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DARYANNE CALDAS SIQUEIRA DE SOUSA

ANÁLISE DA EFETIVIDADE DAS AÇÕES CIVIS PÚBLICAS NA


DEFESA DOS PATRIMÔNIOS HISTÓRICOS

SÃO LUÍS-MA
2019
DARYANNE CALDAS SIQUEIRA DE SOUSA

ANÁLISE DA EFETIVIDADE DAS AÇÕES CIVIS PÚBLICAS NA


DEFESA DOS PATRIMÔNIOS HISTÓRICOS

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


à Faculdade Pitágoras, como requisito parcial
para a obtenção do título de graduado em
direito.

Orientador: Andresa Bertão

São Luís
2019
DARYANNE CALDAS SIQUEIRA DE SOUSA

ANÁLISE DA EFETIVIDADE DAS AÇÕES CIVIS PÚBLICAS NA


DEFESA DOS PATRIMÔNIOS HISTÓRICOS

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


à Faculdade Pitágoras, como requisito parcial
para a obtenção do título de graduado em
direito.

BANCA EXAMINADORA

Prof(a). Titulação Nome do Professor(a)

Prof(a). Titulação Nome do Professor(a)

Prof(a). Titulação Nome do Professor(a)

São Luís, dia de mês de 2019


Dedico este trabalho primeiramente a
Deus, minha fonte de perseverança e
sabedoria tanto nos dias de calmaria
quanto nos dias de tempestade.

Dedico também a minha família, amigos,


professores e a todos aqueles que de
algum modo contribuíram para a
realização desse sonho, em especial a
minhã avó Aracy que hoje está na morada
eterna do Senhor.
AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus, pois se hoje regozijo-me em superar todas as


adversidades que testam minha perseverança, foi a mão dele que traçou o meu
caminho e transformou a minha vida em uma história de luta e superação diária.
Agradeço também a minha Família por sempre acreditar e investir em mim,
em especial, minha Mãe Paula, meu pai Batista, Minhas irmãs Dayse e Daniela,
minha madrinha Heloína, minha avó Hildete e meus avos que agora habitam a
morada eterna do senhor Djacir e Aracy.
Aos meus queridos amigos, em especial aqueles que me deram força e
coragem para continuar lutando mesmo com todas as adversidades, em especial
aos colegas de turma Cindy, Anderson, Mônica, Valdenice e Gabi. Além desses, ao
Ricardo e a Carol que foram fundamentais no meu processo de formação.
Aos ilustres mestres que passaram pela instituição, Professores Ivo Júnior,
Paulo de Jesus, Caroline Loise, Antônio Carlos, Salomão, Ivaldo, Willigton, Pablo
Bonfim, Taina Abrantes, Rosinaldo, Romeu, Alan, Thales de Andrade, Robson
Mourão, Josanne e Mayane por todos os ensinamentos durante os anos de
graduação.
A toda família do Ana Brandão Advogados, Dra. Ana Brandão, Dr. Thales,
Dra. Teresa, Dr. Bruno, Dr. Carlos Eduardo, Dr. Renê, Dr. Jailson, Dr. Silas, Sabrina
e Luís, por terem se tornado minha segunda família e acrescentarem na minha vida
todo o conhecimento necessário para que eu me torne uma profissional de
excelência.
Enfim, a todos que de alguma forma estiveram próximos de mim, atuando
direta ou indiretamente, fazendo parte da minha vida durante esses anos.
Não vos aconselho o trabalho, mas a luta. Não vos
aconselho a paz, mas a vitória! Seja o vosso trabalho
uma luta! Seja vossa paz uma vitória.

(Friedrich Nietzsche)
SOUSA, Daryanne Caldas Siqueira. Análise da efetividade das ações civis
públicas na defesa dos Patrimônios Históricos. 2019. p.61. Trabalho de
Conclusão de Curso (Graduação em Direito) – Faculdade Pitágoras, São Luís, 2019.

RESUMO

Este trabalho visa analisar a efetividade da defesa dos direitos difusos e coletivos na
preservação de Patrimônios Históricos, e de que forma a Constituição Federal,
Tratados Internacionais, Leis Estaduais e Municipais têm sido aplicadas na
preservação desses patrimônios. O objetivo geral do trabalho será analisar o
impacto da ineficácia da aplicação de leis voltadas para a proteção ou restauração
desses patrimônios. Por conseguinte, o trabalho visa também, indicar quais leis
foram criadas visando proteger ou restaurar Patrimônios Históricos; investigar o
papel das ações civis públicas na proteção ou restauração desse Patrimônios e se a
aplicação da lei por meio destas tem ocorrido de forma efetiva. Além disso, tem
como propósito verificar as possíveis falhas na aplicação dessas leis e um suposto
desinteresse do poder público em torná-las mais efetivas além de abordar qual tem
sido o papel do Iphan na defesa desses Patrimônios Históricos. A metodologia
utilizada foi uma abordagem descritiva pois buscou realizar um estudo detalhado do
tema com levantamento de informações através de técnicas de coleta e exploratória,
consistindo em uma pesquisa que oferece informações e orienta a formulação da
hipótese do estudo

Palavras-chave: Patrimônios Históricos; Direitos Difusos; Ações Civis Públicas;


Iphan.
SOUSA, Daryanne Caldas Siqueira. Analysis of the effectiveness of public civil
actions in defense of Historical Heritage. 2019. p.61. Trabalho de Conclusão de
Curso (Graduação em Direito) – Faculdade Pitágoras, São Luís, 2019.

ABSTRACT

This work aims to analyze the effectiveness of the defense of diffuse and collective
rights in the preservation of Historical Heritage, and how the Federal Constitution,
International Treaties, State and Municipal Laws have been applied in the
preservation of these patrimonies. The general objective of this work will be to
analyze the impact of the ineffectiveness of the application of laws aimed at the
protection or restoration of these patrimony. Therefore, the work also aims to indicate
which laws were created to protect or restore Historical Heritage; investigate the role
of public civil actions in the protection or restoration of such Patrimony, and whether
the law enforcement through these has occurred effectively. In addition, it aims to
verify the possible flaws in the application of these laws and a supposed disinterest
of the public power in making them more effective in addition to addressing what has
been the role of Iphan in the defense of these Historical Patrimonies. The
methodology used was a descriptive approach because it sought to carry out a
detailed study of the subject with information collection through collection and
exploratory techniques, consisting of a research that provides information and guides
the formulation of the hypothesis of the study

Key-words: Historical Heritage; Diffuse Rights; Public Civil Actions; Iphan.


LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1 – Museu do Ipiranga...................................................................................48


Figura 2 – Palacete de São Cornélio........................................................................49
Figura 3 – Ruína do Patrimônio tombado de São Luís.............................................50
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLA

FICART Fundo de Investimento Cultural e Artístico


FNC Fundo Nacional de Cultura
IBRAM Instituto Brasileiro de Museus
ICIC Comissão Internacional para a Cooperação Intelectual
IPHAN Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
STJ Supremo Tribunal de Justiça
13

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO.....................................................................................................14

2. A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA DEFESA DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO NO


MUNDO..............................................................................................……...….......…16
2.1. Direitos Difusos e Coletivos no Brasil...........................................………............19
2.1.1 Contextualização da defesa do Patrimônio Histórico Brasileiro….....…..…......22

3. LEIS QUE TUTELAM O PATRIMÔNIO HISTÓRICO…………………………….26


3.1. Atos e Convenções de Salvaguarda do Patrimônio Histórico Brasileiro………..33
3.1.1. O Papel da UNESCO na Proteção do Patrimônio Histórico………..………….37
3.1.2. A Atuação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional…………..39

4. OS EFEITOS DAS AÇÕES CIVIS PÚBLICAS NA PROTEÇÃO DO


PATRIMÔNIO HISTÓRICO........................................................................................43
3.1. Breve Levantamento do Cenário Atual do Patrimônio Histórico e Cultural
Brasileiro.……………………………………………………………………………………46
3.1.1.Análise da Efetividade das Ações Civis Públicas na Proteção do Patrimônio
Histórico………………………………………………………………………….………….50

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................................23

REFERÊNCIAS...........................................................................................................24
14

1. INTRODUÇÃO

O presente estudo busca analisar os direitos difusos e coletivos na


preservação do Patrimônio Histórico, e a forma com a qual a Constituição Federal,
Tratados Internacionais, Leis Estaduais e Municipais têm sido aplicadas para
garantir essa defesa.
A Luz do artigo 216, parágrafos 1° e 23 a proteção do Patrimônio Histórico e
cultural é uma obrigação imposta ao Poder Público em conjunto com a comunidade,
não se tratando, portanto de uma faculdade.
Contudo, não há uma taxatividade dos instrumentos utilizados na proteção
desses patrimônios, existindo, nesse contexto, as ações civis públicas como um dos
mais representativos instrumentos nesta luta.
Assim, faz-se necessário os seguintes questionamentos: A aplicação dos
direitos difusos e coletivos na proteção ou restauração de patrimônios históricos tem
ocorrido de forma satisfatória?
Além do problema central da pesquisa, duas questões específicas também
nortearão esse trabalho: Quais leis foram criadas com o intuito de proteger ou
restaurar esse patrimônio? Como essa proteção tem ocorrido na prática?
O objetivo geral da pesquisa será identificar os principais instrumentos de
proteção ao Patrimônio Histórico e cultural Brasileiro e os impactos da sua
aplicabilidade de forma inefetiva
Por conseguinte, os objetivos específicos são investigar o papel das ações
civis públicas na proteção ou restauração desse Patrimônio e verificar se a aplicação
da lei por meio dessas tem ocorrido de forma efetiva.
Ademais, o presente trabalho visa verificar se há um desinteresse do poder
público quanto a aplicação dessas normas além de abordar qual tem sido o papel do
Iphan nessa defesa.
A metodologia utilizada terá uma abordagem descritiva pois busca realizar
um estudo detalhado do tema com levantamento de informações através de técnicas
de coleta exploratória, pois consiste em uma pesquisa que visa oferecer informações
e orientar a formulação da hipótese do estudo.
A coleta de dados realizar-se-á de forma bibliográfica, por meio de
periódicos, documentos eletrônicos e impressos; e documental por meio da análise
15

de Resoluções do Conselho Nacional de Justiça, jurisprudências, acórdãos, dentre


outros.
Com base nisso, a presente monografia encontra-se estruturada em três
capítulos:
O primeiro capítulo intitulado “A evolução histórica da defesa do Patrimônio
Histórico no Mundo” traz de maneira sucinta um apanhado histórico das primeiras
normas que visavam a defesa de Patrimônios Históricos no Mundo, discorrendo
sobre o surgimento dos direitos difusos e coletivos e a recepção desses direitos no
ordenamento jurídico pátrio.
Já o segundo capítulo definido por “Direitos difusos e coletivos na criação de
leis que tutelam o Patrimônio Histórico” indica as principais leis que foram criadas
visando proteger ou restaurar o Patrimônio Histórico, enfatizando o papel do Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e da UNESCO nessa defesa.
No terceiro capítulo “O efeito das ações civis públicas na Proteção dos
Patrimônios Históricos” analisa a efetividade das ações civis públicas como objeto
de tutela ou restauração dos Patrimônios Históricos e seus efeitos práticos,
indicando também se a aplicação da lei por meio destas tem ocorrido de forma
efetiva.
16

2. A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA DEFESA DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO NO


MUNDO

Neste capítulo faz-se uma contextualização do surgimento das primeiras leis


criadas visando proteger patrimônios históricos no mundo até a criação dos direitos
difusos e coletivos.
Apresentar-se-á fatos históricos, trazendo à baila a forma como esses
direitos foram recepcionados pelo ordenamento brasileiro. Ademais, far-se-á
também uma correlação entre essa tutela e os direitos difusos e coletivos.
A priori cabe ressaltar que apesar de não existir direitos difusos e coletivos
antigamente, desde o Código de Hamurábi e das Leis das XII Tábuas foram criados
vários dispositivos legais cuja função era a proteção dos patrimônios públicos e
privados.
Todavia alguns institutos que visavam proteger o meio ambiente e os bens
culturais foram criados bem mais recentemente. Em 28 de agosto de 1721, durante
o período colonial e expansionista, o Rei Dom João de Portugal lavrou em um Alvará
medidas de proteção ao patrimônio histórico e cultural que proibiam qualquer pessoa
de desfigurar ou destruir em todo ou em parte qualquer edifício ou monumento que
historicamente fosse do tempo dos fenícios, gregos, romanos, godos ou arábicos.
Factualmente, foram os embates políticos em virtude da crise sociopolítico-
econômica da França no final do século XVIII que geraram a Revolução de 1789 e a
Era Napoleônica que fizeram surgir os movimentos exordiais de direitos difusos e
coletivos e consequentemente uma consolidação das leis que distam sobre a
preservação das riquezas culturais.
Em virtude dessas considerações, ANDRDADE, MASSON & ANDRADE
(2013, p.49) trazem a marcha dos direitos humanos realizada após a Revolução
Francesa de 1789 como ponto nodal do contexto político, econômico e jurídico da
evolução dos direitos humanos em geral.
Foi a partir da Revolução Francesa que os valores da Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão foram acurados, passando-se a desenvolver uma
teoria sobre direitos que são intrínsecos à espécie humana e não exclusividade dos
Estados que os aderiam.
17

No dizer sempre expressivo de ANDRADE, MASSON & ANDRADE (2013,


p.51), elucida-se que foi nesse momento histórico que um novo modelo de relação
entre cidadão e Estado inaugurou-se, enrevesando a visão consuetudinária que a
liberdade individual era mera liberalidade do Poder Estatal.
Com esse entendimento, os doutrinadores Andrade, Masson & Andrade
(2013, p.51), esclarecem que:

Essa fase se consagrou como a dos “direitos de liberdade, que


ficaram conhecidos também como liberdades clássicas, formais e
públicas negativas, pois implicavam prestações negativas do Estado
em relação aos indivíduos, havendo uma limitação na intervenção
estatal. Esse período ficou igualmente conhecido como direitos
humanos de primeira geração ou dimensão”. Andrade, Masson &
Andrade (2013, p.51)

Isto posto, no final do século XIX, o modelo adotado na primeira geração dos
Direitos Humanos tornara-se insuficiente para a pacificação dos conflitos sociais,
haja vista a igualdade, na época, ser meramente formal e a propriedade privada que
na teoria era vista como direito sagrado e absoluto no cenário de crescente
industrialização se tornou privilégio de alguns.
Esses conflitos foram o estopim para conturbações sociais mediante o
crescimento de uma pequena minoria e o empobrecimento da maioria da população.
Nessa conjuntura, a mecanização da produção acelerou o desemprego ao
passo que gerou péssimas condições de trabalho aos operários das fábricas.
Nesse passo, DAVID (2018, p.02) entende que com a revolução industrial, a
sociedade sofreu alterações em todos os seus aspectos, principalmente no que diz
respeito ao trabalho:

“[…] Com o emprego massivo de máquinas e o movimento de


migração da população da zona rural para os centros urbanos, a
sociedade deixou de ser essencialmente agrícola para se tornar uma
sociedade industrial”. (David, 2018, p.02)

David (2018, p.02) explica ainda que a expressiva quantidade de pessoas


nos centros urbanos, concatenado a produção em série e em larga escala nas
indústrias, aliado ao grande crescimento das demandas, a busca pela diminuição
dos custos e o alto índice de desemprego contribuiu para o surgimento da sociedade
em massa.
18

O clamor das massas perante o Estado se deu pelo surgimento de corpos


intermediários, que Andrade, Masson & Andrade (2013, p.13) denominam como:

Grupos, classes ou categorias de pessoas, que se organizaram para


lutar pelo reconhecimento dos interesses que tinham em comum. O
exemplo mais típico é o do movimento sindical. A denominação
corpos intermediários se deve ao fato que eles defendiam interesses
que tinham por nota distintiva o fato de não pertencerem ao Estado
(interesses públicos), tampouco a todo e qualquer indivíduo
indistintamente (interesses afetos aos direitos humanos individuais),
mas sim a determinados grupos, classes ou categorias de pessoas.
Situavam-se, assim, em uma posição intermediária entre o Estado e
o indivíduo, entre o público e o privado. (Andrade, Masson, Andrade,
2013, p.13)

Assim, os autores explanam que a crescente pressão social fez com que os
Estados fossem obrigados a reconhecer direitos econômicos, culturais e sociais,
principalmente aqueles que versavam sobre a proteção contra o desemprego,
condições mínimas de trabalho, direito a educação básica, direitos à assistência na
velhice, entre outros.
Esses direitos fizeram nascer um modelo de Estado Social forjado com
base nos “direitos de igualdade”, voltados à garantia de uma liberdade mínima e da
efetiva promoção social, moldando o que é conhecido atualmente como direitos
humanos de segunda geração.
Nesse passo, Andrade, Masson, Andrade (2013, p. 53) entendem que foi na
segunda geração que:
“[…] houve o reconhecimento jurídico dos primeiros interesses de
dimensão coletiva, ou seja, que assistem a todo um grupo, classe ou
categoria de pessoas (mulheres, crianças, idosos e trabalhadores),
de modo que uma única lesão ou ameaça pode afetar a todos os
componentes de uma determinada coletividade”. (Andrade, Masson,
Andrade, 2013. p. 53)

Ulteriormente, após certo lapso temporal, com o fim das duas guerras
mundiais e o holocausto, a paz mundial foi uma das grandes discussões mundiais.
Além desta, a poluição e o abismo econômico viraram pauta de encontros de
representantes de vários Estados que buscavam meios de promover a paz, o
desenvolvimento, a cooperação entre as nações, um meio ambiente equilibrado.
19

Por essa razão surgiu a terceira geração de direitos humanos, também


conhecida como direito de solidariedade e fraternidade. Portanto, Andrade, Masson,
Andrade (2013, p.54) esclarecem que:

Diferentemente das categorias anteriores, sua defesa não se


expressa pela tutela do direito de liberdade de um indivíduo em face
do seu respectivo Estado, ou pela implementação de direitos de uma
determinada categoria desfavorecida. Aqui, já se trata de defender
direitos de toda humanidade, de modo que os Estados devem
respeitá-los independentemente da existência de vínculo de
nacionalidade com os seus titulares (neste aspecto, estes podem ser
considerados “cidadãos do mundo”, e não de um determinado país),
e de eles se encontrarem ou não em seu território. Aliás, por
humanidade compreendem-se, até mesmo, as gerações futuras, os
seres humanos que ainda não nasceram ou sequer foram
concebidos. (Andrade, Masson, Andrade, 2013, p. 54)

Dessa forma, esses direitos foram denominados de direito de fraternidade


por buscarem defender os direitos da humanidade de forma geral e por serem
direitos essenciais para uma vida humana digna.
Através dessa breve contextualização histórica das três principais gerações
de direitos humanos que sobrevieram em um cenário de conflitos resultantes da
incessante evolução social contemporânea, destaca-se os direitos da terceira
geração para o presente trabalho, por se tratarem de direitos de natureza
essencialmente coletiva.
David (2018, p.04) entende que os direitos de terceira geração referem-se
aos de titularidade coletiva, destacando-se entre eles os direitos difusos e coletivos.
A autora esclarece que embora remontem ao direito romano (seus principais
antecedentes), foi apenas no final do século XX que teóricos e legisladores
passaram a se preocupar com o seu tratamento.

2.1. DIREITOS DIFUSOS E COLETIVOS NO BRASIL

A primeira lei criada visando tutelar os direitos coletivos no Brasil foi a Lei n.
4.717/65 que regulamentava o pleito de ações populares por cidadãos que
desejavam demandar em juízo a nulidade de atos lesivos ao erário.
Portanto, conforme David (2018, p.06) este é o primeiro instrumento criado
para defender os direitos que transcendem o indivíduo partindo para uma
20

coletividade, eis que o autor da ação não atua como substituto processual, posto
que protege não apenas os direitos de terceiros, como também o seu próprio direito.
Após a Lei n. 4.717/65, outro marco para a efetivação dos direitos difusos e
coletivos no Brasil foi a edição da Lei 6.938/81 que dispõe sobre a Política Nacional
do Meio Ambiente, definindo em seu artigo 3º, inciso I as características principais
do meio ambiente.
Essa proteção foi ratificada em 24 de junho de 1985, com a edição da Lei nº
7.374 que possibilitou a utilização da ação civil pública não apenas em danos
causados ao meio ambiente, como também aos consumidores, bens e direitos de
valores artísticos, estéticos, histórico, turístico e paisagístico.
Contudo, a luz do entendimento de David (2019) foi apenas com a Carta
Magna de 1988 que houve a consagração da proteção ao meio ambiente, uma vez
que recepcionou o meio ambiente como um bem que não é particular e nem público,
mas permanecente a coletividade.
Renato Duro Dias (2010, p. 01) afirma que:
Quando a Constituição Federal de 1988 estabeleceu que além do
Poder Público, compete a comunidade a proteção do patrimônio
cultural brasileiro atribuiu a ele uma natureza jurídica, asseverando
que todo bem referente à nossa cultura, identidade e memória
integram a categoria de direito ambiental difuso e que a proteção de
patrimônio cultural, insere-se no conceito de direito fundamental da
terceira geração, uma vez que a tutela desse direito satisfaz a
humanidade como um todo (direito difuso), na medida em que
preserva sua memória e seus valores, assegurando sua transmissão
a gerações futuras. (DIAS, 2010, p. 01)

DIAS (2010, p.01) afirma também que:

A Carta de 1988 introduziu ao campo do direito positivo, novos e


fundamentais conceitos, especialmente o conceito de direitos
culturais como direitos humanos e a definição de patrimônio cultural,
a luz do artigo 216 da Constituição Federal, sendo, esses direitos
atualmente reconhecidos doutrinariamente como metaindividuais por
serem “De todos e de cada um”. (DIAS, 2010, p. 01)

Um dos componentes dos direitos culturais referidos anteriormente pelo


autor é o direito de acesso ao patrimônio cultural, garantido por meio de disposições
constitucionais ou estatais, sendo a proteção desses patrimônios um desdobramento
desse conceito de acesso e da imposição de proteção feita ao poder público a luz do
artigo 250 da Carta Maior.
21

Interessante notar também que um dos impactos dessa categoria de direitos


foi a possibilidade de ações populares ao alcance de todo cidadão (CF. artigo 5º,
LXXIII), e pela Ação Civil Pública, própria do Ministério Público (CF, artigo 129, III).
Destarte, com a Constituição Federal de 1988, além das clássicas e
conhecidas medidas de tombamento e desapropriação, a nova ordem jurídico-
constitucional prevê múltiplas formas de proteção do Patrimônio Cultural, como os
inventários, os registros e a vigilância, além de outras formas de acautelamento e
preservação.
Por conseguinte, quanto a competência legislativa, tanto a jurisprudência,
como a doutrina e a norma são taxativas ao classificar a espécie como competência
concorrente nas quais vários órgãos das três esferas possuem capacidade de
legislar.
Nesse passo, a competência concorrente possibilita legisladores nos
âmbitos municipal, estadual e federal, propor e elaborar norma de proteção ao
patrimônio cultural edificado, cada qual dentro do conceito de caráter local, estadual
ou nacional, conforme alicerça a carta maior:

Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar


concorrentemente sobre:
I – Direito tributário, financeiro, penitenciário, econômico e
urbanístico;
II – Orçamento;
III – juntas comerciais;
IV – Custas dos serviços forenses;
V – produção E consumo;
VI – Florestas, caça, pesca, fauna, conservação da natureza, defesa
do solo e dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e
controle da poluição;
VII – proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e
paisagístico;
VIII – responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a
bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e
paisagístico;
IX – educação, cultura, ensino E desporto.

À vista disso, em relação a competência administrativa, a constituição


determinou que a mesma seja comum, atribuindo as três esferas criar órgãos
executivos, tais como o Iphan (esfera federal), Iphae (estadual) e Coordenadorias de
Memória e Patrimônio, vinculadas às Secretarias Municipais.
22

Art. 23. É competência comum da União, dos Estados, do Distrito


Federal e dos Municípios:
I – Zelar pela guarda da Constituição, das leis e das instituições
democráticas e conservar o patrimônio público;
II – Cuidar da saúde e assistência pública, da proteção e garantia
das pessoas portadoras de deficiência;
III – proteger os documentos, as obras e outros bens de valor
histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais
notáveis e os sítios arqueológicos;
IV – impedir a evasão, a destruição e a descaracterização de obras
de arte e de outros bens de valor histórico, artístico ou cultural[10];
V – Proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação e à
ciência;
VI – Proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer
de suas formas;
VII – preservar as florestas, a fauna e a flora.

Em relação a competência municipal, há a possibilidade de legislar sobre


norma de patrimônio cultural edificado que esteja vinculado a um interesse local:

“Art. 30. Compete aos Municípios:


I – legislar sobre assuntos de interesse local;
II – Suplementar a legislação federal e a estadual no que couber;
IX – promover a proteção do patrimônio histórico-cultural local,
observada a legislação e a ação fiscalizadora federal e estadual.”

DIAS (2010, p. 03) esclarece que atualmente a União, os Estados e os


Municípios dispõem de inúmeros instrumentos legais de conceituação e de amparo
à preservação do patrimônio cultural edificado e o poder público (em todas as
esferas) tem criado órgãos especializados para estas ações preservacionistas, por
vezes junto às secretarias de cultura ou então nas secretarias de planejamento
urbano.

2.1.1 Contextualização da defesa do Patrimônio Histórico Brasileiro

Assim como em âmbito mundial, no Brasil, as primeiras leis esparsas que


protegiam os patrimônios históricos remontavam o Brasil Colônia muito antes da
delimitação de conceitos como meio ambiente e direitos difusos e coletivos.
Os primeiros registros de Proteção a Patrimônios históricos no Brasil
ocorrem na época colonial, sob a égide do Código Filipino, das Ordenações do
Reino, em seus títulos 64, 86 e 87 que preveem condutas e penas do dano praticado
ao patrimônio.
23

FLACH (2015, p.42) elucida também que em 13 de março de 1979 fora


editada a Carta Régia a qual constava em seu conteúdo “que era necessário tomar
todas as precauções para a conservação das matas do Estado do Brasil, e evitar
que elas se arruínem e se destruam”.
O autor ressalta que os dispositivos da época não estavam propriamente
atentos a um direito da coletividade, ou atualmente vistas como ambientais, mas,
sim, com o proveito econômico e extrativista que a conservação e correta
exploração dos nossos recursos poderia proporcionar.
FLACH (2015, p.42) esclarece também que um dos primeiros e mais
importantes atestados de zelo para com o nosso patrimônio cultural foi a missiva
subscrita por D. André de Melo e Castro em 1742, e enviada ao Governador de
Pernambuco no qual expõe os temores quanto a necessidade de preservação de
alguns patrimônios históricos, entre eles o Palácio das Duas Torres, Obra do Conde
Maurício de Nassau.
Além disso, advindo a República, o Código Penal de 1890, em seus artigos
326 a 329 arrolava os danos entre os Crimes contra a Propriedade Pública e a
Particular, apesar de não haver nenhuma previsão específica quanto ao patrimônio
histórico ou cultural.
Por sua vez, o Código Civil (Lei nº 3.071, de 1916) elencou dispositivos
comuns aos bens imóveis, à propriedade e o seu uso nocivo, aos direitos de
vizinhança e construção, responsabilidade civil e obrigação, sem tratar do patrimônio
cultural.
Entretanto, conforme FRACH (2015, p. 45) questões relacionadas a
proteção de patrimônios sofreram uma alteração no seu rumo, a partir dos
movimentos de valorização da arte e da cultura brasileira, desencadeados pela
Semana da Arte Moderna de 1922, que ocorreu de 11 a 18 de fevereiro e o advento
do Decreto nº 15.596 sancionado dia 2 de agosto de 1922, o qual instituiu o Museu
Histórico Nacional, com a finalidade de angariar, classificar e expor objetos de
importância histórica.
Em que pese algumas tentativas tenham sido frustradas, outras iniciativas
locais lograram aprovação como as Leis do Estado da Bahia nº 2031 e nº 2032 que
instituíram a Inspetoria Estadual de Monumentos Nacionais; a Lei nº 1.998/28 de
Pernambuco, a qual criou uma inspetoria semelhante.
24

Além disso, em 1933 o Decreto Nacional nº 22.928, erigiu a cidade de Ouro


Preto, em Minas Gerais, a categoria de “Monumento Nacional”, firmando um
importante marco na área.
Por conseguinte, a Revolução de 1930 trouxe avanços significativos em tal
área, pois, diferente das Constituições de 1824 e 1891 que se preocupavam apenas
em consagrar o direito à propriedade privada, a Carta Magna de 1934 estabeleceu
em seu art. 10, III, a competência comum da União e dos Estados de “proteger as
belezas naturais e os monumentos de valor histórico ou artístico, podendo impedir a
evasão das obras de arte”
Já em 30 de novembro de 1937, foi promulgado o Decreto-lei nº 25, com o
intuito de organizar a Proteção do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
estabelecendo em seu artigo 1º que o patrimônio histórico e artístico nacional
“constitui o conjunto de bens móveis e imóveis existentes no país e cuja
conservação seja de interesse público”.
FRACH (2015, p. 45) aduz que esse decreto-lei foi criado em virtude desses
patrimônios possuírem vínculo a fatos memoráveis da história do Brasil, ou pelo
“excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico” a eles
agregado.
Salvo algumas alterações, o decreto supracitado permanece em vigor até
hoje, constituindo-se de grande valia pela série de instrumentos que foram
instituídos, entre os quais o instituto jurídico do “tombamento”, que se tornou de
competência do Sphan (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), criado
com a função que atualmente é desempenhada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional), órgão vinculado ao Ministério da Cultura, e cuja
principal missão é preservar o patrimônio cultural brasileiro
Posteriormente, o Decreto-lei nº 3.866/1941, foi criado com a função de
dispor sobre o tombamento de bens do Sphan, e o Decreto-lei nº 4.146/1942, que
tratava da proteção de depósitos fossilíferos.
Contudo, as alterações no quadro político que provocariam a edição das
Constituições de 1946 em seu art. 175, do dia 13 de 1965 ou de 1967, em seu art.
172 e da Emenda de 1969, trouxeram um retrocesso frente a carta de 1937, uma
vez que suas normas eram muito mais pragmáticas do que práticas, preocupando-
25

se em enumerar categorias de bens a serem tuteladas, sem trazer um conceito


próprio sobre patrimônio cultural.
Apesar de todos os esforços, conforme demonstrado anteriormente, de
proteger o patrimônio histórico e cultural, havia uma noção de meio ambiente no
Brasil, mas até então não existia a consolidação de um instrumento legal que
transcendesse os direitos individuais.
Nesse sentido, foi promulgada junto com a primeira lei instituída com o
intuito de tutelar os direitos coletivos – Lei n. 4.717/65, que regulamentava o pleito
de ações populares por cidadãos que desejavam demandar em juízo a nulidade de
atos lesivos ao erário.
Portanto, na concepção de DAVID (2018, p. 06) este é o primeiro
instrumento a defender os direitos que transcendem o indivíduo partindo para uma
coletividade, uma vez que o autor da ação não atua apenas como substituto
processual, ele protege tanto os direitos de terceiros, como também o seu próprio
direito.
DAVID (2018, p.06) entende que a partir da Lei 4.717/65 houve o
reconhecimento e os prenúncios de uma preservação da cultura, história e
identidade dos povos, responsável pela formação de um meio ambiente cultural.
Esse reconhecimento, segundo a autora, mostrou-se de grande importância,
passando a ser essencial para a formação e manutenção da vida humana.
Remonta à época o entendimento de que o meio ambiente é inerente ao
desenvolvimento e existência da vida.
Em contrapartida, foi apenas com a Carta Magna de 1988 que houve a
concessão ao cidadão do direito à cultura, quando em seu artigo 215 determinou-se
que o Estado garantiria a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às
fontes de cultura nacional, além de apoiar e incentivará a valorização e a difusão das
manifestações culturais.
Nesse diapasão, esse mesmo texto constitucional, em seu artigo 216, inciso
1º apresenta instrumento de tutela do patrimônio cultural como por exemplo, o
tombamento, o registro, o inventário, o acautelamento, etc.
Assim, foi a Carta de 1988 que recepcionou de forma mais efetiva os direitos
difusos e coletivos, tornando concreta a tutela do Patrimônios históricos brasileiros.
26

3. DIREITOS DIFUSOS E COLETIVOS NA CRIAÇÃO DE LEIS QUE TUTELAM


O PATRIMÔNIO HISTÓRICO

A Constituição Federal de 1988 garantiu aos brasileiros o direito à vida, à


igualdade, à dignidade, à segurança, à honra, à educação, à moradia, dentre outros.
Contudo, além desses direitos supracitados, a carta maior assegurou a todos os
brasileiros natos ou naturalizados o pleno exercício dos direitos culturais, trazendo
um avanço considerável a proteção de patrimônios históricos ao elevar esses
direitos ao patamar de direitos fundamentais.
Ao dispor em seus artigos 215 e 216, a Carta Maior consagrou dois
princípios que são os pilares da política de preservação dos patrimônios histórico-
culturais brasileiros. Ao garantir o pleno gozo dos direitos culturais e acesso às
fontes da cultura nacional, e apoiar e incentivar a valorização e disseminação das
manifestações culturais a Constituição de 1988 acolheu o princípio da cidadania
cultural.
Outrossim, o § 1º do art. 215 legitimou o princípio da diversidade cultural,
haja vista determinar que o Estado tem obrigação constitucional de tutelar as
manifestações culturais populares.
Nesse passo, a constituição em seus artigos consolidou a importância da
preservação da memória para a construção da cidadania e o amparo a identidade
cultural ao ampliar sua concepção de patrimônio histórico. O artigo 216 da
Constituição Federal de 1988 estabelece que:

“[..]Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza


material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto,
portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos
diferentes grupos formadores da sociedade nos quais se incluem: I –
as formas de expressão; I I– os modos de criar, fazer e viver; III – as
criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV – as obras, objetos,
documentos, edificações e demais espaços destinados às
manifestações artísticos culturais; V – os conjuntos urbanos e sítios
de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico,
paleontológico, ecológico e científico”. Constituição Federal de 1988.

Nesse passo, a constituição consolidou a importância da preservação da


memória tornando seu conceito mais abrangente, não se restringindo ao patrimônio
edificado (bens imóveis, edifícios e monumentos de valor histórico, estético ou
27

artístico), abrangendo também o patrimônio cultural brasileiro que é constituído de


bens imateriais ou intangíveis.
Assim, ao longo da história foram criadas diversas normas legais que se
referem à preservação do patrimônio cultural. Entre eles, o Decreto-Lei nº 25, de
1937 que criou a figura do tombamento, o decreto Lei nº 3.351, de 2000 que instituiu
o registro como instrumento tutelar do patrimônio imaterial.
Além destes, há as convenções mundiais estabelecidas pela Unesco, nas
quais o Brasil é signatário e que foram incorporadas ao ordenamento jurídico pátrio
através de decretos-lei.
Tratar-se-á, portanto, de alguns desses decretos, a iniciar da Constituição
Federal de 1988 que em seu capítulo I, artigo 5º, inciso LXXIII dispôs acerca da
legitimidade dos cidadãos para propor ações populares que visem anular ato lesivo
ao patrimônio público ou a entidade de que o Estado participe, à moralidade
administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor
da ação, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da
sucumbência.
Por sua vez, o artigo 24, incisos VII e VII da Carta Maior estabelece que é
competência concorrente da União, Estados e Municípios legislar sobre a proteção
ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico e sobre a
responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de
valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico.
Em seu artigo 30 a Constituição Federal estabelece que compete aos
Municípios promover a proteção do patrimônio histórico-cultural local, observada a
legislação e a ação fiscalizadora federal e estadual.
O Capítulo IV da Carta Magna que dispõe sobre as funções essenciais à
justiça, em seu artigo 129 atribui ao Ministério Público a função de promover o
inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social,
do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos.
Por sua via, em seu título VIII, capítulo III, seção II, artigos 215 e 216
determina que:

Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos


culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e
incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.
28

§ 1o O Estado protegerá as manifestações das culturas populares,


indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do
processo civilizatório nacional.
§ 2o A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta
significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais.
2§ 3o A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração
plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do País e à
integração das ações do poder público que conduzem à:
I – Defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro;
II – Produção, promoção E difusão de bens culturais;
III – Formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em
suas múltiplas dimensões;
IV – Democratização do acesso aos bens de cultura;
V – Valorização da diversidade étnica e regional.

Além disso, o artigo 216 do referido capítulo estabelece que como patrimônio
cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tombados
individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à
memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se
incluem:
I – As formas de expressão;
II – Os modos de criar, fazer e viver;
III – As criações científicas, artísticas e tecnológicas;
IV – As obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços
destinados às manifestações artísticas culturais;
V – Os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico,
artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.
§ 1o O Poder Público, com a colaboração da comunidade,
promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de
inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de
outras formas de acautelamento e preservação.
§ 2o Cabem à administração pública, na forma da lei, a gestão da
documentação governamental e as providências para franquear sua
consulta a quantos dela necessitem.
§ 3o A lei estabelecerá incentivos para a produção e o conhecimento
de bens e valores culturais.
§ 4o Os danos e ameaças ao patrimônio cultural serão punidos, na
forma da lei.
§ 5o Ficam tombados todos os documentos e os sítios detentores de
reminiscências históricas dos antigos quilombos.

Conforme ulteriormente explanado, antes da Constituição Federal foram


criados diversos dispositivos que visavam essa proteção. O Decreto-lei nº 25, de 30
de novembro de 1937, sancionado por Getúlio Vargas, organizou a proteção do
patrimônio histórico e artístico nacional constituindo esse patrimônio como o
conjunto de bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação é de
29

interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil,
quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico.
O mesmo Decreto-Lei em seu artigo primeiro determinou que os bens
supracitados só seriam considerados parte integrante do patrimônio histórico e
artístico nacional, depois de inscritos de formada separada ou agrupadamente em
um dos quatro livros do tombo, equiparando-se a essa classificação de bens os
sítios e paisagens que importem conservar e proteger por possuírem uma feição
notável ou tenham sido agenciados pela indústria humana.
A presente lei aplica-se às coisas pertencentes às pessoas naturais, bem
como às pessoas jurídicas de direito privado e de direito público interno.
O artigo 4º da presente lei definiu também que os Serviços do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional possuiria quatro livros de tombo. No Livro do Tombo
Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico conteria as coisas pertencentes às
categorias de arte arqueológica, etnográfica, ameríndia e popular;
Já o Livro do Tombo Histórico disporia sobre as coisas de interesse histórico
e as obras de arte histórica; por conseguinte o Livro do Tombo das Belas Artes
aduziria sobre as coisas de arte erudita, nacional ou estrangeira e no Livro do
Tombo das Artes Aplicadas, as obras que se incluírem na categoria das artes
aplicadas, nacionais ou estrangeiras.
A luz do artigo 5º do Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937 o
tombamento de bens da União, Estados e Municípios deve ser feito de ofício, por
ordem do diretor do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, contudo
deve haver a notificação da entidade a quem pertencer, ou cuja a guarda estiver a
coisa tombada, para que sejam produzidos os efeitos necessários.
Por sua via, o tombamento de coisa pertencente à pessoa natural ou jurídica
de direito privado deverá ocorrer de forma voluntária ou compulsória, devendo o
tombamento voluntário ser realizado sempre que o proprietário pedir e o bem
possuir os requisitos necessários para constituir o patrimônio histórico e artístico
nacional a juízo do Conselho Consultivo do Serviço do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, ou sempre que o mesmo proprietário anuir, por escrito, à
notificação, que lhe fizer, para a inscrição da coisa em qualquer dos Livros do
Tombo.
30

Já o tombamento compulsório ocorre quando o proprietário se recusar a


anuir à inscrição da coisa de acordo com o seguinte processo:

Art. 9º O tombamento compulsório se fará de acordo com o seguinte


processo: 1) o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, por
seu órgão competente, notificará o proprietário para anuir ao
tombamento, dentro do prazo de quinze dias, a contar do recebimento
da notificação, ou para, se o quiser impugnar, oferecer dentro do
mesmo prazo as razões de sua impugnação; 2) no caso de não haver
impugnação dentro do prazo assinado, que é fatal, o diretor do Serviço
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional mandará por simples
despacho que se proceda à inscrição da coisa no competente Livro do
Tombo; 3) se a impugnação for oferecida dentro do prazo assinado,
far-se-á vista da mesma, dentro de outros quinze dias fatais, ao órgão
de que houver emanado a iniciativa do tombamento, a fim de sustentá-
la. Em seguida, independentemente de custas, será o processo
remetido ao Conselho Consultivo do Serviço do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, que proferirá decisão a respeito, dentro do prazo de
sessenta dias, a contar do seu recebimento. Dessa decisão não
caberá recurso.

O Decreto-lei nº 25, de 30 de novembro de 1937 decreta também que as


coisas tombadas, que pertençam à União, aos estados ou aos municípios, são
inalienáveis por natureza e só poderão ser transferidas de uma à outra das referidas
entidades.
Nesse diapasão, nos casos de transferência de propriedade dos bens de
que trata este artigo, deverá o adquirente, dentro do prazo de trinta dias, sob pena
de multa de dez por cento sobre o respectivo valor, fazê-la constar do registro, ainda
que se trate de transmissão judicial ou causa mortis.
Dispõe também que se tratando de bens pertencentes à União, aos estados
ou aos municípios, a autoridade responsável pela infração do presente artigo
incorrerá pessoalmente na multa.
Por conseguinte, sem prévia autorização do Serviço do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional, não se pode, na vizinhança da coisa tombada, fazer construção
que lhe impeça ou reduza a visibilidade, nem nela colocar anúncios ou cartazes, sob
pena de ser mandada destruir a obra ou retirar o objeto, impondo-se neste caso a
multa de cinquenta por cento do valor do mesmo objeto.
A lei supracitada em seu artigo 19 institui que o proprietário de coisa
tombada, que não dispuser de recursos para proceder às obras de conservação e
reparação que a mesma requerer, levará ao conhecimento do Serviço do Patrimônio
31

Histórico e Artístico Nacional a necessidade das mencionadas obras, sob pena de


multa correspondente ao dobro da importância em que for avaliado o dano sofrido
pela mesma coisa.

Nesses casos, o procedimento adotado é o seguinte:

Recebida a comunicação, e consideradas necessárias as obras, o


diretor do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
mandará executá-las, a expensas da União, devendo as mesmas ser
iniciadas dentro do prazo de seis meses, ou providenciará para que
seja feita a desapropriação da coisa. § 2o À falta de qualquer das
providências previstas no parágrafo anterior, poderá o proprietário
requerer que seja cancelado o tombamento da coisa. § 3o Uma vez
que verifique haver urgência na realização de obras e conservação
ou reparação em qualquer coisa tombada, poderá o Serviço do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional tomar a iniciativa de projetá-
las e executá-las, a expensas da União, independentemente da
comunicação a que alude este artigo, por parte do proprietário.

Assim, as coisas tombadas ficam sujeitas à vigilância permanente do


Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que poderá inspecioná-los
sempre que for julgado conveniente, não podendo os respectivos proprietários ou
responsáveis criar obstáculos à inspeção, sob pena de multa.
O Decreto-lei nº 25 em seu artigo 23 dista que o Poder Executivo
providenciará a realização de acordos entre a União e os estados, para melhor
coordenação e desenvolvimento das atividades relativas à proteção do patrimônio
histórico e artístico nacional e para a uniformização da legislação estadual
complementar sobre o mesmo assunto.
Desse modo, cabe a união manter para a conservação e a exposição de
obras históricas e artísticas de sua propriedade, além do Museu Histórico Nacional e
do Museu Nacional de Belas Artes, tantos outros museus nacionais quantos se
tornarem necessários, devendo também providenciar no sentido de favorecer a
instituição de museus estaduais e municipais, com finalidades similares.
Posteriormente, a lei nº 378 de 13 de janeiro de 1937 que distava sobre a
organização do Ministério da Educação e da Saúde Pública sancionada por Getúlio
Vargas criou o serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, com a finalidade
de promover em todo o país e de modo permanente, o tombamento, a conservação,
o enriquecimento e o conhecimento do patrimônio histórico e artístico nacional.
32

A lei nº 378 criou o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional


(Sphan), sendo, este o passo decisivo para a criação do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1990, sob a elide do princípio da proteção
das coisas de valor histórico e artístico.
A posteriori, foi criado também Decreto-Lei nº 2.848 de 7 de dezembro de
1940 que atribuiu como crime contra o patrimônio destruir, inutilizar ou deteriorar
coisa tombada pela autoridade competente em virtude de valor artístico,
arqueológico ou alterar, sem licença, o aspecto de local especialmente protegido por
lei sob pena de detenção, de seis meses a dois anos, e multa no primeiro caso, e
detenção, de um mês a um ano, ou multa no segundo caso.
Já em 23 de dezembro de 1991 a Lei nº 8.313, também conhecida como Lei
Rouanet foi sancionada com objetivo de fomentar a atividade cultural no Brasil,
instituindo o Programa Nacional de Incentivo à Cultura) para captar recursos para o
setor.
A lei beneficiou inúmeros segmentos artísticos e culturais do país, entre eles,
a preservação do patrimônio cultural, histórico, arquitetônico, arqueológico,
bibliotecas, museus e demais acervos, através dos mecanismos de apoio: e
Incentivos a projetos culturais com o Fundo Nacional de Cultura (FNC) e Fundo de
Investimento Cultural e Artístico (Ficart).
No dia 04 de agosto de 2000, o Decreto-Lei 3.551 instituiu o Registro de
Bens Culturais de Natureza Imaterial que constituem o patrimônio cultural brasileiro,
fazendo o registro dos bens nos seguintes livros:

Art. 1o Fica instituído o Registro de Bens Culturais de Natureza


Imaterial que constituem patrimônio cultural brasileiro. § 1o Esse
registro se fará em um dos seguintes livros: I – Livro de Registro dos
Saberes, onde serão inscritos conhecimentos e modos de fazer
enraizados no cotidiano das comunidades; II – Livro de Registro das
Celebrações, onde serão inscritos rituais e festas que marcam a
vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e
de outras práticas da vida social; III – Livro de Registro das Formas
de Expressão, onde serão inscritas manifestações literárias,
musicais, plásticas, cênicas e lúdicas; IV – Livro de Registro dos
Lugares, onde serão inscritos mercados, feiras, santuários, praças e
demais espaços onde se concentram e reproduzem práticas culturais
coletivas.
33

A inscrição num dos livros de registro instituídos pela lei tem como
referência a continuidade histórica do bem e sua relevância nacional para a
memória, a identidade e a formação da sociedade brasileira.
Subsequentemente, o Decreto nº 5.264, de Novembro de 2004 criou o
Sistema Nacional de Museus, tento como finalidade a interação entre os museus,
instituições afins e profissionais ligados ao setor, visando ao constante
aperfeiçoamento da utilização de recursos materiais e culturais; a valorização,
registro e disseminação de conhecimentos específicos no campo museológico; a
gestão integrada e o desenvolvimento das instituições, acervos e processos
museológicos; e o desenvolvimento das ações voltadas para as áreas de aquisição
de bens, capacitação de recursos humanos, documentação, pesquisa, conservação,
restauração, comunicação e difusão entre os órgãos e entidades públicas, entidades
privadas e unidades museológicas que integrem o Sistema.

3.1.ATOS E CONVENÇÕES DE SALVAGUARDA DO PATRIMÔNIO


HISTÓRICO BRASILEIRO

Além dos Decretos-leis, no decorrer do histórico de criação e


consolidação da tutela de Patrimônios Históricos e Culturais, outros
dispositivos foram criados com a mesma finalidade.
Nesse passo, de 17 de outubro a 21 de outubro de 1972 em Paris
ocorreu a Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e a Cultura, em sua décima sétima sessão, na qual o
Brasil foi um dos Estados-membros participantes.
Durante a Conferência houve a constatação de que os patrimônios
cultural e natural são ameaçados de destruição, não somente pelas causas
tradicionais de degradação, mas também pela evolução da vida social e
econômica, o que é agravando com fenômenos de alteração ou de destruição.
O Documento emitido na referida Convenção considerava que a
degradação ou o desaparecimento de um bem do patrimônio cultural e natural
constituiria um empobrecimento nefasto do patrimônio de todos os povos do
mundo. O presente documento considerou que a proteção desses patrimônios
34

em escala nacional é frequentemente incompleta, devido à amplitude dos


meios de que necessita e à insuficiência dos recursos econômicos, científicos
e técnicos do território que se encontra o bem a ser protegido;
Assim, incumbiu a coletividade internacional a participar da proteção
dos patrimônios cultural e natural, de valor universal através de uma
concessão de uma assistência coletiva que não substituísse a ação dos
Estados, mas a completasse de forma mais efetiva.
A convenção de 1972 atribuiu a todos os Países que a integraram a
função de identificar e delimitar os diferentes bens que integravam seu
território, assegurando a proteção, conservação, valorização e transmissão
para gerações futuras. O artigo 4º do documento chancelado na convenção
determinou que:
Cada um dos Estados parte na presente Convenção deverá
reconhecer que a obrigação de assegurar a identificação, proteção,
conservação, valorização e transmissão às gerações futuras do
patrimônio cultural e natural referido nos artigos 1.º e 2.º e situado no
seu território constitui obrigação primordial. Para tal, deverá esforçar-
se, quer por esforço próprio, utilizando no máximo os seus recursos
disponíveis, quer, se necessário, mediante a assistência e a
cooperação internacionais de que possa beneficiar, nomeadamente
no plano financeiro, artístico, científico e técnico.

O documento estabeleceu uma proteção internacional desses patrimônios,


através de medidas as quais os Estados integrantes da convenção deveriam adotar
para tutelares seus patrimônios históricos, dentre elas a adoção de uma política
geral que visasse determinar uma função ao patrimônio cultural e natural na vida
coletiva, integrando a isso, a proteção do referido patrimônio nos programas de
planificação geral;
Instituiu também que cada Estado-Membro, em se território, caso não
existisse, deveria adotar um ou mais serviços de proteção, conservação e
valorização do patrimônio cultural e natural, com pessoal apropriado, e dispondo dos
meios que lhe permitam cumprir as tarefas que lhe sejam atribuídas e a
obrigatoriedade do desenvolvimento de estudos e pesquisas científicas e técnica,
além do aperfeiçoamento dos métodos de intervenção que permitisse a um Estado
enfrentar os perigos que ameaçam o seu patrimônio cultural e natural.
35

Também foi criado durante essa conferência, junto da Organização das


Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, um comité intergovernamental
para a proteção do patrimônio cultural e natural de valor universal excepcional
denominado Comité do Patrimônio Mundial, composto por quinze Estados parte na
Convenção que seriam eleitos pelos Estados parte na Convenção, reunidos em
assembleia geral, no decurso de sessões ordinárias da Conferência Geral da
Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.
Cada um dos Estados parte na presente Convenção deveria submeter ao
Comité do Patrimônio Mundial um inventário dos bens do patrimônio cultural e
natural situados no seu território, devendo comportar uma documentação sobre o
local dos bens em questão e sobre o interesse que apresentam.
Com base nesses inventários submetidos pelos Estados o Comitê deveria
estabelecer, atualizar e difundir, sob o nome de '‘lista do patrimônio mundial’', uma
lista dos bens do patrimônio cultural e do patrimônio natural que considerasse como
tendo um valor universal excepcional em aplicação dos critérios que tiver
estabelecido. De dois em dois anos deverá ser difundida uma atualização da lista.
Outra conferência de grande impacto na defesa dos Patrimônios históricos
foi a Conferencia Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura, denominada “UNESCO” em sua 32ª sessão, realizada em Paris
do dia 29 de setembro ao dia 17 de outubro de 2003, elaborou a Convenção para a
Salvaguarda do Patrimônio Imaterial que reconheceu a importância de instrumentos
internacionais existentes em matéria de direitos humanos, em particular à
Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, ao Pacto Internacional dos
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, de 1966, e ao Pacto Internacional dos
Direitos Civis e Políticos, de 1966.
A Conferencia estipulou a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio
Cultural Imaterial considerando a importância desse patrimônio como fonte de
diversidade cultural e garantia de desenvolvimento sustentável, conforme destacado
na Recomendação da UNESCO sobre a salvaguarda da cultura tradicional e
popular, de 1989, bem como na Declaração Universal da UNESCO sobre a
Diversidade Cultural, de 2001, e na Declaração de Istambul, de 2002, aprovada pela
Terceira Mesa Redonda de Ministros da Cultura.
36

O Referido documento reconhece que os processos de globalização e de


transformação social, ao mesmo tempo em que criam condições propícias para um
diálogo renovado entre as comunidades, geram também, da mesma forma que o
fenômeno da intolerância, graves riscos de deterioração, desaparecimento e
destruição do patrimônio cultural imaterial, devido em particular à falta de meios para
sua salvaguarda,
Além disso, a conferência criou junto à UNESCO um Comitê
Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, doravante
denominado “o Comitê”, integrado por representantes de 18 Estados Partes, a
serem eleitos pelos respectivos Estados constituídos em Assembleia Geral, com o
objetivo de oferecer assessoria sobre as melhores práticas e formular
recomendações sobre medidas que visem a salvaguarda do patrimônio cultural
imaterial, buscando meios de incrementar recursos e adotar medidas necessárias
para tanto.
A convenção estabeleceu também medidas de salvaguarda dos patrimonias
históricos desses Estados, dentre elas a adoção de uma política geral que vise
promover a função do patrimônio cultural imaterial na sociedade e integrar sua
salvaguarda em programas de planejamento; a criação de um ou vários organismos
competentes para a salvaguarda do patrimônio cultural imaterial presente em seu
território e a adoção de medidas de ordem jurídica, técnica, administrativa e
financeira adequadas para favorecer a criação ou o fortalecimento de instituições de
formação em gestão do patrimônio cultural imaterial, bem como a transmissão desse
patrimônio nos foros e lugares destinados à sua manifestação e expressão.
Garantindo também o acesso ao patrimônio cultural imaterial, respeitando ao
mesmo tempo os costumes que regem o acesso a determinados aspectos do
referido patrimônio e criando instituições de documentação sobre o patrimônio
cultural imaterial de modo a facilitar o acesso a elas.

3.1.1. O Papel da UNESCO na Proteção do Patrimônio Histórico

A organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura


(UNESCO) é uma entidade internacional que foi criada em 16 de Novembro de
1945, após a II Guerra Mundial, com o intuito de garantir a paz através da
37

cooperação entre as nações., auxiliando os Estados-membros na busca de soluções


para os problemas que assolam a sociedade na contemporaneidade.
Com sede em Paris, a Unesco possui mais de 50 escritórios e vários
institutos e centros em todo o mundo, a exemplo do Instituto de Estatística em
Montreal e o Escritório Internacional de Educação em Genebra. A UNESCO foi
precedida pela ICIC (Comissão Internacional para a Cooperação Intelectual), que foi
criada em 1921 como parte da Liga das Nações Unidas).
A participação da UNESCO teve início em 1964, em Brasília, com suas
atividades sendo iniciadas em 1972, objetivando a defesa da educação com
qualidade e promoção do desenvolvimento humano e social.
Sob o fundamento da identidade, da energia e das ideias criativas dos
povos, a cultura, em toda sua diversidade como fator de desenvolvimento e
coexistência em todo o mundo a UNESCO elabora e promove a aplicação de
instrumentos normativos no âmbito cultural, além de desenvolver atividades para a
salvaguarda do patrimônio cultural, a proteção e o estímulo à diversidade cultural,
bem como o fomento ao pluralismo e ao diálogo entre as culturas e civilizações.
No Brasil, a UNESCO tem atuado em cooperação com as autoridades e
instituições nacionais em diversas iniciativas para a preservação do patrimônio
cultural, seja no apoio à preservação do Patrimônio Mundial e no fortalecimento dos
museus, bem como na salvaguarda do patrimônio imaterial brasileiro.
Além disso, colabora para a proteção e a promoção da diversidade cultural
do país, em atividades de formação e elaboração de políticas culturais nas áreas do
artesanato, das indústrias culturais e do turismo cultural, entre outras.
Além da tradicional salvaguarda por meio de resoluções em âmbito
internacionais assinadas em conferências pelos Estados-membros, a UNESCO
condecora patrimônios culturais e naturais de excepcional valor universal.
O Brasil conta com 13 bens culturais tombados pela UNESCO, dentre 1.031
sítios que possuem tal reconhecimento, quatro deles no Estado de Minas Gerias.
Dentre eles, podemos citar o Conjunto da Pampulha que está na origem da
produção arquitetônica e urbanística do Brasil Moderno contando com as quatro
primeiras obras assinadas por Oscar Niemeyer, construídas entre 1942 e 1943, com
jardins de Burle Marx, painéis de Cândido Portinari e esculturas de Alfredo Ceschiatti
38

e José Alves Pedrosa. A obra da Lagoa da Pampulha é composta pela Igreja São
Francisco de Assis, o Cassino, a Casa do Baile e o Iate Clube.
Além deste, O Brasil possui também o Distrito Federal (DF) que é patrimônio
Mundial desde 1987 por possuir um conjunto urbanístico construído a partir do Plano
Piloto de Lúcio Costa, inaugurado em 1960, incluso no projeto nacional de
modernização do país que foi implantado na gestão do presidente Juscelino
Kubitschek.
O Goiás Velho (GO) foi palco da ocupação e colonização do Brasil Central
nos séculos XVIII e XIX, possuindo um conjunto arquitetônico, paisagístico e urbano
que conta com as igrejas do Rosário, de Santa Bárbara, de Nossa Senhora do
Carmo, Nossa Senhora da Abadia e a Catedral de Santana.
Em Minas Gerais, além da Pampulha, contamos com a cidade de
Diamantina em Minas Gerais, por ter sido considerada o maior centro de extração de
diamantes do mundo no século XVIII e Ouro Preto, palco da Inconfidencista Mineira.
Seu conjunto arquitetônico e urbanístico, foi declarado patrimônio mundial em 1980,
o primeiro bem cultural brasileiro inscrito na lista da UNESCO.
Além das cidades mineiras, Olinda em Pernambuco também foi tombada
pela UNESCO por remeter ao início da colonização portuguesa no Brasil, no século
XVI, no período da cana-de-açúcar. Seu conjunto arquitetônico, urbanístico e
paisagístico foi tombado pela UNESCO com cerca de 1.500 imóveis de diferentes
estilos arquitetônicos:
A cidade de São Luís do Maranhão foi inscrita como Patrimônio Mundial em
1997. O centro histórico da cidade conta com cerca de quatro mil imóveis dos
séculos XVIII e XIX. Entre os mais significativos estão o Palácio dos Leões, a
Catedral, o Convento das Mercês, a Casa das Minas, o Teatro Artur Azevedo.
O Brasil conta também com a cidade de Salvador na Bahia, tombada em
1985, Congonhas em Minas Gerais que teve seu tombamento também em 1985,
São Cristóvão em Sergipe reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO em
2010, São Miguel das Missões no Rio Grande do Sul tombada em 1983, Rio de
Janeiro (capital) e Serra da Capivara no Piauí.
Além dos patrimônios culturais tombados, a UNESCO conferiu título de
Patrimônio Natural Mundial ao Complexo de Áreas Protegidas no Pantanal,
complexo de Conservação da Amazônia Central, a Costa do Descobrimento:
39

reservas da Amazônia Atlântica, Fernando de Noronha e Atol das Rocas, Parque


Nacional do Iguaçu, Reservas da Mata Atlântica e o Parque Nacional da Chapada
dos Veadeiros e das Emas.
Com a finalidade de conferir maior visibilidade aos sítios brasileiros
declarados Patrimônio Mundial, em 2013, a UNESCO em parceria com o Iphan
lançaram Manual de Sinalização do Patrimônio Mundial no Brasil – Orientações
Técnicas para Aplicação cujo objetivo da publicação era estimular gestores e
comunidades locais a adotarem a identidade visual do Patrimônio Mundial na
sinalização dos sítios culturais, naturais e mistos do país, valorizando assim a sua
condição especial de detentores do título internacional concedido pela Unesco.

3.1.2. Atuação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

O Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional é uma Autarquia


Federal constituída pela Lei nº 8.113, de 12 de dezembro de 1990, e pelo Decreto no
99.492, de 3 de setembro de 1990, com base na Lei no 8.029, de 12 de abril de
1990, vinculada ao Ministério da Cultura, tem sede e foro em Brasília, Distrito
Federal, jurisdição administrativa em todo o território nacional, e prazo de duração
indeterminado.
O Iphan tem a finalidade de proteger, fiscalizar, promover, estudar e
pesquisar o Patrimônio Cultural Brasileiro, coordenando e implementando a
avaliação da política de preservação do patrimônio cultural brasileiro com base nas
diretrizes do Ministério da Cultura.
O Instituto foi criado também para realizar a identificação, documentação,
reconhecimento, cadastramento, tombamento e registro do Patrimônio Cultural
Brasileiro, promovendo a salvaguarda, a conservação, a restauração e a
revitalização do Patrimônio Cultural protegido pela União.
Além disso, o Iphan tem aptidão para elaborar normas e procedimentos para
regulamentar ações de preservação do patrimônio cultural, promovendo e
estimulando a difusão do patrimônio cultural, visando sua preservação e apropriação
social, exercer o poder de polícia administrativa aplicando sanções previstas em lei.
É de sua atribuição também desenvolver modelos de gestão da política de
preservação do patrimônio cultural brasileiro de forma articulada entre os entes
40

públicos, a sociedade civil e os organismos internacionais; e promover e apoiar a


formação técnica especializada em preservação do patrimônio cultural.
Outrossim, periodicamente, os países que compõem a Convenção para a
Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural indicam novos bens capazes de
ser declarados Patrimônio Mundial futuramente de modo que esses reflitam a
riqueza e diversidade cultural e natural existente no território, contribuindo para a
compreensão do processo civilizatório da Humanidade.
Esse inventário é denominado de Lista Indicativa e serve como um
instrumento de planejamento de preparação de candidaturas, conforme manual
editado pela Unesco. Por conseguinte, além das atribuições citadas que foram
instituídas pela Lei 8.113, cabe ao Iphan produzir esse documento dos bens
culturais
Atualmente, o patrimônio material protegido pelo Iphan é composto por um
conjunto de bens culturais classificados segundo sua natureza, conforme os quatro
Livros do Tombo: arqueológico, paisagístico e etnográfico; histórico; belas artes; e
das artes aplicadas.
Os bens tombados de natureza material podem ser imóveis como as cidades
históricas, sítios arqueológicos e paisagísticos e bens individuais; ou móveis, como
coleções arqueológicas, acervos museológicos, documentais, bibliográficos,
arquivísticos, videográficos, fotográficos e cinematográficos.
Até o ano de 2017 o Iphan atuou na proteção de 88 conjuntos urbanos
protegidos, sendo realizado 68 tombamentos, três tombamentos provisórios, 14
rerratificações, um tombamento emergencial, dois anexados.
Nestas áreas, o Iphan atuou e investiu recursos, tanto direta, na forma de
obras de qualificação, quanto indiretamente por meio de parcerias com outras
instituições municipais e estaduais, além do PAC das Cidades Históricas e dos
Planos de Mobilidade e Acessibilidade Urbana.
O PAC é um programa de aceleração do crescimento que teve início em
2007, por iniciativa do governo federal e coordenação do Ministério do Planejamento
que realizou o planejamento e execução de grandes obras de infraestrutura social,
urbana, logística e energética do Brasil. Para atender às cidades que possuem bens
tombados pelo iphan, existe um PAC voltado para as Cidades Históricas com R$ 1,6
41

bilhão destinado a 425 obras de restauração de edifícios e espaços públicos, em 44


cidades de 20 estados brasileiros.
Nesse passo, o Iphan teve a atribuição de concepção do PAC das Cidades
Históricas, que está sendo executada com a cooperação de diversos coexecutores,
em especial os municípios, universidades e outras instituições federais, com apoio
técnico da Caixa Econômica Federal (CAIXA) e de governos estaduais.
O Iphan desenvolve também ações de preservação de documentos originais
e digitalização do Arquivo Central, para permitir o acesso, por meio da internet. Esse
programa está em andamento e prevê a integração de acervos e gerenciamento do
sistema de informação pelo Iphan, em todo o Brasil.

A iniciativa do projeto possibilita acesso às informações existentes nos


arquivos por meio da Rede de Arquivos Iphan, além do tratamento e conservação
preventiva dos documentos para evitar o manuseio indevido das fontes históricas.

Além dos programas supracitados, em 4 de agosto de 2010 foi instituído o


Decreto nº 3.551 o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial (PNPI) cujo o intuito é
identificar, reconhecer, salvaguardar e promover as dimensões imateriais do
Patrimônio Cultural Brasileiro, com supedâneo dos direitos difusos e coletivos
relativos a tutela desse bem. Esse programa, através de parcerias com diversas
instituições como universidades, agências de desenvolvimento, organização não
governamental visa promover o apoio e o fomento dessas ações.
Uma das atribuições do Iphan, além das citadas ulteriormente é buscar, por
meio de financiamento, a recuperação de imóveis privados, contribuindo com a
requalificação urbana das áreas protegidas pelo governo federal e que possuem a
qualidade de patrimônio cultural brasileiro.
Nesse diapasão, o instituto desenvolver em parceria com o Banco do
Nordeste e prefeituras, uma estratégia ampla de gestão e intervenção urbana,
visando garantir maior qualidade aos espaços que a população usufrui.
Atualmente, o programa de financiamento está sendo executado em cidades
como Marechal Deodoro (AL); Aracati, Fortaleza, Sobral e Viçosa do Ceará (CE);
João Pessoa (PB); Olinda (PE); e Parnaíba (PI). A celebração de novos convênios
está suspensa, temporariamente, durante a reformulação do programa.
O objetivo do projeto é a melhoria e adequação das condições de habitação
e uso das edificações existentes, manutenção da população residente e dos usos
42

tradicionais, além da viabilização de geração de renda a partir da adaptação física


do bem para o comércio nos centros históricos, desde que sejam preservados os
valores expressos nos processos de tombamento.
De forma prática, durante a execução desse projeto o Instituto oferece a
pessoas físicas e jurídicas recursos para recuperação de imóveis privados situados
em áreas de proteção federal como forma de contribuir para o resguardo da
integridade e valores culturais desses ambientes.
43

4. OS EFEITOS DAS AÇÕES CIVIS PÚBLICAS NA PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO


HISTÓRICO

As ações civis públicas começaram a ser estudas no Brasil em meados da


década de 1970, sob a influência do sistema jurídico commom law, que é um
sistema criado e aperfeiçoado pelos juízes no qual predomina a analogia dos
costumes de determinado povo.
Esse sistema se desenvolveu em alguns países através das decisões
proferidas pelos tribunais, e não através atos legislativos ou executivos.
Através do commom law percebeu-se a necessidade de desenvolver
ferramentas processuais mais adequadas para a resolução de conflitos
transindividuais. Um desses mecanismos foi a ação civil pública.
O primeiro texto legal no território brasileiro a utilizar a “expressão civil
pública” foi a Lei Complementar Federal nº40, sancionada em 13 de dezembro de
1981. A referida lei, também denominada de Lei Orgânica do Ministério Público
outorgava ao Parquet a função institucional de promover o referido instrumento
processual.
Após ampla utilização deste instrumento de defesa de direitos
metaindividuais, os juristas brasileiros verificaram que havia a necessidade da
criação de um dispositivo constitucional regulamentando sua aplicação, a fim de
obter maior eficacia em assuntos que concerniam a solução desses conflitos.
Nesse passo, a ação civil pública surgiu em 1985 regulamentada pela Lei
7.347 de junho de 1985, tronando-se o primeiro instrumento de defesa de interesse
de toda a coletividade.
SANTOS (2017, p.02) esclarece que:

“[...] As ações civis públicas foram criadas visando à


responsabilização por danos causados ao meio ambiente, ao
consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico,
turístico e paisagístico, a qualquer outro interesse difuso ou coletivo,
bem como ainda por qualquer infração à ordem econômica, à
economia popular e à ordem urbanística.” (SANTOS, 2017, p.02)

Além disso, SANTOS (2017, p. 02) elucida que a ação civil pública é de
natureza essencialmente processual, pois seu principal objetivo é oferecer
44

instrumentos processuais aptos a efetivação judicial dos interesses difusos e


coletivos.
Sendo assim, as ações civis públicas em seu dispositivo constitucional
constitui uma inovação no que cerne soluções rápidas e eficientes de conflitos de
interesses metaindividuais, facilitando o acesso à justiça de todas as classes.
Os princípios basilares das ações civis públicas são o de acesso à justiça,
previsto no artigo 5º, XXXV da Constituição Federal, disciplinando que todos tem
acesso à justiça para pleitear tutela jurisdicional.
Essa tutela pode ser preventiva ou reparatória a um direito, fazendo com que
esse princípio tutele não apenas os direitos individuais como também os difusos e
coletivos. Ademais, a Constituição Federal de 1988 abrange a tutela não apenas da
lesão ao direito como também da ameaça de lesão, abrangendo as tutelas
preventivas.
Nos casos de processos coletivos, o que prevalece é a legitimação
extraordinária, possibilitando que pessoas ou entes compareçam a juízo em nome
próprio, para defender interesse alheio.
Além do princípio da do acesso à justiça, as ações civis públicas são
pautadas também no princípio da universalidade da jurisdição, que tem como
finalidade ampliar o acesso à justiça, ofertando jurisdição ao maior número possível
de pessoas, prova disso é que com o surgimento das ações civis públicas houve um
grande aumento na quantidade de demandas, uma vez que em ações que tutelam
direitos individuais homogêneos já é possível resolver em um único processo
questões vinculadas a outros interesses.
As ações civis públicas possuem como princípio norteador também o da
economia processual. Conforme visto, esse tipo de ação possibilita um melhor
custo-benefício, uma vez que consegue-se um maior despenho na atuação do
direito com despesas menores além de empregar uma menor quantidade de
atividades processuais.
Além dos princípios citados ulteriormente, é possível citar o da não
taxatividade, possibilitando o manejo de ações civis públicas em defesa de qualquer
direito difuso e coletivo, tornando possível a tutela de qualquer interesse individual
homogêneo não havendo de se falar em taxatividade de bens suscetíveis de
proteção por meio dessas ações.
45

Outro pilar principiológico das ações civis públicas é o da demanda coletiva,


haja vista a propositura dessas ações não depender da vontade das partes, mas de
uma necessidade social, ao passo que o interesse público deve prevalecer sobre o
privado, sempre observando critérios como o da conveniência e o da oportunidade.
Pode-se citar também o princípio da intervenção obrigatória do poder público
em prol da proteção, preservação e promoção do patrimônio cultural, haja vista, em
casos em que há a necessidade de ação do poder público para assegurar a
integridade de bens culturais, esta deve se dar de imediato, sob pena de
responsabilização, ressaltando-se que essa atuação no que cerne a proteção de
patrimônios históricos e culturais deve ocorrer tanto no âmbito administrativo, quanto
no legislativo e no judiciário, uma vez que é atribuído ao Estado a adoção e
execução das politicas necessários para essa tutela.
Aplica-se também o princípio da máxima efetividade da tutela jurisdicional
coletiva, que decorre da necessidade de efetividade real do processo que envolve
matéria de natureza difusa, não podendo nos contentar com o aspecto meramente
formal ou burocrático.
Cabe ressaltar que, conforme anteriormente dito, a lei 7.347/1985 é uma
norma processual, existindo apenas dois dispositivos artigos dentre os seus
dispositivos, de natureza material, o artigo 10 que tipifica a recusa, o retardamento
ou omissão de prestar dados necessários para a propositura da ação civil como
crime, e o artigo 13 que dispõe sobre o fundo para reconstituição dos bens lesados
Essa lei é voltada para a tutela de direitos coletivos tendo por objeto a
condenação em dinheiro ou cumprimento de obrigação de fazer ou de não fazer.
Contudo, não ha impedimentos para que as condenações sejam cumulativas
dependendo da situação ofensiva, podendo o autor do feito pleitear o cumprimento
de obrigação de fazer ou não fazer cumulado com pedido indenizatório.
SANTOS (2017, p.02) entende que:

“[..].A ação civil pública pode ter por objeto a condenação em dinheiro
ou o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer. Todavia, nada
impede a cumulatividade desses tipos de pedido, ou seja, dependendo
da situação ofensiva ao interesse difuso e coletivo que o autor
pretenda coibir, pode ele pleitear o cumprimento de obrigação de fazer
ou não fazer cumulado com o pedido indenizatório. O objeto, nas
ações civis, é exteriorizado através do pedido, que permite múltiplas
formulações, sendo elas: simples, cumulativo, sucessivo, alternativo e
46

eventual. À vista disto, é necessário a distinção entre o pedido


imediato e mediato.”(SANTOS, 2017, p.02)

A Lei 7.347 de junho de 1985 possibilita que o juízo profira dois tipos de
tutela, a repressiva que é quando a sentença condena o Réu a indenização em
dinheiro, reprimindo a ação ou omissão geradora do dano, em outras palavras, é
proferida depois que o fato ocorreu. E, a segunda é a preventiva, que obriga o
Requerido a fazer ou não fazer prevenindo o dano.
Compete ao foro do local onde ocorrer o dano processar e julgar as ações
civis públicas, justificando tal competência, pela maior facilidade de obtenção e
coleta de provas. Esse tipo de ação sempre é interposta na justiça comum de
primeiro grau, na comarca onde ocorrer o dano ou o perigo de dano.
Em casos em que haja vara federal e interesse da União a competência
passa a ser da justiça federal, todavia, a luz do artigo 109, §3º da Carta Maior de
1988, nas localidades em que não houver justiça federal a competência para julgar
ações civis públicas em que haja interesse da União é da Justiça Estadual. Nos
casos em que o dano tenha efeitos em mais de uma comarca o juiz prevento será
responsável pela lide.
A Lei das Ações Civis Públicas traz a distinção entre os direitos difusos e
coletivos, definindo os difusos como aqueles transindividuais e os seus titulares são
pessoas indeterminadas ligadas por circunstancias de fato, enquanto os coletivos
são caracterizados pelos interesses de um grupo ou categoria.
SANTOS (2017, p.06) traz a seguinte definição:

[…] Os interesses difusos ultrapassam a esfera de um único indivíduo,


caracterizados principalmente por sua indivisibilidade, onde a
satisfação do direito deve atingir a uma coletividade indeterminada,
porém, ligada por uma circunstância de fato. Por exemplo, o direito e
ter um meio ambiente equilibrado. Os interesses coletivos, por sua
vez, pertencem a grupos ou categorias de pessoas determináveis,
possuindo uma só base jurídica, porém, seus sujeitos são
indetermináveis, mas determináveis. Por exemplo, o direito de uma
classe ou sindicato e os interesses individuais homogêneos são
aqueles que dizem respeito a pessoas que, ainda, indeterminadas
num primeiro momento, poderão ser determinadas no futuro, e cujos
direitos são ligados por um evento de origem comum. Por exemplo, os
consumidores que adquirem o mesmo produto produzido em série
com o mesmo defeito.(SANTOS, 2017, p.06)
47

Além disso, a luz do artigo 5º da Lei de Ações Civis Públicas, tem


legitimidade para a propositura dessas ações o Ministério Público, a Defensoria
Pública, União, os Estados, Distrito Federal, os Municípios, as autarquias, empresa
pública, fundação e sociedade de economia mista e associações. No que cerne a
legitimidade passiva, insere-se todos os responsáveis pelo fato que deu causa a
ação. Podendo ser pessoa física ou jurídica.
A lei 7.347 de 1985 atribui ao Ministério Público a legitimidade para propor
ações civis públicas e que, se não intervir no ´processo como parte ele deverá atuar
como fiscal da lei, garantindo, assim a proteção dos direitos constitucionais à
proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente, dos bens de direitos de
valor artístico, estético, turístico e paisagístico, etc.
Nesse passo, a proteção dos patrimônios culturais, conforme previsto
constitucionalmente é uma obrigação imposta ao poder público, com colaboração da
comunidade, por força do artigo 216, parágrafo 1º e 23, III e IV da carta maior e ação
civil pública que é materialização dessa proteção em forma de processo não é mera
faculdade discricionária do Poder público, mas, uma imposição cogente que obriga
juridicamente todos os entes federativos.
.
4.1. BREVE LEVANTAMENTO DO CENÁRIO ATUAL DO PATRIMÔNIO
HISTÓRICO E CULTURA BRASILEIRO

Constata-se que diversos foram os esforços que envolvem o processo de


proteção e valorização dos patrimônios históricos no decorrer de várias décadas.
Inúmeros foram os decretos-leis, programas e instrumentos criados visando essa
tutela.
Prova disso é que até o Supremo Tribunal de Justiça no Recurso Especial
n.1.293.608 – PE assentou a possibilidade da proteção judicial de todo bem histórico
e cultural, mesmo sem tombamento, desde que ele represente uma herança coletiva
e intergeracional do patrimônio ancestral1.
Contudo, nos últimos anos, dados apontam que esse patrimônio encontra-se
em situação de abandono e deterioração.

1 STJ; REsp 1.293.608; Proc. 2011/0101319-3; PE; 2ª Turma; rel. min. Herman Benjamin; DJE
11/9/2014.
48

Em meio a um cenário de crise econômica e restrições do Governo Federal


dos gastos públicos, o patrimônio histórico e culturais brasileiros foram
consideravelmente afetados.
No Estado de São Paulo, o Teatro Cultura Artística em 2008, o Memorial da
América Latina em 2013, o Museu da Língua Portuguesa em 2015, a Cinemateca
em 2016 e por fim, o Museu do Ipiranga foram destruídos total o parcialmente por
incêndios.

Imagem 1-Museu do Ipiranga

Fonte: EL PAÍS

Cite-se que, em decorrência do supracitado, o conselho de Defesa do


Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo
(Condephaat), dispunha de apenas 50.000 reais para realizar a manutenção e
avaliação preventiva de 2.000 bens tombados em 645 municípios no ano de 2018,
quando o valor estimado era de 1 milhão (Jornal EL País, 2018).
49

Já a Fazenda Cruzeiro do Sul, em Paranapanema, interior do Estado que


funcionou como colônia nazista em 1930, cujos o prédio foi construído com tijolos
com o desenho da suástica foi demolido pelo proprietário em 2016.
No Rio de Janeiro, um Grupo de Trabalho sobre Patrimônio Cultural formado
na Assembleia com a participação de representantes do Ministério da Cultura e da
Secretaria Estadual de Cultura, além de órgãos como o Instituto Estadual do
Patrimônio Cultural (Inepac), o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (ligado à
prefeitura), o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e a Fundação Parques e Jardins
desenvolveram uma lista de bens abandonados ultrapassava 200 itens.
Um dos itens que a lista continha era o Palacete São Cornélio, o Convento
do Carmo na Praça XV, que teve sua construção iniciada em 1619 que passou por
várias reformas na era colonial e foi confiscado por dom João VI em 1808 para alojar
sua mãe, Maria I. O monumento levantando em homenagem ao general Osório,
também localizado na praça XV também se encontra em situação de dilapidação.

Imagem 2-Palacete de São Cornélio

Fonte: Rede Brasil Atual

Além dos problemas causados pela falta de verba, abandono, e incêndios,


diversos prédios que compõem o acervo de patrimônios tombados pela UNESCO
50

desabam por falta de manutenção, conforme caso análogo, expõe-se os casarões


do Patrimônio Histórico de São Luís-MA, que sofrem com desmoronamentos
principalmente durante o período chuvoso.

Imagem 3-Ruína do Patrimônio Tombado de São Luís

Fonte: TV Mirante

O II Batalhão de Guardas, no Parque D. Pedro II, região central de São


Paulo. Construído no século 19, o local, que abrigou a guarda imperial, encontra-se
em situação análoga ao de São Luís, correndo risco de desabamento. Conforme o
Jornal El País (2018):

“[…] O complexo está em ruínas, com paredes rachadas e telhados


que podem ir ao chão a qualquer momento. Em nota, o Conselho
informou que ‘o imóvel está sob responsabilidade da Secretaria de
Segurança Pública’ e que já foi aprovado um ‘projeto de intervenção’
mas que ‘após esta etapa, oficiamos os responsáveis, por duas
vezes, solicitando cronograma para realização de obras, sem retorno
até o momento’”(jornal El País,2008).

Por conseguinte, em 2017 foi realizado um levantamento no estado do Pará


de casos de abandono de patrimônios históricos que são acompanhados pelo
51

Ministério Público e detectou-se mais de 150 casos, dentre eles o Palacete Fabíola,
com o seu estilo arquitetônico neoclássico; o Palacete Pinho e o Centenário Prédio
do Mercado de são Brás.
Além destes, inúmeros outros bens tombados pela União, estados e
Municípios, ou de valor histórico, mesmo que não reconhecido encontram-se em
situação de abandono

4.2. ANÁLISE DA EFETIVIDADE DAS AÇÕES CIVIS PÚBLICAS NA


PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO

Não existe um rol taxativo no bojo dos instrumentos que podem ser
utilizados para se proteger o patrimônio cultural brasileiro. Dessarte, qualquer
instrumento que seja apto a contribuir para a preservação desses bens tutelados no
território nacional encontrará guarida no artigo 216, parágrafo 1º, parte final, da
Constituição de 1988 que instituiu o princípio da máxima amplitude dos instrumentos
de proteção ao patrimônio cultural
As ações civis públicas que tiverem sua aplicação efetiva, são de fato, um
dos mais importantes instrumentos de tutela desses bens, previsto no ordenamento
pátrio, sendo capazes de proteger e preservar bens materiais e imateriais que
integram o patrimônio cultural brasileiro.
Isto posto, é perfeitamente viável a defesa do patrimônio cultural, ainda que
de valor não reconhecido formalmente pelo poder público, por meio do acionamento
do Poder Judiciário, a quem toca o amplo dever de afastar qualquer lesão ou
ameaça a direito.
Ocorre que, conforme exposto anteriormente, o Patrimônio Histórico
Brasileiro ainda padece com o abandono, ausência de políticas públicas e de
investimentos, etc. Desse modo carece de análise a efetividade das ações civis
públicas que foram ajuizadas visando essa tutela.
A priori, cumpre destacar que diversas são as sentenças favoráveis a tutela
dos patrimônios Históricos brasileiros, a exemplo da seguinte decisão:

EMENTA: PRESERVAÇÃO DE IMÓVEL CONSIDERADO


PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL DO MUNICÍPIO DE SÃO
LOURENÇO DO SUL. RESTAURAÇÃO DO BEM.
52

DESNECESSIDADE DE REALIZAÇÃO DE PRÉVIO


TOMBAMENTO, SENDO DEVER DO PODER PÚBLICO E DA
COMUNIDADE A PROTEÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL
BRASILEIRO (ARTIGO 216, INCISO V, § 1º, DA CONSTITUIÇÃO
FEDERAL). CHAMAMENTO AO PROCESSO DO INSTITUTO DO
PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN) E DO
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO DO ESTADO (IPHAE).
INOVAÇÃO RECURSAL. AUSÊNCIA DE PROVA CONCRETA E
IMPARCIAL DANDO CONTA DA IMPOSSIBILIDADE DE
RESTAURAÇÃO DO IMÓVEL. CONDENAÇÃO SOLIDÁRIA DOS
APELANTES À RECUPERAÇÃO DO BEM MANTIDA. APELAÇÃO
DO MUNICÍPIO RÉU PARCIALMENTE CONHECIDA E, NA PARTE
CONHECIDA, DESPROVIDA. APELAÇÃO DA SUCESSÃO CORRÉ
DESPROVIDA. (Apelação Cível Nº 70062320338, Terceira Câmara
Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Jerson Moacir Gubert,
Julgado em 29/11/2018).

Podemos citar o Tribunal do Rio de Janeiro como uma referência em


decisões favoráveis a tutela de patrimônios históricos e culturais. Em 2016, o
Tribunal negou em sede recursal a autorização para que o proprietário de um imóvel
localizado na cidade de Cachoeira só Sul o demolisse por possuir características de
inspiração europeia.

IMÓVEL ARROLADO NO INVENTÁRIO DO PATRIMÔNIO


HISTÓRICO-CULTURAL DO MUNICÍPIO DE CACHOEIRA DO
SUL, DO INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E
ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN)) E DO INSTITUTO DO
PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO DO ESTADO
(IPHAE). LICENÇA PARA DEMOLIÇÃO. IMPOSSIBILIDADE.
ART. 216 , § 1º , DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL .
INDENIZAÇÃO POR DESAPROPRIAÇÃO INDIRETA E
ISENÇÃO DO IPTU. DESCABIMENTO. I) No caso, está
justificada a negativa de autorização para demolição do imóvel
de propriedade do autor, visto que apresenta características de
inspiração europeia, com trabalho de carpintaria singular,
constituindo-se raro exemplar de chalé existente na paisagem
urbana, razão pela qual foi incluído no inventário do Município,
do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional) e do IPHAE (Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico do Estado). Segundo o art. 216 , § 1º , da Constituição
Federal, não apenas o tombamento é capaz de criar limitação
administrativa visando à proteção do patrimônio cultural, mas
também inventários, registros, vigilância, desapropriação e
outras formas de acautelamento e preservação. II) Não há falar
em desapropriação indireta. O ente público pode impor
limitações ao uso e gozo d bem inventariado, como medida
para evitar prejuízos ou descaracterização do patrimônio
53

histórico-cultural; todavia, a propriedade do imóvel não é


alterada. Logo, incabível a indenização pretendida. III) Não faz
jus o... autor à isenção do IPTU, visto que a mesma está
prevista apenas para os imóveis tombados (art. 19 da Lei
Municipal nº 1867/81), não tendo direito à repetição do indébito.
APELO DESPROVIDO. (Apelação Cível Nº 70069547628,
Vigésima Segunda Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS,
Relator: Francisco José Moesch, Julgado em 25/08/2016)

Vislumbra-se através dos julgados de todo o Brasil que o Ministério Público


tem desempenhado um papel de suma importância na missão de tutelar os
patrimônios históricos Brasileiros sendo um dos principais proponentes de ações
civis públicas no país.
Interessante notar também que apesar de algumas leis que protegem os
patrimônios históricos já existirem há algumas décadas, ainda existem algumas
divergências quanto a sua aplicação nos tribunais, conforme destacou
brilhantemente o desembargador Irineu Mariani em relatório do acórdão da apelação
nº CNJ: 0188557-05.2016.8.21,7000 no Tribunal do Rio Grande do sul:

A modificação da causa de pedir, acima mencionada, entretanto,


serve para demonstrar a imensa controvérsia que se instalou que se
instalou nessa comarca, de alguns anos para cá, sobre a questão da
preservação do patrimônio histórico em Begé, assim como a
competência de órgãos públicos para a aprovação de projetos. TJ-
RS-AC: 70069783637 RS, Relator: Irineu Mariani, data de
julgamento: 23/03/2018, Primeira Câmara Cível, Data da Publicação

Uma das controvérsias do caso em mesa cingia quanto a necessidade de


uma decisão judicial que agregue a um bem o valor de patrimônio histórico, quando
este imóvel já se encontra protegido mediante ato administrativo. O voto do relator
foi o seguinte:
“[…] Quanto referente ao reconhecimento do valor histórico e
sociocultural do imóvel da casa Ipiranga, tenho que o autor é
carecedor de ação pela falta de interesse de agir, uma vez que
o referido bem já faz parte do acervo de imóveis tombados pelo
IPHAE (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Estadual)”
TJ-RS-AC: 70069783637 RS, Relator: Irineu Mariani, data de
julgamento: 23/03/2018, Primeira Câmara Cível, Data da Publicação

O Desembargador Carlos Roberto Lofego Caníbal em seu voto, analisou de


forma contrária ao voto do relator:
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“[...]posso garantir-lhes que não me parece estarmos frente a


hipótese de falta de interesse processual relativamente à declinação
de pedido de obtenção de declaração judicial, na esfera municipal,
de proteção a bem imóvel de valor histórico, artístico e cultural da
cidade de Bagé, no que diz com a chamada “Casa Ipiranga”. TJ-RS-
AC: 70069783637 RS, Desembargador Carlos Roberto Lofego
Caníbal, data de julgamento: 23/03/2018, Primeira Câmara Cível,
Data da Publicação

O desembargador Roberto Lofego Caníbal entendeu que:

“(..)cabe ao Poder Público, com a colaboração da comunidade,


promover e proteger o patrimônio cultural brasileiro, por meio de
inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de
outras formas de acautelamento e preservação, conforme
expressamente previsto no §1º do supracitado art. 216.” TJ-RS-AC:
70069783637 RS, Desembargador Carlos Roberto Lofego Caníbal,
data de julgamento: 23/03/2018, Primeira Câmara Cível, Data da
Publicação

Assim, o desembargador em seu voto declarou que quanto ao tombamento,


objeto da presente celeuma seria necessário dispor que historicamente consiste, no
ato de inventariar, registrar, arrolar algo em arquivos especiais:

“(…) O Tombamento se trata de um procedimento administrativo no


qual o Poder Público declarará o valor cultural de um bem móvel ou
imóvel, inscrevendo no respectivo Livro do Tombo. Trata-se então,
de um ato declaratório que impõe uma restrição ao Direito de
Propriedade sem, no entanto, suprimir a propriedade de seu titular.
Assim, absolutamente legítimas as palavras do Relator quanto à
importância da proteção do acervo cultural, histórico e arquitetônico
como, inclusive já inúmeras vezes já ressaltado no âmbito desta
Câmara Cível.
A Proteção do Patrimônio Cultural sob o paradigma do Estado
Democrático e Social de Direito instituído na Constituição Federal de
1988, faz com que a sociedade em parceria com o ente estatal
promova a salvaguarda dos bens culturais, por meio de Instrumentos
Administrativos e Judiciais na promoção e eficácia desta tutela, os
quais estão disciplinados no artigo 216 do Texto Constitucional,
como se viu. E mais: são bens tutelados em convenções
internacionais, da qual o Brasil é signatário.” TJ-RS-AC:
70069783637 RS, Desembargador Carlos Roberto Lofego Caníbal,
data de julgamento: 23/03/2018, Primeira Câmara Cível, Data da
Publicação
55

Assim, dada a relevância da proteção do patrimônio histórico, cultural e


arquitetônico, o desembargador entendeu que, o fato de determinado bem já ter sido
tombado, a exemplo do caso concreto, por ente estadual, não retira, por si só, o
interesse e legitimidade do órgão do Ministério Público em postular proteção
também junto ao Município, sobretudo quando o que busca, especialmente, é a
proteção visual do entorno do imóvel tombado.
O desembargador Carlos Roberto Caníbal também aduziu que:

“[…]Com efeito, em face de interpretação do art. 23, parágrafo único


da CF, caberá à Lei Complementar fixar normas de cooperação entre
os entes. Destarte, in casu, há lei nacional versando sobre a matéria,
não havendo nova lei ou disposição normativa que viabilize a
exclusão dos encargos constitucionais de proteção dos bens de valor
arqueológico de responsabilidade deste ou daquele ente federativo
para descarregá-los de forma ilimitada sobre aquele outro. A
responsabilidade aqui não é excludente, vale dizer, a
responsabilidade de um ente federativo não exclui a de outro. Elas
apenas se somam, visando uma maior proteção do bem a ser
tutelado. Dessa forma, a meu ver, com a vênia do Eminente relator,
resta claro o interesse processual do Ministério Público em postular a
declaração pretendida.” TJ-RS-AC: 70069783637 RS,
Desembargador Carlos Roberto Lofego Caníbal, data de julgamento:
23/03/2018, Primeira Câmara Cível, Data da Publicação

Neste ínterim, cumpre ressaltar que, ao menos formalmente, o acesso à


justiça no que tange as ações civis públicas voltadas para a proteção de patrimônios
históricos, tem ocorrido de forma eficiente, fomentando no âmbito dos tribunais
diversos entendimentos sobre a temática.
Contudo, medidas nem sempre são implementadas, de modo, a deixá-lo
concretamente observado, a exemplo, podemos enumerar a diminuição do custo do
processo, a estruturação de defensorias públicas, a celeridade temporal do processo
e o incentivo à tutela jurisdicional coletiva.
Ademais, é importante ressaltar que há alguns fatores que podem vir a
influenciar em uma não efetividade da tutela desses bens por meio de guarida
jurisdicional, dentre eles a morosidade e do judiciário brasileiro e o alto custo dos
processos.
Um adequado acesso à justiça, deve ocorrer de forma ampla, permitindo a
igualdade de todos os jurisdicionados, no sentido de que qualquer cidadão possa ter
56

condições de pedir guarida jurisdicional, de modo que a lei deve prover meios de
garantir tal situação.

Neste sentido, destaca-se o alto custo do processo, mesmo em tutelas


coletivas, que na maioria das vezes acaba por inviabilizar o acesso das pessoas
desprovidas de poder econômico de exercer os direitos que a Constituição e as leis
lhe conferem

Outro fator que prejudica a ampla efetividade dessas ações principalmente no


que diz respeito a possibilidade de pessoas carentes exercerem deus direitos em
juízo está na tardia instituição da Defensoria Pública que, apesar de garantida pelo
texto constitucional desde 1988, ainda não foi estruturada de forma adequada em
vários Estados da Federação.

Cumpre destacar também que de nada serve a garantia de prestação da


tutela jurisdicional se ela for feita de forma tardia. Por essa razão, o legislador
constituinte derivado acresceu ao rol dos direitos e garantias fundamentais previstos
no artigo 5º da Constituição Federal, o da celeridade na prestação jurisdicional, com
uma razoável duração do processo, consignado no inciso LXXVIII, tratando-se, pois,
de se estende a todo processo e para qualquer que seja a parte. Frise-se com isso
que a efetividade do processo está vinculada à sua rapidez e celeridade em
proporcionar uma prestação jurisdicional
57

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Existe uma ampla gama de instrumentos desenvolvidos com o intuito de


tutelar o patrimônio histórico brasileiro, dentre os quais leis, institutos, projetos. A
própria Constituição Federal dispõe dobre essa proteção. Todos esses instrumentos
têm sua aplicação garantida principalmente por meio das ações civis públicas.
Ocorre que, apesar dos inúmeros esforços em tornar essa tutela efetiva,
inclusive com uma atuação bastante significativa do Iphan, da UNESCO e do
Ministério Público, muitos dos patrimônios considerados como patrimônios históricos
e culturais encontram-se em situação de degradação e abandono.
Neste ínterim, reflete-se sobre a possibilidade de haver um descaso do
Poder Público em criar politicas públicas mais eficientes que de fato atendam a s
demandas de manutenção, restauração e proteção desse patrimônio, além da
disponibilização de recursos suficientes para tal.
Além disso, apesar das ações civis públicas serem o principal instrumento
de efetivação dessa tutela, cumpre ressaltar que pleitear esses direitos por meio
dessas ações hoje em dia enfrenta dificuldades similares à dos outros processos
que são ajuizados no Brasil, em outras palavras, essa efetividade torna-se bastante
comprometida devido principalmente a morosidade e as custas processuais.
Por fim, cumpre trazer a baila a grande dificuldade que os tribunais
brasileiros possuem de pacificar entendimentos quanto a aplicação das leis,
principalmente com supedâneo na constituição Federal em vigência, por ela ser
abrangente e não tratar de forma taxativa quanto aos meios de proteção e a
obrigatoriedade dessa tutela por diversas esferas do poder publico, quanto para a
comunidade em geral.
58

5. REFERÊNCIAS

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