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Suplemento Nós,doRN Diário Oficia l do Estad o d o Rio Grand e do Norte
Suplemento
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Nós,doRN

Diário Oficia l do Estad o d o Rio Grand e do Norte -

Ano

I

-

N º 0 3 - Fevereiro de 2005

NATAL
NATAL

Suplemento

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nós, do RN

Natal - Fevereiro de 2005

Apresentação

Uma tarefa cumprida

Rubens Lemos Filho

N ão poderíamos iniciar melhor 2005, como

o fizemos em janeiro, oferecendo deste à

clientela do Diário Oficial do Rio Grande

do Norte uma excelente edição do suplemento "nós, do RN", mostrando todo o vigor da política cultural empreendida pela governadora Wilma Maria de Faria. Trouxemos os reflexos da origem quando Sua Excelência, à frente da Prefeitura do Natal, criou a Fundação Capitania das Artes - Funcart. Além da sua historicidade, o pleno funciona- mento da Funcart é mostrado na sua pauta de ativi- dades e pela elaboração e implementação do plano nascido da 1ª Conferência Municipal de Cultura convocada em parceria com a Fundação José Augusto.

E está na Fundação José Augusto, a nível esta- dual, o desenvolvimento das novas atividades cultur- ais do Rio Grande do Norte, destacando-se entre elas as Casas de Cultura - extensão do Palácio da Cultura ao território norte-rio-grandense. Pela entrevista do presidente da FJA, escritor François Silvestre, a "nós, do RN", tivemos a dimen - são dos avanços que o Governo Wilma Faria deu no campo das artes, promovendo a reestruturação da Orquestra Sinfônica, a volta do Coral Canto do Povo e construção do Teatro de Cultura Popular. Salientou-se, neste Suplemento do Diário Oficial, o Palácio da Cultura, que abriga a Pinacoteca do Estado, vinculada ao Centro de Documentação da FJA, compondo um acervo de quinhentas peças, que podem ser apreciadas gratuitamente.

Editorial

Carnaval de paz e alegria

Miranda Sá

C om índices de violência

inferiores aos do ano

passado,

o

carnaval

norte-rio-grandense atravessou o chamado Reinado de Momo em paz e alegria. E as notícias de bons festejos chegaram de todos os quadrantes, com excelentes per- formances nos tradicionais car- navais de Areia Branca, Barra de Maxaranguape e Macau e a duração de sete dias de folia no Seridó, com o epicentro em Caicó, onde brilhou a Ala Ursa do Poço de Santana. Para alegria dos tradicionalis- tas, tivemos a revivência dos car- navais antigos, que mobilizou multidões para a Ribeira, em

Natal. Também na Cidade Baixa

da capital, as escolas de samba e os blocos de índios mantiveram, jubilosamente, o desfile já cinqüentenário. Espalhando-se pela Grande Natal, saíram os

memoráveis blocos

Kengas", "Baiacu na Vara" e "Os Cão", além das troças que cobri- ram os litorais Norte e Sul. Pelas cidades interioranas regis- traram-se ruidosas manifestações carnavalescas, com excelente orga- nização, nos municípios de Alexandria, Alto do Rodrigues, Apodi, Dix-sept Rosado, Felipe Guerra, Galinhos, Jardim de Piranhas, Lagoa Nova, Mossoró, migrante para Tibau, e Umarizal.

"das

Diante deste fato histórico, este Suplemento Multicultural do Diário Oficial do Rio Grande do Norte não poderia alhear-se. A maior festa popular do País e do Estado faz parte da vida nacional e sentimo-nos na obrigação de registrar a sua História. Assim, os que fazem "nós, do RN" trabalharam com a determinação de trazer o Carnaval dos velhos tempos, para ser transmitido às novas gerações e contribuir para as pesquisas necessárias à preservação dos costumes. Damo-nos satisfeitos com esta edição de fevereiro de "nós, do RN" e esperamos que os nossos leitores também. Evoé, Momo!

Correspondências

Para Miranda Sá

sadores e escritores que já habitualmente

fã da publicação.

) (

o nós, do RN merece homena-

É isso, camarada.

a

si

mesmo (e a outros

não encontram espaço para publicação do resultado de suas pesquisas. Além de apoiar esses autores, Nós, do RN estimu- la outros pesquisadores e estudiosos. Sou

Abraço

carinhoso

do

gens especiais, pois revela o Rio Grande

do Norte

Estados onde chega) e traz à luz pen-

Maurício

Azêdo.

(Jornalista. Presidente da Associação Brasileira de

Imprensa - ABI)

Estado do Rio Grande do Norte Assessoria de Comunicação Social Wilma Maria de Faria Governadora

Estado do Rio Grande do Norte Assessoria de Comunicação Social

Wilma Maria de Faria Governadora do Estado:

Carlos Alberto de Faria Gabinete Civil do Governo do Estado

Rubens Manoel Lemos Filho Assessoria de Comunicação Social

Manoel Lemos Filho Assessoria de Comunicação Social D.E. I. Rubens Manoel Lemos Filho Diretor Geral em

D.E. I.

Rubens Manoel Lemos Filho Diretor Geral em exercício

Henrique Miranda Sá Neto Coordenador de Administração e Editoração

Juracir Batista de Oliveira Subcoordenador de Finanças

Eduardo de Souza Pinto Freire Subcoordenador de Informática

nós, do RN

editor-geral

Miranda Sá

chefe de redação

Moura Neto

equipe redacional

Paulo Dumaresq - reportagem João Ricardo Correia - reportagem João Maria Alves - fotografia

diagramação e arte final

Edenildo Simões Alexandro Tavares de Melo

pesquisa

Anchieta Fernandes

colaboradores

Carlos Morais Emanuel Amaral Rubens Lemos Filho Moura Neto Anchieta Fernandes

apoio gráfico

Willams Laurentino Valmir Araújo

Fernandes apoio gráfico Willams Laurentino Valmir Araújo DEPARTAMENTO ESTADUAL DE IMPRENSA Av. Câmara Cascudo, 355

DEPARTAMENTO ESTADUAL DE IMPRENSA Av. Câmara Cascudo, 355 - Ribeira - Natal/RN Cep.: 59025-280 - Tel.: (084) 232-6793 Site: www.dei.rn.gov.br - e-mail: dei@rn.gov.br

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Natal - Fevereiro de 2005

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TudoTudo começoucomeçou nosnos bacanaisbacanais dada antiguidadeantiguidade

Moura Neto

N ão se sabe ao certo, até hoje, a origem do car- naval. A maior festa

popular coletiva deste país, no entanto, tem certamente raízes nas festas pagãs das sociedades primiti- vas. Para alguns estudiosos, a comemoração do carnaval advém de costumes das comunidades agrárias, onde homens e mulheres, por volta de 10 mil anos a.C., usavam máscaras, pintavam os cor- pos, bebiam bastante e dançavam até cair para espantar os demônios da má colheita. Outras correntes de pesqui- sadores acreditam que o carnaval foi uma herança dos cultos realiza- dos pelos egípcios, gregos e romanos em nome de seus deuses – Ísis, Baco e Dionísio, respectiva- mente. Estes rituais, como se sabe, consistiam em verdadeiras orgias. Licenciosidades que se vê ainda hoje, de forma simulada, durante o nosso conhecido reinado de Momo. Seja como for, a Igreja foi tole- rante com o carnaval. Combateu os abusos e excessos, claro, e procu- rou imprimir nova orientação às festividades. Mas foi tolerante a ponto de inserir a festa no seu ca- lendário religioso. O carnaval, ainda hoje, termina na penitência da quarta-feira de cinzas, antecedendo a Quaresma dos católicos. Na Roma do Papa Paulo II, no século XV, o carnaval compreendia corridas de cavalo, desfiles de car- ros alegóricos, brigas de confete, lançamento de ovos e inúmeras outras manifestações populares

de ovos e inúmeras outras manifestações populares O combate do Carnaval e da Quaresma, 1559. Pintura

O combate do Carnaval e da Quaresma, 1559. Pintura a óleo de Pieter Bruegel

realizadas no pátio externo do seu Palácio. Consta que o baile de más- cara foi introduzido nas festas reli- giosas nesta época, chegando ao auge no século XVI. O costume logo foi incorporado pela corte, sendo utilizado principalmente pelas damas como arma de sedução. O rei Carlos VI foi assas-

sinado numa destas festas, quando estava fantasiado de urso. Na França romântica do século XIX, o carnaval adquiriu a feição de festa artística, prevalecendo a

elegância dos bailes e dos desfiles alegóricos. Até que no começo do século XX começou a perder força na Europa, mantendo-se como tradição apenas em algumas

França, Itália e

Carnaval vem de “carrum novalis”, que significa “carro naval”

cidades

da

Alemanha.

Também

à

origem

Pode ter surgido da expressão latina “carrum novalis”, que significa “carro naval”. Era numa espécie de carro alegóri-

não

carnaval.

Controvérsia

consenso

do

termo

quanto

co, em forma de barco, no qual os romanos antigos celebravam sua festa. Pode ter se originado de outra expressão do latim, “carne, vale”, que quer dizer “adeus, carne”, numa menção à abstinência que passou a vigorar na quarta-feira de cinzas. Se por um lado não há como afirmar qual a procedência da festa e o significado do seu nome, por outro, nos dias atuais, ninguém desconhece o que caracteriza o carnaval no Brasil. Euforia coletiva, desabafo popular, divertimento público, com pitadas de manifes- tações folclóricas, representadas, por exemplo, nos blocos dos sujos e dos mascarados.

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nós, do RN

Natal - Fevereiro de 2005

Suplemento 4 nós, do RN Natal - Fevereiro de 2005 Cena de Carnaval no Rio de

Cena de Carnaval no Rio de Janeiro do século XIX. Gravura de Jean Baptiste Debret

C om a colonização do Brasil pelos portugueses, o país herda, também, o hábito de

comemorar o carnaval, ou melhor, o entrudo europeu. Somente mais tarde, já no início do século XX, foram acrescentados elementos africanos que deram originalidade à festa brasileira, como as escolas de samba. O carnaval que se brincava no Brasil colônia naquela época, porém, tinha semelhanças sobretu- do com o que acontecia na Itália renascentista: uma brincadeira de rua violenta, onde eram praticados abusos e até atrocidades, atirando- se ovos, farinha de trigo, cal, goma, laranja podre e água suja em quem passava. Muitos protestos surgiram diante desse carnaval selvagem que desembarcou no país com as primeiras caravelas e os foliões de além-mar. Por isso o entrudo foi se

CarnavalCarnaval chegachega aoao BrasilBrasil comcom lusitanoslusitanos

tornando mais civilizado. Ao invés das substancias grosseiras, água per- fumada e bisnagas cheias de vinho. Até que, em 1885, foram introduzi- dos os lança-perfumes, de origem francesa. Data desta época, tam- bém, os bailes de máscaras, cuja procedência é a mesma. Depois, vieram as fantasias. E se antes não havia um ritmo musical que caracterizasse o entrudo, com os bailes firmaram-se as melodias que simbolizavam o evento. A primeira música composta exclusi-

vamente para o carnaval foi a mar- cha “Ô abre alas”, de Chiquinha Gonzaga, em 1899. O corso (desfile de caminhões e carros sem capota) virou moda a partir de 1907, quan- do as filhas do presidente Afonso Pena fizeram um passeio pela via carnavalesca no carro presidencial, no Rio. Começou a desaparecer com as dificuldades de tráfego e a modernização dos automóveis. Algumas figuras carnavalescas conhecidas no Brasil têm origem, portanto, da cultura européia.

Colombina, Arlequim e Pierrô, por exemplo, eram personagens da comédia italiana. Colombina era uma criada sedutora e volúvel, que vestia trajes de cores variadas, como o seu amante Arlequim, rival de Pierrô pelo amor da Colombina. Arlequim representa o palhaço, o cômico. Pierrô tem como caracterís- tica a ingenuidade. Outro perso- nagem, o Momo, foi inspirado no bufo, ator que representava peque- nas comédias teatrais para divertir os nobres portugueses. (MN)

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Natal - Fevereiro de 2005

nós, do RN

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os blocos de rua

Acervo Lenine Pinto

de 2005 nós, do RN 5 os blocos de rua Acervo Lenine Pinto Pelles Vermelhas: bloco

Pelles Vermelhas: bloco que brincou em Natal nos anos 30

Anchieta Fernandes

E ntrudo, palavra derivada do latim arcaico –

entroydo – que significa “entrada da

Quaresma”. É com este nome que o car-

naval era brincado no Brasil até o século XIX, período no qual os povos católicos se permitiam ao excesso de bebida, comida e de intimidade para com o semelhante. Jogava-se água suja e farinha nas pessoas, brincadeira da qual gostava de participar o próprio Imperador Dom Pedro I. No Rio Grande do Norte, nem mesmo o juiz de Direito, o tabelião e o vigário da paróquia de São José do Mipibu, no Agreste, foram poupados de um banho de cuia d’água em 1886. Abuso que ajudou a mudar os rumos desta manifestação popular. A partir de então as autoridades norte-rio- grandenses passaram a ser mais intolerantes com os foliões que exageravam nas brincadeiras, até que, em fevereiro de 1900, o então chefe de Polícia do Governo Alberto Maranhão, Francisco Carlos Pinheiro da Câmara, apelidado de Chico Farofa, apreciador de folguedos populares, como o bumba- meu-boi e o pastoril, proibiu definitivamente o “entrudo d’água, tintas e massas”. Findava o século do entrudo, começava o do carnaval propriamente dito. Antes disso, aqui e acolá já pipocavam iniciati- vas que sinalizavam com a mudança da característi- ca da folia em terras potiguares. No mesmo ano em que aconteceu o episódio que causou reviravolta em São José do Mipibu, um grupo de foliões, em Mossoró, fundava um bloco de frevo denominado Os Guaranis. Anos depois, em 1897, um bloco car- navalesco percorreu as ruas de Macaíba. E o carnaval foi se firmando no Rio Grande do Norte como uma brincadeira mais civilizada. Por influência do que acontecia no Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, o povo começou a usar laran- jinha com água limpa e perfumada e a jogar papel co-

lorido e picado, o popular confete, nos outros foliões. Nasciam, no início do século XX, os primeiros blocos de rua realmente organizados. Em Natal, destacaram-se, entre outros, o bloco Maxixeiras, cujos integrantes usavam roupas berrantes e cestas cheias de verduras, frutas e flores. Desfilavam de madrugada, acordando a cidade com o estribilho “plantei maxixe, nasceu quiabo, minha gente venha ver, venha ver que diabo!”. Surgiram também Os Jandaias, que editavam um jornalzinho intitulado Diário Oficial; O Cão Jaraguá, fundado por um grupo de maçons, e Divisão Branca, criado pelo poeta Ferreira Itajubá, que também era

desenhista e inovou colocando carros alegóricos no seu bloco. Aliás, vale salientar, que os poetas renomados

daquela

Olimpio Batista Filho, João Estevam, Otoniel Menezes e Jaime Wanderley, este último, além de tudo, um grande folião, escreviam as letras dos hinos dos blocos da cidade, que os jornais divul- gavam. Em 1909, numa tarde de carnaval na Natal pacatamente provinciana, os jornais noticiavam o desfile da menina Zuleide Barreto, filha do Capitão- Doutor Maximiano Barreto, que percorreu as ruas da capital em carro alegórico que homenageava o jornal A República, órgão que tinha colunas espe- cializadas na cobertura da festa. A sociedade de então recorria à luxuosa Barbearia Quincó, situada na rua 13 de Maio (atual Princesa Isabel), para comprar fantasias e adereços:

Açucena,

época,

tais

como

Lourival

laranjinhas coloridas, bisnagas, relógio d’água, con- fetes e borboletas. Na década de 10, a família Botelho fundou o primeiro bloco com o nome Zé Pereira – em homenagem ao folião português, cujo nome verdadeiro era José Nogueira de Azevedo Paredes, um sapateiro que numa segunda-feira de carnaval saiu pelas ruas de sua cidade tocando fre- neticamente zabumba, fazendo surgir imitadores por toda parte, inclusive no Brasil, nos carnavais seguintes.

Viva o Zé Pereira Que a ninguém faz mal Viva a bebedeira No dia do carnaval!

Acervo Umberto

faz mal Viva a bebedeira No dia do carnaval! Acervo Umberto Bloco de Elite Lunik, na

Bloco de Elite Lunik, na folia natalense da década de 70

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nós, do RN

Natal - Fevereiro de 2005

E xatamente no ano da re- volução modernista das artes, em 1922, os desfiles de car-

naval foram transferidos da rua da Palha (que depois se chamaria Vigário Bartolomeu) para a avenida Tavares de Lira, na Ribeira. Teve iní- cio, então, o desfile de automóveis sem capota ou de capotas arriadas, lotados de foliões, que jogavam, de um carro para outro, jatos finos de lança-perfume – das marcas Vlan, Rigoletto, Rodouro, Rodo Metálico e Colombina, produzidas pela com- panhia paulista Rhodia e vendidas em bisnagas de vidro ou metal numa loja que se chamava Vianna & Cia. Estes desfiles ficaram sendo conhecidos como corso. Acontecia também, durante sua realização, “batalhas” de confetes e serpentinas coloridas que deslizavam no ar com o movimento lento dos carros. O trajeto geralmente era feito entre o obelisco às margens do rio Potengi até o coreto da praça José da Penha, de onde se iniciava o percurso de volta. As lindas mocinhas da época, fina flor da sociedade, fantasiadas, acenavam sorridentes, contribuindo para realçar as faixas publicitárias de empresas patrocinadoras fixadas nos automóveis. O ambiente era por demais democrático. Tanto que, em 1928, desfilou pela Tavares de Lira o bloco dos Fascistas. Ao final da década de 20, os clubes sociais e o Teatro Carlos Gomes, hoje Alberto Maranhão, começaram a realizar animados bailes carnavalescos – os chamados “balmasqués”, que já haviam tido um precursor, em 1915, quando o bloco Divisão Branca, do poeta Ferreira Itajubá, promovera um destes bailes no teatro. Toda a sociedade participava da festa. O presidente do Estado do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine, participou de um anima- do baile no Aero Clube, em 1929, conforme registrou a imprensa. Era costume, naquela época, usar fantasias. Juvenal Lamartine se deixou fotografar para a revista Cigarra ladeado por um grupo de “chineses” e “chinesas”, na entrada do Aero Clube, criativamente deco- rado como a Caverna de Mefistófeles, trabalho do artista Erasmo Xavier. O maestro Garibaldi Romano era o regente de uma orquestra que embalava os foliões nos salões dos clubes. Os letristas das músicas procu- ravam abordar temas atuais. Em 1934, no rastro do filme King Kong, foram compostas marchi- nhas que falavam dos macacos. O bar popular “Cabana do Cego” rea-

Acervo Edgar Dantas

Aero Clube nos anos 20
Aero Clube nos anos 20

dede salão,salão, blocosblocos dede eliteelite ee oo corsocorso

Carnaval na Avenida Tavares de Lira anos 30 Acervo Carlos Lyra
Carnaval na Avenida Tavares de Lira anos 30
Acervo Carlos Lyra

lizou, nesta época, um concurso de glosas carnavalescas. No corpo de jurado figuravam ninguém menos do que Luís da Câmara Cascudo e Jorge Fernandes. Detalhe: os premi- ados receberam caixas de cerveja Cascatinha, Antarctica e Brahma. Ao mesmo tempo, o carnaval de rua foi se enriquecendo cada vez mais com elementos da cultura popular durante a década de 30. Surgiam os Papangus, figuras enro- ladas em lençóis e/ou usando más- caras de caveiras, que saiam desfi- lando pelas ruas e avenidas. Os grupos de foliões costumavam “assaltar” as casas dos amigos, numa época em que esta palavra tinha conotação amistosa e suave, para beber, comer e brincar. Com o advento da Segunda Grande Guerra e a presença das tropas americanas em Natal, na década de 40, os pracinhas de Tio Sam invadiram também o carnaval de clube, criando inclusive os seus próprios redutos, como o Dowtown Club, e caindo na folia de rua. É muito divulgada uma foto do bar-

beiro e boêmio Zé Areia, figura fol- clórica de Natal antiga, vestido de mulher, em plena folia, cercado de marinheiros ianques.

desfiles são

transferidos da Tavares de Lira para a avenida Rio Branco (e depois para as

avenidas Deodoro e Prudente de Morais). Os palanques eram arma- dos no Grande Ponto, onde as orquestras tocavam marchinhas, frevos e sambas. São os anos em que os jovens da classe média formam os blocos de elite, que desfilavam em carros alegóricos puxados por trator. Os mais antigos lembram dos Karfagestes, Jardim de infância, Puxa Saco e Ressaca. Também muitos blocos de “índios” fizeram seus batuques e fumaram seus cachimbos ali em frente ao Novo Continente. As marchinhas do compositor potiguar Dosinho se tornavam sucesso. “Eu não vou, vão me levando”, cantada pela famosa Marlene, da Rádio Nacional. E o nosso carnaval vai parar na tela do cinema, em 1955, quando o fotógrafo José Seabra fil- mou cenas dos bailes do América, Aero Clube, Assen, Confeitaria Cisne e da praia de Areia Preta, dando origem ao filme “Coisas da Vida”, que foi apresentado no cine- ma Rio Grande em 10 de junho daquele ano. (AF)

Nos

anos

50, os

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Natal - Fevereiro de 2005

nós, do RN

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Acervo Gutemberg Costa Acervo Celso da Silveira Bandagália Carnaval anos 80 Samba - Carnaval anos
Acervo Gutemberg Costa
Acervo Celso da Silveira
Bandagália Carnaval anos 80
Samba - Carnaval anos 60
Escola
Diplomatas nos

A s primeiras escolas de samba a ani- marem o carnaval natalense com o som das cuícas, tamborins, violões e

cavaquinhos surgiram das dunas no final da década de 30. Batuque no Morro foi uma destas agremiações. Em 1950, Severino Guedes fun- dou a Asa Branca, que no decorrer dos anos foi amealhando dezenas de troféus. Os intelectuais continuaram não só partici- pando ativamente do carnaval, como buscando na festa motivo de inspiração. A Rádio Poti transmitiu em 1958 a novela “O Pierrô Escarlate”, de autoria do potiguar Jayme Wanderley. Naquele mesmo ano, registre-se, o Aero Clube realizou em seus salões o I Baile dos Cronistas, promovido pela recém-criada Associação dos Cronistas Carnavalescos de Natal, que teve Expedito Silva como primeiro presidente. Pois bem, durante este baile foi entregue o troféu Djalma Maranhão para a foliã mais animada, ninguém menos do que a poetisa Zila Mamede. Em 1960 começava o longo reinado de Paulo Maux como Rei Momo do carnaval, por onde passaram soberanos de todas as estirpes, gordos e não tão gordos, simples e intelectua - lizados, sérios e simpáticos, como Givaldo Batista, que era repórter de “A República”.

Em 1962 foi criado o bloco que anos depois começou a fazer muito sucesso na mídia,

inclusive nacional. Os Cão, na praia da Redinha, onde os participantes se lambuzavam com a lama dos mangues. Foi na década de 70 que os clubes sociais promoveram as matinês infantis, valorizando o pequeno folião, que em 1988 teria em natal sua primeira escola de samba, a Escola de Samba do Futuro, iniciativa da Febem.

A década de 80 foi próspera em aconteci-

mentos inusitados. Severino Galvão, que havia sido Rei Momo algumas vezes, inconformado com a perda do título, se lança como “Rei do Protesto” no carnaval de 1981, desfilando e comparecendo a bailes de clube com coroa e cetro. Em 1984, foi fundada a Federação das Agremiações Carnavalescas de Natal. E um trágico acidente provoca a morte de 20 compo- nentes e alguns músicos do bloco Puxa Saco,

sinalizando com o final dos desfiles de rua dos blocos de elite.

A alegria e a animação, contudo, não param.

Em 1986, os três dias de folia momesca em Natal foram vitaminados pelas trinta toneladas de som do Trio Elétrico de Dodô e Osmar, que veio de Salvador para imprimir sua marca nas ruas da cidade. Esta década viu ressurgir o bri -

lho e a irreverência das bandas. As mais famosas eram a Bandagália (de in- telectuais e artistas), Xodó, do Sol, Tamanduá (que fez a alegria das crianças, com uma repre- sentação de pano e madeira deste animal, medindo 10 metros, cujos foliões levavam car- tazes avisando ao formigueiro – numa referên- cia ao então prefeito Marcos César Formiga - que o tamanduá “vem ai”), Senhor Sol e Senhora Lua (com dois bonecos de pano e espuma, de cinco metros de altura), do Cajueiro (Pirangi), Filhos da Pauta (dos jornalistas). Daí por diante o carnaval foi tomado pela presença dos efeitos tecnológicos especiais e pelos corpos nus, culminando com a realização do carnaval fora de época, o Carnatal, que desvirtuou o sentido da verdadeira manifestação popular do carnaval. Por isso merece aplausos a iniciativa do escritor Gutenberg Costa, que em 2002 idealizou e concretizou o Movimento Antigos Carnavais, com desfiles de foliões puxa- dos pelas bandas de frevo pelas ruas da Cidade Alta e da Ribeira, ao estilo dos balmasqués. Época em que faziam sucesso marchas, frevos e sambas como “Quem sabe, sabe”, de Ari Barroso; “Linda flor de madrugada”, de Capiba; e “Acorda, escola de samba”, de Herivelto Martins e Benedito Lacerda. (AF)

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nós, do RN

Natal - Fevereiro de 2005

Acervo SECTUR
Acervo
SECTUR

Retratos de car-

em branco e preto

Francisco das Chagas Lima Rei Momo de 1998 e 2001, com governadora Wilma de Faria, na ocasião prefeita de Natal

Paulo Jorge Dumaresq

C lubes, ruas e avenidas repletas de

palhaços, arlequins, pierrôs,

colombinas, odaliscas, zé-pereiras,

mascarados e papangus, exalando alegria e felicidade ao som de frevos e marchi- nhas ingênuas. Era esse o panorama na Natal dos antigos carnavais do século XX. Aberta à descontração e à irreverên- cia, a cidade tem história para mostrar quando o assunto é folia de Momo. Tudo está documentado em acervo pertencente ao pesquisador e escritor Gutemberg Costa, que conseguiu reco- lher mais de 500 registros fotográficos em quase três décadas de coleta. O escopo é a preservação da memória do carnaval natalense em sua fase áurea. A antiga idéia de transformar um álbum caseiro na maior coleção de fotografias do Rio Grande do Norte, sobre o tema carnaval, só foi possível ser colocada em prática graças à doação de familiares, ami- gos e foliões, alguns arrependidos. O acervo documental compreende o período de 1919 a 2004, priorizando as oito primeiras décadas do século passado, quando foliões anônimos, carnavalescos, artistas, intelectuais, políticos, reis e rai- nhas (do carnaval) dividiam as atenções dos fotógrafos de plantão, ao emprestarem vida e frescor à capital do Estado numa ‘ofegante epidemia que se chamava o carnaval’, na expressão do compositor Chico Buarque de Holanda. Debruçado sobre o acervo, dá para entender porque o carnaval é a mais democrática das festas populares. De

repente, o olhar pára no instantâneo do ex-prefeito Djalma Maranhão, um folião

infatigável, posando de cacique e seguran- do o cachimbo da paz, na companhia da consulesa francesa Dominique e de uma amiga aviadora da mesma origem, na folia de 1962. Mais adiante cai nas mãos imagem do ex-governador e atual senador, Garibaldi Alves Filho, dividindo

mesa com Erivan

França, o ex-Rei Momo Paulo Maux

e a Rainha, no final da década de 1960.

A governadora

Wilma de Faria, à época prefeita de Natal, também foi

retratada entregan- do troféu ao Rei Momo de 1998 e

2001, Francisco das Chagas de Lima.

Ainda na seara política, identifica-se facilmente o então candidato a vereador Nelson Freire, em registro de 1981, pres- tigiando o bloco Magnatas, do bairro do Alecrim, que apresentava ainda o folião Gutemberg Costa – na foto, o segundo

da direita para a esquerda – sem a barriga proeminente e a barba grisalha que con-

serva nos dias de hoje.

No ‘bloco’ dos intelectuais, o olhar

pousa na foto do jornalista e poeta Celso

da Silveira, todo cortesia com a Miss Rio

Grande do Norte, Socorro Gurgel, no Aero Clube, no carnaval de 1957. Um

ano depois, Celso torna-se presidente da Associação dos Cronistas Carnavalescos, fundada em 10 de janeiro de 1958. Outro flagrante históri- co registra, de um lado, o escritor Nei Leandro de Castro, e, do outro, o pres- idente da Sociedade Artística e Estudantil, José Sales, no Baile do Pierrô, na sede do Clube do Rádio Amador, nos distantes anos 1950. Atente-se ainda para a foto do jornalista e escritor Berilo Wanderley, na condição de pierrô mas- carado. Imagem não menos rara é a da Caverna de Mephistopheles, datada de 1929, tendo sido adap- tada para o Aero Clube pelo consagrado cenó-

sido adap- tada para o Aero Clube pelo consagrado cenó- Gutemberg Costa: pesquisador grafo Erasmo Xavier,

Gutemberg Costa: pesquisador

grafo Erasmo Xavier, a partir de idéia do doutor

Décio Fonseca. Cumpre notar que os bailes car- navalscos ‘bombavam’ na Natal pas - sadista. AABB, ABC FC, Aero Clube e América FC dividiam as atenções dos foliões mais abastados, enquanto que Assen, Atlântico, Albatroz, Alecrim FC e o Intermunicipal da Cidade da Esperança acolhiam os menos favorecidos pela Deusa da Fortuna. Entre uma e outra, os foliões cantavam a plenos pulmões a letra de uma marchinha sem perder de vista a odalisca ou a melindrosa perdida no salão.

Outro achado é a página da revista Cigarra, estampando fotos de blocos no Aero Clube, templo consagrado à folia carnavalesca. O acervo ainda revela flagrantes da vida em rosa e em calorias dos nobres Reis Momos. Esteticamente incorretas, essas per- sonagens de calibre avantajado se equilibram nas formas rotundas, com muito vigor e ale- gria. Exemplo maior foi o inesquecível Paulo Maux, em flagrante com a Rainha do Clube Atlântico, nos anos 1970. Mais recente, datado de 1985, instan- tâneo eterniza o ex-Rei Momo Severino Galvão, acompanhado da Rainha em tra- jes minúsculos. Também consta da coleção imagem do radialista e ex-Rei Momo Givaldo Batista, o Gigi da Mangueira, bem como de Beré, o primeiro Rei Momo negro do carnaval natalense. Beré ainda aparece ao lado do ex-prefeito de Natal, Manoel Pereira, da Rainha e do locutor Bethânio Bezerra, em foto de 1982. “Não há nenhum centro de docu- mentação relativo ao carnaval no Estado”, acentua Gutemberg Costa, lem- brando que, no ano de 2002, expôs 150 fotografias do acervo nas galerias da Fundação Cultural Capitania das Artes. Ele sonha reunir a coleção em livro, CD- Rom e/ou sítio, mas está na dependência de patrocínio para a empreitada, não obstante o projeto ter sido aprovado pelas Leis de Incentivo à Cultura do Município e do Estado. “A receptividade do público é grande. As pessoas se reconhecem nas fotos”, assevera o pesquisador.

Suplemento

Natal - Fevereiro de 2005

nós, do RN

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9

Acervo A República

Natal - Fevereiro de 2005 nós, do RN 9 Acervo A República O Bloco Tamanduá criticava

O Bloco Tamanduá criticava humoristicamante o prefeito Marcos Formiga, na Natal dos anos 80

CarnavalCarnaval dede rua,rua,

catarsecatarse coletivacoletiva

O carnaval de rua sempre pegou os natalenses pelo pé, deixando a explicação para essa catarse cole-

tiva a cargo da sociologia. A imagem mais antiga do acervo de Gutemberg Costa data de 1919 e mostra centenas de natalenses ‘curtindo’ a folia na rua da Palha, atual Vigário Bartolomeu, metidos em traje Belle Époque tropical. Referência para historiadores e pesquisadores, o corso na avenida Tavares de Lira também mereceu re- gistro do fotógrafo João Galvão, nos anos 1930. Na foto, se vêm automóveis engalanados desfilando no ‘corredor da folia’. Igualmente na década de 1930, instantâneo congelou para a posteridade o bloco feminino Pelles Vermelhas, em frente ao antigo Grande Hotel. A câmara do fotógrafo anônimo cap- turou a porta-estandarte Vera, da Escola Malandros do Samba, em plena evolução na avenida. Nos 1960, a Escola Diplomatas no Samba também foi clicada na avenida Rio Branco, espargindo con- tentamento. Com a mesma alegria, os integrantes do bloco de elite Lunik mar- cavam o passo em 1973, desfilando pelas ruas de Natal. Mesmo cadenciada, a tribo de índios, com o caçador dominado, não deixava por menos, encantando o público em desfile no bairro do Alecrim, como

mostra a foto doada por Carlos Lyra. Uma imagem valeu mais do que mil palavras. Vá lá o lugar-comum, mas é o que se pode inferir depois de deter a vista na foto do folião desmaiado na calçada, enquanto a orquestra da Bandagália se aproxima com seus metais pesados, fazendo tremer o piso Copacabana. Já o jornalista e escritor Vicente Serejo arrisca pas-de-deux com a filha, na passagem da Bandagália pela praia do Meio, no início dos 80, tendo, ao fundo, Rejane Cardoso.

Dosinho, no ritmo das marchas Manuseando os instantâneos dos car- navais em branco e preto, é impossível conter a emoção ao ver foto do lendário compositor norte-rio-grandense Clau-

domiro Batista de Oliveira, o Dosinho, na- tural de Augusto Severo, atual Campo Grande, dividindo o mesmo quadro com José Alexandre Garcia, Capiba, Firmino Moura e senhoras, nos idos de 1950, no Aero Clube. Creditado ao fotógrafo Jaeci,

o registro revela dois talentosos composi- tores do carnaval nordestino. O potiguar Dosinho é um predestinado

a emplacar sucessos nos carnavais. Você,

leitor, já ouviu, pelo menos, uma vez na vida, os standards “Eu não vou, vão me levan- do”, “Doido também apanha”, “Fantasia de capim” e “Se parar eu caio”, frutos da lavra

desse compositor que está com novo CD na praça, comemorando 52 anos de carreira artística e 78 de muita vitalidade. “O povo canta o carnaval de Dosinho” é o título do disco que traz 16 músicas, sendo oito inéditas e igual número regravações de antigos frevos e marchinhas. O carro-chefe é o frevo “Carnaval com Bin Laden”, sucesso abso- luto nos salões e nas ruas do Recife neste 2005. Do Rio Grande do Norte, partici- pam do CD, as cantoras Valéria Oliveira e Ivana; de Pernambuco, Claudionor Germano, Expedito Baracho e Wilson Duarte; e do Rio de Janeiro, Valter Levita, Mauro Marques e o Quinteto Violado. Talento reconhecido por público e crítica, Dosinho pondera que, se as marchinhas de carnaval tivessem a mesma exposição na mídia que tem, por exemplo, a axé music, a sua obra faria o mesmo sucesso que a música baiana faz nos dias de hoje nas rádios, TVs e micaretas. “Os antigos carnavais eram sadio e familiar, porque reinava a paz e a harmonia na folia. Era o carnaval povo. Eu ainda tenho esperança que ele volte”, manifesta-se o veterano compositor.

Irreverência em alta voltagem Pródigo em quebrar tabus e precon- ceitos, o carnaval natalense não podia

prescindir da figura de Raimundo Amaral, o primeiro folião homem a se vestir de mulher, mais precisamente de Carmem Miranda, chocando a sociedade local nos anos 1940. Foi um espanto! A ousadia, claro, mereceu re- gistro fotográfico. Escândalo seme- lhante foi protagonizado pelo folião Adiel de Lima com a farda de aluna da Escola Doméstica, no desbunde da década de 1970. Voltando no tempo e, precisamente, ao carnaval de 1944, imagem perpetua o poeta repentista e barbeiro Zé Areia ‘soltando a franga’, fantasiado de mu- lher, entre dois mariners, ao tempo da Segunda Guerra Mundial, como revela a foto de João Alves. O carnavalesco Zé Fufu optou por ‘encarnar’ a personagem Amigo da Onça, criação de Péricles Maranhão, na rua João Pessoa, onde foi capturado pela câmara nos saudosos 1940. Exercendo a sua condição de nordestino, o folião anônimo não perdeu a oportunidade de homenagear o Rei do Cangaço, Lampião, segurando um rifle nas mãos, lá pelos idos dos 70. Personagens outros do carnaval nata- lense também estão presentes na coleção de fotografias dos antigos carnavais de Gutemberg Costa, como são os casos do ex-presidente da Escola de Samba Balanço do Morro, Lucarino; do primeiro presidente da Escola Malandros do Samba, Aluizio, e do carnavalesco Nazareno, o nosso Madame Satã. Estas figuras populares e notáveis emprestaram talento, dedicação e recursos, muitas vezes driblando dificuldades de ordem financeira, para proporcionar o melhor do car- naval a milhares de cidadãos embria- gados de alegria, numa época e numa cidade ainda imune à miséria, à exploração sexual infanto-juvenil e à violência. Evoé, Baco! (PJD)

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nós, do RN

Natal - Fevereiro de 2005

P assageiro da alegria. É desse modo que amigos e familiares definem o carnavalesco Paulo
P assageiro da alegria. É desse modo que amigos e familiares
definem o carnavalesco Paulo da Silva Maux (1934 – 1984), o
eterno Rei Momo de Natal. Nascido no Recife, Sua Majestade
Paulo Maux, desde muito cedo, esquentou os pés nos álacres salões da
Veneza brasileira, antes de se mudar com a família para Natal em 1945,
então, com 11 anos de idade.
Uma vez na cidade dos Reis Magos, estudou no colégio Marista, mas
não fugiu ao destino, convidado que foi pelo ex-prefeito Djalma
Maranhão, em 1960, para assumir a vaga de Rei Momo. Foi recordista
de mandatos, tendo recebido a chave da cidade por 18 anos consecu-
tivos, de 1960 a 1978, para felicidade geral de Natal e do sempre con-
corrente Severino Galvão, que via no reinado oficial de Paulo Maux
oportunidade de instalar o seu necessário gabinete paralelo. A rivalidade
entre os monarcas durou décadas a fio.
A
viúva Elba Maux conta que o ex-Rei Momo prestigiava todos os
bailes e clubes da cidade, do mais sofisticado ao mais humilde, inclusive
os famosos cabarés de Maria Boa e da Francesinha. À chegada de Paulo
Maux, o corneteiro Marimbondo, da Polícia Militar, anunciava a pre-
sença do soberano tocando o seu instrumento de sopro. Paulo Maux
também marcava presença no ensaio geral das escolas de samba e tribos
de índios, além de receber todos os blocos de elite em casa em assaltos
memoráveis. “Eu o acompanhava para todo canto”, declara Elba Maux,
com uma pontinha de orgulho.
Dona Elba revela ainda que, no carnaval de certo clube da cidade,
uma foliã mais assanhada sentou no colo do Rei Momo, no que foi
rechaçada prontamente com a ameaça de uma garrafada. Fatos
pitorescos envolvendo Paulo Maux foram muitos. Muitíssimos. Outro
ocorreu no América FC, onde o Rei Momo, ao apartar peleja envol-
vendo dois filhos de influente político do Estado, foi jogado pela janela
do clube alvirubro, quebrando o braço. Na época, a sede do América
FC funcionava na rua Maxaranguape, Tirol.
Em um dos carnavais no clube Cobana, Paulo Maux foi atirado na
piscina sem saber nadar. De outra feita, o palanque oficial armado na
esquina da avenida Deodoro com a rua João Pessoa cedeu. A preocu-
pação com a integridade física do Rei Momo – que chegou a pesar 184
quilos - foi geral, mas, graças aos deuses romanos da folia, o monarca
já houvera descido com o prefeito Djalma Maranhão. Isto sem falar
nos trotes que o rival Severino Galvão promovia, telefonando para o pai
de Paulo Maux e (mal) informando que o Rei Momo caíra do trio elétri-
co, deixando toda a família aflita.
Na vida real, foi comerciário da Suerdieck, funcionário do Banco do
Povo, agente da rodoviária Dom Vital e servidor da Cida. Carismático
e popular, soberano das multidões, Paulo Maux marcou o seu longo
reinado aspergindo alegria por todos os quadrantes e contagiando a
população com sua simpatia.
A
paixão pelo carnaval ficou patente no poético texto que deixou às
gerações passadas, presentes e futuras: “Eu sou o carnaval da província.
Paulo Maux com a Rainha do Carnaval dos anos 60
Carnaval feito numa esquina de mar, na terra dos Reis Magos. Aqui,
como em outros lugares, também nasci da tristeza do povo, do seu
cansaço pelas coisas reguladas do dia-a-dia, dos seus sofrimentos, dos
seus sonhos; mas quando me entregam a cidade, menino, ofereço a cada
um semovente uma máscara colorida de alegria. A coisa muda de
imagem e há uma explosão de sentimentos presos, doidos por felici-
dade”. Paulo Maux nasceu para brilhar e ser feliz. (PJD)
Acervo da família

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Natal - Fevereiro de 2005

nós, do RN

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aairreverênciairreverência

Acervo da família

do RN 11 a a irreverência irreverência Acervo da família Severino Galvão, (ao centro) foi Rei

Severino Galvão, (ao centro) foi Rei Momo, muitas vezes, à revelia da prefeitura

I rreverência, seu nome é Severino Galvão. Numa época marcada por grandes carnavais, o Rei Momo Severino

de Oliveira Galvão (1914 – 1994) reinou à margem do carnaval oficial pintando o sete. Foram doze anos de mandato continuado (1968 a 1980), as mais das vezes como Rei Momo alternativo. Natural de Pedro Velho, Severino Galvão foi um pouco de tudo na vida: militar, comer- ciante, publicitário, político e, principalmente, Rei Momo. Com as marcas indeléveis da irreverência e do bom humor, qualidades inatas que o acompanharam na saúde e na doença, o folião tinha o hábito de organizar batalhas de carnaval em bairros da Natal das primeiras décadas do século XX. Desta época para a majestade foi um pulo. Também fundou o Clube Rex, na capital, para dar vazão aos arroubos carnavalescos. Rei Momo de protesto e dono de rara capacidade inventiva, Severino Galvão se auto-intitulava Super-Rei, à revelia da Prefeitura, responsável pela eleição, e do Rei Momo oficialmente eleito, constituindo mi- nistério particular e nomeando personalidades

locais para fazerem parte do gabinete. Juntamente com os auxiliares, elaborava programação para ser cumprida integralmente durante o reinado de Momo. Pela via biônica, em 1980 Severino Galvão nomeou Luís de Barros como primeiro-ministro; senador Jessé Freire, presidente do Senado Imperial; e João Medeiros Filho, chefe da Casa Civil, para ocu- par posto no alto escalão. A lista de nomeações era imensa. Episódios hilários envolvendo o Rei Momo foram muitos. Um deles dá conta que, convidado para abrir o carnaval de Mossoró com os amigos João Fabrício e José Matias de Araújo (Zé Quitandinha), Severino Galvão foi detido pela polícia no aeroporto acusado de ser um impostor. O trote foi protagonizado pelos amigos Luís de Barros e Roberto Freire, que telefonaram de Natal para Mossoró e passaram informações falsas sobre ele para as autoridades policiais daquela cidade. A con- fusão foi grande. Um dos seis filhos do soberano com dona Elvira Galvão, o arquiteto João Galvão, revela que, mesmo como Rei Momo paralelo, Severino Galvão tinha acesso ao palanque ofi-

cial do carnaval e ingresso livre nos grandes bailes clubísticos, quando costumava borrifar perfume Contouré nos foliões, usando para isso bomba de aspersão. Outra esquisitice notada era o hábito de dar cochilos intermi- tentes no palanque oficial, em meio ao baru- lho gerado pela passagem das escolas de samba e tribos de índios. Exercendo toda a sua criatividade, Severino Galvão fez chegar à imprensa uma suposta ameaça de seqüestro durante o carnaval de 1979, informando que estava reforçando o serviço de segurança. O provável seqüestrador seria o coordenador dos Negócios do seu Reinado, vereador Érico Hackradt, amigo pessoal do Rei Momo. A notícia saiu no Diário de Natal, edição de 11 de fevereiro de 1979. Antes de falecer aos 79 anos, 50 dos quais dedicados ao carnaval, Severino Galvão deixou a autobiografia “A minha vida em ver- sos”, que está sendo revisada e acrescida de documentos e rico material fotográfico pelos filhos João e Erinalda Galvão. A intenção é publicar os originais em livro. “O espírito dele era alegre e engraçado”, lembra a filha Erinalda Galvão. (PJD)

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ARepública

e

Carlos Morais
Carlos Morais
ava, aolongodo
ava, aolongodo
25 ARepública e Carlos Morais ava, aolongodo de fevereiro de 1922, Sábado de Carnaval: os natalenses
25 ARepública e Carlos Morais ava, aolongodo de fevereiro de 1922, Sábado de Carnaval: os natalenses

de fevereiro de 1922, Sábado de Carnaval: os natalenses se esbaldaramnafoliado

que Nataldispunhade“maisseletoe elegante”,arregimentandoparasuasede, naCidadeAlta,JoãoPessoacomaRio Branco,oqueasociedadenatalense“tiver dearistocraciaebeleza!”. O carnavalescoMaurodosSantos transformouosalãoprincipal,para proporcionaralegriaaosfoliõesea elegância dosblocos(Ciganinhas,Pierrôs VerdesePalhaçosAmericanos,entre outros),numaornamentaçãode deslumbranteaspecto.Promoveu,assim, umainstiganteginásticacoreográficana disposiçãocuriosadasserpentinas, coladasecaprichosamentedispostas, superficialmente,aoforroe com abundanteiluminação.Cadavezquese desprendiam,demomentoamomento,se espalhavamgraciosaeabundantemente entreosfoliões.

Sucesso feminino, Baile à Fantasia

Asmulheresdestacaram-se, ostensivamente,numdosespetáculosmais bonitoseaplaudidos,duranteostrêsdias nossalõesdoNatalClube,como Baileà Fantasia,emqueasasmaisatrativas foram: Sultana (senhoraRositaGobat), Girassol(senhoraPedroMoura),Pavão (Maria Gluck), Noite (senhoritasMaria Galvão,DalilaCavalcantieMariaLuiza Benevides),Espanhola(senhoraMário Lira),NatalClube(senhoraOdorico Pelinca),FoliaCarnavalesca(senhoritas DulceeTerezaCâmara),FoliaBrasileira (Maria Luiza),PierrôsBrancos(Sinhá Filgueira,EsmerinaeEuridesSilva,Rute

eFloripesTorres),PierrôsPretos(senhora

JoãoCancio,senhoritasNeusaFigueiredo,

DoraliceBarroseChiquitaCosta).

Outracriaçãodasmulheres:

ocortejodas

“NoveMusas”,trajadasacaráter: as senhoritasFilomenaPatrizo(História),

ConsueloWanderley(Tragédia),Jandira

Rodrigues(Comédia),DulceWanderley

(Música),EponinaSilva(Dança),Maria

CentenáriodaIndependênciadoBrasil.“A

velhacidade,modorrentamentesossegada,

nassuasruasquasedesertas”,dopoema

OsBondesdeNatal ,deEsmeraldo Siqueira,despertoudesualetárgica quietação.“Natalprepara-se,neste estonteanteefamosoanodocentenário, parahomenagear,condignamente,o endiabradoMomo,dandomostrasdeque comtristezasnãosepagamdívidas”, anteviuumbemhumoradoredatordea Imprensa .

Oautordacrônicacarnavalesca,acredita-

se,seriaLuísdaCâmaraCascudo,filhodo proprietáriodoperiódicoesaltitantenos

seus23anosdeidade,alémdeelogiado

pela suacondiçãodeumdosanimados

foliõesde1922,nossalõesdoNatal

Clube, termômetrotradicionaldo

carnavaldaaltasociedadenatalense.Com seus grandesolhosbailarinos,ojovem intelectualfoiumparticipanteprivilegiado dafoliasaçaricantedaqueleanoespecial. MasCascudinhorecebiajustareverência, particularmente,pelasuaprecocecarreira lítero-jornalísticae,emespecial,peloseu livrodeestréiadesuaesparramadae

, versandosobrecríticaliterária,publicado noanoanter ior. Nocarnavaldocentenário,opresidente EzequielWanderleyenfrentouseu principaldissabor:ainvasãodaconfraria dosalmofadinhas,chamadosdePésdeLã, ousadospenetrasque,semconvitee forçandoabarra,tentavamburlara segurança. ObailedoNatalClubemarcavaoinício doreinadodocarnaval,garantiam,com unanimidade,osdoisprincipaisjornaisda

multifacetadacarreira:

AlmaPatrícia

época,

1922,otradicionalclubecongregavao

Imprensa

.Em

Cacho(Poesia),NalvaPaiva(Eloquência),

ElviraPinto(Astronomia)eCecy

Lyra(Retórica).

Os bondes: fora dos trilhos da folia

Umaausênciasentidanestecarnaval:a dosbondes(ogovernadorAntôniode Souzafechouaantigacompanhia,com seusbondessucateadosepromoveua reformulaçãodafrota,reativadaem

1923)tãoincorporadosàpaisagem

urbanadaprovínciaquantoorioPotengi, presentenafolia,àsuamargemdireita, naTavaresdeLira,avenida transformadaemchãodegentee convergência deanimaçãocarnavalesca popular,comseufebricitantecorsode automóveisefoliões,especialmentedo ClubeNáuticoCapibaribe.Orumorde trovoada,roncodecuícas,aquecimentoe repinicadodetamborinsebailadosde ganzás, saindodaTavaresdeLirae subindoedescendo,ruidosamente,a JunqueiraAires,comarapaziada,com seuscheirosos“almofadinhas”,ligada

nos

gritosestridentesdosclarinseberrode

guerrados“evoés”. E,aolonge,oclarim marcialdoreiMomo.Nestevaivém,uma

saudávelbatalhadesfech

corso,comsaraivadasdeáguadecheiro dasbisnagas,arremessodegigantescos rolosdeserpentinas,chuvasdeconfetee bombardeiodejatosdolança-perfume, umclimadesonora e perfumada euforia geral. Osblocosecordõescarnavalescos,os mesmosdetodososanos,emdesfile:

Vassourinhas,UrubuMalandro,Coco Potiguar,Canequeiros,DivisãoFrontin, Roçadores,Camponesas,Ciganase PierrôsBrancos,entreoutros,sem esquecer,contudo,osmáscarasavulsas, emboraengraçados,masrarososque apresentavam originalidade.

emboraengraçados,masrarososque apresentavam originalidade. OHinodo ClubeNoturno (fundadoem1896): compostopelo
emboraengraçados,masrarososque apresentavam originalidade. OHinodo ClubeNoturno (fundadoem1896): compostopelo

OHinodo ClubeNoturno

(fundadoem1896):

compostopelo

saudosopoetaGotardo

Netoemusicado

peloprofessor

JoaquimGotardo

Deixemosqualquertristeza

VamosportodooNatal,

Dandoaopovoumasurpresa

NastroçasdoCarnaval.

EnquantoodeusdaFolia

Palpitanoscorações,

Sódevehaveralegrias

Reinandosomenteexpansões.

Háventurassemconta

Nestatardefestiva,

Queestamossemprenaponta

NastroçasdoCarnaval.

Numdoceefecundoassomo

Deentusiasmosempar,

QuevibreaglóriadeMomo

Sobestecéupotiguar.

Cedeumanoàleidamorte,

Chegaumoutronovo,afinal

SempreoNOTURNOadarsorte

NastroçasdoCarnaval.

Temeleasgratascarícias

Asaudaçãorosicléa,

Doolhardasbelaspatrícias,

Docoraçãodamulher.

Amocidadeéquembrilha

Porestasocasiões,

Poiselaéditosafilha

Dasardentesexpansões.

Alerta!grupoexultante

Quenuncateverival.

Salve,NOTURNObrilhante

NastroçasdoCarnaval.