdad, en ninguna parte fuera de los libros santos encontrarán
enseñanzas más numerosas y más completas sobre Dios, Bien sumo y perfectísimo, y sobre las obras que
ponen de manifiesto su gloria y su amor. Acerca del Salvador del género humano, ningún texto tan
fecundo y conmovedor como los que se encuentran en toda la Biblia, y por esto ha podido San Jerónimo
afirmar con razón «que la ignorancia de las Escrituras es la ignorancia de Cristo»[11], en ellas se ve viva y
palpitante su imagen, de la cual se difunde por manera maravillosa el alivio de los males, la exhortación a
la virtud y la invitación al amor divino. Y en lo concerniente a la Iglesia, su institución, sus caracteres, su
misión v sus dones se encuentran con tanta frecuencia en la Escritura y existen en su favor tantos y tan
sólidos argumentos, que el mismo San Jerónimo ha podido decir con mucha razón: «Aquel que se apoya
en los testimonios de los libros santos es el baluarte de la Iglesia»[12]. Si lo que se busca es algo
relacionado con la conformación y disciplina de la vida y de las costumbres, los hombres apostólicos
encontrarán en la Biblia grandes y excelentes recursos: prescripciones llenas de santidad, exhortaciones
sazonadas de suavidad y de fuerza, notables ejemplos de todas las virtudes, a lo cual se añade, en nombre
y con palabras del mismo Dios, la importantísima promesa de las recompensas y el anuncio de las penas
para toda la eternidad.

7. Esta virtud propia y singular de las Escrituras, procedente del soplo divino del Espíritu Santo, es la que
da autoridad al orador sagrado, le presta libertad apostólica en el hablar y le suministra una elocuencia
vigorosa y convincente. El que lleva en su discurso el espíritu y la fuerza de la palabra divina «no habla
solamente con la lengua, sino con la virtud del Espíritu Santo y con grande abundancia»[13]. Obran, pues,
con torpeza e imprevisión los que hablan de la religión y anuncian los preceptos divinos sin invocar apenas
otra autoridad que las de la ciencia y de la sabiduría humana, apoyándose más en sus propios argumentos
que en los argumentos divinos. Su discurso, aunque brillante, será necesariamente lánguido y frío, como
privado que está del fuego de la palabra de Dios[14], y está muy lejos de la virtud que posee el lenguaje
divino: «Pues la palabra de Dios es viva y eficaz y más penetrante que una espada de dos filos y llega
hasta la división del alma y del espíritu»[15]. Aparte de esto, los mismos sabios deben convenir en que
existe en las Sagradas Letras una elocuencia admirablemente variada, rica y más digna de los más grandes
objetos; esto es lo que San Agustín ha comprendido y perfectamente probado[16] y lo que confirma la
experiencia de los mejores oradores sagrados, que han reconocido, con agradecimiento a Dios, que deben
su fama a la asidua familiaridad y piadosa meditación de la Biblia.

8. Conociendo a fondo todas estas riquezas en la teoría y en la práctica, los Santos Padres no cesaron de
elogiar las Divinas Letras y los frutos que de ellas se pueden obtener. En más de un pasaje de sus obras
llaman a los libros santos «riquísimo tesoro de las doctrinas celestiales»[17] y «eterno manantial de
salvación»[18], y los comparan a fértiles praderas y a deliciosos jardines, en los que la grey del Señor
encuentra una fuerza admirable y un maravilloso encanto[19]. Aquí viene bien lo que decía San Jerónimo
al clérigo Nepociano: «Lee a menudo las divinas Escrituras; más aún, no se te caiga nunca de las manos la
sagrada lectura; aprende lo que debes enseñar...; la predicación del presbítero debe estar sazonada con la
lección de las Escrituras»[20], y concuerda la opinión de San Gregorio Magno, que ha descrito como nadie
los deberes de los pastores de la Iglesia: «Es necesario —dice— que los que se dedican al ministerio de la
predicación no se aparten del estudio de los libros santos»[21]

9. Y aquí nos place recordar este aviso de San Agustín: «No será en lo exterior un verdadero predicador de
la palabra de Dios aquel que no la escucha en el interior de sí mismo»[22]; y este consejo de San Gregorio
a los predicadores sagrados: «que antes de llevar la palabra divina a los otros se examinen a sí mismos, no
sea que, procurando las buenas acciones de los demás, se descuiden de sí propios»[23]. Mas esto había ya
sido advertido, siguiendo el ejemplo y la enseñanza de Cristo, que empezó a obrar y a enseñar[24], por la
voz del Apóstol al dirigirse no solamente a Timoteo, sino a todo el orden de los eclesiásticos con este
precepto: «Vela con atención sobre ti y sobre la doctrina, insiste en estas cosas; pues obrando así, te
salvarás a ti mismo y salvarás a tus oyentes»[25]. Y ciertamente, para la propia y ajena santificación, se
encuentran preciosas ayudas en los libros santos, y abundan sobre todo en los Salmos; pero sólo para
aquellos que presten a la divina palabra no solamente un espíritu dócil y atento, sino además una perfecta
y piadosa disposición de la voluntad. Porque la condición de estos libros no es común, sino que, por haber
sido dictados por el mismo Espíritu Santo, contienen verdades muy importantes, ocultas y difíciles de
interpretar en muchos puntos; y por ello, para comprenderlos y explicarlos, tenemos siempre necesidad de
la presencia de este mismo Espíritu[26], esto es, de su luz y de su gracia, que, como frecuentemente nos
advierte la autoridad del divino salmista, deben ser imploradas por medio de la oración humilde y
conservadas por la santidad de vida.

10. Y en esto aparece de un modo esplendoroso la previsión de la Iglesia, la cual, «para que este celestial
tesoro de los libros sagrados, que el Espíritu Santo entregó a los hombres con soberana liberalidad, no
fuera desatendido»[27], ha proveído en todo tiempo con las mejores instituciones y preceptos. Y así
estableció no solamente que una gran parte de ellos fuera leída y meditada por todos sus ministros en el
oficio diario de la sagrada salmodia, sino que fueran explicados e interpretados por hombres doctos en las
catedrales, en los monasterios y en los conventos de regulares donde pudiera prosperar su estudio: y
ordenó rigurosamente que los domingos y fiestas solemnes sean alimentados los fieles con las palabras
saludables del Evangelio[28]. Asimismo, a la prudencia y vigilancia de la Iglesia se debe aquella veneración
a la Sagrada Escritura, en todo tiempo floreciente y fecunda en frutos de salvación.

11. Para confirmar nuestros argumentos y nuestras exhortaciones, queremos recordar que todos los
hombres notables por la santidad de su vida y por su conocimiento de las cosas divinas, desde los
principios de la religión cristiana, han cultivado siempre con asiduidad el estudio de las Sagradas Letras.
Vemos que los discípulos más inmediatos de los apóstoles, entre los que citaremos a Clemente de Roma, a
Ignacio de Antioquía, a Policarpo, a todos los apologistas, especialmente Justino e Ireneo, para sus cartas
y sus libros, destinados ora a la defensa, ora a la propagación de los dogmas divinos, sacaron de las
divinas Letras toda su fe, su fuerza y su piedad. En las escuelas catequéticas y teológicas que se fundaron
en la jurisdicción de muchas sedes episcopales, y entre las que figuran como más célebres las de
Alejandría y Antioquía, la enseñanza que en ellas se daba no consistía, por decirlo así, más que en la
lectura, explicación y defensa de la palabra de Dios escrita. De estas aulas salieron la mayor parte de los
Santos Padres y escritores, cuyos profundos estudios y notables obras se sucedieron durante tres siglos
con tan grande abundancia, que este período fue llamado con razón la Edad de Oro de la exégesis bíblica.

12. Entre los orientales, el primer puesto corresponde a Orígenes, hombre admirable por la rápida
concepción de su entendimiento y por la constancia en sus trabajos, en cuyas numerosos escritos y en la
inmensa obra de sus Hexaplas puede decirse que se han inspirado casi todos sus sucesores. Entre los
muchos que han extendido los límites de esta ciencia es preciso enumerar como los más eminentes: en
Alejandría, a Clemente y a Cirilo; en Palestina, a Eusebio y al segundo Cirilo; en Capadocia, a Basilio el
Grande y a los dos Gregorios, el Nacianceno y el de Nisa; y en Antioquía, a Juan Crisóstomo, en quien a
una notable erudición se unió la más elevada elocuencia.

13. La Iglesia de Occidente no ostenta menores títulos de gloria. Entre los numerosos doctores que se han
distinguido en ella, ilustres son los nombres de Tertuliano y de Cipriano, de Hilario y de Ambrosio, de León
y Gregorio Magnos; pero sobre todo los de Agustín y de Jerónimo: agudísimo el uno para descubrir el
sentido de la palabra de Dios y riquísimo en sacar de ella partido para defender la verdad católica; el otro,
por su conocimiento extraordinario de la Biblia y por sus magníficos trabajos sobre los libros santos, ha
sido honrado por la Iglesia con el título de Doctor Máximo.

14. Desde esta época hasta el siglo XI, aunque esta clase de estudios no fueron tan ardientes ni tan
fructuosamente cultivados como en las épocas precedentes, florecieron bastante, gracias, sobre todo, al
celo de los sacerdotes. Estos cuidaron de recoger las obras más provechosas que sus predecesores habían
escrito y de propagarlas después de haberlas asimilado y aumentado de su propia cosecha, como hicieron
sobre todo Isidoro de Sevilla, Beda y Alcuino; o bien de glosar los manuscritos sagrados, como Valfrido,
Estrabón y Anselmo de Luán; o de proveer con procedimientos nuevos a la conservación de los mismos,
como hicieron Pedro Damián y Lanfranco.

15. En el siglo XII, muchos emprendieron con gran éxito la explicación alegórica de la Sagrada Escritura;
en este género aventajó fácilmente a los demás San Bernardo, cuyos sermones no tienen otro sabor que el
de las divinas Letras.

16. Pero también se realizaron nuevos y abundantes progresos gracias al método de los escolásticos.
Estos, aunque se dedicaron a investigar la verdadera lección de la versión latina, como lo demuestran
los correctorios bíblicos que crearon, pusieron todavía más celo y más cuidado en la interpretación y en la
explicación de los libros santos. Tan sabia y claramente como nunca hasta entonces distinguieron los
diversos sentidos de las palabras sagradas; fijaron el valor de cada una en materia teológica; anotaron los
diferentes capítulos y el argumento de cada una de las partes; investigaron las intenciones de los autores y
explicaron la relación y conexión de las distintas frases entre sí; con lo cual todo el mundo ve cuánta luz ha
sido llevada a puntos oscuros. Además, tanto sus libros de teología como sus comentarios a la Sagrada
Escritura manifiestan la abundancia de doctrina que de ella sacaron. A este título, Santo Tomás se llevó
entre todos ellos la palma.

17. Pero desde que nuestro predecesor Clemente V mandó instituir en el Ateneo de Roma y en las más
célebres universidades cátedras de literatura orientales, nuestros hombres empezaron a estudiar con más
vigor sobre el texto original de la Biblia y sobre la versión latina. Renacida más tarde la cultura griega, y
más aún por la invención de la imprenta, el cultivo de la Sagrada Escritura se extendió de un modo
extraordinario. Es realmente asombroso en cuán breve espacio de tiempo los ejemplares de los sagrados
libros, sobre todo de la Vulgata, multiplicados por la imprenta, llenaron el mundo; de tal modo eran
venerados y estimados los divinos libros en la Iglesia.

18. Ni debe omitirse el recuerdo de aquel gran número de hombres doctos, pertenecientes sobre todo a las
órdenes religiosas, que desde el concilio de Viena hasta el de Trento trabajaron por la prosperidad de los
estudios bíblicos; empleando nuevos métodos y aportando la cosecha de su vasta erudición y de su
talento, no sólo acrecentaron las riquezas acumuladas por sus predecesores, sino que prepararon en cierto
modo el camino para la gloria del siguiente siglo, en el que, a partir del concilio de Trento, pareció hasta
cierto punto haber renacido la época gloriosa de los Padres de la Iglesia. Nadie, en efecto, ignora, y nos
agrada recordar, que nuestros predecesores, desde Pío IV a Clemente VIII, prepararon las notables
ediciones de las versiones antiguas Vulgata y Alejandrina; que, publicadas después por orden y bajo la
autoridad de Sixto V y del mismo Clemente, son hoy día de uso general. Sabido es que en esta época
fueron editadas, al mismo tiempo que otras versiones de la Biblia, las poliglotas de Amberes y de París,
aptísimas para la investigación del sentido exacto, y que no hay un solo libro de los dos Testamentos que
no encontrara entonces más de un intérprete; ni existe cuestión alguna relacionada con este asunto que no
ejercitara con fruto el talento de muchos sabios, entre los que cierto número, sobre todo los que
estudiaron más a los Santos Padres, adquirieron notable renombre. Ni a partir de esta época ha faltado el
celo a nuestros exegetas, ya que hombres distinguidos han merecido bien de estos estudios, y contra los
ataques del racionalismo, sacados de la filología y de las ciencias afines, han defendido la Sagrada
Escritura sirviéndose de argumentos del mismo género.

19. Todos los que sin prevenciones examinen esta rápida reseña nos concederán ciertamente que la Iglesia
no ha perdonado recurso alguno para hacer llegar hasta sus hijos las fuentes saludables de la Divina
Escritura; que siempre ha conservado este auxilio, para cuya guarda ha sido propuesta por Dios, y que lo
ha reforzado con toda clase de estudios, de tal modo que no ha tenido jamás, ni tiene ahora, necesidad de
estímulos por parte de los extraños.

20. El plan que hemos propuesto exige que comuniquemos con vosotros, venerables hermanos, lo que
estimamos oportuno para la buena ordenación de estos estudios. Pero importa ante todo examinar qué
clase de enemigos tenemos enfrente y en qué procedimientos o en qué armas tienen puesta su confianza.

21. Como antiguamente hubo que habérselas con los que, apoyándose en su juicio particular y recurriendo
a las divinas tradiciones y al magisterio de la Iglesia, afirmaban que la Escritura era la única fuente de
revelación y el juez supremo de la fe; así ahora nuestros principales adversarios son los racionalistas, que,
hijos y herederos, por decirlo así, de aquéllos y fundándose igualmente en su propia opinión, rechazan
abiertamente aun aquellos restos de fe cristiana recibidos de sus padres. Ellos niegan, en efecto, toda
divina revelación o inspiración; niegan la Sagrada Escritura; proclaman que todas estas cosas no son sino
invenciones y artificios de los hombres; miran a los libros santos, no como el relato fiel de acontecimientos
reales, sino como fábulas ineptas y falsas historias. A sus ojos no han existido profecías, sino predicciones
forjadas después de haber ocurrido los hechos, o presentimientos explicables por causas naturales; para
ellos no existen milagros verdaderamente dignos de este nombre, manifestaciones de la omnipotencia
divina, sino hechos asombrosos, en ningún modo superiores a las fuerzas de la naturaleza, o bien ilusiones
y mitos; los evangelios y los escritos de los apóstoles han de ser atribuidos a otros autores.

22. Presentan este cúmulo de errores, con los que creen poder anonadar a la sacrosanta verdad de los
libros divinos, como veredictos inapelables de una nueva ciencia libre; pero que tienen ellos mismos por
tan inciertos, que con frecuencia varían y se contradicen en unas mismas cosas. Y mientras juzgan y
hablan de una manera tan impía respecto de Dios, de Cristo, del Evangelio y del resto de las Escrituras, no
faltan entre ellos quienes quisieran ser considerados como teólogos, como cristianos y como evangélicos, y
que bajo un nombre honrosísimo ocultan la temeridad de un espíritu insolente. A estos tales se juntan,
participando de sus ideas y ayudándolos, otros muchos de otras disciplinas, a quienes la misma intolerancia
de las cosas reveladas impulsa del mismo modo a atacar a la Biblia. Nos no sabríamos deplorar demasiado
la extensión y la violencia que de día en día adquieren estos ataques. Se dirigen contra hombres instruidos
y serios que pueden defenderse sin gran dificultad; pero se ceban principalmente en la multitud de los
ignorantes, como enemigos encarnizados de manera sistemática. Por medio de libros, de opúsculos y de
periódicos propagan el veneno mortífero; lo insinúan en reuniones y discursos; todo lo han invadido, y
poseen numerosas escuelas arrancadas a la tutela de la Iglesia, en las que depravan miserablemente,
hasta por medio de sátiras y burlas chocarreras, las inteligencias aún tiernas y crédulas de los jóvenes,
excitando en ellos el desprecio hacia la Sagrada Escritura.

23. En todo esto hay, venerables hermanos, hartos motivos para excitar y animar el celo común de los
pastores, de tal modo que a esa ciencia nueva, a esa falsa ciencia[29], se oponga la doctrina antigua y
verdadera que la Iglesia ha recibido de Cristo por medio de los apóstoles y surjan hábiles defensores de la
Sagrada Escritura para este duro combate.
24. Nuestro primer cuidado, por lo tanto, debe ser éste: que en los seminarios y en las universidades se
enseñen las Divinas Letras punto por punto, como lo piden la misma importancia de esta ciencia y las
necesidades de la época actual. Por esta razón, nada debéis cuidar tanto como la prudente elección de los
profesores; para este cometido importa efectivamente nombrar, no a personas vulgares, sino a los que se
recomienden por un grande amor y una larga práctica de la Biblia, por una verdadera cultura científica y,
en una palabra, por hallarse a la altura de su misión. No exige menos cuidado la tarea de procurar quienes
después ocupen el puesto de éstos. Será conveniente que, allí donde haya facilidad para ello, se escoja,
entre los alumnos mejores que hayan cursado de manera satisfactoria los estudios teológicos, algunos que
se dediquen por completo a los libros divinos con la posibilidad de cursar en algún tiempo estudios
superiores. Cuando los profesores hayan sido elegidos y formados de este modo, ya pueden emprender
con confianza la tarea que se les encomienda; y para que mejor la lleven y obtengan los resultados que
son de esperar, queremos darles algunas instrucciones más detalladas.

25. Al comienzo de los estudios deben atender al grado de inteligencia de los discípulos, para formar y
cultivar en ellos un criterio, apto al mismo tiempo para defender los libros divinos y para captar su sentido.
Tal es el objeto del tratado de la introducción bíblica, que suministra al discípulo recursos; para demostrar
la integridad y autoridad de la Biblia, para buscar y descubrir su verdadero sentido y para atacar de frente
las interpretaciones sofísticas, extirpándolas en su raíz. Apenas hay necesidad de indicar cuán importante
es discutir estos puntos desde el principio, con orden, científicamente y recurriendo a la teología; pues todo
el restante estudio de la Escritura se apoya en estas bases y se ilumina con estos resplandores.

26. El profesor debe aplicarse con gran cuidado a dar a conocer a fondo la parte más fecunda de esta
ciencia, que concierne a la interpretación, y para que sus oyentes sepan de qué modo podrán utilizar las
riquezas de la palabra divina en beneficio de la religión y de la piedad. Comprendemos ciertamente que ni
la extensión de la materia ni el tiempo de que se dispone permiten recorrer en las aulas todas las
Escrituras. Pero, toda vez que es necesario poseer un método seguro para dirigir con fruto su
interpretación, un maestro prudente deberá evitar al mismo tiempo el defecto de los que hacen gustar
deprisa algo de todos los libros, y el defecto de aquellos otros que se detienen en una parte determinada
más de la cuenta. Si en la mayor parte de las escuelas no se puede conseguir, como en las academias
superiores, que este o aquel libro sea explicado de una manera continua y extensa, cuando menos se ha
de procurar que los pasajes escogidos para la interpretación sean estudiados de un modo suficiente y
completo; los discípulos, atraídos e instruidos por este módulo de explicación, podrán luego releer y gustar
el resto de la Biblia durante toda su vida.

27. El profesor, fiel a las prescripciones de aquellos que nos precedieron, deberá emplear para esto la
versión Vulgata, la cual el concilio Tridentino decretó que había de ser tenida «como auténtica en las
lecturas públicas, en las discusiones, en las predicaciones y en las explicaciones»[30], y la recomienda
también la práctica cotidiana de la Iglesia. No queremos decir, sin embargo, que no se hayan de tener en
cuenta las demás versiones que alabó y empleó la antigüedad cristiana, y sobre todo los textos primitivos.
Pues si en lo que se refiere a los principales puntos el pensamiento del hebreo y del griego está
suficientemente claro en estas palabras de la Vulgata, no obstante, si algún pasaje resulta ambiguo o
menos claro en ella, «el recurso a la lengua precedente» será, siguiendo el consejo de San Agustín,
utilísimo[31]. Claro es que será preciso proceder con mucha circunspección en esta tarea; pues el oficio
«del comentador es exponer, no lo que él mismo piensa, sino lo que pensaba el autor cuyo texto
explica»[32].

28. Después de establecida por todos los medios, cuando sea preciso, la verdadera lección, habrá llegado
el momento de escudriñar y explicar su sentido. Nuestro primer consejo acerca de este punto es que
observen las normas que están en uso respecto de la interpretación, con tanto más cuidado cuanto el
ataque de nuestros adversarios es sobre este particular más vivo. Por eso, al cuidado de valorar las
palabras en sí mismas, la significación de su contexto, los lugares paralelos, etc., deben unirse también la
ilustración de la erudición conveniente; con cautela, sin embargo, para no emplear más tiempo ni más
esfuerzo en estas cuestiones que en el estudio de los libros santos y para evitar que un conocimiento
demasiado extenso y profundo de tales cosas lleve al espíritu de la juventud más turbación que ayuda.

29. De aquí se pasará con seguridad al uso de la Sagrada Escritura en materia teológica. Conviene hacer
notar a este respecto que a las otras causas de dificultad que se presentan para entender cualquier libro de
autores antiguos se añaden algunas particularidades en los libros sagrados. En sus palabras, por obra del
Espíritu Santo, se oculta gran número de verdades que sobrepujan en mucho la fuerza y la penetración de
la razón humana, como son los divinos misterios y otras muchas cosas que con ellos se relacionan: su
sentido es a veces más amplio y más recóndito de lo que parece expresar la letra e indican las reglas de la
hermenéutica; además, su sentido literal oculta en sí mismo otros significados que sirven unas veces para
ilustrar los dogmas y otras para inculcar preceptos de vida; por lo cual no puede negarse que los libros
sagrados se hallan envueltos en cierta oscuridad religiosa, de manera que nadie puede sin guía penetrar en
ellos[33]. Dios lo ha querido así (ésta es la opinión de los Santos Padres) para que los hombres los
estudien con más atención y cuidado, para que las verdades más penosamente adquiridas penetren más
profundamente en su corazón y para que ellos comprendan sobre todo que Dios ha dado a la Iglesia las
Escrituras a fin de que la tengan por guía y maestra en la lectura e interpretación de sus palabras. Ya San
Ireneo enseñó[34] que, allí donde Dios ha puesto sus carismas, debe buscarse la verdad, y que aquellos en
quienes reside la sucesión de los apóstoles explican las Escrituras sin ningún peligro de error: ésta es su
doctrina y la doctrina de los demás Santos Padres, que adoptó el concilio Vaticano cuando, renovando el
decreto tridentino sobre la interpretación de la palabra divina escrita, declaró ser la mente de éste que «en
las cosas de fe y costumbres que se refieren a la edificación de la doctrina cristiana ha de ser tenido por
verdadero sentido de la Escritura Sagrada aquel que tuvo y tiene la santa madre Iglesia, a la cual
corresponde juzgar del verdadero sentido e interpretación de las Santas Escrituras; y, por lo tanto, que a
nadie es lícito interpretar dicha Sagrada Escritura contra tal sentido o contra el consentimiento unánime de
los Padres»[35].

30. Por esta ley, llena de prudencia, la Iglesia no detiene ni coarta las investigaciones de la ciencia bíblica,
sino más bien las mantiene al abrigo de todo error y contribuye poderosamente a su verdadero progreso.
Queda abierto al doctor un vasto campo en el que con paso seguro pueda ejercitar su celo de intérprete de
manera notable y con provecho para la Iglesia. Porque en aquellos pasajes de la Sagrada Escritura que
todavía esperan una explicación cierta y bien definida, puede acontecer, por benévolo designio de la
providencia de Dios, que con este estudio preparatorio llegue a madurar; y, en los puntos ya definidos, el
doctor privado puede también desempeñar un papel útil si los explica con más claridad a la muchedumbre
de los fieles o más científicamente a los doctos, o si los defiende con energía contra los adversarios de la
fe. El intérprete católico debe, pues, mirar como un deber importantísimo y sagrado explicar en el sentido
declarado los textos de la Escritura cuya significación haya sido declarada auténticamente, sea por los
autores sagrados, a quienes les ha guiado la inspiración del Espíritu Santo —como sucede en muchos
pasajes del Nuevo Testamento—, sea por la Iglesia, asistida también por el mismo Espíritu Santo «en juicio
solemne o por su magisterio universal y ordinario»[36], y llevar al convencimiento de que esta
interpretación es la única que, conforme a las leyes de una sana hermenéutica, puede aceptarse. En los
demás puntos deberá seguir la analogía de la fe y tomar como norma suprema la doctrina católica tal como
está decidida por la autoridad de la Iglesia; porque, siendo el mismo Dios el autor de los libros santos y de
la doctrina que la Iglesia tiene en depósito, no puede suceder que proceda de una legítima interpretación
de aquéllos un sentido que discrepe en alguna manera de ésta. De donde resulta que se debe rechazar
como insensata y falsa toda explicación que ponga a los autores sagrados en contradicción entre sí o que
sea opuesta a la enseñanza de la Iglesia.

31. El maestro de Sagrada Escritura debe también merecer este elogio: que posee a fondo toda la teología
y que conoce perfectamente los comentarios de los Santos Padres, de los doctores y de los mejores
intérpretes. Tal es la doctrina de San Jerónimo[37] y de San Agustín, quien se queja, con razón, en estos
términos: «Si toda ciencia, por poco importante que sea y fácil de adquirir, pide ser enseñada por un
doctor o maestro, ¡qué cosa más orgullosamente temeraria que no querer aprender de sus intérpretes los
libros de los divinos misterios!»[38]. Igualmente pensaron otros Santos Padres y lo confirmaron con su
ejemplo «al procurar la inteligencia de las divinas Escrituras no por su propia presunción, sino según los
escritos y la autoridad de sus predecesores, que sabían haber recibido, por sucesión de los apóstoles, las
reglas para su interpretación»[39].

32. La autoridad de los Santos Padres, que después de los apóstoles «hicieron crecer a la Iglesia con sus
esfuerzos de jardineros, constructores, pastores y nutricios»[40], es suprema cuando explican
unánimemente un texto bíblico como perteneciente a la doctrina de la fe y de las costumbres; pues de su
conformidad resulta claramente, según la doctrina católica, que dicha explicación ha sido recibida por
tradición de los apóstoles. La opinión de estos mismos Padres es también muy estimable cuando tratan de
estas cosas como doctores privados; pues no solamente su ciencia de la doctrina revelada y su
conocimiento de muchas cosas de gran utilidad para interpretar los libros apostólicos los recomiendan, sino
que Dios mismo ha prodigado los auxilios abundantes de sus luces a estos hombres notabilísimos por la
santidad de su vida y por su celo por la verdad. Que el intérprete sepa, por lo tanto, que debe seguir sus
pasos con respeto y aprovecharse de sus trabajos mediante una elección inteligente.

33. No es preciso, sin embargo, creer que tiene cerrado el camino para no ir más lejos en sus pesquisas y
en sus explicaciones cuando un motivo razonable exista para ello, con tal que siga religiosamente el sabio
precepto dado por San Agustín: «No apartarse en nada del sentido literal y obvio, como no tenga alguna
razón que le impida ajustarse a él o que haga necesario abandonarlo»[41]; regla que debe observarse con
tanta más firmeza cuanto existe un mayor peligro de engañarse en medio de tanto deseo de novedades y
de tal libertad de opiniones. Procure asimismo no descuidar lo que los Santos Padres entendieron en
sentido alegórico o parecido, sobre todo cuando este significado derive del sentido literal y se apoye en
gran número de autoridades. La Iglesia ha recibido de los apóstoles este método de interpretación y lo ha
aprobado con su ejemplo, como se ve en la liturgia; no que los Santos Padres hayan pretendido demostrar
con ello propiamente los dogmas de la fe, sino que sabían por experiencia que este método era bueno para
alimentar la virtud y la piedad.

34. La autoridad de los demás intérpretes católicos es, en verdad, menor; pero, toda vez que los estudios
bíblicos han hecho en la Iglesia continuos progresos, es preciso dar el honor que les corresponde a los
comentarios de estos doctores, de los cuales se pueden tomar muchos argumentos para rechazar los
ataques y esclarecer los puntos difíciles. Pero lo que no conviene en modo alguno es que, ignorando o
despreciando las excelentes obras que los nuestros nos dejaron en gran número, prefiera el intérprete los
libros de los heterodoxos y busque en ellos, con gran peligro de la sana doctrina y muy frecuentemente
con detrimento de la fe, la explicación de pasajes en los que los católicos vienen ejercitando su talento y
multiplicando sus esfuerzos desde hace mucho tiempo y con éxito. Pues aunque, en efecto, los estudios de
los heterodoxos, prudentemente utilizados, puedan a veces ayudar al intérprete católico, importa, no
obstante, a éste recordar que, según numerosos testimonios de nuestros mayores[42], el sentido
incorrupto de las Sagradas Letras no se encuentra fuera de la Iglesia y no puede ser enseñado por los que,
privados de la verdad de la fe, no llegan hasta la médula de las Escrituras, sino que únicamente roen su
corteza[43].

35. Es muy de desear y necesario que el uso de la divina Escritura influya en toda la teología y sea como
su alma; tal ha sido en todos los tiempos la doctrina y la práctica de todos los Padres y de los teólogos más
notables. Ellos se esforzaban por establecer y afirmar sobre los libros santos las verdades que son objeto
de la fe y las que de éste se derivan; y de los libros sagrados y de la tradición divina se sirvieron para
refutar las novedades inventadas por los herejes y para encontrar la razón de ser, la explicación y la
relación que existe entre los dogmas católicos. Nada tiene esto de sorprendente para el que reflexione
sobre el lugar tan importante que corresponde a los libros divinos entre las fuentes de la revelación, hasta
el punto de que sin su estudio y uso diario no podría la teología ser tratada con el honor y dignidad que le
son propios. Porque, aunque deban los jóvenes ejercitarse en las universidades y seminarios de manera
que adquieran la inteligencia y la ciencia de los dogmas deduciendo de los artículos de la fe unas verdades
de otras, según las reglas de una filosofía experimentada y sólida, no obstante, el teólogo profundo e
instruido no puede descuidar la demostración de los dogmas basada en la autoridad de la Biblia. «Porque
la teología no toma sus argumentos de las demás ciencias, sino inmediatamente de Dios por la revelación.
Por lo tanto, nada recibe de esas ciencias como si le fueran superiores, sino que las emplea como a sus
inferiores y seguidoras». Este método de enseñanza de la ciencia sagrada está indicado y recomendado
por el príncipe de los teólogos, Santo Tomás de Aquino[44], el cual, además, como perfecto conocedor de
este peculiar carácter de la teología cristiana, enseña de qué manera el teólogo puede defender estos
principios si alguien los ataca: «Argumentando, si el adversario concede algunas de las verdades que
tenemos por revelación; y en este sentido disputamos contra los herejes aduciendo las autoridades de la
Escritura o empleando un artículo de la fe contra los que niegan otro. Por el contrario, si el adversario no
cree en nada revelado, no nos queda recurso para probar los artículos de la fe con razones, sino sólo para
deshacer las que él proponga contra la fe»[45].

36. Hay que poner, por lo tanto, especial cuidado en que los jóvenes acometan los estudios bíblicos
convenientemente instruidos y pertrechados, para que no defrauden nuestras legítimas esperanzas ni, lo
que sería más grave, sucumban incautamente ante el error, engañados por las falacias de los racionalistas
y por el fantasma de una erudición superficial. Estarán perfectamente preparados si, con arreglo al método
que Nos mismo les hemos enseñado y prescrito, cultivan religiosamente y con profundidad el estudio de la
filosofía y de la teología bajo la dirección del mismo Santo Tomás. De este modo procederán con paso
firme y harán grandes progresos en las ciencias bíblicas como en la parte de la teología llamada positiva.

37. Haber demostrado, explicado y aclarado la verdad de la doctrina católica mediante la interpretación
legítima y diligente de los libros sagrados es mucho ciertamente; resta, sin embargo, otro punto que fijar y
tan importante como laborioso: el de afirmar con la mayor solidez la autoridad íntegra de los mismos. Lo
cual no podrá conseguirse plena y enteramente sino por el magisterio vivo y propio de la Iglesia, que «por
sí misma y a causa de su admirable difusión, de su eminente santidad, de su fecundidad inagotable en
toda suerte de bienes, de su unidad católica, de su estabilidad invencible, es un grande y perpetuo motivo
de credibilidad y una prueba irrefutable de su divina misión»[46]. Pero toda vez que este divino e infalible
magisterio de la Iglesia descansa también en la autoridad de la Sagrada Escritura, es preciso afirmar y
reivindicar la fe, cuando menos, en la Biblia, por cuyos libros, como testimonios fidedignos de la
antigüedad, serán puestas de manifiesto y debidamente establecidas la divinidad y la misión de Jesucristo,
la institución de la jerarquía de la Iglesia y la primacía conferida a Pedro y a sus sucesores.

38. A este fin será muy conveniente que se multipliquen los sacerdotes preparados, dispuestos a combatir
en este campo por la fe y a rechazar los ataques del enemigo, revestidos de la armadura de Dios, que
recomienda el Apóstol[47], y entrenados en las nuevas armas y en la nueva estrategia de sus adversarios.
Es lo que hermosamente incluye San Juan Crisóstomo entre los deberes del sacerdote: «Es preciso —dice—
emplear un gran celo a fin de que la palabra de Dios habite con abundancia en nosotros[48]; no debemos,
pues, estar preparados para un solo género de combate, porque no todos usan las mismas armas ni tratan
de acometernos de igual manera. Es, por lo tanto, necesario que quien ha de medirse con todos, conozca
las armas y los procedimientos de todos y sepa ser a la vez arquero y hondero, tribuno y jefe de cohorte,
general y soldado, infante y caballero, apto para luchar en el mar y para derribar murallas; porque, si no
conoce todos los medios de combatir, el diablo sabe, introduciendo a sus raptores por un solo punto en el
caso de que uno solo quedare sin defensa, arrebatar las ovejas»[49]. Más arriba hemos mencionado las
astucias de los enemigos y los múltiples medios que emplean en el ataque. Indiquemos ahora los
procedimientos que deben utilizarse para la defensa.

39. Uno de ellos es, en primer término, el estudio de las antiguas lenguas orientales y, al mismo tiempo, el
de la ciencia que se llama crítica. Siendo estos dos conocimientos en el día de hoy muy apreciados y
estimados, el clero que los posea con más o menos profundidad, según el país en que se encuentre y los
hombres con quienes esté en relación, podrá mejor mantener su dignidad y cumplir con los deberes de su
cargo, ya que debe hacerse todo para todos[50] y estar siempre pronto a satisfacer a todo aquel que le
pida la razón de su esperanzas[51]. Es, pues, necesario a los profesores de Sagrada Escritura, y conviene a
los teólogos, conocer las lenguas en las que los libros canónicos fueron originariamente escritos por los
autores sagrados; sería también excelente que los seminaristas cultivasen dichas lenguas, sobre todo
aquellos que aspiran a los grados académicos en teología. Debe también procurarse que en todas las
academias, como ya se ha hecho laudablemente en muchas, se establezcan cátedras donde se enseñen
también las demás lenguas antiguas, sobre todo las semíticas, y las materias relacionadas con ellas, con
vistas, sobre todo, a los jóvenes que se preparan para profesores de Sagradas Letras.

40. Importa también, por la misma razón, que los susodichos profesores de Sagrada Escritura se instruyan
y ejerciten más en la ciencia de la verdadera crítica; porque, desgraciadamente, y con gran daño para la
religión, se ha introducido un sistema que se adorna con el nombre respetable de «alta crítica», y según el
cual el origen, la integridad y la autoridad de todo libro deben ser establecidos solamente atendiendo a lo
que ellos llaman razones internas. Por el contrario, es evidente que, cuando se trata de una cuestión
histórica, como es el origen y conservación de una obra cualquiera, los testimonios históricos tienen más
valor que todos los demás y deben ser buscados y examinados con el máximo interés; las razones internas,
por el contrario, la mayoría de las veces no merecen la pena de ser invocadas sino, a lo más, como
confirmación. De otro modo, surgirán graves inconvenientes: los enemigos de la religión atacarán la
autenticidad de los libros sagrados con más confianza de abrir brecha; este género de «alta crítica» que
preconizan conducirá en definitiva a que cada uno en la interpretación se atenga a sus gustos y a sus
prejuicios; de este modo, la luz que se busca en las Escrituras no se hará, y ninguna ventaja reportará la
ciencia; antes bien se pondrá de manifiesto esa nota característica del error que consiste en la diversidad y
disentimiento de las opiniones, como lo están demostrando los corifeos de esta nueva ciencia; y como la
mayor parte están imbuidos en las máximas de una vana filosofía y del racionalismo, no temerán descartar
de los sagrados libros las profecías, los milagros y todos los demás hechos que traspasen el orden natural.

41. Hay que luchar en segundo lugar contra aquellos que, abusando de sus conocimientos de las ciencias
físicas, siguen paso a paso a los autores sagrados para echarles en cara su ignorancia en estas cosas y
desacreditar así las mismas Escrituras. Como quiera que estos ataques se fundan en cosas que entran en
los sentidos, son peligrosísimos cuando se esparcen en la multitud, sobre todo entre la juventud dedicada a
las letras; la cual, una vez que haya perdido sobre algún punto el respeto a la revelación divina, no tardará
en abandonar la fe en todo lo demás. Porque es demasiado evidente que así como las ciencias naturales,
con tal de que sean convenientemente enseñadas, son aptas para manifestar la gloria del Artífice supremo,
impresa en las criaturas, de igual modo son capaces de arrancar del alma los principios de una sana
filosofía y de corromper las costumbres cuando se infiltran con dañadas intenciones en las jóvenes
inteligencias. Por eso, el conocimiento de las cosas naturales será una ayuda eficaz para el que enseña la
Sagrada Escritura; gracias a él podrá más fácilmente descubrir y refutar los sofistas de esta clase dirigidos
contra los libros sagrados.

42. No habrá ningún desacuerdo real entre el teólogo y el físico mientras ambos se mantengan en sus
límites, cuidando, según la frase de San Agustín, «de no afirmar nada al azar y de no dar por conocido lo
desconocido»[52]. Sobre cómo ha de portarse el teólogo si, a pesar de esto, surgiere discrepancia, hay una
regla sumariamente indicada por el mismo Doctor: «Todo lo que en materia de sucesos naturales pueden
demostrarnos con razones verdaderas, probémosles que no es contrario a nuestras Escrituras; mas lo que
saquen de sus libros contrario a nuestras Sagrada Letras, es decir, a la fe católica, demostrémosles, en lo
posible o, por lo menos, creamos firmemente que es falsísimo»[53]. Para penetrarnos bien de la justicia de
esta regla, se ha de considerar en primer lugar que los escritores sagrados, o mejor el Espíritu Santo, que
hablaba por ellos, no quisieron enseñar a los hombres estas cosas (la íntima naturaleza o constitución de
las cosas que se ven), puesto que en nada les habían de servir para su salvación[54], y así, más que
intentar en sentido propio la exploración de la naturaleza, describen y tratan a veces las mismas cosas, o
en sentido figurado o según la manera de hablar en aquellos tiempos, aún hoy vigente para muchas cosas
en la vida cotidiana hasta entre los hombres más cultos. Y como en la manera vulgar de expresarnos suele
ante todo destacar lo que cae bajo los sentidos, de igual modo el escritor sagrado —y ya lo advirtió el
Doctor Angélico— «se guía por lo que aparece sensiblemente»[55], que es lo que el mismo Dios, al hablar
a los hombres, quiso hacer a la manera humana para ser entendido por ellos.

43. Pero de que sea preciso defender vigorosamente la Santa Escritura no se sigue que sea necesario
mantener igualmente todas las opiniones que cada uno de los Padres o de los intérpretes posteriores han
sostenido al explicar estas mismas Escrituras; los cuales, al exponer los pasajes que tratan de cosas físicas,
tal vez no han juzgado siempre según la verdad, hasta el punto de emitir ciertos principios que hoy no
pueden ser aprobados. Por lo cual es preciso descubrir con cuidado en sus explicaciones aquello que dan
como concerniente a la fe o como ligado con ella y aquello que afirman con consentimiento unánime;
porque, «en las cosas que no son de necesidad de fe, los santos han podido tener pareceres diferentes, lo
mismo que nosotros», según dice Santo Tomás[56]. El cual, en otro pasaje, dice con la mayor prudencia:
«Por lo que concierne a las opiniones que los filósofos han profesado comúnmente y que no son contrarias
a nuestra fe, me parece más seguro no afirmarlas como dogmas, aunque algunas veces se introduzcan
bajo el nombre de filósofos, ni rechazarlas como contrarias a la fe, para no dar a los sabios de este mundo
ocasión de despreciar nuestra doctrina»[57]. Pues, aunque el intérprete debe demostrar que las verdades
que los estudiosos de las ciencias físicas dan como ciertas y apoyadas en firmes argumentos no
contradicen a la Escritura bien explicada, no debe olvidar, sin embargo, que algunas de estas verdades,
dadas también como ciertas, han sido luego puestas en duda y rechazadas. Que si los escritores que tratan
de los hechos físicos, traspasados los linderos de su ciencia, invaden con opiniones nocivas el campo de la
filosofía, el intérprete teólogo deje a cargo de los filósofos el cuidado de refutarlas.

44. Esto mismo habrá de aplicarse después a las ciencias similares, especialmente a la historia. Es de
sentir, en efecto, que muchos hombres que estudian a fondo los monumentos de la antigüedad, las
costumbres y las instituciones de los pueblos, investigan y publican con grandes esfuerzos los
correspondientes documentos, pero frecuentemente con objeto de encontrar errores en los libros santos
para debilitar y quebrantar completamente su autoridad. Algunos obran así con demasiada hostilidad y sin
bastante equilibrio, ya que se fían de los libros profanos y de los documentos del pasado como si no
pudiese existir ninguna sospecha de error respecto a ellos, mientras niegan, por lo menos, igual fe a los
libros de la Escritura ante la más leve sospecha de error y sin pararse siquiera a discutirla.

45. Puede ocurrir que en la transcripción de los códices se les escaparan a los copistas algunas erratas; lo
cual debe estudiarse con cuidado y no admitirse fácilmente sino en los lugares que con todo rigor haya
sido demostrado; también puede suceder que el sentido verdadero de algunas frases continúe dudoso;
para determinarlo, las reglas de la interpretación serán de gran auxilio; pero lo que de ninguna manera
puede hacerse es limitar la inspiración a solas algunas partes de las Escrituras o conceder que el autor
sagrado haya cometido error. Ni se debe tolerar el proceder de los que tratan de evadir estas dificultades
concediendo que la divina inspiración se limita a las cosas de fe y costumbres y nada más, porque piensan
equivocadamente que, cuando se trata de la verdad de las sentencias, no es preciso buscar principalmente
lo que ha dicho Dios, sino examinar más bien el fin para el cual lo ha dicho. En efecto, los libros que la
Iglesia ha recibido como sagrados y canónicos, todos e íntegramente, en todas sus partes, han sido
escritos bajo la inspiración del Espíritu Santo; y está tan lejos de la divina inspiración el admitir error, que
ella por sí misma no solamente lo excluye en absoluto, sino que lo excluye y rechaza con la misma
necesidad con que es necesario que Dios, Verdad suma, no sea autor de ningún error.

46. Tal es la antigua y constante creencia de la Iglesia definida solemnemente por los concilios de Florencia
y de Trento, confirmada por fin y más expresamente declarada en el concilio Vaticano, que dio este
decreto absoluto: «Los libros del Antiguo y del Nuevo Testamento, íntegros, con todas sus partes, como se
describen en el decreto del mismo concilio (Tridentino) y se contienen en la antigua versión latina Vulgata,
deben ser recibidos por sagrados y canónicos. La Iglesia los tiene por sagrados y canónicos, no porque,
habiendo sido escritos por la sola industria humana, hayan sido después aprobados por su autoridad, ni
sólo porque contengan la revelación sin error, sino porque, habiendo sido escritos por inspiración del
Espíritu Santo, tienen a Dios por autor»[58]. Por lo cual nada importa que el Espíritu Santo se haya servido
de hombres como de instrumentos para escribir, como si a estos escritores inspirados, ya que no al autor
principal, se les pudiera haber deslizado algún error. Porque El de tal manera los excitó y movió con su
influjo sobrenatural para que escribieran, de tal manera los asistió mientras escribían, que ellos concibieran
rectamente todo y sólo lo que El quería, y lo quisieran fielmente escribir, y lo expresaran aptamente con
verdad infalible; de otra manera, El no sería el autor de toda la Sagrada Escritura.

47. Tal ha sido siempre el sentir de los Santos Padres. «Y así —dice San Agustín—, puesto que éstos han
escrito lo que el Espíritu Santo les ha mostrado y les ha dicho, no debe decirse que no lo ha escrito El
mismo, ya que, como miembros, han ejecutado lo que la cabeza les dictaba»[59]. Y San Gregorio Magno
dice: «Es inútil preguntar quién ha escrito esto, puesto que se cree firmemente que el autor del libro es el
Espíritu Santo; ha escrito, en efecto, el que dictó lo que se había de escribir; ha escrito quien ha inspirado
la obra»[60]. Síguese que quienes piensen que en los lugares auténticos de los libros sagrados puede
haber algo de falso, o destruyen el concepto católico de inspiración divina, o hacen al mismo Dios autor del
error.

48. Y de tal manera estaban todos los Padres y Doctores persuadidos de que las divinas Letras, tales
cuales salieron de manos de los hagiógrafos, eran inmunes de todo error, que por ello se esforzaron, no
menos sutil que religiosamente, en componer entre sí y conciliar los no pocos pasajes que presentan
contradicciones o desemejanzas (y que son casi los mismos que hoy son presentados en nombre de la
nueva ciencia); unánimes en afirmar que dichos libros, en su totalidad y en cada una de sus partes,
procedían por igual de la inspiración divina, y que el mismo Dios, hablando por los autores sagrados, nada
podía decir ajeno a la verdad. Valga por todos lo que el mismo Agustín escribe a Jerónimo: «Yo confieso a
vuestra caridad que he aprendido a dispensar a solos los libros de la Escritura que se llaman canónicos la
reverencia y el honor de creer muy firmemente que ninguno de sus autores ha podido cometer un error al
escribirlos. Y si yo encontrase en estas letras algo que me pareciese contrario a la verdad, no vacilaría en
afirmar o que el manuscrito es defectuoso, o que el traductor no entendió exactamente el texto, o que no
lo he entendido yo»[61].

49. Pero luchar plena y perfectamente con el empleo de tan importantes ciencias para establecer la
santidad de la Biblia, es algo superior a lo que de la sola erudición de los intérpretes y de los teólogos se
puede esperar. Es de desear, por lo tanto, que se propongan el mismo objeto y se esfuercen por lograrlo
todos los católicos que hayan adquirido alguna autoridad en las ciencias profanas. El prestigio de estos
ingenios, si nunca hasta el presente, tampoco hoy falta a la Iglesia, gracias a Dios, y ojalá vaya en
aumento para ayuda de la fe. Consideramos de la mayor importancia que la verdad encuentre más
numerosos y sólidos defensores que adversarios, pues no hay cosa que tanto pueda persuadir al vulgo a
aceptar la verdad como el ver a hombres distinguidos en alguna ciencia profesarla abiertamente. Incluso la
envidia de los detractores se desvanecerá fácilmente, o al menos no se atreverán ya a afirmar con tanta
petulancia que la fe es enemiga de la ciencia, cuando vean a hombres doctos rendir el mayor honor y la
máxima reverencia a la fe.

50. Puesto que tanto provecho pueden prestar a la religión aquellos a quienes la Providencia concedió,
junto con la gracia de profesar la fe católica, el feliz don del talento, es preciso que, en medio de esta
lucha violenta de los estudios que se refieren en alguna manera a las Escrituras, cada uno de ellos elija la
disciplina apropiada y, sobresaliendo en ella, se aplique a rechazar victoriosamente los dardos que la
ciencia impía dirige contra aquéllas.

51. Aquí nos es grato tributar las merecidas alabanzas a la conducta de algunos católicos, quienes, a fin de
que los sabios puedan entregarse con toda abundancia de medios a estos estudios y hacerlos progresar
formando asociaciones, gustan de contribuir generosamente con recursos económicos. Excelente manera
de emplear su dinero y muy apropiada a las necesidades de los tiempos. En efecto, cuantos menos
socorros pueden los católicos esperar del Estado para sus estudios, más conviene que la liberalidad privada
se muestre pronta y abundante; de modo que aquellos a quienes Dios ha dado riquezas, las consagren a
conservar el tesoro de la verdad revelada.

52. Mas, para que tales trabajos aprovechen verdaderamente a las ciencias bíblicas, los hombres doctos
deben apoyarse en los principios que dejamos indicados más arriba; sostengan con firmeza que un mismo
Dios es el creador y gobernador de todas las cosas y el autor de las Escrituras, y que, por lo tanto, nada
puede deducirse de la naturaleza de las cosas ni de los monumentos de la historia que contradiga
realmente a las Escrituras. Y si tal pareciese, ha de demostrarse lo contrario, bien sometiendo al juicio
prudente de teólogos y exegetas cuál sea el sentido verdadero o verosímil del lugar de la Escritura que se
objeta, bien examinando con mayor diligencia la fuerza de los argumentos que se aducen en contra. Ni hay
que darse por vencidos si aun entonces queda alguna apariencia en contrario, porque, no pudiendo de
manera alguna la verdad oponerse a la verdad, necesariamente ha de estar equivocada o la interpretación
que se da a las palabras sagradas o la parte contraria; si ni lo uno ni lo otro apareciese claro, suspendamos
el juicio de momento. Muchas acusaciones de todo género se han venido lanzando contra la Escritura
durante largo tiempo y con tesón, que hoy están completamente desautorizadas como vanas, y no pocas
interpretaciones se han dado en otro tiempo acerca de algunos lugares de la Escritura —que no
pertenecían ciertamente a la fe ni a las costumbres— en los que después una más diligente investigación
ha aconsejado rectificar. El tiempo borra las opiniones humanas, mas «la verdad se robustece y permanece
para siempre»[62]. Por esta razón, como nadie puede lisonjearse de comprender rectamente toda la
Escritura, a propósito de la cual San Agustín decía de sí mismo[63] que ignoraba más que sabía, cuando
alguno encuentre en ella algo demasiado difícil para podérselo explicar, tenga la cautela y prudencia del
mismo Doctor: «Vale más sentirse prisionero de signos desconocidos, pero útiles, que enredar la cerviz, al
tratar de interpretarlos inútilmente, en las coyundas del error, cuando se creía haberla sacado del yugo de
la servidumbre»[64].

53. Si los hombres que se dedican a estos estudios auxiliares siguen rigurosa y reverentemente nuestros
consejos y nuestras órdenes; si escribiendo y enseñando dirigen los frutos de sus esfuerzos a combatir a
los enemigos de la verdad y a precaver de los peligros de la fe a la juventud, entonces será cuando puedan
gloriarse de servir dignamente el interés de las Sagradas Letras y de suministrar a la religión católica un
apoyo tal como la Iglesia tiene derecho a esperar de la piedad y de la ciencia de sus hijos.

54. Esto es, venerables hermanos, lo que acerca de los estudios de Sagrada Escritura hemos creído
oportuno advertir y mandar en esta ocasión movidos por Dios. A vosotros corresponde ahora procurar que
se guarde y se cumpla con la escrupulosidad debida; de suerte que se manifieste más y más el
reconocimiento debido a Dios por haber comunicado al género humano las palabras de su sabiduría y
redunde todo ello en la abundancia de frutos tan deseados, especialmente en orden a la formación de la
juventud levítica, que es nuestro constante desvelo y la esperanza de la Iglesia. Procurad con vuestra
autoridad y vuestras exhortaciones que en los seminarios y centros de estudio sometidos a vuestra
jurisdicción se dé a estos estudios el vigor y la prestancia que les corresponden. Que se lleven a cabo en
todo bajo las directrices de la Iglesia según los saludables documentos y ejemplos de los Santos Padres y
conforme al método laudable de nuestros mayores, y que de tal manera progresen con el correr de los
tiempos, que sean defensa y ornamento de la verdad católica, dada por Dios para la eterna salvación de
los pueblos.

55. Exhortamos, por último, paternalmente a todos los alumnos y ministros de la Iglesia a que se acerquen
siempre con mayor afecto de reverencia y piedad a las Sagradas Letras, ya que la inteligencia de las
mismas no les será abierta de manera saludable, como conviene, si no se alejan de la arrogancia de la
ciencia terrena y excitan en su ánimo el deseo santo de la sabiduría que viene de arriba[65]. Una vez
introducidos en esta disciplina e ilustrados y fortalecidos por ella, estarán en las mejores condiciones para
descubrir y evitar los engaños de la ciencia humana y para percibir y referir al orden sobrenatural sus
frutos sólidos; caldeado así el ánimo, tenderá con más vehemencia a la consecución del premio de la virtud
y del amor divino: «Bienaventurados los que investigan sus testimonios y le buscan de todo corazón»[66].

56. Animados con la esperanza del divino auxilio y confiando en vuestro celo pastoral, en prenda de los
celestiales dones y en testimonio de nuestra especial benevolencia, os damos amorosamente en el Señor, a
vosotros todos y a todo el clero y pueblo confiado a vuestros cuidados, la bendición apostólica.

Dado en Roma, junto a San Pedro, el 18 de noviembre de 1893, año 16 de nuestro pontificado.

LEÓN PP. XIII

Notas

[1] Leonis XIII Acta 13,326,364: ASS 26 (1893-94) 269-293.

[2] Conc. Vat. I, ses.3 c.2: de revelatione.

[3] Ibíd.

[4] S. Aug., De civ. Dei 11,3.

[5] S. Clem. Rom., 1 Cor. 45; S. Polyc., Ad Phil. 7; Iren. Adv. haer., 2,28,2.

[6] S. Io. Chrys., In Gen. hom.2,2; S. Aug., In Ps. 30 serm.2,l; S. Greg.I M., Ep. 4,13 ad Theod.

[7] Tim 3,16s.

[8] S. Aug., De util. cred. 14.32.

[9] Hech 14,3.

[10] S. Hier., Epist. 53 (al. 103) ad Paulinum 3. Cf. Hech 22,3; 2 Cor 10,4.

[11] S. Hier., In Is. pról.

[12] S. Hier., In Is. 54,12.

[13] Cf. 1 Tes 1,5.


[14] Cf. Jer 23,29.

[15] Heb 4,12.

[16] S. Aug., De doctr. christ. 4,6,7.

[17] S. Io. Chrys., In Gen. hom.21,2; 60,3; S. Aug., De discipl. christ. 2.

[18] S. Athan., Epist. fest. 39.

[19] S. Aug., Serm. 26,24; S. Ambr., In Ps. 118 serm.l9 2.

[20] S. Hier., Epist. 52 (al. 2) ad .Nepotianum.

[21] S. Greg. M., Reg. past. 2,11 (al. 22); Moral. 18,26 (al. 14).

[22] S. Aug, Serm. 179,1.

[23] S. Greg. M. Reg. past. 3 24 (al. 48).

[24] Cf. Act. 1,1.

[25] 1 Tim 4,16.

[26] S. Hier., In Mich. 1,10.

[27] Conc. Trid., ses.5 c.1 de ref.

[28] Ibíd. 1,2.

[29] 1 Tim 6,20.

[30] Ses.4 decr. de edit. et usu Libr. Sacr.

[31] S. Aug., De doct.christ. 3,4.

[32] S. Hier., Epist. 48 (al. 50) ad Pammachium 17.

[33] S. Hier., Epist. 53 (al. 103) ad Paulinum 4.

[34] S. Iren., Adv, haer. 4,26,5.

[35] Conc. Vat. I, ses.3 c.2: de revel., ex Conc. Trid., ses.4 decr. de edit. et usu Libr. Sacr.

[36] Conc. Vat. ses.3: de fide.

[37] S Hier., Epist. 53 (al. 103) 6ss.

[38] S. Aug., De util. cred. 17,35.

[39] Rufinus, Hist. eccl. 2,9.

[40] S. Aug., C. Iulian. 2,10,37.

[41] S. Aug., De Gen. ad litt. 8,7,13.


[42] Cf. Clemen. Al., Strom. 7,16; Orig., De princ, 4,8; In Lev. hom.4,8; Tertull., De praescr. 15s; S.
Hilar., In Mt. 13,1.

[43] S. Greg. M., Moral. 20,9 (al. 11).

[44] S. Thom,, I q.l a.5 ad 2.

[45] Ibíd., a.8.

[46] Conc. Vat. I, ses.3 c.3: de fide.

[47] Cf. Ef 6,13-17.

[48] Cf. Col 3,16.

[49] S. Io. Chrys., De sacerd. 4,4.

[50] Cf. 1 Cor 9,22.

[51] Cf. 2 Pe 3,15.

[52] S. Aug., In Gen. op. imperf. 9,30.

[53] S. Aug., De Gen. ad. litt. 1,21,41.

[54] S. Aug., ibíd., 2,9,20.

[55] S. Thom, I q.70 a.l ad 3.

[56] S. Thom, In 2 Sent. d.2 q.l a.3.

[57] S. Thom, Opusc. 10.

[58] Conc. Vat. I, ses.3 c.2: de revel.

[59] S. Aug., De cons. Evang. 1,35.

[60] S. Greg. M., Moral. in 1 Iob, praef, 1,2.

[61] S. Aug., Epist. 82,1 et crebius alibi.

[62] 3 Esdr 4,38.

[63] S. Aug., Epist. 55 ad Ianuar. 21.

[64] S. Aug., De doctr. christ. 3,9,18.

[65] Cf. Sal 3,15-17.

[66] Sal 18,2.

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/es/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_18111893_providentissimus-
deus.html
CARTA ENCÍCLICA
LAETITIAE SANCTAE
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA

Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica

Gratidão do Papa para com Maria

1. A santa alegria que nos trouxe o feliz transcurso do quinquagésimo aniversário da Nossa sagração
episcopal foi intensamente aumentada pelo fato de termos tido como participantes da Nossa alegria os
católicos de todo o mundo, estreitados como filhos em torno do Pai, numa esplêndida manifestação de
fidelidade e de amor. Nisto, com renovada gratidão, reconhecemos e exaltamos um desígnio da Divina
Providência sumamente benévolo para conosco, e, ao mesmo tempo, assaz profícuo para a sua Igreja. Mas
o Nosso ânimo sente-se impelido a saudar e louvar também a augusta Mãe de Deus, que deste benefício
foi poderosa mediadora junto a Deus. A sua singular bondade, que no longo e mutável período da Nossa
vida temos experimentado em vários modos eficaz, brilha cada dia mais manifesta diante dos nossos olhos,
e, ferindo-nos suavissimamente o coração, robustece-o com confiança sobrenatural.

Afigura-se-nos ouvir a própria voz da Rainha do Céu, ora benevolamente encorajar-nos no meio das
terríveis adversidades da Igreja, ora ajudar-nos, com largueza de inspirações, nas decisões a tomar para o
bem comum, ora também advertir-nos a estimular o povo cristão à piedade e ao culto da virtude já muitas
vezes, no passado, fizemos para nós um grato dever de corresponder a estes desejos da Virgem. Ora,
entre as utilidades que com a sua bênção recolhemos das Nossas exortações, justo é recordar o
extraordinário desenvolvimento da devoção do seu santo Rosário, seja pelo incremento e pela constituição
de confrarias sob este título, seja pela divulgação de escritos doutos e oportunos, seja também pela
inspiração dada a verdadeiras obras-primas artísticas.

O Rosário e os males do nosso tempo

2. E hoje, como que acolhendo a mesma voz da amorosíssima Mãe, com a qual ela nos repete: "Clama,
nunca te canses", apraz-nos tornar a falar-vos, Veneráveis Irmãos, do Rosário mariano, agora que se
aproxima o mês de Outubro: mês que quisemos consagrado a esta cara devoção, e que enriquecemos com
os tesouros das santas indulgências. A Nossa palavra, todavia, não terá o fim imediato de tributar novos
louvores a uma oração já, por si mesma, tão excelente, nem de estimular os fiéis a praticá-la com sempre
maior fervor; falaremos, antes, de algumas preciosíssimas vantagens que dela podem derivar, o mais
possível correspondentes às condições e às necessidades dos homens e dos tempos presentes. Porque
estamos absolutamente convencidos de que, se a prática do Rosário for retamente seguida, de modo a
poder ostentar toda a eficácia que lhe é intrínseca, não somente aos simples indivíduos, mas também a
toda a sociedade, trará a maior utilidade.

3. Sabem todos o quanto Nós, pelo dever do Nosso supremo apostolado, nos temos aplicado a contribuir
para o bem da sociedade, e o quarto ainda estamos dispostos a fazê-lo, com o auxílio de Deus. Com
freqüência temos advertido os governantes a não fazerem e a não aplicarem leis que não sejam conformes
à mente divina, norma de suma justiça. E, por outra parte, mais de uma vez temos exortado aqueles
cidadãos que, ou por inteligência, ou por méritos, ou por nobreza do sangue, ou por haveres, estão em
posição de privilégio em relação aos outros, a defenderem e a promoverem, em união de entendimentos e
de forças, os supremos e fundamentais interesses da sociedade.

4. Mas, no estado presente da sociedade civil, sobejas são as causas que debilitam os ligames da ordem
pública e desviam os povos da justa honestidade dos costumes. Todavia, os males que mais
perigosamente minam o bem comum parecem-nos ser principalmente os três seguintes: "aversão à vida
humilde e laboriosa; o horror ao sofrimento; o esquecimento dos bens futuros, objeto das nossas
esperanças".

A aversão ao viver moderno

5. Lamentamos ― e conosco devem reconhecê-lo e deplorá-lo mesmo aqueles que não admitem outra
regra senão a luz da razão, nem outra medida afora a utilidade, ― lamentamos que uma chaga
verdadeiramente profunda tenha ferido o corpo social desde quando se começou a descurar os deveres e
as virtudes que formam o ornamento da vida simples e comum. De fato, daí se segue que, nas relações
domésticas, os filhos, intolerantes de toda educação que não seja a da moleza e da volúpia, recusam
arrogantemente a obediência que a própria natureza lhes impõe. Por esse mesmo motivo os operários se
afastam do seu próprio mister, fogem do labor, e, descontentes com a sua sorte, levantam o olhar a metas
demasiado altas, e aspiram a uma inconsiderada repartição dos bens.

Ao mesmo tempo dai se segue o afanar-se de muitos que, depois de abandonarem o torrão natal, buscam
o bulício e as numerosas seduções da cidade. Por este motivo ainda, veio a faltar o necessário equilíbrio
entre as classes sociais; tudo é flutuante; os ânimos são agitados por invejas e rivalidades; a justiça é
abertamente violada; e aqueles que foram iludidos nas suas esperanças procuram perturbar a
tranqüilidade pública com sedições, com desordens e com a resistência aos defensores da ordem pública.

As lições dos mistérios gozosos

6. Pois bem: contra estes males pensamos que se deve buscar remédio no Rosário de Maria, composto de
uma bem ordenada série de orações e da piedosa contemplação de mistérios relativos a Cristo Redentor e
a sua Mãe. Expliquem-se de forma exata e popular os mistérios gozosos, apresentando-os aos olhos dos
fiéis como outros tantos quadros e vivas figurações das virtudes. E assim cada um verá que fácil e rica
mina eles oferecem de ensinamentos aptos para arrastar com maravilhosa suavidade as almas à
honestidade da vida.

7. Eis diante do nosso olhar a Casa de Nazaré, onde toda santidade, a humana e a divina, colocou a sua
morada. Que exemplo de vida comum! Que perfeito modelo de sociedade! Ali há simplicidade e candura de
costumes; perpétua harmonia de almas; nenhuma desordem; respeito mútuo; e, enfim, o amor: mas não o
amor falso e mendaz, e sim aquele amor integral, que se alimenta na prática dos próprios deveres, e tal
que atrai a admiração de todos.

Ali não falta a solicitude de se proporcionar a si mesmos tudo quanto é necessário à vida, mas com o "suor
da fronte", e como convém àqueles que, contentando-se com pouco, se esforçam antes por diminuir a sua
pobreza do que por multiplicar os seus haveres. E, sobre tudo isto, reina ali a maior serenidade de ânimo e
alegria de espírito: duas coisas que sempre acompanham a consciência do dever cumprido.

8. Ora, estes exemplos de modéstia e de humildade, de tolerância da fadiga, de bondade para com o
próximo e de fiel observância dos pequenos deveres da vida quotidiana, e, numa palavra, os exemplos de
todas estas virtudes, assim que entram nos corações e nele se imprimem profundamente, certamente
produzem nele pouco a pouco a desejada transformação dos pensamentos e dos costumes.

Então os deveres do próprio estado não mais serão nem descurados nem considerados enfadonhos, mas
serão, antes, agradáveis e deleitáveis; e a consciência do dever, imbuída de senso de alegria, será sempre
mais decidida no obrar o bem.
Por conseqüência, os costumes tornar-se-ão mais brandos sob todos os aspectos; a convivência familiar
transcorrerá no amor e na alegria; as relações com os outros serão pautadas por um maior respeito e
caridade. E, se estas transformações se estenderem dos indivíduos às famílias, às cidades, aos povos e às
suas instituições, é fácil ver que imensas vantagens devam daí derivar para a sociedade inteira.

A aversão ao sacrifício

9. O segundo mal funestíssimo, que Nós nunca deploraremos bastante, porque ele sempre mais difusa e
ruinosamente envenena as almas, é a tendência a fugir da dor e a afastar por todos os meios as
adversidades.
De feito, a maioria dos homens não consideram mais, como deveriam, a serena liberdade de espírito como
um prêmio para quem exercita a virtude e suporta vitoriosamente perigos e trabalhos; mas excogitam uma
quimérica perfeição da sociedade, em que, removido todo sacrifício, se deparem todas as comodidades
terrenas.

Ora, este agudo e desenfreado desejo de uma vida cômoda debilita fatalmente as almas, que, mesmo
quando não se arruínam totalmente, ficam, sem embargo, tão enervados, que primeiro cedem
vergonhosamente em face dos males da vida, e depois sucumbem miseravelmente.

As lições dos mistérios dolorosos

10. Pois bem: ainda contra este mal é bem justificado esperar-se do Rosário de Maria um remédio que,
pela força do exemplo, pode grandemente contribuir para fortalecer os ânimos. E isto se obterá se os
homens, desde a sua primeira infância, e depois constantemente em toda a sua vida, se aplicarem, no
recolhimento, à meditação dos mistérios dolorosos.

Através destes mistérios vemos que Jesus, "guia e aperfeiçoados da fé", começou a fazer e a ensinar, a fim
de que víssemos n'Ele próprio o exemplo prático dos ensinamentos que Ele daria à nossa humanidade,
acerca da tolerância da dor e dos trabalhos; e o exemplo de Jesus chegou a tal ponto, que,
voluntariamente e de grande coração, Ele mesmo abraçou tudo o que há de mais duro de suportar.

Com efeito, vemo-lo como um ladrão, julgado por homens iníquos, e feito alvo de ultrajes e de calúnias.
Vemo-lo flagelado, coroado de espinhos, crucificado considerado indigno de continuar a viver, e merecedor
de morrer entre os clamores de todo um povo.

Consideremos a aflição de sua santíssima Mãe, cuja alma não foi somente roçada, mas verdadeiramente
"traspassada" pela "espadácia dor"- de modo que ela mereceu ser chamada, e realmente se tornou, a Mãe
das dores.

11. Todo aquele que se não contentar com olhar, porém meditar amiúde exemplos de tão excelsa virtude,
oh! como se sentirá impelido a imitá-los! Para esse, ainda que seja "maldita a terra, e faça germinar
espinhos e abrolhos", ainda que o espírito seja oprimido pelos sofrimentos, ou o corpo pelas doenças,
nunca haverá nenhum mal causado pela perfídia dos homens ou pelo furor dos demônios, nunca haverá
calamidade, pública ou privada, que ele não consiga superar com paciência.

É, pois, realmente verdadeiro o dito: "É de cristão fazer e suportar coisas árduas"; porque todo aquele que
não quiser ser indigno desse nome não pode deixar de imitar Cristo que sofre. E repare-se em que como
resignação não entendemos a vã ostentação de um ânimo endurecido à dor, como o tiveram alguns
filósofos antigos; mas sim essa resignação que se funda no exemplo d'Aquele que "em lugar do gozo que
tinha diante de si, suportou o suplício da Cruz, desprezando a ignomínia" (Heb 12, 2); essa resignação que,
depois de pedir a Ele o necessário auxilio da graça, de modo algum recusa afrontar as adversidades; antes,
alegra-se com elas, e considera um lucro qualquer sofrimento, por mais acerbo que seja.

A Igreja Católica sempre teve, e tem ainda agora, insignes campeões de tal doutrina: homens e mulheres,
em grande número, em todas as partes do mundo, de todas as condições. Estes, seguindo as pegadas de
Cristo, em nome da fé e da virtude suportam contumélias e amarguras de todo gênero, e têm como seu
programa, mais com os fatos do que com as palavras, a exortação de S. Tomé: "Vamos também nós, e
morramos com Ele" (Jo. 11, 16).

12. Oh! praza ao Céu que exemplos de tão admirável fortaleza se multipliquem sempre mais, a fim de que
deles brote segurança para a sociedade, e virtude e glória para a Igreja.

O descaso dos bens eternos

13. O terceiro mal para o qual é preciso achar um remédio é particularmente próprio dos homens dos
nossos dias Com efeito, os homens dos tempos passados, mesmo quando com excessiva paixão
procuravam as coisas terrenas, contudo não desprezavam totalmente as celestes; antes, os mais sábios
entre os próprios pagãos ensinaram que esta nossa vida é um lugar de hospedagem e uma estação de
passagem, antes que uma morada fixa e definitiva.

Ao contrário, muitos dos modernos, embora educados na fé cristã, procuram de tal modo os bens
transitórios desta terra, que não somente esquecem uma pátria melhor na eternidade bem-aventurada,
mas, por excesso de vergonha, chegam a cancelá-la completamente de sua memória, contra a advertência
de S. Paulo: "Não temos aqui uma cidade permanente, porém demandamos a futura" (Heb. 13, 14).

Quem quiser examinar as causas desta aberração logo notará que a primeira delas é a convicção de muitos
de que o pensamento das coisas eternas extingue o amor da pátria terrena e impede a prosperidade do
Estado. Calúnia odiosa e insensata.

E, de fato, os bens que esperamos não são de natureza tal que absorvam os pensamentos do homem até
o ponto de o distrair inteiramente do cuidado dos interesses terrenos. O próprio Cristo embora
recomendando-nos procurarmos antes de tudo o reino de Deus, com isto nos insinua que não devemos
descurar tudo o mais.

E, de fato, se o uso dos bens terrenos e dos gozos honestos que deles derivam servem de estímulo à
virtude; se o esplendor e o bem-estar da cidade terrena ― que depois redundam em glória da sociedade
humana ― são considerados como uma imagem do esplendor e da magnificência da cidade eterna, eles
não são nem indignos de homens racionais, nem contrários aos desígnios de Deus.

Porque Deus é ao mesmo tempo autor da natureza e da graça; e por isto não pode ter disposto que uma
obste à outra e estejam entre si em luta; mas, ao contrário, que, amigavelmente unidas, nos guiem, por
uma trilha mais fácil, àquela eterna felicidade a que, embora mortais, somos destinados.

14. Mas os homens dados ao prazer e egoístas, que de tal modo mergulham e aviltam os seus
pensamentos nas coisas caducas a ponto de não saberem elevar-se a mais alto, estes, antes que
procurarem os bens eternos através dos bens sensíveis de que gozam, perdem completamente de vista a
eternidade, caindo assim numa condição verdadeiramente abjeta. Na verdade, Deus não poderia infligir ao
homem punição mais terrível do que abandonando-o por toda a vida às seduções dos vícios, sem ter
jamais um olhar para o Céu.

As lições dos mistérios gloriosos

15. A este perigo não estará exposto aquele que, rezando o santo Rosário, meditar com atenção e com
freqüência as verdades contidas nos mistérios gloriosos. Desses mistérios, com efeito, brilha na mente dos
cristãos uma luz tão viva, que nos faz descobrir aqueles bens que o nosso olho humano nunca poderia
perceber, mas que Deus ― assim o cremos com fé inabalável ― preparou "para aqueles que o amam".

Deles aprendemos, além disto, que a morte não é um esfacelamento que tudo perde e destrói, mas sim
uma simples passagem e uma mudança de vida. Aprendemos que o caminho do céu está aberto a todos;
e, quando observamos Cristo que volta ao Céu, recordamos a sua bela promessa: "Vou preparar-vos o
lugar".
Aprendemos que haverá um tempo em que "Deus enxugará toda lágrima dos nossos olhos; em que não
haverá mais nem lutos, nem pranto, nem dor, mas estaremos sempre com o Senhor, semelhantes a Deus,
porque o veremos como Ele é, bebendo na torrente das suas delícias, concidadãos dos santos", em feliz
união com a grande Mãe e Rainha.

16. Uma alma que se nutra destas verdades deverá necessariamente inflamar-se delas e repetir a frase de
um grande. Santo: "Oh! como me parece sórdida a terra quando olho o Céu"; deverá necessariamente
alegrar-se ao pensamento de que "um instante de um leve sofrimento nosso produz em nós uma medida
eterna de glória".

E, verdadeiramente, só aqui está o segredo de harmonizar o tempo com a eternidade, a cidade terrena
com a celeste, e de formar caracteres fortes e generosos. E se estes se tornarem muito numerosos, sem
dúvida estará com isso consolidada a dignidade e a grandeza do Estado; e florescerá tudo o que é
verdadeiro, tudo o que é bom, tudo o que é belo; florescerá em harmonia com aquela norma que é o sumo
princípio e a fonte inexaurível de toda verdade, de toda bondade e de toda beleza.

17. Ora, quem não vê a verdade disso que havemos observado desde o princípio, isto é, de que preciosos
bens é fecundo o santo Rosário? O quanto ele é maravilhosamente eficaz em curar os males dos nossos
tempos, e em opor um dique aos gravíssimos males da sociedade?

As confrarias do Rosário

18. Mas, como cada um facilmente compreende, de tal eficácia serão mais direta e mais largamente
participantes os membros das sacras confrarias do Rosário, porque a ela adquirem um direito particular,
quer pela sua união fraterna, quer pela sua devoção especial à Virgem Santíssima.

Tais sodalícios autorizadamente aprovados pelos Romanos Pontífices e por eles enriquecidos de privilégios
e de tesouros de indulgências, têm uma forma própria de ordenação e de disciplina. Promovem reuniões
em dias determinados, e neles são fornecidos meios mais adequados para florescer na piedade e para
prestar úteis serviços à própria sociedade civil. Eles são como que falanges militantes que, guiadas e
amparadas pela celeste Rainha, combaterão as batalhas de Cristo, em virtude dos seus santos mistérios.

E em todas as ocasiões, mas especialmente em Lepanto, pôde-se ver como a Virgem se compraz com as
orações, as festas e as procissões desses seus devotos.

19. Bem justo é, pois, que não somente os filhos do patriarca S. Domingos ― certamente obrigados mais
do que os outros, por motivo da sua vocação, ― mas também todos aqueles que têm cura de almas -
especialmente nas igrejas onde essas confrarias estão canonicamente eretas ― se apliquem com todo o
seu zelo a multiplicá-las, desenvolvê-las e assisti-las. Antes, ardentemente desejamos que também se
dediquem a este trabalho aqueles que empreendem missões, seja para levar a doutrina de Cristo aos
infiéis, seja para reforçá-la nos fiéis.

20. Não duvidamos de que, pelas exortações de todos estes, muitos cristãos estarão prontos não só a
inscrever-se nessas confrarias, mas também a esforçar-se, por todos os meios, para colher as já indicadas
vantagens espirituais que formam como que a razão de ser e, por assim dizer, a substância do santo
Rosário. Depois, o exemplo dos membros das confrarias arrastará também os outros fiéis a uma maior
estima e devoção ao Rosário; os quais, assim estimulados, porão todo o seu empenho ― como Nós
vivamente desejamos ― em tirar também, na mais larga medida, salutares vantagens desta prática.

21. Eis aí a esperança que nos sorri. É ela que, no meio de tantas calamidades públicas, nos guia e
profundamente nos consola. Digne-se Maria, Mãe de Deus e dos homens, inspiradora e mestra do santo
Rosário, de realizar plenamente esta esperança, acolhendo as preces comuns.

Nós, ó Veneráveis Irmãos, temos confiança de que, pelo zelo de cada um de vós, os vossos ensinamentos
e os Nossos votos produzirão toda espécie de bem, e contribuirão, em particular, para a prosperidade das
famílias e para a paz dos povos.
Enquanto isso, em penhor dos favores celestes e em testemunho da Nossa benevolência, no Senhor
concedemos a cada um de vós, ao vosso clero e ao vosso povo a Bênção Apostólica.

Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 8 de Setembro de 1893, décimo sexto ano do Nosso Pontificado.

LEÃO XIII PAPA

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_08091893_laetitiae-
sanctae.html

CARTA ENCÍCLICA
MAGNAE DEI MATRIS
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA

Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.

A devoção do Santo Padre a Maria

1. Todas as vezes que nos é dado o ensejo de aumentar no povo cristão o culto e o amor à gloriosa Mãe
de Deus, a Nossa alegria e a Nossa satisfação chegam ao auge. E isto porque a coisa não só é de per si
importantíssima ― e fecunda de bons frutos, mas também se harmoniza do melhor modo com os
sentimentos mais íntimos do Nosso coração.

Sugada, na verdade, com o leite materno, depois a Nossa piedade para com Maria veio sempre crescendo
e consolidando-se em Nós, com o passar dos anos. E isto porque a Nossa inteligência sempre mais
claramente compreendia o quanto era digna de amor e de louvor aquela a quem ó próprio Deus amou em
primeiro, e com tal afeto que a elevou acima de todas as criaturas, a enriqueceu dos dons mais magníficos,
e a escolheu, enfim, para sua Mãe. Por outra parte, as numerosas e fúlgidas provas da sua bondade e
benevolência para conosco ― provas que Nós não podemos recordar sem a mais profunda gratidão e sem
derramar lágrimas de emoção ― aumentaram sempre mais em Nós esta piedade, e mais ardentemente a
inflamaram.

Porquanto, no meio das muitas, variadas e terríveis vicissitudes que temos atravessado, sempre temos
recorrido a ela, e para ela temos sempre volvido o Nosso olhar. E, depois de depositar no seu seio todas as
Nossas esperanças e todos os Nossos temores, alegrias e tristezas, foi Nossa constante solicitude suplicá-
la, para que se dignasse de, em todas as ocasiões, assistir-nos como uma mãe terníssima, e alcançar-nos,
em troca, o singular favor de podermos testemunhar-lhe o Nosso afeto devoto e filial.

Quando, depois, por misterioso desígnio de Deus fomos chamados à Cátedra de S. Pedro, para
representarmos na Igreja a própria pessoa de Jesus Cristo, aterrados com o peso enorme deste ofício, e
não tendo nenhuma confiança nas Nossas próprias forças, com afeto ainda mais intenso solicitamos a
divina assistência, mediante a maternal proteção da Virgem.
E o Nosso coração exulta em proclamar que, no curso de toda a Nossa vida, mas especialmente no
exercício do Nosso Supremo Apostolado, a Nossa esperança nunca deixou de ser coroada ou pelo desejado
êxito ou, ao menos, por um doce conforto. Após tal experiência, a Nossa esperança alça-se agora mais
confiante, enquanto pedimos, com o seu favor e pela sua intercessão, graças ainda mais copiosas e mais
importantes, para a salvação do rebanho cristão e para a maior glória da Igreja.

Justo é, pois, e oportuno, Veneráveis Irmãos, que dirijamos a todos os Nossos filhos palavras de
incitamento ― às quais ajuntareis a vossa exortação ― a fim de que eles queiram celebrar o próximo mês
de Outubro, consagrado à augusta Senhora e Rainha "do Rosário", com redobrando fervor, igual às
acrescidas necessidades dos tempos.

A audácia dos ímpios

2. Já agora é de todos conhecidíssimo com quantos e quais meios de corrupção a malícia do mundo
iniquamente se esforça por enfraquecer e por extirpar inteiramente dos corações a fé cristã e a
observância da lei divina, que alimenta esta fé e a faz frutificar. E já por toda parte o campo do Senhor,
como que talado por uma terrível peste, quase se asselvaja, pela ignorância da religião, pelo erro e pelos
vícios. E o que é ainda mais doloroso é que aqueles que teriam o poder disso, antes, que disso teriam o
sagrado dever, longe de porem um freio ou de infligirem justas penas a uma perversidade tão arrogante e
culposa, muitas vezes, pelo contrário, parece que a tal audácia dêem incentivo, ou pela sua inércia, ou com
o seu apoio.

Por isto, com bem razão deve contristar-nos que às escolas públicas tenha sido deliberadamente dada uma
organização tal que consente que o nome de Deus seja nelas calado ou ali seja ultrajado; devemo-Nos
entristecer com a licença, cada vez mais disfarçada, de imprimir ou pregar toda sorte de ultrajes contra
Cristo, Deus e a Igreja. Nem é menos deplorável esse conseqüente langor e entibiamento da prática cristã,
se não é uma franca apostasia da fé, certamente está próximo de vir a sê-lo; porque a prática da vida já
agora não é mais aderente à fé. Quem considerar esta perversão e esta ruína dos interesses mais vitais,
certamente não se admirará se por toda parte as nações vão gemendo sob o peso dos castigos divinos, e
são consternadas pelo temor de calamidades ainda mais graves.

Necessidade de praticar o Rosário

3. Ora, para aplacar a majestade de Deus ofendida, e para proporcionar o necessário remédio àqueles que
tanto sofrem, certamente não há melhor meio do que a oração devota e perseverante, contanto que unida
ao espírito e à prática da vida cristã. Para alcançarmos, pois, estes dois escopos, consideramos que o meio
mais indicado é o "Rosário Mariano". A sua poderosíssima eficácia tem sido experimentada e exaltada
desde a sua bem conhecida origem; conforme notáveis documentos atestam, e como Nós mesmo, mais de
uma vez, temos lembrado.

Quando a seita dos Albigenses ― aparentemente paladina da integridade da fé e dos costumes, mas, na
realidade, perturbadora e péssima corruptora dela ― era para muitos povos causa de grande ruína, a
Igreja combateu contra ela e contra as suas infames facções, não com milícias ou com armas, mas
principalmente com a força do santo Rosário, que o patriarca S. Domingos propagou, por inspiração da
própria Mãe de Deus. Assim, gloriosamente vitoriosa de todos os obstáculos, a Igreja, nessa como em
outras tempestades semelhantes, proveu sempre com esplêndido êxito à salvação de seus filhos.

Por isto, na presente situação, que Nós deploramos como lutuosa para a religião e perigosíssima para a
sociedade, é necessário que todos juntos ― com piedade igual à dos nossos antepassados ― roguemos e
supliquemos a grande Mãe de Deus, para que, consoante os votos comuns, possamos alegrar-nos de haver
experimentado igual eficácia do seu Rosário.

E, verdadeiramente, quando recortemos a Maria recorremos à Mãe da misericórdia; a qual está tão bem
disposta para conosco, que em qualquer necessidade nossa, sobretudo nas espirituais, ela logo,
espontaneamente, sem sequer ser invocada, vem em nosso socorro, e faz-nos participar desse tesouro de
graça cuja plenitude ela desde o princípio recebeu de Mãe. Esta Deus, para que pudesse tornar-se sua
digna superabundância de graça ― o mais eminente dos seus outros inúmeros privilégios ― é que eleva a
Virgem muito acima de todos os homens ― e de todos os Anjos, e a aproxima de Cristo, mais do que se
aproxima qualquer outra criatura: "É coisa grande em qualquer santo o possuir tanta graça que baste para
a salvação de muitos: mas, se ele a tivesse tanta que bastasse para a salvação de todos os .homens do
mundo, isto seria o máximo; e isto se verifica em Cristo e na bem-aventurada Virgem" (S. Tomás, op.
VIII, Super Salutatione Angelica).

As ternuras de nossa Mãe Celeste

4. Difícil é, pois, dizer o quanto se torna agradável a Maria o nosso obséquio, quando a saudamos com
louvor do Anjo, e depois repetimos o mesmo elogio, como que formando com ele uma devota coroa.
Porque, a cada vez, nós como que despertamos nela a lembrança da sua sublime dignidade e da redenção
do gênero humano, iniciada por Deus por meio dela: por conseqüência, nós também lhe recordamos esse
divino e indissolúvel vínculo com que ela está unida às alegrias e às dores, às humilhações e aos triunfos
de Cristo, em guiar e em assistir os homens para a salvação eterna. Jesus Cristo, na sua bondade, quis
assemelhar-se a nós e dizer-se e mostrar-se filho do homem, e por isto nosso irmão, a fim de que mais
luminosa nos aparecesse a sua misericórdia para conosco: "Em tudo ele teve de ser feito semelhante a
seus irmãos, para se tornar misericordioso" (Heb 2, 17).

Assim Maria, pelo fato de haver sido escolhida como Mãe de Jesus, Nosso Senhor ― que é ao mesmo
tempo nosso irmão ― teve, entre todas as mães, a singular missão de manifestar e de derramar sobre nós
a sua misericórdia. Além disto, assim como nós somos devedores a Cristo de nos haver, de certo modo,
tornado participantes do seu próprio direito de chamar e de ter a Deus por pai, assim também lhe somos
igualmente devedores de nos haver amorosamente tornado participantes do seu direito de chamar e de ter
Maria por Mãe.

E, visto como, por natureza, o nome de mãe é entre todos o mais doce, e no nome de mãe está posto o
termo de comparação de todo amor terno e solícito, todas as almas piedosas sentem ― embora a sua
língua não consiga exprimi-lo ― que uma imensa chama de amor condescendente e operoso arde em
Maria, que, não por natureza, mas por vontade de Cristo, é nossa Mãe. Por isto ela vê e penetra, muito
melhor do que qualquer outra mãe, todas as nossas coisas: as necessidades da nossa vida; os perigos
públicos e particulares que nos ameaçam; as dificuldades e os mates em que nos debatemos; e sobretudo
a áspera luta que devemos sustentar para a salvação da alma, contra inimigos violentíssimos. E nestas,
como em todas as outras angústias da vida, mais do que qualquer outro ela pode e deseja trazer a seus
caríssimos filhos consolação, força, auxílio de todo gênero. Recorramos, pois, confiantes e alegres a Maria.
Supliquemo-la por esses laços maternos com que ela está tão estreitamente unida a Jesus e a nós. E
invoquemos com máxima devoção o seu poderoso auxílio, servindo-nos dessa fórmula de oração que ela
mesma nos indicou e que lhe é tão grata. Então poderemos, com razão, repousar com coração tranqüilo e
alegre sob a proteção da mais terna entre as mães.

O Rosário reaviva a nossa fé

5. Além do valor que o Rosário tira da própria natureza da oração, ele contém uma maneira fácil para fazer
penetrar e inculcar nas almas os dogmas principais da fé cristã; o que certamente constitui outro título
insigne de recomendação. De feito, é sobretudo pela fé que o homem direta e seguramente se aproxima
de Deus e aprende a adorar com a mente e com o coração a imensa majestade desse Deus único, a sua
autoridade sobre todas as coisas, o seu sumo poder, a sua sabedoria e a sua providência: "porquanto,
quem se aproxima de Deus deve crer que Ele existe, e que é remunerador daqueles que o procuram"
(Heb 11, 6). Mas, visto que o eterno Filho de Deus assumiu a natureza humana, viveu no meio de nós, e
continua a ser para nós caminho, verdade e vida, por isto é necessário que a nossa fé abrace também os
profundos mistérios da augusta Trindade das divinas pessoas, e do Filho unigênito do Pai, feito homem: "E
a vida eterna é esta: que eles conheçam a ti, único Deus verdadeiro, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo"
(Jo 17, 3).

Em verdade, Deus nos deu um benefício inestimável quando nos deu esta santa fé; porque, por meio dela,
nós não só nos elevamos acima de todas as coisas humanas, até nos tornarmos como que contempladores
e participantes da natureza divina, mas adquirimos outrossim um direito, de mérito imenso, às eternas
recompensas. De modo que se alimenta e se consolida em nós a esperança de que um dia poderemos
contemplar a Deus, não mais através das pálidas imagens das coisas criadas, porém no seu pleno
esplendor, e poderemos gozar eternamente d'Ele, nosso sumo bem. Mas o cristão é de tal forma
empolgado pelas diversas preocupações da vida, e se inclina tão facilmente para as vaidades deste mundo,
que, sem uma freqüente e salutar evocação, pouco a pouco esquecerá as coisas mais importantes e mais
necessárias, e destarte a sua fé se esmorecerá e finalmente se extinguirá.

Para preservar seus filhos deste gravíssimo perigo da ignorância, a Igreja não descura nenhum dos meios
que a sua vigilância e a sua solicitude lhe sugerem; e o Rosário em honra de Maria não é, certamente, o
último que ela emprega para sustentar a fé. Com efeito, com a sua maravilhosa e eficaz oração,
ordenadamente repetida, ele nos leva à recordação e à contemplação dos principais mistérios da nossa
religião: em primeiro lugar, daqueles pelos quais "o Verbo se fez carne" e Maria, Virgem intacta e Mãe, lhe
prestou com santa alegria os seus maternais ofícios. Vêm depois as amarguras, os tormentos, a morte de
Cristo, preço da salvação do gênero humano.

Finalmente, são os mistérios gloriosos: o triunfo sobre a morte, a ascensão ao céu, a descida do Espírito
Santo; o esplendor radiante de Maria assunta ao céu, e, por último, com a glória da Mãe e do Filho, a
glória eterna de todos os Santos. E esta a ordenada sucessão de inefáveis mistérios no Rosário é freqüente
e insistentemente evocada à memória dos fiéis, e como que desenrolada diante dos seus olhos; de modo
que aqueles que rezam bem o Rosário têm a alma inundada por ele de uma doçura sempre nova,
experimentam a mesma impressão e emoção que experimentariam se ouvissem a própria voz de sua
dulcíssima Mãe, no ato de lhes explicar esses mistérios e de lhes dirigir salutares exortações.

Não poderá, pois, parecer excessiva a Nossa afirmação, se dissermos que a fé absolutamente não deve
temer os perigos da ignorância e dos nefastos erros naqueles lugares, no seio daquelas famílias e no meio
daqueles povos onde se mantém na primitiva honra a prática do Rosário.

O Rosário, estímulo para obras santas

6. Mas há outra utilidade, não menos importante, que do Rosário a Igreja espera para seus filhos, ou seja,
a de empenhá-los em conformar a sua vida e os seus costumes às normas e aos preceitos da santa fé. De
todos é conhecida a divina afirmação de que "a fé sem as obras é ineficaz" (Tiago 2, 20); porque a fé
haure vida da caridade, e a caridade se manifesta numa floração de ações santas. Por isto o cristão
certamente não tirará nenhum proveito da sua fé para a aquisição da eternidade, se por esta sua fé não
houver inspirado a sua conduta. "Que adianta, irmãos meus, se um diz que tem fé, mas não tem as obras?
Acaso poderá salvá-lo a fé?" (Tiago 2, 14).

Antes, tais cristãos serão por Cristo juiz bem mais asperamente exprobrados do que aqueles míseros que
não conhecem nem a fé nem a moral cristã; porque estes últimos não crêem de um modo e vivem de
outro, como sem razão fazem aqueles outros, mas, sendo privados da luz do Evangelho, têm uma certa
atenuante, ou certamente a sua culpa é menos grave.

Ora, a contemplação dos mistérios propostos no Rosário ajuda a fazer brotar da nossa fé uma abundante e
alegre messe de frutos, porque incita maravilhosamente a alma a propósitos de virtude. Ora, que sublime e
esplêndido exemplo nos oferece, sob todos os aspectos, a obra de salvação realizada por Nosso Senhor
Jesus Cristo! O grande, o onipotente Deus, impelido por um excesso de amor para conosco, abaixa-se até
à condição do mais mísero homem; entretém-se conosco como um de nós; conversa fraternalmente,
ensina os indivíduos e as multidões em toda ordem de justiça; mestre eminente pela sua palavra, Deus
pela sua autoridade.

Mostra-se pródigo de benefícios para com todos; cura os que sofrem de moléstias corporais, e com
misericórdia paternal leva alívio às moléstias, mais graves estas, da alma; de modo particular volve-se para
aqueles que estão abatidos pela dor, ou estão oprimidos pelo peso das suas inquietações, e convida-os:
"Vinde a mim, vós todos que estais fatigados e oprimidos, e eu vos consolarei" (Mt. 11, 28). Quando, pois,
repousamos nos seus braços, Ele nos inspira algo desse místico fogo que Ele trouxe aos homens; infunde-
nos amorosamente algo da mansidão e da humildade de sua alma; e deseja que, pela prática destas
virtudes, nós nos tornemos participantes da paz verdadeira e estável, de que Ele é o autor. "Aprendei de
mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis repouso para vossas almas" (Mt. 11, 29).
Todavia, em compensação de tanta luz de sabedoria celeste e da abundância de tão excepcionais
benefícios, que deveriam granjear-lhe a gratidão dos homens, Ele sofreu o ódio e os insultos mais atrozes;
sem embargo, quando, pregado na cruz, derrama todo o seu sangue, não tem desejo mais ardente do que
este: por meio da sua morte regenerar os homens para a vida. Absolutamente não é possível que alguém
considere e contemple atentamente estes belíssimos testemunhos de amor do nosso Redentor, sem arder
de viva gratidão para com Ele.

Antes, a fé, se for autêntica, terá então um poder tal, que, iluminando a mente do homem e comovendo-
lhe o coração, como que o arrastará a seguir as pegadas de Cristo, através de todos os obstáculos, até
fazê-lo prorromper naquele protesto digno de Paulo: "Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação,
ou a angústia, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a perseguição, ou a espada?" (Rom. 8, 35). "...já
não vivo eu, mas vive em mim Cristo" (Gal. 2, 20).

O Rosário nos revoca aos exemplos de Maria

7. Mas, para que nós, aterrados pela consciência da nossa natural fragilidade, não desfaleçamos em face
dos exemplos verdadeiramente sublimes de Cristo, Deus e Homem, juntamente com os seus mistérios
oferecem-se à nossa contemplação os mistérios de sua Mãe Santíssima. Ela descende, é verdade, da
linhagem real de David; ruas da riqueza e do esplendor dos seus antepassados não lhe resta mais nada;
leva uma vida obscura, numa humilde cidade, e numa casa ainda mais humilde; tanto mais satisfeito com a
sua solidão e com a sua pobreza quanto pode, com coração mais livre, elevar-se a Deus, e unir-se
totalmente ao seu sumo e desejadíssimo bem. Mas o Senhor está com ela, e cumula-a e a faz bem-
aventurada da sua graça. E é justamente ela que o celeste mensageiro designa como a mulher da qual,
por virtude do Espírito Santo, deverá vir para entre nós homens o esperado Salvador das gentes.

Quanto mais ela admira a sublime altura da sua dignidade, e por ela rende graças à onipotente e
misericordiosa bondade de Deus, tanto mais se humilha e se julga destituída de toda virtude. E, enquanto
se Lhe torna a Mãe, sem hesitação se proclama e se protesta sua escrava. E, conforme santamente
prometeu, santa e prontamente estabelece desde então uma perpétua comunhão de vida com seu Filho
Jesus, tanto na alegria como no pranto. Assim ela atingirá tal altura de glória qual nenhum homem nem
Anjo poderá jamais atingir, porque ninguém poderá ser-lhe jamais comparado em virtude e em méritos.
Assim, a ela caberá a coroa do Céu e da terra, porque ela se tornará a invicta Rainha dos mártires. Assim,
na celeste cidade de Deus, ela se assentará, eternamente coroada, junto de seu Filho, porque
constantemente, durante toda a sua vida, porém de modo particular no Calvário, beberá com Ele o cálice
transbordante de amargura.

Eis, portanto, como Deus, verdadeiramente bom e providente, nos deu em Maria um modelo de todas as
virtudes. Porque, considerando-a e contemplando-a, as nossas almas já não ficam ofuscadas pelos fulgores
da divindade, senão que, atraídas pelos vínculos íntimos de uma comum natureza, com maior confiança se
esforçarão por imitá-la. Se, amparados pelo seu eficaz auxílio, nós nos dedicarmos com todas as nossas
forças a esta obra, certamente conseguiremos reproduzir em nós ao menos algum traço de tão grande
virtude e santidade; e, depois de havermos imitado a sua admirável conformidade com as divinas
vontades, poderemos juntar-nos a Ela no céu.

Se bem que a nossa peregrinação terrena seja áspera e eriçada de dificuldades, caminhemos intrépidos e
corajosos rumo à meta. E, nas nossas penas, nos nossos trabalhos, não cessemos de estender pára Maria
as nossas mãos súplices, dizendo com a Igreja: "A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de
lágrimas Eia, pois, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei! Dai-nos uma vida pura, preparai-nos
uma trilha segura, para que possamos gozar eternamente da vida de Jesus" (Da sagrada liturgia). E ela,
que, mesmo sem jamais a haver experimentado, conhece a fraqueza e a corrupção da nossa natureza, ela
que é a melhor e a mais solícita de todas as mães, oh! como virá propícia e pressurosa em nosso auxílio! E
com que ternura nos consolará! Com que força nos sustentará! Percorrendo a trilha, consagrada pelo
Sangue de Cristo e pelas lágrimas de Maria, também nós chegaremos, segura e facilmente, à participação
da bem-aventurada glória.

Os exemplos da Sagrada Família


8. Portanto, já que no Rosário de Maria Virgem estão bem e tão utilmente conjugados uma excelente
fórmula de oração, um meio eficaz para conservar a fé, e um insigne ideal de virtude perfeita, bem justo é
que os verdadeiros cristãos o tenham freqüentemente nas mãos, o rezem e o meditem piedosamente. De
modo particular dirigimos esta exortação ao "Sodalício da Sagrada Família", que recentemente
recomendamos e aprovamos.

Se, de fato, o fundamento deste sodalício é o mistério do longo período de vida silenciosa e oculta de
Cristo Senhor, entre as paredes da casa de Nazaré, para que as famílias cristãs se esforcem
constantemente por modelar-se sobre o exemplo da Sagrada Família, divinamente constituída, logo
aparece evidente a sua ligação particular com o Rosário: especialmente com os mistérios gozosos, que se
encerram justamente quando Jesus, depois de mostrar a sua sabedoria no Templo, "veio", com Maria e
José, "para Nazaré, e lhes era sujeito"; como que assim preparando os outros mistérios com que mais de
perto realizaria a obra de ensinamento e de redenção dos homens. Por tudo isto, compreendam todos os
associados que diligência devem mostrar em cultivar e propagar a devoção do Rosário.

Próximo Jubileu episcopal do Santo Padre

9. Por Nossa parte, ratificamos e confirmamos os favores das sagradas Indulgências concedidas nos anos
precedentes àqueles que, de acordo com as prescrições estabelecidas, bem cumprirem a piedosa prática
do mês de Outubro. Muito contamos, pois, Veneráveis Irmãos, com a vossa autoridade e com o vosso zelo,
a fim de que, também este ano, seja ardente entre o povo católico o fervor e a santa emulação em honrar
com o Rosário a Virgem, Auxiliadora dos cristãos.

E agora apraz-nos concluir a Nossa exortação tornando ao motivo inicial. Isto é, queremos de novo e mais
claramente atestar o nosso reconhecimento pelos benefícios recebidos da Virgem Santíssima, e a Nossa
alegria e esperança nela. E, depois, ao povo cristão, devotamente prostrado ante os altares de Maria,
pedimos rezar pela Igreja, agitada por tão adversas e tempestuosas vicissitudes, e ao mesmo tempo rezar
também por Nós, que, em idade tão avançada, cansado pelos trabalhos, a braços com as mais graves
dificuldades, e privado de todo socorro humano, governamos o leme da mesma Igreja.

Sim, a Nossa esperança em Maria, Mãe poderosa e terníssima, torna-se em Nós cada dia mais segura e
mais consoladora. E, enquanto à sua intercessão atribuímos todos os numerosos e assinalados benefícios
que Deus nos tem concedido, com particular gratidão lhe atribuímos o de podermos, dentro em não muito,
atingir o qüinquagésimo aniversário da Nossa ordenação episcopal.

Bem considerando, é deveras um grande benefício um tão longo período de ministério pastoral; mas o é
sobretudo o havermo-nos podido dedicar, no meio de preocupações quotidianas, a guiar todo o rebanho
cristão. Durante este tempo, na Nossa vida como na de todos os homens, como também nos mistérios de
Cristo e de sua Mãe, não faltaram nem motivos de alegria, nem ― mais freqüentemente ― graves motivos
de dor, nem, às vezes, motivos de alegre complacência, em Cristo. Coisas estas todas que Nós, com
espírito de humildade diante de Deus e com gratidão, nos temos aplicado a fazer reverter em bem e em
honra da Igreja.

E agora, visto que o resto da vida não será diverso, se novas alegrias resplenderem, se novas dores
sobrevierem, se algum raio de glória brilhar, Nós perseveraremos nas mesmas intenções e nos mesmos
sentimentos. E, nada mais invocando de Deus senão a glória celeste, repetiremos com alegria as palavras
de David: "Seja bendito o nome do Senhor; não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória"
(Salmos 112, 2; 113, 1).

De Nossos filhos, pois, tão devotos e tão afeiçoados, antes que felicitações e louvores ardentemente
esperamos que elevem a Deus vivíssimas ações de graças, orações e votos. Contentíssimos ficaremos se
eles nos obtiverem que esse pouco de vida e de forças que nos resta, o que temos de autoridade e de
prestígio, possamos despendê-lo unicamente para o bem da Igreja; e, antes de tudo, para lhe reconduzir
ao seio e reconciliar consigo os inimigos e os transviados, os quais a Nossa voz desde tanto tempo convida.
Que da Nossa próxima alegria jubilar ― se a Deus aprouver dar-no-la ― possam todos os Nossos
diletíssimos filhos recolher abundantes frutos de justiça, de paz, de prosperidade, de santidade, de todos
os bens.
E isto que, com paternal amor, solicitamos de Deus, enquanto lhes recordamos estes seus santos avisos:
"Escutai-me... e crescei como rosa plantada à beira das águas. Como incenso, exalai perfume suave. Fazei
brotar flores como o lírio, e espalhai odor, e recobri-vos de amenas frondes. E cantai um cântico de louvor,
e bendizei o Senhor por todas as suas obras. Dai glória ao seu nome, e louvai-o com o som dos vossos
lábios e com os cantos dos lábios e com as cítaras... Com todo o coração e com toda a voz louvai e
bendizei o nome do Senhor” (Eclo 39, 13 - 20, 41).

Se estas exortações e estes votos encontrarem o escárnio dos homens perversos, que blasfemam tudo o
que ignoram, perdoe Deus benignamente esses infelizes. De Nossa parte Lhe rogamos, pela intercessão da
Rainha do santíssimo Rosário, dignar-se de favorecer com sua graça exortações e votos.

Vós, pois, Veneráveis Irmãos, em auspício de tal graça e como penhor da Nossa benevolência, recebei,
nesse ínterim, a Bênção Apostólica, que com vivo afeto, no Senhor, concedemos a cada um de vós, ao
vosso clero e ao vosso povo.

Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 8 de Setembro de 1892, décimo quinto ano do Nosso Pontificado.

LEÃO PP. XIII

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_08091892_magnae-dei-
matris.html

CARTA ENCÍCLICA
OCTOBRI MENSE
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA

Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.

Convite ao Rosário

1. Ao aproximar-se o mês de Outubro, já agora consagrado à beatíssima Virgem, é para Nós coisa
sumamente grata relembrar as solícitas recomendações que, nos anos precedentes, vos dirigimos, ó
Veneráveis Irmãos, a fim de que em toda parte os fiéis, impelidos pelo vosso zelo autorizado, se
volvessem, com reavivada piedade, para a grande Mãe de Deus, para a poderosa auxiliadora do povo
cristão; a ela recorrendo suplicantes, durante o mês inteiro, com o rito do santo Rosário: Rosário que a
Igreja habitualmente usou e divulgou, sobretudo nos tempos mais tempestuosos; e sempre com o
desejado êxito.

2. Temos a peito manifestar-vos, também este ano, o mesmo desejo, e renovar-vos a mesma exortação.
Impele-nos a isto urgentemente, e a isso nos estimula, o Nosso amor à Igreja, cujas angústias, antes que
se aligeirarem, crescem cada dia mais em número e em aspereza.
Males que afligem a Igreja

3. A todos são conhecidos os males que Nós deploramos: a luta desapiedada contra os sagrados e
intangíveis dogmas, que a Igreja guarda e transmite; a zombaria da integridade da virtude cristã, que a
Igreja defende; a trama de calúnias de mil modos urdidas; o ódio fomentado contra a sagrada ordem dos
bispos, e principalmente contra o Romano Pontífice; os ataques dirigidos, com a mais impudente audácia e
a criminosa impiedade, contra a própria divindade de Cristo, no intuito de extirpar pelas raízes e de destruir
a obra divina da Redenção, que força alguma poderá jamais destruir nem cancelar.

4. Estes ataques não são, certamente, uma novidade para a Igreja militante. Porquanto, depois do aviso
dado por Cristo aos Apóstolos, ela sabe que, para instruir os homens no caminho da verdade e guiá-los à
salvação eterna, ela deve todo dia descer a campo e travar combate. E, na realidade, nos séculos ela
sempre lutou intrepidamente até ao martírio, considerando como sua precípua alegria e glória o poder unir
o seu sangue ao do seu Fundador: no qual está depositada a segura esperança da prometida vitória.

5. Por outra parte, entretanto, não podemos ocultar nos o profundo senso de tristeza que penetra os
melhores, ante esta contínua tensão de batalha. De fato, é motivo de imensa tristeza ver o grande número
dos que, pela perversidade dos erros e por esta insolente atitude contra Deus, são arrastados para longe e
impelidos para o abismo; o grande número dos que, pondo num mesmo plano todas as formas de religião,
pode-se dizer que já estão na iminência de abandonar a fé divina; o número notável dos que são cristãos
só de nome, e não cumprem os deveres da sua fé.

E ainda mais nos aflige e nos atormenta o ânimo o considerarmos que a causa principal de tais ruinosos
tais ruinosos e deploráveis males está na exclusão completa da Igreja das ordenações sociais, enquanto de
propósito se hostiliza a sua salutar influencia. E nisto é de reconhecer um grande e merecido castigo de
Deus, o qual cega miseravelmente as nações que se afastam d’Ele.

A necessidade da oração

6. Este estado de coisas mostra, com evidência sempre maior, o quanto é necessário que os católicos orem
e supliquem a Deus com fervor e perseverança "sem nunca cessar" (1Tim 5, 17); e não somente em
particular, porém ainda mais em público. Reunidos nos sagrados templos, conjurem Deus a se dignar, na
sua infinita bondade, de livrar a sua Igreja "dos homens insolentes e malvados" (2 Tim 3, 2), e a
reconduzir os povos ao caminho da salvação e da razão, na luz e no amor de Cristo.

7. Espetáculo incrível e maravilhoso! Enquanto o mundo percorre o seu caminho tormentoso, fiado nas
suas riquezas, na sua força, nas suas armas e no seu engenho, a Igreja, com passo veloz e seguro,
atravessa os séculos, depositando a sua confiança somente em Deus, a quem, de dia e de noite, ergue o
olhar e estende as mãos súplices. Porque, embora na sua prudência não desdenhe os socorros humanos
que, pela bondade divina, os tempos lhe oferecem, todavia não é nestes meios que ela deposita a sua
principal esperança; mas sim na oração, coletiva e insistente, elevada ao seu Deus. Nesta fonte ela
alimenta e fortifica a sua vida; porque, elevando-se, mediante a oração assídua, acima das vicissitudes
humanas, e mantendo-se constantemente unida a Deus, é-lhe dado viver, plácida e tranqüila, da própria
vida de Cristo. E nisto ela é fiel imagem de Cristo, a quem o horror dos tormentos, sofridos pelo nosso
bem, nada diminuiu nem tirou da beatíssima luz e da felicidade que lhe são próprias.

Exemplos de oração na Sagrada Escritura

8. Este grande ensinamento do cristianismo sempre foi escrupulosamente praticado pelos cristãos dignos
deste nome. Quando à Igreja ou a quem lhe regia os supremos destinos estava iminente algum perigo,
mercê da perfídia e da violência de homens perversos, então com maior insistência e freqüência elevavam
os cristãos suas preces a Deus.

9. De tal costume achamos luminoso exemplo nos fiéis da Igreja nascente, exemplo digno de ser proposto
à imitação de todos os pósteros. Pedro, Vigário de Cristo, Pontífice supremo de toda a Igreja, por ordem
do ímpio Herodes fora lançado no cárcere, e destinado a segura morte. Ninguém estava em condições de
lhe levar auxílio para o subtrair àquele perigo. Mas não faltava esse auxílio único que a devota oração sabe
obter de Deus. Como nos testemunha a Sagrada Escritura, a Igreja elevava a Deus fervorosíssimas preces
por ele: "Mas a Igreja fazia a Deus contínuas preces por ele" (At 12, 5). E tanto mais ardente se tornava o
empenho da sua oração, quanto mais grave era a angústia que eles experimentavam por aquela
desventura. Todos sabem que essas preces foram atendidas. Antes, todos os anos o povo cristão celebra
sempre com agradecida alegria a lembrança da miraculosa libertação de S. Pedro.

10. Outro exemplo, ainda mais luminoso, antes divino, dá-no-lo o próprio Cristo, que se propusera
encaminhar e formar na perfeição a sua Igreja não só com os novos preceitos, mas também com a sua
vida. Durante e curso de toda a sua vida Ele se dedicara mui freqüente e longamente à oração.

Mas, nas suas horas supremas, quando, no horto de Getsêmani, a sua alma foi invadida de uma angústia
imensa e oprimida por uma tristeza mortal, Ele não somente orava, porém "orava mais intensamente"
(Lc 22, 43). E isto Ele fez não para si mesmo, pois, como Deus, nada podia temer e de nada precisava;
mas fê-lo para nossa vantagem, e para vantagem da sua Igreja, cujas futuras orações e futuras lágrimas
desde então Ele generosamente fazia suas, tornando fecundas umas e outras com a sua graça.

Maria mediadora de todas as graças

11. Mas, depois que, por virtude do mistério da Cruz, foi realizar a salvação do gênero humano, e depois
que, com o triunfo de Cristo, a Igreja foi plenamente constituída dispensadora da sua salvação, desde
então a Providência preparou e estabeleceu para este novo povo uma ordem nova.

12. As disposições da divina Sabedoria devem ser olhadas com profunda veneração. O Filho eterno de
Deus, querendo assumir a natureza humana para redimi-la e nobilitá-la, e portanto para contrair um
místico consórcio com o gênero humano, não deu cumprimento a este seu desígnio senão depois de obter
o livre consentimento daquela que fora designada para sua Mãe, e que, em certo sentido, representava
todo o gênero humano; segundo a célebre e veracíssima sentença do Aquinate: "Por meio da Anunciação
aguardava-se o consentimento da Virgem, em nome e em representação de toda a natureza humana" (S.
Tomás, 3, q. 30, a. 1).

Por conseqüência, pode-se com toda verdade e rigor afirmar que, por divina disposição, nada nos pode ser
comunicado, do imenso tesouro da graça de Cristo - sabe-se que "a glória e a verdade vieram de Jesus
Cristo" (Jo 1, 17), - senão por meio de Maria. De modo que, assim como ninguém pode achegar-se ao Pai
Supremo senão por meio do Filho, assim também, ordinariamente, ninguém pode achegar-se a Cristo
senão por meio de sua Mãe.

13. Quanta sabedoria e misericórdia resplandece nesta disposição da Divina Providência! Que compreensão
da debilidade e fragilidade humana! De fato, nós cremos na infinita bondade de Cristo, e por ela lhe
rendemos louvor; mas também cremos na sua infinita justiça, e desta temos temor. Sentimos uma
profunda gratidão pelo amor do Salvador, que por nós deu generosamente o seu Sangue e a sua vida;
mas, ao mesmo tempo, tememo-lo no seu caráter de juiz inexorável. Apreensivos pela consciência dos
nossos pecados, precisamos, por isto, de um intercessor e de um patrono que, de um lado, goze em alto
grau do favor divino, e, de outro, seja de ânimo tão benévolo que a ninguém recuse o seu patrocínio, nem
mesmo aos mais desesperados, e ao mesmo tempo infunda confiança na divina clemência àqueles que,
abatidos, jazem no desconforto.

Mãe de Deus e Mãe dos homens

14. Pois bem: essa eminentíssima criatura é justamente Maria: certamente Ela é poderosa, porque é Mãe
de Deus onipotente, porém - o que é mais consolador -é amorosa, de uma extrema benevolência, de uma
indulgência sem limites. Tal no-la deu o próprio Deus, que, havendo-a escolhido para Mãe de seu
Unigênito, infundiu-lhe, por isso mesmo, sentimentos requintadamente maternos, capazes somente de
bondade e de perdão. Tal no-la mostrou Jesus, quer quando consentiu em ser sujeito e obedecer a Maria,
como um filho a sua mãe, quer quando, do alto da Cruz, confiou às suas amorosas solicitudes todo o
gênero humano, na pessoa do discípulo João. Tal, enfim, se mostrou ela mesma quando, acolhendo
generosamente a pesada herança que lhe deixava seu Filho moribundo, desde aquele momento começou a
cumprir, para com todos, os seus deveres de Mãe.
O recurso a Maria na tradição cristã

15. Este plano de terna misericórdia executado por Deus em Maria e ratificado por Cristo com a sua última
vontade, foi desde o início compreendido com imensa alegria pelos santos Apóstolos e pelos primeiros fiéis;
foi compreendido e ensinado pelos venerandos Padres da Igreja; foi concordemente compreendido, em
todos os tempos, pelo povo cristão. E mesmo quando a tradição e a literatura se calassem, esta verdade
seria igualmente atestada com grandíssima eloquência pela voz que irrompe do coração de cada cristão.

Sem uma fé divina não se explicaria o imperioso impulso que nos impele e docemente nos arrasta para
Maria; o vivo desejo, ou, melhor, a necessidade que sentimos de procurar refúgio na proteção e no auxílio
daquela a quem podemos confiar plenamente os nossos projetos e as nossas ações, a nossa inocência e o
nosso pensamento, os nossos tormentos e as nossas alegrias, as nossas preces e os nossos votos, em
suma todas as nossas coisas; a doce esperança e a confiança, por nós nutridas, de que aquilo que seria
menos aceito a Deus, porque apresentado por nós, indignos pecadores, poderá tornar-se-lhe
agradabilíssimo se o confiarmos a sua Mãe Santíssima.

Quanto mais a alma se alegra com a verdade e suavidade destes pensamentos, outro tanto se entristece
por causa daqueles que, privados da fé divina, não honram Maria: antes, não a consideram nem mesmo
como Mãe. E ainda mais se contrista o Nosso coração por causa daqueles que, embora participantes da
santa fé, ousam acusar os bons de excessivo e exagerado culto para com Maria, ofendendo com isto
grandemente a piedade filial.

16. Portanto, no meio da tempestade de males que tão duramente atormentam a Igreja, todos os devotos
filhos desta mesma Igreja vêem claramente que urgente dever têm de orar insistentemente a Deus
onipotente, e, sobretudo, de que modo devem aplicar-se a isso para que as suas preces tenham máxima
eficácia. Seguindo o exemplo de nossos piedosíssimos pais e antepassados, recorramos a Maria, nossa
santa Rainha; e, concordemente, supliquemos a Maria, Mãe de Jesus Cristo e Mãe nossa: "Mostra-te nossa
Mãe, e por meio de ti acolha nossas preces Aquele que, nascido para nós, quis ser teu Filho" (Da sagrada
liturgia).

Excelência do Rosário

17. Ora, como quer que, entre a diversas formas e maneiras de honrar a divina Mãe, são de preferir
aquelas que por si mesmas são julgadas mais excelentes e a ela mais agradáveis, apraz-nos
expressamente apontar e vivamente recomendar o santo Rosário. A este modo de orar foi dado, na
linguagem comum, o nome de "coroa", porque ela também recorda, num feliz enredo, os grandes
mistérios de Jesus e de Maria: as suas alegrias, as suas dores e os seus triunfos. Se os fiéis meditarem e
contemplarem devotamente, na ordem, devida, estes augustos mistérios, haurirão deles um admirável
auxílio, quer em alimentar a sua fé e em preservá-la da ignorância e do contágio dos erros, quer em elevar
e fortalecer o vigor do seu espírito.

De feito, por esse modo o pensamento e a memória de quem reza são, à luz da fé, atraídos com
suavíssimo ardor para estes mistérios. Neles concentrados e imersos, nunca se cansarão de admirar a obra
inenarrável da Redenção humana, levada a efeito a tão caro preço e com uma sucessão de tão grandes
acontecimentos. E, diante destas provas da divina caridade, a alma se inflamará de amor e de gratidão,
consolidará e aumentará a sua esperança, e avidamente visará à recompensa celeste, preparada por Cristo
para aqueles que se Lhe houverem unido pela imitação dos seus exemplos e pela participação das suas
dores. E, enquanto isso, com os lábios se pronunciam as orações ensinadas pelo próprio Cristo, pelo
Arcanjo Gabriel e pela Igreja. Orações tão cheias de louvores e de salutares aspirações não poderão ser
repetidas e continuadas, na sua vária e determinada ordem, sem produzirem sempre novos e suaves frutos
de piedade.

Origem e glórias do Rosário

18. Que, pois, a própria Rainha do Céu haja ligado a esta oração uma grande eficácia, demonstra-o o fato
de haver ela sido instituída e propagada pelo ínclito S. Domingos, por impulso e inspiração dela, em
tempos especialmente tristes para a causa católica, e bem pouco diferentes dos nossos, e instituída como
um instrumento de guerra eficacíssimo para combater os inimigos da fé.

19. Com efeito, a seita herética dos Albigenses, ora sorrateira, ora abertamente, invadira numerosas
regiões; espantosa descendência dos Maniqueus, repetia ela os monstruosos erros destes, e renovava as
suas hostilidades, as suas violências e o seu ódio profundo contra a Igreja. Contra essa turba tão
perniciosa e arrogante, já agora pouco ou nada se podia contar com os auxílios humanos, quando o
socorro veio manifestamente de Deus, por meio do Rosário de Maria.

Assim, graças à Virgem, gloriosa e debeladora de todas as heresias, as forças dos ímpios foram abatidas e
quebradas, e a fé de muitíssimos ficou salva e intacta. E pede-se dizer que semelhantes fatos se
verificaram no seio de todos os povos. Quantos perigos conjurados! Quantos benefícios alcançados! A
história antiga e moderna aí está para o demonstrar com os mais luminosos testemunhos.

Difusão e vitalidade do Rosário

20. Porém outra prova evidente também nos é fornecida pelo fato de, apenas instituída a oração do
Rosário, haver-se a sua prática em brevíssimo tempo propagado por toda parte, entre toda classe de
pessoas. E, de feito, se é verdade que o povo cristão tem achado diversas formas e títulos insignes para
honrar a Mãe de Deus, que sozinha se eleva, entre todas as criaturas, por tantas excelsas prerrogativas,
todavia é inegável que os fiéis sempre amaram de modo todo particular o título do Rosário: isto é, essa
maneira de orar que é considerada como a senha da nossa fé e o compêndio do culto a ela devido.

E têm-na praticado particularmente e em público, no interior das casas e no seio das famílias; instituindo
confrarias, consagrando altares, promovendo solenes procissões; convencidos de que de nenhum outro
modo poderiam melhor honrar as suas festas e merecer o seu patrocínio e as suas graças.

21. Nem passe em silêncio um fato que focaliza uma particular providência de Nossa Senhora acerca do
Rosário. E é este. Quando, com o correr do tempo, no seio de algum povo pareceu enfraquecer-se o gosto
pela piedade, e relaxar-se também a prática desta oração, mal se desenhou, pelo lado do Estado, algum
gravíssimo perigo, ou se apresentou qualquer necessidade pública, por voto unânime foi a prática do
Rosário, de preferência a outras manifestações religiosas, que foi como que por encanto revocada a uso e
recolocada no seu lugar de honra, com geral benefício. E desta asserção não se faz mister ir buscar as
provas no passado, porque temos ao alcance da mão uma insigne nos nossos dias.

Como dissemos desde o princípio, estes nossos tempos são cheios de amargura para a Igreja de Deus, e
ainda mais para Nós, chamado pela Providência Divina a governá-la. Ora, justamente nestes tempos é que
nos é dado notar e admirar, em toda parte do orbe católico, um fervoroso despertar na prática e na
devoção do Rosário. E, visto que este fato, antes que à diligência humana, se deve efetivamente atribuir a
Deus, que dirige e conduz os homens, isto consola, e levanta o Nosso ânimo, enchendo-o de grande
confiança em que, pela intercessão de Maria, a Igreja poderá alcançar novos e mais extensos triunfos.

Como se deve orar

22. Há alguns que crêem as coisas que havemos relembrado; mas, depois, vendo não haver sido ainda
alcançado nada daquilo que se esperava - e em primeiro lugar a paz e a tranqüilidade da Igreja, antes,
vendo a situação tornar-se sempre mais ameaçadora, como que cansados e desconfiados diminuem a
assiduidade e o ardor da sua oração. Mas estes deveriam, em primeiro lugar, refletir, e fazer com que as
orações por eles dirigidas a Deus sejam dotadas dos requisitos que, segundo o preceito de Cristo Senhor
Nosso, são necessários.

E, depois, se as suas orações fossem realmente tais, deveriam eles além disso considerar que é coisa
indigna e culposa o querer fixar a Deus o momento e o modo de vir em nosso socorro, a Deus que não nos
deve nada; tanto que, quando Ele atende a quem lhe ora, e quando "coroa os nossos méritos, na realidade
não coroa outra coisa senão os seus próprios dons" (S. Agostinho, Epistola 194 al. 105 ad Sixtum, c. 5, n.
19); e, quando não secunda os nossos desejos, comporta-se providencialmente como um bom pai para
com seus filhos, o qual tem piedade da estultícia destes, e olha sempre à sua verdadeira utilidade.
A oração pela Igreja e a oração da Igreja

23. Mas Deus acolhe benignamente e atende as orações que amparadas pela intercessão dos Santos,
devotamente lhe erguemos para torná-lo propício à sua Igreja; seja quando para a sua Igreja pedimos os
bens mais altos e eternos, seja quando pedimos bens importantes e temporais, mas, em todo caso, úteis
àqueles. Com efeito, a tais orações adita valor e imensa eficácia, com suas orações e seus méritos, Nosso
Senhor Jesus Cristo, que "amou a Igreja e deu-se a si mesmo por ela, com o fim de santificá-la... para
fazer aparecer diante de Si mesmo, gloriosa, a Igreja" (Ef 5, 25-27); Ele que lhe é o Pontífice supremo,
santo, inocente, "sempre estando vivo, para poder interceder por nós"; Ele que, nas suas orações e
súplicas - cremo-lo por fé divina - sempre consegue o seu intento.

24. Portanto, no que diz respeito aos interesses da Igreja, é sabido que as mais das vezes ela deve lutar
com adversários formidáveis por ódio e poder; e sobejas vezes deve ela doer-se de que pelos seus
inimigos lhe sejam arrancados os seus bens, limitada e oprimida a sua liberdade, atacada e desprezada a
sua autoridade, e, em suma, infligidos danos e violências de todo gênero.

E, se nos perguntarem por que razão a maldade destes não chega ao cúmulo de injustiça que eles se
propõem e se esforçam por atingir, e, de outra parte, por que razão a Igreja, mesmo no meio de tantas
vicissitudes, refulge sempre, conquanto de modos diversos, da mesma grandeza e da mesma glória, e
continua a progredir, justo é atribuir à verdadeira causa de um e de outro fato ao poder da oração
unânime da Igreja; não podendo humanamente explicar-se como a iniquidade, mesmo tão descarada, seja
contida dentro de limites tão estreitos ao passo que a Igreja, embora mantida em opressão, alcança sem
embargo, tão esplêndidos triunfos.

E isto aparece ainda mais evidente no campo desses bens de que a Igreja se serve para conduzir os
homens à posse do bem supremo. Visto haver ela nascido justamente para esta missão, a sua oração deve
ter uma grande eficácia em obter que se cumpra perfeitamente sobre os homens o desígnio da providência
e misericórdia de Deus; de modo que, quando os homens oram com a Igreja e por meio da Igreja, em
definitivo impetram e obtêm aquilo que "desde a eternidade Deus onipotente dispusera conceder" (S.
Tomás, II-II, q. 83, a. 2: de S. Greg. Magno).

Os milagres da oração

25. Neste mundo a mente humana falha em face dos excelsos planos da Divina Providência; mas dia virá
em que o próprio Deus, na sua grande bondade, nos manifestará as causas e o enredo dos
acontecimentos; e então aparecerá claramente que poderosa eficácia de impetração teve nesta ordem de
coisas o dever da oração.

Então ver-se-á que foi justamente por virtude da oração que muitos, mesmo em meio à grande corrupção
do mundo depravado, se conservaram puros e isentos "de toda contaminação de carne e de espírito,
realizando a santificação no temor de Deus" (2 Cor, 7, 1); que outros, quando estavam a ponto de ceder
ao mal, não somente se contiveram, mas do perigo e da tentação tiraram um acréscimo de virtude; que
outros, já derrubados, por um estímulo interior foram impelidos a levantar-se e a lançar-se no amplexo de
Deus misericordioso.

26. Por isto Nós conjuramos todos a quererem meditar atentamente estas verdades; a não se deixarem
seduzir pelos ardis do antigo inimigo; a nunca abandonarem, por motivo algum, a prática da oração; antes
os exortamos a perseverarem nela, sem nunca se cansarem. E, em primeiro lugar, lembrem-se de implorar
o mais alto de todos os bens: a salvação eterna de todos, e a incolumidade da Igreja. Depois disto poderão
invocar de Deus os outros bens que concernem à prosperidade temporal; contanto que sejam resignados à
sua justíssima vontade, e que, atendidos ou não nas suas orações, saibam render-Lhe graças como ao
mais benfazejo dos pais.

Por último, recomendamo-lhes orarem com esse espírito de religião e de piedade que sempre convém
quando se trata com Deus: como costumavam fazer os Santos, e como fazia o nosso próprio Redentor e
Mestre, "com fortes gritos e lágrimas" (Heb 5, 7).
Com a oração, a mortificação

27. A esta altura, a dor e o afeto de Pai impele-nos a implorar de Deus, dador de todos os bens, para todos
os filhos da Igreja, não somente o espírito da oração, mas também o da mortificação. Isto fazendo de todo
coração, Nós exortamos todos, com a mesma solicitude, a praticarem esta virtude, tão estreitamente unida
à outra.

Porquanto, se a oração conforta a alma, robustece-a e eleva-a às coisas celestes, a mortificação habitua-
nos a dominar-nos a nós mesmos, e especialmente o corpo, que, por motivo de antiga culpa, é o mais
perigoso inimigo da razão e da lei evangélica. Há entre estas virtudes - como é evidente um nexo
indissolúvel. Elas se ajudam reciprocamente, e juntas tendem ao mesmo fim, que é o de desapegar o
homem, nascido para o Céu, das coisas caducas deste mundo, para elevá-lo quase a uma celeste
intimidade com Deus. Ao contrário, aquele que tem o ânimo aceso pelas paixões e amolecido pelos
prazeres tem náusea das alegrias celestes, que nunca experimentou. A sua oração não passa de uma voz
fria e lânguida, certamente indigna de ser escutada por Deus.

O exemplo dos santos

28. Temos sob os olhos os exemplos de mortificação a nós deixados pelos Santos. Pois bem: era
justamente esse espírito de mortificação que tornava aceitas a Deus as suas orações; tanto que, como nos
atesta a história sagrada, eles tiveram até mesmo o poder de operar milagres. Esses Santos eram assíduos
em regular e refrear a mente, o coração e as paixões; submetiam-se sempre com grande docilidade e
humildade à doutrina de Cristo, aos ensinamentos e aos preceitos da sua Igreja; nada queriam, nada
recusavam, sem antes haver sondado a vontade de Deus; nas suas ações não se propunham outro escopo
senão a maior glória de Deus; continham e reprimiam energicamente os apetites da carne; tratavam o
próprio corpo duramente e sem piedade; e, por amor da virtude, abstinham-se até mesmo das coisas por
si mesmas lícitas. Assim podiam com razão aplicar a si mesmos as palavras que o Apóstolo Paulo dizia de
si: "já que a nossa cidadania é nos céus" (Filip 3, 20); e, pela mesma razão, as suas orações eram tão
eficazes em lhe tornar Deus propício e benigno.

Necessidades da penitência

29. Certamente, nem a todos é dada a possibilidade, nem todos têm a obrigação de fazer o mesmo; mas
cada um é obrigado, segundo o seu poder, a mortificar a sua vida e os seus costumes. Exige-o a justiça
divina, à qual é dada estrita satisfação das culpas cometidas; e é preferível dar essa satisfação enquanto se
está em vida, com penitências voluntárias, porque assim também se tem o mérito da virtude.

Além disto, já que nós todos estamos unidos e vivemos no corpo místico de Cristo, que é a Igreja, daí se
segue, consoante S. Paulo, que, tal como os gozos, assim também as dores de um membro são comuns a
todos os outros membros: quer dizer que os irmãos cristãos devem vir voluntariamente em auxílio dos
outros irmãos nas suas enfermidades espirituais ou corporais, e, na medida em que estiver em seu poder,
cuidar da cura deles; "os membros tenham a mesma solicitude uns com os outros; e, se um membro sofre,
sofrem com ele todos os membros; ou, se tem glória um membro, todos os membros se regozijam com
ele.

Ora, vós sois corpo de Cristo, e particularmente sois membros deste" (1 Cor 12,25-27). Nesta prova que a
caridade nos pede, de expiarmos as culpas de outrem, a exemplo de Jesus Cristo, que com imenso amor
deu a sua vida para redimir todos do pecado, está esse grande vínculo de perfeição que une estreitamente
os fiéis entre si, com os Santos e com Deus.

30. Em suma, o espírito da santa mortificação é tão vário, industrioso e extenso, que qualquer um desde
que animado de piedade e de boa vontade pode praticá-lo com muita freqüência e sem esforço excessivo.

Exortações e esperanças

31. Depois do que até aqui expusemos, não nos resta, Veneráveis Irmãos, senão esperar dos Nossos
avisos e das Nossas exortações o êxito mais consolador. E de fato o esperamos da vossa singular e
profunda piedade para com a augusta Mãe de Deus, da vossa solicitude e do vosso zelo pelo rebanho a
vós confiado. E já a nossa alma se alegra em prever frutos felizes e abundantes, como aqueles que os
católicos souberam colher da sua notável piedade para com Maria. Que, pois, graças aos vossos convites,
às vossas recomendações e ao vosso exemplo, os fiéis, especialmente no próximo mês, acorram e se
reúnam em torno dos altares, solenemente ornados, da augusta Rainha, da benigníssima Mãe; e com
coração filial lhe entreteçam e lhe ofereçam místicas coroas com a recitação, a ela tão grata, do Rosário.

De Nossa parte, confirmamos e ratificamos não só as prescrições já outras vezes dadas a propósito, mas
também as sagradas Indulgências já concedidas (Encíclica "Supremi Apostolatus", 1 Set. 1883. Encíclica
"Superiore Anno", 30 Ag. 1884; Decreto S. R. C. "Inter Plurimos", 20 Ag. 1885; Encíclica "Quanquam
Pluries", 15 Ag. 1889). Oh! como será belo e vantajoso o espetáculo de milhões de fiéis que, em todo o
orbe católico - nas cidades, nas aldeias, nos campos, em terra e no mar, - fundindo juntos os seus louvores
e as suas preces, os seus pensamentos e as suas vozes, saudarem a todas as horas do dia Maria,
invocarem Maria, e tudo esperarem de Maria! Roguem-lhe todos, com confiança, queira Ela obter de seu
Filho que as nações transviadas voltem às instituições e aos princípios cristãos, nos quais assenta a base
do bem-estar público, e da qual jorram os benefícios da desejada paz e da verdadeira felicidade.

Porém ainda mais insistentemente lhe peçam aquilo que deve estar no ápice dos desejos de todos os bons,
ou seja a liberdade da Igreja e a pacífica posse dessa liberdade, de que ela não se serve senão para
proporcionar aos homens o bem supremo. Desta liberdade, nem indivíduos nem Estados sofreram jamais
dano algum; antes, dela hauriram sempre inúmeros e inestimáveis benefícios.

32. Finalmente, Veneráveis Irmãos, que pela intercessão da Rainha do Rosário Deus vos conceda os
favores e as graças celestes, das quais possais haurir, em sempre maior abundância, auxílio e força para
cumprirdes santamente os deveres do vosso ministério pastoral. E delas seja penhor e auspício a Bênção
Apostólica que de coração concedemos a vós, ao vosso clero e ao povo confiado aos vossos cuidados.

Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 22 de Setembro de 1891, décimo quarto ano do Nosso Pontificado.

LEÃO PP. XIII

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_22091891_octobri-mense.html

CARTA ENCÍCLICA
«RERUM NOVARUM»
DO SUMO PONTÍFICE
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE A CONDIÇÃO DOS OPERÁRIOS

INTRODUÇÃO

1. A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril,
devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política para a esfera vizinha da economia social.
Efectivamente, os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a
alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos dum pequeno
número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que os operários formam de si
mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado
final um temível conflito.

Por toda a parte, os espíritos estão apreensivos e numa ansiedade expectante, o que por si só basta para
mostrar quantos e quão graves interesses estão em jogo. Esta situação preocupa e põe ao mesmo tempo
em exercício o génio dos doutos, a prudência dos sábios, as deliberações das reuniões populares, a
perspicácia dos legisladores e os conselhos dos governantes, e não há, presentemente, outra causa que
impressione com tanta veemência o espírito humano.

É por isto que, Veneráveis Irmãos, o que em outras ocasiões temos feito, para bem da Igreja e da salvação
comum dos homens, em Nossas Encíclicas sobre a soberania política, a liberdade humana, a constituição
cristã dos Estados [*] e outros assuntos análogos, refutando, segundo Nos pareceu oportuno, as opiniões
erróneas e falazes, o julgamos dever repetir hoje e pelos mesmos motivos, falando-vos da Condição dos
Operários. Já temos tocado esta matéria muitas vezes, quando se Nos tem proporcionado o ensejo; mas a
consciência do Nosso cargo Apostólico impõe-Nos como um dever tratá-la nesta Encíclica mais
explicitamente e com maior desenvolvimento, a fim de pôr em evidência os princípios duma solução,
conforme à justiça e à equidade. O problema nem é fácil de resolver, nem isento de perigos. E difícil,
efectivamente, precisar com exactidão os direitos e os deveres que devem ao mesmo tempo reger a
riqueza e o proletariado, o capital e o trabalho. Por outro lado, o problema não é sem perigos, porque não
poucas vezes homens turbulentos e astuciosos procuram desvirtuar-lhe o sentido e aproveitam-no para
excitar as multidões e fomentar desordens.

Causas do conflito

2. Em todo o caso, estamos persuadidos, e todos concordam nisto, de que é necessário, com medidas
prontas e eficazes, vir em auxílio dos homens das classes inferiores, atendendo a que eles estão, pela
maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida. O século passado destruiu, sem as
substituir por coisa alguma, as corporações antigas, que eram para eles uma protecção; os princípios e o
sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os
trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de
senhores desumanos e à cobiça duma concorrência desenfreada. A usura voraz veio agravar ainda mais o
mal. Condenada muitas vezes pelo julgamento da Igreja, não tem deixado de ser praticada sob outra
forma por homens ávidos de ganância, e de insaciável ambição. A tudo isto deve acrescentar-se o
monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão dum pequeno número de ricos
e de opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão dos proletários.

A solução socialista

3. Os Socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e
pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo
qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para - os Municípios ou para o
Estado. Mediante esta transladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das
comodidades que elas proporcionam entre os cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos
males presentes. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o
operário se fosse posta em prática. Pelo contrário, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos
proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social.

A propriedade particular

4. De facto, como é fácil compreender, a razão intrínseca do trabalho empreendido por quem exerce uma
arte lucrativa, o fim imediato visado pelo trabalhador, é conquistar um bem que possuirá como próprio e
como pertencendo-lhe; porque, se põe à disposição de outrem as suas forças e a sua indústria, não é,
evidentemente, por outro motivo senão para conseguir com que possa prover à sua sustentação e às
necessidades da vida, e espera do seu trabalho, não só o direito ao salário, mas ainda um direito estrito e
rigoroso para usar dele como entender. Portanto, se, reduzindo as suas despesas, chegou a fazer algumas
economias, e se, para assegurar a sua conservação, as emprega, por exemplo, num campo, torna-se
evidente que esse campo não é outra coisa senão o salário transformado: o terreno assim adquirido será
propriedade do artista com o mesmo título que a remuneração do seu trabalho. Mas, quem não vê que é
precisamente nisso que consiste o direito da propriedade mobiliária e imobiliária? Assim, esta conversão da
propriedade particular em propriedade colectiva, tão preconizada pelo socialismo, não teria outro efeito
senão tornar a situação dos operários mais precária, retirando-lhes a livre disposição do seu salário e
roubando-lhes, por isso mesmo, toda a esperança e toda a possibilidade de engrandecerem o seu
património e melhorarem a sua situação.

5. Mas, e isto parece ainda mais grave, o remédio proposto está em oposição flagrante com a justiça,
porque a propriedade particular e pessoal é, para o homem, de direito natural. Há, efectivamente, sob este
ponto de vista, uma grandíssima diferença entre o homem e os animais destituídos de razão. Estes não se
governam a si mesmos; são dirigidos e governados pela natureza, mediante um duplo instinto, que, por
um lado, conserva a sua actividade sempre viva e lhes desenvolve as forças; por outro, provoca e
circunscreve ao mesmo tempo cada um dos seus movimentos. O primeiro instinto leva-os à conservação e
à defesa da sua própria vida; o segundo, à propagação da espécie; e este duplo resultado obtêm-no
facilmente pelo uso das coisas presentes e postas ao seu alcance. Por outro lado, seriam incapazes de
transpor esses limites, porque apenas são movidos pelos sentidos e por cada objecto particular que os
sentidos percebem. Muito diferente é a natureza humana. Primeiramente, no homem reside, em sua
perfeição, toda a virtude da natureza sensitiva, e desde logo lhe pertence, não menos que a esta, gozar
dos objectos físicos e corpóreos. Mas a vida sensitiva mesmo que possuída em toda a sua plenitude, não
só não abraça toda a natureza humana, mas é-lhe muito inferior e própria para lhe obedecer e ser-lhe
sujeita. O que em nós se avantaja, o que nos faz homens, nos distingue essencialmente do animal, é a
razão ou a inteligência, e em virtude desta prerrogativa deve reconhecer-se ao homem não só a faculdade
geral de usar das coisas exteriores, mas ainda o direito estável e perpétuo de as possuir, tanto as que se
consomem pelo uso, como as que permanecem depois de nos terem servido.

Uso comum dos bens criados e propriedade particular deles

Uma consideração mais profunda da natureza humana vai fazer sobressair melhor ainda esta verdade. O
homem abrange pela sua inteligência uma infinidade de objectos, e às coisas presentes acrescenta e
prende as coisas futuras; além disso, é senhor das suas acções; também sob a direcção da lei eterna e sob
o governo universal da Providência divina, ele é, de algum modo, para si a sua lei e a sua providência. É
por isso que tem o direito de escolher as coisas que julgar mais aptas, não só para prover ao presente,
mas ainda ao futuro. De onde se segue que deve ter sob o seu domínio não só os produtos da terra, mas
ainda a própria terra, que, pela sua fecundidade, ele vê estar destinada a ser a sua fornecedora no futuro.
As necessidades do homem repetem-se perpetuamente: satisfeitas hoje, renascem amanhã com novas
exigências. Foi preciso, portanto, para que ele pudesse realizar o seu direito em todo o tempo, que a
natureza pusesse à sua disposição um elemento estável e permanente, capaz de lhe fornecer
perpetuamente os meios. Ora, esse elemento só podia ser a terra, com os seus recursos sempre fecundos.
E não se apele para a providência do Estado, porque o Estado é posterior ao homem, e antes que ele
pudesse formar-se, já o homem tinha recebido da natureza o direito de viver e proteger a sua existência.
Não se oponha também à legitimidade da propriedade particular o facto de que Deus concedeu a terra a
todo o género humano para a gozar, porque Deus não a concedeu aos homens para que a dominassem
confusamente todos juntos. Tal não é o sentido dessa verdade. Ela significa, unicamente, que Deus não
assinou uma parte a nenhum homem em particular, mas quis deixar a limitação das propriedades à
indústria humana e às instituições dos povos. Aliás, posto que dividida em propriedades particulares, a
terra não deixa de servir à utilidade comum de todos, atendendo a que não há ninguém entre os mortais
que não se alimente do produto dos campos. Quem os não tem, supre-os pelo trabalho, de maneira que se
pode afirmar, com toda a verdade, que o trabalho é o meio universal de prover às necessidades da vida,
quer ele se exerça num terreno próprio, quer em alguma parte lucrativa cuja remuneração, sai apenas dos
produtos múltiplos da terra, com os quais ela se comuta. De tudo isto resulta, mais uma vez, que a
propriedade particular é plenamente conforme à natureza. A terra, sem dúvida, fornece ao homem com
abundância as coisas necessárias para a conservação da sua vida e ainda para o seu aperfeiçoamento, mas
não poderia fornecê-las sem a cultura e sem os cuidados do homem. Ora, que faz o homem, consumindo
os recursos do seu espírito e as forças do seu corpo em procurar esses bens da natureza? Aplica, para
assim dizer, a si mesmo a porção da natureza corpórea que cultiva e deixa nela como que um certo cunho
da sua pessoa, a ponto que, com toda a justiça, esse bem será possuído de futuro como seu, e não será
lícito a ninguém violar o seu direito de qualquer forma que seja.
A propriedade sancionada pelas leis humanas e divinas

A força destes raciocínios é duma evidência tal, que chegamos a admirar como certos partidários de velhas
opiniões podem ainda contradizê-los, concedendo sem dúvida ao homem particular o uso do solo e os
frutos dos campos, mas recusando-lhe o direito de possuir, na qualidade de proprietário, esse solo em que
edificou, a porção da terra que cultivou. Não vêem, pois, que despojam assim esse homem do fruto do seu
trabalho; porque, afinal, esse campo amanhado com arte pela mão do cultivador, mudou completamente
de natureza: era selvagem, ei-lo arroteado; de infecundo, tornou-se fértil; o que o tornou melhor, está
inerente ao solo e confunde-se de tal forma com ele, que em grande parte seria impossível separá-lo.
Suportaria a justiça que um estranho viesse então a atribuir-se esta terra banhada pelo suor de quem a
cultivou? Da mesma forma que o efeito segue a causa, assim é justo que o fruto do trabalho pertença ao
trabalhador.

É, pois, com razão, que a universalidade do género humano, sem se deixar mover pelas opiniões contrárias
dum pequeno grupo, reconhece, considerando atentamente a natureza, que nas suas leis reside o primeiro
fundamento da repartição dos bens e das propriedades particulares; foi com razão que o costume de todos
os séculos sancionou uma situação tão conforme à natureza do homem e à vida tranquila e pacífica das
sociedades. Por seu lado, as leis civis, que recebem o seu valor [1], quando são justas, da lei natural,
confirmam esse mesmo direito e protegem-no pela força. Finalmente, a autoridade das leis divinas vem
pôr-lhe o seu selo, proibindo, sob perla gravíssima, até mesmo o desejo do que pertence aos outros: «Não
desejarás a mulher do teu próximo, nem a sua casa, nem o seu campo, nem o seu boi, nem a sua serva,
nem o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença» [2] .

A família e o Estado

6. Entretanto, esses direitos, que são inatos a cada homem considerado isoladamente, apresentam-se mais
rigorosos ainda, quando se consideram nas suas relações e na sua conexão com os deveres da vida
doméstica. Ninguém põe em dúvida que, na escolha dum género de vida, seja lícito cada um seguir o
conselho de Jesus Cristo sobre a virgindade, ou contrair um laço conjugal. Nenhuma lei humana poderia
apagar de qualquer forma o direito natural e primordial de todo o homem ao casamento, nem
circunscrever o fim principal para que ele foi estabelecido desde a origem: «Crescei e multiplicai-vos»[3].
Eis, pois, a família, isto é, a sociedade doméstica, sociedade muito pequena certamente, mas real e
anterior a toda a sociedade civil, à qual, desde logo, será forçosamente necessário atribuir certos direitos e
certos deveres absolutamente independentes do Estado. Assim, este direito de propriedade que Nós, em
nome da natureza, reivindicamos para o indivíduo, é preciso agora transferi-lo para o homem constituído
chefe de família. Isto não basta: passando para a sociedade doméstica, este direito adquire aí tanto maior
força quanto mais extensão lá recebe a pessoa humana.

A natureza não impõe somente ao pai de família o dever sagrado de alimentar e sustentar seus filhos; vai
mais longe. Como os filhos reflectem a fisionomia de seu pai e são uma espécie de prolongamento da sua
pessoa, a natureza inspira-lhe o cuidado do seu futuro e a criação dum património que os ajude a
defender-se, na perigosa jornada da vida, contra todas as surpresas da má fortuna. Mas, esse património
poderá ele criá-lo sem a aquisição e a posse de bens permanentes e produtivos que possam transmitir-lhes
por via de herança?

Assim como a sociedade civil, a família, conforme atrás dissemos, é uma sociedade propriamente dita, com
a sua autoridade e o seu governo paterno, é por isso que sempre indubitavelmente na esfera que lhe
determina o seu fim imediato, ela goza, para a escolha e uso de tudo o que exigem a sua conservação e o
exercício duma justa independência, de direitos pelo menos iguais aos da sociedade civil. Pelo menos
iguais, dizemos Nós, porque a sociedade doméstica tem sobre a sociedade civil uma prioridade lógica e
uma prioridade real, de que participam necessariamente os seus direitos e os seus deveres. E se os
indivíduos e as famílias, entrando na sociedade, nela achassem, em vez de apoio, um obstáculo, em vez de
protecção, uma diminuição dos seus direitos, dentro em pouco a sociedade seria mais para se evitar do
que para se procurar.

Querer, pois, que o poder civil invada arbitrariamente o santuário da família, é um erro grave e funesto.
Certamente, se existe algures uma família que se encontre numa situação desesperada, e que faça
esforços vãos para sair dela, é justo que, em tais extremos, o poder público venha em seu auxílio, porque
cada família é um membro da sociedade. Da mesma forma, se existe um lar doméstico que seja teatro de
graves violações dos direitos mútuos, que o poder público intervenha para restituir a cada um os seus
direitos. Não é isto usurpar as atribuições dos cidadãos, mas fortalecer os seus direitos, protegê-los e
defendê-los como convém. Todavia, a acção daqueles que presidem ao governo público não deve ir mais
além; a natureza proíbe-lhes ultrapassar esses limites. A autoridade paterna não pode ser abolida, nem
absorvida pelo Estado, porque ela tem uma origem comum com a vida humana. «Os filhos são alguma
coisa de seu pai»; são de certa forma uma extensão da sua pessoa, e, para falar com justiça, não é
imediatamente por si que eles se agregam e se incorporam na sociedade civil, mas por intermédio da
sociedade doméstica em que nasceram. Porque os «filhos são naturalmente alguma coisa de seu pai...
devem ficar sob a tutela dos pais até que tenham adquirido o livre arbítrio» [4]. Assim, substituindo a
providência paterna pela providência do Estado, os socialistas vão contra a justiça natural e quebram os
laços da família.

O comunismo, princípio de empobrecimento

7. Mas, além da injustiça do seu sistema, vêem-se bem todas as suas funestas consequências, a
perturbação em todas as classes da sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos,
porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a
habilidade privados dos seus estímulos, e, como consequência necessária, as riquezas estancadas na sua
fonte; enfim, em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade na nudez, na indigência e na miséria. Por
tudo o que Nós acabamos de dizer, se compreende que a teoria socialista da propriedade colectiva deve
absolutamente repudiar-se como prejudicial àqueles membros a que se quer socorrer, contrária aos
direitos naturais dos indivíduos, como desnaturando as funções do Estado e perturbando a tranquilidade
pública. Fique, pois, bem assente que o primeiro fundamento a estabelecer por todos aqueles que querem
sinceramente o bem do povo é a inviolabilidade da propriedade particular. Expliquemos agora onde
convém procurar o remédio tão desejado.

A Igreja e a questão social

8. É com toda a confiança que Nós abordamos este assunto, e em toda a plenitude do Nosso direito;
porque a questão de que se trata é de tal natureza, que, se não apelamos para a religião e para a Igreja, é
impossível encontrar-lhe uma solução eficaz. Ora, como é principalmente a Nós que estão confiadas a
salvaguarda da religião e a dispensação do que é do domínio da Igreja, calarmo-nos seria aos olhos de
todos trair o Nosso dever. Certamente uma questão desta gravidade demanda ainda de outros a sua parte
de actividade e de esforços; isto é, dos governantes, dos senhores e dos ricos, e dos próprios operários, de
cuja sorte se trata. Mas, o que Nós afirmamos sem hesitação, é a inanidade da sua acção fora da Igreja. E
a Igreja, efectivamente, que haure no Evangelho doutrinas capazes de pôr termo ao conflito ou ao menos
de o suavizar, expurgando-o de tudo o que ele tenha de severo e áspero; a Igreja, que se não contenta
em esclarecer o espírito de seus ensinos, mas também se esforça em regular, de harmonia com eles a vida
e os costumes de cada um; a Igreja, que, por uma multidão de instituições eminentemente benéficas,
tende a melhorar a sorte das classes pobres; a Igreja, que quer e deseja ardentemente que todas as
classes empreguem em comum as suas luzes e as suas forças para dar à questão operária a melhor
solução possível; a Igreja, enfim, que julga que as leis e a autoridade pública devem levar a esta solução,
sem dúvida com medida e com prudência, a sua parte do consenso.

Não luta, mas concórdia das classes

9. O primeiro princípio a pôr em evidência é que o homem deve aceitar com paciência a sua condição: é
impossível que na sociedade civil todos sejam elevados ao mesmo nível. É, sem dúvida, isto o que desejam
os Socialistas; mas contra a natureza todos os esforços são vãos. Foi ela, realmente, que estabeleceu entre
os homens diferenças tão multíplices como profundas; diferenças de inteligência, de talento, de habilidade,
de saúde, de força; diferenças necessárias, de onde nasce espontaneamente a desigualdade das
condições. Esta desigualdade, por outro lado, reverte em proveito de todos, tanto da sociedade como dos
indivíduos; porque a vida social requer um organismo muito variado e funções muito diversas, e o que leva
precisamente os homens a partilharem estas funções é, principalmente, a diferença das suas respectivas
condições.
Pelo que diz respeito ao trabalho em particular, o homem, mesmo no estado de inocência, não era
destinado a viver na ociosidade, mas, ao que a vontade teria abraçado livremente como exercício
agradável, a necessidade lhe acrescentou, depois do pecado, o sentimento da dor e o impôs como uma
expiação: «A terra será maldita por tua causa; é pelo trabalho que tirarás com que alimentar-te todos os
dias da vida» [5]. O mesmo se dá com todas as outras calamidades que caíram sobre o homem: neste
mundo estas calamidades não terão fim nem tréguas, porque os funestos frutos do pecado são amargos,
acres, acerbos, e acompanham necessariamente o homem até ao derradeiro suspiro. Sim, a dor e o
sofrimento são o apanágio da humanidade, e os homens poderão ensaiar tudo, tudo tentar para os banir;
mas não o conseguirão nunca, por mais recursos que empreguem e por maiores forças que para isso
desenvolvam. Se há quem, atribuindo-se o poder fazê-lo, prometa ao pobre uma vida isenta de
sofrimentos e de trabalhos, toda de repouso e de perpétuos gozos, certamente engana o povo e lhe
prepara laços, onde se ocultam, para o futuro, calamidades mais terríveis que as do presente. O melhor
partido consiste em ver as coisas tais quais são, e, como dissemos, em procurar um remédio que possa
aliviar os nossos males.

O erro capital na questão presente é crer que as duas classes são inimigas natas uma da outra, como se a
natureza tivesse armado os ricos e os pobres para se combaterem mutuamente num duelo obstinado. Isto
é uma aberração tal, que é necessário colocar a verdade numa doutrina contrariamente oposta, porque,
assim como no corpo humano os membros, apesar da sua diversidade, se adaptam maravilhosamente uns
aos outros, de modo que formam um todo exactamente proporcionado e que se poderá chamar simétrico,
assim também, na sociedade, as duas classes estão destinadas pela natureza a unirem-se
harmoniosamente e a conservarem-se mutuamente em perfeito equilíbrio. Elas têm imperiosa necessidade
uma da outra: não pode haver capital sem trabalho, nem trabalho sem capital.

A concórdia traz consigo a ordem e a beleza; ao contrário, dum conflito perpétuo só podem resultar
confusão e lutas selvagens. Ora, para dirimir este conflito e cortar o mal na sua raiz, as Instituições
possuem uma virtude admirável e múltipla.

E, primeiramente, toda a economia das verdades religiosas, de que a Igreja é guarda e intérprete, é de
natureza a aproximar e reconciliar os ricos e os pobres, lembrando às duas classes os seus deveres mútuos
e, primeiro que todos os outros, os que derivam da justiça.

Obrigações dos operários e dos patrões

10. Entre estes deveres, eis os que dizem respeito ao pobre e ao operário: deve fornecer integral e
fielmente todo o trabalho a que se comprometeu por contrato livre e conforme à equidade; não deve lesar
o seu patrão, nem nos seus bens, nem na sua pessoa; as suas reivindicações devem ser isentas de
violências e nunca revestirem a forma de sedições; deve fugir dos homens perversos que, nos seus
discursos artificiosos, lhe sugerem esperanças exageradas e lhe fazem grandes promessas, as quais só
conduzem a estéreis pesares e à ruína das fortunas.

Quanto aos ricos e aos patrões, não devem tratar o operário como escravo, mas respeitar nele a dignidade
do homem, realçada ainda pela do Cristão. O trabalho do corpo, pelo testemunho comum da razão e da
filosofia cristã, longe de ser um objecto de vergonha, honra o homem, porque lhe fornece um nobre meio
de sustentar a sua vida. O que é vergonhoso e desumano é usar dos homens como de vis instrumentos de
lucro, e não os estimar senão na proporção do vigor dos seus braços. O cristianismo, além disso, prescreve
que se tenham em consideração os interesses espirituais do operário e o bem da sua alma. Aos patrões
compete velar para que a isto seja dada plena satisfação, para que o operário não seja entregue à sedução
e às solicitações corruptoras, que nada venha enfraquecer o espírito de família nem os hábitos de
economia. Proíbe também aos patrões que imponham aos seus subordinados um trabalho superior às suas
forças ou em desarmonia com a sua idade ou o seu sexo.

Mas, entre os deveres principais do patrão, é necessário colocar, em primeiro lugar, o de dar a cada um o
salário que convém. Certamente, para fixar a justa medida do salário, há numerosos pontos de vista a
considerar. Duma maneira geral, recordem-se o rico e o patrão de que explorar a pobreza e a miséria e
especular com a indigência, são coisas igualmente reprovadas pelas leis divinas e humanas; que cometeria
um crime de clamar vingança ao céu quem defraudasse a qualquer no preço dos seus labores: «Eis que o
salário, que tendes extorquido por fraude aos vossos operários, clama contra vós: e o seu clamor subiu até
aos ouvidos do Deus dos Exércitos»[6]. Enfim, os ricos devem precaver-se religiosamente de todo o acto
violento, toda a fraude, toda a manobra usurária que seja de natureza a atentar contra a economia do
pobre, e isto mais ainda, porque este é menos apto para defender-se, e porque os seus haveres, por
serem de mínima importância, revestem um carácter mais sagrado. A obediência a estas leis — pergunta-
mos Nós — não bastaria, só de per si, para fazer cessar todo o antagonismo e suprimir-lhe as causas?

11. Todavia a Igreja, instruída e dirigida por Jesus Cristo, eleva o seu olhar ainda para mais alto; propõe
um conjunto de preceitos mais completo, porque ambiciona estreitar a união das duas classes até as unir
uma à outra por laços de verdadeira amizade. Ninguém pode ter uma verdadeira compreensão da vida
mortal, nem estimá-la no seu devido valor, se não se eleva à consideração da outra vida que é imortal.
Suprimi esta, e imediatamente toda a forma e toda a verdadeira noção de honestidade desaparecerá; mais
ainda: todo o universo se tornará um impenetrável mistério.

Quando tivermos abandonado esta vida, só então começaremos a viver: esta verdade, que a mesma
natureza nos ensina, é um dogma cristão sobre o qual assenta, como sobre o seu primeiro fundamento,
toda a economia da religião.

Não, Deus não nos fez para estas coisas frágeis e caducas, mas para as coisas celestes e eternas; não nos
deu esta terra como nossa morada fixa, mas como lugar de exílio. Que abundeis em riquezas ou outros
bens, chamados bens de fortuna, ou que estejais privados deles, isto nada importa à eterna beatitude: o
uso que fizerdes deles é o que interessa.

Pela Sua superabundante redenção, Jesus Cristo não suprimiu as aflições que formam quase toda a trama
da vida mortal; fez delas estímulos de virtude e fontes de mérito, de sorte que não há homem que possa
pretender as recompensas eternas, se não caminhar sobre os traços sanguinolentos de Jesus Cristo: «Se
sofremos com Ele, com Ele reinaremos»[7]. Por outra parte, escolhendo Ele mesmo a cruz e os tormentos,
minorou-lhes singularmente o peso e a amargura, e, a fim de nos tornar ainda mais suportável o
sofrimento, ao exemplo acrescentou a Sua graça e a promessa duma recompensa sem fim: «Porque o
momento tão curto e tão ligeiro das aflições, que sofremos nesta vida, produz em nós o peso eterno duma
glória soberana incomparável» [8].

Assim, os afortunados deste mundo são advertidos de que as riquezas não os isentam da dor; que elas não
são de nenhuma utilidade para a vida eterna, mas antes um obstáculo[9]; que eles devem tremer diante
das ameaças severas que Jesus Cristo profere contra os ricos [10]; que, enfim, virá um dia em que
deverão prestar a Deus, seu juiz, rigorosíssimas contas do uso que hajam feito da sua fortuna.

Posse e uso das riquezas

12. Sobre o uso das riquezas, já a pura filosofia pôde delinear alguns ensinamentos de suma excelência e
extrema importância; mas só a Igreja no-los pode dar na sua perfeição, e fazê-los descer do conhecimento
à prática. O fundamento dessa doutrina está na distinção entre a justa posse das riquezas e o seu legítimo
uso.

A propriedade particular, já o dissemos mais acima, é de direito natural para o homem: o exercício deste
direito é coisa não só permitida, sobretudo a quem vive em sociedade, mas ainda absolutamente
necessária[11]. Agora, se se pergunta em que é necessário fazer consistir o uso dos bens, a Igreja
responderá sem hesitação: «A esse respeito o homem não deve ter as coisas exteriores por particulares,
mas sim por comuns, de tal sorte que facilmente dê parte delas aos outros nas suas necessidades. É por
isso que o Apóstolo disse: «Ordena aos ricos do século... dar facilmente, comunicar as suas riquezas» [12].

Ninguém certamente é obrigado a aliviar o próximo privando-se do seu necessário ou do de sua família;
nem mesmo a nada suprimir do que as conveniências ou decência Impõem à sua pessoa: «Ninguém com
efeito deve viver contrariamente às conveniências»[13]. Mas, desde que haja suficientemente satisfeito à
necessidade e ao decoro, é um dever lançar o supérfluo no seio dos pobres: «Do supérfluo dai
esmolas» [14]. É um dever, não de estrita justiça, excepto nos casos de extrema necessidade, mas de
caridade cristã, um dever, por consequência, cujo cumprimento se não pode conseguir pelas vias da justiça
humana. Mas, acima dos juízos do homem e das leis, há a lei e o juízo de Jesus Cristo, nosso Deus, que
nos persuade de todas as maneiras a dar habitualmente esmola: «É mais feliz», diz Ele, «aquele que dá do
que aquele que recebe» [15], e o Senhor terá como dada ou recusada a Si mesmo a esmola que se haja
dado ou recusado aos pobres: «Todas as vezes que tenhais dado esmola, a um de Meus irmãos, é a Mim
que a haveis dado» [16]. Eis, aliás, em algumas palavras, o resumo desta doutrina: Quem quer que tenha
recebido da divina Bondade maior abundância, quer de bens externos e do corpo, quer de bens da alma,
recebeu-os com o fim de os fazer servir ao seu próprio aperfeiçoamento, e, ao mesmo tempo, como
ministro da Providência, ao alívio dos outros. «E por isso, que quem tiver o talento da palavra tome
cuidado em se não calar; quem possuir superabundância de bens, não deixe a misericórdia entumecer-se
no fundo do seu coração; quem tiver a arte de governar, aplique-se com cuidado a partilhar com seu irmão
o seu exercício e os seus frutos» [17].

Dignidade do trabalho

13. Quanto aos deserdados da fortuna, aprendam da Igreja que, segundo o juízo do próprio Deus, a
pobreza não é um opróbrio e que não se deve corar por ter de ganhar o pão com o suor do seu rosto. É o
que Jesus Cristo Nosso Senhor confirmou com o Seu exemplo. Ele, que «de muito rico que era, Se fez
indigente» [18] para a salvação dos homens; que, Filho de Deus e Deus Ele mesmo, quis passar aos olhos
do mundo por filho dum artesão; que chegou até a consumir uma grande parte da Sua vida em trabalho
mercenário: «Não é Ele o carpinteiro, o Filho de Maria?» [19]. Quem tiver na sua frente o modelo divino,
compreenderá mais facilmente o que Nós vamos dizer: que a verdadeira dignidade do homem e a sua
excelência reside nos seus costumes, isto é, na sua virtude; que a virtude é o património comum dos
mortais, ao alcance de todos, dos pequenos e dos grandes, dos pobres e dos ricos; só a virtude e os
méritos, seja qual for a pessoa em quem se encontrem, obterão a recompensa da eterna felicidade. Mais
ainda: é para as classes desafortunadas que o coração de Deus parece inclinar-se mais. Jesus Cristo chama
aos pobres bem-aventurados [20]: convida com amor a virem a Ele, a fim de consolar a todos os que
sofrem e que choram [21]; abraça com caridade mais terna os pequenos e os oprimidos. Estas doutrinas
foram, sem dúvida alguma, feitas para humilhar a alma altiva do rico e torná-lo mais condescendente, para
reanimar a coragem daqueles que sofrem e inspirar-lhes resignação. Com elas se acharia diminuído um
abismo causado pelo orgulho, e se obteria sem dificuldade que as duas classes se dessem as mãos e as
vontades se unissem na mesma amizade.

Comunhão de bens de natureza e de graça

14. Mas é ainda demasiado pouco a simples amizade: se se obedecer aos preceitos do cristianismo, será
no amor fraterno que a união se operará. Duma parte e doutra se saberá e compreenderá que os homens
são todos absolutamente nascidos de Deus, seu Pai comum; que Deus é o seu único e comum fim, que só
Ele é capaz de comunicar aos anjos e aos homens uma felicidade perfeita e absoluta; que todos eles foram
igualmente resgatados por Jesus Cristo e restabelecidos por Ele na sua dignidade de filhos de Deus, e que
assim um verdadeiro laço de fraternidade os une,-quer entre si, quer a Cristo, seu Senhor, que é «o
primogénito de muitos irmãos»[22]. Eles saberão, enfim, que todos os bens da natureza, todos os tesouros
da graça, pertencem em comum e indistintamente a todo o género humano e que só os indignos é que são
deserdados dos bens celestes: «Se vós sois filhos, sois também herdeiros, herdeiros de Deus, co-herdeiros
de Jesus Cristo» [23] .

Tal é a economia dos direitos e dos deveres que ensina a filosofia cristã. Não se veria em breve prazo
estabelecer-se a pacificação, se estes ensinamentos pudessem vir a prevalecer nas sociedades?

Exemplo e magistério da Igreja

15. Entretanto, a Igreja não se contenta com indicar o caminho que leva à salvação; ela conduz a esta e
com a sua própria mão aplica ao mal o conveniente remédio. Ela dedica-se toda a instruir e a educar os
homens segundo os seus princípios e a sua doutrina, cujas águas vivificantes ela tem o cuidado de
espalhar, tão longe e tão largamente quanto lhe é possível, pelo ministério dos Bispos e do Clero. Depois,
esforça-se por penetrar nas almas e por obter das vontades que se deixem conduzir e governar pela regra
dos preceitos divinos. Este ponto é capital e de grandíssima importância, porque encerra como que o
resumo de todos os interesses .que estão em litígio, e aqui a acção da Igreja é soberana. Os instrumentos
de que ela dispõe para tocar as almas, recebeu-os, para este fim, de Jesus Cristo, e trazem em si a eficácia
duma virtude divina. São os únicos aptos para penetrar até às profundezas do coração humano, que são
capazes de levar o homem a obedecer às imposições do dever, a dominar as suas paixões, a amar a Deus
e ao seu próximo com uma caridade sem limites, a ultrapassar corajosamente todos os obstáculos que
dificultam o seu caminho na estrada da virtude.

Neste ponto, basta passar ligeiramente em revista pelo pensamento os exemplos da antiguidade. As coisas
e factos que vamos lembrar estão isentos de controvérsia. Assim, não é duvidoso que a sociedade civil foi
essencialmente renovada pelas instituições cristãs, que esta renovação teve por efeito elevar o nível do
género humano, ou, para melhor dizer, chamá-lo da morte à vida, e guindá-lo a um alto grau de perfeição,
como se não viu semelhante nem antes nem depois, e não se verá jamais em todo o decurso dos séculos.
Que, enfim, destes benefícios foi Jesus Cristo o princípio e deve ser o seu fim: porque, assim como tudo
partiu d'Ele, assim também tudo Lhe deve ser referido. Quando, pois, o Evangelho raiou no mundo,
quando os povos tiveram conhecimento do grande mistério da encarnação do Verbo e da redenção dos
homens, a vida de Jesus Cristo, Deus e homem, invadiu as sociedades e impregnou-as inteiramente com a
Sua fé, com as Suas máximas e com as Suas leis. E por isso que, se a sociedade humana deve ser curada,
não o será senão pelo regresso à vida e às instituições do cristianismo.

A quem quer regenerar uma sociedade qualquer em decadência, se prescreve com razão que a reconduza
às suas origens [24]. Porque a perfeição de toda a sociedade consiste em prosseguir e atingir o fim para o
qual foi fundada, de modo que todos os movimentos e todos os actos da vida social nasçam do mesmo
princípio de onde nasceu a sociedade. Por isso, afastar-se do fim é caminhar para a morte, e voltar a ele é
readquirir a vida. E o que Nós-dizemos de todo o corpo social aplica-se igualmente a essa classe de
cidadãos que vivem do seu trabalho e que formam a grandíssima maioria.

Nem se pense que a Igreja se deixa absorver de tal modo pelo cuidado das almas, que põe de parte o que
se relaciona com a vida terrestre e mortal. Pelo que em particular diz respeito à classe dos trabalhadores,
ela faz todos os esforços para os arrancar à miséria e procurar-lhes uma sorte melhor. E, certamente, não
é um fraco apoio que ela dá a esta obra só pelo facto de trabalhar, por palavras e actos, para reconduzir
os homens à virtude.

Os costumes cristãos, desde que entram em acção, exercem naturalmente sobre a prosperidade temporal
a sua parte de benéfica influência; porque eles atraem o favor de Deus, princípio e fonte de todo o bem;
reduzem o desejo excessivo das riquezas e a sede dos prazeres, esses dois flagelos que frequentes vezes
lançam a amargura e o desgosto no próprio seio da opulência [25]; contentam-se enfim com uma vida e
alimentação frugal, e suprem pela economia a modicidade do rendimento, longe desses vícios que
consomem não só as pequenas, mas as grandes fortunas, e dissipam os maiores patrimónios.

A Igreja e a caridade durante os séculos

16. A Igreja, além disso, provê também directamente à felicidade das classes deserdadas, pela fundação e
sustentação de instituições que ela julga próprias para aliviar a sua miséria; e, mesmo neste género de
benefícios, ela tem sobressaído de tal modo, que os seus próprios inimigos lhe fizeram o seu elogio. Assim,
entre os primeiros cristãos, era tal a virtude da caridade mútua, que não raro se viam os mais ricos
despojarem-se do seu património em favor dos pobres. Por isso, a indigência não era conhecida entre
eles [26]; os Apóstolos tinham confiado aos Diáconos, cuja ordem fora especialmente instituída para esse
fim, a distribuição quotidiana das esmolas, e o próprio S. Paulo, apesar de absorvido por uma solicitude
que abraçava todas as Igrejas, não hesitava em empreender penosas viagens para ir em pessoa levar
socorros aos cristãos indigentes. Socorros do mesmo género eram espontaneamente oferecidos pelos fiéis
em cada uma das suas assembleias: o que Tertuliano chama os «depósitos da piedade», porque eram
empregados «em sustentar e sepultar as pessoas indigentes, os órfãos pobres de ambos os sexos, os
domésticos velhos, as vítimas de naufrágio» [27].

Eis como pouco a pouco se formou esse património, que a Igreja sempre guardou com religioso cuidado
como um bem próprio da família dos pobres. Ela chegou até a assegurar socorros aos infelizes, poupando-
lhes a humilhação de estender a mão; porque esta mãe comum dos ricos e dos pobres, aproveitando
maravilhosamente rasgos de caridade que ela havia provocado por toda a parte, fundou sociedades
religiosas e uma multidão doutras instituições úteis que, pouco tempo depois, não deviam deixar sem alívio
nenhum género de miséria.

Há hoje, sem dúvida, um certo número de homens que, fiéis ecos dos pagãos de outrora, chegam a fazer,
mesmo dessa caridade tão maravilhosa, uma arma para atacar a Igreja; e viu-se uma beneficência
estabelecida pelas leis civis substituir-se à caridade cristã; mas esta caridade, que se dedica toda e sem
pensamento reservado à utilidade do próximo, não pode ser suprida por nenhuma invenção humana. Só a
Igreja possui essa virtude, porque não se pode haurir senão no Sagrado Coração de Jesus Cristo, e é errar
longe de Jesus Cristo estar afastado da Sua Igreja.

O concurso do Estado

17. Todavia não há dúvida de que, para obter o resultado desejado, não é de mais recorrer aos meios
humanos. Assim, todos aqueles a quem a questão diz respeito, devem visar ao mesmo fim e trabalhar de
harmonia cada um na sua esfera. Nisto há como que uma imagem da Providência governando o mundo:
porque nós vemos de ordinário que os factos e os acontecimentos que dependem de causas diversas são a
resultante da sua acção comum.

Ora, que parte de acção e de remédio temos nós o direito de esperar do Estado? Diremos, primeiro, que
por Estado entendemos aqui, não tal governo estabelecido entre tal povo em particular, mas todo o
governo que corresponde aos preceitos da razão natural e dos ensinamentos divinos, ensinamentos que
Nós todos expusemos, especialmente na Nossa Carta Encíclica sobre a constituição cristã das
sociedades [28].

Origem da prosperidade nacional

18. O que se pede aos governantes é um curso de ordem geral, que consiste em toda a economia das leis
e das instituições; queremos dizer que devem fazer de modo que da mesma organização e do governo da
sociedade brote espontaneamente e sem esforço a prosperidade, tanto pública como particular. Tal é, com
efeito, o ofício da prudência civil e o dever próprio de todos aqueles que governam. Ora o que torna uma
nação próspera, são os costumes puros, as famílias fundadas sobre bases de ordem e de moralidade, a
prática e o respeito da justiça, uma imposição moderada e uma repartição equitativa dos encargos
públicos, o progresso da indústria e, do comércio, uma agricultura florescente e outros elementos, se os
há, do mesmo género: todas as coisas que se não podem aperfeiçoar, sem fazer subir outro tanto a vida e
a felicidade dos cidadãos. Assim como, pois, por todos estes meios, o Estado pode tornar-se útil às outras
classes, assim também pode melhorar muitíssimo a sorte da classe operária, e isto em todo o rigor do seu
direito, e sem ter a temer a censura de ingerência; porque, em virtude mesmo do seu ofício, o Estado deve
servir o interesse comum. E é evidente que, quanto mais se multiplicarem as vantagens resultantes desta
acção de ordem geral, tanto menos necessidade haverá de recorrer a outros expedientes para remediar a
condição dos trabalhadores.

Mas há outra consideração que atinge mais profundamente ainda o nosso assunto. A razão formal de toda
a sociedade é só uma e é comum a todos os seus membros, grandes e pequenos. Os pobres, com o
mesmo título que os ricos, são, por direito natural, cidadãos; isto é, pertencem ao número das partes vivas
de que se compõe, por intermédio das famílias, o corpo inteiro da Nação, para não dizer que em todas as
cidades são o grande número.

Como, pois, seria desrazoável prover a uma classe de cidadãos e negligenciar outra, torna-se evidente que
a autoridade pública deve também tomar as medidas necessárias para salvaguardar a salvação e os
interesses da classe operária. Se ela faltar a isto, viola a estrita justiça que quer que a cada um seja dado o
que lhe é devido. A esse respeito S. Tomás diz muito sabiamente: «Assim como a parte e o todo são em
certo modo uma mesma coisa, assim o que pertence ao to-do pertence de alguma sorte a cada
parte» [29]. E por isso que, entre os graves e numerosos deveres dos governantes que querem prover,
como convém, ao público, o principal dever, que domina lodos os outros, consiste em cuidar igualmente de
todas as classes de cidadãos, observando rigorosamente as leis da justiça, chamada distributiva.
Mas, ainda que todos os cidadãos, sem excepção, devam contribuir para a massa dos bens comuns, os
quais, aliás, por um giro natural, se repartem de novo entre os indivíduos, todavia as constituições
respectivas não podem ser nem as mesmas, nem de igual medida. Quaisquer que sejam as vicissitudes
pelas quais as formas do governo são chamadas a passar, haverá sempre entre os cidadãos essas
desigualdades de condições, sem as quais uma sociedade não pode existir nem conceber-se. Sem dúvida
são necessários homens que governem, que façam leis, que administrem justiça, que, enfim, por seus
conselhos ou por via da autoridade, administrem os negócios da paz e as coisas da guerra. Que estes
homens devem ter a proeminência em toda a sociedade e ocupar nela o primeiro lugar, ninguém o pode
duvidar, pois eles trabalham directamente para o bem comum e duma maneira tão excelente.

Os homens que, pelo contrário, se aplicam às coisas da indústria, não podem concorrer para este bem
comum nem na mesma medida, nem pelas mesmas vias; mas, entretanto, também eles, ainda que de
maneira menos directa, servem muitíssimo os interesses da sociedade. Sem dúvida alguma, o bem comum,
cuja aquisição deve ter por efeito aperfeiçoar os homens, é principalmente um bem moral.
Mas numa sociedade regularmente constituída deve encontrar-se ainda uma certa abundância de bens
exteriores «cujo uso é reclamado para exercício da virtude»[30]. Ora, a fonte fecunda e necessária de
todos estes bens é principalmente o trabalho do operário, o trabalho dos campos ou da oficina. Mais ainda:
nesta ordem de coisas, o trabalho tem uma tal fecundidade e tal eficácia, que se pode afirmar, sem receio
de engano, que ele é a fonte única de onde procede a riqueza das nações. A equidade manda, pois, que o
Estado se preocupe com os trabalhadores, e proceda de modo que, de todos os bens que eles
proporcionam à sociedade, lhes seja dada uma parte razoável, como habitação e vestuário, e que possam
viver à custa de menos trabalho e privações [31]. De onde resulta que o Estado deve favorecer tudo o que,
de perto ou de longe, pareça de natureza a melhorar-lhes a sorte. Esta solicitude, longe de prejudicar
alguém, tornar-se-á, ao contrário, em proveito de todos, porque importa soberanamente à nação que
homens, que são para ela o princípio de bens tão indispensáveis, não se encontrem continuamente a
braços com os horrores da miséria.

O Governo é para os governados e não vice-versa

19. Dissemos que não é justo que o indivíduo ou a família sejam absorvidos pelo Estado, mas é justo, pelo
contrário, que aquele e esta tenham a faculdade de proceder com liberdade, contando que não atentem
contra o bem geral, e não prejudiquem ninguém. Entretanto, aos governantes pertence proteger a
comunidade e as suas partes: a comunidade, porque a natureza confiou a sua conservação ao poder
soberano, de modo que a salvação pública não é somente aqui a lei suprema, mas é a própria a causa e a
razão de ser do principado; as partes, porque, de direito natural, o governo não deve visar só os interesses
daqueles que têm o poder nas mãos, mas ainda o bem dos que lhe estão submetidos. Tal é o ensino da
filosofia, não menos que da fé cristã. Por outra parte, a autoridade vem de Deus e é uma participação da
Sua autoridade suprema; desde então, aqueles que são os depositários dela devem exercê-la à imitação de
Deus, cuja paternal solicitude se não estende menos a cada uma das criaturas em particular do que a todo
o seu conjunto. Se, pois, os interesses gerais, ou o interesse duma classe em particular, se encontram ou
lesa-dós ou simplesmente ameaçados, e se não for possível remediar ou obviar a isso doutro modo, é de
toda a necessidade recorrer à autoridade pública.

Obrigações e limites da intervenção do Estado

20. Ora, importa à salvação comum e particular que a ordem e a paz reinem por toda a parte; que toda a
economia da vida doméstica seja regulada segundo os mandamentos de Deus e os princípios da lei
natural; que a religião seja honrada e observada; que se vejam florescer os costumes públicos e
particulares; que a justiça seja religiosamente graduada, e que nunca uma classe possa oprimir
impunemente a outra; que cresçam robustas gerações, capazes de ser o sustentáculo, e, se necessário for,
o baluarte da Pátria. É por isso que os operários, abandonando o trabalho ou suspendendo-o por greves,
ameaçam a tranquilidade pública; que os laços naturais da família afrouxam entre os trabalhadores; que se
calca aos pés a religião dos operários, não lhes facilitando o cumprimento dos seus deveres para com
Deus; que a promiscuidade dos sexos e outras excitações ao vício constituem nas oficinas um perigo para
a moralidade; que os patrões esmagam os trabalhadores sob o peso de exigências iníquas, ou desonram
neles a pessoa humana por condições indignas e degradantes; que atentam contra a sua saúde por um
trabalho excessivo e desproporcionado com a sua idade e sexo: em todos estes casos é absolutamente
necessário aplicar em certos limites a força e autoridade das leis. Esses limites serão determinados pelo
mesmo fim que reclama o socorro das leis, isto é, que eles não devem avançar nem empreender nada
além do que for necessário para reprimir os abusos e afastar os perigos.
Os direitos, em que eles se encontram, devem ser religiosamente respeitados e o Estado deve assegurá-los
a todos os cidadãos, prevenindo ou vingando a sua violação. Todavia, na protecção dos direitos
particulares, deve preocupar-se, de maneira especial, dos fracos e dos indigentes. A classe rica faz das
suas riquezas uma espécie de baluarte e tem menos necessidade da tutela pública. A classe indigente, ao
contrário, sem riquezas que a ponham a coberto das injustiças, conta principalmente com a protecção do
Estado. Que o Estado se faça, pois, sob um particularíssimo título, a providência dos trabalhadores, que em
geral pertencem à classe pobre [32].

O Estado deve proteger a propriedade particular

21. Mas, é conveniente descer expressamente a algumas particularidades. É um dever principalíssimo dos
governos o assegurar a propriedade particular por meio de leis sábias. Hoje especialmente, no meio de
tamanho ardor de cobiças desenfreadas, é preciso que o povo se conserve no seu dever; porque, se a
justiça lhe concede o direito de empregar os meios de melhorar a sua sorte, nem a justiça nem o bem
público consentem que danifiquem alguém na sua fazenda nem que se invadam os direitos alheios sob
pretexto de não que igualdade. Por certo que a maior parte dos operários quereriam melhorar de condição
por meios honestos sem prejudicar a ninguém; todavia, não poucos há que, embebidos de máximas falsas
e desejosos de novidade, procuram a todo o custo excitar e impelir os outros a violências. Intervenha
portanto a autoridade do Estado, e, reprimindo os agitadores, preserve os bons operários do perigo da
sedução e os legítimos patrões de serem despojados do que é seu.

Impedir as greves

22. O trabalho muito prolongado e pesado e uma retribuição mesquinha dão, não poucas vezes, aos
operários ocasião de greves. E preciso que o Estado ponha cobro a esta desordem grave e frequente,
porque estas greves causam dano não só aos patrões e aos mesmos operários, mas também ao comércio
e aos interesses comuns; e em razão das violências e tumultos, a que de ordinário dão ocasião, põem
muitas vezes em risco a tranquilidade pública. O remédio, portanto, nesta parte, mais eficaz e salutar é
prevenir o mal com a autoridade das leis, e impedir a explosão, removendo a tempo as causas de que se
prevê que hão--de nascer os conflitos entre os operários e os patrões.

Proteger os bens da alma

23. Muitas outras coisas deve igualmente o Estado proteger ao operário, e em primeiro lugar os bens da
alma. A vida temporal, posto que boa e desejável, não é o fim para que fomos criados; mas é a via e o
meio para aperfeiçoar, com o conhecimento da verdade e com a prática do bem, a vida do espírito. O
espírito é o que tem em si impressa a semelhança divina, e no qual reside aquele principado em virtude do
qual foi dado ao homem o direito de dominar as criaturas inferiores e de fazer servir à sua utilidade toda a
terra e todo o mar: «Enchei a terra e tornai-vo-la sujeita, dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves
do céu e sobre todos os animais que se movem sobre a terra»[33]. Nisto todos os homens são iguais, e
não há diferença alguma entre ricos e pobres, patrões e criados, monarcas e súbditos, «porque é o mesmo
o Senhor de todos»[34]. A ninguém é lícito violar impunemente a dignidade do homem, do qual Deus
mesmo dispõe, com grande reverência, nem pôr-lhe impedimentos, para que ele siga o caminho daquele
aperfeiçoamento que é ordenado para o conseguimento da vida interna; pois, nem mesmo por eleição
livre, o homem pode renunciar a ser tratado segundo a sua natureza e aceitar a escravidão do espírito;
porque não se trata de direitos cujo exercício seja livre, mas de deveres para com Deus que são
absolutamente invioláveis.

24. Daqui vem, como consequência, a necessidade do repouso festivo. Isto, porém, não quer dizer que se
deve estar em ócio por mais largo espaço de tempo, e muito menos significa uma inacção total, como
muitos desejam, e que é a fonte de vícios e ocasião de dissipação; mas um repouso consagrado à religião.
Unido à religião, o repouso tira o homem dos trabalhos e das ocupações da vida ordinária para o chamar
ao pensamento dos bens celestes e ao culto devido à Majestade divina. Eis aqui a principal natureza e fim
do repouso festivo que Deus, com lei especial, prescreveu ao homem no Antigo Testamento, dizendo-lhe:
«Recorda-te de santificar o sábado» [35]; e que ensinou com o Seu exemplo, quando no sétimo dia, de-
pois de criado o homem, repousou: «Repousou no sétimo dia .de todas as Suas obras que tinha
feito» [36].
Protecção do trabalho dos operários, das mulheres e das crianças

25. No que diz respeito aos bens naturais e exteriores, primeiro que tudo é um dever da autoridade pública
subtrair o pobre operário à desumanidade de ávidos especuladores, que abusam, sem nenhuma descrição,
tanto das pessoas como das coisas. Não é justo nem humano exigir do homem tanto trabalho a ponto de
fazer pelo excesso da fadiga embrutecer o espírito e enfraquecer o corpo.
A actividade do homem, restrita como a sua natureza, tem limites que se não podem ultrapassar. O
exercício e o uso aperfeiçoam-na, mas é preciso que de quando em quando se suspenda para dar lugar ao
repouso. Não deve, portanto, o trabalho prolongar-se por mais tempo do que as forças permitem. Assim, o
número de horas de trabalho diário não deve exceder a força dos trabalhadores, e a quantidade de
repouso deve ser proporcionada à qualidade do trabalho, às circunstâncias do tempo e do lugar, à
compleição e saúde dos operários. O trabalho, por exemplo, de extrair pedra, ferro, chumbo e outros
materiais escondidos debaixo da terra, sendo mais pesa-do e nocivo à saúde, deve ser compensado com
uma duração mais curta. Deve-se também atender às estações, porque não poucas vezes um trabalho que
facilmente se suportaria numa estação, noutra é de facto insuportável ou somente se vence com
dificuldade.

26. Enfim, o que um homem válido e na força da idade pode fazer, não será equitativo exigi-lo duma
mulher ou duma criança. Especialmente a infância — e isto deve ser estritamente observado — não deve
entrar na oficina senão quando a sua idade tenha suficientemente desenvolvido nela as forças físicas,
intelectuais e morais: de contrário, como uma planta ainda tenra, ver-se-á murchar com um trabalho
demasiado precoce, e dar-se-á cabo da sua educação. Trabalhos há também quê se não adaptam tanto à
mulher, a qual a natureza destina de preferência aos arranjos domésticos, que, por outro lado,
salvaguardam admiravelmente a honestidade do sexo, e correspondem melhor, pela sua natureza, ao que
pede a boa educação dos filhos e a prosperidade da família. Em geral, a duração do descanso deve medir-
se pelo dispêndio das forças que ele deve restituir. O direito ao descanso de cada dia assim como à
cessação do trabalho no dia do Senhor, deve ser a condição expressa ou tácita de todo o contrato feito
entre patrões e operários. Onde esta condição não entrar, o contrato não será justo, pois ninguém pode
exigir ou prometer a violação dos deveres do homem para com Deus e para consigo mesmo.

O quantitativo do salário dos operários

27. Passemos agora a outro ponto da questão e de não menor importância, que, para evitar os extremos,
demanda uma definição precisa. Referimo-nos à fixação do salário. Uma vez livremente aceite o salário por
uma e outra parte, assim se raciocina, o patrão cumpre todos os seus compromissos desde que o pague e
não é obrigado a mais nada. Em tal hipótese, a justiça só seria lesada, se ele se recusasse a saldar a dívida
ou o operário a concluir todo o seu trabalho, e a satisfazer as suas condições; e neste último caso, com
exclusão de qualquer outro, é que o poder público teria que intervir para fazer valer o direito de qual quer
deles.

Semelhante raciocínio não encontrará um juiz equitativo que consinta em o abraçar sem reserva, pois não
abrange todos os lados da questão e omite um deveras importante. Trabalhar é exercer a actividade com o
fim de procurar o que requerem as diversas necessidades do homem, mas principalmente a sustentação da
própria vida. «Comerás o teu pão com o suor do teu rosto» [37]. Eis a razão por que o trabalho recebeu da
natureza como que um duplo cunho: é pessoal, porque a força activa é inerente à pessoa, e porque a
propriedade daquele que a exerce e a recebeu para sua utilidade; e é necessário, porque o homem precisa
da sua existência, e porque a deve conservar para obedecer às ordens incontestáveis da natureza. Ora, se
não se encarar o trabalho senão pelo seu lado pessoal , não há dúvida de que o operário pode a seu bel-
prazer restringir a taxa do salário. A mesma vontade que dá o trabalho pode contentar-se com uma
pequena remuneração ou mesmo não exigir nenhuma. Mas já é outra coisa, se ao carácter de
personalidade se juntar o de necessidade, que o pensamento pode abstrair, mas que na realidade não se
pode separar. Efectivamente, conservar a existência é um dever imposto a todos os homens e ao qual se
não podem subtrair sem crime. Deste dever nasce necessariamente o direito de procurar as coisas
necessárias à subsistência, e que o pobre as não procure senão mediante o salário do seu trabalho.
Façam, pois, o patrão e o operário todas as convenções que lhes aprouver, cheguem, inclusivamente, a
acordar na cifra do salário: acima da sua livre vontade está uma lei de justiça natural, mais elevada e mais
antiga, a saber, que o salário não deve ser insuficiente para assegurar a subsistência do operário sóbrio e
honrado. Mas se, constrangido pela necessidade ou forçado pelo receio dum mal maior, aceita condições
duras que por outro lado lhe não seria permitido recusar, porque lhe são impostas pelo patrão ou por
quem faz oferta do trabalho, então é isto sofrer uma violência contra a qual a justiça protesta.

Mas, sendo de temer que nestes casos e em outros análogos, como no que diz respeito às horas diárias de
trabalho e à saúde dos operários, a intervenção dos poderes públicos seja importuna, sobretudo por causa
da variedade das circunstâncias, dos témpos e dos lugares, será preferível que a solução seja confiada às
corporações ou sindicatos de que falaremos, mais adiante, ou que se recorra a outros meios de defender
os interesses dos operários, mesmo com o auxílio e apoio do Estado, se a questão o reclamar [38].

A economia como meio de conciliação das classes

28. O operário que receber um salário suficiente para ocorrer com desafogo às suas necessidades e às da
sua família, se for prudente, seguirá o conselho que parece dar-lhe a própria natureza: aplicar-se-á a ser
parcimonioso e agirá de forma que, com. prudentes economias, vá juntando um pequeno pecúlio, que lhe
permita chegar um dia a adquirir um modesto património. Já vimos que a presente questão não podia
receber solução verdadeiramente eficaz, se se não começasse por estabelecer como princípio fundamental
a inviolabilidade da propriedade particular. Importa, pois, que as leis favoreçam o espírito de propriedade,
o reanimem e desenvolvam, tanto quanto possível, entre as massas populares.

Uma vez obtido, este resultado seria a fonte dos mais preciosos benefícios, e em primeiro lugar duma
repartição dos bens certamente mais equitativa. A violência das revoluções políticas dividiu o corpo social
em duas classes e cavou entre elas um imenso abismo. Dum lado, a omnipotência na opulência: uma
facção que, senhora absoluta da indústria e do comércio, desvia o curso das riquezas e faz correr para o
seu lado todos os mananciais; facção que aliás tem na sua mão mais dum motor da administração pública.
Do outro, a fraqueza na indigência: uma multidão com a alma dilacerada, sempre pronta para a desordem.
Ah, estimule-se a industriosa actividade do povo com a perspectiva da sua participação na prosperidade do
solo, e ver-se-á nivelar pouco a pouco o abismo que separa a opulência da miséria, o operar-se a
aproximação das duas classes. Demais, a terra produzirá tudo em maior abundância, pois o homem é
assim feito: o pensamento de que trabalha em terreno que é seu redobra o seu ardor e a sua aplicação.
Chega a pôr todo o seu amor numa terra que ele mesmo cultivou, que lhe promete a si e aos seus não só
o estritamente necessário, mas ainda uma certa fartura. Não há quem não descubra sem esforço os efeitos
desta duplicação da actividade sobre a fecundidade da terra e sobre a riqueza das nações. A terceira
utilidade será a suspensão do movimento de emigração; ninguém, com efeito, quereria trocar por uma
região estrangeira a sua pátria e a sua terra natal, se nesta encontrasse os meios de levar uma vida mais
tolerável.

Mas uma condição indispensável para que todas estas vantagens se convertam em realidades, é que a
propriedade particular não seja esgotada por um excesso de encargos e de impostos. Não é das leis
humanas, mas da natureza, que emana o direito de propriedade individual; a autoridade pública não o
pode pois abolir; o que ela pode é regular-lhe o uso e conciliá-lo com o bem comum. É por isso que ela
age contra a justiça e contra a humanidade quando, sob o nome de impostos, sobrecarrega
desmedidamente os bens dos particulares.

Benefício das corporações

29. Em último lugar, diremos que os próprios patrões e operários podem singularmente auxiliar a solução,
por meio de todas as obras capazes de aliviar eficazmente a indigência e de operar uma aproximação entre
as duas classes. Pertencem a este número as associações de socorros mútuos; as diversas instituições,
devidas à iniciativa particular, que têm por fim socorrer os operários, bem como as suas viúvas e órfãos,
em caso de morte, de acidentes ou de enfermidades; os patronatos que exercem uma protecção benéfica
para com as crianças dos dois sexos, os adolescentes e os homens feitos. Mas o primeiro lugar pertence às
corporações operárias, que abrangem quase todas as outras. Os nossos antepassados experimentaram por
muito tempo a benéfica influência destas associações. Ao mesmo tempo que os artistas encontravam nelas
inapreciáveis vantagens, as artes receberam delas novo brilho e nova vida, como o proclama grande
quantidade de monumentos. Sendo hoje mais cultas as gerações, mais polidos os costumes, mais
numerosas as exigências da vida quotidiana, é fora de dúvida que se não podia deixar de adaptar as
associações a estas novas condições. Assim, com prazer vemos Nós irem-se formando por toda a parte
sociedades deste género, quer compostas só de operários, quer mistas, reunindo ao mesmo tempo
operários e patrões: é para desejar que aumentem a sua acção. Conquanto nos tenhamos ocupado delas
mais duma vez [39], queremos expor aqui a sua oportunidade e o seu direito de existência e indicar como
devem organizar-se é qual deve ser o seu programa de acção.

As associações particulares e o Estado

30. A experiência que o homem adquire todos os dias da exiguidade das suas forças, obriga-o e impele-o a
agregar-se a uma cooperação estranha.

É nas Sagradas Letras que se lê esta máxima: «Mais valem dois juntos que um só, pois tiram vantagem da
sua associação. Se um cai, o outro sustenta-o. Desgraçado do homem só, pois; quando cair, não terá
ninguém que o levante» [40]. E estoutra: «O irmão que é ajudado por seu irmão, é como uma cidade
forte» [41]. Desta propensão natural, como dum único germe, nasce, primeiro, a sociedade civil; depois,
no próprio seio desta, outras sociedades que, por serem restritas e imperfeitas, não deixam de ser
sociedades verdadeiras.

Entre as pequenas sociedades e a grande, há profundas diferenças, que resultam do seu fim próximo. O
fim da sociedade civil abrange universalmente todos os cidadãos, pois este fim está no bem comum, isto é,
num bem do qual todos e cada um têm o direito de participar em medida proporcional. Por isso se chama
público, porque «reúne os homens para formarem uma nação»[42]. Ao contrário, as sociedades que se
constituem no seu seio são frágeis, porque são particulares, e o são com efeito, pois a sua razão de ser
imediata é a utilidade particular e exclusiva dos seus membros: «A sociedade particular é aquela que se
forma com um fim particular, como quando dois ou três indivíduos se associam para exercerem em comum
o comércio» [43]. Ora, pelo facto de as sociedades particulares não terem existência senão no seio da
sociedade civil, da qual são como outras tantas partes, não se segue, falando em geral e considerando
apenas a sua natureza, que o Estado possa negar-lhes a existência. O direito de existência foi-lhes
outorgado pela própria natureza; e a sociedade civil foi instituída para proteger o direito natural, não para
o aniquilar. Por esta razão, uma sociedade civil que proibisse as sociedades públicas e particulares, atacar-
se-ia a si mesma, pois todas as sociedades públicas e particulares tiram a sua origem dum mesmo
princípio: a natural sociabilidade do homem. Certamente se dão conjunturas que autorizam as leis a opor-
se à fundação duma sociedade deste género.

Se uma sociedade, em virtude mesmo dos seus estatutos orgânicos, trabalhasse para um fim em oposição
flagrante com a probidade, com a justiça, com a segurança do Estado, os poderes públicos teriam o direito
de lhe impedir a formação, ou o direito de a dissolver, se já estivesse formada. Mas deviam em tudo isto
proceder com grande circunspecção para evitar usurpação dos direitos dos cidadãos, e para não
determinar, sob a cor da utilidade pública, alguma coisa que a razão houvesse de desaprovar. Pois uma lei
não merece obediência, senão enquanto é conforme com a recta razão e a lei eterna de Deus [44].

31. Aqui, apresentam-se ao Nosso espírito as confrarias, as congregações e as ordens religiosas de todo o
género, nascidas da autoridade da Igreja e da piedade dos fiéis. Quais foram os seus frutos de salvação
para o género humano até aos nossos dias, a História o diz suficientemente. Considerando simplesmente o
ponto de vista da razão, estas sociedades aparecem como fundadas com um fim honesto, e,
consequentemente, sob os auspícios do direito natural: no que elas têm de relativo à religião, não
dependem senão da Igreja. Os poderes públicos não podem, pois, legitimamente, arrogar-se nenhum
direito sobre elas, atribuir-se a sua administração; a sua obrigação é antes respeitá-las, protegê-las e, em
caso de necessidade, defendê-las. Justamente o contrário é o que Nós temos sido condenados a ver,
principalmente nestes últimos tempos. Em não poucos países, o Estado tem deitado a mão a estas
sociedades, e tem acumulado a este respeito injustiça sobre injustiça: sujeição às leis civis, privações do
direito legítimo de personalidade, espoliação dos bens. Sobre estes bens, a Igreja tinha todavia os seus
direitos: cada um dos membros tinha os seus; os doadores, que lhe haviam dado uma aplicação, e
aqueles, enfim, que delas auferiam socorros e alívio, tinham os seus. Assim não podemos deixar de
deplorar amargamente espoliações tão iníquas e tão funestas; tanto mais que se ferem de proscrição as
sociedades católicas na mesma ocasião em que se afirma a legalidade das sociedades particulares, e que,
aquilo que se recusa a homens pacíficos e que não têm em vista senão a utilidade pública, se concede, e
por certo muito amplamente, a homens que meditam planos funestos para a religião e também para o
Estado.

As associações operárias católicas

32. Certamente em nenhuma outra época se viu tão grande multiplicidade de associações de todo o
género, principalmente de associações operárias. Não é, porém, aqui, o lugar para investigar qual é a
origem de muitas delas, qual o seu fim e quais os meios com que tendem para esse fim. Mas é uma
opinião, confirmada por numerosos indícios, que elas são ordinariamente governadas por chefes ocultos, e
que obedecem a uma palavra de ordem igualmente hostil ao nome cristão e à segurança das nações: que,
depois de terem açambarcado todas as empresas, se há operários que recusam entrar em seu seio, elas
fazem-lhe expiar a sua recusa pela miséria. Neste estado de coisas, os operários cristãos não têm remédio
senão escolher entre estes dois partidos: ou darem os seus nomes a sociedades de que a religião tem tudo
a temer, ou organizarem-se eles próprios e unirem as suas forças para poderem sacudir denodadamente
um jugo tão injusto e tão intolerável. Haverá homens, verdadeiramente empenhados em arrancar o
supremo bem da humanidade a um perigo iminente, que possam ter a menor dúvida de que é necessário
optar por esse último partido?

É altamente louvável o zelo de grande número dos nossos, que, conhecendo perfeitamente as
necessidades da hora presente, sondam cuidadosamente o terreno, para aí descobrirem uma vereda
honesta que conduz à reabilitação da classe operária. Constituindo-se protectores das pessoas dedicadas
ao trabalho, esforçam-se por aumentar a sua prosperidade, tanto doméstica como individual, e regular
com equidade as relações recíprocas dos patrões e dos operários; por manter e enraizar nuns e noutros a
lembrança dos seus deveres e a observância dos preceitos que, conduzindo o homem à moderação e
coordenando todos os excessos, mantêm nas nações, e entre elementos tão diversos de pessoas e de
coisas, a concórdia e a harmonia mais perfeita. Sob a inspiração dos mesmos pensamentos, homens de
grande mérito se reúnem em congresso, para comunicarem mutuamente as ideias, unirem as suas forças,
ordenarem programas de acção. Outros ocupam-se em fundar corporações adequadas às diversas
profissões e em fazer entrar nelas os artistas: coadjuvam-nos com os seus conselhos e a sua fortuna, e
providenciam para que lhes não falte nunca um trabalho honrado e proveitoso. Os Bispos, por seu lado,
animam estes esforços e colocam-nos sob a sua protecção: por sua autoridade e sob os seus auspícios,
membros do clero tanto secular como regular se dedicam, em grande número, aos interesses espirituais
das corporações. Finalmente, não faltam católicos que, possuidores de abundantes riquezas, convertidos
de algum modo em companheiros voluntários dos trabalhadores, não olham a despesas para fundar e
propagar sociedades, onde estas possam encontrar, a par com certa abastança para o presente, a
promessa de honroso descanso para o futuro. Tanto zelo, tantos e tão engenhosos esforços têm já feito
entre os povos um bem muito considerável, e demasiado conhecido para que seja necessário falar deles
mais nitidamente. É a nossos olhos feliz prognóstico para o futuro, e esperamos destas corporações os
mais benéficos frutos, conquanto que continuem a desenvolver-se e que a prudência presida à sua
organização. Proteja o Estado estas sociedades fundadas segundo o direito; mas não se intrometa no seu
governo interior e não toque nas molas íntimas que lhes dão vida; pois o movimento vital procede
essencialmente dum princípio interno, e extingue-se facilmente sob a acção duma causa externa.

Disciplina e finalidade destas associações

33. Precisam evidentemente estas corporações, para que nelas haja unidade de acção e acordo de
vontades, duma sábia e prudente disciplina. Se, pois, como é certo, os cidadãos são livres de se
associarem, devem sê-lo igualmente de se dotarem com os estatutos e regulamentos que lhes pareçam
mais apropriados ao fim que visam. Quais devem ser estes estatutos e regulamentos? Não cremos que se
possam dar regras certas e precisas para lhes determinar os pormenores; tudo depende do génio de cada
nação, das tentativas feitas e da experiência adquirida, do género de trabalho, da expansão do comércio e
doutras circunstâncias de coisas e de tempos que se devem pesar com ponderação. Tudo quanto se pode
dizer em geral é que se deve tomar como regra universal e constante o organizar e governar por tal forma
as cooperações que proporcionem a cada um dos seus membros os meios aptos para lhes fazerem atingir,
pelo caminho mais cómodo e mais curto, o fim que eles se propõem, e que consiste no maior aumento
possível dos bens do corpo, do espírito e da fortuna.

Mas é evidente que se deve visar antes de tudo o objecto principal, que'é o aperfeiçoamento moral e
religioso. E principalmente este fim que deve regular toda a economia destas sociedades; doutro modo,
elas degenerariam bem depressa e cairiam, por pouco que fosse, na linha das sociedades em que não tem
lugar a religião. Ora, de que serviria ao artista ter encontrado no seio da corporação a abundância
material, se a falta de alimentos espirituais pusesse em perigo a salvação da sua alma? «Que vale ao
homem possuir o universo inteiro, se vier a perder a sua alma?»[45]. Eis o carácter com que Nosso Senhor
Jesus Cristo quis que se distinguisse o cristão do pagão: «Os pagãos procuram todas estas coisas...
procurai primeiro o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo»[46]. Assim, pois,
tomando a Deus por ponto de partida, dê-se amplo lugar à instrução religiosa a fim de que todos
conheçam os seus deveres para com Ele; o que é necessário crer, o que é necessário esperar, o que é
necessário fazer para obter a salvação eterna, tudo isto lhes deve ser cuidadosamente recomendado;
premunam-se com particular solicitude contra as opiniões erróneas e contra todas as variedades do vício.

Guie-se o operário ao culto de Deus, incite-se nele o espírito de piedade, faça-se principalmente fiel à
observância dos domingos e dias festivos. Aprenda ele a amar e a respeitar a Igreja, mãe comum de todos
os cristãos, a aquiescer aos seus preceitos, a frequentar os seus sacramentos, que são fontes divinas onde
a alma se purifica das suas manchas e bebe a santidade.

Constituída assim a religião em fundamento de todas as leis sociais, não é difícil determinar as relações
mútuas a estabelecer entre os membros para obter a paz e a prosperidade da sociedade. As diversas
funções devem ser distribuídas da maneira mais proveitosa aos interesses comuns, e de tal modo, que a
desigualdade não prejudique a concórdia.

Importa grandemente que os encargos sejam distribuídos com inteligência, e claramente definidos, a fim
de que ninguém sofra injustiça. Que a massa comum seja administrada com integridade, e que se de-
termine previamente, pelo grau de indigência de cada um dos membros, a quantidade de auxílio que deve
ser concedido; que os direitos e os deveres dos patrões sejam perfeitamente conciliados com os direitos e
deveres dos operários.

A fim de atender às reclamações eventuais que se levantem numa ou noutra classe a respeito dos direitos
lesados, seria muito para desejar que os próprios estatutos encarregassem homens prudentes e íntegros,
tirados do seu seio, para regularem o litígio na qualidade de árbitros.

Convite para os operários católicos se associarem

34. É necessário ainda prover de modo especial a que em nenhum tempo falte trabalho ao operário; e que
haja um fundo de reserva destinado a fazer face, não somente aos acidentes súbitos e fortuitos
inseparáveis do trabalho industrial, mas ainda à doença, à velhice e aos reveses da fortuna.

Estas leis, contanto que sejam aceites de boa vontade, bastam para assegurar aos fracos a subsistência e
um certo bem-estar; mas as corporações católicas são chamadas ainda a prestar os seus bons serviços à
prosperidade geral.

Pelo passado podemos sem temeridade julgar o futuro. Uma época cede o lugar a outra; mas o curso das
coisas apresenta maravilhosas semelhanças, preparadas por essa Providência que tudo dirige e faz
convergir para o fim que Deus se propôs ao criar a humanidade. Sabemos que nas primeiras idades da
Igreja lhe imputavam como crime a indigência dos seus membros, condenados a viver de esmolas ou do
trabalho: Mas, despidos como estavam de riquezas e de poder, souberam conciliar o favor dos ricos e a
protecção dos poderosos. Viam-nos diligentes, laboriosos, modelos de justiça e principalmente de caridade.
Com o espectáculo duma vida tão perfeita e de costumes tão puros, todos os preconceitos se dissiparam, o
sarcasmo caiu e as ficções duma superstição inveterada desvaneceram-se pouco a pouco ante a verdade
cristã.
A sorte da classe operária, tal é a questão de que hoje se trata, será resolvida pela razão ou sem ela e não
pode ser indiferente às nações quer o seja dum modo ou doutro. Os operários cristãos resolvê-la-ão
facilmente pela razão, se, unidos em sociedades e obedecendo a uma direcção prudente, entrarem no
caminho em que os seus antepassados encontraram o seu bem e o dos povos.

Qualquer que seja nos homens a força dos preconceitos e das paixões, se uma vontade pervertida não
afogou ainda inteiramente o sentido do que é justo e honesto, será indispensável que, cedo ou tarde, a
benevolência pública se volte para esses operários, que se tenham visto activos e modestos, pondo a
equidade acima da ganância, e preferindo a tudo a religião do dever. Daqui, resultará esta outra
vantagem: que a esperança de salvação e grandes facilidades para a atingir, serão oferecidas a esses
operários que vivem no desprezo da fé cristã, ou nos hábitos que ela reprova. Compreendem, geralmente,
esses operários que têm sido joguete de esperanças enganosas e de aparências mentirosas. Pois sentem,
pelo tratamento desumano que recebem dos seus patrões, que quase não são avaliados senão pelo peso
do ouro produzido pelo seu trabalho; quanto às sociedades que os aliciaram, eles bem vêem que, em lugar
da caridade e do amor, não encontram nelas senão discórdias intestinas, companheiras inseparáveis da
pobreza insolente e incrédula. A alma embotada, o corpo extenuado, quanto não desejariam sacudir um
jugo tão humilhante! Mas, ou por causa do respeito humano ou pelo receio da indigência, não ousam fazê-
lo. Ah, para todos esses operários podem as sociedades católicas ser de maravilhosa utilidade, se
convidarem os hesitantes a vir procurar no seu seio um remédio para todos os males, e acolherem
pressurosas os arrependidos e lhes assegurarem defesa e protecção.

Solução definitiva: a caridade

35. Vede, Veneráveis Irmãos, por quem e por que meios esta questão tão difícil demanda ser tratada e
resolvida. Tome cada um a tarefa que lhe pertence; e isto sem demora, para que não suceda que, adiando
o remédio, se tome incurável o mal, já de si tão grave.

Façam os governantes uso da autoridade protectora das leis e das instituições; lembrem-se os ricos e os
patrões dos seus deveres; tratem os operários, cuja sorte está em jogo, dos seus interesses pelas vias
legítimas; e, visto que só a religião, como dissemos no princípio, é capaz de arrancar o mal pela raiz,
lembrem-se todos de que a primeira coisa a fazer é a restauração dos costumes cristãos, sem os quais os
meios mais eficazes sugeridos pela prudência humana serão pouco aptos para produzir salutares
resultados. Quanto à Igreja, a sua acção jamais faltará por qualquer modo, e será tanto mais fecunda,
quanto mais livremente se possa desenvolver.

Nós desejamos que compreendam isto sobretudo aqueles cuja missão é velar pelo bem público. Em-
preguem neste ponto os Ministros do Santuário toda a energia da sua alma e generosidade do seu zelo, e
guiados pela vossa autoridade e pelo vosso exemplo, Veneráveis Irmãos, não se cansem de inculcar a
todas as classes da sociedade as máximas do Evangelho; façamos tudo quanto estiver ao nosso alcance
para salvação dos povos, e, sobretudo, alimentem em si e acendam nos outros, nos grandes e nos
pequenos a caridade, senhora e rainha de todas as virtudes. Portanto, a salvação desejada deve ser
principalmente o fruto duma grande efusão de caridade, queremos dizer, daquela caridade que compendia
em si todo o Evangelho, e que, sempre pronta a sacrificar-se pelo próximo, é o antídoto mais seguro
contra o orgulho e o egoísmo do século. Desta virtude, descreveu S. Paulo as feições características com as
seguintes palavras: «A caridade é paciente, é benigna, não cuida do seu interesse; tudo sofre; a tudo se
resigna»[47].

Como sinal dos favores celestes e penhor da Nossa benevolência, a cada um de vós, Veneráveis Irmãos, ao
vosso Clero e ao vosso Povo, com grande afecto no Senhor, concedemos a Bênção Apostólica.

Dada em Roma, junto de S. Pedro, a 15 de Maio de 1891, no décimo quarto ano do Nosso Pontificado.

PAPA LEÃO XIII


Notas

[*] Alude-se aqui às Encíclicas «Diuturnum» (1831), «Immortale Dei» (1885), «Libertas» (1888).

[1] Veja-se S. Tomás, Sum. Teol., I-II, q. 95, a. 4.

[2] Dt 5,21.

[3] Gn 1,28.

[4] S. Tomás, Sum. Teol., 11-II, q. 10, a. 12.

[5] Gn 3,17.

[6] Tg 5,4.

[7] 2 Tm 2,12.

[8] 2 Cor 4,7.

[9] Mt 19,23-24.

[10] Lc 6,24-25.

[11] S. Tomás, Sum. Teol., II-II, q. 66, a. 2.

[12] Ibidem, q. 65, a. 2.

[13] S. Tomás, Sum. Teol., 11-11, q. 32, a. 6.

[14] Lc 11,41.

[15] Act 20,35.

[16] Mt 25,40.

[17] S. Gregório Magno, in Evang., Hom. IX, n. 7.

[18] 2 Cor 8,9.

[19] Mc 6,3.

[20] Mt 5,3.

[21] Ibidem, 11,18.

[22] Rm 8,29.

[23] Ibidem, VIII, 17.

[24] Também Maquiavel, Discorsi, III, 1, afirma este princípio.

[25] 1 Tm 6,10.

[26] Act 4,34.


[27] Apolog., II, 39.

[28] Trata-se da Encíclica «Immortale Dei».

[29] S. Tomás, Sum. Teol., II-II, q. 61, a. 1 ad 2.

[30] S. Tomás, De regimine princ. I, 15.

[31] Veja-se o n. 12 desta Encíclica: Posse e uso das riquezas.

[32] Veja-se o n. 17 e segs. desta Encíclica.

[33] Gn 1,28.

[34] Rm 10,12.

[35] Ex 20,8.

[36] Gn 2,2.

[37] Gn 3,19.

[38] Veja-se o n. 29 e segs.

[39] Veja-se a Encíclica Libertas.

[40] Eclo 4,9-12.

[41]Pr 18,19.

[42] S. Tomás, Contra impugn. Dei cultum et relig., II, 8.

[43] Ibidem.

[44] S. Tomás, Sum. Teol., I-II, q. 93, a. 3 ad 2.

[45] Mt 16,26.

[46] Mt 6,32-33.

[47] 1 Cor 13,4-7.

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_15051891_rerum-novarum.html

CARTA ENCÍCLICA
DALL'ALTO DELL'APOSTOLICO SEGGIO
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII
AOS BISPOS, AO CLERO
E AO POVO DA ITÁLIA

SOBRE A MAÇONARIA NA ITÁLIA


Veneráveis Irmãos e Amados Filhos,
Saúde e Bênção Apostólica.

1. Do alto do Trono Apostólico, aonde a Providência Divina Nos colocou para vigiar pela salvação de todas
as nações, Nós olhamos sobre a Itália em cujo seio, por um ato de singular predileção, Deus estabeleceu a
Sede de Seu Vigário, e da qual Nos vem no tempo presente muitas e amarguíssimas tristezas.

Não é nenhuma ofensa pessoal que Nos entristece, nem as privações e sacrifícios impostos a Nós pela
atual condição das coisas, nem os ultrajes e escárnios que uma imprensa insolente tem todo o poder para
atirar todos os dias contra Nós. Se somente a Nossa pessoa estivesse envolvida, e não a ruína à qual a
Itália ameaçada em sua fé está se atirando, Nós suportaríamos estas ofensas sem reclamar, alegrando-Nos
até por repetir o que um de Nossos mais ilustres Predecessores disse de si mesmo: "Se o aprisionamento
do meu país não aumentasse a cada momento e a cada dia, quanto ao desprezo e escárnio de mim mesmo
eu alegremente silenciaria." [1]

Mas, além da independência e dignidade da Santa Sé, a própria religião e a salvação de toda uma nação
estão envolvidas, de uma nação que desde os primeiros tempos abriu o seu seio à Fé Católica e sempre a
tem zelosamente preservado. Por incrível que pareça, é verdade; a tal ponto chegamos, que devemos
temer que esta nossa Itália perca até a fé.

Muitas vezes Nós soamos o alarme, para advertir do perigo; mas por este motivo Nós não pensamos que
tenhamos feito o suficiente. Em face aos continuados e ainda mais furiosos assaltos que são feitos, Nós
ouvimos a voz do dever chamando-Nos mais poderosamente do que antes para falar-vos novamente,
Veneráveis Irmãos, aos seus Clérigos, e a todo o povo italiano.

Uma vez que o inimigo não dá trégua, então nem vós nem Nós podemos permanecer calados ou inertes.
Pela Divina misericórdia Nós fomos constituídos guardiões e defensores da religião do povo confiado ao
Nosso cuidado, Pastores e vigilantes sentinelas do rebanho de Cristo; e por este rebanho Nós devemos
estar prontos, se necessário, a sacrificar tudo, até a própria vida.

2. Nós não diremos nada de novo; pois os fatos não mudaram daquilo que eles eram, e Nós em outros
tempos falamos sobre eles quando a oportunidade surgiu.

Mas Nós agora pretendemos recapitular estes fatos de algum modo, e agrupá-los em uma única imagem,
de modo a deduzir para instrução geral as conseqüências que seguem deles. Os fatos são incontestáveis e
aconteceram à clara luz do dia; não separados uns dos outros, mas tão conectados entre si em uma série
de modo a revelar com a mais completa evidência um sistema do qual eles são a verdadeira operação e
desenvolvimento. O sistema não é novo; mas a audácia, a fúria, e a rapidez com as quais ele está sendo
levado adiante agora, são novas. É o plano das seitas que está agora se desenrolando na Itália,
especialmente no que se refere à religião Católica e à Igreja, com o propósito final e jurado, se isso fosse
possível, de reduzi-la a nada.

Agora é desnecessário colocar as seitas Maçônicas em julgamento. Elas já estão julgadas; seus fins, seus
meios, suas doutrinas, e sua ação, são todos conhecidos com indisputável certeza. Possuídos pelo espírito
de Satanás, cujos instrumentos eles são, eles ardem como ele com um ódio mortal e implacável a Jesus
Cristo e Sua obra; e eles se esforçam por todos os meios para derrubá-la e acorrentá-la. Esta guerra no
momento presente se desenrola mais do que em qualquer outro lugar na Itália, na qual a religião Católica
se enraizou mais profundamente; e acima de tudo em Roma, o centro da unidade Católica, e a Sede do
Pastor Universal e Mestre da Igreja.

3. É bom traçar desde o início as diferentes fases deste combate.

4. A guerra começou pela derrubada do poder civil dos Papas, cuja queda, de acordo com as intenções
secretas dos verdadeiros líderes, mais tarde abertamente declarada, era, sob um pretexto político, para ser
o meio de pelo menos escravizar, se não destruir, o supremo poder espiritual dos Pontífices Romanos.
Para que nenhuma dúvida restasse quanto ao verdadeiro objetivo desta guerra, seguiu-se rapidamente a
supressão das Ordens Religiosas; e portanto uma grande redução no número de operários evangélicos
para a propagação da fé entre os pagãos, e para o ministério sagrado e serviço religioso nos países
Católicos.

Mais tarde, a obrigação do serviço militar foi estendida aos clérigos, com o necessário resultado de que
muitos e graves obstáculos foram colocados no recrutamento e devida formação até do Clero secular.
Lançaram mãos das propriedades eclesiásticas, em parte por absoluto confisco, e em parte taxando-as
com enormes cargas, de modo a empobrecer o Clero e a Igreja, e privar a Igreja do que é necessário para
seu suporte temporal e para levar adiante instituições e obras auxiliares ao seu divino apostolado. Isto os
próprios sectários abertamente declararam. Para diminuir a influência do Clero e de corpos clericais,
apenas um meio eficaz precisa ser usado: tirar deles todos os seus bens, e reduzi-los à absoluta pobreza.
Assim também a ação do Estado é em si mesma toda dirigida para erradicar da nação seu caráter religioso
e Cristão. Das leis, e de toda a vida oficial, toda inspiração e idéia religiosa é sistematicamente banida,
quando não diretamente atacada. Cada manifestação pública de fé e de piedade Católica é ou proibida ou,
sob pretextos vãos, de mil maneiras impedida.

Da família são tiradas sua fundação e constituição religiosa pela proclamação do casamento civil, como ele
é chamado; e também pela educação inteiramente leiga que agora é exigida, dos primeiros elementos até
o mais alto ensino das universidades, de modo que as gerações em crescimento, tanto quanto isto possa
ser afetado pelo Estado, devem crescer sem qualquer idéia de religião, e sem as primeiras noções
essenciais de seus deveres para com Deus. Isto é colocar o machado na raiz. Nenhum meio mais universal
e eficaz poderia ser imaginado de retirar a sociedade, as famílias, e os indivíduos, da influência da Igreja e
da fé. Demolir o Clericalismo (ou Catolicismo) até os seus fundamentos e em suas próprias fontes de vida,
especificamente, na escola e na família: esta é a autêntica declaração dos escritores Maçons.

5. Será dito que isto não acontece somente na Itália, mas é um sistema de governo que os Estados
seguem de modo geral. Nós respondemos, que isto não refuta, mas confirma o que Nós estamos dizendo
sobre os desígnios e ação da Maçonaria na Itália. Sim, este sistema é adotado e levado adiante aonde quer
que a Maçonaria use sua ação ímpia e pervertida; e, como a sua ação é largamente difundida, do mesmo
modo este sistema anti-Cristão é largamente aplicado. Mas a aplicação se torna mais veloz e geral, e é
levada a maiores extremos, em países aonde o governo está mais sob o controle da seita e melhor
promove os seus interesses. Infelizmente, no momento presente a nova Itália está entre estes países. Não
apenas hoje ela está sujeita à pervertida e maligna influência das seitas; mas já por algum tempo eles a
têm tiranizado como quiseram, com absoluto domínio e poder. Agora a direção dos assuntos públicos, no
que diz respeito à religião, está totalmente em conformidade com as aspirações das seitas; e para atingir
as suas aspirações, eles encontram auxiliadores declarados e instrumentos de prontidão naqueles que
detém o poder público. Leis adversas à Igreja e medidas hostis a ela são primeiro propostas, decididas, e
resolvidas, nos encontros secretos da seita; e se algo apresenta até a mínima aparência de hostilidade ou
prejuízo à Igreja, é imediatamente recebido favoravelmente e levado adiante.

Entre os fatos mais recentes Nós podemos mencionar a aprovação do novo código penal, no qual o que
era mais obstinadamente exigido, a despeito de todas as razões em contrário, eram os artigos contra o
Clero, que forma para eles uma lei excepcional, e até condenam como criminosas certas ações que são
deveres sagrados de seus ministros.

A lei quanto às obras de piedade, pela qual qualquer propriedade de caridade, acumulada pela piedade e
religião de nossos ancestrais sob a proteção e a guarda da Igreja, foi retirada completamente da ação e
controle da Igreja, foi por alguns anos levada adiante nos encontros da seita, precisamente porque iria
infligir um novo ultraje à Igreja, diminuir sua influência social, e suprimir imediatamente um grande
número de doações feitas para o culto divino.

Então veio aquela obra eminentemente sectária, a ereção do monumento ao renomado apóstata de Nola, o
qual, com a ajuda e favor do governo, foi promovido, determinado, e levado adiante pela Maçonaria, cujo
mais autorizado porta-voz não se envergonhou de reconhecer o seu propósito e declarar seu significado.
Seu propósito era insultar o Papado; seu significado que, ao invés da Fé Católica, deve agora haver em
substituição a mais absoluta liberdade de examinação, de crítica, de pensamento, e de consciência: e o
que é entendido por tal linguagem na boca das seitas é bem conhecido.

O selo foi colocado pelas mais explícitas declarações feitas pelo chefe de governo, que eram no seguinte
sentido: Que o verdadeiro e real conflito, que o governo tem o mérito de entender, é o conflito entre a fé e
a Igreja de um lado e a livre examinação e a razão do outro. Que a Igreja tente fazer como ela fez antes,
acorrentar novamente a razão e o livre-pensar, e prevalecer; mas o governo neste conflito declara-se
abertamente a favor da razão como contrária à fé, e toma sobre si mesmo a tarefa de fazer do Estado
Italiano a expressão evidente desta razão e liberdade: uma triste tarefa, que agora há pouco foi
enfaticamente reafirmada em uma ocasião semelhante.

6. À luz de tais fatos e tais declarações como estas, é mais do que nunca claro que a idéia dominante que,
em tudo que diz respeito à religião, controla o curso dos assuntos públicos na Itália, é a realização do
programa Maçônico. Nós vemos quanto já foi realizado; nós sabemos quanto ainda resta a ser feito; e nós
podemos prever com certeza que, enquanto os destinos da Itália estiverem nas mãos de governantes
sectários ou de homens sujeitos às seitas, a realização do programa será forçada adiante, mais ou menos
rapidamente de acordo com as circunstâncias, até o seu completo desenvolvimento.

A ação das seitas é no presente dirigida para atingir os seguintes objetivos, de acordo com os votos e
resoluções passadas em suas mais importantes assembléias, votos e resoluções inspirados por um ódio
mortal à Igreja. A abolição nas escolas de qualquer tipo da instrução religiosa, e a fundação de instituições
nas quais até as moças devem ser retiradas de toda influência clerical, qualquer que ela possa ser; porque
o Estado, que deve ser absolutamente ateu, tem o inalienável direito e dever de formar o coração e os
espíritos de seus cidadãos, e nenhuma escola deveria existir fora de sua inspiração e controle.

A aplicação rigorosa de todas as leis agora vigorando, que visam assegurar a absoluta independência da
sociedade civil da influência clerical. A estrita observância de leis suprimindo corporações religiosas, e o
emprego de meios para fazê-las efetivas. O controle de todas propriedades eclesiásticas, partindo do
princípio que a sua propriedade pertence ao Estado, e a sua administração ao poder civil.

A exclusão de todo elemento Católico ou clerical de todas administrações públicas, de obras de caridade,
hospitais, e escolas, dos conselhos que governam os destinos do país, de uniões acadêmicas e
semelhantes, de companhias, comitês, e famílias, uma exclusão de tudo, em qualquer lugar, e para
sempre. Ao invés, a influência Maçônica deve ser sentida em todas as circunstâncias da vida social, e se
tornar mestra e controladora de tudo.

Por meio disto o caminho vai ser aplainado em direção à abolição do Papado; a Itália irá deste modo ser
livre de seu implacável e mortal inimigo; e Roma, que no passado foi o centro da Teocracia universal no
futuro será o centro da secularização universal, do qual a Carta Magna da liberdade humana deve ser
proclamada à face do mundo inteiro. Estas são as autênticas declarações, aspirações, e resoluções, dos
Maçons ou de suas assembléias.

7. Sem exagero, esta é a presente condição e a futura perspectiva da religião na Itália. Encolher-se para
não ver a gravidade disto seria um erro fatal. Reconhecer isto como é, confrontar isto com a prudência e
fortaleza evangélicas, inferir os deveres que isto impõe sobre todos os Católicos, e sobre nós
especialmente que como Pastores temos que vigiar sobre eles e guiá-los à salvação, é entrar nos olhares
da Providência, fazer uma obra de sabedoria e zelo pastoral.

Tanto quanto diz respeito a Nós, o ofício Apostólico põe sobre Nós o dever de protestar em alta voz mais
uma vez contra tudo que tem sido feito, está sendo feito, ou está sendo tentado na Itália para prejudicar a
religião. Defendendo e guardando os direitos sagrados da Igreja e do Pontificado, Nós abertamente
repelimos e denunciamos a todo o mundo Católico os ultrajes que a Igreja e o Pontificado estão
continuamente recebendo, especialmente em Roma, e que nos atrapalham no governo da Igreja Católica,
e adicionam dificuldade e indignidade à Nossa condição. Nós estamos determinados a não omitir nada de
Nossa parte que possa servir para manter a fé viva e vigorosa entre o povo italiano, e para protegê-lo
contra os assaltos de seus inimigos. Nós, portanto, fazemos um apelo, Veneráveis Irmãos, ao vosso zelo e
vosso grande amor pelas almas, de modo que, possuídos com um sentido da gravidade e do perigo no
qual elas incorrem, vós possais aplicar os remédios adequados e fazer tudo o que puderdes para dispersar
este perigo.

8. Nenhum meio que esteja em vosso poder deve ser neglicenciado. Todos os recursos da palavra, todo
expediente na ação, todos os imensos tesouros de socorro e graça que a Igreja coloca em vossas mãos,
devem ser usados, para a formação de um Clero instruído e cheio do espírito de Jesus Cristo, para a
educação cristã dos jovens, para a extirpação de doutrinas malignas, para a defesa das verdades Católicas,
e para a manutenção do caráter Cristão e do espírito de vida familiar.

9. Quanto ao povo Católico, antes de mais nada é necessário que eles sejam instruídos quanto ao
verdadeiro estado de coisas na Itália no que diz respeito à religião, o caráter essencialmente religioso do
conflito na Itália contra o Pontífice, e os objetivos reais constantemente visados, para que eles possam ver
pela evidência dos fatos os muitos modos pelos quais se conspira contra a sua religião, e possam se
convencer do risco que eles correm de serem roubados e despojados do inestimável tesouro da fé.

Com esta convicção em suas mentes, e tendo ao mesmo tempo a certeza de que sem fé é impossível
agradar a Deus e ser salvo, eles irão entender que o que agora está em jogo é o maior, para não dizer o
único interesse, o qual cada um na terra está obrigado antes de todas as coisas, ao custo de qualquer
sacrifício, a colocar fora de perigo, sob pena de miséria eterna.

Eles irão, ainda mais, facilmente entender que, neste tempo de aberto e furioso conflito, seria desgraçante
para eles desertarem do campo e se esconderem. Seu dever é permanecer em seus postos, e abertamente
mostrar serem verdadeiros católicos por suas crenças e ações, em conformidade com a sua fé. Isto eles
devem fazer pela honra de sua fé, e a glória do Soberano Líder cuja bandeira eles seguem; e para que eles
possam escapar do grande infortúnio de serem repudiados no último dia, e de não serem reconhecidos
como Seus pelo Supremo Juiz que declarou que qualquer um que não está com Ele está contra Ele.

Sem ostentação ou timidez, que eles dêem prova daquela verdadeira coragem que vem da consciência de
cumprir um dever sagrado perante Deus e os homens. A esta franca profissão de fé os Católicos devem
unir uma perfeita docilidade e amor filial para com a Igreja, um respeito sincero por seus Bispos, e uma
absoluta devoção e obediência ao Pontífice Romano. Em uma palavra, eles irão reconhecer quão
necessário é largar tudo que seja obra das seitas, ou que receba impulso ou favor da parte deles, como
sendo sem dúvida alguma infectado pelo espírito anti-Cristão; e eles irão, ao contrário, devotar-se com
atividade, coragem e constância, a obras Católicas, e às associações e instituições que a Igreja abençoou,
e que os Bispos e o Pontífice Romano encorajam e mantêm.

Além disso, vendo que o principal instrumento empregado por nossos inimigos é a imprensa, que em
grande parte recebe deles sua inspiração e suporte, é importante que os Católicos se oponham à imprensa
maligna por uma imprensa que seja boa, para a defesa da verdade, nascida do amor à religião, e para
sustentar os direitos da Igreja. Enquanto a imprensa Católica estiver ocupada em deixar nus os desígnios
pérfidos das seitas, em ajudar e defender as ações dos sagrados Pastores, e em defender a promover as
obras Católicas, é dever os fiéis suportar eficazmente esta imprensa, ― recusando ou cessando de
favorecer de qualquer modo a imprensa maligna; e também diretamente, concorrendo, tanto quanto cada
um possa, para ajudá-la a viver e florescer: e neste assunto Nós pensamos que até agora não foi feito o
suficiente na Itália.

Finalmente, o ensinamento dirigido por Nós a todos os Católicos, especialmente nas encíclicas "Humanum
genus" e "Sapientiae Christianae", deveria ser particularmente aplicado aos Católicos da Itália, e ser
imprimido sobre eles. Se eles têm algo a sofrer ou a sacrificar para permanecer fiéis aos seus deveres, que
eles tomem coragem no pensamento de que o Reino dos Céus sofre violência e é ganhado somente
fazendo violência a nós mesmos; e que aquele que ama a si mesmo e o que é seu mais do que Jesus
Cristo, não é digno dEle. O exemplo dos muitos campeões invencíveis que, em todos os tempos,
generosamente sacrificaram tudo pela fé, e os especiais auxílios da graça que fazem o jugo de Jesus Cristo
suave e Seu fardo leve, devem animar poderosamente a sua coragem e sustentá-los no glorioso combate.

10. Até agora Nós temos considerado apenas o lado religioso do presente estado de coisas na Itália, uma
vez que este é para Nós o mais essencial, e o assunto que eminentemente diz respeito a Nós em razão do
ofício Apostólico que Nós temos. Mas é valioso considerar também o lado social e político, para que os
italianos possam ver que não apenas o amor pela religião, mas também o mais nobre e sincero amor à
pátria deveria incitá-los a resistir às ímpias tentativas das seitas. ― Como uma prova convincente disto, é
suficiente notar o tipo de futuro, na ordem social e política, que está sendo preparado para a Itália por
homens cujo objetivo é ― e eles não fazem segredo disto ― combater uma guerra sem trégua contra o
Catolicismo e o Papado.

11. Já o teste do passado fala eloqüentemente por si mesmo. O que a Itália se tornou neste primeiro
Período de sua nova vida, quanto à moralidade pública e privada, segurança interna, ordem e paz, riqueza
nacional e prosperidade, tudo isto é conhecido por vós pelos fatos, Veneráveis Irmãos, melhor do que Nós
poderíamos descrever em palavras. Os próprios homens cujo interesse seria esconder tudo isto, são
constrangidos pela verdade a admiti-lo. Nós apenas diremos que, sob as presentes condições, uma
necessidade triste mas real, as coisas não poderiam ser de outro modo: a seita Maçônica, com toda a sua
jactância de um espírito de beneficência e filantropia, pode apenas exercer uma influência maligna ― uma
influência que é maligna porque ataca e esforça-se por destruir a religião de Cristo, a verdadeira benfeitora
da humanidade.

12. Todos sabem com que efeito salutar e em quantos modos a influência da religião penetra a sociedade.
Está além de disputa que a sólida moralidade pública e privada dá honra e força aos Estados. Mas é
igualmente certo que, sem religião não há verdadeira moralidade, pública ou privada.

Da família, solidamente baseada em seus fundamentos naturais, vem a vida, o crescimento, e a energia da
sociedade. Mas sem religião, e sem moralidade, a parceria doméstica não tem estabilidade, e os laços
familiares se tornam mais fracos e se rompem.

A prosperidade dos povos e das nações vem de Deus e de Suas bênçãos. Se um povo não atribui a sua
prosperidade a Ele, mas se levanta contra Ele, e no orgulho de seu coração tacitamente diz a Ele que não
tem necessidade dEle, sua prosperidade é apenas uma imagem, certa a desaparecer tão logo agrade ao
Senhor confundir a orgulhosa insolência de Seus inimigos.

É a religião que, penetrando no fundo da consciência de cada um, faz com que ele sinta a força do dever e
incita-o a cumpri-lo. É a religião que dá aos governantes sentimentos de justiça e amor para com seus
súditos; que faz os súditos fiéis e sinceramente devotados aos seus governantes; que faz legisladores retos
e bons, magistrados justos e incorruptíveis, soldados bravos e heróicos, administradores conscienciosos e
diligentes. É a religião que produz concórdia e afeição entre marido e esposa, amor e reverência entre os
pais e seus filhos; que faz os pobres respeitarem as propriedades dos outros, e faz com que os ricos façam
um uso justo de sua riqueza. Desta fidelidade ao dever, e deste respeito pelos direitos dos outros vem a
ordem, a tranqüilidade, e a paz, que formam uma parte tão importante da prosperidade de um povo e de
um Estado. Tire a religião, e com ela todos estes benefícios imensamente preciosos desaparecerão da
sociedade.

13. Para a Itália, além disso, a perda seria sensível. Todas as suas glórias e grandezas, que por um longo
tempo deram a ela o primeiro lugar entre as mais cultas nações, são inseparáveis da religião, que ou as
produziu ou as inspirou, ou certamente as favoreceu, ajudou, e aumentou. Suas comunas nos falam de
suas liberdades públicas: de suas glórias militares nós lemos em suas muitas memoráveis empresas contra
os inimigos do nome Cristão. Suas ciências são vistas em suas universidades que, fundadas, mantidas, e
privilegiadas pela Igreja, têm sido sua casa e teatro. Suas artes são mostradas nos inumeráveis
monumentos de todo tipo com os quais a Itália está profusamente coberta. De suas instituições para
auxílio dos sofredores, para os miseráveis e as classes trabalhadoras nós temos evidência em suas muitas
fundações de caridade Cristã, nos muitos asilos estabelecidos para todo tipo de necessidade e infortúnio, e
nas associações e corporações que cresceram sob a proteção da religião. A virtude e a força da religião são
imortais porque a religião é de Deus. Ela tem tesouros de auxílio e eficacíssimos remédios, que podem ser
maravilhosamente adaptados às necessidades de cada tempo e época. O que a religião tem sabido como
fazer e tem feito em tempos passados, ela pode fazer também agora com uma virtude sempre fresca e
vigorosa. Retirar a religião da Itália, é secar imediatamente a mais abundante fonte de inestimável auxílio e
benefícios.
14. Além disso, um dos maiores e mais formidáveis perigos da sociedade de hoje, é a agitação dos
Socialistas, que ameaçam levantá-la de seus fundamentos. Deste grande perigo a Itália não está livre; e
embora outras nações possam estar mais infestadas do que a Itália por este espírito de subversão e
desordem, não é entretanto menos verdadeiro que até aqui este espírito está se espalhando largamente e
aumentando a cada dia em força. Tão criminosa é sua natureza, tão grande o poder de sua organização e
a audácia de seus desígnios, que é necessário unir todas as forças conservadoras, se quisermos impedir
seu progresso e evitar com sucesso o seu triunfo. Destas forças a principal, e sobre todas a chefe, é aquela
que pode ser fornecida pela religião e a Igreja: sem isto, as mais estritas leis, os mais severos tribunais, e
até a força das armas, vão se provar sem utilidade e insuficiente. Como, em tempos antigos, a força
material não adiantou contra as hordas dos bárbaros, mas somente o poder da religião Cristã, que
entrando em suas almas apagou sua ferocidade, civilizou suas maneiras, e os fez dóceis à voz da verdade
e à lei do evangelho; do mesmo modo contra a fúria das multidões sem lei não haverá defesa efetiva sem
o salutar poder da religião. É somente este poder que, derramando sobre suas mentes a luz da verdade, e
instilando em seus corações os sagrados preceitos morais de Jesus Cristo, pode fazê-los ouvir a voz da
consciência e do dever, e, antes de restringir suas mãos, restringir suas mentes e acalmar a violência da
paixão.

Atacar a religião, é portanto privar a Itália de seu mais poderoso aliado contra um inimigo que se torna a
cada dia mais formidável.

15. Mas isto não é tudo. Como, na ordem social, a guerra contra a religião está se tornando mais
desastrosa e destrutiva para a Itália, do mesmo modo, na ordem política, a inimizade contra a Santa Sé e o
Pontífice Romano é para a Itália uma fonte dos maiores males. Mesmo quanto a isto, a demonstração não
é necessária; é suficiente, para a completa expressão de Nosso pensamento, declarar em poucas palavras
as suas conclusões. A guerra contra o Papa é para a Itália, internamente, uma causa de profunda divisão
entra a Itália oficial e a grande parte dos italianos que são verdadeiramente Católicos: e toda divisão é
uma fraqueza. Esta guerra priva nossa terra do suporte e da cooperação do partido que é mais
francamente conservador; ela mantém no seio da nação um conflito religioso que nunca trouxe até agora
qualquer bem público, mas até mesmo traz dentro de si os germes fatais do mal e do mais pesado castigo.

Externamente, o conflito com a Santa Sé, além de privar a Itália do prestígio e esplendor que ela com
certeza teria vivendo em paz com o Pontificado, atrai sobre ela a hostilidade dos Católicos de todo o
mundo, é uma causa de imensos sacrifícios, e pode em qualquer ocasião fornecer aos seus inimigos uma
arma para ser usada contra ela.

16. Este é o assim chamado bem-estar e grandeza preparado para a Itália por aqueles que, tendo seus
destinos em suas mãos, fazem tudo que podem, de acordo com as ímpias aspirações das seitas, para
derrubar a religião Católica e o Papado.

17. Suponhamos, ao invés disto, que todas as ligações e conspirações com as seitas fossem deixadas de
lado; que à religião e à Igreja, como o maior poder social, fosse permitida verdadeira liberdade e completo
exercício de seus direitos.

Que feliz mudança viria sobre os destinos da Itália! Os males e os perigos que nós temos lamentado, como
o resultado da guerra contra a religião e a Igreja, cessariam com o término do conflito; e ainda mais, nós
veríamos mais uma vez florescer no solo escolhido da Itália Católica a grandeza e glória que a religião e a
Igreja tem sempre abundantemente produzido. De seus poderes divinos nasceria espontaneamente uma
reforma da moralidade pública e privada; os laços familiares seriam fortalecidos; e sob as influências
religiosas, o sentido de dever e de fidelidade em seu cumprimento seria despertado em todos os níveis do
povo para uma nova vida.

As questões sociais que agora ocupam tanto as mentes dos homens encontrariam seu caminho para a
melhor e mais completa solução, pela aplicação prática dos preceitos evangélicos de caridade e justiça. A
liberdade popular, não permitida a degenerar em licenciosidade, seria dirigida somente para bons fins, e se
tornaria verdadeiramente digna do homem. As ciências, através daquela verdade da qual a Igreja é
senhora, se levantariam rapidamente para uma mais alta excelência; e do mesmo modo as artes, através
da poderosa inspiração que a religião deriva do alto, e que ela sabe como transfundir às mentes dos
homens.

A paz sendo feita com a Igreja, a unidade religiosa e a concórdia civil seriam grandemente fortalecidas; a
separação entre a Itália e os Católicos fiéis à Igreja cessaria, e a Itália iria deste modo adquirir um
poderoso elemento de ordem e estabilidade. As justas demandas do Pontífice Romano sendo satisfeitas, e
seus direitos soberanos reconhecidos, ele seria restaurado a uma condição de verdadeira e efetiva
independência; e Católicos de outras partes do mundo, que, não através da influência exterior da
ignorância do que desejam, mas através de um sentimento de fé e sentido do dever, levantam suas vozes
em defesa da dignidade e liberdade do supremo Pastor de suas almas, não teriam mais razão para
considerar a Itália como inimiga do Pontífice.

Ao contrário, a Itália ganharia um maior respeito e estima das outras nações por viver em harmonia com a
Sé Apostólica; pois não somente tem esta Sé conferido especiais benefícios aos italianos por sua presença
em meio a eles, mas também, pela constante difusão dos tesouros da fé deste centro de bênção e
salvação, ela fez o nome italiano grande e respeitado entre todas as nações. A Itália reconciliada com o
Pontífice, e fiel à sua religião, seria capaz de dignamente emular a glória de seus antigos tempos; e de
qualquer progresso real que haja na época atual ela receberia um novo impulso para avançar em seu
glorioso caminho. Roma, preeminentemente a cidade Católica, destinada por Deus para ser o centro da
religião de Cristo e a Sede de Seu Vigário, tem tido nisso a causa de sua estabilidade e grandeza através
das momentosas mudanças das muitas épocas que passaram. Colocada novamente sob o pacífico e
paternal cetro do Pontífice Romano, ela se tornaria novamente o que a Providência e o curso das épocas a
fizeram ― não encolhida à condição de capital de um reino, nem dividida entre dois poderes soberanos
diferentes em um dualismo contrário à toda sua história; mas a digna capital do mundo Católico, grande
com toda a majestade da Religião e do supremo Sacerdócio, uma mestra e um exemplo para todas as
nações da moralidade e da civilização.

18. Estas não são vãs ilusões, Veneráveis Irmãos, mas esperanças repousando sobre o mais sólido e
verdadeiro fundamento. A sentença que tem sido por algum tempo comumente repetida, que os Católicos
e o Pontífice são os inimigos da Itália, e aliados, por assim dizer, daqueles que derrubariam tudo, é um
insulto gratuito e uma desavergonhada calúnia, ardilosamente espalhada por todos os lugares pelas seitas
para disfarçar seus desígnios perversos, e para capacitá-los a continuar sem obstáculo sua odiosa obra de
desnudar a Itália de seu caráter Católico. A verdade que é vista da maneira mais clara daquilo que nós
dissemos até agora, é que os Católicos são os melhores amigos da Itália. Mantendo-se completamente
distantes das seitas, renunciando ao seu espírito e às suas obras, lutando de todos os modos para que a
Itália não perca a sua fé, mas a preserve em todo seu vigor ― para que não lute contra a Igreja, mas seja
sua fiel filha, ― para que não ataque o Pontificado, mas se reconcilie com ele, ― os Católicos dão prova
por tudo isto de seu amor forte e verdadeiro pela religião de seus ancestrais e por sua terra.

Fazei tudo que puderdes, Veneráveis Irmãos, para difundir a luz da verdade entre o povo para que eles
possam chegar finalmente ao entendimento de onde seu bem-estar e seu verdadeiro interesse se
encontram; e para que se convençam que somente da fidelidade à religião e da paz com a Igreja e com o
Pontífice Romano, eles podem esperar obter para a Itália um futuro digno de seu glorioso passado.

Para isto Nós chamaríamos a atenção, não daqueles afiliados às seitas, cujo propósito deliberado é
estabelecer a nova edificação da Península Italiana sobre as ruínas da Religião Católica; mas de outros
que, sem acolherem tais desígnios malévolos, ajudam estes homens em suas obras dando suporte à sua
política; e especialmente dos jovens rapazes, que estão tão sujeitos a se extraviarem pela inexperiência e
predominância do mero sentimento. Nós desejaríamos que todos se convencessem que o curso que agora
é seguido não pode ser senão fatal para a Itália; e, em fazer este perigo mais uma vez conhecido, Nós
somos movidos somente por uma consciência de dever e pelo amor à nossa terra.

19. Mas, para a iluminação das mentes dos homens, nós devemos acima de tudo pedir pelo especial auxílio
do céu. Portanto, à nossa unida ação, Veneráveis Irmãos, nós precisamos juntar a oração; e que seja uma
oração geral, constante, e fervorosa: uma oração que irá oferecer gentil violência ao coração de Deus e
fazê-lO misericordioso à Itália nosso país, para que Ele desvie dela toda calamidade, especialmente aquela
que seria a mais terrível, a perda da fé. Tomemos como nossa medianeira junto a Deus a gloriosíssima
VIRGEM MARIA, a invencível Rainha do Rosário, que tem tão grande poder sobre as forças do inferno, e
por tantas vezes fez a Itália sentir os efeitos de Seu amor maternal.

Recorramos também com confiança aos santos Apóstolos PEDRO e PAULO, que sujeitaram esta terra
abençoada à fé, santificaram-na por seus trabalhos, e a banharam em seu sangue.

20. Como uma garantia enquanto isso do auxílio que Nós pedimos, e como símbolo de Nossa mais especial
afeição, recebei a Bênção Apostólica, que do fundo de Nosso coração Nós vos concedemos, Veneráveis
Irmãos, ao vosso Clero, e ao povo italiano.

Dado em Roma, junto de São Pedro, a 15 de outubro de 1890, o décimo terceiro ano de Nosso Pontificado.

PAPA LEÃO PP. XIII

Referência:

[1] S. Gregório o Grande: Carta ao Imperador Maurício, Reg. 5.

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_18901015_apostolico-
seggio.html

CARTA ENCÍCLICA

QUAMQUAM PLURIES
DEL SUMO PONTÍFICE

LEÓN XIII

SOBRE LA DEVOCIÓN A SAN JOSÉ

A nuestros Venerables Hermanos los Patriarcas, Primados, Arzobispos


y otros Ordinarios, en paz y unión con la Sede Apostólica.

1. Aunque muchas veces antes Nos hemos dispuesto que se ofrezcan oraciones especiales en el mundo
entero, para que las intenciones del Catolicismo puedan ser insistentemente encomendadas a Dios, nadie
considerará como motivo de sorpresa que Nos consideremos el momento presente como oportuno para
inculcar nuevamente el mismo deber. Durante periodos de tensión y de prueba —sobre todo cuando
parece en los hechos que toda ausencia de ley es permitida a los poderes de la oscuridad— ha sido
costumbre en la Iglesia suplicar con especial fervor y perseverancia a Dios, su autor y protector,
recurriendo a la intercesión de los santos —y sobre todo de la Santísima Virgen María, Madre de Dios—
cuya tutela ha sido siempre muy eficaz. El fruto de esas piadosas oraciones y de la confianza puesta en la
bondad divina, ha sido siempre, tarde o temprano, hecha patente. Ahora, Venerables Hermanos, ustedes
conocen los tiempos en los que vivimos; son poco menos deplorables para la religión cristiana que los
peores días, que en el pasado estuvieron llenos de miseria para la Iglesia. Vemos la fe, raíz de todas las
virtudes cristianas, disminuir en muchas almas; vemos la caridad enfriarse; la joven generación
diariamente con costumbres y puntos de vista más depravados; la Iglesia de Jesucristo atacada por todo
flanco abiertamente o con astucia; una implacable guerra contra el Soberano Pontífice; y los fundamentos
mismos de la religión socavados con una osadía que crece diariamente en intensidad. Estas cosas son, en
efecto, tan notorias que no hace falta que nos extendamos acerca de las profundidades en las que se ha
hundido la sociedad contemporánea, o acerca de los proyectos que hoy agitan las mentes de los hombres.
Ante circunstancias tan infaustas y problemáticas, los remedios humanos son insuficientes, y se hace
necesario, como único recurso, suplicar la asistencia del poder divino.

2. Este es el motivo por el que Nos hemos considerado necesario dirigirnos al pueblo cristiano y exhortarlo
a implorar, con mayor celo y constancia, el auxilio de Dios Todopoderoso. Estando próximos al mes de
octubre, que hemos consagrado a la Virgen María, bajo la advocación de Nuestra Señora del Rosario, Nos
exhortamos encarecidamente a los fieles a que participen de las actividades de este mes, si es posible, con
aún mayor piedad y constancia que hasta ahora. Sabemos que tenemos una ayuda segura en la maternal
bondad de la Virgen, y estamos seguros de que jamás pondremos en vano nuestra confianza en ella. Si, en
innumerables ocasiones, ella ha mostrado su poder en auxilio del mundo cristiano, ¿por qué habríamos de
dudar de que ahora renueve la asistencia de su poder y favor, si en todas partes se le ofrecen humildes y
constantes plegarias? No, por el contrario creemos en que su intervención será de lo más extraordinaria, al
habernos permitido elevarle nuestras plegarias, por tan largo tiempo, con súplicas tan especiales. Pero Nos
tenemos en mente otro objeto, en el cual, de acuerdo con lo acostumbrado en ustedes, Venerables
Hermanos, avanzarán con fervor. Para que Dios sea más favorable a nuestras oraciones, y para que Él
venga con misericordia y prontitud en auxilio de Su Iglesia, Nos juzgamos de profunda utilidad para el
pueblo cristiano, invocar continuamente con gran piedad y confianza, junto con la Virgen-Madre de Dios,
su casta Esposa, a San José; y tenemos plena seguridad de que esto será del mayor agrado de la Virgen
misma. Con respecto a esta devoción, de la cual Nos hablamos públicamente por primera vez el día de hoy,
sabemos sin duda que no sólo el pueblo se inclina a ella, sino que de hecho ya se encuentra establecida, y
que avanza hacia su pleno desarrollo. Hemos visto la devoción a San José, que en el pasado han
desarrollado y gradualmente incrementado los Romanos Pontífices, crecer a mayores proporciones en
nuestro tiempo, particularmente después que Pío IX, de feliz memoria, nuestro predecesor, proclamase,
dando su consentimiento a la solicitud de un gran número de obispos, a este santo patriarca como el
Patrono de la Iglesia Católica. Y puesto que, más aún, es de gran importancia que la devoción a San José
se introduzca en las prácticas diarias de piedad de los católicos, Nos deseamos exhortar a ello al pueblo
cristiano por medio de nuestras palabras y nuestra autoridad.

3. Las razones por las que el bienaventurado José debe ser considerado especial patrono de la Iglesia, y
por las que a su vez, la Iglesia espera muchísimo de su tutela y patrocinio, nacen principalmente del hecho
de que él es el esposo de María y padre putativo de Jesús. De estas fuentes ha manado su dignidad, su
santidad, su gloria. Es cierto que la dignidad de Madre de Dios llega tan alto que nada puede existir más
sublime; mas, porque entre la santísima Virgen y José se estrechó un lazo conyugal, no hay duda de que a
aquella altísima dignidad, por la que la Madre de Dios supera con mucho a todas las criaturas, él se acercó
más que ningún otro. Ya que el matrimonio es el máximo consorcio y amistad —al que de por sí va unida
la comunión de bienes— se sigue que, si Dios ha dado a José como esposo a la Virgen, se lo ha dado no
sólo como compañero de vida, testigo de la virginidad y tutor de la honestidad, sino también para que
participase, por medio del pacto conyugal, en la excelsa grandeza de ella. El se impone entre todos por su
augusta dignidad, dado que por disposición divina fue custodio y, en la creencia de los hombres, padre del
Hijo de Dios. De donde se seguía que el Verbo de Dios se sometiera a José, le obedeciera y le diera aquel
honor y aquella reverencia que los hijos deben a sus propio padres. De esta doble dignidad se siguió la
obligación que la naturaleza pone en la cabeza de las familias, de modo que José, en su momento, fue el
custodio legítimo y natural, cabeza y defensor de la Sagrada Familia. Y durante el curso entero de su vida
él cumplió plenamente con esos cargos y esas responsabilidades. El se dedicó con gran amor y diaria
solicitud a proteger a su esposa y al Divino Niño; regularmente por medio de su trabajo consiguió lo que
era necesario para la alimentación y el vestido de ambos; cuidó al Niño de la muerte cuando era
amenazado por los celos de un monarca, y le encontró un refugio; en las miserias del viaje y en la
amargura del exilio fue siempre la compañía, la ayuda y el apoyo de la Virgen y de Jesús. Ahora bien, el
divino hogar que José dirigía con la autoridad de un padre, contenía dentro de sí a la apenas naciente
Iglesia. Por el mismo hecho de que la Santísima Virgen es la Madre de Jesucristo, ella es la Madre de todos
los cristianos a quienes dio a luz en el Monte Calvario en medio de los supremos dolores de la Redención;
Jesucristo es, de alguna manera, el primogénito de los cristianos, quienes por la adopción y la Redención
son sus hermanos. Y por estas razones el Santo Patriarca contempla a la multitud de cristianos que
conformamos la Iglesia como confiados especialmente a su cuidado, a esta ilimitada familia, extendida por
toda la tierra, sobre la cual, puesto que es el esposo de María y el padre de Jesucristo, conserva cierta
paternal autoridad. Es, por tanto, conveniente y sumamente digno del bienaventurado José que, lo mismo
que entonces solía tutelar santamente en todo momento a la familia de Nazaret, así proteja ahora y
defienda con su celeste patrocinio a la Iglesia de Cristo.

4. Ustedes comprenden bien, Venerables Hermanos, que estas consideraciones se encuentran confirmadas
por la opinión sostenida por un gran número de los Padres, y que la sagrada liturgia reafirma, que el José
de los tiempos antiguos, hijo del patriarca Jacob, era tipo de San José, y el primero por su gloria prefiguró
la grandeza del futuro custodio de la Sagrada Familia. Y ciertamente, más allá del hecho de haber recibido
el mismo nombre —un punto cuya relevancia no ha sido jamás negada— , ustedes conocen bien las
semejanzas que existen entre ellos; principalmente, que el primer José se ganó el favor y la especial
benevolencia de su maestro, y que gracias a la administración de José su familia alcanzó la prosperidad y
la riqueza; que —todavía más importante— presidió sobre el reino con gran poder, y, en un momento en
que las cosechas fracasaron, proveyó por todas las necesidades de los egipcios con tanta sabiduría que el
Rey decretó para él el título de "Salvador del mundo". Por esto es que Nos podemos prefigurar al nuevo en
el antiguo patriarca. Y así como el primero fue causa de la prosperidad de los intereses domésticos de su
amo y a la vez brindó grandes servicios al reino entero, así también el segundo, destinado a ser el custodio
de la religión cristiana, debe ser tenido como el protector y el defensor de la Iglesia, que es
verdaderamente la casa del Señor y el reino de Dios en la tierra. Estas son las razones por las que hombres
de todo tipo y nación han de acercarse a la confianza y tutela del bienaventurado José. Los padres de
familia encuentran en José la mejor personificación de la paternal solicitud y vigilancia; los esposos, un
perfecto de amor, de paz, de fidelidad conyugal; las vírgenes a la vez encuentran en él el modelo y
protector de la integridad virginal. Los nobles de nacimiento aprenderán de José como custodiar su
dignidad incluso en las desgracias; los ricos entenderán, por sus lecciones, cuáles son los bienes que han
de ser deseados y obtenidos con el precio de su trabajo. En cuanto a los trabajadores, artesanos y
personas de menor grado, su recurso a San José es un derecho especial, y su ejemplo está para su
particular imitación. Pues José, de sangre real, unido en matrimonio a la más grande y santa de las
mujeres, considerado el padre del Hijo de Dios, pasó su vida trabajando, y ganó con la fatiga del artesano
el necesario sostén para su familia. Es, entonces, cierto que la condición de los más humildes no tiene en sí
nada de vergonzoso, y el trabajo del obrero no sólo no es deshonroso, sino que, si lleva unida a sí la
virtud, puede ser singularmente ennoblecido. José, contento con sus pocas posesiones, pasó las pruebas
que acompañan a una fortuna tan escasa, con magnanimidad, imitando a su Hijo, quien habiendo tomado
la forma de siervo, siendo el Señor de la vida, se sometió a sí mismo por su propia libre voluntad al
despojo y la pérdida de todo.

5. Por medio de estas consideraciones, los pobres y aquellos que viven con el trabajo de sus manos han de
ser de buen corazón y aprender a ser justos. Si ganan el derecho de dejar la pobreza y adquirir un mejor
nivel por medios legítimos, que la razón y la justicia los sostengan para cambiar el orden establecido, en
primer instancia, para ellos por la Providencia de Dios. Pero el recurso a la fuerza y a las querellas por
caminos de sedición para obtener tales fines son locuras que sólo agravan el mal que intentan suprimir.
Que los pobres, entonces, si han de ser sabios, no confíen en las promesas de los hombres sediciosos, sino
más bien en el ejemplo y patrocinio del bienaventurado José, y en la maternal caridad de la Iglesia, que
cada día tiene mayor compasión de ellos.

6. Es por esto que —confiando mucho en su celo y autoridad episcopal, Venerables hermanos, y sin dudar
que los fieles buenos y piadosos irán más allá de la mera letra de la ley— disponemos que durante todo el
mes de octubre, durante el rezo del Rosario, sobre el cual ya hemos legislado, se añada una oración a San
José, cuya fórmula será enviada junto con la presente, y que esta costumbre sea repetida todos los años.
A quienes reciten esta oración, les concedemos cada vez una indulgencia de siete años y siete cuaresmas.
Es una práctica saludable y verdaderamente laudable, ya establecida en algunos países, consagrar el mes
de marzo al honor del santo Patriarca por medio de diarios ejercicios de piedad. Donde esta costumbre no
sea fácil de establecer, es al menos deseable, que antes del día de fiesta, en la iglesia principal de cada
parroquia, se celebre un triduo de oración. En aquellas tierras donde el 19 de marzo —fiesta de San José—
no es una festividad obligatoria, Nos exhortamos a los fieles a santificarla en cuanto sea posible por medio
de prácticas privadas de piedad, en honor de su celestial patrono, como si fuera un día de obligación.
7. Como prenda de celestiales favores, y en testimonio de nuestra buena voluntad, impartimos muy
afectuosamente en el Señor, a ustedes, Venerables Hermanos, a su clero y a su pueblo, la bendición
apostólica.

Dado en el Vaticano, el 15 de agosto de 1889, undécimo año de nuestro pontificado.

LEÓN PP. XIII

Oración a San José

A ti, bienaventurado san José, acudimos en nuestra tribulación, y después de implorar el auxilio de tu
santísima esposa, solicitamos también confiadamente tu patrocinio.

Con aquella caridad que te tuvo unido con la Inmaculada Virgen María, Madre de Dios, y por el paterno
amor con que abrazaste al Niño Jesús, humildemente te suplicamos que vuelvas benigno los ojos a la
herencia que con su Sangre adquirió Jesucristo, y con tu poder y auxilio socorras nuestras necesidades.

Protege, oh providentísimo Custodio de la divina Familia, la escogida descendencia de Jesucristo; aleja de


nosotros, oh padre amantísimo, este flagelo de errores y vicios. Asístenos propicio desde el cielo, en esta
lucha contra el poder de las tinieblas; y como en otro tiempo libraste de la muerte la vida amenazada del
Niño Jesús, así ahora defiende a la santa Iglesia de

Dios de las hostiles insidias y de toda adversidad.


Y a cada uno de nosotros protégenos con tu constante patrocinio, para que, a ejemplo tuyo, y sostenidos
por tu auxilio, podamos vivir y morir santamente y alcanzar en los cielos la eterna bienaventuranza. Amén

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/es/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_15081889_quamquam-
pluries.html

CARTA ENCÍCLICA

LIBERTAS PRAESTANTISSIMUM
DEL SUMO PONTÍFICE

LEÓN XIII

SOBRE LA LIBERTAD Y EL LIBERALISMO

l. La libertad, don excelente de la Naturaleza, propio y exclusivo de los seres racionales, confiere al hombre
la dignidad de estar en manos de su albedrío[1] y de ser dueño de sus acciones. Pero lo más importante
en esta dignidad es el modo de su ejercicio, porque del uso de la libertad nacen los mayores bienes y los
mayores males. Sin duda alguna, el hombre puede obedecer a la razón, practicar el bien moral, tender por
el camino recto a su último fin. Pero el hombre puede también seguir una dirección totalmente contraria y,
yendo tras el espejismo de unas ilusorias apariencias, perturbar el orden debido y correr a su perdición
voluntaria.

Jesucristo, liberador del género humano, que vino para restaurar y acrecentar la dignidad antigua de la
Naturaleza, ha socorrido de modo extraordinario la voluntad del hombre y la ha levantado a un estado
mejor, concediéndole, por una parte, los auxilios de su gracia y abriéndole, por otra parte, la perspectiva
de una eterna felicidad en los cielos. De modo semejante, la Iglesia ha sido y será siempre benemérita de
este preciado don de la Naturaleza, porque su misión es precisamente la conservación, a lo largo de la
Historia, de los bienes que hemos adquirido por medio de Jesucristo. Son, sin embargo, muchos los
hombres para los cuales la Iglesia es enemiga de la libertad humana. La causa de este perjuicio reside en
una errónea y adulterada idea de la libertad. Porque, al alterar su contenido, o al darle una extensión
excesiva, como le dan, pretenden incluir dentro del ámbito de la libertad cosas que quedan fuera del
concepto exacto de libertad.

2. Nos hemos hablado ya en otras ocasiones, especialmente en la encíclica Immortale Dei[2], sobre las
llamadas libertades modernas, separando lo que en éstas hay de bueno de lo que en ellas hay de malo.
Hemos demostrado al mismo tiempo que todo lo bueno que estas libertades presentan es tan antiguo
como la misma verdad, y que la Iglesia lo ha aprobado siempre de buena voluntad y lo ha incorporado
siempre a la práctica diaria de su vida. La novedad añadida modernamente, si hemos de decir la verdad,
no es más que una auténtica corrupción producida por las turbulencias de la época y por la inmoderada
fiebre de revoluciones. Pero como son muchos los que se obstinan en ver, aun en los aspectos viciosos de
estas libertades, la gloria suprema de nuestros tiempos y el fundamento necesario de toda constitución
política, como si fuera imposible concebir sin estas libertades el gobierno perfecto del Estado, nos ha
parecido necesario, para la utilidad de todos, tratar con particular atención este asunto.

I. DOCTRINA CATÓLICA SOBRE LA LIBERTAD

Libertad natural

3. El objeto directo de esta exposición es la libertad moral, considerada tanto en el individuo como en la
sociedad. Conviene, sin embargo, al principio exponer brevemente algunas ideas sobre la libertad natural,
pues si bien ésta es totalmente distinta de la libertad moral, es, sin embargo, la fuente y el principio de
donde nacen y derivan espontáneamente todas las especies de libertad. El juicio recto y el sentido común
de todos los hombres, voz segura de la Naturaleza, reconoce esta libertad solamente en los seres que
tienen inteligencia o razón; y es esta libertad la que hace al hombre responsable de todos sus actos. No
podía ser de otro modo. Porque mientras los animales obedecen solamente a sus sentidos y bajo el
impulso exclusivo de la naturaleza buscan lo que les es útil y huyen lo que les es perjudicial, el hombre
tiene a la razón como guía en todas y en cada una de las acciones de su vida. Pero la razón, a la vista de
los bienes de este mundo, juzga de todos y de cada uno de ellos que lo mismo pueden existir que no
existir; y concluyendo, por esto mismo, que ninguno de los referidos bienes es absolutamente necesario, la
razón da a la voluntad el poder de elegir lo que ésta quiera. Ahora bien: el hombre puede juzgar de la
contingencia de estos bienes que hemos citado, porque tiene un alma de naturaleza simple, espiritual,
capaz de pensar; un alma que, por su propia entidad, no proviene de las cosas corporales ni depende de
éstas en su conservación, sino que, creada inmediatamente por Dios y muy superior a la común condición
de los cuerpos, tiene un modo propio de vida y un modo no menos propio de obrar; esto es lo que explica
que el hombre, con el conocimiento intelectual de las inmutables y necesarias esencias del bien y de la
verdad, descubra con certeza que estos bienes particulares no son en modo alguno bienes necesarios. De
esta manera, afirmar que el alma humana está libre de todo elemento mortal y dotada de la facultad de
pensar, equivale a establecer la libertad natural sobre su más sólido fundamento.

4. Ahora bien: así como ha sido la Iglesia católica la más alta propagadora y la defensora más constante de
la simplicidad, espiritualidad e inmortalidad del alma humana, así también es la Iglesia la defensora más
firme de la libertad. La Iglesia ha enseñado siempre estas dos realidades y las defiende como dogmas de
fe. Y no sólo esto. Frente a los ataques de los herejes y de los fautores de novedades, ha sido la Iglesia la
que tomó a su cargo la defensa de la libertad y la que libró de la ruina a esta tan excelsa cualidad del
hombre. La historia de la teología demuestra la enérgica reacción de la Iglesia contra los intentos alocados
de los maniqueos y otros herejes. Y, en tiempos más recientes, todos conocen el vigoroso esfuerzo que la
Iglesia realizó, primero en el concilio de Trento y después contra los discípulos de Jansenio, para defender
la libertad del hombre, sin permitir que el fatalismo arraigue en tiempo o en lugar alguno.

Libertad moral

5. La libertad es, por tanto, como hemos dicho, patrimonio exclusivo de los seres dotados de inteligencia o
razón. Considerada en su misma naturaleza, esta libertad no es otra cosa que la facultad de elegir entre los
medios que son aptos para alcanzar un fin determinado, en el sentido de que el que tiene facultad de
elegir una cosa entre muchas es dueño de sus propias acciones. Ahora bien: como todo lo que uno elige
como medio para obtener otra cosa pertenece al género del denominado bien útil, y el bien por su propia
naturaleza tiene la facultad de mover la voluntad, por esto se concluye que la libertad es propia de la
voluntad, o más exactamente, es la voluntad misma, en cuanto que ésta, al obrar, posee la facultad de
elegir. Pero el movimiento de la voluntad es imposible si el conocimiento intelectual no la precede
iluminándola como una antorcha, o sea, que el bien deseado por la voluntad es necesariamente bien en
cuanto conocido previamente por la razón. Tanto más cuanto que en todas las voliciones humanas la
elección es posterior al juicio sobre la verdad de los bienes propuestos y sobre el orden de preferencia que
debe observarse en éstos. Pero el juicio es, sin duda alguna, acto de la razón, no de la voluntad. Si la
libertad, por tanto, reside en la voluntad, que es por su misma naturaleza un apetito obediente a la razón,
síguese que la libertad, lo mismo que la voluntad, tiene por objeto un bien conforme a la razón. No
obstante, como la razón y la voluntad son facultades imperfectas, puede suceder, y sucede muchas veces,
que la razón proponga a la voluntad un objeto que, siendo en realidad malo, presenta una engañosa
apariencia de bien, y que a él se aplique la voluntad. Pero así como la posibilidad de errar y el error de
hecho es un defecto que arguye un entendimiento imperfecto, así también adherirse a un bien engañoso y
fingido, aun siendo indicio de libre albedrío, como la enfermedad es señal de la vida, constituye, sin
embargo, un defecto de la libertad. De modo parecido, la voluntad, por el solo hecho de su dependencia
de la razón, cuando apetece un objeto que se aparta de la recta razón, incurre en el defecto radical de
corromper y abusar de la libertad. Y ésta es la causa de que Dios, infinitamente perfecto, y que por ser
sumamente inteligente y bondad por esencia es sumamente libre, no pueda en modo alguno querer el mal
moral; como tampoco pueden quererlo los bienaventurados del cielo, a causa de la contemplación del bien
supremo. Esta era la objeción que sabiamente ponían San Agustín y otros autores contra los pelagianos. Si
la posibilidad de apartarse del bien perteneciera a la esencia y a la perfección de la libertad, entonces Dios,
Jesucristo, los ángeles y los bienaventurados, todos los cuales carecen de ese poder, o no serían libres o,
al menos, no lo serían con la misma perfección que el hombre en estado de prueba e imperfección.

El Doctor Angélico se ha ocupado con frecuencia de esta cuestión, y de sus exposiciones se puede concluir
que la posibilidad de pecar no es una libertad, sino una esclavitud. Sobre las palabras de Cristo, nuestro
Señor, el que comete pecado es siervo del pecado[3], escribe con agudeza: «Todo ser es lo que le
conviene ser por su propia naturaleza. Por consiguiente, cuando es movido por un agente exterior, no obra
por su propia naturaleza, sino por un impulso ajeno, lo cual es propio de un esclavo. Ahora bien: el
hombre, por su propia naturaleza, es un ser racional. Por tanto, cuando obra según la razón, actúa en
virtud de un impulso propio y de acuerdo con su naturaleza, en lo cual consiste precisamente la libertad;
pero cuando peca, obra al margen de la razón, y actúa entonces lo mismo que si fuese movido por otro y
estuviese sometido al dominio ajeno; y por esto, el que comete el pecado es siervo del pecado»[4]. Es lo
que había visto con bastante claridad la filosofía antigua, especialmente los que enseñaban que sólo el
sabio era libre, entendiendo por sabio, como es sabido, aquel que había aprendido a vivir según la
naturaleza, es decir, de acuerdo con la moral y la virtud.

La ley

6. Siendo ésta la condición de la libertad humana, le hacía falta a la libertad una protección y un auxilio
capaces de dirigir todos sus movimientos hacia el bien y de apartarlos del mal. De lo contrario, la libertad
habría sido gravemente perjudicial para el hombre. En primer lugar, le era necesaria una ley, es decir, una
norma de lo que hay que hacer y de lo que hay que evitar. La ley, en sentido propio, no puede darse en
los animales, que obran por necesidad, pues realizan todos sus actos por instinto natural y no pueden
adoptar por sí mismos otra manera de acción. En cambio, los seres que gozan de libertad tienen la facultad
de obrar o no obrar, de actuar de esta o de aquella manera, porque la elección del objeto de su volición es
posterior al juicio de la razón, a que antes nos hemos referido. Este juicio establece no sólo lo que es
bueno o lo que es malo por naturaleza, sino además lo que es bueno y, por consiguiente, debe hacerse, y
lo que es malo y, por consiguiente, debe evitarse. Es decir, la razón prescribe a la voluntad lo que debe
buscar y lo que debe evitar para que el hombre pueda algún día alcanzar su último fin, al cual debe dirigir
todas sus acciones. Y precisamente esta ordenación de la razón es lo que se llama ley. Por lo cual la
justificación de la necesidad de la ley para el hombre ha de buscarse primera y radicalmente en la misma
libertad, es decir, en la necesidad de que la voluntad humana no se aparte de la recta razón. No hay
afirmación más absurda y peligrosa que ésta: que el hombre, por ser naturalmente libre, debe vivir
desligado de toda ley. Porque si esta premisa fuese verdadera, la conclusión lógica sería que es esencial a
la libertad andar en desacuerdo con la razón, siendo así que la afirmación verdadera es la contradictoria, o
sea, que el hombre, precisamente por ser libre, ha de vivir sometido a la ley. De este modo es la ley la que
guía al hombre en su acción y es la ley la que mueve al hombre, con el aliciente del premio y con el temor
del castigo, a obrar el bien y a evitar el mal. Tal es la principal de todas las leyes, la ley natural, escrita y
grabada en el corazón de cada hombre, por ser la misma razón humana que manda al hombre obrar el
bien y prohíbe al hombre hacer el mal.

Pero este precepto de la razón humana no podría tener fuerza de ley si no fuera órgano e intérprete de
otra razón más alta, a la que deben estar sometidos nuestro entendimiento y nuestra libertad. Porque
siendo la función de la ley imponer obligaciones y atribuir derechos, la ley se apoya por entero en la
autoridad, esto es, en un poder capaz de establecer obligaciones, atribuir derechos y sancionar además,
por medio de premios y castigos, las órdenes dadas; cosas todas que evidentemente resultan imposibles si
fuese el hombre quien como supremo legislador se diera a sí mismo la regla normativa de sus propias
acciones. Síguese, pues, de lo dicho que la ley natural es la misma ley eterna, que, grabada en los seres
racionales, inclina a éstos a las obras y al fin que les son propios; ley eterna que es, a su vez, la razón
eterna de Dios, Creador y Gobernador de todo el universo.

La gracia sobrenatural

A esta regla de nuestras acciones, a este freno del pecado, la bondad divina ha añadido ciertos auxilios
especiales, aptísimos para dirigir y confirmar la voluntad del hombre. El principal y más eficaz auxilio de
todos estos socorros es la gracia divina, la cual, iluminando el entendimiento y robusteciendo e impulsando
la voluntad hacia el bien moral, facilita y asegura al mismo tiempo, con saludable constancia, el ejercicio de
nuestra libertad natural. Es totalmente errónea la afirmación de que las mociones de la voluntad, a causa
de esta intervención divina, son menos libres. Porque la influencia de la gracia divina alcanza las
profundidades más íntimas del hombre y se armoniza con las tendencias naturales de éste, porque la
gracia nace de aquel que es autor de nuestro entendimiento y de nuestra voluntad y mueve todos los seres
de un modo adecuado a la naturaleza de cada uno. Como advierte el Doctor Angélico, la gracia divina, por
proceder del Creador de la Naturaleza, está admirablemente capacitada para defender todas las
naturalezas individuales y para conservar sus caracteres, sus facultades y su eficacia.

La libertad moral social

7. Lo dicho acerca de la libertad de cada individuo es fácilmente aplicable a los hombres unidos en
sociedad civil. Porque lo que en cada hombre hacen la razón y la ley natural, esto mismo hace en los
asociados la ley humana, promulgada para el bien común de los ciudadanos. Entre estas leyes humanas
hay algunas cuyo objeto consiste en lo que es bueno o malo por naturaleza, añadiendo al precepto de
practicar el bien y de evitar el mal la sanción conveniente. El origen de estas leyes no es en modo alguno
el Estado; porque así como la sociedad no es origen de la naturaleza humana, de la misma manera la
sociedad no es fuente tampoco de la concordancia del bien y de la discordancia del mal con la naturaleza.
Todo lo contrario. Estas leyes son anteriores a la misma sociedad, y su origen hay que buscarlo en la ley
natural y, por tanto, en la ley eterna. Por consiguiente, los preceptos de derecho natural incluidos en las
leyes humanas no tienen simplemente el valor de una ley positiva, sino que además, y principalmente,
incluyen un poder mucho más alto y augusto que proviene de la misma ley natural y de la ley eterna. En
esta clase de leyes la misión del legislador civil se limita a lograr, por medio de una disciplina común, la
obediencia de los ciudadanos, castigando a los perversos y viciosos, para apartarlos del mal y devolverlos
al bien, o para impedir, al menos, que perjudiquen a la sociedad y dañen a sus conciudadanos.

Existen otras disposiciones del poder civil que no proceden del derecho natural inmediata y próximamente,
sino remota e indirectamente, determinando una variedad de cosas que han sido reguladas por la
naturaleza de un modo general y en conjunto. Así, por ejemplo, la naturaleza ordena que los ciudadanos
cooperen con su trabajo a la tranquilidad y prosperidad públicas. Pero la medida, el modo y el objeto de
esta colaboración no están determinados por el derecho natural, sino por la prudencia humana. Estas
reglas peculiares de la convivencia social, determinadas según la razón y promulgadas por la legítima
potestad, constituyen el ámbito de la ley humana propiamente dicha. Esta ley ordena a todos los
ciudadanos colaborar en el fin que la comunidad se propone y les prohíbe desertar de este servicio; y
mientras sigue sumisa y se conforma con los preceptos de la naturaleza, esa ley conduce al bien y aparta
del mal. De todo lo cual se concluye que hay que poner en la ley eterna de Dios la norma reguladora de la
libertad, no sólo de los particulares, sino también de la comunidad social. Por consiguiente, en una
sociedad humana, la verdadera libertad no consiste en hacer el capricho personal de cada uno; esto
provocaría una extrema confusión y una perturbación, que acabarían destruyendo al propio Estado; sino
que consiste en que, por medio de las leyes civiles, pueda cada cual fácilmente vivir según los preceptos de
la ley eterna. Y para los gobernantes la libertad no está en que manden al azar y a su capricho, proceder
criminal que implicaría, al mismo tiempo, grandes daños para el Estado, sino que la eficacia de las leyes
humanas consiste en su reconocida derivación de la ley eterna y en la sanción exclusiva de todo lo que
está contenido en esta ley eterna, como en fuente radical de todo el derecho. Con suma sabiduría lo ha
expresado San Agustín: «Pienso que comprendes que nada hay justo y legítimo en la [ley] temporal que no
lo hayan tomado los hombres de la [ley] eterna»[5]. Si, por consiguiente, tenemos una ley establecida por
una autoridad cualquiera, y esta ley es contraria a la recta razón y perniciosa para el Estado, su fuerza
legal es nula, porque no es norma de justicia y porque aparta a los hombres del bien para el que ha sido
establecido el Estado.

8. Por tanto, la naturaleza de la libertad humana, sea el que sea el campo en que la consideremos, en los
particulares o en la comunidad, en los gobernantes o en los gobernados, incluye la necesidad de obedecer
a una razón suprema y eterna, que no es otra que la autoridad de Dios imponiendo sus mandamientos y
prohibiciones. Y este justísimo dominio de Dios sobre los hombres está tan lejos de suprimir o debilitar
siquiera la libertad humana, que lo que hace es precisamente todo lo contrario: defenderla y
perfeccionarla; porque la perfección verdadera de todo ser creado consiste en tender a su propio fin y
alcanzarlo. Ahora bien: el fin supremo al que debe aspirar la libertad humana no es otro que el mismo
Dios.

La Iglesia, defensora de la verdadera libertad social

9. La Iglesia, aleccionada con las enseñanzas y con los ejemplos de su divino Fundador, ha defendido y
propagado por todas partes estos preceptos de profunda y verdadera doctrina, conocidos incluso por la
sola luz de la razón. Nunca ha cesado la Iglesia de medir con ellos su misión y de educar en ellos a los
pueblos cristianos. En lo tocante a la moral, la ley evangélica no sólo supera con mucho a toda la sabiduría
pagana, sino que además llama abiertamente al hombre y le capacita para una santidad desconocida en la
antigüedad, y, acercándolo más a Dios, le pone en posesión de una libertad más perfecta. De esta manera
ha brillado siempre la maravillosa eficacia de la Iglesia en orden a la defensa y mantenimiento de la
libertad civil y política de los pueblos.

No es necesario enumerar ahora los méritos de la Iglesia en este campo. Basta recordar la esclavitud, esa
antigua vergüenza del paganismo, abolida principalmente por la feliz intervención de la Iglesia. Ha sido
Jesucristo el primero en proclamar la verdadera igualdad jurídica y la auténtica fraternidad de todos los
hombres. Eco fiel de esta enseñanza fue la voz de los dos apóstoles que declaraba suprimidas las
diferencias entre judíos y griegos, bárbaros y escitas[6], y proclamaba la fraternidad de todos en Cristo. La
eficacia de la Iglesia en este punto ha sido tan honda y tan evidente, que dondequiera que la Iglesia quedó
establecida la experiencia ha comprobado que desaparece en poco tiempo la barbarie de las costumbres. A
la brutalidad sucede rápidamente la dulzura; a las tinieblas de la barbarie, la luz de la verdad. Igualmente
nunca ha dejado la Iglesia de derramar beneficios en los pueblos civilizados, resistiendo unas veces el
capricho de los hombres perversos, alejando otras veces de los inocentes y de los débiles las injusticias,
procurando, por último, que los pueblos tuvieran una constitución política que se hiciera amar de los
ciudadanos por su justicia y se hiciera temer de los extraños por su poder.

10. Es, además, una obligación muy seria respetar a la autoridad y obedecer las leyes justas, quedando así
los ciudadanos defendidos de la injusticia de los criminales gracias a la eficacia vigilante de la ley. El poder
legítimo viene de Dios, y el que resiste a da autoridad, resiste a la disposición de Dios[7]. De esta manera,
la obediencia queda dignificada de un modo extraordinario, pues se presta obediencia a la más justa y
elevada autoridad. Pero cuando no existe el derecho de mandar, o se manda algo contrario a la razón, a la
ley eterna, a la autoridad de Dios, es justo entonces desobedecer a los hombres para obedecer a Dios.
Cerrada así la puerta a la tiranía, no lo absorberá todo el Estado. Quedarán a salvo los derechos de cada
ciudadano, los derechos de la familia, los derechos de todos los miembros del Estado, y todos tendrán
amplia participación en la libertad verdadera, que consiste, como hemos demostrado, en poder vivir cada
uno según las leyes y según la recta razón.

II. DOCTRINA DEL LIBERALISMO SOBRE LA LIBERTAD

11. Si los que a cada paso hablan de la libertad entendieran por tal la libertad buena y legítima que
acabamos de describir, nadie osaría acusar a la Iglesia, con el injusto reproche que le hacen, de ser
enemiga de la libertad de los individuos y de la libertad del Estado. Pero son ya muchos los que, imitando a
Lucifer, del cual es aquella criminal expresión: No serviré[8], entienden por libertad lo que es una pura y
absurda licencia. Tales son los partidarios de ese sistema tan extendido y poderoso, y que, tomando el
nombre de la misma libertad, se llaman a sí mismos liberales.

Liberalismo de primer grado

12. El naturalismo o racionalismo en la filosofía coincide con el liberalismo en la moral y en la política, pues
los seguidores del liberalismo aplican a la moral y a la práctica de la vida los mismos principios que
establecen los defensores del naturalismo. Ahora bien: el principio fundamental de todo el racionalismo es
la soberanía de la razón humana, que, negando la obediencia debida a la divina y eterna razón y
declarándose a sí misma independiente, se convierte en sumo principio, fuente exclusiva y juez único de la
verdad. Esta es la pretensión de los referidos seguidores del liberalismo; según ellos no hay en la vida
práctica autoridad divina alguna a la que haya que obedecer; cada ciudadano es ley de sí mismo. De aquí
nace esa denominada moral independiente, que, apartando a la voluntad, bajo pretexto de libertad, de la
observancia de los mandamientos divinos, concede al hombre una licencia ilimitada. Las consecuencias
últimas de estas afirmaciones, sobre todo en el orden social, son fáciles de ver. Porque, cuando el hombre
se persuade que no tiene sobre si superior alguno, la conclusión inmediata es colocar la causa eficiente de
la comunidad civil y política no en un principio exterior o superior al hombre, sino en la libre voluntad de
cada uno; derivar el poder político de la multitud como de fuente primera. Y así como la razón individual es
para el individuo en su vida privada la única norma reguladora de su conducta, de la misma manera la
razón colectiva debe ser para todos la única regla normativa en la esfera de la vida pública. De aquí el
número como fuerza decisiva y la mayoría como creadora exclusiva del derecho y del deber.

Todos estos principios y conclusiones están en contradicción con la razón. Lo dicho anteriormente lo
demuestra. Porque es totalmente contraria a la naturaleza la pretensión de que no existe vínculo alguno
entre el hombre o el Estado y Dios, creador y, por tanto, legislador supremo y universal. Y no sólo es
contraria esa tendencia a la naturaleza humana, sino también a toda la naturaleza creada. Porque todas las
cosas creadas tienen que estar forzosamente vinculadas con algún lazo a la causa que las hizo. Es
necesario a todas las naturalezas y pertenece a la perfección propia de cada una de ellas mantenerse en el
lugar y en el grado que les asigna el orden natural; esto es, que el ser inferior se someta y obedezca al ser
que le es superior. Pero además esta doctrina es en extremo perniciosa, tanto para los particulares como
para los Estados. Porque, si el juicio sobre la verdad y el bien queda exclusivamente en manos de la razón
humana abandonada a sí sola, desaparece toda diferencia objetiva entre el bien y el mal; el vicio y la virtud
no se distinguen ya en el orden de la realidad, sino solamente en el juicio subjetivo de cada individuo; será
lícito cuanto agrade, y establecida una moral impotente para refrenar y calmar las pasiones desordenadas
del alma, quedará espontáneamente abierta la puerta a toda clase de corrupciones. En cuanto a la vida
pública, el poder de mandar queda separado de su verdadero origen natural, del cual recibe toda la
eficacia realizadora del bien común; y la ley, reguladora de lo que hay que hacer y lo que hay que evitar,
queda abandonada al capricho de una mayoría numérica, verdadero plano inclinado que lleva a la tiranía.

La negación del dominio de Dios sobre el hombre y sobre el Estado arrastra consigo como consecuencia
inevitable la ausencia de toda religión en el Estado, y consiguientemente el abandono más absoluto en
todo la referente a la vida religiosa. Armada la multitud con la idea de su propia soberanía, fácilmente
degenera en la anarquía y en la revolución, y suprimidos los frenos del deber y de la conciencia, no queda
más que la fuerza; la fuerza, que es radicalmente incapaz para dominar por sí solas las pasiones desatadas
de las multitudes. Tenemos pruebas convincentes de todas estas consecuencias en la diaria lucha contra
los socialistas y revolucionarios, que desde hace ya mucho tiempo se esfuerzan por sacudir los mismos
cimientos del Estado. Analicen, pues, y determinen los rectos enjuiciadores de la realidad si esta doctrina
es provechosa para la verdadera libertad digna del hombre o si es más bien una teoría corruptora y
destructora de esta libertad.

Liberalismo de segundo grado

13. Es cierto que no todos los defensores del liberalismo están de acuerdo con estas opiniones, terribles
por su misma monstruosidad, contrarias abiertamente a la verdad y causa, como hemos visto, de los
mayores males. Obligados por la fuerza de la verdad, muchos liberales reconocen sin rubor e incluso
afirman espontáneamente que la libertad, cuando es ejercida sin reparar en exceso alguno y con desprecio
de la verdad y de la justicia, es una libertad pervertida que degenera en abierta licencia; y que, por tanto,
la libertad debe ser dirigida y gobernada por la recta razón, y consiguientemente debe quedar sometida al
derecho natural y a la ley eterna de Dios. Piensan que esto basta y niegan que el hombre libre deba
someterse a las leyes que Dios quiera imponerle por un camino distinto al de la razón natural. Pero al
poner esta limitación no son consecuentes consigo mismos. Porque si, como ellos admiten y nadie puede
razonablemente negar, hay que obedecer a la voluntad de Dios legislador, por la total dependencia del
hombre respecto de Dios y por la tendencia del hombre hacia Dios, la consecuencia es que nadie puede
poner límites o condiciones a este poder legislativo de Dios sin quebrantar al mismo tiempo la obediencia
debida a Dios. Más aún: si la razón del hombre llegara a arrogarse el poder de establecer por sí misma la
naturaleza y la extensión de los derechos de Dios y de sus propias obligaciones, el respeto a las leyes
divinas sería una apariencia, no una realidad, y el juicio del hombre valdría más que la autoridad y la
providencia del mismo Dios. Es necesario, por tanto, que la norma de nuestra vida se ajuste continua y
religiosamente no sólo a la ley eterna, sino también a todas y cada una de las demás leyes que Dios, en su
infinita sabiduria, en su infinito poder y por los medios que le ha parecido, nos ha comunicado; leyes que
podemos conocer con seguridad por medio de señales claras e indubitables. Necesidad acentuada por el
hecho de que esta clase de leyes, al tener el mismo principio y el mismo autor que la ley eterna,
concuerdan enteramente con la razón, perfeccionan el derecho natural e incluyen además el magisterio del
mismo Dios, quien, para que nuestro entendimiento y nuestra voluntad no caigan en error, rige a
entrambos benignamente con su amorosa dirección. Manténgase, pues, santa e inviolablemente unido lo
que no puede ni debe ser separado, y sírvase a Dios en todas las cosas, como lo ordena la misma razón
natural, con toda sumisión y obediencia.

Liberalismo de tercer grado

14. Hay otros liberales algo más moderados, pero no por esto más consecuentes consigo mismos; estos
liberales afirman que, efectivamente, las leyes divinas deben regular la vida y la conducta de los
particulares, pero no la vida y la conducta del Estado; es lícito en la vida política apartarse de los preceptos
de Dios y legislar sin tenerlos en cuenta para nada. De esta noble afirmación brota la perniciosa
consecuencia de que es necesaria la separación entre la Iglesia y el Estado. Es fácil de comprender el
absurdo error de estas afirmaciones.

Es la misma naturaleza la que exige a voces que la sociedad proporcione a los ciudadanos medios
abundantes y facilidades para vivir virtuosamente, es decir, según las leyes de Dios, ya que Dios es el
principio de toda virtud y de toda justicia. Por esto, es absolutamente contrario a la naturaleza que pueda
lícitamente el Estado despreocuparse de esas leyes divinas o establecer una legislación positiva que las
contradiga. Pero, además, los gobernantes tienen, respecto de la sociedad, la obligación estricta de
procurarle por medio de una prudente acción legislativa no sólo la prosperidad y los bienes exteriores, sino
también y principalmente los bienes del espíritu. Ahora bien: en orden al aumento de estos bienes
espirituales, nada hay ni puede haber más adecuado que las leyes establecidas por el mismo Dios. Por esta
razón, los que en el gobierno de Estado pretenden desentenderse de las leyes divinas desvían el poder
político de su propia institución y del orden impuesto por la misma naturaleza.

Pero hay otro hecho importante, que Nos mismo hemos subrayado más de una vez en otras ocasiones: el
poder político y el poder religioso, aunque tienen fines y medios específicamente distintos, deben, sin
embargo, necesariamente, en el ejercicio de sus respectivas funciones, encontrarse algunas veces. Ambos
poderes ejercen su autoridad sobre los mismos hombres, y no es raro que uno y otro poder legislen acerca
de una misma materia, aunque por razones distintas. En esta convergencia de poderes, el conflicto sería
absurdo y repugnaría abiertamente a la infinita sabiduría de la voluntad divina; es necesario, por tanto, que
haya un medio, un procedimiento para evitar los motivos de disputas y luchas y para establecer un acuerdo
en la práctica. Acertadamente ha sido comparado este acuerdo a la unión del alma con el cuerpo, unión
igualmente provechosa para ambos, y cuya desunión, por el contrario, es perniciosa particularmente para
el cuerpo, que con ella pierde la vida.

III. LAS CONQUISTAS DEL LIBERALISMO

Libertad de cultos

15. Para dar mayor claridad a los puntos tratados es conveniente examinar por separado las diversas
clases de libertad, que algunos proponen como conquistas de nuestro tiempo. En primer lugar
examinemos, en relación con los particulares, esa libertad tan contraria a la virtud de la religión, la llamada
libertad de cultos, libertad fundada en la tesis de que cada uno puede, a su arbitrio, profesar la religión
que prefiera o no profesar ninguna. Esta tesis es contraria a la verdad. Porque de todas las obligaciones del
hombre, la mayor y más sagrada es, sin duda alguna, la que nos manda dar a Dios el culto de la religión y
de la piedad. Este deber es la consecuencia necesaria de nuestra perpetua dependencia de Dios, de
nuestro gobierno por Dios y de nuestro origen primero y fin supremo, que es Dios. Hay que añadir,
además, que sin la virtud de la religión no es posible virtud auténtica alguna, porque la virtud moral es
aquella virtud cuyos actos tienen por objeto todo lo que nos lleva a Dios, considerado como supremo y
último bien del hombre; y por esto, la religión, cuyo oficio es realizar todo lo que tiene por fin directo e
inmediato el honor de Dios[9], es la reina y la regla a la vez de todas las virtudes. Y si se pregunta cuál es
la religión que hay que seguir entre tantas religiones opuestas entre sí, la respuesta la dan al unísono la
razón y naturaleza: la religión que Dios ha mandado, y que es fácilmente reconocible por medio de ciertas
notas exteriores con las que la divina Providencia ha querido distinguirla, para evitar un error, que, en
asunto de tanta trascendencia, implicaría desastrosas consecuencias. Por esto, conceder al hombre esta
libertad de cultos de que estamos hablando equivale a concederle el derecho de desnaturalizar
impunemente una obligación santísima y de ser infiel a ella, abandonando el bien para entregarse al mal.
Esto, lo hemos dicho ya, no es libertad, es una depravación de la libertad y una esclavitud del alma
entregada al pecado.

16. Considerada desde el punto de vista social y político, esta libertad de cultos pretende que el Estado no
rinda a Dios culto alguno o no autorice culto público alguno, que ningún culto sea preferido a otro, que
todos gocen de los mismos derechos y que el pueblo no signifique nada cuando profesa la religión católica.
Para que estas pretensiones fuesen acertadas haría falta que los deberes del Estado para con Dios fuesen
nulos o pudieran al menos ser quebrantados impunemente por el Estado. Ambos supuestos son falsos.
Porque nadie puede dudar que la existencia de la sociedad civil es obra de la voluntad de Dios, ya se
considere esta sociedad en sus miembros, ya en su forma, que es la autoridad; ya en su causa, ya en los
copiosos beneficios que proporciona al hombre. Es Dios quien ha hecho al hombre sociable y quien le ha
colocado en medio de sus semejantes, para que las exigencias naturales que él por sí solo no puede colmar
las vea satisfechas dentro de la sociedad. Por esto es necesario que el Estado, por el mero hecho de ser
sociedad, reconozca a Dios como Padre y autor y reverencie y adore su poder y su dominio. La justicia y la
razón prohíben, por tanto, el ateísmo del Estado, o, lo que equivaldría al ateísmo, el indiferentismo del
Estado en materia religiosa, y la igualdad jurídica indiscriminada de todas las religiones. Siendo, pues,
necesaria en el Estado la profesión pública de una religión, el Estado debe profesar la única religión
verdadera, la cual es reconocible con facilidad, singularmente en los pueblos católicos, puesto que en ella
aparecen como grabados los caracteres distintivos de la verdad. Esta es la religión que deben conservar y
proteger los gobernantes, si quieren atender con prudente utilidad, como es su obligación, a la comunidad
política. Porque el poder político ha sido constituido para utilidad de los gobernados. Y aunque el fin
próximo de su actuación es proporcionar a los ciudadanos la prosperidad de esta vida terrena, sin
embargo, no debe disminuir, sino aumentar, al ciudadano las facilidades para conseguir el sumo y último
bien, en que está la sempiterna bienaventuranza del hombre, y al cual no puede éste llegar si se descuida
la religión.

17. Ya en otras ocasiones hemos hablado ampliamente de este punto[10]. Ahora sólo queremos hacer una
advertencia: la libertad de cultos es muy perjudicial para la libertad verdadera, tanto de los gobernantes
como de los gobernados. La religión, en cambio, es sumamente provechosa para esa libertad, porque
coloca en Dios el origen primero del poder e impone con la máxima autoridad a los gobernantes la
obligación de no olvidar sus deberes, de no mandar con injusticia o dureza y de gobernar a los pueblos con
benignidad y con un amor casi paterno. Por otra parte, la religión manda a los ciudadanos la sumisión a los
poderes legítimos como a representantes de Dios y los une a los gobernantes no solamente por medio de
la obediencia, sino también con un respeto amoroso, prohibiendo toda revolución y todo conato que pueda
turbar el orden y la tranquilidad pública, y que al cabo son causa de que se vea sometida a mayores
limitaciones la libertad de los ciudadanos. Dejamos a un lado la influencia de la religión sobre la sana moral
y la influencia de esta moral sobre la misma libertad. La razón demuestra y la historia confirma este hecho:
la libertad, la prosperidad y la grandeza de un Estado están en razón directa de la moral de sus hombres.

Libertad de expresión y libertad de imprenta

18. Digamos ahora algunas palabras sobre la libertad de expresión y la libertad de imprenta. Resulta casi
innecesario afirmar que no existe el derecho a esta libertad cuando se ejerce sin moderación alguna,
traspasando todo freno y todo límite. Porque el derecho es una facultad moral que, como hemos dicho ya y
conviene repetir con insistencia, no podemos suponer concedida por la naturaleza de igual modo a la
verdad y al error, a la virtud y al vicio Existe el derecho de propagar en la sociedad, con libertad y
prudencia, todo lo verdadero y todo lo virtuoso para que pueda participar de las ventajas de la verdad y
del bien el mayor número posible de ciudadanos. Pero las opiniones falsas, máxima dolencia mortal del
entendimiento humano, y los vicios corruptores del espíritu y de la moral pública deben ser reprimidos por
el poder público para impedir su paulatina propagación, dañosa en extremo para la misma sociedad. Los
errores de los intelectuales depravados ejercen sobre las masas una verdadera tiranía y deben ser
reprimidos por la ley con la misma energía que otro cualquier delito inferido con violencia a los débiles.
Esta represión es aún más necesaria, porque la inmensa mayoría de los ciudadanos no puede en modo
alguno, o a lo sumo con mucha dificultad, prevenirse contra los artificios del estilo y las sutilezas de la
dialéctica, sobre todo cuando éstas y aquéllos son utilizados para halagar las pasiones. Si se concede a
todos una licencia ilimitada en el hablar y en el escribir, nada quedará ya sagrado e inviolable. Ni siquiera
serán exceptuadas esas primeras verdades, esos principios naturales que constituyen el más noble
patrimonio común de toda la humanidad. Se oscurece así poco a poco la verdad con las tinieblas y, como
muchas veces sucede, se hace dueña del campo una numerosa plaga de perniciosos errores. Todo lo que
la licencia gana lo pierde la libertad. La grandeza y la seguridad de la libertad están en razón directa de los
frenos que se opongan a la licencia. Pero en las materias opinables, dejadas por Dios a la libre discusión de
los hombres, está permitido a cada uno tener la opinión que le agrade y exponer libremente la propia
opinión. La naturaleza no se opone a ello, porque esta libertad nunca lleva al hombre a oprimir la verdad.
Por el contrario, muchas veces conduce al hallazgo y manifestación de la verdad.

Libertad de enseñanza

19. Respecto a la llamada libertad de enseñanza, el juicio que hay que dar es muy parecido. Solamente la
verdad debe penetrar en el entendimiento, porque en la verdad encuentran las naturalezas racionales su
bien, su fin y su perfección; por esta razón, la doctrina dada tanto a los ignorantes como a los sabios debe
tener por objeto exclusivo la verdad, para dirigir a los primeros hacia el conocimiento de la verdad y para
conservar a los segundos en la posesión de la verdad. Este es el fundamento de la obligación principal de
los que enseñan: extirpar el error de los entendimientos y bloquear con eficacia el camino a las teorías
falsas. Es evidente, por tanto, que la libertad de que tratamos, al pretender arrogarse el derecho de
enseñarlo todo a su capricho, está en contradicción flagrante con la razón y tiende por su propia naturaleza
a la perversión más completa de los espíritus. El poder público no puede conceder a la sociedad esta
libertad de enseñanza sin quebrantar sus propios deberes. Prohibición cuyo rigor aumenta por dos razones:
porque la autoridad del maestro es muy grande ante los oyentes y porque son muy pocos los discípulos
que pueden juzgar por sí mismos si es verdadero o falso lo que el maestro les explica.

20. Por lo cual es necesario que también esta libertad, si ha de ser virtuosa, quede circunscrita dentro de
ciertos límites, para evitar que la enseñanza se trueque impunemente en instrumento de corrupción. Ahora
bien: la verdad, que debe ser el objeto único de la enseñanza, es de dos clases: una, natural; otra,
sobrenatural.

Las verdades naturales, a las cuales pertenecen los principios naturales y las conclusiones inmediatas
derivadas de éstos por la razón, constituyen el patrimonio común del género humano y el firme
fundamento en que se apoyan la moral, la justicia, la religión y la misma sociedad. Por esto, no hay
impiedad mayor, no hay locura más inhumana que permitir impunemente la violación y la desintegración
de este patrimonio. Con no menor reverencia debe ser conservado el precioso y sagrado tesoro de las
verdades que Dios nos ha dado a conocer por la revelación. Los principales capítulos de esta revelación se
demuestran con muchos argumentos de extraordinario valor, utilizados con frecuencia por los apologistas.
Tales son: el hecho de la revelación divina de algunas verdades, la encarnación del Hijo unigénito de Dios
para dar testimonio de la verdad, la fundación por el mismo Jesucristo de una sociedad perfecta, que es la
Iglesia, cuya cabeza es El mismo, y con la cual prometió estar hasta la consumación de los siglos. A esta
sociedad ha querido encomendar todas las verdades por El enseñadas, con el encargo de guardarlas,
defenderlas y enseñarlas con autoridad legítima. A1 mismo tiempo, ha ordenado a todos los hombres que
obedezcan a la Iglesia igual que a El mismo, amenazando con la ruina eterna a todos los que
desobedezcan este mandato.

Consta, pues, claramente que el mejor y más seguro maestro del hombre es Dios, fuente y principio de
toda verdad; y también el Unigénito, que está en el seno del Padre y es camino, verdad, vida, luz
verdadera que ilumina a todo hombre, a cuya enseñanza deben prestarse todos los hombres dócilmente:
"y serán todos enseñados por Dios"[11]. Ahora bien: en materia de fe y de moral, Dios mismo ha hecho a
la Iglesia partícipe del magisterio divino y le ha concedido el privilegio divino de no conocer el error. Por
esto la Iglesia es la más alta y segura maestra de los mortales y tiene un derecho inviolable a la libertad de
magisterio. Por otra parte, la Iglesia, apoyándose en el firme fundamento de la doctrina revelada, ha
antepuesto, de hecho, a todo el cumplimiento exacto de esta misión que Dios le ha confiado. Superior a las
dificultades que por todas partes la envuelven, no ha dejado jamás de defender la libertad de su
magisterio. Por este camino el mundo entero, liberado de la calamidad de las supersticiones, ha
encontrado en la sabiduría cristiana su total renovación. Y como la razón por sí sola demuestra claramente
que entre las verdades reveladas y las verdades naturales no puede existir oposición verdadera y todo lo
que se oponga a las primeras es necesariamente falso, por esto el divino magisterio de la Iglesia, lejos de
obstaculizar el deseo de saber y el desarrollo en las ciencias o de retardar de alguna manera el progreso de
la civilización, ofrece, por el contrario, en todos estos campos abundante luz y segura garantía. Y por la
misma razón el magisterio eclesiástico es sumamente provechoso para el desenvolvimiento de la libertad
humana, porque es sentencia de Jesucristo, Salvador nuestro, que el hombre se hace libre por la
verdad: conoceréis la verdad, y la verdad os hará libres[12].

No hay, pues, motivo para que la libertad legítima se indigne o la verdadera ciencia lleve a mal las justas y
debidas leyes que la Iglesia y la razón exigen igualmente para regular las ciencias humanas. Más aún: la
Iglesia, como lo demuestra la experiencia a cada paso, al obrar así con la finalidad primordial de defender
la fe cristiana, procura también el fomento y el adelanto de todas las ciencias humanas. Buenos son en sí
mismos y loables y deseables la belleza y la elegancia del estilo. Y todo conocimiento científico que
provenga de un recto juicio y esté de acuerdo con el orden objetivo de las cosas, presta un gran servicio al
esclarecimiento de las verdades reveladas. De hecho, el mundo es deudor a la Iglesia de estos insignes
beneficios: la conservación cuidadosa de los monumentos de la sabiduría antigua; la fundación por todas
partes de universidades científicas; el estímulo constante de la actividad de los ingenios, fomentando con
todo empeño las mismas artes que embellecen la variada cultura de nuestro siglo.

Por último, no debemos olvidar que queda un campo inmenso abierto a los hombres; en el que pueden
éstos extender su industria y ejercitar libremente su ingenio; todo ese conjunto de materias que no tienen
conexión necesaria con la fe y con la moral cristianas, o que la Iglesia, sin hacer uso de su autoridad, deja
enteramente libre al juicio de los sabios. De estas consideraciones se desprende la naturaleza de la libertad
de enseñanza que exigen y propagan con igual empeño los seguidores del liberalismo. Por una parte, se
conceden a sí mismos y conceden al Estado una libertad tan grande, que no dudan dar paso libre a los
errores más peligrosos. Y, por otra parte, ponen mil estorbos a la Iglesia y restringen hasta el máximo la
libertad de ésta, siendo así que de la doctrina de la Iglesia no hay que temer daño alguno, sino que, por el
contrario se pueden esperar de ella toda clase de bienes.

Libertad de conciencia

21. Mucho se habla también de la Ilamada libertad de conciencia. Si esta libertad se entiende en el sentido
de que es lícito a cada uno, según le plazca, dar o no dar culto a Dios, queda suficientemente refutada con
los argumentos expuestos anteriormente. Pero puede entenderse también en el sentido de que el hombre
en el Estado tiene el derecho de seguir, según su conciencia, la voluntad de Dios y de cumplir sus
mandamientos sin impedimento alguno. Esta libertad, la libertad verdadera, la libertad digna de los hijos
de Dios, que protege tan gloriosamente la dignidad de la persona humana, está por encima de toda
violencia y de toda opresión y ha sido siempre el objeto de los deseos y del amor de la Iglesia. Esta es la
libertad que reivindicaron constantemente para sí los apóstoles, ésta es la libertad que confirmaron con sus
escritos los apologistas, ésta es la libertad que consagraron con su sangre los innumerables mártires
cristianos. Y con razón, porque la suprema autoridad de Dios sobre los hombres y el supremo deber del
hombre para con Dios encuentran en esta libertad cristiana un testimonio definitivo. Nada tiene de común
esta libertad cristiana con el espíritu de sedición y de desobediencia. Ni pretende derogar el respeto debido
al poder público, porque el poder humano en tanto tiene el derecho de mandar y de exigir obediencia en
cuanto no se aparta del poder divino y se mantiene dentro del orden establecido por Dios. Pero cuando el
poder humano manda algo claramente contrario a la voluntad divina, traspasa los límites que tiene fijados
y entra en conflicto con la divina autoridad. En este caso es justo no obedecer.

22. Por el contrario, los partidarios del liberalismo, que atribuyen al Estado un poder despótico e ilimitado y
afirman que hemos de vivir sin tener en cuenta para nada a Dios, rechazan totalmente esta libertad de que
hablamos, y que está tan íntimamente unida a la virtud y a la religión. Y califican de delito contra el Estado
todo cuanto se hace para conservar esta libertad cristiana. Si fuesen consecuentes con sus principios el
hombre estaría obligado, según ellos, a obedecer a cualquier gobierno, por muy tiránico que fuese.

IV. LA TOLERANCIA

23. La Iglesia desea ardientemente que en todos los órdenes de la sociedad penetren y se practiquen estas
enseñanzas cristianas que hemos expuesto sumariamente. Todas estas enseñanzas poseen una eficacia
maravillosa para remediar los no escasos ni leves males actuales, nacidos en gran parte de esas mismas
libertades que, pregonadas con tantos ditirambos, parecían albergar dentro de sí las semillas del bienestar
y de la gloria. Estas esperanzas han quedado defraudadas por los hechos. En lugar de frutos agradables y
sanos hemos recogido frutos amargos y corrompidos. Si se busca el remedio, búsquese en el
restablecimiento de los sanos principios, de los que sola y exclusivamente puede esperarse con confianza la
conservación del orden y la garantía, por tanto, de la verdadera libertad. Esto no obstante, la Iglesia se
hace cargo maternalmente del grave peso de las debilidades humanas. No ignora la Iglesia la trayectoria
que describe la historia espiritual y política de nuestros tiempos. Por esta causa, aun concediendo derechos
sola y exclusivamente a la verdad y a la virtud no se opone la Iglesia, sin embargo, a la tolerancia por
parte de los poderes públicos de algunas situaciones contrarias a la verdad y a la justicia para evitar un mal
mayor o para adquirir o conservar un mayor bien. Dios mismo, en su providencia, aun siendo infinitamente
bueno y todopoderoso, permite, sin embargo, la existencia de algunos males en el mundo, en parte para
que no se impidan mayores bienes y en parte para que no se sigan mayores males. Justo es imitar en el
gobierno político al que gobierna el mundo. Más aún: no pudiendo la autoridad humana impedir todos los
males, debe «permitir y dejar impunes muchas cosas que son, sin embargo, castigadas justamente por la
divina Providencia»[13].

Pero en tales circunstancias, si por causa del bien común, y únicamente por ella, puede y aun debe la ley
humana tolerar el mal, no puede, sin embargo, ni debe jamás aprobarlo ni quererlo en sí mismo. Porque
siendo el mal por su misma esencia privación de un bien, es contrario al bien común, el cual el legislador
debe buscar y debe defender en la medida de todas sus posibilidades. También en este punto la ley
humana debe proponerse la imitación de Dios, quien al permitir la existencia del mal en el mundo, «ni
quiere que se haga el mal ni quiere que no se haga; lo que quiere es permitir que se haga, y esto es
bueno»[14]. Sentencia del Doctor Angélico, que encierra en pocas palabras toda la doctrina sobre la
tolerancia del mal. Pero hay que reconocer, si queremos mantenernos dentro de la verdad, que cuanto
mayor es el mal que a la fuerza debe ser tolerado en un Estado, tanto mayor es la distancia que separa a
este Estado del mejor régimen político. De la misma manera, al ser la tolerancia del mal un postulado
propio de la prudencia política, debe quedar estrictamente circunscrita a los límites requeridos por la razón
de esa tolerancia, esto es, el bien público. Por este motivo, si la tolerancia daña al bien público o causa al
Estado mayores males, la consecuencia es su ilicitud, porque en tales circunstancias la tolerancia deja de
ser un bien. Y si por las condiciones particulares en que se encuentra la Iglesia permite ésta algunas de las
libertades modernas, lo hace no porque las prefiera en sí mismas, sino porque juzga conveniente su
tolerancia; y una vez que la situación haya mejorado, la Iglesia usará su libertad, y con la persuasión, las
exhortaciones y la oración procurará, como debe, cumplir la misión que Dios le ha encomendado de
procurar la salvación eterna de los hombres.

Sin embargo, permanece siempre fija la verdad de este principio: la libertad concedida indistintamente a
todos y para todo, nunca, como hemos repetido varias veces, debe ser buscada por sí misma, porque es
contrario a la razón que la verdad y el error tengan los mismos derechos. En lo tocante a la tolerancia, es
sorprendente cuán lejos están de la prudencia y de la justicia de la Iglesia los seguidores del liberalismo.
Porque al conceder al ciudadano en todas las materias que hemos señalado una libertad ilimitada, pierden
por completo toda norma y llegan a colocar en un mismo plano de igualdad jurídica la verdad y la virtud
con el error y el vicio. Y cuando la Iglesia, columna y firmamento de la verdad, maestra incorrupta de la
moral verdadera, juzga que es su obligación protestar sin descanso contra una tolerancia tan licenciosa y
desordenada, es entonces acusada por los liberales de falta de paciencia y mansedumbre. No advierten
que al hablar así califican de vicio lo que es precisamente una virtud de la Iglesia. Por otra parte, es muy
frecuente que estos grandes predicadores de la tolerancia sean, en la práctica, estrechos e intolerantes
cuando se trata del catolicismo. Los que son pródigos en repartir a todos libertades sin cuento, niegan
continuamente a la Iglesia su libertad.

V. JUICIO CRÍTICO SOBRE LAS DISTINTAS


FORMAS DE LIBERALISMO

24. Para mayor claridad, recapitularemos brevemente la exposición hecha y deduciremos las consecuencias
prácticas. El núcleo esencial es el siguiente: es absolutamente necesario que el hombre quede todo entero
bajo la dependencia efectiva y constante de Dios. Por consiguiente, es totalmente inconcebible una libertad
humana que no esté sumisa a Dios y sujeta a su voluntad. Negar a Dios este dominio supremo o negarse a
aceptarlo no es libertad, sino abuso de la libertad y rebelión contra Dios. Es ésta precisamente la
disposición de espíritu que origina y constituye el mal fundamental del liberalismo. Sin embargo, son varias
las formas que éste presenta, porque la voluntad puede separarse de la obediencia debida a Dios o de la
obediencia debida a los que participan de la autoridad divina, de muchas formas y en grados muy diversos.

25. La perversión mayor de la libertad, que constituye al mismo tiempo la especie peor de liberalismo,
consiste en rechazar por completo la suprema autoridad de Dios y rehusarle toda obediencia, tanto en la
vida pública como en la vida privada y doméstica. Todo lo que Nos hemos expuesto hasta aquí se refiere a
esta especie de liberalismo.

26. La segunda clase es el sistema de aquellos liberales que, por una parte, reconocen la necesidad de
someterse a Díos, creador, señor del mundo y gobernador providente de la naturaleza; pero, por otra
parte, rechazan audazmente las normas de dogma y de moral que, superando la naturaleza, son
comunicadas por el mismo Dios, o pretenden por lo menos que no hay razón alguna para tenerlas en
cuenta sobre todo en la vida política del Estado. Ya expusimos anteriormente las dimensiones de este error
y la gran inconsecuencia de estos liberales. Esta doctrina es la fuente principal de la perniciosa teoría de la
separación entre la Iglesia y el Estado; cuando, por el contrario, es evidente que ambas potestades,
aunque diferentes en misión y desiguales por su dignidad, deben colaborar una con otra y completarse
mutuamente.

27. Dos opiniones específicamente distintas caben dentro de este error genérico. Muchos pretenden la
separación total y absoluta entre la Iglesia y el Estado, de tal forma que todo el ordenamiento jurídico, las
instituciones, las costumbres, las leyes, los cargos del Estado, la educación de la juventud, queden al
margen de la Iglesia, como si ésta no existiera. Conceden a los ciudadanos, todo lo más, la facultad, si
quieren, de ejercitar la religión en privado. Contra estos liberales mantienen todo su vigor los argumentos
con que hemos rechazado la teoría de la separación entre la Iglesia y el Estado, con el agravante de que es
un completo absurdo que la Iglesia sea respetada por el ciudadano y al mismo tiempo despreciada por el
Estado.

28. Otros admiten la existencia de la Iglesia —negarla sería imposible—, pero le niegan la naturaleza y los
derechos propios de una sociedad perfecta y afirman que la Iglesia carece del poder legislativo, judicial y
coactivo, y que sólo le corresponde la función exhortativa, persuasiva y rectora respecto de los que
espontánea y voluntariamente se le sujetan. Esta teoría falsea la naturaleza de esta sociedad divina,
debilita y restringe su autoridad, su magisterio; en una palabra: toda su eficacia, exagerando al mismo
tiempo de tal manera la influencia y el poder del Estado, que la Iglesia de Dios queda sometida a la
jurisdicción y al poder del Estado como si fuera una mera asociación civil. Los argumentos usados por los
apologistas, que Nos hemos recordado singularmente en la encíclica Immortale Dei, son más que
suficientes para demostrar el error de esta teoría. La apologética demuestra que por voluntad de Dios la
Iglesia posee todos los caracteres y todos los derechos propios de una sociedad legítima, suprema y
totalmente perfecta.

29. Por último, son muchos los que no aprueban la separación entre la Iglesia y el Estado, pero juzgan que
la Iglesia debe amoldarse a los tiempos, cediendo y acomodándose a las exigencias de la moderna
prudencia en la administración pública del Estado. Esta opinión es recta si se refiere a una
condescendencia razonable que pueda conciliarse con la verdad y con la justicia; es decir, que la Iglesia,
con la esperanza comprobada de un bien muy notable, se muestre indulgente y conceda a las
circunstancias lo que puede concederles sin violar la santidad de su misión. Pero la cosa cambia por
completo cuando se trata de prácticas y doctrinas introducidas contra todo derecho por la decadencia de la
moral y por la aberración intelectual de los espíritus. Ningún período histórico puede vivir sin religión, sin
verdad, sin justicia. Y como estas supremas realidades sagradas han sido encomendadas por el mismo Dios
a la tutela de la Iglesia, nada hay tan contrario a la Iglesia como pretender de ella que tolere con disimulo
el error y la injusticia o favorezca con su connivencia lo que perjudica a la religión.

VI. APLICACIONES PRÁCTICAS


DE CARÁCTER GENERAL

30. De las consideraciones expuestas se sigue que es totalmente ilícito pedir, defender, conceder la libertad
de pensamiento, de imprenta, de enseñanza, de cultos, como otros tantos derechos dados por la
naturaleza al hombre. Porque si el hombre hubiera recibido realmente estos derechos de la naturaleza,
tendría derecho a rechazar la autoridad de Dios y la libertad humana no podría ser limitada por ley alguna.
Síguese, además, que estas libertades, si existen causas justas, pueden ser toleradas, pero dentro de
ciertos límites para que no degeneren en un insolente desorden. Donde estas libertades estén vigentes,
usen de ellas los ciudadanos para el bien, pero piensen acerca de ellas lo mismo que la Iglesia piensa. Una
libertad no debe ser considerada legítima más que cuando supone un aumento en la facilidad para vivir
según la virtud. Fuera de este caso, nunca.

31. Donde exista ya o donde amenace la existencia de un gobierno que tenga a la nación oprimida
injustamente por la violación o prive por la fuerza a la Iglesia de la libertad debida, es lícito procurar al
Estado otra organización política más moderada, bajo la cual se pueda obrar libremente. No se pretende,
en este caso, una libertad inmoderada y viciosa; se busca un alivio para el bien común de todos; con ello
únicamente se pretende que donde se concede licencia para el mal no se impida el derecho de hacer el
bien.

32. Ni está prohibido tampoco en sí mismo preferir para el Estado una forma de gobierno moderada por el
elemento democrático, salva siempre la doctrina católica acerca del origen y el ejercicio del poder político.
La Iglesia no condena forma alguna de gobierno, con tal que sea apta por sí misma la utilidad de los
ciudadanos. Pero exige, de acuerdo con la naturaleza, que cada una de esas formas quede establecida sin
lesionar a nadie y, sobre todo, respetando íntegramente los derechos de la Iglesia.

33. Es bueno participar en la vida política, a menos que en algunos lugares, por circunstancias de tiempo y
situación, se imponga otra conducta. Más todavía: la Iglesia aprueba la colaboración personal de todos con
su trabajo al bien común y que cada uno, en las medidas de sus fuerzas, procure la defensa, la
conservación y la prosperidad del Estado.

34. No condena tampoco la Iglesia el deseo de liberarse de la dominación de una potencia extranjera o de
un tirano, con tal que ese deseo pueda realizarse sin violar la justicia. Tampoco reprende, finalmente, a los
que procuran que los Estados vivan de acuerdo con su propia legislación y que los ciudadanos gocen de
medios más amplios para aumentar su bienestar. Siempre fue la Iglesia fidelísima defensora de las
libertades cívicas moderadas. Lo demuestran sobre todo las ciudades de Italia, que lograron, bajo el
régimen municipal, prosperidad, riqueza y nombre glorioso en aquellos tiempos en que la influencia
saludable de la Iglesia había penetrado sin oposición de nadie en todas las partes del Estado.

35. Estas enseñanzas, venerables hermanos, que, dictadas por la fe y la razón al mismo tiempo, os hemos
transmitido en cumplimiento de nuestro oficio apostólico, confiamos que habrán de ser fructuosas para
muchos, principalmente al unir vuestros esfuerzos a los nuestros. Nos, con humildad de corazón, alzamos a
Dios nuestros ojos suplicantes y con todo fervor le pedimos que se digne conceder benignamente a los
hombres la luz de su sabiduría y de su consejo, para que, fortalecidos con su virtud, puedan en cosas tan
importantes ver la verdad y vivir según la verdad, tanto en la vida privada como en la vida pública, en
todos los tiempos y con inquebrantable constancia.

Como prenda de estos celestiales dones y testimonio de nuestra benevolencia, a vosotros, venerables
hermanos, y al clero y pueblo que gobernáis, damos con todo afecto en el Señor la bendición apostólica.

Dado en Roma, junto a San Pedro, el día 20 de junio de 1888, año undécimo de nuestro pontificado.

LEÓN PP XIII

Notas

[1] Eclo 15,14.

[2] ASS 18 (1885) 161-180.

[3] Jn 8,34.

[4] Santo Tomás, In Ioannem 8 lect.4 n.3.

[5] San Agustín, De libero arbitrio 1,6,15: PL 32,1229.

[6] Cf. Gál 3,28.

[7] Rom 13,2.

[8] Jer 2,20.

[9] Cf. Santo Tomás, Sum. Theol. II-II q.81 a.6 c.

[10] Véase la Enc. Immortale Dei: ASS 18 ( 1885) 161-180.

[11] Jn 6,45.

[12] Jn 8,32.

[13] San Agustín, De libero arbitrio 1,6,14: PL 32,1228.

[14] Santo Tomás, Sum. Theol. 1 q.19 a.9 ad 3.

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/es/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_20061888_libertas.html

CARTA ENCÍCLICA
IMMORTALE DEI
DO SUMO PONTIFÍCIO
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE A CONSTITUIÇÃO CRISTÃ


DOS ESTADOS

Veneráveis Irmãos,
Saudação e Bênção Apostólica

1. A obra imortal do Deus de misericórdia, a Igreja, se bem que em si e por sua natureza tenha por fim a
salvação das almas e a felicidade eterna, é entretanto, na própria esfera das coisas humanas, a fonte de
tantas e tais vantagens, que as não poderia proporcionar mais numerosas e maiores mesmo quando
tivesse sido fundada sobretudo e diretamente em mira a assegurar a felicidade desta vida. Com efeito,
onde quer que a Igreja tenha penetrado, imediatamente tem mudado a face das coisas e impregnado os
costumes públicos não somente de virtudes até então desconhecidas, mas ainda de uma civilização toda
nova. Todos os povos que a têm acolhido se distinguiram pela doçura, pela equidade e pela glória dos
empreendimentos.

2. E, todavia, acusação já bem antiga é que a Igreja, dizem, é contrária aos interesses da sociedade civil e
incapaz de assegurar as condições de bem-estar e de glória que, com inteira razão e por uma aspiração
natural, toda sociedade bem constituída reclama. Desde os primeiros dias da Igreja, como sabemos, os
cristãos foram inquietados em conseqüência de injustos preconceitos dessa espécie, e expostos ao ódio e
ao ressentimento, a pretexto de serem inimigos do Império. Naquela época, a opinião pública imputava de
bom grado ao nome cristão os males que assaltavam a sociedade, ao passo que era Deus, o vingador dos
crimes, quem infligia justas penas aos culpados. Essa odiosa calúnia indignou com toda razão o gênio de
Santo Agostinho e lhe acusou o estilo. Foi principalmente no seu livro da “Cidade de Deus” que ele pôs em
luz a virtude da sabedoria cristã em suas relações com a coisa pública, de tal sorte que ele parece haver
menos advogado a causa dos cristãos de seu tempo do que alcançado um triunfo perpétuo sobre tão falsas
acusações.

3. Todavia, o pendor funesto para essas queixas e para esses agravos não cessou, e muitos se
comprouveram em buscar a regra da vida social fora das doutrinas da Igreja Católica. E, mesmo de então
por diante, o “direito novo”, como lhe chamam, e que pretende ser o fruto de uma idade adulta e o
produto de uma liberdade progressista, começa a prevalecer e a dominar por toda parte. Mas, a despeito
de tantos ensaios, é fato que, para constituir e reger o Estado, nunca se achou sistema preferível àquele
que é a florescência espontânea da doutrina evangélica.

Julgamos, pois, ser de suma importância e conforme ao Nosso múnus Apostólico confrontar as novas
teorias sociais com a doutrina cristã. Destarte, temos a confiança de que a verdade dissipará, por um só
brilho, toda causa de erro e de dúvida, de tal sorte que cada um facilmente poderá ver essas supremas
regras de conduta que deve seguir e observar.

4. Não é muito difícil estabelecer que aspecto e que forma terá a sociedade se a filosofia cristã governa a
coisa pública. O homem nasceu para viver em sociedade, portanto, não podendo no isolamento nem se
proporcionar o que é necessário e útil à vida, nem adquirir a perfeição do espírito e do coração, a
Providência o fez para se unir aos seus semelhantes, numa sociedade tanto doméstica quanto civil, única
capaz de fornecer o que é preciso à perfeição da existência. Mas, como nenhuma sociedade pode existir
sem um chefe supremo e sem que a cada um imprima um mesmo impulso eficaz para um fim comum, daí
resulta ser necessária aos homens constituídos em sociedade uma autoridade para regê-los; autoridade
que, tanto como a sociedade, procede da natureza e, por conseqüência, tem a Deus por autor.

5. Daí resulta ainda que o poder público só pode vir de Deus. Só Deus, com efeito, é o verdadeiro e
soberano Senhor das coisas; todas, quaisquer que sejam, devem necessariamente ser-lhes sujeitas e
obedecer-lhe; de tal sorte que todo aquele que tem o direito de mandar não recebe esse direito senão de
Deus, Chefe supremo de todos. “Todo poder vem de Deus” (Rom 13,1).

6. Aliás, em si mesma a soberania não está ligada a nenhuma forma política; pode muito bem adaptar-se a
esta ou àquela, contanto que seja de fato apta à utilidade e ao bem comum.

7. Mas, seja qual for a forma de governo, todos os chefes de Estado devem absolutamente ter o olhar fito
em Deus, soberano Moderador do mundo, e, no cumprimento do seu mandato, a Ele tomar por modelo e
regra. Com efeito, assim como na ordem das coisas visíveis Deus criou causas segundas, nas quais se
refletem de algum modo a natureza e a ação divina, e que concorrem para conduzir ao fim para que tende
este universo, assim também quis Ele que, na sociedade civil, houvesse uma autoridade cujos depositários
fossem como que uma imagem do poder que Ele tem sobre o gênero humano, ao mesmo tempo que da
sua Providência. Deve, pois, o mando ser justo; é menos o governo de um Senhor do que de um Pai, pois
é justíssima a autoridade de Deus sobre os homens e se acha unida a uma bondade paternal. Deve ele,
aliás, exercer-se para as vantagens dos cidadãos, pois os que tem autoridade sobre os outros são dela
investidos exclusivamente para assegurar o bem público. Sob pretexto algum deve a autoridade civil servir
à vantagem de um só ou de alguns, visto haver sido constituída para o bem comum.

8. Se os chefes de Estado se deixarem arrastar a uma dominação injusta, se pecarem por abuso de poder
ou por orgulho, se não proverem ao bem do povo, saibam que um dia terão de dar contas a Deus, e essas
contas serão tanto mais severas quanto mais santa for a função que eles exercerem e mais elevado o grau
da dignidade de que estiverem investidos. “Os poderosos serão poderosamente punidos” (Sab 6, 7).

9. Desta maneira, a supremacia do mando arrastará a homenagem voluntária do respeito dos súditos. De
feito, se estes estiverem uma vez bem convencidos de que a autoridade dos soberanos vem de Deus,
sentir-se-ão obrigados em justiça a acolher docilmente as ordens dos príncipes e a lhes prestar obediência
e fidelidade, por um sentimento semelhante à piedade que os filhos tem para com seus pais. “Seja toda
alma sujeita aos poderes mais elevados” (Rom 13,1).

10. Porquanto não é lícito desprezar o poder legítimo, seja qual for a pessoa em que ele resida, mais do
que resistir à vontade de Deus; ora, os que lhe resistem correm por si mesmos para sua perda. “Quem
resiste ao poder resiste à ordem estabelecida por Deus, e os que lhe resistem atraem a si mesmos a
condenação” (Rom 5, 2). Assim, pois, sacudir a obediência e revolucionar a sociedade por meio da sedição
é um crime de lesa-majestade, não só humana, mas divina.

11. Sendo a sociedade política fundada sobre estes princípios, evidente é que ela deve, sem falhar, cumprir
por um culto público os numerosos e importantes deveres que a unem a Deus. Se a natureza e a razão
impõem a cada um a obrigação de honrar a Deus com um culto santo e sagrado, porque nós dependemos
do poder dele e porque, saídos dele, a Ele devemos tornar, à mesma lei adstringem a sociedade civil.
Realmente, unidos pelos laços de uma sociedade comum, os homens não dependem menos de Deus do
que tomados isoladamente; tanto, pelo menos, quanto o indivíduo, deve a sociedade dar graças a Deus, de
quem recebe a existência, a conservação e a multidão incontável dos seus bens. É por isso que, do mesmo
modo que a ninguém é lícito descurar seus deveres para com Deus, e que o maior de todos os deveres é
abraçar de espírito e de coração a religião, não aquela que cada um prefere, mas aquela que Deus
prescreveu e que provas certas e indubitáveis estabelecem como a única verdadeira entre todas, assim
também as sociedades não podem sem crime comportar-se como se Deus absolutamente não existisse, ou
prescindir da religião como estranha e inútil, ou admitir uma indiferentemente, segundo seu beneplácito.
Honrando a Divindade, devem elas seguir estritamente as regras e o modo segundo os quais o próprio
Deus declarou querer ser honrado.

12. Devem, pois, os chefes de Estado ter por santo o nome de Deus e colocar no número dos seus
principais deveres favorecer a religião, protegê-la com a sua benevolência, cobri-la com a autoridade
tutelar das leis, e nada estatuírem ou decidirem que seja contrário à integridade dela. E isso devem-no eles
aos cidadãos de que são chefes. Todos nós, com efeito, enquanto existimos, somos nascidos e educados
em vista de um bem supremo e final ao qual é preciso referir tudo, colocado que está nos céus, além desta
frágil e curta existência. Já que disso é que depende a completa e perfeita felicidade dos homens, é do
interesse supremo de cada um alcançar esse fim. Como, pois, a sociedade civil foi estabelecida para a
utilidade de todos, deve, favorecendo a prosperidade pública, prover ao bem dos cidadãos de modo não
somente a não opor qualquer obstáculo, mas a assegurar todas as facilidades possíveis à procura e à
aquisição desse bem supremo e imutável ao qual eles próprios aspiram. A primeira de todas consiste em
fazer respeitar a santa e inviolável observância da religião, cujos deveres unem o homem a Deus.

13. Quanto a decidir qual religião é a verdadeira, isso não é difícil a quem quiser julgar disso com
prudência e sinceridade. Efetivamente, provas numerosíssimas e evidentes, a verdade das profecias, a
multidão dos milagres, a prodigiosa celeridade da propagação da fé, mesmo entre os seus inimigos e a
despeito dos maiores obstáculos, o testemunho dos mártires e outros argumentos semelhantes, provam
claramente que a única religião verdadeira é a que o próprio Jesus Cristo instituiu e deu à sua Igreja a
missão de guardar e propagar.

14. Porquanto o Filho único de Deus estabeleceu na terra uma sociedade a que chamamos a Igreja, e
encarregou-a de continuar através de todas as idades a missão sublime e divina que Ele mesmo recebera
de seu Pai. “Assim como meu Pai me enviou, eu vos envio” (Jo 20, 21). “E eis que eu estou convosco até a
consumação dos séculos” (Mt 28, 20). Do mesmo modo, pois, que Jesus Cristo veio à terra a fim de que os
homens “tivessem a vida e a tivessem mais abundantemente” (Jo 10, 10), assim também a Igreja propõe-
se como fim a salvação eterna das almas; e, nesse intuito, é tal a sua constituição que ela abrange na sua
extensão a humanidade inteira e não é circunscrita por limite algum nem de temo, nem de lugar. “Pregai o
Evangelho a toda criatura” (Mt 16, 15).

15. A essa imensa multidão de homens o próprio Deus deu chefes com o poder de governá-los. À testa
deles propôs um só de quem quis fazer o maior e o maior seguro mestre da verdade, e a quem confiou as
chaves do reino dos céus. “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus” (Mt 16, 19). “Apascenta meus
cordeiros... apascenta minhas ovelhas” (Jo 21, 16-17). “Roguei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça”
(Lc 22, 32).

16. Se bem que composta de homens como a sociedade civil, essa sociedade da Igreja, quer pelo fim que
lhe foi designado, quer pelos meios que lhe servem para atingi-lo, é sobrenatural e espiritual. Distingue-se,
pois, e difere da sociedade civil. Além disso, e isto é da maior importância, constitui ela uma sociedade
juridicamente perfeita no seu gênero, porque, pela expressa vontade e pela graça do seu Fundador, possui
em si e de per si todos os recursos necessários à sua existência e ação. Como o fim a que a Igreja tende é
de muito o mais nobre de todos, assim também o seu poder prevalece sobre todos os outros poderes, e de
modo algum pode ser inferior ou sujeita ao poder civil. Efetivamente, Jesus Cristo deu plenos poderes aos
seus apóstolos na esfera das coisas sagradas, juntando-lhes tanto a faculdade de fazer verdadeiras leis
como o duplo poder que dela decorre, de julgar e de punir. “Todo poder me foi dado no céu e na terra; ide
pois, ensinai todas as nações...ensinando-as a observar tudo o que eu vos prescrevi” (Mt 28, 18-20). E
ainda: “Tende cuidado de punir toda desobediência” (2 Cor 10, 6). Demais: “Serei mais severo em virtude
do poder que o Senhor me deu para a edificação e não para a ruína” (2 Cor 13, 10). À Igreja, pois, e não
ao Estado, é que pertence guiar os homens para as coisas celestes, e a ela é que Deus deu o mandato de
conhecer e de decidir de tudo o que concerne à religião; de ensinar todas as nações, de estender a tão
longe quanto possível as fronteiras do nome cristão; em suma, de administrar livremente e a seu inteiro
talante os interesses cristãos.

17. Essa autoridade perfeita em si e só de si mesma dependente, de há muito tempo atacada por uma
filosofia aduladora dos príncipes, a Igreja nunca cessou de reivindicá-la, nem de exercê-la publicamente.
Os primeiros de todos os seus paladinos foram os Apóstolos, que, impedidos pelos príncipes da Sinagoga
de difundirem o Evangelho, respondiam com firmeza: “Devemos obedecer a Deus antes que aos homens”
(At 5, 29). Foi ela que os Padres da Igreja se aplicaram a defender por sólidas razões quando tiveram
ensejo, e que os Pontífices romanos nunca deixaram de reivindicar com uma constância invencível contra
os seus agressores.
18. Bem mais, tem ela tido por si, em princípio e de fato, o assentimento dos príncipes e dos chefes de
Estados, que, nas suas negociações e transações, enviando e recebendo embaixadas e permutando outros
bons ofícios, têm constantemente agido com a Igreja como com uma potência soberana e legítima. Por
isto, não é sem uma disposição particular da Providência de Deus que essa autoridade foi munida de um
principado civil, como da melhor salvaguarda da sua independência.

19. Deus dividiu, pois, o governo do gênero humano entre dois poderes: o poder eclesiástico e o poder
civil; àquele preposto às coisas divinas, este às coisas humanas. Cada uma delas no seu gênero é
soberana; cada uma está encerrada em limites perfeitamente determinados, e traçados em conformidade
com a sua natureza e com o seu fim especial. Há, pois, como que uma esfera circunscrita em que cada
uma exerce a sua ação “iure próprio”. Todavia, exercendo-se a autoridade delas sobre os mesmos súditos,
pode suceder que uma só e mesma coisa, posto que a título diferente, mas no entanto uma só e mesma
coisa, incida na jurisdição e no juízo de um e de outro poder. Era, pois, digno da Sábia Providência de
Deus, que as estabeleceu ambas, traçar-lhes a sua trilha e a sua relação entre si. “OS poderes que existem
foram dispostos por Deus” (Rom 13, 1). Se assim não fora, muitas vezes nasceriam causas de funestas
contenções e conflitos e muitas vezes o homem deveria hesitar, perplexo, como em face de um duplo
caminho, sem saber o que fazer, em conseqüência das ordens contrárias de dois poderes cujo jugo em
consciência ele não pode sacudir. Sumamente repugnaria responsabilizar por essa desordem a sabedoria e
a bondade de Deus, que, no governo do mundo físico, todavia de ordem bem inferior, temperou tão bem
umas pelas outras as forças e as causas naturais, e as fez harmonizar-se de maneira tão admirável, que
nenhuma delas molesta as outras, e todas, num conjunto perfeito, conspiram para a finalidade a que tende
o universo. Necessário é, pois, que haja entre os dois poderes um sistema de relações bem ordenado, não
sem analogia com aquele que, no homem, constitui a união da alma com o corpo. Não se pode fazer uma
justa idéia da natureza e da força dessas relações senão considerando, como dissemos, a natureza de cada
um dos dois poderes, e levando em conta a excelência e a nobreza dos seus fins, visto que um tem por fim
próximo e especial ocupar-se dos interesses terrenos, e o outro proporcionar os bens celestes e eternos.

20. Assim, tudo o que, nas coisas humanas, é sagrado por uma razão qualquer, tudo o que é pertinente à
salvação das alas e ao culto de Deus, seja por sua natureza, seja em relação ao seu fim, tudo isso é da
alçada da autoridade da Igreja. Quanto às outras coisas que a ordem civil e política abrange, é justo que
sejam submetidas à autoridade civil, já que Jesus Cristo mandou dar a César o que é de César e a Deus o
que é de Deus. Tempos ocorrem às vezes, em que prevalece outros modo de assegurar a concórdia e de
garantir a paz e a liberdade; é quando os chefes de Estado e os Sumos Pontífices se põem de acordo por
um tratado sobre algum ponto particular. Em tais circunstâncias, dá a Igreja provas evidentes da sua
caridade materna, levando tão longe quanto possível a indulgência e a condescendência.

21. Tal é, consoante o esboço sumário que havemos traçado, a organização cristã da sociedade civil, e
essa teoria não é nem temerária nem arbitrária, mas se deduz dos princípios mais elevados e mais certos,
confirmados pela própria razão natural. Essa constituição da sociedade política não tem nada que possa
parecer pouco digno ou inconveniente para a dignidade dos príncipes. Longe de tirar o que quer que seja
aos direitos da majestade, pelo contrário, torna-os mais estáveis e mais augustos. Muito mais: se olharmos
isso mais de perto, reconheceremos nessa constituição uma grande perfeição que falta nos outros sistemas
políticos; e ela produziria certamente frutos excelentes e variados se ao menos cada poder ficasse nas suas
atribuições e pusesse todos os seus desvelos em cumprir o ofício e a tarefa que lhes foram determinados.

22. Com efeito, na constituição do Estado, tal como a acabamos de expor, o divino e o humano são
delimitados numa ordem conveniente; os direitos dos cidadãos são assegurados e colocados sob a
proteção das mesmas leis divinas, naturais e humanas; os deveres de cada um são tão sabiamente
traçados quão prudentemente salvaguardada lhes é a observância. Todos os homens, nesse
encaminhamento incerto e penoso para a cidade eterna, sabem que tem a seu serviço guias seguros para
conduzi-los à meta, e auxiliares para atingi-la. Sabem, do mesmo modo, que outros chefes lhes foram
dados para obter e conservar a segurança, os bens e as outras vantagens dessa vida.

23. A sociedade doméstica acha a sua solidez necessária na santidade do vínculo conjugal, uno e
indissolúvel; os direitos e os deveres dos esposos são regulados com toda a justiça e equidade; a honra
devida à mulher é salvaguardada; a autoridade do marido modela-se pela autoridade de Deus, o pátrio
poder é temperado pelas atenções devidas à esposa e aos filhos; enfim, está perfeitamente provido para a
proteção, para o bem estar e para a educação desses últimos.

24. Na ordem política e civil, as leis têm por fim as bem comuns, ditadas não pela vontade e pelo juízo
enganador da multidão, mas pela verdade e pela justiça. A autoridade dos príncipes reveste uma espécie
de caráter mais sagrado do que humano, e é contida de maneira a não se afastar da justiça, nem exceder
o seu poder. A obediência dos súditos corre parelhas com a honra e a dignidade, porque não é uma
sujeição de homem a homem, mas uma submissão à vontade de Deus, que reina por meio de homens.
Uma vez reconhecido e aceito isso, daí resulta claramente ser um dever de justiça respeitar a majestade
dos príncipes, ser submisso com fidelidade constante ao poder político, evitar as sedições e observar
religiosamente a constituição do Estado.

25. Semelhantemente, nessa espécie dos deveres se colocam a caridade mútua, a bondade, a liberalidade.
O homem, que é ao mesmo tempo cidadão e cristão, não mais rasgado em dois por obrigações
contraditórias. Enfim, os bens consideráveis com que a religião cristã enriquece espontaneamente a própria
vida terrena dos indivíduos são adquiridos para a comunidade e para a sociedade civil: donde ressalta a
evidência destas palavras: “A sorte do Estado depende do culto que se tributa a Deus: e há entre ambos
numerosos laços de parentesco e de estrita amizade” (Sacr. Imp. Ad Cyllirium Alexandr. Et Episcopos
metrop. Cfr. Labbeum, Collect. Conc. T. III).

26. Em várias passagens Santo Agostinho, segundo o seu costume, salientou o valor desses bens,
mormente quando interpela a Igreja Católica nestes termos: “Tu conduzes e instruis as crianças com
ternura, os jovens com força, os velhos com calma, como o comporta a idade não somente do corpo, mas
ainda da alma. Sujeitas as mulheres aos maridos por uma casta e fiel obediência, não para cevar a paixão,
mas para propagar a espécie e constituir a sociedade da família. Dás autoridade aos maridos sobre as
mulheres, não para zombarem do sexo, mas para seguirem as leis de um sincero amor. Subordinas os
filhos aos pais por uma espécie de servidão livre e prepões os pais aos filhos por uma espécie de terna
autoridade. Unes não só em sociedade, mas numa espécie de fraternidade, os cidadãos aos cidadãos, as
nações às nações e os homens entre si pela lembrança dos primeiros pais. Ensinas os reis a velarem sobre
os povos, e prescreves aos povos submeter-se aos reis. Ensinas com cuidado a quem é que é devida a
honra, a quem a afeição, a quem o respeito, a quem o temor, a quem a consolação, a quem a advertência,
a quem o incentivo, a quem a correção, a quem a reprimenda, a quem o castigo; e fazes saber como, se
nem todas essas coisas são devidas a todos, a todos é devida a caridade, e a ninguém a injustiça” (De
moribus Eccl., cap. XXX, n. 63).

27. Noutro lugar, o mesmo Doutor repreende nestes termos a falsa sabedoria dos políticos filósofos: “Os
que dizem que a doutrina de Cristo é contrária ao bem do Estado dêem-nos um exército de soldados tais
como os faz a doutrina de Cristo, dêem-nos tais governadores de províncias, tais maridos, tais esposas,
tais pais, tais filhos, tais mestres, tais servos, tais reis, tais juízes, tais contribuintes, enfim, e agentes do
fisco tais como os quer a doutrina cristã! E então ousem ainda dizer que ela é contrária ao Estado! Muito
antes, porém, não hesitem em confessar que ela é uma grande salvaguarda para o Estado quando é
seguida” (Epist. 138 (al. 5) ad Marcellinum, cap. II, n. 15).

28. Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da
sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as
categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a religião instituída por Jesus Cristo, solidamente
estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos
príncipes e à proteção legítima dos magistrados. Então o sacerdócio e o império estavam ligados em si por
uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu
frutos superiores a toda expectativa, frutos cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em
inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer.

29. Se a Europa cristã domou as nações bárbaras e as fez passar da ferocidade para a mansidão, da
superstição para a verdade; se repeliu vitoriosamente as invasões muçulmanas, se guardou a supremacia
da civilização, e se, em tudo que faz honra à humanidade, constantemente e em toda parte se mostrou
guia e mestra; se brindou os povos com a verdadeira liberdade sob essas diversas formas, se
sapientissimamente fundou uma multidão de obras para o alívio das misérias; é fora de toda dúvida que,
assim, ela é grandemente devedora à religião, sob cuja inspiração e com cujo auxílio empreendeu e
realizou tão grandes coisas.

30. Todos esses bens durariam ainda se o acordo dos dois poderes houvesse perseverado, e havia razão
para esperar outros ainda maiores, se a autoridade, se o ensino, se os conselhos da Igreja tivesses
encontrado uma docilidade mais fiel e mais constante. Por quanto dever-se-ia ter como lei imprescritível
aquilo que Yves de Chartres escreveu ao Papa Pascoal II: “Quando o mundo é bem governado, a Igreja é
florescente e fecunda. Mas, quando a discórdia se interpõe entre eles, não somente as pequenas coisas
não crescem, mas as próprias grandes deperecem miseravelmente” (Epist. 238).

31. Mas esse pernicioso e deplorável gosto de novidades que o século XVI viu nascer, depois de primeiro
haver transtornado a religião cristã, em breve, por um declive natural, passou à filosofia, e da filosofia a
todos os graus da sociedade civil. É a essa fonte que cumpre fazer remontar esses princípios modernos de
liberdade desenfreada sonhados e promulgados por entre as grandes perturbações do século último, como
os princípios e fundamentos de um “direito novo”, até então desconhecidos e sobre mais de um ponto em
desacordo não somente com o direito cristão, mas com o direito natural. Eis aqui o primeiro de todos esses
princípios: todos os homens, já que são da mesma raça e da mesma natureza, são semelhantes, e, “ipso
facto”, iguais entre si na prática da vida; cada um depende tão bem só de si, que de modo algum está
sujeito à autoridade de outrem: pode com toda liberdade pensar sobre qualquer coisa o que quiser, fazer o
que lhe aprouver; ninguém tem o direito de mandar aos outros. Numa sociedade fundada sobre estes
princípios, a autoridade pública é apenas a vontade do povo, o qual, só de si mesmo dependendo, é
também o único a mandar a si. Escolhe os seus mandatários, mas de tal sorte que lhes delega menos o
direito do que a função do poder, para exercê-la em seu nome. A soberania de Deus é passada em
silencia, exatamente como se Deus não existisse, ou não se ocupasse em nada com a sociedade do gênero
humano; ou então como se os homens, quer em particular, quer em sociedade, não devessem nada a
Deus, ou como se pudesse imaginar-se um poder qualquer cuja causa, força, autoridade não residisse
inteira no próprio Deus.

32. Destarte, como se vê, o Estado não outra coisa mais senão a multidão soberana e que se governa por
si mesma e desde que o povo é considerado a fonte de todo o direito e de todo o poder, segue-se que o
Estado não se julga jungido a nenhuma obrigação para com Deus, não professa oficialmente nenhuma
religião, não é obrigado a perquirir qual é a única verdadeira entre todas, nem a preferir uma às outras,
nem a favorecer uma principalmente; mas a todas deve atribuir a igualdade em direito, com este fim
apenas, de impedi-las de perturbarem a ordem pública. Por conseguinte, cada um será livre de se fazer
juiz de qualquer questão religiosa, cada um será livre de abraçar a religião que prefere ou de não seguir
nenhuma se nenhuma lhe agradar. Daí decorrem necessariamente a liberdade sem freio de toda
consciência, a liberdade absoluta de adorar ou de não adorar a Deus, a licença sem limites de pensar e de
publicar os próprios pensamentos.

33. Dado que o Estado repousa sobre esses princípios, hoje em grande favor, fácil é ver a que lugar se
relega injustamente a Igreja. Com efeito, onde quer que a prática está de acordo com tais doutrinas, a
religião católica é posta, no Estado, em pé de igualdade, ou mesmo de inferioridade, com sociedades que
lhes são estranhas. Não se tem em nenhuma conta as leis eclesiásticas; a Igreja, que recebeu de Jesus
Cristo ordem e missão de ensinar todas as nações, vê-se interdizer toda ingerência na instrução pública.
Nas matérias que são de direito misto, os chefes de Estado expedem por si mesmos decretos arbitrários, e
sobre esses pontos ostentam um soberbo desprezo pelas santas leis da Igreja.

34. Assim, fazem depender da sua jurisdição os casamentos dos cristãos; decretam leis sobre o vínculo
conjugal, sua unidade, sua estabilidade; deitam mão aos bens dos clérigos e negam à Igreja o direito de
possuir. Em suma, tratam a Igreja como se ela não tivesse nem o caráter nem os direitos de uma
sociedade perfeita, e fosse uma mera associação semelhante às outras que existem no Estado. Por isso,
tudo o que ela tem de direitos, de poder legítimo de ação, fazem-no eles depender da concessão e do
favor dos governantes.

35. Nos Estados em que a legislação civil deixa à Igreja a sua autonomia, e onde uma concordata pública
interveio entre os dois poderes, a princípio grita-se que é preciso separar os negócios da Igreja dos
negócios do Estado, e isso no intuito de poder agir impunemente contra a fé jurada e fazer-se árbitro de
tudo afastando todos os obstáculos. Mas, como a Igreja não pode sofrê-lo pacientemente, pois seria para
ela desertar os maiores e os mais sagrados dos deveres, e como reclama absolutamente o cumprimento
religioso da fé que lhe foi jurada, muitas vezes nascem entre o poder espiritual e o poder civil conflitos,
cujo desfecho quase inevitável é sujeitar aquele que é menos provido de meios humanos ao que é mais
provido. Assim, nessa situação política que muitos favorecem hoje em dia, há uma tendência das idéias e
das vontades para expulsar inteiramente a Igreja da sociedade, ou para mantê-la sujeita e acorrentada ao
Estado. A maior parte das medidas tomadas pelos governos inspiram-se nesse desígnio. As leis, a
administração pública, a educação sem religião, a espoliação e a destruição das Ordens religiosas, a
supressão do poder temporal dos Pontífices romanos, tudo tende a este fim: ferir no coração as instituições
cristãos, reduzir a nada a liberdade da Igreja Católica, e ao nada os seus demais direitos.

36. A simples razão natural demonstra o quanto se afasta da verdade esta maneira de entender o governo
civil. O testemunho dela, com efeito, basta para estabelecer que tudo o que há de autoridade entre os
homens procede de Deus, como de uma fonte augusta e suprema. Quanto à soberania do povo, que, sem
levar em nenhuma conta a Deus, se diz residir por direito natural no povo, se ela é eminentemente própria
para lisonjear e inflamar uma multidão de paixões, não assenta em nenhum fundamento sólido e não pode
ter força bastante para garantir a segurança pública e a manutenção tranqüila da ordem. De feito, sob o
império dessas doutrinas, os princípios cederam a ponto de, para muitos, ser uma lei imprescritível em
direito político poder legitimamente levantar sedições. Porquanto prevalece a opinião de que os chefes do
governo são meros delegados encarregados de executar a vontade do povo: donde esta conseqüência
necessária: que tudo pode igualmente mudar ao sabor do povo, e que sempre há a temer distúrbios.

37. Relativamente à religião, pensar que é indiferente tenha ela formas disparatadas e contrárias equivale
simplesmente a não querer nem escolher nem seguir qualquer delas. É o ateísmo menos o nome.
Efetivamente, quem quer que creia em Deus, se for conseqüentemente e não quer cair no absurdo, deve
necessariamente admitir diferença, disparidade e oposição, mesmo sobre os pontos mais importantes, não
podem ser todos igualmente bons, igualmente agradáveis a Deus.

38. Assim, também, a liberdade de pensar e publicar os próprios pensamentos, subtraída a toda regra, não
é por si um bem de que a sociedade tenha que se felicitar; mas é antes a fonte e a origem de muitos
males. A liberdade, esse elemento de perfeição para o homem, deve aplicar-se ao que é verdadeiro e ao
que é bom. Ora, a essência do bem e da verdade não pode mudar ao sabor do homem, mas persiste
sempre a mesma, e, não menos do que a natureza das coisas, é imutável. Se a inteligência adere as
opiniões falsas, se a vontade escolhe o mal e a ele se apega, nem uma nem outra atinge a sua perfeição,
ambas decaem da sua dignidade nativa e se corrompem. Não é, pois, permitido dar a lume e expor aos
olhos dos homens o que é contrário à virtude e à verdade, e muito menos ainda colocar essa licença sob a
tutela e a proteção das leis. Não há senão um caminho para chegar ao céu, para o qual todos nós
tendemos: é uma boa vida. O Estado afasta-se, pois, das regras e prescrições da natureza se favorece a
licença das opiniões e das ações culposas ao ponto de se poderem impunemente desviar os espíritos da
verdade e as almas da virtude.

39. Quanto à Igreja, que o próprio Deus estabeleceu, excluí-la da vida pública, das leis, da educação da
juventude, da sociedade doméstica, é m grande e pernicioso erro. Uma sociedade sem religião não pode
ser bem regulada; e, mais talvez do que fora mister, já se vê o que vale em si e em suas conseqüências
essa pretensa moral civil.

40. A verdadeira mestra da juventude e a guardiã dos costumes é a Igreja de Cristo. É ela quem conserva
na sua integridade os princípios de onde emanam os deveres, e quem sugerindo os mais nobres motivos
de vem viver, ordena não somente fugir às más ações, mas domar os movimentos da alma contrários à
razão, ainda quando não se traduzem em ato.

41. Pretender sujeitar a Igreja ao poder civil no exercício do seu ministério é a um tempo uma grande
injustiça e uma grande temeridade. Por essa mesma razão, perturba-se a ordem, pois se dá o passo às
coisas naturais sobre as coisas sobrenaturais; estanca-se, ou, certamente, se diminui muito o afluxo dos
bens com que, se estivesse sem peias, a Igreja cumularia a sociedade; e, demais, abre-se a voz a ódios e
a lutas cuja grande e funesta influência sobre ambas as sociedades tem sido demonstrado por experiências
mais do que freqüentes.
42. Essas doutrinas, que a razão humana reprova e têm uma influência tão considerável sobre a marcha
das coisas públicas, os Pontífices romanos, Nossos predecessores, na plena consciência daquilo que deles
reclamava o múnus apostólico, jamais sofreram fossem impunemente emitidas. Assim foi que, na sua Carta
Encíclica “Mirari vos”, de 15 de agosto de 1832, Gregório XVI, com grande autoridade doutrinal, repeliu o
que se avançava desde então, insto é, que em matéria de religião não há escolha a fazer: que cada um
depende apenas da própria consciência e pode, além disso, publicar o que pensa e tramar revoluções no
Estado. A respeito da separação da Igreja do Estado, exprime-se nestes termos esse Pontífice: “Não
podemos esperar para a Igreja e para o Estado resultados melhores das tendências dos que pretendem
separar a Igreja do Estado e romper a concórdia mútua entre o sacerdócio e o império. É que, com efeito,
os fautores de uma liberdade desenfreada temem essa concórdia, que sempre foi tão propícia e salutar aos
interesses religiosos e civis”. Da mesma maneira, Pio IX, cada vez que se apresentou ensejo, condenou as
falsas opiniões mais em voga, e que, em tal dilúvio de erros, os católicos tivessem uma direção segura.

43. Dessas decisões dos Sumos Pontífices, cumpre absolutamente admitir que a origem do poder público
deve atribuir-se a Deus, e não à multidão; que o direito à rebelião repugna a razão; que não fazer nenhum
caso dos deveres da religião, ou tratar da mesma maneira as diferentes religiões, não é permitido nem aos
indivíduos nem às sociedades; que a liberdade ilimitada de pensar e d emitir em público os próprios
pensamentos de modo algum deve ser colocada entre os direitos dos cidadãos, nem entre as coisas dignas
de favor e de proteção.

44. Do mesmo modo, cumpre admitir que, não menos que o Estado, a Igreja, por sua natureza e de pleno
direito, é uma sociedade perfeita; que os depositários do poder não devem pretender escravizar e subjugar
a Igreja, nem lhe diminuir a liberdade de ação na sua esfera, nem lhe tirar seja qual for dos direitos que
lhe foram conferidos por Jesus Cristo. Nas questões do direito misto, é plenamente conforme à natureza,
bem como aos desígnios de Deus, não separar um poder do outros, e ainda menos pô-los em luta, mas
sim estabelecer entre eles essa concórdia que está em harmonia com os atributos especiais por cada
sociedade recebidos da sua natureza.

45. Tais são as regras traçadas pela Igreja Católica relativamente à constituição e ao governo dos Estados.
Esses princípios e esses decretos, se se quiser julgar somente deles, não reprovam em si nenhuma das
diferentes formas de governo, visto que estas nada têm que repugne à doutrina católica, e, se forem
aplicadas com sabedoria e justiça, todos podem garantir a prosperidade pública. Bem mais, não se reprova
em si que o povo tenha sua parte maior ou menor no governo; isto até, em certos tempos e sob certas
leis, pode tornar-se não somente uma vantagem, mas um dever para os cidadãos. Demais, não há para
ninguém justo motivo de acusar a Igreja de ser inimiga quer de uma justa tolerância, quer de uma são e
legítima liberdade.

46. Efetivamente, se a Igreja julga não ser lícito por os diversos cultos no mesmo pé legal que a verdadeira
religião, nem por isso condena os chefes de Estado que, em vista de um bem a alcançar ou de um mal a
impedir, toleram na prática que esses diversos cultos tenham cada um seu lugar no Estado.

47. É, aliás, costume da Igreja velar com o maior cuidado por que ninguém seja forçado a abraçar a fé
católica contra sua vontade, porquanto, como observa sabiamente Santo Agostinho, “o homem não pode
crer senão querendo” (tract. XXVI in Ioan., n. 2).

48. Pela mesma razão, não pode a Igreja aprovar uma liberdade que gera o desgosto das mais santas leis
de Deus e sacode a obediência devida à autoridade legítima. Isso é mais uma licença do que uma
liberdade, e Santo Agostinho lhe chama mui justamente “uma liberdade de perdição” (Epist. CV, ad
Donatistas, cap. II, n. 9) e o Apóstolo S. Pedro “um véu de maldade” (1 Ped2, 16). Muito mais: sendo
oposta à razão, essa pretensa liberdade é uma verdadeira escravidão. “Aquele que comete o pecado é
escravo do pecado” (Jo 8, 34).

49. Pelo contrário, liberdade verdadeira e desejável é a que, na ordem individual, não deixa o homem
escravo nem dos erros, nem das paixões, que são os seus piores tiranos; e na ordem pública traça regras
sábias aos cidadãos, facilita largamente o incremento do bem-estar e preserva do arbítrio de outrem a
coisa pública. Essa liberdade honesta e digna do homem, a Igreja a aprova ao mais alto ponto, e, para
garantir aos povos o firme e integral gozo dela, nunca cessou de lutar e de combater.
50. Sim, na verdade, tudo o que pode haver de salutar para o bem geral no Estado; tudo o que é útil para
proteger o povo contra a licença dos príncipes que lhe não provêem ao bem; tudo o que impede as
usurpações injustas do Estado sobre a comuna ou sobre a família; tudo o que interessa à honra, à
personalidade humana e à salvaguarda dos direitos iguais de cada um; de tudo isso a Igreja Católica
sempre tomou quer a iniciativa, quer o patrocínio, quer a proteção, como atestam os monumentos das
idades precedentes. Sempre coerente consigo mesma, se, de uma parte, dela repele uma liberdade
imoderada que, para os indivíduos e para os povos, degenera em licença ou em escravidão, de outra parte
abraça com todo o gosto os progressos que todo dia nascem, se verdadeiramente contribuem para a
prosperidade desta vida, que é como um encaminhamento para a vida futura e para sempre duradoura.
Assim, pois, dizer que a Igreja vê com maus olhos as formas mais modernas dos sistemas políticos e repele
em bloco todas as descobertas do gênio contemporâneo, é uma calúnia vã e sem fundamento. Sem
dúvida, ela repudia as opiniões malsãs, reprova a inclinação perniciosa para a revolta, e mui
particularmente essas predisposições dos espíritos em que já reponta a vontade de se afastar de Deus;
mas, como tudo o que é verdadeiro não pode proceder senão de Deus, em tudo o que as investigações do
espírito humano descobrem de verdade, a Igreja reconhece como que um vestígio da inteligência divina; e
como não há nenhuma verdade natural que infirme a fé nas verdades divinamente reveladas, como há
muitas que a confirmam, e como todo descobrimento da verdade pode levar a conhecer e a louvar ao
próprio Deus, a Igreja acolherá sempre de bom grado e com alegria tudo o que contribuir para alargar a
esfera das ciências; e, assim como sempre o fez para com as outras ciências, favorecerá e incentivará
aquelas que tem por objeto o estudo da natureza. Nesse gênero de estudos, a Igreja não se opõe a
nenhuma descoberta do espírito; vê sem desprezar tantas investigações que tem por fim o prazer e o bem-
estar; e, mesmo, inimiga nata da inércia e da preguiça, deseja grandemente que o exercício e a cultura
façam o gênio do homem dar frutos abundantes. Ela tem incentivos para toda espécie de artes e
indústrias, e, dirigindo por sua virtude todas essas investigações para um fim honesto e salutar, aplica-se a
impedir que a inteligência e a indústria do homem não o desviem de Deus e dos bens celestes.

51. Esta maneira de agir, todavia tão racional e tão sábia, é que é desacreditada nestes tempos em que os
Estados não somente recusam conformar-se aos princípios da filosofia cristã, mas parecem querer afastar-
se dela cada dia mais. Não obstante, sendo próprio da luz irradiar por si mesma ao longe e penetrar aos
poucos os espíritos dos homens, movidos como somos pela consciência das altíssimas e santíssimas
obrigações da missão apostólica de que estamos investidos para com todos os povos, livremente
proclamamos, consoante o Nosso dever, a verdade, não porque não levemos em nenhuma conta os
tempos, ou julgamos dever proscrever os honestos e úteis progressos da Nossa idade; mas porque
quereríamos ver os negócios públicos seguirem caminhos menos perigosos e repousarem em fundamentos
mais sólidos, e isso deixando intacta a liberdade legítima dos povos; essa liberdade de que a verdade é
entre os homens a fonte e a melhor salvaguarda: “A verdade vos libertará” (Jo 7, 32).

52. Se, pois, nessas conjunturas difíceis os católicos Nos escutarem, como é seu dever, saberão
exatamente quais são os deveres de cada um na “teoria” como na “prática”. Na teoria, primeiro, é
necessário ater-se com decisão inabalável a tudo o que os Pontífices romanos têm ensinado ou ensinarem,
e, todas as vezes que as circunstâncias o exigirem, fazer disso profissão pública. Particularmente no que
diz respeito às “liberdades modernas”, como lhes chamam, deve cada um ater-se ao julgamento da Sé
Apostólica e conformar-se com suas decisões. Cumpre resguardar-se de se deixar enganar pela
honestidade especiosa dessas liberdades, e lembrar-se de que fontes elas emanam e por que espírito se
propagam e se sustentam. A experiência já tem feito suficientemente conhecer os resultados que elas têm
tido para a sociedade, e o quanto os frutos que elas têm dado inspiram com toda razão pesares aos
homens funestos e prudentes. Se existe algures, ou pelo pensamento se imaginar um Estado que persiga
disfarçada e tiranicamente o nome cristão, e se o confrontarmos com o gênero do governo moderno de
que falamos, este último poderá parecer mais tolerável. Certamente, os princípios em que este último se
baseia são de tal natureza, como dissemos, que em si mesmo por ninguém devem ser aprovados.

53. Na prática, a ação pode exercer-se já nos negócios privados e domésticos, já nos negócios públicos. Na
ordem privada, o primeiro dever de cada um é de conformar exatamente a própria vida e os próprios
costumes aos preceitos do Evangelho, e de não recuar ante o que a virtude cristã impõe de um pouco
difícil de sofrer e aturar. Todos devem, além disso, amar a Igreja como sua Mãe comum, obedecer às suas
leis, prover à sua honra, salvaguardar-lhe os direitos, e tomar cuidado de que aqueles sobre os quais
exercem alguma autoridade a respeitem e a amem com a mesma piedade filial.
54. À salvação pública importa ainda que os católicos emprestem sensatamente o seu concurso à
administração dos negócios municipais e se apliquem sobretudo a fazer com que a autoridade pública
atenda à educação religiosa e moral da juventude, como convém a cristãos: daí depende sobretudo a
salvação da sociedade. Será geralmente útil e louvável que os católicos estendam a sua ação além dos
limites desse campo demasiado restrito, e se cheguem aos grandes cargos do Estado. “Geralmente”,
dizemos, porque aqui os Nossos conselhos se dirigem a todas as nações. Aliás, pode suceder algures que,
por motivos os mais graves e os mais justos, absolutamente não seja conveniente participar dos negócios
públicos seria tão repreensível como não trazer à utilidade comum nem desvelo nem concurso: tanto mais
quanto, em virtude mesmo da doutrina que professam, os católicos são obrigados a cumprir esse dever
com toda integridade e consciência. Aliás. Abstendo-se eles, as rédeas do governo passarão sem
contestação às mãos daqueles cujas opiniões certamente não oferecem grande esperança de salvação para
o Estado.

55. Seria isso, ademais, pernicioso aos interesses cristãos, porque os inimigos da Igreja teriam todo o
poder e os defensores dela, nenhum. Evidentemente é, pois, que os católicos têm justos motivos para
participar da vida política; porquanto o fazem e o devem fazer não para aprovar aquilo que pode haver de
censurável presentemente nas instituições políticas; porquanto o fazem e o devem fazer não para aprovar
aquilo que pode haver de censurável presentemente nas instituições políticas, mas para tirar dessas
próprias instituições, tanto quanto possível, o bem público sincero e verdadeiro, propondo-se infundir em
todas as veias do Estado, como uma seiva e um sangue reparador, a virtude e a influência da religião
católica.

56. Assim foi nas primeiras idades da Igreja. Nada estava mais distanciado das máximas e costumes do
Evangelho do que as máximas e costumes dos pagãos; viam-se, todavia, os cristãos, incorruptíveis em
plena superstição e sempre semelhantes a si mesmos, entrarem corajosamente em toda parte onde se
abria um acesso. De uma fidelidade exemplar para com os príncipes e de uma obediência às leis do Estado
tão perfeita como lhes era lícito, eles lançavam de toda parte um maravilhoso brilho de santidade,
esforçavam-se por ser úteis a seus irmãos e por atrair os outros a seguirem Nosso Senhor, dispostos
entretanto a ceder o lugar e a morrer corajosamente se não pudessem, sem vulnerar a sua consciência,
conservar as honras as magistraturas e os cargos militares. Desse modo, introduziram eles rapidamente as
instituições cristãs não somente nos lares domésticos, mas nos acampamentos, na cúria, e até no palácio
imperial. “Somos apenas de ontem, e já enchemos tudo o que é vosso, vossas cidades, vossas ilhas,
vossas fortalezas, vossos municípios, vossos conciliábulos, vossos próprios acampamentos, as tribos, as
decúrias, o palácio, o senado, o fórum” (Tertull., Apol., n. 37). Por isso, quando foi permitido professar
publicamente o Evangelho, a fé cristã apareceu em grande número de cidades não em vagidos ainda,
porém forte e já cheia de vigor.

57. Nos tempos em que estamos, há toda razão para renovar esses exemplos de nossos pais. Antes de
tudo, é necessário que todos os católicos dignos deste nome se determinem a ser e mostrar-se filhos
dedicados da Igreja; que repilam sem hesitar tudo o que seja incompatível com essa profissão; que se
sirvam das instituições públicas, tanto quanto o puderem fazer em consciência, em proveito da verdade e
da justiça; que trabalhem para que a liberdade não exceda o limite traçado pela lei natural e divina; que
tomem a peito reconduzir toda constituição pública a essa forma cristã que havemos proposto para
modelo.

58. Não é coisa fácil determinar um modo único e certo para realizar esses dados, visto dever ele convir a
lugares e a tempos mui dispares entre si. Não obstante, cumpre antes de tudo conservar a concórdia das
vontades e tender à uniformidade da ação. Obter-se-á seguramente esse duplo resultado se cada um
tomar como regra de conduta as prescrições da Sé Apostólica e a obediência aos bispos, que “o Espírito
Santo estabeleceu para reger a Igreja de Deus” (At 20, 28). A defesa do nome cristão reclama
imperiosamente que o assentimento às doutrinas ensinadas pela Igreja seja da parte de todos unânime e
constante, e, por este lado, cumpre resguardar-se ou de estar, no que quer que seja, de conivência com as
falsas opiniões, ou de combatê-las mais molemente do que comporta a verdade. Quanto às coisas sobre
que se pode discutir livremente, será lícito discutir com moderação e no intuito de procurar a verdade, mas
pondo de lado as suspeitas injustas e as acusações recíprocas.
59. Para este fim, no medo de que a união dos espíritos seja destruída por acusações temerárias, eis aqui
o que todos devem admitir: a profissão íntegra da fé católica absolutamente incompatível com as opiniões
que se aproximam do “racionalismo” e do “naturalismo”, e cujo capital é destruir completamente as
instituições cristãs e estabelecer na sociedade a autoridade do homem em lugar da de Deus. Não é, tão
pouco, permitido ter duas maneira de proceder: uma em particular e outra em público, de modo a
respeitar a autoridade da Igreja ma vida privada e a rejeitá-la na vida pública; isso seria aliar juntos o bem
e o mal e pôr o homem em luta consigo mesmo, quando, ao contrário, deve ele sempre ser coerente, e em
nenhum gênero de vida ou de negócios afastar-se da virtude cristã. Mas se se tratar de questões
puramente políticas, do melhor gênero de governo, de tal ou tal sistema de administração civil,
divergências honestas são lícitas. A justiça não sobre, pois, que se criminem homens cuja piedade é aliás
conhecida, e cuja mente é inteiramente disposta a aceitar docilmente as decisões da Santa Sé, por serem
de opinião diferente sobre os pontos em questão. Injustiça muito maior ainda seria suspeitar-lhes a fé ou
acusá-los de traí-la, como mais de uma vez o havemos lamentado. Seja esta lei uma imprescritível para os
escritores e sobretudo para os jornalistas.

60. Numa luta em que os maiores interesses estão em jogo, não se deve deixar lugar algum às dissensões
intestinas ou ao espírito de partido; mas, num acordo unânime dos espíritos e dos corações, todos devem
perseguir o escopo comum, que é salvar os grandes interesses da religião e da sociedade. Se, pois, no
passado, tiveram lugar alguns dissentimentos, cumpre sepultá-los num sincero esquecimento; se alguma
temeridade, se alguma injustiça foi cometida, seja qual for o culpado, cumpre tudo reparar por uma
caridade recíproca tudo redimir por um comum assalto de deferências para com a Santa Sé. Deste modo,
obterão os católicos duas vantagens importantíssimas: a de ajudarem a Igreja a conservar e a propagar a
doutrina cristã, e a de prestarem o serviço mais assinalado à sociedade, cuja salvação está fortemente
comprometida pelas más doutrinas e pelas más paixões.

61. É isso, Veneráveis Irmãos, o que julgamos dever ensinar a todas as nações do orbe católico sobre a
constituição cristã dos Estados e os deveres privados dos súditos. Resta-Nos implorar por ardentes preces
o socorro celeste, e suplicar a Deus fazer Ele próprio atingirem o termo desejado todos os Nossos desejos
e todos os Nossos esforços para a sua glória e para a salvação do gênero humano, Ele que é só quem
pode iluminar os espíritos e tocar os corações dos homens. Como penhor das bênçãos divinas e em
testemunho da Nossa paternal benevolência, damo-Vos na caridade do Senhor, Veneráveis Irmãos, a Vós
bem como ao clero e ao povo inteiro confiado à Vossa guarda e à Vossa vigilância, a Bênção Apostólica.

Dado em Roma, em S. Pedro, a 1° de novembro de 1885, oitavo ano do Nosso Pontificado.

LEÃO XIII, PAPA.

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_01111885_immortale-dei.html

CARTA ENCÍCLICA
SUPERIORE ANNO
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA

Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.
Correspondência ao convite do ano passado

1. O ano passado, como todos sabem, com uma Encíclica Nossa dispusemos que durante todo o mês de
Outubro, em toda parte do orbe católico, se honrasse por meio do santo Rosário a grande Mãe de Deus,
para obter dela um eficaz socorro nas angústias de que a Igreja estava oprimida. Com isso secundamos
uma inspiração Nossa, e seguimos o exemplo dos Nossos Predecessores, os quais, nos tempos mais difíceis
para a Igreja, tiveram o costume de, com aumentado ardor de piedade, recorrer à Virgem augusta, e de
com fervorosa prece invocar-lhe o auxílio.

2. A solicitude e o consenso em secundar a Nossa vontade foram tais por toda parte, que se tornou
evidente o quanto é intenso no povo cristão o espírito da religião e da piedade, e o quanto é viva a
confiança de todos no celeste auxílio de Maria Santíssima. Este fervor em professar a própria piedade e a
própria fé trouxe, certamente, um grande conforto ao Nosso coração, oprimido por tantas preocupações
graves e por tantos males; antes, deu-nos força para suportar, se Deus assim quiser, males ainda piores.
De feito, enquanto o espírito de oração se derramar sobre a casa de David e sobre os habitantes de
Jerusalém, nutrimos segura esperança de que, um dia, Deus se nos mostrará aplacado, e de que, movido a
compaixão pela sorte da sua Igreja, atenderá às orações elevadas pelos fiéis por meio daquela que Ele quis
administradora das graças celestes.

Cumpre preservar na oração

3. Portanto, visto ainda subsistirem as causas que, como já dissemos, nos impeliram, o ano passado, a
estimular a piedade dos fiéis, julgamos nosso dever, Veneráveis Irmãos, exortar de novo, este ano, o povo
cristão a perseverar na devoção do santo Rosário, para merecer a eficaz proteção da grande Mãe de Deus.
Com efeito, se são tão obstinados os propósitos dos inimigos do cristianismo, necessário se torna que não
menor seja a constância dos seus defensores; tanto mais quanto o auxilio celeste e os benefícios de Deus
freqüentemente são fruto da nossa perseverança. E aqui torna-se oportuno evocar o exemplo daquela
ilustre heroína em quem era figurada a Virgem Maria: Judite, que conteve a impaciência dos judeus, os
quais, na sua estultícia, queriam a seu arbítrio fixar a Deus o tempo para socorrer a cidade. Assim também
deve ter-se presente o exemplo dos Apóstolos, que esperaram o prometido dom supremo do Espírito Santo
unidos em perseverante e unânime oração, com Maria Mãe de Jesus.

Motivos para recorrer a Maria

4. Efetivamente, agora também se trata de um negócio bastante árduo e importante: isto é, de abater o
poder do antigo e astutíssimo inimigo, arrogante na sua força; de reivindicar a liberdade para a Igreja e
para o seu Chefe; de conservar e defender os fundamentos sobre os quais deve apoiar-se a segurança e o
bem-estar da sociedade. Grande deve, por isto, ser, nestes tempos tão lacrimosos para a Igreja, a
solicitude de manter com piedosa diligência o santo costume do Rosário; sobretudo porque esta oração é
composta de modo a evocar sucessivamente todos os mistérios da nossa salvação, e portanto
particularmente adequada para fomentar a piedade.

5. Depois, pelo que se refere à Itália, há, neste momento, uma particular, uma extrema necessidade de
implorar o eficacíssimo socorro da Virgem, dado que não só está iminente, mas já sobreveio uma
inesperada calamidade. Queremos aludir à peste asiática que, transpondo, por vontade de Deus os confins
que a natureza parecia haver-lhe fixado, invadiu os portos mais freqüentados da costa francesa e, dali, as
zonas limítrofes da Itália.

6. Devemos, pois, buscar refúgio em Maria, naquela a quem com razão a Igreja chama Virgem salutífera,
auxiliadora, libertadora; para que ela queira trazer-nos benevolamente o socorro invocado mediante a mais
agradável das orações, e afastar de nós o impuro contágio.

Disposições e indulgências para a recitação do Rosário

7. Por tal motivo, aproximando-se o mês de Outubro, em que o orbe católico celebra a festa de Nossa
Senhora do Rosário, deliberamos renovar este ano todas as prescrições do ano passado.
8. Portanto, decretamos e ordenamos que, a partir de primeiro de Outubro até 2 de Novembro seguinte,
em todas as igrejas paroquiais e nos oratórios públicos dedicados à Mãe de Deus, ou mesmo nos outros, a
juízo do Ordinário, sejam diariamente recitadas ao menos cinco dezenas do Rosário, com as ladainhas. E,
se o Rosário se recitar pela manhã, celebre-se ao mesmo tempo a santa Missa; se, em vez disso, se recitar
de tarde, exponha-se o SS. Sacramento à adoração dos fiéis, e portanto dê-se aos presentes a bênção.
Além disso, é nosso desejo que, onde a isso se não opuserem as leis civis, para incremento da piedade
pública as Confrarias do santo Rosário saiam pelas ruas em procissão solene.

9. Depois, a fim de que os celestes tesouros da Igreja fiquem à disposição da piedade cristã, renovamos as
simples Indulgências já concedidas o ano passado. Isto é, a todos os fiéis que, nos dias estabelecidos,
participarem da pública recitação do Rosário e orarem segundo a Nossa intenção, como também àqueles
que, por legítimo impedimento, o recitarem em particular, concedemos, para cada vez, a Indulgência de
sete anos e de sete quarentenas.

Além disto, concedemos a Indulgência plenária aos que, em dito período, confessados e comungados,
recitarem, ao menos por dez dias, o Rosário do modo supra indicado, na igreja ou, por justo motivo, em
casa. Em terceiro lugar, concedemos também esse pleníssimo perdão das culpas e remissão das penas a
todos os que, no dia da festa do Rosário, ou na oitava, com a alma purificada participarem do divino
Banquete, orando, em alguma igreja, a Deus e a sua Mãe Santíssima, segundo a Nossa intenção.

10. Querendo, enfim, atender àqueles que vivem no campo e que, durante o mês de Outubro, estão
particularmente empenhados no trabalho dos campos, consentimos que, a juízo dos Ordinários, eles adiem
para os meses seguintes, de Novembro e Dezembro, as piedosas práticas supra estabelecidas, e que
possam igualmente lucrar as Indulgências anexas ao mês de Outubro.

As esperanças do Papa

11. Não duvidamos, Veneráveis Irmãos, de que os Nossos cuidados não estejam em via de ser coroados de
frutos abundantes e opimos, mormente se Deus, com o dom das suas graças, fizer crescer o que Nós
plantamos e vós regastes. Por outro lado, estamos certo de que o povo cristão prestará ouvido à
autoridade Apostólica com o mesmo fervor de fé e de piedade de que deu esplêndido testemunho no ano
passado.

Assim, fazemos votos para que a celeste Padroeira, invocada mediante a oração do Rosário, nos seja
propícia e nos obtenha que, eliminadas as divergências de opiniões, e estendida a religião de Cristo a todas
as partes da terra, a Igreja alcance a suspirada tranqüilidade. Como penhor deste benefício, de todo
coração concedemos a Bênção Apostólica a vós, ao vosso clero e ao povo confiado ao vosso ministério.

Dado em Roma, junto a S. Pedro, a 30 de Agosto de 1884, sétimo ano do Nosso Pontificado.

LEÃO PP. XIII

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_30081884_superiore-anno.html

CARTA ENCÍCLICA
HUMANUM GENUS
DO SUMO PONTÍFICE
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA
SOBRE A MAÇONARIA

1. O Gênero Humano, após sua miserável queda de Deus, o Criador e Doador dos dons celestes, "pela
inveja do demônio," separou-se em duas partes diferentes e opostas, das quais uma resolutamente luta
pela verdade e virtude, e a outra por aquelas coisas que são contrárias à virtude e à verdade. Uma é o
reino de Deus na terra, especificamente, a verdadeira Igreja de Jesus Cristo; e aqueles que desejam em
seus corações estar unidos a ela, de modo a receber a salvação, devem necessariamente servir a Deus e
Seu único Filho com toda a sua mente e com um desejo completo. A outra é o reino de Satanás, em cuja
possessão e controle estão todos e quaisquer que sigam o exemplo fatal de seu líder e de nossos primeiros
pais, aqueles que se recusam a obedecer à lei divina e eterna, e que têm muitos objetivos próprios em
desprezo a Deus, e também muitos objetivos contra Deus.

2. Este reino dividido Sto. Agostinho penetrantemente discerniu e descreveu ao modo de duas cidades,
contrárias em suas leis porque lutando por objetivos contrários; e com sutil brevidade ele expressou a
causa eficiente de cada uma nessas palavras: "Dois amores formaram duas cidades: o amor de si mesmo,
atingindo até o desprezo de Deus, uma cidade terrena; e o amor de Deus, atingindo até o desprezo de si
mesmo, uma cidade celestial."[1] Em cada período do tempo uma tem estado em conflito com a outra,
com uma variedade e multiplicidade de armas e de batalhas, embora nem sempre com igual ardor e
assalto. Nesta época, entretanto, os partisans (guerrilheiros) do mal parecem estar se reunindo, e estar
combatendo com veemência unida, liderados ou auxiliados por aquela sociedade fortemente organizada e
difundida chamada os Maçons. Não mais fazendo qualquer segredo de seus propósitos, eles estão agora
abruptamente levantando-se contra o próprio Deus. Eles estão planejando a destruição da santa Igreja
publicamente e abertamente, e isso com o propósito estabelecido de despojar completamente as nações
da Cristandade, se isso fosse possível, das bênçãos obtidas para nós através de Jesus Cristo nosso
Salvador. Lamentando estes males, Nós somos constrangidos pela caridade que urge Nosso coração a
clamar freqüentemente a Deus: "Ó Deus, eis que Teus inimigos se agitam; e os que Te odeiam levantaram
as suas cabeças. Eles tramam um plano contra Teu povo, e conspiram contra Teus santos. Eles disseram:
'vinde, destruamo-nos, de modo que eles não sejam uma nação'."[2]

3. Em uma crise tão urgente, quando tão feroz e tão forte assalto é feito sobre o nome Cristão, é Nosso
ofício apontar o perigo, marcar quem são os adversários, e no máximo de Nosso poder fazer uma barreira
contra seus planos e procedimentos, para que não pereçam aqueles cuja salvação está confiada a Nós, e
para que o reino de Jesus Cristo confiado a Nosso encargo possa não só permanecer de pé e inteiro, mas
possa ser alargado por um crescimento cada vez maior através do mundo.

4. Os Pontífices Romanos nossos predecessores, em sua incessante vigilância pela segurança do povo
Cristão, foram rápidos em detectar a presença e o propósito desse inimigo capital tão logo ele saltou para
a luz ao invés de esconder-se como uma tenebrosa conspiração; e, além disso, eles aproveitaram e
tomaram providências, pois a eles isso competia, e não permitiram a si mesmos serem tomados pelos
estratagemas e armadilhas armadas para enganá-los.

5. A primeira advertência do perigo foi dada por Clemente XII no ano de 1738 [3], e sua constituição foi
confirmada e renovada por Bento XIV [4]. Pio VII seguiu o mesmo caminho [5]; e Leão XII, por sua
constituição apostólica, Quo Graviora [6], juntou os atos e decretos dos Pontífices anteriores sobre o
assunto, e os ratificou e confirmou para sempre. No mesmo sentido pronunciou-se Pio VIII [7], Gregório
XVI [8], e, muitas vezes, Pio IX [9].

6. Tão logo a constituição e o espírito da seita maçônica foram claramente descobertos por manifestos
sinais de suas ações, pela investigação de suas causas, pela publicação de suas leis, e de seus ritos e
comentários, com a freqüente adição do testemunho pessoal daqueles que estiveram no segredo, esta sé
apostólica denunciou a seita dos Maçons, e publicamente declarou sua constituição, como contrária à lei e
ao direito, perniciosa tanto à Cristandade como ao Estado; e proibiu qualquer um de entrar na sociedade,
sob as penas que a Igreja costuma infligir sobre as pessoas excepcionalmente culpadas. Os sectários,
indignados por isto, pensando em eludir ou diminuir a força destes decretos, parcialmente por desprezo, e
parcialmente por calúnia, acusaram os soberanos Pontífices que os passaram ou de exceder os limites da
moderação em seus decretos ou de decretar o que não era justo. Este foi o modo pelo qual eles
esforçaram-se para eludir a autoridade e o peso das constituições apostólicas de Clemente XII e Bento XIV,
e também de Pio VII e Pio IX [10]. Entretanto, na própria sociedade, encontraram-se homens que
relutantemente concordaram que os Pontífices Romanos tinham agido dentro de seu direito, de acordo
com a doutrina e disciplina Católicas. Os Pontífices receberam a mesma concordância, em termos fortes,
de muitos príncipes e chefes de governo, que tomaram como um dever ou delatar a sociedade maçônica à
sé apostólica, ou por seu próprio acordo por leis específicas declará-la perniciosa, como, por exemplo, na
Holanda, Áustria, Suíça, Espanha, Bavária, Savóia, e outras partes da Itália.

7. Mas, o que é da maior importância, o curso dos eventos demonstrou a prudência dos Nossos
predecessores. Pois a sua providente e paternal solicitude não conseguiu sempre e em todo lugar o
resultado desejado; e isto, ou por causa do fingimento e astúcia de alguns que eram agentes ativos na
maldade, ou então da irrefletida leviandade do resto que deveria, em seu próprio interesse, ter dado ao
assunto sua diligente atenção. Em conseqüência, a seita dos Maçons cresceu com uma velocidade
inconcebível no curso de um século e meio, até que se tornou capaz, através de fraude ou audácia, de
obter tal acesso em cada nível do Estado de modo a parecer quase a sua força governante. Este veloz e
formidável avanço trouxe sobre a Igreja, sobre o poder dos príncipes, sobre o bem estar público,
precisamente aquele grave dano que Nossos predecessores tinham previsto muito antes. Tal condição foi
atingida que de agora de diante haverá grave razão para temer, não realmente pela Igreja ― porque sua
fundação é firme demais para ser derrubada pelos esforços dos homens ― mas por aqueles Estados em
que prevalece o poder, ou da seita da qual estamos falando ou de outras seitas não diferentes que
curvam-se a ela como discípulas e subordinadas.

8. Por estas razões Nós, tão logo chegamos ao timão da Igreja, claramente vimos e sentimos ser Nosso
dever usar Nossa autoridade em sua máxima extensão contra um mal tão vasto. Nós já por muitas vezes,
conforme as ocasiões surgiram, atacamos alguns pontos principais dos ensinamentos que demonstraram
de uma maneira especial a perversa influência das opiniões Maçônicas. Assim, em nossa carta
encíclica, Quod Apostolici Muneris, Nós Nos esforçamos por refutar as monstruosas doutrinas dos
socialistas e comunistas; depois, em outra começando com Arcanum, Nós penosamente defendemos e
explicamos a verdadeira e genuína idéia da vida doméstica, da qual o matrimônio é o ponto de partida e a
origem; e novamente, naquela que começa com "Diuturnum"[11], Nós descrevemos a idéia de governo
político conforme os princípios da sabedoria Cristã, que é maravilhosa em harmonia, por um lado, com a
ordem natural das coisas, e, por outro lado, com o bem-estar tanto dos príncipes soberanos quanto das
nações. É agora Nossa intenção, seguindo o exemplo de Nossos predecessores, tratar diretamente a
própria sociedade maçônica, todo o seu ensinamento, seus objetivos, e a sua maneira de pensar e agir, de
modo a trazer mais e mais à luz seu poder para o mal, e fazer o que Nós pudermos para deter o contágio
desta peste fatal.

9. Há vários corpos organizados os quais, embora diferindo em nome, em cerimonial, em forma e origem,
são contudo tão unidos por comunhão de propósito e pela similaridade de suas principais opiniões, de
modo a formar de fato uma só coisa com a seita dos Maçons, a qual é um tipo de centro ao qual todos eles
se dirigem, e do qual todos eles retornam. Agora, estes não mais mostram um desejo de permanecer
escondidos; pois eles realizam seus encontros à luz do dia e à vista do povo, e publicam seus próprios
jornais; e contudo, quando completamente compreendidos, descobre-se que eles ainda retêm a natureza e
os hábitos de sociedades secretas. Há muitas coisas como mistérios que é regra fixa esconder com
extremo cuidado, não somente de estranhos, mas de muitos e muitos membros, também; tais como seus
desígnios secretos e últimos, os nomes de seus maiores líderes, e certos segredos e encontros privados,
assim como suas decisões, e os caminhos e meios de executá-las. Este é, sem dúvida, o objetivo das
múltiplas diferenças entre os membros quanto a direito, cargo e privilégio, das distinções recebidas de
ordens e graus, e da severa disciplina que é mantida.

Os candidatos são geralmente ordenados a prometer ― e mais, com um especial juramento, a jurar ― que
eles não irão nunca, a nenhuma pessoa, em qualquer tempo ou de qualquer modo, dar a conhecer os
membros, as senhas, ou os assuntos discutidos. Assim, com uma aparência externa fraudulenta, e com um
estilo de fingimento que é sempre o mesmo, os Maçons, como os Maniqueístas de antigamente, esforçam-
se, tanto quanto possível, para encobrir a si mesmos, e para não admitir testemunhas exceto seus próprios
membros. Como uma maneira conveniente de disfarce, eles assumem o caráter de homens de letras e
acadêmicos associados com o objetivo de aprender. Eles falam de seu zelo por um maior refinamento
cultural, e de seu amor pelos pobres; e eles declaram que seu único desejo é a melhoria da condição das
massas, e o compartilhamento com o maior número possível de pessoas de todos os benefícios da vida
civil. Mesmo que estes propósitos fossem visados verdadeiramente, eles não são de modo algum o todo de
seu objetivo. Ainda mais, para ser alistado, é necessário que os candidatos prometam e assumam ser daí
em diante estritamente obedientes aos seus líderes e mestres com a mais completa submissão e fidelidade,
e estar de prontidão para cumprir suas ordens à mais leve expressão de seu desejo; ou, se desobedientes,
submeter-se aos mais penosos castigos e à própria morte. De fato, se algum é julgado ter traído as obras
da seita ou ter resistido às ordens dadas, a punição é infligida neles não infreqüentemente, e com tanta
audácia e destreza que o assassino muito freqüentemente escapa à detecção e punição de seu crime.

10. Mas fingir e desejar permanecer escondido; atar homens como escravos com as mais fortes correntes,
e sem dar qualquer razão suficiente; usar homens escravizados aos desejos de outro para qualquer ato
arbitrário; armar as mãos direitas de homens para o massacre após assegurar a impunidade pelo crime ―
tudo isso é uma enormidade diante qual a natureza recua. Por este motivo, a razão e a própria verdade
tornam claro que a sociedade da qual nós estamos falando está em antagonismo com a justiça e a retidão
natural. E isto se torna ainda mais claro, uma vez que outros argumentos, também, e muito evidentes,
provam que ela é essencialmente oposta à virtude natural. Pois, não importando quão grande possa ser a
inteligência do homem em disfarçar e a sua experiência em mentir, é impossível evitar os efeitos de
qualquer causa de mostrarem, de algum modo, a natureza intrínseca da causa da qual eles vêm. "Uma boa
árvore não pode produzir mau fruto, nem uma árvore ruim produzir bom fruto."[12] Agora, a seita
maçônica produz frutos que são perniciosos e do mais amargo sabor. Pois, daquilo que Nós acima
mostramos da maneira mais clara, aquele que é o seu propósito último força-a a se tornar visível ―
especificamente, a completa derrubada de toda a ordem religiosa e política do mundo que o ensinamento
Cristão produziu, e a substituição por um novo estado de coisas de acordo com as suas idéias, das quais as
fundações e leis devem ser obtidas do mero naturalismo.

11. O que Nós dissemos, e estamos para dizer, deve ser entendido com respeito à seita dos Maçons
tomada genericamente, e tanto quanto ela compreende as associações aparentadas a ela e confederadas
com ela, mas não dos seus membros individuais. Pode haver pessoas entre eles, e não poucos que,
embora não livres da culpa de terem se enleado em tais associações, ainda assim não são eles mesmos
parceiros em seus atos criminosos nem conscientes do objetivo último que eles estão se esforçando por
alcançar. Do mesmo modo, algumas das sociedades afiliadas, talvez, de modo algum aprovem as
conclusões extremas que eles iriam, se consistentes, abraçar como conseqüências necessárias de seus
princípios comuns, se a sua própria maldade não os enchesse de horror. Alguns deles, novamente, são
levados pelas circunstâncias dos tempos e lugares ou a visar coisas menores do que os outros
normalmente tentam ou do que eles mesmos desejariam tentar. Eles não devem, entretanto, por esta
razão, ser considerados como estranhos à federação maçônica; porque a federação maçônica deve ser
julgada não tanto pelas coisas que ela tem feito, ou concluído, quanto pela soma de suas opiniões
pronunciadas.

12. Agora, a doutrina fundamental dos naturalistas, que eles tornam suficientemente conhecida em seu
próprio nome, é que a natureza humana e a razão humana deveriam em todas as coisas ser senhora e
guia. Eles ligam muito pouco para os deveres para com Deus, ou os pervertem por opiniões errôneas e
vagas. Pois eles negam que qualquer coisa tenha sido ensinada por Deus; eles não permitem qualquer
dogma de religião ou verdade que não possa ser entendida pela inteligência humana, nem qualquer mestre
que deva ser acreditado por causa de sua autoridade. E desde que é o dever especial e exclusivo da Igreja
Católica estabelecer completamente em palavras as verdades divinamente recebidas, ensinar, além de
outros auxílios divinos à salvação, a autoridade de seu ofício, e defender a mesma com perfeita pureza, é
contra a Igreja que o ódio e o ataque dos inimigos é principalmente dirigido.

13. Nos assuntos a respeito de religião que se veja como a seita dos Maçons age, especialmente aonde ela
é mais livre para agir sem barreiras, e então que qualquer um julgue se realmente ela não deseja executar
a política dos naturalistas. Por um longo e perseverante labor, eles esforçam-se para alcançar este
resultado ― especificamente, que o ofício de ensinar e a autoridade da Igreja tornem-se sem valor no
Estado civil; e por esta mesma razão eles declaram ao povo e argumentam que a Igreja e o Estado devem
ser completamente desunidos. Por este meio eles rejeitam das leis e da nação a saudável influência da
religião Católica; e eles conseqüentemente imaginam que os Estados devem ser constituídos sem qualquer
consideração pelas leis e preceitos da Igreja.

14. Nem eles pensam ser suficiente desconsiderar a Igreja ― a melhor das guias ― mas eles também a
ferem por sua hostilidade. Realmente, para eles está dentro da lei atacar com impunidade as próprias
fundações da religião Católica, em palavra, em escritos e em ensinamentos; e até os direitos da Igreja não
são poupados, e os ofícios com os quais ela é divinamente investida não estão seguros. A mínima liberdade
possível para administrar os assuntos é deixada à Igreja; e isto é feito por leis aparentemente não muito
hostis, mas na realidade armadas e ajustadas para dificultar a liberdade de ação. Ainda mais, Nós vemos
leis excepcionais e opressivas impostas sobre o clero, a fim de que eles possam ser continuamente
diminuídos em número e meios necessários. Nós também vemos os remanescentes das possessões da
Igreja restringidos pelas mais estritas condições, a sujeitados ao poder e ao desejo arbitrário dos
administradores do Estado, e as ordens religiosas reviradas e espalhadas.

15. Mas contra a sé apostólica e o Pontífice Romano a contenda destes inimigos tem sido por um longo
tempo dirigida. O Pontífice foi primeiro, por razões sem substância, atirado para fora da proteção de sua
liberdade e de seu direito, o principado civil; logo, ele foi injustamente forçado em uma condição que era
insuportável por causa das dificuldades levantadas de todos os lados; e agora o tempo chegou em que
os partisans (guerrilheiros) da seita abertamente declaram, o que em segredo entre eles mesmos eles têm
por um longo tempo planejado, que o poder sagrado dos Pontífices deve ser abolido, e que o próprio
papado, fundado por direito divino, deve ser totalmente destruído. Se outras provas fossem desejadas,
este fato seria suficientemente revelado pelo testemunho de homens informados, dos quais alguns em
outros tempos, e outros recentemente, declararam ser verdadeiro a respeito dos Maçons que eles desejam
especialmente atacar violentamente a igreja com irreconciliável hostilidade, e que eles nunca descansarão
até que eles tenham destruído o que quer que os supremos Pontífices tenham estabelecido como religião.

16. Se aqueles que são admitidos como membros não são ordenados a abjurar por quaisquer palavras as
doutrinas Católicas, esta omissão, muito longe de ser adversa aos desígnios dos Maçons é mais útil para os
seus propósitos. Primeiro, deste modo eles facilmente enganam os ingênuos e os incautos, e podem
induzir um número muito maior a se tornarem membros. Novamente, como todos que se oferecem são
recebidos qualquer que possa ser sua forma de religião, eles deste modo ensinam o grande erro desta
época ― que uma consideração por religião deveria ser tida como assunto indiferente, e que todas as
religiões são semelhantes. Este modo de raciocinar é calculado para trazer a ruína de todas as formas de
religião, e especialmente da religião Católica, que, como é a única que é verdadeira, não pode, sem grande
injustiça, ser considerada como meramente igual às outras religiões.

17. Mas os naturalistas vão muito mais longe; pois, tendo, nas mais altas coisas, entrado em um curso
completamente errôneo, eles são levados impetuosamente a extremos, ou por causa da fraqueza da
natureza humana, ou porque Deus inflige sobre eles a justa punição do seu orgulho. Assim acontece que
eles não mais consideram como certas e permanentes aquelas coisas que são totalmente entendidas pela
luz natural da razão, tais como certamente são ― a existência de Deus, a natureza imaterial da alma
humana, e sua imortalidade. A seita dos Maçons, por uma similar trilha de erro, é exposta a estes mesmos
perigos; pois, embora de um modo geral eles possam professar a existência de Deus, eles mesmos são
testemunhas que eles não mantêm todos esta verdade com total concordância da mente e com uma firme
convicção. Nem eles escondem que esta questão sobre Deus é a maior fonte e causa de discórdias entre
eles; de fato, é certo que uma discussão considerável sobre este mesmo assunto existiu entre eles muito
recentemente. Mas, realmente, a seita permite grande liberdade aos seus membros juramentados por
voto, de modo que para cada lado é dado o direito de defender a sua própria opinião, ou de que há um
Deus, ou de que não há nenhum; e aqueles que obstinadamente argumentam que não há nenhum Deus
são tão facilmente iniciados como aqueles que argumentam que Deus existe, embora, como os panteístas,
eles tenham falsas noções acerca dEle: tudo que não é nada mais do que retirar a realidade, retendo
algumas absurdas representações da natureza divina.

18. Quando esta maior e fundamental verdade foi derrubada ou enfraquecida, segue que aquelas
verdades, também, que são conhecidas pelo ensinamento da natureza devem começar a cair ―
especificamente, que todas as coisas foram feitas pelo livre desejo de Deus o Criador; que o mundo é
governado pela Providência; que as almas não morrem; que a esta vida dos homens sobre a terra
sucederá outra em uma vida eterna.

19. Quando estas verdades foram eliminadas, as quais são os princípios da natureza e importantes para o
conhecimento e para o uso prático, é fácil de ver o que irá ser da moralidade pública e privada. Nós não
dizemos nada daquelas virtudes mais celestiais, as quais ninguém pode exercer ou mesmo adquirir sem um
especial dom e graça de Deus; das quais necessariamente nenhum traço pode ser encontrado naqueles
que rejeitam como desconhecida a redenção da humanidade, a graça de Deus, os sacramentos, e a
felicidade a ser obtida no céu. Nós falamos agora dos deveres que têm a sua origem na retidão natural.
Que Deus é o Criador do mundo e seu providente Governador; que a lei eterna exige que a ordem natural
seja mantida, e proíbe que ela seja perturbada; que o fim último do homem é um destino muito acima das
coisas humanas e além desta parada sobre a terra: estas são as fontes e estes são os princípios de toda
justiça e moralidade.

Se eles forem removidos, como os naturalistas e Maçons desejam, imediatamente não haverá nenhum
conhecimento quanto ao que constitui justiça e injustiça, ou sobre qual princípio a moralidade é fundada.
E, em verdade, o ensinamento de moralidade que exclusivamente encontra o favor da seita dos Maçons, e
em que eles argumentam que os jovens deveriam ser instruídos, é o que eles chamam "civil", e
"independente", e "livre", especificamente, aquele que não contém qualquer crença religiosa. Mas, quão
insuficiente tal ensinamento é, quanto deixa a desejar em firmeza, e quão facilmente movido por cada
impulso da paixão, é suficientemente provado por seus tristes frutos, que já começaram a aparecer. Pois,
aonde quer que, removendo a educação Cristã, este ensinamento começou a reinar mais completamente,
aí a bondade e integridade da moral começou rapidamente a perecer, monstruosas e vergonhosas opiniões
têm crescido, e a audácia dos atos malignos tem se elevado a um alto grau. Tudo isso é comumente
lamentado e deplorado; e não poucos daqueles que de modo algum desejam fazê-lo são compelidos pela
abundância de provas a dar não infreqüentemente o mesmo testemunho.

20. Ainda mais, a natureza humana foi manchada pelo pecado original, e é portanto mais disposta ao vício
do que à virtude. Pois uma vida virtuosa é absolutamente necessária para restringir os movimentos
desordenados da alma, e para fazer as paixões obedientes à razão. Neste conflito as coisas humanas
devem freqüentemente ser desprezadas, e os maiores trabalhos e durezas devem ser executados, de modo
que a razão possa sempre manter o seu domínio. Mas os naturalistas e Maçons, não tendo fé naquelas
coisas que nós aprendemos pela revelação de Deus, negam que nossos primeiros pais tenham pecado, e
conseqüentemente pensam que o livre desejo não é de modo algum enfraquecido e inclinado ao mal [13].
Pelo contrário, exagerando bastante o poder e a excelência da natureza, e colocando somente ali o
princípio e regra da justiça, eles não podem nem mesmo imaginar que haja qualquer necessidade de uma
constante luta e uma perfeita firmeza para dominar a violência e governo de nossas paixões.

Por isso nós vemos que homens são publicamente tentados pelos muitos encantamentos do prazer; que há
jornais e panfletos sem moderação nem vergonha; que peças de teatro são notáveis pela licenciosidade;
que desenhos para obras de arte são de uma maneira desavergonhada buscados nas leis de um assim
chamado realismo; que os planos de uma vida fácil e delicada são cuidadosamente elaborados; que todas
as seduções do prazer são diligentemente buscadas pelas quais a virtude possa ser ninada até adormecer.
Depravadamente, também, mas ao mesmo tempo de um modo bastante consistente, fazem aqueles atos
que eliminam a expectativa das alegrias do céu, e trazem para baixo toda a felicidade para o nível da
mortalidade, e, de fato, a afundam na terra. Do que Nós dissemos o seguinte fato, estarrecedor não tanto
por si mesmo quanto em sua aberta expressão, pode servir como confirmação. Pois, uma vez que
geralmente ninguém está acostumado a obedecer homens hábeis e inteligentes tão submissamente como
aqueles cuja alma está enfraquecida e quebrada pelo domínio das paixões, tem havido na seita dos
Maçons alguns que têm simplesmente determinado e proposto que, engenhosamente e de propósito
estabelecido, a multidão deveria ser saciada com uma licença sem limite para o vício, pois, quando isso
tivesse sido feito, ela iria facilmente cair sob o seu poder e autoridade para quaisquer atos de audácia.

21. Quanto ao que se refere à vida doméstica nos ensinamentos dos naturalistas é quase tudo contido nas
seguintes declarações: que o casamento pertence ao gênero dos contratos humanos, que pode ser
legalmente revogado pelo desejo daqueles que o fizeram, que os governadores civis do Estado têm poder
sobre o laço matrimonial; que na educação dos jovens nada deve ser ensinado em matéria de religião
como opinião certa e fixada; e cada um deve ser deixado livre para seguir, quando chegar à idade,
qualquer que ele preferir. Os Maçons concordam completamente com estas coisas; e não somente
concordam, mas têm longamente esforçado-se para transformá-las em lei e instituição. Pois em muitos
países, e aqueles nominalmente Católicos, é estabelecido que nenhum casamento deve ser considerado
legal a não ser aqueles contraídos pelo rito civil; em outros lugares a lei permite o divórcio; e em outros
todos os esforços são feitos para torná-lo legal tão logo quanto possível. Portanto, o tempo está
rapidamente se aproximando em que os casamentos vão ser tornados em outro tipo de contrato ― ou seja
em uniões mutáveis e incertas que um capricho pode unir, e que do mesmo modo quando se modificar
pode desunir.

Com a maior unanimidade a seita dos Maçons também esforça-se para tomar a si mesma a educação da
juventude. Eles pensam que eles podem facilmente moldar às suas opiniões aquela idade macia e
maleável, e torcê-la no que quer que eles desejem; e que nada pode ser mais adequado do que isto para
permitir a eles levar a juventude do Estado a seguir seu próprio plano. Portanto, na educação e instrução
de crianças eles não permitem qualquer participação, quer no ensinamento ou na disciplina, aos ministros
da Igreja; e em muitos lugares eles têm procurado obter que a educação dos jovens esteja exclusivamente
nas mãos de leigos, e que nada que trate dos mais importantes e mais sagrados deveres dos homens para
com Deus deva ser introduzido na instrução sobre moral.

22. E ainda há as suas doutrinas sobre política, em que os naturalistas decretam que todos os homens têm
o mesmo direito, e são em todos os aspectos da mesma e igual condição; que cada um é naturalmente
livre; que nenhum tem o direito de comandar a outrem; que é um ato de violência requerer que homens
obedeçam qualquer autoridade outra que aquela que é obtida deles mesmos. De acordo com isto,
portanto, todas as coisas pertencem ao povo livre; o poder é exercido pela ordem ou permissão do povo,
de modo que, quando o desejo do povo muda, os governantes podem ser legalmente depostos e a fonte
de todos os direitos e deveres civis está ou na multidão ou na autoridade governante quando esta é
constituída de acordo com as últimas doutrinas. É sustentado também que o Estado deve ser sem Deus;
que nas várias formas de religião não há razão pela qual uma devesse ter precedência sobre outra; e que
todas elas devem ocupar o mesmo lugar.

23. Que estas doutrinas são igualmente aceitáveis aos Maçons, e que eles desejariam constituir Estados de
acordo com este exemplo e modelo, é excessivamente bem conhecido para requerer prova. Por algum
tempo eles tem abertamente esforçado-se para tornar isto realidade com toda a sua força e recursos; e
deste modo eles preparam o caminho para não poucos homens audaciosos que estão se apressando a
fazer até as piores coisas, em seu esforço para obter igualdade e comunhão de todos os bens pela
destruição de todas as distinções de título e propriedade.

24. O que, portanto, a seita dos Maçons é, e que trilha ela persegue, aparece suficientemente do sumário
que Nós resumidamente demos. Seus dogmas principais estão tão grandemente e manifestamente
apartados da razão que nada pode ser mais perverso. Desejar destruir a religião e a Igreja que o próprio
Deus estabeleceu, e cuja perpetuidade Ele assegura por Sua proteção, e trazer após um lapso de dezoito
séculos as maneiras e costumes dos pagãos, é notável insensatez e audaciosa impiedade. Nem é menos
horrível nem mais tolerável que eles repudiem os benefícios que Jesus Cristo tão misericordiosamente
obteve, não somente para os indivíduos, mas também para as famílias e a sociedade civil, benefícios os
quais, mesmo de acordo com o julgamento e testemunho de inimigos da Cristandade, são muito grandes.
Nesta empreitada insana e pervertida nós quase podemos ver o ódio implacável e o espírito de vingança
com o qual o próprio Satanás está inflamado contra Jesus Cristo. Do mesmo modo o estudado esforço dos
Maçons para destruir as principais fundações da justiça e honestidade, e para cooperar com aqueles que
desejarem, como se fossem meros animais, fazer o que eles quiserem, tende somente para a ignominiosa
e desgraçada ruína do gênero humano.

O mal, também, é agravado pelos perigos que ameaçam a sociedade doméstica e civil. Como Nós
demonstramos, no matrimônio, de acordo com a crença de quase todas nações, há algo sagrado e
religioso; e a lei de Deus determinou que os matrimônios não devam ser dissolvidos. Se eles forem
desprovidos do seu caráter sagrado, e feitos dissolúveis, problemas e confusão na família serão o
resultado, a esposa sendo despojada de sua dignidade e as crianças deixadas sem proteção quanto aos
seus interesses e bem-estar. Não ter nos assuntos públicos qualquer cuidado pela religião, e nos arranjos e
administração dos assuntos civis não ter maior consideração para com Deus do que se Ele não existisse, é
uma imprudência desconhecida dos próprios pagãos; pois em seus corações e almas a noção de uma
divindade e a necessidade de uma religião pública estavam tão firmemente estabelecidas que eles teriam
pensado ser mais fácil ter uma cidade sem fundamentos do que uma cidade sem Deus. A sociedade
humana, para a qual nós verdadeiramente por natureza somos formados, foi constituída por Deus, o Autor
da natureza; e dEle, como de seu princípio e fonte, fluem em toda a sua força e permanência os
incontáveis benefícios com os quais a sociedade abunda. Como todos e cada um de nós somos
admoestados pela própria voz da natureza para cultuar a Deus em piedade e santidade, como o Doador da
vida e de tudo que é bom nela, do mesmo modo e pela mesma razão, nações e Estados estão obrigados a
cultuá-lO; e portanto é claro que aqueles que querem absolver a sociedade de todos os deveres religiosos
agem não só injustamente mas também com ignorância e insensatez.

25. Como os homens são pela vontade de Deus nascidos para a união civil e sociedade, e como o poder de
governar é um elo de união tão necessário à sociedade que, se ele é retirado, a sociedade
necessariamente e imediatamente se desfaz, segue que dEle que é o Autor da sociedade veio também a
autoridade de governar; assim quem quer que governe, é ministro de Deus. Portanto, como o fim e a
natureza da sociedade humana requerem, é correto obedecer às justas ordens da autoridade legal, como é
correto obedecer a Deus que governa todas as coisas; e é extremamente falso que o povo tenha como um
poder jogar de lado sua obediência quando quer que lhe agrade.

26. De maneira semelhante, ninguém duvida que todos os homens são iguais uns aos outros, tanto quanto
se refere à sua origem e natureza comuns, ou o fim último que cada um deve atingir, ou os direitos e
deveres que são daí derivados. Mas, como as habilidades de todos não são iguais, como um difere do
outro nos poderes da mente e do corpo, e como há realmente muitas dessemelhanças de maneiras,
disposição, e caráter, é extremamente repugnante à razão esforçar-se por confinar todos dentro da mesma
medida, e estender completa igualdade às instituições da vida civil. Assim como uma perfeita condição do
corpo resulta da conjunção e composição de seus vários membros, os quais, embora diferindo em forma e
propósito, fazem, por sua união e distribuição de cada um em seu próprio lugar, uma combinação bela
para ser mantida, firme em força, e necessária para o uso; desse modo, na comunidade, há uma quase
infinita dessemelhança de homens, como partes do todo. Se eles devem ser todos iguais, e cada um deve
seguir seu próprio desejo, o Estado vai aparecer extremamente deformado; mas se, com uma distinção de
graus de dignidade, de ocupações e empregos, todos habilmente cooperarem para o bem comum, eles irão
apresentar a imagem de um Estado bem constituído e conformado à natureza.

27. Agora, dos perturbantes erros que Nós temos descrito os maiores perigos para os Estados devem ser
temidos. Pois, sendo retirados o temor a Deus e a reverência pelas leis divinas, sendo desprezada a
autoridade dos governantes, a sedição permitida e aprovada, e as paixões populares exacerbadas até o
desprezo pela lei, sem qualquer freio a não ser o castigo, uma mudança e derrubada de todas as coisas
necessariamente seguirá. Sim, esta mudança e derrubada é deliberadamente planejada e colocada em
curso por várias associações de comunistas e socialistas; e aos seus propósitos a seita dos Maçons não é
hostil, mas favorece grandemente seus desígnios, e tem em comum com eles suas principais opiniões. E se
estes homens não se esforçam imediatamente e em todo lugar para levar à frente seus pontos de vista
extremos, isso não deve ser atribuído ao seu ensinamento e sua vontade, mas à virtude daquela divina
religião que não pode ser destruída; e também porque a parte mais sólida dos homens, recusando-se a ser
escravizada às sociedades secretas, vigorosamente resiste às suas insanas tentativas.

28. Se todos os homens julgassem a árvore pelo seu fruto, e reconhecessem a semente e origem dos
males que nos pressionam, e dos perigos que estão nos ameaçando! Nós temos que lidar com um inimigo
enganoso e habilidoso, que, gratificando os ouvidos do povo e dos príncipes, os tem enleado por falas
macias e por adulação. Entrando nas boas graças dos governantes sob a alegação de amizade, os Maçons
têm se esforçado para fazê-los seus aliados e poderosos auxiliadores para a destruição do nome Cristão; e
para que eles possam mais fortemente pressioná-los, eles têm, com determinada calúnia, acusado a Igreja
de maliciosamente contender com os governantes em assuntos que afetam a sua autoridade e soberano
poder. Tendo, por estes artifícios, assegurado a sua própria segurança e audácia, eles começaram a
exercer grande peso no governo dos Estados: mas entretanto estão preparados para sacudir as fundações
de impérios, para perturbar os governantes do Estado, para acusá-los, e para expulsá-los, tão
freqüentemente quanto eles aparentam governar de modo diferente do que eles próprios poderiam ter
desejado. De modo semelhante, eles têm por falsos elogios iludido o povo. Proclamando com uma alta voz
a liberdade e prosperidade pública, e dizendo que era por causa da Igreja e dos soberanos que a multidão
não era retirada de sua injusta servidão e pobreza, eles se impuseram sobre o povo, e, excitando-os por
uma sede por novidades, eles os pressionaram a assaltar tanto a Igreja quanto o poder civil. Entretanto, a
expectativa de benefícios que era esperada é muito maior do que a realidade; realmente, as pessoas
comuns, mais oprimidas do que elas eram antes, estão privadas em sua miséria daquele consolo que, se as
coisas tivessem sido arranjadas de um modo Cristão, eles teriam tido com facilidade e em abundância.
Mas, quem quer que lute contra a ordem que a Divina Providência constituiu paga usualmente a
penalidade por seu orgulho, e encontra-se com a aflição e a miséria quando eles insensatamente
esperavam encontrar todas as coisas prósperas e conforme os seus próprios desejos.

29. A Igreja, se ela dirige os homens a prestar obediência principalmente a acima de tudo a Deus o
soberano Senhor, é erradamente e falsamente considerada ou invejosa do poder civil ou de se arrogar algo
dos direitos dos soberanos. Pelo contrário, ela ensina que o que é retamente devido ao poder civil deve ser
prestado a ele com convicção e consciência de dever. Ensinando que do próprio Deus vem o direito de
governar, ela adiciona uma grande dignidade à autoridade civil, e ainda ajuda a obter a obediência e boa
intenção dos cidadãos. Amiga da paz e sustentáculo da concórdia, ela abraça a todos com amor maternal,
e, intencionando apenas auxiliar o homem mortal, ela ensina que à justiça deve ser ajuntada a clemência,
eqüidade à autoridade, e moderação à legislação; que o direito de ninguém pode ser violado; que a ordem
e a tranqüilidade pública devem ser mantidas e que a pobreza daqueles que estão em necessidade deve,
tanto quanto possível, ser aliviada pela caridade pública e privada. "Mas por esta razão," para usar as
palavras de Sto. Agostinho, "os homens pensam, ou gostariam de acreditar, que o ensinamento Cristão
não é adequado para o bem do Estado; pois eles desejam que o Estado seja fundado não em sólida
virtude, mas na impunidade do vício."[14] Sabendo destas coisas, os príncipes e o povo agiriam com
sabedoria política[15], e de acordo com as necessidades da segurança geral, se, ao invés de juntar-se aos
Maçons para destruir a Igreja, eles se juntassem à Igreja para repelir os seus ataques.

30. O que quer que o futuro possa ser, neste grave e difundido mal é Nosso dever, veneráveis irmãos,
esforçar-nos por encontrar um remédio. E porque Nós sabemos que a Nossa melhor e mais firme
esperança de um remédio está no poder daquela divina religião que os Maçons odeiam em proporção ao
seu medo dela, Nós pensamos ser de capital importância chamar esse grande poder salvífico em Nosso
auxílio contra o inimigo comum. Portanto, tudo que os Pontífices Romanos Nossos predecessores
decretaram com o propósito de opor-se aos projetos e esforços da seita maçônica, e tudo que eles tenham
legislado quanto à entrada ou saída de homens de sociedades deste tipo, Nós ratificamos e confirmamos
completamente pela nossa autoridade apostólica: e confiando grandemente na boa intenção dos Cristãos,
Nós rogamos e imploramos a cada um, pela sua salvação eterna, para ser o mais conscienciosamente
cuidadoso para não divergir o mínimo que seja daquilo que a sé apostólica tem ordenado neste assunto.

31. Nós rogamos e imploramos a vós, veneráveis irmãos, a juntar os vossos esforços com os Nossos, e
esforçadamente lutar pela extirpação desta praga maligna, que está se esgueirando através das veias do
corpo da política. Vós deveis defender a glória de Deus e a salvação do vosso próximo; e com o objetivo de
vosso combate à vossa frente, nem coragem nem força irão faltar. Será por vossa prudência que julgareis
por quais modos vós podeis melhor sobrepujar as dificuldades e obstáculos com os quais vos encontrardes.
Mas, como pertence à autoridade de Nosso ofício que Nós mesmos apontemos algumas maneiras
apropriadas de procedimento, Nós desejamos que o vosso primeiro ato seja arrancar a máscara da
Maçonaria, e deixar que ela seja vista como realmente é; e por sermões e cartas pastorais instruir o povo
quanto aos artifícios usado pelas sociedades deste tipo para seduzir os homens e persuadi-los a entrar em
suas fileiras, e quanto à perversidade de suas ações e à maldade de seus atos. Como Nossos
predecessores por muitas vezes repetiram, que nenhum homem pense que ele possa por qualquer razão
que seja ajuntar-se à seita maçônica, se ele dá valor ao seu nome Católico e à sua salvação eterna como
ele deveria valorizá-los. Que nenhum seja enganado por uma pretensão de honestidade. Pode parecer a
alguns que os Maçons não exigem nada que seja abertamente contrário à religião e à moral; mas, como
todo princípio e objetivo da seita está naquilo que é vicioso e criminoso, ajuntar-se com estes homens ou
em algum modo ajudá-los não pode ser legítimo.

32. Além disso, por assíduos ensinamentos e exortações, a multidão precisa ser levada a aprender
diligentemente os preceitos da religião; para este propósito Nós encarecidamente recomendamos que por
oportunos escritos e sermões lhes sejam ensinados os elementos daquelas sagradas verdades nas quais a
filosofia Cristã está contida. O resultado disto será que as mentes dos homens serão fortalecidas pela
instrução, e serão protegidas contra muitas formas de erro e induções à depravação, especialmente na
presente liberdade de escrita sem limites e insaciável desejo de aprender.

33. Grande, realmente, é a obra; mas nela o clero irá compartilhar os vossos trabalhos, se, através de
vosso cuidado, eles estiverem à altura disto através do aprendizado e de uma vida bem orientada. Este
bom e grande trabalho requer o auxílio também da indústria daqueles entre os leigos em que um amor
pela religião e pela pátria existe ao lado da instrução e retidão de vida. Unindo os esforços do clero e dos
leigos, batalhai, veneráveis irmãos, para fazer os homens conhecer e amar completamente a Igreja; pois,
quanto maior o seu conhecimento e amor pela Igreja, mais eles se desviarão das sociedades clandestinas.

34. Por este motivo, não sem causa Nós usamos esta ocasião para declarar novamente o que nós
declaramos em outro lugar, ou seja, que a Ordem Terceira de São Francisco, cuja disciplina Nós algum
tempo atrás prudentemente mitigamos[16], deveria ser refletidamente promovida e sustentada; pois todo
o objetivo desta Ordem, como constituída por seu fundador, é convidar os homens a uma imitação de
Jesus Cristo, a um amor à Igreja, e à observância de todas as virtudes Cristãs; e portanto ela deveria ser
de grande influência em suprimir o contágio das sociedades pervertidas. Que, portanto, esta santa
irmandade possa ser fortalecida por um crescimento diário. Entre os muitos benefícios a serem esperados
disso estará o grande benefício de voltar as mentes dos homens à liberdade, fraternidade e igualdade de
direito; não tais como os Maçons absurdamente imaginam, mas tais como Jesus Cristo obteve para o
gênero humano e aos quais São Francisco aspirou: a liberdade, Nós queremos dizer, de filhos de Deus,
através da qual nós podemos ser livres da escravidão a Satanás ou a nossas paixões, ambos os mais
perversos mestres; a fraternidade cuja origem está em Deus, o Criador comum e Pai de todos; a igualdade
a qual, fundada na justiça e caridade, não remove todas as distinções entre os homens, mas, das
variedades da vida, dos deveres, e das ocupações, forma aquela união e aquela harmonia que
naturalmente tende ao benefício e dignidade da sociedade.

35. Em terceiro lugar, há um assunto sabiamente instituído por nossos ancestrais, mas no decorrer do
tempo deixado de lado, que pode agora ser usado como um padrão e forma de algo semelhante. Nós
queremos dizer as associações ou organizações de trabalhadores, para proteger, sob a direção da religião,
os seus interesses temporais e a sua moralidade. Se nossos ancestrais, por longa prática e experiência,
sentiram o benefício destas associações, nossa época talvez irá senti-lo ainda mais por causa da
oportunidade que eles darão de esmagar o poder das seitas. Aqueles que sustentam a si mesmos pelo
trabalho de suas mãos, além de serem, pela sua própria condição, mais dignos acima de todos os outros
de caridade e consolação, são também especialmente expostos às tentações de homens cujos caminhos
estão na fraude e no engano. Portanto, eles devem ser ajudados com a maior bondade possível, a ser
convidados a juntar-se a associações que são boas, para que eles não sejam arrastados para outras que
são malignas. Por esta razão, Nós grandemente desejamos, pela salvação das pessoas, que, sob os
auspícios e patrocínio dos bispos, e em oportunidades convenientes, estas associações possam ser
restauradas de uma maneira generalizada. Para Nossa grande alegria, irmandades deste tipo e também
associações de mestres já foram estabelecidas em muitos lugares, tendo, cada classe delas, por seu
objetivo ajudar os honestos trabalhadores, a proteger e guardar suas crianças e família, e a promover
neles a piedade, o conhecimento Cristão, e uma vida moral. E neste assunto Nós não podemos nos omitir
de mencionar aquela sociedade exemplar, denominada de acordo com o seu fundador, São Vicente, que
tem merecido tanto das classes mais baixas. Seus atos e seus alvos são bem conhecidos. Todo o seu
objetivo é dar alívio ao pobre e miserável. Isto ela faz com singular prudência e modéstia; e quanto menos
ela deseja ser notada, mais ela se adequa ao exercício da caridade Cristã, e para o alívio dos sofredores.

36. Em quarto lugar, de modo a mais facilmente atingir o que Nós desejamos, à vossa fidelidade e
vigilância Nós recomendamos de um modo especial os jovens, como sendo a esperança da sociedade
humana. Devotai a maior parte do vosso cuidado à instrução deles; e não pensai que qualquer precaução
possa ser grande o suficiente para mantê-los afastados de mestres e escolas aonde o hálito pestilento das
seitas deva ser temido. Sob a vossa direção, deixem os pais, instrutores religiosos, e padres tendo a cura
de almas, usar cada oportunidade, em seu ensinamento Cristão, para advertir suas crianças e pupilos da
natureza infame destas sociedades, para que eles possam aprender em bom tempo a terem cuidado com
os variados e fraudulentos artifícios pelos quais seus promotores costumam laçar as pessoas. E aqueles
que instruem os jovens em conhecimento religioso agirão sabiamente se eles induzirem todos eles a se
resolverem e se comprometerem a nunca ligar-se a qualquer sociedade sem o conhecimento de seus pais,
ou o conselho de seu padre ou diretor.

37. Nós bem sabemos, entretanto, que os nossos esforços unidos não serão de modo algum suficientes
para arrancar estas sementes perniciosas do campo do Senhor, a menos que o Celestial Mestre da vinha
misericordiosamente nos ajude em nossos esforços. Nós precisamos, portanto, com grande e ansioso
cuidado, implorar a Ele a ajuda que a grandeza do perigo e da necessidade requer. A seita da Maçonaria
mostra-se insolente e orgulhosa de seu sucesso, e parece que ela não colocará limites à sua pertinácia.
Seus seguidores, ajuntados por perversos acordos e por conselhos secretos, ajudam-se uns aos outros, e
excitam-se uns aos outros a uma audácia nas coisas malignas. Um ataque tão veemente exige uma igual
defesa ― especificamente, que todos os homens de bem formem a mais abrangente associação possível
de ação e de oração. Nós imploramos a eles, portanto, com corações unidos, a permanecer unidos e firmes
contra as forças das seitas que avançam; e em aflição e súplica estender suas mãos a Deus, orando que o
nome Cristão possa florescer e prosperar, que a Igreja possa desfrutar da sua necessária liberdade, que
aqueles que se extraviaram possam retornar a uma mente reta, que o erro difundido possa dar lugar à
verdade, e o vício à virtude. Tomemos como nossa auxiliadora e intercessora a Virgem Maria, Mãe de
Deus, para que ela, que desde o momento de sua concepção derrotou Satanás possa mostrar seu poder
sobre estas seitas malignas, nas quais revive o contumaz espírito do demônio, juntamente com sua perfídia
insubmissa e enganosa. Imploremos a Miguel, o príncipe dos anjos celestes, que lançou fora o infernal
inimigo; e José, o esposo da santíssima Virgem, e patrono celeste da Igreja Católica; e os grandes
Apóstolos, Pedro e Paulo, os pais e campeões vitoriosos da fé Cristã. Por seu patrocínio, e pela
perseverança na união de oração, Nós esperamos que Deus irá misericordiosamente e oportunamente
socorrer o gênero humano, que é rodeado por tantos perigos.

38. Como garantia dos dons celestes e de Nossa benevolência, Nós amorosamente concedemos no Senhor
a vós, veneráveis irmãos, e ao clero e todo o povo confiado ao vosso vigilante cuidado, Nossa bênção
apostólica.

Dado em Roma, junto de S. Pedro, no vigésimo dia de abril de 1884, o sexto ano de Nosso pontificado.

LEÃO PP. XIII

Notas:

[1] De civ. Dei, 14, 28 (PL 41, 436).

[2] Sl 82,2-4.

[3] Const. In Eminenti, 24 de abril de 1738.

[4] Const. Providas, 18 de maio de 1751.

[5] Const. Ecclesiam a Jesu Christo, 13 de setembro de 1821.

[6] Const. dada a 13 de março de 1825.

[7] Enc. Traditi, 21 de maio de 1829.

[8] Enc. Mirari, 15 de agosto de 1832.


[9] Enc. Qui Pluribus, 9 de novembro de 1846; pronunciamento Multiplices inter, 25 de setembro de 1865.
etc.

[10] Clemente Xll (1730-40); Bento XIV (1740-58), Pio VII (1800-23); Pio IX (1846-78). [11] Ver números
79, 81, 84.

[12] Mt 7,18.

[13] Trid., sess. VI, De justif, c. 1. Texto do Concílio de Trento: "tametsi in eis (sc. Judaeis) liberum
arbitrium minime extinctum esset, viribus licet attenuatum et inclinatum."

[14] Ver Arcanum, no. 81.

[15] Epístola 137, ad Volusianum, c. v, n. 20 (PL 33, 525).

[16] (17 de setembro de 1882), na qual o Papa Leão XIII tinha recentemente glorificado S. Francisco de
Assis por ocasião do sétimo centenário de seu nascimento. Nesta encíclica, o Papa apresentou a Ordem
Terceira de S. Francisco como uma resposta Cristã aos problemas sociais da época. A
constituição Misericors Dei filius (23 de junho de 1883) expressamente relembrou que a negligência com a
qual as virtudes Cristãs são tidas é a causa principal dos males que ameaçam as sociedades. Confirmando
a regra da Ordem Terceira e adaptando-a às necessidades dos tempos modernos, o Papa Leão XIII
intencionava trazer de volta o maior número possível de almas à prática destas virtudes.

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_18840420_humanum-
genus.html

CARTA ENCÍCLICA
SUPREMI APOSTOLATUS OFFICIO
DE SUA SANTIDADE
PAPA LEÃO XIII
A TODOS OS NOSSOS VENERÁVEIS
IRMÃOS, OS PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS
E BISPOS DO ORBE CATÓLICO,
EM GRAÇA E COMUNHÃO
COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O ROSÁRIO DE NOSSA SENHORA

Veneráveis Irmãos,
Saúde e Bênção Apostólica.

O auxílio de Maria nos males presentes da Igreja

1. O ofício do Sumo Pontificado, que Nós exercemos, e a dificílima condição dos tempos presentes, cada
dia mais nos induzem e como que nos impelem a prover com tanto maior solicitude à tutela e à
incolumidade da Igreja, quanto mais graves são as suas provações. Por isto, enquanto, com todas as
forças, nos aplicamos a salvaguardar por todos os modos os direitos da Igreja, e a prevenir e afastar os
perigos que ou estão iminentes ou já a rondam, sem trégua nos aplicamos a invocar os celestes auxílios,
persuadidos de que só com estes a Nossa obra è as Nossas solicitudes poderão conseguir o êxito desejado.

2. Para este fim, nada consideramos mais eficaz e mais poderoso do que tornar-nos propícia, pela devoção
e pela piedade, a grande Mãe de Deus, a Virgem Maria. De fato, mediadora, junto a Deus, da nossa paz, e
dispensadora das graças celestes, ela está sentada no Céu no mais alto trono de poder e de glória, para
conceder o auxílio do seu patrocínio aos homens, que, entre tantas penas e tantas lutas, fadigosamente
caminham para a eterna pátria.

Portanto, estando já agora próxima a anual solenidade destinada a receber os inúmeros e assinalados
benefícios concedidos ao povo cristão por meio do santo Rosário de Maria, queremos que, este ano, todo o
orbe católico com particular devoção dirija à Virgem Maria a mesma piedosa oração, a fim de que, pela sua
intercessão, possamos ter a alegria de ver seu Filho aplacado e movido a compaixão das nossas misérias.

Por tal motivo, julgamos bem, ó Veneráveis Irmãos, dirigir-vos esta Carta, para que, conhecidas as Nossas
intenções, possais, com a vossa autoridade e com o vosso zelo, estimular a piedade dos fiéis a
corresponder-vos diligentemente.

Poder e bondade de Maria

3. Nos momentos de apreensão e de incerteza, foi sempre o primeiro e sagrado pensamento dos católicos
o de recorrerem a Maria, e de se refugiarem na sua maternal bondade. E isto demonstra a firmíssima
esperança, antes a plena confiança, que a Igreja Católica com toda razão sempre depositou na Mãe de
Deus. De fato, a Virgem Imaculada, escolhida para ser Mãe de Deus, e por isto mesmo feita Co-Redentora
do gênero humano, goza junto a seu Filho de um poder e de uma graça tão grande, que nenhuma
criatura, nem humana nem angélica, jamais pôde nem jamais poderá atingir uma maior. E, visto como a
alegria mais grata para ela é a de ajudar e consolar todo fiel em particular que invoque o seu socorro, não
pode haver dúvida de que ela muito mais prazeirosamente deseje acolher, antes, que exulte em acolher,
os votos da Igreja toda.

Intervenções de Maria na história de Igreja

4. Mas esta ardente e confiante piedade para com a augusta Rainha do Céu foi posta em mais clara luz
quando a violência dos erros largamente difundidos, ou a transbordante corrupção dos costumes, ou o
assalto de inimigos poderosos, pareceram pôr em perigo a Igreja militante de Deus.

5. As memórias antigas e modernas e os sagrados fastos da Igreja relembram, de uma parte, as súplicas
públicas e particulares e os votos elevados à divina Mãe, e, de outra parte, os auxílios por meio dela
obtidos, e a tranqüilidade e a paz pelo Céu concedidas. Daí tiveram origem esses títulos insignes com que
os povos católicos a saudaram: Auxiliadora dos cristãos, Socorredora e Consoladora, Dominadora das
guerras, Senhora das vitórias, Pacificadora. Entre os quais é principalmente digno de menção o titulo, tão
solene, do Rosário, que consagra à imortalidade os seus assinalados benefícios em favor da inteira Família
cristã.

6. Nenhum de vós, ó Veneráveis Irmãos, ignora quantas dores e quantas lágrimas, no fim do século XII,
proporcionaram à santa Igreja de Deus os hereges Albigenses, que, nascidos da seita dos últimos
Maniqueus, haviam infectado de perniciosos erros a França meridional e outras regiões do mundo latino.
Espalhando em torno de si o terror das armas, eles tramavam estender o seu domínio pelos morticínios e
pelas ruínas. Contra esses péssimos inimigos Deus misericordioso suscitou, como vos é bem conhecido, um
homem virtuosíssimo: o ínclito padre fundador da Ordem dominicana. Insigne pela integridade da doutrina,
por exemplos de virtude e pelos seus labores apostólicos, ele se preparou com intrépida coragem para
travar as batalhas da Igreja Católica, confiando não na força das armas, mas sobretudo na daquela oração
que ele, por primeiro, introduziu sob o nome do santo Rosário, e que, ou diretamente ou por meio dos
seus discípulos, depois divulgou por toda parte.

Visto como, por inspiração ou por impulso divino, ele bem sabia que, com o auxílio desta oração, poderoso
instrumento de guerra, os fiéis poderiam vencer e desbaratar os inimigos, e forçá-los a cessar a sua ímpia
e estulta audácia. E é sabido que os acontecimentos deram razão à previsão. De feito, desde quando tal
forma de oração ensinada por S. Domingos, foi abraçada e devidamente praticada pelo povo cristão, de
um lado começaram a revigorar-se a piedade, a fé e a concórdia, e, de outro, foram por toda parte
quebradas as manobras e as insídias dos hereges. Além disto, muitíssimos errantes foram reconduzidos à
trilha da salvação, e a loucura dos ímpios foi esmagada por aquelas armas que os católicos haviam
empunhado para reprimir a violência.
7. A eficácia e o poder da mesma oração foi, depois experimentada também no século XVI, quando as
imponentes forças dos Turcos ameaçavam impor a quase toda a Europa o jugo da superstição da barbárie.
Nessa circunstância, o Pontífice S. Pio V, depois de estimular os soberanos cristãos à defesa de uma causa
que era a causa de todos, dirigiu todo o seu zelo a obter que a poderosíssima Mãe de Deus, invocada por
meio do santo Rosário, viesse em auxílio do povo cristão. E a resposta foi o maravilhoso espetáculo então
oferecido ao Céu e à terra; espetáculo que empolgou as mentes e os corações de todos!

Com efeito, de um lado os fiéis, prontos a dar a vida e a derramar o sangue pela incolumidade da religião e
da pátria, junto ao golfo de Corinto esperavam impávidos o inimigo; de outro lado, homens inermes, com
piedosa e suplicante falange, invocavam Maria, e com a fórmula do santo Rosário repetidamente a
saudavam, a fim de que assistisse os combatentes até à vitória. E Nossa Senhora, movida por aquelas
preces, os assistiu: porquanto, havendo a frota dos cristãos travado batalha perto de Lepanto, sem graves
perdas dos seus desbaratou e matou os inimigos, e alcançou uma esplêndida vitória. Por este motivo o
santo Pontífice, para perpetuar a lembrança da graça obtida, decretou que o dia aniversário daquela
grande batalha fosse considerado festivo com honra da Virgem das Vitórias; festa que depois Gregório XIII
consagrou sob o título do Rosário.

8. Igualmente são conhecidas as vitórias alcançadas sobre as forças dos Turcos, durante o século passado,
primeiramente perto de Timisoara, na Rumania, depois perto da ilha de Corfu: com dois dias dedicados à
grande Virgem, e após muitas preces a ela elevadas sob a forma do Rosário. Esta foi a razão que levou o
Nosso Predecessor Clemente XI a estabelecer que, com prova de gratidão, a Igreja toda celebrasse cada
ano a solenidade do santo Rosário.

Louvores do Rosário

9. Portanto, visto que os fatos demonstram o quanto esta oração é agradável à Virgem, e o quanto é eficaz
na defesa da Igreja e do povo cristão, em alcançar os divinos favores para os simples indivíduos e para a
sociedade inteira, não há-de causar nenhuma admiração que também outros Nossos Predecessores, com
palavras de fervoroso encômio, se hajam aplicado a incrementá-la.

Assim Urbano IV afirmou que "cada dia o povo cristão recebe novas graças por meio do Rosário"; Sixto IV
proclamou que esta forma de oração "é oportuna, não só para promover a honra de Deus e da Virgem,
mas também para afastar os perigos que o mundo nos prepara"; Leão X disse-a "instituída contra os
heresiarcas e contra o serpear das heresias"; e Júlio III chamou-lhe "ornamento da Igreja de Roma".
Igualmente Pio V, falando desta oração, disse que, "ao difundir-se ela, os fiéis, inflamados por aquelas
meditações e afervorados por aquelas preces, começaram de repente a transformar-se com outros
homens; as trevas das heresias começaram dissipar-se, e mais clara começou a manifestar-se a luz da fé
católica". Finalmente, Gregório XIII declarou que "o Rosário foi instituído por S. Domingos para aplacar a
ira de Deus e para obter a intercessão da bem-aventurada Virgem".

O Rosário e os males dos tempos presentes

10. Movido por estas considerações e pelos exemplos dos Nossos Predecessores, julgamos assaz oportuno,
nas presentes circunstâncias, ordenar solenes preces a fim de que a Virgem augusta, invocada por meio do
santo Rosário, nos impetre de Jesus Cristo, seu Filho, auxílios iguais às necessidades.

11. Bem vedes, ó Veneráveis Irmãos, as incessantes e graves lutas que trabalham a Igreja. Vedes que a
moralidade pública e a própria fé - o maior dos bens e o fundamento de todas as outras virtudes estão
expostas a perigos sempre mais graves. Assim também vós não só conheceis a Nossa difícil situação e as
Nossas múltiplas angústias, mas, pela caridade que a Nós tão estreitamente vos une, as sofreis juntamente
conosco.

Porém o fato mais doloroso e mais triste de todos é que tantas almas, remidas pelo sangue de Cristo,
como que arrebatadas pelo turbilhão desta época transviada, vão-se precipitando numa conduta sempre
mais depravada, e se abismam na eterna ruína; por isto a necessidade do divino auxílio certamente não é
menor hoje do que a que era sentida quando o grande Domingos, para curar as feridas da sociedade,
introduziu a prática do Rosário mariano. Iluminado do alto, ele viu claramente que para os males do seu
tempo não havia remédio mais eficaz do que reconduzir os homens a Cristo, que é "caminho, verdade e
vida", mediante a freqüente meditação da Redenção por Ele operada; e interpor junto a Deus a intercessão
dessa Virgem a quem foi concedido "aniquilar todas as heresias".

Por este motivo ele dispôs a prática do Rosário de modo que fossem sucessivamente recordados os
mistérios da nossa salvação, e a este dever da meditação se entremeasse como que uma mística coroa de
saudações angélicas, intercaladas pela oração a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nós, pois, que
andamos procurando um igual remédio para não diversos males, não duvidamos de que a mesma oração,
pelo santo Patriarca introduzida com tão notável vantagem para o mundo católico, tornar-se-á eficacíssima
para aliviar também as calamidades dos nossos tempos.

12. Portanto, em consideração destas razões, não somente exortamos calorosamente todos os cristãos a
praticarem, sem se cansar, o piedoso exercício do Rosário, publicamente, ou em particular, nas suas casas
e famílias, mas também queremos que todo o mês de Outubro do ano em curso seja consagrado e
dedicado à celeste Rainha do Rosário.

Prescrições e privilégios para o mês de outubro

13. Estabelecemos, pois, e ordenamos que, em todo o mundo católico, a solenidade de Nossa Senhora do
Rosário seja este ano celebrada com particular devoção e com esplendor de culto. Ordenamos, além disso,
que, do dia primeiro de Outubro ao dia dois do seguinte mês de Novembro, em todas as igrejas paroquiais,
e, se os Ordinários o julgarem vantajoso e conveniente, também nas outras igrejas e nas capelas
dedicadas à Mãe de Deus, se recitem devotamente ao menos cinco dezenas do Rosário, com o acréscimo
das Ladainhas Lauretanas. Depois, desejamos que, quando o povo se reunir para tais orações, ou se
ofereça o santo Sacrifício da Missa, ou se exponha solenemente o SS. Sacramento, e no fim se dê aos
presentes a Bênção com a Hóstia sacrossanta.

14. Vivamente aprovamos que as Confrarias do Rosário, seguindo uma antiga tradição, façam solenes
procissões pelas ruas da cidade, em pública demonstração da sua fé. Mas onde, pela adversidade dos
tempos, isto não for possível, não duvidamos de que tudo quanto por este lado for subtraído ao culto
público será compensado por uma concorrência mais numerosa nas igrejas; e que o fervor da piedade se
manifestará por uma prática mais diligente das virtudes cristãs. Em favor, pois, daqueles que executarem
tudo quanto mais acima dispusemos, abrimos de bom grado os celestes tesouros da Igreja, a fim de que
achem neles o estímulo e ao mesmo tempo o prêmio da devoção.

Por isto, àqueles que, dentro do tempo estabelecido, participarem da pública recitação do Rosário com as
Ladainhas, e orarem segundo a Nossa intenção, concedemos, para cada vez, a Indulgência de sete anos e
de sete quarentenas: Queremos, igualmente, que de tal benefício possam fruir aqueles que, impedidos por
legítima causa de praticar em público o piedoso exercício, o praticarem em particular, e orarem também
segundo a Nossa intenção.

15. Depois, àqueles que, dentro do sobredito tempo, ao menos por dez vezes cumprirem a mesma prática,
ou em público nas igrejas ou, por justos motivos, nas suas casas, concedemos a Indulgência plenária,
desde que à piedosa prática juntem a Confissão e a Comunhão.

16. Esta Indulgência plenária das suas culpas concedemo-la também a todos os que, na mesma solenidade
da bem-aventurada Virgem do Rosário ou num dos oito dias seguintes, igualmente se aproximarem do
tribunal da Penitência e da Mesa do Senhor, e em alguma igreja rezarem, segundo a Nossa intenção, pelas
necessidades da santa Igreja.

Esperanças do Sumo Pontífice

17. Eia, pois, Veneráveis Irmãos: pelo zelo que tendes da honra de Maria e da salvação da sociedade
humana, esforçai-vos por alimentar a devoção e por aumentar a confiança do povo para com a grande
Virgem. Nós pensamos seja de atribuir-se a divino favor o fato de, mesmo em momentos tão procelosos
para a Igreja como estes, haver-se mantido sólida e florescente, na maior parte do povo cristão, a antiga
veneração e piedade para com a Virgem augusta. Mas agora esperamos que, incitados por estas Nossas
exortações e inflamados pelas vossas palavras, os fiéis se hão de colocar com sempre mais ardente
entusiasmo sob a proteção e assistência de Maria, e continuarão a amar com crescente fervor a prática do
Rosário, que nossos pais costumavam considerar não só como um poderoso auxílio nas calamidades, mas
também como um distintivo honorifico da piedade cristã. A celeste Padroeira do gênero humano acolherá
benigna as humildes e unânimes preces que lhe dirigirmos, e, complacente, obter-nos-á que os bons se
revigorem na prática da virtude; que os desviados caiam em si e se emendem; e que Deus, justo vingador
das culpas, dobrando a misericordiosa clemência, afaste os perigos, e restitua ao povo cristão e à
sociedade a tão desejada tranqüilidade.

18. Confortados por esta esperança, com os mais ardentes votos do Nosso coração rogamos vivamente a
Deus, pela intercessão d'Aquela em quem Ele depositou a plenitude de todos os bens, que vos conceda a
vós, Veneráveis Irmãos, as mais escolhidas e mais abundantes graças celestes, das quais é auspício e
penhor a Bênção Apostólica, que de coração concedemos a vós, ao vosso clero e aos povos confiados aos
vossos cuidados.

Dado em Roma, junto de S. Pedro, a 1 de Setembro de 1883, sexto ano do Nosso Pontificado.

LEÃO PP. XIII

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_01091883_supremi-apostolatus-
officio.html

CARTA ENCÍCLICA

DIUTURNUM ILLUD
DEL SUMO PONTÍFICE

LEÓN XIII

SOBRE LA AUTORIDAD POLÍTICA

1. La prolongada y terrible guerra declarada contra la autoridad divina de la Iglesia ha llegado adonde tenía
que llegar: a poner en peligro universal la sociedad humana y, en especial, la autoridad política, en la cual
estriba fundamentalmente la salud pública. Hecho que vemos verificado sobre todo en este nuestro
tiempo.

Las pasiones desordenadas del pueblo rehúsan, hoy más que nunca, todo vínculo de gobierno. Es tan
grande por todas partes la licencia, son tan frecuentes las sediciones y las turbulencias, que no solamente
se ha negado muchas veces a los gobernantes la obediencia, sino que ni aun siquiera les ha quedado un
refugio seguro de salvación. Se ha procurado durante mucho tiempo que los gobernantes caigan en el
desprecio y odio de las muchedumbres, y, al aparecer las llamas de la envidia preconcebida, en un
pequeño intervalo de tiempo la vida de los príncipes más poderosos ha sido buscada muchas veces hasta
la muerte con asechanzas ocultas o con manifiestos atentados. Toda Europa ha quedado horrorizada hace
muy poco al conocer el nefando asesinato de un poderoso emperador. Atónitos todavía los ánimos por la
magnitud de semejante delito, no reparan, sin embargo, ciertos hombres desvergonzados, en lanzar a cada
paso amenazas terroristas contra los demás reyes de Europa.

2. Estos grandes peligros públicos, que están a la vista, nos causan una grave preocupación al ver en
peligro casi a todas horas la seguridad de los príncipes, la tranquilidad de los Estados y la salvación de los
pueblos. Y, sin embargo, la virtud divina de la religión cristiana engendró los egregios fundamentos de la
estabilidad y el orden de los Estados desde el momento en que penetró en las costumbres e instituciones
de las ciudades. No es el más pequeño y último fruto de esta virtud el justo y sabio equilibrio de derechos
y deberes entre los príncipes y los pueblos. Porque los preceptos y ejemplos de Cristo Señor nuestro
poseen una fuerza admirable para contener en su deber tanto a 1os que obedecen como a los que mandan
y para conservar entre unos y otros la unión y concierto de voluntades, que es plenamente conforme con
la naturaleza y de la que nace el tranquilo e imperturbado curso de los asuntos públicos. Por esto,
habiendo sido puestos por la gracia de Dios al frente de la Iglesia católica como custodio e intérprete de la
doctrina de Cristo, Nos juzgamos, venerables hermanos, que es incumbencia de nuestra autoridad recordar
públicamente qué es lo que de cada uno exige la verdad católica en esta clase de deberes. De esta
exposición brotará también el camino y la manera con que en tan deplorable estado de cosas debe
atenderse a la seguridad pública.

I. DOCTRINA CATÓLICA
SOBRE EL ORIGEN DE LA AUTORIDAD

Necesidad de la autoridad

3. Aunque el hombre, arrastrado por un arrogante espíritu de rebelión, intenta muchas veces sacudir los
frenos de la autoridad, sin embargo, nunca ha podido lograr la liberación de toda obediencia. La necesidad
obliga a que haya algunos que manden en toda reunión y comunidad de hombres, para que la sociedad,
destituida de principio o cabeza rectora, no desaparezca y se vea privada de alcanzar el fin para el que
nació y fue constituida. Pero si bien no ha podido lograrse la destrucción total de la autoridad política en
los Estados, se ha querido, sin embargo, emplear todas las artes y medios posibles para debilitar su fuerza
y disminuir su majestad. Esto sucedió principalmente en el siglo XVI, cuando una perniciosa novedad de
opiniones sedujo a muchos. A partir de aquel tiempo, la sociedad pretendió no sólo que se le diese una
libertad más amplia de lo justo, sino que también quiso modelar a su arbitrio el origen y la constitución de
la sociedad civil de los hombres. Pero hay más todavía. Muchos de nuestros contemporáneos, siguiendo las
huellas de aquellos que en el siglo pasado se dieron a sí mismos el nombre de filósofos, afirman que todo
poder viene del pueblo. Por lo cual, los que ejercen el poder no lo ejercen como cosa propia, sino como
mandato o delegación del pueblo, y de tal manera, que tiene rango de ley la afirmación de que la misma
voluntad popular que entregó el poder puede revocarlo a su antojo. Muy diferente es en este punto la
doctrina católica, que pone en Dios, como un principio natural y necesario, el origen del poder político.

4. Es importante advertir en este punto que los que han de gobernar los Estados pueden ser elegidos, en
determinadas circunstancias, por la voluntad y juicio de la multitud, sin que la doctrina católica se oponga
o contradiga esta elección. Con esta elección se designa el gobernante, pero no se confieren los derechos
del poder. Ni se entrega el poder como un mandato, sino que se establece la persona que lo ha de ejercer.
No se trata en esta encíclica de las diferentes formas de gobierno. No hay razón para que la Iglesia
desapruebe el gobierno de un solo hombre o de muchos, con tal que ese gobierno sea justo y atienda a la
común utilidad. Por lo cual, salvada la justicia, no está prohibida a los pueblos la adopción de aquel sistema
de gobierno que sea más apto y conveniente a su manera de ser o a las instituciones y costumbres de sus
mayores.

El poder viene de Dios

5. Pero en lo tocante al origen del poder político, la Iglesia enseña rectamente que el poder viene de Dios.
Así lo encuentra la Iglesia claramente atestiguado en las Sagradas Escrituras y en los monumentos de la
antigüedad cristiana. Pero, además, no puede pensarse doctrina alguna que sea más conveniente a la
razón o más conforme al bien de los gobernantes y de los pueblos.

6. Los libros del Antiguo Testamento afirman claramente en muchos lugares que la fuente verdadera de la
autoridad humana está en Dios: «Por mí reinan los reyes...; por mí mandan los príncipes, y gobiernan los
poderosos de la tierra»[1]. Y en otra parte: «Escuchad vosotros, los que imperáis sobre las naciones...,
porque el poder os fue dado por Dios y la soberanía por el Altísimo»[2]. Lo cual se contiene también en el
libro del Eclesiástico: «Dios dio a cada nación un jefe»[3]. Sin embargo, los hombres que habían recibido
estas enseñanzas del mismo Dios fueron olvidándolas paulatinamente a causa del paganismo supersticioso,
el cual, así como corrompió muchas nociones e ideas de la realidad, así también adulteró la genuina idea y
la hermosura de la autoridad política. Más adelante, cuando brilló la luz del Evangelio cristiano, la vanidad
cedió su puesto a la verdad, y de nuevo empezó a verse claro el principio noble y divino del que proviene
toda autoridad. Cristo nuestro Señor respondió al presidente romano, que se arrogaba la potestad de
absolverlo y condenarlo: «No tendrías ningún poder sobre mí si no te hubiera sido dado de lo alto»[4].
Texto comentado por San Agustín, quien dice: «Aprendamos lo que dijo, que es lo mismo que enseñó por
el Apóstol, a saber: que no hay autoridad sino por Dios»[5]. A la doctrina y a los preceptos de Jesucristo
correspondió como eco la voz incorrupta de los apóstoles. Excelsa y llena de gravedad es la sentencia de
San Pablo dirigida a los romanos, sujetos al poder de los emperadores paganos: No hay autoridad sino por
Dios. De la cual afirmación, como de causa, deduce la siguiente conclusión: La autoridad es ministro de
Dios[6].

7. Los Padres de la Iglesia procuraron con toda diligencia afirmar y propagar esta misma doctrina, en la
que habían sido enseñados. «No atribuyamos —dice San Agustín— sino a sólo Dios verdadero la potestad
de dar el reino y el poder»[7]. San Juan Crisóstomo reitera la misma enseñanza: «Que haya principados y
que unos manden y otros sean súbditos, no sucece el acaso y temerariamente..., sino por divina
sabiduría»[8]. Lo mismo atestiguó San Gregorio Magno con estas palabras: «Confesamos que el poder les
viene del cielo a los emperadores y reyes»[9]. Los mismos santos Doctores procuraron también ilustrar
estos mismos preceptos aun con la sola luz natural de la razón, de forma que deben parecer rectos y
verdaderos incluso a los que no tienen otro guía que la razón.

En efecto, es la naturaleza misma, con mayor exactitud Dios, autor de la Naturaleza, quien manda que los
hombres vivan en sociedad civil. Demuestran claramente esta afirmación la facultad de hablar, máxima
fomentadora de la sociedad; un buen número de tendencias innatas del alma, y también muchas cosas
necesarias y de gran importancia que los hombres aislados no pueden conseguir y que unidos y asociados
unos con otros pueden alcanzar. Ahora bien: no puede ni existir ni concebirse una sociedad en la que no
haya alguien que rija y una las voluntades de cada individuo, para que de muchos se haga una unidad y
las impulse dentro de un recto orden hacia el bien común. Dios ha querido, por tanto, que en la sociedad
civil haya quienes gobiernen a la multitud. Existe otro argumento muy poderoso. Los gobernantes, con
cuya autoridad es administrada la república, deben obligar a los ciudadanos a la obediencia, de tal manera
que el no obedecerles constituya un pecado manifiesto. Pero ningún hombre tiene en sí mismo o por sí
mismo el derecho de sujetar la voluntad libre de los demás con los vínculos de este imperio. Dios, creador
y gobernador de todas las cosas, es el único que tiene este poder. Y los que ejercen ese poder deben
ejercerlo necesariamente como comunicado por Dios a ellos: «Uno solo es el legislador y el juez, que
puede salvar y perder»[10]. Lo cual se ve tambíén en toda clase de poder. Que la potestad que tienen los
sacerdotes dimana de Dios es verdad tan conocida, que en todos los pueblos los sacerdotes son
considerados y llamados ministros de Dios. De modo parecido, la potestad de los padres de familia tiene
grabada en sí cierta efigie y forma de la autoridad que hay en Dios, «de quien procede toda familia en los
cielos y en la tierra»[11]. Por esto las diversas especies de poder tienen entre sí maravillosas semejanzas,
ya que toda autoridad y poder, sean los que sean, derivan su origen de un solo e idéntico Creador y Señor
del mundo, que es Dios.

8. Los que pretenden colocar el origen de la sociedad civil en el libre consentimiento de los hombres,
poniendo en esta fuente el principio de toda autoridad política, afirman que cada hombre cedió algo de su
propio derecho y que voluntariamente se entregó al poder de aquel a quien había correspondido la suma
total de aquellos derechos. Pero hay aquí un gran error, que consiste en no ver lo evidente. Los hombres
no constituyen una especie solitaria y errante. Los hombres gozan de libre voluntad, pero han nacido para
formar una comunidad natural. Además, el pacto que predican es claramente una ficción inventada y no
sirve para dar a la autoridad política la fuerza, la dignidad y la firmeza que requieren la defensa de la
república y la utilidad común de los ciudadanos. La autoridad sólo tendrá esta majestad y fundamento
universal si se reconoce que proviene de Dios como de fuente augusta y santísima.

II. UTILIDAD DE LA DOCTRINA CATÓLICA


ACERCA DE LA AUTORIDAD

La concepción cristiana del poder político

9. Es imposible encontrar una enseñanza más verdadera y más útil que la expuesta. Porque si el poder
político de los gobernantes es una participación del poder divino, el poder político alcanza por esta misma
razón una dignidad mayor que la meramente humana. No precisamente la impía y absurda dignidad
pretendida por los emperadores paganos, que exigían algunas veces honores divinos, sino la dignidad
verdadera y sólida, la que es recibida por un especial don de Dios. Pero además los gobernados deberán
obedecer a los gobernantes como a Dios mismo, no por el temor del castigo, sino por el respeto a la
majestad, no con un sentimiento de servidumbre, sino como deber de conciencia. Por lo cual, la autoridad
se mantendrá en su verdadero lugar con mucha mayor firmeza. Pues, experimentando los ciudadanos la
fuerza de este deber, huirán necesariamente de la maldad y la contumacia, ya que deben estar
persuadidos de que los que resisten al poder político resisten a la divina voluntad, y que los que rehúsan
honrar a los gobernantes rehúsan honrar al mismo Dios.

10. De acuerdo con esta doctrina, instruyó el apóstol San Pablo particularmente a los romanos. Escribió a
éstos acerca de la reverencia que se debe a los supremos gobernantes, con tan gran autoridad y peso, que
no parece pueda darse una orden con mayor severidad: «Todos habéis de estar sometidos a las
autoridades superiores... Que no hay autoridad sino por Dios, y las que hay, por Dios han sido ordenadas,
de suerte que quien resiste a la autoridad resiste a la disposición de Dios, y los que la resisten atraen sobre
sí la condenación... Es preciso someterse no sólo por temor del castigo, sino por conciencia»[12]. Y en esta
misma línea se mueve la noble sentencia de San Pedro, Príncipe de los Apóstoles: «Por amor del Señor
estad sujetos a toda autoridad humana —constituida entre vosotros—, ya al emperador, como soberano,
ya a los gobernadores, como delegados suyos, para castigo de los malhechores y elogio de los buenos. Tal
es la voluntad de Dios»[13].

11. Una sola causa tienen los hombres para no obedecer: cuando se les exige algo que repugna
abiertamente al derecho natural o al derecho divino. Todas las cosas en las que la ley natural o la voluntad
de Dios resultan violadas no pueden ser mandadas ni ejecutadas. Si, pues, sucede que el hombre se ve
obligado a hacer una de dos cosas, o despreciar los mandatos de Dios, o despreciar la orden de los
príncipes, hay que obedecer a Jesucristo, que manda dar al César lo que es del César y a Dios lo que es de
Dios[14]. A ejemplo de los apóstoles, hay que responder animosamente: «Es necesario obedecer a Dios
antes que a los hombres»[15]. Sin embargo, los que así obran no pueden ser acusados de quebrantar la
obediencia debida, porque si la voluntad de los gobernantes contradice a la voluntad y las leyes de Dios,
los gobernantes rebasan el campo de su poder y pervierten la justicia. Ni en este caso puede valer su
autoridad, porque esta autoridad, sin la justicia, es nula.

12. Pero para que la justicia sea mantenida en el ejercicio del poder, interesa sobremanera que quienes
gobiernan los Estados entiendan que el poder político no ha sido dado para el provecho de un particular y
que el gobierno de la república no puede ser ejercido para utilidad de aquellos a quienes ha sido
encomendado, sino para bien de los súbditos que les han sido confiados. Tomen los príncipes ejemplo de
Dios óptimo máximo, de quien les ha venido la autoridad. Propónganse la imagen de Dios en la
administración de la república, gobiernen al pueblo con equidad y fidelidad y mezclen la caridad paterna
con la severidad necesaria. Por esta causa las Sagradas Letras avisan a los príncipes que ellos también
tienen que dar cuenta algún día al Rey de los reyes y Señor de los señores. Si abandonan su deber, no
podrán evitar en modo alguno la severidad de Dios. «Porque, siendo ministros de su reino, no juzgasteis
rectamente... Terrible y repentina vendrá sobre vosotros, porque de los que mandan se ha de hacer severo
juicio; el Señor de todos no teme de nadie ni respetará la grandeza de ninguno, porque El ha hecho al
pequeño y al grande e igualmente cuida de todos; pero a los poderosos amenaza poderosa
inquisición»[16].

13. Con estos preceptos que aseguran la república se quita toda ocasión y aun todo deseo de sediciones. Y
quedan consolidados en lo sucesivo, al honor y la seguridad de los príncipes, la tranquilidad y la seguridad
de los Estados. Queda también salvada la dignidad de los ciudadanos, a los cuales se les concede
conservar, en su misma obediencia, el decoro adecuado a la excelencia del hombre. Saben muy bien que a
los ojos de Dios no hay siervo ni libre, que hay un solo Señor de todos, rico para todos los que lo
invocan[17], y que ellos están sujetos y obedecen a los príncipes, porque éstos son en cierto modo una
imagen de Dios, a quien servir es reinar[18].

Su realización histórica
14. La Iglesia ha procurado siempre que esta concepción crístiana del poder político no sólo se imprima en
los ánimos, sino que también quede expresada en la vida pública y en las costumbres de los pueblos.
Mientras en el trono del Estado se sentaron los emperadores paganos, que por la superstición se veían
incapacitados para alcanzar esta concepción del poder que hemos bosquejado, la Iglesia procuró inculcarla
en las mentes de los pueblos, los cuales, tan pronto como aceptaban las instituciones cristianas, debían
ajustar su vida a las mismas. Y así los Pastores de las almas, renovando los ejemplos del apóstol San
Pablo, se consagraban, con sumo cuidado y diligencia, a predicar a los pueblos que vivan sumisos a los
príncipes y a las autoridades y que los obedezcan[19]. Asimismo, que orasen a Dios por todos los hombres,
pero especialmente por los emperadores y por todos los constituidos en dignidad, porque esto es bueno y
grato ante Dios nuestro Salvador[20]. De todo lo cual los antiguos cristianos nos dejaron brillantes
enseñanzas, pues siendo atormentados injusta y cruelmente por los emperadores paganos, jamás dejaron
de conducirse con obediencia y con sumisión, en tales términos que parecía claramente que iban como a
porfía los emperadores en la crueldad y los cristianos en la obediencia. Era tan grande esta modestia
cristiana y tan cierta la voluntad de obedecer, que no pudieron ser oscurecidas por las maliciosas calumnias
de los enemigos. Por lo cual, aquellos que habían de defender públicamente el cristianismo en presencia de
los emperadores, demostraban principalmente con este argumento que era injusto castigar a los cristianos
según las leyes, pues vivían de acuerdo con éstas a los ojos de todos, para dar ejemplo de observancia. Así
hablaba Atenágoras con toda confianza a Marco Aurelio y a su hijo Lucio Aurelio Cómodo: «Permitís que
nosotros, que ningún mal hacemos, antes bien nos conducimos con toda piedad y justicia, no sólo respecto
a Dios, sino también respecto al Imperio, seamos perseguidos, despojados, desterrados»[21]. Del mismo
modo alababa públicamente Tertuliano a los cristianos, porque eran, entre todos, los mejores y más
seguros amigos del imperio: «El cristiano no es enemigo de nadie, ni del emperador, a quien, sabiendo que
está constituido por Dios, debe amar, respetar, honrar y querer que se salve con todo el Imperio
romano»[22]. Y no dudaba en afirmar que en los confines del imperio tanto más disminuía el número de
sus enemigos cuanto más crecía el de los cristianos: «Ahora tenéis pocos enemigos, porque los cristianos
son mayoría, pues en casi todas las ciudades son cristianos casi todos los ciudadanos»[23]. También
tenemos un insigne testimonio de esta misma realidad en la Epístola a Diogneto, la cual confirma que en
aquel tiempo los cristianos se habían acostumbrado no sólo a servir y obedecer las leyes, sino que
satisfacían a todos sus deberes con mayor perfección que la que les exigían las leyes: «Los cristianos
obedecen las leyes promulgadas y con su género de vida pasan más allá todavía de lo que las leyes
mandan»[24].

15. Sin embargo, la cuestión cambiaba radicalmente cuando los edictos imperiales y las amenazas de los
pretores les mandaban separarse de la fe cristiana o faltar de cualquier manera a los deberes que ésta les
imponía. No vacilaron entonces en desobedecer a los hombres para obedecer y agradar a Dios. Sin
embargo, incluso en estas circunstancias no hubo quien tratase de promover sediciones ni de menoscabar
la majestad del emperador, ni jamás pretendieron otra cosa que confesarse cristianos, serlo realmente y
conservar incólume su fe. No pretendían oponer en modo alguno resistencia, sino que marchaban
contentos y gozosos, como nunca, al cruento potro, donde la magnitud de los tormentos se veía vencida
por la grandeza de alma de los cristianos. Por esta razón se llegó también a honrar en aquel tiempo en el
ejército la eficacia de los principios cristianos. Era cualidad sobresaliente del soldado cristiano hermanar
con el valor a toda prueba el perfecto cumplimiento de la disciplina militar y mantener unida a su valentía
la inalterable fidelidad al emperador. Sólo cuando se exigían de ellos actos contrarios a la fe o la razón,
como la violación de los derechos divinos o la muerte cruenta de indefensos discípulos de Cristo, sólo
entonces rehusaban la obediencia al emperador, prefiriendo abandonar las armas y dejarse matar por la
religión antes que rebelarse contra la autoridad pública con motines y sublevaciones.

16. Cuando los Estados pasaron a manos de príncipes cristianos, la Iglesia puso más empeño en declarar y
enseñar todo lo que hay de sagrado en la autoridad de los gobernantes. Con estas enseñanzas se logró
que los pueblos, cuando pensaban en la autoridad, se acostumbrasen a ver en los gobernantes una imagen
de la majestad divina, que les impulsaba a un mayor respeto y amor hacia aquéllos. Por lo mismo,
sabiamente dispuso la Iglesia que los reyes fuesen consagrados con los ritos sagrados, como estaba
mandado por el mismo Dios en el Antigua Testamento. Cuando la sociedad civil, surgida de entre las ruinas
del Imperio romano, se abrió de nuevo a la esperanza de la grandeza cristiana, los Romanos Pontífices
consagraron de un modo singular el poder civil con el imperium sacrum. La autoridad civil adquirió de esta
manera una dignidad desconocida. Y no hay duda que esta institución habría sido grandemente útil, tanto
para la sociedad religiosa como para la sociedad civil, si los príncipes y los pueblos hubiesen buscado lo
que la Iglesia buscaba. Mientras reinó una concorde amistad entre ambas potestades, se conservaron la
tranquilidad y la prosperidad públicas. Si alguna vez los pueblos incurrían en el pecado de rebelión, al
punto acudía la Iglesia, conciliadora nata de la tranquilidad, exhortando a todos al cumplimiento de sus
deberes y refrenando los ímpetus de la concupiscencia, en parte con la persuasión y en parte con su
autoridad. De modo semejante, si los reyes pecaban en el ejercicio del poder, se presentaba la Iglesia ante
ellos y, recordándoles los derechos de los pueblos, sus necesidades y rectas aspiraciones, les aconsejaba
justicia, clemencia y benignidad. Por esta razón se ha recurrido muchas veces a la influencia de la Iglesia
para conjurar los peligros de las revoluciones y de las guerras civiles.

Las nuevas teorías

17. Por el contrario, las teorías sobre la autoridad política, inventadas por ciertos autores modernos, han
acarreado ya a la humanidad serios disgustos, y es muy de temer que, andando el tiempo, nos traerán
mayores males. Negar que Dios es la fuente y el origen de la autoridad política es arrancar a ésta toda su
dignidad y todo su vigor. En cuanto a la tesis de que el poder político depende del arbitrio de la
muchedumbre, en primer lugar, se equivocan al opinar así. Y, en segundo lugar, dejan asentada la
soberanía sobre un cimiento demasiado endeble e inconsistente. Porque las pasiones populares,
estimuladas con estas opiniones como con otros tantos acicates, se alzan con mayor insolencia y con gran
daño de la república se precipitan, por una fácil pendiente, en movimientos clandestinos y abiertas
sediciones. Las consecuencias de la llamada Reforma comprueban estos hechos. Sus jefes y colaboradores
socavaron con la piqueta de las nuevas doctrinas los cimientos de la sociedad civil y de la sociedad
eclesiástica y provocaron repentinos alborotos y osadas rebeliones, principalmente en Alemania. Y esto con
una fiebre tan grande de guerra civil y de muerte, que casi no quedó territorio alguno libre de la crueldad
de las turbas. De aquella herejía nacieron en el siglo pasado una filosofía falsa, el llamado derecho nuevo,
la soberanía popular y una descontrolada licencia, que muchos consideran como la única libertad. De aquí
se ha llegado a esos errores recientes que se llaman comunismo, socialismo y nihilismo, peste vergonzosa
y amenaza de muerte para la sociedad civil. Y, sin embargo, son muchos los que se esfuerzan por extender
el imperio de males tan grandes y, con el pretexto de favorecer al pueblo, han provocado no pequeños
incendios y ruinas. Los sucesos que aquí recordamos ni son desconocidos ni están muy lejanos.

III. NECESIDAD DE LA DOCTRINA CATÓLICA

18. Y lo peor de todo es que los príncipes, en medio de tantos peligros, carecen de remedios eficaces para
restablecer la disciplina pública y pacificar los ánimos. Se arman con la autoridad de las leyes y piensan
que podrán reprimir a los revoltosos con penas severas. Proceden con rectitud. Pero conviene advertir
seriamente que la eficacia del castigo no es tan grande que pueda conservar ella sola el orden en los
Estados. El miedo, como enseña Santo Tomás, «es un fundamento débil, porque los que se someten por
miedo, cuando ven la ocasión de escapar impunes, se levantan contra los gobernantes con tanta mayor
furia cuanto mayor ha sido la sujeción forzada, impuesta únicamente por el miedo. Y, además, el miedo
exagerado arrastra a muchos a la desesperación, y la desesperación se lanza audazmente a las más
atroces resoluciones»[25]. La experiencia ha demostrado suficientemente la gran verdad de estas
afirmaciones.

Es necesario, por tanto, buscar una causa más alta y más eficaz para la obediencia. Hay que establecer
que la severidad de las leyes resultará infructuosa mientras los hombres no actúen movidos por el estímulo
del deber y por la saludable influencia del temor de Dios. Esto puede conseguirlo como nadie la religión. La
religión se insinúa por su propia fuerza en las almas, doblega la misma voluntad del hombre para que se
una a sus gobernantes no sólo por estricta obediencia, sino también por la benevolencia de la caridad, la
cual es en toda sociedad humana la garantía más firme de la seguridad.

19. Por lo cual hay que reconocer que los Romanos Pontífices hicieron un gran servicio al bien común
cuando procuraron quebrantar la inquieta e hinchada soberbia de los innovadores advirtiendo el peligro
que éstos constituían para la sociedad civil. Es digna de mención a este respecto la afirmación dirigida por
Clemente VII a Fernando, rey de Bohemia y Hungría: «En la causa de la fe va incluida también la dignidad
y utilidad, tanto tuya como de los demás soberanos, pues no es posible atacar a la fe sin grave ruina de
vuestros propios intereses, lo cual se ha comprobado recientemente en algunos de esos territorios». En
esta misma línea ha brillado la providente firmeza de nuestros predecesores, especialmente de Clemente
XII, Benedicto XIV y León XII, quienes, al ver cundir extraordinariamente la epidemia de estas depravadas
teorías y al comprobar la audacia creciente de las sectas, hicieron uso de su autoridad para cortarles el
paso y evitar su entrada. Nos mismos hemos denunciado muchas veces la gravedad de los peligros que
nos amenazan. Y hemos indicado al mismo tiempo el mejor remedio para conjurarlos. Hemos ofrecido a los
príncipes y a todos los gobernantes el apoyo de la Iglesia. Hemos exhortado a los pueblos a que se
aprovechen de los bienes espirituales que la Iglesia les proporciona. De nuevo hacemos ahora a los reyes
el ofrecimiento de este apoyo, el más firme de todos, y con vehemencia les amonestamos en el Señor para
que defiendan a la religión, y en ínterés del mismo Estado concedan a la Iglesia aquella libertad de la cual
no puede ser privada sin injusticia y perdición de todos. La Iglesia de Cristo no puede ser sospechosa a los
príncipes ni mal vista por los pueblos. La Iglesia amonesta a los príncipes para que ejerzan la justicia y no
se aparten lo más mínimo de sus deberes. Pero al mismo tiempo y de muchas maneras robustece y
fomenta su autoridad. Reconoce y declara que los asuntos propios de la esfera civil se hallan bajo el poder
y jurisdicción de los gobernantes. Pero en las materias que afectan simultáneamente, aunque por diversas
causas, a la potestad civil y a la potestad eclesiástica, la Iglesia quiere que ambas procedan de común
acuerdo y reine entre ellas aquella concordia que evita contiendas desastrosas para las dos partes. Por lo
que toca a los pueblos, la Iglesia ha sido fundada para la salvación de todos los hombres y siempre los ha
amado como madre. Es la Iglesia la que bajo la guía de la caridad ha sabido imbuir mansedumbre en las
almas, humanidad en las costumbres, equidad en las leyes, y siempre amiga de la libertad honesta, tuvo
siempre por costumbre y práctica condenar la tiranía. Esta costumbre, ingénita en la Iglesia, ha sido
expresada por San Agustín con tanta concisión como claridad en estas palabras: «Enseña [la Iglesia] que
los reyes cuiden a los pueblos, que todos los pueblos se sujeten a sus reyes, manifestando cómo no todo
se debe a todos, aunque a todos es debida la claridad y a nadie la injusticia»[26].

20. Por estas razones, venerables hermanos, vuestra obra será muy útil y totalmente saludable si
consultáis con Nos todas las empresas que por encargo divino habéis de llevar a cabo para apartar de la
sociedad humana estos peligrosos daños. Procurad y velad para que los preceptos establecidos por la
Iglesia católica respecto del poder político del deber de obediencia sean comprendidos y cumplidos con
diligencia por todos los hombres. Como censores y maestros que sois, amonestad sin descanso a los
pueblos para que huyan de las sectas prohibidas, abominen las conjuraciones y que nada intenten por
medio de la revolución. Entiendan todos que, al obedecer por causa de Dios a los gobernantes, su
obediencia es un obsequio razonable. Pero como es Dios quien da la victoria a los reyes[27] y concede a
los pueblos el descanso en la morada de la paz, en la habitación de la seguridad y en el asilo del
reposo[28], es del todo necesario suplicarle insistentemente que doblegue la voluntad de todos hacia la
bondad y la verdad, que reprima las iras y restituya al orbe entero la paz y tranquilidad hace tiempo
deseadas.

21. Para que la esperanza en la oración sea más firme, pongamos por intercesores a la Virgen María, ínclita
Madre de Dios, auxilio de los cristianos y protectora del género humano; a San José, su esposo castísimo,
en cuyo patrocinio confía grandemente toda la Iglesia; a los apóstoles San Pedro y San Pablo, guardianes y
defensores del nombre cristiano.

Entre tanto, y como augurio del galardón divino, os damos afectuosamente a vosotros, venerables
hermanos, al clero y al pueblo confiado a vuestro cuidado, nuestra bendición apostólica.

Dado en Roma, junto a San Pedro, el 29 de junio de 1881, año cuarto de nuestro pontificado.

LEÓN PP. XIII

Notas

[1] Prov 8,15-16.

[2] Sab 6,3-4.

[3] Eclo 17,14.


[4] Jn 19,11.

[5] San Agustín, Tractatus in Ioannis Evangelium CXVI, 5: PL 35,1943.

[6] Rom 13,1-4.

[7] San Agustín, De civitate Dei V 21: PL 41,167.

[8] San Juan Crisóstomo, In Epistolam ad Romanos hom.23,1: PG 60,615.

[9] San Gregorio Magno, Epístola 11,61.

[10] Sant 4,12.

[11] Ef 3,15.

[12] Rom 13,1-5.

[13] 1 Pe 2,13-15.

[14] Mt 22,21.

[15] Hech 5,29.

[16] Sal 6,4-8.

[17] Rom 10,12.

[18] Cf. misa votiva pro pace, Poscomunión.

[19] Tit 3,1.

[20] 1 Tim 2,1-3.

[21] Atenágoras, Legatio pro Christ. 1: PG 6,891 B-894A.

[22]Tertuliano, Apologeticum 35: PL 1,451.

[23] Tertuliano, Apologeticum 37: PL 1,463.

[24] Epístola a Diognete 5: PG 2,1174.

[25] Santo Tomás, De regimine principum 1,10.

[26] San Agustín, De moribus Ecclesiae catholicae 1,30:PL 32,1336.

[27] Sal 142(143),11.

[28] Is 32,18.

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/es/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_29061881_diuturnum.html

CARTA ENCÍCLICA

ARCANUM DIVINAE SAPIENTIAE


DEL SUMO PONTÍFICE

LEÓN XIII

SOBRE LA FAMILIA

I. INTRODUCCIÓN

Restauración de todas las cosas en Cristo

1. El arcano designio de la sabiduría divina que Jesucristo, Salvador de los hombres, había de llevar a cabo
en la tierra tuvo por finalidad restaurar El mismo divinamente por sí y en sí al mundo, que parecía estar
envejeciendo. Lo que expresó en frase espléndida y profunda el apóstol San Pablo, cuando escribía a los
efesios: «El sacramento de su voluntad..., restaurarlo todo en Cristo, lo que hay en el cielo y en la
tierra»[1]. Y, realmente, cuando Cristo Nuestro Señor decidió cumplir el mandato que recibiera del Padre,
lo primero que hizo fue, despojándolas de su vejez, dar a todas las cosas una forma y una fisonomía
nuevas. El mismo curó, en efecto, las heridas que había causado a la naturaleza humana el pecado del
primer padre; restituyó a todos los hombres, por naturaleza hijos de ira, a la amistad con Dios; trajo a la
luz de la verdad a los fatigados por una larga vida de errores; renovó en toda virtud a los que se hallaban
plagados de toda impureza, y dio a los recobrados para la herencia de la felicidad eterna la esperanza
segura de que su propio cuerpo, mortal y caduco, había de participar algún día de la inmortalidad y de la
gloria celestial. Y para que unos tan singulares beneficios permanecieran sobre la tierra mientras hubiera
hombres, constituyó a la Iglesia en vicaria de su misión y le mandó, mirando al futuro, que, si algo
padeciera perturbación en la sociedad humana, lo ordenara; que, si algo estuviere caído, que lo levantara.

Influencia de la religión en el orden temporal

2. Mas, aunque esta divina restauración de que hemos hablado toca de una manera principal y directa a
los hombres constituidos en el orden sobrenatural de la gracia, sus preciosos y saludables frutos han
trascendido, de todos modos, al orden natural ampliamente; por lo cual han recibido perfeccionamiento
notable en todos los aspectos tanto los individuos en particular cuanto la universal sociedad humana. Pues
ocurrió, tan pronto como quedó establecido el orden cristiano de las cosas, que los individuos humanos
aprendieran y se acostumbraran a confiar en la paternal providencia de Dios y a alimentar una esperanza,
que no defrauda, de los auxilios celestiales; con lo que se consiguen la fortaleza, la moderación, la
constancia, la tranquilidad del espíritu en paz y, finalmente, otras muchas preclaras virtudes e insignes
hechos. Por lo que toca a la sociedad doméstica y civil, es admirable cuánto haya ganado en dignidad, en
firmeza y honestidad. Se ha hecho más equitativa y respetable la autoridad de los príncipes, más pronta y
más fácil la obediencia de los pueblos, más estrecha la unión entre los ciudadanos, más seguro el derecho
de propiedad. La religión cristiana ha favorecido y fomentado en absoluto todas aquellas cosas que en la
sociedad civil son consideradas como útiles, y hasta tal punto que, como dice San Agustín, aun cuando
hubiera nacido exclusivamente para administrar y aumentar los bienes y comodidades de la vida terrena,
no parece que hubiera podido ella misma aportar más en orden a una vida buena y feliz.

3. Pero no es nuestro propósito tratar ahora por completo de cada una de estas cosas; vamos a hablar
sobre la sociedad doméstica, que tiene su princípio y fundamento en el matrimonio.

II. EL MATRIMONIO CRISTIANO

Origen y propiedades

4. Para todos consta, venerables hermanos, cuál es el verdadero origen del matrimonio. Pues, a pesar de
que los detractores de la fe cristiana traten de desconocer la doctrina constante de la Iglesia acerca de
este punto y se esfuerzan ya desde tiempo por borrar la memoria de todos los siglos, no han logrado, sin
embargo, ni extinguir ni siquiera debilitar la fuerza y la luz de la verdad. Recordamos cosas conocidas de
todos y de que nadie duda: después que en el sexto día de la creación formó Dios al hombre del limo de la
tierra e infundió en su rostro el aliento de vida, quiso darle una compañera, sacada admirablemente del
costado de él mismo mientras dormía. Con lo cual quiso el providentísimo Dios que aquella pareja de
cónyuges fuera el natural principio de todos los hombres, o sea, de donde se propagara el género humano
y mediante ininterrumpidas procreaciones se conservara por todos los tiempos. Y aquella unión del hombre
y de la mujer, para responder de la mejor manera a los sapientísimos designios de Dios, manifestó desde
ese mismo momento dos principalísimas propiedades, nobilísimas sobre todo y como impresas y grabadas
ante sí: la unidad y la perpetuidad. Y esto lo vemos declarado y abiertamente confirmado en el Evangelio
por la autoridad divina de Jesucristo, que atestiguó a los judíos y a los apóstoles que el matrimonio, por su
misma institución, sólo puede verificarse entre dos, esto es, entre un hombre y una mujer; que de estos
dos viene a resultar como una sola carne, y que el vínculo nupcial está tan íntima y tan fuertemente atado
por la voluntad de Dios, que por nadie de los hombres puede ser desatado o roto. Se unirá (el hombre) a
su esposa y serán dos en una carne. Y así no son dos, sino una carne. Por consiguiente, lo que Dios unió,
el hombre no lo separe[2].

Corrupción del matrimonio antiguo

5. Pero esta forma del matrimonio, tan excelente y superior, comenzó poco a poco a corromperse y
desaparecer entre los pueblos gentiles; incluso entre los mismos hebreos pareció nublarse y oscurecerse.
Entre éstos, en efecto, había prevalecido la costumbre de que fuera lícito al varón tener más de una mujer;
y luego, cuando, por la dureza de corazón de los mismos[3], Moisés les permitió indulgentemente la
facultad de repudio, se abrió la puerta a los divorcios. Por lo que toca a la sociedad pagana, apenas cabe
creerse cuánto degeneró y qué cambios experimentó el matrimonio, expuesto como se hallaba al oleaje de
los errores y de las más torpes pasiones de cada pueblo.

Todas las naciones parecieron olvidar, más o menos, la noción y el verdadero origen del matrimonio,
dándose por doquiera leyes emanadas, desde luego, de la autoridad pública, pero no las que la naturaleza
dicta. Ritos solemnes, instituidos al capricho de los legisladores, conferían a las mujeres el título honesto de
esposas o el torpe de concubinas; se llegó incluso a que determinara la autoridad de los gobernantes a
quiénes les estaba permitido contraer matrimonio y a quiénes no, leyes que conculcaban gravemente la
equidad y el honor. La poligamia, la poliandria, el divorcio, fueron otras tantas causas, además, de que se
relajara enormemente el vínculo conyugal. Gran desorden hubo también en lo que atañe a los mutuos
derechos y deberes de los cónyuges, ya que el marido adquiría el dominio de la mujer y muchas veces la
despedía sin motivo alguno justo; en cambio, a él, entregado a una sensualidad desenfrenada e indomable,
le estaba permitido discurrir impunemente entre lupanares y esclavas, como si la culpa dependiera de la
dignidad y no de la voluntad[4]. Imperando la licencia marital, nada era más miserable que la esposa,
relegada a un grado de abyección tal, que se la consideraba como un mero instrumento para satisfacción
del vicio o para engendrar hijos. Impúdicamente se compraba y vendía a las que iban a casarse, cual si se
tratara de cosas materiales[5], concediéndose a veces al padre y al marido incluso la potestad de castigar
a la esposa con el último suplicio. La familia nacida de tales matrimonios necesariamente tenía que
contarse entre los bienes del Estado o se hallaba bajo el dominio del padre, a quien las leyes facultaban,
además, para proponer y concertar a su arbitrio los matrimonios de sus hijos y hasta para ejercer sobre los
mismos la monstruosa potestad de vida y muerte.

Su ennoblecimiento por Cristo

6. Tan numerosos vicios, tan enormes ignominias como mancillaban el matrimonio, tuvieron, finalmente,
alivio y remedio, sin embargo, pues Jesucristo, restaurador de la dignidad humana y perfeccionador de las
leyes mosaicas, dedicó al matrimonio un no pequeño ni el menor de sus cuidados. Ennobleció, en efecto,
con su presencia las bodas de Caná de Galilea, inmortalizándolas con el primero de sus milagros[6], motivo
por el que, ya desde aquel momento, el matrimonio parece haber sido perfeccionado con principios de
nueva santidad.Restituyó luego el matrimonio a la nobleza de su primer origen, ya reprobando las
costumbres de los hebreos, que abusaban de la pluralidad de mujeres y de lafacultad de repudio, ya sobre
todo mandando que nadie desatara lo que el mismo Dios había atado con un vínculo de unión perpetua.
Por todo ello, después derefutar las objeciones fundadas en la ley mosaica, revistiéndose de la dignidad de
legislador supremo, estableció sobre el matrimonio esto: «Os digo, pues,que todo el que abandona a su
mujer, a no ser por causa de fornicación, y toma otra, adultera; y el que toma a la abandonada,
adultera[7].
Transmisión de su doctrina por los apóstoles

7. Cuanto por voluntad de Dios ha sido decretado y establecido sobre los matrimonios, sin embargo, nos lo
han transmitido por escrito y más claramente los apóstoles, mensajeros de las leyes divinas. Y dentro del
magisterio apostólico, debe considerarse lo que los Santos Padres, los concilios y la tradición de la Iglesia
universal han enseñado siempre[8], esto es, que Cristo Nuestro Señor elevó el matrimonio a la dignidad de
sacramento, haciendo al mismo tiempo que los cónyuges, protegidos y auxiliados por la gracia celestial
conseguida por los méritos de El, alcanzasen en el matrimonio mismo la santidad, y no sólo perfeccionando
en éste, admirablemente concebido a semejanza de la mística unión de Cristo con la Iglesia, el amor que
brota de la naturaleza[9], sino también robusteciendo la unión, ya de suyo irrompible, entre marido y
mujer con un más fuerte vínculo de caridad. «Maridos —dice el apóstol San Pablo—, amad a vuestras
mujeres igual que Cristo amó a la Iglesia y se entregó a sí mismo por ella, para santificarla... Los maridos
deben amar a sus mujeres como a sus propios cuerpos.., ya que nadie aborrece jamás su propia carne,
sino que la nutre y la abriga, como Cristo también a la Iglesia; porque somos miembros de su cuerpo, de
su carne y de sus huesos. Por esto dejará el hombre a su padre y a su madre y se unirá a su esposa y
serán dos en una carne. Sacramento grande es éste; pero os lo digo: en Cristo y en la Iglesia[10]. Por
magisterio de los apóstoles sabemos igualmente que Cristo mandó que la unidad y la perpetua estabilidad,
propias del matrimonio desde su mismo origen, fueran sagradas y por siempre inviolables. «A los casados
—dice el mismo San Pablo— les mando, no yo, sino el Señor, que la mujer no se aparte de su marido; y si
se apartare, que permanezca sin casarse o que se reconcilie con su marido»[11]. Y de nuevo: «La mujer
está ligada a su ley mientras viviere su marido; y si su marido muere, queda libre»[12]. Es por estas
causas que el matrimonio es «sacramento grande y entre todos honorable»[13], piadoso, casto, venerable,
por ser imagen y representación de cosas altísimas.

La finalidad del matrimonio en el cristianismo

8. Y no se limita sólo a lo que acabamos de recordar su excelencia y perfección cristiana. Pues, en primer
lugar, se asignó a la sociedad conyugal una finalidad más noble y más excelsa que antes, porque se
determinó que era misión suya no sólo la propagación del género humano, sino también la de engendrar la
prole de la Iglesia, conciudadanos de los santos y domésticos de Dios[14], esto es, la procreación y
educación del pueblo para el culto y religión del verdadero Dios y de Cristo nuestro Salvador[15]. En
segundo lugar, quedaron definidos íntegramente los deberes de ambos cónyuges, establecidos
perfectamente sus derechos. Es decir, que es necesario que se hallen siempre dispuestos de tal modo que
entiendan que mutuamente se deben el más grande amor, una constante fidelidad y una solícita y continua
ayuda. El marido es el jefe de la familia y cabeza de la mujer, la cual, sin embargo, puesto que es carne de
su carne y hueso de sus huesos, debe someterse y obedecer al marido, no a modo de esclava, sino de
compañera; esto es, que a la obediencia prestada no le falten ni la honestidad ni la dignidad. Tanto en el
que manda como en la que obedece, dado que ambos son imagen, el uno de Cristo y el otro de la Iglesia,
sea la caridad reguladora constante del deber. Puesto que el marido es cabeza de la mujer, como Cristo es
cabeza de la Iglesia... Y así como la Iglesia está sometida a Cristo, así también las mujeres a sus maridos
en todo[16]. Por lo que toca a los hijos, deben éstos someterse y obedecer a sus padres y honrarlos por
motivos de conciencia; y los padres, a su vez, es necesario que consagren todos sus cuidados y
pensamientos a la protección de sus hijos, y principalísimamente a educarlos en la virtud: Padres..., educad
(a vuestros hijos) en la disciplina y en el respeto del Señor[17]. De lo que se infiere que los deberes de los
cónyuges no son ni pocos ni leves; mas para los esposos buenos, a causa de la virtud que se percibe del
sacramento, les serán no sólo tolerables, sino incluso gratos.

La potestad de la Iglesia

9. Cristo, por consiguiente, habiendo renovado el matrimonio con tal y tan grande excelencia, confió y
encomendó toda la disciplina del mismo a la Iglesia. La cual ejerció en todo tiempo y lugar su potestad
sobre los matrimonios de los cristianos, y la ejerció de tal manera que dicha potestad apareciera como
propia suya, y no obtenida por concesión de los hombres, sino recibida de Dios por voluntad de su
fundador. Es de sobra conocido por todos, para que se haga necesario demostrarlo, cuántos y qué
vigilantes cuidados haya puesto para conservar la santidad del matrimonio a fin de que éste se mantuviera
incólume. Sabemos, en efecto, con toda certeza, que los amores disolutos y libres fueron condenados por
sentencia del concilio de Jerusalén[18]; que un ciudadano incestuoso de Corinto fue condenado por
autoridad de San Pablo[19]; que siempre fueron rechazados y combatidos con igual vigor los intentos de
muchos que atacaban el matrimonio cristiano: los gnósticos, los maniqueos y los montanistas en los
orígenes del cristianismo; y, en nuestros tiempos, los mormones, los sansimonianos, los falansterianos y
los comunistas. Quedó igualmente establecido un mismo y único derecho imparcial del matrimonio para
todos, suprimida la antigua diferencia entre esclavos y libres[20]; igualados los derechos del marido y de la
mujer, pues, como decía San Jerónimo, entre nosotros, lo que no es lícito a las mujeres, justamente
tampoco es lícito a los maridos, y una misma obligación es de igual condición para los dos[21];
consolidados de una manera estable esos mismos derechos por la correspondencia en el amor y por la
reciprocidad de los deberes; asegurada y reivindicada la dignidad de la mujer; prohibido al marido castigar
a la adúltera con la muerte[22] y violar libidinosa o impúdicamente la fidelidad jurada. Y es grande también
que la Iglesia limitara, en cuanto fue conveniente, la potestad de los padres de familia, a fin de que no
restaran nada de la justa libertad a los hijos o hijas que desearan casarse[23]; prohibiera los matrimonios
entre parientes y afines de determinados grados[24], con objeto de que el amor sobrenatural de los
cónyuges se extendiera por un más ancho campo; cuidara de que se prohibieran en los matrimonios, hasta
donde fuera posible, el error, la violencia y el fraude[25], y ordenara que se protegieran la santa
honestidad del tálamo, la seguridad de las personas[26], el decoro de los matrimonios[27] y la integridad
de la religión[28]. En fin, defendió con tal vigor, con tan previsoras leyes esta divina institución, que ningún
observador imparcial de la realidad podrá menos que reconocer que, también por lo que se refiere al
matrimonio, el mejor custodio y defensor del género humano es la Iglesia, cuya sabiduría ha triunfado del
tiempo, de las injurias de los hombres y de las vicisitudes innumerables de las cosas.

III. ATAQUES DE QUE ES OBJETO

Negación de la potestad de la Iglesia

10. No faltan, sin embargo, quienes, ayudados por el enemigo del género humano, igual que con
incalificable ingratitud rechazan los demás beneficios de la redención, desprecian también o tratan de
desconocer en absoluto la restauración y elevación del matrimonio. Fue falta de no pocos entre los
antiguos haber sido enemigos en algo del matrimonio; pero es mucho más grave en nuestros tiempos el
pecado de aquellos que tratan de destruir totalmente su naturaleza, perfecta y completa en todas sus
partes. La causa de ello reside principalmente en que, imbuidos en las opiniones de una filosofía falsa y por
la corrupción de las costumbres, muchos nada toleran menos que someterse y obedecer, trabajando
denodadamente, además, para que no sólo los individuos, sino también las familias y hasta la sociedad
humana entera desoiga soberbiamente el mandato de Dios. Ahora bien: hallándose la fuente y el origen de
la sociedad humana en el matrimonio, les resulta insufrible que el mismo esté bajo la jurisdicción de la
Iglesia y tratan, por el contrario, de despojarlo de toda santidad y de reducirlo al círculo verdaderamente
muy estrecho de las cosas de institución humana y que se rigen y administran por el derecho civil de las
naciones. De donde necesariamente había de seguirse que atribuyeran todo derecho sobre el matrimonio a
los poderes estatales, negándoselo en absoluto a la Iglesia, la cual, si en un tiempo ejerció tal potestad,
esto se debió a indulgencia de los príncipes o fue contra derecho. Y ya es tiempo, dicen, que los
gobernantes del Estado reivindiquen enérgicamente sus derechos y reglamenten a su arbitrio cuanto se
refiere al matrimonio. De aquí han nacido los llamados matrimonios civiles, de aquí esas conocidas leyes
sobre las causas que impiden los matrimonios; de aquí esas sentencias judiciales acerca de si los contratos
conyugales fueron celebrados válidamente o no. Finalmente, vemos que le ha sido arrebatada con tanta
saña a la Iglesia católica toda potestad de instituir y dictar leyes sobre este asunto, que ya no se tiene en
cuenta para nada ni su poder divino ni sus previsoras leyes, con las cuales vivieron durante tanto tiempo
unos pueblos, a los cuales llegó la luz de la civilización juntamente con la sabiduría cristiana.

Carácter religioso del matrimonio

11. Los naturalistas y todos aquellos que se glorían de rendir culto sobre todo al numen popular y se
esfuerzan en divulgar por todas las naciones estas perversas doctrinas, no pueden verse libres de la
acusación de falsedad. En efecto, teniendo el matrimonio por su autor a Dios, por eso mismo hay en él
algo de sagrado y religioso, no adventicio, sino ingénito; no recibido de los hombres, sino radicado en la
naturaleza. Por ello, Inocencio III[29] y Honorio III[30], predecesores nuestros, han podido afirmar, no sin
razón ni temerariamente, que el sacramento del matrimonio existe entre fieles e infieles. Nos dan
testimonio de ello tanto los monumentos de la antigüedad cuanto las costumbres e instituciones de los
pueblos que anduvieron más cerca de la civilización y se distinguieron por un conocimiento más perfecto
del derecho y de la equidad: consta que en las mentes de todos éstos se hallaba informado y anticipado
que, cuando se pensaba en el matrimonio, se pensaba en algo que implicaba religión y santidad. Por esta
razón, las bodas acostumbraron a celebrarse frecuentemente entre ellos, no sin las ceremonias religiosas,
mediante la autorización de los pontífices y el ministerio de los sacerdotes. ¡Tan gran poder tuvieron en
estos ánimos carentes de la doctrina celestial la naturaleza de las cosas, la memoria de los orígenes y la
conciencia del género humano! Por consiguiente, siendo el matrimonio por su virtud, por su naturaleza, de
suyo algo sagrado, lógico es que se rija y se gobierne no por autoridad de príncipes, sino por la divina
autoridad de la Iglesia, la única que tiene el magisterio de las cosas sagradas. Hay que considerar después
la dignidad del sacramento, con cuya adición los matrimonios cristianos quedan sumamente ennoblecidos.
Ahora bien: estatuir y mandar en materia de sacramentos, por voluntad de Cristo, sólo puede y debe
hacerlo la Iglesia, hasta el punto de que es totalmente absurdo querer trasladar aun la más pequeña parte
de este poder a los gobernantes civiles. Finalmente, es grande el peso y la fuerza de la historia, que
clarísimamente nos enseña que la potestad legislativa y judicial de que venimos hablando fue ejercida libre
y constantemente por la Iglesia, aun en aquellos tiempos en que torpe y neciamente se supone que los
poderes públicos consentían en ello o transigían. ¡Cuán increíble, cuán absurdo que Cristo Nuestro Señor
hubiera condenado la inveterada corruptela de la poligamia y del repudio con una potestad delegada en El
por el procurador de la provincia o por el rey de los judíos! ¡O que el apóstol San Pablo declarara ilícitos el
divorcio y los matrimonios incestuosos por cesión o tácito mandato de Tiberio, de Calígula o de Nerón!
Jamás se logrará persuadir a un hombre de sano entendimiento que la Iglesia llegara a promulgar tantas
leyes sobre la santidad y firmeza del matrimonio[31], sobre los matrimonios entre esclavos y libres[32],
con una facultad otorgada por los emperadores romanos, enemigos máximos del cristianismo, cuyo
supremo anhelo no fue otro que el de aplastar con la violencia y la muerte la naciente religión de Cristo;
sobre todo cuando el derecho emanado de la Iglesia se apartaba del derecho civil, hasta el punto de que
Ignacio Mártir[33], Justino[34], Atenágoras[35] y Tertuliano[36] condenaban públicamente como injustos y
adulterinos algunos matrimonios que, por el contrario, amparaban las leyes imperiales. Y cuando la
plenitud del poder vino a manos de los emperadores cristianos, los Sumos Pontífices y los obispos reunidos
en los concilios prosiguieron, siempre con igual libertad y conciencia de su derecho, mandando y
prohibiendo en materia de matrimonios lo que estimaron útíl y conveniente según los tiempos, sin
preocuparles discrepar de las instituciones civiles. Nadie ignora cuántas instituciones, frecuentemente muy
en desacuerdo con las disposiciones imperiales, fueron dictadas por los prelados de la Iglesia sobre los
impedimentos de vínculo, de voto, de disparidad de culto, de consanguinidad, de crimen, de honestidad
pública en los concilios Iliberitano[37], Arelatense[38], Calcedonense[39], Milevitano II[40] y otros. Y ha
estado tan lejos de que los príncipes reclamaran para sí la potestad sobre el matrimonio cristiano, que
antes bien han reconocido y declarado que, cuanta es, corresponde a la Iglesia. En efecto, Honorio,
Teodosio el Joven y Justiniano[41] no han dudado en manifestar que, en todo lo referente a matrimonios,
no les era lícito ser otra cosa que custodios y defensores de los sagrados cánones. Y si dictaminaron algo
acerca de impedimentos matrimoniales, hicieron saber que no procedían contra la voluntad, sino con el
permiso y la autoridad de la Iglesia[42], cuyo parecer acostumbraron a consultar y aceptar reverentemente
en las controversias sobre la honestidad de los nacimientos[43], sobre los divorcios[44] y, finalmente,
sobre todo lo relacionado de cualquier modo con el vínculo conyugal[45]. Con el mejor derecho, por
consiguiente, se definió en el concilio Tridentino que es potestad de la Iglesia establecer los impedimentos
dirimentes del matrimonio[46] y que las causas matrimoniales son de la competencia de los jueces
eclesiásticos[47].

Intento de separar contrato y sacramento

12. Y no se le ocurra a nadie aducir aquella decantada distinción de los regalistas entre el contrato nupcial
y el sacramento, inventada con el propósito de adjudicar al poder y arbitrio de los príncipes la jurisdicción
sobre el contrato, reservando a la Iglesia la del sacramento. Dicha distinción o, mejor dicho, partición no
puede probarse, siendo cosa demostrada que en el matrimonio cristiano el contrato es inseparable del
sacramento. Cristo Nuestro Señor, efectivamente, enriqueció con la dignidad de sacramento el matrimonio,
y el matrimonio es ese mismo contrato, siempre que se haya celebrado legítimamente. Añádese a esto que
el matrimonio es sacramento porque es un signo sagrado y eficiente de gracia y es imagen de la unión
mística de Cristo con la Iglesia. Ahora bien: la forma y figura de esta unión está expresada por ese mismo
vínculo de unión suma con que se ligan entre sí el marido y la mujer, y que no es otra cosa sino el
matrimonio mismo. Así, pues, queda claro que todo matrimonio legítimo entre cristianos es en sí y por sí
sacramento y que nada es más contrario a la verdad que considerar el sacramento como un cierto ornato
sobreañadido o como una propiedad extrínseca, que quepa distinguir o separar del contrato, al arbitrio de
los hombres. Ni por la razón ni por la historia se prueba, por consiguiente, que la potestad sobre los
matrimonios de los cristianos haya pasado a los gobernantes civiles. Y si en esto ha sido violado el derecho
ajeno, nadie podrá decir, indudablemente, que haya sido violado por la Iglesia .

Los principios del naturalismo

13. ¡Ojalá que los oráculos de los naturalistas, así como están llenos de falsedad y de injusticia, estuvieran
también vacíos de daños y calamidades! Pero es fácil ver cuánto perjuicio ha causado la profanación del
matrimonio y lo que aún reportará a toda la sociedad humana. En un principio fue divinamente establecida
la ley de que las cosas hechura de Dios o de la naturaleza nos resultaran tanto más útiles y saludables
cuanto se conservaran más íntegras e inmutables en su estado nativo, puesto que Dios, creador de todas
las cosas, supo muy bien qué convendría a la estructura y conservación de las cosas singulares, y las
ordenó todas en su voluntad y en su mente de tal manera que cada cual llegara a tener su más adecuada
realización. Ahora bien: si la irreflexión de los hombres o su maldad se empeñara en torcer o perturbar un
orden tan providentísimamente establecido, entonces las cosas más sabia y provechosamente instituidas o
comienzan a convertirse en un obstáculo o dejan de ser provechosas, ya por haber perdido en el cambio su
poder de ayudar, ya porque Dios mismo quiera castigar la soberbia y el atrevimiento de los mortales.
Ahora bien: los que niegan que el matrimonio sea algo sagrado y, despojándolo de toda santidad, lo
arrojan al montón de las cosas humanas, éstos pervierten los fundamentos de la naturaleza, se oponen a
los designios de la divina Providencia y destruyen, en lo posible, lo instituido. Por ello, nada tiene de
extrañar que de tales insensatos e impíos principios resulte una tal cosecha de males, que nada pueda ser
peor para la salvación de las almas y el bienestar de la república.

Frutos del matrimonio cristiano

14. Si se considera a qué fin tiende la divina institución del matrimonio, se verá con toda claridad que Dios
quiso poner en él las fuentes ubérrimas de la utilidad y de la salud públicas. Y no cabe la menor duda de
que, aparte de lo relativo a la propagación del género humano, tiende también a hacer mejor y más feliz la
vida de los cónyuges; y esto por muchas razones, a saber: por la ayuda mutua en el remedio de las
necesidades, por el amor fiel y constante, por la comunidad de todos los bienes y por la gracia celestial que
brota del sacramento. Es también un medio eficacísimo en orden al bienestar familiar, ya que los
matrimonios, siempre que sean conformes a la naturaleza y estén de acuerdo con los consejos de Dios,
podrán de seguro robustecer la concordia entre los padres, asegurar la buena educación de los hijos,
moderar la patria potestad con el ejemplo del poder divino, hacer obedientes a los hijos para con sus
padres, a los sirvientes respecto de sus señores. De unos matrimonios así, las naciones podrán
fundadamente esperar ciudadanos animados del mejor espíritu y que, acostumbrados a reverenciar y amar
a Dios, estimen como deber suyo obedecer a los que justa y legítimamente mandan amar a todos y no
hacer daño a nadie.

La ausencia de religión en el matrimonio

15. Estos tan grandes y tan valiosos frutos produjo realmente el matrimonio mientras conservó sus
propiedades de santidad, unidad y perpetuidad, de las que recibe toda su fructífera y saludable eficacia; y
no cabe la menor duda de que los hubiera producido semejantes e iguales si siempre y en todas partes se
hubiera hallado bajo la potestad y celo de la Iglesia, que es la más fiel conservadora y defensora de tales
propiedades. Mas, al surgir por doquier el afán de sustituir por el humano los derechos divino y natural, no
sólo comenzó a desvanecerse la idea y la noción elevadísima a que la naturaleza había impreso y como
grabado en el ánimo de los hombres, sino que incluso en los mismos matrimonios entre cristianos, por
perversión humana, se ha debilitado mucho aquella fuerza procreadora de tan grandes bienes. ¿Qué de
bueno pueden reportar, en efecto, aquellos matrimonios de los que se halla ausente la religión cristiana,
que es madre de todos los bienes, que nutre las más excelsas virtudes, que excita e impele a cuanto puede
honrar a un ánimo generoso y noble? Desterrada y rechazada la religión, por consiguiente, sin otra defensa
que la bien poco eficaz honestidad natural, los matrimonios tienen que caer necesariamente de nuevo en la
esclavitud de la naturaleza viciada y de la peor tiranía de las pasiones. De esta fuente han manado
múltiples calamidades, que han influido no sólo sobre las familias, sino incluso sobre las sociedades, ya
que, perdido el saludable temor de Dios y suprimido el cumplimiento de los deberes, que jamás en parte
alguna ha sido más estricto que en la religión cristiana, con mucha frecuencia ocurre, cosa fácil en efecto,
que las cargas y obligaciones del matrimonio parezcan apenas soportables y que muchos ansíen liberarse
de un vínculo que, en su opinión, es de derecho humano y voluntario, tan pronto como la incompatibilidad
de caracteres, o las discordias, o la violación de la fidelidad por cualquiera de ellos, o el consentimiento
mutuo u otras causas aconsejen la necesidad de separarse. Y si entonces los códigos les impiden dar
satisfacción a su libertinaje, se revuelven contra las leyes, motejándolas de inicuas, de inhumanas y de
contrarias al derecho de ciudadanos libres, pidiendo, por lo mismo, que se vea de desecharlas y derogarlas
y de decretar otra más humana en que sean lícitos los divorcios.

16. Los legisladores de nuestros tiempos, confesándose partidarios y amantes de los mismos principios de
derecho, no pueden verse libres, aun queriéndolo con todas sus fuerzas, de la mencionada perversidad de
los hombres; hay, por tanto, que ceder a los tiempos y conceder la facultad de divorcio. Lo mismo que la
propia historia testifica. Dejando a un lado, en efecto, otros hechos, al finalizar el pasado siglo, en la no
tanto revolución cuanto conflagración francesa, cuando, negado Dios, se profanaba todo en la sociedad,
entonces se accedió, al fin, a que las separaciones conyugales fueran ratificadas por las leyes. Y muchos
propugnan que esas mismas leyes sean restablecidas en nuestros tiempos, pues quieren apartar en
absoluto a Dios y a la Iglesia de la sociedad conyugal, pensando neciamente que el remedio más eficaz
contra la creciente corrupción de las costumbres debe buscarse en semejantes leyes.

Males del divorcio

17. Realmente, apenas cabe expresar el cúmulo de males que el divorcio lleva consigo. Debido a él, las
alianzas conyugales pierden su estabilidad, se debilita la benevolencia mutua, se ofrecen peligrosos
incentivos a la infidelidad, se malogra la asistencia y la educación de los hijos, se da pie a la disolución de
la sociedad doméstica, se siembran las semillas de la discordia en las familias, se empequeñece y se
deprime la dignidad de las mujeres, que corren el peligro de verse abandonadas así que hayan satisfecho
la sensualidad de los maridos. Y puesto que, para perder a las familias y destruir el poderío de los reinos,
nada contribuye tanto como la corrupción de las costumbres, fácilmente se verá cuán enemigo es de la
prosperidad de las familias y de las naciones el divorcio, que nace de la depravación moral de los pueblos,
y, conforme atestigua la experiencia, abre las puertas y lleva a las más relajadas costumbres de la vida
privada y pública. Y se advertirá que son mucho más graves estos males si se considera que, una vez
concedida la facultad de divorciarse, no habrá freno suficientemente poderoso para contenerla dentro de
unos límites fijos o previamente establecidos. Muy grande es la fuerza del ejemplo, pero es mayor la de las
pasiones: con estos incentivos tiene que suceder que el prurito de los divorcios, cundiendo más de día en
día, invada los ánimos de muchos como una contagiosa enfermedad o como un torrente que se desborda
rotos los diques.

Su confirmación por los hechos

18. Todas estas cosas son ciertamente claras de suyo; pero con el renovado recuerdo de los hechos se
harán más claras todavía. Tan pronto como la ley franqueó seguro camino al divorcio, aumentaron
enormemente las disensiones, los odios y las separaciones, siguiéndose una tan espantosa relajación
moral, que llegaron a arrepentirse hasta los propios defensores de tales separaciones; los cuales, de no
haber buscado rápidamente el remedio en la ley contraria, era de temer que se precipitara en la ruina la
propia sociedad civil. Se dice que los antiguos romanos se horrorizaron ante los primeros casos de divorcio;
tardó poco, sin embargo, en comenzar a embotarse en los espíritus el sentido de la honestidad, a
languidecer el pudor que modera la sensualidad, a quebrantarse la fidelidad conyugal en medio de tamaña
licencia, hasta el punto de que parece muy verosímil lo que se lee en algunos autores: que las mujeres
introdujeron la costumbre de contarse los años no por los cambios de cónsules, sino de maridos. Los
protestantes, de igual modo, dictaron al principio leyes autorizando el divorcio en determinadas causas,
pocas desde luego; pero ésas, por afinidad entre cosas semejantes, es sabido que se multiplicaron tanto
entre alemanes, americanos y otros, que los hombres sensatos pensaran en que había de lamentarse
grandemente la inmensa depravación moral y la intolerable torpeza de las leyes. Y no ocurrió de otra
manera en las naciones católicas, en las que, si alguna vez se dio lugar al divorcio, la muchedumbre de los
males que se siguió dejó pequeños los cálculos de los gobernantes. Pues fue crimen de muchos inventar
todo género de malicias y de engaños y recurrir a la crueldad, a las injurias y al adulterio al objeto de
alegar motivos con que disolver impunemente el vínculo conyugal, de que ya se habían hastiado, y esto
con tan grave daño de la honestidad pública, que públicamente se llegara a estimar de urgente necesidad
entregarse cuanto antes a la enmienda de tales leyes. ¿Y quién podrá dudar de que los resultados de las
leyes protectoras del divorcio habrían de ser igualmente lamentables y calamitosas si llegaran a
establecerse en nuestros días? No se halla ciertamente en los proyectos ni en los decretos de los hombres
una potestad tan grande como para llegar a cambiar la índole ni la estructura natural de las cosas; por ello
interpretan muy desatinadamente el bienestar público quienes creen que puede trastocarse impunemente
la verdadera estructura del matrimonio y, prescindiendo de toda santidad, tanto de la religión cuanto del
sacramento, parecen querer rehacer y reformar el matrimonio con mayor torpeza todavía que fue
costumbre en las mismas instituciones paganas. Por ello, si no cambian estas maneras de pensar, tanto las
familias cuanto la sociedad humana vivirán en constante temor de verse arrastradas lamentablemente a
ese peligro y ruina universal, que desde hace ya tiempo vienen proponiendo las criminales hordas de
socialistas y comunistas. En esto puede verse cuán equivocado y absurdo sea esperar el bienestar público
del divorcio, que, todo lo contrario, arrastra a la sociedad a una ruina segura.

Conducta de la Iglesia frente al divorcio

19. Hay que reconocer, por consiguiente, que la Iglesia católica, atenta siempre a defender la santidad y la
perpetuidad de los matrimonios, ha servido de la mejor manera al bien común de todos los pueblos, y que
se le debe no pequeña gratitud por sus públicas protestas, en el curso de los últimos cien años, contra las
leyes civiles que pecaban gravemente en esta materia[48]; por su anatema dictado contra la detestable
herejía de los protestantes acerca de los divorcios y repudios[49]; por haber condenado de muchas
maneras la separación conyugal en uso entre los griegos[50]; por haber declarado nulos los matrimonios
contraídos con la condición de disolverlos en un tiempo dado[51]; finalmente, por haberse opuesto ya
desde los primeros tiempos alas leyes imperiales que amparaban perniciosamente los divorcios y
repudios[52]. Además, cuantas veces los Sumos Pontífices resistieron a poderosos príncipes, los cuales
pedían incluso con amenazas que la Iglesia ratificara los divorcios por ellos efectuados, otras tantas deben
ser considerados como defensores no sólo de la integridad de la religión, sino también de la civilización de
los pueblos. A este propósito, la posteridad toda verá con admiración los documentos reveladores de un
espíritu invicto, dictados: por Nicolás II contra Lotario; por Urbano II y Pascual II contra Felipe I, rey de
Francia; por Celestino III e Inocencio III contra Felipe II, príncipe de Francia; por Clemente VII y Paulo III
contra Enrique VIII, y, finalmente, por el santo y valeroso pontífice Pío VII contra Napoleón, engreído por
su prosperidad y por la magnitud de su Imperio.

IV. LOS REMEDIOS

El poder civil

20. Siendo las cosas así, los gobernantes y estadistas, de haber querido seguirlos dictados de la razón, de
la sabiduría y de la misma utilidad de los pueblos, debieron preferir que las sagradas leyes sobre el
matrimonio permanecieran intactas y prestar a la Iglesia la oportuna ayuda para tutela de las costumbres y
prosperidad de las familias, antes que constituirse en sus enemigos y acusarla falsa e inicuamente de haber
violado el derecho civil.

21. Y esto con tanta mayor razón cuanto que la Iglesia, igual que no puede apartarse en cosa alguna del
cumplimiento de su deber y de la defensa de su derecho, así suele ser, sobre todo, propensa a la
benignidad y a la indulgencia en todo lo que sea compatible con la integridad de sus derechos y con la
santidad de sus deberes. Por ello jamás dictaminó nada sobre matrimonios sin tener en cuenta el estado
de la comunidad y las condiciones de los pueblos, mitigando en más de una ocasión, en cuanto le fue
posible, lo establecido en sus leyes, cuando hubo causas justas y graves para tal mitigación. Tampoco
ignora ni niega que el sacramento del matrimonio, encaminado también a la conservación y al incremento
de la sociedad humana, tiene parentesco y vinculación con cosas humanas, consecuencias indudables del
matrimonio, pero que caen del lado de lo civil y respecto de las cuales con justa competencia legislan y
entienden los gobernantes del Estado.

El poder eclesiástico
22. Nadie duda que el fundador de la Iglesia, nuestro Señor Jesucristo, quiso que la potestad sagrada fuera
distinta de la civil, y libres y expeditas cada una de ellas en el desempeño de sus respectivas funciones;
pero con este aditamento: que a las dos conviene y a todos los hombres interesa que entre las dos reinen
la unión y la concordia, y que en aquellas cosas que, aun cuando bajo aspectos diversos, son de derecho y
juicio común, una, la que tiene a su cargo las cosas humanas, dependa oportuna y convenientemente de la
otra, a que se han confiado las cosas celestiales. En una composición y casi armonía de esta índole se
contiene no sólo la mejor relación entre las potestades, sino también el modo más conveniente y eficaz de
ayuda al género humano, tanto en lo que se refiere a los asuntos de esta vida cuanto en lo tocante a la
esperanza de la salvación eterna. En efecto, así como la inteligencia de los hombres, según hemos
expuesto en anteriores encíclicas, si está de acuerdo con la fe cristiana, gana mucho en nobleza y en vigor
para desechar los errores, y, a su vez, la fe recibe de ella no pequeña ayuda, de igual manera, si la
potestad civil se comporta amigablemente con la Iglesia, las dos habrán de salir grandemente gananciosas.
La dignidad de la una se enaltece, y yendo por delante la religión, jamás será injusto su mandato; la otra
obtendrá medios de tutela y de defensa para el bien común de los fieles.

23. Nos, por consiguiente, movidos por esta consideración de las cosas, con el mismo afecto que otras
veces lo hemos hecho, invitamos de nuevo con toda insistencia en la presente a los gobernantes a
estrechar la concordia y la amistad, y somos Nos el primero en tender, con paternal benevolencia, nuestra
diestra con el ofrecimiento del auxilio de nuestra suprema potestad, tanto más necesario en estos tiempos
cuanto que el derecho de mandar, cual si hubiera recibido una herida, se halla debilitado en la opinión de
los hombres. Ardiendo ya los ánimos en el más osado libertinaje y vilipendiando con criminal audacia todo
yugo de autoridad, por legítima que sea; la salud pública postula que las fuerzas de las dos potestades se
unan para impedir los daños que amenazan no sólo a la Iglesia, sino también a la sociedad civil.

Exhortación a los obispos

24. Mas, al mismo tiempo que aconsejamos insistentemente la amigable unión de las voluntades y
suplicamos a Dios, príncipe de la paz, que infunda en los ánimos de todos los hombres el amor de la
concordia, no podemos menos de incitar, venerables hermanos, exhortándoos una y otra vez, vuestro
ingenio, vuestro celo y vigilancia, que sabemos que es máxima en vosotros. En cuanto esté a vuestro
alcance, con todo lo que pueda vuestra autoridad, trabajad para que entre las gentes confiadas a vuestra
vigilancia se mantenga íntegra e incorruptible la doctrina que enseñaron Cristo Nuestro Señor y los
apóstoles, intérpretes de la voluntad divina, y que la Iglesia católica observó religiosamente ella misma y
mandó que en todos los tiempos observaran los fieles cristianos.

25. Tomaos el mayor cuidado de que los pueblos abunden en los preceptos de la sabiduría cristiana y no
olviden jamás que el matrimonio no fue instituido por voluntad de los hombres, sino en el principio por
autoridad y disposición de Dios, y precisamente bajo esta ley, de que sea de uno con una; y que Cristo,
autor de la Nueva Alianza, lo elevó de menester de naturaleza a sacramento y que, por lo que atañe al
vínculo, atribuyó la potestad legislativa y judicial a su Iglesia. Acerca de esto habrá que tener mucho
cuidado de que las mentes no se vean arrastradas por las falaces conclusiones de los adversarios, según
los cuales esta potestad le ha sido quitada a la Iglesia. Todos deben igualmente saber que, si se llevara a
cabo entre fieles una unión de hombre con mujer fuera del sacramento, tal unión carece de toda fuerza y
razón de legítimo matrimonio; y que, aun cuando se hubiera verificado convenientemente conforme a las
leyes del país, esto no pasaría de ser una práctica o costumbre introducida por el derecho civil, y este
derecho sólo puede ordenar y administrar aquellas cosas que los matrimonios producen de sí en el orden
civil, las cuales claro está que no podrán producirse sin que exista su verdadera y legítima causa, es decir,
el vínculo nupcial.

Importa sobre todo que estas cosas sean conocidas de los esposos, a los cuales incluso habrá que
demostrárselas e inculcárselas en los ánimos, a fin de que puedan cumplir con las leyes, a lo que de
ningún modo se opone la Iglesia, antes bien quiere y desea que los efectos del matrimonio se logren en
todas sus partes y que de ningún modo se perjudique a los hijos. También es necesario que se sepa, en
medio de tan enorme confusión de opiniones como se propagan de día en día, que no hay potestad capaz
de disolver el vínculo de un matrimonio rato y consumado entre cristianos y que, por lo mismo, son reos de
evidente crimen los cónyuges que, antes de haber sido roto el primero por la muerte, se ligan con un
nuevo vínculo matrimonial, por más razones que aleguen en su descargo. Porque, si las cosas llegaran a tal
extremo que ya la convivencia es imposible, entonces la Iglesia deja al uno vivir separado de la otra y,
aplicando los cuidados y remedios acomodados a las condiciones de los cónyuges, trata de suavizar los
inconvenientes de la separación, trabajando siempre por restablecer la concordia, sin desesperar nunca de
lograrlo. Son éstos, sin embargo, casos extremos, los cuales sería fácil soslayar si los prometidos, en vez
de dejarse arrastrar por la pasión, pensaran antes seriamente tanto en las obligaciones de los cónyuges
cuanto en las nobilísimas causas del matrimonio, acercándose a él con las debidas intenciones, sin
anticiparse a las nupcias, irritando a Dios, con una serie ininterrumpida de pecados. Y, para decirlo todo en
pocas palabras, los matrimonios disfrutarán de una plácida y quieta estabilidad si los cónyuges informan su
espíritu y su vida con la virtud de la religión, que da al hombre un ánimo fuerte e invencible y hace que los
vicios dado que existieran en ellos, que la diferencia de costumbres y de carácter, que la carga de los
cuidados maternales, que la penosa solicitud de la educación de los hijos, que los trabajos propios de la
vida y que los contratiempos se soporten no sólo con moderación, sino incluso con agrado.

Matrimonios con acatólicos

26. Deberá evitarse también que se contraigan fácilmente matrimonios con acatólicos, pues cuando no
existe acuerdo en materia religiosa, apenas si cabe esperar que lo haya en lo demás. Más aún: dichos
matrimonios deben evitarse a toda costa, porque dan ocasión a un trato y comunicación vedados sobre
cosas sagradas, porque crean un peligro para la religión del cónyuge católico, porque impiden la buena
educación de los hijos y porque muchas veces impulsan a considerar a todas las religiones a un mismo
nivel, sin discriminación de lo verdadero y de lo falso. Entendiendo, por último, que nadie puede ser ajeno
a nuestra caridad, encomendamos a la autoridad de la fe y a vuestra piedad, venerables hermanos, a
aquellos miserables que, arrebatados por la llama de las pasiones y olvidados por completo de su
salvación, viven ilegalmente, unidos sin legítimo vínculo de matrimonio. Empeñad todo vuestro diligente
celo en atraer a éstos al cumplimiento del deber, y, directamente vosotros o por mediación de personas
buenas, procurad por todos los medios que se den cuenta de que han obrado pecaminosamente, hagan
penitencia de su maldad y contraigan matrimonio según el rito católico.

V. CONCLUSIÓN

27. Estas enseñanzas y preceptos acerca del matrimonio cristiano, que por medio de esta carta hemos
estimado oportuno tratar con vosotros, venerables hermanos, podéis ver fácilmente que interesan no
menos para la conservación de la comunidad civil que para la salvación eterna de los hombres. Haga Dios,
pues, que cuanto mayor es su importancia y gravedad, tanto más dóciles y dispuestos a obedecer
encuentren por todas partes los ánimos. Imploremos para esto igualmente todos, con fervorosas
oraciones, el auxilio de la Santísima Inmaculada Virgen María, la cual, inclinando las mentes a someterse a
la fe, se muestre madre y protectora de los hombres. Y con no menor fervor supliquemos a los Príncipes de
los Apóstoles, San Pedro y San Pablo, vencedores de la superstición y sembradores de la verdad, que
defiendan al género humano con su poderoso patrocinio del aluvión desbordado de los errores.

28. Entretanto, como prenda de los dones celestiales y testimonio de nuestra singular benevolencia, os
impartimos de corazón a todos vosotros, venerables hermanos, y a los pueblos confiados a vuestra
vigilancia, la bendición apostólica.

Dada en Roma, junto a San Pedro, a 10 de febrero de 1880, año segundo de nuestro pontificado.

LEÓN PP XIII

Notas

[1] Ef 1,9-10.

[2] Mt 19,5-6.

[3] Ibíd., 8.
[4] San Jerónimo, Opera t.l co1.455.

[5] Arnobio, Contra los gentiles 4.

[6] Jn c.2

[7] Mt 19,9.

[8] Concilio Tridentino Ses.24 al princ.

[9] Ibíd., c.l De reform. matr.

[10] Ef 5,25ss.

[11] 1 Cor 7,10-11.

[12] Ef 5,39.

[13] Heb 13,4.

[14] Ef 2,19.

[15] Catec. Romano c.8.

[16] Ef 5,23-24.

[17] Ef 6,4.

[18] Hech 15,29.

[19] 1 Cor 5,5.

[20] C.1 De coniug. serv.

[21] Opera t.l co1.455.

[22] Canon Interfectores y canon Admonere cuest.2.

[23] C.30 cuest.3 c.3 De cognat. spirit

[24] C.8 De consang. et affin; c.l De cognat. legali.

[25] C.26 De sponsal.; c.13,15-29 De sponsal. et matrim. et alibi.

[26] C.1 De convers. infid.; c.5 y 6 De eo que duxit in matr.

[27] C.3.5.8 De sponsal. et matrim.; Concilio Tridentino, ses.24 c.3 De reform. matrim.

[28] C.7 De divort.

[29] C.8 De divort.

[30] C.11 De transact.

[31] Can. apost. 16.17.18.


[32] Philosophum. Oxon ( 1851 ).

[33] Carta a Policarpo c.5.

[34] Apolog. mai n.15.

[35] Legat. pro Christian. n.32-33.

[36] De coron. milit. c.13.

[37] De Aguirre, Conc. Hispan. t.l can.13.15.16.17.

[38] Harduin, Act. Concil. t.l can.l l.

[39] Ibíd., can.l6.

[40] Ibíd., can.l7.

[41] Novel. 137.

[42] Feier, Matrim. ex institut. Christ. (Pest 1835).

[43] C.3 De ordin. cognit.

[44] C.3 De divort.

[45] C.13 Qui filii sint legit.

[46] Tridentino, ses.24 can.4.

[47] Ibíd., can.l2.

[48] Pío VI, epístola al obispo lucionense, de 28 de mayo de 1793; Pío VII, encíclica de 17 de febrero de
1809 y constitución de fecha 19 de julio de 1817; Pío VIII, encíclica de 29 de mayo de 1829; Gregorio XVI,
constitución del 15 de agosto de 1832; Pío IX, alocución de 22 de septiembre de 1852.

[49] Concilio Tridentino, ses.24 can.5 y 7.

[50] Concilio Florentino e instrucción de Eugenio IV a los armenios; Benedicto XIV, constitución Etsi
pastoralis, de 6 de mayo de 1742.

[51] C.7 De condit. apost.

[52] San Jerónimo, Epist. 79, ad Ocean; San Ambrosio, 1.8 sobre el c.16 de San Lucas, n.5; San
Agustín, De nuptiis c.10.

http://w2.vatican.va/content/leo-xiii/es/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_10021880_arcanum.html

EPÍSTOLA ENCÍCLICA

AETERNI PATRIS
DEL SUMO PONTÍFICE

LEÓN XIII
SOBRE LA RESTAURACIÓN DE LA FILOSOFÍA CRISTIANA
CONFORME A LA DOCTRINA DE SANTO TOMÁS DE AQUINO

Venerables Hermanos:
Salud y bendición apostólica.

El Hijo Unigénito del Eterno Padre, que apareció sobre la tierra para traer al humano linaje la salvación y la
luz de la divina sabiduría hizo ciertamente un grande y admirable beneficio al mundo cuando, habiendo de
subir nuevamente a los cielos, mandó a los apóstoles que «fuesen a enseñar a todas las gentes»
(Mt 28,19), y dejó a la Iglesia por él fundada por común y suprema maestra de los pueblos. Pues los
hombres, a quien la verdad había libertado debían ser conservados por la verdad; ni hubieran durado por
largo tiempo los frutos de las celestiales doctrinas, por los que adquirió el hombre la salud, si Cristo
Nuestro Señor no hubiese constituido un magisterio perenne para instruir los entendimientos en la fe. Pero
la Iglesia, ora animada con las promesas de su divino autor, ora imitando su caridad, de tal suerte cumplió
sus preceptos, que tuvo siempre por mira y fue su principal deseo enseñar la religión y luchar
perpetuamente con los errores. A esto tienden los diligentes trabajos de cada uno de los Obispos, a esto
las leyes y decretos promulgados de los Concilios y en especial la cotidiana solicitud de los Romanos
Pontífices, a quienes como a sucesores en el primado del bienaventurado Pedro, Príncipe de los Apóstoles,
pertenecen el derecho y la obligación de enseñar y confirmar a sus hermanos en la fe. Pero como, según el
aviso del Apóstol, «por la filosofía y la vana falacia» (Col 2,18)suelen ser engañadas las mentes de los
fieles cristianos y es corrompida la sinceridad de la fe en los hombres, los supremos pastores de la Iglesia
siempre juzgaron ser también propio de su misión promover con todas sus fuerzas las ciencias que
merecen tal nombre, y a la vez proveer con singular vigilancia para que las ciencias humanas se enseñasen
en todas partes según la regla de la fe católica, y en especial la filosofía, de la cual sin duda depende en
gran parte la recta enseñanza de las demás ciencias. Ya Nos, venerables hermanos, os advertimos
brevemente, entre otras cosas, esto mismo, cuando por primera vez nos hemos dirigido a vosotros por
cartas Encíclicas; pero ahora, por la gravedad del asunto y la condición de los tiempos, nos vemos
compelidos por segunda vez a tratar con vosotros de establecer para los estudios filosóficos un método
que no solo corresponda perfectamente al bien de la fe, sino que esté conforme con la misma dignidad de
las ciencias humanas.

Si alguno fija la consideración en la acerbidad de nuestros tiempos, y abraza con el pensamiento la


condición de las cosas que pública y privadamente se ejecutan, descubrirá sin duda la causa fecunda de los
males, tanto de aquellos que hoy nos oprimen, como de los que tememos, consiste en que los perversos
principios sobre las cosas divinas y humanas, emanados hace tiempo de las escuelas de los filósofos, se
han introducido en todos los órdenes de la sociedad recibidos por el común sufragio de muchos. Pues
siendo natural al hombre que en el obrar tenga a la razón por guía, si en algo falta la inteligencia,
fácilmente cae también en lo mismo la voluntad; y así acontece que la perversidad de las opiniones, cuyo
asiento está en la inteligencia, influye en las acciones humanas y las pervierte. Por el contrario, si está
sano el entendimiento del hombre y se apoya firmemente en sólidos y verdaderos principios, producirá
muchos beneficios de pública y privada utilidad. Ciertamente no atribuimos tal fuerza y autoridad a la
filosofía humana, que la creamos suficiente para rechazar y arrancar todos los errores; pues así como
cuando al principio fue instituida la religión cristiana, el mundo tuvo la dicha de ser restituido a su dignidad
primitiva, mediante la luz admirable de la fe, «no con las persuasivas palabras de la humana sabiduría, sino
en la manifestación del espíritu y de la virtud» (1Cor 2,4) así también al presente debe esperarse
principalísimamente del omnipotente poder de Dios y de su auxilio, que las inteligencias de los hombres,
disipadas las tinieblas del error, vuelvan a la verdad. Pero no se han de despreciar ni posponer los auxilios
naturales, que por beneficio de la divina sabiduría, que dispone fuerte y suavemente todas las cosas, están
a disposición del género humano, entre cuyos auxilios consta ser el principal el recto uso de la filosofía. No
en vano imprimió Dios en la mente humana la luz de la razón, y dista tanto de apagar o disminuir la
añadida luz de la fe la virtud de la inteligencia, que antes bien la perfecciona, y aumentadas sus fuerzas, la
hace hábil para mayores empresas. Pide, pues, el orden de la misma Providencia, que se pida apoyo aun a
la ciencia humana, al llamar a los pueblos a la fe y a la salud: industria plausible y sabia que los
monumentos de la antigüedad atestiguan haber sido practicada por los preclarísimos Padres de la Iglesia.
Estos acostumbraron a ocupar la razón en muchos e importantes oficios, todos los que compendió
brevísimamente el grande Agustín,«atribuyendo a esta ciencia... aquello con que la fe salubérrima... se
engendra, se nutre, se defiende, se consolida»[1].

En primer lugar, la filosofía, si se emplea debidamente por los sabios, puede de cierto allanar y facilitar de
algún modo el camino a la verdadera fe y preparar convenientemente los ánimos de sus alumnos a recibir
la revelación; por lo cual, no sin injusticia, fue llamada por los antiguos, «ora previa institución a la fe
cristiana»[2], «ora preludio y auxilio del cristianismo»[3], «ora pedagogo del Evangelio»[4].

Y en verdad, nuestro benignísimo Dios, en lo que toca a las cosas divinas no nos manifestó solamente
aquellas verdades para cuyo conocimiento es insuficiente la humana inteligencia, sino que manifestó
también algunas, no del todo inaccesibles a la razón, para que sobreviniendo la autoridad de Dios al punto
y sin ninguna mezcla de error, se hiciesen a todos manifiestas. De aquí que los mismos sabios, iluminados
tan solo por la razón natural hayan conocido, demostrado y defendido con argumentos convenientes
algunas verdades que, o se proponen como objeto de fe divina, o están unidas por ciertos estrechísimos
lazos con la doctrina de la fe. «Porque las cosas de él invisibles se ven después de la creación del mundo,
consideradas por las obras criadas aun su sempiterna virtud y divinidad» (Rom 1, 20), y «las gentes que no
tienen la ley... sin embargo, muestran la obra de la ley escrita en sus corazones» (Rom 11. 14, 15). Es,
pues, sumamente oportuno que estas verdades, aun reconocidas por los mismos sabios paganos, se
conviertan en provecho y utilidad de la doctrina revelada, para que, en efecto, se manifieste que también
la humana sabiduría y el mismo testimonio de los adversarios favorecen a la fe cristiana; cuyo modelo de
obrar consta que no ha sido recientemente introducido, sino que es antiguo, y fue usado muchas veces por
los Santos Padres de la Iglesia. Aun más: estos venerables testigos y custodios de las tradiciones religiosas
reconocen cierta norma de esto, y casi una figura en el hecho de los hebreos que, al tiempo de salir de
Egipto, recibieron el mandato de llevar consigo los vasos de oro y plata de los egipcios, para que,
cambiado repentinamente su uso, sirviese a la religión del Dios verdadero aquella vajilla, que antes había
servido para ritos ignominiosos y para la superstición. Gregorio Neocesarense[5] alaba a Orígenes, porque
convirtió con admirable destreza muchos conocimientos tomados ingeniosamente de las máximas de los
infieles, como dardos casi arrebatados a los enemigos, en defensa de la filosofía cristiana y en perjuicio de
la superstición. Y el mismo modo de disputar alaban y aprueban en Basilio el Grande, ya Gregorio
Nacianceno[6], ya Gregorio Niseno[7], y Jerónimo le recomienda grandemente en Cuadrato, discípulo de
los Apóstoles, en Arístides, en Justino, en Ireneo y otros muchos[8]. Y Agustín dice: «¿No vemos con
cuánto oro y plata, y con qué vestidos salió cargado de Egipto Cipriano, doctor suavísimo y mártir
beatísimo? ¿Con cuánto Lactancio? ¿Con cuánto Victorino, Optato, Hilario? Y para no hablar de los vivos,
¿con cuánto innumerables griegos?»[9]. Verdaderamente, si la razón natural dio tan ópima semilla de
doctrina antes de ser fecundada con la virtud de Cristo, mucho más abundante la producirá ciertamente
después que la gracia del Salvador restauró y enriqueció las fuerzas naturales de la humana mente. ¿Y
quién no ve que con este modo de filosofar se abre un camino llano y practicable a la fe?

No se circunscribe, no obstante, dentro de estos límites la utilidad que dimana de aquella manera de
filosofar. Y realmente, las páginas de la divina sabiduría reprenden gravemente la necedad de aquellos
hombres «que de los bienes que se ven no supieron conocer al que es, ni considerando las obras
reconocieron quien fuese su artífice» (Sap 13,1). Así en primer lugar el grande y excelentísimo fruto que se
recoge de la razón humana es el demostrar que hay un Dios: «pues por la grandeza de la hermosura de la
criatura se podrá a las claras venir en conocimiento del Criador de ellas» (Sap 13,5). Después demuestra
(la razón) que Dios sobresale singularmente por la reunión de todas las perfecciones, primero por la infinita
sabiduría, a la cual jamás puede ocultarse cosa alguna, y por la suma justicia a la cual nunca puede vencer
afecto alguno perverso; por lo mismo que Dios no solo es veraz, sino también la misma verdad, incapaz de
engañar y de engañarse. De lo cual se sigue clarísimamente que la razón humana granjea a la palabra de
Dios plenísima fe y autoridad. Igualmente la razón declara que la doctrina evangélica brilló aun desde su
origen por ciertos prodigios, como argumentos ciertos de la verdad, y que por lo tanto todos los que creen
en el Evangelio no creen temerariamente, como si siguiesen doctas fábulas (cf. 2Petr1, 16), sino que con
un obsequio del todo racional, sujetan su inteligencia y su juicio a la divina autoridad. Entiéndase que no es
de menor precio el que la razón ponga de manifiesto que la iglesia instituida por Cristo, como estableció el
Concilio Vaticano «por su admirable propagación, eximia santidad e inagotable fecundidad en todas las
religiones, por la unidad católica, e invencible estabilidad, es un grande y perenne motivo de credibilidad y
testimonio irrefragable de su divina misión»[10].

Puestos así estos solidísimos fundamentos, todavía se requiere un uso perpetuo y múltiple de la filosofía
para que la sagrada teología tome y vista la naturaleza, hábito e índole de verdadera ciencia. En ésta, la
más noble de todas las ciencias, es grandemente necesario que las muchas y diversas partes de las
celestiales doctrinas se reúnan como en un cuerpo, para que cada una de ellas, convenientemente
dispuesta en su lugar, y deducida de sus propios principios, esté relacionada con las demás por una
conexión oportuna; por último, que todas y cada una de ellas se confirmen en sus propios e invencibles
argumentos. Ni se ha de pasar en silencio o estimar en poco aquel más diligente y abundante conocimiento
de las cosas, que de los mismos misterios de la fe, que Agustín y otros Santos Padres alabaron y
procuraron conseguir, y que el mismo Concilio Vaticano[11] juzgó fructuosísima, y ciertamente conseguirán
más perfecta y fácilmente este conocimiento y esta inteligencia aquellos que, con la integridad de la vida y
el amor a la fe, reúnan un ingenio adornado con las ciencias filosóficas, especialmente enseñando el
Sínodo Vaticano, que esta misma inteligencia de los sagrados dogmas conviene tomarla «ya de la analogía
de las cosas que naturalmente se conocen, ya del enlace de los mismos misterios entre sí y con el fin
último del hombre»[12].

Por último, también pertenece a las ciencias filosóficas, defender religiosamente las verdades enseñadas
por revelación y resistir a los que se atrevan a impugnarlas. Bajo este respecto es grande alabanza de la
filosofía el ser considerada baluarte de la fe y como firme defensa de la religión. Como atestigua Clemente
Alejandrino, «es por sí misma perfecta la doctrina del Salvador y de ninguno necesita, siendo virtud y
sabiduría de Dios. La filosofía griega, que se le une, no hace más poderosa la verdad; pero haciendo
débiles los argumentos de los sofistas contra aquella, y rechazando las engañosas asechanzas contra la
misma, fue llamada oportunamente cerca y valla de la viña»[13]. Ciertamente, así como los enemigos del
nombre cristiano para pelear contra la religión toman muchas veces de la razón filosófica sus instrumentos
bélicos; así los defensores de las ciencias divinas toman del arsenal de la filosofía muchas cosas con que
poder defender los dogmas revelados. Ni se ha de juzgar que obtenga pequeño triunfo la fe cristiana,
porque las armas de los adversarios, preparadas por arte de la humana razón para hacer daño, sean
rechazadas poderosa y prontamente por la misma humana razón.

Esta especie de religioso combate fue usado por el mismo Apóstol de las gentes, como lo recuerda San
Jerónimo escribiendo a Magno: «Pablo, capitán del ejército cristiano, es orador invicto, defendiendo la
causa de Cristo, hace servir con arte una inscripción fortuita para argumento de la fe; había aprendido del
verdadero David a arrancar la espada de manos de los enemigos, y a cortar la cabeza del soberbio Goliat
con su espada»[14]. Y la misma Iglesia no solamente aconseja, sino que también manda que los doctores
católicos pidan este auxilio a la filosofía. Pues el Concilio Lateranense V, después de establecer que «toda
aserción contraria a la verdad de la fe revelada es completamente falsa, porque la verdad jamás se opuso
a la verdad»[15], manda a los Doctores de filosofía, que se ocupen diligentemente en resolver los
engañosos argumentos, pues como testifica Agustino, «si se da una razón contra la autoridad de las
Divinas Escrituras, por más aguda que sea, engañará con la semejanza de verdad, pero no puede ser
verdadera»[16].

Mas para que la filosofía sea capaz de producir los preciosos frutos que hemos recibido, es de todo punto
necesario que jamás se aparte de aquellos trámites que siguió la veneranda antigüedad de los Padres y
aprobó el Sínodo Vaticano con el solemne sufragio de la autoridad. En verdad está claramente averiguado
que se han de aceptar muchas verdades del orden sobrenatural que superan con mucho las fuerzas de
todas las inteligencias, la razón humana, conocedora de la propia debilidad, no se atreve a aceptar cosas
superiores a ella, ni negar las mismas verdades, ni medirlas con su propia capacidad, ni interpretarlas a su
antojo; antes bien debe recibirlas con plena y humilde fe y tener a sumo honor el serla permitido por
beneficio de Dios servir como esclava y servidora a las doctrinas celestiales y de algún modo llegarlas a
conocer. En todas estas doctrinas principales, que la humana inteligencia no puede recibir naturalmente, es
muy justo que la filosofía use de su método, de sus principios y argumentos; pero no de tal modo que
parezca querer sustraerse a la divina autoridad. Antes constando que las cosas conocidas por revelación
gozan de una verdad indisputable, y que las que se oponen a la fe pugnan también con la recta razón,
debe tener presente el filósofo católico que violará a la vez los derechos de la fe y la razón, abrazando
algún principio que conoce que repugna a la doctrina revelada.
Sabemos muy bien que no faltan quienes, ensalzando más de lo justo las facultades de la naturaleza
humana, defiendan que la inteligencia del hombre, una vez sometida a la autoridad divina, cae de su
natural dignidad, está ligada y como impedida para que no pueda llegar a la cumbre de la verdad y de la
excelencia. Pero estas doctrinas están llenas de error y de falacia, y finalmente tienden a que los hombres
con suma necedad, y no sin el crimen de ingratitud, repudien las más sublimes verdades y
espontáneamente rechacen el beneficio de la fe, de la cual aun para la sociedad civil brotaron las fuentes
de todos los bienes. Pues hallándose encerrada la humana mente en ciertos y muy estrechos límites, está
sujeta a muchos errores y a ignorar muchas cosas. Por el contrario, la fe cristiana, apoyándose en la
autoridad de Dios, es maestra infalible de la verdad, siguiendo la cual ninguno cae en los lazos del error, ni
es agitado por las olas de inciertas opiniones. Por lo cual, los que unen el estudio de la filosofía con la
obediencia a la fe cristiana, razonan perfectamente, supuesto que el esplendor de las divinas verdades,
recibido por el alma, auxilia la inteligencia, a la cual no quita nada de su dignidad, sino que la añade
muchísima nobleza, penetración y energía. Y cuando dirigen la perspicacia del ingenio a rechazar las
sentencias que repugnan a la fe y a aprobar las que concuerdan con ésta, ejercitan digna y utilísimamente
la razón: pues en lo primero descubren las causas del error y conocen el vicio de los argumentos, y en lo
último están en posesión de las razones con que se demuestra sólidamente y se persuade a todo hombre
prudente de la verdad de dichas sentencias. El que niegue que con esta industria y ejercicio se aumentan
las riquezas de la mente y se desarrollan sus facultades, es necesario que absurdamente pretenda que no
conduce al perfeccionamiento del ingenio la distinción de lo verdadero y de lo falso. Con razón el Concilio
Vaticano recuerda con estas palabras los beneficios que a la razón presta la fe: «La fe libra y defiende a la
razón de los errores y la instruye en muchos conocimientos»[17]. Y por consiguiente el hombre, si lo
entendiese, no debía culpar a la fe de enemiga de la razón, antes bien debía dar dignas gracias a Dios, y
alegrarse vehementemente de que entre las muchas causas de la ignorancia y en medio de las olas de los
errores le haya iluminado aquella fe santísima, que como amiga estrella indica el puerto de la verdad,
excluyendo todo temor de errar.

Porque, Venerables hermanos, si dirigís una mirada a la historia de la filosofía, comprenderéis que todas
las cosas que poco antes hemos dicho se comprueban con los hechos. Y ciertamente de los antiguos
filósofos, que carecieron del beneficio de la fe, aun los que son considerados como más sabios, erraron
pésimamente en muchas cosas, falsas e indecorosas, cuantas inciertas y dudosas entre algunas
verdaderas, enseñaron sobre la verdadera naturaleza de la divinidad, sobre el origen primitivo de las cosas
sobre el gobierno del mundo, sobre el conocimiento divino de las cosas futuras, sobre la causa y principio
de los males, sobre el último fin del hombre y la eterna bienaventuranza, sobre las virtudes y los vicios y
sobre otras doctrinas cuyo verdadero y cierto conocimiento es la cosa más necesaria al género humano.

Por el contrario, los primeros Padres y Doctores de la Iglesia, que habían entendido muy bien que por
decreto de la divina voluntad el restaurador de la ciencia humana era también Jesucristo, que es la virtud
de Dios y su sabiduría (1Cor 1,24), y «en el cual están escondidos los tesoros de la sabiduría» (Col 2,3),
trataron de investigar los libros de los antiguos sabios y de comparar sus sentencias con las doctrinas
reveladas, y con prudente elección abrazaron las que en ellas vieron perfectamente dichas y sabiamente
pensadas, enmendando o rechazando las demás. Pues así como Dios, infinitamente próvido, suscitó para
defensa de la Iglesia mártires fortísimos, pródigos de sus grandes almas, contra la crueldad de los tiranos,
así a los falsos filósofos o herejes opuso varones grandísimos en sabiduría, que defendiesen, aun con el
apoyo de la razón el depósito de las verdades reveladas. Y así desde los primeros días de la Iglesia la
doctrina católica tuvo adversarios muy hostiles que, burlándose de dogmas e instituciones de los cristianos,
sostenían la pluralidad de los dioses, que la materia del mundo careció de principio y de causa, y que el
curso de las cosas se conservaba mediante una fuerza ciega y una necesidad fatal y no era dirigido por el
consejo de la Divina Providencia. Ahora bien; con estos maestros de disparatada doctrina disputaron
oportunamente aquellos sabios que llamamos Apologistas, quienes precedidos de la fe usaron también los
argumentos de la humana sabiduría con los que establecieron que debe ser adorado un sólo Dios,
excelentísimo en todo género de perfecciones, que todas las cosas que han sido sacadas de la nada por su
omnipotente virtud, subsisten por su sabiduría y cada una se mueve y dirige a sus propios fines. Ocupa el
primer puesto entre estos San Justino mártir, quien después de haber recorrido las más célebres
academias de los griegos para adquirir experiencia, y de haber visto, como él mismo confiesa a boca llena,
que la verdad solamente puede sacarse de las doctrinas reveladas, abrazándolas con todo el ardor de su
espíritu, las purgó de calumnias, ante los Emperadores romanos, y en no pocas sentencias de los filósofos
griegos convino con éstos. Lo mismo hicieron excelentemente por este tiempo Quadrato y Aristides,
Hermias y Atenágoras. Ni menos gloria consiguió por el mismo motivo Ireneo, mártir invicto y Obispo de la
iglesia de Lyón, quien refutando valerosamente las perversas opiniones de los orientales diseminadas
merced a los gnósticos por todo el imperio romano,«explicó, según San Jerónimo, los principios de cada
una de las herejías y de qué fuentes filosóficas dimanaron»[18]. Todos conocen las disputas de Clemente
Alejandrino, que el mismo Jerónimo, para honrarlas, recuerda así: «¿Qué hay en ellas de indocto? y más,
¿qué no hay de la filosofía media?»[19]. El mismo trató con increíble variedad de muchas cosas utilísimas
para fundar la filosofía de la historia, ejercitar oportunamente la dialéctica, establecer la concordia entre la
razón y la fe. Siguiendo a éste Orígenes, insigne en el magisterio de la iglesia alejandrina, eruditísimo en
las doctrinas de los griegos y de los orientales, dio a luz muchos y eruditos volúmenes para explicar las
sagradas letras y para ilustrar los dogmas sagrados, cuyas obras, aunque como hoy existen no carezcan
absolutamente de errores, contienen, no obstante, gran cantidad de sentencias, con las que se aumentan
las verdades naturales en número y en firmeza. Tertuliano combate contra los herejes con la autoridad de
las sagradas letras, y con los filósofos, cambiando el género de armas filosóficamente, y convence a éstos
tan sutil y eruditamente que a las claras y con confianza les dice: «Ni en la ciencia ni el arte somos
igualados, como pensáis vosotros»[20].

Arnobio, en los libros publicados contra los herejes, y Lactancio, especialmente en sus instituciones divinas,
se esfuerzan valerosamente por persuadir a los hombres con igual elocuencia y gallardía de la verdad de
los preceptos de la sabiduría cristiana, no destruyendo la filosofía, como acostumbran los académicos[21],
sino convenciendo a aquellos, en parte con sus propias armas, y en parte con las tomadas de la lucha de
los filósofos entre sí[22].

Las cosas que del alma humana, de los divinos atributos y otras cuestiones de suma importancia dejaron
escritas el gran Atanasio y Crisóstomo el Príncipe de los oradores, de tal manera, a juicio de todos,
sobresalen, que parece no poderse añadir casi nada a su ingeniosidad y riqueza. Y para no ser pesados en
enumerar cada uno de los apologistas, añadimos el catálogo de los excelsos varones de que se ha hecho
mención, a Basilio el Grande y a los dos Gregorios, quienes habiendo salido de Atenas, emporio de las
humanas letras, equipados abundantemente con todo el armamento de la filosofía, convirtieron aquellas
mismas ciencias, que con ardoroso estudio habían adquirido, en refutar a los herejes e instruir a los
cristianos. Pero a todos arrebató la gloria Agustín, quien de ingenio poderoso, e imbuido perfectamente en
las ciencias sagradas y profanas, lucho acérrimamente contra todos los errores de sus tiempos con fe suma
y no menor doctrina. ¿Qué punto de la filosofía no trató y, aun más, cuál no investigó diligentísimamente,
ora cuando proponía a los fieles los altísimos misterios de la fe y los efendía contra los furiosos ímpetus de
los adversarios, ora cuando, reducidas a la nada las fábulas de los maniqueos o académicos, colocaba
sobre tierra firme los fundamentos de la humana ciencia y su estabilidad, o indagaba la razón del origen, y
las causas de los males que oprimen al género humano? ¿Cuánto no discutió sutilísimamente acerca de los
ángeles, del alma, de la mente humana, de la voluntad y del libre albedrío, de la religión y de la vida
bienaventurada, y aun de la misma naturaleza de los cuerpos mudables? Después de este tiempo en el
Oriente Juan Damasceno, siguiendo las huellas de Basilio y Gregorio de Nacianzo, y en Occidente Boecio y
Anselmo, profesando las doctrinas de Agustín, enriquecieron muchísimo el patrimonio de la filosofía.

Enseguida los Doctores de la Edad Media, llamados escolásticos, acometieron una obra magna, a saber:
reunir diligentemente las fecundas y abundantes mieses de doctrina, refundidas en las voluminosas obras
de los Santos Padres, y reunidas, colocarlas en un solo lugar para uso y comodidad de los venideros. Cuál
sea el origen la índole y excelencia de la ciencia escolástica, es útil aquí, Venerables hermanos, mostrarlo
más difusamente con las palabras de sapientísimo varón, nuestro predecesor, Sixto V: «Por don divino de
Aquél, único que da el espíritu de la ciencia, de la sabiduría y del entendimiento, y que enriquece con
nuevos beneficios a su Iglesia en las cadenas de los siglos, según lo reclama la necesidad, y la provee de
nuevos auxilios fue hallada por nuestros santísimos mayores la teología escolástica, la cual cultivaron y
adornaron principalísimamente dos gloriosos Doctores, el angélico Santo Tomás y el seráfico San
Buenaventura, clarísimos Profesores de esta facultad... con ingenio excelente, asiduo estudio, grandes
trabajos y vigilias, y la legaron a la posteridad, dispuesta óptimamente y explicada con brillantez de
muchas maneras. Y, en verdad, el conocimiento y ejercicio de esta saludable ciencia, que fluye de las
abundantísimas fuentes de las diversas letras, Sumos Pontífices, Santos Padres y Concilios, pudo siempre
proporcionar grande auxilio a la Iglesia, ya para entender e interpretar verdadera y sanamente las mismas
Escrituras, ya para leer y explicar más segura y útilmente los Padres, ya para descubrir y rebatir los varios
errores y herejías; pero en estos últimos días, en que llegaron ya los tiempos peligrosos descritos por el
Apóstol, y hombres blasfemos, soberbios, seductores, crecen en maldad, errando e induciendo a otros a
error, es en verdad sumamente necesaria para confirmar las dogmas de la fe católica y para refutar las
herejías.»[23]

Palabras son éstas que, aunque parezcan abrazar solamente la teología escolástica, está claro que deben
entenderse también de la filosofía y sus alabanzas. Pues las preclaras dotes que hacen tan temible a los
enemigos de la verdad la teología escolástica, como dice el mismo Pontífice «aquella oportuna y enlazada
coherencia de causas y de cosas entre sí, aquel orden y aquella disposición como la formación de los
soldados en batalla, aquellas claras definiciones y distinciones, aquella firmeza de los argumentos y de las
agudísimas disputas en que se distinguen la luz de las tinieblas, lo verdadero de lo falso, las mentiras de
los herejes envueltas en muchas apariencias y falacias, que como si se les quitase el vestido aparecen
manifiestas y desnudas»[24]; estas excelsas y admirables dotes, decimos, se derivan únicamente del recto
uso de aquella filosofía que los maestros escolásticos, de propósito y con sabio consejo, acostumbraron a
usar frecuentemente aun en las disputas filosóficas. Además, siendo propio y singular de los teólogos
escolásticos el haber unido la ciencia humana y divina entre sí con estrechísimo lazo, la teología, en la que
sobresalieron, no habría obtenido tantos honores y alabanzas de parte de los hombres si hubiesen
empleado una filosofía manca e imperfecta o ligera.

Ahora bien: entre los Doctores escolásticos brilla grandemente Santo Tomás de Aquino, Príncipe y Maestro
de todos, el cual, como advierte Cayetano, «por haber venerado en gran manera los antiguos Doctores
sagrados, obtuvo de algún modo la inteligencia de todos»[25]. Sus doctrinas, como miembros dispersos de
un cuerpo, reunió y congregó en uno Tomás, dispuso con orden admirable, y de tal modo las aumentó con
nuevos principios, que con razón y justicia es tenido por singular apoyo de la Iglesia católica; de dócil y
penetrante ingenio, de memoria fácil y tenaz, de vida integérrima, amador únicamente de la verdad,
riquísimo en la ciencia divina y humana, comparado al sol, animó al mundo con el calor de sus virtudes, y
le iluminó con esplendor. No hay parte de la filosofía que no haya tratado aguda y a la vez sólidamente:
trató de las leyes del raciocinio, de Dios y de las substancias incorpóreas, del hombre y de otras cosas
sensibles, de los actos humanos y de sus principios, de tal modo, que no se echan de menos en él, ni la
abundancia de cuestiones, ni la oportuna disposición de las partes, ni la firmeza de los principios o la
robustez de los argumentos, ni la claridad y propiedad del lenguaje, ni cierta facilidad de explicar las cosas
abstrusas.

Añádese a esto que el Doctor Angélico indagó las conclusiones filosóficas en las razones y principios de las
cosas, los que se extienden muy latamente, y encierran como en su seno las semillas de casi infinitas
verdades, que habían de abrirse con fruto abundantísimo por los maestros posteriores. Habiendo empleado
este método de filosofía, consiguió haber vencido él solo los errores de los tiempos pasados, y haber
suministrado armas invencibles, para refutar los errores que perpetuamente se han de renovar en los siglos
futuros. Además, distinguiendo muy bien la razón de la fe, como es justo, y asociándolas, sin embargo
amigablemente, conservó los derechos de una y otra, proveyó a su dignidad de tal suerte, que la razón
elevada a la mayor altura en alas de Tomás, ya casi no puede levantarse a regiones más sublimes, ni la fe
puede casi esperar de la razón más y más poderosos auxilios que los que hasta aquí ha conseguido por
Tomás.

Por estas razones, hombres doctísimos en las edades pasadas, y dignísimos de alabanza por su saber
teológico y filosófico, buscando con indecible afán los volúmenes inmortales de Tomás, se consagraron a
su angélica sabiduría, no tanto para perfeccionarle en ella, cuanto para ser totalmente por ella sustentados.
Es un hecho constante que casi todos los fundadores y legisladores de las órdenes religiosas mandaron a
sus compañeros estudiar las doctrinas de Santo Tomás, y adherirse a ellas religiosamente, disponiendo que
a nadie fuese lícito impunemente separarse, ni aun en lo más mínimo, de las huellas de tan gran Maestro.
Y dejando a un lado la familia dominicana, que con derecho indisputable se gloria de este su sumo Doctor,
están obligados a esta ley los Benedictinos, los Carmelitas, los Agustinos, los Jesuitas y otras muchas
órdenes sagradas, como los estatutos de cada una nos lo manifiestan.

Y en este lugar, con indecible placer recuerda el alma aquellas celebérrimas Academias y escuelas que en
otro tiempo florecieron en Europa, a saber: la parisiense, la salmanticense, la complutense, la duacense, la
tolosana, la lovaniense, la patavina, la boloniana, la napolitana, la coimbricense y otras muchas. Nadie
ignora que la fama de éstas creció en cierto modo con el tiempo, y que las sentencias que se les pedían
cuando se agitaban gravísimas cuestiones, tenían mucha autoridad entre los sabios. Pues bien, es cosa
fuera de duda que en aquellos grandes emporios del saber humano, como en su reino, dominó como
príncipe Tomás, y que los ánimos de todos, tanto maestros como discípulos, descansaron con admirable
concordia en el magisterio y autoridad del Doctor Angélico.

Pero lo que es más, los Romanos Pontífices nuestros predecesores, honraron la sabiduría de Tomás de
Aquino con singulares elogios y testimonios amplísimos. Pues Clemente VI[26], Nicolás V [27], Benedicto
XIII [28] y otros, atestiguan que la Iglesia universal es ilustrada con su admirable doctrina; San Pío V [29],
confiesa que con la misma doctrina las herejías, confundidas y vencidas, se disipan, y el universo mundo es
libertado cotidianamente; otros, con Clemente XII[30], afirman que de sus doctrinas dimanaron a la Iglesia
católica abundantísimos bienes, y que él mismo debe ser venerado con aquel honor que se da a los Sumos
Doctores de la Iglesia Gregorio, Ambrosio, Agustín y Jerónimo; otros, finalmente, no dudaron en proponer
en las Academias y grandes liceos a Santo Tomás como ejemplar y maestro, a quien debía seguirse con pie
firme. Respecto a lo que parecen muy dignas de recordarse las palabras del B. Urbano V: «Queremos, y
por las presentes os mandamos, que adoptéis la doctrina del bienaventurado Tomás, como verídica y
católica, y procuréis ampliarla con todas vuestras fuerzas»[31]. Renovaron el ejemplo de Urbano en la
Universidad de estudios de Lovaina Inocencio XII[32], y Benedicto XIV[33], en el Colegio Dionisiano de los
Granatenses. Añádase a estos juicios de los Sumos Pontífices, sobre Tomás de Aquino, el testimonio de
Inocencio VI, como complemento: «La doctrina de éste tiene sobre las demás, exceptuada la canónica,
propiedad en las palabras, orden en las materias, verdad en las sentencias, de tal suerte, que nunca a
aquellos que la siguieren se les verá apartarse del camino e la verdad, y siempre será sospechoso de error
el que la impugnare»[34].

También los Concilios Ecuménicos, en los que brilla la flor de la sabiduría escogida en todo el orbe,
procuraron perpetuamente tributar honor singular a Tomás de Aquino. En los Concilios de Lyón, de Viene,
de Florencia y Vaticano, puede decirse que intervino Tomás en las deliberaciones y decretos de los Padres,
y casi fue el presidente, peleando con fuerza ineluctable y faustísimo éxito contra los errores de los
griegos, de los herejes y de los racionalistas. Pero la mayor gloria propia de Tomás, alabanza no
participada nunca por ninguno de los Doctores católicos, consiste en que los Padres tridentinos, para
establecer el orden en el mismo Concilio, quisieron que juntamente con los libros de la Escritura y los
decretos de los Sumos Pontífices se viese sobre el altar la Suma de Tomás de Aquino, a la cual se pidiesen
consejos, razones y oráculos.

Últimamente, también estaba reservada al varón incomparable obtener la palma de conseguir obsequios,
alabanzas, admiración de los mismos adversarios del nombre católico. Pues está averiguado que no
faltaron jefes de las facciones heréticas que confesasen públicamente que, una vez quitada de en medio la
doctrina de Tomás de Aquino, «podían fácilmente entrar en combate con todos los Doctores católicos, y
vencerlos y derrotar la Iglesia»[35]. Vana esperanza, ciertamente, pero testimonio no vano.

Por esto, venerables hermanos, siempre que consideramos la bondad, la fuerza y las excelentes utilidades
de su ciencia filosófica, que tanto amaron nuestros mayores, juzgamos, que se obró temerariamente no
conservando siempre y en todas partes el honor que le es debido; constando especialmente que el uso
continuo, el juicio de grandes hombres, y lo que es más el sufragio de la Iglesia, favorecían a la filosofía
escolástica. Y en lugar de la antigua doctrina presentóse en varias partes cierta nueva especie de filosofía,
de la cual no se recogieron los frutos deseados y saludables que la Iglesia y la misma sociedad civil habían
anhelado. Procurándolo los novadores del siglo XVI, agradó el filosofar sin respeto alguno a la fe, y fue
pedida alternativamente la potestad de escogitar según el gusto y el genio de cualesquiera cosas. Por cuyo
motivo fue ya fácil que se multiplicasen más de lo justo los géneros de filosofía y naciesen sentencias
diversas y contrarias entre sí aun, acerca de las cosas principales en los conocimientos humanos. De la
multitud de las sentencias se pasó frecuentísimamente a las vacilaciones y a las dudas, y desde la lucha,
cuán fácilmente caen en error los entendimientos de los hombres, no hay ninguno que lo ignore.
Dejándose arrastrar los hombres por el ejemplo, el amor a la novedad pareció también invadir en algunas
partes los ánimos de los filósofos católicos, los cuales, desechando el patrimonio de la antigua sabiduría,
quisieron, mas con prudencia ciertamente poco sabia y no sin detrimento de las ciencias, hacer cosas
nuevas, que aumentar y perfeccionar con las nuevas las antiguas. Pues esta múltiple regla de doctrina,
fundándose en la autoridad y arbitrio de cada uno de los maestros, tiene fundamento variable, y por esta
razón no hace a la filosofía firme, estable ni robusta como la antigua, sino fluctuante y movediza, a la cual,
si acaso sucede que se la halla alguna vez insuficiente para sufrir el ímpetu de los enemigos, sépase que la
causa y culpa de esto reside en ella misma. Y al decir esto no condenamos en verdad a aquellos hombres
doctos e ingeniosos que ponen su industria y erudición y las riquezas de los nuevos descubrimientos al
servicio de la filosofía; pues sabemos muy bien que con esto recibe in