Você está na página 1de 9

JESUS É O REINO SEM REI – E ISSO É UM ESCÂNDALO

PARA MUITOS
identidademandacaru.blogspot.com/2016/12/jesus-e-o-reino-sem-rei-e-isso-e-um.html

Cristãos católicos celebram neste domingo o 2º Domingo do Advento,


tempo de preparação para o Natal. Desta vez, a espera é vocalizada por
João, o Batista, que anunciava, pouco antes de Jesus apresentar-se para
sua missão pública: “o Reino dos Céus está próximo” (em Mt 3,1-2)
O anúncio e a proclamação do Reino (βασιλεία – basileia em grego) foram
o centro da missão de Jesus. Batizado por João e depois de um tempo de
recolhimento no deserto, Jesus iniciou sua pregação praticamente
repetindo a expressão do profeta: “está próximo o Reino dos Céus” (Mt
4,17).
A tradução mais corrente das falas tanto de João como de Jesus nas duas
passagens acima é a de que Reino “está próximo”. Mas uma tradução
mais colada ao texto grego irá nos introduzir mais aceleradamente à
proposta deste artigo. Em ambos os casos, a forma verbal utilizada foi
ἤγγικεν – ēngiken, que quer dizer mais apropriadamente “aproximou-se”.
Portanto, o texto mais fiel ao original nos informa que “o Reino dos Céus
aproximou-se”, ou “fez-se próximo”, ou ainda, acercou-se de nós. [Devo
este esclarecimento sobre a tradução mais colada ao espírito
original do texto grego ao amigo padre Francisco Cornélio Freire
Rodrigues, de Mossoró-RN]
No Sermão da Montanha, Jesus voltou ao assunto, indicando que o Reino
pertence aos pobres de coração disponível para a caminhada e aos
perseguidos por causa da justiça (em Mateus e Lucas); na oração que ele
ensinou a seus amigos há um pedido para que o Reino se estabeleça,
tanto no texto mateano com no lucano. São dezenas de menções diretas
de Jesus ao Reino. Em Lucas, elas chegaram a uma culminância e
explicitação: o Reino foi dado aos pobres no caminho (Lc 12,32; 22,29); e,
mais ainda, o Reino havia chegado –“pois eis que o Reino de Deus está no
meio de vós” (Lc 17,21).
Ao longo da história, o Reino foi apontado como meta por muitos
teólogos, poetas e profetas. Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da

1/9
prelazia de São Felix do Araguaia e um dos profetas mais apaixonados da
história da Igreja, formulou assim: “o Deus de Jesus é o Deus do Reino.
(…) Nisto, fundamentalmente, consiste a espiritualidade cristã: em
professar, praticar, anunciar e esperar o Deus de Jesus, que é o Deus do
Reino (…). O reinocentrismo é a chave de nossa espiritualidade, como o é
do próprio ser da Igreja”.[1] O Reino, para com Pedro, deve ser
“causa/objetivo” da vida do cristão.[2]
Sempre tive a intuição de que havia ainda “algo mais” que a ideia de
causa e objetivo. Pois quando Jesus disse que o Reino aproximou-se e
está entre nós chegou, abrem-se para nós algumas interrogações. O que
exatamente se aproximou e está entre nós? Como chegou? Há outra
pergunta mais crucial insinuada aqui: quem se aproximou e agora está
entre nós? Ora, se ele, Jesus, havia chegado e feito sua habitação entre os
homens, ele não estava na verdade referindo-se a ele próprio quando
disse que “o Reino dos Céus fez-se próximo (acercou-se da humanidade)”
e que “o Reino de Deus está no meio de vós”? Jesus não se apresentou ele
mesmo como o Reino de Deus?
Um dos maiores teólogos da segunda metade do século 20 e do início
deste 21, o dominicano belga Edward Schillebeeckx[3], lançou uma forte
luz sobre o assunto: o “Reino de Deus tem a ver essencialmente com a
própria pessoa de Jesus de Nazaré”; este Reino é “a presença de Deus no
mundo, reveladora e portadora de salvação” –portanto, referido
diretamente a Jesus Cristo[4]; portanto, Reino de Deus, “a palavra-chave
da mensagem de Jesus, é a expressão bíblica para designar o ser de
Deus”.[5]
As conclusões de Schillebeeckx têm uma implicação dramática sobre toda
a construção pessoal, teológica, comunitária e eclesial a respeito de Jesus
e o Reino, pois subverte por completo os modelos tradicionais e o
pensamento conservador sobre o cristianismo.
Pois se Jesus é, ele mesmo, a presença do Reino entre nós, apresenta-nos
uma realidade paradoxal: se o Deus encarnado é o Reino, ele não
reivindica para si a condição de Rei; e, de fato, não há, nos Evangelhos,
momento algum em que Jesus coroe-se Rei do Reino, o que na verdade
seria uma incongruência sobre todos os aspectos; ao contrário, ele retira-
se da cena quando o povo deseja fazê-lo rei (Jo 6,15); diz a seus discípulos
que quem quiser ser o primeiro deve ser o último (Mc 33,37); que o laço
2/9
que une os seres humanos é o amor e não a obediência ou a submissão,
como Jesus mesmo deu testemunho em sua vida (Jo 13,34-35). Há
formulações teológicas segundo as quais uma evidência de que Jesus
seria “Rei” estaria na genealogia em Mateus, que o apresenta como
descendente do Rei Davi, mas havia em Israel muitos de descendentes de
Davi à época de Jesus –como seu próprio pai, José.
Mesmo a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, pouco antes de sua
prisão, tortura e morte, quando ele é aclamado pelas multidões como
“filho de Davi” (Mt 21,9), “Rei” (Lc 19,38) e “rei de Israel” (Jo 12,13) é uma
cena paradoxal e marcada pela ironia, pois este “rei não rei” entra na
cidade montado num prosaico jumentinho (conforme profecia
messiânica de Zacarias) e não num cavalo soberbo, o que seria esperado
de um rei verdadeiro e poderoso. Na cena descrita em Marcos, a
aclamação do povo era distinta e apontava exatamente para o Reino:
“Bendito o reino [basileia] que vem!” (Mc 11,10).
Toda a perspectiva muda, se a presença de Jesus representou a chegada
do Reino, e não a chegada de um Rei: “Reino de Deus é a eliminação do
doloroso contraste entre governantes e governados (também quando
Deus é visto como governante tirânico deste tipo)”.[6]
Em outras palavras: Jesus é anúncio-presença de um Reino sem rei.
Com isso, encerre-se desde logo toda e qualquer interpretação do Deus
onipotente, “um Deus de bota e guerra, de inquisição e fogueira, de
ortodoxias e excomunhões”.[7] Pois este é uma fraude, e não o Deus de
Jesus.
É uma surpresa, um choque para a concepção que se tornou senso
comum no discurso acerca de Deus: “o Deus que se manifestou em Jesus
não é certamente o que poderíamos esperar”.[8]
Que Deus esperamos ou foi construído na tradição judaico-cristã a partir
do que Freud definiu como “Deus ilusório”? Alimentado “exclusivamente
dos traços não conflitantes que foram atribuídos ao pai na infância”, este
é um Deus que, imagem do pai protetor da criança débil e indefesa dos
perigos do mundo, proporciona a segurança que o adulto (o crente)
precisa para subsistir num mundo hostil. Da mesma maneira que o pai da
infância, o Deus da ilusão, o Rei de um tipo específico de concepção
cristã, sabe e conhece tudo (é onisciente), pode tudo (é onipotente) e tudo
vê (é onipresente). De acordo com este modelo, se o cristão/a cristã
3/9
aguentarem “firmes” todos os sacrifícios neste “vale de lágrimas”
ganharão um prêmio ao final –depois da morte.[9]
A partir desta construção, o homem e a mulher religiosos tendem a
perpetuar uma relação infantilizada, sem que, neste terreno de sua vida
consigam amadurecer como em outros, ao longo de sua trajetória na vida
adulta. É facilmente observável a postura de tantas pessoas na oração,
pedindo a Deus que “organize o universo em seu proveito, da mesma
maneira como a criança pede ao adulto que organize o mundo a seu
favor”. O novo Deus da criança, em substituição ou paralelo aos seus
primeiros deuses (os pais) apresenta-se como o Pai-Rei que sabe tudo,
pode tudo e é objeto de veneração e, igualmente, temor e receio. Há
como que uma suspensão dos elementos de amadurecimento para este
ou esta crente: “Os processos de socialização, de contato com a realidade
e de limitação humana não interferem na área do pensamento religioso
com a mesa intensidade com que o fazem, tão beneficamente, no
restante do pensamento”.[10]
Este Deus não está presente nos Evangelhos; neles, não há um Deus
todo-poderoso que tudo vigia e pune, obcecado pelo pecado e a culpa.
Em Jesus e para Jesus, Deus é amor e liberdade, e seu Reino é a
expressão vívida disso. A imagem distorcida não nasceu nos Evangelhos e
sim onde se anseia pelo Pai-Rei ou se instrumentaliza muito
apropriadamente tal figura. Esta imagem “proveio de outros lugares, e é
precisamente nos sentimentos infantis de onipotência que a psicanálise
nos revelou onde devemos situar uma de suas origens mais decisivas.
Nesse lugar efetivamente se ampara a cumplicidade entre uma catequese
que desvirtua a imagem do Deus de Jesus, insistindo nos temas do poder,
e uma escuta que prazerosamente se encaixa [e se aproveita] a essa
maneira de apresentação da mensagem”.[11]
Qual o âmago de uma fé cristã adulta? O abandono da ilusão infantil do
Rei e o ingresso no projeto de Jesus do Reino sem rei, de iguais: “toda
pedagogia da fé cristã deve passar, pois, pelo abandono do egocentrismo
religioso, que converte Deus num mero aliado dos seus próprios desejos
e interesses. Particularmente, a catequese deveria insistir na essencial
dimensão histórica de nossa fé, apenas porque na história é possível o
encontro com Deus que se fez história”.[12] A 1) dimensão histórica e 2) o
caráter absolutamente relacional do cristianismo, com uma Pessoa que
4/9
veio ao nosso encontro –e não com o Rei que se estabeleceu sobre nós- e
com todas as pessoas num Reino de iguais em roda compõem o duplo
desta possibilidade de amadurecimento da fé.
Os conservadores logo saltarão da cadeira para acusar tais formulações
de coisa da Teologia da Libertação ou de comunista, contrapondo a elas o
suposto projeto de uma mística baseada em submersão interior ou de
busca de “paz e harmonia com o todo universal”. É um mecanismo de
defesa, que se apresenta mais ou menos elaboradamente conforme seu
autor. No entanto, é impossível escapar ao fato que sem o enfrentamento
com a realidade, sem o projeto histórico e sem o lançamento da pessoa
na teia relacional que a vida convida, será impossível alcançar uma
experiência religiosa cristã nos moldes propostos por Jesus. As vidas dos
grandes místicos da Igreja, como São João da Cruz, Santa Tereza, Santo
Inácio de Loyola ou Carlos de Foucauld, cujo centenário da morte
celebramos neste 1º de dezembro, testemunham “o que o desejo de
Deus pode acarretar em termos de uma paixão avassaladora, sem que
esse arrebatamento jamais tivesse como consequência, por outro lado,
um enclausuramento regressivo e narcisista que viesse a ignorar as
condições da realidade. Muito pelo contrário, o desejo de Deus se
constituiu sempre nos grandes místicos num elemento propulsor
fundamental de seu empenho obstinado de transformação da realidade
histórica que a cada um deles coube viver”.[13]
Como deixar para trás o Deus da criança (configurado pela imagem do
Rei) e substituí-lo pelo Deus adulto do projeto de Jesus (configurado pela
imagem do Reino sem rei)? O caminho não será feito sem uma profunda
reconversão, que dê adeus às ilusões e seguranças. Será preciso superar
a nostalgia do pai e assumir a responsabilidade intransferível por suas
decisões. Mais ainda, o Reino sem rei de Jesus só é concebível se –usando
aqui de termos com explicito referencial psicanalítico proposto por
Morano- na comunidade cristã o lugar do pai (do rei) deve permanecer
vazio.
A tradicional contraposição a este projeto, que ouvi à farta durante minha
experiência monástica diz que a Igreja não é uma democracia –o que de
fato não o é. Mas ela mal esconde outro fato bem mais incandescente:
ela não é uma monarquia absoluta. Deve ser, na verdade, muito mais
que uma democracia, se de fato pretende apontar para o Reino e, em
5/9
sua ação, buscar fazê-lo emergir nos aquis-agoras da existência: a Igreja
deve (deveria) ser uma fraternidade na qual a escuta atenta, o respeito
pela diferença e a busca comum pelo Reino sem rei prevaleça sobre
qualquer outro tipo de relação ofertado pelos sistemas econômicos,
culturais e de poder.
É exatamente este o drama que se desenrola aos olhos de todo o
planeta, o choque de dois projetos: o do Reino sem rei, retomado de
maneira cada vez mais radicalizada por Francisco, e o de Rei-monarca
absoluto defendido pelos cristãos conservadores.
Foi assentado nesta concepção de Jesus-Reino que Francisco apresentou-
se. Ele não se anunciou no dia de sua eleição, em 13 de março de 2013
como “Papa” e sim como “bispo de Roma” –portanto, um irmão entre
irmãos. Ele tem arquivado todo o aparato imagético que projeta a Igreja
como pirâmide e monarquia. Despiu-se das roupas suntuosas e vestiu-se
de branco, com simplicidade. Tem buscado desmontar a equação de
poder centralizado, hierárquico e burocrático da Cúria romana,
reorganizando a Igreja numa orientação de descentralização e partilha.
Não projeta a imagem do Pai-Rei, mas a do irmão mais velho (aos 79
anos) e, sobretudo, do “organizador-anfitrião das ocasiões de Reino”,
como incentivador de encontros como os dos movimentos populares do
mundo, com líderes religiosos de todos os quadrantes, com os marxistas
europeus, ou tomando a iniciativa no acolhimento dos refugiados e sem
teto (os últimos da atualidade), sempre respeitando, até mesmo em suas
bênçãos, os não crentes, escolhendo por diversas vezes o silêncio em vez
de palavras carregadas de proselitismo.

Uma nota importante: isso não quer dizer que a Igreja seja “Reino”. Ela
deve apontar para o Reino, mas não pode cair na ilusão e disseminar a
falácia de que seria ela mesma o locus do Reino na terra. A cristalização
desta concepção no passado levou a Igreja Católica a se apresentar como
reino-sociedade perfeita, o que levou a um monumental processo de
empurrar toda a sujeira para debaixo do tapete pois, afinal, era preciso
“vender” perfeição –a expressão mais visível e terrível desta concepção
são os milhares de casos de pedofilia que se estenderam por décadas e,
provavelmente, centenas de anos. O Concílio Vaticano II superou tal
desvio ao definir a Igreja simultaneamente como “santa e sempre
6/9
necessitada de purificação” [pecadora] na constituição dogmática Lumen
Gentium (Luz dos Povos), expressão que os conservadores insistem em
“corrigir”, mantendo a ideia de Igreja-Reino-Sociedade Perfeita.
Nada ilumina mais o embate que opõe os conservadores (Rei) a Francisco
(Reino sem rei) que a polêmica sobre o Sínodo da Família, a exortação
pós-sinodal Amoris Laetitia e, sobretudo, a questão do direito à
comunhão de divorciados casados em segundas núpcias. Francisco
apresentou uma solução inédita, que deixou os conservadores
horrorizados: cada sacerdote com sua comunidade (as paróquias) irão
decidir o assunto, tendo como norte a orientação de que a perspectiva
eclesial deve ser de acolhimento e não de condenação. É uma verdadeira
revolução para aqueles que construíram sua fé –e a impuseram aos
crentes- com base em decretos e isso pode e isso não pode.
O arcebispo italiano e teólogo Bruno Forte captou a profundidade desta
mudança que Francisco propôs à Igreja, na qual se inaugura “um estilo
magisterial inédito em muitos aspectos: que busca combinar liberdade e
consciência pessoal no marco de um horizonte de fé no qual a ninguém é
permitido agir sozinho e no qual ninguém se anime a abdicar da própria
responsabilidade como cristão adulto na fé. Uma mensagem para novos
protagonistas, novos tempos e novos desafios aos quais os cristãos do
terceiro milênio deverão responder solidariamente com serena confiança
na fidelidade do Deus vivo a seus filhos e a toda sua Igreja” (se quiser, leia
aqui).
É uma convocação ousada, numa contemporaneidade em que não
apenas na Igreja, mas igualmente nas esferas da política, das relações de
trabalho e na indústria cultural há uma dinâmica de infantilização na qual
se estimula “trocar liberdade” por comando. Lembro-me de um diálogo
marcado por silêncios tensos com um monge já beirando os 40 anos de
idade, anos atrás, no qual ele dizia como lhe era “benéfico” enxergar o
superior como o Jesus-Rei: “eu não preciso pensar, não preciso me
preocupar, não preciso me desgastar decidindo nada”. Deus e seu
superior haviam se tornado provedores de todas as suas necessidades,
entregando-lhe em “doses justas” amor e punições.
Mas Jesus ofertou algo bem diferente: um Reino de liberdade. E em
momento algum transigiu com sua própria liberdade; ao contrário,
afastou Pedro com rispidez quando seu amigo pensou que ia tomar
7/9
decisões por ele (Mt 16,23): “o Deus de Jesus é um Deus que exige que
respeitemos sua liberdade, já que apenas dessa maneira podemos ser
fiéis à nossa”.[14]
Jesus, ele próprio o Reino sem rei, aponta para uma vida de escolhas que,
sem ignorar a dimensão abissal do inconsciente, sugere um diálogo
maduro com o outro/outra, com a dureza/beleza da realidade e a uma
caminhada saudável (de saúde, salus, salvação): “Ele vem oferecer uma
mensagem de vida e salvação e, de certo modo, despreocupar-nos de
uma busca angustiada de redenção pessoal, nos convidando antes a um
projeto de transformação de nosso mundo em um mundo digno de Deus
e digno do homem”.[15]

O tema para os cristãos e cristãs deve deixar de ser uma religião legalista
e opressora, obcecada por cruzadas moralizadoras. Como indica
Francisco, passam a ser prioridade os temas mais caros a Jesus: a
injustiça, a miséria, a hipocrisia, a avareza e o engano.
O Deus de Jesus é um Deus-amor e, por isso mesmo, por paradoxal que
pareça, um Deus que faz escolhas e discrimina: “o amor que nele nos é
revelado não é um amor que confunde e anula diferenças, não é um
amor indiscriminado, não é utilizado como uma bela escapada dos
inevitáveis conflitos da realidade. O amor que vemos em Jesus é o amor
que discrimina: é um amor que opta numa decidida preferência pelos
mais fracos, marginalizados e oprimidos; é um amor que não evita
conflito e que, precisamente porque ama, enfrenta, denuncia, acusa e
ataca os que são fonte de opressão, de hipocrisia, de ódio, de
marginalização.”[16]
É possível agora entender porque este Jesus de Nazaré é um risco que
precisou e precisa ser continuamente eliminado: acabou o conforto do
Rei-Pai que tudo decide, está denunciado e escancarado aos olhos de
todos o regime de opressão dos poderosos em todos os níveis.
O Reino é Jesus, por isso ele foi e é a boa nova para a humanidade. Mas
uma advertência final é necessária: o Deus-amor não é um mágico;
exatamente porque ama quer caminhar com os seus e fazer junto a
experiência. Jesus não veio ao mundo com uma vara de condão para
deixar tudo colorido e bonito com seu toque.
8/9
Veio para apresentar-nos a nós mesmos e os outros a nós, para nos
enxergarmos como amigos e amigas, especialmente os pobres e
desprezados do mundo. Sua vinda “não significa porém, que ‘o Reino de
Deus e sua justiça’ (Mt 6,33) seja diretamente para esses pobres a
libertação da pobreza, da falta de meios e da opressão. Significa que
Jesus arranca os pobres do autodesprezo por serem marginalizados”.[17]
Os pobres e desprezados, hoje 99% da população do planeta, são
redimidos e libertados no Reino de Jesus que é o próprio Jesus: pois,
agora, podem renunciar às ilusões infantis e aos critérios de valor dos
sistemas que os esmagam e moverem suas vidas pela dinâmica do Deus-
amor.

Por Mauro Lopes


______________________

Disponível em: http://outraspalavras.net/maurolopes/2016/12/03/jesus-


e-o-reino-sem-rei-e-isso-e-um-escandalo-para-muitos/

9/9

Você também pode gostar