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Introdução

Quando se fala em mapas, imediatamente se faz associação


à Geografia. É um aspecto eminentemente cultural. Os mapas,
portanto, representariam a Geografia, tudo o que é geográfico.
Tais construtos seriam a própria Geografia, portanto, sinônimos.
Nesse sentido, pode-se verificar que o mapa sempre surge
como representação simbólica da Geografia, o que parece se con-
firmar mais na atualidade. Organizações geográficas, eventos de
Geografia, instituições científicas ligadas à Geografia, até mesmo
empresas que lidam com várias partes do mundo e operadoras
de turismo marcam sua presença mediante tal símbolo nos seus
logotipos. Tudo o que é Geografia, em geral, tem como logotipo
básico um planisfério ou globo terrestre, mesmo que não se reflita
ou discuta nada sobre mapas, nem acerca de seu conteúdo político,
ideológico, temático.
Ademais, a Geografia sempre se confundiu com o mapa. Na
verdade, fazer geografia consistia em fazer mapas. Isso ficou bem
claro antes do final do século xix, antes de a Geografia se esta-
belecer como discurso escolar ou universitário (Lacoste, 1976).
Nos albores de sua existência, o homem gravou em pedra
ou em argila, pintou em pele de animais ou armou em estruturas
diversas o seu lugar, o seu ambiente, suas atividades, seus sen-
timentos e suas percepções. Ao fazer isso não só representava a
prática de suas relações espaciais, em terra ou mar, como também
expunha o conteúdo das relações sociais de sua comunidade (Kish,
1980; Jacob, 1992; Wood, 1992; Thrower, 1996).
Mapas da Geografia e cartografia temática

Os desenhos ou estruturas apresentavam desde então uma


forma original de interpretação acerca de seus territórios ou do-
mínios em mares, sempre servindo para satisfazer necessidades
que foram surgindo nas condições do trabalho humano, para
demarcar vias de comunicação, definir lugares de ação e outros
(Salichtchev, 1979).
Entretanto, a finalidade mais marcante em toda a história dos
mapas, desde o seu início, teria sido a de estarem sempre volta-
dos à prática, principalmente a serviço da dominação, do poder.
Sempre registraram o que mais interessava a uma minoria, fato
este que acabou estimulando o incessante aperfeiçoamento deles.
A apreensão do espaço e a elaboração de estruturas abstra-
tas para representá-lo sempre marcaram a vida dos homens em
sociedade. Este afã constante acompanhou o empenho humano
em satisfazer também necessidades que foram surgindo nas con-
dições de trabalho.
Os mapas, junto a qualquer cultura, sempre foram, são e se-
rão formas de saber socialmente construído; portanto, uma forma
manipulada do saber. São imagens carregadas de julgamentos de
valor. Não há nada de inerte e passivo em seus registros (Harley,
1988, 1991; Jacob, 1992; Wood, 1992; Thrower, 1996).
Como linguagem, conjugam-se com a prática histórica, po-
dendo revelar diferentes visões de mundo. Carregam, outrossim,
um simbolismo que pode estar associado ao conteúdo neles
representado. Constituem um saber que é produto social, fican-
do atrelados ao processo de poder, vinculados ao exercício da
propaganda, da vigilância, detendo influência política sobre a
sociedade (Harley, 1988, 1991; Gould e Bailly, 1995).
Pelo menos para o pensamento ocidental, o grande avanço da
cartografia teria se dado centrado na Europa, estando relacionado
ao Renascimento (séculos xv e xvi), época em que começaram
a surgir relações capitalistas. Com a intensificação do comércio
entre Oriente e Ocidente, o que exigiu o desenvolvimento da
navegação, houve grande ímpeto na confecção de mapas, bem

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Introdução

como a criação de meios para a respectiva orientação, como a


bússola, provinda do extremo oriente. Confirmavam-se os por-
tulanos, mapas para navegar. Foram estabelecidos desde o fim
da Idade Média – porém, agora, muito mais corretos –, tendo
em vez dos atuais paralelos e meridianos uma rede de rosas dos
ventos entrelaçadas.
A invenção da imprensa foi um marco cultural do século
xv que teve grande influência no progresso da cartografia, por-
quanto possibilitou a fácil reprodução de mapas, barateando seu
custo unitário e permitindo maior difusão. Foi possível perceber,
assim, a passagem do mapa-registro, do mapa-memória, para o
mapa-mercadoria. Por outro lado, o fato de reproduzir mapas
por impressão, reduzindo os erros dos copistas, desencadeou
uma marcante revolução nessa atividade. Estabeleceu-se, assim,
a cartografia como ofício, dando-lhe nova definição: exposição
gráfica da informação geográfica (Kish, 1980; Wood, 1992).
Outro importante impulso à cartografia foi dado pelos
grandes descobrimentos (séculos xv e xvi). Os interesses pela
expansão do mercantilismo europeu engendraram enorme revo-
lução espacial. As novas rotas marítimas acabaram por motivar
uma articulação entre as várias partes do mundo de então. Dessa
feita, povos de outros continentes tornaram-se submissos ao modo
de produção da burguesia europeia. Navegantes, colonizadores
e comerciantes exigiam mapas cada vez mais corretos. A busca
crescente por mapas para registrar o mundo inteiro, bem como a
procura de novos tipos de representações para questões específi-
cas, forçou a entrada da cartografia na manufatura, passo decisivo
para que ela integrasse o processo capitalista de produção. Os
mapas confirmaram-se como armas do imperialismo, promovendo
a política colonial.
Em sequência, mais um significativo avanço na cartografia
foi dado no século xviii, com a instituição de academias científi-
cas, marcando o início da ciência cartográfica moderna. Grandes
inovações foram propostas pelo astrônomo francês Cesar-François

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Mapas da Geografia e cartografia temática

Cassini de Thury (1714, 1784), que elaborou a primeira série


sistemática de mapas topográficos para a França (Libault, 1960).
Entretanto, a maior investida relacionada aos mapeamentos,
como apoio aos novos conhecimentos, se deu com o aditamento
do imperialismo, no fim do século xix. Cada potência necessitaria
de um inventário cartográfico preciso para as novas incursões
exploratórias, incorporando, portanto, também essa ciência às
suas investidas espoliativas nas áreas de dominação (Palsky,
1984, 1996).
Contribuíram também para isso o florescimento e sistemati-
zação dos diferentes ramos de estudos operados com a divisão do
trabalho científico no fim do século xviii e início do século xix. Isso
fez com que fosse desenvolvido, mediante acréscimos sucessivos,
outro tipo de cartografia: a cartografia temática, área de estudos
atinentes aos mapas temáticos (Robinson, 1982; Robinson et al.,
1985; Alegre, 1964; Bord e Baudel, 2004).
Atualmente, está-se em plena era da informação. Com a
aplicação de procedimentos automáticos à informação, por meio
de computador, desenvolveu-se a informática.
Na cartografia, a automação introduziu-se pelas fases mais
matemáticas do processo cartográfico, graças ao aparecimento dos
computadores por volta de 1946. As primeiras aplicações foram
feitas aos cálculos astronômicos e geodésicos, ao estabelecimento
das projeções e, mais tarde, aos tratamentos estatísticos de dados.
Mas foi a partir da década de 1960 que se passou a considerar uma
cartografia assistida por computador, a qual se tornou operacional
em todas as etapas da elaboração dos mapas. Na cartografia temá-
tica, em particular, houve grande avanço em função do sensível
progresso da geografia quantitativa, que se iniciara desde a metade
da década de 1950. Os processos computacionais foram almejados
em virtude da crescente necessidade de se trabalhar uma grande
massa de dados, bem como uma boa variedade de parâmetros
específicos para uma análise matemática e estatística consciente,
além do fato de se entrever uma síntese (Joly, 1990; Lacoste, 2007).

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Introdução

No mundo de hoje, com a globalização da tecnologia, tendo


destaque na informática e nas telecomunicações, a cartografia
conta com inúmeras contribuições consistentes para seu efetivo
desenvolvimento.
É patente a ampla difusão de mapas e de possibilidades para
sua elaboração por parte do grande público, mesmo não havendo
um adequado preparo.
Tendo-se decidido por assumir, dentre outras, a postura
da cartografia como linguagem, a proposta deste livro sobre os
mapas da Geografia nasceu da necessidade de se trabalhar, de
forma acurada, com o ramo temático da ciência dos mapas. Assim,
consoante tal imperativo, a laboração dirigiu-se aos alunos dos
cursos de graduação em Geografia, oferecendo-lhes uma base
metodológica consistente capaz de lhes assegurar resultados frutos
de um raciocínio crítico consciente.
O aprendizado e a experiência adquirida com os mestres
Bertin, Bochicchio, Bonin, De Biasi, Gimeno, Libault, Petrone,
e Rimbert levaram a uma reflexão sobre o significado dos mapas
diante do saber geográfico e a respectiva posição deles na estrutura
curricular desse setor do ensino superior.
Assim, este livro destina-se a, além dos estudantes da gradua-
ção em Geografia, licenciatura e bacharelado, também aqueles
do mestrado, doutorado e pós-doutorado, interessados nesta
temática. É também oportuno para graduandos, pós-graduandos,
pesquisadores e profissionais de outros campos científicos, na
medida em que vislumbrarem o mapa temático como um meio
de registro, de pesquisa e de visualização dos resultados obtidos
em seus estudos a caminho do conhecimento da realidade,1 e não
apenas como mera ilustração.
Primeiro, introduz-se o interessado no mundo dos mapas,
mediante uma incursão em um domínio da comunicação visual
e, portanto, social deveras específico, que é o da linguagem dos
mapas, colocando ao leitor os fundamentos da cartografia temá-
tica em bases semiológicas e instruindo-o sobre a organização

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Mapas da Geografia e cartografia temática

dos dados e o preparo da base cartográfica. Depois, passa-se a


tratar a metodologia da cartografia temática preocupada com a
representação da realidade geográfica que se apresenta, tida como
um passo a caminho desse saber.
O conteúdo deste livro está organizado em capítulos; uni-
dades de estudo para as quais se leva em conta um embasamento
metodológico e crítico. Nos últimos capítulos, são retomadas
considerações mais detalhadas sobre paradigmas da cartografia
a serem adiante anunciados e que foram de maior impacto em
tempos mais recentes.
É preciso lembrar, também, que as considerações metodoló-
gicas da cartografia temática são tratadas em base a procedimentos
analógicos, tal como foi sistematizada em seu desenvolvimento
histórico. É evidente que hoje, a multiplicidade de softwares
que se dedicam à cartografia temática proporciona grande apoio,
com soluções ágeis e sofisticadas. Entretanto, é impossível
desvinculá-los de uma boa e acurada avaliação crítica, impra-
ticável de ser levada a efeito sem um consistente embasamento
metodológico.
Considera-se tal empreendimento uma proposta à altura
de esclarecer e encaminhar corretamente o raciocínio de quem
pretende elaborar uma cartografia temática para uma Geografia
atuante. O mapa nunca deverá resultar como uma ilustração de
texto geográfico, mas, ao contrário, deverá comparecer como um
meio capaz de revelar o conteúdo da informação, proporcionando,
dessa feita, a compreensão, a qual norteará os discursos científi-
cos, permitindo ao leitor uma reflexão crítica sobre o assunto e
promovendo o conhecimento.

Nota

Será oportuno colocar esclarecimentos sobre real e realidade. Real é tudo o que existe
1

fora da mente. É aquilo que se toma como real. Realidade é propriedade do que é real.
Cada pessoa vê o real como lhe convém, e chama de realidade tudo o que corresponde
às suas concepções subjetivas (Duarte Júnior, 2004).

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