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Efésios 2.

5-6 - Pela Graça Sois Salvos


Exposição em Efésios -
Sermão pregado dia 16.09.2012

Por Filipe Luiz C. Machado


"Estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça
sois salvos)" (Ef 2.5).

Na sentença anterior o apóstolo Paulo deixou evidente aos irmãos de Éfeso sobre a grandiosa
misericórdia que habita no Soberano e quão grandes graças Ele possui para todos os Seus filhos,
de modo que todos os eleitos podem descansar às sombras das asas do Filho (Mt 23.37; Lc 13.34)
e os que ainda não foram despertados para a nova natureza, podem achar da água da vida, pois
"aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará
nele uma fonte de água que salte para a vida eterna" (Jo 4.14). Tal ponto foi de muita importância
nesta presente carta, pois uma vez que Paulo havia demonstrado três fatos negativos quanto à
natureza do homem (1. mortos por natureza (2.1); 2. seguindo o rumo deste mundo (2.2); 3. filhos
da ira (2.3)), agora o apóstolo se põem a demonstrar aos irmãos de Éfeso que de fato o Senhor é
excelsamente misericordioso, de modo que nenhum pecado (exceto o cometido contra o Espírito
Santo - Mt 12.32; Mc 3.29; Lc 12.10) é tão grande que não possa ser perdoado pelo Rei e eterno
Salvador.

Não é em vão que a Palavra dispõe inúmeras vezes que os cristãos foram salvos somente pela
graça de Deus e isto se deu justamente no tempo em que ainda estavam mortos em suas ofensas
e pecados - "Estando nós ainda mortos em nossas ofensas". Observemos com grande contrição
de coração que, salvo a regeneração divina por meio do Espírito do Senhor, todos os homens
carecem "da glória de Deus" (Rm 3.23). As Escrituras são enfáticas em deixar-nos registrado que
enquanto estávamos mortos, fomos resgatados; quando não haviam batidas salvíficas em nosso
coração, fomos transformados; quando o sangue já não corria por nossas veias, a transfusão
perfeita do sangue do cordeiro a nós foi feita. Absolutamente em nenhum lugar das santas e
divinas Palavras, encontramos algum dito, narrativa, poesia ou doutrina que nos informe que o
Senhor apenas melhorou nossa situação diante de Sua presença santa e inabalável. Um homem
que não compreende suas misérias diante do senhorio de Cristo, certamente ainda não nasceu
novamente.

O Senhor, através do profeta Ezequiel, com grande propriedade registrou: "E dar-vos-ei um
coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra,
e vos darei um coração de carne.E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos
meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis... Então vos lembrareis dos vossos maus
caminhos, e dos vossos feitos, que não foram bons; e tereis nojo em vós mesmos das vossas iniqüidades
e das vossas abominações" (Ez 36.26-27, 31 - grifo meu). Um homem nascido de novo, jamais olha
para seus feitos pretéritos e contrários ao Senhor, e neles se alegra ou sente uma razoável vontade
de retornar às práticas infernais. Um homem convertido com o santo e limpo sangue de Cristo,
olha para si, percebe suas imaginações, perscruta seu coração e diz: "Tenho nojo de mim mesmo!
Criatura asquerosa que sou eu! Olhe o que o pecado fez em mim! Olhe meus pensamentos,
minhas atitudes e meu desviar constante do Caminho! Miserável homem que sou! (Rm 7.24)"
Por este precioso ensinamento acerca do regenerar de Cristo, é que disse Davi: "Bendize, ó minha
alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma,
ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios" (Sl 103.1-2). Alguém
transformado pelo evangelho da graça é alguém que olha para si e sente grande repulsa, a ponto
de instigar o vômito, mas que também olha para Cristo e n'Ele encontra refúgio, "verdes
pastos [e] águas tranquilas" (Sl 23.2).

Eis, então, a razão para o apóstolo do Senhor registrar: "nos vivificou juntamente com Cristo".
Notemos como o vivificar (dar nova vida) não é alheio a Cristo, mas sim "juntamente com
Cristo". Mas, qual a importância? Ou, que diferença faz? Quer dizer, uma vez que o apóstolo
havia afirmado sobre que é em Cristo que temos nossa adoção (Ef 1.5), qual a implicação desta
afirmação para os cristãos?

Em primeiro lugar, é que todo aquele que está longe de Cristo, não é participante de Seu reino
- "Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha" (Mt 12.30). É preciso
que os professos da fé cristã compreendam que o cristianismo é, neste sentido, uma crença de
extremos: ou se está com Cristo, ou se está afastado d'Ele - e, portanto, se é filho da ira (Ef 2.3).
Não é possível viver divorciado do senhorio de Deus, de Sua soberania e de Sua santidade, e
ainda desejar sustentar uma filiação com Cristo. As Escrituras são explícitas: não existe meio
caminho. Não se é "quase crente" ou "quase mundano" - ou em Cristo, ou nas trevas; ou no céu,
ou no inferno.

Em segundo lugar, os cristãos foram reconciliados em Cristo e por Cristo - "Porque se nós,
sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido
já reconciliados, seremos salvos pela sua vida" (Rm 5.10). Não existe outra forma de reconciliação
na vida cristã, exceto por meio do "Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1.29).
Homens mortos não abrem boca para clamar ou possuem lágrimas para chorar; eles precisam de
vida, necessitam de novo fôlego. Assim como após muitos anos de brutalidade e impiedade sobre
a terra, sobreveio o dilúvio, também assim vêm as águas do Senhor e salvam a alguns em Cristo
e sentenciam outros à perdição e ira de Deus. Contudo, as águas de um dilúvio não somente
exterminam os seres não preparados para o viver nas águas (exceto peixes e outras criaturas
dotadas por Deus para serem anfíbios, bem como outros pequenos seres), mas também
revigoram a terra encharcada de pecado, dando-lhe novos nutrientes, a ponto de Noé sair da arca
e já ter boa terra para lavrar (Gn 9.20). Em Cristo, há reconciliação e novo viver.

Em terceiro lugar, por meio do sacrifício de Cristo, os cristãos possuem paz com Deus - "Tendo
sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo" (Rm 5.1).
Anteriormente, Paulo havia dito que por natureza os homens são "filhos da ira" (Ef 2.3) e por
isso não possuem paz com Deus. Tais homens não podem e não devem se achegar com ousadia
ao santuário do Eterno (Hb 10.19), pois à semelhança do sumo sacerdote que poderia ser punido
instantaneamente com a morte, caso se achegasse impuro diante do Senhor, homens não devem
fazer gracejos para com a Palavra do Senhor e acharem que idas esparsas à igreja ou vez por outra
realizarem alguma "oração", lhes trará paz com Deus. Imaginar que se pode ter paz com o
Soberano e Senhor dos Exércitos, sem passar por Cristo Jesus, é rejeitar o próprio Deus, pois
"Quem me vê a mim vê o Pai" (Jo 14.9)

Em quarto lugar, somente se possui a grandiosa misericórdia do Deus riquíssimo dela, em


Cristo: "Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar
misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno" (Hb 4.16). Todavia,
como pode ser possível que alguém chegue ao trono da graça, ainda mais "com confiança" de
não ser consumido, mas sim de ser bem recebido? Basta volver-nos para o versículo anterior e
lermos: "Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas
fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado" (Hb 4.15). Porque
Cristo "em tudo foi tentado, mas sem pecado" e venceu, e cumpriu toda a Lei, os cristãos podem
se achegar ao trono do Senhor e alcançarem clemência.
Em quinto e último lugar, Cristo é o único caminho para o Pai e, consequentemente, para a
salvação - "Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim" (Jo
14.6). Nem bispos, nem padres, nem sacerdotes, nem apóstolos modernos, nem "homens show",
nem grupos de dança, nem crianças declamando poemas, ou qualquer coisa desta estirpe leva ao
Senhor. Se a verdade vem somente por meio de Cristo, então é Cristo que precisamos ouvir - "De
sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus" (Rm 10.17).

Assim é que Paulo faz o adendo e diz: "(pela graça sois salvos)". Este parêntese não deve ser
entendido como um acréscimo do copista ou que não consta nos "melhores manuscritos", como
comumente lemos em algumas versões bíblicas. Para sermos breves, este parêntese é de fato um
parêntese escrito pelo próprio apóstolo, desejando comunicar que uma vez que os cristãos foram
resgatados enquanto ainda estavam mortos e foram vivificados com Cristo, nada poderia ser mais
óbvio do que afirmar que a salvação é pela graça. Porém, tristemente, se revela que nos terrenos
atuais do que se chama de evangelicalismo, está muito distante de alguns a verdadeira noção do
que vem a ser a graça de Deus.

Afirmar que os cristãos foram vivificados "juntamente com Cristo" e salvos "pela graça" nos leva
a três aplicações:

1. A graça não é de graça

Talvez estranhemos essa declaração, pois parece contradizer tudo o que vimos até agora.
Contudo, devemos recordar que para nós a graça é de graça, mas a graça que chegou até nós, não
veio de graça. Isto implica em dizer que somos receptores de algo que não conquistamos, pois
tal qual o Israel do Antigo Testamento habitou em "terra em que não trabalhastes, e cidades que
não edificastes, e habitais nelas e comeis das vinhas e dos olivais que não plantastes" (Js 24.13),
assim também os cristãos, embora tenham recebido a graça de Deus, apenas para eles é que ela
veio de graça, pois para Deus, custou Seu o Unigênito.

Alguns, porventura, intentarão a muitos a fim de lhes persuadirem de que de fato a graça é de
graça e, portanto, devemos tão somente agradecer ao Senhor. De fato isto é verdade, mas porque
a graça é de graça para nós, não significa que devemos ignorar a grandiosa obra do Senhor em
Seu Filho, afinal, fomos vivificados com Cristo. Como, então, devemos receber e aplicar esta
graça? "Agora, pois, temei ao SENHOR, e servi-o com sinceridade e com verdade; e deitai fora
os deuses aos quais serviram vossos pais além do rio e no Egito, e servi ao SENHOR" (Js 24.14).

É mister que os cristãos proclamem a graça, mas que não se esqueçam de proclamar que junto
com esta graça, é acompanhado a renúncia. A graça nos vem de graça, mas deve nos levar à
renúncia; à abdicação do "eu"; à morte diária do pecado; a mais dizer "não" para o mundo, do
que sim; a guiar nossos relacionamentos sob à luz da Lei de Deus; à buscar um viver santo em
completamente toda e qualquer ocasião, desde o lavar das mãos para a comida até o pregar do
evangelho (1Co 10.31-32). Proclamar a graça é magnificamente importante e esta é a mensagem
da salvação desde os dias subsequentes à queda de Adão e Eva, entretanto, devemos considerar
que a graça que envolve o crente, custou a vida de Cristo e, portanto, "Aquele que diz que está
nele, também deve andar como ele andou" (1Jo 2.6).

Se Cristo, que é por quem somos atraídos ao Pai, viveu de maneira reta e certa diante de Deus,
acaso haveríamos nós por simplesmente embargar no navio da graça e esperar sermos levados à
cidade celestial, como se por aqui pudéssemos viver de maneira displicente e rejeitando o Seu
sacrifício?

2. A graça leva às obras


Novamente, embora soe destoante do que comumente se vê nos arraiais evangélicos, a graça leva
às boas obras em Cristo Jesus. Um homem que professa a fé no Filho de Deus, mas não vive
uma vida de piedade, não chora em contrição pelos pecados cometidos, não anseia ardentemente
pelo Dia do Senhor (tanto o dia propriamente dito, como o dia de Sua vinda), não proclama a
Palavra da verdade - ainda que lhe custe os amigos, emprego e reputação -, não busca lutar contra
o pecado e não se abstém de práticas pecaminosas - desde as maiores até as menores -, certamente
está a um passo de ser tragado pelo Senhor, bastando que resvale o seu pé e chegue o dia de sua
destruição (Dt 32.35).

Tiago enfatiza e nos ensina esta preciosa verdade: "Porque, assim como o corpo sem o espírito
está morto, assim também a fé sem obras é morta" (Tg 2.26). Alguém poderá replicar e afirmar
que Tiago está falando de fé, enquanto o presente versículo de Paulo, fala de graça. A estes, nada
responderemos no momento, pois logo no versículo oitavo do presente capítulo de Efésios se
vislumbrará que a graça é o que nos leva à fé.

É importante que os cristãos compreendam que afirmar estar na graça, mas não ser impelido a
realizar as obras do Espírito, é viver em uma contradição - e como vimos anteriormente, não
pode haver meio termo: ou se está em Cristo e se pratica as obras do evangelho, ou se vive nas
trevas e pratica-se as obras do maligno. Certamente que isto não significa que o verdadeiro cristão
nunca poderá fraquejar ou viver de modo contrário à Palavra, pois se o próprio apóstolo Paulo
queixava-se e lamentava profundamente o pecado que ainda permanecia em seu corpo (Rm 7.24),
que diremos nós?

O cristão é alguém ativo e que porque foi tocado pela graça, é levado a praticar as obras do
Senhor e observar toda a Sua Lei - não devido a por elas ser salvo, mas sim porque, assim como
um filho agradece ao pai terreno por um presente que recebeu e depois procura ser um bom filho
em obediência e bons feitos, de igual maneira o cristão é levado a buscar viver de modo que
glorifique ao Senhor em tudo o que faz (1Co 10.31), mesmo sabendo que constantemente vacilará
- mas, como é crente na graça de Deus, não desfalecerá pela caminho, "Porque Deus é o que
opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade" (Fp 2.13)

3. A graça não elimina os efeitos do pecado aqui na terra

É um erro grosseiro o cristão ser levado a pensar (e até mesmo proclamar) que porque foi
perdoado, não deve sofrer as consequência do pecado e de seus pecados enquanto vive. Se fosse
verdade que a graça elimina toda e qualquer mazela proveniente do pecado, o ladrão da cruz teria
de ser liberto, pois foi salvo por Cristo e teve seus pecados perdoados (Lc 23.43); Davi não
deveria ter sido castigado com a morte de seu filho advindo do adultério, pois posteriormente
orou e pediu a Deus que lhe perdoasse (2Sm 2.13-14; Sl 51); o povo de Israel também foi
castigado, então, várias vezes de modo injusto, pois o Senhor os perdoava constantemente.

A verdade é que no lugar do evangelho da graça, se tem visto muitas vezes a proclamação do
evangelho da desgraça. Sim, não ouso titubear ante esta apostasia generalizada que vemos em
muitas ditas igrejas de "Jesus" e movimentos malignos. Pela misericórdia do Eterno sempre tem
havido o remanescente fiel e que não tem se dobrado diante dos ídolos levantados por homens
(1Rs 19.18), como sucesso, dinheiro, riquezas, fama, prestígio, curas, milagres, livre arbítrio e
toda sorte de patifaria que se tem visto. Todavia, tristes fatos havemos de recordar, pois não são
poucos que elevam suas vozes de falsos profetas e proclamam uma graça que mais traz desgraça
(a falta da genuína graça de Deus), do que a verdadeira graça salvadora.

Que possa o Senhor abundar-nos de graça, mas sempre nos levando em Sua viva palavra, a fim
que não nos esqueçamos de Ele, "pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer"
(Rm 9.18), de modo que não brinquemos por esta terra, e sim vivamos conforme nosso chamado
para a batalha pelo Reino de Deus.