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Eventos Extremos e Desastres Naturais

Heryson Ronaldo Barros Domingos, Júlio César da Silva,


Rejane da Silva Lira, Rita de Cássia de Sá Silva1
1
Alunos do Curso de Bacharelado em Geografia da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE.

RESUMO
O presente trabalho apresenta um levantamento teórico sobre o tema eventos extremos e desastres naturais, com
as pertinentes distinções conceituais e classificação; aborda o conceito de risco e perigo; desastres naturais no
mundo; prevenção e mitigação de desastres naturais; bem como apresenta exemplos de eventos extremos e
desastres naturais ocorridos no Brasil, com a devida explanação de suas causas, relação dos danos e atitudes
preventivas aplicáveis aos casos. O tema foi destacado do ponto de vista da climatologia, visto que o presente
artigo foi apresentado como requisito parcial de avaliação na disciplina de Fundamentos de Climatologia do 2 o
período do Curso de Bacharelado em Geografia da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE – turma
2017.1.
Palavras-chave: eventos extremos, desastres naturais, tempo, clima, Brasil.

Extreme Events and Natural Disasters


ABSTRACT
The present paper presents a theoretical survey on the theme extreme events and natural disasters, with pertinent
conceptual distinctions and classification; addresses the concept of risk and danger; natural disasters in the
world; prevention and mitigation of natural disasters; and examples of extreme events and natural disasters
occurring in Brazil, with proper explanation of their causes, listing of damages and preventive attitudes
applicable to cases. The subject was highlighted from the point of view of climatology, since the present article
was presented as a partial evaluation requirement in the discipline of Fundamentals of Climatology of the 2nd
period of the Bachelor Degree in Geography of the Federal University of Pernambuco - UFPE - class 2017.1.
Keywords: extreme events, natural disasters, weather, climate, Brazil.

1. Introdução
O ser humano caracteriza-se pela sua capacidade de adaptação aos diversos ambientes
existentes no planeta. A ocupação humana se deu em todas as latitudes, aprendendo o homem a se
desenvolver e viver de acordo com as condições climáticas locais desde as altas temperaturas
encontradas na região intertropical às austeridades climáticas subtropicais e polares, adaptando-se aos
rigores climáticos de cada área do planeta.
Assim sendo, praticamente nenhuma área do planeta quedou imune à ocupação do homem,
levando as populações a conviver cada vez mais com os riscos que cada ambiente poderia oferecer ao
seu bem-estar.
Por maior que seja o estudo e a compreensão dos eventos atmosféricos, bem como os avanços
científicos, esses eventos são eivados de característica complexidade. Continuam sendo desafiadores,
podendo ocorrer anormalidades que fogem ao comportamento esperado, com causas variadas e que
não seguem uma regra fixa de determinado elemento, fator climático ou outra condição. Já a forma de

1
ocupação do espaço pelo homem tem grande potencial de agravar ainda mais a possibilidade de
ocorrência de desastres naturais.
Neste artigo, serão analisados os conceitos de evento extremo e desastre natural, inclusive do
ponto de vista de organismos internacionais envolvidos com o tema, com respectivas distinções
conceituais e classificação; os conceitos de risco e perigo; desastres naturais no mundo; medidas
preventivas e mitigadoras de desastres naturais; bem como expostos exemplos de eventos extremos e
desastres naturais ocorridos no Brasil, os fatores que provocaram os referidos eventos, danos
verificados e atitudes preventivas aplicáveis aos casos, tudo com destaque para os fenômenos objetos
de estudo da climatologia.

2. Metodologia
O método adotado para a realização deste trabalho foi o de revisão bibliográfica de artigos
científicos, boletins de grupos de pesquisa, livros, apresentações de eventos relacionados ao tema,
imagens de satélites climáticos, mapas e pluviogramas.

3. Evento extremo
No seu 4º relatório em 2007, IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) 2
define evento extremo do ponto de vista físico:
“An event that is rare at a particular place and time of year. Definitions of ‘rare’ vary, but an
extreme weather event would normally be as rare as or rarer than the 10th or 90th percentile of the
observed probability density function.”
“By definition, the characteristics of what is called extreme weather may vary from place to
place in an absolute sense… When a pattern of extreme weather persists for some time, such as a
season, it may be classed as an extreme climate event, especially if it yields an average or total that is
itself extreme (e.g., drought or heavy rainfall over a season).”
Abaixo, segue tradução com colaboração do Prof. Lucas Suassuna Wanderley, que ministra as
aulas de Climatologia no Curso de Bacharelado em Geografia, juntamente com a professora Cristiana
Coutinho Duarte, na UFPE, semestre 2017.2:
Evento extremo é um evento que é raro em lugar e época particular do ano. A definição de
"raro" varia, mas um evento extremo de tempo normalmente seria tão raro quanto ou mais raro que o
percentual 10% ou 90% dos observados em função de sua provável densidade (ou seja, de acordo com
essa definição, o evento, para ser extremo, deve se apresentar abaixo de 10% ou acima de 90% da
média esperada para dada região em dada época, exemplo: precipitação abaixo de 10% ou acima de
90% do comportamento esperado, comentários nossos).

2
IPCC corresponde às iniciais de Intergovernmental Panel on Climate Change, que quer dizer Painel Intergovernamental
para a Mudança de Clima. Esse é o nome de uma entidade criada em 1988, pela Organização Meteorológica Mundial (OMM)
e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Nessa época, já havia preocupações acerca do
aquecimento global. Muitos estudos a respeito estavam sendo desenvolvidos e o IPCC foi estabelecido com a missão de
avaliar as pesquisas, interpretá-las e reunir todas as informações relevantes, tanto técnicas quanto socioeconômicas, em
relatórios abrangentes, de fácil compreensão e acessíveis a todos.

2
Por definição, as características do que é chamado evento extremo de tempo pode variar de um
lugar para outro em um senso absoluto. Quando um padrão de tempo extremo persiste por algum
período, como uma temporada, pode ser classificado como um evento climático extremo, especialmente
se ele produz uma média ou total que seja ela mesma extrema (por exemplo, seca ou chuva forte em
uma temporada).
Da definição acima, podemos extrair, ainda, os seguintes conceitos:
a) Evento extremo meteorológico: É um evento extremo ocorrido em um curto período de tempo.
Exemplo: chuva forte ou ventania com duração de minutos ou horas.
b) Evento extremo climático: É um evento extremo que perdura durante meses, uma estação ou até
mesmo anos. Exemplo: uma seca.
Do ponto de vista social, eventos extremos são aqueles que provocam impactos extremos, tais
como mortes, desabrigados e danos materiais. Neste conceito, leva-se em consideração:
a) a vulnerabilidade do sistema social, ou seja, a susceptibilidade que tem as pessoas, suas atividades,
posses e infraestrutura às perdas e danos quando sujeitas a eventos físicos de diferentes ordens de
magnitude;
b) a resiliência do sistema social, que, por sua vez, tem a ver com a capacidade e tempo de
recuperação após um evento extremo.

4. Desastre natural
Quando os fenômenos naturais atingem áreas ou regiões habitadas pelo homem, causando-lhe
danos, passam a se chamar desastres naturais.
Quanto à definição de desastre natural, esse deve ser compreendido como resultado do
impacto de um fenômeno natural extremo ou intenso sobre um sistema social, e que causa sérios
danos e prejuízos que excedem a capacidade dos afetados em conviver com o impacto.
Imprescindível a presença do homem.
Assim, analisando os conceitos de forma conjunta, podemos dizer que o conceito de evento
extremo do ponto de vista social está incluso no conceito de desastre natural. Ambos são de origem
natural e incidem sobre um sistema social, com a única diferença que o conceito de desastre é mais
amplo, podendo esse ser resultado de eventos não necessariamente extremos, bem como, a depender
do grau de vulnerabilidade e resiliência da comunidade afetada, também não é obrigatório que o dano
verificado seja necessariamente extremo para que se configure um desastre.
Em âmbito internacional, o UNISDR (Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco
de Desastres)3 considera desastre uma grave perturbação do funcionamento de uma comunidade ou de
uma sociedade envolvendo perdas humanas, materiais, econômicas ou ambientais de grande extensão,

3
Órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) criado para coordenar atividades de redução do risco de desastres e
cooperação entre as organizações do Sistema das Nações Unidas e organizações regionais nos campos socioeconômico e
humanitário. https://nacoesunidas.org/agencia/unisdr/

3
cujos impactos excedem a capacidade da comunidade ou da sociedade afetada de arcar com seus
próprios recursos (UNISDR, 2009).
O EM-DAT (Base de Dados Internacional de Desastres) 4 consiste numa base de dados
internacional que cataloga mais de 18.000 grandes desastres ocorridos em todo o mundo desde 1900.
Para o EM-DAT, um dado fenômeno é considerado um desastre quando se verifica pelo menos uma
das seguintes situações:
 10 ou mais pessoas são vítimas mortais;
 100 ou mais pessoas são afetadas;
 declaração de estado de emergência;
 pedido de ajuda internacional.
Quanto à sua classificação, de forma geral, os desastres naturais podem ser classificados
quanto à intensidade, a evolução e a sua duração (modificado de Kobiyama et al, 2006):

a) Intensidade
Tabela 1: Classificação dos desastres de acordo com a intensidade.
Classificação/Nível Intensidade Situação
I Desastre de pequeno porte, onde os Facilmente superável com os
impactos causados são pouco importantes recursos do município.
e os prejuízos pouco vultosos. (Prejuízo ≤
5% PIB municipal)
II De média intensidade, onde os impactos Superável pelo município, desde
são de alguma importância e os prejuízos que envolva uma mobilização e
são significativos, embora não sejam administração especial.
vultosos. (5% < Prejuízo ≤ 10% PIB)
III De grande intensidade, com danos A situação de normalidade pode ser
importantes e prejuízos vultosos. (10 % < restabelecida com recursos locais,
Prejuízo ≤ 30% PIB) desde que complementados com
recursos estaduais e federais.
(Situação de Emergência – SE).
IV Com impactos muito significativos e Não é superável pelo município,
prejuízos muito vultosos. sem que receba ajuda externa.
(Prejuízo > 30% PIB) Eventualmente necessita de ajuda
internacional (Estado de
Calamidade Pública – ECP).
b) Evolução
4
A base é mantida pelo Centro de Pesquisa em Epidemiologia de Desastres, na Escola de Saúde Pública da Universidade
Católica de Louvain, localizada em Bruxelas, na Bélgica. O referido Centro conta com a colaboração de agências não-
governamentais, agências noticiosas e de seguros para manter a base atualizada. http://www.emdat.be

4
Tabela 2: Classificação dos desastres de acordo com a evolução.
Classificação Descrição Exemplo
Súbitos ou de evolução aguda São aqueles que se caracterizam Inundações bruscas, terremotos,
pela rápida velocidade com que o tornados.
processo evolui.
Graduais ou de evolução Caracterizam-se por evoluírem Inundações graduais e as secas.
crônica em etapas de agravamento
progressivo.
Somação de efeitos parciais Caracteriza-se pela ocorrência de Evento extremo de chuva somado
numerosos eventos naturais, a uma ressaca.
semelhantes ou não, cujos
impactos, quando somados,
definem um desastre de grande
proporção.

c) Duração
Tabela 3: Classificação dos desastres de acordo com a duração .
Classificação Descrição Exemplo
Episódicos São esporádicos e extremos, Evento extremo meteorológico,
ocorridos em um curto período como uma chuva forte ou
de tempo. ventania com duração de
minutos ou horas.

Crônicos Duram razoável período de Evento extremo climático,


tempo, podendo se estender como uma estiagem.
durante meses, uma estação,
anos ou até décadas.

5. Perigo e risco
O conceito de perigo tem a ver com susceptibilidade, ou seja, quando um fenômeno natural
ocorre em época e região conhecidas e pode causar sérios danos nas áreas sob impacto há situação de
perigo.
O conceito de risco tem a ver com vulnerabilidade, ou seja, é a probabilidade de perda
esperada para uma área habitada em um determinado tempo, devido à presença iminente de um perigo.
Existe o perigo pela susceptibilidade de um fenômeno. Ocorrido o fenômeno em, ou se
aproximando, de uma área povoada, com possibilidade real de prejuízos, figura-se uma situação de
risco. Se o fenômeno atingir a área povoada, provocando danos materiais e vítimas, será denominado

5
um desastre natural. Caso o mesmo ocorra não ocasionando danos, será considerado como um evento
natural.

6. Desastres naturais no mundo


Em âmbito mundial, tem-se verificado, nas últimas décadas, um aumento das ocorrências de
desastres naturais e dos prejuízos decorrentes.
As populações em risco têm apresentado um crescimento anual em torno de 70 a 80 milhões
de pessoas, sendo que mais de 90% dessa população encontra-se nos países em desenvolvimento, com
as menores participações dos recursos econômicos e maior carga de exposição ao desastre. Em teoria,
os perigos naturais ameaçam igualmente qualquer pessoa, mas, na prática, atingem proporcionalmente
os mais desfavorecidos, devido a uma conjunção de fatores: há um número muito maior de população
de baixa renda, vivendo em moradias mais frágeis, em áreas mais densamente povoadas e em terrenos
de maior suscetibilidade aos perigos (Tominaga e Amaral, 2009).
Desde 1970, os desastres naturais triplicaram-se enquanto duplicou-se o número de pessoas
expostas a deslocamentos forçados como consequência do desregulamento climático, segundo a
Oxfam5.
São muitos os estudos, previsões e eventos realizados para debater o tema. “Estima-se que o
número de deslocados climáticos até 2050 alcance os 250 milhões”, disse Stéphanie Rivoal,
presidente da ONG Ação Contra a Fome, durante o evento “Desajustes climáticos, pobreza e
refugiados”, realizado em Paris, em setembro de 2015 (Instituto Socioambiental, 2015).
Embora o termo refugiado climático seja cada vez mais utilizado, a Convenção das Nações
Unidas para os Refugiados não considera como tal a pessoa deslocada por razões ambientais. Sem esse
reconhecimento jurídico, as vítimas de deslocamentos forçados – resultantes de desastres naturais –
não têm nenhum marco legal que lhes ampare. É um vazio jurídico que precisa ser tratado.

7. Prevenção e mitigação de desastres naturais


As medidas a serem tomadas para a prevenção dos desastres naturais são caracterizadas em
duas ações, segundo Kobiyama (2004), as estruturais (obras de engenharia) e não estruturais
(planejamento, sistemas de alertas e zoneamento ambiental). Todas as medidas dependem de um
monitoramento e modelagem eficientes. As medidas não estruturais são as primeiras a serem aplicadas
para o método preventivo, e caracterizamos passo a passo sua utilização:
 Zoneamento – Observa-se os fatores físicos e territoriais do espaço, para informar qual
área adequada para a ocupação humana, e consecutivamente, mapear as áreas de risco.
No zoneamento é levantado o mapa de perigo (metodologia empírica e física de um local afetado
por um evento extremo) e o mapa de risco (mapeamento dos números residenciais, população,

5
Organização humanitária internacional fundada em 1942. https://www.oxfam.org.br

6
infraestrutura, animais e etc.) que calcula de acordo com o número de habitantes a classificação de
risco daquele determinado local.
 Sistema de Alerta – Tem como objetivo informar a população da área de risco e suas defesas
a ocorrência de um evento extremo para minimizar os danos materiais e humanos. Os quatros
esquemas a serem apresentados são implantados no sistema de alerta: (1) Monitoramento é um
processo continuo de medição de um determinado fenômeno; (2) Transmissão de dados tem como
exemplo a transmissão via satélite; (3) Modelagem é um sistema que gera e aplica modelos
representativos da realidade com o objetivo de simular uma situação proposta pelos dados
monitorados; (4) Orientação é o processo final enviado para as instituições responsáveis para
alertar (exemplo: Agência Pernambucana de Águas Clima - APAC).
 Planejamento e Gerenciamento – O planejamento se baseia no entendimento mecânico dos
fenômenos naturais que são realizadas pelas universidades e entidades de pesquisas, logo após
busca aumentar a resistência da sociedade contra esses eventos, que são realizadas pelos governos
federais, estaduais e municipais, empresas privadas, ONGs e comunidades. Através deste
planejamento pode-se gerenciar as etapas de prevenção propostas por Castro (1999), dispostas em
três etapas: o Pré-evento tem como objetivo a prevenção e preparação, durante o evento atua a
“resposta” ligada a ações emergenciais e registros, e o Pós-evento implica na reconstrução e
reestruturação do local afetado.

8. Exemplos de eventos extremos e desastres naturais ocorridos no Brasil – sistemas atmosféricos


que os originaram, danos sociais e atitudes preventivas aplicáveis aos casos

8.1. Evento extremo em Alagoas e Pernambuco em junho de 2010 – chuvas intensas e


inundações

No mês de maio do ano de 2010, início da estação chuvosa no leste nordestino, houve um
déficit de precipitação nos estados de Alagoas e Pernambuco. Já no mês de junho, em ambos os
estados, a precipitação do período superou a média climatológica prevista em mais de 200 mm,
ocorrendo ao longo de três dias (16, 17 e 18/06/2010).

Figura 1: Dados pluviométricos anuais de Maceió (AL) - 2010.

7
Figura 2: Dados pluviométricos anuais de Recife (PE) - 2010.

Fonte: Site do Instituto Nacional de Meteorologia – INMET.

Nesse período (inverno), foram verificados que os sistemas atuantes próximos à área eram
o Anticiclone Subtropical do Atlântico Sul (ASAS) e Distúrbios Ondulatórios de Leste (DOL)
provocados pela alta nebulosidade da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). Por este
motivo, formaram-se nuvens com um grande desenvolvimento vertical (cumulonimbus)
desencadeando um fenômeno conhecido como tempestade. As inundações ocorridas em vários
municípios pernambucanos foram associadas à alta precipitação atmosférica, que atuou de forma

8
brusca (enxurrada), ocasionando aumento do nível do rio, que transbordou para as áreas chamadas
de planície de inundação.
A grande zona de instabilidade (ZI), inicialmente no leste de Pernambuco, ao longo do dia
16 de junho de 2010 se desloca para as cabeceiras das bacias dos rios Mundaú e Paraíba do Meio,
onde provoca as precipitações iniciais. A ZCIT encontra-se também oscilando para o sul do
hemisfério sul.
No dia 17 de junho, dia de pico do evento chuvoso, a anomalia climática encontra-se
estacionada na região leste do território de Pernambuco, onde as chuvas que já se verificaram no
dia anterior nas cabeceiras dos já citados rios foram intensificadas. As primeiras inundações já
ocorreram neste dia, principalmente nas cidades alagoanas limítrofes à Pernambuco.
No dia 18, a ZI já se encontra amplamente distribuída pelo sul de Pernambuco e no
leste/nordeste de Alagoas. Neste dia, verifica-se, nas cidades ao sul de Pernambuco, como
Palmares e Escada, uma elevação do nível do rio Una, onde o seu leito maior excepcional foi
totalmente tomado. O centro da cidade de Palmares foi devastado, a ponte sob o rio, foi levada
pela força das águas. Em Alagoas, todas as cidades do médio e baixo curso do rio Mundaú foram
atingidas.

Figura 3: Imagem do Satélite Goes-12 - Nordeste brasileiro. Data: 18/06/2010.

Fonte: INPE/CPTEC

9
Danos sociais: De acordo com o Relatório de Avaliação de Perdas e Danos sobre o desastre
natural ocorrido a partir das inundações bruscas em Pernambuco e Alagoas em junho de 2010,
elaborado pelo Banco Mundial, 67 municípios foram afetados, dentre os quais 12 decretaram Estado
de Calamidade Pública e 30 como Situação de Emergência. 20 pessoas morreram em consequência do
evento. Mais de 16 mil casas foram destruídas, mais de 9 mil casas populares danificadas, além de
hospitais, prédios públicos, escolas, pontes, estradas e outros equipamentos sociais igualmente
danificados. Em termos relativos, os municípios menores foram os mais gravemente atingidos. No
total, 740 mil pessoas foram afetadas diretamente pelo evento.
As perdas e danos estimados foram de 3,4 bilhões de reais, concentrados, principalmente, no
setor social, devido ao número de domicílios afetados (2 bilhões de reais). Dos danos estimados nesse
segmento, mais de 90% estão associados à população de baixa renda. Nos setores produtivos e de
infraestrutura, as perdas e danos foram estimados em R$ 425 milhões e R$ 444 milhões,
respectivamente.
Atitudes preventivas aplicáveis ao caso: A prevenção das chuvas intensas e inundações
sobre áreas afetadas se dá pelos mecanismos Estrutural e Não Estrutural. No mecanismo Não
Estrutural, mapeamento das áreas de risco e monitoramento através do sistema de alerta para
identificar um possível desastre natural, em que a defesa civil atuará de forma urgente durante o
evento. A desocupação das residências sobre as planícies de inundações, abrigando a populaçao em um
local seguro é uma etapa primordial para a prevenção do desastre; as comunidades podem contribuir
com a educação ecológica de não jogar lixo nas ruas, que logo é levado pelas chuvas para os rios,
entupindo os canais e bueiros e ocupando o próprio leito do rio. O desmatamento influencia na perda
do solo, resultando no assoreamento dos cursos d’água, onde o governo local deve fiscalizar essas
extrações. Na parte Estrutural, deve-se observar nas áreas urbanas o escoamento da água da chuva
para os rios, devido à alta concentração de construções e estradas com cimento e asfalto,
impossibilitando a absorção da água pelo solo.

8.2. Evento extremo na região serrana do Rio de Janeiro em janeiro de 2011 - chuvas intensas e
deslizamentos
Evento considerado por muitos o maior desastre natural do Brasil, foi causado por um
fenômeno raro que combina fortes chuvas com condições geológicas específicas da região. Porém, foi
agravado pela ocupação irregular do solo e a falta de infraestrutura adequada para enfrentar o
problema. Na madrugada do dia 12 de janeiro de 2011, uma enxurrada de toneladas de lama, pedras,
árvores e detritos desceu a serra arrastando tudo pelo caminho. Os rios se encheram rapidamente,
inundando as cidades. A destruição foi maior nas cidades de Nova Friburgo e Teresópolis.
As nuvens registradas pelo satélite GOES-12 mostram que elas não seriam tão verticalmente
desenvolvidas, mas foi o suficiente para provocar acúmulos de chuvas intensas, que superou os
150mm em alguns municípios.

10
Figuras 4 e 5: Imagens do Satélite Goes-12. Rio de Janeiro.
Data: 12/01/2011. Hora: 00:00 e 01:00, respectivamente.

Fonte: INPE/CPTEC

Nesse período (verão), para o Centro-Oeste e Sudeste do Brasil a precipitação aumenta devido
à atuação de vários sistemas atmosféricos. A Zona de Convergência de Umidade (ZCOU), oriunda do
ar quente e úmido produzido pela floresta amazônica, segue seu percurso ao Centro-Oeste devido à
Cordilheira dos Andes impedir sua passagem para o sudoeste, encontrando-se com a Zona de
Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), formando um “paredão” de precipitação no Brasil. Temos,
também, como atuação forte o Vórtice Ciclônico de Alto Nível (VOCAN), que padroniza este formato,
a frente fria vinda do sul do país atua também neste contexto, e, a partir deste contraste, podemos
observar os fatores fenomenológicos que ocasionaram chuvas acima da média. O escorregamento
ocorrido neste dia na Região Serrana do Rio de Janeiro foi associado à chuva acima da média, mas seu
principal fator foi o relevo, cuja altitude varia de 300 a 2800 metros, ocasionando o efeito Barlavento,
que concentrou as nuvens nesta região, e logo erodiu a serra.
A água da chuva foi responsável por dois fenômenos distintos. Primeiro, a cheias nas
nascentes dos rios, no alto das serras, que causou as inundações, em que o sistema de drenagem dos
municípios era obsoleto e não conseguiu escoar as águas. E, mais grave, os deslizamentos. O solo das
encostas é constituído por uma camada fina de terra e vegetação sobre a rocha. Quando fica
encharcado, se descola da serra, descendo como uma avalanche. A grande inclinação das serras fez
com que o deslizamento atingisse até 150 km/h, aumentando a potência de destruição.

11
Figura 6: Carta sinótica de superfície das 00Z (12/01/2011).

Fonte: INPE/CPTEC

Danos sociais: Os desastres ocorreram nos municípios de Petrópolis, Teresópolis, Nova


Friburgo, Sumidouro e São José do Vale do Rio Preto. O número de mortes ultrapassa os 750, e são
mais de 200 desaparecidos. Segundo a Defesa Civil estadual, aproximadamente 8.000 pessoas ficaram
desalojadas (dirigiram-se para a casa de vizinhos ou familiares) e cerca de 6.000 ficaram desabrigadas
(aquelas que perderam tudo e necessitaram de abrigos públicos). O evento foi apontado como o maior
desastre climático ocorrido no Brasil em toda a história (CPTEC – 2011).
Atitudes preventivas aplicáveis ao caso: O Zoneamento é essencial para identificar essas
áreas de riscos, análise do solo das serras em que há ocupação humana para classificar o nível de risco
e alertar a defesa civil antes do evento. O fator a ser monitorado é a precipitação de chuvas através do
pluviômetro, radar meteorológico e monitoramento com satélite, devido à possível erosão causada pela
chuva. A modelagem procede na simulação, através dos dados monitorados, utilizando modelos físicos
e analógicos. Numa etapa pré-evento, a atuação de uma prevenção estrutural pode ser aplicada, através
da geotecnologia o solo exposto a um intemperismo pode-se reestruturar e construir um escoamento

12
apropriado. O governo deve atuar também fiscalizando as extrações de barro, que podem intensificar a
ocorrência de desastres dessa natureza quando houver ocorrência de chuvas intensas.
8.3. Evento extremo no norte de Minas Gerais em 2007 e 2008 – estiagem
A região norte de Minas Gerais tem um clima semiárido, e vegetação de caatinga. A média
anual de chuvas varia entre 700 a 900mm.
Entre março e novembro de 2007 não choveu nesta região e seguiu o clima seco durante os
meses seguintes, com precipitação abaixo da média. No total, foram 15 meses de estiagem. Vários
reservatórios naturais sofreram com o desabastecimento.

Figura 7: Mapas de precipitação anual no período chuvoso. Minas Gerais - 2005-2011.

Fonte: INMET

Observa-se, nas imagens acima, que a precipitação no período chuvoso (outubro, novembro,
dezembro e janeiro) está abaixo da média, provocando o evento climático de seca. O efeito El Niño,
que provoca o aquecimento da água do oceano Pacífico na costa do Peru e Equador, foi um agente
responsável pela baixa precipitação nesta região. O fenômeno El Niño, ao aquecer as águas do Oceano
Pacífico Equatorial, provoca o enfraquecimento dos ventos alísios, o que modifica a circulação da
atmosfera de alto a baixo nível e a distribuição da umidade nas regiões tropicais e de latitudes médias
e altas.
Danos Sociais: Na região norte de Minas Gerais, 25 municípios foram afetados pela estiagem,
com decretação de estado de emergência. Foram registrados 54 mil focos de incêndios, 190 mil mortes
de gados, perda de R$ 2 bilhões em safra agrícola, a produção de leite caiu 60 % e houve queda de
70% nos quatro milhões de hectares para pastagem.
Atitudes preventivas aplicáveis ao caso: No pré-evento é necessário o zoneamento das áreas
de perigo (clima semiárido) para depois mapear as áreas de risco (habitação) e construir em cada

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residência um sistema estrutural de armazenamento da água da chuva para consumo pessoal. Também
é importante o trabalho das ONGs para reeducar a população sobre a utilização econômica de água. O
governo municipal deve fiscalizar a distribuição igualitária para cada residência das águas dos poços
perfurados. Durante o evento é importante o auxílio da Defesa Civil junto aos órgãos governamentais
e o Exército Brasileiro para manter o abastecimento de água para consumo pessoal.

9. Conclusão
Ao redor do globo tem se verificado um aumento no número de desastres naturais, os quais se
devem ao aumento populacional, ocupação desordenada do solo – notadamente por questões sociais e
falta de políticas públicas -, e ao sensível aumento na quantidade e intensidade de eventos extremos.
Lembrando que o nosso trabalho trata dos desastres naturais, portanto, quanto à origem, não
tratamos de outras naturezas de desastres – como os originados pela ação puramente antrópica -, muito
embora possamos concluir pela natureza mista do que aprendemos por desastres naturais, já que esses,
em sua quase totalidade, são complicados, intensificados e/ou agravados por ações ou omissões
humanas.
Durante as pesquisas, verificamos a infinidade de classificações existentes sobre o tema, nem
sempre precisamente delimitadas, ou muitas vezes polêmicas e questionáveis, mas, conforme a
metodologia utilizada, de revisão bibliográfica, e objetivos do presente trabalho, trouxemos as mais
utilizadas de forma geral.
Sendo certo que em tempos de integração das informações, ampliação de conceitos e interação
de ideias, cada vez mais observa-se que conceitos e classificações se permeiam e interpenetram,
devendo ser um ponto de partida para a compreensão, o estudo, organização e transmissão do
conhecimento, e não partes estanques que possam obstar e/ou mitigar o desenvolvimento das ciências.
Ao analisarmos os eventos extremos e desastres naturais que ocorrem no Brasil e no mundo, e
os assustadores números das populações expostas aos riscos e seu perfil sócio-econômico, observamos
que não dá para imaginar uma política de redução de desastres que não passe pelo desenvolvimento
social e econômico dos povos, além, é claro, de amplo gerenciamento ambiental e políticas de
desenvolvimento sustentável.
Disso fazem prova os desastres naturais ocorridos no Brasil que trouxemos como exemplo.
No mais, esperamos ter alcançado o objetivo do presente trabalho, transmitindo ao leitor uma
ideia geral sobre o tema, sob prisma da climatologia, abordando o conhecimento que vai dos conceitos
– estanques – aos eventos propriamente ditos – dinâmicos e complexos.

10. Referências
SOUZA, Júlio César Oliveira de. Análise do Evento Climático Extremo Ocorrido na Região Leste
de Alagoas: Bacias Hidrográficas dos Rios Mundaú e Paraíba do Meio. Revista Brasileira de
Geografia Física. Vol. 4, No 2 (2011). Disponível em:

14
<http://www.revista.ufpe.br/rbgfe/index.php/revista/article/viewArticle/221>. Acesso em: 20 out.
2017.
WOLFFENBÜTTEL, Andréa. O que é? IPCC. Desafios do desenvolvimento: a revista de
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