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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS

Escola de Formação de Professores e Humanidades


Língua Portuguesa I

DISCIPLINA: Língua Portuguesa I DATA:

PROFESSORA: Sara de Castro Cândido TURMA: VALOR:

ESTUDANTE NOTA:

Linguagem e Cultura MATRÍCULA:

➢ Objetivos da atividade: refletir sobre os conceitos de Cultura e Linguagem; compreender como esses dois elementos
são constitutivos da sociedade.

Leia o texto abaixo.

As meninas-lobo

Na Índia, onde os casos de meninos-lobo foram relativamente numerosos, descobriram-se em 1920, duas
crianças, Amala e Kamala, vivendo no meio de uma família de lobos. A primeira tinha um ano e meio e veio a morrer
um ano mais tarde. Kamala, de oito anos de idade, viveu até 1929. Não tinham nada de humano e seu comportamento
era exatamente semelhante àquele de seus irmãos lobos.
Elas caminhavam de quatro, apoiando-se sobre os joelhos e cotovelos para os pequenos trajetos e sobre as mãos
e os pés para os trajetos longos e rápidos. Eram incapazes de permanecer em pé. Só se alimentavam de carne crua ou
podre. Comiam e bebiam como os animais, lançando a cabeça para a frente e lambendo os líquidos. Na instituição onde
foram recolhidas, passavam o dia acabrunhadas e prostradas numa sombra. Eram ativas e ruidosas durante a noite,
procurando fugir e uivando como lobos. Nunca choravam ou riam.
Kamala viveu oito anos na instituição que a acolheu, humanizando-se lentamente. Necessitou de seis anos para
aprender a andar e, pouco antes de morrer, tinha um vocabulário de apenas cinquenta palavras. Atitudes afetivas foram
aparecendo aos poucos. Chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se apegou lentamente às pessoas
que cuidaram dela bem como às outra com as quais conviveu. Sua inteligência permitiu-lhe comunicar-se por gestos,
inicialmente, e depois por palavras de um vocabulário rudimentar, aprendendo a executar ordens simples.

ARANHA, Maria Lucia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à Filosofia. São Paulo, 1993

O relato acima é verídico e nos leva à discussão a respeito das diferenças entre o ser humano e o animal. Nesse sentido,
vamos refletir sobre elas, apoiando-nos nas questões que seguem.

1. De acordo com o texto, as meninas “Não tinham nada de humano e seu comportamento era exatamente semelhante
àquele de seus irmãos lobos”. Que comportamentos podemos identificar como humanos?
2. No terceiro parágrafo, as autoras utilizam a expressão “humanizando-se”. O que ela pode significar nesse contexto?
3. Animais possuem inteligência? Se sim, essa inteligência seria equiparada à humana?

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Agora, leia este texto, de dois renomados filósofos.

O Homem e o Animal
O mundo do animal é um mundo sem conceito. Nele nenhuma palavra existe para fixar o idêntico no fluxo dos
fenômenos, a mesma espécie na variação dos exemplos, a mesma coisa na diversidade das situações. Mesmo que a
recognição seja possível, a identificação está limitada ao que foi predeterminado de maneira vital. No fluxo, nada se
acha que se possa determinar como permanente e, no entanto, tudo permanece idêntico, porque não há nenhum saber
sólido acerca do passado e nenhum olhar claro mirando o futuro. O animal responde ao nome e não tem um eu, está
fechado em si mesmo e, no entanto, abandonado; a cada momento surge uma nova compulsão, nenhuma ideia a
transcende. (…) A transformação das pessoas em animais como castigo é um tema constante dos contos infantis de
todas as nações. Estar encantado no corpo de um animal equivale a uma condenação. Para as crianças e os diferentes
povos, a ideia de semelhantes metamorfoses é imediatamente compreensível e familiar. Também a crença na
transmigração das almas, nas mais antigas culturas, considera a figura animal como um castigo e um tormento.
A muda ferocidade no olhar do tigre dá testemunho do mesmo horror que as pessoas receavam nessa transformação.
Todo animal recorda uma desgraça infinita ocorrida em tempos primitivos. O conto infantil exprime o pressentimento
das pessoas.
Th. Adorno e M. Horkheimer, Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985, p. 230-231.

Agora, com o seu (sua) colega, debata as questões abaixo. Anote palavras-chave para recuperar as informações no
momento da discussão coletiva.

1. Explique o que significa: “O mundo do animal é um mundo sem conceito.”.


2. Como os autores relacionam tempo e linguagem?
3. Qual é o significado das histórias que relatam as transformações de seres humanos em animais? Você se lembra de
alguma delas? Cite e tente analisá-la.

Para reflexão.

Já foi o tempo em que se admitia existirem sistemas culturais lógicos e sistemas culturais pré-lógicos. Levy
Bruhl, em seu livro A mentalidade primitiva, admitia mesmo que a humanidade podia ser dividida entre aqueles que
possuíam um pensamento lógico e os que estavam numa fase pré-lógica. Tal afirmação não encontrou, por parte dos
pesquisadores de campo, qualquer confirmação empírica. Todo sistema cultural tem a sua própria lógica e não passa
de um ato primário de etnocentrismo tentar transferir a lógica de um sistema para outro. Infelizmente, a
tendência mais comum é de considerar lógico apenas o próprio sistema e atribuir aos demais um alto grau de
irracionalismo.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 87.