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Coleção Aventuras Grandiosas

Condessa de Ségur

A FORTUNA DE GASPAR

Adaptação de Isabel Vieira

2a edição

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Capítulo 1
Bom de letra, bom de enxada
Gaspar e seu irmão Lucas andavam pela estrada, a caminho da escola. Gaspar,
o mais velho, apressava o caçula:
— Ande mais depressa, Lucas. Vamos perder a hora.
Mas Lucas não estava nem um pouco interessado em estudar.
— Melhor para nós! A escola é tão chata!
— Como você sabe, se nunca esteve lá? — protestou Gaspar.
— É fácil de adivinhar. Ficar preso numa sala por três horas, aprender coisas
difíceis, levar broncas e puxões de orelha não pode ser agradável...
— Só os desobedientes são castigados — explicou Gaspar.
— Saiba que só vou à escola porque papai me obriga — disse Lucas.
Gaspar lançou um olhar de reprovação ao irmão:
— Se não estudar, ficará ignorante. Alguém terá de ler suas cartas.
Lucas sacudiu os ombros, com desprezo:
— Nunca recebi cartas. Se um dia receber, você lerá para mim, Gaspar.
— Grande engano! Eu não estarei mais aqui. Pensa que ficarei para sempre
ao lado de um CAIPIRÃO tolo e ignorante como você?
— Não sou tolo nem ignorante! Sou como papai, gosto de LAVRAR a terra,
plantar, colher, tratar dos animais. É desse jeito que vou ganhar o pão quando eu
crescer.
— Pois eu serei um homem instruído. Hei de inventar máquinas, escrever
livros, comandar operários, viver como um príncipe — disse Gaspar.
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Chegaram à escola. Lucas entrou dando gargalhadas pelo que dissera o


irmão. O professor agarrou o desordeiro por uma orelha e empurrou-o até o
último banco, furioso porque pensou que Lucas estivesse caçoando dele. E ainda
ameaçou colocá-lo de castigo ajoelhado sobre a lenha. Em seguida, mandou
Mateus, um dos melhores alunos, ensinar as vogais aos que ainda não sabiam ler.
As letras já estavam escritas no quadro-negro, em tamanho enorme. Mateus, todo
importante, foi apontando uma por uma:

✒✒ CAIPIRÃO: forma de caçoar do homem do campo; caboclo,


jeca, matuto
✒✒ LAVRAR: tratar, cultivar a terra

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— Esta é A. Repitam comigo: A... Esta é E. Repitam: E...
Todos obedeceram, menos Lucas. Mateus foi se queixar ao mestre, que
estava ocupado com os alunos mais adiantados.
— Lucas não quer aprender. Posso dar-lhe a PALMATÓRIA? — perguntou.
— Melhor colocar nele as orelhas de burro — decidiu o professor.
E quem disse que Lucas deixou colocarem em sua cabeça um boné com
orelhas de burro, para ele parecer o animal? Debateu-se furiosamente, distribuindo
socos e pontapés entre os colegas que ajudavam Mateus.
— Amarrem as mãos dele com uma correia — ordenou o mestre-escola.
Eram oito meninos contra um. Lucas foi vencido. Lágrimas de raiva desciam
de seus olhos enquanto era amarrado num canto da sala, com as orelhas de burro.
No fim da lição, o mestre mandou soltá-lo. Um colega deu-lhe uma cartilha e
mostrou-lhe o A, E, I, O, U. A aula não acabava nunca. Lucas distraiu-se olhando
a cartilha. Por fim, foi capaz de reconhecer as letras. O professor chamou-o ao
quadro-negro e ele acertou todas.
— Parece que o castigo abriu sua inteligência — disse o mestre. — Aqui
nesta escola só há um aluno que nunca precisou ser castigado. É o Gaspar.
Ao meio-dia era o recreio. Os meninos foram ao campo e almoçaram o
lanche que haviam trazido de casa. Lucas dividiu o seu com Henrique, um garoto
pobre. Às duas horas, tocou a sineta. A aula ia recomeçar. Na fila de entrada houve
o maior rebuliço, com empurrões e cotoveladas. O professor gritava e batia com
a vara nos mais rebeldes. Lucas apanhou bastante. No final da tarde, a caminho
de casa, os dois irmãos foram conversando.
— Quero ser como o sr. Féreor. Era um simples operário da fábrica de pregos
e acabou se tornando o dono. É riquíssimo — disse Gaspar, sonhador.
— Rico e infeliz. Só grita com os operários, parece um cão vigiando o gado.
Não descansa nem aos domingos. Ninguém gosta dele — disse Lucas.
A Fortuna de Gaspar

— Ele tem o coração duro, mas eu serei diferente — garantiu Gaspar.


— Apresse o passo, temos de ENFEIXAR A FORRAGEM para o gado.

✒✒ PALMATÓRIA: peça de madeira com furos e um cabo, usada


antigamente para bater na mão das crianças para castigá-las
✒✒ ENFEIXAR A FORRAGEM: fazer feixes com plantas próprias para o
gado comer

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O sr. Tomaz, pai dos garotos, esperava-os com os outros trabalhadores para
terminarem a tarefa. Lucas correu para a roça. Gaspar foi andando bem devagar,
com visível má vontade.
— O professor passou lição de casa. Não posso ajudar no sítio — disse.
— E daí que o mestre-escola passou lição? — berrou o camponês, furioso.
— Sua obrigação é me auxiliar, Gaspar! Vá depressa!
Gaspar foi obrigado a obedecer. Sabia o quanto o pai era bravo. Começou
a empilhar a forragem de qualquer jeito e logo se cansou. Fazia muito calor. Gaspar
abandonou o serviço e foi sentar debaixo de uma árvore, suando em bicas. Lucas,
ao contrário, trabalhava rápido e bem.
— Preguiçoso! — gritou o pai ao filho mais velho. — Ficará sem jantar.
Lucas sentiu pena do irmão e defendeu-o.
— Ele está cansado, estudou muito. Eu faço a parte dele — ofereceu.
Mas o velho Tomaz não aceitou. Gaspar teve de pegar no ANCINHO e voltar
ao trabalho, com tristeza. Enquanto todos riam e cantavam, ele pensava numa
desculpa para dar no dia seguinte e se livrar da enxada.

Capítulo 2
Ofertas de emprego
No outro dia cedo, pai Tomaz foi com Lucas e seus ajudantes cuidar dos
animais e recolher a forragem ao CELEIRO. Antes, recomendou a Gaspar:
— Nada de escola hoje, ouviu bem? Vá ajudar sua mãe na cozinha e trate
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de trazer o almoço para nós na roça ao meio-dia.


— O professor não vai gostar, papai... — protestou Gaspar.
O sr. Tomaz sacudiu os ombros, sem se impressionar.
— Pouco me importa o mestre-escola. Hoje quero meus filhos aqui.
Quando eles se afastaram, Gaspar pensou: “Preciso ao menos avisar o pro-
fessor.” Pegou uns livros e foi até o terreiro onde a mãe batia manteiga.
— O pai não quer que eu vá à escola hoje, mãe. Mas preciso devolver estes
livros que peguei emprestado. Volto logo — explicou.

✒✒ ANCINHO: instrumento usado na lavoura para ajuntar palha ou feno


✒✒ CELEIRO: local onde se guardam provisões; depósito de cereais

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Gaspar sentiu pena de vê-la suando. Sabia que não devia enganá-la, mas
o amor aos estudos foi mais forte. A mãe pensou: “Coitadinho, vai voltar para me
ajudar. Ainda bem, pois meus braços estão cansados.” Mas uma hora se passou
e nada de Gaspar voltar.
Ele havia chegado cedo à escola e explicado a situação ao professor.
— Se seu pai está precisando de você, vai ficar zangado — tinha dito o
mestre, aconselhando-o: — Não seja desobediente. Aprende-se muita coisa nos
livros, mas o respeito aos pais vale mais do que a ciência.
Gaspar, porém, distraiu-se assistindo à aula, tão interessado nas lições que
levou um susto quando viu Lucas chegar, esbaforido, à sua procura.
— Papai me mandou buscar você. Venha correndo, ele está furioso.
— Vá, Gaspar. Tenha paciência com seu pai — disse o professor.
— Você vai levar uma surra. Ele já preparou a vara — contou Lucas.
O pai os esperava na estrada. Agarrou Gaspar pelos cabelos e deu-lhe várias
varadas. A mãe arrancou o filho das unhas do marido e ralhou:
— Pare com isso. Quando você está com raiva, exagera.
— Se ele repetir o que fez, apanha mais! — gritou Tomaz. — Chega de
falatório. Está tudo atrasado por causa desse preguiçoso. Vamos trabalhar.
Gaspar só almoçou naquele dia porque Lucas guardou seu prato sem o
pai saber. Além de defender o irmão, trabalhava pelos dois. À noite, pediu ao sr.
Tomaz que deixasse Gaspar ir à escola. Elogiou-o e insistiu até o pai concordar.
Ele, Lucas, se comprometia a fazer todo o serviço do sítio.
Com esse novo acordo, Gaspar nunca mais faltou às aulas. No final do ano,
a família foi assistir à distribuição de prêmios. Gaspar foi quem recebeu mais
medalhas: por EXCELÊNCIA nos estudos, comportamento e dedicação. Lucas,
que só ia à escola de vez em quando, não ganhou prêmio nenhum.
— Você precisa se esforçar mais — disse-lhe Gaspar.
A Fortuna de Gaspar

— O que sei é suficiente para dirigir nosso sítio — respondeu Lucas.


As famílias do povoado rodeavam Gaspar para dar-lhe os parabéns. Tomaz
ficava ENCABULADO ao ser cumprimentado pela inteligência do filho.
— Eu dou mais valor à ajuda de Lucas do que aos prêmios de Gaspar —
confessou o camponês a um dos vizinhos.

✒✒ EXCELÊNCIA: superioridade; no mais alto grau


✒✒ ENCABULADO: envergonhado, acanhado

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— Não fale assim, homem! — repreendeu-o o amigo. — Veja só os filhos
do compadre Miguel. PROGREDIRAM porque são instruídos.
Enquanto Tomaz conversava com as pessoas, um senhor alto, loiro e ver-
melho aproximou-se de Gaspar. Era o alemão Frölichein, dono de uma bonita
fábrica na região. Perguntou que idade o menino tinha.
— Catorze anos, senhor. Por quê?
— Boa idade para trabalhar. É um ótimo aluno! Onde está seu pai?
Herr Frölichein propôs ao sr. Tomaz que Gaspar fosse trabalhar com ele
como aprendiz de mecânico. Poderia crescer na empresa. Tomaz cortou o assunto,
dizendo que queria os filhos dentro de casa, por enquanto.
— Eu darr posição muito boa para seu filho... — insistiu o alemão.
Tomaz não cedeu. Frölichein implorou ao professor para interceder por ele
junto ao pai do garoto. O mestre já sabia que Gaspar queria muito aceitar a oferta
de emprego. Mas, em tom CONCILIADOR, preferiu dizer:
— O sr. Tomaz está certo, Herr Frölichein. Gaspar é novo demais para tra-
balhar. Quando tiver dezesseis ou dezessete anos, quem sabe...
No dia seguinte, o sr. Tomaz recebeu outra visita: o gerente da fábrica do
sr. Féreor, concorrente do alemão. Adivinhe o que ele queria?!
— O sr. Féreor manda convidar o rapazinho que ganhou todos os prêmios
para trabalhar na fábrica dele — revelou o gerente ao pai de Gaspar.
— Trataremos disso quando ele tiver mais idade — concluiu Tomaz.
Na verdade, o que Tomaz pretendia era tirar proveito da concorrência entre
os dois empresários para conseguir o melhor salário para Gaspar.
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Capítulo 3
O valor da leitura
Dias depois, Gaspar estava deitado debaixo de uma árvore, lendo um
livro, enquanto Lucas brincava. Apesar dos prêmios, o rapaz não se sentia feliz.
Estava aborrecido porque queria logo trabalhar para ficar rico e o pai não deixava.
A AMBIÇÃO azedava-lhe a alma, tornando-o quieto e triste.

✒✒ PROGREDIR: fazer progresso, desenvolver-se


✒✒ CONCILIADOR: pacificador
✒✒ AMBIÇÃO: desejo de riquezas, poder e glória

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Vendo o irmão distraído, Lucas começou a fazer cócegas no nariz dele.
A brincadeira terminou mal: Gaspar pensou que fosse um mosquito e deu um
soco no ar, que acabou acertando Lucas. Arrependido, exclamou:
— Também, quem manda você ficar me AMOLANDO?!
Gaspar voltou ao livro e Lucas foi trançar um cesto na porta de casa, bem
longe dele. Trabalhava com afinco quando Guilherme, filho do vizinho, chegou
trazendo uma carta urgente do pai dele para o senhor Tomaz. Dizia que o pai
pedia uma resposta imediata. Tomaz coçou o queixo:
— Não sou forte de leitura... Lucas, você pode decifrar estes rabiscos?
Lucas revirou o papel várias vezes e acabou confessando que não era capaz
de ler o que estava escrito ali. Tomaz irritou-se:
— O que faz na escola, Lucas? Ainda não aprendeu a ler? Pode ir, Guilherme.
Diga ao seu pai que mais tarde eu respondo.
Tomaz segurava o papel, irritado. Mandou Lucas chamar Gaspar, mas ele
havia sumido. Com medo de levar outra surra por causa do soco que dera no
irmão, Gaspar só apareceu em casa na hora do jantar. Sentiu um frio na espinha
ao ver a fisionomia TRANSTORNADA do pai.
— Onde se meteu, malandro? Você não presta para nada! Quando a gente
precisa, desaparece. Ande, vamos, leia isto aqui.
Gaspar pegou a carta e leu, com voz sufocada:
“Nosso vizinho Carlos ofereceu 250 francos pela vaca Malhada. Se o preço
é bom para você, venha buscá-la agora mesmo. Sei que você quer o animal e lhe
dou a preferência. Mas não posso esperar mais. Se não vier imediatamente, vou
vendê-la ao Carlos. Do seu amigo Jacques.”
Tomaz ficou fora de si. Berrava:
— A vaca Malhada foi vendida! O animal vale 300 francos! Perdi um ótimo
negócio porque não sei ler! E o preguiçoso do Lucas, que vai à aula há um ano e
meio e ainda não aprendeu?
A Fortuna de Gaspar

— Eu falto muito às aulas... — Lucas se justificou, quase chorando.


— Falta por quê? Por que não faz como Gaspar? Felizmente eu tenho um
filho instruído, que não joga meu dinheiro fora! — zangou-se o pai.
A mãe mostrou a Tomaz o quanto estava sendo injusto. Ele é que não deixava
Lucas ir à escola. O menino estava tristíssimo.

✒✒ AMOLAR: aborrecer, chatear.


✒✒ TRANSTORNADA: alterada, perturbada.

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— Cala a boca, mulher! O fato é que perdi a vaca Malhada, um ótimo negó-
cio! Nunca vou perdoar Lucas por isso!
Nos dias seguintes, Tomaz obrigou Lucas a ir à escola. Era uma forma de
reconhecer que estava errado quando fazia o menino ficar no sítio para ajudá-lo.
Lucas, por sua vez, procurava uma ocasião para mostrar ao pai como ele era bom
nos negócios. E a oportunidade não tardou a se apresentar.
— Quer vir comigo comprar uma NOVILHA no Convento dos Frades? —
perguntou Tomaz. — É para substituir a Malhada, que perdi por sua causa.
Lucas acompanhou o pai. Quando viu a novilha, notou que ela nunca seria
uma boa vaca leiteira. “É feia”, pensou. “Só tem de bonito o pelo.” Na volta,
cansados, pai e filho adormeceram numa encruzilhada de onde saíam estradas
para diversas aldeias. Mas nenhum dos dois sabia ler as placas.
— Pegamos o caminho errado — disse Lucas, quando voltaram a andar.
— Qual é o certo, sabichão? — caçoou Tomaz.
Lucas apontou o lado oposto. Tomaz acabou cedendo. Graças a isso, che-
garam em casa sãos e salvos, na hora do jantar. A mãe os esperava com a comida
na mesa. Sentindo que o marido estava mais calmo, disse-lhe poucas e boas,
obrigando-o a pedir desculpas ao filho mais novo pelo que havia dito no outro
dia. Tomaz, rendido, acabou reconhecendo seus erros:
— Lucas, você tem sido um ótimo menino, corajoso, forte, trabalhador
e obediente. Eu é que tenho sido um péssimo pai, um miserável. Meu filho, eu
mereço uma surra. Vá, pegue aquela corda e pode me castigar.
Lucas pensou que o pai tivesse enlouquecido. Boquiaberto, começou a
dar risada. Mas, em vez de fazer o que ele pedia, sugeriu levarem a novilha a uma
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feira que aconteceria na semana seguinte num povoado próximo.


— Não há de se arrepender, papai — disse Lucas, todo misterioso.
E Tomaz não se arrependeu! Lá chegando, Lucas colocou a novilha à venda,
apregoando as qualidades dela. O menino não mentia: o animal era mesmo de
boa PROCEDÊNCIA. Tanto que conseguiu vendê-lo com um lucro de noventa
francos. E a sorte estava do lado deles. Um homem desconhecido veio justamente
oferecer-lhes... a vaca Malhada! Tomaz estava PASMO.
— Não acredito que nosso vizinho já a tenha passado para a frente!

✒✒ NOVILHA: vaca nova, bezerra.


✒✒ PROCEDÊNCIA: origem; lugar de onde vem algo.
✒✒ PASMO: espantado, admirado.

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Lucas, esperto, conseguiu negociar tão bem o animal, que o pai o arrematou
por um valor ainda menor do que o anterior. E ficou felicíssimo. Quando estavam
chegando ao sítio, ele não se conteve e disse ao garoto:
— Meu filho, corra contar à sua mãe que compramos a Malhada. Se não
fosse por você, eu não teria feito este ótimo negócio!

Capítulo 4

Espião do patrão
Depois da história da vaca Malhada, Tomaz deixou cada filho fazer o que
quisesse: Gaspar, estudar; Lucas, trabalhar no campo. Mas exigiu que este também
frequentasse a escola, pois entendeu a necessidade dos estudos na vida dele.
Lucas trabalhava na roça de manhã e, à tarde, assistia às aulas. Gaspar passava o
dia inteiro na escola. Com quinze anos, o rapaz continuava sendo o melhor aluno
e ganhando todos os prêmios.
— Senhorr, que estudos ele fez? — perguntou o alemão Frölichein ao
mestre-escola no final do ano seguinte.
— Muitos — disse o professor. — Aprendeu AGRIMENSURA, as diferentes
medidas, direitos e obrigações dos proprietários, matemática e outras coisas.
— Ótimo, ótimo! Meu jovem amigo há de trabalhar comigo.
O professor relatou a conversa a Gaspar, APREENSIVO.
— Mas você teria de deixar sua casa e morar com o patrão — lamentou.
Gaspar sacudiu os ombros, como se pouco se importasse.
— O que quero é trabalhar logo. O resto pra mim tanto faz.
— Não diga isso! — repreendeu-o o mestre. — Você é estudioso, PONTUAL
A Fortuna de Gaspar

e comportado. Está mais adiantado que os outros, mas não vive contente. Seja mais
tolerante com seus pais, não lhes guarde rancor. Deve respeitá-los e reconhecê-los.
Seja amável com seus colegas. Nossos maiores deveres são o amor e a caridade.
Sem eles, você nunca será feliz, mesmo que fique rico.

✒✒ AGRIMENSURA: arte de medir a superfície dos terrenos.


✒✒ APREENSIVO: preocupado.
✒✒ PONTUAL: cumpridor de horários.

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Frölichein foi falar com o sr. Tomaz. Ofereceu a Gaspar um salário de qui­
nhentos francos depois que ele tivesse aprendido o ofício, em um prazo de dois
anos. A proposta era boa, mas o esperto Tomaz não ficou satisfeito.
— Vou pensar. O sr. Féreor disse que pagará seiscentos. Entregarei meu filho
a quem oferecer maiores vantagens.
Logo o gerente de Féreor bateu à sua porta fazendo a mesma oferta do
alemão: quinhentos francos. Tomaz jogou com a mesma resposta: disse-lhe que
Frölichein havia oferecido seiscentos. Os dois empregadores ficaram desolados;
ambos subiram a proposta, chegando aos seiscentos. E cada um deles ficou
tentando convencer Tomaz, falando mal do concorrente.
— Qual dos dois você prefere, Gaspar? — perguntou o pai.
— Prefiro o sr. Féreor. Ele é francês como nós e conhecido de todos. Além
disso, sua fortuna é muito mais sólida que a do alemão.
No mesmo dia, o sr. Féreor levou Gaspar para conhecer sua fábrica. Horas
depois, mandou um empregado pegar a mala dele. Casa e comida faziam parte
do acordo. Foi tudo tão rápido que Lucas se assustou quando o CONTRAMESTRE
bateu à porta, pedindo a bagagem de Gaspar. A mãe ficou muito zangada com
o marido quando entendeu que o filho não voltaria mais.
— Nem tive tempo de abraçá-lo — choramingou.
— Ele virá visitá-los aos domingos — disse o empregado. — Até mais.
Na fábrica, o sr. Féreor decidiu que Gaspar faria um estágio em todas as
seções para aprender cada serviço. O interesse e a dedicação do garoto o agra-
davam bastante. O sr. Féreor era temido pelos operários. Ninguém se atrevia a
contrariá-lo. Ele mandava os contramestres vigiar os trabalhadores e contar-lhe se
cometiam algum erro. Gaspar logo percebeu isso. Começou a ficar atento a tudo
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o que faziam, de olho em uma futura promoção.


— Gaspar, o Urbano está se comportando bem? — perguntou o patrão.
— Sim, sr. Féreor. Outro dia teve um probleminha com o contramestre
Cristiano. Decerto o senhor soube.
— Não! Cristiano não me contou nada...
— Como não? Será possível? O senhor precisa saber...
Assim, aos poucos, Gaspar foi se tornando um verdadeiro espião do sr.
Féreor. Queria tanto ganhar a confiança dele que não se importava em dedurar os
colegas. Só tinha um pensamento na cabeça: subir de posto na fábrica, mesmo
que tivesse de prejudicar os outros.

✒✒ CONTRAMESTRE: substituto do mestre

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Assim foram correndo as coisas, por dois anos. Cada vez mais, o sr. Féreor
confiava em Gaspar. Mas, sem que ele soubesse, incumbiu dois contramestres
de vigiá-lo também. Os dois espiões nunca tiveram nada para dizer contra ele.
Gaspar era um modelo de competência e obediência, mostrando um devotamento
absoluto pelo patrão.
O sr. Féreor, que todos julgavam duro, egoísta e orgulhoso, começou a
dedicar grande AFEIÇÃO ao jovem Gaspar. Não só estava impressionado com a
inteligência do rapaz. Gaspar ganhou também o seu coração.
— Vou elevar seu salário para três mil francos — comunicou-lhe um dia. —
Daqui para frente, ficará encarregado da oficina de BOBINAS e dará uma supervisão
geral no setor de arames e de latão.
Porém, apesar do prestígio e sucesso, Gaspar não se sentia feliz.

Capítulo 5

Que bela herança!


Enquanto Gaspar avançava no caminho da PROSPERIDADE, o sr. Tomaz,
sua mulher e Lucas continuavam na mesma vidinha, trabalhando no sítio. Gaspar
raramente ia visitá-los. Preferia passar os domingos com o sr. Féreor, em longas
conversas que faziam o patrão gostar ainda mais dele.
Um dia, chegou uma carta TARJADA de negro para o sr. Tomaz. Lucas estava
na roça. Tiveram de esperar ele voltar para saber seu conteúdo.
O menino leu. Era de um NOTÁRIO de Bordéus. Comunicava que uma
prima do sr. Tomaz, que há quarenta anos se casara e mudara para aquela cidade
francesa, havia morrido e deixado uma herança para o primo distante.
A Fortuna de Gaspar

— Então ela não se esqueceu de mim! — exclamou Tomaz, surpreso. —


Sempre fomos bons amigos. De quanto é a herança?

✒✒ AFEIÇÃO: amor, carinho


✒✒ BOBINAS: pequenos cilindros em que são enrolados materiais flexíveis
✒✒ PROSPERIDADE: boa fortuna
✒✒ TARJADA: com a margem contornada por uma listra
✒✒ NOTÁRIO: tabelião

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Lucas continuou a ler. Eram cerca de 200 mil francos, a maior parte em terras
na região de Bordéus. O notário concluía dizendo que o herdeiro deveria ir para
lá o quanto antes, tomar posse dos bens herdados e pagar os impostos. Tomaz
ficou muito aborrecido com tal exigência.
— Não posso ir! Como vou deixar o sítio? O notário precisa resolver o
assunto sem a minha presença.
— Não aja precipitadamente. Vamos consultar Gaspar — disse Lucas.
Era hora do almoço, período em que Gaspar costumava ter algum descanso.
Lucas saiu em disparada até a fábrica com a carta na mão. O irmão ficou surpreso
com a visita inesperada.
— Aconteceu alguma coisa lá em casa? — perguntou.
— Não, está tudo bem. Vim consultá-lo sobre um negócio.
— Não tenho tempo agora — irritou-se Gaspar.
— Que pena! É sobre uma herança de 200 mil francos.
— Herança de duzentos mil francos? De quem? — Gaspar se interessou.
Lucas revelou o conteúdo da carta e a exigência do notário. Gaspar ficou
de estudar o assunto e dar uma resposta no dia seguinte.
— Talvez seja possível poupar papai do aborrecimento da viagem a Bordéus
— ponderou, imaginando um plano.
— Tomara! Papai prefere perder tudo a ir a Bordéus — revelou Lucas.
Gaspar afastou-se correndo. Chegava antes dos outros operários para marcar
quem se atrasasse. Naquela noite, nem dormiu direito, pensando na herança. Pela
manhã, pediu para falar em particular com o sr. Féreor.
— Sei que o senhor é bondoso e inteligente. Preciso de um conselho.
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Assim dizendo, contou-lhe toda a história, acentuando o fato de que o pai


não queria viajar a Bordéus. O sr. Féreor ouvia-o atentamente.
— Fale tudo, meu rapaz. Conte-me seus planos.
Gaspar venceu o medo e abriu o jogo. Ponderou que o pai perderia metade
da herança com taxas e honorários se deixasse o notário cuidar de tudo. E se ele,
Gaspar, propusesse ao sr. Tomaz encarregar-se da BUROCRACIA pelo preço de
cinqüenta mil francos? Restariam 150, que seu pai receberia à vista. Mas com uma
condição: emprestar esse dinheiro a Gaspar.
— Eu o investiria na sua fábrica, sr. Féreor. Teria um rendimento de trinta a
quarenta mil francos por ano. Seria o começo da minha fortuna.

✒✒ BUROCRACIA: formalidades, papelada

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O patrão olhou bem nos olhos de Gaspar, sorriu e concordou.
— Acho um plano excelente. Todos sairão ganhando. Mas... em que prazo
você pagará os 150 mil francos ao seu pai?
— Em quinze dias, senhor.
— E onde arranjará tanto dinheiro?
— Espero que o senhor me faça um empréstimo, tendo como garantia a
herança que eu terei em mãos assim que meu pai a receber.
— E se eu me recusar? — provocou o patrão.
— Pedirei emprestado ao notário de Bordéus.
— Parabéns, Gaspar — abraçou-o o sr. Féreor. — Você pensou em tudo.
Eu lhe emprestarei os 150 mil francos.
— Obrigado! O senhor é meu BENFEITOR! Devo-lhe tudo o que sou!
Mais difícil para Gaspar foi convencer seu pai de que não o estava enga-
nando. Mas, ao saber que não precisaria ir a Bordéus e receberia 150 mil francos
à vista, o sr. Tomaz acabou concordando. Nem as desconfianças que Lucas
demonstrou ao ouvir o plano fizeram o camponês mudar de ideia.
Poucos dias depois, Gaspar, o sr. Féreor e o advogado dele levaram um
longo contrato para Tomaz assinar para garantir a negociação. Ele não entendeu
uma única palavra, mas assinou assim mesmo. Em seguida, o industrial tirou do
bolso um pacote LACRADO e entregou-o ao camponês. O pai de Gaspar contou
150 mil francos. Todos ficaram contentes.

Capítulo 6
Gaspar é adotado
O sr. Féreor estava cada vez mais satisfeito com Gaspar. Pouco tempo depois,
A Fortuna de Gaspar

trouxe-lhe um ajudante, o jovem André, de dezesseis anos.


— Prepare este rapaz para nos auxiliar — recomendou. — É inteligente e
trabalhador. Instale-o no quarto vizinho ao seu para vigiá-lo melhor.
Embora um pouco triste por estar longe da família, André se revelou um
ótimo funcionário, inteligente e atento. Levava jeito para a mecânica. Ao visitar as

✒✒ BENFEITOR: aquele que faz o bem


✒✒ LACRADO: fechado com um selo de chumbo

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oficinas, fez comentários e observações muito PERTINENTES. Quando o sr. Féreor
quis saber como ia o novo estagiário, Gaspar elogiou-o:
— Leva o trabalho a sério. É sentimental e apegado demais à família, mas isso
passa. A propósito, sr. Féreor, acho que devemos mudar alguns procedimentos
na fabricação das bobinas. Elas ficarão melhores.
— Como assim? Fale, estou curioso — interessou-se o patrão.
Gaspar tirou do bolso um papel. Tinha desenhado várias modificações com
base nos comentários e sugestões que André havia feito.
— Foi você quem fez o desenho? — perguntou o sr. Féreor.
— Sim, mas prefiro que o senhor não diga a ninguém que a ideia foi minha.
É bom os operários pensarem que as ideias são sempre do patrão.
O sr. Féreor apreciou as palavras de Gaspar. Por gestos assim é que gostava
cada vez mais dele. Examinou o mecanismo das bobinas e viu que a proposta
era excelente. Decidiu IMPLANTÁ-LA. Tanto Gaspar como Féreor sentiam que sua
amizade se tornava cada vez mais profunda. Isso deixava os dois felizes, pois
ambos estavam cansados de viver com o coração fechado.
Três anos se passaram. Sempre que podia, Gaspar se aproveitava das ideias
inteligentes, porém incompletas, de André. Aperfeiçoadas e adaptadas, passavam
como suas. Assim foi com as folhas de cobre.
— Recebi um pedido estranho de um construtor da minha terra — disse um
dia o estagiário. — Ele sabe que o sr. Féreor fabrica folhas de cobre. Quer que eu
lhe mande algumas como amostra para coberturas.
— Que ideia mais BIZARRA! — espantou-se Gaspar.
— Não seria impossível, derretendo o cobre... — matutou André.
Coleção Aventuras Grandiosas

Motivado por essa frase, Gaspar debruçou-se sobre o assunto e pesquisou-o


profundamente. No fim de dois meses tinha criado uma liga maleável de cobre
e zinco capaz de revolucionar o conceito de telhados. Só depois de pronto
apresentou o projeto ao patrão.
— Adaptei umas ideias antigas do senhor e elaborei este plano — disse.
Féreor ouviu-o, interessado. Quanto melhor entendia o projeto, mais ani-
mado ficava. No fim, expressou toda sua surpresa e admiração:

✒✒ PERTINENTE: oportuno
✒✒ IMPLANTAR: introduzir
✒✒ BIZARRA: excêntrica, esquisita

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— Meu filho, sua descoberta é genial! Eu imaginava que pudéssemos fabricar
uma liga desse tipo, mas nunca com a riqueza de detalhes que você criou. Tomei
uma decisão: vou adotá-lo como filho. Quer ser meu herdeiro, Gaspar? Já tem 25
anos, pode decidir por si só. Basta seus pais concordarem.
Gaspar caiu de joelhos diante do patrão, beijando suas mãos.
— Meu pai! — exclamou, com lágrimas nos olhos. — Hei de ser o mais
dedicado dos filhos! Eu o obedecerei como um SERVO. Não se arrependerá.
— Levante-se, rapaz. Vamos falar com meu advogado hoje mesmo. E agora
vá correndo à sua casa pedir autorização a seus pais.
Gaspar não esperou nova ordem. Em poucos minutos estava no sítio.
Encontrou a mãe na cozinha e explicou-lhe o que pretendia. A boa senhora ficou
tão surpresa que perdeu a fala. Depois de um longo silêncio, explodiu:
— Então está nos RENEGANDO? Quer ser filho de Féreor? Já está rico, não
precisa dos milhões dele. Você é meu filho, eu não permitirei!
O sr. Tomaz chegou da roça nesse instante. Humildemente, Gaspar tentou
mostrar que ser adotado não significava renegá-los. Seria apenas uma maneira de
garantir para si a herança do patrão. O sítio poderia ficar para Lucas. Todos sairiam
ganhando. Magoado, o pai acabou concordando.
— Você já nos abandonou há muito tempo... Que mal há em escolher outro
pai? Vá, meu filho, seja feliz...
A mãe só chorava. O marido perdeu a paciência:
— Acabe logo com isso, mulher! Concorde, vamos!
— Não sairei daqui sem seu consentimento, mãe — murmurou Gaspar.
— Deus te abençoe. Pode ir, meu filho...
Lucas consolou os pais lembrando que ficar rico sempre tinha sido o maior
sonho do irmão. Há oito anos ele trabalhava duro para o sr. Féreor. A adoção o
deixaria feliz e não mudaria em nada sua relação com a família.
A Fortuna de Gaspar

— Coitado do Gaspar! Deve ter saído daqui desapontado.


— Tem razão, Lucas. Vá correndo e diga ao seu irmão que ele nos pegou
de surpresa. Agora que entendemos tudo, estamos contentes por ele.
Os advogados de Féreor prepararam os papéis da adoção. A assinatura seria
comemorada com uma festa. Gaspar e Féreor estavam emocionados. Mas, pouco

✒✒ SERVO: escravo
✒✒ RENEGAR: trair, desprezar

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antes da data, um acontecimento veio perturbá-los. Com o nariz todo empinado,
o alemão Frölichein bateu à porta deles e fez uma proposta:
— Quero que Gaspar se case com minha filha Mina. É uma bela moça!
— Casar-me com sua filha? Que ousadia! Fora daqui, seu miserável!
— Então é assim que me tratam? Quero que Gaspar e Mina se casem, sim
— o tom era o de quem faz uma ameaça. — Se isso não acontecer, vou arruinar
vocês. Eu posso muito bem fabricar a liga de cobre e zinco, sabiam? Um de seus
operários traiu a confiança de vocês e me contou o segredo.

Capítulo 7
A Festa
Preocupadíssimo, o sr. Féreor não sossegou enquanto não descobriu o cul-
pado pela traição. Era um contramestre que havia auxiliado Gaspar nas experiências
químicas. O homem foi demitido, claro. Mas Frölichein já sabia como fabricar o
novo material. O alemão não desistiu da ideia de casar os dois jovens e continuou
com as ameaças nos dias que precederam a festa.
— Convide a cidade inteira para o banquete — recomendou Féreor a
Gaspar. — Nem acredito que, a partir da próxima quarta-feira, você me chamará de
“meu pai” não só pelo coração, mas também pela lei — dizia ele, com a emoção
estampada no rosto.
Para o velho industrial, aquele era o momento mais importante de sua vida: ia
Coleção Aventuras Grandiosas

adotar um herdeiro e inaugurar as oficinas onde seria fabricada a nova liga de metal
que tornaria sua empresa a mais famosa do país. A festa seria dentro da própria
empresa. Os empregados afastaram as máquinas para um canto e enfeitaram o
ambiente com GUIRLANDAS de flores.
O dia da festa, no mês de maio, amanheceu dourado e límpido. Os traba­
lhadores esperavam no jardim. Quando Féreor e Gaspar desceram da carruagem,
foram recebidos com uma SALVA DE ARTILHARIA. O velho exibia uma agilidade
espantosa para seus setenta anos. Colocou-se ao lado do filho e pediu silêncio
aos presentes. Então começou a falar:

✒✒ GUIRLANDA: cordão ornamental feito com flores


✒✒ SALVA DE ARTILHARIA: tiros de canhão

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— Queridos amigos, quero agradecer tantas provas de afeição. E pedir
que transfiram parte da afeição que sentem por mim para este moço aqui ao meu
lado. Hoje ele vai receber a recompensa pelo seu zelo, seu devotamento e sua
inteligência. Apresento-lhes meu filho Gaspar...
Foi assinado o contrato de adoção. Féreor, sempre de braço dado com
Gaspar, caminhou para a igreja, seguido pelo SÉQUITO de operários. Houve uma
missa solene no templo apinhado de gente. Na primeira fila de bancos havia
lugares reservados para Tomaz, a esposa e Lucas. Durante a missa, foi feita uma
coleta para os pobres. Féreor doou mil francos. O padre quase teve um desmaio
diante dessa inesperada generosidade.
Voltaram para a fábrica, onde foi servido um delicioso almoço ao ar livre, nas
mesas espalhadas pelo campo. Depois, foram inauguradas as novas oficinas, com
uma demonstração da fabricação das folhas de cobre e zinco. Todos quiseram
tocar aquelas folhas leves, maleáveis e resistentes.
— Meu filho... minha vitória é a sua vitória — disse Féreor, comovido.
— A maior recompensa para mim é poder chamá-lo “meu pai”.
Tomaz e sua mulher choravam de alegria com os elogios que todos faziam
a Gaspar. Os vizinhos e compadres diziam:
— Compadre Tomaz, fez muito bem de obrigar seu filho a estudar. Se não
fosse pelo estudo, ele não chegaria onde chegou.
Tomaz ficou envergonhado. Bem que se lembrava do passado! Gaspar tinha
até apanhado porque teimava em querer ir à escola...
À noitinha, Féreor deu sinais de cansaço. Despediu-se dos convidados e foi
para casa. Gaspar resolveu fazer-lhe companhia. Recolheram-se cada um a seus
APOSENTOS. Gaspar deitou-se, mas não conseguia dormir. Pensava nos últimos
acontecimentos. Tinha realizado suas ambições de riqueza e de poder, mas sentia
que lhe faltava alguma coisa. “Onde poderei encontrar a felicidade?”, pensava.
Por fim, o cansaço o venceu e ele pegou no sono.
A Fortuna de Gaspar

No dia seguinte, pai e filho deram folga aos empregados, pois estes tinham
passado a noite arrumando a fábrica. Sozinhos no escritório, Féreor e Gaspar
abriram a correspondência. Gaspar pegou uma carta e leu:
“Meu jovem amigo
Minha filha Mina viu-o na festa e gostou do senhor. Mais uma vez proponho

✒✒ SÉQUITO: comitiva, cortejo


✒✒ APOSENTO: cômodo

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que se case com ela. Diga a seu pai que, se ele se opuser, arruinarei sua indústria.
Acho melhor decidirmos tudo por bem. Se o senhor desposar Mina, trabalha­
remos juntos. Responda-me depressa. Remeto-lhe junto uma amostra da folha de
minha fabricação.
Frölichein”
Gaspar calou-se. Féreor examinou a folha e ficou LÍVIDO.
— O desgraçado aperfeiçoou nossa invenção — disse, com amargura. —
Seremos arruinados. O que faremos para reverter essa situação?
Gaspar respondeu, serenamente:
— Ele mesmo nos dá os meios para isso. Casarei com sua filha Mina.
— De jeito nenhum! — protestou Féreor. — Não permitirei que você se
sacrifique! Se ao menos a moça fosse distinta... Ficou maluco?
— Nunca estive com o juízo tão perfeito. O miserável é capaz de tudo.
Tenho o direito de me sacrificar pelos nossos negócios, meu pai...
— Meu amado filho! Como é bom ter você ao meu lado!
Pai e filho resolveram tirar o dia de folga também. Gaspar foi visitar a família,
pois na véspera tivera pouco tempo para estar com Tomaz, a mãe e Lucas. Féreor
foi com ele até o sítio, cumprimentou-os e deixou Gaspar lá.
— Você gosta realmente do velho, parece — reparou o sr. Tomaz.
— Sim, papai. Ele é meu benfeitor. Foi sempre muito bom comigo.
— Fique para almoçar. Faz oito anos que não come aqui — disse a mãe.
— Sim, mamãe. Era isso mesmo que eu pretendia — aceitou o filho.
Passaram uma tarde alegre, conversando e rindo. O sítio prosperava sob os
cuidados de Lucas. Mas Gaspar não se sentia mais parte dali.
— Não tenho inveja de sua vida — confessou Lucas.
Coleção Aventuras Grandiosas

— Nem eu da sua — disse Gaspar. — Saí daqui de tamancos, tímido,


desajeitado e ignorante. Aprendi tanta coisa depois! Hoje sou filho adotivo de
um milionário, dirijo centenas de operários. A fábrica é meu paraíso.
— Sente-se completamente feliz? — perguntou o irmão.
— Completamente, não. Sinto um estranho vazio em minha vida.
À noite, em casa, Gaspar escreveu a seguinte carta ao alemão:
“Sr. Frölichein
Meu pai e eu aceitamos sua proposta. Vou me casar com sua filha. Não pre-
ciso vê-la nem conhecê-la. O senhor ficará sendo nosso sócio em vez de nosso
rival. Graças à generosidade de meu pai, receberei um dote de cinco milhões de

✒✒ LÍVIDO: pálido

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francos pelo casamento. Pode marcar o dia. Esperamos sua visita para regularizar
tudo o mais breve possível. Sem mais,
Gaspar Tomaz Féreor”

Capítulo 8
Enterro & Casamento
Daí a dois dias, Frölichein apareceu na casa de Féreor, todo amável.
— Prezado senhorrr, eu vem...
— Já sabemos por que veio — Féreor cortou-lhe a palavra. — Vamos ser
breves. Meu filho desposará sua filha para evitar uma concorrência perigosa à nossa
indústria. Sua filha ficará morando aqui. No contrato de casamento deve figurar a
promessa de que o senhor jamais fabricará folhas metálicas.
— Oh! Mein Gott!... Meu caro senhor...
— Não me chame de “meu senhor”. Nós não somos amigos. O senhor nos
vende sua filha para ficar nosso sócio. Gaspar é o preço. Eu me encarregarei de
preparar o contrato. Quando poderemos assiná-lo?
— Se seu filho concordar, dentro de quinze dias.
Frölichein já ia indo embora. Voltou-se e perguntou ao noivo:
— Não quer conhecer Mina? Ela é bonita! É parecida comigo.
— Não é necessário — respondeu Gaspar, ríspido. — Serei apresentado a
ela no dia do casamento. Ando ocupadíssimo.
Depois que o alemão saiu, Féreor e Gaspar trocaram ideias sobre onde
Mina iria dormir. O noivo não pretendia dividir o quarto com ela. Sugeriu que
decorassem um dos apartamentos da casa para instalá-la.
— Chame meu tapeceiro em Paris para reformar a suíte — disse Féreor. — E
A Fortuna de Gaspar

depois vá ao sítio pedir o consentimento de seus pais para a união.


Os camponeses reagiram à notícia com PERPLEXIDADE. Nem sabiam que o
filho tinha uma noiva, quanto mais que pretendia casar! Quem era ela?
— É a senhorita Mina Frölichein, filha do alemão — informou Gaspar.
— Quantos anos tem? É bonita?
— Não sei, nunca a vi.

✒✒ PERPLEXIDADE: espanto

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— Que história é essa? Vai se casar com alguém que não conhece?
— Sim, meu pai. É um casamento por interesses comerciais.
— E se ela for feia ou abobalhada?
— Caso-me assim mesmo. Minha vida é a fábrica.
— Quanto Féreor vai lhe pagar pelo casamento? — quis saber Tomaz.
— Cinco milhões de francos, meu pai — respondeu Gaspar.
— Cinco milhões de francos??!!
Tomaz arregalou os olhos e repetiu três vezes a cifra. De repente, caiu numa
cadeira, com as mãos CRISPADAS, os olhos revirados, a TEZ VIOLÁCEA e a cabeça
pendendo para trás. A mulher precipitou-se para ele, desesperada. Pegou uma
bacia com água e molhou-lhe a testa. Mas ele não voltava a si.
— Onde está Lucas, meu Deus? É preciso chamar o médico! Depressa!
Lucas estava na roça. Gaspar saiu à procura do médico e logo voltou,
trazendo-o. O pai continuava na mesma posição. O doutor tomou o pulso do
velho. Não batia mais. AUSCULTOU-lhe o coração e declarou:
— Está morto. Teve uma APOPLEXIA fulminante.
Gaspar ficou arrasado. O pai fora fulminado pela alegria de saber que ele
seria dono de cinco milhões de francos! Lucas entrou em casa correndo e se
precipitou sobre o morto, chorando. A mãe gritava e se lamuriava. Gaspar tentava
inutilmente consolá-los. Por fim, foi à cidade para providenciar o enterro. Antes,
passou na fábrica e comunicou o fato ao senhor Féreor.
— Morto, seu pai?! Mas nem estava doente! — espantou-se ele. — E o
casamento? Frölichein pode achar que o LUTO é um pretexto para desistirmos.
— Nada disso. O luto vai nos ajudar. Por causa do desgosto, podemos
Coleção Aventuras Grandiosas

ser discretos, não fazer festa nem convites. O contrato será assinado na casa de
Frölichein e a cerimônia pode ser à meia-noite, na igreja da aldeia.
— Tanto melhor, meu filho. E agora me diga, sinceramente: você está sentindo
a morte de seu pai?

✒✒ CRISPADA: contraída num espasmo


✒✒ TEZ VIOLÁCEA: pele arroxeada
✒✒ AUSCULTAR: aplicar o ouvido ou o estetoscópio para ouvir os ruídos
do interior do corpo
✒✒ APOPLEXIA: derrame cerebral
✒✒ LUTO: período de tristeza e pesar depois da morte de alguém

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— É doloroso ver um pai morrer, mas o meu nunca foi meu amigo. Sinto
mais pela falta que fará a mamãe e Lucas.
Mas, passado o choque, a viúva e o filho caçula pareciam resignados. Foi a
impressão que teve o sr. Féreor na visita de PÊSAMES que lhes fez.
— Lucas, você e mamãe são os únicos herdeiros de papai — Gaspar os
tranquilizou. — Não quero a minha parte. E também vou lhes dar o lucro que tive
com a venda das terras da prima de Bordéus.
A mãe ficou comovida. Abraçou e beijou Gaspar com gratidão. Na volta
do enterro, Féreor e Gaspar vieram calados. O industrial pensava que sua hora
também não devia estar longe. Refletia sobre sua vida, acusando-se de egoísmo e
dureza. Quanto a Gaspar, pensava na diferença entre seu pai biológico e o adotivo.
O legítimo só tinha lhe dado surras e maus-tratos. O adotivo dera-lhe proteção,
amor, confiança e uma posição magnífica.
Nos dias seguintes, Gaspar procurou pensar o mínimo possível em seu
casamento e mais na amizade que sentia por Féreor. O contrato foi levado pelo
advogado para Frölichein e a filha assinarem. Quiseram saber sobre a noiva; ele
disse apenas que ela era amável e piedosa. Gaspar suspirou:
— Tanto melhor, assim não nos incomodará. Poderá visitar igrejas.
A suíte de Mina tinha ficado bonita e confortável. Na carruagem que os
levava à igreja, pai e filho comentaram:
— Uma estranha vai se meter entre nós — lamentou Gaspar.
— Se nos incomodar, será fácil chamá-la à ordem — disse Féreor.
— De qualquer forma, será desagradável ter uma mulher em casa. Ela há de
querer mandar na nossa governanta, a senhora Bonjean.
— Não seja tão pessimista, filho. Sua noiva só tem dezesseis anos. Você
poderá educá-la a seu gosto.
Gaspar ajudou Féreor a descer. A carruagem da noiva também estava che-
gando. Não tiveram outro jeito senão esperá-la. O alemão desceu antes. Gaspar
A Fortuna de Gaspar

cumprimentou-o e ofereceu o braço a Mina. Seu rosto estava coberto pelo véu.
Mas Gaspar notou os pezinhos delicados e sentiu a mão pequenina tremer ao
apoiar-se em seu braço.
No altar, quando o rosto dela foi descoberto, o noivo teve uma enorme
surpresa: Mina era alta e elegante, com os cabelos dourados e o rosto oval.

✒✒ PÊSAMES: expressão de pesar pelo falecimento de alguém;


condolências.

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Os olhos azuis e meigos estavam nublados de lágrimas. Ela deixou o braço do
pai e inclinou-se diante de Féreor para beijar-lhe a mão. O industrial, tão impres-
sionado quanto Gaspar pela beleza dela, não permitiu.
— Obrigada — disse Mina, num fio de voz. — Tenha pena de mim.
Desculpe-me por forçar minha entrada em sua família.
Em resposta, Féreor deu-lhe dois beijos no rosto. Durante a cerimônia, Mina
não conseguia conter o pranto. Gaspar estava emocionado. Para seu espanto,
quando o padre perguntou: “Aceita esta jovem como sua esposa?”, sua voz saiu
trêmula e comovida: “Sim, aceito”.

Capítulo 9

Anjo em forma de mulher


Terminada a cerimônia, Féreor murmurou no ouvido do filho:
— Ela é encantadora! Pediu-me desculpas. Tive tanta pena!...
— É linda e meiga! Que grande surpresa, pai! — concordou Gaspar.
O sr. Féreor conduziu Mina à carruagem e sentou-se a seu lado. Ela conti­
nuava a chorar. Fizeram o trajeto em silêncio. A consciência de Gaspar começou a
despertar. Sentia que tinha agido com um egoísmo incrível. Nem lhe passara pela
cabeça que a jovem pudesse ter sido sacrificada por um pai ambicioso e sem
coração. O remorso invadiu a alma de Gaspar; sentiu-se CÚMPLICE dessa ação
indigna. Prometeu a si mesmo reparar o mal.
Coleção Aventuras Grandiosas

— Minha filha, está em sua casa — disse Féreor ao chegarem. — Espero


que se sinta bem aqui. Vamos nos esforçar para fazê-la feliz.
Nova onda de lágrimas jorrou dos olhos da menina.
— Não há felicidade possível para mim. O futuro há de ser como o passado.
Só lhe peço uma coisa, meu pai. Aliás, posso chamá-lo assim? Não me separe da
minha criada. É a única criatura que gosta de mim.
Muito comovido, o velho prometeu:
— Fique sossegada, filha. E agora trate de descansar, ouviu?
Ao saber da conversa, Gaspar ficou mais impressionado ainda.

✒✒ CÚMPLICE: aquele que colabora ou toma parte em algum fato

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— Bem que desconfiei que ela não era feliz na companhia do pai.
— Pobrezinha, vá lhe dizer alguma coisa, filho. Seja gentil com ela.
— Dizer o quê, meu pai? Estou tão envergonhado...
— Pergunte se ela está com fome, se quer comer algo antes de dormir.
Gaspar obedeceu. Bateu à porta e a criada atendeu. Mina fez uma expressão
de surpresa ao vê-lo e ficou quieta, tremendo, sem nada dizer.
— Senhorita... Minha senhora... Eu... Vim perguntar...
Seu visível embaraço deu coragem à jovem. Ergueu para ele os olhos lindos
e sorriu, achando graça em sua atrapalhação. Gaspar retribuiu.
— A senhorita está com fome? Vou mandar servir-lhe uma refeição.
— Ela não tem comido nada, chora o tempo todo — disse a criada.
— Não diga isso! — protestou Mina, encabulada.
— Será que lhe inspiro medo? Por favor, senhorita, eu...
— Bem... não o conheço ainda... — gaguejou ela. — Muito obrigada pela
gentileza, aceito fazer uma refeição.
Gaspar dormiu mal naquela noite. No outro dia, bem cedo, já estava em pé.
Pensou que a jovem acordasse tarde, mas teve uma surpresa: ela já tinha descido
as escadas e estava no VESTÍBULO, ajeitando o xale e o chapéu.
— Aonde vai tão cedo, minha senhora?
— À missa — respondeu, com timidez. — Costumo ir todos os dias.
— Aceita que lhe ofereça meu braço e a leve à igreja, então?
Trêmula e confusa, Mina aceitou. Tremia tanto que Gaspar perguntou:
— Acalme-se, por favor... Pensa que pretendo fazê-la infeliz?
— Espero que não — Mina tentou dar à voz um tom natural. — É que...
sinto medo do senhor, sim. Sei o motivo que o obrigou a se casar comigo. Meu
pai mostrou-me suas cartas. Não queria me conhecer...
— Seu pai me disse que era parecidíssima com ele! — riu Gaspar. — Pois
A Fortuna de Gaspar

eu acreditei! Pensei que fosse grandona e deselegante.


O tom brincalhão fez Mina rir também. Foram à missa de braços dados,
como bons amigos. Na volta, o sr. Féreor os esperava para a refeição.
— Ainda está com medo de nós? — brincou o sogro, beijando-a.
— Do senhor, não. Do Gaspar, ainda um pouquinho — disse, BREJEIRA.

✒✒ VESTÍBULO: entrada de uma casa; espaço entre a porta e a escadaria


✒✒ BREJEIRA: travessa, brincalhona

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— Ainda bem que fizemos progressos... — riu Féreor, completando baixinho
para Gaspar: — Essa linda feiticeira vai nos modificar a ambos!
A vida da casa entrou em nova rotina. Mina ocupava os dias lendo, auxiliando
a governanta, indo à igreja e esperando a chegada de Féreor e Gaspar. A presença
feminina à mesa das refeições dava a eles grande prazer.
Dias depois, Gaspar convidou Mina para ir ao sítio conhecer sua mãe e
seu irmão. Ela aceitou, contente. Foram primeiro visitar a fábrica. A jovem estava
ra­diante. A alegria deixava-a ainda mais bela. Gaspar não conseguia desviar os olhos
daquela figurinha fascinante. Olhava-a com uma ternura que nunca se vira em sua
fisionomia, sempre CARRANCUDA. Ao passarem pela oficina onde se fabricavam
as folhas de cobre e zinco, Mina entristeceu.
— Aqui está a causa da sua escravidão, Gaspar — ela disse ao marido.
— É melhor você dizer: “a causa da sua felicidade”. Acredita?
— Só acredito que vocês são bons e tiveram pena de mim.
Foram andando para o sítio. A beleza do caminho não evitou que um certo
desconforto voltasse a se instalar entre eles. A timidez tomou conta de Mina. Gaspar
ficou pensativo. Como fazê-la ver que estava sendo sincero? Afinal, ele quebrou
o gelo contando sobre sua infância e sua família.
— Por que não me avisou que vinham? — a mãe de Gaspar repreendeu o
filho, envergonhada, no meio de uma montanha de roupas para passar.
Mas Mina deixou-a logo à vontade, abraçando-a, chamando-a de mãe e
ajudando-a nas tarefas domésticas. A boa senhora não pôde impedir que a nora
pegasse o ferro de passar e dividisse o trabalho com ela. Lucas também adorou
a cunhada. Conversaram alegremente, como se se conhecessem há vários anos.
Coleção Aventuras Grandiosas

Foi um dia agradável para todos.


Aos poucos, Mina deixou de temer o futuro. O sogro não escondia o quanto
gostava dela. Gaspar a tratava com imenso carinho. E ela nutria por eles os melhores
sentimentos. Os dois homens estavam se transformando para melhor. A amizade
pelo pai adotivo e o amor por Mina davam a Gaspar um grande bem-estar. Féreor
deixou para trás a fama de homem frio, severo e duro. “É que agora temos em casa
um anjo em forma de mulher”, o velho industrial gostava de dizer às pessoas. Para
a felicidade de Mina ser completa, só faltava Gaspar declarar sua paixão por ela
e passarem a viver realmente como marido e mulher.

✒✒ CARRANCUDA: mal-humorada, de semblante carregado

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Capítulo 10

Felizes para sempre


O fato de continuar dormindo sozinha em seu apartamento fazia Mina
pensar que Gaspar não gostava dela. “Ele é gentil comigo, mas deve ser só para
PENITENCIAR-SE da rudeza que teve antes de me conhecer”, refletia. Esses pen-
samentos terminavam em choro. As criadas viam os olhos vermelhos da patroa e
ficavam indignadas. Um dia, foram chamar a governanta, a bondosa sra. Bonjean,
e esta decidiu que era hora de Gaspar saber de tudo.
— Coitadinha! Então ela pensa que não a amo? — surpreendeu-se ele.
Dava-se conta de que, se até aquele momento não havia se declarado, era
por medo de que a esposa não o quisesse tanto quanto ele a queria. Não havia
mais razão para esperar: entrou no quarto de Mina com o coração cheio de alegres
PRESSENTIMENTOS. Parou junto da cama. A jovem dormia, com duas lágrimas
teimosas escorrendo-lhe das pálpebras. Ele se ajoelhou no chão e tomou suas
mãos, emocionado. Ela despertou, sobressaltada.
— Não se assuste! — disse Gaspar, impedindo-a de levantar. — E chega
de tristeza. Você é minha vida, querida. Vou mandar os criados trazerem minhas
coisas para cá hoje mesmo. Ficaremos juntos e felizes para sempre.
— É verdade? Então não hei de chorar mais!
Os dois jovens abraçaram-se e beijaram-se ternamente. Sua felicidade era
tão visível que comoveu as empregadas. Todas choraram de alegria.
— Preciso contar a meu pai que tudo acabou bem — lembrou Gaspar.
Foi e num instante já estava de volta. O velho Féreor, felicíssimo, o mandou
ficar junto da esposa. Já tinham perdido tempo demais. Mina estava auxiliando
as empregadas a arrumar o quarto. Gaspar quis poupá-la do serviço, mas ela fez
questão de continuar, explicando:
A Fortuna de Gaspar

— Estou habituada. Lá em casa eu fazia todo o serviço com a criada.


— Pensei que seu pai fosse muito rico, Mina.
— E era. Mas acho que empregava todo o dinheiro na fábrica. Quando
casamos, ele estava mal de finanças, pensando em fechar a indústria. Além disso,
nunca gostou de mim.

✒✒ PENITENCIAR-SE: arrepender-se, castigar-se.


✒✒ PRESSENTIMENTO: sentimento antecipado, intuição.

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— Por quê?
— Porque sou parecida com minha falecida mãe e porque gosto de doar
dinheiro aos pobres. Pedi-lhe pelo amor de Deus que não me fizesse casar com
um desconhecido, à força...
— Frölichein disse que você me viu na festa da adoção e gostou.
— Mentira, nunca estive nessa festa. Meu único passeio era visitar os pobres
e ir à igreja. Tive muito medo desse casamento, a ponto de resistir ao meu pai,
que me maltratou...
— Ele a maltratou?! — indignou-se Gaspar.
— Sempre foi bruto. Mas dessa vez foi pior. Tive de ceder.
— Querida! Se eu tivesse sabido! De hoje em diante será muito feliz...
Beijaram-se de novo, apaixonadamente. Depois, Mina perguntou:
— Se eu pedir duas coisas, você me dá, Gaspar?
— Quantas quiser. É só dizer.
— Eu quero ter um piano... Gosto muito de música. E também algum dinheiro
para fazer doações aos pobres. Comprar roupa, lenha, pão...
— Só isso? — riu Gaspar, tirando a carteira. — Aqui estão mil francos. E o
piano vou encomendar em Paris amanhã mesmo.
— Que Deus o recompense, meu querido Gaspar!
Mina prosseguiu com a arrumação e ele ficou ali parado, pensando no
quanto tinha sido egoísta e indiferente no passado. “Deus me mandou este anjo
para me ensinar algo que me faltava: a caridade”, pensou.
Mas não foi só o coração de Gaspar que despertou para sentimentos nobres.
No dia seguinte, Mina foi ao quarto do sr. Féreor e decidiu rezar por ele. Sabia que
Coleção Aventuras Grandiosas

o velho era indiferente à religião. Quando o sogro chegou, ficou admiradíssimo


de vê-la ajoelhada ao lado da cama, em fervorosa PRECE.
— Meu pai, vim conhecer o seu quarto e estou rezando pelo senhor — ela
explicou, com simplicidade. — E agora quero que me dê sua bênção.
— Deus a abençoe, como eu a abençôo, minha querida filha! — disse
Féreor, comovido até as lágrimas. — Eu a abençoo do fundo do coração, onde
você conquistou um lugar, ao lado de Gaspar. Muito obrigado, minha filha! Sua
BENÉFICA influência há de despertar em mim o espírito cristão.

✒✒ PRECE: oração
✒✒ BENÉFICA: favorável, que faz bem

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Naquela tarde, pai e filho cometeram várias distrações no escritório. Ambos
tinham o pensamento preso na linda jovem que sabia cumprir tão bem seu papel
de mulher, espiritualizando suas vidas antes tão ÁRIDAS.
O piano chegou, finalmente, acompanhado por uma preciosa coleção de
álbuns de música. Mina ficou radiante. Todas as noites, tocava para o marido e o
sogro, com singular maestria. Gaspar ouvia-a, enlevado.
Pouco depois, uma viagem de negócios inesperada levou pai e filho a Paris
por oito dias. Mina não quis ficar sozinha no casarão. Preferiu instalar-se com a
criada na casa de campo, vizinha da mãe de Gaspar. Na hora em que os dois
homens partiram, ela fez beicinho e ameaçou chorar.
— Oito dias passam depressa, minha querida! — consolou-a Gaspar.
E realmente passaram. Mina aproveitou cada minuto na companhia da sogra
e do cunhado Lucas, que estavam cada vez mais encantados com ela. Também
conversou muito com o pároco e visitou os pobres da aldeia.
— Antes de sua chegada, Madame, nem o sr. Féreor nem Gaspar pensavam
em fazer caridade. Como eles mudaram! — alegrou-se o padre.
— Vamos recuperar o tempo perdido — respondeu Mina. — Não há de
faltar alimento nem roupa para ninguém. Meu marido e meu sogro são muito
generosos. É que pensavam demais nos negócios e não se lembravam da igreja.
E o tempo mostrou que aquela nova família foi abençoada com todas as
graças. Gaspar se tornou cada vez mais PIEDOSO, por influência da esposa. Não
era mais o egoísta que colocava seus próprios interesses acima de tudo. Aprendeu
a reconhecer os operários inteligentes e nunca mais se mostrou duro ou intole­
rante. André foi particularmente premiado com o cargo mais alto da empresa,
logo abaixo dos patrões.
O velho Féreor, por sua vez, se transformou no benfeitor da cidade. Quando
Mina lhe pediu que concedesse aos operários o descanso dominical remunerado,
A Fortuna de Gaspar

ele não fez a menor objeção. Os operários passaram a trabalhar com dedicação
maior e o trabalho rendia mais. Ganharam uma biblioteca de Gaspar. Em pouco
tempo, não havia mais analfabetos na aldeia.
Mina e Gaspar tiveram dois filhos, que se tornaram a maior alegria do vovô
Féreor. Aos 84 anos, o velho parecia mais jovem do que no tempo de sua moci-

✒✒ ÁRIDA: estéril, seca, improdutiva.


✒✒ PIEDOSO: aquele que tem compaixão, devoção.

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dade, tão árida e cheia de lutas egoístas. Lucas também se casou com uma boa
moça do campo e tiveram um menino. Mina pegou o sobrinho no colo, dizendo
que fazia questão de batizá-lo e de dar-lhe o nome.
A sogra ia protestar, pois também queria ser a madrinha da criança, mas
mudou de ideia e concordou, sorrindo:
— Vá lá! Quem é capaz de dizer não a Mina?
— Obrigada, minha querida mãe. Meu afilhado se chamará Jorge.
— Ora essa, pensei que fosse chamá-lo Gaspar — disse Lucas.
Mina sorriu para o cunhado, dizendo:
— Para mim, só existe um Gaspar no mundo.
E Frölichein? Bem, ele sumiu da história porque, logo depois do casamento
da filha, morreu em um acidente em sua fábrica. Felizmente, foi a única vítima. E
não deixou saudades! Mina mandou rezar muitas missas por aquela alma que havia
passado pela vida sem amar a Deus e ao próximo.
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Roteiro de leitura

1) A Fortuna de Gaspar foi escrito e publicado pela primeira vez no século XIX
(1866), quando os hábitos da sociedade eram bem diferentes dos de hoje.
Por exemplo: na escola, a disciplina era rígida; as crianças recebiam castigos
físicos, como varadas e a palmatória. Pesquise na Internet o que era a palma-
tória. Pode ser que algum idoso da família tenha ouvido falar desse tempo e
possa ajudá-lo na pesquisa. Nesse caso, entreviste-o.
2) Discuta com seus colegas: o que acham dos castigos dados às crianças naquela
época? E hoje, funcionariam? Justifiquem a resposta com exemplos. Seus pais
costumam castigá-lo? Como (proibir de sair, cortar mesada)? O que você sente
quando é castigado? Que tipo de castigo teme mais? Você acha a disciplina
da sua escola boa ou ruim? Por quê?
3) O que você pensa sobre um pai que prefere que os filhos trabalhem em vez
de ir à escola, como o pai de Gaspar? Isso ainda acontece em algum país?
E no Brasil? Você acha que a necessidade financeira justifica o abandono da
escola? Que medidas você acha que poderiam ser tomadas para evitar a saída
de estudantes das escolas?
4) No início do capítulo 2, a mãe de Gaspar está batendo manteiga no terreiro.
Você sabe como a manteiga é feita? Pesquise na Internet e pergunte à sua
avó, ou a alguma senhora idosa que você conheça, como eram executadas
as tarefas da cozinha no tempo dela. Em seguida, conte para sua classe o que
mudou de lá para cá.
5) Apesar de apreciar a dedicação de Gaspar aos estudos, o mestre-escola o
aconselha a obedecer ao sr. Tomaz, dizendo: “Aprende-se muita coisa nos
livros, mas o respeito aos pais vale mais do que a ciência.” Você concorda
A Fortuna de Gaspar

com ele ou discorda? Justifique sua resposta.


6) O que você acha do trato feito pelos irmãos de que um iria para a escola e
o outro ficaria no sítio? Com seu irmão ou com seus amigos, você costuma
conversar antes de tomar uma decisão que afete ambos ou o grupo?
7) Com que comportamentos Lucas mostra ao pai seu próprio valor? Procure no
texto e justifique a resposta com exemplos. Você acha que o pai conseguiu
respeitar as diferenças entre os filhos?
8) Que conselho o professor dá a Gaspar quando ele quer ir trabalhar para ficar
rico, aos dezesseis anos? Lembre-se de que o professor julgava que o amor e
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a caridade eram importantes. Procure no texto essa passagem. Você concorda
com o que o mestre fala?
9) O que você acha de Gaspar dedurar os empregados que cometiam faltas
e apropriar-se das ideias de André, aperfeiçoando-as, só para conquistar a
simpatia do patrão? Reúna-se com seu grupo e discuta: o que é ética? Onde
e como ela deve ser aplicada? Faça uma lista de atitudes éticas e outra de
atos antiéticos da vida social (pode ser na escola, na política, no cotidiano).
10) Reflita sobre a frase de Gaspar: “É bom os operários pensarem que todas as
ideias vêm do patrão”. Você concorda ou discorda? Justifique.
11) Na sua opinião, o que era aquele vazio que Gaspar dizia sentir em sua vida,
mesmo nos momentos em que se mostrava vitorioso? Procure no texto as
passagens em que o personagem menciona esse sentimento.
12) Você acha que Gaspar gostava do sr. Féreor? Justifique sua resposta com
exemplos tirados do texto.
13) O que você pensa sobre casar por interesse? Acha que isso acontece hoje
em dia? Na sua opinião, o que é um casamento feliz?
14) Quando Gaspar começou a se modificar? Por quê? Justifique com passagens
tiradas do texto.
15) O que a presença da jovem Mina trouxe às vidas do sr. Féreor e de Gaspar?
Que transformações se operaram neles?
16) Qual o papel que a autora da história acha que a mulher deve ter na família?
Procure no texto essas passagens e reflita: o que mudou a esse respeito da
época em que a história foi escrita até hoje?
Coleção Aventuras Grandiosas

17) Você concorda quando a narradora mostra que a caridade e o amor ao pró-
ximo são essenciais à felicidade de uma pessoa?
18) No último capítulo, Mina consegue que seu sogro, o sr. Féreor, conceda aos
empregados o “descanso dominical remunerado”. Você sabe o que isso signi-
fica? Você sabe o que significa CLT e qual sua importância? Pesquise sobre as
lutas operárias e descubra em que ano e em que condições os trabalhadores
conseguiram o direito de não trabalhar aos domingos. Aproveite e veja outras
conquistas, como número de horas de trabalho diário, restrições a trabalho
infantil etc.

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A FORTUNA DE GASPAR
Condessa de Ségur

Biografia da Autora

A Condessa de Ségur é uma importante autora da literatura francesa voltada


ao público jovem. Ela nasceu em São Petersburgo, na Rússia, em 1799 com o
nome de Sofia Rostopchine, mas seu pai, por motivos de perseguição política,
foi obrigado a deixar a Rússia. A família se mudou para Paris em 1817, quando
Sofia tinha 18 anos.
Na França, em 1819, ela se casou com o conde Eugênio de Ségur. Tiveram
oito filhos e viveram num castelo na região francesa da Normandia. Quando tinha
50 anos, a condessa virou avó. Como suas netas Camille e Madeleine de Malaver
moravam na Inglaterra com os pais, a condessa começou a escrever histórias dedi-
cadas a elas e logo seus contos ganharam fama fora do domínio familiar.
Os personagens da condessa eram baseados em pessoas reais, por isso
se sujavam, riam, choravam, cometiam erros, arrependiam-se e agiam como seres
humanos, ao contrário de outras narrativas infantis em que os personagens eram
perfeitos e pouco humanos.
Seus livros foram originalmente publicados na coleção “Biblioteca Rosa”.
Ela escreveu livros, contos, peças de teatro e trabalhos religiosos para jovens e
crianças e até hoje sua obra ainda é publicada.
Em suas obras se destacam Sofia, a desastrada (Les malheures de Sophie),
de 1864, e As meninas exemplares (Les petits filles modeles), de 1865.
Memórias de um burro (Mémoires d’un âne), de 1860, é dedicado ao
seu neto Henri de Ségur, e alguns de seus netos, como Camille e Madeleine, são
citados na narrativa.
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Ela faleceu em 1874.

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