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Morte aos órgãos sexuais!

Fátima Lima

Morte aos órgãos sexuais!‟é o título da breve fala. Não tinha como

responder

de

outra

forma

ao

inquietante

e

ousado

livro

“Manifesto

Contrassexual” de Paul B. Preciado. Após lê-lo, não posso deixar de

registrar que, tomar o exercício de pensamento de Preciado só como

abstração, não cabe numa obra como essa. O pensamento aqui deve ser

tomado enquanto movimento ou como já nos colocava Gilles Deleuze o

pensamento como a criação constante de possíveis. A obra de Paul B.

Preciado é sobre possíveis.

Não há, nesse sentido, uma ontologia, uma verdade absoluta, um universal

qualquer que expresse as possibilidades de construções contra-sexuais que

o livro nos instiga a pensar. Essa não é uma obra apenas conceitual. É antes

de tudo uma proposta política que toma as linguagens, os discursos, a

escritura (ou o sistema sexo-gênero enquanto escritura), as diferentes

práticas sociais como espaços de reflexões e de apostas de produção de

outras plataformas políticas e micropolíticas que tomem as sexualidades, os

Texto apresentado no lançamento do livro de Paul B. Preciado Manifesto Contrassexualno dia 14 de maio de 2015 na Livraria Blooks/ Rio de Janeiro.

Antropóloga. Doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro/IMS/UERJ. Professora Adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ campus de Macaé. Professora do Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Linguística Aplicada/ PIPGLA/UFRJ. Faz parte do coletivo de pesquisa “Micropolítica do Trabalho e o Cuidado em Saúde”. É autora do livro "Corpos, Gêneros e Sexualidades - políticas de subjetivação".

corpos, os sexos (os designados orgãos genitais e sexuais) e os desejos no

contrapelo dos imperativos cisnormativos; fazendo visíveis e dizíveis uma

multiplicidade de existências que se impõem todos os dias contra o sexual

dominante.

Essa obra - que Preciado chama de Manifesto - e que ousadamente eu diria,

parafraseando

e

ressignificando

uma

obra

do

Antonio

Negri

(2014)

chamada Isto não é um manifesto” – diria, em relação ao livro de Preciado

- “ Isto não é APENAS um manifesto contrassexual.

Explico: Negri

(2014) neste pequeno livro e numa análise crítica da ideia de manifesto

nos diz “os manifestos proporcionam o vislumbre de um mundo por vir e

também dão existência, que, embora hoje seja apenas um espectro deve se

materializar

para

se

tornar

um

agente

da

mudança”.

Tomando

este

contexto, provoco e digo - a multiplicidade que o manifesto contrassexual

clama, chama, interpela não é um espectro, não é um por vir; a multidão

“queer” - expressão esta usada em um texto de Preciado (2011) - já é

(como

dizem

cariocas).

A

multidão

queer

está!

Esses

modos

de

subjetivação ou modos de viver estão aí

nas ruas, nos ônibus, nas praças,

nas heterotopias, aqui nessa livraria

em

todo lugar

microcapilarmente

rizomatizados

nos

tecidos

sociais.

Sujeitos/corpos,

todos

os

dias,

de

manhãs a manhãs

de

segundas a segundas insistem em dizer não a tudo ou

a quase tudo que os assujeitam, principalmente no que se refere as

performatividades

de

gênero

que

se

erigem

contra

a

cisheteronormatividade. Este texto eu dedico a estes corpos

a multidão

queer

e

as

diferentes

apostas

de

singularidades

que

perfazem

essa

multidão. Volto ainda, nesta fala, ao tema da multidão.

Mas também considero que é o exercício de Preciado é um manifesto no

sentido em que clama por um mundo, ainda que presente, um mundo por

vir

não

um mundo no sentido de uma única e grande comunidade igual -

coisa que não acredito e partilho - nem um mundo idílico, livre de poderes

e saberes, livre dos assujeitamentos. Não é nenhum desses mundos que

aposto

nem

penso que Preciado aposta, mas apostamos em mundos onde é

preciso, cada vez mais, dessubjetivaros sujeitos e os corpos, diminuí-los

dos

processos

de

assujeitamentos,

revertê-los,

recontextualizá-los,

principalmente os determinismos de certa biologia que amarram o sexo aos

desejos, as prazeres, as vidas. É preciso produzir outros enunciados, outros

agenciamentos coletivos de enunciações, que incidam, como nos diz

Preciado, sobre as tecnologias de inscrições dos corpos no sistema sexo-

gênero heterocentrado. Isso é muito mais do que o uso da barra entre os

artigos o/a, muito mais que a invenção de um novo pronome ou a criação

de

outras

categorias

que

acabam

por

se

engessar

na

política

das

identidades. Nos diz Preciado: “ o que tem que sacudir são as tecnologias

da escritura do sexo e do gênero, assim como suas instituições. (

)”

é

preciso “ (

)

mudar as posições de enunciações”. Entre possibilidades de

se fazer possível isso, eu provoco, a partir de Preciado: É preciso declarar

morte aos designados órgãos genitais! Ou mais ainda é preciso deslocar os

enunciados que transformaram os designados órgãos genitais em órgãos

sexuais; disciplinarizando, interditando e reduzindo as múltiplas potências

eróticas e erógenas dos corpos.

Não tem como não chamar o Antonin Artaud para esta conversa. Artaud

este francês, grande escritor, teatrólogo, roteirista, poeta, entre tantos

Artauds que escolheram chamar de louco. É famoso o texto e a transmissão

radiofônica feita por Artaud em 1947 com ajuda de amigos e amigas

chamada “para acabar com o juízo de deus”. Nesta transmissão inquietante,

cercada de gritos e ruídos, conclama Artaud: porque atem-me se quiserem,

mas não há nada mais inútil que um órgão”. Esta frase, entre tantas

desterritorializações nesta transmissão; Deleuze e Guattari recuperaram

num brilhante texto no Mil Platôs volume 3 chamado “ 28 de novembro de

1947 - Como criar para si um corpo sem órgãos” na ideia do CsO ou o “

corpo sem órgãos”. Sobre a obra do Artaud “Para acabar com o juízo de

deus” nos diz Deleuze e Guattari: “é uma experimentação não somente

radiofônica,

mas

biológica,

política,

atraindo

sobre

si

censura

e

repressão.Corpus e Socius, política e experimentação”. “Diria, assim, que o

Manifesto Contrassexual não é uma experimentação somente de escrever

um

livro,

mas

biológica,

política,

atraindo

para

si

censura

e

repressão”

ainda

que tenham se passado 68 anos da intensa e polêmica

transmissão radiofônica do Antonin Artaud. Aqui Artaud e Preciado

conversam muito. Ainda volto ao Antonin, nosso Artaud no final deste

texto.

Finalmente quem é Preciado? A professora e pesquisadora Tânia Navarro

publicou, certa vez, um texto chamado Quem tem medo de Michel

Foucault”. Nele, a autora, trazia para o campo do(s) feminismo(s), as

contribuições construídas no pensamento do autor e que possibilitava

produzir

conexões

com

as

discussões

presentes

no

feminismo,

principalmente para pensar sobre quem eram ou quem são “o ou os

sujeito/os do/s feminismo/s”. Tomo emprestado a provocação de Tânia

Navarro para pensar a obra de Preciado e, principalmente como suas ideias,

na maioria das vezes, provocativas, não passam de forma lisa nem pelo

campo dos estudos feministas e dos estudos de gênero e sexualidades em

diferentes

contextos acadêmicos brasileiros bem como

nos diferentes

movimentos sociais que tem tomado os corpos e suas assimetrias como

plataforma de luta política.

Paul B. Preciado. Já foi Beatriz, Beto, agora Paul

,

agora Paul B. Preciado,

mas

isso

pouco

importa

ou

isso

muito

importa

quando

o

ato

de

autonomear-se é antes de tudo um ato político que rasga as práticas

discursivas,

os

enunciados,

ou

seja,

uma

mudança

nas

posições

de

enunciações, um exercício de dessubjetivação, a retirada da força de

subjetivação/sujeição que conferiu aquele corpo uma certa genitália, que

disse que seria mulher, que se chamaria Beatriz e que teria que reforçar e

fazer valer o contínuo sexo- gênero-desejo.

Preciado nasceu em Burgos na Espanha em 1970 antes dos últimos cinco

anos que marcaram o final da ditadura franquista em 1975. No entanto, as

ressonâncias do período franquista são sentidas e vividas por Preciado,

transformando-se

em

férteis

materiais

de

suas

formulações

enquanto

intelectual. Estudou com Jacques Derrida em New York (Filosofia e Teoria

de Gênero na New School) e, posteriormente fez o doutorado em Teoria da

Arquitetura em Princeton. Tem três livros publicados “Manifiesto Contra-

sexual” (2002) - o primeiro livro a ser traduzido para o português, “Testo

Yonki”(2008), e “Pornotopía” (2010). Atualmente, estava na Universidade

Paris VIII, mas mantém/mantinha um curso permanente no Museu Reina

Sofia em Madrid onde coordena o Programa de Estudos Independentes -

PEI e também no Museu de Arte Contemporânea de Barcelona - MACBa.

Além disso, tem vários textos avulsos como “Multidão queer - notas para

uma política dos anormais”, “ Quem defende a criança queer”, “ Declarar a

greve

aos

úteros”,

e

agora

recentemente

o

não

menos

polêmico

Feminismo amnésico”, este último inquirindo o movimento feminista

quando pergunta “onde estão hoje as novas feministas ? (

)Precisamos de

um feminismo livre da tirania da política de identidade e aberto a alianças

com

os

novos

sujeitos

que

resistem

à

normalização

e

exclusão,

os

afeminados da história; os cidadãos de segunda classe, os/as apátridas ”.

O “Manifiesto Contrassexual”, como o próprio nome já diz constitui um

interessante e potente artefato ou uma máquina de guerra - no sentido em

que a toma Deleuze e Guattari - contra o sexual hegemônico e natural. É

uma obra nômade

Uma ciência nômade

Uma

ciência ambulante

de

experimentação

Decididamente

o “ Manifesto Contra-sexual” não elenca,

na minha opinião, o conjunto das obras na legitimada ciência régia do

Estado.

Nesta obra, Preciado propõe práticas de reprogramação de gênero ou de

inversão contra-sexual onde os dildos (conhecido no senso comum como

vibradores de plásticos ou formato de pênis feitos de borrachas), são

tomados mais do que a mera definição mimética do pênis. Preciado inverte

a lógica de que os dildos seriam próteses imitativas do pênis ou do falo,

deslocando o lugar simbólico do imperativo sexual. Utilizando a ideia de

“suplementar” em Jacques Derrida, o dildo seria “o suplemento que produz

aquilo que supostamente deve complementar” e declara que “ desde o

princípio tudo era o dildo” onde “ (

)

um dildo não é um pau/ pênis, de

plástico, mas em que pese as aparências, um pau/pênis é um dildo de

carne” ( Preciado,2010,p.18). Assim, a ideia ou o binarismo original e

cópia somem

apagam-se

e se tornam irrelevantes.

Os dildos podem ser nesse sentido o próprio corpo, qualquer parte dele, pé,

mão,

joelho,

cotovelo,

tornozelo,

pode

ser

acoplado

ao

corpo

dito

biológico, a qualquer parte dele ou a qualquer artefato onde através de

diversos

exercícios,

práticas,

ressignificações

somos

capazes

de

reprogramar o corpo construindo uma possibilidade simétrica (ou como

coloca Preciado equivalente) e não uma igualdade de gênero. Assim, o

Manifesto Contrassexual declara morte ao pau, ao pênis, a vagina, a buceta.

Como nos diz Preciado: “os órgãos sexuais como tais conhecemos não

existem. Os órgãos, que reconhecemos como naturalmente sexual, são o

produto de uma tecnologia sofisticada que prescrevem o contexto em que

os órgãos adquirem sua significações (relações sexuais) e se utilizam com

propriedade, de acordo a sua „natureza‟ (relações heterossexuais).” Assim,

essas tecnologias atuam privatizando os corpos ou certas partes dos corpos,

assinalando interdições, entre estas o ânus, colocando-o fora do campo

social

do

sexo,

das

sexualidades,

dos

desejos,

dos

erotismos,

das

erogenidades. Num diálogo, mais uma vez, com Deleuze e Guattari,

Preciado

traz

evoca

a

desterritorialização

dos

ânus

e

suas

reterritorializações no campo da política dos desejos e prazeres onde “ pelo

ânus o sistema tradicional da representação sexo/gênero se caga”

Esse é o

Paul

B.

Preciado. Este

sexo/gênero.

é

o

Manifesto

É

preciso

cagar o sistema

Caminhando para o arredondamento das questões que trago para o debate,

volto novamente o tema da multidão. Por “multidões queer” entendo todo

um processo de desterritorialização da heterossexualidade, enquanto um

regime

de

verdade

que

opera

como

norma

compulsória.

Uma

desterritorialização que afeta tanto o espaço urbano (

)

quanto o espaço

corporal. Esse processo de "desterritorialização" do corpo obriga a resistir

aos processos do tornar-se "normal". Que existam tecnologias precisas de

produção dos corpos "normais" ou de normalização dos gêneros não resulta

um

determinismo

nem

uma

impossibilidade

de

ação

política.

Pelo

contrário, porque porta em si mesma, como fracasso ou resíduo, a história

das tecnologias de normalização dos corpos, a multidão queer tem também

a possibilidade de intervir nos dispositivos biotecnológicos de produção de

subjetividade sexual” (Preciado, 2011, p.14).

O corpo da multidão “queer” aparece como uma aposta política e ética na

diferença em si, no performativo, no gendrado, onde não há em si um corpo

queer, mas“ uma performatividade comum da carne queer” (Negri &

Hardt,2005, p.260). E o que seria a “carne social” desse comum? Negri &

Hardt (2005), tomando as discussões de Maurice Merleau-Ponty sobre a

noção

da

“carne”

não

sendo

esta

nem

matéria,

nem

mente

e

nem

substância, trazem a carne da multidão como “puro potencial, uma força

informe de vida e neste sentido, um elemento do ser social constantemente

voltado para a plenitude da vida (

)”

onde” “do ponto de vista da ordem do

controle político (

)

a carne elementar da multidão é desesperadoramente

fugidia, pois não pode ser inteira enfeixada nos órgãos hierárquicos de um

corpo político. A carne social viva que não é um corpo pode facilmente

parecer monstruosa” (Negri, 2005, p 251). O livro de Preciado traz as

monstruosidades para o centro do debate político, as potencializa e nos

chama a tomada de posições micropolíticas a partir das profanações das

escrituras legitimadas.

Para realmente fechar a minha fala e abrir o debate, volto mais uma vez ao

Antonin Artaud no singular “para acabar com o juízo de Deus” quando

provocativamente diz: “ O homem está doente porque é mal construído. É

preciso

decidirmos

pô-lo

nu,

para

lhe

raspar

o

animal

que

o

coça

mortalmente Deus e seus órgãos. Sim, seus órgãos. Então, diga-me se

quiser, não há um algo mais inútil que um órgão”. Mais adiante na mesma

composição reverbera: “o homem, quando não é contido, é um animal

erótico.” Declarar morte aos órgãos sexuais ou ao que foi colonizado e

designado como órgãos sexuais é fazer saltar o animal erótico em nós. O

Manifesto Contrassexual é uma convocação a isso. Obrigada.

Referências

DELEUZE, Gilles e FÉLIX, Guattari. Introdução: Rizoma. Mil Platôs Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

HARDT, M & NEGRI, A. Multidão. Rio de Janeiro, Record, 1995.

PRECIADO, Beatriz. Multidões queer: notas para uma política dos "anormais". Rev.

Estud. Fem., Florianópolis, v. 19, n. 1, Apr. 2011