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DO Suplemento

Editorial
A República
Nós,doRN...
Diário Oficial do Estado do Rio Grande do Norte Ano II - Nº 14 - Janeiro de 2006

si c al i da d e
u
m ão Po ti g uar
A Naç
d a
2 - nós do RN Natal, fevereiro 2006
Suplemento

APRESENTAÇÃO
O Rio Grande do Norte enlutado Estado do Rio Grande do Norte
RUBENS LEMOS FILHO Assessoria de Comunicação Social
WILMA MARIA DE FARIA

U
ma tarja preta enluta esta edição do “nós, do de História do Rio Grande do Norte. Governadora do Estado
RN” em homenagem ao grande conterrâneo Desde então as suas contribuições culturais não pa-
Vingt-un Rosado, cujo coração parou de bater ao rariam. Autor de cerca de 700 obras (entre livros e CARLOS ALBERTO DE FARIA
Gabinete Civil do Governo do Estado
apagar das luzes de 2005. Filho caçula de Jerônimo Rosado folhetos), participou da Academia Mossoroense de
e Isaura Rosado Maia, Vingt-un um homem especial, de Letras, fundou o Instituto Cultural do Oeste Potiguar RUBENS MANOEL LEMOS FILHO
Assessoria de Comunicação Social
espírito fraternal e uma compreensão especial dos proble- e ocupava a cadeira nº 38 da Academia Norte-Rio-
mas alheios. Grandense de Letras.
Nasceu em Mossoró, a 25 de setembro de 1920. Quando aluno nas Minas Gerais, sonhou com uma
Como era costume então, fez o Curso Primário com Escola de Agricultura em Mossoró, pela qual batalhou
as professoras Egídia Saldanha e Lourdes Leide, e o até ver concretizado seu projeto em 1967, no decreto RUBENS MANOEL LEMOS FILHO
ginásio no Diocesano Santa Luzia. de criação da ESAM, do prefeito Raimundo Soares Diretor Geral em exercício
Na busca pela formação acadêmica que não exis- de Souza. Outra utopia, a Coleção Mossoroense, tor- Henrique Miranda Sá Neto
tia entre nós, foi concluir os estudos na Escola Superi- nou-se real em 1949 na lei promulgada pelo seu ir- Coordenador deAdministração
e Editoração
or de Agricultura de Lavras, em Minas Gerais, em mão, Dix-sept Rosado, então prefeito de Mossoró.
1945. O Estado e o Governo do Rio Grande do Norte, por JURACIR BATISTA DE OLIVEIRA
Diplomado em Agronomia, retornou à terra trazen- decreto da Excelentíssima Senhora Governadora Subcoordenador de Finanças
do na bagagem uma cultura multifacetada. Em 1940 Wilma Maria de Faria, homenagearam Vingt-um com EDUARDO DE SOUZA PINTO FREIRE
já publicara seu primeiro trabalho, a História de um luto oficial de três dias, uma reverência ao ilumi- Subcoordenador de Informática
Mossoró, editado pelos Irmãos Pongetti Editores, do
Rio de Janeiro, como Vol. III da Coleção Biblioteca
nado mossoroense, norte-rio-grandense e brasileiro
que foi Vingt-un Rosado.
nós, do RN
editor-geral
MIRANDA SÁ
EDITORIAL chefe de redação

Vingt-un: sua contribuição cidadã MOURA NETO

equipe redacional
PAULO DUMARESQ - REPORTAGEM
ANCHIETA FERNANDES - PESQUISA
MIRANDA SÁ JOÃO MARIA ALVES - FOTOGRAFIA

diagramação e arte final

O
amor transcendental do professor Vingt-un conosco no stand montado pelo DEI. EDENILDO SIMÕES
Rosado pela literatura materializou-se na Esta saudosa memória ficou indelevelmente tatua- PAULINHO CAVALCANTI
editoração da Coleção Mossoroense, sem da nos nossos corações ao tomarmos conhecimento
Programação Visual
favor, uma das maiores coleções do país, e é preciso da sua morte no dia 21 de dezembro de 2006, no ins- EMANOEL AMARAL
que se diga que inúmeras entre as mais de 4.000 pu- tante em que a emoção dominava a intelectualidade PAULINHO CAVALCANTI
blicações, foram bancadas do próprio bolso. norte-rio-grandense e a imprensa mossoroense fazia
Capa
A Coleção é sem dúvida alguma um marco na traje- muito profissionalmente o paralelismo entre as duas EMANOEL AMARAL
tória desse intelectual que se projetou na cultura bra- perdas do ano que passou, arrancando do nosso con- Colaboradores
CARLOS MORAIS
sileira contemporânea por méritos próprios, pela sen- vívio Dorian Jorge Freire e Vingt-un. Com referência CARLA XAVIER
sibilidade de reconhecer valores pessoais e a objetivi- a 2005 e a História do Povo Potiguar esta conjugação EDSON BENIGNO
dade de alavancar vocações, divulgando a arte, a lite- é indissolúvel no vigor da passagem dos dois pela hu- CARLOS DE SOUZA
CARLOS FREDERICO CÂMARA
ratura e a ciência. manidade viva. MARJORIE SALU MIRANDA SÁ
Foram essas qualidades ímpares de Vingt-un que Os dois tiveram o mérito de fazer política sem se
Coordenação Gráfica
levaram o Departamento Estadual de Imprensa – DEI, macular com a sujeira que tristemente o exercício WILLAMS LAURENTINO
incentivado pela governadora Wilma Maria de Faria, dessa nobre atividade traz, devido a uma minoria sem VALMIR ARAÚJO
a estabelecer a honrosa parceria com a Coleção caráter e sem honra.
Mossoroense. A participação de Vingt-un e Dorian na vida pública
Para satisfação e orgulho dos que fazem a Impren- deve ser creditada à contribuição cidadã que deram
sa Oficial do Rio Grande do Norte, os interesses co- ao Rio Grande do Norte e ao Brasil, pela formação Depertamento Estadual de Imprensa
muns pela divulgação da cultura de Vingt-um e do filosófica e os compromissos ideológicos individuais Av. Câmara Cascudo,
355 - Ribeira - Natal - RN
Governo do Estado foram sacramentados na I Feira de ambos. É por isso que o Rio Grande do Norte se CEP.: 59.025 - 280 -
de Livros de Mossoró, quando o Mestre e muitos dos curva solidarizando-se ao sentimento de pesar que se Tel.: (84) 3232 6793
Site: www.dei.rn.gov.br - e-mail: dei@rn.gov.br
seus colaboradores passaram mais de uma hora abateu sobre os nossos irmãos mossoroenses.
Natal, janeiro 2006 nós do RN-3
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A sublimação
pela música
sacra
Glênio Manso Maciel traz consigo
uma bagagem de mais de 30 anos
como regente. Atualmente rege o
Canto Coral Irmão Sol, grupo
especializado na literatura de canto
gregoriano há 14 anos. É um dos
poucos corais de canto gregoriano
do país não formado por religiosos.
“Nosso coral tem como objetivo
aproximar as pessoas da arte, do
belo, do sacro. Fazê-las ver a música
como uma fonte de conhecimento e
veículo de reaproximação com
Deus. Além de ser uma opção para
os que gostam de uma boa música
de ritmo livre, não mensurada”,
Ernani da Silveira, ex-prefeito e regente do Coral da Maior Idade, cujos integrantes possuem idade acima de 65 anos
afirma.
No ano passado o grupo Irmão Sol
esteve se apresentando em várias
cidades do interior do Rio Grande
do Norte e também em outros
Estados. Segundo o regente, o coral
tornou-se conhecido pelas suas
apresentações em lugares inu-
sitados, executando encenações que
remontam o cotidiano dos mosteiros
e a vida monacal, criando um clima
EDSON BENIGNO
medieval e transcendental. “Dos
memoráveis concertos dados pelo
ntre a política e a música, Como amante da boa música, na sua regente que ele se realiza na vida.
grupo podemos citar o da Fortaleza
dos Reis Magos em agosto e outubro ele preferiu a segunda. O administração deu total apoio aos “Participo muito mais pelo prazer”,
de 2004. Também a apresentação ex-prefeito Ernani Alves corais, sem imaginar que, anos mais diz. O Coral da Maior Idade, que
no Cemitério Morada da Paz, em Silveira, aos 80 anos, é o tarde, dedicaria-se de corpo e alma a sempre arranca aplausos do público
1996, e no Eremitário do Santo regente do Coral da eles, os corais. A paixão pela música desde 1994, quando foi criado, não
Lenho, em 1999 e 2001”, conta. Maior Idade e do Coral começou no Seminário, onde ingressou recebe apoio de entidades oficiais e
O grupo sempre se apresenta dos Jovens da Igreja aos 12 anos. “O reitor, que era um não-governamentais. Seus integrantes,
com o hábito franciscano e com os Bom Jesus, na Ribeira, onde se grande músico, notou minha vocação com idade acima de 65 anos, se
pés descalços, mostrando des- apresenta, religiosamente, nas tardes para a música e me ensinou teclado”, reúnem para ensaiar todas as segun-
pojamento e fazendo da apresen- de sábado e nas manhãs de domingo. conta. No Seminário Maior, em Forta- das-feiras.
tação muito mais do que uma arte, Seu amor pela música só é compará- leza, aprendeu a reger uma orquestra.` “Cerca de 90% dos integrantes são
uma oração. É formado por pessoas vel ao sentimento que outro regente Para quem não sabe, há uma dife- viúvas cujos maridos deixaram uma
de diferentes faixas etárias e sociais. nutre pelo trabalho que faz: Glênio rença básica entre reger uma orques- boa situação econômica”, explica.
Integram estudantes, professores, Manso Maciel é um dos raros maes- tra e um coral. “A orquestra é mais Seja diante de senhoras da terceira
artistas, advogados, profissionais tros do Rio Grande do Norte especi- fácil de reger porque os participantes idade ou de jovens católicos, Ernani
liberais. Todos acreditando na alizado em canto gregoriano. Os dois são músicos e sabem ler as partituras. Silveira é a mesma pessoa: um jovem
transformação do homem através da são exemplos de homens dedicados à No coral, não precisa que o integrante senhor que, com a batuta nas mãos,
música. “A cada canto elas me- música. entenda de música”, explica. gosta de executar, por puro prazer e
ditam, gerando auto-conhecimento Nascido em Macau, em 25 outubro Antes e depois da política, Ernani diletantismo, as mais belas canções
e, conseqüentemente, uma trans- de 1925, Ernani Silveira foi vice exerceu outras atividades. Atuou, por que jamais conheceu. Seja a Oração
cendência de suas ações, uma prefeito de Natal entre 1966 a 1969. exemplo, na Escola de Pilotagem do de São Francisco, seja as grandes
elevação de si, uma sublimação”, Quando o titular Agnelo Alves deixou Estado, onde chegou a ministrar aulas composições da MPB ou boleros, que
afirma. o cargo, ele assumiu por 22 meses. de teoria e prática. Mas é como tanto admira.
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CARLOS DE SOUZA

E
ra uma noite suave de sexta- o que diz Woden Madruga mais na Brasileira de História, além de ter
feira, do dia 20 de maio de frente em sua coluna daquele ano de feito parte de vários institutos históri-
1988, precisamente 23 horas, 88: “O Rio Grande do Norte perdeu cos e geográficos do país. Era desta-
quando o folclorista Gumercindo um de seus intelectuais mais sérios. A cado também na área de Folclore,
Saraiva disse adeus ao mundo que sua obra de pesquisa nos diversos conhecimento que lhe rende ensaios e
amava. Hoje pouca gente lembra campos da cultura popular é fantásti- artigos na imprensa e revistas
daquele homem baixinho, simpático, ca. Ricamente fantástica no valor que especializadas. Por ocasião de seu
com seu bigode fininho, postado por ela encerra, na riqueza de conheci- falecimento, vários amigos se pronun-
trás do balcão de sua loja de instru- mento, de informações. Um infatigá- ciaram a seu respeito.
mentos musicais, na Avenida Rio vel trabalhador intelectual, o O presidente da Academia Norte-
Branco (onde hoje funciona o Sebo Gumercindo, uma figura boa, simples, Rio-Grandese de Letras, Diógenes da
Vermelho). Mas seus livros desafiam cordial. Um apaixonado da música. A Cunha Lima, disse: “Ele era
o tempo e ainda clamam nas pratelei- essa arte dedicou quase toda a sua freqüentador assíduo da Academia,
ras para serem lidos novamente. De vida, como músico e como obreiro da sugeria muitas idéias. Era um pesqui-
vez em quando um pesquisador pega música, presente em todos movimen- sador infatigável, não parava. Tudo
um de seus volumes empoeirados tos musicais que fizeram no Rio que era da terra lhe interessava.
numa biblioteca qualquer do país e ele Grande do Norte nestes últimos 50 Recentemente, se mostrava disposto a
vive novamente. O velho e bom anos. Todos nós choramos sua ausên- levantar uma pesquisa sobre a mulher
Gumercindo Saraiva. cia”. do Rio Grande do Norte”. O amigo e
Em sua coluna de domingo, dia 22 Assim era o homem Gumercindo acadêmico Nilson Patriota disse:
de maio de 1988, na Tribuna do Norte, Saraiva. Ocupava a cadeira de núme- “Como pessoa humana, ele era
Gumercindo
o jornalista Woden Madruga descre- ro seis da Academia Norte-Rio- extraordinário”. O pesquisador Grácio
Saraiva: infatigável
veu assim o momento: “Acho que Grandense de Letras, cujo patrono é Barbalho disse: “Eu freqüentemente
trabalhador
Gumercindo Saraiva morreu feliz. Ele Luiz Wanderley e a fundadora Caroli- me comunicava com ele, fazíamos
intelectual
estava feliz na noite de sexta-feira, na Wanderley, expoentes da cultura perguntas recíprocas para chegar a
cercado de amigos, artistas, escritores, potiguar do início do século. Em sua um entendimento sobre a música
músicos, o seu mundo intelectual, fecunda vida de pesquisador produziu popular. Gumercindo sempre foi um
fazendo a coisa que gostava de fazer, mais de 30 trabalhos, entre artigos, Musicólogo e pesquisador atento, esmiuçado no
que fez ao longo de seus 72 anos. plaquetes, ensaios, etc. Os mais nosso ofício”.
Gumercindo acabara de tocar no seu conhecidos: Adágios, Provérbios e
folclorista De minha parte, vi muitas vezes
velho violino três peças musicais, Temas Musicais, Itatiaia Editora, R$ Gumercindo Saraiva entrar na reda-
acompanhado pelos violões de Paulo 15,00 e Gíria Brasileira (1988), Itatiaia No ano em que faleceu, ção da Tribuna do Norte para entregar
Tito e Antônio Sete Cordas, aplaudido Editora, R$ 20,00, ambos de prestígio Gumercindo Saraiva continuava seu artigo semanal. Algumas vezes o
pelo público que ocupava o pátio nacional, que podem ser encontrados produzindo como se fosse um jovem. caderno de Idéias já estava fechado e
interno da Fundação José Augusto na em livrarias, sebos e na internet. Bem Deixou dez livros prontos para a ele se aborrecia com o então editor
festa de lançamento de mais um como Trovadores Potiguares, Lendas publicação. Quase todo domingo o Emanoel Barreto, que explicava,
número do jornal O Galo. Guardou o do Brasil e Cantilena do Beco da leitor da Tribuna do Norte podia ler sempre com toda a paciência possível,
instrumento no estojo e se dirigiu para Quarentena, que são mais difíceis e seus artigos sobre a influência do que já não podia abrir espaço nas
um grupo de amigos. Conversava com talvez só sejam encontrados em negro na música popular brasileira. páginas que já haviam descido para a
Racine Santos, Danilo Emerenciano e bibliotecas públicas ou de colecionado- Mais moderno impossível. No entanto, oficina. Na semana seguinte,
Jurandyr Navarro, quando tombou res. pouca gente houve falar nele hoje em Gumercindo voltava com toda a
sem dizer uma palavra”. Todo o restante da obra de dia. Intelectual autodidata, simpatia, como se não tivesse aconte-
Gumercindo Saraiva era daquele Gumercindo Saraiva aguarda publica- Gumercindo Saraiva compensava a cido nada. Por causa de tal tempera-
tipo de pesquisador humilde, que ção e reconhecimento. O editor falta de escolaridade com muito mento era querido e respeitado pelos
quase sempre é relegado ao esqueci- Abimael Silva do Sebo Vermelho está trabalho. colegas de redação. Na reportagem
mento nesta província do Rio Grande preparando a edição de dois livros Ele nasceu na Paraíba e se tornou sobre seu falecimento o repórter
do Norte que adora as luzes da ribalta dele, dos anos 60: Trovadores musicólogo, folclorista, compositor, lembra esse fato. Eu achava ele legal,
e detesta a dança das letras sobre as Potiguares e A Modinha Norte-Rio- membro da Academia Norte-Rio- mas não sabia de sua importância
páginas impressas de um livro. Vejam Grandense. Grandense de Letras, da Academia como hoje sei.
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De volta a
Natal, a
consagração
Retornando do Pará, onde passou oito
anos, Tonheca aportou em Natal em 1910
com novo casamento e renovada
disposição para o trabalho, voltando à
Banda Militar e atuando nos cinemas que
surgiam, apresentando-se nas salas-de-
espera e acompanhando com improvisos
os filmes mudos. O agitado período
histórico em que Tonheca viveu e
produziu as valsas que se eternizaram na
memória do povo potiguar, registra os
passos mais firmes da República Velha, a
MARJORIE SALÚ MIRANDA SÁ partir da eleição de Manoel Ferraz Campos
Sales para a Presidência e os embates
o apagar das luzes do Em Natal, conquistou a Aventuras - O aventureirismo de políticos da luta pelo poder no Rio Grande
século XIX, em 1898, o admiração dos colegas no concurso Tonheca Dantas enlouquece os seus do Norte, pelas indicações dos cargos
A músico e compositor
Antonio Pedro Dantas,
que prestou para mestre da Banda do
Batalhão de Segurança, revelando a
biógrafos. Estabelecido em Natal e já
com 30 anos de idade, decidiu correr
federais feitas na capital da República.
Nesta época, a civilização vivia grandes
mudanças, colhendo os frutos da
apelidado Tonheca Dantas sua virtuosidade em quase todo o mundo em busca de fortuna. Todos
Revolução Industrial e os efeitos da
ou simplesmente Tonheca, chegava à instrumental da banda. Os os conselhos orientavam-no a ir para ideologia burguesa vitoriosa na Europa e
cidade do Natal para se submeter a examinadores surpreenderam-se com o Rio de Janeiro, então capital da nos Estados Unidos da América. A música
um concurso para instrumentista da a sua versatilidade, conforme relata o República, e em 1902, lhe foram foi, talvez, a expressão artística que mais
Banda do Batalhão de Segurança. Há historiador Cláudio Galvão: dadas muitas cartas de recomendação se aproveitou dos benefícios da ciência
contradições entre os pesquisadores, de personalidades norte-rio- moderna, divulgando-se e massificando-
sobre a data do seu nascimento. Não “O comandante Lins Caldas (que grandenses. se pelo rádio, reproduzindo-se e
há controvérsias, porém, sobre o seu comandou a Polícia Militar de janeiro Inexplicavelmente, em vez de ir multiplicando-se pelo gravador e
de 1895 a dezembro de 1913), chegou ideologizando-se pelo cinema.
valor artístico. Originário dos Dantas para o Sul, vai para o Norte, com
ao alojamento da Banda com mais É deste mar que emerge a expressão
de Carnaúba, de família alguns oficiais e chamou os candidatos. destino a Belém do Pará, em maio de mais tecnicamente elaborada da música
tradicionalmente ligada à música, [...] Em seguida, foi a vez de Tonheca. O 1903, depois de uma passagem pela nacional, a valsa brasileira, meio popular e
iniciou-se tocando flauta e depois o comandante lhe entregou uma partitura Paraíba, onde também fez história. meio clássica. Nasceu do romantismo,
clarinete, instrumento que o diferente da primeira e perguntou ao Segundo os cronistas da época, filha da chamada música-de-salão, um
consagrou. candidato qual instrumento iria Belém era um dos centros culturais produto brasileiro por sua vez
escolher. – “qualquer um...” respondeu. descendente da modinha imperial, que a
Destacava-se no Seridó a arte “O senhor diga qual o que quer.” Os mais importantes do Brasil,
corte do imperador Pedro II adotou e
musical, sempre presente nas con- membros da comissão se entreolharam, principalmente no setor musical. O
projetou. A valsa brasileira adquiriu o
centrações das feiras e das festas surpresos com a audácia daquele monumental Teatro da Paz, conceito respeitoso que consagrou
sacras. Famílias inteiras dedicavam- sertanejo moreno e franzino, e inaugurado em 1878, apresentava Tonheca, cuja popularidade chegou aos
se à música e entre elas, os Dantas resolveram pôr a prova seus orquestras e companhias de ópera dias de hoje, com surpreendentes
conhecimentos mandando que fosse
de Carnaúba. Como seus parentes, vindas diretamente da Europa, tendo o aplausos de todas as camadas da
tocando a peça nos diversos sociedade norte-rio-grandense para as
Tonheca encaminhou-se para a instrumentos da Banda. Tonheca não próprio maestro Carlos Gomes se
música e encarreirou-se na vida exibido lá. O governo da Província suas valsas.
teve dúvidas; pôs a música na estante e
Para a consagração de Tonheca, não há
artística e fugiu do anonimato graças abriu a caixa da clarineta. incentivava as bandas militares.
Experimentou a palheta e tocou a peça uma orquestra, banda sinfônica ou
às modinhas, aos dobrados e valsas Sabendo que a Banda do Corpo de conjunto musical no Rio Grande do Norte
da sua lavra, conquistando uma vaga sem hesitações. Depois, guardou o Bombeiros passava por uma
instrumento e apanhou um sax-tenor. que não possua as partituras e não
remunerada na Banda do Acari. Experimentou umas escalas e tocou. reestruturação, Tonheca procurou seu execute Royal Cinema, uma das
Quando veio para a capital, aos 28 Deixando os instrumentos de palheta, regente. e sentou praça no mesmo composições que se tornou clássica. Nas
anos de idade, Tonheca já era um pediu um trompete, instrumento de ano da sua chegada ao Pará. Muito retretas domingueiras e nas tocatas
músico consumado, que na mais tenra bocal, e tocou tudo com o mesmo prestigiado como músico e exclusivas, a valsa Royal Cinema agrada
desembaraço. Depois, foi a vez da os ouvintes de todas as idades, sempre
infância se revelara habilidoso compositor, manteve um razoável
flauta, instrumento de embocadura e arrancando aplausos da platéia. Antonio
flautista, adotando depois o clarinete e padrão de vida, e várias de suas Pedro Dantas – Tonheca, é um herói de
afinação diferentes do que antes usara.
tocando com desenvoltura quase Quando ia pedir um bombardino, os composições, impressas na Alemanha, três Estados: Rio Grande do Norte, Paraíba
todos os instrumentos de sopro, membros da comissão mandaram parar eram encontradas nas casas e Pará, onde distribuiu e consagrou as
madeiras e metais. dizendo que já era suficiente.” especializadas de Belém. suas próprias composições.
6- nós do RN Natal, janeiro 2006
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& Meia a Raimundo Fagner, que veio

S
e os Deuses e Deusas da Músi
ca morassem no Rio Grande do
Norte certamente respaldariam
o projeto Seis & Meia, implantado em
da música potiguar tocar duas sessões de graça, pela
intervenção de Chico Miséria e
Gaudêncio Torquato. Sem o gesto de
1995, pelo Governo do Estado, via Fagner a gente não estava nesse
Fundação José Augusto, para divulgar movimento musical que Natal está
o artista potiguar, além de proporcio- experimentando hoje”, assevera.
nar aos amantes da boa música shows Dias cita ainda os shows de Lane
com nomes consagrados da MPB. Na Cardoso, Galvão Filho e Isaque
opinião de público e crítica, o Seis & Galvão, todos no último ano de sua
Meia é o projeto musical mais impor- gestão, como os mais representativos
tante da história do Estado. Ressalte- do projeto em 1998. “Lane Cardoso
se que a trajetória vitoriosa do Seis & disse que o grande momento que se
Meia, nestes 10 anos, deve-se em sentiu artista foi quando participou do
parte à iniciativa privada, apoiadora do Seis & Meia”, declara o ex-chefe do
projeto desde os seus primórdios. núcleo de Música da FJA.
Coordenador do Seis & Meia, no Fazendo mea culpa, o produtor pede
período de 1995 a 1998, o produtor desculpas pelo tratamento
cultural José Dias conta que o projeto discriminatório que emprestava ao
já existia no Rio de Janeiro, idealizado artista local antes de assumir o Seis &
pelo jornalista carioca Albino Pinheiro. Meia. Hoje, com o preconceito distan-
Quando o Seis & Meia foi levado para te, ele comanda o Seaway Cultural,
Mossoró, a Petrobrás, apoiadora do projeto voltado para a divulgação e
projeto, exigiu a autorização de Albino valorização da música e do músico
Pinheiro. “Em Mossoró, o projeto norte-rio-grandense.
passou a ser oficial; em Natal, não”, Depois da implantação do Seis &
revela Dias. PAULO JORGE DUMARESQ Meia, o panorama da música popular
Pela contabilidade do coordenador, potiguar mudou radicalmente. Natal
nos quatro anos que ficou à frente do Baleiro, Cascabulho e Mestre O projeto também trouxe medalhões tem hoje 12 projetos relacionados à
Seis & Meia foram realizados 300 Ambrósio. Para José Dias, o momento da MPB, notadamente Edu Lobo, música, só ficando atrás de São Paulo
shows em Natal e 225 em Mossoró. consagrador do Seis & Meia foi o Carlos Lyra, Dori Caymmi, Fagner, no ranking das capitais brasileiras. O
Ele lembra com orgulho que o projeto show de Chico César com o Teatro Geraldo Azevedo, Jamelão, Johnny posicionamento profissional, a concep-
lançou nomes como Antônio Nóbrega, Alberto Maranhão lotado. Menciona a Alf, Luiz Melodia, Nana Caymmi, Os ção dos shows e a facilidade
Chico César, Daúde, Paulinho Moska, apresentação de Renato Braz como Demônios da Garoa, Quarteto em Cy tecnológica têm contribuído para essa
Renato Braz, Rita Ribeiro, Zeca outro momento supremo. e MPB-4. “Eu devo o sucesso do Seis florescência musical.

Apoio aos Seis & Meia promove hoje intercâm-


bio com outras cidades nordestinas,
do Estado, por intermédio da Funda-
ção José Augusto.
sa patrocinadora, o Seis & Meia
entra em seu 11o ano procurando
como João Pessoa, Campina Grande e O produtor arrisca dizer ainda, manter-se vivo e renovado. Uma
artistas Recife, e é o que melhor remunera os
artistas da cidade. “Os shows têm
sem medo de desafinar, que os shows
de Marina Elali/Agnaldo Rayol, Diogo
das soluções seria um plano de
mídia mais arrojado, pois, confor-
locais qualidade sonora excelente, realizados
num teatro que tem toda uma acústica
Guanabara/Osvaldo Montenegro,
Alceu Valença, Cama de Gato, Chico
me o coordenador, o Governo do
Estado vem cumprindo a sua
preparada para receber o artista. César, Moraes Moreira, Paulo Moura, parte.
E assim se passaram dez anos. Quando eu falo maior é em todos os Sivuca e Zeca Baleiro, merecem “Para este ano, eu quero quebrar
O atual coordenador do Seis & sentidos”, orgulha-se. registro nos anais do projeto. “O Seis um pouco as regras do projeto e
Meia, William Collier, um dos Com a marca de aproximadamente & Meia é uma vitrine. Nós temos iniciá-lo com o Delicatto, um dos
criadores do projeto, em 450 shows (produções) no Seis & cerca de 300 artistas locais inscritos maiores grupos que eu já vi tocar
dobradinha com José Dias, afirma Meia, Collier sonha com a para participar do projeto. O nosso em 15 anos de produção e que
que o seu rebento é o maior projeto interiorização do projeto, levando o critério contempla tanto o artista fechou o Seis & Meia no ano
de música do Brasil, em termos Seis & Meia a cidades equipadas com neófito quanto o veterano, que já tem passado. Como atração nacional,
qualitativos, salientando que o teatro e que possam receber os história e estrada”, explica. penso na cantora Ângela Maria”,
grande diferencial é o viés cultural artistas dignamente. Para isso, frisa, Em que pese ter passado por algu- adianta o produtor cultural. Só
e artístico. tem que haver o interesse da Prefeitu- mas dificuldades de ordem financeira resta desejar longa vida ao Seis &
Ele faz questão de lembrar que o ra em firmar parceria com o Governo devido a atrasos no repasse da empre- Meia.
Natal, janeiro 2006 nós do RN-7
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FOTO/GIOVANNI SÉRGIO
anto de casa faz milagre? queira o leitor, encontramos os canto-
Nem sempre. A julgar pela res Bartô Galeno, Carlos Alexandre e
pouca fé dos heréticos muitos Fernando Luís. Só para citar os mais
santos têm que deixar o altar conhecidos.
de sua morada e baixar em Outro vasto campo para ser
outra freguesia para provar, pesquisado é o da música instrumental.
sim, que podem operar Que tal ouvir com atenção os acordes
milagre distante de seu de Antônio Madureira (Quinteto
torrão. Com cantores, com- Armorial e Quarteto Romançal),
positores e músicos norte-rio- Antúlio Madureira, Henrique Brito A pesquisadora
grandenses não é diferente. (inventor do violão elétrico), Ivanildo Leide Câmara,
O jeito é mesmo pegar a (O Sax de Ouro), Joca Costa, K- autora do livro
estrada para fazer sucesso. Chimbinho, Mingo Araújo, e Sando Dicionário da
Quem pensa que são poucos (flautista do Quinteto Violado)? Música do Rio
os artistas locais que fazem Na música erudita, sobressaem-se Grande do
fama e ganham notoriedade Aldo Parisot, Cussy de Almeida, Mário Norte
fora do Estado se Tavares, Paulino Chaves, Oriano de
engana redonda- Almeida e Waldemar de Almeida, entre
mente. outros. O brasileiro ou estrangeiro
o s d e
n u A prova está no algum dia cantarolou canção de
s c i n c o a catalogo Dicionário da
Apó ara tam Ademilde Fonseca, Babal, Chico
u i s a , Câm q u e c o n a Música do Rio Antônio, Chico Elion, Cleudo Freire,
p e s q e r b e t e s istória d Grande do Dosinho, Edinho Queiroz, Elino Julião,
v h como Alforria, Cebola Ralada, Circuito
600 n os de otiguar
10 0 a Norte (Editora Fernando Cascudo, Gilson de Macau Musical, Flor de Cactus, General
ca p
músi AMP, 2001, (compositor de Casinha Branca), Junkie e O Surto também deram seu
654 p.), da Hianto de Almeida, Leno (da dupla recado pelo país.
pesquisadora Leide Leno & Lilian), Lucinha Morena, Afirma Leide Câmara que
Câmara. Após cinco anos de Pedrinho Mendes, os músicos e compositores
pesquisa, Câmara catalogou 600 Terezinha m rio-grandenses- do-norte de
verbetes que contam 100 anos de de Jesus e ra q ue ve ical maior relevância internacio-
b us
história da música potiguar. Muitos mais É u ma o mória m 100 nal são Aldo Parisot,
artistas pesquisados chegam recentemen-

r a r a me ecuperei
t r ” Mário Tavares, Paulino
regis ado. Eu a no RN
mesmo a ultrapassar as fronteiras te João s t i c
d o E s da mús Chaves e Waldemar de
do Brasil. Da música brega ao Batista, ano â m ara Almeida. O Dicionário
eC
rock, da MPB ao clássico, passan- Marina Elali e Leid da Música do Rio
do pela música instrumental, o Roberta Sá. É Grande do Norte vem
gênio potiguar no passado ou no de bom tom não dar a conhecer às novas gerações
presente deixa(ou) a sua marca esquecer a essas personalidades da música
por onde passa(ou). romanceira Dona Militana, potiguar e contribuir para tirar alguns
O Rio Grande do Norte deu ao abrindo passagem alhures e algures outros esquecidos da mídia do ostra-
país, por exemplo, o cantor român- para a literatura oral do RN. cismo. “É uma obra que vem registrar
tico Gilliard e as divas Glorinha Os trios são capítulo à parte. Procure a memória musical do Estado. Eu
Oliveira e Núbia Lafayette. Numa conhecer, caro leitor, os trios Inajá, recuperei 100 anos da música no RN”,
linha mais popular ou brega, como Irakitan, Marayá e Mossoró. Bandas depõe a pesquisadora. (PJD)
nós do RN-8 Natal, fevereiro 2006
Suplemento nós do RN-5

Ademilde Ferreira
Fonseca Delfim
A “Rainha do Choro” nasceu
em Macaíba. Seu primeiro disco,
gravado pela Columbia, em 1942, Antônio cantou, venceu e fez escola, e Nasceu em Macau e projetou-se choro “Sonoroso”, em parceria com Del
alcançou grande sucesso e fez seus cocos vêm sendo gravados por musicalmente no Rio de Janeiro como Loro, foi sua primeira música gravada,
com que as pessoas cantarolas- músicos da nova geração. O coquista cantor profissional com o apoio do irmão em 1946, por Severino Araújo. Quase
sem nas ruas a letra alegre de figura entre os dez títulos do último lote e parceiro Hianto de Almeida. Bonito e todos os grandes músicos do país têm no
“Tico-tico no fubá”, de Eurico de discos raros da coleção musical Itaú dono de voz privilegiada, fez sucesso na seu repertório “Sonoroso”.
Barreiros e música de Zequinha Cultural - Acervo Funarte. noite carioca e em Portugal, onde reali-
de Abreu. João Bosco e Aldir zou temporada de quatro anos. Gravou Gileno Osório Wanderley de Azevedo
Blanc homenageiam a cantora Claudomiro Batista de Oliveira vários discos pelo selo internacional O compositor e intérprete natalense
com a música “Títulos de nobre- O compositor, nascido em Augusto Columbia, e sua parceria com Hianto, tornou-se conhecido nacionalmente
za”. Na letra, os compositores Severo, é considerado um carnavalesco em várias composições, foram sucesso quando fez dupla com Lilian Knapp, no
usaram títulos de choros famosos de primeira linha, ao lado dos na voz de Dalva de Oliveira, Vera Lúcia Rio de Janeiro, onde reside. Com a
gravados pela Rainha. Ademilde pernambucanos Capiba e Nelson e Cauby Peixoto. cantora, gravou, entre outras, as músicas
Fonseca é, merecidamente, Ferreira. Dosinho é também autor de “Pobre menina” e “Devolva-me”, que
conhecida em todo o País como a samba-canção, músicas para campanhas Hianto Ramalho de Almeida foram sucesso na primeira fase da
responsável pela popularização do publicitárias e políticas e hinos de clubesO precursor da bossa-nova também Jovem Guarda, na década de 1960.
chorinho com letra. de futebol. Autor de vários sucessos nasceu em Macau. No Rio de Janeiro, Depois da dupla desfeita, Leno seguiu
carnavalescos, além de “Eu não vou, vão fez carreira musical. Compôs o samba carreira solo. Raul Seixas, parceiro
me levando”, música muito tocada nas “Meia luz”, em parceria com João Luiz, musical de Leno, produziu um disco para
Aldo Parisot rádios de todo o Brasil, na década de gravada, em 1952, por João Gilberto em o cantor potiguar.
Reconhecido como um dos maiores 1940, interpretada pela cantora Marlene. seu primeiro disco. Como cantor, lançou,
violoncelistas do mundo, o natalense em 1955, um disco com direção, arranjos Mário Tavares
Aldo Parisot tem-se revelado um artista Henrique Brito e acompanhamento de Tom Jobim e seu O natalense Mário Tavares é membro
dos mais completos, seja como solista, O gênio do violão nasceu em Natal, conjunto. Foi o compositor mais gravado efetivo da Academia Brasileira de
camerista ou recitalista e um excelente onde se revelou aos doze anos de idade, do Rio Grande do Norte por célebres Música e o mais autorizado intérprete da
artista plástico, além de exímio professor. solando peças difíceis numa corda só, intérpretes da música brasileira: Dalva obra de Villa-Lobos. Violoncelista,
Iniciou os estudos aos oito anos de idade. em concerto realizado no Teatro Carlos de Oliveira e Roberto Inglez, Elizete regente trinta e oito anos da Orquestra
Viveu e estudou no Rio de Janeiro. Foi o Gomes (Teatro Alberto Maranhão). Em Cardoso, Cauby Peixoto, Pery Ribeiro, Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de
primeiro violoncelista da Orquestra 1920, já estudando no Rio de Janeiro, Marlene, Lúcio Alves, Maysa, Elza Janeiro e um dos maestros brasileiros
Sinfônica Brasileira e solista das princi- recebeu o apelido de “Violão” pelos seus Soares, entre outros. que mais apresentou obras de autores
pais orquestras do mundo. Reside nos colegas, entre eles, Carlos Alberto nacionais dentro e fora do País. De suas
Estados Unidos e é professor titular da Ferreira Braga, o Braguinha (João de Sebastião Barros composições, destaca-se o poema
Universidade de Yale. Barro), com quem integrou, no ano de K-Ximbinho revelou-se um dos mais sinfônico-coral “Ganguzama”, que, na
1928, o conjunto Flor do Tempo, mais importantes compositores de choros que opinião de Francisco Mignone, é “a
Francisco Antônio Moreira tarde denominado de Bando de sugeriam acompanhamento tipo bossa- concepção brasileira mais genialmente
Chico Antônio nasceu em Pedro Velho. Tangarás, ao lado de Noel Rosa, Almi- nova, e se destacou realizando o perfeito composta depois da obra de Villa-
Na juventude, foi levado a cantar para o rante e Alvinho. A Henrique Brito é casamento entre o choro e os elementos Lobos”.
escritor Mário de Andrade, que aprovei- atribuída a invenção da violata e do harmônicos, originados do jazz. O mestre
tou o tempo fazendo o coquista cantar violão elétrico e a introdução desse do clarinete nasceu em Taipu, era Carlos Vasques
sem parar, anotando toadas e versos. E, instrumento no Brasil. compositor, arranjador musical das Nasceu em Macau. Violonista, compo-
para melhor gravar os cocos, ia tentando gravadoras Odeon e Polydor, sitor e cantor, foi morar no Rio de
imitá-lo. A emoção do escritor é nítida Haroldo Ramalho de Almeida orquestrador da TV Globo e fez parte da Janeiro em 1897. Primeiro cantor
no livro “O turista aprendiz”. Chico Rodrigues Orquestra Sinfônica Nacional. O famoso potiguar a ter registro fonográfico.
Natal, fevereiro 2006 nós do RN-9
Suplemento

Gilliard Cordeiro Marinho


Gravou, em 1908, o lundu “Olhar de em Belém do Pará, Alemanha e Rio de na cidade de São Sebastião. Adotou o O compositor e cantor
santa”, pela Odeon. Nozinho era um dos Janeiro. Em 1914, formou, em Belém, nome Terezinha de Jesus por suges- romântico nasceu em Natal e
seis cantores profissionais da Casa uma escola para pianistas, que depois se tão de Abel Silva, Gravou cinco LPs e ficou conhecido internacional-
Edison, que fizeram sucesso no início do aprimoravam na cidade alemã de quatro compactos. Voltou a morar em mente por meio da música
século XX. Foi um dos grandes intérpre- Leipzig. Em 1908, marcou presença em Natal em 1995. Foi atração local do “Aquela nuvem”, de sua
tes de Catulo da Paixão Cearense. Natal. Todo o repertório de Paulino Projeto Seis e Meia, da Fundação autoria. No início da carreira,
Chaves era tocado sem partitura e o José Augusto, no Teatro Alberto contou com o apoio do então
Idenilde de Araújo Alves público não sabia o que mais admirar no Maranhão, em julho de 1996, abrindo radialista, e depois político,
A cantora nasceu em Assu. Aos oito genial pianista: se a técnica excelente ou para Belchior; e para Dominguinhos, Carlos Alberto de Souza, e
anos de idade, já morando no Rio de a expressão empolgante, ou ainda, a em 1997. Participou do Projeto Canto com ele assinou algumas
Janeiro, cantava no “Clube do Guri”, da memória prodigiosa”. Geral, da TV Universitária. parcerias. Na década de 1980,
extinta TV Tupi. Em 1959, gravou o seu alcançou sucesso no eixo Rio-
primeiro disco com o nome de “Nilde de Paulo Peres Tito Tonheca Dantas São Paulo com músicas que
Araújo”. Assumiu o nome artístico de O natalense Paulo Tito é um monu- Compositor, maestro, tocava vários foram temas de novelas da
“Núbia Lafayette”. Em 1960, lançou seu mento vivo da música potiguar, testemu- instrumentos, nasceu em Carnaúba Rede Globo de Televisão,
primeiro disco, pelo selo RCA, no qual nho de gerações de músicos do Estado. dos Dantas. Regeu bandas de música entre elas, Partido Alto, Pão
gravou os sambas “Devolvi” e “Nosso A convite de Luiz Gonzaga, o rei do do interior do Estado, e em João Pão/Beijo Beijo, Plumas &
amargor”; depois vieram outros suces- baião, foi para o Rio de janeiro em 1954, Pessoa e Belém. Compôs valsas, Paetês.
sos: “Casa e comida” e “Seria tão onde trabalhou na Rádio Mayrink Veiga. dobrados, hinos e marchas. A célebre
diferente”, que a consagraram no cená- Cantor e compositor, também atuou em valsa Royal Cinema foi executada até Waldemar de Almeida
rio nacional como cantora romântica. diferentes atividades nas áreas de pela orquestra da BBC, de Londres, O compositor e maestro nasceu
gravação de discos. Foi assistente de na época da 2ª Guerra Mundial. em Macau. Iniciou os estudos de
Oriano de Almeida estúdio, coordenador, produtor e diretor piano em Natal, aperfeiçoou-se
Nasceu no Pará e adotou Natal como musical, arranjador e regente. Paulo Tito Francisco Uriel Lourival no Rio de Janeiro, Alemanha e
sua terra. O pianista, compositor, escri- tem músicas gravadas por Altemar O compositor e seresteiro França. Retornou a Natal, onde
tor, aos doze anos de idade, realizou o Dutra, Elis Regina, Maysa Matarazzo, natalense, filho do poeta Lourival criou, em 1933, o Instituto de
seu primeiro concerto na capital do RN. Augusto César, Banda do Almeidinha, Açucena, foi para o Rio de Janeiro, Música e a cadeira de Canto
Fez turnês na Europa e Estados Unidos. Bergenaldo Wanderley, Carequinha, onde viveu e fez sucesso nas rodas Orfeônico. Waldemar de Almeida
Em Varsóvia, na Polônia, classificou-se Carlos José, Cauby Peixoto, Julinho e de serenatas. Compôs “A fundou, em 1936, a revista Som –
como um dos dez maiores intérpretes de seu conjunto, Os Cariocas, Os Infernais ceguinha”, modinha gravada por especializada em música – que se
Frederic Chopin no mundo. Gravou a da Bossa, Papel Gomes, Perla, Pery Arthur Castro, em 1925, mas o tornou bandeira do movimento
obra completa do compositor, em 1960, Ribeiro, Zé Gonzaga, e pelo sucesso veio em 1934 com a desfraldado por Luís da Câmara
na Rádio MEC, e participou do programa instrumentista e compositor Renato Tito, famosa valsa “Mimi”, gravada por Cascudo e Gumercindo Saraiva,
O Céu é o Limite, na TV Tupi, em São seu irmão. Sílvio Caldas. Uriel compôs tam- em defesa e valorização da vida
Paulo, respondendo sobre a vida e obra bém “Céu moreno”, canção grava- musical no Estado. É autor dos
de Chopin, ganhando o maior prêmio até Terezinha de Meneses Cruz da em 1935 por Orlando Silva, e a livros “Normas pianísticas”, “Do
então concedido na televisão brasileira. Terezinha de Jesus nasceu em valsa “Botão de rosa”, sucesso em Recife a Varsóvia” e “Do Recife
Florânia, no dia 3 de julho de 1951. Em 1937 na voz de Vicente Celestino. a Dallas”.
Paulino de Vasconcelos Chaves busca do sucesso, foi morar no Rio de
Pianista, compositor, regente, professor Janeiro, em 1972. Fagner, Morais
e membro da Academia Brasileira de Moreira, Gonzaguinha, Sueli Costa, (*) Fonte: Dicionário da Música do Rio Grande do Norte. Editora
Música. Nasceu em Natal, mas viveu Capinan foram seus amigos ao chegar AMP. Ano: 2001. 654 p. Autora: Leide Câmara.
10- nós do RN Natal, janeiro 2006
Suplemento

Apresentações de artistas famosos


O Clube do Violão de Natal promoveu apresen-
tações de artistas famosos. A excepcional violonis-
ta argentina Maria Luiza Anido esteve várias ve-
zes na capital realizando concertos musicais no
Teatro Carlos Gomes, executando músicas clássi-
cas de grandes gênios como Recuerdo de la
Alhambra, de Francisco Tárrega, Adágio da Sona-
ta ao Luar, de Beethoven, Courante e Bourrré,
de Bach. Também trouxe à cidade o grande
artista Lupércio Miranda, excepcional execu-
tante de bandolim.
CARLOS FREDERICO CÂMARA
O Clube de Violão de Natal patrocinava os
talentos locais. Por seu intermédio, por exem-

A
princípio, a finalidade era culti- ção. Seus estatutos foram reformados,
var a harmonia dos instrumen- ampliando o leque de atuação da enti- plo, o violonista potiguar autodidata Genardo
tos de corda. Depois, passou a dade, conforme decisão aprovada em Lucas da Câmara se apresentou no Teatro
promover cursos, concertos e festivais, assembléia geral em 20 de junho de 1959 Carlos Gomes na noite de terça-feira, 12
divulgando músicas de artistas famosos e publicada no Diário Oficial do Muni- de janeiro de 1954, em homenagem ao pre-
e dos compositores conterrâneos, con- cípio. Nessa época, também, foi reco- feito de Natal, Creso Bezerra de Melo.
gregando todos os meios para preser- nhecido pela Câmara Municipal como Nessa apresentação, para uma platéia se-
var as tradições folclóricas e para o de- “utilidade pública”. lecionada, executou 22 músicas de gran-
senvolvimento da arte musical potiguar. Durante muito tempo as reuniões fo- des gênios como Francisco Tárrega,
FOTOS/ARQUIVO

Seus integrantes se reuniam semanal- ram realizadas na residência de Arnaldo Beethoven, Schubert, Bach, Albeniz,
mente e destes encontros fluíam as mais José Pires. A solenidade de posse da Ernesto Nazareth e outros.
belas páginas musicais, clássicas e po- diretoria que assumiu o controle do clu- O violonista Genardo Lucas da Câ-
pulares, com predominância, claro, do be em 26 de junho de 1959, de acordo mara, em companhia de seu pai violonista João
violão. com o que foi registrado na coluna de Lucas, também se apresentou ao comendador Luiz
Era composto por um número ilimita- música assinada por Jaime dos G. da Câmara Cascudo, na casa de veraneio deste, na
do de associados, sem distinção de na- Wanderley no jornal Folha da tarde, praia de Areia Preta, numa bela manhã de domin-
cionalidade, credo religioso, filosófico ou ocorreu no Salão de Honra go, onde executou belas páginas de música clássi-
político, que se dividiam nas categorias do Instituto de Música ca, dentre as quais Capricho Árabe e Recuerdo de
de sócios efetivos, sócios honorários e do Rio Grande do Nor- la Alhambra, de Francisco Tárrega, e Astúrias, de
sócios correspondentes. O Clube do te, às 20 horas, contan- Isaac Albeniz. Esteve também presente, nesta oca-
Violão de Natal, sociedade civil sem fins do com a presença de sião, o jovem Fernando Luiz da Câmara Cascudo,
lucrativos, foi fundado em 23 de junho autoridades, jornalistas e filho do Comendador Luiz da Câmara Cascudo.
de 1949, tendo entre seus inspiradores famílias especialmente O Clube do Violão promoveu um festival nos sa-
pessoas como Arnaldo José Pires, convidadas. Naquela opor- lões do América para angariar recursos para o vio-
Veríssimo e Protásio Pinheiro de Melo, tunidade, discursou o histo- lonista natalense Vivaldo Medeiros, filho do com-
João Galvão de Oliveira Filho, José riador Luis da Câmara positor Eduardo Medeiros, autor da consagrada
Dantas Emerenciano, Geraldo Bezerra Cascudo e, após a saudação “Praeira”, quando de sua partida para o sul do
de Melo, Sérgio Guedes, Guilherme deste grande tribuno, houve a país. Todos os sócios e simpatizantes participa-
Wanderlein e João Lucas Sobrinho. aula inaugural dos cursos de vi- ram do evento, destinado a ajudar na viagem do
Dez anos depois da fundação, o clube olão a cargo do professor homenageado. Também promoveu várias apre-
passou pela primeira grande modifica- pernambucano Júlio Moreira. sentações na rádio Poti do violonista paraibano
Milton Dantas, hóspede do violonista Arnaldo
José Pires.
SÓCIOS FUNDADORES Marcou época em Natal e inspirou o surgimento,
ARNALDO JOSÉ PIRES Empresário décadas depois, de outras organizações similares,
VERÍSSIMO PINHEIRO DE MELO Advogado como o Clabom – Clube dos Amantes da Boa Mú-
JOÃO GALVÃO DE OLIVEIRA FILHO Empresário Genardo Lucas da Câmara (foto sica. O Clube do Violão de Natal vingou por mais
JOSÉ DANTAS EMERENCIANO Empresário acima), sócio do clube, e a
GERALDO BEZERRA DE MELO Dentista de duas décadas e quem dele participou e ainda
Bacharel
violonista argentina Maria Luíza está vivo para contar a história, como Genardo Lucas
PROTÁSIO PINHEIRO DE MELO
SÉRGIO GUEDES Médico Anido, com Protásio Melo, da Câmara, guarda muitas e boas lembranças des-
GUILERME WANDERLEIN Funcionário Público Aposentado Arnaldo Pires e Milton Dantas te tempo.
JOÃO LUCAS SOBRINHO Funcionário Público Aposentado
Natal, janeiro 2006 nós do RN-11
Suplemento
falecimento, no Pará, do grande

O jornalismo compositor paulista Antônio Carlos


Gomes (autor da ópera “O Guarani”,
e cujo nome foi o primitivo do atual
Teatro Alberto Maranhão). O
idealizador da poliantéia foi José A. de

como elemento de Viveiros. Com quatro páginas, a


revista publicou os títulos das diversas
óperas do compositor, além de artigos
e poesias sobre ele.

divulgação da música b) Jornal do Fã-Clube Netinho Pra


Sempre Eu Vou Te Amar –
Jornalzinho do fã-clube natalense do
mbora a música seja uma arte tão fluída e cantor baiano Netinho, que tem sido
comunicativa em qualquer cultura, alguns um dos destaques do Carnatal (o
representantes da informação jornalística carnaval natalense fora de época).
sempre sentiram necessidade de criar Publica a Discografia e a Agenda das
atividades do cantor em todo o Brasil.
órgãos específicos para divulgar a referida Elaborado pela turminha de fãs (Ana,
arte. Aqui, no Rio Grande do Norte, pode- que é a presidente; Joseane, Adriano,
se mencionar vários destes órgãos, relacio- Arlene, Rogério, Lívia, Abmael, Ana
nados à música por um determinado seg- Karla, Salete, Luiz e Ozilene), o jornal
mento específico, conforme mostra pesqui- foi lançado em Natal em 2000.
sa realizada por Anchieta Fernandes. Jornal informativo do Sebo Balalaika 3) Jornais com nomes de
ritmos musicais:
1) Jornais e revistas norte-rio- diziam respeito à referida arte. Circu- começou a circular em Natal este a) O Frevo – Órgão carnavalesco,
grandenses dedicados à divulgação lou até o ano de 1948. fanzine, dedicado à música pop, “meio sério..meio risão”, circulou em
musical em geral: internacional, nacional e norte-rio- Natal, sempre no período do tríduo
a) Euterpe – Com o nome homena- c) Chico Folia – Ao preço de Cr$ grandense. momesco, de 1939 a 1942. Tinha
geando a deusa grega da música, esta 10,00 (dez cruzeiros) cada número, como diretores Gomes Sobrinho, Diniz
revista foi lançada em Natal no com doze páginas, esta revista foi f) Hangar – A 15 de dezembro de D. Pípolo e Galhardo Gomes.
começo do século passado. Precisa- lançada em Natal, em 1960, para 1999, esta revista foi lançada em
mente em setembro de 1908. Era o divulgar frevos, sambas e marchas Natal, dedicando-se principalmente à b) E Tome Polca – Na Base
tempo das associações que se deno- para o carnaval natalense do referido divulgação de músicos e bandas Aérea de Parnamirim, circulavam
minavam grêmios. Tinha os grêmios ano. natalenses. Na capa do primeiro jornaizinhos feitos pelos militares. Este
literários natalenses, mas existia número, a banda General Junkie. “E Tome Polca” circulou entre a
também em Natal, em 1908, o Grêmio d) Trench – Fanzine de rock Editada por Marcelo Veni, tendo Paulo oficialidade da base no ano de 1959. A
Recreativo e Musical, responsável natalense, editado por Rodrigo Augusto como jornalista responsável; inclusão da música de origem tcheca
pela revista Euterpe. Era dirigida por Hammer e Carlos Henrique Leiros. O Alessandra Galvão aparece como no título é talvez porque os oficiais da
Aníbal Cocunás, tendo como redato- primeiro exemplar circulou em 1988. repórter (sendo também a redatora do base tinham, ainda em 1959, a nostal-
res Tertuliano de Brito, Antonio de De visual sofisticado, bem primeiro Editorial); Venâncio Pinheiro gia dos seus colegas de farda ameri-
Sousa e João Damasceno (do 2o diagramado, programação dinâmica no como responsável pelo design gráfico canos, que trouxeram a música e a
Batalhão de Infantaria). feitio gráfico, valeu também pela e Alexandro Gurgel pela diagramação. forma de dançá-la para cassinos
capacidade crítica do jornalista, Impressa pela editora da UFRN, teve natalenses durante a época da segun-
b) Som – Esta revista foi lançada fotógrafo, publicitário e estudioso de no primeiro número tiragem de 1001 da guerra mundial.
em Natal, em 1936, como órgão da música Rodrigo Hammer em atualizar exemplares, distribuídos gratuitamente
Sociedade de Cultura Musical do Rio o aficcionado do gênero em Natal. em vários locais da capital norte- 4) Jornais e revistas com nomes
Grande do Norte (que fora fundada na Circularam cerca de 14 números; que riograndense. de instrumentos musicais (não são
capital do Estado, a 04 de junho de eram entregues ao leitor, cuidadosa- propriamente dedicados à música,
1936, tendo como seu primeiro presi- mente protegidos em sacos plásticos. 2) Jornais e revistas norte-rio- apenas usando o nome do instru-
dente o então Bispo de Natal, Dom Os mesmos editores de “Trench” grandenses dedicados a músicos, mento como título):
Marcolino Esmeraldo de Souza lançaram em 2003, em Natal, o jornal individualmente: a) Balalaika – Informativo cultural
Dantas). O primeiro número circulou “The Brotherhood of Poison”, com a) Carlos Gomes – Revista no do sebo natalense de igual nome,
a 11 de julho de 1936, sob a orientação comentários sobre o “lado negro do formato poliantéia (sai uma única vez, organizado por Severino Ramos e
de Luís da Câmara Cascudo e do Rock’n’Roll.” geralmente homenageando uma figura Antônio Carlos Pereira. Tendo como
maestro Waldemar de Almeida. falecida), lançada em Natal a 17 de editor Luciano de Almeida, o jornal foi
Especializada em música, seus artigos e) Automatic – Em junho de 1998, outubro de 1896, um mês depois do lançado em Junho de 1997.
12- nós do RN Natal, janeiro 2006
Suplemento

ANCHIETA FERNANDES

P
ouca gente sabe, mas o inven- desencadeadores. acrescentar aos que já existem:
tor do violão elétrico (que Na “Proposição” com que o movi- música concreta, eletrônica,
atualmente é mais conhecido, mento se apresentou ao público da eletroacústica, serialística,
em seu formato contemporâneo, com primeira exposição, havia dois itens dodecafônica, aleatória etc., porque,
o nome de guitarra elétrica) foi um sintomáticos: a) ruído (industrial) ao invés de todas estas pesquisas,
norte-rio-grandense. Segundo o levado à categoria de música; b) levadas no contexto da tecnologia em
radialista carioca Almirante, em seu computador eletrônico como pesquisa progresso, o Poema/Processo pode
livro “No Tempo de Noel Rosa” musical. Não é o caso de dizer se a fazer-se funcionar atualizando a lógica
(1951), o instrumentista natalense música/processo é um título a mais a ou a consciência do uso delas.
Henrique Brito, após uma viagem aos
Estados Unidos, “de volta ao Rio,
exibiu o primeiro violão elétrico que se
conheceu por aqui, indiscutivelmente
Simultaneidade sonora
uma invenção sua. Desde 1929,
A esse respeito é que o poeta/ gráficas ou materiais, serão traba-
mostrava-se insatisfeito com o peque- processo natalense Frederico lhados na etapa seguinte de sua
O natalense no som dos violões comuns.
Henrique Marcos se preocupou em criar a evolução criativa. Trata-se, pois, de
O advento do cinema falado deu- música/processo, trabalhando a projetos sonoros.”
Brito (acima) lhe a idéia de adaptar um ampliador ao microfonia e atingindo o que ele Se as possibilidades eletrônicas de
fazia música seu instrumento, mas, apesar de chamou de simultaneidade sonora: produção de som (sintetizadores,
em parceria “o efeito da microfonia é produzido geradores de áudio, filtros
sugerida a novidade a vários técnicos exatamente por uma superposição polifônicos) acabaram com a priori-
com Noel brasileiros, nenhum lhe deu importân-
Rosa de canais: os dois canais – o micro- dade dos instrumentos de produção
cia. Em sua permanência nos Estados fone e o alto-falante – deixam de mecânica da música tradicional; se
Unidos, Brito, um dia, expôs sua idéia existir nas suas funções estatísticas, hoje, com a técnica da
Maria Alcina a um fabricante de instrumentos, na para se unirem numa simultaneida- superdublagem (superposição na fita
(abaixo) se de sonora.” No ensaio “Do Verso de gravação de duas ou mais cama-
cidade de São Francisco. O industrial ao Poema/Processo: a Vanguarda das de som) é possível obter, com
apresentou aproveitou-se da idéia, registrou-a e
com uma no Rio Grande do Norte”, Moacy um só instrumento, o efeito de dois
construiu o primeiro violão elétrico, Cirne explicou bem o que poderá ou mais instrumentos ou quartetos
roupa que dando-o de presente a Henrique Brito ser o caminho dos que se interessa- de uma só voz; se o som hoje, nos
trazia poema que, se tivesse a patente do instru- rem por esta pesquisa da música/ estúdios de gravação, é cortado,
do natalense processo: emendado novamente, acelerado,
mento, teria ganho rios de dinheiro. “No campo da música, Frederico reverberado – então toda esta nova
Marcos Silva A idéia de juntar à eletricidade a Marcos pretendeu organizar uma realidade possibilita igualmente
percussão de instrumentos musicais nova área de possibilidades sonoras: novos processos.
evoluiu até à vanguarda da música a) obtendo/captando – ou gravando Até mesmo como novos modelos
eletrônica, quando o alemão Karlheins – ruídos através de processos de execução de um espetáculo
eletroacústicos e fonomecânicos; b) musical, de um show. Durante um
Stockausen fundou em Colônia, em criando – ou obtendo – novos sons/ festival de música em Muriaé, no
1950, seu famoso estúdio de pesqui- ruídos partindo dos ruídos existentes estado de Minas Gerais, a cantora
sas. É na compreensão destas e de com a utilização de processos Maria Alcina, propondo-se a um
outras realidades da cultura contem- técnicos novos e exclusivos: criação “envolver total”, foi durante a cena
porânea que o Poema/Processo de novo processo de captar/inventar arrancando palavras, ruídos, sons;
sons; c) adaptando ao som as desnivelando os instrumentos e
apareceu no Brasil, com a primeira teorias do Poema/Processo (visual), tomando posições corporais em
exposição inaugurada em Natal em inclusive – em alguns casos – relação ao desenvolvimento da
dezembro de 1967. O Poema/Proces- exigindo a participação do consumi- música. O importante, além do mais,
so não se marginalizou na música, mas dor/ouvinte. A música/processo não é que ela vestia uma roupa trazendo
englobou-a dentro do seu operatório, pretende ser poema fônico: as ao centro um poema/processo do
coordenadas operatórias são dife- poeta e historiador natalense Mar-
como componente social/ rentes. Os poemas/processos cos Silva, e isto contribuiu como
informacional de um mundo novo, a sonoros (neste caso poemas elemento informacional para o
exigir respostas novas, através de fônicos), que permitam versões conjunto do espetáculo.
processos inventivos
Natal, janeiro 2006 nós do RN-13
Suplemento

declamaria “Cântico da Vitória”,

Uma “Praieira” à beira considerável mais conveniente para a


ocasião.
Daí porque a “Serenata do
Pescador” hibernou até a noite de 16

de um ataque de nervos de dezembro de 1922, quando recebeu


uma exuberante homenagem, no
Teatro Carlos Gomes, no “Festival do
poeta Otoniel Menezes”, em que
aquela canção recebeu interpretação,
A Câmara Municipal do Natal aprovou requerimento do vereador Antônio em caráter oficial, para uma ruidosa
Félix, decretando, em razão da popularidade e essência de seus versos, platéia que lotava as dependências do
todos eles inspirados em motivos tipicamente natalenses, a famosa canção então teatro Carlos Gomes, na
Ribeira, que assistiu a uma
popular como Canção Tradicional da Cidade. 121a. sessão da Câmara programação dividida em três partes,
Municipal e publicado no Diário Oficial, de 11 de janeiro de 1972 durante as quais se apresentaram a
elite na música e poesia da cidade.
CARLOS MORAIS No primeiro segmento: a canção
s poetas, em seus cidade, em êxtase, e com Sob as Mangueiras, musicada por
rompantes e relam-

O
homenagens a toda hora, Carmino Romano dos versos de
pejantes desalinhando mesmo o sisudo Otoniel Menezes. o garoto Genar
descontentamentos da governador Antonio de Souza, mestre Wanderley, calouro que se tornaria um
criação artística, de cerimônia das promoções festivas dos primeiros locutores da radiofonia
fragilizam-se a ponto do centenário da indepen- dência. norte-rio-grandense, destacou-se na
de exporem seus retalhos de obras- Otoniel, numa noitada boêmia com progra- mação da segunda parte, na
primas em incandescência à outros companheiros, aproveitava o declamação dos versos de Pindorama,
carbonização. Otoniel Menezes, na clima fluvi-telúrico do “sussurro das outra peça da ourivesaria poética do
fogosidade buliçosa dos seus 27 anos ondas do Potengi” no Passo da homenageado da noite. O futuroso
de idade, em meio à travessia Pátria, às margens plácidas do Otoniel Menezes: autor de Praieira artista conquistou, com ela, a medalha
emblemática da nossa tumultuada vida memorável rio que acalanta Natal. de ouro de um concurso das
política e envolvido pelo arrastão da Ali, ouvindo o suave cantar do copidescou e, mesmo assim, indispôs- festividades lítero-cívicas,
fervilhância cultural centenário- “sussurro das ondas do Potengi se com seus escritos. Sua apreciação patrocinadas pelo governador Antonio
modernista de 1922, quase destrói a amado”, compôs os versos pioneiros era de que, a forma estética não se de Souza, durante o centenário.
canção “Serenata do Pescador”, de seu salgado poema de doce e encaixava no desejado para exprimir o A “Serenata do Pescador”, batizada
transformada em “Praieira dos meus ingênua ternura, em regozijo pela momento. Fantasiava a criação de pela tradição de “Praieira’, dessa
amores” e ungida, oficial e façanhuda ousadia dos destemidos versos entusiásticos, enaltecedores da maneira, despertou para o sucesso
popularmente, à condição única de pescadores. Nele, devaneou o heróica maratona marinha, temperada nesta exibição pública pioneira, no
musa músico-poética de Natal. sempre retorno incerto e com versos insinuantes da bravura e encerramento do festival otonieliano,
Naquele outubro de 1922, Natal se imponderável das desgastantes destemor. Decididamente, aquele na voz do amigo Deolindo Silva, outro
alvoroçava com o terremoto ocupações de mareação daqueles esparramado na noitada, com suas conhecido poeta boêmio dos tempos
provocado por 12 humildes seres sofridos que, iria cantar, em tintas essencialmente românticas, não o de Otoniel Menezes.
pescadores que, nos barcos Íris, louvação de bem-aventurança e deleitava. Irritadiço, pensou, num Circulou uma informação que o
comandado pelo mestre Francisco amorosidade, à janela da amada, a primeiro instante, em rasgar, espedaçar jovem cantor, de 15 anos, Afonso
Candido de Oliveira, no Pinta, sobre a praieira dos seus amores. e esquecer aquele sentimento de vazio Santos Lima teria sido, na realidade, o
mestrança de Manuel Claudino da E, ao final da farra etilírica, o poeta, poético-existencial. primeiro a cantá-la. Uma
Silva, e no República, com Filadelfo na noite de 18 para 19 de outubro, E, logo depois, na tarde calorenta, possibilidade, em situação oficial,
Tomás Marinho no comando, véspera do retorno dos trabalhadores enquanto os pescadores descartada pelo pesquisador Cláudio
navegando num reide marítimo. Os marinhos que se converteram em desembarcavam e toda a cidade Galvão, uma das autoridades em se
jangadeiros, partindo de Natal, em 27 “heróis do mar”, o rigoroso poeta debandava em carros, bondes, ônibus, tratando do poeta, juntamente com
de agosto, chegaram ao Rio de sentiu o travo amargo da a pé, convergindo para a ribeira, numa Laélio Menezes, filho de Otoniel e que
Janeiro a 20 de setembro, sendo alvos incompletude do produto final da majestosa confraternização prepara o mais substancioso trabalho
de uma ruidosa acolhida que empolgou lavradura poética. homenageatória aglomerava-se, em sobre a obra e vida do pai. O
até o veterano Rui Barbosa, que Mais tarde, ao acordar, ainda carroças, para a Ribeira, o poeta pesquisador até admite que Santos
ensaiou uma proclamação, bradando: engulhava sua insatisfação e suava, no meio da multidão, enquanto Lima teria sido um dos primeiro
“Salve, bravos jangadeiros do Norte”, cascavilhava o papel com os rabiscos aguardava o seu momento de declamar intérpretes da “Serenata do Pescador,
usando a licença poética fluídica que da poesia da madrugada, solicitada sua criação. Comentou, então, com o pois a música circulou pela cidade,
metamorfoseava as embarcações e para ser declamada, juntamente com amigo Bezerra Júnior, poeta mais antes da exibição oficial. Mas,
desmembrava o território nordestino. os poetas Bezerra Júnior e Edinor experiente e a quem mostrara sua certamente, apenas durante reunião
O desembarque dos pescadores, na Avelino, durante as homenagens indigesta composição, ter decidido que, de amigos, em alguma noitada
tarde de 19 de outubro, chacoalhava a previstas. Leu, releu, emendou, ao invés da “Serenata do Pescador”, seresteira.
14- nós do RN Natal, janeiro 2006
Suplemento
CONTINUAÇÃO DA PÁGINA 13

No caminho da “Praieira”
surgiu uma música
desfile peregrinava pela frente das do músico. Eduardo, logo na manhã
sedes dos clubes náuticos, Sport e seguinte, batia à porta de Otoniel
Centro Náutico, na rua do Comércio Menezes, e mostrava seu trabalho
(hoje Chile), e demorava-se nelas para pronto, na ponta da língua, dedilhando
ouvir, recitados por Edinor Avelino e seu violão que trouxera a tiracolo. E,
Otoniel, os discursos cívico-poéticos que depois de cantar a melodia,
saudavam a odisséia marítima dos rapidamente criada, explicou ter se
pescadores. Bezerra Júnior aproveitou apropriado, durante a composição da
o contato para conversar sobre a poesia, música, de um “velho fado”. Assim, a
que não satisfazia a Otoniel, e, “Praieira”ganhava um parceiro e uma
contrariamente, elogiou os versos, sua produção musical, ressaltada, em
embora ponderasse que não se uma nota de rodapé, à página 51 de
encaixavam bem numa cerimônia de seu “Jardim Tropical” e logo abaixo dos
saudação daquela natureza. Sugeriu, seus versos, onde Otoniel valoriza o
então, numa afortunada premonição, trabalho de Eduardo Medeiros, o
que ganhariam mais encantamento caso “inspirado musicista” que “pelo seu
fossem musicados, para ganhar uma talento” conseguiu valorizar os versos
transformação músico-poética. de seu poema, ao criar um ‘lindíssimo Eduardo Medeiros valorizou os versos de Otoniel
Ofereceu-se, prazerosamente, para fado que a cidade repete nas serenatas Menezes (nome de rua no bairro de Santo Reis) ao
levar os versos ao seu amigo Eduardo ou nos salões da aristocracia, de bairro musicar Praieira, um lindíssimo fado que passou a ser
Medeiros, musicista de alguns de seus a bairro”. (CM) tocado nas serenatas e salões da aristocracia
poemas, residente nas imediações.
Otoniel, satisfeito com a sugestão,
decidiu acompanhá-lo até o número 13
de uma modesta casa da rua “Rocas de
Dentro” (atual Pereira Simões),
residência do veterano musicista de 35
anos de idade. Medeiros, remanchão e
pecuniário, entocou o pedido, ao ser
entregue por familiares, quando retornou
à sua residência.
Um mês depois, ao encontrar-se com
Bezerra Júnior, Otoniel Menezes
comentou sobre o não aparecimento de
Eduardo Medeiros. O poeta currais-
novense ponderou que a sacrificada
situação do músico, um profissional num
meio não valorizado, pecuniariamente.
O poeta, funcionário público estadual,
desculpou-se pela desatenção, e
envelopou uma nota de 20 mil réis e
despachou um contínuo do Palácio do
Governo para levá-lo até à residência
Natal, janeiro 2006 nós do RN-15
Suplemento
FOTO/ARQUIVO

CARLA XAVIER

O
Rio Grande do Norte não é só solidação da mesma, creditando a isso
a terra de grandes poetas ou iniciativas como o 1º Festival da Músi-
do turismo. O lirismo e a bele- ca Instrumental do RN, que serviu para
za do litoral potiguar não inspiram ape- apresentar o talento dos bons músicos
nas escritores; também serve de com- do Estado. As apresentações no Quem pensa que um salão de beleza
bustível para talentos musicais. Vozes shopping ocorrem de quinta-feira a do- é local apenas para tesouras, escovas e
graves ou aveludadas, ritmos variados, mingo. esmaltes engana-se. O Nalva Salão
estilos diversos revelam a qualidade A Casa da Ribeira, aberta em 2001, Café, também na Ribeira, abriu suas
musical dos artistas que aqui vivem e também se apresenta como mais um portas com uma proposta diferente e ino-
permitem afirmar que a boa música é abrigo para a cultura do artista potiguar. vadora. Além dos serviços de salão de
mais uma riqueza do “Estado Papa- A Casa oferece a Sala Cosern de Tea- beleza, Nalva oferece um café com
Jerimum”. Mesmo assim, nem todas as tro, com 160 lugares, onde desenvolve, apresentações de artistas locais todas Itajubar, local onde novos
portas foram abertas para a boa músi- além de espetáculos teatrais, shows mu- as segundas-feiras. artistas, como Luciane
ca norte-rio-grandense. sicais. Entre os diversos projetos aco- Antunes, passaram
a se apresentar
Nos últimos anos, o surgimento de
novos espaços proporcionou novas opor-
lhidos no espaço, merece destaque o
Cosern Musical. O projeto, que é regi-
Importância
tunidades. Projetos culturais como do pela Lei de Incentivo Câmara
Cosern Musical, Prêmio Hangar, Cascudo do Governo do Estado, se pro- dos festivais aprovar projetos para gravação de
seus CD´s, mas ainda esbarra na falta
Seaway Cultural e outros festivais têm põe a incentivar a música do artista de patrocínio.
dado oportunidades para que os artistas potiguar. Festivais como os dois que O cachê é outro problema.
apresentem seus shows, alcançando um “A importância desse projeto está na ocorreram na Praia do Meio (2003/ Alguns músicos conseguem nivelar
público fora dos barzinhos. oportunidade que nos é dada para mon- 2004 e 2004/2005); o da Igreja de um preço para suas apresentações,
Ponta Negra, que ocorre todos os outros sofrem com o pouco que é
A cantora Lene Macedo começou sua tarmos o nosso show, com cenário, fi- anos; o Prêmio Hangar, que há sete oferecido. Mas, a principal reclama-
carreira há sete anos e, de lá para cá, gurino, iluminação, performance, músi- anos elege os melhores artistas da ção nesse sentido diz respeito à
acha que houve uma melhora significa- cos, nosso repertório, enfim, mostrarmos terra, são fundamentais para a conso- demora no pagamento. Mesmo com
tiva de novos cenários para se apresen- a nossa cara”, destaca a cantora minei- lidação da música potiguar. Mas é as dificuldades, a classe musical
tar. “Novos locais vem surgindo e isso ra, que há três anos vive em Natal, unanimidade entre a classe a destaca que mais importante que a
tem contribuído para que os artistas se Luciane Antunes. Os organizadores do constatação de que ainda falta muito. necessidade capitalista é poder apre-
destaquem e obtenham reconhecimen- Cosern Musical destacam também o tra- “Natal tem público, tem espaço e tem sentar seus trabalhos e obter o reco-
empresários que podem investir. O nhecimento do público.
to. As coisas estão acontecendo aos balho de mídia, o que ajuda na que falta é vontade de fazer”, destaca Os talentos que aqui vivem,
poucos, mas ainda falta incentivo”, afir- “popularização” do artista. Luciane Antunes. como Lene e Jô, Luciane Antunes,
ma. O bairro da Ribeira também é ende- Para os artistas viverem de Michele Lima, Diego Brasil, Pedrinho
O Shopping Seaway desde 2004 vem reço do Itajubartes, localizado na antiga música em Natal precisam trabalhar Mendes, Ivan do Monte, Roberta
desenvolvendo um projeto cultural com morada do poeta Ferreira Itajubá, na rua em bares, festas particulares e outros Karina, Marcondes Brasil, Simona
artistas da terra. O Seaway Cultural, Chile. O novo espaço também tem como eventos. “Se fossemos viver apenas Talma, Luís Gadelha, Valeria Oliveira,
como é conhecido, se destaca por abrir proposta incentivar a cultura norte-rio- de shows, não seria possível, porque o Dário Nascimento, João e Alan, Hélio
gasto é muito com cenário, contratar Ferreira, Paulo Porfírio, Kelly Rocha,
as portas para o artista potiguar e, prin- grandense. “Um dos nossos propósitos bons músicos, equipamentos, figurino Ricardo Wanamarque, Fadja Lorena e
cipalmente, por se propor a criar um é oferecer um palco para que o talento e tantas outras coisas necessárias tantos outros nomes continuam a
público consumidor de cultura. O pro- do músico potiguar aflore e que o públi- para uma boa apresentação”, afirma oferecer algo que não tem preço: a
dutor cultural do projeto, José Dias, res- co aprecie a boa música”, destaca o ator Jô, companheiro de trabalho e esposo arte. “E arte não se julga, não se
salta o bom momento que vive a músi- Beto Vieira, um dos organizadores do de Lene Macedo. O casal, assim compra, cada um tem o seu talento”,
ca do Estado e a necessidade de con- local. como Luciane Antunes, conseguiu como diz Jô.
Suplemento Natal - Janeiro de 2006
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Ontem, o bolero do Irakitan;


hoje, a salsa do Camba
O Rio Grande do Norte tem sido um solo Trio Inajá e Mui Yrapuan, no passado, e servindo
fértil para o surgimento de grupos musicais. de inspiração aos modernos, como Camba, que
Ontem e hoje. Os mais antigos ainda interpreta ritmos caribenhos como a salsa,
devem lembrar dos acordes que fluíam dos palcos merengue e rumba.
onde pisaram, no passado, os Vocalistas Potiguares Muito recentemente os remanescentes do Trio
(1941/49), Ases da Lua (1945/48), Trio Irapuru Marayá (Bering Leiros e Hilton Acioli, no caso,
(1951/54), Trio Marayá (1954/75), Trio Os pois Marconi Campos já faleceu) se apresentaram
Rouxinós, Trio Hawai (!957/95), Trio Inajá em Natal para comemorar os 40 anos em que se
(1958/1998), Trio Menura (1963/80), Trio Ipanema exibiram no Festival da TV Recorde,
(1963/71), Trio Cigano (1976/93) e Trio Irakitan acompanhando Jair Rodrigues na interpretação de
(1950). Os mais jovens ainda se remexem ao som Disparada, de Geraldo Vandré, com a qual
de grupos como Alforria e Camba. obtiveram o primeiro lugar. Este grupo, a exemplo
Entre todos talvez o que tenha feito mais sucesso do Irakitan, também teve projeção internacional.
fora da aldeia potiguar tenha sido o Trio Irakitan, Os saudosistas podem até lamentar os tempos que
cuja formação inicial, a partir de 1950, contava se foram, e com eles os sucessos que eram tocados
com Paulo Gilvan Duarte Bezerril (afochê), Edson antigamente por estes grupos, mas as novas
Reis de França, “Edinho” (violão), João Manoel de gerações não. Alforria, Perfume de Gardênia,
Araújo Costa Neto, “Joãozinho” (tantã). Destes, Camba e Três no Tom, entre outros, estão ocupando
apenas Paulo Gilvan ficou até os dias atuais, ainda os palcos e formando platéias neste momento.
atuando com este grupo no eixo Rio-São Paulo. Como também há, hoje, grandes músicos que atuam
Segundo Manoel Procópio de Moura Júnior, no ora acompanhando um artista ora outro, seja
livro Tributo aos Conjuntos Vocais do Rio Grande conterrâneo ou de fama nacional, sem
do Norte, a história do Trio Irakitan começou a ser necessariamente formarem, eles mesmos, um grupo
escrita ainda na Rádio Poti, onde Gilvan, Edinho e específico.
Joãozinho se apresentavam individualmente, no Carlinhos Moreno (violão), Nemias Lopes e
final da década de 40, no programa reservado à Beethoven (saxofone), Manoca (guitarra), Júnior
Sociedade Artística Estudantil. Primata (baixista), Gilberto Cabral (trombone) e
A ascensão do trio aconteceu aos poucos: da Rádio Carlos Zen (flauta). Só pra citar alguns. Carlos Zen,
Clube de Pernambuco para uma temporada no na solenidade de comemoração dos 50 anos da
Maranhão; de uma excursão pelo Piauí, Paraíba, Emater, na sede da empresa, no final do ano
Ceará, Amazonas e Acre para as Guianas Inglesa e passado, encantou a todos, incluindo a governadora
Holandesa, Ilha de Trinidad, Tobago, Venezuela, Wilma de Faria e o representante do Ministério do
Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, El Desenvolvimento Agrário, tocando o Hino
Salvador, Guatemala, até atingir a cidade do Nacional com sua flauta.
México, onde conquistou a consagração. O trombonista Gilberto Cabral, da Orquestra
“Este Conjunto Vocal, reconhecido como um dos Sinfônica do Rio Grande do Norte, depois de ter
melhores do mundo, já tendo percorrido todos os gravado/tocado com gente como Alceu Valença,
Estados brasileiros, com respeitável know how Bibi Ferreira, Caubi Peixoto, Edu Lobo e
internacional, participou de um filme intitulado Cidade Negra, entre
´levame em tus brazos´, ao lado da bela vedete outros, e integrado a
Ninon Sevilha, onde interpretou as músicas Banzo, Banda Alforria e Camba,
de Hekel Tavares e Murilo Araújo, e O Vento, de onde ainda atua, gravou
Dourival Caymmi”, conta Procópio de Moura seu próprio CD solo,
Júnior. “Musa”, com o
O trio participou de outros filmes musicais e se reconhecimento da crítica.
destacou ao lado de cantores internacionais como Exemplo de talento e
Nat King Cole, Sammy Davis Jr. e Edit Piaff. virtuosismo, como tantos
Gravou mais de 50 discos, em toda sua trajetória outros músicos, citados ou
artística, fazendo escola e influenciando outros não aqui, da nova geração.
grupos musicais do Rio Grande do Norte, como (Moura Neto)