Você está na página 1de 496

O Véu – Volume 1

Segunda Edição
Ano: 2010
Autoria: Willian da Silva Nascimento
Capa: Willian da Silva Nascimento
Direitos reservados ao autor pelo Escritório de Direitos Autorais – Fundação Biblioteca
Nacional – Rio de Janeiro - RJ
Obra liberada para livre divulgação sem fins lucrativos

1
Para Nathália, pois nenhum livro é escrito sem ter
aquele interessado em ler

2
Agradecimentos da 1° Edição
Existem várias pessoas a quem devo a chance de realizar esse trabalho.
Mesmo não contribuindo diretamente com o livro, suas ações, por menos importantes que
possam parecer, foram as linhas fundamentais que permitiram tecer “O Véu”.
Primeiramente, devo muitos agradecimentos a minha família, principalmente a meu pai
Jurandy, minha mãe Estefania e minha irmã Michelle, que foram pessoas que não mediram
esforços para me dar a melhor educação possível.
Muito obrigado.
Em segundo, gostaria de mandar um grande beijo para Fátima, uma grande amiga que me
iniciou no mundo da leitura e me mostrou as coisas fantásticas por trás das letras.
Tia Fátima, grande parte dos livros que você me emprestou ajudaram a compor essa obra.
Obrigado.
Nada seria de mim sem esse grupo.
Eles me acompanharam por grande parte de minha vida e com eles tive a chance de viver
muitas aventuras. Foram graças há nossas horas gastas em RPG, que eu consegui desenvolver a
imaginação que me permitiu criar histórias próprias.
Obrigado a Jorge, Marcelo, Marcos, Mariana, Rafael, Renata, e Renan.
Amigos na realidade e na virtualidade.
E por último, vale lembrar que nada sai sem um propósito.
Nenhuma música é composta sem alguém para ouvir e nenhuma pintura e trabalhada se
não tem quem possa ver.
Assim também, nenhum livro pode ser escrito se não há pessoas interessadas em ler.
Então, muito obrigado a Nathália, pois sua animação e incentivo me deram a coragem de
me sentar na frente do computador e escrever.
Obrigado por confiar em mim.

Agradecimentos especiais para a 2° Edição

Gostaria de Agradecer especialmente a Mayllee Chan e Adriana F. que me


ajudaram na revisão desta edição.
Acho que conseguimos retirar algumas pontas soltas deste trabalho.
Obrigado

3
Prólogo - Histórias em volta da fogueira

De todas as férias que passava, não havia nenhuma melhor para Ana do que as
que ocorriam no sítio dos avós em Três Corações, interior de Minas Gerais. O Estado
mineiro é famoso por suas lendas locais e superstições dos mais variados tipos, mas Ana
gostava especialmente desta cidade onde havia as lendas de bruxas que ela tanto amava.
Suas tias, que também moravam na região, tinham o costume de lhe contar
inúmeras histórias enquanto assavam marshmallows em volta da fogueira no quintal da
casa delas. Teresa e Samanta eram suas melhores amigas e sempre se diziam bruxas de
alto poder, coisa que Ana jamais duvidou. Ela ainda conseguia se lembrar muito bem da
noite em que acordara doente, com o termômetro marcando quarenta graus de febre. Tia
Teresa lhe trouxe um chá de ervas que, segundo ela, era capaz de curar quase todos os
tipos de enfermidades. Com apenas oito anos na época, a menina não teve receios em
acreditar com todas as forças na cura milagrosa e aparentemente os céus
recompensaram sua fé, pois no dia seguinte estava curada. Esse e outros casos só
serviam para confirmar para Ana o poder que aquelas duas mulheres possuíam.
Sílvio e Marieta, seus avós, reforçavam suas crenças. Sempre confirmaram para
Ana o poder de suas filhas, contando casos em que elas conseguiram mexer com as
forças da natureza. Numa certa ocasião, eles contaram, uma onda de calor atacou o
Município de Três Corações, trazendo algumas doenças de caráter misterioso. Eles se
recordam que numa semana as irmãs Samanta e Teresa saíram de casa alegando que
iriam para o interior da floresta onde havia um local especial no qual elas poderiam
realizar um ritual que poria um fim no problema. Logicamente, seus pais foram contra
tal empreitada, principalmente pelo fato das duas irmãs terem apenas doze e quatorze
anos, respectivamente, na época. Mas a proibição não adiantou muito e naquela noite as
duas haviam fugido às escondidas e ficaram desaparecidas por uma semana. Seus pais
procuraram por elas de todas as formas possíveis sem obter resultados vantajosos.
Mandaram inúmeros grupos de busca para a floresta, mas todos voltaram sem resultados
e a policia começava a cogitar a idéia de um seqüestro. Porém, exatamente uma semana
depois, as duas irmãs reapareceram. Ilesas e aparentemente saudáveis, elas diziam que
foram bem sucedidas no ritual mágico.
Sílvio e Marieta ficaram irritados, mas depois que tiveram suas filhas de volta,
foram capazes de perceber que de fato as coisas haviam mudado e que o clima estava

4
bastante ameno. Sem saber o que fazer, deixaram aquela passar, mas não sem antes
arrancarem uma promessa das duas de que jamais fariam aquilo novamente.
Ao contrario de seus avós, sua mãe não concordava com tais comportamentos de
suas irmãs. Helena era, na época, Professora Adjunta da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, onde lecionava biologia. Ela não compartilhava das crenças de Ana. Para
Helena, mágica não existia. Na verdade, para ela nada que não pudesse ter uma
explicação baseada em átomos, enzimas ou teorias da física não existiam.
“Por isso não arrumam maridos”, era o comentário que sempre fazia.
Apesar dessa opinião, Helena nunca forçou Ana a seguir suas idéias, embora não
gostasse da influência que suas irmãs tinham sobre a menina.
Seu pai, apesar de também ser descrente, em nada se importava. Ele sempre dizia
que crianças deviam ter o direito de sonhar. Para ele, que era psicólogo, essas fantasias
eram importantes para o desenvolvimento infantil. “Crianças devem ser crianças”, ele
sempre dizia.
Com essa família, Ana nunca teve dificuldades em deixar sua imaginação correr.
E sempre que cabia a ela escolher aonde seriam as próximas férias, a resposta já estava
gravada em sua língua: para Três Corações.
Porém, as suas férias de meio de ano, próximas da data de comemorar seu décimo
segundo aniversário, poriam um fim a esse mundo de magia.

*
Era Inverno e mais uma vez Ana tinha decidido passar seus dias de férias na casa
dos avós. Nas três primeiras noites que passou, ela ouviu ótimas histórias de bruxas e
magos em volta da fogueira no quintal da casa de suas tias. Samanta lhe contou uma
lenda antiga, sobre uma família de magos que habitava as regiões do norte do Canadá: a
família Garow.
“De acordo com a lenda, essa família, diferente dos demais magos existentes,
possuía uma forte ligação com a natureza da região, sendo capaz até mesmo de
controlar o clima gelado e os lupinos locais. Além dos poderes incomuns, seus traços
físicos eram muito peculiares e em muito lembravam aspectos canídeos. Dizem até
mesmo que a lenda dos lobisomens nasceu devido a esse clã.
“Durante a caça às bruxas, inúmeras foram as tentativas dos inquisidores europeus
de erradicar esse grupo. Porém, devido ao seu grande poder e sua afinidade com a

5
natureza local, nunca foram derrotados, obrigando os colonizadores a não adentrar seus
territórios e mantendo a região conservada.
“Como os Garows não demonstravam instintos expansionistas, viveram em paz
com os russos que vieram a habitar essa região nos anos seguintes. Até que
desapareceram.”
— Mas como, tia Samanta? – a garota ficou pasma – Os russos finalmente
conseguiram derrotar os Garows?
— Possivelmente não – respondeu Teresa. – Apesar de a Rússia possuir
excelentes grupos inquisidores na época e seu povo já ser acostumado ao clima gelado,
duvido que fossem capazes de deter a afinidade dos Garows em sua terra.
— Mas então como eles puderam desaparecer?
— Ninguém sabe – agora era Samanta quem dizia – esse é um dos maiores
mistérios do mundo mágico. Como um clã tão poderoso pôde simplesmente ser
erradicado? – ela deu de ombros – A noticia correu o mundo quando começou a circular
na Europa o diário de um colono Russo que habitava a região e tinha relações com os
membros do clã. Seu diário continha alguns relatos da dizimação dos Garows. Esses
relatos mostram o grau de destruição em que a aldeia foi encontrada. Todos os
moradores foram brutalmente assassinados, provavelmente por um grupo mais feroz
que eles, devido aos tipos de ferimentos encontrados nos corpos.
Ana ouvia cada detalhe com muita atenção, tendo até mesmo que se lembrar de
respirar em algumas seqüências.
— Nossa! – exclamou – Quando crescer vou descobrir o que aconteceu com o clã
Garow.
— Claro que vai querida – encorajou Samanta com um sorriso – mas agora você
vai é voltar para casa da vovó para dormir.
— Exatamente – completou Teresa. – Já está tarde e se você se atrasar mais meus
pais vão nos mandar para a fogueira.
Ana riu e concordou.
— Vou indo sim. Mas posso fazer uma última pergunta?
— Claro – encorajou Samanta
— Como eles eram? Digo, eram humanos?
— Claro que sim. Todos os magos são humanos, querida. Magia é para todos e
aposto que as habilidades dos Garow, apesar de incomuns, foram fruto de um íntimo

6
contato com sua terra. Afinal, eles moraram naquela região por cerca de mil anos e
nesse tempo aprenderam muitas coisas.
— Claro que tem a questão da aparência – lembrou Teresa.
— Como assim? – a garota se interessou.
— Bem, contam as lendas que a grande afinidade que os Garow tinham com a sua
terra acabou mudando a sua própria fisionomia – e fez uma pausa para acrescentar um
ar de mistério à narrativa. – Parece que a ligação deles com os canídeos deram a este
grupo algumas características bem bestiais como unhas em forma de garras e caninos
pontiagudos. Outra característica forte no clã eram seus intensos olhos azuis. Todos os
relatos sobre os Garows falam desses olhos. Parece que o efeito que causa em quem vê
é impactante.
— Eles deviam ser bem bonitos – comentou Ana.
— Bem, tem gosto pra tudo – riu-se Teresa não concordando por completo. –
Então, vai querer companhia pra casa?
— Não Tia. Já sou crescida.
— Que ótimo – felicitou Samanta. – Então vai logo. Amanhã faremos outro
programa – e, de repente, ela deu um pulo lembrando-se de uma coisa. – Espere! Eu
quero que leve isso contigo.
Samanta remexeu o bolso do casaco à procura de algo, até que enfim encontrou
um pedaço de pano, aparentemente muito velho.
— O que é isto? – perguntou a garota um tanto enojada pela sujeira do tecido.
— Abra – recomendou Samanta.
Após desdobrar o pano sujo, Ana encontrou uma mancha. Ela olhou para as tias
interrogativamente e depois focalizou a atenção novamente no presente. Aos poucos, foi
identificando os aspectos da estranha mancha e percebeu que tinha um padrão ali. Logo
percebeu se tratar não de uma mancha, mas sim de um desenho de aparência bem
rústica. Depois de poucos segundos a garota conseguiu identificar a cabeça de um lobo
estampada no tecido. A face do animal, toda em estilo tribal, se encontrava de frente e
com um olhar ameaçador. O desenho não tinha muitos traços, mas era bonito assim
mesmo.
— Esse é o símbolo da família Garow – explicou tia Teresa. – É uma relíquia,
talvez uma das poucas que um dia pertenceu à tribo.
O rosto da garota se iluminou com a informação.

7
— Serio? Obrigado! – Exclamou enquanto voava no pescoço das tias num forte
abraço – Mas como conseguiram?
— Bem, como você sabe, fomos ao Canadá algumas vezes na nossa vida. Numa
dessas viagens participamos de uma excursão pelas tribos indígenas da região e
encontramos essa relíquia num desses lugares. Ela estava sendo vendida como
lembrança por pessoas que provavelmente saquearam o lugar antes de nós chegarmos –
e completou com um sorriso amarelo. – Reconhecemos a autenticidade do símbolo e
conseguimos pechinchá-lo fazendo o vendedor acreditar que não era nada de valor.
— Legal – repetiu a garota sem se importar com a trapaça das tias.
Quando Ana as largou, Teresa disse:
— Sabemos o quanto você gostou desse tipo de clã em particular, então
resolvemos lhe dar isso – e alertou – mas, cuide bem dele. Temos esse símbolo há anos
– brincou.
E depois de se despedir de Teresa e Samanta, Ana saiu para a casa dos avós.
Estava escuro e deserto no caminho que levava até o sitio de Sílvio, mas Ana adorava a
sensação de perigo que envolvia andar sozinha à noite. Apesar do distrito de Três
Corações não ser violento e as chances de que algo aconteça com ela durante os dez
minutos de trajeto da casa de suas tias até a casa de seus avós serem de uma em um
milhão, Ana gostava de se sentir destemida e encarando o desconhecido.
O vento começava a soprar com força fazendo esvoaçar os cabelos curtos da
menina. Era um fenômeno normal nas noites da região e que Ana adorava. Além de
gostar da sensação do vento acariciando seu rosto, essa corrente noturna aumentava o ar
sobrenatural da região que sempre a deixava de pelos arrepiados.
Mas a brisa começou a soprar com mais força, exigindo que ela levasse o braço à
frente do rosto para proteger os olhos. Um som começava a ser produzido em seus
ouvidos e ela se lembrou de suas tias dizendo que os ventos muitas vezes carregavam
mensagens distantes, embora Ana nunca tenha conseguido interpretar nenhuma. À
medida que chegava perto de casa, Ana sentia que o vento em seus ouvidos começava a
ganhar forma, até finalmente se tornar uma mensagem clara que Ana pôde interpretar.
E ficou aterrorizada com o que escutou.
Matar

8
Quando ouviu isso, o medo tomou conta da jovem garota. Ela olhava
desesperadamente em sua volta tentando localizar a boca que emitia tal mensagem.
Aquela voz gélida parecia pertencer a alguém cruel, que talvez nem humana fosse.
Matar
De novo e as lágrimas começaram a querer sair de seus olhos, mas ela as segurou.
Não gostava de chorar na frente dos outros e muito menos daquilo que tentava apavorá-
la.
— Quem está aí? – ela gritava para o escuro. Sem resposta.
Ela tentou juntar toda a coragem que tinha para continuar falando:
— Eu sou sobrinha das duas maiores bruxas da região. Não se meta comigo ou
você está frito!
Agora o vento ria do comentário da jovem menina. Mas ao invés de responder, ele
foi sendo levado para longe. Porém, os sussurros continuavam soando em seus ouvidos
e desaparecendo aos poucos. Sussurros que continuavam a dizer:
Matar, matar, matar. Matar as duas.
O vento agora era levado em direção ao caminho por onde Ana havia vindo.
Tias, um medo atravessou o coração da pequena e, conseguindo se livrar da
paralisia em seus músculos causada pelo medo, ela correu como nunca na vida em
direção a casa dos avós. Quando chegou, entrou gritando desesperada:
— Vô! Vó! Rápido! As minhas tias estão em perigo!
— O que houve minha filha? – perguntou sua avó largando a revista que lia e se
erguendo da poltrona ao notar seu desespero.
— Vó. Eu ouvi alguém dizer que vai matar a tia Teresa e a tia Samanta.
— Onde você ouviu isso? Quem te disse? – a velha começava a ficar preocupada.
— Eu ouvi. O Vento me disse.
— Como?
— Por favor, vovó! Chame a polícia, alguma coisa. Chame o vovô!
— Seu avô saiu Ana. Vai demorar um pouco para chegar.
— Mas vão matar as tias! – Agora Ana não conseguia segurar as lágrimas em
seus olhos e foi então que se iniciou um choro soluçante que a impedia de continuar a
falar com precisão.
Vendo a situação desesperadora da neta, a avó a abraçou e disse:

9
— Calma minha filha – e vendo que não conseguia acalmar a garota, propôs. –
Vamos lá na casa das suas tias. Veremos se estão bem. Vou levar o celular caso
aconteça algo. Tá bem?
A garota concordou saindo em disparada até a casa das tias. Mesmo limitada pela
idade, Marieta lutava para acompanhar os paços da garota. Quando finalmente
chegaram, tudo estava transpirando uma enorme paz.
— Viu querida? Está tudo bem.
Mas Ana ainda não estava completamente convencida. Ela tinha que entrar e
conferir. Porém, não teve tempo para isso, pois logo um clarão surgiu do interior da casa
e um estrondo de explosão derrubou a ela e a sua avó no chão. Ana sentiu o ouvido
zumbir devido ao barulho e quando conseguiu abrir os olhos, só pôde ver chamas no
local onde antes havia uma casa. O fogo conseguiu se espalhar com uma velocidade
nunca imaginada e toda a casa ardia em meio às chamas.
— Tia! – Ana sentia seus pulmões arderem a cada grito – Tia Samanta! Tia
Teresa!
Ana gritava sem obter respostas até que chegou uma próxima visão que fez sua
voz se calar num engasgo. Pois no meio das chamas a menina pôde identificar uma
silhueta que se encontrava na janela.
Tia? Ela pensou, mas no fundo sabia que não era. A silhueta parecia pertencer a
um homem. Era alta e forte. Mas como alguém sobreviveria no meio daquele inferno?
Apesar de não poder enxergar o rosto daquilo que estava na janela da casa, sabia que
aquilo a encarava. Então o medo voltou a brotar no fundo de seu corpo, assim como
acontecera quando ela ouvira a voz na estrada de terra. Um medo tão forte que toda a
sua voz era sufocada quando tentava alertar sua avó do que ela via.
Mais um estrondo. E a última imagem na cabeça de Ana ficou sendo a da casa e
do ser misterioso desaparecendo num segundo clarão.

*
Ana acordou duas semanas depois. Descobriu que o corpo de bombeiros local
acusou um escapamento de gás como a causa da explosão. E apesar de tentar, e não
importava o que Ana dissesse ou o quanto gritasse, ninguém acreditava na sua versão
sobre ventos malignos. Seus relatos sobre a noite não eram levados a sério e com o
tempo nem sequer eram ouvidos, servindo apenas para que Ana ganhasse anos de visitas

10
à psiquiatras de diferentes estados do país e remédios com nomes cada vez mais
complicados.
Anos se passaram e aos poucos Ana foi desistindo de sua versão. Na verdade, o
tratamento devia estar funcionando, pois nem mesmo ela conseguia mais acreditar no
que tinha testemunhado. O fato de não acreditarem nela e o medo de acabar como a avó
– que foi internada num hospício ao enlouquecer após o acidente com as filhas –,
fizeram Ana finalmente se calar.
À medida que foi crescendo, Ana foi também esquecendo. Esqueceu-se das
antigas histórias que lhe contavam suas tias, das horas passadas em volta da fogueira.
Magia e bruxas eram agora para ela apenas sonhos de uma garotinha, que morreram
junto com suas tias naquele terrível acidente.

11
1 - Um dia na fossa.

Uma música tocava ao longe. Apesar de pertencer a uma de suas bandas favoritas,
naquele momento aquele rock pesado lhe trazia uma mensagem muito triste: era hora de
acordar.
Ana abriu os olhos. Enquanto tentava se acostumar à claridade do dia, tateou a
cômoda atrás do aparelho celular para poder desligar o despertador. Sem nenhuma
pressa, sentou-se e não saiu da cama até que garantisse que todas as juntas do corpo
haviam sido estaladas e todos os músculos espreguiçados. Não tinha o menor ânimo de
se levantar. Sabia que um forte interrogatório a esperava na escola. Todas as suas
amigas iriam querer detalhes do último acontecimento do Bairro Vila da Penha: o fim
de seu romance com Lucas.
E por falar nele, Ana agarrou o porta-retrato ao lado da cama e tirou a sua foto
com o ex-namorado e a rasgou.
Menos mal, pensou, eu tinha ficado horrível na foto mesmo.
Talvez estivesse passando pelo comum estado da fossa, mas Ana não sabia se era
verdade. Estava triste sim, mas não tanto quanto imaginou que seria. Ela sempre pensou
que se um dia terminasse, esse seria um acontecimento terrível, que ela choraria
horrores e se sentiria péssima, mas não era tão ruim assim. Estava triste sim, mas nem
tanto pelo fim, mas sim pelo modo como aconteceu.
Talvez se ela chorasse conseguiria aliviar um pouco seu peito da angustia, mas
nem isso acontecia. Desde muito tempo que suas lágrimas haviam secado. Ana já havia
chorado muito desde... Não queria voltar a pensar nisso. Não agora. Quem sabe um dia
na fossa fosse resolver. Não tinha muita experiência nisso a não ser o que tinha visto em
um seriado de televisão, Gilmore Girls, e era com essa base que se permitiria realizar
todos os rituais comuns a esse estado: desde filmes tristes até o sorvete.
Quando finalmente conseguiu se levantar, dirigiu-se até a cômoda para se olhar no
espelho. Com certeza seu estado de espírito se refletia no corpo, pois naquele momento,
ela não gostava de nada do que estava vendo. A garota do outro lado tinha seus olhos
castanhos cansados e fundos por passar a noite anterior em claro; uma pele morena que
talvez precisasse de um creme e os cabelos negros e lisos na altura do queixo pareciam
um tanto malcuidados.
Bem, eu acabei de acordar, se consolou.

12
Porém, o que mais a incomodava no momento era a pequena mecha de fios
rebeldes que insistia em não abandoná-la. Aquele era um pequeno grupo de fios que
fazia parte de sua franja, só que ao contrario dos demais cabelos que ficavam bem
penteados ao lado do rosto, aquela insistia em cortar seu rosto ao meio e não importava
como penteasse ou cortasse o cabelo, aquela mexa era sempre sua companheira. Ana já
havia aprendido a conviver com ela, porém, hoje a garota a odiava em especial.
Quando acabou a auto-avaliação do rosto, resolveu descer os olhos e fitar o
próprio corpo. Talvez eu esteja gorda, pensou estufando a barriga como que para
comprovar sua teoria. Ana percebeu que não estava num humor muito agradável para se
olhar. Só conseguiria ficar mais pra baixo se continuasse.
Talvez não tenha nada de errado comigo, pensou. Lucas só me trocou por ser um
idiota, tentou se convencer. Azar o dele. Então, a garota resolveu se atentar na única
coisa que em nenhuma situação conseguiria encontrar defeito. Era um objeto sim, mas
ficava tanto com ela que já podia ser considerado como parte de seu corpo. Tratava-se
de um colar de ouro com um pingente em formato circular. Era um daqueles pingentes
que se abrem permitindo guardar fotos em seu interior. Nesse colar, em especial, três
imagens. Uma foto de Teresa e outra de Samanta, suas duas tias mortas num – como
todos acreditavam e ela também – acidente doméstico.
Dentro do pingente havia outra coisa também que, assim como as fotos, servia de
ponte entre Ana e seus entes queridos, mas ela não queria abri-lo no momento. Já se
sentia bastante depressiva para ficar alimentando esse momento com recordações tão
pesadas. Esquecendo então o assunto, tomou banho, arrumou-se e desceu para tomar o
café e ir para a escola.
— Bom dia, Ana – cumprimentou sua mãe com seu habitual bom humor.
Como sempre, sua mãe conseguia ficar muito bem logo de manhã. Aquela mulher
não parecia viver momentos ruins e mesmo às sete da manhã conseguia estar
deslumbrante fazendo o café. Ana sempre admirou a beleza da mãe, mas naquele
momento aquilo a incomodava. Torcia para sair de seu estado de morbidez o mais
depressa possível. Não agüentava essa Ana que agora tomava conta dela.
Helena era professora universitária e se vestia à altura. Seu blazer branco e bem
passado contrastava com a pele morena que Ana herdara. Seus cabelos eram lisos como
os da filha, mas Helena os conservava assim mais curtos. Dizia que os mantinha assim
porque Oscar adorava.

13
Pensando bem, Ana era a imagem refletida da mãe, com os mesmos olhos
castanhos e rosto fino. Engraçado conseguir achar a mãe tão bonita quando se sentia tão
feia.
— Bom dia, mãe – respondeu, tentando dissimular a voz.
— Fiz sanduíches para o seu café – ela tratou de dizer com sua pressa habitual. –
Eles estão em cima da mesa – ela falava rapidamente enquanto pegava as coisas na
mesa da cozinha. – Seu pai saiu mais cedo e eu terei de sair agora também. Desculpe
não podermos tomar café com você hoje.
—Tudo bem – ela sorriu cansada.
— Tchau, filha.
— Obrigado.
A mãe saiu em disparada da casa. Dentre as muitas qualidades que Helena tinha,
pontualidade não era uma e todo o dia de manhã era aquela correria.
Ana, no fundo, sentia-se muito mais aliviada com isso. Pelo menos nenhum de
seus pais perguntaria logo de manhã pelo namorado. A notícia sobre o fim da relação
era uma coisa que Ana adiaria para seus pais o tempo que conseguisse. Então, sentou-se
à mesa e comeu com a maior calma que conseguia. Olhando o relógio, percebeu que
não se incomodaria de chegar um pouco atrasada.
Quando abriu a geladeira para pegar um suco para beber com os sanduíches que a
mãe fizera, notou o bolo de seu aniversário de dezessete anos que sobrou da noite
anterior. Com todo o desfecho daquele dia, Ana até havia se esquecido de que foi a
noite de seu aniversário.
A cena da briga com Lucas passava por sua mente o tempo todo. O flagra, a
discussão, a tremenda cara de pau dele. Belo presente de aniversário esse, irritou-se.
Com um pouco mais de mau humor, terminou de comer, pegou a mochila e foi embora
para o seu destino.
Ana morava na Rua Feliciano Pena que ficava no Bairro Vila da Penha, nos
subúrbios do Rio de Janeiro. Um lugar calmo e freqüentemente desanimado, apesar de o
bairro possuir alguns atrativos, como um Shopping, cinema e algumas boates. Andando
em passos cada vez mais lentos em direção ao colégio, ela tentava deixar sua mente
voar, mas logo descobriu que tal desejo não era possível. Cada vez que deixava seus
pensamentos a guiarem, era para Lucas que eles a levavam.
Saco.

14
— Ana!
Seu coração deu um salto ao ouvir seu nome e ela se virou com receio de ver
quem a chamava, porém, quando se virou viu que era Ian, e sua paz de espírito voltou.
— Graças a Deus – sua voz demonstrava o alivio que sentia. – Pensei que fosse
o...
— Eu sei – ele riu oferecendo pra ela uma bala de menta. Esse já era um ritual
clássico do garoto. Ele podia viver sem oxigênio ou água, talvez até sem comida, mas
nunca sem suas balas de menta. – Quer companhia?
— Lógico! – respondeu, aceitando a bala e agarrando-se ao braço do garoto.
Passaram a caminhar juntos então. – Eu precisava de alguém pra conversar de algum
assunto que não envolva ontem.
Ian era um jovem de dezesseis anos, de estatura média, embora mais alto que ela.
Ele era seu vizinho e melhor amigo desde que se mudara para aquela rua há quatro anos,
logo depois da tragédia em Três Corações.
As janelas de seus quartos davam de frente uma para a outra e eles tinham o
hábito de ficarem horas conversando por ali. Na verdade, foi o que tinha acontecido na
noite anterior, quando ela recorrera a Ian para desabafar sobre seu término. Os dois
acabaram conversando até as três da manhã e esse era o motivo de estar se sentindo tão
cansada.
Ian também parecia estar sentindo o desgaste da noite anterior. Seus olhos negros
como um céu noturno estavam fundos também. Porém, observando melhor, ele parecia
estar sem dormir por muito mais noites e parecia estar dez vezes mais cansado que Ana.
Seus cabelos eram extremamente despenteados e negros, iguais a cor de seus olhos e
contrastavam com sua pele muito branca. Ian sempre dizia que eles faziam parte de seu
estilo largado, mas Ana desconfiava que o real motivo fosse relaxamento estético
mesmo. Era comum vê-lo de calça jeans e casaco, suas vestimentas habituais, mesmo
num tempo não tão frio como era o daquele dia. Era julho e inverno, mas como todo o
inverno no Rio de Janeiro, não estava exatamente frio.
— Vai ser difícil. Esse será o assunto do momento hoje – ele falou enquanto
andava com a garota em seu braço.
— Eu sei. Eu sei – respondeu com um sorriso desanimado.
— Mas então. O que pretende fazer agora com dezessete?
— Não sei. Acho que nada muda.

15
— Eu sei.
— Como sabe se você ainda não fez?
— Bem... – ele revirou os olhos – nunca faz diferença, não é?
— Verdade – ela riu.
Ana olhou para as olheiras do amigo.
— Não tem dormido direito? – interrogou.
— Não muito – assumiu. – Tenho feito umas coisas importantes – disse com falso
ar de mistério.
— Sei... – Ana assumiu um ar desconfiado – Importantes. Com quem?
— Não é nada disso – riu-se o garoto.
O caminho até o colégio foi bem calmo. Conversar com Ian era sempre agradável
independente do assunto. Eles dois eram vizinhos desde que ela tinha doze anos. Na
verdade ele foi o primeiro amigo que ela conseguiu depois do acontecimento em Três
Corações. Após o incêndio, sua família se mudou devido às especulações dos vizinhos
de que ela havia enlouquecido.
Embora tal atitude não tenha adiantado muito, pois mesmo depois de mudarem
para a Vila da Penha seu apelido, InsANA, ainda andava pela boca das pessoas nos
primeiros dias. E foi nesse período que Ian foi seu porto seguro. Era agradável ter
alguém com quem conversar e Ian escutava todas as suas histórias: de como ela ouviu a
voz no vento, de como viu a forma nas chamas. Ele parecia ser o único que, se não
acreditava nela, pelo menos não demonstrava desconfiar de sua sanidade. E quando ela
finalmente tirou da cabeça a loucura das suas histórias de bruxas, Ian nunca mais tocou
no assunto e mesmo assim sempre foram amigos.
Chegando ao colégio Santa Teresa, ela soltou o seu braço e eles se viraram de
frente um ao outro.
— Bem – começou Ian –, tenho que ajudar o Carlos com um trabalho antes que
comece as aulas. Vai ficar bem sozinha?
Ana olhou em volta dando de ombros.
— Não, mas pode ir. Vou tentar sobreviver.
— Tente – ele sorriu. – Então tchau – despediu-se passando a mão no seu rosto
arrastando a mexa rebelde para junto das demais e lhe deu um beijo na testa.

16
— Tchau. – Ana fechou os olhos ao receber o carinho. Ela sempre gostou desse
gesto. Apesar de ser completamente inútil, pois o cabelo anarquista sempre retornaria ao
meio da testa, era agradável essa dedicação de Ian.
Agora a garota se virou, encarando a entrada à sua frente e, com um forte suspiro,
entrou. Andando pelos corredores, não encontrou ninguém próximo. Foi rápido e entrou
na sala e ali aguardou o inicio da aula de biologia. Dez minutos depois, viu entrar
Fernanda. Ao vê-la, a garota acenou e veio se sentar junto de Ana. Fernanda era uma
garota alta e esguia. Tinha a pele muito branca – mais até que a de Ian – e sempre usava
roupas muito discretas e conservava os longos e encaracolados cabelos castanhos claros,
presos.
Fernanda – ou Fê – era uma garota reservada e muito tímida, embora de vez em
quando pudesse dar uns surtos de adrenalina que eram extremamente assustadores.
— Oi. Tudo legal? – Perguntou Fernanda, solícita.
— Sim. Tudo legal – respondeu, tentando parecer convincente.
Fernanda não perguntou mais nada e se sentou de frente para o quadro. Ana
percebeu que ela estava doida para saber do caso da noite anterior, mas vendo que ela
não estava muito interessada em falar sobre o ocorrido, ficou calada. Gostava desse
respeito que Fernanda tinha pela vida dos outros e começou a pensar em conversar com
ela. Mas não sabia como começar um assunto sem que ele fosse desviado para Lucas.
Mas depois de pensar um pouco, percebeu que no fundo ela precisava desabafar
com alguém do mesmo sexo. Alguém que tivesse mais facilidade de entendê-la. E não
teria problema em falar com Fernanda, afinal, conhecia a amiga e sabia que não era
fofoqueira e o que fosse falado ali seria levado ao túmulo com a garota se fosse preciso.
— Bem... – começou, e viu que a garota se inclinara rapidamente para ela muito
interessada – Ontem eu fui ter uma conversa com Lucas. Tinha uns assuntos que eu
tinha de tratar com ele e não poderiam esperar. Aí nós brigamos e eu resolvi terminar.
— Eu estou sabendo, mas por quê? O que ele fez? – começava o interrogatório.
— Eu descobri que ele não era completamente sincero comigo.
— Tinha outra garota?
— Sim.
Fernanda levou as mãos até a boca num gesto um tanto exagerado para se mostrar
perplexa.
— Gente. Eu nunca imaginei isso. Ele parecia tão...

17
— Certinho? – Ana arriscou
— É – concordou a amiga. – Bem, minha mãe sempre dizia que esses são os
piores, mas… mesmo assim.
Ana deu uma risada desanimada e concordou com a cabeça.
— Pode crer. Eu também não esperava.
O sinal tocou e logo a sala estaria cheia de gente. Antes, porém, Fernanda tentou
mais uma pergunta.
— Mas como você descobriu?
— Eu o peguei uma vez perto do clube onde ele pratica futebol.
— Que sorte – e corrigiu rápido. – Q... quero dizer. Pelo menos você descobriu,
né? Maior acaso.
— É... – Ana, porém, não diria que foi acaso. Foi mais um sexto sentido. Na
verdade ela preferia esquecer isso, pois a coisa lhe trazia lembranças que ela há muito
tempo tentava enterrar.
Porém, o pensamento era uma coisa difícil de controlar e ela logo estava de volta
para a Avenida Tejupá onde tentava ligar para Lucas enquanto se dirigia à escola onde
ele tinha aulas de futebol.
— É serio – era Lucas que tinha atendido ao telefone depois da quinta ligação –.
Vou ficar ocupado por algumas horas aqui. Depois eu te ligo. De noite.
— Francamente, é mais fácil conseguir marcar hora num hospital público do que
falar com você – Ana estava um pouco irritada com a distância que o garoto tomava
dela. – Depois temos de conversar.
— Tudo bem, tudo bem. Depois eu te ligo – sua voz demonstrava enorme
impaciência.
— Bem, você vai ao meu aniversário amanhã, espero. – não era um convite.
— Claro – respondeu rápido demais.
— Até – e desligou.
Ana parou no meio do caminho. Havia pensado em fazer uma surpresa, mas
desistiu. Seu namoro não ia bem e talvez algo de diferente pudesse salvar a relação.
Porém, após ligar para o namorado, descobriu que ele não foi para o treino por ter de
ajudar o pai com uma coisa que ele não explicou.
Alguma coisa a incomodava naquilo. Era uma sensação de que algo estava errado.
Pensou em voltar para casa e esperar a ligação até que começou a ventar muito. O que

18
começou com uma leve brisa, ganhou força até fazerem seus cabelos baterem no rosto.
Mas o que mais a incomodava era que o som produzido em seus ouvidos que começava
a ganhar forma. Uma voz começava a poder ser ouvida junto com o som da brisa. Uma
voz diferente da que ela ouviu anos atrás em Três Corações, mas uma voz mesmo
assim. Ela tentou tampar os ouvidos, mas a mensagem já havia sido dada:
Ele está mentindo pra você
Ana pensou em simplesmente ignorar o aviso, correr para casa e fugir daquela voz
que tantas lembranças ruins lhe traziam, mas no fundo se sentiu tentada a fazer o que ela
lhe falou. Tinha parado de ventar e o aviso, somado à própria desconfiança que ela já
sentia a fizeram continuar até o clube. Chegando lá, a primeira coisa que pôde ver foi
Lucas com uma garota, se atracando em público, encostados na grade que cercava o
campo onde ocorriam os treinos.
Ela não soube o que fazer naquele instante. Sentiu raiva do namorado, queria tirar
satisfações, discutir, bater e xingar se fosse preciso, mas o raciocínio lógico a impediu.
Isso só o faria se sentir melhor. Ter duas mulheres brigando por ele. Pensou com nojo.
E refletindo assim, deu meia volta e foi embora. Em casa, socou o travesseiro,
tacou ursos pelas paredes, mas não chorou. Era uma dor no peito o que sentia, uma raiva
por ter sido traída, enganada, mas não foi forte o suficiente para fazer lágrimas verterem
de seus olhos.
Naquela noite Lucas não ligou e só o viu no dia seguinte na sua festa de
aniversário, onde tiveram a última briga.
— Ana? Acorda – uma voz a tirava de seus devaneios e a trazia de volta a Terra.
Era Ian, que já estava ao seu lado na sala e a cutucava enquanto olhava em direção
ao quadro.
Ana olhou e viu que a professora já estava em sala, encarando-a com uma irritada
interrogação na expressão do rosto.
— Então, Ana? Qual a resposta? – ela perguntou.
— Protocooperação – soprou Ian.
— Protocooperação! – Ana se pôs a responder.
— Sim – concordou a professora com ar de desaprovação.
— Obrigada. – sussurrou em resposta
— Não por isso – o amigo riu.

19
*
Depois desse momento a aula ocorreu tranqüilamente. Saindo da sala, houve o
intervalo onde três novas pessoas pareciam interessadas em saber detalhes da separação.
Curiosidade essa que Ana saciou respondendo o básico do que era perguntado, tendo
seu relato cada vez mais resumido. Depois, houve mais um tempo de matemática e dois
de Literatura Brasileira. Enfim, quando o dia terminou, Ana pôde tentar voltar a passos
rápidos para casa.
— Ah não! – gemeu quando saiu da escola e viu quem a esperava.
Do lado de fora do colégio, encostado em sua motocicleta, Lucas parecia aguardar
alguém. Infelizmente, Ana sabia quem era. Lucas era um garoto de dezoito anos, alto e
forte. Tinha cabelos castanhos e encaracolados que pareciam cachos de anjos. Seu rosto
tinha traços fortes e Ana sempre o considerou bonito demais pra ela. Isso até hoje, pois
agora sentia nojo dele.
A garota tentou fingir que não o viu e passar direto, mas o rapaz era rápido e a
alcançou segurando seu braço.
— Me larga! – disse controlando a repulsa que aquele toque lhe causava.
— Precisamos conversar – Lucas a virou para encará-lo.
— Já falamos de tudo ontem – ela forçou um sorriso irônico.
— Não falamos nada.
— Você ainda vai negar? – e deu um pigarro de descrença – Vai negar que estava
no campo naquela hora, quando me disse que não estava? Vai me negar que estava
acompanhado? – sua voz saia mais alta do que queria e ela logo a controlou.
— Claro. Eu não estava lá. Estava com meu tio, ajudando ele.
— Não era seu pai? – ela lançou um olhar inquisidor.
— É... meu pai – gaguejou.
— Francamente, nem na mentira você se decide – e riu se virando.
— Ana... escuta. Você provavelmente viu coisas – o garoto a segurou novamente.
— Então estou ficando maluca, também? – ela não podia acreditar na tamanha
cara de pau dele.
— Não seria a primeira vez – brincou, rodando o dedo em volta do ouvido num
sinal de loucura – InsANA, lembra – brincou.
Agora ele havia pegado pesado demais. A garota fez menção de bater nele, mas
ele segurou sua mão a puxando para perto dele.

20
— Me larga! – mas não houve tempo para respostas, pois uma nova mão,
aparentemente surgida do nada, o acertou bem no meio do rosto
Naquele momento ela ficou sem palavras e antes que pudesse recuperá-las viu
Lucas ir ao chão com o soco.
Ian agora se colocara entre os dois, encarando Lucas com o tronco um tanto
curvado parecendo um pouco perigoso. Era estranho vê-lo naquela postura tão
ameaçadora.
— Acho que ela não quer falar com você meu amigo – falou em tom calmo apesar
de sua voz parecer um pouco mais rouca que o normal.
Ana conhecia bem Ian e ele não era do tipo que gostava de briga. E pior ainda: era
do tipo que não sabia brigar. Sabendo disso, ela tentava afastar o garoto do lugar o mais
rápido possível.
— Ian! Calma! Tá tudo bem. – Ana tentava puxar Ian desesperadamente para
longe do ex.
Lucas se levantou num salto com os olhos faiscando. Ele já ia erguendo os punhos
para bater quando foi interrompido pela voz do supervisor da escola.
— Que palhaçada é essa aí? – berrava o velho zelador.
O senhor Carmino já era um senhor mais sabia impor respeito dos alunos e até
mesmo dos visitantes. Lucas concertou a postura e limpou a boca por onde escorria uma
linha de sangue. Ana não sabia que a pancada havia sido tão forte.
— Nada senhor – disse Lucas, mas sua voz expressava sua fúria. Ele lançou um
olhar para Ian e depois para Ana e saiu na moto.
Quando os ânimos se acalmaram e Carmino já dispersava a multidão, Ana falou
com Ian:
— Você não devia ter feito isso e... – pensou um pouco – obrigado.
— Não por isso - ele respondeu lançando-lhe um meio sorriso. Era incrível como
conseguia recuperar a calma tão rapidamente depois de tudo.
— Mas você não devia ter feito isso – repreendeu – Sabe como o Lucas é
egocêntrico. Não vai aceitar a humilhação e vai querer arrumar confusão com você.
— Não tenho medo – respondeu relaxado.
— Ian! – ela o repreendeu – Você é a pessoa que menos sabe brigar que eu
conheço. Ele vai machucar você.
O garoto fez uma careta de ofendido.

21
— Então é assim que você me vê?
— Desculpe – falou dando uma leve risada – mas puxa! Você realmente não sabe
brigar – e completou quase pedindo desculpas com os olhos –, embora esse soco tenha
sido muito bom – decidiu completar.
O garoto riu com ela.
— Que bom ver você rindo de novo – ele disse
— É – concordou – é bom rir de novo.
— Está tudo bem agora? – perguntou – Eu vi a sua cara. O que foi que ele disse?
— Nada. Só me chamou de insANA.
— Imaginei que esse apelido não te incomodava mais.
— O apelido em si não. Mas o que ele me faz lembrar sim.
O garoto ficou em silêncio processando o que foi dito.
— Entendo – disse limpando novamente seu cabelo afastando a franja rebelde –
Mas antes que eu me esqueça. Sei de um programa legal para o fim de semana.
— Serio, qual? – Ela tentava se mostrar mais interessada do que estava. Ainda
estava cogitando a idéia do sorvete e do filme.
— A Laila vai comemorar o aniversário dela no sitio da família. Ela vai convidar
pouca gente para passar o sábado e o domingo lá e você está na lista.
— Nossa. E quem vai?
— Bem, ela, Amanda, eu, você, Rodrigo, Fernanda e Antônio.
— Nenhum responsável?
— Só a mãe dela.
— Bem, ela não é bem uma responsável – riu-se Ana.
— Eu sei, mas nossos pais não precisam saber.
Ela riu mais alto.
— É verdade. Mas eu imaginei que ela não ia querer comemorar o aniversário –
lembrou Ana – pelo menos depois que o pai dela morreu.
— Bem, você conhece a Laila, não se deixa abalar por nada. - comentou - é um
poço de alegria.
— Eu sei – concordou Ana – eu sei que ela é assim, mas é que há alguns dias
mesmo ela estava horrível.
— Eu lembro – Ian assentiu. – Mas já parece melhor. E ainda tem o fato que essa
seria uma boa chance de se aproximar do Rodrigo.

22
— Ela e o Rodrigo?
— É. E é por isso que ela não convidou a Samara. Pois sabe que ela também é
afim dele.
— É mesmo – concordou. – Mas que bom que ela está melhor, mas... eu não sei
se vou.
— Ah que isso! Vai sim! Não vou deixar você ficar sentada vendo “Um amor pra
recordar” comendo sorvete – e a olhou nos olhos. – Deixe o pote pra mim - completou
com um sorriso amarelo.
Ana riu mais uma vez. Era tão bom poder dar risadas como aquelas.
— Tá bom. – respondeu por fim – Mas antes tenho que falar com meus pais.
— Já fiz isso. – cortou Ian – Ontem na festa, e eles concordaram. Sabe que eles
confiam em mim.
— Claro – a garota respondeu – Minha mãe pensa que você é um bom menino e
meu pai acha que você é gay.
Mais uma vez Ian fez uma careta.
— Nossa! – gemeu com o orgulho ferido.
— É – Ana concordou – fazer o que?

23
2 - Operação cupido.

Ana confirmou naquela mesma tarde que Ian já havia avisado aos seus pais e eles
concordaram. Então, ela se preocupou em arrumar a bagagem para a viagem, não por
necessidade, mas porque isso a mantinha ocupada. A viagem seria na sexta à noite e
ainda era quarta.
Tudo era válido para matar o tempo e Ana aproveitou a grande onda de motivação
para o trabalho e ajudou nas tarefas do lar e colocou todas as lições em dia. Durante o
período que antecedeu a viagem, o trabalho a ajudava a manter a mente ocupada e aos
poucos o fantasma de Lucas ia sumindo de sua cabeça, mais rápido do que podia
esperar.
Na verdade, outras preocupações surgiam a todo o momento. A voz misteriosa
que há muito tempo não escutava; o fato de Lucas estar muito irritado com Ian, o que
poderia levá-lo a tentar algo de ruim contra o amigo; e o fato de temer que as pessoas
voltem a lembrar da época em que ela era considerada a estranha por suas histórias de
bruxas e vozes malignas.
Até porque, o próprio fato de escutar coisas a fazia pensar que estava realmente
pirando. Balançou a cabeça tentando fazer a idéia ser arrastada pra longe, pois não era
saudável pensar naquilo de novo. Para se sentir mais segura com relação ao amigo, Ana
convidava Ian para a sua casa todos os dias. Pelo menos assim ela tinha garantia de que
ele se encontrava bem, o que a ajudou bastante, pois o amigo era sempre uma ótima
companhia.
Nesse período sua mãe havia descoberto que ela e Lucas enfim tinham terminado
o namoro.
— Mas Ana, por quê? Achei que vocês formavam um casal tão bonito.
— É mãe, mas deu errado – se limitou a responder.
— Por quê?
— Mãe, eu preferia não falar disso com você. Ainda.
A mãe não ficou nada feliz com isso. Para ela, Lucas era o par perfeito para a filha
e ela não queria estragar a imagem que tinha dele. Apesar de ele ser um canalha, ela não
queria magoar a mãe. Seu pai era mais seguro. Ele não gostava nada do namoro da filha,
então se ele perguntasse, poderia contar tudo – excluindo o detalhe da voz.

24
— Mas ele deve estar arrasado. Coitado – disse a mãe com profundo pesar. – Mas
que azar. Primeiro o fim do namoro e depois o acidente.
— Acidente? – perguntou Ana com interesse.
— É! Parece que ele teve um acidente de moto. Tá bem quebrado o coitadinho.
Apesar de monstruoso, Ana não pôde evitar sentir certa alegria por dentro, que ela
tentou reprimir, pois não gostava de desejar o mal dos outros, mas...
Deus, perdão, mas isso é tão bom. Desabafou consigo mesmo. Afinal, ele estava
fora de perigo.
— E ele está muito machucado? – tentou parecer preocupada.
— Não muito – a mãe respondeu – ele deu sorte nesse caso. Por isso seu pai não
gosta de motos e ficava irado quando você saia com ele.
Ana ficou calada.
Por outro lado, estava aliviada por causa de Ian. Afinal, quebrado como estava,
Lucas não ia querer implicar com o amigo e isso o deixava longe de encrenca.

— Bem feito! – disse o garoto quando ela lhe contou sobre Lucas numa de suas
visitas na quinta-feira – Ele bem que mereceu.
— Pelo menos assim ele te deixa em paz – ela dizia enquanto arrumava a mala
pela quinta vez. Acostumou-se a fazer isso para passar o tempo. Sempre que se
imaginava esquecendo algo ou tendo que tirar alguma coisa, ela desfazia e refazia toda a
bagagem.
— Aí dele se quisesse se meter comigo – Ian tinha um ar presunçoso, mas Ana
sentia mais que eram mais palavras do que possibilidades de ação.
— Está bem – ironizou – ele ia acabar com você.
— Acho que você não me conhece nada – falou com um ar desafiador.
— Pelo contrário – corrigiu Ana –, conheço você bem demais e sei que não faria
mal a ninguém. Não porque não é capaz, mas porque não suportaria. É bonzinho demais
– brincou.
— Você se engana – sua voz havia baixado um pouco e Ana pôde reparar que
seus olhos focalizaram o nada, como se estivesse tendo alguma lembrança ruim, mas
logo voltou ao normal e a garota resolveu ignorar.
— Para de baboseira e me ajuda a abrir isso aqui – e lançou uma mala pra ele
abrir – o fecho ta emperrado.

25
*
Finalmente chegou a sexta-feira. Todos os convidados chegaram e foram se
acomodando no Fiat Doblô da mãe de Laila para embarcarem na viagem. Toda a
gangue estava reunida, como costumava dizer Laila.
Laila era uma mulata exuberante. Sempre foi muito vaidosa e gostava de se sentir
atraente. Com seus cabelos cheios de cachos volumosos e um corpo bonito desde os
doze anos, ela sempre foi alvo dos garotos mais velhos. Seu bom humor sempre fez bem
a ela mesma, deixando-a mais atraente e sempre foi garantia de sua popularidade. A
única coisa que Ana não gostava nela era que não podia evitar se sentir feia perto da
amiga. Mas esse era um defeito perdoável.
Rodrigo era um rapaz forte no tronco, mas deficiente nas pernas. Ele era mulato
médio de olhos cor de mel e cabelos, de cor preta, arrepiados e era um pouco mais alto
que Ana.
Fernanda estava no seu canto, com seu jeito apagado de sempre, mas muito
animada com a viagem.
Antônio fazia o estilo intelectual com seus eternos óculos. Era um rapaz ruivo e
tinha algumas sardas no rosto branco. Era alto e magro, mas sempre andava com
excelente postura e falava polidamente, o que lhe rendera o apelido de Professor.
Eram trinta minutos em média para se chegar até o sitio da família de Laila e eles
aproveitaram o tempo para cantar o maior número de músicas antigas que conseguiam
se lembrar, atitude essa que deixaria qualquer motorista louco, com exceção de Mônica,
mãe de Laila, que até acompanhou algumas.
Na parte da frente, ia apenas Mônica. Na parte de trás as pessoas formaram casais.
Na primeira fileira vieram Laila e Rodrigo, cuja toda a conspiração foi para que os dois
ficassem juntos. A segunda fileira do automóvel foi ocupada por Antônio e Fernanda,
sobrando Ian e Ana nos fundos do carro.
Quando todos já estavam cansados de cantar na viagem, se preocuparam em
manter conversas com seus parceiros. Ana encostou a cabeça no ombro de Ian e
relaxou. Aceitou uma nova bala de menta oferecida e como sentia frio, deixou seus
braços entrelaçarem pelo tronco do garoto fazendo-o estremecer. Ela sorriu com a
reação dele. Ian era sempre muito carinhoso, mas não era muito aberto a receber afagos
dos outros.

26
Ela fechava os olhos enquanto deixava que o vento que entrava pelas frestas da
janela acariciasse seu rosto. Depois de um tempo relaxando ali, Ana fitou o rosto
cansado do amigo e sugeriu:
— Por que não dorme um pouco? Você ainda está com uma cara de morto.
Ian riu cansado.
— Tem razão. Vou tentar – prometeu.
Ela abraçou o garoto com mais força sentindo uma carência profunda e Ian
começou a acariciar sua cabeça massageando seus cabelos, o que fez Ana se sentir
muito bem. Naquele momento, se viu em tanta paz que acabou adormecendo.

*
— Acorda dorminhoca!
O grito fez Ana acordar num salto. Ao despertar por completo, notou que já
haviam chegado. Ela tinha um grave problema de dormir em viagens, principalmente
quando tinha vento batendo em seu rosto.
Dona Mônica, mãe de Laila, estacionou o carro e não bastou o motor desligar por
um segundo que logo as portas se abriram como se o veículo tivesse explodido de
dentro para fora e todos os passageiros pularam para admirar o lugar. Depois de
passados os primeiros momentos de contemplação, logo eles saíram em disparada para
jogar as malas num dos quartos para depois irem a toda velocidade para a piscina da
casa.
A casa de campo de Mônica era um lugar muito bom de viver. Era um terreno
muito bem espaçado com um grande campo de grama sempre muito bem aparada pelo
zelador da casa. Mais ao longe, se via uma área onde se podiam distinguir algumas
árvores que seguiam até os muros da propriedade.
Aquele lugar despertava um sentimento infantil em Ana e ela morria de vontade
de brincar de pique no meio daquelas árvores. A piscina tinha uns vinte metros por
trinta de comprimento e sua profundidade chegava a dois metros na parte funda e um e
meio na rasa. A casa era de uma arquitetura antiga que Laila dizia pertencer a um antigo
cafeicultor sendo mantida assim quando seus pais a compraram.
No fim, todos foram correndo em direção a piscina e pularam de roupas mesmo.
Ana foi somente até a borda e colocou o pé na água. Estava gelada. E quando ela ia se

27
preparando para entrar, não notou que Antônio vinha por trás a toda a velocidade a
derrubando na água com tudo.
— Cara... Filho da...! – Exclamou a garota ao sentir o frio lhe perfurando o corpo.
Ian veio se reunir ao pessoal, porém, não entrou na água preferindo se sentar a
borda com os pés no interior da piscina.
— Anda logo cara! – chamou Rodrigo – mergulha.
— É. Hoje é sexta. Pode tomar banho – zombou Laila.
— Não obrigado – disse Ian em tom formal – não quero...
Mas antes que pudesse completar a frase, uma enxurrada de água foi-lhe
arremessada de todos os lados pelos integrantes da piscina. Ana incluída.
O garoto ficou imóvel por uns segundos com os cabelos encharcados cobrindo o
rosto. Depois, sacudiu a cabeça espalhando água para os lados e sorriu. Ana sorriu
também quando Ian olhou em sua direção, acusando-a.
— Então – desafiou – vai entrar?
— Ainda não – ele respondeu com o cabelo pingando.
Nova enxurrada.
— Ainda não – se manteve forte.
De novo.
— Agora chega! – e pulou na direção de Rodrigo afundando-o na piscina. Logo
Antônio se reuniu a dupla e iniciaram um combate aquático.
— Ai meu Deus! – exclamou Fernanda, se reunindo as duas garotas – Agora eles
vão ficar ali por horas.
— É verdade. – concordou Laila – vão querer decidir quem é o Macho-Alfa.
— Bem e então, – interrompeu Ana tentando mudar de assunto – como vai com o
Rodrigo?
— Ele é meio tapadinho. – falou a garota sorrindo – Lento sabe. Mas ainda tenho
dois dias. E você?
— Eu o que? – perguntou sem entender.
— Ora, você e o Ian? Vai me dizer que não rolou nada no caminho pra cá.
— Que nada – ela riu. – Só amizade.
— Até parece – se intrometeu Fernanda – Só se for pra você, porque pra ele deve
ter algo além.

28
Ana se surpreendeu com o fato de Fernanda ter dado uma opinião a respeito do
assunto. Tentando dissimular, falou:
— Que nada.
Mas Laila ainda não ia desistir.
— Fala sério, Ana – e jogou um pouco de água da cara da garota. – Aproveita. Ta
solteira agora e o Ian te sempre do seu lado e Seis é par – Completou.
— Como? – ela riu incrédula.
— Ora. Por que você acha que chamei exatamente três casais? A Fê tá dando o
maior mole para o Antônio e a você, bem... faria bem uns beijinhos no Ian.
Fernanda ficou vermelha, comprovando que Laila estava certa.
— Mas e sua mãe? – tentou contra-argumentar.
— Ela? – Se espantou Laila, como se fosse uma pergunta absurda – A mulher que
me ensinou sobre sexo com doze anos e me deu minha primeira camisinha com
quatorze. Não esquenta, ela é bem liberal.
E antes de a missão cupido continuar, a mãe de Laila se aproximou da piscina.
— Bem crianças – ela gritou pedindo atenção – Só quero comunicar a vocês as
duas regras desse final de semana:
“A primeira é que não me incomodem e a segunda, não se matem, ou seus pais
vão me incomodar depois. Fora isso, divirtam-se. Estou aqui para relaxar e devo ficar
com meus livros e meus DVDs o dia inteiro. E querida? – falou para Laila – Feliz
aniversário e a vocês – disse apontando para os garotos – Juízo.
E assim saiu
— Não falei – disse Laila com ar de triunfo.

*
Depois da piscina, os residentes foram arrumar a bagagem. Havia três quartos na
casa. Um ficaria com Mônica e o outro seria dividido por todos, deixando um vazio.
Como estavam cansados da viagem, resolveram comer e dormir cedo mesmo.
Arrumaram os colchonetes por todo o chão de um dos quartos da casa e ficaram
conversando até, um por um, caírem no sono.
Por ter dormido na viajem, Ana acordou no meio da noite. Tinha perdido o sono e
ao olhar a sua volta, percebeu que estava sozinha com Antônio e Rodrigo. As garotas e
Ian haviam sumido.

29
Ao sair do aposento, notou uma luz vinda da sala e percebeu o som da televisão
ligada. Caminhando sem fazer barulho, ela conseguiu ver Ian sentado, assistindo TV. A
garota pensou em entrar, mas nesse instante, sentiu uma mão a agarrando pela cintura,
fazendo-a pular de susto.
Levando a mão à boca, conseguindo evitar por pouco um grito que acordaria
todos da casa, ela se virou encarando Laila e Fernanda que tentavam segurar as risadas.
O rosto de Fernanda estava completamente vermelho e Laila parecia que ia morrer por
insuficiência respiratória.
— Hilário – debochou Ana.
— Foi, não é? – concordou Laila, ainda rindo
— Quer? – ofereceu Fê, estendendo um pote de sorvete pra ela.
— Não obrigado.
— Ia fazer o que? Ver um filminho com o Ian? – perguntou Laila curiosa.
— Não. Só vim saber o que metade das pessoas que deveriam estar dormindo,
estão fazendo fora do quarto.
— O Ian perdeu o sono e veio ver televisão – explicou Fernanda dando mais uma
colherada no pote – a Laila teve um desejo e veio tomar sorvete.
— E você? – perguntou Ana para Fernanda.
— Não pude deixá-la encarar a escuridão da noite sozinha. – disse levando mais
uma colher até a boca.
— Muito prestativa – disse Laila em tom de sarcasmo.
— Obrigado.
— Não muda de assunto – continuou Laila se virando pra Ana. – Quando você vai
lá?
— Eu não vou lá. – replicou a garota. Não acreditava que voltariam aquele
assunto.
— Por quê? – ela apontou para a sala – ele tá lá sozinho.
— E?
— E que vocês são perfeitos um para o outro. – ela insistiu – Vocês dois são
chatos e desanimados, gostam das mesmas músicas e não são muito normais. - explicou
como se tudo fosse obvio – acho que dariam certo.
— Obrigado – ela não tinha certeza se queria agradecer.

30
— De nada – respondeu Laila sorrindo. – Agora vai – e empurrou a garota, mas
ela fincou o pé impedindo o corpo de entrar na sala.
— Gente. – ela acenou como se as duas não estivessem prestando atenção nela.
Ainda sorria, mas começava a se incomodar com a insistência de Laila – eu acabei de
terminar sabia? Não seria melhor esperar um pouco?
— Pra que? - ela parecia ofendida com a pergunta – você está solteira e eu não
acho que deva ter alguma consideração pelo seu ex.
Ana ia responder, mas se calou. Não tinha como discutir com essa lógica
— Também acho que você devia tentar – Disse Fernanda tomando mais uma
colherada de sorvete.
— Pra onde vai isso tudo? – Ana tentou mudar o assunto
— Sei lá. – respondeu a amiga em tom divertido – Tenho metabolismo bom.
— Mudando de assunto de novo, não? – acusou astutamente Laila.
— Olha Gente. - ela cortou as duas quando pareciam querer continuar – Valeu!
Sério mesmo, tô gostando do que vocês estão fazendo, mas não rola. Acabei de sair de
um caso não muito legal e me meter em outro não seria uma boa idéia – e continuou
desta vez andando de costas em direção a porta do quarto –. Além do mais. Se eu
ficasse com o Ian pra isso seria covardia. Seria como se eu o estivesse usando e isso
arriscaria a nossa amizade que eu prezo muito.
— Acho que ele não se importaria em ser usado – contra-argumentou Laila – ele é
doido por você, sabia?
— É verdade – concordou Fernanda.
— Francamente – continuou Laila – essa é a desculpa mais velha de todas – e a
parodiou – Ele é só meu amigo.
Ana chegava mais perto da porta como se estivesse se afastando de duas feras
selvagens.
— Ah tá. Tudo bem gente – tentou ainda argumentar. – Digamos que ele seja afim
de mim. Se fosse isso, então porque não me disse anda ainda? Chances ele teve.
— Ora. Ele deve ser mais lento que você. Fala sério, você vive agarrada nele,
gosta de conversar com ele, sempre corre pra ele quando tem alguma dúvida ou
problema – ela contava as coisas nos dedos –. Tá na cara, não queira negar. É insultante.
— Porque ele é meu amigo – insistiu Ana como se fosse algo óbvio.
— E é gatinho – comentou Laila maldosamente olhando pra sala.

31
— Bonito? O Ian? – ela parou na porta erguendo as sobrancelhas.
— É sim – concordou Fê.
— Olha você mesmo – sugeriu Laila e dizendo isso, abriu caminho para ela
estendendo os braços em direção a sala, convidando-a a passar.
Ao olhar para ela, Ana sentiu a armadilha naquilo, permanecendo onde estava e
evitando ser empurrada para a sala de novo.
— Calma Ana. A gente não vai te empurrar – prometeu Laila – só quero que você
veja como ele está bonitinho ali.
Com certa impaciência, e ao mesmo tempo querendo acabar logo com o assunto,
ela avançou e meteu a cara dentro da sala, vendo o garoto de sempre ali, nada de
diferente.
Ian estava agora sentado na janela da sala olhando a noite. Nem tinha reparado
que ele havia desligado a televisão e começou a se perguntar se ele havia escutado a
conversa. Preferia acreditar que não, pois morreria de vergonha se acontecesse. Mas ele
parecia não perceber que estava sendo observado e continuava a fitar o horizonte com a
atenção fixa. Parecia que sua mente não estava no mesmo lugar que o corpo. Olhando-o
dessa forma o garoto até ganhava um ar de seriedade um tanto incompatível com o ar
despreocupado que sempre demonstrava. Estava longe do Ian brincalhão que conhecia e
parecia até mesmo mais maduro.
Mas voltando a análise...
Ian até podia ser de certa forma atraente, mas ele era um tanto descuidado consigo
mesmo. O rapaz parecia terminado definitivamente suas relações com o pente, pois seus
cabelos estavam sempre despenteados. Por sorte eles eram bem lisos. Caso contrário,
seria uma coisa bem assustadora de se ver. Até que eram bonitos assim como estavam.
O fato é que a garota não o imaginava diferente e estranharia se um dia o visse
penteado.
Seus olhos eram bem negros, era uma cor que Ana achava bonita e agora
pareciam um pouco mais belos devido à expressão de profunda reflexão do garoto. Uma
coisa positiva naqueles olhos é que combinavam perfeitamente com o negro dos cabelos
e contrastava com o branco da pele. Começou então a reparar em seu rosto. O garoto
tinha traços bem fortes que somadas às madeixas revoltosas lhe concediam um ar
selvagem, másculo talvez. Mas bonito? Seria? Pensou inclinando a cabeça para poder
ter outra perspectiva.

32
Decidindo mudar de foco, passou a olhar o corpo do amigo. Ian era alto e magro,
mas tinha certas definições nos braços e um pouco de músculos se deixavam
transparecer na camisa. Ian tinha músculos? Nisso ela nunca reparara.
Resolveu voltar ao rosto. Olhar penetrante e misterioso. Era engraçado que apesar
de conhecer Ian a pelo menos cinco anos sempre parecia que tinha muitas coisas dele
que não sabia. Além desse ar de mistério, ele também era carinhoso e sempre a fazia rir
quando precisava. Eram uma boa dupla, mas só amigos.
Ana começou a lembrar de seus anos de amizade. Quando era motivo de riso das
outras crianças por suas histórias absurdas e Ian era o único que a ouvia sem zombar
dela. Lembrou-se de quando tinha dúvidas na escola e Ian sempre lhe explicava o que
não entendia. Era ótimo ouvi-lo falar. Ela se lembrou também de quantas vezes ele a
defendeu na vida. Como quando tinha treze anos e alguns garotos roubaram seu colar e
não a deixavam pegá-la, gritando ofensas alegando que ela era louca ou então imitando
ataques de histeria como e fosse Ana.
Aquele era o bem mais precioso da garota e ela lutava para recuperá-lo, mas era
inútil. Ela se lembrou ainda que naquele dia Ian voou em um dos garotos que segurava
seu cordão e lhe tomou a força. O problema é que logo depois ele apanhou feio. Ian não
era um bom lutador e não tinha chance contra os três que implicavam com ela. Por sorte
ele não tinha se machucado bastante e no dia seguinte já havia melhorado. Lembrou de
Lucas e como ele a defendia na saída do colégio e como ele sempre mudava quando
alguma coisa a ameaçava.
— Ana? Ana? - chamou Laila
Ana começou a sair de seus devaneios e voltou para a cozinha como se tivesse
caído de uma altura considerável.
— Você tá aqui garota? – brincou Laila.
— Ah Sim... To bem. - respondeu ainda tentando se acostumar com o presente.
— Pensando em que? - interrogou Laila.
— Nada - mentiu – nada mesmo.
— Então?
— To com sono – e se apressou em ir para o quarto. – Tenho de dormir.
Ela então atravessou a porta e correu para se deitar, deixando Laila e Fernanda pra
trás. A garota pôde ver, antes de fechar a porta, o sorriso presunçoso de Laila com sua
atitude.

33
3 – Aliança

O Centro da Cidade do Rio de Janeiro, apesar de sua arquitetura moderna como os


imensos arranha-céus, ainda conserva muitas construções pertencentes aos sécs. XVIII e XIX,
como é o caso de alguns patrimônios como o Museu da República, o Palácio Tiradentes e o
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
E assim também é com a Igreja da Iluminação, que ficava no Largo São Francisco Paula.
Construída em 1970, aproximadamente, a igreja é um lugar de culto muito restrito. Suas missas
ocorrem apenas uma vez aos domingos e nas comemorações dos dias santos. O que se faz por lá
nos demais dias, nenhum morador local sabe dizer. São poucas as pessoas que ali freqüentam
em dias de missa e menos ainda são aqueles que aparecem entrando e saindo de lá quando não
se está nesses dias.
Hoje, porém, era um desses raros dias em que um visitante chegava perto da igreja.
Andando pelas ruas escuras e fedidas a urina da Uruguaiana, com seus mendigos e suas praças,
vinha um jovem magro e de rosto macilento. Ele tinha cabelos louros e de aparência oleosa e
olhos muito azuis. Esse talvez fosse o único traço em sua aparência que o salvava.
Ele chegou até as portas gigantes da Igreja da Iluminação e encostou sua mão na madeira.
Olhou em volta à procura de alguém, mas ali ele só tinha a companhia dos mendigos que
naquele momento pareciam todos adormecidos. Então, voltou sua atenção à enorme porta de
madeira e fechou os olhos ouvindo as trancas do interior se destravando e, logo depois, as portas
se abriram. Ao entrar no templo, as portas se fecharam novamente sem que ele tivesse de tocar
na madeira.
Ali, ele deu uma boa olhada na arquitetura que era muito mais impressionante por dentro
do que por fora. Enquanto a sua estrutura externa era decadente, parecendo poder cair aos
pedaços a qualquer momento, com seus pedaços faltando, suas pichações horrendas e seu forte
cheiro de urina, no interior a decoração renascentista do lugar enchia os olhos de qualquer
amante de arte. Apesar de sua falta de luxo, sua decoração em madeira e mármore era de um
capricho inigualável.
Não é preciso luxo para agradar o senhor, pensou o jovem enquanto se permitiu admirar
por mais alguns minutos as imagens santas do interior da igreja e depois apressou o passo até o
altar principal aonde, atrás dele, se encontrava um enorme quadro retratando a Virgem Maria
segurando Jesus Cristo no colo.
Ele se aproximou da imagem e antes que pudesse tocá-la, ouviu um som por trás dela e
logo o quadro girou, revelando uma gruta por trás da imagem.
Uma voz rouca saiu do interior do túnel:
— Entre filho.

34
Ele entrou.
Passou por um extenso corredor que mais parecia o interior de uma mina abandonada.
Mas bastou andar um pouco para sair em uma sala bem luxuosa. Nesse lugar, beleza e magia
andavam juntas. Havia uma lareira com chamas púrpuras queimando em seu interior banhando
o belo aposento com uma luz espectral e enchendo os ouvidos com o crepitar da lenha. Os
Adentrando o túnel que se abriu, encontrou uma nova sala do outro lado da passagem. Esta,
também muito bem vistosa. Seus móveis eram feitos de boa madeira e adereços de ouro estavam
em todas as estantes e competiam com as imagens de santos do local.
Sentado em uma poltrona de frente para a lareira estava um senhor um pouco acima do
peso, vestindo uma manta cor de pele e um crucifixo de ouro em volta do pescoço quase
invisível. O homem tinha uma expressão calma, porém divertida, no rosto. Olhando-o assim,
aparentava ser um velho sedentário e provavelmente inofensivo, mas o garoto sabia que não
podia confiar na aparência ao julgá-lo.
— Bem vindo Ângelo. – saudou o senhor com uma voz rouca. Dava para ver que ele
fazia um grande esforço pra falar.
— Nem me deixou abrir a passagem – observou o jovem – estava ansioso me esperando
ou tentando me surpreender?
— Eu não conseguiria isso mesmo que quisesse – respondeu forçando um sorriso. – Olhe
o meu estado.
Ângelo via que não tinha como discordar. O eminente bispo César, que até outrora era um
dos mais respeitados e temidos magos da Ordem dos Iluminados fora reduzido a quase ruína.
Doía o coração de Ângelo ver seu mestre naquele estado.
O bispo César havia contraído uma forma de câncer que nem os maiores especialistas
tinham noção de como se tratar. Um tumor em sua garganta havia brotado e alcançado
proporções gigantescas em poucas semanas. O bispo se recusou a procurar qualquer especialista
, seja na área médica ou mágica, acreditando que isso o faria se afastar de suas funções. Faltar
com suas responsabilidades era uma coisa que o bispo não tolerava, principalmente num
momento tão delicado como o que se passava. E era justamente disso que Ângelo vinha tratar
com ele aquela noite.
No momento, César sobrevivia com medicamentos trazidos por um amigo que Ângelo
pouco conhecia e escolheu o leito tranqüilo da Igreja da Iluminação, o que ele considera sua
última função na terra.
— Bispo, eu... – tentou ir direto ao assunto.
— Tenha calma, Ângelo – interrompeu o bispo com a voz um pouco mais alta do que
queria e teve que levar a mão à garganta, massageando-a – eu nem lhe ofereci nada.
— Não quero nada, obrigado – apressou-se o garoto a responder

35
— Então, sente-se.
Ângelo puxou uma cadeira para perto da poltrona do bispo, sentando-se.
— Bispo! Vim expressar meu desagrado pela sua recente decisão. - falou em tom polido e
o Bispo riu como pôde.
— Não precisamos ser tão formais meu pupilo – disse amavelmente – Eu entendo suas
dúvidas, mas essa questão não envolve você.
— Perdão dizer isso, mas envolve toda a Ordem dos Iluminados, senhor. Então me
envolve. – e se apressou em continuar antes que fosse interrompido – Não vê o risco que corre
fazendo acordos com esse tipo de gente? – Ângelo tentava manter a voz o mais baixa possível,
pois sabia que o bispo não suportava gritaria
— Entendo sua preocupação, meu filho. Mas tenho que repetir que os únicos envolvidos
nisso somos eu e o frade Henrique – depois lançou um olhar astuto para o garoto. – E você,
porque resolveu fuçar onde não deve?
Ângelo abaixou a cabeça. E depois, recobrou a confiança e continuou a falar em tom
polido:
— Então o senhor não pretendia me contar nada – não foi uma pergunta.
— Não – respondeu o bispo com sinceridade – e sabia que você seria contra.
— E sou.
O bispo ficou calado. Sabia que aquela discussão não tinha acabado e como sua garganta
doía, preferia deixar o garoto falar.
— Senhor! Desculpe continuar insistindo, mas negociar com os Inquisidores é suicídio.
Eles vivem a vida a nos caçar. Não acredito que tenhamos alguma coisa que eles querem.
— Na verdade temos sim – o bispo Casar tentou rir de novo, mas sua garganta não
permitiu – e vale lembra-lhe que nós e os inquisidores já fomos aliados.
— Isso foi a uns cinco séculos bispo! – rebateu o jovem – Esse pacto foi quebrado há
muito tempo, e hoje nós somos tão caçados quanto os demais magos.
— Eu sei. E também duvido que esse nosso casamento dure muito tempo. Mas no
momento é de vital importância a ajuda deles.
E foi quando se iniciou uma tosse que fez a cabeça do bispo tender para frente enquanto
tentava erguer a mão e pegar o remédio na mesa próxima a sua cadeira. Vendo a dificuldade e
sabendo o quanto aquelas tosses eram dolorosas para César em seu estado, Ângelo se precipitou
para abrir o frasco, colocando um comprimido na boca do velho.
Logo a tosse se cessou.
— Essas tosses me causam uma dor horrível – disse o bispo com os olhos cheios de
lágrimas – ainda bem que tenho esses comprimidos. Eles são milagrosos.
— De que são feitos? – tentou dar uma pausa no assunto.

36
— Não sei na verdade. É arte indianista. Feito de uma erva amazônica. Especialidade do
frade. Mas funcionam, e é isso que importa.
Ele encarou o discípulo
— Está vendo o porquê de temos de agir rapidamente. Não vou durar muito – continuou o
velho bispo. – Como você sabe, o período em que vivemos hoje é muito delicado. O tabuleiro
está dividido em três partes com os magos, os demônios e os inquisidores ocupando capa ponta.
Nós estamos bem no meio deles e somos odiados por todos. Temos que garantir alianças para
sobrevivermos.
— Eu sei, mas logo com eles?
— Sim. É necessário – confessou o velho –. Até porque, a informação que demos a eles
vai ser de grande importância pra ambos os lados. Vão ser dois cachorros com um só tiro – e fez
uma pausa para pensar se era esse mesmo o ditado.
— Quando o senhor vai me dizer o que esta negociando com eles mestre? – disse o garoto
num tom mais de súplica do que de interrogação.
— Quando for à hora – respondeu o velho – até lá, quanto menos pessoas souberem
melhor. Eu e Henrique daremos conta. Agora saia!
O jovem se surpreendeu:
— Como?
— Tenho de receber o frade Henrique para que discutamos assuntos que não lhe dizem
respeito. Agora saia!
Um pouco ofendido, o garoto se levantou e saiu pela passagem por aonde veio.

*
Pobre Ângelo. Perdão! Pediu silenciosamente o bispo quando o garoto saiu.
Ângelo era seu aluno mais novo, e também o mais promissor. Com apenas cinco anos de
aprendizagem havia alcançado um nível de controle mágico formidável. Era um prodígio com
certeza. O que a natureza havia lhe economizado em dotes físicos, havia compensado em
miolos.
Mas esse assunto o Bispo César preferia não envolver seu protegido. Não ainda. Ângelo
seria seu herdeiro no futuro. Todo seu legado estaria guardado a ele quando o bispo, enfim,
partisse consumido pelo câncer. Mas no momento, justamente para que Ângelo vivesse para
receber essa herança, ele tinha de mantê-lo longe.
César recentemente descobriu um segredo que havia lhe garantido um poder de barganha
inimaginável. Uma presença, ou um presságio, não sabia a diferença, lhe invadiu os sonhos
numa noite, mostrando o prenuncio de um retorno. As portas do inferno estavam se abrindo e
impedir a volta da criatura era uma missão para todos, Magos ou Caçadores. Tal noticia era um

37
prato cheio para os Inquisidores. Pois se tratava de um ser mágico centenário ou talvez milenar,
com um poder que fez o bispo tremer. Com certeza os caçadores iriam querer por as mãos nele
antes que conseguisse conquistar todos os seus poderes.
Por outro lado, além de conseguir aliança com os Inquisidores, a morte deste ser também
interessava toda a Ordem dos Iluminados. Afinal, sua maior missão quando esta organização foi
construída sempre foi a de destruir os demônios. Negociar com os Inquisidores seria algo que a
Ordem não toleraria como o bispo já previa. Então, resolveu tomar as rédeas da situação e ir em
frente sozinho. Era um mal necessário.
Os fins justificam os meios.
Mas Ângelo tinha de se manter fora disso. Pelo menos até estar tudo acertado. O garoto
era jovem e tinha que viver muito. César, pelo contrário, estava condenado. Sabia disso. Mas
antes de morrer seria o responsável pela salvação de milhares de pessoas e também de garantir
uma aliança de vital importância para a sobrevivência da Ordem.
Sairia por cima no fim.

38
4 – Carência.

Ana tratou de se deitar na cama o mais rápido que pôde. Não estava com sono,
mas fingir dormir era a melhor maneira de fugir de Laila e Fernanda. O que havia sido
aquilo? Ela havia deixado Laila falar demais e agora estava começando a pensar
besteiras. A última coisa da qual precisava agora era um novo relacionamento. Seu
coração já havia sido ferido demais e outro golpe não seria suportável.
Eu e Ian. Ana riu do absurdo
Iria dormir e amanhã já voltaria ao normal. Pelo menos era isso que esperava. E
foi com esse pensamento que se cobriu esfregando os braços para ver se os pelos
paravam de ficar ouriçados.

*
Laila e Fernanda continuaram a se deliciar com o sorvete enquanto conversavam
sobre a reação de Ana.
— Não disse que ela estava a fim? – comemorou Laila.
— Verdade – concordou Fernanda, lavando seu pote.
— Agora falta só o Ian. Acho que ele vai ser mais fácil.
— Você está realmente animada com isso – comentou Fernanda
— Eles realmente formam um belo casal – refletiu Laila, ignorando o comentário.
— Pena que ainda não tenham se ligado nisso. - Fernanda completou.
— É verdade – riu-se Laila.
Ao terminaram de lavar os potes de sorvete, Fernanda deu um longo bocejo
começando a sentir que o sono vinha com toda a força.
— Vou dormir. - anunciou - Vem?
Laila passou em direção ao quarto, mas viu que Ian ainda estava na sala. Ele
continuava sentado na janela e desta vez estava acariciando a orelha de Rex, um dos
rottweilers que tomavam conta da casa.
— Eu vou sim – respondeu Laila. – Mas antes vou atacar na outra ponta.
— Bem, eu estou com muito sono - desculpou-se a garota - Não vou ajudar nessa.
— Tá certo. Boa noite – disse Laila dando dois beijos no rosto da amiga.
— Boa noite – e entrou no quarto.

39
Após a amiga sair do mesmo cômodo que ela, Laila respirou fundo e avançou,
aproximando-se do garoto sem fazer barulho. Porém, quando chegou a uma distância
curta ele virou o rosto para encará-la. O que a fez pular.
— Nossa! – segurou o grito levando a mão ao coração – E eu que queria te dar um
susto.
— Desculpe – Ian sorriu pra ela.
Ela olhou mais uma vez ele acariciando o cachorro e comentou:
— Você é um dos poucos que não tem medo dele.
Ian se virou de volta para o animal.
— Eles não são tão maus assim.
— Bem, com você. Acho que com outro ele teria arrancado a mão – comentou
com naturalidade – E bem... – ela pensava no que dizer – você não tem sono não?
— Hoje não. Resolvi assistir televisão para ver se me dava, mas nada.
— Podia ter vindo tomar sorvete com a gente. Estávamos eu, a Fê e a Ana.
— A Ana está acordada? – e Laila sorriu com essa manifestação de interesse
— Não. Foi dormir já.
— Ah...
Ian voltou a prestar atenção no cachorro. Depois, lembrando-se de algo, ele voltou
o rosto para Laila e disse:
— Eu quase me esqueci. Obrigado por me convidar.
— Que isso! – disse a garota com um gesto de pouco caso.
— Não, é sério. Você chamou muito pouca gente e nós nem somos muito íntimos
— Amigo da minha amiga é meu amigo.
Ele riu
— Valeu.
— E por falar em Ana – insinuou a garota – como ela tá indo por causa do Lucas?
— Acho que ela vai sobreviver – respondeu sem dar muito caso. Mas Laila pôde
perceber que quando o nome do ex de Ana foi citado, o lábio superior do garoto deu
uma tremida.
— Então? – continuou investindo – E o que você acha desse fim?
— Eu? – Ian pareceu surpreso com a pergunta – Acho... bom – concluiu.
— Por quê?
— Por que eu acho que ela merece coisa melhor.

40
— Por quê? – ela arregalava mais os olhos a cada Por quê.
— Por que ele é um boçal.
— Por quê?
— Quantos porquês você vai me fazer ainda?
— O suficiente até você me responder o que eu quero?
— E o que seria?
— Porque você gostou tanto desse fim.
— Eu já falei.
— Não a verdade – cortou.
— Que verdade?
— A de que você está feliz porque agora tem uma chance com ela.
O garoto tomou um susto com a acusação.
— Ah? - e soltou um pigarro – O que você está falando?
Laila riu alto, depois levou a mão à boca para abafar.
— Você é demais – ela continuou após parar de rir – até parece que não é nem um
pouco afim da Ana.
— Como assim?
— Vai continuar se fazendo de sonso? – acusou.
O garoto ficou calado por um tempo.
— Somos amigos apenas – disse finalmente, voltando sua atenção ao cachorro.
— Infelizmente pra você é assim. – ela continuou e viu que ele evitava olhá-la nos
olhos – Mas isso é questão de tempo.
Ian riu em deboche;
—Sério! Ela também é louca por você.
— Eu não sou louco por ela – corrigiu.
— Tudo bem. Digamos que não – Ela ergueu as mãos em sinal de rendição –. Mas
então você não se importaria se ela arranjasse outro, não é?
— Como assim? – o garoto se virou pra ela.
— Ora! Simples. A Aninha está carente, coitada. Precisa de um consolo pra se
reerguer e como você não se candidata – ela lançou um olhar astuto pra ele –, é bom que
ela arranje alguém. Não acha?
O garoto ficou pensante, depois voltou sua atenção pra fora e disse:
— Acho que sim.

41
Laila deu um forte suspiro de impaciência.
— Então tá – consentiu – mas, não diga que eu não avisei. A Ana precisa de
alguém que a faça esquecer o Lucas. E você seria o candidato perfeito. Eu votaria em
você – e deu de ombros – Eu já lhe avisei meu amigo. Se você queria uma chance, é
esta.
Ian não respondeu.
— Bem. Ao contrário de você, eu durmo. Boa noite – a garota agora se virou para
sair da sala.
— Boa noite - respondeu Ian.
— E vê se dorme – recomendou numa virada rápida. – Você está com uma cara
horrível.
E saiu deixando o garoto sozinho com coisas para se pensar.

*
Ana despertou com o barulho da porta do quarto se abrindo. Ao olhar para a
direção da entrada do quarto, viu que Ian finalmente entrara para dormir. Ele se achegou
para perto dela e deitou ao seu lado. Ela continuou a fingir dormir, mas estava com
vontade de se virar para falar com ele. Ficou nesta posição por algum tempo, sem
escutar nenhum som vindo do garoto ao seu lado.
Naquele momento ela se encontrava de costas para o amigo e não conseguia ver
se Ian já estava ou não dormindo. Vencendo a inibição, se virou para ficar de frente para
ele e ao fazer isso levou um susto, pois o garoto estava virado pra ela e a olhava
fixamente.
Ana sentiu um arrepio na espinha pelo peso daqueles olhos. Por algum motivo não
era o olhar habitual que Ian dava para ela. Havia algo de diferente. Esperança talvez.
— Que bom que está acordada – ele disse em voz baixa e Ana sentiu um calor
leve lhe subir o corpo.
— Oi – ela respondeu sentindo o rosto corar. Droga, porque isso agora?
— Eu só gostaria de dizer uma coisa – e falou encurtando a distância que os
separavam. – E acho que se não falar agora não vou conseguir mais.
— O... q... que? – ela pensou em se afastar um pouco, mas não o fez. Continuando
deitada com as mãos encostadas no peito.
— Fico feliz que tenha terminado com o Lucas. – falou rápido.

42
— P... por quê? – droga, ela tinha de parar de gaguejar.
— Porque ele era um lixo e não a merecia.
— Só? – perguntou Ana, mesmo sabendo que não era só.
— Não – e respondendo isso, se aproximou mais de Ana, fazendo seus corpos se
tocarem. Uma sensação parecida com a de uma corrente elétrica atravessando suas
costas acometeu a garota. Ela não conseguia falar nada e ficava parada fitando aqueles
olhos escuros.
O garoto ajeitou sua franja, limpando seu rosto e se aproximou mais. Ela agora
fitava seus olhos negros a uma distância de poucos centímetros. A respiração de Ian
atingia seu rosto como uma brisa, permitindo que ela conseguisse sentir seu hálito. Um
forte cheiro de bala de menta adentrou suas narinas. Eram as balas favoritas do amigo.
A sensação de fitar aqueles olhos negros era a de como olhar para um poço sem
fundo. Havia certo medo, mas também uma curiosidade nisso. A partir daquele
momento, tudo que se seguiu passou como um efeito em câmera lenta. Ele foi
aproximando o rosto para perto do dela com lentidão e por mais tempo que se passasse,
a distância entre os dois não era vencida. Ana não conseguiu fazer com que seu cérebro
processasse qualquer reação para o que estava prestes a acontecer. Na verdade, ela não
conseguia nem mesmo crer no que ela achava que estava prestes a acontecer. Até que,
faltando apenas um milímetro para que seus lábios se encostassem, ela sentiu um gosto
parecido com o de pano penetrar a sua boca.
Ana despertou e se pegou beijando o próprio travesseiro, enchendo-o de saliva.
No susto, se ergueu rapidamente, olhando em volta. Mas apenas Fernanda e Laila
haviam voltado. Ian nem estava ali.
— Tá de sacanagem – suspirou consigo mesma.
Sem saber o que fazer, pensou em ir ver o que Ian estava fazendo para se manter
acordado a noite inteira, mas desistiu da idéia achando melhor não. Não era bom
encontrar com ele naquele estado. Ao invés disso, virou o travesseiro e tentou voltar a
dormir.

43
5 – Excluído.

Ângelo continuou na Igreja da Iluminação mesmo após ser expulso por seu
mentor. Não foi capaz de abandonar o local com tantas coisas o inquietando. A idéia do
bispo ainda parecia absurda perante seus ouvidos.
Aliar-se com os Inquisidores novamente? Loucura.
Ângelo conhecia bem a história de sua ordem mágica para saber que as chances
daquele plano dar certo eram extremamente limitadas. Durante a Idade Média, a magia
experimentou seu momento de apogeu e queda numa transição muito rápida. Devido ao
alto poder alcançado por inúmeros grupos mágicos, tanto da Europa quanto dos demais
continentes do velho mundo, logo a ambição começou a tomar conta dos praticantes de
Magia e guerras foram sendo travadas entre diferentes tribos, a fim de alcançar uma
hegemonia no planeta. Foi o período em que a realeza e o clero começaram temer a
ameaça mágica.
Nesse contexto, a igreja católica começou a arquitetar contra essa ameaça em
conjunto com os reis e lordes feudais da época, fundando a sociedade secreta conhecida
como Os Inquisidores. Os iluminados eram, no período, a esquadra mágica da Igreja de
Roma e seu braço direito para assuntos referentes à magia. Usando a mágica contra a
mágica, anos de guerras foram travados entre os Inquisidores e todas as organizações de
bruxos que havia espalhadas pelo planeta.
Devido a pouca organização e falta de sentido de união entre os magos, estes
foram gradativamente derrotados, restando muito poucos no mundo de hoje. Porém,
com o passar dos anos, a própria Ordem dos Iluminados começou e ser vista como uma
profunda ameaça para a nova ordem. Pois agora, não só os magos eram condenados,
mas toda a magia em si tornou-se sinônimo de ferramenta do mal, desvirtuando e
corrompendo as pessoas. Enquanto, em contrapartida, o avanço científico ganhava as
escolas do séc. XVIII tornando-a, além de profana, ultrapassada.
Não demorou e os Iluminados passaram a ser vistos como uma pedra no sapado e
foram excomungados entrando para a lista negra dos Inquisidores. Assim como os
demais magos, eles sofreram graves perdas e agora o grupo de Ângelo se encontrava
numa situação ainda mais delicada que a dos outros. Como o próprio Bispo César havia
falado, todos já estavam em seus lados do tabuleiro. Uma guerra acontecia por debaixo
dos panos no planeta e o mundo estava dividido em três grandes extremos: em um, os

44
inquisidores, que lutavam para acabar com os últimos resquícios mágicos existentes na
Idade Contemporânea; de outro, as últimas organizações mágicas que tentavam
sobreviver em um mundo cada vez mais cético; e no último extremo, outra espécie de
criaturas que mesmo mortas ainda atormentavam a vida das pessoas vivas. Possuindo
corpos de inocentes e comandando um exercito de bruxos que se vendiam para eles em
troca de poderes, os demônios eram a maior ameaça de todas. E eram também os
principais inimigos dos Iluminados.
Na verdade, a luta contra os filhos das trevas foi o que causou a adesão dos
Iluminados nas fileiras da inquisição nos primeiros anos de caça às bruxas. Pois na
Idade Média, o número de bruxos que compactuavam com as forças obscuras para
conseguir poder havia aumentado assustadoramente. Naquele momento, o ataque dos
Inquisidores estava completamente direcionado contra a “má magia”. Porém, à medida
que foram ganhando mais poder e adeptos, passaram a lutar contra toda a forma de força
oculta, incluindo os Iluminados.
Ângelo sabia que na atual situação eles estavam bem no centro da guerra, pois não
conseguiam formar alianças com nenhum dos três grandes grupos. Eles jamais
juntariam forças com os filhos das trevas e os demais magos estavam ressentidos
demais para aceitar a ajuda dos Iluminados. Logo, os Inquisidores eram a última chance,
levando-se em consideração que já foram aliados no passado.
Mas Ângelo não acreditava que fosse possível reviver tais tempos. Com a vitória
esmagadora da ciência sobre a superstição, não havia mais espaço para acordo entre os
Inquisidores com os Iluminados. Eles já eram os vencedores da guerra e a única coisa
que faltavam fazer era pescar os pequenos peixes que insistiam em nadar num rio que
aos poucos secava.
Para Ângelo, ainda era melhor a tentativa de renegociar com os grupos de magos
remanescentes, mas o alto conselho do grupo nunca ratificava tal decisão.
Sentado em um dos inúmeros bancos da igreja, contemplando sua imagem
favorita, aonde mostrava a da Virgem Maria subjugando a serpente com seus pés
descalços, Ângelo se pôs a esperar, enquanto tentava enxergar alguma saída mais
favorável para aquela situação. Mas estava difícil ver uma luz nos tempos de escuridão
da atualidade, com a magia quase morta e com os Inquisidores e os filhos das trevas
com poderes cada vez maiores.

45
Ângelo respirou fundo e começou a rezar para recuperar a fé, e foi quando lhe
ocorreu uma duvida: que informação o bispo havia obtido que interessava tanto os
Inquisidores? Seria ela tão importante que faria os dois grupos esquecerem anos de lutas
e mortes? O bispo não quis lhe dizer do que se tratava.
Mas os pensamentos do jovem iluminado foram cortados pelo som das pesadas
portas da igreja se abrindo. Ao se virar, ele vê o Frade Henrique adentrando a igreja.
Henrique era um homem de trinta anos bem vividos. O pouco que Ângelo conhecia dele
é que no passado trabalhava como intermediário entre a Ordem e os demais grupos
mágicos existentes. Henrique tinha sempre uma postura impecável assim como seu
visual, com unhas e cabelos sempre bem cortados e cuidados.
Ele vinha andando em direção ao garoto e vestia sua habitual batina preta e trazia
um embrulho embaixo do braço. Ângelo sentiu um profundo alívio ao ver Henrique e se
levantou par receber o visitante:
— Bem vindo frade Henrique.
O homem se surpreendeu ao ver o garoto ali no escuro.
— O que faz aqui tão tarde, Ângelo?
— Precisava falar com o bispo César sobre um assunto urgente – respondeu.
— Posso saber do que se trata? – o frade tinha um ar de preocupação.
— Claro frade. – se apressou em responder – Na verdade, o assunto também
convém ao senhor. Já estou ciente dos encontros do senhor e do bispo César com alguns
setores dos Inquisidores.
O frade ficou ligeiramente surpreso com tal afirmativa e tentando conter a palidez
de seu rosto, perguntou:
— Mas como você sabe disso? É um assunto confidencial.
— Eu escutei uma vez a conversa do senhor com o bispo. - admitiu - Estou ciente
que vocês têm se encontrado com gente da inquisição e que também possuem uma
informação de vital importância para este grupo, porém, o bispo não me quis por a par
de que tipo de informação é esta.
— Nem deveria – concordou o frade sério – você já sabe demais Ângelo. Esse
tipo de empreitada deveria ficar apenas entre mim e o bispo.
— Eu entendo bem o porquê – desculpou-se. – Mas agora eu já sei. Sou contra
essa decisão, mas não contra o bispo.
— Ótimo. O que você quer então?

46
— Eu gostaria que o senhor me colocasse a par de tudo. – pediu.
— Infelizmente não posso – respondeu se desculpando com os olhos. – Essa é
uma empreitada muito perigosa e quanto menos pessoas da Ordem se envolverem,
melhor. Nós confiamos em você Ângelo, não pense o contrario, mas não queremos que
você corra riscos.
— Então não confiam em mim. – interpretou o garoto – Pois não acham que sou
capaz de lidar com a situação.
— Pare de agir como criança Ângelo – replicou o frade – Eu disse para o bispo
ontem mesmo o quanto você era maduro e competente apesar de sua idade. Não faça
sentir nojo do que disse.
— Mas...
— Sem mas! Estamos tentando te proteger de tudo isso e seria bom de sua parte
reconhecer isso.
O garoto ficou calado. Henrique era seu superior e ele lhe devia respeito. O frade
continuava enérgico quando continuou o sermão:
— Você já sabe demais sobre o assunto e espero que concorde em desistir de
saber mais. Pelo menos por enquanto. - e depois olhou o garoto de cabeça baixa se
acalmando um pouco - Acredite. Quando chegar a hora você saberá de tudo. Agora eu
gostaria que você fosse para casa. Não quero você escutando por trás da porta de novo.
O frade estava visivelmente irritado, apesar de usar uma voz calma. Por isso
Ângelo achou melhor não contrariá-lo.
— Agora vá – continuou o frade. – Tenho muita coisa a discutir com o bispo e
tenho que dar seu remédio ainda.
Mesmo de má vontade, ele saiu. Mas aquilo ainda estava longe de acabar.

47
6 – Olhos azuis

Foi muito difícil para Ana recuperar o sono na noite anterior. Aquele sonho
passou a se repetir em sua cabeça durante toda a passagem do tempo e o fato de Ian não
voltar mais para o quarto não a ajudou, pois, apesar de não deixá-la constrangida,
enchia-a de curiosidade de saber o que ele estava fazendo do lado de fora até tão tarde.
Porém, depois de muito insistir, conseguiu adormecer para logo depois despertar,
deixando a sensação em Ana de que ela havia apenas piscados os olhos para fazer
amanhecer.
Erguendo o corpo, ela olhou ao redor e notou que estava sozinha. Todos os seus
companheiros de quarto já haviam se levantado, o que a deixou curiosa por saber que
horas eram. Espreguiçando-se, se levantou da cama e, passando rapidamente pelo
banheiro anexo ao quarto só para ajeitar levemente o cabelo e escovar rapidamente os
dentes, se dirigiu para o quintal, onde todos já estavam sentados tomando café da
manhã. Até dona Mônica, que possuía a fama de dormir até tarde, já estava de pé.
— Bom dia, dorminhoca – saudou Laila, convidando-a a se sentar ao seu lado na
mesa. – Sonhou gostoso hoje?
— Como? – Ana acabou respondendo depressa demais, deixando uma pontada de
espanto refletida em seu tom de voz. Sem querer, seu rosto enrubesceu. E se ela falou
algo enquanto dormia?
— Só força de expressão – explicou Laila constrangida com a reação – Sabe como
é. Você dormiu pra caramba.
— Ah... sim. – respondeu um tanto ausente. Agora a vergonha havia aumentado,
mas parecia que ninguém, com exceção de Laila, havia notado seu ataque. Então,
sentou-se a mesa, servindo-se de uma fatia de pão.
Assim que seus olhos correram pela mesa, ela pôde ver Ian sentado bem na sua
frente. Ainda estava receosa em olhar diretamente para ele depois do sonho que teve,
porém, bastou ela encará-lo por um leve segundo que seus olhos se encontraram
fazendo seu corpo estremecer de leve.
— O que foi? – perguntou o garoto.
— Nada – apressou-se em dizer. – Só pensei... – tentou encontrar algo para dizer –
Bem, você não dormiu a noite de novo, não é?
— Dormi sim – respondeu sorrindo. – Só que bem tarde.

48
— Eu não vi – se meteu Laila
— Foi bem tarde. Bem depois que vocês voltaram pra cama.
E voltaram a comer.
— Bem, qual o plano de vocês hoje, jovens? – perguntou Mônica com ar
divertido.
— Na verdade viemos sem planejar nada – respondeu Fernanda sinceramente. Ela
se servia do segundo pedaço de bolo desde que Ana chegou e a garota não sabia o
quanto a amiga já tinha comido antes. Parecia que ela e Ian competiam pelo prêmio
poço sem fundo. Para onde iria tanta comida?
— Fale por você – corrigiu Laila olhando disfarçada pra Rodrigo, mas o garoto
nem notou.
— Isso que é bom – continuou Mônica. – Já sabem as únicas duas regras, então,
divirtam-se – e saiu da mesa. – Com licença.
— Minha mãe é meio doida – esclareceu Laila.
Quando acabaram de comer, eles arrumaram a mesa, escovaram os dentes e foram
para a piscina mais uma vez, para aproveitar o bom tempo que fazia.
Nos primeiros momentos, Ana se manteve isolada dos demais, permitindo-se
relaxar enquanto submergia na água e ficava alguns segundos no fundo procurando tirar
os pensamentos da noite anterior da cabeça. Porém, em um dos momentos onde ela
emergiu de volta para a superfície, seu rosto quase acertou o de Ian que a aguardava,
parecendo interessado em falar com ela.
— Ah... Oi. – ele riu com a quase colisão. – Está com algum problema, Ana? .
— Como? – respondeu limpando a água do rosto.
— Não sei. To te achando diferente, não falou comigo desde que acordou.
— Não, que isso – ela fez um gesto de pouco caso. – Impressão sua.
— Que bom – Disse Ian com um sorriso enquanto ajeitava seu cabelo mais uma
vez. O garoto nem percebeu, mas aquele toque leve havia feito os músculos de Ana se
enrijecerem, e sem notar, ele se aproximou dando um beijo na sua testa novamente. Ana
mas uma vez fechou os olhos ao receber o carinho e já ia se afastar percebendo a
periculosidade daquela proximidade quando sentiu uma enxurrada de água atingir seu
rosto entrando em seu nariz.
— Filho da... – Ao abrir os olhos, depois de tossir a água atirada, encarou o amigo
que tinha um sorriso traquinas na face. Naquele momento, ela se esqueceu de todo o

49
perigo em se aproximar dele e pulou em torno de seu pescoço tentando afundá-lo na
água.
Utilizando todo o peso de seu corpo, ela conseguiu fazer com que a cabeça de Ian
afundasse por pouco mais de um segundo, mas ela nem teve tempo de comemorar, pois
logo seu pé foi puxado por ele do fundo e Ana foi levada ao chão da piscina. Ao voltar
para a superfície, ela sorri e investe novamente contra o amigo e então se inicia uma
batalha aquática entre os dois que ninguém se atreveu a interferir. Na luta, cada um
levava uma vantagem sobre o outro. Ian era mais forte que a garota, porém, tentava ao
máximo não machucá-la. Atitude com a qual Ana não se preocupava.
Continuaram a brincar se esquecendo totalmente das pessoas a sua volta. Ian
afundava Ana e Ana beliscava Ian e os dois se divertiam. Pareciam crianças de novo
naquele momento. Isso pelo menos, até um dado momento do jogo em que ele
conseguiu imprensá-la contra a borda da piscina. Seus corpos tinham se colado e suas
faces agora estavam mais próximas que o normal. Ana pôde até mesmo sentir o cheiro
de menta entrando em suas narinas que era incrivelmente similar ao seu sonho. Mais
uma vez seu corpo entrou em defensiva, sentindo o calor do corpo dele esmagando o
seu. Por um segundo, foi como se todo o tempo tivesse parado e toda a forma de
pensamento se esvaiu da cabeça da garota fazendo com que um silêncio paradisíaco se
instalasse sobre ela.
E foi então que, olhando a face do amigo, ela percebeu que uma dúvida se
instalara nele e Ian parecia se digladiar em seu íntimo para tomar a próxima decisão.
Hesitante, ele aproximou o rosto. Seus olhos estavam ligados aos de Ana como que por
uma linha invisível, aonde nenhum dos dois parecia capaz de vencer a força que os
atraia um para o outro. Instintivamente, a garota Ana engoliu em seco e foi fechando os
olhos deixando seus outros quatro sentidos a manterem conectados ao mundo.
Tudo estava tão parecido com os filmes, porém, alguém parece ter resolvido dar
Stop na fita, pois, tudo acabou num piscar de olhos. Eles nem tinham se tocado e Ian
tratou de se afastar rapidamente deixando Ana beijando o vento. A garota sentiu sua
face ficar vermelha, mas Ian não parecia estar sentindo a mesma coisa. O rosto dele
demonstrava algum outro tipo de sentimento, algo que Ana ainda não conseguia
identificar. Mas podia jurar que era alguma espécie de dor, ou medo, não sabia ao certo.
Ela o teria machucado em algum momento?

50
Mas não foi isso, pois logo ele se reuniu com os demais membros sem olhar para
Ana. Era como se ela não existisse para ele naquele momento.
— Se você queria um momento ideal para o primeiro beijo... Foi esse aí –
comentou Laila passando ao seu lado, dando um susto na garota.
— Aí meu Deus – ela levou a mão ao rosto envergonhada.
— Não se preocupe – tranqüilizou a amiga. – Acho que só eu notei.
— Notou o que? – Ela tentava assumir a postura de antes, mas já tinha sido
descoberta.
— Francamente amiga. Já estou pensando que você acha que eu sou trouxa.
— Me ajuda – pediu quase sem fôlego. – Preciso conversar.
— Vamos para meu escritório. – Convidou a garota animada enquanto saía da
piscina, sendo seguida por Ana. As duas meninas foram para o quarto onde passaram a
noite. Laila fechou a porta atrás de si e se virou para a amiga.
— Então? – perguntou.
— Eu não sei o que está acontecendo. Eu só... – começou Ana sem saber controlar
o tom de voz.
— Relaxa! – interrompeu Laila, segurando seus ombros – não é nada demais.
— Mas... – a garota deu um suspiro para relaxar – mas eu não sei o que está
acontecendo. Nunca senti isso por ele antes e agora é como se do nada... Por que agora?
— Carência é triste, fofa – respondeu sorrindo amigavelmente.
— Como?
— Ora Ana, você terminou um namoro agora e de forma não muito boa – ela fez
força nos ombros da amiga para que ela se sentasse de frente pra ela no chão. – É
normal isso que você está sentindo. Já passei por isso também.
— Sério?
— Sim. Você está num momento um tanto vulnerável. O Lucas feriu você e agora
está desiludida com relação aos homens.
Ana laçou um olhar de dúvida para Laila, mas ficou em silêncio esperando que ela
continuasse. Apesar de ela nunca ter se considerado carente depois do término com
Lucas, tinha que admitir que houvesse algum sentido o que Laila falava.
— Mas existe uma coisa lhe incomodando nisso tudo – Laila continuou e Ana
pôde sentir um discurso tendencioso em seu tom de voz. – Pois ao mesmo em que você
acredita não querer olhar para a cara de nenhum homem, seu corpo precisa se acostumar

51
novamente com a solidão. E nisso, você acaba se interessando por qualquer um mesmo
sem querer.
— Como você pode ter tanta certeza?
— Ora, eu já fui deixada pra escanteio também – respondeu Laila, mas se
apressou em corrigir ao ver a cara de Ana pelo comentário. – Foi mal! – e continuou –
Sei como é, bate uma carência na hora. Acaba que para se curar disso você corre o risco
de cair nos braços de qualquer um. Sabe como é.
— Eu não sabia – comoveu-se a garota.
— Relaxa, eu to bem agora. Faz muito tempo e eu não estou afim de entrar em
detalhes. Infelizmente eu não tive a chance que você tem quando isso me aconteceu.
— Que chance? – surpreendeu-se Ana.
— Ora, a de ter alguém a quem se atirar. Um porto seguro. Alguém que conhece e
assim você pode perder o controle um pouquinho. No seu caso é comum você vir a se
interessar pelo Ian. Afinal, ele está sempre ao seu lado e vocês são amigos. No fundo
você acredita que de todos, ele é o único que não vai te magoar.
— Não to entendendo aonde você quer chegar.
— Você é burra, hein! – revoltou-se, mas riu depois mostrando que não falava
sério – Estou falando que você tem alguém para se curar dessa carência. Eu acho que
você deveria dar uma chance a si mesma. Pega ele!
Laila falava com tanta convicção que Ana não conseguiu discutir com a lógica
dela. Não imaginava que a amiga fosse tão sensível assim.
— Melhores amigos são ótimos nessas horas – comentou por fim –, eles nos
ajudam a superar.
— Então o Ian seria essa pessoa?
— Bingo! – Laila explodiu em alegria.
— Não sei se seria capaz de fazer isso. Não seria justo... usá-lo dessa forma.
— O que? – se exaltou a garota – como assim não é justo? Ele é homem, não vai
se importar.
— Que coisa horrível de se dizer - riu Ana.
— E não é? – concordou Laila rindo mais alto ainda – Brincadeira. Só digo que
você usando o Ian, só estaria fazendo um favor a você e a ele mesmo. Consegue me
entender?
— Fala sério – respondeu descrente.

52
— Serio! Mesmo! Ele quer tanto quanto você. É assim mesmo. Geralmente quem
está dentro nunca percebe. Acredite, ele é louco por você.
— Então porque ele nunca disse nada?
— Ele é lerdo né, tadinho? É lerdo – respondeu Laila como se tivesse
diagnosticando uma doença terminal.
— Não sei...
— Pensa bem Ana – atiçou Laila – Você nunca teve curiosidade de tentar, saber
como é? Se ele beija bem? E quem sabe, não é? – refletiu – E se ele for o certo desde o
começo? Quem vai dizer? Agora o que você não pode fazer é deixar de tentar. Por que
você não dá o primeiro passo?
Ana preferiu permanecer calada, pois não queria admitir que estivesse dando o
braço a torcer para aquela possibilidade. No fundo, mesmo contra a sua vontade, aquilo
era tentador. Parecendo perceber que o efeito de suas palavras faziam efeito, Laila de
calou por um tempo, aguardando.
— Belo colar – ela comentou, do nada, mudando o assunto.
— Ah, como? – ela levou a mão ao cordão mecanicamente – Ah, sim. Foi
presente. Herança de família – ela estava feliz que o foco do assunto tinha sido mudado,
embora acreditasse no fundo que aquilo era apenas uma ferramenta de retórica usada
pela amiga.
— Você deve gostar muito dele – disse sorrindo. – Você não o tira nem para
tomar banho.
— Foi presente de minhas falecidas tias. Não consigo me desfazer dele.
Ela ficou admirando a própria jóia para fugir do olhar de Laila. Ela era realmente
muito bonita. E nesse momento a porta do quarto se abriu e Laila deu um pulo do chão.
Era Ian quem entrava.
— Sabia que se bate na porta antes de entrar? – replicou a garota – Poderíamos
estar nuas.
— Desculpe – pediu Ian, sem graça. – É que o pessoal está pensando em jogar
cartas agora. Tão afim?
— Eu já vou – prometeu Ana e se levantou.
Laila parecia um pouco frustrada com sua decisão e quando saíram, falou ao seu
ouvido:
— Pensa no que eu te disse.

53
E saíram do quarto.

*
As coisas continuaram normais no sitio de Mônica ao passar da tarde. Os
hóspedes almoçaram, brincaram, conversaram, fizeram bagunça enquanto Mônica
relaxava com seus filmes e suas comidas no quarto. Aparecendo apenas de vez em
quando em algumas situações, como quando os garotos queriam jogar baralho e ela
entrou na brincadeira, Mônica demonstrava grande capacidade em interagir com
pessoas muito mais jovens que ela.
À hora passou normalmente até que a noite chegou e Laila reuniu o pessoal no
quarto para uma brincadeira.
— Verdade ou consequência – anunciou para todos, alguns riram e outros, como
Fernanda, ficaram um tanto apreensivos. Ana olhou bem a garota tendo uma estranha
impressão que a maioria das garrafas acabaria apontando para ela e Ian. Conhecia a
amiga e sabia que ela era bem capaz disso.
Ana olhou para Ian e ele não parecia estar ali. Pelo menos não em espírito. O
garoto mantinha os olhos focados em algum canto distante do quarto e parecia muito
concentrado em seus pensamentos. Ao se questionar sobre o que ele estava pensando,
notou que o seu lábio superior estava tremendo levemente.
Estranho, refletiu.
— Não vou brincar não galera – foi tudo o que ele falou antes de se levantar,
ameaçando sair. Sua atitude foi tão rápida que Ana até levou um susto quando ele saltou
do chão.
— Ah fala sério Ian. Senta aí – reclamou Antônio.
— Eu não gosto dessa brincadeira – alegou o garoto ainda olhando para a rua sem
dar muita atenção ao companheiro.
— Tem medo que descubramos seus segredinhos? – desafiou Laila
Sem dar importância aos comentários, o garoto saiu do quarto escutando as vaias
dos ocupantes do quarto. Com isso, Ana tinha ficado em maus lençóis, pois, sair
significava ouvir comentários maldosos e ficar seria estar de vela. Sem muitas escolhas,
ela se levantou dizendo não estar muito disposta ao jogo.
No caso dela, não houve represálias e alguns até olharam-na como os olhos
arregalados como se houvessem compreendido toda a verdade.

54
Sem olhar para os demais, ela saiu do quarto e foi até a sala.
Ninguém.
Notou que a porta estava aberta a atravessou, adentrando o quintal. Ao sair, sentiu
uma brisa gelada e agradável passar pela sua pele. Correndo os olhos pelo lugar, viu o
garoto sentado na borda da piscina da casa com os pés dentro d’água. Daquela posição,
Ana não foi capaz de ver seu rosto, mas percebeu pela sua imobilidade que ele devia
estar perdido em pensamentos. Sem fazer barulho, Ana se aproximou com calma até
que um rosnar atrás de si a fez parar.
Com a sensação de que sua espinha havia congelado, Ana se virou calmamente
para encarar a fonte dos rosnados e deu de cara com três dos cachorros que tomavam
conta da casa, que a encaravam como se só ela existisse no mundo dos animais. Ah não,
praguejou. Tinha esquecido que à noite os animais eram soltos. O primeiro cachorro deu
um passo à frente enquanto exibia seus dentes afiados para ela. À medida que chegavam
perto, o rosnar ia aumentando de volume e Ana começou a sentir medo e, como sempre
acontecia quando ficava apavorada, suas pernas resolviam não cooperar. Ela queria
entrar na casa, queria correr para perto de Ian, não fazia diferença, ela só queria sair
dali, mas estava paralisada e sem voz para gritar enquanto olhava aqueles caninos
expostos.
— Chega! Vem! – escutou a voz de Ian atrás dela. Subitamente, os cães pararam
de rosnar e foram de encontro do garoto na piscina. Os animais sentaram-se ao lado dele
como se fossem dóceis, filando afagos do garoto. Aquela transformação, digna de O
médico e o monstro, deixou Ana perplexa por alguns segundos.
— Você está bem? – Ele perguntou e Ana confirmou com a cabeça, pois ainda
não tinha recuperado o dom da fala. – Pode ficar tranqüila. Eles não vão fazer nada –
acalmou-a.
Sentindo novamente a sensibilidade nas pernas, Ana se aproximou ainda receosa
do amigo e dos cachorros. Mas seu medo agora parecia completamente infundado, pois
os animais se tornaram estranhamente amigáveis. Ao chegar à borda da piscina, Ana se
sentou ao lado do amigo mergulhando as pernas na água gelada e se acomodando.
Ainda precisou de um tempo para poder falar, coisa que só conseguiu depois de garantir
que não havia possibilidades de levar uma dentada.
Mais relaxada, voltou sua atenção para o amigo, que parecia estranhamente
incomodado com sua presença, embora tentasse sorrir para dissimular.

55
— O que a trás aqui? – ele tentou parecer casual, mas alguma entonação em sua
voz acusou o desconforto – Pensei que estaria lá jogando.
— Não gosto desse tipo de jogo – respondeu sentindo-se estranha por ser repelida
por Ian. Aquilo nunca havia ocorrido antes. Pelo menos não antes de ter vindo para
aquele sítio. Pensando melhor, já era a segunda vez que algo semelhante acontecia. – E
você? O que faz aqui, sozinho? – arriscou um assunto.
— Admirando o céu – ele pareceu responder a primeira coisa que veio em sua
cabeça. Reparando melhor, ela não sentia mais que o problema era com ela. O garoto
estava um tanto estranho. Seus olhos percorriam disfarçadamente o terreno como que
procurando algo. Ele mantinha a cabeça imóvel, deixando apenas seus olhos seguirem,
como que tentando impedir que Ana percebesse o que estava fazendo.
Procurando ignorar a estranheza, ela olhou para cima e viu o céu todo estrelado.
— Tinha me esquecido que aqui as estrelas são tão bonitas.
— Verdade – concordou Ian, olhando pela primeira vez para o céu.
— Lembra quando agente ficava brincando de desenhar nas estrelas – tentou
manter o assunto.
— Lembro. – concordou o garoto – Eu lhe inventava umas histórias bem doidas
para cada uma delas. Era quando você ainda acreditava em bruxas. – apesar de ainda
evasivo, Ana sentiu que começava a atrair a atenção dele para ela.
— E eu adorava – concordou a garota apoiando com cuidado a cabeça no ombro
do amigo, fazendo o corpo dele estremecer.
Lerdo. Lembrou Laila dizer e achou graça.
— Naquele tempo eu era muito feliz.
— Por quê? – questionou o garoto – Não é agora?
— Não é isso - disse em tom de desculpas – Me expressei mal. Eu quis dizer é
que, apesar de tudo de ruim que aconteceu na minha vida, eu era feliz, porque… bem...
eu tinha encontrado alguém igual a mim. Alguém que acreditava no que eu acreditava.
— Até que você parou de acreditar – comentou e Ana sentiu certa acusação
naquilo.
— Mas mesmo assim continuamos íntimos – rebateu
— É verdade – concordou. – Nós formávamos uma bela dupla.
— Formamos – corrigiu a garota, sorrindo.

56
— É – Ian forçou um sorriso consolador. – Mas fico feliz que tenha conseguido
superar isso – ele disse logo depois. – Você fica mais bonita quando está feliz – e sorriu
pra ela.
Ana sentiu o rosto corar e o coração bater mais depressa com aquele elogio. Não
se lembrava de Ian dizendo pra ela que era bonita antes.
— Você acha que eu fico bonita quando estou feliz?
— Que você fica ainda mais bonita – corrigiu.
Ele finalmente parecia ter desistido de olhar a paisagem e começou a prestar
atenção nela. Os dois se olharam por um longo tempo aonde Ana conseguiu contemplar
com perfeição aqueles olhos negros e mais uma vez, se deixou viajar pelo seu interior
que realçava mistério. Mas o tempo para contemplar acabou rápido, pois, logo depois,
Ian voltou sua atenção para a água, fugindo de seu olhar.
— Algum problema? – perguntou.
— Não, por quê? – se defendeu o garoto.
— Não sei. Você parece estar me evitando.
— Impressão sua – e sorriu, mas continuava a olhar para a água.
— Você poderia me olhar enquanto fala comigo? – pediu a garota.
E ele se virou
— Perdão.
Ela riu
— O que foi? – perguntou Ian
— Nada, – ela respondeu – só que... parece que você está tentando me expulsar
daqui.
— Como assim? – ele ergueu as sobrancelhas.
— Não sei. Primeiro você parece desconfortável com minha presença e depois,
não me olha, não me dá atenção.
— Perdão – pediu de novo e depois ficou calado.
— A gente se conhece há tanto tempo – ela continuou agora se aproximando mais
dele –, mas sinto que ainda tem coisas que me falta descobrir em você.
Meu Deus, o que é que eu to fazendo? Parecia que seu corpo havia dado inicio a
algo que nem mesmo sua mente havia processado direito. O frio da água contrastava
com o calor da pele de Ian, fazendo com que ela fosse atraída para perto do amigo atrás
de conforto. E foi quando sua circulação se acelerou.

57
— Nem sempre temos que descobrir tudo um do outro – ele falou. Apesar do
corte, Ana sentia que no fundo eles não estavam falando da mesma coisa. – Podem
haver coisas ruins nas pessoas que às vezes é melhor nem se descobrir.
— Mas às vezes, há coisas maravilhosas também que nos passam despercebidas –
rebateu.
Mais uma vez eles estavam se olhando nos olhos. A distância entre os dois era
curta e poderia ser facilmente vencida. Era apenas questão de um dar o primeiro passo e
esse pensamento tentou Ana pelo longo minuto em que eles voltaram a se olhar,
fazendo a garota se sentir uma estranha dentro do próprio corpo.
Ela não era acostumada a tomar as rédeas da situação como estava fazendo
naquele momento. Sempre fora passiva aos acontecimentos e ter que tomar decisões a
deixava um tanto apreensiva. Mas naquele instante, aonde os desejos pareciam falar
mais alto que a racionalidade, estava sinceramente gostando daquilo. Era bom poder
tomar a iniciativa um pouco e quanto mais olhava o amigo, mais tinha certeza de que
Laila estava certa. Ele gostava dela.
Os olhos de Ian agora eram completamente incapazes de desviar a atenção dela. O
garoto demonstrava certo receio do que estava prestes a acontecer e que ambos sabiam
sem ninguém falar nada. E foi quando Ana sentiu o desejo neles. Um anseio controlado,
como se ele estivesse usando toda a força do seu ser para se impedir de ir mais longe.
Nunca tinha recebido um olhar tão profundo quanto aquele e por um momento Ana
experimentou o que Laila deveria sentir todos os dias: a sensação de ser desejada. E isso
era muito bom.
Se ele se seguraria por mais tempo, ela decidiu que não tinha que fazer o mesmo e
sem dizer nada, foi aproximando seu rosto do dele. Os dois estavam de lado um para o
outro e Ana percebeu que Ian tentava se afastar, mas a garota o segurou pela face com a
mão. Um toque simples e sem força, mas que foi o suficiente para impedi-lo de se
afastar mais. O amigo segurou suas mãos como que tentando afastá-la, mas ela percebeu
que ele não queria isso de verdade, do contrário teria conseguido, pois era muito mais
forte.
Então, quando os lábios estavam tão próximos que nem mesmo uma corrente de
ar era capaz de passar entre eles, Ana fechou os olhos fitando pela última vez aqueles
olhos negros.

58
E foi quando eles se tocaram. No princípio, muito tímidos. O corpo do garoto
estava duro e ele não se mexia, como se estivesse paralisado da mesma forma que Ana
ficara ao se confrontar com os cachorros. Mas Ana, ao contrário, estava completamente
solta, e esquecendo-se de qualquer inibição, permitiu sua mão passar pelas costas do
amigo, puxando-as para mais perto e ele tremeu novamente.
Apesar de se sentir ousada demais, ela não se importou e continuou a seguir em
frente. Aquela sensação de poder nunca antes experimentado deixou-a arrepiada e ela
queria poder sentir mais. E foi quando o beijo, que antes era suave, ganhou intensidade
quando as barreiras impostas por Ian foram cedendo.
Além dos lábios, as mãos começaram a entrar no jogo. Ana passou a alisar os
braços dele enquanto Ian perdia a inibição e passava a mão por sua cintura, obrigando-a
a chegar mais perto ainda, até que estavam completamente ligados. Enfim, enlaçando os
braços em volta de seu pescoço, Ana retirou os pés molhados da água e o amarrou
também pela cintura de modo que pudessem ficar de frente um para o outro.
E então o beijo pôde finalmente ser experimentado com toda a intensidade
exigida, mas durou pouco. Ian parecia recuperar a vergonha inicial e segurou seus
braços impedindo-a de continuar. Mesmo cortada de seu prazer, Ana sentiu-se satisfeita
por aquele momento e foi abrindo os olhos para encará-lo. Enquanto sentia as bufadas
de ar em seu rosto recorrentes da respiração afobada de Ian, ela o fitou sorrindo de leve,
mas o que viu ao enxergar o rosto do amigo fez o sorriso em sua face sumir dando lugar
a um olhar de espanto.
Naquele instante ele havia feito o mesmo, fazendo com que seus olhos se
cruzassem. Mas ao olhar para Ian, Ana não encontrou o que esperava ver. Imaginando
ver um par de olhos negros à sua frente, ela sentiu um arrepio quando dois grandes
globos azuis estavam olhando pra ela. Ana ficou imóvel, vendo aqueles olhos azuis no
rosto do amigo. Olhos que ela não se lembrava de ter visto antes, nem em Ian nem em
nenhuma outra pessoa que conhecia. Havia algo de sobrenatural na coloração deles.
Eram muito claros e pareciam repletos de energia. Mas o que mais a assustou, não foi a
cor em si, mas sim o desejo que parecia vir deles. Não era mais a paixão retraída de Ian.
Era algo muito mais intenso, mais carnal, mais obsessivo.
Mas esse desejo logo se dissipou e eles pareciam estar apavorados agora. Um
profundo medo era visível no rosto do garoto e nesse momento ambos se empurraram.
Ian virou o corpo ficando de costas para ela. Sua respiração estava completamente

59
descompassada e ele se agarrava na borda da piscina com muita força, como se tivesse
medo de a qualquer momento cair na água. Seus músculos tremiam e Ana olhava o
amigo com espanto sem saber como se fazia para formar palavras em sua boca.
Ela levou a mão ao ombro de Ian tentando vira-lo, mas o garoto resistiu,
permanecendo de costas.
— Ian? – conseguiu finalmente falar – O... q... que houve?
O garoto continuou calado.
— Fala comigo! – insistiu a garota, tentando vira-lo inutilmente.
Quando enfim ele a encarou, seu rosto ainda estava muito perturbado. Ele olhava
pra ela como se estivesse suplicando seu perdão. Seus olhos voltaram ao preto habitual,
embora estivessem um tanto vermelhos e pareciam próximos a transbordarem lágrimas.
— Ian?... – mas não houve tempo para Ana falar nada, pois, ele tinha se levantado
e saído às presas para o interior da casa.
A garota ainda teve que ficar parada algum tempo para tentar digerir o que tinha
acabado de acontecer. Assim como ela, os cachorros também olhavam fixamente para
Ian enquanto ele entrava.
Agora que Ana havia dado pela presença dos animais a sua volta. Quando
finalmente estavam a sós, eles viraram seu olhar para a garota e ela viu que era hora de
entrar. Correu até a sala, fechando a porta que dava acesso ao quintal atrás de si.
Olhando o aposento, viu que continuava vazio e se dirigiu aos quartos da casa. Só
haveria um aonde Ian poderia estar.
Ao se aproximar da porta do único quarto desocupado ela pôde ouvir algo um
tanto estranho. Ao levar a mão à maçaneta, parou devido ao som da respiração ofegante
de Ian que saía do interior do aposento. Mas não era apenas a respiração, havia algo
mais. Gemido, choro. Na verdade pareciam mais ganidos do que sons propriamente
produzidos por um ser humano e tudo era muito curioso.
Ana não conseguia imaginar o que estava se passando dentro daquele aposento.
Ela manteve a mão na maçaneta, mas se recusou a abrir a porta. Podia sentir o tormento
que o garoto passava ali dentro. Parecia até que o estavam machucando fisicamente e
ela não sabia se era melhor ir até ele ou deixá-lo sozinho.
Acabou optando pela segunda opção. Ainda se lembrava da forma como ele fugiu
dela e decidiu respeitar sua vontade de ficar sozinho. Sem opções de onde dormir, ela
voltou à sala e ali permaneceu sentada no sofá, esperando o dia clarear.

60
7 – Um grito na noite

Sem perceber, Ana havia dormido no sofá e o local desconfortável aonde havia
passado a noite se fez sentir na manhã seguinte quando sua cabeça latejou após
despertar. Num flash, ela conseguiu se lembrar de tudo o que tinha acontecido na noite
anterior: do jogo, do beijo e, principalmente, dos olhos azuis.
Olhou em volta e percebeu que o lugar estava calmo, viu o relógio e ainda eram
seis da manhã. Todos deviam estar dormindo. Levantou-se e decidiu ir até a porta do
quarto comunitário. Ao abrir, notou quatro vultos deitados. Ele realmente havia passado
à noite sozinho. Então, ela se dirigiu até o outro quarto e parou de frente para a porta.
Pensou bem se devia ou não entrar. Segurou firmemente a maçaneta, mas não a mexeu
de novo.
Olhos Azuis. Pensou, não conseguindo tirá-los da cabeça desde então. Como
aquilo era possível?
Tudo era muito confuso. Sabia o que tinha visto. Mas ao mesmo tempo não sabia
explicar. Precisava falar com o garoto, saber o que tinha acontecido e porque ele fugiu
dela. Mas ainda ficou um tempo imóvel diante da porta, e foi quando a outra porta, ao
lado, se abriu. Era Mônica saindo de seu quarto. A mulher estava bocejando ao sair e
quando viu a garota, levou um susto.
— Já acordada querida? Caiu da cama? – perguntou sorrindo meio constrangida
por ter sido pega num momento tão intimo.
— Eu diria o mesmo – rebateu a garota, retribuindo o sorriso.
— Touché – riu-se a mulher. – Mas o que está fazendo aí? Achei que vocês
estivessem dormindo no outro quarto.
— Sim é que...
Mas ela não teve tempo de responder, pois naquele momento ela sentiu a sua mão
que segurava a maçaneta ser puxada para frente quando a porta se abriu. Do quarto
escuro, surgiu Ian que estava bem à vontade trajando apenas a bermuda que usava na
noite anterior. Os olhos do garoto estavam mais fundos do que nunca, o que mostrava
que passou mais uma noite em claro e, apesar do frio que fazia de manhã, tinha o corpo
completamente suado.
Um silêncio constrangedor se fez presente naquele instante. Ana olhava o rosto
pasmo da mãe de Laila e não sabia como desfazer o mal entendido. Em contrapartida,

61
ela olhava para Ian a procura de socorro, mas o garoto ainda não parecia estar a par do
que acontecia em sua volta, lançando olhares interrogativos para as duas mulheres à sua
frente.
— Nossa! – exclamou Monica – Bem... – disse procurando se recompor. Seu
rosto estava muito corado – vocês são jovens... e... – desistiu, saindo rapidamente para o
quintal.
— Não é isso o que... – mas não houve tempo de Ana se explicar, pois a mãe de
Laila já tinha saído. A garota não sabia onde enfiar a cara, mas logo ignorou ao se
lembrar do amigo. Porém, quando voltou sua atenção para Ian, ele já havia passado por
ela e se distanciara em direção a saída.
Que rápido? Ela nem tinha o visto passar.
Ana teve de correr um pouco para alcançar o amigo se colocando na frente dele,
bloqueando o caminho.
— Precisamos conversar – ela se apressou em dizer.
— Eu sei – ele respondeu rápido e Ana sentiu-se aliviada por não ter que ser ela a
entrar em detalhes. – Desculpe, não era pra ter acontecido – ele procurava o que dizer –
então, tchau – e tentou se desviar dela.
— O que? Só isso? – ela o bloqueou novamente – Não é disso que estou falando.
Aconteceu alguma coisa errada ontem.
— Sim. Nos beijamos – ele evitava olhá-la nos olhos, desviando-os
constantemente. – Desculpe-me. Não era pra ter acontecido – e tentou mais uma vez em
vão passar por ela.
— Não é isso. Para de se fazer de sonso. Eu quero dizer que aconteceu algo
estranho ontem à noite.
— O que? - ele não conseguia se fazer de inocente tão bem quanto queria.
— Não sei. Gostaria que você me explicasse.
— Explicar: Mas explicar o que?
Ana bufou de impaciência. Não queria ser ela a puxar esse assunto. Parecia
ridículo demais falar.
— Como seus olhos ficaram azuis, por exemplo. – ela sentiu a idiotice daquelas
palavras, mas não parou de encará-lo com convicção.
O garoto soltou uma risada leve e Ana não gostou nada daquele sarcasmo.
— Meus o que? Ana, como isso iria acontecer?

62
— É isso que eu gostaria que você me explicasse. Eu vi seus olhos mudarem de
cor ontem à noite – ela se preocupou em reduzir o volume da voz ao falar essa ultima
frase.
— Você pode ter visto coisas. – propôs.
— Então você também vai querer dizer que estou ficando louca? – disse a garota
em cólera – eu já escutei isso de muita gente Ian, não precisava escutar de você também.
— Não é isso – tentou se desculpar – só que você... pode ter se enganado.
— Eu sei o que vi. – replicou.
— Não sabe não.
— Vai ficar negando? Ian, qual o problema? Sou sua amiga. Pode me contar o que
foi.
Ian olhou em volta impaciente antes de falar.
— E o que você quer que eu lhe explique?
Ela não esperava tal pergunta.
— Sei lá! Algo que me faça entender o que aconteceu. - ela tentava responder.
Realmente não fazia a menor idéia do que estava havendo - O porquê de você ter
corrido de mim, o porquê de você estar me evitando agora e o porquê de seus olhos
mudarem de cor. Qualquer explicação serve.
— Eu fugi de você porque não foi certo o que fizemos.
— Isso eu imaginei. Mas porque, eu não sei.
— Porque somos amigos - ele respondeu como se fosse óbvio – isso arruinaria
nossa amizade – mas ele não parecia ter certeza no que dizia - E estou lhe evitando
porque não quero que aconteça de novo.
Ela fez sinal de quem se rendia.
— Tá bom, mas e a pergunta principal?
— Os meus olhos?
— É.
Ele pensou um pouco cantes de responder.
— É alguma doença? – arriscou apesar de não saber de nenhum caso assim.
Talvez fosse raro.
— Sim! – ele parecia feliz com essa conclusão – um caso raro. Nada grave –
tratou de se apressar – mas… é isso.

63
Mas naquele instante Ian havia se traído. Não intencionalmente. Provavelmente
ninguém, exceto Ana, haveria de reparar naquilo. Mas no momento em que ele falou
aquilo, levou instintivamente a mão até o rosto e começou a coçar o nariz com a palma.
Esse gesto, Ana conhecia muito bem. Durante os anos que estiveram juntos, sempre
reconheceu esse sinal de Ian: Ele estava mentindo. Devia ser um tique dele, mas sempre
que mentia, sua mão ia instintivamente até o nariz.
— Quer saber? Tá bom. Esquece. Obrigado pela informação – ela se virou e saiu
para o quintal.
Atrás de si, ouviu o som da porta do quarto se abrir e os demais moradores saírem
para o café da manhã.

*
Na mesa do café, todos pareciam muito animados, apenas Ian e Ana não
compartilhavam do mesmo espírito. O garoto estava desanimado e a menina, furiosa.
No meio da refeição, Laila se achegou para perto da amiga e lhe perguntou ao
ouvido:
— Que cara é essa amiga? Não foi boa à noite ontem?
— Eu não quero falar disso – respondeu Ana em tom ríspido.
— É que eu pensei, que... – a garota parecia ofendida – por vocês não terem
ficado com agente...
— Eu não quero falar sobre isso. – repetiu, mas não achou justo descontar nela e
tentou consertar as coisas – Desculpe – disse num tom mais amável – só não me
pergunte, tá?
— Tá bom. Desculpe – e voltou para o seu café.

*
O resto do dia passou a correr lentamente para Ana no sítio. A garota ainda estava
irritada com o silêncio de Ian e o clima de paixão, que reinava na casa desde a noite
anterior, não estava ajudando. Ela não via à hora de chegar o dia seguinte em que eles
sairiam daquele lugar e voltariam para a Vila da Penha, onde Ana poderia se trancar no
quarto fechando sua janela e não seria obrigada a olhar o amigo. E só para completar
sua fúria contra Ian, ele tinha escolhido dar uma de autista naquele dia. Ficava horas

64
olhando o horizonte ou perdia a atenção quando conversavam juntos e mantinha-se
fitando o nada. Ana entendia isso como uma maneira de evitá-la e isso a irritava mais.
Que infantil, pensou trincando os dentes.
Ao cair da noite, Mônica adentrou a sala anunciando aos residentes:
— Bem queridos companheiros. Eu fiz um cálculo errado nas compras e descobri
que nos faltam refrigerantes e arroz para o jantar. Por acaso temos algum candidato aqui
interessado em andar vinte minutos até a venda mais próxima?
Ao dizer isso, ela aguardou a reação que foi negativa em sua grande maioria,
fazendo um gemido de desânimo ecoar por todo o aposento. Porém, ao contrário dos
demais companheiros, Ana não hesitou em se colocar logo de pé.
— Pode deixar. Eu vou – disse com decisão. Afinal, ela precisava de um pouco de
tempo longe daquele lugar.
— Não sei – duvidou Mônica, meio apreensiva. – Já é tarde para você andar
sozinha. O lugar não é perigoso, mas mesmo assim...
— Eu vou com ela! – escutou Ian se prontificar
Não, gemeu por dentro.
— Sim! - respondeu Mônica – Assim é melhor.
Ana percebeu com o canto do olho que Laila ia se prontificar a ir com ela, mas
desistiu rápido quando Ian se ofereceu. No fundo, ela até preferia que fosse a amiga que
a acompanhasse, mas o mal já estava feito. Mônica deu o dinheiro na mão de Ana e ela
calçou os tênis enquanto Ian vestia um casaco e, sem trocar palavras, saíram.
A caminhada por uma estrada de terra, mal iluminada e cercada de mato até a
mercearia era longa, e o fato dos dois andarem calados e o clima entre eles não estar
muito bom, deixava o percurso ainda mais maçante. Sem nem ao menos olhar para a
cara um do outro, eles chegaram à mercearia, compraram as coisas pedidas e voltaram
ainda mudos. Depois de muito tempo, quando o som do vento já estava por demais
insuportável, Ian resolveu quebrar o gelo:
— Quer uma bala? – disse estendendo o pacote pra ela.
— Por que veio comigo? – perguntou a garota, sem rodeios – Achei que não
quisesse falar comigo.
— Para te proteger – respondeu, ignorando o comentário.
— Obrigado, mas não precisava – disse. – Até por que, quem iria me proteger de
você? Quem iria te proteger da raiva que sinto de você agora?

65
— Por que tanta agressividade? – disse sorrindo pra ela
— Ian, esse tom de deboche não está ajudando – cortou.
— Desculpa. – pediu, assumindo uma postura mais séria – Achei que amigos
podiam brincar uns com os outros.
— Achou? – rebateu com sarcasmo, parando de andar – E você sabe o que eu
achei? Achei que amigos podiam contar coisas uns para os outros, achei que amigos não
tinham segredos uns com os outros. Eu nunca escondi nada de você, mas agora parece
que eu não sei nada de você. – acusou elevando o tom de voz.
— Ana, eu não estou escondendo nada. Juro.
A garota deu um pigarro alto e o olhou descrente.
— Não esconde nada? Então porque é incapaz de responder uma simples pergunta
que te fiz? Porque não me diz que aconteceu com seus olhos ontem à noite.
— De novo esses olhos? - gemeu – Meu Deus, mas como é possível? – ele olhava
espantado para ela procurando palavras para descrever o que vinha em sua cabeça –
Cara! Por que você se fixa tanto nisso? Digo... Eu... eu te dei um toco. Você veio pra
mim e eu te rejeitei, então... por que você insiste em se prender a essa questão?
Ele havia tocado no ponto da questão.
— Porque eu preciso de uma explicação coerente – falou simplesmente.
— Por quê? – se exaltou o garoto – porque “você imaginou” não é o bastante.
— Porque eu preciso de uma explicação que não diga que eu estou louca – Apesar
de ainda estar com raiva, Ana agora começava a se sentir como que sedada ao perceber
que provavelmente aquela discussão não levaria a nada. Por mais que ela falasse e
argumentasse, parecia que a barreira que Ian havia erguido era forte demais e ele
continuaria a negar o fato. – eu não quero mais ser tratada assim. – disse num suspiro,
abaixando novamente o tom de voz – estou farta das pessoas quererem dizer o que foi
que eu vi ou o que eu não vi, no que posso ou não acreditar, no que eu sei ou não.
Ambos se calaram deixando apenas o som do vento quebrar o silêncio daquele
caminho de terra. Ana sentia que estava muito alterada. Mesmo tentando evitar que os
fantasmas do passado voltassem, eles estavam ali à espreita. Por algum motivo, tudo
aquilo que estava acontecendo, parecia ter uma ligação muito estreita com o que ocorreu
há quatro anos. Fazia anos que ela não se permitia perder o controle daquele jeito.

66
— Que tipo de explicação você quer? – o garoto disse depois de um tempo. Ao
olhar par ele, Ana viu seus ombros baixarem como alguém que desiste de um combate e
se rende ao inimigo. Fitando bem seus olhos, Ian agora parecia tão sedado quanto ela.
— Apenas uma explicação sensata. – pediu.
Ele suspirou fundo e seu rosto se contorceu numa espécie de agonia, como se ele
estivesse travando uma intensa batalha em seu íntimo.
— E se a explicação não for sensata? – cogitou.
— Que?
— E se não for? – repetiu – E se for algo mais... complicado. Algo... irracional?
Não natural?
— Por favor, Ian – ela suspirou – não vem com essas histórias. Não somos mais
crianças
— É. Eu sei – e ficaram mudos novamente.
Mas aquele minuto de silêncio foi cortado pelo barulho de algo passando pela
folhagem que cobria os lados da estrada de terra. Num movimento instintivo, ambos
encararam a direção do ruído, apreensivos. O que será que estava ali? Seria algum
animal?
— O que foi isso? – a garota olhava em volta a procura de alguma coisa, mas nada
se mostrou.
O mato a sua volta começava a se mexer mais. Vários pontos diferentes da
vegetação que os cercavam, oscilavam a cada momento, o que dava a entender que se
tratavam de muitas criaturas os cercando. Ana olhava em volta tentando ver alguma
coisa, mas tudo o que conseguia distinguir eram vultos disformes, que desapareciam
antes que ela pudesse sequer arriscar um palpite da identidade daquilo.
Sem receber respostas, ela olhou para o companheiro para saber o que ele estava
fazendo e foi quando seu coração deu um novo solavanco. Agora, à sua frente, não era
mais Ian quem ali estava. Pelo menos não totalmente. O garoto agora assumira uma
postura diferente de tudo o que Ana já havia visto na vida. Com o tronco um tanto
inclinado para frente, ele mantinha as mãos abertas para os lados com seus dedos em
forma de garras. Ao fitar seu rosto, Ana viu um retrato de raiva na face de Ian. Com o
cenho enrugado e o lábio superior tremendo, ela via seu olhar vigilante percorrer por
toda a extensão do lugar.

67
E foi quando ela viu seus olhos, e agora, sem sombra de dúvidas, percebera que
não estava louca. Pois ali, dentro dos globos oculares de Ian, estavam os mesmos olhos
azuis que vira antes. Intensos, alertas e, acima de tudo, fascinantes. A mudança foi
acontecendo de forma sutil, mas perceptível: o preto ia dando lugar ao azul
vagarosamente. Uma pequena dose de medo começou a se aflorar dentro do peito da
garota, que agora não sabia se voltava sua atenção para a criatura que os cercava ou se
para o amigo que parecia se transformar diante de seus olhos.
Mas agora o vento passou a soprar mais forte que nunca e Ana não foi mais capaz
de focar sua atenção em Ian, pois a poeira começava a ser soprada para todos os lados
ameaçando sua vista. E junto com a areia que era arremessada, aquela ventania trouxe
também algo que gelou seu coração. Pois, da mesma forma que acontecera há quatro
anos, o som produzido foi ganhando forma até se tornar uma palavra clara nos ouvidos
de Ana. Apesar de tampar as orelhas a fim de evitar escutar o conteúdo da mensagem, já
era tarde demais.
Matar
Sem conseguir pensar em mais nada devido ao medo, Ana apenas correu para
frente gritando na tentativa de abafar o som daquela mensagem. Porém antes que
conseguisse correr para muito longe, seu corpo colidiu com alguém logo à frente sendo
agarrada com força logo depois. Ali, abrindo os olhos, ela viu Ian a abraçando.
Um abraço forte e protetor. Ana fora imprensada contra o peito do amigo por seu
braço que agora parecia duro como ferro. Além do som do vento poderoso que o
cercava, o ambiente também era preenchido com o som do choro contido de Ana, que
vinha na forma de um gemido agonizante. Porém, um terceiro ruído entrou logo em
seguida.
Este, diferente dos três anteriores, era mais feroz, mais bestial. Ana reconheceu
nele uma espécie de rosnar. Tentou ver de onde vinha, mas foi então que percebeu que
ele saía do peito de Ian. Ao correr os olhos pelo seu braço, viu as mãos que a seguravam
tão rente ao corpo do amigo. Mãos em forma de garras, que a prendiam como um
gancho. As unhas, agora mais compridas que o normal, eram afiadas e pontiagudas
como punhais. Era incrível como elas podiam segurá-la sem machucá-la. Ao fitar
novamente o rosto do amigo, viu os olhos azuis, agora mais intensos que nunca. Seu
lábio superior tremia mais à medida que os rosnados elevavam o volume. Ao olhar

68
melhor viu que no interior da boca dele, um canino avantajado se fazia presente,
contribuindo para a aparência bestial que o garoto assumia.
A partir daquele momento ela não foi mais capaz de tirar os olhos de Ian. Por esse
longo segundo, ela esqueceu-se completamente de toda a ameaça que se passava a sua
volta e, observando melhor, notou que seus olhos azuis tinham as pupilas muito
pequenas, quase invisíveis e que vasculhava todo o território a procura daquilo que os
cercava.
O vendaval então se tornou mais furioso e Ana sentiu que ele se aproximava
quando percebeu uma brisa passando pelo seu pescoço. Num gesto rápido, Ian a
segurou mais rente ao seu corpo e, num salto, afastou os dois de onde estavam. A garota
experimentou a sensação de flutuar no ar quando ele pulou com ela em seus braços.
Uma sensação de leveza tão profunda que ela nem conseguiu perceber quando
finalmente aterrissaram.
E foi quando os olhos de Ian focaram em um ponto distante. Ele havia encontrado
o que procurava. Os braços em torno do corpo de Ana afrouxaram deixando seu corpo
cair levemente sobre o chão de terra
— Fica aí! Não saia! – Ordenou numa voz muito mais grossa que o natural e
disparou, se embrenhando no mato.
— Ian! Não! – mas ela não foi capaz de impedir o garoto que sumiu na escuridão.
Mas uma vez, o medo a tinha paralisado e ela estava grudada naquele chão.
O vento se cessou e Ana olhava fixamente para o ponto aonde Ian havia
desaparecido. Os rosnares continuaram, cada vez mais ameaçadores, embora cada vez
mais distantes. Até que eles se cessaram. O silêncio durou alguns segundos deixando
um minuto mudo perdurar naquele ambiente. Mas ele durou pouco, e logo depois um
grito de terror, vindo do fundo da vegetação, cortou a noite.
— Ian? – Ana gritou assustada. Mas no fundo ela sabia que o grito não era de Ian.
Mas mesmo assim, aquele som havia desperto sobre ela o controle do próprio corpo,
permitindo que se levantasse. Com a mobilidade recém-adquirida, ela correu o mais
rápido que pôde na direção por onde Ian havia desaparecido. Seu coração agora
disparava e ignorando as compras que haviam ficado para trás ou as folhas que lhe
machucavam as pernas quando ela passava, Ana correu mais e mais.

69
À medida que ia adentrando a vegetação, sentia o ar ficando mais frio até que uma
neblina passou a se formar em torno dela. Mesmo sem poder enxergar um palmo à sua
frente, ela continuou avançando, até alguma coisa bloquear seu caminho.
Colidindo numa forte pancada, como se tivesse se chocado contra um muro, Ana
foi ao chão. Rapidamente abriu os olhos e viu uma silhueta se abaixando para alcançá-
la. Num movimento reflexo, ela tentou se desvencilhar da coisa que tentava segurá-la.
— Calma Ana – ouviu a voz conhecida que a fez parar de se debater.
Ela agora conseguia reconhecer as feições do amigo. Suas feições normais, com
seus olhos negros e seus dentes alinhados.
— Ian! Ian? Você está bem? – Ela dizia sem poder controlar a euforia que sentia.
— Calma. Tudo bem – a voz do amigo era tranqüilizadora e muito suave. Muito
diferente da de minutos atrás. – Vamos voltar logo e desta vez, por favor, sem
perguntas.
Ana estava cheia de perguntas, mas concordou em se calar. Na verdade, não se
sentia muito segura em recusar uma ordem de Ian naquelas circunstâncias, depois de
tudo o que se passou.
Assim, ela se levantou e os dois e voltaram juntos para o caminho de terra, onde
as compras estavam jogadas ao chão. Recolheram tudo e seguiram de volta ao sitio sem
trocar palavras. A garota olhava o amigo pelo canto do olho. Muitas perguntas
passavam por sua cabeça, mas não queria externá-las. Não agora.
Ela ouviu o grito ecoar em sua mente, várias e várias vezes. Não se lembrava de
ter testemunhado tanto terror proferido de alguém, ou alguma coisa, na vida. O que será
que havia acontecido naqueles poucos segundos em que eles se separaram?
Agora o medo que ela sentiu há poucos minutos atrás parecia pequeno se
comparado a apreensão que experimentava no momento enquanto caminhava sozinha
com Ian, num silêncio mortal e opressor. Ela havia sim sentido medo da criatura, mas a
criatura havia temido a Ian. Pensando nisso, Ana se questionou sobre quem deveria ser
o ser mais perigoso naquela noite.

70
8 – Flashback.

Caminhando vagarosamente pela escuridão da Igreja da Iluminação, Ângelo


mantinha-se de prontidão para perceber a presença seja do bispo ou do frade,
impedindo-os de lhe dar um flagrante. Mesmo ciente de que aquilo ia contra todas as
regras da Ordem dos iluminados, ele ainda não tinha se conformado com as pobres
explicações fornecidas por seus superiores e acabou optando por conseguir mais
sozinho.
Vendo que não havia ninguém por perto, o garoto se ajoelha num dos cantos da
igreja mantendo os olhos fechados e as mãos em forma de cálice a frente do corpo.
Após alguns segundos de concentração, nota-se uma luz prateada queimar nas mãos do
mago e logo em seguida a imagem de um olho é projetada entre as suas mãos, aonde
permaneceu flutuante. Abrindo um dos olhos, Ângelo começa a guiar o outro que ele
conseguiu projetar magicamente em suas mãos.
A magia utilizada era atualmente chamada de Big Brother. Um nome que o garoto
passou a odiar após a estréia do programa. A mágica consiste em fazer uma projeção
holográfica de um olho humano que pode se movimentar de acordo com a vontade do
usuário. Porém, além de uma mera ilusão, esse olho carrega as funções orgânicas do
mago transportando a visão de um de seus olhos para a pequena projeção. Com isso,
Ângelo consegue transportar sua visão para pontos diferentes do seu corpo e investigar
regiões de forma mais segura e discreta. Nesse momento, o pequeno olho vagava pelos
aposentos da igreja procurando as figuras do Bispo César e do Frade Henrique. Nenhum
deles se encontrava.
Excelente.
Ângelo já suspeitava de tal acontecimento, mas preferiu se certificar, pois iria
precisar de total paz na nova empreitada que estava planejando. Andando em direção à
passagem secreta atrás do quadro da virgem, o garoto encostou sua mão na imagem e
com um pouco de concentração, fez com que esta de locomovesse, expondo a passagem
com a gruta que dava acesso ao local de descanso secreto do bispo.
Ângelo havia ligado para o bispo nessa manhã e descobrira que ele teria uma
reunião com pessoas da cúpula dos Iluminados nesta noite, por isso, achou que seria o
melhor momento para realizar a magia do Flashback e descobrir o que estava
acontecendo. O garoto sabia que o bispo havia descoberto algo de muito importante e

71
que se recusava a confidenciá-lo. Sabia também que a descoberta era tão interessante
que significaria até mesmo uma aliança, mesmo que temporária, com os Inquisidores. E
era exatamente isso que Ângelo temia. Sua curiosidade o obrigava a chegar a esse ponto
e saber tudo o que se passava em seu templo. O jovem confiava em seu mestre, mas não
sabia até que ponto aquela doença havia mexido com seus nervos e seu raciocínio.
Ao adentrar a sala luxuosa, pegou um pedaço de giz branco do bolso da calça
jeans que usava e, tirando o carpete persa que forrava o chão, começou a desenhar no
piso. Em poucos segundos, um circulo cheio de simbologias estava desenhado no chão.
Tenho que me lembrar de limpar isso ou o bispo vai me matar.
A magia do Flashback servia como uma ponte, aonde o mago podia observar
acontecimentos do passado de um determinado local. Era uma magia um tanto
rebuscada para um iniciante, mas Ângelo havia conseguido dominá-la há algum tempo.
O bispo César, depois de sua doença, havia se isolado dentro desta sala, saindo
raramente quando a necessidade o obrigava. Então, independente do que ele tenha
descoberto, fora nesta sala. Ângelo entrou no círculo e se sentando com as pernas
cruzadas, começou a se concentrar.
A mágica do Flashback era uma descoberta recente de estudos realizados pela
própria Ordem dos Iluminados. Muito poucos magos sabiam utilizá-la e Ângelo era um
desses. Ela foi-lhe ensinada pelo Bispo, mas nem mesmo este sabia que o garoto havia
avançado tanto em tão pouco tempo. O jovem não se sentia bem em utilizar uma coisa
aprendida através do Bispo contra ele, mas sua intuição não o deixaria dormir à noite
enquanto não soubesse o que estava sendo tramado dentro da igreja.
Aos poucos a meditação ia se aprofundando. Depois de um tempo, Ângelo foi
perdendo totalmente o contado com o mundo real, sentindo seu espírito sair do corpo.
Logo, o silêncio do lugar foi sendo gradativamente substituído pelo som de uma voz;
grave e forte, que Ângelo conhecia muito bem: a voz do bispo, antes de ser cruelmente
atacada pela enfermidade.
— Não acho que seja necessário – ouviu a voz do bispo.
— Por favor, bispo – era a voz do frade Henrique – não vá agir como criança
nessa altura da situação. O senhor sabe que sua saúde não anda bem.
— Eu sei exatamente como estou no momento – respondeu o bispo em tom
autoritário. – Só estou dizendo que não há necessidade de me afastar de meus afazeres.
Não será uma doença que irá me abater.

72
Henrique soltou um suspiro de impaciência e depois falou, tentando manter a
calma:
— Senhor. Isso que o senhor tem, nem mesmo os nossos melhores curandeiros
sabem do que se trata. Essa sua infecção na garganta é algo nunca antes visto e não
sabemos a que proporções isso pode chegar. É muito mais sensato deixar nossos
especialistas calcularem os riscos que essa doença envolve. Saber se é contagiosa e se
há uma cura. Enquanto isso é melhor que fique afastado.
— Reconheço sua preocupação meu filho – o tom do bispo era amável, porém
firme – mas não preciso de ninguém para me dizer o que é melhor. Trabalhei trinta e
cinco anos nessa ordem e não pretendo sair como um derrotado.
Finalmente, a magia de Ângelo estava completa e além de vozes, agora ele
conseguia ver a imagem da sala do bispo com perfeição. Não sabia quanto tempo ele
havia voltado, até porque ali não havia calendários, jornais, nem nada que lhe
posicionasse no tempo. A única coisa que reparava é que tudo não parecia muito
diferente do seu tempo, há não ser o Bispo César, que conservava uma aparência muito
mais saudável.
O bispo estava de pé em postura impecável enquanto olhava a lareira e ouvia o
que o frade tinha a dizer.
— Infelizmente – continuou o frade – não sou apenas eu quem estou preocupado
com sua saúde, bispo. Todos os membros do conselho estão cientes e também
consideram que o senhor não está em condições de exercer suas atividades. Nem nas
reuniões, nem na administração desta igreja.
Houve um período de silêncio e o frade continuou:
— Eu lhe peço. Abandone isso enquanto se recupera. O conselho não parece
interessado em discutir essa situação por mais tempo. Se não sair por bem, eles...
— Está me ameaçando, Henrique? – agora o Bispo encarava o pobre frade que
deu um passo para trás diante da energia emanada nos olhos de César.
— Não senhor. Longe de mim – respondeu Henrique tentando manter a calma,
mas Ângelo sabia muito bem o quão ameaçador César poderia ser se assim desejasse –
Mas não sou eu que estou lhe dizendo isso e sim o conselho – e completou como em
tom de desculpa. – Sou apenas o mensageiro.
Ângelo já sabia que estava no tempo errado e não gostava de visitar a vida pessoal
de seu mestre desta forma, mas não havia outra solução. Depois que a mágica do

73
Flashback era iniciada, não se podia controlar com perfeição o tempo que se iria visitar,
nem podia se avançar rápido ou rebobinar como numa fita. Por se tratar uma mágica
muito recente, que não teve tempo para ser aperfeiçoada, o controle da data exata ainda
era impossível. Tentar encerrar a magia naquele momento exigiria que Ângelo iniciasse
o processo todo de novo o que custaria muita energia. Assim sendo, era preferível
esperar que esse acontecimento terminasse para se ter mais sorte no próximo.
Enquanto essa cena não acabava, Ângelo podia ver muito bem o efeito que as
palavras de Henrique haviam causado em seu mestre. Apesar de sua tentativa de parecer
imparcial, o garoto sabia muito bem que aquela notícia havia arruinado o velho mago.
Um homem que tanto lutou para reerguer a influente Igreja da Iluminação no Rio de
Janeiro e que tanto cresceu dentro da Ordem dos Iluminados, agora era derrotado por
uma mera enfermidade. Ângelo queria não ter visto tal cena, mas não teve escolha.
Agora as coisas começavam a sair de foco e ele começava a entrar numa outra cena.
Nela, Henrique e César ainda estavam presentes, porém, acompanhados por outra
figura.
Um senhor de batina branca com um crucifixo dourado no cordão estava com
eles. O homem tinha uma idade já avantajada e algumas manchas apareciam em sua
pele muito branca. Seus cabelos prateados eram curtos e desalinhados e seu olhar era
severo. Ângelo o reconheceu como sendo o bispo Armando, um dos mais importantes
membros da Ordem dos Iluminados no Brasil e participante da cúpula da Ordem no
mundo.
— Não vou me demorar muito César. – falou o bispo com sua voz polida – Você
poderá continuar na Igreja, afinal, você ajudou a reerguê-la em tempos difíceis. Porém,
não tomará mais conta de suas atividades administrativas e nem continuará
freqüentando as reuniões da cúpula enquanto sua situação não apresentar melhoras.
— Mas senhor... – tentou intervir César
— Nem mais uma palavra! – interrompeu o bispo Armando – Tenho certeza que o
frade Henrique ficará feliz em cuidar da parte chata dessa Igreja enquanto o senhor
descansa – e se virando para Henrique, que se encontrava até então encostado na parede
e se endireitou ao ouvir seu nome, disse: – Estou enganado Henrique?
— Não senhor. Será uma honra – dava para ver que Henrique também se sentia
intimidado pela imponente presença de Armando, assim como César estava
— Excelente! - felicitou o bispo – Agora, vou-me indo. Melhoras César.

74
E saiu sem receber uma resposta de seu interlocutor.
Quando Armando deixou o local, César deu um soco no braço da poltrona.
— Droga! – praguejou. Ângelo pôde ver que seus olhos começavam a se encher
de lágrimas.
— Acalme-se bispo – pediu o frade Henrique colocando a mão em seu ombro –
Sua saúde não lhe permite irritabilidade.
— Como irei de me acalmar Henrique? Não vê o que está acontecendo? Estou
sendo basicamente excomungado da ordem!
— Não é bem assim senhor. - Henrique tentou explicar - Sua saúde necessita de
cuidados especiais. E mesmo assim, eu fiquei encarregado da administração da Igreja e
como sou fiel ao senhor, será como se o senhor ainda estivesse no poder.
— Não é a mesma coisa – resmungou o bispo.
— Sei que não é. Mas enquanto isso eu tenho boas notícias. – respondeu Henrique
com ar mais animado, enquanto puxava uma pequena sacola do bolso – Encontrei a
receita dos remédios que lhe falei. Não é a cura definitiva, – acrescentou Henrique ao
ver a cara de ânimo do bispo – mas irá lhe aliviar as dores enquanto não chegamos nela
– e tirou uma pequena pílula envolvida num pedaço de folha.
— O que é isso? – o olhar do bispo demonstrava alguma inquietação.
— Sei que não gosta de remédios naturais, porém lhe garanto que este funciona. É
uma propriedade mágica retirada de uma planta amazônica conhecida como Beladona.
— Ela não é venenosa? – interrogou o velho.
— Sim senhor. Mas possui também outros tipos de propriedades. Uma delas é um
forte analgésico. Experimente – insistiu o frade.
O bispo ficou um tempo pensativo.
— Não vá agir como um velho de asilo que se recusa a tomar remédios – alfinetou
o frade com um sorriso amável.
Desafiado como fora, o bispo pegou uma pílula e a engoliu a seco. Não demorou
muito para fazer uma cara que parecia que iria vomitar no carpete.
— Jesus Cristo! Isto é horrível.
O frade riu de alto som.
— Eu sei. Mas funciona e isso é o que importa. Não sente a garganta melhorar?
— Um pouco – concordou a contragosto enquanto esfregava a garganta com a
mão.

75
— Ótimo. Recomendo uma a cada doze horas.
E finalmente a cena acabou e Ângelo foi sendo lentamente arrastado para outro
momento. O garoto começava a ficar ofegante. Manter a magia do Flashback por muito
tempo era cansativo demais e ele esperava conseguir algo na próxima cena.
Agora Ângelo estava vendo apenas o bispo César sentado em sua poltrona,
aparentemente adormecido. Ângelo não entendeu o que aquele momento poderia ter de
importante, mas reparou que o semblante de seu mestre estava um pouco diferente. Ele
parecia inquieto e se mexia na poltrona regularmente sem abrir os olhos. O garoto
percebeu que ele não estava tendo um sonho muito agradável ao fitar sua testa enrugada
e o suor que começava a brotar dela.
Ângelo se aproximou para ver melhor o semblante do bispo, porém, este abriu os
olhos soltando um grito de terror que fez Ângelo pular pra trás. César suava muito e sua
expressão era de profundo pânico enquanto olhava a sua volta tentando recuperar o
fôlego e massageando a garganta que doeu com a força do grito.
Henrique entrou na sala, eufórico.
— Algum problema senhor?
Mas César não respondeu de imediato. Não conseguia encontrar palavras para o
que havia visto em suas meditações.
— O que houve? – insistiu o frade.
— Eu estava... meditando...
— Sim. E daí? Por que gritou? Viu algo ruim?
— Não sei o que vi.
— Como assim César? – o frade se ajoelhou de frente para ele - De que diabos
esta falando?
O bispo ficou mais um tempo tentando recuperar o fôlego. Até que finalmente
começou a falar:
— Há algum tempo eu tive uma espécie de pesadelo. – ele começou com a voz
fraca, fitando a lareira – Não dei muita importância a princípio, apesar de ter ficado um
tanto abalado. E foi então que o tive novamente na noite seguinte. E na noite seguinte e
na noite seguinte...
Henrique o olhava atentamente, esperando César concluir sua narrativa
— Comecei a ficar preocupado – continuou – então resolvi vagar pelos confins da
minha mente, a fim de encontrar e interpretar o que aquele sonho significava.

76
— E em que consistia o sonho?
— Não sei explicar ainda. Era um lugar estranho, que parecia o interior de uma
caverna. Todo o lugar era iluminado apenas por uma luz vermelha que eu não sabia de
onde vinha. Mas o que mais me incomodava eram os gritos. Eles exclamavam o
máximo de medo e desespero que uma pessoa poderia expressar.
“E eram vários. Homens, mulheres gritavam em desespero. Eu vagava pelas
grutas a fim de encontrar a fonte de tanto terror, mas não achava. E o sonho sempre
acabava com uma cena: No fim da gruta, eu encontrava um berço. Um berço negro e de
repente, todos os gritos se cessavam e só se podia escutar uma leve cantiga de ninar.
“Eu me aproximava do berço e era então que eu o via. Um bebê... não... me recuso
a pensar que aquilo era um bebê. Ele tinha a pele totalmente queimada, não havia
possibilidade de nenhum ser vivo sobreviver com tais queimaduras, mas ele sim.
Quando me aproximei do berço, ele começou a chorar. Um choro terrível que aos
poucos era substituído por uma risada. Era quando todo o sonho morria, mas antes uma
última cena se mostrava. O bebê se erguia e tentava me agarrar. Até aí nada demais só
que...”
— O que houve?
— Não tem como explicar – o bispo estava com a mão direita na cabeça
massageando a testa – é necessário que você veja.
Então, ele fez uma áurea prateada sair de sua testa e pousar na palma de sua mão.
Uma chama metálica dançava por cima de sua pele, até que, num movimento rápido, foi
disparada contra o fogo da lareira. A luz vermelha então, que iluminava a sala, passou a
ser substituída por uma tonalidade púrpura que preencheu todo o aposento. E dentro da
chama, uma imagem se formou.
Ângelo se aproxima da lareira tentando visualizar melhor o que era mostrado. E é
quando ele vê apenas a última cena do sonho de César: o bebê carbonizado saltando em
direção ao bispo. Seus olhos vermelhos eram bem vistos e seus dentes em forma de
presas tentavam morder o rosto do espectador. Apesar de a cena ser bastante bizarra,
esse não era o motivo do espanto do velho bispo e agora Ângelo e Henrique
compreendiam o motivo de tal sonho conseguir perturbar tanto o velho mago.
— Essa energia – comentou Henrique. – Nunca senti nada parecido. É nefasta e
ao mesmo tempo impressionante. Deve pertencer a um demônio... e um demônio bem
poderoso.

77
— Exatamente – concordou o bispo. – Com certeza não é humano.
— Mas não há a possibilidade de ser apenas um sonho?
— Você acredita nisso? – questionou o bispo, fitando-o com o olhar sério.
Henrique olhou envergonhado para o chão, mostrando que nem ele mesmo
acreditava em tal possibilidade.
— Não somos Sonhadores, mas não podemos ignorar que este pesadelo não tem
nada de normal. Primeiramente, pelo fato de estar sendo repetidas inúmeras vezes, e em
segundo por que nenhum sonho consegue emanar tal energia.
— O que o senhor pensa que se trata então?
— Eu não sei. – refletiu - Mas quero tentar descobrir – e girando a poltrona para
encarar Henrique de frente, ele pergunta – Frade. Você ainda possui inúmeros contados,
não é mesmo? Amigos espalhados por várias organizações.
— Sim Bispo. - ele parecia um tanto receoso.
— Possui alguém conhecido no grupo dos Sonhadores?
— Sim, mas...
— Traga-o até mim, rapidamente.
— Mas senhor...
— Rapidamente – ordenou o Bispo de forma enérgica. E a cena acabou e Ângelo
ia sendo lentamente levado até a próxima com a magia do Flashback.
Apesar de seu cansaço, ele não conseguia cancelar a magia. Já sabia o que o bispo
havia descoberto. Era claro que aquele sonho não fora comum, mas ele queria saber
mais. Seu corpo não parava de estremecer ao se lembrar da estranha energia que
emanava do pesadelo do bispo. Aquela energia. Era tudo o de mais poderoso e terrível
que ele sentira na vida.
Não era de se admirar que o bispo, um homem de um invejável controle
emocional, estremecesse ao pensar nele. O mais incrível é que tanto ele quanto
Henrique haviam sentido, de tão forte que era, mesmo que eles tenham presenciado
apenas uma demonstração feita pelo bispo. Ângelo estava exausto, mas ele queria mais
do que nunca continuar. Ele tinha de saber o significado daquele sonho.
O bispo tinha conseguido falar com um Sonhador?
A próxima cena o levava para a sala iluminada por uma intensa luz azul púrpura.
Ângelo notou que a lareira conservara as mesmas chamas que ele vira quando o bispo
demonstrou seu sonho para o frade.

78
Na sala, estavam o bispo sentado de frente para uma mulher que Ângelo tinha
certeza nunca ter visto na vida, pois era uma figura estranha demais para que se pudesse
esquecer. Era uma senhora que aparentava uns sessenta anos. A figura lembrava bem
uma pessoa rica, mas sem nenhum gosto estilístico, como as novas milionárias que
ganham uma fortuna na loteria e se enchem de jóias e outros produtos caros, apenas
para mostrar o novo status. As roupas que ela usava pareciam bem adaptadas a um
desfile de carnaval, mas não num encontro entre magos de alto escalão.
O manto colorido que usava era coberto por um xale roxo, todas na mais pura
seda. Ela tinha óculos lente fundo de garrafa com o arame de cor vermelho intenso. E no
corpo uma coleção de jóias dos mais diferentes tipos e estilos, que Ângelo não quis
perder tempo contando. A mulher misteriosa jogava cartas em cima da mesa de forma
furiosa. Seu rosto demonstrava bem um nervosismo e toda aquela tensão parecia se
refletir, tanto no bispo, que não tirava os olhos do baralho, como em Henrique, que se
conservava mudo encostado na parede próximo a lareira.
A mulher finalmente terminou de jogar o baralho e olhou mais uma vez para a
imagem na lareira, que Ângelo tinha reparado agora que ficava repetindo a cena final do
sonho do bispo. Depois, ela se voltou para o baralho com as mãos apertando a cabeça.
— Descobriu alguma coisa Cassandra? - perguntou o bispo tentando manter a
calma em meio à apreensão do ambiente.
— Só pode ser isso – respondeu a mulher, aparentemente falando sozinha e
ignorando a pergunta de César.
— O quê?
— Mas é terrível – continuou em seus pensamentos
— O quê? – insistiu o bispo.
— Mas...
— O que! – o grito do bispo fez Cassandra despertar de seu transe, parecendo
muito aborrecida por a terem privado de seu momento de reflexão.
Ela ficou ainda algum tempo atônita, com o olhar vazio. Só depois de um de
passados alguns segundos que pareceu se recuperar. O bispo massageava o pescoço.
Gritar era para ele um esforço sobre-humano.
— Bem, bispo – começou ela com calma - o senhor já teve alguma experiência
desse tipo antes?
— Nunca – respondeu com sinceridade

79
— E o que o senhor acha?
— Como assim?
— Bem, o que o senhor pensa a respeito disso que acabou de vivenciar. Acha que
está louco?
— Lógico que não – respondeu com ar ofendido
— Entendo. Apesar de muitos bruxos não aceitarem, os sonhos são de fato
manifestações da realidade. Com isso não estou dizendo previsões do futuro. - ela se
apreçou em afirmar ao ver o ar cético dos outros magos.
— Porque a senhora não nos explica o que esse sonho significa? –interrompeu
Henrique. O frade não parecia muito crente com relação à mulher.
— Porque, antes disso é necessário que vocês entendam como funciona a
experiência que César acabou de vivenciar – explicou Cassandra.
— Então prossiga Cassandra, por favor. - pediu o Bispo.
— Pois bem. - começou – Como todos aqueles que foram iniciados em magia
sabem, o mundo é composto por energias. Correto?
— Sim – respondeu o frade um tanto impaciente.
— Pois bem – continuou Cassandra sem dar atenção – essas, que são chamadas
por Aristóteles de Quintessência, fazem parte do universo, assim como o ar, a água, o
fogo e a terra, e elas tendem a entrar em freqüência a todo o momento.
— Acho que já aprendemos isso dona Cassandra – Disse Henrique carregado de
sarcasmo.
— Prossiga - pediu o bispo com muita calma. Ele parecia estar bastante
interessado.
Ângelo sabia que a Ordem dos Iluminados nunca fora muito crente na arte dos
Sonhadores em decifrar mensagens ocultas nos sonhos. Para eles, esse grupo não
passava de um bando de Charlatões. Mas naquele caso, o bispo estava dando toda a
atenção à mulher.
— Pois bem – continuou – Essas energias tendem a entrar em freqüência a todo o
momento, devido a qualquer ação humana. Assim sendo, um pisão pode liberar energias
que percorrem quilômetros pelo solo, um grito faz as moléculas de ar reagirem e até
mesmo um simples pensamento é capaz de fazer com que essas energias vibrem no
universo.
Ela fez uma pausa bebendo um gole d'água que tinha à sua frente.

80
— Pois bem – continuou – Quando excitadas, essas energias criam freqüências
que transitam na forma de ondas, que passam pela água, céu ou pela terra. Elas são, a
todo o momento, captadas pelos nossos sentidos. Como quando ouvimos um grito, ou
sentimos a terra vibrar, ou vemos alguma luz. Em todos esses momentos, são nossos
sentidos captando as energias que circulam pelo universo. Porém, geralmente só
percebemos aquilo que os nossos cinco sentidos captam e nos esquecemos de que há
outro sentido que também faz parte de cada ser: a intuição.
Ela fez mais uma pausa para assegurar-se que estava sendo compreendida.
— Esse sentido tende a ficar incubado na maioria dos seres humanos e
basicamente só se manifesta em casos extraordinários, como quando temos algum
pressentimento ruim. Um exemplo bem interessante é a intuição que se nasce da relação
entre uma mãe e seu filho. A mulher, quando mãe, é capaz de ter pressentimentos sobre
a sua cria e isso ocorre porque sua ligação com ela é muito forte. Laços que são criados
desde a estada do filho no útero materno.
Ela bebeu de mais um gole e continuou:
— Pois bem. Acontece que há outro momento em que podemos usar desse sexto
sentido: quando dormimos. A intuição é o sentido humano que está mais intimamente
ligado a essa vibração das energias no mundo, mas ela fica constantemente subjugada
pelos demais, que a impedem de agir. Quando dormimos, é o momento que a intuição
encontra para agir da melhor forma, pois é nesse instante em que o ser humano perde os
demais sentidos. Você não escuta nada, não sente nada, não vê nada. E é nessa hora que
a intuição consegue captar o maior número de informações a sua volta. E a sua
interpretação é feita através dos sonhos.
— Só que há um problema. – completou – Como eu já lhe disse, cada ação que
ocorre no mundo, assim como cada pensamento, faz essas energias vibrarem. Logo, da
pra imaginar o número de vibrações que ocorrem por dia no planeta? Esse excesso de
informações acaba que por gerar o efeito de interferência nas mensagens. Assim, nossa
interpretação sofre com esse tipo de interferência, gerando sonhos muitas vezes
confusos. Por isso, quase nenhum sonho é perfeitamente claro, mas todos têm uma
mensagem, pois todos são resultado da captação que a intuição faz das informações que
giram em todo o planeta.
O frade Henrique soltou mais um suspiro que não passou despercebido pela
mulher.

81
— Pelo visto não acredita em mim senhor Henrique. Então que tal me dar outra
explicação para a existência de sonhos?
O frade ficou em silêncio e baixou a cabeça.
— Assim é melhor. Mas então, de fato é como eu disse. Assim como quando
falamos a energia do som é emanada, cada ação nossa corresponde a uma propagação
de energia que transita pelo planeta.
— Eu entendo perfeitamente senhora – interrompeu o bispo – mas o que eu não
entendo é o que significa esse sonho que eu tive.
— E é por isso que eu estou aqui – explicou com muita dignidade – Os
Sonhadores se desenvolveram com base na interpretação de sonhos. Assim como uma
língua estrangeira, os sonhos também possuem códigos primários que nos ajudam a
identificá-los.
Ela deu um pigarro antes de prosseguir.
— Em algum lugar do planeta (e eu diria perto devido à intensidade dos seus
sonhos) há uma trama se desenrolando. Devido à freqüência de seu sonho e a força dele
eu diria que seu agente, além de estar próximo, está muito desejoso para concluir seus
intentos.
— Então aquele bebê seria realmente uma pessoa? – se interessou o bispo.
— Eu não diria uma pessoa e sim...
— Um demônio? – completou o bispo.
— Exatamente – afirmou Cassandra.
— Mas porque eu estou sonhando com ele?
— Não faço a menor idéia. – respondeu a mulher, achando graça da própria
resposta – Ninguém faz para se dizer a verdade. Não há um padrão para os sonhos.
Você pode estar sonhando com acontecimentos da vida de uma pessoa que você nem
faça idéia de que exista. Não temos como canalizar isso.
— E esse sonho. A senhora consegue interpretar?
— Creio que sim – disse a mulher com ar de triunfo. – De acordo com minha
experiência, aquele bebê é de fato um espírito. Ao julgar pela forma como aparece e a
energia que é emanada, ele pertence a um demônio, e um dos bem poderosos. A caverna
simboliza sua exclusão do mundo, mas como você disse, há uma entrada na caverna não
há?
— Sim – respondeu César - há uma entrada que foi por aonde eu cheguei.

82
— Exatamente. Isso significa que, assim como há uma forma de se entrar...
— É possível que ele saia? - completou o Bispo.
— Sim. O bebê simboliza a fragilidade desse demônio. Quer dizer que o nosso
amigo se encontra num momento de profunda vulnerabilidade. E é essa vulnerabilidade
que o impede de sair da caverna. Mas como mostra o momento em que ele se ergue para
atacar – ela fez um ar de mistério - ele esta prestes a sair da caverna.
Um silêncio se fez no local.
— Simplificando – continuou Cassandra – minha interpretação diz que há uma
força tentando voltar ao mundo. Talvez na forma de possessão ou de reencarnação, mas
ela quer voltar. Devido à força de seu sonho eu acredito que esse seja um fato iminente
e que por isso, não deve ser ignorado.
— Entendo – respondeu o bispo. – E eu não pretendo ignorá-lo.
— Excelente. Pois bem, receio ter de ir agora. Espero que me mantenha
informada sobre os demais acontecimentos.
— Sinto muito – respondeu o bispo.
— Imaginei que diria isso – disse a mulher com um ar divertido e saiu sem se
despedir. Quando ela chegou à porta, o Frade Henrique deu um suspiro de alivio e se
voltou para o Bispo.
— Francamente. Da pra acreditar nessa mulher? - falou - Não sei nem porque eu
guardo o telefone dela. Se dissesse outro “Pois Bem” eu acho que ia explodir.
Notando o silêncio do bispo, ele se senta na cadeira antes ocupada por Cassandra
e o encara.
— Bispo César. O senhor não está pretendendo escutar o que esta mulher tem a
dizer, está?
— Devo decepcioná-lo e dizer que sim - respondeu calmamente.
— Mas bispo...
— Meu caro Henrique. De fato os Sonhadores são uma organização de magos um
tanto excêntricos. Porém, o que esta mulher acabou de nos contar, não só é muito
conveniente com o que eu presenciei como também é uma coisa que eu mesmo
suspeitava.
— Eu não sei bispo. Acho que vai ser como procurar pelo Santo Graal ou o Anel
de Salomão.
— Concordo, entretanto, uma coisa que Cassandra me disse me deixou intrigado.

83
— O que?
— A sua explicação da origem dos sonhos.
— O que tem isso?
— Bem, se os sonhos são mesmo captações de fluxos de energia que transitam
pelo espaço e são captados pelos nossos sentidos, há uma probabilidade grande de que
se consiga rastreá-lo, não concorda?
— Sim, mas como? Não se há noticias de que se possam rastrear as origens dos
sonhos. Acho que se houvesse Cassandra teria comentado.
— Sim, concordo – ele estava pensativo. – Porém, não acho que este seja um
sonho comum. A energia emanada daquele bebê... – fez uma pausa, pensativo - é uma
coisa que desafia todas as lógicas e é essa energia que eu pretendo rastrear.
— Mas bispo. Não acha que isso é loucura? Se existe realmente esse espírito,
porque o senhor é o único a senti-lo?
— Não sei. Como Cassandra mesmo disse, não há como saber por que cada
pessoa tende a receber determinados tipos de mensagens em seus sonhos, mas eu
sempre acreditei em intervenção divina.
— Como assim bispo? – o frade estava intrigado.
— Ora. Esse sonho chegou em um grande momento – continuou tranqüilamente.
— Poderia me explicar? - mas a expressão de Henrique denunciava que ele
começava a entender o que se passava na cabeça do velho.
— Logicamente. Devido a meu estado de saúde, minhas funções para com a
organização estão muito reduzidas e minha utilidade quase inexistente. Esse é um
grande momento para fazer algo de grande para a organização. Um momento para
mostrar aqueles velhos da cúpula que o bispo César Amarante não é nenhum inútil.
— Mas o que o senhor está planejando?
— Na verdade, estou arquitetando ainda, jovem Henrique, – disse o bispo
enquanto fitava o fogo - mas vou precisar de sua ajuda nisso. Posso confiar em você?
O frade pensou um pouco, hesitando, antes de concordar.
— Sabia que podia contar contigo.
O bispo continuou fitando a lareira enquanto a imagem do bebê demoníaco
avançava repetidas vezes.
A cena foi-se evaporando. De certa forma, Ângelo já conhecia o motivo de todo
aquele suspense, mas ele ainda tinha curiosidade de saber como o contato com os

84
Inquisidores havia sido feito. Mas isso ele já não conseguiria mais. Se ficasse mais
tempo mantendo a magia, ele provavelmente retornaria para o tempo real desacordado.
Ângelo sabia que precisava voltar, porém, a curiosidade permitiu que ele desse
uma última espiada na próxima cena. Nela, a sala estava quase vazia, tendo apenas o
frade Henrique que se encontrava sentado rezando com um lenço nas mãos. Ao ver isso,
Ângelo blasfemou contra seu azar. Suas últimas energias lhe tinham lhe trazido para
uma cena tão inútil.
Porém, quando ele estava se preparando para cancelar a magia, alguma coisa
havia feito esse trabalho por ele e o garoto sente seu corpo ser arrastado com violência
de volta para o mundo real. Ao voltar ao tempo presente, Ângelo sentiu uma mão
apertando seu ombro com força e quando se virou para encarar quem o segurava, viu o
olhar severo do frade Henrique sobre si.

85
9 – Ponte.

No caminho de volta, Ana percebia que o amigo continuava a se manter vigilante.


Talvez, ainda acreditasse que a criatura de poucos minutos atrás retornaria para atacá-
los, mas essa era uma suspeita que a própria garota não levava fé, pois alguma coisa lhe
dizia que ela jamais voltaria.
O som do grito ainda ecoava em sua cabeça e ela fitava Ian pelo canto do olho
com receio de olhá-lo diretamente. O amigo parecia ter voltado ao normal: olhos
escuros, dentes e unhas nos tamanhos normais e sem emitir rosnados. Na verdade, ele
não emitia nenhum som desde que começaram o caminho de volta para a casa.
Tentando assimilar tudo o que tinha acontecido em tão pouco tempo, Ana também não
se preocupou em falar nada durante todo o trajeto. Quem era aquela criatura que, há
pouco, os interceptou no meio do caminho? E mais importante: o que era aquilo em que
Ian havia se transformado?
Ela não conseguia esquecer aqueles olhos. Eles lhe causaram tanto fascínio e
também tanto espanto. Não estava acostumada a sentir medo de Ian, mas naquele
momento esse foi um sentimento que não pôde evitar. Em todos esses anos juntos,
sempre considerou o amigo uma pessoa praticamente inofensiva, mas os
acontecimentos recentes começavam a mudar esse julgamento. Era como se não fosse
Ian quem estivesse ali, lhe protegendo da criatura, e sim outra coisa. Alguma coisa mais
selvagem, bestial, inumana. Ela se lembrava do rosnar que vinha do peito dele. Nem
mesmo os rosnares dos cachorros de Laila conseguiram provocar tamanho nervosismo
na garota.
Depois de anos de convivência com Ian, Ana acabava de descobrir que não sabia
nada sobre ele. Pelo menos nada do dono dos olhos azuis. Ela ficava olhando para o
amigo, esperando para ver se o garoto de olhos azuis voltava. Queria muito poder vê-lo
de novo, apesar de reconhecer que esse era mais um gesto de loucura do que coragem.
Mas uma força irresistível, talvez o ar de mistério, fazia com que ela não parasse de
pensar neles e na vontade louca de vê-los de novo.
Chegaram em casa sem trocar palavras. Lá, comeram o jantar, escovaram os
dentes e foram dormir. Pela primeira vez, desde que chegou, Ian se reuniu aos demais
moradores para dormir no quarto comunitário. Ele se deitou ao lado de Ana e foi então

86
que ela decidiu que finalmente era hora de puxar assunto. Não agüentava mais aquele
silêncio.
Virando-se para ficar de frente para ele, procurou falar muito baixo para que seus
vizinhos não ouvissem a conversa.
— Ian? – chamou.
O garoto já estava com os olhos fechados quando foi chamado, mas os abriu ao
ouvir seu nome.
— Eu sei – ele se apressou em responder. Seus olhos não a encaravam e se
mantinham fixos no teto enquanto falava – Acho te devo algumas explicações.
— Acho que sim – disse tentando sorrir, mas seus lábios tremiam.
O garoto sorriu em resposta e Ana sentiu um alívio em seu peito. Por algum
motivo aquele gesto a havia acalmado e ela não sentiu mais receio dele. Na verdade, ela
começou a se achar um tanto idiota por sentir medo. Mas não podia se culpar. Não
depois do que viu.
— Eu posso te pedir um favor? - ele se virou pra ela. Agora estavam deitados um
de frente para o outro.
— Claro – falou sem pensar muito.
— Isso pode esperar até amanhã? - pediu - Eu gostaria de resolver umas coisas
antes.
A verdade é que Ana não queria esperar. Achava que já tinha esperado demais por
respostas. Havia muitas perguntas dentro dela que clamavam por explicações, mas
consentiu no fim. Ao ouvir isso, o amigo pareceu relaxar e seus olhos foram se
fechando até a cor preta deles desaparecer. Depois de fechados, ele adormeceu. Foi tão
rápido que Ana ficou impressionada. Parecia que o peso de dias sem sono caiu, enfim,
sobre ele.
Há quanto tempo estaria sem dormir, e por quê?
A resposta parecia óbvia demais. A pergunta certa seria: há quanto tempo ele
havia percebido aquela criatura e há quanto tempo a esperava? Ela se lembrava do
amigo vigilante na janela da casa. E principalmente, se lembrou da noite do primeiro
beijo e como ele estava inquieto, encarando o nada. Como se esperando algo cair em
cima deles a qualquer momento.

87
Ana se virou de costas para ele e tentou dormir, mas não foi fácil. Ela não
conseguia parar de se concentrar na respiração do garoto atrás dela. Talvez esperasse
ouvir um rosnado a qualquer momento, mas esse medo, ou esperança, era bobo.
Era tanta coisa passando pela sua cabeça ao mesmo tempo. Tantas dúvidas e tão
poucas respostas. E foi enquanto pensava numa explicação para tudo o que havia
acontecido que fez um movimento quase que mecânico, levando sua mão até o cordão
em seu pescoço. Ali, sentiu o metal frio do pingente entre seus dedos e uma tentação de
abrir aquele amuleto lhe acometeu. Faziam-se muitos anos desde a última vez que se
atreveu a olhá-lo por dentro. Mas a tentação agora era irresistível.
Quando destravou o feixe do pingente oval, pôde ver as duas fotos que ele
guardava: uma de Teresa e outra de Samanta. Ambas as mulheres sorriram pra ela.
Estava escuro no quarto, mas a luz da lua que entrava por uma pequena fresta da janela
já iluminava o suficiente para que Ana pudesse reconhecer os traços de seus entes
queridos
Teresa, baixa e um pouco rechonchuda, com seus cabelos revoltosos e volumosos
na cor castanha e seu sorriso infantil. Teresa sempre carregou consigo um ar divertido
que a deixava mais jovem e fazia Ana rir. Ao ver a foto da tia sorrindo, ela não
conseguiu segurar a vontade de sorrir em retribuição. Não sabia como tinha sobrevivido
tanto tempo sem olhar aquelas imagens.
Samanta era o oposto. Alta e muito magra, tinha feições mais sérias, o que fazia
muita gente julgar se tratar de uma pessoa severa. Mas essas pessoas, quando tinham a
chance de conviver com ela, como Ana convivera, logo percebiam que era um amor de
pessoa. Assim como Teresa, Samanta, também parecia gostar do visual ao natural, com
o rosto ausente de maquiagem e com os cabelos um tanto bagunçados na mesma cor da
irmã, só que mais curtos, chegando à altura do queixo apenas.
Na verdade, aqueles cabelos rebeldes a lembravam de mais alguém. Ela arriscou
uma olhada rápida para trás e todos os presentes pareciam estar dormindo
profundamente. E foi então que, puxando a foto de Teresa, um pequeno pedaço de pano
caiu sobre o colchonete ao qual estava deitada. Esse pedaço de pano tinha muito
significado para Ana. Nos primeiros momentos, ele era uma ponte entre a garota e seu
passado, com suas histórias fantásticas em volta da fogueira. Porém, nos últimos anos,
tem sido encarado como algo que Ana lutava para esquecer.

88
Havia crescido e isso exigia dela a renúncia das crenças da infância. Infelizmente,
ela havia aprendido isso da pior maneira possível, o que garantiu que tal lição nunca
mais fosse esquecida. Na verdade, esse fora o motivo pelo qual nunca mais abriu aquele
pingente. Tinha medo de encontrar esse pedaço de tecido e de que todas essas
lembranças que tanto lutava para esquecer voltassem com força total. Como estava
acontecendo naquele momento.
Mas os últimos acontecimentos a obrigavam a isso. Passando o dedo por dentro
do pano, ela o desdobrou e uma imagem de uma cabeça de lobo surgiu.
Garow.
E foi como se anos de histórias voltassem em sua cabeça em uma fração de
segundo. De fato, parecia que elas estavam sempre ali, a espreita, apenas esperando o
momento certo para voltar. As características daquele que foi seu clã favorito na
infância, surgiram com tudo e ela não pôde evitar compará-las com o atual momento:
Natureza bestial – o som dos rosnados se faziam ouvir em sua cabeça.
Mãos em formas de garras – lembrou-se das mãos de Ian quando ele tentava
protegê-la da criatura.
Caninos avantajados – ela pôde ver as presas que ficava a vista cada vez que ele
rosnava
Empatia com os lobos - a forma como os cachorros se tornavam dóceis perto dele.
Controle climático – o frio que sentiu quando correu atrás dele no meio da mata e
a neblina que a cercou.
Olhos azuis.
Ana nunca mais permitiu lembrar-se dessas histórias e já as julgava esquecidas,
mas parece que a ponte com seu passado havia sido reconstruída naquela noite. Mas foi
então que a racionalidade lhe cobrou um pouco de ceticismo e a garota soltou um riso
fraco, colocando o símbolo de volta no pequeno no pingente, lacrando-o.
Não podia se deixar viajar tanto.
Deve haver outra explicação, pensou, sem muita certeza nisso. Enfim, sabendo
que não conseguiria dormir facilmente, ela se permitiu virar para encarar Ian. Ele
continuava adormecido. Sua respiração pesada era facilmente ouvida.
Naquela noite, apesar do frio, eles haviam ligado o ar-condicionado do quarto
alegando que o som do aparelho ajudava a adormecer. Tal escolha acabara tornando o
ambiente do lugar quase insuportável de tanto frio. Mesmo coberta, a garota ainda não

89
se encontrava plenamente confortável e foi então que se aproximou mais de Ian, atraída
pelo calor que emanava de seu corpo.
Ali, parada ao seu lado, uma nova curiosidade se apossou dela e antes mesmo que
ela pudesse pesar os riscos de sua ação, passou a mão em seu rosto fazendo-o
estremecer, sem despertar. Com um pouco mais de coragem, ela passou o dedo pelos
seus lábios levantando o superior com o polegar, a fim de ver seus dentes. Dentes
brancos e bem alinhados. Nenhum canino avantajado.
Mais uma respiração profunda saiu do peito de Ian exalando o cheiro de menta no
rosto de Ana. Tirando as mãos de seu rosto, ela se ajeitou, encurtando ainda mais a
distância entre eles e permaneceu ali um tempo, aproveitando do conforto do lugar
acalentado em que se alojara. Agora, olhando para o rosto em paz do garoto um novo
desejo lhe atacou. Esse, mais forte e impensado que o anterior, só foi percebido por Ana
quando já era tarde demais, quando seus lábios já haviam se tocado. Ela não sabe de
onde houve aquele impulso, mas acabou lhe roubando um beijo.
Por que fiz isso? Sentiu uma imensa vergonha.
E nesse instante Ian fez um movimento que fez o rosto de Ana corar, imaginando
que ele havia despertado. Mas aquele havia sido um alarme falso e ele só fez foi passar
o braço por cima dela, com quem agarra um travesseiro na hora de dormir. Ela
permaneceu imóvel ao seu lado, como um animal de pelúcia até confirmar que ele
estava de fato adormecido.
Uma das mãos de Ian estava agora muito próxima de seu rosto e ela pode ver suas
unhas bem curtas. Era difícil crer que há poucas horas atrás estas mãos tinham garras.
Definitivamente ela não sentia mais medo. Ao contrário, estava fascinada demais.
Começou a fantasiar, pensando em o que aconteceria se ele abrisse os olhos naquele
momento e ela pudesse ver que estavam novamente azuis. Sentiria medo?
Dificilmente.
Provavelmente ficaria parada, fitando-os como antes. Como quando estava sendo
ameaçada pela criatura a sua volta, mas sua atenção não conseguia sair deles. Como se
nada estivesse acontecendo. Como se sua vida não estivesse em risco. Estranho, mas
apesar de tudo, nunca se sentiu tão segura e mais uma vez ficou com vergonha do medo
que se apoderou dela há pouco. Sabia que o amigo jamais lhe faria mal. Como pôde
pensar o contrário?

90
Foi então que lhe veio outra dúvida ao se lembrar de quando ele fugiu dela, na
beira da piscina. Porque tinha feito aquilo? Ele parecia assustado, mas com o que? Era
como se Ian estivesse fugindo de alguém, mas dela? Não! Dele mesmo? Ian estaria com
medo dele mesmo? Mas por quê?
Resolveu ignorar. Sentiu que não chegaria a uma resposta no estado em que
estava e foi quando, ao soltar um bocejo involuntário, percebeu começar a ficar com
sono. Agora, se ajeitando de forma que seus corpos estivessem bem colados, ela se
aninhou sentindo o garoto a abraçar com mais força.
Enquanto caía no sono, ela ainda se questionava de muitas coisas, mas agora
aquilo poderia esperar. Ian havia lhe prometido respostas amanhã e essa era uma dívida
que Ana não se esqueceria de cobrar. No momento, porém, queria apenas aproveitar o
aconchego nos braços do amigo. Foi quando adormeceu.

91
10 – O prodígio.

A mão pesada do frade Henrique que esmagava seu ombro arrancou Ângelo de
seu transe e o colocou de volta a dura realidade aonde, ao olhar para o rosto de seu
superior, sabia que estava encrencado.
— Sinceramente não fazia idéia de que você era capaz de invocar tal mágica –
começou o frade, mas apesar do elogio, Ângelo sentia a ira em sua voz – estou
realmente impressionado. Pena que minha irritação é maior, se não lhe daria os
parabéns.
— Frade, eu...
— Não me interrompa! – cortou o frade com severidade enquanto fazia Ângelo se
levantar. - Pelo visto o que tem de talentoso, como o bispo diz, tem de arrogante. Aqui
na Ordem dos Iluminados não toleramos indisciplina garoto. E você sabe disso.
— Sei sim senhor, mas...
— Silêncio! Mas será que você não consegue nem cumprir uma simples ordem?
Agora Ângelo ficou em silêncio.
— O que você viu? - perguntou, finalmente o convidando a falar.
— Já sei de tudo – respondeu o garoto com firmeza – do demônio, da visita da
Sonhadora. Só não sei como anda a negociação com os Inquisidores.
— Apenas isso? - Perguntou com sarcasmo.
— Sim.
Ângelo viu que as feições do frade pareciam mais aliviadas agora. Então, tinha
muito mais coisa das quais ele não sabia.
- Sinto muito, - falou o Frade e apesar da calma que agora reassumira, Ângelo
sentiu uma ameaça naquilo - mas eu tenho ordens diretas do bispo para não permitir que
mais ninguém da Ordem tenha informações do que está sendo desenvolvido aqui dentro,
e creio que nem mesmo o aluno número um dele tem tal direito – E enquanto falava
isso, enfiou a mão por dentro das vestes e pegou o crucifixo de prata no tamanho de
uma mão humana.
Ao ver aquela arma nas mãos do frade, o garoto se exaltou:
— O que você quer... - mas Ângelo não conseguiu completar a frase.
Logo, ele sentiu o corpo ser atingindo por um impulso invisível que o levou de
encontro à parede no estremo da sala. Com o estalar das costelas, sentiu seu corpo ser

92
fixado contra o muro, mantendo-o ali, imobilizado. Com o impacto, Ângelo soltou todo
o ar que tinha nos pulmões junto com um gemido de dor.
— O que você está fazendo? – gritou ao se recuperar do susto.
— Bem, como você absorveu essas informações recentemente eu creio poder
extraí-las de sua cabeça sem causar-lhe danos. - disse o frade em tom metódico. –
Agora, fique parado. E espero que isso lhe sirva de lição.
— Você não tem o direito! – berrou o jovem.
— Você tem sorte eu lhe prezar muito garoto. Outros membros seriam
excomungados da ordem por desobediência menor.
— Me larga! – o garoto se debatia, mas o impulso que o mantinha era forte
demais.
— Fique calmo – disse o frade com tranqüilidade enquanto aproximava o
crucifixo da testa de Ângelo.
— Me larga! – e com esse último grito houve um novo impulso que, desta vez, fez
o frade ir para trás.
Henrique cambaleou, mas conseguiu se manter de pé. Mesmo com o susto, ele
tentou erguer a cruz novamente para o garoto, mas foi novamente repelido quando
Ângelo juntou as duas mãos pelas palmas como se estivesse se preparando para rezar.
Ao unir os membros, um novo impulso, esse mais visível, se assemelhando a uma bolha
de luz prateada, atingiu o corpo do frade empurrando-o com força contra a parede
oposta.
Desta vez o frade não foi capaz de se segurar, sentindo uma dor nos ossos
atingidos. Mas, recuperando-se rapidamente, ele invocou de volta à sua mão o crucifixo
que havia caído com o impacto e se posicionou para enfrentar o garoto. Ângelo agora
estava envolto em uma barreira translúcida que emanava poderosa energia.
O frade ficou sem palavras com a cena. Não esperava que Ângelo tivesse tamanha
habilidade, sendo tão jovem. Conseguir repelir seu impulso tele cinético era uma coisa
muito complicada e que exigia energia física e espiritual acima das de um garoto de
dezessete anos com apenas cinco de casa.
Ângelo ergueu o próprio crucifixo para seu adversário e o frade se posicionou. E
foi quando uma nova bolha surgiu no meio dos dois, fazendo-os irem de encontro às
paredes. E desta vez com uma força dez vezes superior as anteriores. Meio tontos, os

93
dois tentavam se levantar quando viram suas armas, que foram ao chão com o impacto,
rumarem calmamente até a porta da sala e voarem, pousando nas mãos do bispo César.
— Sinceramente não sei com quem estou mais indignado, – falou o bispo com
muita calma apesar da expressão severa – se com meu melhor aluno por estar num local
que não deveria ou se com meu assessor por estar lutando contra um dos meus alunos. -
ele fez uma pausa analisando as expressões dos membros da sala antes de ordenar: -
Expliquem-se!
Ambos os envolvidos começaram a narrar o acontecimento em voz alta e de forma
muito rápida. Não se podia entender nada do que se dizia no ambiente e rapidamente a
paciência do bispo foi-se dissipando.
— Silêncio! – Gritou, levando a mãos à garganta doente – Henrique. - pediu em
tom mais moderado.
— Senhor. Eu o peguei bisbilhotando em assuntos que o senhor mesmo o mandou
manter-se afastado. - e ofegante completou - Ele usou a mágica do Flashback para
invadir sua privacidade.
— Flashback! – disse admirado, olhando para Ângelo – não sabia que você já era
capaz de usá-la – o velho tentava manter o ar severo, mesmo feliz com a notícia –
Então? Explique-se você agora.
— O que o frade diz é verdade. - confessou - Eu não agüentava mais ficar
excluído das coisas que estavam acontecendo aqui... – e praguejou, o que o fez merecer
um olhar de represália – Perdão, mas eu não posso simplesmente ficar de braços
cruzados quando algo grande está acontecendo na igreja em que freqüento. - se
justificou.
— Tudo bem, tudo bem – interrompeu o bispo – e vocês estavam duelando por
quê?
— Foi ele quem me atacou bispo - denunciou o frade. Ângelo não podia acreditar
que havia certo temor na voz dele – eu estava tentando apagar as informações que ele
havia descoberto.
Ângelo se sentia ridículo naquela cena. Os dois pareciam crianças acusando o
amigo do colégio para a professora. A única coisa que o fazia se perdoar era o fato de
que estavam sendo interrogados pelo bispo César. Um homem que tinha a habilidade de
impor medo em quem o conhecia.
— Ele tentava me fazer lavagem cerebral, bispo. - acusou o garoto.

94
— Silêncio! – ordenou o bispo com a voz mais fraca devido à dor – Francamente,
odeio servir de mediador dessa discussão infantil. Não esperava tal atitude de membros
da Ordem dos Iluminados. - e olhava os rostos dos presentes, esperando o efeito de suas
palavras. Ambos abaixaram as cabeças. - Estou decepcionado. - continuou calmamente -
Agora eu quero conversar com Ângelo em particular frade.
Apesar da surpresa, Henrique reprimiu o impulso e saiu da sala, sem questionar.
Dava para perceber a raiva que o frade estava sentindo. Ângelo não sabia qual era o
motivo real. Se ele estava se sentindo preterido, ou podia ser a bronca que levou, ou
pelo fato de ter enfrentado Ângelo de igual para igual. Com certeza, um homem com a
experiência do frade esperava que fosse mais fácil apagar as memórias de um mero
aluno.

*
Quando o frade saiu da sala, César fechou a saída por trás dele e depois se virou,
convidando Ângelo a se sentar. O jovem obedeceu, se acomodando de frente para seu
mestre enquanto tentava não olhar para baixo e encará-lo com coragem, mas era difícil
fitar aquele olhar enérgico por muito tempo sem fraquejar. O bispo ficou em silêncio
fitando seu aluno, enquanto mexia nos crucifixos tomados dos dois magos.
— Então, – começou – você já sabe de tudo?
— Quase. – se limitou a responder olhando para o chão.
— Mesmo quando eu lhe pedi para não se meter. – continuou.
— Perdão – pediu, tentando compreender o tom do bispo. Seria decepção o que
ele tentava passar?
— Mas eu não podia ficar de braços cruzados num assunto de tamanha
importância. - continuou - Perdão mestre, mas o que o senhor está fazendo coloca em
risco toda a ordem. - e fechou os olhos esperando a repreensão por sua insolência.
— E é exatamente por isso que não queria envolver ninguém mais.
— Mas...
— Ângelo – interrompeu o bispo – eu sei que é difícil para qualquer um conter
sua curiosidade. Mas aqui temos regras e respeitar seus superiores é uma delas.
— Então o senhor mesmo não estará seguindo essas regras – respondeu o garoto
levantando a cabeça para olhar seu mestre, só para logo depois baixá-la novamente,
amaldiçoando sua impertinência.

95
Porém, para a surpresa de Ângelo, o bispo deu uma boa risada.
— Bem colocado. – disse com ar divertido – Realmente estou fazendo coisas aqui
nesta Igreja que em muito contrariam a cúpula. Não posso falar muito de você. -
admitiu - Há não ser dizer que eu já sou adulto e um membro de respeito na ordem
enquanto você, por mais talentoso que seja, é apenas um aluno e que por isso deve
respeito ao seu mestre.
— Perdão.
— Tudo bem. – continuou em tom amável - Na verdade eu já suspeitava que isso
fosse acontecer. Eu lhe treinei por pelo menos cinco anos e o conheço bem. Sei que não
deixaria isso passar em branco. Só não suspeitei dos métodos que você usaria para
conseguir tais informações. Métodos, digo eu, que me deixam ao mesmo tempo
decepcionado e maravilhado. – e fez um gesto para calar Ângelo quando ele pensou em
abrir a boca – Não me interrompa. – e continuou – A cada dia que passa estou mais
orgulhoso de você. Suas habilidades mágicas estão num nível muito acima da média. A
prova disso é que você foi capaz de usar da magia do Flashback em apenas dois meses
de treino e que suas habilidades de combate já são capazes de rivalizar com as do
próprio frade Henrique. Porém – continuou, mudando o tom de voz para acusação -
estou decepcionado que você tenha usado essas habilidades para atacar um membro da
sua própria ordem e para invadir minha privacidade.
— Perdão – voltou a dizer o garoto envergonhado, não sabia que outra palavra
usar – mas eu tive de me defender do frade. Ele ia fazer...
— Eu sei muito bem o que ele ia fazer – interrompeu mais uma vez o bispo –
Apagar a mente de pessoas que sabem de coisas proibidas é uma pratica comum na
nossa organização desde tempos remotos. E nem mesmo nossos membros estão livres
de tal punição – e completou – E em minha opinião, a atitude do frade foi até então leve.
Pois em outros casos sua invasão resultaria na sua expulsão da ordem.
Ele não tinha como responder a isso. Ângelo sabia muito bem o quão severa era a
Ordem dos Iluminados quando se diz respeito a regras e hierarquia. Pensando bem, a
atitude de Henrique foi realmente branda.
— Reconheço meu erro – admitiu por fim - e mais uma vez peço desculpas.
— Eu sei como você está se sentindo Ângelo. Sei que é um excelente mago e você
também pensa assim. Talvez por isso acredite que o tratemos ainda como se fosse um
mero aluno. Mas acredite: Você é um mero aluno. Por mais talentoso que seja, ainda

96
deve obediência e tem muito que aprender. - ele fez uma pausa – Apesar de você ser um
prodígio, Ângelo, esse assunto de que estamos tratando é um pouco demais para você.
— Um prodígio? – se surpreendeu o garoto.
— Sim. Vai me dizer que você nunca notou? - falou o velho mago - Você aprende
as lições dez vezes mais rápido que qualquer outro. Sua energia mágica cresce a cada
momento. Isso o classifica como um mago Prodígio. Você tem potencial para me
ultrapassar e é por este potencial que eu quero te manter afastado. Quero que você viva
para atingir esse meu sonho.
O bispo sorriu para seu discípulo e ele retribuiu encabulado.
Fez-se então um minuto de silêncio enquanto o bispo se servia de uma jarra de
água que estava numa estante próxima. Após ingerir o seu habitual remédio e se sentar
novamente, ele continuou:
— Eu já sou bem grandinho para saber que me meter com os Inquisidores é um
trabalho perigoso. E é por isso que eu não lhe quero envolvido. Pois se algo acontecer
de errado, eu quero você bem para continuar minha obra e me superar. – e deu uma
pausa encarando a lareira por um tempo. Nesse período, Ângelo se manteve mudo como
antes, até que o bispo o encarou novamente – Me diga Ângelo, o que você viu enquanto
meditava? O que descobriu?
— Sei de seus sonhos e da visita de Cassandra – contou o garoto sem olhar nos
olhos do mestre – acabei aí – Não queria comentar sobre a visita do membro da cúpula.
— Mas já viu o suficiente – calculou, e com um suspiro cansado, olhou o seu
aluno mais uma vez, dizendo: – Pelo que penso, mesmo após essa bronca, você não vai
desistir de se manter envolvido, não é mesmo?
Ângelo nada respondeu, ainda encarando os próprios pés.
— Então eu tenho duas alternativas – refletiu – Apagar sua mente e expulsá-lo da
ordem – o corpo de Ângelo estremeceu com a idéia – ou... – o bispo parou um pouco
deixando o peso de suas palavras atingirem seu aluno – poderia lhe por a par da situação
e lhe dar uma participação modesta que garantisse você sob meu controle.
O rosto de Ângelo se iluminou e ele finalmente conseguiu olhar para o rosto de
César e viu que o mestre sorria ao ver seu ânimo. Era a mesma expressão de um pai que
acabava de presentear seu filho. O garoto queria falar, mas sua voz não saiu tamanha era
sua alegria.

97
— Mas lhe digo já. - advertiu – Sua participação nisso tudo será pequena. Como
já lhe disse, não quero você correndo perigo.
— Obrigado. - conseguiu dizer.
— Não agradeça. Encare como um novo estágio de seu treinamento.
— Então... Vai me contar tudo.
— Sim, mas não hoje. Já é muito tarde e eu preciso acordar muito cedo amanhã.
Venha aqui às cinco da tarde de amanhã e eu lhe contarei tudo sobre o andamento do
nosso plano.
Desta vez, Ângelo não estava disposto a desobedecer.
— Certo – concordou.
— Então vá e mande o Frade entrar. Quero falar com ele.
— Sim senhor- e saiu
Antes de chegar à passagem, porém, ele se virou de volta para o mestre.
— Senhor?
— Sim Ângelo.
— Porque nunca disse antes que me considerava um prodígio?
— Francamente garoto! Você já é bastante arrogante sem precisar de incentivos –
e sorriu para o aluno.
Ângelo sorriu em resposta e saiu. Ao chegar ao altar da igreja, notou o frade
sentado recitando uma oração. Ele tinha um lenço branco entre as mãos enquanto
recitava os versos. O garoto não reconheceu a oração, mas achou-a bonita.
— Que o senhor seja teu guia e te controles para que evites o caminho das trevas...
– Então, surpreso ao ver o garoto chegando, Henrique parou. Ângelo se questionou se a
maior surpresa do frade era pelo fato dele não tê-lo percebido se aproximar ou se por
ver o garoto inteiro e feliz depois de conversar com César.
O homem recobrou a compostura se colocando de pé de frente a Ângelo e ele
transmitiu o recado do bispo. Ao terminar de falar, Ângelo continuou seu caminho até a
porta da saída sentindo o olhar do frade o acompanhando cada passo. E se lembrou das
palavras do bispo:
Suas habilidades de combate já são capazes de rivalizar com as do próprio frade
Henrique.
Ângelo via que Henrique estava um tanto decepcionado com o que via.
Provavelmente esperava que o garoto fosse duramente castigado pelo bispo, mas não foi

98
esse o caso. E não conseguiu evitar que um leve sorriso de deboche se formasse em seus
lábios. O bispo tinha certa razão: ele era sim arrogante.
Fazer o que? Sou assim.
Estava feliz pelo fato de estar de costas para Henrique e assim, este não poder ver
seu rosto. O garoto estava bem mais leve naquele momento e saía da igreja com um ar
de vitória. Mas foi quando algo inesperado ocasionou um estalo na cabeça. Era uma
sensação muito estranha a que sentia naquele momento, assim que atravessou a entrada
da igreja e saíra para as frias ruas do Centro. Era uma sensação de urgência que lhe
tocava o peito. Uma espécie de aviso, como se estivesse deixando algo importante
passar, mas não fazia a menor idéia do que poderia ser. Voltou a olhar à Igreja à suas
costas a procura de respostas para sua angustia, mas não lhe veio nada.
E assim como veio, logo a sensação se foi e ele estava mais aliviado. Estranho.
Refletiu. Nunca tinha passado por isso. Decidiu ignorar o aperto no coração e voltar
para casa. Tinha coisas mais importantes com as quais se preocupar. Como, como
ajudar o bispo, por exemplo. E foi então que começou a experimentar a adrenalina que a
ocasião exigia. Aquela era de fato, uma ótima oportunidade para testar suas habilidades.

99
11 – Vencendo o ceticismo

Foi então que a noite deixou o sitio de Mônica e um novo dia raiou mais
ensolarado que nunca, embora continuasse frio. Ana acordou e viu que ainda dormia ao
lado de Ian, que se mantinha num sono profundo. A vontade que ela tinha era de acordá-
lo naquele momento e pedir as explicações que ele lhe prometeu, mas conseguiu se
controlar. Ficou olhando-o dormir mais um pouco, antes de se levantar com calma e sair
do quarto.
Ao chegar à varanda, onde ficava a mesa do café, viu que todos já estavam
acordados e desta vez Ana não se importou com o fato de todos os olhares voltarem
para ela. Já estava se acostumando a ser a ultima a se sentar para o café. Dona Mônica
servia torradas quentes para os demais hóspedes e ao vê-la, convidou a se sentar.
— Ana! Finalmente. Sente-se e coma, pois vamos embora cedo hoje. – e lhe
serviu uma torrada que Ana pegou com um pouco de suco de laranja. – Agora falta
apenas aquele menino o... qual é mesmo o nome?
— Ian – respondeu Laila – Ele ainda está dormindo? – perguntou olhando para
Ana.
A garota sentiu as bochechas corarem e respondeu com um manejo de cabeça.
— Acho melhor chamá-lo para o café. Não é, Ana?
A garota ia se prontificar a levantar, mas Mônica a interrompeu:
— Melhor não. Deixe-o dormir um pouco. Ele parece que passou todas as outras
noites em claro aqui.
Ao ouvir isso, Laila lançou um olhar travesso á amiga e Ana sentiu suas
bochechas corarem ainda mais quando viu que aquele olhar era compartilhado por mais
pessoas, incluindo Mônica. Alguns ainda davam umas risadinhas e a garota tinha
vontade de se afogar em seu copo de suco e sumir.
— Ele com certeza deve estar muito cansado - comentou Laila rindo com
Fernanda.

*
Até que chegou à hora de se despedir do sitio e certo pesar acometeu todos os
jovens enquanto foram se ajeitando no carro.
— Vou sentir falta daqui – comentou Rodrigo.

100
— Vamos poder voltar mais vazes – disse Laila que o abraçava por trás – Talvez
com menos gente.
— Gostei da idéia – respondeu e eles se beijaram, mas Ana duvidou que ele
tivesse entendido o que Laila queria realmente dizer.
Na volta, os lugares seriam os mesmo, afinal, os casais já estavam formados e Ana
não pretendia ficar de acompanhante. Ela e Ian sentaram-se no último banco, como
antes. No começo da viajem, ficaram calados. Cada um olhando para uma janela e
admirando a paisagem. Em alguns momentos, Ana o fitava pelo canto do olho e pôde
então perceber que a expressão do garoto havia mudado para melhor. Suas olheiras
haviam sumido e ele tinha um ar bem mais saudável.
Ana pensou em quebrar o gelo, puxando assunto, mas Ian foi mais rápido.
— Você está bem? – perguntou.
— Ah? – a garota foi pega de surpresa. - Como assim?
— Você sabe. Por ontem.
— Sim. Sim não fiquei com nenhum machucado.
— Seu físico eu sei que está bem. Eu me refiro a seu psicológico.
— Acho que sim – disse, mas com uma voz menos confiante.
— Posso lhe perguntar o que você viu? – interrogou – Quero dizer, o que você
interpretou de ontem?
— Bem – começou coçando a cabeça – nem eu sei direito. Por isso eu gostaria
que você me explicasse – disse segurando o colar das suas tias nas mãos.
— Nem um chute? – porém, era como se ele estivesse falando sozinho agora. A
mente de Ana já estava a muito distante dali em termos de tempo e espaço. Regressando
em cinco anos, em Três Corações. E as palavras de Teresa e Samantha eram bem vivas
para a garota naquele momento.
Unhas em forma de garra
Presas
Intensos olhos azuis.
— Ana? - o garoto a chamou, mas ela ficou muda.
— Ana? - Ian a fitava, esperando a sua resposta.
— Nada – ela respondeu, fitando o horizonte.
— Como?

101
— Eu não consegui deduzir nada. Não é fácil, sabia? Foi muito estranho o que
aconteceu.
— Entendo – mas Ian parecia decepcionado e voltou-se a contemplar sua janela.
Depois de uns minutos de silêncio, ele se voltou para a garota.
— Então, o que você quer que eu lhe explique?
— Como assim? – riu-se – A verdade, lógico.
— A verdade verdadeira ou uma que você possa acreditar.
— Lógico que a verdadeira. Porque a pergunta?
— Porque eu sinto que você já a sabe, mas tem medo de arriscar um palpite.
Ana sentiu seus músculos se contraírem. Pensou em falar da idéia absurda que
passava por sua cabeça, mas as palavras não conseguiam se formar. Várias lembranças
vieram à tona. Um passado triste onde envolviam consultórios médicos, tratamentos
complicados e remédios que tiravam suas energias. Um passado que tinha crianças
zombando dela, fazendo sinais obscenos e a acusando de louca.
Um passado onde havia uma velha senhora, se debatendo, sendo levada por dois
homens de branco. Essa foi à última cena que Ana tinha de sua avó, que enlouqueceu
depois daquele dia. Ana nunca mais conseguiu voltar a Três Corações depois disso.
Sabia que sua avó havia voltado para casa, mas que as marcas do trágico... acidente que
matou suas filhas, ainda permaneciam.
— Eu não sei de nada – falou fitando sua janela. Não conseguia encarar o amigo.
— Ana, o que fizeram com você?
Mais uma vez ela foi pega de surpresa por essa pergunta e sentiu seu peito
estremecer. Ficou em silêncio.
— Eu gostaria de saber exatamente o que aconteceu para você ter mudado tanto.
Onde está aquela garota de mente aberta de tempos atrás? Aquela que me contava
histórias e era capaz de sonhar?
E mais uma vez a mente da garota viajou

— Então Ana? Como se sente hoje?


Ana agora não estava mais no carro indo para casa e sim num consultório. Ela era
uma menina de novo e estava emburrada olhando para os próprios sapatos, que ela
balançava sem conseguir alcançar o chão. Ana tinha doze anos na época e sua psicóloga

102
estava em sua décima consulta. Um tratamento que ela iniciou depois da tragédia em
Três Corações.
— Ana? – chamou a doutora.
— Não quero falar – embirrou a garota. – Você não acredita em mim.
— Ana – doutora tinha a voz amável – querida. Não é que eu não acredite em
você. Sei que no fundo você realmente acredita nisso, só que não é mais saudável para
você crer nessas coisas.
— Mas foi o que aconteceu - disse a garota elevando a voz e socando a poltrona
onde estava.
— Você já tem doze anos. Já é uma mocinha.
Ana cruzou os braços, impaciente.
— Eu entendo bem o que você está passando. – continuou a doutora - Você pode
achar que não, mas entendo. Sei que a morte de suas tias foi um fato que a chocou
muito. Então você criou essa fantasia, que a ajuda a interpretar a tragédia. É um bom
recurso, mas...
— Eu não criei nada! – berrou a garota.
— Calma Ana. Estou aqui para ajudar.
— Ninguém pode me ajudar! – respondeu Ana – Ninguém acredita em mim!
Ninguém pode trazer minhas tias de volta e ninguém vai achar seu assassino enquanto
pensarem que foi uma explosão de gás!
— Então quem foi que as matou? – incentivou Renata para que ela falasse.
— Um bruxo talvez. Alguém mal.
— Ana. – começou ela se aproximando da garota – tem noção do que está
dizendo? Ouça e você vai ver o quão incoerente é.
— Mas é a verdade! – insistiu inutilmente.
Enfim, a doutora Renata se levantou e mandou chamarem os pais de Ana. A
garota estava agora do lado de fora da sala e escutava Renata que ela falava com seus
pais.
— Francamente já tentei de tudo – dizia a doutora.
— Mas doutora. Não tem outro jeito? - suplicava a mãe de Ana.
— Infelizmente, nenhum que eu conheça. Ela precisa de terapia mais intensiva –
confessou a doutora - e recomendo que façam isso rapidamente, pois a menina começa a
apresentar sinais de agressividade.

103
Depois dessa conversa, se iniciou o tormento da vida de Ana: remédios e
tratamentos complexos passaram a fazer parte de seu cotidiano. Foram anos de
brincadeiras e chacotas no colégio e na vizinhança. Anos que seguem a jovem como um
fantasma mesmo depois de tanto tempo. Um passado que ela havia enterrado fundo em
seu subconsciente, mas que voltava do túmulo mais uma vez com toda a força.
— Eu... – continuou a garota, tentando controlar a voz que tremia – só quero uma
explicação coerente, pra o que eu vi.
— Você quer uma explicação plausível?
— Sim.
— E se eu dissesse que sofro de uma síndrome de dupla personalidade? - tentou o
garoto levando a mão ao nariz e o coçando com a palma - Que muda meu fenótipo
quando se manifesta?
Ana ficou em silêncio.
— Eu te digo que sua manifestação é rara e que alguns acontecimentos ruins em
meu dia-a-dia acabaram por manifestá-la mais recentemente. - ele a olhava – O que
você diria?
— Você coçou o nariz. – respondeu Ana.
— Como? – perguntou o garoto sem entender.
— Quando você coça o nariz, é sinal de mentira – explicou Ana – eu sei disso.
O garoto olhou surpreso para a própria mão. Depois, voltou a sua atenção a ela, se
recuperando.
— Ana, eu sinto que não posso ajudá-la a entender então. Não posso arranjar uma
explicação coerente para seus padrões.
A garota ficou calada. Aquela situação era angustiante, pois ela estava com a
pergunta na ponta da sua língua, mas uma força muito grande a impedia de falar. Era
como se ela fosse parecer ridícula ao perguntar para Ian, se ele era um mago. Se ele era
o mago que ela escutava nas suas antigas histórias. Apesar de saber que o garoto já
havia escutado tudo isso dela, não conseguia evitar pensar que ele começaria a rir da
cara dela se perguntasse. Pensar que ele diria que ela estava delirando.
Seu medo era tão grande, que Ana achava que se perguntasse para Ian se ele era
realmente um Garow, os demais passageiros iriam escutar e começariam a zombar dela.
Igual todos faziam há anos atrás.
— É muito difícil pra eu falar sobre essas coisas. - admitiu

104
— Eu sei – falou Ian enquanto a puxava com o braço, abraçando-a - e eu sinto
muito quanto isso.
— Não foi culpa sua – respondeu Ana.
— Talvez seja.
— Não seja ridículo – Ana sorriu cansada.
Ficaram calados por alguns segundos.
— Mas vou tentar te ajudar. – prometeu o garoto – Eu só quero ajeitar uma coisa
importante antes.
Ana olhou o amigo e ele parecia muito firme em sua decisão. Estranhamente,
desta vez ele não deu o sorriso reconfortante de sempre e Ana sentiu falta disso. Ela
olhava para ele e percebia que o garoto estava pensando em algo muito importante.
Como se estivesse com uma grande decisão nos ombros.
— A verdade não será plausível – falou Ian – mas será a verdade – prometeu.
— Obrigado – agradeceu a garota encostado a cabeça em seu ombro.
— Não por isso – respondeu – Eu estou te devendo há muito tempo.

105
12 – Perdão.

Mônica deixou todos em suas respectivas casas e Ian e Ana foram os últimos, já
que moravam um ao lado do outro. Após se despedirem de Laila e de sua mãe, ambos
fizeram menção de irem para suas respectivas casas.
— Vai fazer o que agora? – perguntou a garota.
— Vou falar com minha mãe. Depois, tenho que resolver umas coisas antes, como
falei. Descanse um pouco que de noite eu te chamo. – prometeu.
— Tá certo. Até então – e entrou.
Ian sorriu em resposta e se virou.
— Até
Entrou em casa se sentindo cansada, apesar de ter, mais uma vez, dormido o
caminho quase todo da viagem. Ao dar uma olhada rápida, percebeu que estava sozinha
e sem se importar, subiu vagarosamente as escadas. Chegando ao quarto, sentiu-se
tentada a seguir o conselho de Ian e dormir um pouco. Mas algo a impediu de fazer isso.
Uma sensação estranha, como se seu coração estivesse apertado, a acometeu.
O que era aquela angústia em seu peito? Ela não fazia idéia de como o tempo a
havia modificado. Sempre acreditou que nunca mais havia falado nas histórias que suas
tias contavam porque já não acreditava nelas, porém, descobriu hoje que não era bem
assim. De fato, havia um bloqueio a impedindo. Era como se todas as experiências pelas
quais passou tivessem criado nela uma espécie de muralha, que a impedia de externar as
coisas em que acreditava.
A cada segundo que passava, estava mais certa de sua crença. Sentia como se o
cordão em seu pescoço estivesse pesado, como se o peso de toda a revelação estivesse
ali, tentando se mostrar para ela. Mas se tinha tanta certeza, então, porque não conseguia
falar isso? Por mais estúpida ou infantil que ela pudesse parecer, qual seria o problema
se estivesse errada? Ela não pararia num hospício por falar sobre magia.
Apesar de tudo, não conseguia falar. Ela sentia exatamente o que Ian queria contar
a ela. O segredo que tanto escondia. Ele tinha razão em dizer que Ana já havia deduzido
tudo, mas que estava com medo de falar. Eles passaram boa parte da juventude juntos,
Ana já havia contado para ele todas as histórias que suas tias lhe narraram. Ian sabia que
ela conhecia o clã Garow, sabia que ela entendia sobre magia. E era isso que ele queria
que ela deduzisse.

106
Só não entendia o porquê de não falar logo? Porque fazer todo esse ar de mistério
com ela? Ela se lembrava da infância. Quando era pequena, isso era tão simples. Tinha
toda a liberdade para fantasiar, estava protegida por sua inocência. Quando criança ela
bebia das palavras de Teresa, e idolatrava Samanta. Falava para todos sobre bruxas sem
se preocupar em parecer louca ou infantil. Afinal, era criança mesmo.
Mas amadurecer, mantendo as velhas crenças foi para Ana assinar sua sentença. E
por isso, dedicou o resto de seus dias a esquecer tudo o que havia aprendido. Investiu
em acreditar que suas fantasias não passavam de folclore. Lutou para se convencer que
um mero acidente doméstico havia tirado a vida de Teresa e Samanta.
Minhas tias! Meu Deus!
Nesse momento a ficha de Ana parecia ter finalmente caído e ela se dava conta da
monstruosidade de suas ações nos últimos anos. Agora aquela angústia em seu peito
fazia sentido, pois se realmente fosse tudo verdade, se de fato existissem magos no
mundo. Se Ian fosse um deles. Isso quer dizer que os últimos anos de Ana foram
dedicados não apenas a esquecer o que foi aprendido, mas também se esquecer de tudo
o que elas representavam em sua vida.
Não.
Ana sentou-se na cama com o peito pesado. Sua mão foi instintivamente até seu
cordão, onde todo o símbolo de seu passado estava. Um passado que assim como seu
pingente, ela havia mantido trancado, esquecido. Durante anos se esforçou a crer que
um mero acidente doméstico havia tirado a vida de Teresa e Samanta. Havia desistido
de idéia do crime que tirou seus entes queridos e de seu assassino que continuava
impune pelo mundo.
Anos tentando ignorar as vozes medonhas ouvidas naquela noite. Anos tentando
eliminar a imagem do espectro no meio da casa em chamas. Não, não era apenas isso.
Pois desistindo de acreditar nelas, Ana não só estava fazendo injustiça a sua memória,
como também as havia renegado a um patamar de mentirosas ou loucas.
Como pude?
Ela não conseguia se perdoar agora. Ao olhar para o espelho a frente de sua cama,
sentiu nojo da garota que ali estava postada com cara de idiota. Não conseguia acreditar
que havia feito tanta injustiça com aquelas que haviam sido as pessoas mais importantes
de sua vida.
Minhas tias, eu trai suas memórias.

107
— Desculpe. – pedia em uma oração silenciosa, sentia as forças em suas pernas se
esvaindo levando seu corpo ao chão e encostando-se na cama – Perdão!
Ela abriu mais uma vez o colar, mas desta vez não para ver o símbolo Garow ali
guardado, mas sim o rosto delas, há anos negligenciados. Por que nunca nem sequer
ousou abrir esse pingente? Infelizmente ela teve que fazer esse sacrifício. Para poder
finalmente esquecer todo o trauma de sua vida, teve que enterrar todo o seu passado e
tudo que o ligasse a ele. Incluindo elas.
Ana começou a alisar as fotos, deixando as lágrimas recém reconquistadas caírem
sobre o pingente e foi quando se deu conta dos dois fios quentes escorrendo por seu
rosto. Passou a mão e viu as duas gotas de lágrimas que desciam por sua face e de início
não conseguiu acreditar naquilo. Há tempos que não era capaz disso e já tinha até se
esquecido qual era a sensação. O alívio que dava poder finalmente chorar.
Permaneceu sentada no chão do quarto, colada ao seu pingente sagrado deixando
que todas as lágrimas de anos saíssem. Não queria guardá-las mais. Não precisava delas.
Ela não saberia dizer quanto tempo ficou ali, mas só se levantou quando pôde sentir-se
forte de novo. Levantou- se e foi até a janela. Lá, encontrou de cara Ian saindo de casa e
acenou sorrindo ao ver o amigo, mas este não a viu na janela.
Ele estava atravessando a rua naquele momento.
Pra onde está indo?
Ana queria que ele não demorasse muito. Agora ela sabia exatamente o que queria
perguntar e que respostas esperava ouvir. Só torcia para ser capaz de fazer a pergunta
certa. Foi quando ele parou de frente para a casa de sua vizinha, Dona Solange. Sem
tocar a campainha, ele entrou na casa.
O que ele vai fazer ali? Sentiu uma pontada de curiosidade tocá-la.

108
13 – O Beijo

Não resistindo à curiosidade, ela subiu até seu terraço, pois, de lá, conseguiria ver
boa parte da casa de Solange e quem sabe, com um pouco de sorte, ver o que ele fora
fazer lá. Ao chegar ao alto, Ana se apoiou no parapeito do terraço e pôde ver os dois
conversando nos fundos da casa. A mulher não parecia irritada com a invasão de sua
propriedade e dialogava animadamente com Ian.
Solange era uma viúva baixinha e magra, mas de aparência bem saudável, que
mostrava alguém que tinha chegado à velhice sem abusar da juventude. Tinha cabelos
curtos tingidos de vermelho e rugas nos olhos e testa que lhe denunciavam a idade
verdadeira. Seu rosto era pequeno e sempre muito digno. Ela morava na casa à frente da
de Ana e estava ali desde que se mudara para essa rua. Não era uma das vizinhas mais
agradáveis que se tinham por ali, porém, não se tinha muito o quê queixar. Na verdade,
seu único problema era ser agradável até demais.
Era uma mulher muito espirituosa para se dizer a verdade. Mas possuía certos
maneirismos que não cabiam para uma mulher de sua idade. Tais como o uso excessivo
de maquiagem e roupas um tanto ousadas. Devia ter uns sessenta anos e se vestia como
se tivesse vinte ou trinta, algumas vezes, abusando dos decotes e das cores chamativas.
Sempre que podia, parava alguém da vizinhança para poder tagarelar sobre
assuntos banais. Era um tanto irritante nesse ponto, mas o pior é que era também muito
educada e até um tanto simpática, o que dificultava as pessoas indispostas a lhe dar
atenção, de simplesmente cortarem o assunto e saírem andando. Ana até se sentiria mal
por pensar tais coisas da senhora se essa não fosse uma opinião que ela dividia com os
demais moradores da rua. Basicamente, apenas Ian perdia seu tempo lhe dando atenção.
É verdade, compreendeu.
Agora se lembrava que o garoto vivia prestando favores para a senhora. Como era
viúva e sozinha, sempre era bom ter ajuda para certas atividades, principalmente aquelas
que exigiam um esforço físico considerável. E nessas horas recorria a Ian, já que o
garoto nunca negava favores a ela.
Isso é o que dá ser bonzinho demais, riu-se por dentro.
Mas apesar da exploração sofrida, Ian nunca reclamara da velha senhora e sempre
tentava defendê-la das gozações dos demais moradores.
O que foi Ian? Tá interessado nela? Ana sempre brincava com ele assim.

109
E foi quando se lembrou. Tenho que resolver umas coisas antes. Foi o que ele
dissera. Mas provavelmente essas coisas não eram com Solange. Com certeza ela havia
telefonado para ele pedindo auxilio para alguma tarefa, como trocar uma lâmpada, e
Ana estava assistindo apenas a uma conversa banal, enquanto tomavam algo que parecia
chá, ou café, Ana não sabia, pois só conseguia ver dali que a bebida era servida em
xícaras.
Como não tinha nenhuma idéia do que fazer naquele momento, optou por ficar ali
mesmo, observando a conversa dos dois, que não devia ser nada interessante,
conhecendo o gosto da vizinha. Parada no parapeito do terraço, observando o garoto,
Ana foi se permitindo pensar em outra coisa sobre Ian que estava enchendo a sua
cabeça. Eram tantas coisas que a perturbavam, que Ana se surpreendeu por ainda não ter
pirado. Tirando um pouco o assunto do misticismo da cabeça, ela deixou sua mente
vagar por outra dúvida.
O que diabos está havendo comigo?
Com certeza, muita coisa havia mudado nela nesses últimos dias. Além de se
permitir pensar novamente em magia, ela sentia que as mudanças que ocorriam com ela
eram ainda mais profundas. Desde a viagem ao sitio de Mônica, ela não só tinha
investido em alguém como também roubado um beijo desta pessoa. Com certeza, eram
duas coisas que nunca se atrevera a fazer antes. Sempre morreu de vergonha de tomar a
iniciativa com relação a um garoto. Ana fazia o tipo que esperava pela ação do outro e
enquanto não acontecia, torcia para ser notada. Ela mesma se lembra que demorou cerca
de um mês para começar a sair com Lucas, isso por que o garoto demorou a perceber
que ela era afim dele. E como Ana não falava nada, a coisa foi se enrolando até que
Laila se meteu e deu um empurrãozinho.
Sempre Laila, pensou com carinho. Infelizmente adorava aquela louca. Pena que
ela não acertou na primeira. Refletiu se lembrando de seu termino e se surpreendeu ao
constatar como tinha esquecido rápido do assunto.
Hora de voltar ao foco, ordenou a si mesma. Mas então, o que a levara a fazer
tanta coisa? Na verdade, não foram só os beijos. A coisa havia começado antes com o
sonho e com o fato de conseguir achar algo de atraente em Ian. Estaria gostando dele?
Ana riu da própria idéia.
Eu e Ian? Até parece. Foi quando sua mente a levou de volta aquela noite a beira
da piscina. A imagem passava nitidamente diante de seus olhos como se estivesse lá de

110
novo. Ana conseguia até mesmo sentir as coisas que sentiu na hora. O frio na barriga, o
medo e ao mesmo tempo, uma vontade irresistível de ir em frente. Ela se lembrou da
maneira como o garoto a olhava, da maneira como ele disse que ela era bonita. Da
forma como sentia o desejo em seus olhos.
Seu rosto corou novamente ao lembrar-se dessas coisas. Nunca tinha se sentido
tão desejada na vida. Talvez tenha sido isso que a tenha levado a dar o primeiro beijo
nele. Mas e o segundo? Ela vasculhava a mente atrás de respostas. Uma vez, tudo bem,
era aceitável, mas duas...
— Jesus, me ajuda – falou para o nada.
Foi quando se lembrou de Laila e de suas palavras. Carência é triste fofa. Podia
ser isso. Porque não? Iluminou-se com a alternativa. Era compreensível. Ela tinha
acabado de sair de um namoro de seis meses. Nunca tinha ficado com ninguém tanto
tempo e era lógico que tinha de sentir falta de companhia. Apesar de não ser muito
nobre, é possível que tenha ficado com Ian só para suprir tal carência. E por fim,
preferiu acreditar nisso. Já tinha confusão demais e coisas novas o bastante em sua
cabeça para ficar arranjando mais problemas.
Poderia estar até se sentindo atraída por ele. Afinal, tinha motivos. Sempre gostou
dele, apesar de ser como um irmão. Gostava da companhia dele e ainda tinha alguns
fatores adicionais. O primeiro era todo aquele ar de mistério que via no garoto agora e o
segundo é que de certa forma, devia algo muito importante a ele.
Graças a ele, Ana sentia que podia acreditar de novo e o melhor: ela agora podia
reconstruir a ponte com seu passado e com ela mesma. Tentar reverter um pouco do mal
que causou a si mesma sem perceber.
— Obrigado – sussurrou a ele, mesmo sabendo que não poderia ouvir.
Agora estava em maior paz consigo mesma. Sabia o que estava acontecendo, mas
não podia deixar essas coisas a dominassem. Não posso me confundir. Isso arruinaria
a… que m... é essa? Interrompeu seu pensamento quando viu uma coisa que a fez ficar
de queixo caído.
De todas as coisas que poderiam passar pela sua cabeça, essa com certeza jamais
seria cogitada. Parecendo que ia se despedir da velha senhora, Ian se pôs de pé para sair,
sendo seguido por Solange. Eles ficaram de frente um para o outro por poucos
segundos, discutindo umas últimas coisas. O assunto parecia ter pegado fogo, pois

111
ambos se mostravam alterados, aumentando o tom de voz um para com o outro, embora
ainda fosse impossível para Ana ouvir o que era discutido. E foi quando aconteceu.
Num gesto muito rápido, a mulher puxou a cabeça do garoto para junto de si e,
antes mesmo que ele tivesse alguma reação, havia lhe dado um beijo. Mas não foi um
beijo no rosto e nem tão pouco um beijo na testa. Foi um beijo de verdade.
Ana ficou imóvel esperando a reação do garoto. Empurra ela! Ela quase gritou.
Porque você não empurra ela?Mas ele ficou ali, imóvel, deixando o beijo durar por
mais alguns segundos. E foi quando finalmente se largaram.
— Meu Deus! - exclamou sem acreditar. Vendo os dois, Solange parecia um tanto
irritada e Ian muito perturbado com alguma coisa. Foi então que ele saiu.
— Filho da... – ela tampou a boca para não completar a frase.
Então é esse tipo de favor que você presta pra ela? Acusou sem externar esse
pensamento. A garota não sabia o que pensar. Estava com raiva e, ao mesmo tempo, o
espanto lhe tirava a voz e a capacidade de raciocínio.
Dela você não foge, não é? Acusou novamente.
Ela via o garoto atravessar a rua e ir de volta pra casa sem conseguir parar de
xingá-lo em sua cabeça. Na verdade, ela nem conseguia acreditar no que via. Sentia que
se alguém falasse pra ela que naquele momento ela via coisas, que estava ficando
maluca, não só não se irritaria como também agradeceria a essa pessoa. Mas ela não
imaginou, viu mesmo.
Então era isso que você tinha de importante para resolver?
Ana continuava a olhá-lo com desprezo quando chegou à porta de casa. Nesse
momento, ele pareceu se virar para a direção de Ana, mirando o rosto para o terraço. A
garota nem teve muito tempo para pensar no que fazer e acabou se tacando no chão para
evitar ser vista, sentindo os joelhos bateram no piso e tendo de se segurar para não
praguejar alto.
No chão, esperou um pouco massageando os joelhos contundidos. Depois de
acreditar ter se passado tempo o suficiente, se levantou e viu que o garoto não estava
mais ali. Devia ter entrado. Então, ela correu para a parte lateral do terraço, cujo campo
de visão permitia-se ver o quarto de Ian. Dali conseguiu ver ele se achegar à janela e
olhar em direção ao quarto de Ana, parecendo procurá-la.
Pelo menos ele não me viu. Pensou. Esse... queria parar de pensar ofensas

112
Mas a cena do beijo não parava de se reproduzir no interior de sua mente e Ana
tinha de trincar os dentes para não xingá-lo dali onde estava. Muito bom. Agora vou
dormir com isso na cabeça.
Ian parecia mais calmo agora e Ana o viu se dirigir a cama, levando uma mão aos
lábios.
Safado, sem vergonha.
Que vontade que tinha de esganá-lo. O garoto tirou a camisa e se deitou na cama
fitando o teto. Parecia muito concentrado em alguma coisa que Ana não queria nem
tentar deduzir o que era. Ela continuou o encarando e foi quando Ian pareceu olhar
novamente em sua direção.
Mais uma vez, Ana foi parar no chão tentando evitar ser vista. Desta vez, seus
joelhos bateram com tanta força que não conseguiu evitar que um palavrão fosse
proferido. Definitivamente, isso não contribuiu para melhorar seu humor.
Ao se levantar novamente massageando os joelhos, decidiu ir para o quarto.
Chega de bisbilhotar. Assim que entrou, correu para fechar as janelas. Não queria
conversa agora e com esse pensamento deixou-se cair na cama. Sua cabeça só conseguia
pensar em uma coisa: naquele beijo. Naquele maldito beijo. Queria poder dormir logo.
Sentia o corpo cansado, mas a euforia não permitia. E apenas depois de muito se
esforçar, pôde finalmente cair no sono.

113
14 – Jogo da verdade.

O som da chuva foi adentrando o reino dos sonhos, trazendo Ana de volta para o
mundo real. Ao abrir os olhos, viu a janela aberta à sua frente que, devido à forte
tormenta que caía do lado de fora, molhava todo o interior de seu quarto.
— Droga! – e se levantou correndo para fechá-la. Devia ter aberto com o vento e
Ana amaldiçoou o fato de não tê-la trancado.
Levantar de forma tão brusca lhe causou certa dor de cabeça, mas que foi ignorada
pela garota. Sem vontade de secar aquela bagunça naquele momento, desceu as escadas
indo em direção a cozinha. Olhou em volta e viu que a casa continuava vazia.
O relógio marcava cinco da tarde e já era para seus pais estarem em casa. Por que
demoravam tanto? E foi só pensar nisso que escutou o som do carro sendo estacionando
na frente da sua casa. Depois, o barulho das portas do veículo batendo com força e de
pessoas correndo e rindo em direção a entrada da residência. Quando entraram, os pais
de Ana estavam abraçados e rindo alto. Pareciam estar um pouco embriagados.
Ambos levaram um susto ao ver a garota parada em pé na sala.
— Querida! – disse a mãe em um sobressalto – Já chegou?
— É domingo. - lembrou - Não deveria?
— Ah sim, claro! – disse a mãe parecendo se lembrar só agora e se dirigiu à filha
para lhe dar um beijo na sua testa - Que bom... que não pegou essa chuva no caminho.
— É mesmo – concordou o pai parecendo envergonhado – E... como foi?
— Legal – disse sem muita convicção. Mas os pais não pareciam estar muito
interessados na resposta o que os fez ficaram sem assunto por um minuto que foi
constrangedor para ambos os lados.
— Bem – decidiu acabar com o terrível silêncio – Vou dar uma saidinha. - disse
apontando para a porta.
Ana pôde reparar que a mãe pareceu animada com a idéia pelos primeiros
segundos, mas depois observou a rua e falou:
— Nessa chuva?
— É aqui no Ian.
— Ah, então está ótimo! – seu rosto se iluminou – vou deixar dinheiro para você
comer algo de noite em cima da mesa. E não se esqueça do chapéu.

114
— Tudo bem. – respondeu, constrangida ao olhar para os dois, parados em pé,
basicamente apenas esperando que ela saísse logo.
Assim, pegou o guarda-chuva que ficava ao lado da porta e saiu de casa.
Porque meus pais não são normais? Pensava enquanto se dirigia a casa do amigo.
Chegando lá, lutando contra o vento forte que quase a empurrava para o lado oposto,
bateu na porta. Estava bastante frio e com o vento que fazia, aquele guarda-chuva não
conseguia protegê-la muito.
Depois de um minuto, a mãe de Ian, uma mulher em seus trinta e cinco anos
muito bem vividos, atendeu. Ela era magra e esbelta, embora Ana percebesse que havia
ganhado algum peso nos últimos dias, mas continuava linda. Ela tinha os cabelos e os
olhos tão negros quanto os do filho. Pelo menos, quando os de Ian não estavam azuis.
— Minha filha! O que faz nessa chuva? – exclamou Marta, e num gesto, pediu
para que ela entrasse.
— Não se preocupe tia Marta. Só vim falar com o Ian. - e entrou - Seu filho está?
— Sente-se primeiro, Quer alguma coisa? – ofereceu a mulher, solicita – Um
refrigerante ou suco? Acabei de passar um cafezinho, se estiver interessada.
— Não, muito obrigada – tentou se esquivar. – Só vim para ficar um pouco e falar
com o Ian.
Marta sempre foi muito atenciosa quando o assunto era Ana. Ian brincava dizendo
que ela era a nora que sua mãe pedia a Deus. Por algum motivo, Ana não via mais tanta
graça naquele comentário.
— Bem querida, o Ian saiu. - respondeu sorrindo enquanto se sentava – Aquele
menino só me prega peças. Saindo nessa chuva – comentou desapontada. – E acredita
que ele ainda por cima nem levou o celular? Vive fazendo surpresas.
— Nem me fale - comentou Ana se sentando também.
— Espero que você um dia ponha juízo na cabeça dele – pediu, deixando a
menina sorrindo amarelo.
Naquele instante, numa tentativa de fugir das investidas de Marta para acrescentá-
la a família, Ana voltou sua atenção para a televisão que estava ligada passando a
reportagem da tarde. O telejornal mostrava a notícia de mais um jovem de classe média
que desaparecera de repente.
— Luís Carlos Molina – falava o apresentador – vinte e dois anos, está
desaparecido desde a noite de sábado desta semana. A polícia acredita que a ação de

115
traficantes internacionais esteja de alguma forma ligada a essa onda de
desaparecimentos que se inicia há uma semana. Há a suspeita de que tais jovens
estejam sendo usados como mulas para os traficantes.
— O uso de mulas para o transporte de entorpecentes entre as fronteiras é um
habito muito comum atualmente - comentava a apresentadora – E muitos desses jovens
são seduzidos pelos traficantes com possibilidades no exterior.
— Coitada da mãe desse garoto - comentou dona Marta, percebendo que a
atenção da garota mudava de foco – deve estar arrasada. É por isso que eu implico tanto
com o Ian sobre essas saídas dele. Não que eu não confie nele, mas... – ela hesitou um
pouco e Ana podia sentir certa dor em sua voz - eu não confio é nos outros.
— Entendo bem – disse Ana, que não estava muito interessada na matéria e só
queria era mudar o assunto. No fundo, até sentia vergonha de ter feito isso, pois não
esperava que a mãe de Ian fosse ficar tão abalada. Por algum motivo ela parecia
verdadeiramente preocupada.
— Bem, acho melhor você esperar aqui – ofereceu a mãe de Ian recobrando o
bom humor – não acredito que ele vá demorar muito.
— Não, tudo bem – disse a garota já fazendo menção de se levantar. – Depois eu
ligo pra ele.
— Por favor. Não me faça uma desfeita. Pelo menos me acompanhe num
cafezinho.
Ana pensou em recusar, mas não resistia ao olhar daquela mulher. Ana sabia que
o pai de Ian estava numa viajem de negócios e já que Marta não era muito fã de sair,
poderia estar se sentindo um pouco sozinha. Ainda mais com o Ian fora por tanto tempo
no sítio.
Assim, decidiu aceitar o convite.
Enquanto Marta preparava o café, Ana aproveitava para dar uma boa olhada na
sala. A mãe de Ian tinha o hábito de sempre fazer mudanças na casa. Era seu hobby
favorito, seja comprando acessórios novos ou mudando as coisas de lugar. Passando os
olhos pelo aposento, parou a atenção sobre um retrato de família, que ficava em cima do
móvel ao lado do sofá onde estava.
Nele estava Marta, sentada em uma cadeira, muito bem arrumada, no meio entre
Ian de um lado e Ivan, seu marido, do outro. Todos estavam completamente impecáveis

116
na foto. Era um milagre, mas Ana percebeu que até mesmo os cabelos de Ian estavam
alinhados e ficou imaginando o esforço que deve ter sido arrumá-los daquele jeito.
Ele não devia ter gostado nada, riu-se.
Ao contrario de Ian, seu pai era sempre impecável, tanto na maneira de se vestir,
como com seu físico. Nunca permitira deixar os cabelos bagunçados como o do filho e o
estilo ao natural de Ian sempre o incomodava. Porém, em todo o resto eles eram iguais.
O mesmo senso de humor e até a mesma aparência. Eles tinham os mesmos traços do
rosto e o mesmo porte físico, mas os cabelos e os olhos negros Ian havia herdado na
mãe, que estava feliz sentada ao meio.
Foi quando teve um estalo na cabeça.
— Se Ian fosse um Garow, então... - acabou pensando alto.
Parando para pensar agora, Ana chegou a uma conclusão: não seria a família toda
assim como Ian? Ela estaria numa família de Garows?
Não. Impossível.
Como eles poderiam esconder esse segredo de todos? E lembrou que talvez não
fosse tão difícil, já que Ian conseguiu esconder dela até hoje.
Seria possível? Estaria ela na ultima família de Garows da história? Como
sobreviveram? O que aconteceu a eles? E então uma grande expectativa cresceu em seu
peito, fazendo-a sentir-se uma criança novamente. Mas foi então que começou a
encontrar algumas falhas em sua teoria. De acordo com as histórias que ouviu quando
criança, eles eram uma tribo selvagem do norte do Canadá. Então, como estariam
morando no meio da metrópole do Rio de Janeiro?
Se as histórias que suas tias contavam fossem verdadeiras, a tribo Garow habitava
as regiões geladas, então não conseguiriam viver num país de clima tropical.
— Deus! – deixou escapar um suspiro. Teria ela se enganado e viajado em suas
fantasias?
Não. Definitivamente, não. Ela havia demorado muito para poder voltar a
acreditar e isso estava fazendo bem a si e não estava disposta a perder essa crença de
novo. Mas então, o que? Realmente, não conseguia imaginar uma tribo desse tipo na
Vila da Penha. Ou as histórias de suas tias estariam equivocadas e elas tivessem
ignorado algum fator?

117
Ou talvez... pensou. Não fossem realmente Garows, mas sim uma família de
magos comum. Ana riu, achando graça em colocar as palavras magos e comum na
mesma sentença. Não fazia sentido.
— Então deve ser isso – falou consigo mesma - Talvez não sejam Garows. Só
magos normais.
Mas acabou sentindo certa decepção com essa conclusão
— Falando sozinha, Ana? – a voz de Marta cortou Ana de seus devaneios.
— Nada – disse corando – só repassando umas coisinhas... Para a aula amanhã. –
acrescentou rápido.
— O que, uma prova?
— Sim – mentiu.
— E aquele moleque não me falou nada. Ele vai ver – e chegando perto da menina
ofereceu uma xícara de café fumegante – Aqui esta Ana.
— Obrigado – pegou a xícara e a tomou rapidamente para poder esconder o rosto
traquina. Pelo visto, havia colocado o amigo em apuros. Marta era muito rigorosa com
relação a estudos. Melhor ficar calada.
E foi quando o telefone tocou e Marta foi atender.
— Alô. - disse - Oi querido, como vai aí na Argentina? – e sorriu - Sim. Sim. Sim
- e riu – Claro. Não ele não está. Sei. – de repente ela levou a mão à boca. Depois do
susto ela deu um sorriso amarelo e dissimulou uma calma.
— Claro querido. Como eu ia esquecer? Sim estarei esperando. – e desligou o
telefone com uma expressão de culpada no rosto.
— O que houve? – preocupou-se a garota
— Esqueci que Ivan voltava amanhã.
Ana riu sentindo um alívio. Achava que fosse algo mais urgente.
— Meu Deus e eu nem preparei nada do que ele me pediu – disse com um sorriso
amarelo – Querida perdão, mas tenho que dar uma saidinha, sim? Se quiser espera meu
filho aqui, fique a vontade.
— Não – apressou-se em responder enquanto tomava o café as pressas queimando
a língua – Já estou de saída. Abusei demais.
— Tem certeza?
— Claro. Melhor esperar o Ian em casa - disse sem muita certeza se ia para casa,
lembrando que o amor se encontrava lá.

118
— Está bem. Desculpe-me pelo meu filho. Ele some sem dar noticias.
— Tudo bem – mas quando Ana ia se virando para sair, escuta o barulho da porta
se abrindo.
E ali, parado e molhado dos pés à cabeça, encontrava-se Ian, que sorria para as
duas antes de sacudir a cabeça, jogando água para os lados.
— Francamente! - zangou-se Marta – Onde esteve? A menina ficou aqui plantada
esperando você. E você, o que pensa que está fazendo nessa chuva? Onde está o seu
chapéu? Espero que esteja planejando secar meu chão quando terminar de se sacudir.
— Uma coisa de cada vez mamãe - riu-se o garoto – Boa noite primeiro. - e fez
uma reverencia exagerada.
— Boa noite mamãe. Você vai ver – disse indo contra o garoto e lhe dando
tapinhas de leve no seu braço, que mais o divertiam do que machucavam. Apesar do
teatro Ana via que Marta estava mais feliz do que zangada – Ainda bem que eu tenho de
sair se não lhe dava palmadas como quando você era pequeno.
— Não faça isso – disse o garoto amável dando um beijo na testa da mãe.
— Sinceramente, você não vale nada – disse a mãe se derretendo toda perante o
carinho. – Vê se toma um banho e tira essas roupas molhadas.
— Tá certo.
— E não suja meu chão.
— Sim senhora.
— E me da um beijo.
— Com prazer – disse dando um novo beijo na mãe. Desta vez na bochecha.
— Bem, vou indo. – disse Marta e depois se virou para Ana – Até mais querida,
agora vocês podem conversar sossegados - e saiu pegando o guarda-chuva perto da
porta e indo até o carro.
— Oi – disse o garoto sorrindo pra ela.
— Oi – respondeu Ana retribuindo o sorriso. Mas então ela se lembrou mais uma
vez da cena em seu terraço e seu sorriso se desfez. Ian pareceu não perceber a mudança
súbita de humor.
— Vou cumprir as ordens do sargento rapidinho aí a gente conversa.
— Tá certo – disse fazendo menção de se sentar.
— Por que não me espera lá em cima? – convidou
— Por que eu iria? - perguntou meio surpresa.

119
— Não sei. Você sempre espera.
Ela pensou um pouco meio duvidosa. Era verdade que sempre esperava, mas não
tinha certeza disso hoje.
— Vamos – incentivou.
— Tá – disse se levantando e seguindo Ian através das escadas.
Ao entrar logo atrás de Ian, Ana deu uma boa olhada no quarto. Antigamente,
sempre se sentiu a vontade ali, mas naquele dia, ela não estava muito confortável. E sem
tocar em nada, foi esperar na cama com as mãos cruzadas em cima das pernas.
— Eu vou tomar um banho e já venho. - falou – fica a vontade.
A garota não respondeu e ele entrou na suíte de seu quarto tirando a camisa. Ao
ver que a porta permanecia aberta, Ana correu e a fechou. Gritando através dela.
— Você deveria se lembrar que tem gente no quarto! – lembrou.
— Desculpe. Você já é de casa.
— Mesmo assim – falou um tanto impaciente – Ainda sou mulher.
— O que houve?- interrogou Ian abrindo uma brecha na porta para poder vê-la.
— Como assim?
— Esse seu mal humor. Você estava bem hoje de manhã. O que aconteceu?
— Impressão sua – respondeu, ignorando-o.
— Tem certeza?
— Claro – dissimulou, voltando para a cama.
— Tá bom – e fechou novamente e porta sem parecer ter se convencido.
— Cara de pau – sussurrou quando ele fechou a porta
Na cama e sem nada para fazer, Ana começou a balançar pernas esperando o
tempo passar, enquanto escutava o som da chuva lá fora e do chuveiro no banheiro. Ali,
se permitiu ficar um pouco perdida em meio à decoração do quarto do garoto e se
espantou ao notar lobos por toda a parte: em revistas, livros, colcha da cama e
miniaturas na estante. Eles sempre estiveram ali, mas hoje ganhavam uma atenção
especial.
Cansada de ficar sentada, levantou-se e viu a camisa molhada que foi deixada no
chão perto da porta do banheiro.
— Esse garoto não tem jeito – comentou consigo mesma enquanto pegava a peça
no chão. Estava ensopada.

120
Ana levou a roupa até a cadeira que ficava em frente à mesa do computador e
antes de colocá-la, ficou segurando-a por um tempo. Não sabia que interesse tinha
naquela peça de roupa, mas foi aproximando-a do rosto quase que por instinto, curiosa
em saber que cheiro tinha.
— Ih caramba! - disse despertando no susto e largando a roupa de volta ao chão.
Secando as mãos molhadas pela camisa, percebeu que era melhor passar o tempo
fazendo alguma coisa. Ao olhar para a escrivaninha, viu que o computador estava ligado
com a proteção de tela ativada – um lobo mais uma vez - e decidiu se distrair ali.
Mexendo o mouse, fez com que a proteção de tela desaparecesse. Ao abrir a tela inicial,
Ana esperava encontrar outro lobo como plano de fundo, mas se surpreendeu ao ver
uma foto dela e de Ian.
A imagem os retratava abraçados com uma paisagem natural de fundo. E foi
apenas olhar para a foto que pôde se lembrar daquele dia, quando foram para uma trilha
na Floresta da Tijuca. Aquele era um dia ensolarado e além deles, havia outros dois
colegas da rua e mais a sua mãe, que era fã desse tipo de programa. Ana se lembrava de
caminhar junto de Ian pelo terreno, enquanto subiam a Pedra da Tijuca. Ela se virava do
jeito que podia para não cair enquanto Ian não demonstrava nenhuma dificuldade em
andar pelo terreno acidentado. O caminho, apesar de difícil para ela, valia à pena. Era
um lugar deslumbrante.
Para cada coisa que observavam, Helena tinha uma explicação. Dando uma aula
completa sobre cada forma de vida encontrada e o passeio acabou se tornando uma aula
ao ar livre. Quando finalmente chegaram ao Pico da Tijuca, Ana ficou encantada com a
beleza do lugar. O céu azul mostrava todo o seu esplendor ali em cima e eles ficaram
cerca de uma hora aproveitando a paisagem e tirando fotos como aquela que estava
como papel de parede no computador.
Quando desceram, passaram pelo riacho Bom Ribeiro para uma última descansada
antes de voltar para casa. Ana, sentada na beira do rio, observava a limpidez da água
quando reparou numa linda flor de pétalas brancas que se encontrava na borda. Tentou
se aproximar da bela flor e pegá-la, mas foi quando sentiu uma mão segurando a sua
com delicadeza. Ao virar para olhar, viu Ian ao seu lado.
— Beladona – ele disse – eu não recomendaria pegar nela. É venenosa.
— Nossa – assustou-se Ana, trazendo a mão de volta.
O garoto riu ao seu lado.

121
— Não se preocupe. A toxina só é liberada através da ingestão direta. Só avisei
pra você não ter a idéia de levá-la pra casa.
— Era exatamente o que eu tinha em mente. - admitiu.
E ficaram em silêncio por um tempo até Ian continuar.
— Sabia que em algumas culturas, a Beladona é considerada uma planta com
propriedades mágicas. Alguns curandeiros até utilizavam-na para fabricação de
antídotos e dizem que são ótimos...
— Ian. – interrompeu Ana – Acho melhor nos juntarmos aos outros.
O garoto se calou por um tempo, visivelmente frustrado com a interrupção, mas
não reclamou.
— Está bem – disse e sorriu para mostrar que não estava ofendido. Ana ainda era
grata pelo que Ian tentava fazer. Desde que suas tias morreram, ele era o seu substituto
em histórias sobre magia, escutando-a enquanto os demais fugiam dela e ao mesmo
tempo trocando conhecimentos. Mas naquela época Ana já escolhera esquecer. Por isso
não queria mais ouvir histórias desse tipo. Queria definitivamente deixar o mundo das
fantasias para trás.

Até agora, pensou voltando ao tempo presente.


E foi quando ela escutou o som da porta do banheiro se abrindo e viu o amigo sair
de lá já vestido. Menos mal. Ele usava apenas uma camiseta branca com um bermudão
quadriculado. Engraçado ele mudar o visual comum, com seus casacos, justamente
agora que o frio tinha aumentado devido à chuva.
Ao contrário, Ana usava calças e camiseta, com direito a um suéter listrado e
aberto na frente e ainda assim sentia um pouco de frio. Ela girou na cadeira e ficou de
frente pra ele. A chuva caia forte lá fora e Ana ficava pensando em como começar a
conversa que ela tanto aguardava. Estava muito ansiosa, mas gostaria muito que fosse
ele quem iniciasse o assunto.
— Então – ele começou – O que deseja?
— Você sabe – respondeu – A verdade.
— A verdade mesmo? – questionou o garoto se sentando no chão – Que verdade
você deseja: a que lhe faça sentir melhor ou aquela que lhe traga recordações ruins?
— Apenas a verdade verdadeira. Independente do que possa parecer. - sentiu que
conseguia falar com convicção. Era um bom sinal.

122
— E não lhe incomoda parecer loucura?
— Acho que já estou um pouco experiente nesse ramo – comentou, dando um
sorriso desanimado.
— Entendo. – disse retribuindo o sorriso. - Qual a sua teoria? - perguntou.
Essa pergunta fez com que eles ficassem em silêncio por um tempo. Ana queria
falar, mas mais uma vez se sentiu bloqueada.
Droga! Por que é tão difícil?
Ian pareceu perceber a dificuldade na garota em continuar e resolveu ajudar.
Olhando em volta viu uma garrafa de água deixada sobre a mesa. O conteúdo estava
vazio, mas ele a pegou mesmo assim.
— Tampa pergunta - disse erguendo a garrafa – e fundo responde. Só perguntas
simples, ou seja, que exijam como resposta sim ou não. Certo?
— Pensei que você detestasse esse jogo – comentou surpresa.
— Detesto sim. Acredito que o que não se pode ser dito numa conversa normal
não deve ser dito. Então esse jogo é inútil.
— Então por que resolveu jogar agora?
— Pois quem sabe assim você se solta. - arriscou – esse jogo tem a tendência a
libertar as perguntas mais ousadas das pessoas, já que o outro, em teoria, terá de
responder - e girou a garrafa.
Ana se sentou no chão para acompanhar o processo. Quando a garrafa parou de
girar, estava apontada com o fundo para Ian. O garoto a olhou nos olhos aguardando a
pergunta.
Por um segundo, Ana travou e na tentativa de desviar o assunto perguntou a
primeira coisa que veio a sua cabeça.
— Você está com alguém? Digo, se envolvendo com alguém?
O garoto pareceu muito surpreso com a questão levantada.
Ah! Muito bom Ana, pensou. Não era isso que ela queria perguntar, mas mais uma
vez não foi capaz. E o pior da pergunta foi o fato de ter lhe despertado a lembrança do
beijo que ele deu em Solange.
— Não – respondeu parecendo sincero – não sei por que você fez essa pergunta,
mas a resposta é não.
— O jogo é da verdade – lembrou Ana.

123
— E eu não estou mentindo. - disse erguendo as sobrancelhas com a acusação e
Ana mordeu o lábio para calar a boca. Começava a sentir vergonha de sua
impertinência.
Era melhor não continuar o assunto, pois dizer que ele estava mentindo
significaria admitir que andava espionando o garoto.
Por que você fez uma pergunta dessas? Vamos ao que é importante, replicou
consigo mesma.
A garrafa girou novamente, desta vez, Ian perguntava.
— Não tenho nada para saber ainda. Então... – e pensou – O que você vai me dar
de aniversário? Afinal, está próximo – comentou com um sorriso.
É verdade, lembrou-se, faltavam apenas duas semanas. Estavam no dia dez de
julho, amanhã seria a última aula antes das férias de meio de ano. E oito dias depois,
seria o aniversário de Ian. Dia dezenove de Julho.
— Bem, vai ser surpresa – respondeu.
— Isso quer dizer que você não pensou em nada? – acusou.
— É – confessou rindo
— Grande amiga – comentou girando a garrafa mais uma vez.
Ela perguntava de novo.
Ana respirou fundo e decidiu falar sério daquela vez. Como ainda não se sentia
segura, começou sem ir direto ao foco. Pensou em alguma pergunta que pudesse fazê-la
se aproximar da verdade, sem que a fizesse parecer idiota.
— Você é humano? – bem, a pergunta não a fazia parecer menos idiota, mas
servia.
— Sim. - Ian pereceu satisfeito com a pergunta. Ana esperava aquela resposta,
afinal, magos também são humanos.
Mais uma vez a garrafa girou: ela perguntava de novo.
— Você possui habilidades sobre humanas? - perguntou se sentindo mais segura.
Desta vez o garoto revirou os olhos pensando antes de responder. Depois se
voltou para ela e disse:
— Não.
Por essa ela não esperava e começou a achar que ele estava mentindo.
Ian percebeu e riu.

124
— Você não está fazendo as perguntas certas – disse - eu acredito que você tem
algo melhor para perguntar, mas está com medo. – e girou a garrafa mais uma vez: desta
vez, ele era quem interrogava.
— Desta vez eu quero fazer uma pergunta. – disse a olhando nos olhos - Pelo que
vejo você está um pouco menos situada na situação do que eu imaginava. Você não tem
muita ciência do que eu sou, embora a verdade esteja bem perto de seu coração. Então,
com isso tudo... O que você está sentindo por mim, neste momento?
O coração da garota ameaçou saltar para garganta com o peso da pergunta. Ele
sabe alguma coisa? Será que ele estava acordado quando roubei aquele beijo, ou me
viu bisbilhotando? E começou a ficar eufórica demais e a vergonha ameaçou se aflorar
quando finalmente se lembrou de uma coisa.
— Mas as perguntas têm de ser simples. - falou sentindo o peito se aliviar - Sim
ou Não, lembra?
—Verdade – ele estava sério – O que eu quero saber é: Você está com medo de
mim?
Medo? Espantou-se. É com isso que ele está preocupado?
— Lógico que não! – respondeu quase rindo do absurdo.
Ele olhou para o chão parecendo um pouco frustrado e Ana ainda sentia sua
pulsação acelerada. Graças a Deus que ele havia pensado errado, pois morreria de
vergonha se Ian a tivesse flagrado em algum daqueles momentos.
E foi quando se lembrou: Perto de seu coração, foram suas palavras. De início,
parecia uma metáfora, mas logo que levou a mão ao peito sentiu o pingente de ouro.
Lembrou-se do que tinha nele além do retrato de suas tias. Ian sabia o que ela guardava
ali. Mais uma vez ele a incentivava a pergunta.
A garrafa girou novamente, mas desta vez Ana fez com que ela parasse, forçando-
a a ficar apontada com o fundo para Ian. Com a mão ainda no cordão, criou coragem:
— Você é um Garow? - perguntou baixinho.
— Como? – questionou, levando a mão ao ouvido. Embora Ana percebesse que
ele tinha entendido muito bem, resolveu repetir.
— Você é um Garow? – repetiu mais alto.
E foi então que pareceu que o tempo havia parado. Lá fora, apenas o som da
chuva era ouvido quando ele falou:
— Sim.

125
15 – Estudos.

Naquela noite chuvosa, Ângelo se encontrava protegido dentro de sua casa no


Centro da Cidade. Sentado na escrivaninha de seu quarto, ele aproveitava o tempo vago
para ir repassando as últimas matérias do colégio, quando se cansou delas e decidiu se
dedicar aos ensinamentos da ordem. No dia seguinte ele teria prova de Biologia, matéria
que ele achava a mais irritante entre todas que era obrigado a aprender. Não sabia por
que ainda precisava estudar para essas coisas agora que já estava num caminho
totalmente diferente. Mas o bispo sempre lhe recomendou não abandoná-las.
— Ângelo, meu menino – disse-lhe uma vez – eu entendo que sinta que todo esse
conhecimento é inútil, mas não é recomendável abandoná-los. Primeiramente, porque
assim é mais fácil manter as aparências para aqueles que não sabem de nossa existência,
e em segundo, porque nem todos esses conhecimentos são de total inutilidade para nós.
— Como assim bispo? – perguntava uma versão em miniatura de Ângelo, mas
ainda tão magricela quanto à atual.
Naquele tempo, Ângelo estava se iniciando nos estudos de magia na Igreja da
Iluminação e tinha acabado de conhecer seu novo mestre: o bispo César. Obrigado por
sua mãe, Ângelo foi fazer sua primeira comunhão na igreja do bispo. Não era muito
religioso, mas como não gostava de contrariar a mãe, que sempre foi muito boa pra ele,
o garoto acabou dando o braço a torcer e com apenas dez anos foi ter suas primeiras
aulas de religião.
E foi ali que, por algum motivo que ainda desconhece, chamou a atenção do
bispo, que o convidou para tomar aulas particulares. Ângelo ainda sente graça ao
lembrar-se do medo da mãe ao ouvir isso. Ela andava muito assustada com o número
crescente de padres pedófilos que apareciam nos jornais, mas também era muito devota
para recusar tal oportunidade.
Nas primeiras aulas, Ângelo teve que assistir acompanhado da mãe e só então,
depois de pegar confiança em César, que ela o liberou. Foi então que Ângelo foi
iniciado nos caminhos da magia. O bispo contou tudo pra ele. Falou da magia, da
Ordem e dos Iluminados e o convidou a participar de tudo isso. O garoto não demorou
muito a aceitar e fazer parte das fileiras da Ordem dos Iluminados.
Era ótimo pra ele estar ali. Além de sentir que tinha nascido para ser um mago,
aquela igreja era seu forte, seu porto seguro e o mantinha ocupado longe de casa.

126
Apesar de gostar muito da mãe, detestava o pai. Elias era um homem completamente
irritante aos olhos do filho. Não trabalhava e tinha hábitos que muito o incomodava,
como beber muito e tratar mal sua mãe. Márcia, sua mãe, sempre acreditou que um dia
o marido fosse mudar, mas esse dia nunca chegava e Ângelo se cansou de propor que
ela se separasse e vivesse sua vida sozinha. Talvez a questão do divórcio fosse a única
coisa que discordasse com relação aos dogmas da Igreja.
E além de todos esses motivos, ainda havia outro que o fazia gostar imensamente
das aulas na Igreja: O bispo César. Desde o primeiro instante em que o conheceu, o
garoto aprendeu a sentir um enorme respeito por aquele homem, que parecia não
encontrar limites para sua sabedoria. Era muito feliz por tê-lo como seu mestre.
— Bem meu filho, - ele explicou - Apesar de procurar um caminho mais difícil e,
até certo ponto, mais destrutivo para se descobrir as verdades do mundo, não se pode
negar que a ciência tenha feito alguns progressos. Ela foi responsável por algumas
grandes descobertas que ajudaram até mesmo a nós, pôs auxiliam na compreensão da
magia.
— Tá bom. Cite uma. – desafiou o garoto
— O estudo de Da Vinci com cadáveres, que ajudou principalmente na parte de
curas mágicas; as experiências de Servet na descoberta da circulação sangüínea, que
facilitou a descoberta dos locais para a injeção de nossos antídotos - e pensando mais,
continuou – temos também Mendeleev e a descoberta de um padrão para os elementos
químicos da natureza, o que auxiliou nos nossos estudos, principalmente para os magos
usuários dos recursos naturais. - e parou para olhar o garoto - Mais alguma dúvida?
— Sim. Que espécie de padre é o senhor?
O bispo deu uma risada com vontade, naquele tempo ele podia rir assim.
— É verdade. Isso eu não sei responder. Apenas reconheço a importância de nossa
arquiinimiga.
— Francamente. – comentou Ângelo consigo mesmo. Agora sua mente estava de
volta ao seu quarto. Decidiu então deixar de lado seus estudos de biologia e se dedicar
mais àquilo que o interessava: a religião e a Ordem dos Iluminados. Abrindo algumas
anotações, se deparou com um tópico que falava sobre feitiços. Mais interessante do que
estudar plantas, ele começou a ler suas anotações.

127
As artes mágicas possuem diferentes tipos de classificações. Existe os chamados
Encantamentos, que são aquelas capazes mudar a forma das coisas, concedendo-lhes
novas características. Esse tipo de magia é capaz, além de conceder uma meia vida a
objetos inanimados, transforma seres vivos em matéria bruta.
Conjurações são aquelas mágicas responsáveis pela convocação de coisas e seres
que estão em tempos e espaços muito distantes do mago. O usuário pode usar uma
conjuração para trazer um objeto pessoal que tenha esquecido em casa ou até mesmo,
para convocar artefatos e criaturas de dimensões longínquas. Esse tipo de arte é de
extrema complexidade, sendo apenas uns poucos capazes de realizá-la com perfeição.
Bruxaria é um tipo de magia específico, aonde um bruxo precisa do apoio de
outra entidade, geralmente demônios, para se realizarem.
Necromancia é a arte que se baseia no estudo da morte e dos espíritos. Nela estão
contidas tanto comunicações com os mortos quanto até mesmo a arte de se criar
mortos-vivos. Essa última, proibida pela Ordem dos Iluminados, por interferir no
descanso dos mortos.
E por último, temos os Feitiços, que são tipos complexos de magia, onde um
mago acaba por ter controle sobre sentimentos, vontades e ações de suas vítimas.
Feitiços são mágicas complexas que exigem um forte equilíbrio, tanto energético,
quanto emocional de seu usuário. Dependendo do nível do mago, ele pode controlar
determinados tipos de ações de sua vítima. Ações simples como, sentar, correr, ou olhar,
qualquer iniciado em feitiços é capaz de fazer. Porém, ações mais complexas, como
algo que cause muito constrangimento ou vá contra os desejos ou interesses íntimos da
vítima, é necessário um nível maior de destreza, assim como forçar alguém a ir contra
ideais éticos ou religiosos de extrema importância para ela é apenas possível para
magos de grande poder.
Estar sobre o efeito de um feitiço foi um álibi muito usado por diversas pessoas
para se justificarem perante a acusação de atos criminosos, por conta disso, se
perceber quando alguém está sobre efeito desse tipo de magia é de vital importância
para se localizar possíveis mentirosos. Para se reconhecer alguém enfeitiçado, devem-
se seguir alguns princípios básicos: primeiro, deve se olhar bem fundo nos olhos da
vítima.
Geralmente, pessoas sob o controle de outras tendem a nunca manter a visão
focada nas coisas, nem mesmo em pessoas ou no que estão fazendo. Esse defeito é

128
algumas vezes corrigido pelo próprio feiticeiro, tornando essa característica um pouco
mais sutil. Porém, com uma boa observação ainda é possível se notar o olhar vago dos
enfeitiçados.
OBS. Lembrando que nem todos os feitiços controlam a vontade das pessoas.
Alguns apenas controlam seus movimentos e ações, como é o caso do feitiço da
Marionete. Nesse caso, a vítima tem total consciência de sua condição e desse modo
torna-se mais fácil de notar. Afinal, a pessoa que estiver correndo com uma faca em
sua direção estará gritando para você correr ou pedindo desculpas, alegando que não
é de sua intenção o que está prestes a fazer.
A segunda característica de alguém enfeitiçado é a fraqueza que a pessoa sofre
quando o controle é quebrado. Quando alguém é vitima de um feitiço, ela não está
completamente alheia ao que acontece. Dentro da mente da vítima é travada uma
batalha entre seu subconsciente e o invasor. Tal luta tende a deixar uma fadiga muito
grande para trás, logo, é comum as vítimas desmaiarem após serem controladas por
outro mago.
OBS2. Como a batalha travada contra o feiticeiro é feita pelo subconsciente, a
vítima raramente tem lembranças de que foi dominada. Geralmente acorda sem saber
de nada do que fez ou falou.

A Ordem dos Iluminados condenou a prática dos feitiços desde 1789, na


Convenção de Bruxelas, alegando que isso fere um dos direitos mais sagrados do
homem dado por Deus: o livre arbítrio. Desde então, sua prática tem sido condenada
nas áreas de influência da Igreja. Porém, com a perda de poder da Ordem dos
Iluminados, decorrente da quebra da aliança entre esta e os Inquisidores, a influência
contra tais crimes se perdeu.
Durante toda a historia da Ordem, em apenas dois casos foi comprovado o uso de
feitiços por Iluminados.
Um deles, foi o do Bispo Manuel Simmons do Reino Unido, que tentava ascender
ao posto de Papa da ordem através do feitiço “Canto da Sereia”, onde com este,
tentava ganhar o afeto dos membros da cúpula. Tal magia foi sendo usada durante um
mês em pequenas doses a fim de se evitar suspeitas, porém, o plano foi descoberto pelo
Bispo da Prússia, João Huttz, e Manuel acabou sendo condenado à fogueira.

129
No segundo caso, o mago prodígio e aluno da Ordem dos Iluminados de Paris,
Lucas Levstross foi pego criando orações de feitiços e os disfarçando em forma cantos
gregorianos e orações que depois foram utilizados dentro da própria ordem. Até hoje,
não se sabe o interesse desse mago, que cometeu suicídio após ser descoberto, mas não
se pode negar o risco de tal feito. Ainda é presente o risco de que algumas orações
utilizadas pelos membros da Ordem sejam na verdade feitiços travestidos.

Ângelo avançou um pouco a leitura até uma parte em que se dizia: Como se livrar
de um feitiço.

Feitiços tendem a controlar as emoções e o poder de decisão de seu alvo. Logo,


para alguém vitima de uma mágica de controle, a única saída é conseguir focalizar
toda a sua atenção em algo diferente. O alvo da atenção da vítima tem que ser algo
muito tentador ou completamente impossível de se ignorar para que o enfeitiçado não
possa pensar em outra coisa a não ser naquilo.
Com a atenção totalmente voltada à outra coisa, o Mago consegue se livrar das
ordens emitidas pelo feiticeiro, pois não consegue prestar atenção a elas.

Ângelo parou de ler um pouco e passou a fitar a janela, olhando as nuvens


carregadas que despejavam uma forte chuva no Rio de Janeiro. Pelo visto, iria esta noite
a Igreja da Iluminação de baixo de chuva. Isso, se o chamassem. Havia feito um acordo
com o Bispo e só apareceria lá novamente caso fosse requisitado, embora estivesse se
segurando para não burlar essa regra. Bispo. Pensou. Queria tanto ajudar mais.
E foi quando, olhando as nuvens, permitiu sua mente viajar.

Voltara de novo ao tempo em ainda era uma criança e olhava a janela da igreja
para um céu azul cheio de nuvens.
— Presta a atenção em mim garoto e para de olhar para a janela! - Gritou o bispo
enquanto batia com a régua na cabeça de Ângelo.
— Ai! – o menino levou as mãos à cabeça, massageando a região atingida.
Ângelo estava de volta aos primeiros anos do ensino de magia na aula de feitiços.
— Francamente garoto! - gritava o bispo enquanto mostrava uma inscrição em
latim numa página de livro – Sabe identificar isso?

130
— Uma oração? – arriscou. O que lhe serviu para receber outro golpe de régua. -
Ai!
— Não! Isso é uma das orações falsas criadas por Lucas Levstross, a fim de
disfarçar seu uso de feitiços dentro da Ordem dos Iluminados.
— Mas achei que eles já tivessem sido banidos – comentou o garoto,
massageando o novo galo que surgiu na sua cabeça.
Outro golpe de régua, mas desta vez Ângelo estava preparado e se esquivou.
Apesar de ter abaixado a cabeça no último instante, não teve tempo de contar vitória,
pois um novo golpe, e desta vez mais rápido, o atingiu na lateral da cabeça.
— Ai!
— O fato de um feitiço ter sido banido não significa que seu uso também o foi –
falava o bispo – Ainda há resquícios deles em toda a parte e não duvido que existam
pessoas dentro da própria Ordem que se sintam tentados em usá-los.
— Eu sei - respondeu Ângelo.
— Então se sabe, deveria prestar mais atenção! Identificá-los é de vital
importância para se interceptar um feitiço lançado contra você – ele interrompeu seu
sermão por um tempo para começar a tossir – francamente garoto. Você deve prestar
mais atenção. – concluiu, massageando a garganta - Assim nunca vai se tornar um
grande mago.
Quem diria que o senhor se enganaria tanto, não é bispo? Refletiu, voltando ao
presente. Os mesmos lábios que disseram que aquele garoto nunca seria um grande
mago, agora o chamavam de prodígio.
E balançando a cabeça para espantar os devaneios, decidiu que tinha que parar de
pensar em besteiras e arranjar uma forma de ajudá-lo mais. Ângelo queria que César ou
o frade ligassem para ele convocando-o, mas enquanto isso não acontecia, tinha de
arranjar uma maneira de auxiliar dali.
Vasculhando seu quarto, acabou encontrando um livro que falava sobre demônios,
pego na biblioteca da Ordem e que estava com o prazo de devolução vencido.
Ignorando esse último fato, decidiu se especializar sobre os assuntos que envolviam a
questão em que se encontrava. Assim, abriu o livro num capítulo sobre o processo de
criação dos demônios.
Quando morremos, existe uma linha temporal pela qual todos nós passamos antes
de alcançarmos a “morte real”. Esse lugar é como um estágio que se passa entre a

131
vida e a morte, aonde serve de preparo para a alma antes de atingir o paraíso ou o
inferno.
Ela recebe vários nomes distintos, dependendo da região aonde se pergunte:
Mortalha, para alguns feiticeiros ligados à Demonologia – estudo dos demônios - ou a
Necromancia – estudo dos espíritos e dos mortos-vivos. Mekai, para os magos de
cultura grego-romana. Ou Purgatório, para os Iluminados.
Independente de qual nome seja usado, todos representam a mesma coisa. O
purgatório é o local para onde vão as almas daqueles que ainda não conseguem atingir
o descanso eterno. Por possuírem assuntos inacabados na terra, ficam presos, vagando
pelo liminar entre a vida e a morte.
O purgatório é uma dimensão paralela e muito próxima ao mundo dos vivos.
Devido à essa proximidade, ambas as dimensões tendem a se interagir e se
interpenetrar em alguns casos. Como efeitos desse fenômeno, criam-se locais aonde
essa penetração ocorre com mais intensidade ao ponto de um lado conseguir ver o que
se passa no outro, causando os chamados “locais mal-assombrados”, como são
popularmente conhecidos.
Apesar de sua proximidade, ambos os mundos não possuem contado um com o
outro, logo, os vivos e os mortos não têm a capacidade de interferirem no que se
acontece na outra dimensão, exceto talvez nos locais mal assombrados, aonde a
barreira de separação é muito estreita.
Porém, nesse módulo o que interessa saber é que é justamente nesse tipo de
dimensão aonde são criados as criaturas extra-planares conhecidas como demônios.
Todos os demônios já foram seres humanos um dia. Pessoas com alegrias, tristezas,
que nasceram, cresceram, reproduziram e morreram como todas as outras.
Porém, é justamente a maneira como a morte chega que resulta em sua prisão no
purgatório. Há várias causas que podem prender uma alma ao desejo de viver. Tais
como:
1- Uma morte traumática que gere no falecido um desejo de vingança;
2- Um grande projeto interrompido pela morte, que faz a alma se prender ao
mundo para poder concluir seu feito.
Enfim, quando isso ocorre, a passagem para a morte fica interrompida e a alma
fica condenada a vagar pelo purgatório. Devido à proximidade entre as dimensões,
essas almas conseguem visualizar perfeitamente o mundo dos vivos, muitas vezes

132
ficando presas em um ciclo vicioso, seja simulando eternamente sua rotina em vida,
seja reinterpretando o momento de sua morte. Com isso, anos de saudade da vida e
impossibilidade de retorno iniciam o processo de corrupção da alma. Raiva e inveja
passam a fazer parte da composição do espírito e ele começa e ficar violento e perder a
capacidade de raciocinar.
Assim ocorre a criação de um espírito caótico, mas este não é o problema mais
grave, já que sem a capacidade de pensar, este não representa grande perigo para a
dimensão dos vivos.
O problema acontece quando, apesar de todo o processo de corrupção, essas
almas conseguem destruir sua humanidade sem destruir sua consciência. Logo, temos a
criação de um ser maligno, mas com capacidade de raciocínio. Este ser é o demônio.
Durante séculos tais criaturas tentam abrir caminho para regressar a vida e
tendem a conseguir muitas vezes o apoio de bruxos para tal intento. Por viverem numa
dimensão paralela e muito instável, os demônios acabam por conseguir habilidades e
tipos de conhecimentos impossíveis de se obterem no mundo dos vivos, e são esses tipos
de coisas que aumentam o poder de barganha para a negociação com magos
ambiciosos.
Outro trunfo que os demônios possuem é a sua capacidade de transmitir poderes
aqueles que os servem, isso é um prato cheio para se permitir a negociação com
pessoas que não possuem uma aptidão natural a magia.
Enfim, é com esses acordos que os demônios conseguem uma chance de voltar ao
mundo dos vivos. Usando a possessão, um demônio pode usar o corpo de um bruxo
como hospedeiro ou este pode facilitar o processo de possessão em outras pessoas. *
(*Mais informações, veja o capítulo 17: Artes e magias dos bruxos)
Atualmente, a Possessão é considerada o único meio comprovado que os
demônios têm para atravessar a barreira do mundo dos vivos. Contudo, alguns
testemunhos alegam a existência de outro recurso, muito mais complexo, utilizado por
estes seres para atravessar a barreira que separa os dois mundos.
Tal habilidade nunca foi provada, mas muitos praticantes de magia afirmam tê-la
presenciado. Trata-se de ritual conhecido como Gênesis. De acordo com testemunhas,
tal ritual teria a capacidade de criar um corpo vivo para servir de hospedeiro a alma
demoníaca. Tal idéia é desacreditada por muitos magos que alegam ser impossível usar

133
a magia para se criar vida. Essa seria, talvez, a única limitação encontrada para os
milagres da magia.
As testemunhas de tal poder alegam que este é partilhado apenas entre tribos
primitivas de magos, que possuem uma ligação natural com os espíritos. Tais grupos
mágicos na atualidade não existem mais, e assim, acaba-se que por aumentar a dúvida
quanto à existência desse tipo de poder. Outro fator que mina a veracidade dos
depoimentos que alegam a existência do ritual Gênesis é o fato de ser sempre prestado
por magos deficientes em suas capacidades mentais ou aqueles que estão se iniciando
no caminho da loucura.

Ângelo coçou a vista e parou de ler, tentando assimilar aquele novo


conhecimento. Em que aquilo poderia ajudá-lo? De acordo com suas informações
obtidas pela magia do Flashback, sabia que o inimigo realmente se tratava de um
demônio e de acordo com as interpretações de Cassandra, estava prestes a voltar à vida.
Mas como?
Possessão? Seria o ritual Gênesis? Ele existiria? Havia uma possibilidade. O bispo
sempre dizia que em termos de magia era sempre bom nunca se manter totalmente
cético em relação a qualquer coisa.
Mais foi então que percebeu algo de estranho. Após deixar o livro de lado, teve
uma sensação de inquietação que não lhe era estranha. Era a mesma sensação que sentiu
na igreja, como se algo de muito importante estivesse passando completamente
despercebido. Estranho. Queria voltar logo para a Igreja e checar melhor o que poderia
ter sido aquele pressentimento.
Seria meu sexto sentido? Pensou, lembrando-se de Cassandra. Absurdo. E riu.
Não acreditava que tinha dado tanto ouvidos para a velha louca. Esquecendo-se então
do mal estar, decidiu se concentrar no que era importante. Haveria outra forma daquele
ser voltar? E começou a raciocinar. Algo que não esteja sendo cogitado? Algo que
possa fazer mais sentido à interpretação do sonho.
A imagem do bebê saltou em sua cabeça.
Sim. Houve um estalo e Ângelo sentiu uma euforia crescer dentro dele. Será? Era
possível? Sim, era. Já soube de casos. Tinha que falar com o bispo. E com a força no
ânimo, saltou da cama e correu para o telefone e discou o número pessoal de César.

134
16 – O Véu.

A chuva caía pesada do lado de fora do quarto e durante muito tempo esse foi o
único som ouvido em seu interior. As gotas pesadas agrediam a janela, tingindo o
interior do aposento com suas sombras bruxuleantes. Os dois jovens que ali dentro
estavam não trocaram palavras, um, porque esperava a reação e outro, pois não sabia
exatamente como reagir. Com certeza aquela era a resposta que Ana esperava ouvir,
porém, agora que recebera, parecia que tudo não passava de um sonho.
Durante alguns minutos, ela fitava o rosto de Ian atrás de qualquer sinal de que ele
estivesse brincando, porém, em nenhum momento ele piscou e nem tão pouco sua mão
foi levada ao nariz. De fato estava dizendo a verdade. Sem esperar mais pela resposta,
Ian segurou a garrafa e a fez girar novamente e Ana viu que ele a forçou a apontar para
ela.
— Acho que não precisamos mais disto – disse afastando a garrafa - Acho que
você tem uma dúzia de perguntas a fazer, não? Sei que tem. – e vendo que a garota não
falava, encorajou – Vamos. Você deve saber por onde começar.
— Eu... – e riu, sem jeito. Ainda não sabia exatamente por onde começar – Eu
gostaria de saber uma coisa. – e respirou – Porque mentiu pra mim no jogo? Por que
mentiu se queria me contar isso no final?
— Não menti – disse Ian com simplicidade – Você me perguntou se eu era
humano e sim, sou humano. Você me perguntou se eu tinha habilidades sobre-humanas
e eu não as tenho.
— Mas você é um...
— Mago? - Completou - Sim, sou um mago. Mas quem lhe disse que magia é um
dom sobre-humano?
Ela ficou em silêncio. Desde pequena sempre imaginou que suas tias eram pessoas
acima da média humana. Que magia era um dom para poucos e torcia para que ela um
dia fosse digna disso. Mas então...
— Magia é uma das poucas coisas que foram dadas a todas as pessoas, sem
distinção. A única diferença é que existem aqueles que a utilizam e outras que preferem
renegá-la.
— Por favor, Ian – pediu Ana – Não brinque comigo assim.

135
— Não estou brincando sua boba. - ele riu - Você mesma disse que estava pronta
para toda a verdade. Estou lhe contando tudo.
Então, se ajoelhou de frente pra ela e limpou seu rosto, tirando a franja rebelde.
— Você... poderia me demonstrar? - pediu – Sabe. Fazer de novo o que fez antes.
Só para eu ter certeza.
— Poderia – respondeu – Mas não quero.
— Por quê? – questionou com uma leve surpresa.
— Porque eu acho mais importante que você acredite por si só. - respondeu se
levantando e fitando a janela – A magia está aí por fora para todos poderem ver. Em
várias ocasiões ela se manifesta em forma de milagres, mas as pessoas insistem em
buscar outras explicações para ela. Em geral o mundo é totalmente cético e isso impede
que a verdade seja vista. – e se virou para encará-la, encostando-se na parede e cruzando
os braços - Você não era assim, mas se tornou. Tornou-se uma dessas pessoas que
querem sempre ver para crer, mas não desconfiam que o caminho verdadeiro seja ao
contrário. Eu poderia lhe dar mil demonstrações aqui, mas se você continuar com a
mente fechada, nada adiantará. Irá pensar que tudo foi um sonho. Mas você não era
assim, eu sei. Eu quero trazer a Ana de antes de volta.
— É muito complicado – respondeu a garota, tentando não encará-lo – é que para
mim é muito difícil, devido ao que me aconteceu durante a vida por acreditar nisso.
— Eu sei. – respondeu o garoto – Você presenciou uma série de coisas nesses
últimos dias e ainda se manteve cética. O que fizeram a você parece que foi pior do que
eu imaginei. Uma pena eu não ter intervindo antes. Não sabia da gravidade do que tinha
acontecido. Perdão.
— Não foi sua culpa – lembrou e ele ficou em silêncio.
Ana sentiu que Ian iria dizer algo, talvez a contestando, mas se calou. Quando
voltou a falar, continuou com o assunto anterior:
— Quando você presenciou a morte de suas tias, ficou traumatizada e seus pais
fizeram o que todos os pais modernos e esclarecidos fariam em seu lugar: a coisa errada.
– o garoto deu um suspiro – Eu não sei exatamente o que você passou, mas posso ter
uma idéia. Posso imaginar o quanto sua mente foi abalada por tudo. Mas fico feliz que
você esteja voltando a crer, mas ainda não é como eu esperava.
— Me ajude então.

136
— Eu posso fazer isso. - declarou o garoto – Mas antes tenho que lhe fazer uma
pergunta: está disposta a atravessar o Véu?
Ana o olhou nos olhos sem entender a pergunta.
— Véu?
— Atravessá-lo significa enfrentar um desconhecido. Que tal já ir se acostumando
com essa idéia e responder a pergunta sem saber exatamente do que se trata?
Ana pensou um pouco.
— Sim – respondeu.
— Excelente – disse, se dirigindo até a porta - Vou buscar algo para bebermos.
Espere aqui.
E saiu, deixando a garota sozinha no quarto. Ana tinha a impressão que isso era
programado, como se ele quisesse dar tempo para que ela pensasse em tudo que lhe foi
dito e talvez tivesse a chance de desistir se quisesse. Passando mais uma vez a mão pelo
cordão, ela se lembrou do antigo símbolo Garow que guardava ali, sendo capaz até de
ver em sua mente o rosto do lobo a encarando, com as presas iguais a de Ian.
Assim, começou a pensar no que ele disse. Todos são capazes de usar magia.
Então por que mais gente não sabia disso? Porém, antes que chegasse a uma conclusão,
Ian já tinha voltado com dois refrigerantes. O garoto lhe entregou um e se sentou de
frente para ela no chão. Ficaram se fitando até ele beber uma boa porção de um gole e
começar a falar.
— Antes de tudo, tenho que dizer que você é normal. - ele a encarava muito sério
agora – Você, como todos os outros, ouve falar a todo o momento de bruxaria, magia,
feitiçaria. Você consome essas coisas. Quando criança tem os contos de fadas, quando
cresce, tem os romances juvenis ou os filmes que falam do sobrenatural. Eles servem
para lhe tirar um pouco da realidade e lhe fazer sonhar e relaxar. Mas como tudo tem
um limite, o limite para esse gosto é não acreditar. A partir do momento em que cruza
essa linha, você é considerado louco ou infantil.
— Você é como todas as pessoas normais e modernas, que buscam suas respostas
pela ciência. - continuou - Como todas, você cada vez mais se desvirtua do caminho da
espiritualidade, acreditando que isso é fruto de mentes ignorantes, ou de charlatões que
querem se aproveitar da ignorância dos outros. Assim como todas as pessoas do mundo,
você está errada.

137
“Assim como todos, você reza a todo dia por milagres, sem perceber que eles
ocorrem o tempo todo a sua volta. Todos os dias você pede, muitas vezes sem saber
para quem, que mude sua vida, que algo de ruim não aconteça ou que você consiga o
que deseja. Pede isso sem saber que o poder de realizar seus sonhos está com você
mesmo. Como todos, você quer explicações para tudo a todo o momento e critica as
pessoas que aceitam as situações de boa fé. Como todas as outras, você debocha das
pessoas que possuem uma fé cega e se esquece de que você também carrega uma. A
diferença é que seu Deus é a ciência e que seus milagres são ligações inter-atômicas.”
— Essas palavras são um pouco duras – comentou a garota – Magia é uma coisa
muito fantástica. É difícil para as pessoas aceitarem sem uma explicação.
— Mas é a realidade. - respondeu o garoto – E mesmo assim, não é tão difícil
assim as pessoas acreditarem em coisas sem uma explicação.
— Como assim?
— Ora Ana, basta se fazer a simples pergunta: Tudo em que acredito, eu posso
provar?
Ana ficou em silêncio, pensando na pergunta.
— A terra gira em torno do sol. - falou – você pode provar?
— Mas é assim – rebateu.
— Eu não disse isso. Eu perguntei: você pode provar?
Ana ficou em silêncio.
— O mundo é formado por matérias minúsculas e indivisíveis chamadas átomos.
Verdade ou mentira?
— Verdade – respondeu com convicção.
— Por quê?
Ana olhava espantada para o amigo. O que será que ele está tentando fazer?
— Sei que parece confuso o que estou fazendo, mas faz parte de meu intento. O
que eu estou querendo te provar é que a humanidade não quer verdades que possam ser
explicadas, pois muitas vezes vocês aceitam conhecimentos que não podem comprovar
diretamente.
Ana ficou pensativa. Realmente fazia sentido o que ele falava.
— Então o que a humanidade quer? – questionou retoricamente - A resposta é
simples. Alguma coisa que lhes dê segurança. Assim como na Idade Média era a Igreja
quem provia as explicações, hoje são os cientistas. E se todos acreditam neles, por que

138
não acreditar também? Por que contestar algo que todos aceitam ser o certo? É tudo
muito simples. Se a magia não pode ser explicada pela ciência, então ela não existe. Isso
conforta muita gente.
Ele fitou os olhos da garota para ver se ela estava acompanhando o raciocínio.
— Então Ana, – continuou – é isso o que acontece. Vivemos num mundo em que
acreditamos que nossa querida ciência pode nos dar todas as respostas. Porém, ela não
pode. Então criamos o nosso ceticismo. Se a razão não pode explicar uma coisa, ela não
existe. Assim se é construído o Véu.
Ele se levantou, caminhando em direção a cômoda que ficava próxima da porta de
seu banheiro. Abrindo uma gaveta, puxou dali de dentro um pedaço de tecido vermelho
e esvoaçante e o levou até Ana. Antes que pudesse se perguntar o que era, ele atirou o
tecido que planou no ar até cair delicadamente em cima de sua cabeça, cobrindo-a. Sem
se mexer, Ana fitava o rosto do amigo por detrás do véu. Apesar de tudo estar um pouco
ofuscado, ela conseguia enxergar a expressão de Ian e percebia que ele esperava que ela
chegasse a alguma conclusão.
— O Véu. – ela murmurou - ele me ofusca.
— Exatamente. Quando eu digo o Véu, não estou me referindo a um pedaço de
pano no sentido literal da palavra, mas e sim num termo figurativo, que designa a
barreira que separa o mundo real do mundo dos adormecidos.
“Assim como o véu guarda o sono das pessoas, impedindo que os mosquitos
perturbem seus sonhos, o nosso Véu, impede que o mundo caótico da magia perturbe
seu sono de ignorância. Mantendo seguro o seu mundo. Os magos tendem a observar o
mundo dessa forma: aqueles que conhecem a verdade são conhecidos como despertos.
Você, nesse momento está num processo de despertar. Agora, aqueles que insistem em
não ver, esses são os adormecidos”.
— Esse é o Véu a que eu me referi - concluiu – é mais uma metáfora, mas mostra
bem a realidade. Assim como o véu tecido, o Véu barreira também não tampa a visão
por completo, mas a ofusca. Ele é frágil e fácil de ser removido. Mas o ceticismo é a
única coisa que o impede de sair de seus olhos. A descrença nos ofusca ao ponto de
vermos milagres bem na nossa frente, mas não acreditarmos neles. Então, eu lhe faço
novamente a pergunta: Você está disposta a atravessar o Véu? Quer enxergar o mundo
como ele realmente é?

139
Ana tirou o tecido de cima da cabeça e agora podia ver melhor o rosto do amigo
banhado pela luz da noite. Agora que percebia que o quarto estava com as luzes
apagadas, deixando-os banhados pela penumbra.
— Mas... - tentou expressar a primeira dúvida - Como isso tudo começou? E
quando acabou? – Ana tentava colocar ordem em suas dúvidas para que parecessem ter
sentido quando perguntasse, mas era complicado.
— Entendo o que você quer saber - disse o garoto dando mais um gole no
refrigerante – Quando acabou eu respondo, nunca. Quando começou, eu digo, não sei.
Os dois riram da resposta útil e ele continuou.
“Desde os primórdios da humanidade o homem entende que a natureza pode lhe
oferecer poder. No começo esse poder era visto com pavor. Era como se fosse uma
maneira de Deus intervir na terra sempre quando estava zangado. Eram os fenômenos
naturais como as chuvas e os trovões que destruíam árvores e assustavam a
humanidade”.
“Porém, depois de um tempo, o homem aprende a usar essa energia a fim de lhe
dar maiores chances de sobrevivência. Assim como ele aprendeu o cultivo das plantas,
gerando a agricultura, e a criação de animais, criando a pecuária, ele também aprendeu a
usar as energias que a natureza tem a oferecer, gerando a magia”.
“Tudo no mundo tem energia. As forças da natureza, as pessoas, os animais as
plantas e assim como o ser humano aprendeu a controlar a energia da queda da água
para gerar eletricidade, aprendeu muito antes como transformar uma variedade
infindável de outras forças para atender suas necessidades.”
Ana abraçou as pernas ajeitando a posição para poder ouvir melhor. Ao notar o
interesse da garota, ele continuou.
“Durante séculos os magos foram se espalhando pelo planeta e à medida que
foram se isolando, começaram a formar suas próprias culturas, suas próprias regras e
suas próprias magias, e assim surgiram as diferentes Ordens Mágicas”.
“A magia era usada para muitas coisas: conseguir alimento, proteger a família e
também conquistar território. As guerras mágicas aconteciam na mesma proporção das
guerras humanas, ou até mais. Cada família ou grupo mágico queria impor suas ordens,
se considerando como únicas donas da verdade. Infelizmente, quando falamos de
guerras, as vítimas nunca são apenas aquelas que se envolvem no combate. Assim, as
“pessoas comuns” foram pegas no fogo cruzado. Só que havia uma diferença. Ao

140
contrário de lanças e flechas que causam dano controlado, a magia quando mal usada,
tende a ser caótica.”
— Como assim? – interrompeu Ana.
— Bem. Quando você usa magia, você mexe com uma série de energias e
ultrapassa uma infinidade de leis que controlam o planeta. Uma variação, por menor que
seja, pode causar um distúrbio muitas vezes irreparável. Lembra-se disso: “Uma coisa
tão pequena como o ruflar de asas de uma borboleta pode causar um tufão do outro
lado do mundo ”.
— Efeito borboleta – respondeu a garota e Ian deu uma risada.
— Na verdade eu queria me referir a Teoria do Caos.
— Ah... Claro. – corrigiu, corando.
— O que eu quero dizer é que essa teoria se aplica perfeitamente ao uso de magia.
Quando você mexe demais com as leis do universo de forma inconseqüente, o caos que
pode causar no tempo espaço pode ser desastroso. Exemplo:
“Digamos que eu queira fazer uma magia de controle climático. E digamos que
esteja muito frio e eu queira trazer um pouco de calor para este bairro. Se eu não pensar
direito e não tiver conhecimentos sobre como controlar o calor trazido, eu posso acabar
tirando temperatura de uma região necessitada, que pode vir a causar um distúrbio no
clima, gerando seca ou chuvas em demasia, acabando com toda a sua agricultura. Ou
também, posso causar um distúrbio climático tão grande que seja capaz de gerar
fenômenos como um tornado ou um maremoto.
— Nossa!
— Eu sei. E esse foi o principal motivo da queda da magia no mundo.
Ana resolveu dar um gole no seu refrigerante esperando pacientemente pelo
desenrolar.
— E foi o que aconteceu. As guerras mágicas chegaram a níveis terríveis e os
estragos nas pessoas e no planeta começavam a preocupar principalmente aqueles que
não usavam magia.
— Mas você disse que qualquer um poderia usar?
— E pode. Mas isso não quer dizer que todos estejam interessados. Fazer mágica
é uma coisa que exige trabalho e disciplina, qualidades que nem todo mundo tem.
— O que aconteceu com isso foi o seguinte: a Inquisição – continuou – Com toda
a guerra entre reinos e tribos espalhadas pela Europa e pelo resto do mundo, o tabuleiro

141
estava uma bagunça, pois cada um tinha seu interesse. Porém, um determinado grupo
conseguiu se organizar.
“As pessoas normais puderam enfim começar a se unir, pois tinham um inimigo
comum: os magos. Foi então que Reis, Padres, e Lordes da época, conseguiram
mobilizar a humanidade e fundar a sociedade secreta conhecida como os Inquisidores.
Os Inquisidores foram treinados com os melhores métodos para exterminar magos e eles
contavam com um exercito realmente numeroso. Então, soma-se isso a falta de união
entre as irmandades mágicas no planeta e ainda a grande melhoria da nova ciência que
fez um upgrade nos recursos bélicos da época – em que o mais promissor foi a pólvora
– e o que você tem? Massacre. Houve um verdadeiro genocídio de bruxos em todo o
mundo, principalmente na Europa.”
“Devido ao isolamento das sociedades africanas e americanas, estas puderam
sobreviver por mais tempo. Mas no período da colonização, também foram dizimadas”.
— E o que agente aprende sobre inquisição? Como um movimento da Igreja para
conter as heresias?
— É, é isso que aprendemos. E isso foi graças à nova frente de ataque realizada
pelos Inquisidores: Agora que derrubamos o inimigo, é hora de fazer sumirem seus
vestígios.
— Mas como? – Ana replicou – Como é possível se fazer sumir anos de
existência?
— Simples - disse Ian – Esquecendo. Quando a Inquisição chegou aos seus dias
finais e cerca de oitenta por cento das sociedades mágicas foram dizimadas, ouve um
processo do que chamamos de Lavagem Cerebral, que foi beneficiado por uma série de
fatores.
“Primeiro, vale lembrar que a grande maioria das sociedades mágicas foi
exterminada, deixando um contingente muito pequeno de magos no mundo. Esse
pequeno grupo, com medo da perseguição, preferiu se esconder. Logo, sua existência
foi basicamente considerada extinta."
"Em segundo, com as pessoas acreditando que estavam livres do mal, resolveram
apagar a sua existência do mundo, a fim de que não surgissem novas pessoas tentadas a
utilizar de artes consideradas tão perigosas. Nesse período, os livros e pergaminhos
foram queimados, assim como tudo o que era referente à magia que estava na Terra.
Depois de um tempo, os pais pararam de contar histórias de bruxos para seus filhos,

142
começaram a ignorar sua existência e tal processo durou gerações e mais gerações até
que a existência de magia fosse completamente ignorada pela atualidade".
"E por último, o golpe de misericórdia. Apesar de odiar esses caras, eu tenho que
reconhecer a genialidade deles para por um fim a magia. A decisão de tornar-la algo
público”.
Ana lançou um olhar interrogativo.
— Sim. – respondeu, achando graça da confusão da garota - Existe um ditado que
diz que se você quer que uma coisa fique em segredo, a melhor maneira é espalhando
para todos. Pois as pessoas têm dificuldade de acreditar naquilo que está muito claro na
sua frente. E foi isso que foi feito. A magia foi transformada em algo público, em uma
ferramenta de entretenimento para as pessoas. Agora você podia falar de bruxaria
tranqüilamente, pois ela estava em todo o lugar, na literatura, nos jogos e depois, nos
filmes Hollywoodianos. E isso funcionou muito bem. Hoje todos sabem o que são
magos, bruxos ou feiticeiros, porém, ninguém se atreve a crer neles. E se você é
diferente, é ridicularizado. É isso que a magia tornou-se hoje: Uma coisa ridícula.
“Apenas Contos de Fadas”.

143
17 – Quintessência.

Quieta na mesma posição que estava, abraçada às pernas, Ana se pôs a assimilar
toda a nova gama de conhecimento que lhe chegara. Ela sabia que tudo aquilo fazia
sentido e isso, ao mesmo tempo em que lhe deixava eufórica, causava-lhe certa
apreensão. A cada momento que passava, ela via seu ceticismo cedendo e sua sensação
de culpa por renegar tudo o que tinha aprendido antes com suas tias, aumentando.
— Então Ana – Ian chamou sua atenção – O que você acha de tudo o que falei?
Acredita ou acha que estou brincando com você?
— Entendo tudo o que você diz. – respondeu - Mas... você poderia me dar mais
uma demonstração?
— Não. – o garoto se mostrava decidido – Mas posso te ajudar a dar essa
demonstração a si mesma.
— E como eu faria isso?
— Liberando a sua Quintessência.
— Minha o quê?
— Quintessência – repetiu - ou Quinto Elemento. É a energia que guia toda a vida
na terra. – ele começou em seu tom didático – Esse termo foi utilizado por Aristóteles
para designar a bolsa de energia que forma o universo em conjunto com os outros
quatro grandes elementos: água, ar, fogo e terra. Ela pode ter outros nomes como áurea
ou cosmos, mas eu gosto de Quintessência.
“Essa é a energia que circula no planeta e permite aos magos criarem suas magias.
Ela está contida em tudo no mundo, tanto em matéria viva ou morta”.
Ana fitou o amigo por mais tempo a procura de qualquer sinal mentira, mas desde
que ele começou a falar sobre magia que esses sinais não se manifestavam mais.
— E como eu faço isso? – perguntou.
— Bem, é muito simples – e deixou o ar de mistério – acreditando que é capaz de
fazer.
Ana ficou um tanto perplexa com a solução encontrada. Ian pareceu não notar e
continuou.
— Essa energia está presente em todos em forma de uma áurea que circula no
corpo do ser. Eu posso ver a sua agora mesmo. Está aí circulando, invisível para olhos
mal treinados, mas está aí. Tudo o que você tem de fazer é torná-la visível para você.

144
“A maneira não importa. Inúmeros magos conseguem fazer isso de diferentes
formas. Pela meditação, pela dança, pela pratica de lutas, mas você tem que acreditar
fielmente. Essa é a única condição”.
— Esse é na verdade o primeiro exercício que um iniciado em magia tem de fazer:
vencer o ceticismo e atravessar o Véu. Liberar a Quintessência é a prova máxima de que
alguém despertou. De que se está livre do ceticismo. – e completou com um gesto
convidativo – Que tal tentar?
Ana ficou alguns segundos tentando imaginar como conseguiria fazer aquilo.
Olhava para o amigo atrás de respostas, mas este mantinha um olhar avaliativo sobre
ela, sem demonstrar nada. Usando a primeira coisa que lhe passou pela cabeça, ela
começou a cruzar as pernas, formando a posição de meditação, mas se sentiu ridícula
agindo assim. Olhou para Ian, mas ele ainda não demonstrava nada. Nem ria, nem
mostrava que estava fazendo certo. Ele só ficava ali, ajoelhado de frente pra ela,
esperando.
Desistindo de procurar respostas no olhar do amigo ela, decidiu manter a posição
e começou a se concentrar, tentando esquecer o constrangimento. Tudo bem. Começou a
refletir. Fazer minha Quintessência ficar visível. Como fazer isso? Mas o que diabos é
isso pra começo de conversa? Como vou saber se estou conseguindo se não sei o que
é?
Com suas inúmeras dúvidas, ela pôs as mãos em forma de cuia em cima da perna,
esperando que o que quer que aparecesse, fosse ali. Bem, concentrar, concentrar. Ana
se lembrava de uma aula de Ioga que teve e o conselho do instrutor era sempre deixar a
mente vazia. Não pensar em nada. Tudo bem. Não estou pensando em nada. Não estou
pensando em nada. Hei! Isso é pensar. Droga!
Ela abriu um dos olhos se permitindo uma espiada, mas nada tinha mudado.
Olhou para Ian e ele continuava paciente. Nada ainda. Ela começava a achar que não
seria capaz. Acreditar. Lembrou a si mesma. Tenho que acreditar. Mas como vou
acreditar em alguma coisa eu nem sei direito o que é? Não sei como é essa energia,
não sei como é sua cor ou forma. Como vou saber se estou tendo progressos?
Você simplesmente saberá. Falou uma voz no seu interior. Na hora, a garota levou
um susto com isso. Não por ter escutado uma voz, afinal isso meio que já fazia parte de
sua vida, mas sim por ter reconhecido quem era o dono dela. Uma voz que fazia anos
que não escutava. Uma voz que ela acreditava ter esquecido como era, mas viu que seu

145
subconsciente guardou-a exatamente intacta todos esses anos, como a um tesouro
precioso.
Ana se concentrou mais para ver se voltava a ouvir Teresa, mas esta se calou. Tá
certo. Acreditar. Decidiu continuar, mesmo abalada. Mas ainda assim era muito difícil.
Apesar de tudo o que presenciava, e de tudo o que Ian falar fazer sentido, ela não
conseguia abandonar uma ponta de dúvida. Acreditar cegamente era muito complicado.
Não se dava para evitar se sentir ridícula fazendo isso.
Ridícula. Essa era a palavra que a perseguia. Não conseguia ver o que estava
fazendo como algo que não fosse ridículo. Com certeza seria constrangedor se alguém
entrasse naquele quarto aquele momento e a visse sentada naquela posição. Assim como
era ridículo ver alguém com mais de dezesseis anos falando de bruxos e tudo mais. Mas
como falar dessas coisas sem se sentir ridícula? Quando alguém podia pensar nessas
coisas sem se sentir ridícula?
Quando se é louco, refletiu. Infelizmente a opção não era agradável. Realmente os
loucos têm total liberdade em falar dessas coisas. Eles são loucos mesmo. Nada do que
falem vai mudar sua real condição.
Seria essa única forma?
Ana. Escutou mais uma voz em sua cabeça. Era uma voz que Ana teve a certeza
que vinha em seu auxilio. Era a voz que vinha responder à sua pergunta. Era a voz de
Samanta.
Quando eu tinha minhas tias, concluiu. Esse era o período de sua vida em que ela
podia acreditar em tudo o que dissessem sem se sentir ridícula. Ana já teve a fé cega que
Ian falava. Ela tinha a fé cega em suas tias. Ela já foi criança. Quando ficou doente e
suas tias lhe deram o remédio de aparência e gosto horrível, Ana hesitou em tomá-lo?
Não. Porque suas tias lhe disseram que a faria se sentir melhor. Quando Ian lhe disse
que era um Garow, ela até duvidou, mas quando suas tias lhe contaram a história sobre
esse clã, ela duvidou? Não. Porque era criança.
Isso mesmo Ana, acredite. E agora a voz das duas eram bem presentes na cabeça
da garota. Elas falavam alto no coração de Ana. E elas diziam para Ana acreditar. Eram
suas tias. Ana não tinha como duvidar. Podia ser cética com tudo e com todos, menos
com elas.
E foi então que ela sentiu um calor abrasar seu corpo. Um calor agradável, que a
deixou com vontade de tirar o casaco, mas ela não se mexeu. Não sabia que sensação

146
era aquela, mas tinha certeza que, de alguma forma, estava tendo um progresso.
Continuando a se concentrar, sentiu que o calor de seu corpo começou a se canalizar e
se dirigir para as suas mãos.
Tentando conter a emoção, ela arriscou olhar mais uma vez as mãos e foi então
que, ao abrir os olhos, eles se encheram de lágrimas, pois agora uma pequena chama
arroxeada flutuava sobre elas. Apesar de o fogo estar bem vivo em suas mãos, ele
apenas causava um calor agradável. E uma sensação de profundo alívio inundou a
garota. Ela havia conseguido. Sabia que tinha.
Sem poder controlar a euforia, ela ergueu a pequena chama em direção a Ian,
como uma criança que queria mostrar o trabalho bem feito para um professor. Era a sua
áurea, sua Quintessência que estava ali. Sua prova máxima. E chorou.
Obrigado, agradeceu silenciosamente. Nesse instante ela olhou para Ian
procurando encontrar seu rosto orgulhoso, mas se surpreendeu ao dar de cara com suas
feições completamente pasmas.
— O que houve? – perguntou perplexa ao olhar as feições de Ian.
— É que... - ele pareceu ter dificuldades em encontrar palavras - Eu não...
imaginei que fosse conseguir tão rápido - completou espantado.
Ana tentou entender o que ele quis dizer com isso.
— Como assim? Você me disse para tentar uma coisa achando que eu não fosse
conseguir?
— Bem... S... sim – falou coçando a cabeça – Não imaginei que você fosse
conseguir tão rápido. Quero dizer... quase ninguém consegue isso tão rápido.
— Então...
— Só que, - disse recobrando a postura de antes - geralmente quando são iniciadas
em magia, as pessoas tendem a demorar até conseguirem liberar a Quintessência com
perfeição. Eu imaginei que assim como todos os outros, você precisaria de mais tempo.
Assim eu queria ver como seria sua reação quando não conseguisse. - continuou - Como
sua fé seria abalada. Mas vejo que não há mais necessidade de testá-la.
— Talvez não - concluiu a garota sorrindo e voltando a admirar a chama roxa que
dançava em sua mão. – É linda! - exclamou.
— É sim. – concordou olhando o fogo – Fazia muito tempo que eu não a via
brilhar assim. Estava com saudades.
— Como?

147
— Quando nos conhecemos – explicou – sua áurea era assim. Viva, brilhante.
Mas então você foi deixando de acreditar e o tempo a fez se apagar gradativamente, até
parecer completamente extinta. Era triste de se ver, mas nesse período em que você
deixou de ter fé, foi também o momento em que você demonstrava maior felicidade.
Apesar de não gostar, eu tinha que admitir que você estivesse melhor, mas era tão triste
ver seu fogo apagado daquela maneira.
Ana sorriu.
— Não sei como vivi tantos anos sem isso. – falou – Obrigada.
— Não por isso. – respondeu – Eu disse que estava te devendo. Eu devia ter te
contado sobre mim antes. Não devia ter deixado sua energia se apagar.
— Mas você fez isso agora. Não foi tarde demais – ela sorriu para o amigo e ele
retribuiu.
Seus rostos estavam muito próximos naquele instante, colados para poder ter uma
melhor visão da pequena chama arroxeada, porém, agora que se olharam e perceberam a
proximidade de suas faces, ela começou a sentir um forte calor em seu peito, que sabia
não ter nada haver com o fogo que segurava.
E uma vontade de chegar mais a frente lhe tentou, queria encurtar as distâncias
sem saber exatamente o porquê em sua cabeça. Parecia simplesmente que aquilo
precisava acontecer, não sabia porque. Mas o garoto desviou o rosto no último instante e
se deitou no chão, passando a olhar o teto. Mesmo levemente frustrada, ela se deitou ao
seu lado decidindo ignorar o ocorrido.
Quando se deitou ao lado de Ian, a chama em sua mão apagou-se
instantaneamente devido à quebra na concentração, mas a garota não se importou, pois
sabia que poderia conjurá-la novamente no futuro. E assim, deixou-se ficar ali, ainda
eufórica com as revelações. Os dois ficaram mudos enquanto Ana aproveitava a alegria
recém adquirida.
Sentindo uma leve sede, lembrou-se do refrigerante ao seu lado e o pegou
levando-o à boca, mas só para depois tirá-lo, pois estava quente. Ao ver sua cara de
desagrado, Ian estendeu a mão pedindo a bebida e ela o entregou. Segurando a garrafa
com uma das mãos, Ana viu uma pequena bolinha, assim como a sua chama só que de
um azul muito claro, se formar dentro da garrafa.
— Toma – devolveu Ian – Veja agora.

148
Ana provou e o liquido estava gelado. Muito mais que antes. Era como se
estivesse no congelador há semanas,
— Obrigado. - agradeceu - Mas porque resolveu me dar uma demonstração agora?
— Não foi uma demonstração – corrigiu – Foi apenas um favor. Não preciso mais
lhe dar demonstrações, pois você não é mais uma adormecida. É uma maga, assim como
eu.
Ana sorriu de novo. Estava tão feliz e agora estava mais cheia de dúvidas que
nunca. Queria perguntar tudo o que pudesse. Todas as dúvidas sobre o mundo de Ian, do
qual agora fazia parte. O garoto a olhou parecendo prever o interrogatório iminente.
— Pode começar - encorajou. - Pergunte o que quiser.
— Bem, assim... se é tão simples assim... Por que tantas pessoas vivem sem
saber?
— Primeiramente. – interrompeu levando o dedo à boca da garota – Não é
simples. Pra você foi. Provavelmente você é uma prodígio.
— Uma prodígio? - Ana gostou do nome, apesar de não compreendê-lo
completamente.
— Sim. É assim que chamamos uma pessoa que tem aptidão nata à magia.
Sentindo-se lisonjeada, Ana tentou não expressar seu ego que estava inflando por
dentro como um balão.
— Seu maior problema foi vencer o ceticismo – comentou Ian, parecendo querer
acabar com seu momento prepotente – Mas depois que venceu isso, conseguiu.
— É verdade - se limitou a dizer, mas ela ainda pensava com animação, Eu sou
um prodígio.
— Pois bem, – continuou – respondendo a sua pergunta. Não é tão simples ser
mago nos dias de hoje. Perdemos várias batalhas nos últimos séculos Ana e ninguém é
muito tentado a entrar para o lado perdedor. Hoje somos uma minoria e aprendemos
com o passado que magia não é brincadeira.
“Hoje em dia escolhemos muito bem aqueles a quem passamos esse segredo. É
muito perigoso espalhar isso pra todo mundo. Até porque a inquisição ainda não
acabou.”
— Sério?

149
— Bem, os inquisidores venceram a guerra exterminando várias Irmandades
Mágicas e hoje sua principal função é garantir que não voltemos. – e continuou com um
ar sombrio – Enquanto existirem magos no mundo eles existirão.
— Mas quem são eles?
— Eles não são tudo, mas estão em toda a parte. Eles fazem parte de um grupo
seleto com sedes em quase todos os países do mundo. Sua principal função é garantir o
extermínio das últimas sociedades mágicas e manter a magia presente apenas em
literatura de ficção.
— E como eles fazem isso? – Perguntou.
— Espalhando pessoas nos principais setores estratégicos do mundo: eles são
agentes do governo, pessoas das forças armadas, agentes secretos, entre outros. Eles são
banqueiros, cientistas, homens da imprensa. Eles estão no controle do mundo. E estão
alerta para qualquer deslize nosso para... - e com a mão em forma de lamina, Ian
simulou uma guilhotina – Zap!
Ana estremeceu.
— Por isso não é seguro nos espalharmos muito. - explicou – É por isso que
escolhemos muito bem a quem podemos ajudar a atravessar o Véu e muito mais ainda a
quem podemos tomar como discípulos. É bem melhor ter alguns poucos peixes
competentes no cardume do que várias iscas de tubarão.
Discípulo? Ana sentia uma expectativa muito grande no rumo do assunto, mas
não queria se apressar.
— E ainda possuem outras complicações além dos Inquisidores. - comentou.
— Como quais?
— Bem – disse ele se levantando para poder gesticular melhor enquanto explicava
– Como eu já disse, magia tem uma tendência ao caos, certo? – Ana confirmou com um
gesto de cabeça – Assim, muitos magos não estão psicologicamente prontos para usá-la
e muitos ficam loucos com tanto poder em suas mãos. Nós os chamamos de Caóticos.
“Os caóticos são magos que foram corrompidos pela magia de tal forma que
perderam a completa noção das coisas. Eles tendem a gerar bagunça por onde passam.
“Eles foram os principais responsáveis pelos desastres que acometeram a Idade
Média. Incluindo a Peste Negra”.
— A peste negra foi fruto de magia? – Ana se levantou ficando frente a frente
com Ian.

150
— Sim – respondeu o garoto – Guerra biológica não é coisa de hoje. A peste
negra era um projeto de arma mágica que tinha como função básica criar uma forma de
vida com uma simples programação: a de se instalar num hospedeiro, destruí-lo e se
espalhar para outro. Não me lembro do mago responsável por sua criação, mas
independente de quem fosse, perdeu o controle quando as pulgas que estudava
escaparam. Daí o caos se instalou e o resultado você já sabe.
— Dois terços da população européia faleceram. - completou Ana.
— Sim. Por sorte, a cura pôde ser encontrada antes de um genocídio em massa.
Mas o importante disso é saber o porquê dos magos atuais preferirem trabalhar com
poucos discípulos. È maior garantia que não venham a ficar desgarrados e se tornarem
corrompidos pela magia.
— Entendo.
— Mais alguma dúvida?
— Várias. – Ana viu que Ian parecia animado em explicar todas aquelas coisas à
garota, por isso tentou arriscar – Está a fim de me explicar?
Ele se levantou e estendeu a mão para a garota oferecendo ajuda a para ela o
seguir.
— Claro! - disse – Mas estou com fome, então vai ser enquanto comemos.
— Por mim tudo bem - disse Ana enquanto pegava a mão de Ian. Não queria
falar, mas também estava morrendo de fome.

151
18 – A Bússola de Inês.

O telefone chamou uma, duas, três vezes até que Ângelo pôde ouvir a voz do
Frade.
— Alô.
— Frade Henrique! Aqui é Ângelo. Eu queria falar com o bispo.
— Ele não pode atender no momento, Ângelo. - informou o frade - Está
descansando. O bispo teve uma noite muito longa e têm compromissos de manhã cedo.
Ângelo mordeu o lábio inferior de aflição. Não queria ser inconveniente, mas a
situação pedia.
— Será que não é possível chamá-lo. Diga-lhe que tenho uma teoria quanto ao
sonho dele.
— Ângelo - o tom de voz do frade era de um sarcasmo controlado - Estamos
trabalhando nisso. Não se preocupe com coisas que vão... – ele escolhia as palavras -
além de sua capacidade. Deixe isso pra nós e se limite a responder ao chamado do
Bispo, como combinado. César está muito cansado depois de atender a uma reunião
muito importante.
— Mas...
— Já chega Ângelo!- cortou o homem - Mas será que você não sabe seguir
ordens? – e desligou, deixando o garoto falando sozinho.
Ao escutar o som da chamada cancelada ele se revoltou batendo o telefone no
gancho. Cara, eu estou começando a odiar esse maluco. Ângelo queria contar sua teoria
para o bispo, mas maldita hora em que quem foi atender foi o frade. A cada segundo o
desgosto por Henrique aumentava no peito do garoto.
Não sabia o porquê, mas aquele homem resolveu tomar implicância por ele.
Queria só dizer o que veio a sua mente. Uma Possessão Incubada, ele pensou. Chegara
a essa conclusão após ler o livro e se lembrando de uma aula que teve com César. De
acordo com o que lembrava, alguns demônios tinham a capacidade de se alojarem
dentro de um hospedeiro para só despertar anos mais tarde. Nesse caso, as vítimas eram
sempre embriões, que dentro da barriga da mãe, recebem a alma demoníaca.
Nesses casos, a criança nasce normalmente e tem uma vida comum, até que se
chega a certa idade – que é variável, dependendo do caso – e a alma do ser toma todo o
corpo e assim, o imortal está livre para andar pelo mundo. Normalmente os demônios

152
usam esse tipo de prática quando há um pacto pré-estabelecido com alguma pessoa –
geralmente bruxos – que entregam seus filhos antes de nascerem em troca de algum
favor. Ou quando, por algum motivo, querem garantir sua vinda numa hora para eles
mais apropriada.
Em geral, a Possessão Incubada tende a ser mais forte que a comum, já que o
grau de ligação entre hospedeiro e alma é mais forte, já que se dá desde o útero materno.
Fazia sentido, concluiu. Ângelo lembrou-se da interpretação de Cassandra sobre o
sonho dizendo da iminência do surgimento do demônio. Se fosse uma Possessão
Incubada, deveria ser o caso de estar perto do momento em que o demônio acordaria
por dentro do corpo de seu hospedeiro.
Devia ser isso, mas o que ele mais queria não era apenas contar isso. Ângelo
também havia pensado numa fórmula para localizá-lo: a Bússola de Inês. Conta-se a
lenda que Inês foi uma grande maga nascida na Itália e que preocupada com a perda de
seu filho, usou de todos os meios mágicos para localizá-lo. Depois de muitas pesquisas
e tentativas frustradas, Inês conseguiu realizar uma magia de localização tão poderosa
que não poderia ser mantida através do corpo do mago, sendo necessário o uso de algum
artefato para tal feito.
Tal magia consistia no uso de um objeto mágico para se localizar outro mago ou
criatura mágica qualquer através de seu padrão de energia. Com uma amostra de
Quintessência, seria possível se criar uma bússola que indicasse a direção do dono da
energia utilizada. Era uma solução um tanto óbvia, mas que podia dar certo. E Ângelo
tinha as duas coisas de que precisava: Um artefato, que era a sua cruz e a energia do
demônio a ser localizado.
O garoto se lembrava bem do sonho do Bispo e da energia que sentia sendo
emanada dele. Aquilo só podia ser seu padrão mágico. Às vezes as coisas que estão na
nossa frente são aquelas que mais temos dificuldade de enxergar, não sabia de onde
veio esse ditado, mas cabia bem no momento.
Talvez o bispo ficasse impressionado com tal idéia. Gostaria que sim. Tinha muito
a agradecer a César por tudo o que fez a ele. E, além disso, também tinha uma louca
vontade de jogar sua descoberta na cara do frade. Além de minhas capacidades, Ele vai
ver. E ignorando a ordem de Henrique, decidiu ir para a igreja mesmo sem ser chamado.

153
19 – Mestre.

A chuva parecia não querer cessar naquela noite e continuava a agredir com força
o Rio de Janeiro. Porém, protegidos dentro da Casa de Ian, os dois pouco se importavam
com ela e naquele momento estavam mais interessados em encher o buraco de seus
estômagos do que com a tormenta que caía. A passagem pela cozinha foi rápida e logo
eles subiram com seus sanduíches, Ana com um e Ian com três.
— Tem certeza que não vai sentir fome? – advertiu o garoto.
— Nem todos nós temos um buraco negro no estômago. - lembrou a garota.
— Você quem sabe - e saíram da cozinha.
E foram subindo a passos largos até voltarem ao quarto. Ainda estavam sozinhos
em casa, mas era melhor não serem surpreendidos quando os pais de Ian chegassem e
ouvissem historias tão malucas quanto aquelas de que estavam tratando.
Chegaram em cima e não falaram mais nada, aproveitando o tempo para matar a
fome. Ana se sentiu mais aliviada ao notar o ar de descontração do garoto. Era como se
um peso tivesse saído dele e agora tudo corria muito bem. Eles tinham recuperado a
intimidade e podiam falar sobre todos os assuntos um com o outro de novo. Odiava
esconder coisas de Ian e odiava ainda mais que ele escondesse coisas dela.
Na verdade, ainda tinha uma coisa que ele ainda não havia contado. Ela se
lembrou de Solange e sentiu uma pontada de raiva que quase lhe tirou o apetite.
— Ian – chamou.
— Fala. – respondeu depois de engolir um pedaço generoso de pão.
— Tem mais alguma coisa que você queira me contar?
— Como assim?
— Sei lá. - tentou dar pouca importância – Algo que eu não saiba e que precise
saber?
Ele ficou em silêncio e Ana sentia que tinha tocado num ponto importante. Havia
alguma coisa e ela aguardou mais um pouco enquanto Ian fitava o chão, evitando olhá-
la nos olhos. É tão serio assim? Começou a se questionar.
— Eu disse que vou responder às suas perguntas – ele falou – É só você perguntar
– e deu mais uma mordida sem vontade.
— Tá bom – queria perguntar logo, mas sentiu-se envergonhada com a reação que
havia causado. Não queria perturbá-lo com suas neuras. Até porque isso não era da

154
conta dela. Pensando mais em algum outro assunto, lembrou-se do beijo que deram na
piscina. Da intensidade, do desejo em seus olhos. E tão rápido quanto vieram, essas
imagens foram expulsas da cabeça da garota. E continuou vasculhando a sua mente
atrás de novas questões.
E como não vinha nada de novo na cabeça, aproveitou para continuar comendo
enquanto deixava a cabeça viajar atrás de novas dúvidas. Enquanto mastigava, Ana
percebeu que havia subestimado a sua fome. Estava acabando seu sanduíche e sentia
que precisava de outro, até que notou um dos lanches de Ian no prato. O garoto estava
muito focado fitando o nada, com certeza ainda pensando no que ela havia falado. Mas
o que importava agora para a garota era que ele focava tanto no nada que nem prestava
atenção no pobre sanduiche que ficara preterido no prato. Talvez tivesse perdido a fome.
E sentiu que um diabinho soprava essas coisas a seu ouvido.
Então, quando Ian finalmente terminou e voltou à atenção ao prato, seus olhos
bateram de cara no vazio. Ele engoliu as pressas o último pedaço que tinha na boca e
soltou uma exclamação:
— Hei! Porque você não pediu mais um?
— Foi mal – se desculpou as pressas enquanto tentava parar de rir para não se
engasgar com o sanduíche de Ian – Não pensei que estivesse com tanta fome.
O garoto conseguiu sorrir em resposta embora olhasse para o prato sentindo a falta
que aquele último sanduíche iria lhe fazer.
— Bem - começou Ian, limpando a boca – Que tal continuarmos?
Ele havia recuperado o humor
— Por mim tudo bem.
— O que mais você quer saber?
Tirando Solange da cabeça, Ana queria começar a perguntar sobre suas tias e
principalmente o que aconteceu a elas, mas achou que eram perguntas pesadas demais
para começar. Ainda sentia tristeza quando falava delas.
— Não sei... - disse contemplativa – que tal me falar sobre alguns mitos? –
propôs.
— Como quais? - interrogou o garoto.
— Bem... – começou a pensar – Cruzes! Bruxos são repelidos com cruzes?
Ian achou graça da pergunta, mas respondeu o mais sério que conseguiu.
— Mito. Pelo menos não da maneira como está pensando.

155
— Me explique – pediu interessada – É que as lendas falam disso. – argumentou.
— Bem – começou, olhando-a nos olhos - Não existe nada demais no símbolo da
cruz que faça um mago ou bruxo recuar. Não somos criaturas demoníacas e por isso não
precisamos temê-las. Mas existem algumas coisas que ajudaram a criar esse mito:
“Primeiramente, você tem que lembrar que a Igreja foi a líder do processo de
Inquisição. Processo esse que exterminou milhares, para não dizer milhões, de magos
no mundo inteiro. Com o passar dos anos, era óbvio que o símbolo da Igreja passasse a
ser temido pelos praticantes de magia. Não porque ele tivesse alguma forma de nos
esconjurar, mas sim porque ele significava um símbolo de morte para os de nosso
grupo".
"O que os magos sentiam quando viam alguma cruz era o mesmo que sentia os
judeus ao vislumbrarem a Cruz Suástica do nazismo. A certeza de que morreriam. E até
hoje esse símbolo ainda guarda esse estigma, já que os inquisidores ainda usam a cruz
como emblema oficial”.
“Em segundo, podemos dizer que a própria cruz nem sempre foi apenas um
símbolo de adoração, e sim uma arma. Existe um tipo de culto mágico ligado aos
setores ultraconservadores da Igreja que se nomeava de a Ordem dos Iluminados. Esse
grupo foi um dos pioneiros na luta contra as outras irmandades mágicas do planeta,
alegando que estas obstruíam a ordem no mundo".
"Esse grupo desenvolveu uma forma de utilizar alguns metais que possuem
capacidade de absorver prioridades mágicas. Não sei que espécies de metais são. Isso é
um segredo dividido apenas entre os membros da ordem. Mas o importante é que eles
eram especialistas em criar armas mágicas. E em homenagem a seu culto, a arma
preferida deles era justamente a cruz. Uma estratégia que foi muito útil, pois se tratava
de um armamento facilmente disfarçável. O que é importante entender nesse caso é que
muitas vezes quando um clérigo erguia a sua cruz contra um membro, nem sempre ele
estava mostrando apenas um símbolo e sim uma arma.”
— Mas está Ordem dos Iluminados era também uma irmandade mágica? Então
por que eles lutaram tanto contra outros magos?
— O objetivo deles não era acabar com a magia no mundo, mas sim com as
guerras mágicas e estabelecer uma ordem suprema. Com eles no poder logicamente. Os
conhecimentos que eles obtinham eram de muito valor para a Inquisição e isso lhes
valeu uma aliança com os Inquisidores que durou séculos.

156
— E o que aconteceu depois?
— Como já era previsto por quase todos, os Inquisidores não poupariam nem seus
aliados na hora de exterminar a magia no mundo, e assim os Iluminados também
entraram para a lista negra.
— Bem feito - Ana já esperava por esse fim, dando de ombros.
— Pode até ser. - concordou Ian com algumas dúvidas - São traidores, mas
mesmo assim são muito poderosos. Seriam úteis para nós se as irmandades mágicas não
fossem tão relutantes em tentar dar um voto de confiança.
— Eu não sei se eu poderia confiar neles novamente.
— Sei que é difícil. Mas estamos numa guerra, e nela aliados são melhores que
inimigos. Sem falar que hoje esse grupo está totalmente isolado. As circunstâncias
poderiam fazê-los se aliarem a nossa causa.
Ana acabou agora de comer seu sanduíche e pensou na próxima pergunta:
— Então quer dizer que aquele papo das bruxas terem pacto com o diabo é mito?
— Não.
— Não?
— Não – repetiu - Existe uma classe de magos que não adquirem seus poderes
através do esforço, ou não totalmente através dele. Esses são os bruxos. São mágicos
que garantem seus poderes através de pactos com outros seres. Esses são classificados
como bruxos, assim como suas tias.
— Você está querendo me dizer que... – Sem perceber, Ana deixou que sua voz se
elevasse alguns oitavos, pois não podia acreditar que Teresa e Samanta tinham pacto
com alguma coisa ruim.
Porém, antes que pudesse completar a frase, Ian pôs o dedo na sua boca,
impedindo-a de continuar.
— Calma – pediu – Me deixe explicar. Existem vários tipos de nomenclaturas
para os mágicos no mundo.
E vendo que a garota se acalmava, ele continuou:
— Magos são aqueles como eu, que são especialistas em mágicas ofensivas. Isso
não me impede de saber outros truques, mas minha educação foi feita para o ataque e a
defesa.
“Feiticeiros, são aqueles especialistas em mágicas de controle da mente. Eles
conseguem somar o poder de persuasão às suas magias. È muito comum se ter

157
feiticeiros andando pelo mundo com caravanas de circo ou grupos ciganos e geralmente
não são bem vistos, por serem considerados pouco confiáveis”
“Seguindo uma linha da feitiçaria, temos os Ilusionistas, que são aqueles que
conseguem alterar parcialmente a realidade. Pelo menos alterá-la para os cinco sentidos
de suas vítimas.
“Necromantes são os magos especialistas em mortos. Espíritos, cadáveres e
exumação são seus tópicos favoritos.
“E Bruxos, são aqueles que adquirem seus poderes através de pactos com outras
entidades. Demônios são os mais comuns”.
Ao notar a boca da amiga se abrindo ele fez mais um movimento para que ela se
calasse e continuou como se nada tivesse acontecido.
— Mas não são os únicos. – completou rapidamente - Também existem outros
tipos de pactos e Magos que utilizam deles são conhecidos especificamente como
Druidas. Druidas são aqueles que recebem seus poderes dos espíritos ligados à natureza.
São pessoas que gostam da vida ao ar livre e são grandes conhecedores de feitiços
naturais e remédios baseados em ervas.
— Isso faz o perfil das minhas tias - comentou Ana com um tom mais autoritário,
como se Ian não fosse acreditar nela.
— Eu sei - ele respondeu – Pelo que você me contou é isso mesmo. Elas
provavelmente conheciam os espíritos que habitavam as matas próximas de Três
Corações.
Ana se sentiu mais calma e até experimentou um pouco de constrangimento por
ter explodido antes. Mas Ian não perecia ter se importado. Tantas dúvidas ela tinha. Era
incrível como Ian, com seus dezesseis anos apenas, soubesse tanta coisa e conseguisse
passar tão bem. Começava a admirar esse lado.
Ian o professor. Será que isso a tornaria Ana a aluna? Sim, mas aluna ao ponto de
ser uma discípula? Tomara. Seria bom ter ele como um mestre, afinal, Ian já a estava
ensinando tanta coisa. E ela voltou a sentir a animação de antes.
Aprender com um Garow. Pensou animada. Sem querer estava realizando um
sonho, ou até uma promessa que havia feito para suas tias na última noite em que as viu.
E foi pensando nisso que se lembrou da maior dúvida que tinha na vida e que nem
passara por sua cabeça durante o interrogatório. Que momento melhor que esse para
descobrir um dos maiores mistérios do mundo mágico?

158
— Meu clã, por exemplo – continuava Ian, sem perceber os devaneios da garota –
é um clã de magos, mas também de necromantes. Apesar de nossa vinculação com a
natureza, essa era mais uma forma de vida do que um pacto real com os espíritos do
local. Muita gente acreditava que por termos uma afinidade com os lobos da região e
por podermos controlar o clima gelado, isso era um presente das entidades do gelo. Mas
não, era fruto de trabalho mesmo – completou, cheio de orgulho.
Garows. Como desapareceram? E como Ian sobrevivera? Seus pais também eram
Garows? Então por que apresentam características tão diferentes dos demais de seu
grupo? Eram tantas dúvidas sobre ele. Resolveu tentar:
— E você? – comentou animada – Por que não me conta um pouco da sua história
e do seu clã?

Ana não poderia explicar o que tinha acontecido de errado naquele momento. Ela
não sabia como, mas era como se toda a leveza do local, todo o clima amistoso, tivesse
sido tragado para longe do quarto. A expressão de Ian, que era até então de animação,
começava a demonstrar um profundo pesar. Ele fitava o chão como se estivesse
envergonhado, sem coragem de olhá-la nos olhos.
Agora, a chuva voltou a se tornar presente no local quando o único som ouvido foi
o de sua água e seus trovões castigando a Vila da Penha.
— Eu fui mesmo um idiota em pensar que você não faria essa pergunta, não é
mesmo? – comentou Ian com um sorriso desolado olhando o chão.
Mesmo curiosa com tal reação, Ana começava a se arrepender de ter feito a
pergunta. Talvez fosse melhor mudar de assunto, pois aquela mudança de humor era
opressora e o silêncio que se ficou entre eles, insuportável.
— Esquece Ian, não precisa... – a garota tentou consertar, mas em nada adiantou.
— Ana – disse levantando o rosto e encarando a garota – Desculpa.
— Por quê? – Ana tentava forçar um sorriso, mas a expressão desolada do amigo
a impedia. – Você não fez nada.
— Fiz sim. Escondi de você uma coisa muito importante e te coloquei em perigo.
Perigo? Ana tentava entender o que ele dizia quando sua mente a levou
instantaneamente para a noite do primeiro beijo. E foi quando lhe veio à imagem dos
olhos azuis. Olhos desejosos, olhos com certa dose de fúria. Lembrou-se de como Ian

159
havia ficado perturbado, de como ele tremia, como tinha fugido dela. Teria algo haver
com aquilo? Tinha certeza que sim.
— Ian, não precisa me contar se... - tentou argumentar, mas ele continuou como se
ela não existisse.
— Preciso sim. Ana, você não sabia com quem estava lidando todos esses anos e
foi apenas meu egoísmo quem me impediu de contar tudo antes. Eu tinha medo que
você nunca mais quisesse ficar comigo depois de saber a verdade. Tinha medo que você
me olhasse com medo ou desprezo, assim como todos fizeram depois que souberam e…
- ele falava rápido demais. Dava para ver a ânsia dele em tentar se justificar e Ana
começou a ficar assustada.
Não estava acostumada a vê-lo assim.
— Ian, chega! – agora foi a vez de Ana tampar a boca do garoto - Eu não estou
entendendo nada do que você está falando.
Ele conseguiu se calar por um segundo e Ana esperava que Ian conseguisse dar
clareza ao que dizia. O que poderia ser tão horrível assim que lhe causasse tanta
mudança?
— Ana – ele se recompôs antes de continuar – eu só quero dizer que sinto muito.
Eu lhe escondi uma coisa muito importante e que... Se você não quiser falar mais
comigo depois disso, tudo bem eu...
— Ian – Ana o interrompeu de novo.
— Quando eu terminar você vai poder entender algumas coisas sobre mim. Na
verdade muita coisa. O porquê de eu não ter lhe contado tudo antes, ou o porquê de eu
ter lhe evitado no sitio.
Ana sentiu seu corpo estremecer. Então era isso mesmo.
— Vou lhe contar minha história como você pediu. Afinal, eu lhe prometi contar
tudo o que você quisesse saber. Então... Lá vai.

160
20 – Jogo perigoso.

Ângelo chegou ofegante à Igreja da Iluminação. Foi uma bela corrida de sua casa
até ali e a chuva o deixara completamente ensopado. Mas o importante era que agora
podia continuar com seu plano. Eram onze da noite e provavelmente apenas o bispo
estaria ali. Ele era o único que passava a noite na igreja e nem mesmo o frade ficava até
tal hora, pois César proibia alegando que sua saúde ainda não necessitava de uma
enfermeira de plantão vinte e quatro horas.
Melhor assim, sem o frade ele teria mais liberdades dentro da igreja. Aquele
homem começava a irritar tanto o garoto que ele começou a lamentar o bispo ter
chegado a tempo e impedido seu confronto. Não tinha certeza se venceria, mas gostaria
de ter tentado.
Mas não tinha tempo para ficar se indignando. Então, correu para o quadro atrás
do altar e abriu a passagem que dava para a sala secreta do bispo. Chegando lá, o local
estava iluminado por uma única luz púrpura que vinha de dentro da lareira e o único
som que vinha de dentro da sala era o do sonho do bispo.
Acertei. O bispo estava obcecado com aquele sonho.
Agora que Ângelo sabia de tudo, César não se incomodava mais em deixar aquela
reprodução do sonho na lareira vinte e quatro horas por dia. Da distância da entrada da
câmara, Ângelo já sentia a energia emanada mesmo naquela reprodução. A criatura era
assustadoramente poderosa. Seus pelos se arrepiavam todos só ao se aproximar.
Segurando com firmeza seu crucifixo, pronto para recolher um pouco daquela
energia emanada pelo bebê deformado, Ângelo avançou. Mas foi quando uma coisa
chamou sua atenção. Num sofá, no canto da sala, ele viu um volume coberto por uma
colcha xadrez. Ao se aproximar um pouco, viu que alguém dormia ali e ao observar o
tamanho do volume, sabia que se tratava do bispo. Ângelo queria falar com ele, mas
notando seu sono profundo, decidiu continuar sem ele.
Por que está dormindo aqui?
Ignorando aquele fato, Ângelo se aproximou da lareira até chegar a uma distância
boa e apontou a seu crucifixo para a chama, sussurrando algumas palavras em latim
com os olhos fechados. Foi então que, ao abrir novamente os olhos, ele pôde ver a áurea
negra flutuando das chamas até a ponta de seu crucifixo. Estava completa a magia e a
ponta de sua arma começou a se tornar negra como a energia emanada.

161
Perfeito, agora era só levar para casa e ali ele terminava o encantamento da
Bússola de Inês. Amanhã poderia comentar com o bispo sua idéia. Mas ao se virar, ele
acabou esbarrando na mesa ao seu lado, fazendo um cinzeiro de vidro cair e se espatifar
no chão. Ângelo fechou os olhos, já escutando previamente as reclamações que o bispo
lhe daria. Primeiro, por ter o acordado, segundo, por ter quebrado o cinzeiro e terceiro,
por ter vindo sem autorização.
Mas nada aconteceu e o garoto voltou a abrir os olhos e viu que César se mantinha
na mesma posição, sem nem ao menos ter se abalado com o barulho. Estranho. O bispo
era famoso por ter um sono tão leve quanto o de um cachorro. Como ele não acordou?
Agora a curiosidade de Ângelo começava a se transformar em apreensão e foi com ela
que ele se achegou ao leito do bispo, sacudindo-o de leve.
— Bispo. – dizia em um tom moderado – Mestre! Acorde.
Ao tocá-lo, Ângelo sentiu que sua pele estava demasiadamente quente.
Preocupado, ele levou os dedos indicador médio aos próprios olhos, tocando-os de leve.
Após retirá-los, pôde ativar sua Visão da Áurea e ao olhar para o bispo novamente, seus
olhos estavam dominados pela cor branca onde não mais se podia reconhecer nenhuma
íris ou pupila. Ao encarar o bispo, o garoto levou um susto ao notar que sua áurea se
encontrava muito fraca, apresentando várias pequenas chamas prateadas quase se
extinguiam no corpo de César. Fracas como estavam, parecia que se apagariam a
qualquer momento e Ângelo começou a se alarmar achando que ele estava morrendo.
Porém, com uma boa olhada, pôde perceber também que sua áurea se mantinha
estável. Muito fraca, porém estável. O que considerava que ele não estava em risco de
vida, mas sim muito cansado. O que ele fez para estar tão fraco? E foi então que se
lembrou da doença. Doía pensar nela. Era incrível como uma mera enfermidade podia
por abaixo um dos homens mais poderosos que já conheceu.
Apiedado, Ângelo o cobriu melhor com a manta xadrez, para protegê-lo do frio
que conseguia adentrar as grossas paredes do Templo. Agora, seu olhar, já de volta ao
normal, passou para o cinzeiro caído no chão aonde, agora percebia, também haviam
inúmeras pontas de cigarro caídas.
Que sujeira. E se recolheu para limpar. Mas aquilo era de um tanto estranho
também, pois o garoto sabia que nem o bispo nem o frade fumavam. Então eles haviam
recebido visitas. Mas de quem? Henrique falara que César estaria descansando depois
de uma longa reunião, mas quem teria a permissão de César de fumar ali dentro?

162
Provavelmente alguém muito poderoso ou interessante demais para ser expulso por
macular aquele lugar com o cheiro insuportável de tabaco.
Curioso. O garoto ficou aflito por, mesmo acrescido ao grupo, ainda desconhecer
tantas coisas que ocorriam. Por que todos escondiam as coisas dele? Porque ele não
podia saber que teriam visitas?
Mas o que mais lhe preocupava agora era o bispo. Parecia tão vulnerável naquele
estado. Vasculhou o lugar à procura dos remédios e viu que o pote estava em cima da
mesa onde antes estava o cinzeiro. Abriu e pegou um comprimido que o frade Henrique
preparou. Era inútil, pensou consigo mesmo. O próprio frade disse que isso não o
salvaria. Servia apenas para aliviar sua dor.
E colocou a pílula no bolso da calça se sentindo desolado. Não se podia fazer nada
por ele. Ângelo começava a sentir uma tristeza misturada com a sensação de
impotência. Se pudesse fazer alguma coisa por ele pelo menos. Mas ainda tem a sua
missão, concluiu. Sim. A missão de que tanto o Bispo quanto o Frade Henrique queriam
concluir. A última atitude do bispo antes de falecer.
A missão pela qual ele estava se arriscando enquanto queria manter Ângelo
seguro. Agora, mais do que nunca, o garoto se sentia envolvido. Tinha que continuar e
tentar resolver esse caso antes que... antes que... não queria pensar.
Ele deu um beijo na mão do mestre pedindo sua benção em silêncio e correu para
terminar de arrumar a bagunça que tinha feito. Ainda estava intrigado com as cinzas
pelo chão, até que notou que além do cinzeiro e dos remédios, havia também um
terceiro item em cima da mesa. Era uma espécie de livrinho, com capa de couro negro
que lembrava muito uma bíblia de bolso. Depois de limpar a sujeira e se desfazer do
cinzeiro, ele voltou sua atenção para o pequeno livro. Ao abri-lo, seus olhos se
arregalaram.
Era um caderninho onde continham uma lista de nomes e números de telefone e
aonde Ângelo reconheceu a letra erudita do frade Henrique escrita nele. O caderno de
contatos do frade. Ângelo sabia que o frade Henrique tinha uma série de contatos
espalhados pelo mundo em diferentes organizações mágicas e tribos perdidas. Durante
sua juventude, o frade Henrique foi responsável por uma série de trabalhos diplomáticos
e de espionagem em nome da Ordem dos Iluminados, conseguindo ao longo dos anos
uma série de informantes que ele mantinha guardados seus dados naquele caderno.

163
Ângelo só deu uma olhada naquele livro umas duas vezes em sua vida. O frade
era muito ciumento com relação a ele. Para Henrique, aquela agenda devia ser tão
importante quanto à bíblia. Ângelo não sabia como Henrique poderia esquecer uma
coisa dessas ali.
Folheando as páginas, ele encontrou o número de Cassandra, a cigana que Ângelo
vira quando vasculhava o passado daquela sala. Também notou um nome estranho –
Rauch – que passaria despercebido por ele se não fosse uma anotação que vinha ao seu
lado – Inquisidor.
Ângelo apostava tudo o que tinha como era com esse tal de Rauch que o bispo
mantinha contatos com os Inquisidores, já que era o único número da lista que continha
essa anotação. Os demais vinham com citações de outros grupos mágicos espalhados
pelo mundo.
Ele limpou as mãos sujas de cinzas antes de tocar na página, quando de repente
uma coisa lhe saltou a mente. Rauch. Ele sabia o que aquilo significava. Era o alemão
para fumaça. Fumaça. Ele olhou de novo para onde antes estava o cinzeiro e as palavras
do frade lhe voltaram na lembrança.
César está muito cansado depois de atender a uma reunião muito importante.
E se esse Rauch fosse o responsável por todas essas guimbas de cigarro ali
espalhadas? Eles haviam atendido a um Inquisidor ali? Bem na sede da Igreja da
Iluminação? Aquela igreja era a menina dos olhos do bispo, ele não poderia ter feito
isso. E onde estava o frade? Porque saíra sem o seu caderno? Ele sentia que alguma
coisa estava errada. Muito errada. E foi então que a mesma sensação incômoda o
acometeu. Havia algo que ele deixara passar?
Estariam em perigo? Teria acontecido algo? E o bispo? Onde estaria o frade
naquele momento? Por que deixar o bispo naquele estado? Por que deixar seu caderno
ali?
A cabeça do garoto ameaçava explodir a qualquer momento devido ao estupro que
as questões promoviam em sua cabeça. Sentindo-se tonto, ele resolveu sentar num
banco próximo e organizar seus pensamentos. Alguma coisa estava estranha. Ele podia
sentir. E foi quando se lembrou das palavras de Cassandra.
Em todos esses momentos são nossos sentidos captando as energias que circulam
pelo universo. Porém, geralmente só percebemos aquilo que os nossos cinco sentidos

164
captam e nos esquecemos de outro sentido que também faz parte de cada ser: a
intuição.

A intuição é o sentido humano que está mais intimamente ligado a essa vibração
das energias no mundo. Mas ela fica constantemente subjugada pelos demais, que a
impedem de agir.

Esse sentido tende a ficar incubado na maioria dos seres humanos e basicamente
só se manifesta, em casos extraordinários, como quando temos algum pressentimento
ruim.

Ah, para com isso. Ordenou a si mesmo.


O que estava acontecendo? Nunca fora assim. Que idéia era essa de ficar tão
perturbado? Tinha que se acalmar. Havia ouvido aquela mulher demais e agora
começava a ficar meio biruta também. Deve haver uma explicação lógica.
Só porque o nome Rauch significava fumaça não quer dizer que a pessoa que
esteve aqui seja ele. Embora fumaça fosse um bom codinome para alguém capaz de
tragar tantos cigarros numa conversa, o bispo jamais permitiria uma reunião com um
Inquisidor dentro de sua Igreja.
E acabou rindo nervosamente de sua conclusão, agora um pouco mais calmo. O
que eu faço? O que? Ele ainda sentia um nervosismo que o estava impedindo em sua
capacidade de raciocinar. E o sinal de alerta que tocava dentro de seu corpo não
ajudava. Será que não tinha como calá-lo?
Ele não era um Sonhador para acreditar em Sexto Sentido, mas aquilo tinha que
ser tão irritante? E olhando para o seu crucifixo com a ponta negra, ele se decidiu. Iria
continuar com o plano original. Faria isso pelo sonho do bispo. Isso mesmo. Mas
sozinho?
Agora, mais calmo, ele já não acreditava tanto no sumiço do frade. Até porque, o
que demais poderia ter acontecido? O lugar não demonstrava sinais de luta ou algo
semelhante. Provavelmente eles tiveram alguma reunião com um especialista em
demônios ou algo do gênero. E o frade poderia voltar a qualquer momento, deixando
seu caderno para o bispo olhar. Era possível. Afinal César era seu superior. Por que
não?

165
Então, desistindo de sua neurose, ele voltou a cerne da questão. Teria de fazer
aquilo sozinho? Provavelmente. Não podia contar com Henrique para ajudar. Ele
provavelmente iria dizer que ele não devia se meter em assuntos que vão além de suas
capacidades. Essas palavras ainda queimaram dentro do garoto.
Enfim, quando finalmente havia se conformado com a solidão que se lembrou
novamente de Cassandra e de seu número que estava salvo na agenda. Recorrendo a ela,
gravou-o na cabeça e saiu. Não gostava de ir atrás de alguém tão aluada quanto um
membro do grupo dos Sonhadores, mas a mulher se mostrou interessada desde o
começo no caso e era melhor tratar desse assunto com alguém que já estivesse ciente de
algumas coisas.
Seria difícil, mas ele faria isso pelo Bispo.
Ângelo então saiu da Igreja e foi ao primeiro telefone público que havia por perto
e fez uma ligação para o número de Cassandra. A secretária eletrônica atendeu numa
voz exageradamente estereotipada de uma vidente.
Alô! Aqui quem está falando é Cassandra, a grande vidente que tudo sabe e tudo
vê.
Eu fico feliz que tenha ligado embora já esperasse por ela. Se você é daqueles que
desejam saber o seu futuro, ou significado de algum sonho, ou onde encontrar o amor
verdadeiro, você ligou para o local certo.
Porém, infelizmente, não estou disponível nesse momento. Então, deixe seu
recado que, assim que puder, minha assistente vai agendá-lo em uma consulta. Ou
então, compareça a Avenida Presidente Vargas 105, segundo andar, que Cassandra o
receberá de braços abertos.
Até nosso encontro. E que os astros estejam com você.

Ângelo deixou um recado avisando que iria comparecer no endereço dito por
volta das nove da manhã do dia seguinte. Depois, desligou o telefone achando graça do
acontecido. Ele já ouvira muitos charlatões fazendo se passarem por ciganos para
conquistar a crença dos fieis, mas era a primeira fez que via uma cigana de verdade se
fazendo passar por charlatã.

166
21 - Kalish.

Bem Ana. Para começarmos essa história temos que fazer uma viagem no tempo.
Há mais ou menos uns trezentos anos atrás. Eu sei que lhe prometi contar a história de
minha vida, mas acredite, esses trezentos anos fazem parte de minha vida. Sou um
pouco mais velho do que você pensa.
Por favor, eu peço que não me interrompa. Tenho medo de perder a coragem de
contar se algo me fizer parar no meio. Então. Tudo começou há uns trezentos anos.
Quando nasci, a tribo dos Garow se encontrava em seu auge. Já tínhamos dominado o
fogo, já sabíamos manipular até mesmo o metal, nossa civilização era organizada e cada
um tinha a sua tarefa na aldeia. Morávamos ainda em aldeias, pois respeitávamos nossa
tradição e também não queríamos nos expandir, pois tínhamos grande amor por aquela
terra. Possuíamos também grande afinidade com os lupinos, assim como diz a lenda,
tanto que o símbolo adotado por nós era uma cabeça de lobo.
Isso mesmo. Igual ao símbolo que você guarda em seu medalhão. Nós usávamos
esse emblema em nossas roupas, como um brasão de família. Isso que você tem é a
parte de uma vestimenta que os Garow usavam. Muito além de mera afinidade, nossa
forma de vida era muito parecida com a destes animais e nossa organização, quando
saiamos em grupo, era semelhante à de uma grande alcatéia.
Além disso, tinha nossa aparência natural. Os dentes afiados, as presas pontudas,
as garras e os olhos azuis eram a marca permanente do nosso clã. Elas eram
características que faziam parte de nossa aparência. Todos os Garows nascidos
apresentavam as mesmas características, que nos aproximava mais ainda dos nossos
amigos lobos.
Nossa organização não era feita por sexo ou faixa etária. Nossos ancestrais tinham
uma tradição diferente, aonde os membros do clã recebiam suas funções de acordo com
a época em que nasciam. Eu nasci na época do que seria para nós a do signo de
sagitário. Esse período designava aqueles que nasceriam para se tornarem guerreiros. Eu
fui batizado então com o nome de Kalish, o que significa no antigo dialeto Garow algo
como “Presas de Prata”.
Logo, eu cresci e fui aprendendo todo o essencial para me tornar um bom
guerreiro: magias de ataque e de defesa, uso de armas, domesticação de lobos para as

167
batalhas e mágicas de cura superficial, que servem apenas para cicatrizar ferimentos de
forma mais rápida, pois as verdadeiras artes medicinais cabiam aos curandeiros.
Mas a grande verdade era que eu sonhava em me tornar um Xamã. Eu sempre
ficava fascinado com o trabalho daquelas pessoas. Eles eram os que na tribo se
responsabilizavam pela comunicação com os espíritos e aquilo me fascinava
profundamente. Mas esse trabalho era muito restrito e assim como todas as funções da
tribo, era limitado a alguns membros particulares. Ao contrário de época de nascimento,
essa função era dada pela vocação natural. As crianças que demonstravam empatia com
os seres espirituais eram as selecionadas para tão glorioso cargo e os demais não podiam
nem fazer idéia do que se tratava lá dentro. E eu, como nunca demonstrei nenhuma
habilidade desse tipo, fiquei de fora. Logo, eu era um guerreiro frustrado, mas nunca
deixei de cumprir com minha missão: proteger a aldeia.
Até porque, a época não era boa para relaxar em tal missão. Minha memória me
falha um pouco nesse ponto, mas acredito que estávamos em 1780. Nossa região ficava
muito próxima de onde hoje é o Alasca e nesse período começavam a chegar as
primeiras caravanas colonizadoras européias naquela região. No nosso caso, foram os
russos. Nós havíamos ouvido vários rumores do extermínio que povos nativos da
América estavam vivenciando perante a cobiça européia, e as tribos que demonstravam
alguma habilidade mágica, eram as que mereciam menor piedade.
Lembrando que naquela época a Inquisição já estava no seu apogeu na Europa e
muitos magos refugiados deste continente estavam rumando para o Novo Mundo
fugindo da perseguição, os Inquisidores, logicamente, também vinham atrás desses
fugitivos. Logo, as nossas terras se tornariam alvos das sangrentas batalhas que tingiam
de rubro toda a América. Nesse contexto, todos os guerreiros da tribo estavam em alerta
e qualquer europeu que ultrapassasse nossas fronteiras seria banido ou morto. Nesse
tipo de trabalho eu me destaquei de certa forma. A tribo gostava de mim por minhas
habilidades naturais de combate e logo fui subindo de patente dentro da aldeia
rapidamente.
Devido a nossa aptidão natural com aquelas terras, os inquisidores Russos não
tinham a menor chance. E assim, nós acreditávamos estar destinados a habitar aquela
região até o fim dos tempos. Pelo menos, assim parecia.
Minha história vai dar agora um solavanco para uma bela manhã de Janeiro.

168
O que eu gosto de chamar de minha benção/maldição aconteceu naquele mês e
veio na forma de uma mulher chamada Catarina. Eu a chamo assim, pois, ao mesmo
tempo em que ela foi a responsável pelos momentos mais maravilhosos de toda a minha
vida, também foi a causa de todo o inferno que veio depois.
Era uma manhã, comum a todas as outras: nublada e fria, e eu vagava pelas áreas
das nossas terras, não a serviço, mas apenas por lazer. Eu gostava de admirar toda a
paisagem com um medo terrível de que tudo aquilo um dia fosse estragado pelos russos.
E foi durante o passeio que escutei um barulho de galhos secos sendo pisoteados.
Imaginei na hora que estava sendo vigiado e já me preparei para atacar, mas nada
aconteceu. Comecei então a seguir o barulho e, passando pela floresta de pinheiros,
cheguei a uma clareira. E lá estava ela. Tenho que admitir que ela fosse muito bonita
para os padrões europeus.
Como eu só conhecia Garows, tinha certo ideal de beleza em minha cabeça, mas
ela de fato conseguiu ultrapassá-lo. Lembro-me muito bem, mesmo que se tenham
passado anos. Ela tinha cabelos que batiam no queixo num tom castanho escuro e sua
pele era muito branca. Era uma mulher saudável em aparência e conseguia andar pelo
terreno acidentado muito bem, apesar de alguns tropeços.
Pois bem, devido ao frio, ela usava roupas que cobriam o corpo inteiro. Suas
peças tinham um tom meio acinzentado que a deixavam um pouco camuflada no
ambiente. Hoje eu sei que aquelas roupas eram na verdade masculinas e pior: eram
roupas de guerreiro.
Quando eu finalmente consegui parar de admirar a beleza da mulher, me voltei ao
objetivo principal: ela era uma intrusa e tinha que ser expulsa. Apesar de meu clã não
ter distinção entre homens e mulheres, e isso dizia respeito tanto a amigos quanto
inimigos, eu era dotado de um cavalheirismo crônico e por isso não queria atacá-la. Era
apenas uma mulher, sozinha e indefesa – assim eu pensava. Um susto a faria aprender a
nunca mais atravessar aquelas fronteiras.
Então, deliciei-me com a idéia de apavorá-la e preparei meu golpe. Com uma
concentração calculada, concentrei uma bola de energia gelada nas mãos, que se
espalharia ao ser atirada, adquirindo a forma de um tufão contra a intrusa. Isso seria o
suficiente para empurrá-la, mas não a mataria. Entretanto, quando lancei meu golpe, não
imaginei que ela o notaria e, muito menos ainda, que o interceptaria.

169
Num movimento rápido e gracioso, ela conseguiu conjurar uma barreira
translúcida de uma cor rosa, que absorveu meu golpe completamente. Foi então que eu
vi que tinha que deixar de ser um Garow bonzinho. Ela era uma ameaça maior do que
eu supunha, e por isso tinha de ser expulsa. Afinal, era quase impossível uma mulher
daquelas andar pelas nossas terras sem alguma intenção ruim. Assim, saí de meu
esconderijo e me mostrei pra ela. Eu era o que se podia chamar de um guerreiro honrado
naquela época e não gostava de combates injustos. Então, me posicionei, avisando a ela
que estava disposto a atacar.
Eu não sabia falar russo muito bem, então não pude avisar nada formalmente e
esperei que minha postura fosse o suficiente para pô-la para correr. Enganei-me de
novo. Ao contrário de correr, ela nem ao menos pareceu assustada e pôs-se a me encarar
com uma energia que eu pouco vira nas pessoas que vislumbravam as minhas presas.
Confesso que fiquei estranhamente excitado com aquela coragem.
Não sei, na verdade, porque não ataquei logo. Fiquei ali a encarando e rosnando,
mas não avancei. Meus olhos apenas a fitavam e eu, sem saber, estava perdido naquela
beleza assustadora, que, mesmo por trás daquela expressão carrancuda e aquele olhar de
ameaça, conseguia me fazer ficar que nem um idiota a olhando. E nosso combate
acabou só vindo a acontecer porque minha oponente cansou de esperar. Assim, num
movimento rápido, ela me lançou uma bola de energia no mesmo tom de sua barreira.
Aquele golpe, apesar de singelo, era potente. Eu saltei para cima de uma árvore
próxima, podendo ver o chão atingido se espatifar, liberando neve para todos os lados.
Ela não hesitou e me atacou novamente. Mais uma vez, fiz uma esquiva de
sucesso saltando para uma nova árvore. A cada segundo ela se mostrava mais
ameaçadora. Ao mesmo tempo em que isso alimentava a minha adrenalina, também me
deixava mais intrigado com relação aquela mulher. Não falávamos a mesma língua,
como eu disse, por isso o que tivéssemos de conhecer um do outro era pra ser conhecido
ali, em luta. Na verdade, eu tinha o habito de sempre estudar meus oponentes antes de
atacar e esse era o momento. Eu olhava para ela e me desviava de seus ataques enquanto
tentava traçar um perfil de minha adversária.
Pelas minhas observações, notei que era uma mulher muito bonita. Na verdade
não era uma coisa difícil de perceber e eu não precisaria entrar em combate com ela
para perceber isso. Você tinha que ver. Ela era fantástica e...

170
Ah, desculpe se estou falando demais da beleza dela é que... UAU... Bem... Acho
que isso não está lhe agradando, não?
Perdão.
Voltando ao assunto:
Uma coisa que eu pude notar também era que ela se preocupava em me manter
uma distância favorável. Ela me atacava com mais pressa a cada vez que eu tentava uma
proximidade. Então era assim que eu faria para vencê-la. Chegaria perto num combate
corpo-a-corpo. Nesse tipo de confronto eu venceria com certeza. Assim, a coisa ficou
mais interessante a cada minuto. Eu utilizei de minhas habilidades naturais para ganhar
mais velocidade e comecei a avançar em ziguezague disparando em sua direção. Essa
estratégia sempre funcionava. Na verdade, nenhum oponente espera que você, um
inimigo, avance de forma tão direta e tão rapidamente. Tal investida sempre deixava o
inimigo em pavor e isso me dava a vantagem psicológica.
E não deu outra. Ela começava a tentar me atacar sem nenhuma coordenação
enquanto eu investia em sua direção. A cada milésimo que eu me aproximava suas
tentativas de me afastar se tornavam mais desesperadas e assim, menos eficientes. Até
que enfim a agarrei, arrastando-a em direção a floresta. Porém, naquele momento eu
cometi dois enganos: O primeiro foi o de pensar que a mata se seguiria plana por muito
tempo. Havia uma pequena depressão à frente que eu me esqueci e por isso, rolamos por
uma altura considerável. Não o suficiente para matar, mas sim para causar dor.
Meu segundo engano foi acreditar que num combate corpo-a-corpo ela seria
indefesa. Assim que caímos, um soco nas costelas me mostrou o quanto eu estava
errado. Aquilo havia doido muito, mas não me abatera. Ao me levantar, seguido por ela,
reparei que suas mãos agora tinham uma áurea em chamas a volta. Era estranho a ver
erguendo as palmas das mãos abertas em minha direção, diferente de punhos fechados
como os demais europeus faziam. Mas aquele único golpe já havia me ensinado a me
manter distante daquelas mãos. Mas agora o combate a queima roupa já havia
começado.
Ao mesmo tempo em que eu evitava que aquelas chamas em suas mãos me
causassem a mesma dor de antes, ela evitava que minhas garras dilacerassem sua carne.
Eu não cansava de me impressionar com sua habilidade de luta. O que vou falar agora
pode parecer ego ferido, mas eu realmente não estava lutando com tudo o que tinha,
mas isso não me impedia de ficar admirado com suas habilidades.

171
Mesmo naquele terreno em que eu tinha uma vantagem natural, ela conseguia
manter a luta num tom de igualdade. Mas foi então que em um dado momento eu
consegui prender aquelas mãos ameaçadoras para o alto, segurando-as pelos punhos.
Nossos rostos estavam bem próximos e eu rosnava pra ela. E à medida que tentava
ameaçá-la, me sentia cada vez mais inútil. Um rosnar meu, capaz de espantar até a mais
terrível das feras, não causava nenhuma mudança naquela expressão de pedra.
Ela não tinha medo de mim e ao mesmo tempo em que isso me deixava frustrado,
também me intrigava. Aquela era a oportunidade perfeita para ela levar uma bela
dentada que acabaria com aquele combate de uma vez. Mas naquele momento, eu me
senti impotente diante daquela mulher.
E essa foi uma oportunidade que ela não desperdiçou e mais uma vez, me
surpreendeu: ela conseguia atacar sem as mãos. Uma bola de energia se formou entre
nós explodindo bem no centro e foi então que eu aprendi que ela era mais orgulhosa do
que eu imaginava, pois aquele ataque suicida nos fez ser arremessados a metros um do
outro.
Será que perder era pra ela tão ruim quanto era pra mim?
Quando me levantei, senti meu estomago doer. Olhei e vi um belo estrago,
embora não muito sério. Consegui usar minha mágica de cura para fechar o ferimento,
mas minha missão ainda não estava terminada, logo, não tinha tempo para me curar
melhor. Fui olhar em volta para ver onde ela havia caído e vi uma caverna logo à frente.
Não tive dúvidas e corri pra lá.
Chegando, pude ouvir sua respiração ofegante vindo do interior e entrei. Assim
que adentrei a gruta, houve uma avalanche me trancando em seu interior. No inicio,
pensei que fosse uma armadilha, mas não era bem assim. Ao fazer minha quintessência
ficar visível para que assim pudesse enxergar alguma coisa, logo uma luz azul clara
encheu todo o lugar, e foi quando eu percebi outra luz, só que rosa, vinda de outro
ponto.
Indo em sua direção, eu pude ver seu estado: Ela tinha arranhões por todo o corpo
e sua barriga sangrava em demasia. Apesar de ter recebido o mesmo ataque, o estrago
nela parecia ter sido maior. Não posso culpá-la, pois dentre as características naturais
dos Garows, estão também uma pele mais resistente e uma quantidade maior de
glóbulos brancos no sangue. Isso me deixava numa situação muito melhor que a dela.

172
Enfim, esse era o momento perfeito para acabar com tudo. Seu ferimento não a
mataria, mas a deixaria vulnerável para meu ataque que terminaria o serviço. Porém, só
para variar, eu hesitei. Tinha a chance de acabar com ela ali e não o fiz. Fiquei parado
olhando, compadecido com seu estado.
Droga, ela era uma intrusa. Tinha que ser eliminada. Eu pensava, mas isso não
mudou em nada minha atitude. Eu simplesmente havia sido reduzido, de um lobo a um
cão dócil. Ela, pelo contrario, não desanimou e veio pra cima de mim com suas mãos
em brasa tentando me golpear. Mas estava muito fraca e com isso eu quero dizer lenta
também. Desviei-me com facilidade, mas não contra-ataquei. Fiquei ali, me desviando e
tentando contê-la e mais uma vez os idiomas diferentes não ajudaram.
Acabou que eu tive de ser um pouco mais bruto para conseguir ajudar de alguma
forma. Então, quando ela tentou me golpear mais uma vez eu a segurei e joguei seu
corpo ao chão. Antes que ela pudesse se recompor, eu me lancei por cima dela e rasguei
a parte de cima da sua roupa, abrindo um buraco na parte da barriga.
A mulher se assustou com meu gesto e tratou de tampar a parte de cima do corpo
nu, olhando com espanto quando eu ergui minha mão de uma forma um tanto
ameaçadora. Eu devo imaginar o medo que ela sentiu quando viu uma energia azul
envolvendo minha mão, mas antes que pudesse me impedir, eu já havia a atingido na
região ferida, fazendo-a soltar um grito agudo de dor, que foi logo perdendo a força
enquanto caía quase desfalecida no chão.
Apesar da dor que causei, ela conseguiu se erguer um pouco do chão. Olhou a
barriga incrédula e me fitou, falando alguma coisa que não entendi, embora soubesse
que me interrogava do porque eu ter a curado em vez de eliminá-la. Eu não respondi.
Pra dizer a verdade nem eu sabia a resposta. Eu era o guerreiro da tribo e ela uma
invasora. Se alguém na minha aldeia ao menos desconfiasse do que fiz, eu seria
trucidado.
Ela ficou me encarando e eu a ela. Mas nossos olhares não tinham mais a fúria de
antes e sim certa curiosidade. E desta vez, vencido pela atração que ela me exercia, eu
quem avancei em sua direção. Ela estremeceu, embora no fundo soubesse que eu não
iria fazer-lhe mal. Pois se quisesse já teria feito.
Era minha curiosidade que me guiava e eu cheguei bem próximo dela e comecei a
sentir seu cheiro. Era um aroma diferente. Os Garows não usavam perfumes, então
aquele cheiro me despertou uma curiosidade inquietante e eu fui pegando cada parte de

173
seu corpo levando até o nariz. Sei que essa não era a forma mais civilizada de se cortejar
uma mulher, mas o que eu podia fazer na época?
Aquele cheiro era por demais tentador para que eu pudesse resistir, então,
continuei a farejá-la. Dos braços fui escorrendo até o pescoço, do pescoço até a boca e
foi ali senti seu hálito.
Dali, corri para...
Ah... o que foi Ana?
Ah. Não está interessada nesses detalhes.
Entendo. Mas foi tão legal e...
Tá, tá, entendi. Você realmente não quer saber.
Então vou pular essa parte.
Bem, depois que nós... terminamos, vimos que estávamos muito tempo fora de
casa. Logo a tribo iria mandar um grupo de busca a minha procura, pois como eu falei,
eu era de certa forma importante para a aldeia.
E ela provavelmente não estava naquela região sozinha. Então, eu a levei até os
limites da nossa tribo e a deixei lá. Antes de nos despedirmos - sem palavras - ela me
deu o primeiro beijo de minha vida.
Hei! Não ria. Minha tribo não tinha o costume de beijar. Nem sabíamos
exatamente o que era isso. Não fazíamos idéia do que aquilo significava e eu não pude
retribuir e acabei ficando ali, parado, vendo o que ela fazia com a língua, embora fosse
estranhamente bom.
Então, ela se foi. Acabei por experimentar um profundo pesar no coração ao vê-la
partir e tive medo de não voltar a encontrá-la mais. Eu nem sabia, mas, a partir daquele
momento, eu estava completamente apaixonado por Catarina. Era claro para mim que
eu devia era estar feliz em nunca mais vê-la e por ninguém ter nos pego em nosso
encontro. Mas não foi assim e várias vezes eu voltei na clareira aonde a havia
encontrado pela primeira vez no afã de revê-la. Mas cada vez mais parecia que nosso
encontro não passava de um sonho.
Até o dia em que estava caminhando pelos limites das terras dos Garow. Desta
vez, eu estava em serviço quando senti uma presença próxima. Virei-me para encarar o
que vinha e vi uma forma de energia que avançava rapidamente em minha direção. Não
dava para ver o que era, pois, conforme avançava, ela levantava uma grande quantidade
de neve que me ofuscava e quando resolvi tomar uma atitude foi um pouco tarde.

174
Um ataque me levou em cheio e eu caí a alguns metros mata adentro e quando fui
me levantar, senti alguém subindo em mim, me imobilizando. Eu ia fazer mais força
para jogar meu agressor longe, mas então pude ver que era Catarina quem estava em
cima de mim. Ela ria um tanto, convencida por ter me pego tão bem. Nem sei dizer a
alegria que senti com aquele ataque.
Nesse dia eu me aventurei a segui-la por além das minhas terras, sem pensar nos
perigos que podia estar correndo. Ela era uma feiticeira e eu estava totalmente sob seu
poder. Mas não houve contratempos. Ficamos por toda a tarde nos divertindo, mesmo
sem podermos nos comunicar com clareza. Apenas gestos já eram o suficiente para que
nos entendêssemos.
Na verdade, essa nossa relação bandida durou um longo tempo. Cerca de dois
anos, mais ou menos. Para evitarmos ser pegos pelos meus companheiros, eu usava de
toda a minha autoridade para manter possíveis transtornos fora do alcance, sempre
mandando os grupos de busca seguirem por outra direção quando ia me encontrar com
Catarina. Como nossa aldeia viveu em paz por todo esse tempo, minha presença não era
mais tão cobrada e eu tinha umas horas livres. Nesse espaço de dois anos, finalmente
aprendemos a arranhar os dialetos um do outro e tal avanço nos permitiu aprender muito
sobre nós.
Eu descobri que Catarina veio para aquela região com os pais quando tinha cerca
de vinte anos. Ela era um pouco velha para ser solteira e dizia que isso se devia a seu
gênio. Catarina era conhecida como espanta-maridos na colônia em que morava e seus
pais já haviam desistido sobre lhe arrumar um pretendente. Mas isso não queria dizer
que por estarem tão desesperados em deixar sua filha para titia, aceitariam um selvagem
como genro.
Ela me falou também sobre a sua vida na Rússia e o motivo que a fez vir com sua
família a América: a Inquisição. Ali, ela podia praticar suas artes em paz. Além de
maga, Catarina também tinha fortes vínculos com os necromantes, que faziam parte de
uma ramificação de sua família. E esse foi justamente o ponto auge de nossa afinidade:
o gosto pelas artes dos espíritos.
Ela me contava aprendizados seus e eu tentava retribuir da mesma forma. Mesmo
não tendo acesso direto às descobertas do nosso clã, eu de vez em quando... conseguia
algumas informações. Mesmo falhando na tentativa de ser um Xamã e acabar me
tornando um guerreiro, eu nunca desistira completamente de aprender mais e mais sobre

175
o pós-morte. E assim, envelhecíamos e aprendíamos um com o outro. E o primeiro item
era justamente o que estava nos preocupando. Nós possuíamos quase trinta anos naquela
altura. Éramos já bem velhos para o nosso tempo.
Então, num dia ela me confessou uma coisa. A família dela estava estudando um
tipo de arte um tanto revolucionária, tanto para os padrões de magia daquele tempo
como para os nossos. Uma coisa tão inimaginável que mesmo nos deixando muito
excitados com tal perspectiva, ambos não deixávamos de ter certa dúvida de que tal
coisa fosse possível: uma forma de enganar a morte.
Ela me levou vários estudos e os leu para mim. Catarina me contou sobre a
Mortalha, a dimensão para onde vão as almas que ainda têm assuntos inacabados na
Terra. Ela me disse ainda que era essa dimensão que poderíamos utilizar para enganar a
morte. Não sei se vou fazer você compreender em que consistia o plano de Catarina.
Sem ofensas, mas você ainda é nova nisso tudo e o assunto pode ser muito complexo.
Pois bem, quando morremos, existe um mundo de passagem por aonde todas as
almas vão para se purificarem antes de fazer a passagem definitiva. Mas este também é
o lugar para onde alguns espíritos, que não conseguem fazer a passagem, ficam presos
nesse liminar.
Mas ela sabia mais. Sua família havia descoberto que sempre que morremos,
existe ainda um vestígio de conexão com a vida. Em linguagem simples, é como se
fosse uma linha de energia, que conecta o espírito ao mundo vivo e é justamente essa
linha de conexão que prende uma alma na Mortalha.
Ela só pode ser desfeita quando o espírito está completamente pronto para fazer a
passagem. Então, ela queria usar essa conexão, que fica mesmo depois da morte física,
para fazer a tal empreitada. Ela não sabia bem como. Sua família apenas havia bolado a
teoria, mas sem idéias de como aplicá-la.
Mas a coisa fazia sentido, afinal, haviam almas que conseguiam retornar ao
mundo dos vivos. Embora essa forma não fosse muito agradável para nós. Mas as almas
mortas podem voltar ao mundo dos vivos como demônios. Sim. São assim que eles se
criam. Demônios foram antes de tudo seres humanos, que por ficarem presos no mundo
dos mortos, acabaram por perder sua humanidade, se tornando monstros.
Ah, como?
Não. Não tem Lúcifer não.

176
Mas voltando ao assunto. Ela não sabia como continuar sua idéia e foi então que
eu entrei no jogo, fazendo um acordo com Catarina, onde eu iria ajudar fornecendo
dados conseguidos com os Xamãs de meu clã. Mas havia uma condição: a de que fosse
um projeto só nosso.
E ela aceitou.
Naquela altura não sei o que mais me deixava ansioso. Se tentar algo tão maluco,
se ir contra todas as normas do meu clã ou a possibilidade de viver para sempre. As três
eram ótimas, mas a terceira me tendia mais.
Foi então que numa madrugada, onde os Garow estavam dormindo, restando
apenas alguns guerreiros acordados, que se mantinham vigilantes na fronteira, que eu
me esgueirei para dentro do templo dos Xamãs. Eu havia entrado lá pouquíssimas vezes
e todas de forma clandestina como aquela, mas nunca levei nada de lá como estava
planejando fazer aquela noite.
Vasculhando os nossos arquivos, eu encontrei uma verdadeira mina de ouro. Uma
série de rituais e processos que eu não fazia idéia que pudessem existir. Ali haviam
conversas psicografadas, rituais utilizados por demônios e outros espíritos e até mesmo
a descrição exata do processo de possessão. Levei esse último que eu achei de utilidade
e outros, por interesse próprio. Ninguém me viu sair de lá e o no dia seguinte me
encontrei com Catarina e desde já, nos encorpamos no projeto. Durou cerca de mais um
ano, com a velhice chegando cada vez mais depressa.
É então que começa a parte complicada.
Vou tentar ser sucinto.
Nosso plano foi feito com base em um encantamento que encontramos nos
registros de meu clã. De acordo com o que dizia, esse encantamento era forte o bastante
para aprisionar uma alma numa espécie de bolha. Onde ela se mantém adormecida e
controlada. Essa magia era utilizada para aprisionar espíritos encrenqueiros e podia ser
lançada do nosso mundo. Era tão poderosa que conseguia atravessar as barreiras
dimensionais e atingir o mundo dos mortos. E foi com base nela que preparamos nosso
ritual.
Então nosso ritual consistiria em três passos.
Primeiro, preparar toda uma poção que seria depositada em algum recipiente. A
poção seguia as bases do feitiço de aprisionamento de espírito. Segundo, a partir daí,
tivemos que fazer uma oração todas as noites antes de dormir, a fim de preparar a

177
trajetória de nosso espírito na sua pós morte. O terceiro e último teria que ser feito na
iminência da morte. Esse seria o passo em que teríamos de destrancar o selo que prende
o ritual, liberando as energias contidas dentro do recipiente. Mas este encantamento tem
que ser aberto no máximo, dez minutos antes da morte, se não, perde o efeito e todo o
trabalho seria inútil.
Enfim, depois que morrêssemos – isso em teoria – nossa alma seria
automaticamente encoberta pela bolha mágica, mantendo nossos espíritos adormecidos
enquanto vagava pela mortalha. Nossa decisão de manter nossos espíritos adormecidos
tinha como finalidade a de impedir que os males do mundo dos mortos nos
corrompessem. Não queríamos voltar como demônios.
O segundo passo seria o seguinte: A oração que fazíamos todos os dias era o ritual
ensinado por Catarina para guiar o espírito depois de morto. Nele, nós poderíamos fazer
com que a linha da vida que prende todo o espírito guiasse nossa alma por determinado
caminho depois de sua morte. E o caminho que escolhemos foi um que nos levasse
direto para uma possibilidade de uma nova vida.
Nossas almas seriam guiadas para seguirem atrás dos abortos.
Calma, eu vou lhe explicar o que são.
Abortos são fetos que são gerados sem alma no corpo da mãe. Eu não sei
exatamente como esse processo ocorre, mas existem crianças que são geradas
simplesmente para morrer depois e são justamente esses bebês que tendem a causar os
abortos espontâneos. É claro que outras coisas também podem causar, mas enfim...
Esses fetos vazios tendem a ser muito usados por demônios que querem fugir para
o mundo dos vivos. Eles usam esses corpos para possuírem e assim garantir sua nova
vida, anos depois. Não sei se estou sendo claro, mas o que essa teoria nos ajudou foi que
pensamos poder usar a oração para nos direcionar para um desses fetos. É assim que
viveríamos de novo. Assim poderíamos reencarnar infinitas vezes e sempre mantendo
nossas memórias e características, que estariam conservadas dentro da bolha de
proteção.
Bem, no fim não sabíamos se tínhamos conseguido ou não, mas iríamos arriscar.
Sei que pode parecer loucura, mas decidimos que para que não houvesse erros, iríamos
garantir que nossa morte ocorresse em dez minutos após liberássemos o encantamento.
E isso seria garantido por que chegaríamos à morte nos suicidando em conjunto.

178
Isso pode parecer um tanto drástico ou romântico, mas era o único jeito. Sem falar
que estávamos já velhos e não teríamos muito tempo mesmo. Estávamos com medo e
por isso marcamos a data de nossa morte para duas semanas depois de pronto o feitiço.
Até lá, poderíamos organizar nossas vidas e nos despedirmos de nossos entes, sem, é
claro, avisar-lhes do que íamos fazer.
Então, eu preparei minhas últimas coisas na aldeia e me despedi de uns poucos
amigos com uma comemoração. A verdade é que desde que conheci Catarina, minha
vida social ficou um tanto limitada a ela e aos poucos me distanciei de minha aldeia em
termos de relacionamento afetivo. Poucas amizades sobreviveram a isso. E no dia fomos
até a caverna onde tivemos nossa primeira... você sabe. Escolhemos que lá seria nosso
túmulo. Então, nos preparamos para fazer e, sem trocarmos palavras, liberamos o
encantamento.
Depois, nos posicionamos um de frente para o outro com as mãos erguidas. Logo
começamos a concentrar ataques em direção ao coração um do outro.
— Está com medo? – perguntei, enquanto mirávamos um no outro.
— Lógico que sim – ela me respondeu com lágrimas nos olhos.
— Quer desistir? - eu também chorava. A adrenalina era muito grande, mas agora
batia um total arrependimento. E se não desse certo?
— Lógico que não – ela respondeu e eu ri. A coragem dela acabou me fazendo
desistir de dar pra trás.
— Eu te amo – falei - espero que consigamos ficar juntos por mais anos.
— Eu também – e me deu um beijo.
— Então... um – eu disse
— Dois... – ela continuou
— Três! – gritamos os dois juntos. Depois tudo ficou escuro.

*
— Minha nossa! – exclamou Ana boquiaberta. Era uma história fantástica demais
para ser verdade, mas ao mesmo tempo não podia evitar acreditar.
— Eu sei – concordou Ian, sorrindo nervoso.
— E então, deu certo?
Ian não respondeu fazendo apenas um gesto como quem dizendo: “Eu estou aqui,
não?”.

179
— É verdade. Que idiota. - desculpou-se - Mas então... Você nasceu como Ian
depois disso?
Estranho, pensou automaticamente. Essa era uma história bonita demais, então,
porque ele hesitou tanto em contá-la?
— Na verdade não - corrigiu – houve outra vida antes desta.
— Sério? Qual?
— A de Lucien Verve.

180
22 – Lucien.

Bem, o que aconteceu após nosso suicídio é um pouco complicado. A magia


criada por nós teria como função guardar nosso espírito adormecido em uma espécie de
bolha, onde assim ficaríamos protegidos dos riscos da Mortalha e não correríamos o de
nossas almas serem degeneradas ao ponto de nos tornarmos demônios.
Essa magia é muito semelhante ao processo que os demônios usam para possuir
os abortos e que se chama de Possessão Incubada. Nele os demônios, injetam sua
própria alma dentro do corpo de um desses abortos e, mantendo sua verdadeira essência
adormecida nos primeiros anos, conseguem garantir uma ressurreição anos depois.
Durante esse processo, criam-se duas personalidades no recém-nascido. A
primeira é a do próprio demônio, que esta desacordada nos primeiros anos. A segunda é
uma personalidade artificial, moldada pelo meio onde a criança nasceu. Como ocorre
naturalmente com qualquer ser humano.
Nisso a criança nasce e cresce sem saber de sua essência demoníaca. Muitas
vezes aquela criança cresce de forma bastante precoce e alguns já tendem a demonstrar
maldade logo na infância. Até que quando se chega mais ou menos à puberdade, a
memória do demônio surge e o corpo é totalmente possuído.
Mais ou menos era isso que nossa magia iria fazer. Nossas almas possuiriam um
desses corpos vazios antes de um demônio e assim conseguiríamos voltar. E da mesma
forma que acontece com os demônios, aconteceu conosco, mas nos esquecemos de um
pequeno detalhe ao fazermos a magia: não havia forma de controlarmos em que
condições iríamos nascer. Nem no tempo, nem no espaço.
E foi assim que eu acabei parando na Paris do ano de 1873. Eu nasci num período
histórico um tanto conturbado: dois anos antes da experiência da Comuna de Paris. Tal
acontecimento deixou a elite, não só da França como também de toda a Europa, em
pavorosa. Pois as comunas foram como um presságio da grande ameaça comunista que
se fomentaria com a União Soviética.
Minha família fazia parte da nobreza parisiense, uma nobreza aburguesada, já que
existiam poucas famílias realmente nobres no mundo do séc. XIX. Porém, quando a
Comuna tomou a capital francesa, minha família teve de se mudar para Lyon, lugar
onde cresci.

181
Meu pai era dono de um grande estabelecimento de perfumes na capital francesa e
por conta dos negócios, fiquei separado dele por muitos anos. Minha mãe não era bem o
que chamamos de mãe hoje em dia. Por isso minha babá teve de suprir essa falta.
Trabalho que ela fez muito bem.
Eu cresci como qualquer garoto burguês, cercado de mordomias e aprendendo
desde cedo a tratar as demais pessoas como lixo. Mas a grande verdade é que apesar de
toda a comodidade das cidades ainda havia alguma coisa que sempre me inquietava. Na
época eu não sabia o que, mas eu sempre me sentia sufocado dentro de nossa casa. Eu
tinha um desejo de ser livre que não sabia de onde vinha, até que completei meus treze
anos e o processo de recuperação da memória se iniciou.
Um processo doloroso e confuso, pra dizer a verdade. Naquele período eu já não
sabia mais quem eu era. Lembranças de coisas que eu não vivi começavam a aflorar e
por muito tempo minha família começou a considerar que eu estava enlouquecendo. Se
não fosse para manter a boa imagem da família eles teriam me jogado em algum
sanatório, prática que começava a ganhar fama naquele período. Ainda bem que eu era o
único filho deles, se não esse seria meu destino. Mas o tempo começou a colocar as
coisas em ordem. Finalmente eu recuperei toda a minha antiga vida e meus antigos
poderes, que eu tratei de esconder de minha família.
Então ficou claro o que me amargurava todos aqueles anos: primeiro, eu sentia
falta da natureza, aquela cidade grande me incomodava, nunca fui fã de multidões. E em
segundo, tinha Catarina. Onde estaria? Dos treze anos até os dezesseis, minha vida foi
bastante apática. Mesmo estando feliz pela magia funcionar, eu ainda me sentia
incompleto. Nós não cogitamos a possibilidade de nunca mais nos encontrarmos,
mesmo que isso estivesse na nossa cara. E foi então que eu percebi que poderíamos
ficar renascendo em períodos diferentes e sempre nos desencontrando pelo resto da
eternidade. E foi quando eu comecei a ficar mais triste. Eu não tinha mais ânimo para
nada, nem para as lições ou para os assuntos dos Playboys franceses.
Foi quando me houve a idéia de fugir. Vagar pelo mundo novo aprendendo sobre
aquela época e - com um pouco de sorte - tentando encontrar Catarina. Sim, fugir era a
melhor coisa. Eu não tinha nascido para viver daquele modo e também não tinha me
arriscado tanto pra isso. Eu queria correr o mundo e aprender mais sobre ele.
Mas como faltavam apenas alguns meses para eu completar minha educação
básica, decidi esperar. Eu tinha aulas particulares em nossa mansão e meu pai sempre

182
me levava para Paris a fim de me mostrar seu negócio. Ele nunca me escondeu que
tinha o desejo de que eu continuasse o legado da família e eu também nunca disse que
teria que decepcioná-lo. Mas no fim, isso não seria um grande problema, afinal, estava
para nascer meu irmão Carlinhos, e eu sabia que este ficaria feliz em herdar toda aquela
fortuna. No começo foi uma benção ser filho único, mas agora eu dava graças por ter
um irmão.
E foi quando faltava apenas uma semana para eu completar meu ensino básico que
fui para uma festa em homenagem a perfumaria de meu pai, em Paris. Várias pessoas da
alta sociedade estavam lá e eu vagava pelas alas do grande casarão onde o evento
acontecia com minha taça de vinho sem prestar muita atenção nas coisas a minha volta.
O nome de meu pai garantia que eu fosse constantemente abordado na festa. Eram
sócios querendo saber meus planos para quando assumisse ou oferecendo conselhos
prévios. Eram mães querendo arranjar um pretendente para suas filhas. Eram pessoas
que simplesmente não tinham nada a fazer e puxavam o primeiro para uma conversa
informal.
Enfim, nada de interessante.
Até que vi uma coisa que me deixou pasmo e fez com que meus dedos perdessem
a força, levando minha bebida ao chão. Eu não me preocupei em abaixar para pegá-la de
tão hipnotizado que estava. Uma empregada veio rapidamente limpar a sujeira que eu
tinha feito, pedindo para que eu não me preocupasse. Mas nada me tirou a atenção da
mulher que lá estava sentada, sozinha nos fundos do salão com uma expressão de tédio.
Ela era linda, mas acima de tudo: era minha Catarina. Eu não sabia como, mas eu
tinha certeza que era ela. A mulher à minha frente era loura, tinha as feições muito
delicadas e usava roupas cheias de requintes, que Catarina jamais usaria, mas era ela. Eu
não poderia lhe dizer de onde vinha tanta certeza, mas tinha.
Podia ser um efeito da magia. Quem sabe, por termos morrido juntos, não éramos
capazes de reconhecermos a alma um do outro. Mas eu estava eufórico. Minha vontade
era de correr até ela e lhe falar tudo. Pegá-la e arrancar-la daquele lugar que a entediava
tanto, mas uma coisa me deu medo.
Eu não sabia como eu havia a reconhecido, mas e se ela não fosse capaz de fazer o
mesmo? E se ainda não tivesse recuperado toda a memória como eu fiz? Ela me acharia
maluco? Iria me jogar na cara a bebida que tinha em mãos?

183
Eu tinha que acalmar meus impulsos, então decidi falar com um de meus amigos
na capital. Olhando em volta, não demorei a encontrar Olívio, cujo pai era grande amigo
do meu e morava na região. Então, fui falar com ele:
— Me diga Olívio - disse tentando dar pouco caso a pergunta, embora minha
euforia tornasse isso impossível – quem é aquela dama que está sozinha no canto?
Olívio olhou em volta até encontrar a pessoa da qual eu me referia e quando a viu,
segurou uma risada e me encarou com olhar espantado.
— O que houve? - interroguei.
— Você realmente não sobreviveria um minuto aqui sem mim meu amigo - disse
ele passando o braço por meu ombro e me falando ao ouvido.
— Por quê? O que há de errado com aquela jovem? - perguntei
— Bem - ele começou, ainda achando graça – se você gosta de levar um fora e
acabar com sua vida social em Paris, não há nada de errado.
Ele continuou se divertindo e eu esperei.
— Aquela é Adele Tissot. Uma verdadeira espanta pretendentes, meu amigo.
Todos os rapazes que tentaram algo com ela foram enxotados como cães. Se você preza
a sua popularidade por aqui, meu amigo fique longe dela.
Espanta pretendentes, eu já tinha ouvido isso. Sem dúvida era minha Catarina.
Não esperei mais e fui lá, ignorando completamente o aviso de Olívio.
— Com licença – foi tudo o que eu precisava dizer, pois no momento em que ela
se virou para me encarar, sua expressão de desprezo desapareceu. Seus olhos ficaram
arregalados e ela me olhava como se eu fosse um fantasma. Eu reconheci muitas de
minhas reações ali. Primeiro e descrença, depois a alegria. Ela abriu um grande sorriso
ainda receoso.
— É... você? – ela perguntou se levantando.
Catarina, ou Adele, ainda parecia desacreditada e erguia a mão para me tocar,
acreditando que talvez eu fosse incorpóreo como uma ilusão. Apesar de seu receio,
bastou apenas um gesto meu confirmando com a cabeça para ela se lançar em volta do
meu pescoço.
— É você! Eu... eu nem acredito – ela não gritava, mas o volume de sua voz já era
o suficiente para atrair a atenção das pessoas próximas a nós.
— Quer sair daqui? – recomendei
— Melhor – disse, visivelmente encabulada com os olhares que despertamos.

184
Fomos então para o jardim e eu pude ver o queixo caído de Olívio me
acompanhando enquanto eu saía do salão.

*
— Nossa! Que sorte, não? – maravilhou-se Ana.
— É, eu sei – respondeu Ian, animado – as chances de acabarmos parando na
mesma era eram muito poucas. Mas parecia que o destino estava ao nosso favor.
— Ela continuava bonita como antes? – Ana tentava não dar muita importância a
pergunta.
— De forma diferente, mas sim – começou Ian, fitando a chuva pela janela – na
verdade eu sempre a via como a minha Catarina.
Então ele se levantou e andou em direção a sua cômoda e, dali, pegou uma folha
de papel aonde tinha a imagem desenhada de um rosto feminino.
— Esse era o rosto de Catarina. - ele disse, entregando o papel - Esse é o rosto que
eu via apesar da mudança de corpo e é o rosto que eu ainda me lembro pertencer a ela.
O rosto retratado no desenho era muito bonito e Ana acabou sentindo uma leve
pontada de ciúme daquela mulher tão bem reproduzida.
— Não sabia que tinha talento pra desenho - comentou.
— Aprendi como Lucien. - ele respondeu – Desenho fazia parte de minha
educação.
E Ana continuou a olhar o retrato percebendo, que ela tinha traços bem
demarcados e uma expressão de profunda força e sabedoria. Catarina tinha cabelos na
altura do pescoço com uma franja lhe caindo no rosto. Por um segundo Ana sentiu certa
familiaridade com aquela mulher, mas logo foi substituída novamente por inveja, pois a
maga era linda demais e não tinha uma franja rebelde lhe estragando o penteado.
Pelo rumo que ia tomando a história, Ana duvidava que ela pudesse ter alguma
tragédia ao fim. Era tudo perfeito demais. Eles agora eram imortais e poderiam viver
seu amor pela eternidade. O que poderia dar errado?
E foi quando lhe houve um estalo na cabeça e uma idéia, talvez maluca, se
amostrou para ela. Pois, se eles haviam conseguido seu intento e se agora poderiam
reencarnar infinitas vezes, onde estava Catarina? Eles teriam se desencontrado ou...
Não! Não podia ser. Ana não podia acreditar naquela possibilidade. Seria... Seria
Solange? Teriam eles reencarnado na mesma era só que com idades diferentes?

185
Isso explicaria o beijo.
Ana sentiu seu peito apertar com a expectativa. A visão do beijo ainda a
incomodava muito, mas ela tentou ignorar. Queria prestar atenção na história.

*
Bem, você já deve imaginar a felicidade que senti por poder tê-la novamente.
Catarina, ou Adele, tanto faz, tinha uma vida muito semelhante a minha. O pai dela
também era um grande comerciante, só que na área de jóias, e ela também vivia a vida
de pobre menina rica. Ambos estávamos entediados com tudo e todos à nossa volta e
não tínhamos criado vínculos com ninguém nessa nova vida.
Então, nada nos prendia ali. Sentíamos falta de nossa vida livre e bandida de
antes. E agora éramos jovens de novo, cheios de saúde e com muita experiência
acumulada. Não demorou muito para que decidíssemos adiantar a nossa viagem pelo
mundo. Sairíamos só nós dois, atrás de aventuras e de alguns de nosso grupo também.
Afinal, éramos uns dos poucos magos que ainda restavam no planeta e os existentes,
viviam escondidos agora.
Assim, naquela mesma noite, fugimos. Levando poucas coisas e deixando todo o
resto pra trás, nossa vida passou a ser uma aventura constante. Coisa que adorávamos
fazer era andar pelas ruas desertas e pelas estradas escuras das cidades. Esses eram os
locais por excelência dos assaltantes e outras formas de criminosos e nós éramos a isca.
Era sempre divertido ver essas pessoas correrem feito loucas ao tentarem confrontar a
gente. Na verdade, fomos bem úteis para reduzir o índice de crimes de algumas cidades
por onde passamos.
Daí, descobrimos uma forma de ganhar dinheiro para sobreviver com honestidade.
Eu e ela nos Tornamos caçadores de recompensas. Vagamos pelas cidades atrás de
criminosos hediondos e nos mantínhamos com o dinheiro pago por suas capturas. O
mundo naquele tempo já havia se tornado muito cético e assim as pessoas comuns
estavam muito despreparadas para gente como nós, mas logo vimos que mesmo assim,
não estávamos completamente seguros.
Descobrimos de uma maneira não muito legal que não tínhamos mais a mesma
segurança para agirmos como nós mesmos, como acontecia quando éramos Kalish e
Catarina.

186
Os inquisidores já haviam dominado grande parte do mundo e a caçada a nós dois
foi apenas questão de tempo. Numa de nossas empreitadas, recebemos a missão de
invadir uma mansão, onde se dizia que uma jovem, filha de um nobre local, era mantida
em calabouço. A recompensa para se trazer a menina era ótima e logo pegamos o
serviço descobrindo o local do cárcere. Chegando lá, vimos se tratar de uma armadilha e
quase fomos mortos se não fosse a nossa sorte em achar uma passagem secreta dentro
da mansão que nos permitiu fugir.
As armas dos Inquisidores haviam melhorado muito naquele tempo e suas táticas
para nos apanhar também. Naquele tempo, os Iluminados ainda eram seus aliados, o que
nos deixou em maus lençóis. Mas mesmo assim, conseguimos escapar. E foi quando
nos demos conta do óbvio: de que poderíamos morrer.
Lembramo-nos então de nossa antiga magia de enganar a morte e decidimos
prepará-la de novo, por via de dúvidas. Fizemos nossa poção e passamos a rezar todas
as noites. Essa seria nossa apólice de seguro para imprevistos.
Nossa carreira foi indo bem. A cada ano que se passava, ficávamos mais espertos
e sabíamos contornar as situações para não sermos mais vítimas dos Inquisidores.
Conhecemos também algumas das poucas organizações mágicas ainda restantes. Todas
escondidas naquele tempo. E tais encontros sempre nos obrigavam a sair da cidade mais
cedo, pois as organizações não sentiam confiança em nós e tinham medo que nossas
façanhas atraíssem a inquisição para sua cidade.
Éramos discretos, mas nem assim conseguíamos manter residência numa cidade
por mais de um mês se nela já houvesse algum grupo mágico. Eles não queriam se
arriscar. Era compreensível. Na verdade, foi numa dessas visitas, quando conhecemos
um grupo de Irmãos da Rosa, que descobri uma noticia que me deixou apavorado: Meu
clã havia sido dizimado.
Eu estava na residência de Emanuele Cristof, no Reino Unido. Ela era um
membro da Irmandade da Rosa e foi quem me deu tal notícia.
— Mas como? – indaguei perplexo.
— Ninguém sabe – ela me disse enquanto vasculhava documentos em sua
cômoda.
— Impossível - eu não queria acreditar, O que aquela mulher sabia afinal?
Foi então que ela finalmente encontrou o que procurava, me trazendo um pedaço
de pergaminho velho que me entregou

187
— Essa é uma parte do diário de Arman Medved, uma das primeiras testemunhas
do massacre da aldeia Garow. Acho melhor você ler.
Eu peguei o documento de sua mão e comecei a ler

Eu não sei descrever a brutalidade de tal cena.


Era horrível e de certa forma, fascinante.
Os antigos Garow, que habitavam as regiões congeladas do novo mundo, temidos
e respeitados por seu poder, agora estavam extintos.
Nessa manhã, eu fui adentrar a fronteira das terras desse clã. Meus amigos não
se atreviam a nem mesmo chegar perto de tal lugar, pois, apesar de os Garow serem
um povo muito pacífico, invasão em seus territórios era uma coisa que não toleravam.
Todos os que ali se aventuravam não retornavam.
Eu, na verdade, era uma exceção rara. Desde minha infância sempre tive ótimas
relações com os desta tribo. Isso porque minha família manteve um forte vínculo
estratégico com os Garow, lhes fornecendo informações vitais sobre as ações dos
colonos nas terras da América do Norte.
Assim, eu sempre tive aval para atravessar suas fronteiras e até me familiarizava
com muitos dali. Um povo sem classe, devo dizer, mas sem dúvida agradável a sua
maneira.
Enfim, quando eu fui esta tarde para mandar-lhes informações de um grupo de
saqueadores que planejavam uma intentona contra a aldeia, a cena vista me
surpreendeu.
O branco da neve fora forrada com o rubro do sangue de dezenas, se não
centenas, de Garows. Não encontrei nenhum membro vivo para contar o que aconteceu
e quanto mais eu andava, mais tinha certeza de que só havia cena de destruição e morte
para se ver.
Mas a causa? Esta não era encontrada.
Olhando os corpos, podia-se ver as marcas fundas de arranhões e mordidas, com
feridas abertas elevando o cheiro de sangue até minhas narinas. E analisando a
situação eu só pude chegar a duas conclusões: Ou os Garows acabaram por encontrar
outra tribo mais selvagem e mais poderosa que a deles, ou, do dia para a noite, eles
resolveram matar uns aos outros.

188
O documento acabava ali.
— Isso não pode ser original – eu replicava
— Original não é. – ela confirmou – É uma tradução, mas o depoimento é
verídico sim. Algumas excursões foram enviadas para a América do Norte, a fim de
saber mais do ocorrido e comprovaram o depoimento de Arman. Todos os membros do
clã Garow foram brutalmente assassinados.
Eu ainda lutava para não acreditar, não podia acreditar.
— E o que a senhora acredita que foi? – Adele, que se mantinha ao meu lado,
perguntou.
— Sinceramente não sei. – ela deu de ombros - Eu acho difícil de crer que os
Garow tenham resolvido matar uns aos outros, mas também não se há registro da
existência de um grupo capaz de tal genocídio. - E depois ela se virou pra mim com
curiosidade – E qual é seu interesse por esse clã em especial?
— Interesse puramente acadêmico - respondi, olhando o chão.
Apesar de termos relações com muitos magos, nunca contamos nosso segredinho
pra ninguém. Sabíamos que se alguém suspeitasse da existência de uma magia que
pudesse vencer a morte, haveria guerras atrás dela. Mas aquela explicação não me fora
suficiente e, no dia seguinte, eu e Adele estávamos num navio para os EUA e de lá,
rumaríamos às antigas terras do meu clã.
Adele me consolava por toda a viagem. Eu, no fundo, já imaginava que isso
pudesse acontecer um dia, porém, ainda era difícil crer no extermínio de meu clã, ainda
mais de forma tão rápida e definitiva. Mas eu tinha Adele naquele momento e ela era
meu porto seguro.
A viagem foi conturbada, mas chegamos. Eu estava muito pra baixo e Adele
tentava me animar de muitas formas. Mas era inútil. Eu sentia que ela começava a se
irritar com meu humor e a se cansar de mim. Ela ficava com o pensamento distante em
algumas horas, como se tivesse um peso muito grande nos ombros e eu sentia que isso
era culpa minha. Mas no momento eu não conseguia fazer nada para remediar. Esperava
que a visita à minha terra pudesse resolver meu problema e salvar minha relação com
ela.
E foi então que Adele me deu a idéia de naquela noite interrompemos viajem e
ficarmos bebendo no bar local até enchermos a cara. Eu não estava muito afim, mas o
que eu poderia fazer... Aquela mulher me controlava e eu devia muito a ela. No fim, foi

189
tudo muito divertido. Bebemos, falamos besteira e brincamos... Estava tudo indo bem
quando decidimos terminar a noite com chave de ouro... Então fomos para o quarto do
nosso hotel alugado e nos entregamos a nossa paixão que existia por mais de um século.
Paixão que sobreviveu a morte...

*
Mais uma vez o clima havia ficado pesado. Nesse momento, Ian passou a fitar o
chão, calado. Sua expressão emanava uma dor aguda e Ana pôde ver seus olhos
vermelhos segurando as lágrimas. Ana estava curiosa, mas não se atreveu a falar nada,
aguardando ele continuar. Pensou em dar um incentivo, mas vendo suas expressões,
começou a se questionar: Ela queria saber realmente saber o que aconteceu?
— Aí eu apaguei – continuou, e Ana segurou a respiração – Não me lembro de
mais nada depois disso. Só quando acordei...
— E... o que aconteceu? - perguntou em voz baixa. Se tivesse algo de ruim
naquela história, era ali.
— Eu acordei com um cheiro forte de ferro que invadiu as minhas narinas. Ao me
levantar, tentei me acostumar com a claridade que entrava pela fresta da janela e foi
quando senti algo molhado na parte onde eu havia apoiado a mão para me erguer. – ele
deu um forte suspiro antes de continuar – Era sangue. Na verdade a poça em cima do
colchão não era a única. Por todo o quarto, nas paredes, no chão, tudo estava vermelho.
E num canto do quarto... jogada... sozinha... estraçalhada... estava...
— Meu Deus! – ela murmurou
— Eu não entendi na hora como isso havia acontecido. Eu estava completamente
sujo também e demorei a acreditar no que via.
— Achei que fosse um pesadelo e que logo despertaria, mas eu não acordava. - ele
começava a aumentar o tom e o ritmo da voz à medida que ia continuando - Seu corpo
estava estilhaçado, haviam feridas abertas por toda a parte que eu tentava curar, mas...
as feridas de Adele... mas era inútil. Ela já estava pálida pela perda de sangue... e...
Estava morta.
Ele agora se balançava segurando as mãos com força por cima da perna. Dava
para ver que era muito dolorido trazer aquelas lembranças à luz de novo e Ana começou
a se sentir péssima por ter lhe pedido para que contasse aquela história. Mas agora a
curiosidade estava aflorada nela de tal forma que não pôde segurar a próxima pergunta:

190
— Mas quem faria uma coisa dessas?
Nesse momento, como em um filme de terror barato, um relâmpago iluminou o
quarto mostrando o rosto do garoto. Ele a olhava com aquela expressão que Ana
conhecia muito bem: Culpa.
Ana levou a mão à boca para conter o grito que queria sair de seu pulmão a
qualquer custo.

191
23 – A Besta

Sim. Fui eu mesmo. Na época também não acreditei. Não sabia como isso poderia
acontecer e vaguei por toda a cidade atrás do possível assassino, mas minhas buscas só
me faziam ter maior certeza de minha culpa. E o pior. Serviram para fazer mais vítimas.
A história vai começar a ficar um pouco pesada Ana e eu vou entender se você
quiser ir embora. Vou compreender se não quiser me ver nunca mais, se estiver com
medo de mim. Pois já faz muitos anos que eu também tenho medo de mim.
Ah... Como? Quer continuar? Por quê?
Esse é um risco seu, mas... Eu sinceramente não queria continuar. Eu sei, eu lhe
fiz uma promessa e vou lhe dizer tudo o que quiser saber.
Então tá, lá vai...
Na hora, eu não pensei que eu mesmo pudesse ter feito aquilo. Apesar de eu ter
grande quantidade de sangue nas mãos e na boca e até mesmo sentir o gosto dele cada
vez que engolia saliva, eu não queria acreditar que tinha feito aquilo. Então, fui atrás do
culpado com toda a sede de vingança que meu coração permitia produzir e com ela,
vaguei pelas ruas da cidade de Michigan.
Eu havia sabido que nenhum dos outros hóspedes do hotel havia ouvido nada na
noite anterior. Quem quer que a tenha matado, foi tão rápido que não houve tempo para
reação. E foi enquanto eu tentava caçar um culpado, que os apagões aconteciam com
mais freqüência. Cada vez que acreditava encontrar um suspeito, minha raiva era tão
grande que me fazia apagar. Eu dormia e sempre amanhecia num lugar que eu não
conhecia, banhado de sangue.
Geralmente eram terrenos baldios e outros locais esquecidos do mundo e sempre
que eu voltava para saber sobre o meu suspeito da noite anterior, descobria que ele fora
brutalmente assassinado. Apesar de lutar para me manter ignorante, como alguém que
se recusa ver uma verdade que está exposta a sua frente, não demorou muito e eu
finalmente pudesse enxergar o culpado quando olhava para o espelho.
E mesmo naquele momento eu ainda tentava lutar contra tal idéia, mas não tinha
mais como. As provas estavam lançadas na minha cara. Uma parte de mim parecia
voltada a matar. E o pior, essa parte conseguia manter o controle sobre mim muito
regularmente. E foi então que comecei a identificar algo diferente em mim.

192
Uma presença, uma besta talvez. Então eu tive a certeza de que eu era o monstro
que estava caçando. Ele morava dentro de mim. Eu não entendi quando ou porque
aquilo havia começado, mas era assim e eu começava a sentir medo de mim mesmo.
Medo do que sentia.
Com o tempo, fui percebendo mais sobre essa Besta. Raiva, adrenalina, excitação,
tudo isso era motivo para eu apagar e acordar cheio de sangue. Eram os estopins da
Besta. O que a fazia se libertar e assumir o controle sobre de mim. Foi então que eu
comecei a me policiar em tudo o que fazia. Evitava brigas ou qualquer forma de
estresse. Na verdade, eu comecei a evitar as pessoas. E me isolei.
Eu não podia mais confiar em mim e acabei me condenando a anos de solidão.
Mas eu não estava verdadeiramente sozinho, pois para todo o lugar para onde eu ia,
duas coisas me acompanhavam: A primeira era a besta, sempre a espreita, sempre alerta,
esperando meu próximo deslize, esperando eu perder o controle de mim mesmo para ela
assumir.
A segunda era a culpa. E foi quando comecei a ter pesadelos. Eu via Adele
gritando, pedindo para que eu parasse, mas eu não o fazia. Eu sentia a sede do sangue,
sentia prazer com seu sofrimento. Sinceramente, eu não sei como não enlouqueci. Não
sei nem o que me mantinha vivo naquela época. Talvez a covardia de por um fim em
mim mesmo.
Eu não podia amar, não podia me entregar a nenhuma forma de prazer, eu não
podia nem sentir raiva. Passei então a ser um mecânico, tudo o que fazia tinha de ser de
forma fria, imparcial. Eu não me dava mais a chance de sentir nada. Não queria
descobrir outras sensações que pudessem vir a libertar a besta dentro de mim. E não
demorou muito para que eu me considerasse morto por dentro.
Houve uma ocasião em que uma prostituta nas ruas de Virgínia veio mexer
comigo. Aquela havia sido uma das poucas situações em que eu, cansado de ficar
enjaulado, me arriscava a andar junto das pessoas. Ela então perguntou se eu não estava
interessado em um programa e como não aceitava, deve ter achado que seria uma boa
idéia me atiçar com um carinho. Um carinho não muito costumeiro e pouco ortodoxo
por assim dizer.
Mas apenas isso já foi o suficiente para eu sentir uma espécie de ódio dentro de
mim. Um ódio que eu já estava acostumado a sentir, mas que lutava para conter.
Naquele instante meu corpo tremeu e por pouco não apaguei. Não sei o que aquela

193
moça viu ao olhar para meus olhos, mas sei que foi o suficiente para fazê-la sair
correndo e gritando socorro. E eu saí de perto antes que alguém chegasse.
Um simples toque já me transformava em um monstro.
Mas nada me doía mais do que lembrar de Adele. Os sonhos começavam a me
perseguir com maior freqüência e eu acordava todas as noites banhado de suor. A culpa
era avassaladora. Eu me contorcia de dor só de pensar no que aconteceu naquele
momento. Ela teria sofrido muito? Não, eu sabia que não. Nenhum dos vizinhos escutou
nada, nenhum grito.
Porém, isso não me aliviava nem um pouco. Eu a tinha matado e nem sequer dei a
ela a chance de se defender. Mas se eu tivesse dado? E foi quando me lembrei do colar.
Será que ela teria tempo de ativar o feitiço e se salvar? Talvez ela pudesse ter morrido,
mas garantido sua próxima reencarnação. Era uma esperança que eu mantinha viva no
peito, pois só assim para conseguir sobreviver.
Foi então que eu decidi que eu tinha que tentar entender o que havia acontecido
com o meu clã. Saber o que estava acontecendo comigo mesmo. Assim, decidi sair de
meu retiro, embora continuasse a me privar dos locais públicos. Viajando pela América
do Norte, fui para a antiga aldeia Garow, para tentar encontrar algumas respostas. Mas
nada encontrei a não ser escombros. Parecia que ninguém mostrou interesse naquelas
terras depois do ocorrido e acabaram a deixando abandonada a maneira como estava.
Os documentos dos Xamãs, entretanto, foram saqueados. Nada sobrou que
pudesse me ajudar e foi quando comecei a vagar pelo mundo atrás de ajuda. Mas em
todos os lugares que passava, quando os magos descobriam o meu caso, ou me viravam
as costas ou me erguiam as armas. Todos eles viam o monstro que eu era e queriam me
eliminar por isso. Talvez eu devesse ter deixado. Quem sabe assim poria um fim a tudo.
Oi? Como?
Ana, por favor. Será que você não está escutando nada do que estou lhe falando?
Eu matei a mulher que me amava. Eu matei inúmeras pessoas. Se isso não em faz
um monstro eu não sei mais o que pode fazer.
Eu fiquei sozinho por tanto tempo... A única coisa a que eu me prendia era a
possibilidade de que Adele pudesse ter se salvado, mas até essa começava a me
abandonar. Com o tempo, a esperança foi morrendo. Se meu ataque foi tão rápido que
não houve tempo de reação, que chances ela teria de ter ativado o feitiço?

194
E foi então que um dia, quando eu estava em uma das partes mais altas da
montanha Maciço Logam, após uma boa escalada – hábito que eu havia adquirido para
passar o tempo. Quando todas as minhas esperanças, tanto de acreditar na salvação de
Catarina quanto na minha, haviam se esvaído. Quando eu não encontrava mais nada que
me prendesse a vida que não fosse minha covardia de acabar comigo mesmo, que, eu
olhei para baixo e me senti tentado.
Eu não tinha mais a quem recorrer. Só de uma coisa eu sabia. O porquê de meu
clã ter sido dizimado. De alguma forma, os Garow haviam sido amaldiçoados e essa
Besta fazia parte de nós. Eu até era capaz de ver a cena ser reproduzida em minha
mente: A aldeia inteira possuída pela besta. Irmão matando irmão. Vizinho
estraçalhando vizinho. Mãe atacando filho.
Ali todos se mataram, mas no meu caso, não tinha ninguém para me matar. É
claro que a fila pra isso era grande. Além dos inquisidores que queriam a minha cabeça,
havia também inúmeras sociedades mágicas que desejavam minha morte, por me
considerarem uma ameaça.
A fila era extensa e eu tinha até mesmo o direito de escolher como ser morto. Esse
é um privilégio de poucos. Mas de todas aquelas opções, a que estava bem abaixo de
mim era a mais tentadora. E foi quando eu me permiti pensar na sensação da queda.
Como seria? Qual deveria ser a sensação de ter seu corpo livre no ar, caindo e caindo
até que, no fim, acabasse?
Aquele desejo começou a crescer dentro de mim e só faltava mais um pouco para
que ele fosse forte o bastante para me criar coragem, nem que fosse por uma fração de
segundos, que eu aproveitaria sem pestanejar. Olhei para o meu colar. A idéia de tentar
nascer novamente me tomava. Talvez se eu tivesse uma chance de recomeçar. Mas eu
não tinha esse direito.
Talvez, na nova vida eu estivesse livre dessa maldição que me acometeu. Mas eu
não acreditava fielmente nisso. Sabia que se aquela besta esperou cem anos para
aparecer, ela não se importaria de esperar mais alguns e me pegar na próxima vida.
Então eu me acheguei para perto da beira do penhasco.
Ali, olhando para as estrelas que pareciam tão próximas de mim, eu falei com
Catarina. Desculpei-me, e prometi que iria ao seu encontro para que ela pudesse acertar
as contas comigo.
E quando a coragem veio na forma de um lampejo de loucura, eu saltei.

195
*
E a narrativa havia acabado e Ana não sabia mais o que falar. Não sabia se devia
consolá-lo, se chorava, ou se sorria pra dar-lhe ânimo. Todas as opções pareciam idiotas
e inúteis Não sabia nem o que pensar.
Impossível, pensou. Apesar de toda aquela história, Ana sentia total dificuldade
em acreditar nela. Ela conseguia crer que Ian tinha conseguido enganar a morte, que ele
tinha realmente matado Catarina, mas se recusava a olhar para ele e ver o monstro que
ele tanto se referia.
E foi quando lhe veio, mais uma vez, a imagem do beijo na beira da piscina e os
olhos azuis que ali se manifestaram pela primeira vez. Um frio correu por sua espinha,
mas Ana manteve a calma.
— E então nasceu o Ian que você conhece – ele encerrou.
— Mas eu não entendo – ela falou – você não usou a magia de reencarnação,
então por que...
— É eu não usei. Pelo menos não de forma consciente. - respondeu – Eu cometi
um erro. Ao pular usando o colar eu fiz com que ele se ativasse sozinho. Você tem que
entender uma coisa sobre magia Ana: ela é a extensão de sua vontade, de seus desejos.
Quando saltei, estava realmente decidido a por um fim a mim mesmo. Mas no fundo
ninguém quer morrer. À medida que fui caindo, o medo da morte começou a me tomar.
No fundo eu queria viver e foi esse desejo somado ao desespero que fez a magia se
ativar por si só. Então, mesmo sem querer, eu reencarnei.
— Que bom – comentou Ana.
— O que? - ele ficou surpreso. - Que merda é essa que você está falando?
— Que bom que você pôde ter mais uma chance.
— Eu não acredito no que estou ouvindo – o garoto ria perplexo, como se Ana
estivesse lhe fazendo uma brincadeira de muito mau gosto - Será que você não entende
a gravidade de tudo isso? Não entende por que fugi de você na piscina? Não sabe que
do contrário você estaria no lugar de Catarina hoje? - e continuou desolado - Eu fiquei
tanto tempo sem sentir o gosto de uma boca, que seu beijo foi demais para mim. Eu
lutei muito para não perder o controle, mas... Um beijo apenas quase pôs tudo a perder.
A tristeza de Ian era quase que palpável para Ana o que a fez sentir-se remoída
pela pena. Mas além dela, uma sensação de culpa também começou a se fazer presente,
pois, no fundo, ela sentia que era responsável pelo que quase aconteceu. Isso por que,

196
por dar ouvidos à Laila, quase pôs a própria vida em risco e obrigou Ian a reviver os
fantasmas do passado.
— Entendo se estiver com medo de mim agora - ele disse desanimado - e pode ir
embora se quiser.
— Eu não estou com medo – disse sinceramente – mas estou em dúvida. Então,
quando seus olhos estão azuis eles...
— Nem sempre – disse com a voz cansada – Como eu disse, isso é uma
característica do meu clã, que me acompanhou mesmo depois da morte. Mas elas ficam
inativas a maior parte do tempo e só aparecem quando eu as invoco ou...
— Sei – interrompeu. Agora, olhando-o ali, sentado no chão, com seus olhos
vermelhos que lhe veio um desejo quase infantil, mas que não pôde ser reprimida –
Você... poderia me mostrar então?
— O que? – perguntou surpreso
— Eu só gostaria de ver de novo. Com mais calma. Agora não seria uma
demonstração, como você mesmo disse.
— Você é louca?
— Talvez. Já estou me acostumando a isso. - ela sorriu.
Ana realmente sentia uma vontade louca de vê-los de novo, sensação está que a
acompanhou desde o sítio. Só que naquele momento, havia uma razão a mais para olhá-
los. Queria se certificar de uma coisa. Ian a fitou por um longo tempo esperando que ela
desistisse da idéia, mas a garota não pareceu ceder.
Então, o garoto deixou o ar sair dos pulmões num sinal de desistência e fechou os
olhos. Quanto os abriu novamente, estavam naquele mesmo azul intenso que Ana se
lembrava. Mais uma vez ela não pôde fazer mais nada a não ser olhar para eles, perdida
naquela cor.
Eram muito bonitos de se ver e muito diferentes do azul habitual. Esses eram
sobrenaturais. Era fascinante ver como aquelas pupilas negras e muito pequenas, que
deixavam o azul dominar toda a região da íris, fitavam-na naquele momento. Como se
quisessem silenciosamente que ela saísse dali. Que fugisse.
Ian ergueu a mão propositalmente para que ela pudesse ver as garras que saiam de
cada dedo. Ele parecia realmente determinado a assustá-la com isso, mas não conseguiu.
Ao invés de fugir, Ana segurou sua mão sentindo o calor da pele. Estava muito curiosa e

197
deixou que seu dedo escorresse pelo dele e, ao passar por uma unha, sentiu ela lhe
cortando a carne.
— Ai! – gemeu, enfiando o dedo na boca.
— Desculpe – disse, recolhendo rapidamente a mão de volta.
— Não foi culpa sua - Ana o acalmou – foi um acidente. Não sabia que eram tão
afiadas.
Depois de sugar a sangue que escorreu pelo ferimento, ela ergueu a mão para
tocar-lhe no rosto. Ian hesitou no primeiro segundo tentando desviar a cabeça, mas Ana
a segurou com mais firmeza. Sentindo-se um bebê que descobria o rosto de um adulto
ela tocou seus lábios com os polegares elevando-os um pouco. Debaixo da pele, uma
fileira de dentes brancos apareceu. Eram bem cuidados sim, mas não era isso que a tinha
encantado.
Ao contrário dos normais, eles eram um pouco mais afiados, quase imperceptíveis
se não fossem os quatro caninos, muito mais avantajados que a média que enfeitavam a
boca. Desta vez ela não se atreveu a tocar-lhes, pois deveriam ser tão afiados quanto
suas garras.
Agora, soltando seu rosto e olhando-o por completo, notou que havia outras
diferenças em seu corpo. Seus cabelos continuavam despenteados, mas agora pareciam
um tanto mais opcionais, com alguns fios mais arrepiados do que os demais. E passando
os olhos pelo corpo pôde ver que os músculos também sofreram uma mudança. Estavam
mais definidos. Não aumentaram de tamanho, mas pareciam mais esculpidos.
Porém, nesta parte ela não se atreveu a por a mão para conferir.
Quantas diferenças. Na primeira vez que viu tal transformação, não pôde prestar
muita atenção aos detalhes, mas agora tudo era bem visível. E foi então que ela tentou
olhar além da figura selvagem a sua frente e olhando-o bem sabia que, por trás daqueles
olhos azuis estavam os olhos negros de Ian.
Os mesmos olhos que prestavam atenção em suas historias anos atrás e que a
tiravam da solidão. Os mesmos olhos que a viam sempre com ternura apesar de todas as
besteiras que fazia. Ela não podia acreditar que aquilo era um monstro. Quem dera que
todos os monstros fossem assim. E foi então que decidiu já ter visto tudo o que queria e
concluiu que, mesmo com todos aqueles adereços, era Ian, não um monstro. Aquele
rosto triste, carregado de culpa, não podia pertencer a um monstro.

198
E mesmo assim, quem disse que a história tinha acabado? Ana sabia que tinham
mais coisas depois. O final não foi o assassinato de Catarina e sim a conversa que ele
estava tendo com Ana naquele momento. Aconteceram muitas coisas desde que ele se
atirou do penhasco. Coisas que faziam toda a diferença. Coisas que transformaram o
atormentado Lucien no doce Ian. E Ana queria saber essa história também.
— Você é exoticamente bonito – ela comentou - nem um pouco assustador como
você imaginou que eu pensaria.
— O que? – ele balançava a cabeça, incrédulo – Será que não acreditou em nada
do que eu acabei de lhe dizer? Ou não prestou atenção em nada? Você não viu que
mesmo sem querer posso machucar as pessoas.
— Eu entendi e escutei tudo muito bem – respondeu com voz calma, mas
carregada de emoção - Mas eu também conheço você muito bem. Vivi com você
durante anos e isso já é o suficiente para conhecer você Ian. E sei que não é um
monstro.
— Inacreditável – ele deu um sorriso nervoso - Será que você não entende que eu
quase te matei no sitio?
— Mas não matou – ela corrigiu – E além do mais, você não contou a história
toda.
— Como assim?
— Você tem dezesseis anos e nos conhecemos a cinco. O que aconteceu na sua
vida antes de me conhecer? Aposto que isso faz toda a diferença. Primeiro porque você
não fugiu como fez quando era Lucien e depois porque foi a melhor coisa que me
aconteceu... – ela se sentiu envergonhada de falar assim tão abertamente, mas continuou
- e isso deve fazer a diferença e deve também fazer você não ser um monstro.
— Você não entende. A única coisa que me fez viver todo esse tempo foi o meu
autocontrole. Privei-me de tudo, eu não sinto nada por dentro há muito tempo. E esse
autocontrole eu posso perder a qualquer momento.
— E é isso que faz a diferença - ela comentou, segurando suas mãos que tremiam.
– Você se controlou porque não quer ser um monstro e por isso você não o é. Agora por
favor, me conte o fim da história até me conhecer. O que lhe aconteceu depois.
— Não aconteceu nada demais.
— Isso quem decide sou eu. - ela interrompeu – Você prometeu – lembrou.

199
Ian olhou fundo nos olhos de Ana e percebeu um tanto espantado que eles não
transmitiam medo. Por quê? Pensou. Eu poderia tê-la matado, mas você acredita em
mim. Por favor, não me diga que aquilo é verdade.
Ian lembrava-se do olhar da prostituta em Virgínia e de todos os magos que
encontrou depois disso. Todos eles tinham as mesmas expressões: ódio, medo... mas ela
não. Por quê?
Há tanto tempo se sentia sozinho. Apesar de ter amigos como Ian, ele nunca pôde
ter nada tão intimo com ninguém. Nunca conseguiu se abrir da forma como estava
fazendo agora. Nem para a sua atual mãe, que muito amava, nem mesmo com Solange,
que tanto o entendia.
Ian olhava nos olhos de Ana tentando fazer com que todas as suas mágoas e
medos passassem para ela. Ele queria avisá-la, mas as palavras não saiam.
Droga, isso não pode estar acontecendo. Fuja de medo, me odeie por te esconder
tudo, me despreze por ser um monstro, mas vá embora. Vá! Não alimente o que eu sinto
por você. Você não pode ficar comigo, mas eu sou egoísta demais para acabar com
tudo por mim mesmo. Eu preciso de você. Então acabe você, por favor.
Eram as palavras que ele diria se tivesse coragem, mas elas ficavam engasgadas
na garganta e Ian torcia para que seus olhos pudessem transmiti-las por ele.
— Termine – ela pediu, acariciando seu rosto. Um toque quente, mas sem nenhum
apelo. Era bom sentir aquele calor de novo e ele deixou o rosto cair.
— Por favor. – encorajou. – O que aconteceu quando você nasceu como Ian? – e
foi quando ela se levantou e foi se sentar em cima da cama, agarrando-se a um
travesseiro. Era a mesma coisa que fazia sempre que ia ouvir as histórias de suas tias
antes de dormir. Era bom voltar a sentir aquilo.
Ela ainda tinha o desenho de Catarina na mão, que o colocou no bolso no casaco
para poder segurar melhor o travesseiro.
— Estou pronta – falou – Pode começar.
Ele desistiu de tentar convencê-la.
— Está bem – concordou.

200
24 – Ian.

Bem. Meu suicídio havia falhado e eu acabei reencarnando como Ian. Quando
nasci, mais uma vez não me lembrava de nada sobre Kalish ou Lucien e vivi
normalmente como um jovem carioca de classe média. Graças a minha experiência com
cidades na vida como Lucien, eu não sentia mais tanta falta do ar livre que sentira na
minha segunda vida. Mas uma dor sempre me acompanhava, e dessa eu não sabia a
razão até minha memória centenária despertar.
Mas havia algumas coisas novas nessa minha vida como Ian que eu não havia
experimentado como Lucien. Pra começar, eu havia criado laços aqui. Primeiro por
Marta, que foi uma verdadeira mãe para mim e ainda é. Essa era uma experiência que eu
nunca senti antes. Primeiro, porque nos Garows, as mães eram comunitárias, e como
Lucien, minha ama era mais minha mãe que a própria.
Enfim, eu realmente gostava da vida como Ian, até que finalmente acordei. Como
antes, esse foi um processo demorado e de certa forma doloroso. Eu comecei com uma
série de sonhos aonde havia Alpes, neve e lobos. Depois veio a crise de sonambulismo
onde eu dormia em minha cama e acordava em algum lugar diferente. Sempre dentro de
casa a princípio, até que um dia em particular eu fui acordar no meio de uma tempestade
na praça que temos aqui perto de casa.
Depois disso, veio a nova memória e tudo ficou claro pra mim. Minhas outras
vidas, meus poderes, minha condição e minha culpa. Eu não me lembrava de haver
tentado a magia da ressurreição, mas logo cheguei à conclusão do que havia acontecido
e amaldiçoei minha burrice por não ter tirado o colar antes de me jogar.
Eu tinha novamente a idéia de fugir de casa, assim como fiz como Lucien. Só que
agora eu queria fugir não por tédio, mas sim porque eu não queria arriscar a vida da
mulher que aprendi a amar como mãe, expondo-a a minha besta.
Mas desta vez não foi tão fácil. Tinha uma coisa que me prendia: que era minha
própria mãe. Eu havia vivido tantos anos sozinho, recebendo apenas olhares de desprezo
e ódio de todos a minha volta, que quando via Marta olhando pra mim, sentia uma paz
profunda. Ela me amava e era bom poder retribuir aquele amor, pois ele era puro, onde
não havia chances de eu sentir nenhum desejo por ela que me obrigasse a… Você sabe.
Enfim, era perfeito demais para simplesmente ir embora. Eu pensei também em
tentar um novo suicídio, mas esta alternativa também não era válida. Como Lucien, eu

201
tive que chegar a um estágio em que tivesse perdido tudo para tomar tal decisão. Já
como Ian, eu tinha coisas que valiam à pena. Eu tinha minha mãe e isso me tirava toda a
coragem de repetir o ato.
E foi nesse período que eu tive contato com outros magos do nosso tempo. Na
verdade, com bruxos, magos compactuados com demônios que me queriam ao seu lado.
Depois de um leve confronto, onde também conheci Solange, que descobri ser também
uma maga, conseguimos nos livrar deles.
É estranho, né? Nossa vizinha Solange também é uma maga. Para você vê. Magia
está em toda a parte, mas o véu nos impede de ver. Bem, quando nos livramos deles, eu
vi que era egoísmo demais de minha parte tentar manter minha mãe ao meu lado.
Apesar de não correr o risco de sentir excitação por ela, ainda assim era perigoso, pois
isso não me deixava livre de outras sensações. Tais como a raiva.
Você pode imaginar como é? Eu não podia nem sequer discutir com ela com
medo de perder o controle e isso me deixava louco. Sendo obrigado a me fiscalizar
perante a cada atitude. E apesar de amá-la, é difícil não se irritar nunca.
Bem, então eu tinha que ir e já estava me preparando para isso. Eu tinha idéia
simples de viver isolado em algum lugar até que a morte chegasse. Desta vez não
tentaria enganá-la. Nem fiz mais o ritual para não cair em tentações. Não queria mais
viver daquela maneira. Tendo de me privar de tudo. Afinal, isso nem é viver, é
sobreviver.
Logicamente eu tinha a opção de me matar, mas a verdade é que não queria.
Primeiro, porque não queria que minha mãe sofresse se sentindo culpada pela minha
morte e em segundo porque eu já tinha provado disso duas vezes e não queria tentar
uma terceira. Pode ser paranóia, mas eu me sentia dentro de um ciclo vicioso de
suicídios. Achava isso já doentio.
Quem sabe viver uns dez ou quinze anos de solidão não me fariam ganhar
desespero o suficiente para tentar me matar de novo? Mas até então, não. Foi então que
me aconteceu. A minha nova benção/maldição.
Eu conheci você.
Você chegou de uma forma tão repentina. Era uma garota linda, mas ao mesmo
tempo frágil, quando se mudou pra cá na rua. Eu lembro que a minha mãe me
convenceu a ir até a casa de vocês naquela manhã de mudança, para me apresentar. Ela

202
sabia que havia uma menina da minha idade e achou uma boa idéia eu tentar lhe
enturmar com o pessoal da rua.
Eu relutei em fazer isso, afinal eu já estava planejando a minha fuga e fazer novas
amizades não facilitava o processo. Mas acabei sendo convencido. Pensei então que
poderia apenas te apresentar a todos os meus amigos e deixar que você mesma cuidasse
das coisas. E foi com esse pensamento que fui até a sua casa.
Sua mãe me atendeu muito bem e me convidou para entrar, me mandando para
seu quarto. Ela estava muito preocupada e hoje sei que queria muito que você
conseguisse um amigo. Então eu entrei e foi quando a vi pela primeira vez.
Confesso que a primeira coisa que senti foi pena.
Desculpe-me. Eu sei que é triste ouvir isso de alguém, mas você estava tão pra
baixo, tão desamparada. Acho que me comovi com seu estado desde o princípio, não
sei. Eu só sabia que naquele momento eu queria te ajudar.
Na verdade, teve mais uma coisa que me chamou atenção em você. Sua energia.
Eu me lembro claramente de ver aquela áurea roxa queimando em volta de seu corpo e
achei aquilo intrigante Pois, como alguém podia estar tão viva no espírito e tão fraca no
corpo?
Hoje eu entendo bem isso. Apesar de desolada pelo seu trauma, você ainda se
agarrava firmemente em suas crenças e isso lhe dava todo aquele poder que eu via
transbordar. O que aconteceu depois foi bem estranho, lembra? Foi quando comecei a
perguntar sobre a sua vida e você facilmente falou de tudo o que tinha lhe acontecido.
É. Acho que você estava realmente desolada naquela época e só queria encontrar
alguém que te ouvisse sem lançar o olhar torto. Acho que fui eu a fazer isso. Desde o
inicio já sabia que era verdade o que você dizia. Eu reconheci muitos dos
acontecimentos e dos rituais que você citou. Sabia que você não poderia inventá-los
com tanta precisão.
De fato você havia conhecido druidas. Mas, mesmo reconhecendo que você falava
a verdade, eu ainda tinha dúvidas se confirmava ou não as suas crenças. Desculpe dizer
isso, mas você estava tão perturbada com a coisa que era potencialmente capaz de se
tornar uma Caótica.
Foi então que pensei bem e vi que poderia esperar que você se acalmasse e
amadurecesse para aí sim lhe contar algo. A idéia era boa, eu pensei na época. Eu
poderia lhe mostrar o Véu e depois Solange se encarregaria de lhe iniciar nas artes

203
mágicas. Afinal, você já havia tido muita experiência com suas tias e por isso devia
conseguir mais fácil.
Havia uma grande maga em você e eu pude ver isso, mas eu ainda planejava ir
embora e não podia assumir um compromisso com uma nova aluna. Não podia ser seu
mestre. O que eu não sabia era que meus planos já estavam sendo minados naquele
mesmo dia. Pois, quando saí da sua casa naquela manhã, sua mãe me interceptou. Ela
viu que você estava mais feliz depois de nossa conversa e pediu para que eu voltasse
mais vezes.
Isso não era parte de meu plano, mas eu não pude resistir a sua súplica e tive que
adiar minhas idéias. Então resolvi retificar meu planejamento e minha partida seria
adiada para até depois que você se recuperasse e quem sabe, eu já lhe apresentasse à
Solange.
Mas a cada dia que passava eu não percebia a armadilha se formando dentro de
mim. Você era tão dependente, tão frágil. Eu tinha que te proteger de tudo: das pessoas,
de seus pais e até de você mesma. Isso pode parecer irritante, mas acabou por despertar
em mim uma personalidade que nunca havia experimentado.
Eu sei que devia ter posto um fim nisso naquele momento, mas quanto mais eu me
atolava mais eu queria me afundar mais. Quando menos pude perceber, estava
realmente dependente de você. Era dependente de sua necessidade de mim, de sua
vontade de me ter por perto, diferente das inúmeras outras pessoas que me perseguiam
como Lucien. E foi quando essa dependência evoluiu e eu passei a me apaixonar por
você.
Eu queria você pra mim, mesmo sabendo que era impossível. Pois como você
poderia gostar de um monstro feito eu? E foi então que eu descobri que nunca mais
conseguiria contar a verdade pra você. Eu tinha adiado demais e agora perdi a chance.
Eu não teria problemas se tivesse feito você atravessar o Véu antes, porque eu
ainda não era apaixonado por você. Eu não teria problemas em te contar meu passado
sombrio, mas agora, era impossível. Contar-te a verdade sobre suas tias e sobre o
mundo seria a ponte que te ligariam ao meu passado, a minha vergonha e eu sabia que
chegaria um momento após saber de tudo que você começaria a me perguntar sobre
minha história, como aconteceu hoje.
E aí eu teria que contar tudo a você, pois não seria justo esconder quem eu era. E
esse medo foi adiando minha confissão até que enfim aconteceu: você parou de

204
acreditar. Agora minhas histórias sobre magia não a interessavam mais. Você havia
acreditado finalmente que suas tias haviam morrido num acidente e que todas as
histórias eram apenas contos para distraí-la.
Eu só não sabia que preço que você pagou para conseguir esse conforto foi tão
alto. Nunca fiz uma real idéia de quanto esse tratamento havia mexido com você. Você
perdeu sua fé, perdeu parte de sua esperança e de seu brilho. E era minha culpa.
O que me consolava um pouco era o fato de você realmente parecer mais feliz
assim, adormecida. Era um efeito inverso. À medida que eu via sua energia caindo e
perdendo o brilho, eu notava que você ganhava saúde, vitalidade. E isso de certa forma
me consolava.
Meu egoísmo não me deixou lhe contar a verdade antes, pois tinha medo que
quando você soubesse de mim, passasse a me olhar como medo ou raiva, assim como
faziam todos a minha volta. Até mesmo Solange, com quem tenho uma boa relação,
demorou muito até parar de me olhar de rabo de olho.
E ver você olhar com desprezo pra mim - ou pior, com medo - era uma idéia que
eu não suportaria.
Desculpe, pois deixei meus sentimentos estragarem sua vida. Se eu tivesse te dito
antes Eu poderia lhe explicar sobre o Véu e assim alertá-la de que era melhor parar de
falar sobre magia pelos quatro cantos e assim você se passaria como uma pessoa normal
e evitaria todo o tratamento. Perdão, mas eu era muito egoísta para ter feito o contrário.

*
Desta vez, Ian não mais chorou e só ficou olhando para o chão, com o rosto
envergonhado diante dela. Ana viu que ele agarrava os próprios antebraços com força,
pressionando as unhas contra a pele e arrancando sangue dela. Ao ver isso, a garota
saltou da cama para abraçá-lo.
— Para – pediu.
— Desculpe – sussurrou ao seu ouvido – è que essa é a única forma que eu
conheço de controlar um pouco a raiva que sinto de mim mesmo e segurar a besta.
— Não importa. – e ordenou com a voz mais dura – Pare!
Ele parou e abraçando-a também, encostou a cabeça em seu peito como uma
criança desolada e ali permaneceu, recebendo afagos de Ana nos cabelos. E ao ver

205
aquele seu estado Ana não soube o que fazer. Ian, que sempre fora controlado, se deixou
desabar ali, derrotado por si mesmo.
— Você não tem culpa – tentava acalmá-lo - A vida foi difícil pra você.
— Mas isso não justifica – murmurou. – Eu devia ter falado. Eu devia ter lhe dado
a chance de se defender de mim. Eu devia deixar que você soubesse desde o começo
com que perigos estava lidando. Devia deixar você escolher se queria estar realmente
perto de mim.
— Mas eu já escolhi – ela lembrou.
— Agora é um pouco tarde. – ele rebateu se soltando dela – eu não podia ter te
deixado se envolver comigo. Você...
— Eu o que? – encorajou, enquanto acariciava o rosto do amigo - não estou
entendendo.
— Porque você teve que gostar de mim? – questionou com uma pontada de
revolta como se a estivesse acusando - Por que teve de se envolver comigo? – e se
afastou, encarando-a.
Ana ainda precisou de um tempo para compreender do que ele estava falando e
quando conseguiu, sentiu-se envergonhada e temerosa em explicar.
— Ian... – ela começou, pensando bem nas palavras que ia dizer. – Você está
entendendo errada a situação... – não sabia como continuar.
O garoto, que estava de pé fitando a janela, parou para encará-la com o rosto
intrigado.
— Como assim? - perguntou.
— Eu... – e gaguejou nervosa – Eu não... Eu não estou apaixonada por você –
resolveu ir direto ao assunto.
Aquela informação pareceu tê-lo atingido como um tapa no rosto, deixando-o
estupefato.
— Mas... e quando você me...
— Desculpe – ela se apressou em dizer, enquanto se levantava e segurava o rosto
do amigo, fazendo com que ele a olhasse nos olhos. Mas apesar de sua tentativa, Ian
começava a andar pelos lados falando mais alto.
— Por que você me...

206
— Sinto muito. – interrompeu, sentindo-se muito mal por tudo - Eu acho que foi
besteira. Não achei que significasse alguma coisa pra você... - mas ela sentiu que sua
desculpa não era convincente o suficiente e a voz de Laila veio a sua cabeça.
Acho que ele não se importaria em ser usado. Ele é doido por você.
Serio! Mesmo! Ele quer tanto quanto você. Geralmente quem está dentro nunca
percebe
— Você achou que não significaria nada? - ele agora estava perplexo. Ana sentia
que quanto mais tentava explicar, mais se complicava – Então... eu era só um consolo?
Um prêmio de consolação?
Ana ficou muda. A voz de Laila não saia de sua cabeça.
Ele é homem, não vai se importar.
Mas o pior de tudo era saber que, na verdade, a amiga havia lhe avisado. Havia
lhe dito quando Ian gostava dela e mesmo assim ela o usou.
— Desculpe. – pediu com a voz fraca.
Mas ele continuou como se não tivesse escutado:
— Eu só pensei que... com todos esses anos juntos eu tivesse mais crédito com
você.
— Eu sinto muito – e tentou investir mais uma vez.
Mas Ian ficou de costas para ela, apoiando as mãos na janela segurando com força
no parapeito, murmurando palavras que não eram direcionadas a Ana e sim
constituintes de um monólogo interno, mas que a garota pôde escutar ainda assim.
— E eu quase matei você por um consolo? Uma brincadeira? Eu quase fiz aquilo
de novo... por nada?
— Ian – ela levou sua mão ao ombro do garoto para tentar puxá-lo de volta.
— Por favor... - ele pediu com uma calma controlada, mas sua voz parecia que ia
explodir a qualquer momento - Saia.
— Mas...
— Saia! – E sua voz soou como um rosnado feroz e, ao virar o rosto para encará-
la, Ana viu em seus olhos azuis uma coloração vermelha que começava a surgir na
pupila, se espalhando pelo globo ocular como se fosse um colírio pingado.
Aquilo a fez dar um passo para trás com um leve susto, mas não o suficiente para
fazê-la correr feito louca de volta para casa, pois a vontade de se desculpar melhor,

207
ainda era mais forte. Mas foi então que o bom senso começou a lhe avisar que era
melhor ir embora. Ele estava muito transtornado e não poderiam conversar assim.
Mesmo contra a vontade, Ana saiu do quarto do amigo fazendo um último pedido
de desculpas antes de sair. Ao chegar à porta deu de cara com Marta.
— O que houve minha filha? – ela se alarmou vendo os olhos inchados de Ana -
Porque tanta pressa?
— Desculpe tia Marta - a garota se desviou da mulher antes que ela a pegasse e
saiu para casa em alta velocidade.
Chegando em casa, ignorou seus pais que dormiam abraçados no sofá da sala.
Ignorou que estava molhada devido à chuva que insistia em se manter forte. Ignorou
tudo. Só queria chegar ao quarto. Lá, pôde fazer o que realmente queria. Caiu na cama e
deixou que a culpa saísse de dentro dela e chorou como não lembrava mais, sentindo o
alivio que as lágrimas lhe proporcionavam.
E assim permaneceu, deitada na cama, sem ânimo de trocar de roupa. Desculpa,
ainda pedia em silêncio. Sentia frio e foi então que se deitou de lado e uniu as mãos em
frente ao rosto em forma de cuia pondo-se concentrada. Foi então que, mais rápido que
antes, uma pequena chama roxa acendeu-se em sua mão, aquecendo seu corpo. O fogo
dançava à sua frente e a manteve distraída por um tempo, fazendo-a esquecer a dor que
sentia. Era bonito admirá-la.
Então, cansada de manter o fogo acesso, ela só torceu intimamente para que a
raiva do garoto não durasse até o dia seguinte. E assim, fechando os olhos, caiu no sono.

208
25 – Numa noite chuvosa.

Andando pelas ruas do centro no meio da forte chuva, um homem de terno preto
seguia sem parecer ter destino certo. Ele usava um guarda-chuva negro e tentava, a
muito custo, tampar com a mão um isqueiro que lutava para acender, nem que fosse por
alguns segundos apenas suficientes para que o sabor adocicado do cigarro lhe entrasse
os pulmões após uma boa tragada.
— Finalmente – murmurou quando conseguiu.
E colocando o cigarro na boca ele se deliciou, pondo-se a esperar na esquina da
Avenida Presidente Vargas.
Maldita chuva. Praguejou, enquanto olhava o relógio da rua que marcava meia
noite e três. Atrasado. Mas enfim, como que ouvindo seus pensamentos, um Vectra
preto começava a surgir pela deserta avenida.
Ao reconhecer o carro, o homem caminhou um pouco, posicionando-se
estrategicamente para receber o passageiro. O carro estacionou à sua frente, mantendo a
janela do carona bem próxima dele. Assim, o vidro se abriu e o homem jogou um
envelope de papel pardo no seu interior e já ia se virando quando alguém de dentro o
chamou.
— Pensei que não fosse haver conversas – indagou o homem de preto.
— Só estou curioso – dizia um sujeito gordo de facetas rosadas que colocara
apenas a cabeça calva para fora do carro – Como andam as coisas com os clérigos?
— Ambos já estão sobre o nosso controle, ficarão vivos enquanto forem úteis.
— Mas eu soube de um terceiro que freqüenta aquela Igreja - questionou o gordo
com ar divertido
— Um iniciante – fez pouco caso – não vai incomodar – e atirou a guimba do
cigarro numa poça d’água e se preparou para pegar outro.
— O cigarro mata meu amigo – alertou o senhor no carro.
— O colesterol também - cortou o homem de preto numa voz fria
— Me pegou – riu-se o senhor e o carro disparou pela rua chuvosa.
Falta pouco agora, se animou o homem de preto. Logo poderemos acabar com
aquela igreja de uma vez.

209
26 – Plano de Fuga.

Ana acordou com sua mãe lhe chamando na manhã seguinte, e apesar da fadiga
enorme que sentia que a impedia de se levantar, Helena não parecia querer desistir tão
fácil.
— Querida acorda. Vai perder a hora.
Ana lutava para se manter sonolenta, mas logo se rendeu e, ainda de olhos
fechados, ergueu-se, retirando o cobertor de cima do corpo e ficando sentada na cama.
Permaneceu em estado inerte até que sentiu Helena segurar seu rosto. Ao abrir os olhos,
viu o olhar da mãe encarando-a intrigada.
— O que houve? – questionou – Andou chorando?
— Não é nada – e tentou virar o rosto, mas a mãe o segurou.
— Como assim não foi nada? – ela puxou a coberta - Olha pra você. Dormiu
assim e... - passou a mãos no colchão - e toda molhada. O que você está pensando?
Quer ficar doente?
— Eu cheguei cansada e dormi direto - explicou Ana um tanto apática. Por um
lado estava feliz pelo foco da discussão ter mudado, já que agora a sua
irresponsabilidade havia tirado a preocupação da mãe com seu estado de espírito.
— Francamente! – exclamou – Se arruma logo e vai pra escola. Quando eu chegar
do trabalho, quero explicações. Não pense que vai fugir dessa fácil Ana.
É. Ela sabia que não ia escapar fácil. Mas não queria se preocupar com isso agora.
Então, tomou banho e se arrumou, fazendo isso de forma mecânica e não orgânica, pois
seus pensamentos estavam muito longe daquele quarto. Ficava pensando em tudo o que
aconteceu no dia anterior. Quantas descobertas e quantos problemas.
Quando foi colocar sua roupa molhada para a lavagem, um papel caiu de um dos
bolsos. Estava um pouco úmido e Ana o reconheceu levando a mão na testa. O rosto de
uma bela mulher surgiu. Um pouco deformado devido ao estado em que estava o
desenho, mas Ana o reconheceu como sendo o desenho de Catarina.
Ao segurar o papel com a ponta dos dedos, a garota gemeu ao ver o estado do
trabalho. Ian não ia gostar nada daquilo. Mas um problema. Pensou com pesar e
resolveu deixá-lo secando na janela enquanto terminava de se arrumar. Quando acabou,
colocou-o na mochila para devolver. Era uma boa maneira para se iniciar um assunto
com ele e só esperava que seu humor já tivesse melhorado o suficiente para que ele não

210
fizesse muita questão para o estrago em sua obra de arte. Afinal, ele não devia estar
ainda bravo com ela, não depois de uma noite inteira. Era nisso que ela queria acreditar.
Assim, acabou de tomar o café e saiu de casa escutando sua mãe gritando quando
atravessou a porta:
— Não se esqueça de nossa conversa, mocinha!
— Tá mãe! – respondeu Ana, já no portão.
Assim que saiu de casa, tratou de passar na de Ian. Apesar de eles sempre
caminharem juntos para o colégio, ficou com receio de chamá-lo hoje. Tinha medo de
como seria recebida. Então, esperou um pouco para dar o tempo de o garoto sair e foi
quando viu Solange regando as suas plantas no jardim de casa. Sem pensar duas vezes,
correu até ela.
— Bom dia tia Solange – cumprimentou, um tanto hesitante – A senhora viu se o
Ian já saiu?
— Saiu sim. – respondeu a mulher num tom um tanto seco. Ana se surpreendeu,
pois Solange sempre teve um bom humor, apesar de a garota sempre fugir dela. Ela era
do tipo de mulher que quando começava a falar não parava mais, mas naquele dia em
especial não parecia querer papo com Ana e a garota decidiu ir para a aula sozinha
mesmo.
Chegando lá, não teve tempo de procurá-lo na entrada, pois, já era hora de ir para
a primeira aula: física. Assim, entrou na sala e percebeu que o lugar de Ian, que era
sempre ao seu lado, estava vago. Olhou em volta intrigada e o viu sentado ao lado de
Rodrigo, que falava animadamente com ele.
Mas apesar de Ian estar olhando para o amigo, Ana pôde perceber que ele não
prestava muita atenção. Seu olhar estava um tanto perdido e ele acenava com
regularidades cronometradas para mostrar que estava atento ao que o seu interlocutor
dizia. Naquele caso, seu olhar estava tão vago que ele nem viu quando Ana chegou. Ou
fingiu não ver, ela não saberia dizer, mas então a garota se esgueirou até seu lugar e
sentou-se, apoiando cabeça nos braços cruzados.
Vai ser mais difícil que eu pensei.
E foi quando ela sentiu alguém sentando a seu lado e levantou a cabeça na
esperança de encontrar Ian de volta. Mas era Laila.
— Oi fofa! – saudou, dando-lhe um beijinho na bochecha – Como foi seu
domingo?

211
— Por que você esta sentada aqui hoje? – Ana não queria ter falado de forma tão
fria, mas não pôde evitar. No fundo, ainda culpava a amiga por seus problemas.
— Bem... – respondeu um pouco constrangida - Eu pensei que já que o Ian
resolveu mudar a rotina eu poderia aproveitar para falar com você... – e tentou
acrescentar rápido – mas se você...
Mas Ana sentiu uma pontada de culpa no peito.
— Não, não – interrompeu – Desculpe. É que não dormi bem e acordei meio
virada.
— Sei qual é. – disse, parecendo recuperar o humor.
Realmente nada a abala. Pensou feliz por saber que não magoara outra pessoa
em menos de vinte e quatro horas.
— A noite foi boa? - ela perguntou – Já que você não dormiu direito.
Ana riu do comentário.
— A melhor parte dela foi que eu finalmente consegui dormi – resmungou.
— Nossa! – ela se espantou - Foi tão ruim assim?
— Pior. - era mentira. A noite foi ótima, mas terminou horrível.
— Eu imaginei – ela falou olhando para Ian – Então parece que eu me enganei
feio, não?
— Acho que sim. – concordou com um meio sorriso.
— Estranho. - insistiu e Ana viu que ela não iria desistir assim tão fácil de sua
operação Cupido – Eu podia jurar que ele gostava de você.
Ana concordou em mente. Gosta mesmo. Esse é o problema. E pensando naquilo,
Ana não pôde deixar que uma coisa a intrigasse por não se encaixar naquilo tudo. Se ele
gostava tanto dela como dizia, por que então beijar Solange daquela forma? Apesar de
tudo, não conseguia tirar aquilo da cabeça.
— Acho que ele gosta na verdade de outra pessoa - deixou escapar.
— Sério? – surpreendeu-se - Mentira!
A voz de Laila havia se elevado demais e Ana fez um gesto para a garota moderar.
— Desculpa – pediu abaixando o tom – mas é tão... incrível. Eu geralmente não
me engano tanto assim. Quem é ela?
— Eu não conheço. – mentiu. - Ele só me falou.
Deixando a amiga perplexa ao seu lado, Ana abriu a mochila para preparar o
material, esperando que Laila desistisse enfim. Porém, quando foi puxar seu caderno de

212
Física, uma folha escapuliu e deslizou até a mesa de Laila. Ana ainda tentou recuperar a
tempo, mas a garota era rápida e antes dela pensar em pegar o papel, a amiga já o tinha
agarrado.
— Nã... - tentou impedir, mas se conteve.
— Algum problema? – perguntou - Algo confidencial? – acrescentou, com um
pouco de êxtase na voz.
— Nada – concertou Ana – Dada demais. – e recolheu o braço estendido.
— Posso então? – pediu Laila, fazendo menção de desdobrar.
— Claro. – disse, não muito confiante.
Pelo canto do olho, Ana espiava Ian para ver se o garoto estava vendo o que
acontecia, mas ele não parecia interessado em virar o rosto.
— Nossa! – exclamou a garota ao vislumbrar o desenho – Quem fez?
— Ian - respondeu baixinho.
Foi então que se passou uma expressão pelo rosto de Laila que Ana não conseguiu
captar a essência de imediato. Primeiro, um espanto, depois, um sorriso presunçoso se
abriu em seus lábios e ela olhou para Ana cheia de si.
— Então eu estava certa, não?
— Como assim?
— Ele gosta de você. - explicou como se fosse óbvio e Ana viu que era difícil
para ela esconder seu orgulho por estar certa.
— Mas como assim? – Ana de fato não entendia.
— Ora. Por que outro motivo ele lhe desenharia?
— Hã? - agora ela estava confusa – Laila... a moça da foto não sou eu.
— Como não? Olha você. – e devolveu o papel para a garota poder ver – Tá certo
que a mulher da foto parece um pouco mais velha e mais bonita... Brincadeira! –
acrescentou rápido - Mas é você.
Ana pegou o desenho e olhou a moça linda reproduzida na imagem. Analisando
bem, a única coisa que ela achava ter em comum com Catarina era a tipo de cabelo, pois
ambas mantinham o corte Chanel com franja, mas fora isso, nada. Até mesmo o cabelo
da maga era perfeito e não tinha uma mecha rebelde que sempre cortava seu rosto ao
meio.
— Não é. – teimou Ana.

213
— Olha bem - insistiu Laila - o mesmo cabelo, o mesmo rosto, só que mais velho
talvez.
Ana agora olhava os traços da mulher: Fortes e bem delineados. Laila pegou um
espelho da bolsa e ergueu para que Ana pudesse comparar. Ana riu, mas pegou o
espelho.
Por um lado, talvez. Tentou dar o braço a torcer enquanto olhava do desenho a ela
e voltava para comparar. E vendo assim de perto, até que começou a achar algumas
semelhanças, mas ainda não estava completamente convencida. Acho que é assim que
eu gostaria de ser. Será?
Realmente, agora que falava, elas tinham alguma coisa em comum. De fato eram
muito parecidas.
Talvez tenha sido isso que o atraiu pra mim.
Mas ao pensar nisso, ela se sentiu um tanto triste.
Então deve ser isso. Porque pareço com Catarina. Ele deve ter se confundido
E foi quando a voz do professor Pinheiro cortou seus devaneios.
— Bom dia! – anunciou com seu bom humor habitual.
— Que droga de aula – comentou baixinho Laila.
— Mas você sempre gostou – rebateu Ana, embora não tivesse dado muita
importância ao comentário. Sua mente ainda vagava pelo desenho.
— Eu sei, mas já estou um pouco de saco cheio – riu-se a garota - Quero férias.
Mas Ana não prestava mais atenção a ela. Ficava agora olhando o desenho de
Catarina e realmente se convenceu que ambas eram parecidas e ela só pôde parar de
olhar para o papel quando Laila deu-lhe uma cutucada com o cotovelo. Com um
solavanco da cadeira, viu que o professor a estava fitando e rapidamente recolocou o
desenho de volta na mochila e passou a anotar o que estava no quadro. Assim, o
professor Pinheiro fingiu que nada havia acontecido.
— Obrigada – sussurrou Ana.
— De nada. Deu pra ficar narcisista agora?
As duas riram em voz baixa e a aula foi-se passando. A todo o momento Ana
olhava para o corredor de carteiras ao lado e Ian insistia em não se virar. Queria pelo
menos que ele a olhasse, não estava acostumada a ser esnobada por ele dessa forma. Na
hora do intervalo, decidiu ir falar com ele, mas Laila a segurou.
— Vem comigo comprar folhas de fichário? As minhas acabaram.

214
Ana olhou de volta par Ian, mas ele já tinha saído.
— Ah... Claro.
E seguiu a amiga até a papelaria da escola onde Laila a prendeu em um papo
sobre jóias, que Ana não participou muito. O ruim de Laila é que sempre que começava
a falar não parava mais, embora nos últimos dias parecesse ter conseguido acentuar essa
sua característica.
Quando finalmente conseguiu se livrar da garota, ela correu para o refeitório para
ver se ele ainda estava lá e acabou achando-o numa mesa solitária, brincando com um
sanduíche sem comê-lo. Pela sua experiência, Ana sabia que se Ian estava sem apetite,
era motivo de preocupação. E sem fazer barulho, se esgueirou até a mesa dele e se
sentou na sua frente, sem pedir licença.
O garoto, que estava de cabeça baixa, fitou-a pelo canto do olho sem dizer nada de
imediato. Mas, apesar de seu silêncio, Ana sentiu-se mais aliviada, pois percebeu que
sua expressão não era mais de raiva, parecendo mais que estava constrangido. Era um
bom sinal.
E assim, ambos ficaram calados por um tempinho. Ana não sabia direito como
começar, já que não tinha muita experiência de brigas com Ian e por conta disso, não
sabia muito bem como se desculpar com ele. Odiava que o garoto ficasse chateado com
ela e também gostava demais dele para conseguir ficar brava por muito tempo.
— Desculpe! – acabaram falando os dois ao mesmo tempo, se espantando com a
coincidência.
— Primeiro as damas - convidou Ian.
— Por favor, eu insisto que você vá primeiro – implorou Ana.
Ele sorriu e concordou.
— Tá bom. Desculpe por ter sido um idiota na noite anterior. Eu confundi as
coisas e me sinto péssimo por isso.
— Está tudo bem. – ela se sentiu mais animada.
— Agora é a sua vez - convidou.
Ela sorriu amarelo e falou:
— Eu não devia ter feito aquilo com você. Não podia brincar com seus
sentimentos. Desculpe.
Ele deu uma risada seca.

215
— Não é bem assim, Ana. Acho que você não fez nada demais. Talvez eu esteja
ainda acostumado com o séc. XIX de Lucien. Tenho que me atualizar com o séc. XXI,
onde um beijo não quer dizer necessariamente compromisso.
— É verdade vovô - brincou.
Ele riu de novo. Desta vez, um pouco mais descontraído.
— Foi mal. - pediu de novo - Acho que, na verdade, não foi seu ato que mais me
deixou irritado. Foi descobrir que você… bem... não gosta de mim como eu de você.
Sabe?
Ana se ajeitou incomodada na cadeira.
— Bem. - ela começou – Não tem problema. Eu gosto de você. Mas como amigo.
— E pra mim isso está bom – ele se apressou em dizer - É até melhor. Mais
seguro.
— Não fala assim. Você nunca me faria mal.
— Eu nunca faria mal a ninguém - corrigiu – Mas fiz muito. O que faz você ter
tanta certeza que não vai se repetir?
— Você está muito mais controlado do que naquele tempo. – argumentou.
— Pode ser - concordou. - a verdade é que fazia muito tempo que eu não sentia a
besta tão forte. A fórmula foi até simples: só deixar de viver – comentou irônico – Mas
os últimos dias foram verdadeiras provas de fogo. Eu quase perdi o controle duas vezes.
Ela ia perguntar qual teria sido a segunda, quando se lembrou de seus olhos
prestes a ficar vermelhos na noite anterior.
— Ah... – lembrou-se. Queria mudar de assunto e meteu a mão no bolso do casaco
– Toma. – e lhe entregou o retrato de Catarina – Isso é seu. Eu levei ontem sem querer.
O garoto pegou o desenho agradecendo, mas quando viu o estado do papel sua
expressão ficou interrogativa. Ele ergueu a folha na ponta dos dedos olhando pasmo o
estado dela, fazendo Ana se encolher com cara de culpada esperando a bronca. Mas se
surpreendeu com a reação.
— Terei de fazer outro – comentou sorrindo.
— Desculpe.
— Que isso. Na verdade há muito tempo que quero me livrar dele. Da dor que ele
me causa, mas não consigo. Acho que eu tenho a tendência a me punir, mesmo que de
forma inconsciente.
— Se for assim, eu fiz bem. E digo que se fizer outro, eu o queimarei. – avisou.

216
Ian riu.
— Talvez você não esteja perto de mim para poder fazer isso.
Ana emudeceu com tal comentário.
— Não brinca assim. - ela tentou sorrir.
— É sério. – ele a encarou. – Já passou da minha hora aqui. Tenho que seguir
caminho. Descobrir mais sobre mim. Sobre essa minha maldição.
Ana segurou a mão de Ian com força.
— Não diga isso. – ordenou - Você não vai embora. Não pode. – e escarneceu do
absurdo.
— Posso sim, e devo – corrigiu - Já adiei isso por tempo demais. Eu adiei tanto
que até pensei em nunca mais ir embora. Pensei que eu fosse mais estável. Pensei até
em viver essa vida como uma pessoa comum. Esquecer o passado e morrer como um
adormecido, mas os últimos acontecimentos me deixaram descrente. Minha raiva de
ontem poderia ter desencadeado num desastre. Eu sou uma bomba atômica Ana, e não
quero explodir perto de você nem de ninguém.
— Não diz isso - Ana vasculhava a mente atrás de argumentos – e Eu e... e a sua
mãe. Como ela vai ficar quando você partir.
Ele deu um suspiro antes de colocar a mão na mochila, puxando um pedaço de
papel.
— Já pensei nisso – disse o garoto lançando um jornal para ela.
Ana olhou o jornal sem entender e viu que a noticia era sobre o aumento do
número de jovens desaparecidos no Rio de Janeiro. A manchete dizia:

Sobe para oito o número de jovens desaparecidos.

Lendo rapidamente, ela reconheceu a notícia que vira no telejornal na casa de Ian
na tarde anterior. A reportagem falava do aumento no número de desaparecimentos
ocorridos na região da Vila da Penha e como a polícia desconfiava de que esses
acontecimentos estavam de alguma forma, vinculados com a ação de traficantes
internacionais vistos perambulando pelo Rio de Janeiro. Havia até a idéia de que esses
jovens estavam sendo recrutados para servirem de mulas para o transporte de drogas
para outros países.
— Você está pensando em ser uma mula? - perguntou descrente.

217
— Não – apressou-se em concertar – Você entendeu errado. Isso vai ser só um
álibi. Como uma desculpa para minha partida.
— E você acha que isso vai fazer sua mãe se sentir melhor? - comentou sarcástica
- O filho sendo um traficante.
— Não é isso – e apontou para outra parte da noticia – Olha isso.
A folha dizia:
Jovem é encontrado decapitado.
Confirmando as suspeitas da ação do tráfico internacional no Rio de Janeiro, a
cabeça do jovem André se Souza Lima, 17 anos, desaparecido na manhã do dia 20 de
junho, foi deixada na porta da 27° delegacia, na noite de ontem. Tal ação se assemelha
muito a ação dos traficantes, que vêem aterrorizando o México, aumentando as
suspeitas da ação desse grupo no Brasil. A polícia ainda investiga a causa da morte,
mas a principal teoria é de que André fosse usuário de drogas e que havia contraído
uma alta divida com os traficantes.

— Não entendi - comentou dobrando o jornal.


— Bem – tentou explicar - Não há uma maneira de minha mãe não sofrer com a
minha partida. Bem que eu queria, mas não dá. Então eu pensei em forjar minha morte.
Não quero que ela fique com a vida parada tendo esperanças de que eu um dia volte.
Acreditando que estou morto, será mais fácil para ela tentar recomeçar. Essa é uma boa
oportunidade, afinal eu me encaixo no perfil.
— Como assim? Ian – e riu descrente – ninguém vai acreditar que você resolveu
do dia para a noite virar uma mula. Não dá, tira isso da cabeça.
— Eu não quero ser uma mula Ana. – respondeu achando graça de sua confusão.
Só uma vítima, como esse tal Luiz. E assim, posso ser encontrado morto um dia.
— E como você faria isso?
— Sei de alguém que pode arranjar um corpo. – falou misterioso.
— Mas você não usa drogas! - lembrou Ana. A garota começava a ficar nervosa.
Ele esta falando sério. Já pensou em tudo.
— Nunca é tarde para começar – brincou, rindo um pouco antes de ver a cara da
garota que a fez parar.
— E você acha que isso vai fazer sua mãe se sentir melhor?

218
— Olha, eu sei que é cruel o que estou fazendo, mas eu não sei como fazer
diferente. – o olhar o garoto agora era duro – Assim pelo menos eu faço com que ela
tenha uma lembrança ruim de mim. Talvez assim seja mais fácil pra ela tentar me
esquecer, sei lá. E ela vai ter o Nathan para consolá-la depois.
— Nathan? - perguntou surpresa.
Ele pareceu surpreso com a dúvida de Ana, mas depois levou a mão á cabeça
dando uma tapa na própria testa.
— Ah, esqueci de te falar, não é? Minha mãe está grávida. Três meses. Souberam
do sexo anteontem. – anunciou com um sorriso.
— Serio? - Ana ficou radiante - que legal - E depois seu sorriso desanimou - Mas
você nem vai querer aproveitar o irmão.
— Não vai dar - disse o garoto também triste de novo - Acho que ele vai fazê-la
se sentir melhor. Espero que sim. É bom não ser mais o filho único.
— Parece que você não vai desistir, não é? - disse desanimada
— Não – concordou Ian, fitando seu sanduíche intocado - Até porque minha mãe
já tem pensado coisas desse tipo sobre mim.
— Não é possível. - Ana riu de escárnio - Ela não pensaria isso de você.
— Na verdade, pensa sim – ele a corrigiu sem ânimo - apesar de nunca ter falado.
Minha mãe tem ficado muito pavorosa com essas noticias e tem se preocupado muito
comigo por conta disso. - e completou meio encabulado - E nos últimos dias eu tenho
feito coisas que acentuaram tal preocupação.
— Não pode ser. – disse Ana, mas então o momento da conversa com Marta
voltou a sua mente:
Não é que eu não confie nele é que... eu não confio nos outros
Ela ainda se lembrava da súbita onda de dor que passou pelos olhos dela, naquele
momento da conversa quando a reportagem passou na televisão. De fato, ela estava
preocupada com o filho.
Por quê?
— Como ela pode pensar isso? - perguntou Ana.
— Bem. A verdade é que ultimamente eu tenho agido de forma um tanto estranha.
– ele parou um minuto suspirando – Eu não queria te contar para não te assustar, mas
acredito que agora o perigo já passou. - disse voltando a atenção pra garota. - Nos
últimos dias eu percebi a presença de um demônio pelo nosso bairro.

219
— Um demônio? – Ana se curvou para junto de Ian a fim de que a conversa fosse
mais particular.
— Sim, um possuído, eu achava.
— Como assim?
— Eu não sei explicar. Foi... diferente. - ele parecia realmente confuso.
Ana esperou, até que ele se propôs a divulgar.
— Bem, vou te contar do principio:
“Há umas duas semanas, quando notei sua presença tão próxima, comecei a temer
pela segurança de você e de minha família. Falei com Solange e ela também estava
ciente da presença do intruso, só que ele não fazia nada. Ficava sempre perambulando e
rondando nossa rua sem nunca se revelar.
“Fiquei dias sem dormir por conta disso, saindo à noite e voltando cada vez mais
tarde para casa a fim de encontrar o desgraçado e acabar com ele. Mas o infeliz era
escorregadio. Aconteceu que, com o tempo, minhas chegadas em casa ficavam mais
tardes e minhas desculpas mais esfarrapadas. Isso já é o suficiente para uma mãe ficar
desconfiada, mas ela nunca me interrogou seriamente sobre o assunto e eu também
nunca dei maiores explicações.”
— Por isso que você esteve andado tão cansado esses dias – comentou Ana.
— É, e isso minha mãe também percebeu. Teve um dia em que eu a peguei
vasculhando minhas coisas, provavelmente atrás de drogas. Essa é a maior preocupação
dela. - comentou triste - Então da próxima vez que ela procurar eu vou fazer com que
ela ache algo. Aí eu sumo e peço para meu amigo simular minha morte.
— Ainda acho uma idéia ruim - replicou Ana.
— Mas é a melhor que eu tenho – cortou Ian – Não quero que ela fique esperando
por mim a vida toda. Quero que ela siga em frente e tente ser feliz.
Ana lutava para não extravasar a raiva que sentia da idéia dele e, percebendo isso,
Ian fitou seu rosto e tentou mudar de assunto.
— Não quer saber o que aconteceu com o demônio? – ele arriscou.
Ana ainda estava com raiva dele, mas também estava curiosa. Era um golpe baixo.
Então, confirmou com a cabeça, mas sua expressão deixava bem claro que aquele
assunto ainda não havia encerrado.
Ian deu um pigarro antes de começar.

220
— Como eu disse, havia um demônio a solta. Não sabia o que ele queria, mas
tinha quase certeza de que eu era seu alvo.
— Como eu falei, já fui recrutado por essas criaturas antes, assim que despertei
para minhas verdadeiras lembranças. Então, quando houve a chance de viajar para o
sitio da mãe de Laila, foi a hora certa de saber quem era o alvo da criatura. Falei com
Solange e ela aumentou a prontidão para o caso dele continuar na nossa rua. Não podia
deixar meus pais desprotegidos. Mas no fim, eu estava certo.
“Então viajamos e na primeira noite eu senti a presença dele de novo. Na primeira
noite, não consegui dormir. Eu tinha a idéia de sair e caçar nosso intruso, mas aí Laila e
Fernanda, e depois você, resolveram se levantar. Tive de disfarçar vendo um filme chato
na televisão esperando que vocês dormissem.
“E quando finalmente todos se deitaram eu pude sair, mas já era demasiadamente
tarde. O canalha havia sumido de novo.
“No dia seguinte ia tentar o mesmo. Saí mais cedo do quarto e aguardei do lado de
fora esperando pelo demônio, mas foi então que você chegou. Não preciso entrar em
detalhes, só dizer que seu beijo me deixou um tanto... perturbado.
“Eu não estava preparado pra aquilo. Fazia tempos que não sentia o toque de
alguém e acabei me deixando levar sentindo a besta reclamando a posse de meu corpo.
Bem, você já sabe o que poderia acontecer. Enfim, não consegui caçar naquela noite
também e fiquei o tempo todo trancado no quarto, tentando me controlar... você sabe
como.
“Então, na última noite, você resolveu sair de casa sozinha. Eu já havia
pressentido demônio naquele dia e não podia permitir que saísse desprotegida. É claro
que escolhendo seguir você, eu deixei outras cinco pessoas vulneráveis, mas você era
minha prioridade”.
Ana sentiu um frio na espinha. Estava prestes a chegar à parte da história em que
se lembrava com precisão. A hora da voz. Aquela voz fria, a mesma de quatro anos
atrás.
— Foi então que aconteceu. Ele se revelou e eu não podia desperdiçar aquela
chance. Tive de revelar minhas habilidades pra você. Persegui o infeliz por mata à
dentro até encontrá-lo. O enfrentei e até estranhei a facilidade com que foi morto.
Parecia ser um principiante atrás de confusão. Mas então...
Ele hesitou nessa parte, parecendo confuso.

221
— O que houve? – sibilou Ana já curvada demais pra perto de Ian.
— Bem, é estranho... - disse coçando a cabeça – Quando eu o matei, ele virou pó.
Cinzas pra ser mais exato.
— E isso não é normal. – deduziu
— Não – concordou – Só há uma maneira de demônios atravessarem o reino dos
mortos e é através de uma possessão. Eles precisam de um hospedeiro e por isso,
quando os matamos suas almas, o espírito vai para a mortalha ficando apenas os corpos
dos hospedeiros.
Ana sentiu um solavanco.
— E eles morrem?
— Calma. – disse Ian, segurando sua mão – Sei que parece terrível, mas é
necessário. O hospedeiro tem que morrer, geralmente.
— Mas, são pessoas inocentes e...
— A verdade é que os demônios não tratam bem os corpos de seus hospedeiros. –
explicou - Geralmente eles fazem as maiores loucuras quando estão dentro de humanos.
Loucuras, como entrar em conflitos desnecessários, arriscam a vida, tentam
experiências sexuais nada convencionais, entre outras coisas. E tais loucuras acabam
por danificar demais o corpo do hospedeiro. A única coisa que os deixa vivos é a alma
demoníaca alojada dentro deles e assim que são exorcizados, os corpos morrem. Não
faz diferença um ritual de exorcismo ou a morte natural para quem é possuído. A morte
virá de qualquer jeito.
Ana concordou com a cabeça, mas ainda estava perplexa. Não pôde evitar sentir
pena das pessoas que tinham esse destino. Imaginar seu corpo sendo controlado, usado
para os mais terríveis fins e depois ser simplesmente descartado.
— As pessoas ficam conscientes quando estão possuídas? – perguntou, sem saber
se queria a resposta.
— Sim – respondeu. Era isso que ela temia.
Ian pareceu decifrar o que ela estava pensando, pois começou a alisar a sua mão e,
com uma voz doce, tentou acalmá-la.
— Se isso lhe serve de consolo, as pessoas possuídas tendem a atrair tal destino
para si. – ficou em silêncio, esperando que suas palavras fossem compreendidas –
Homens e mulheres depressivos ou até muitas vezes gananciosos, acabam por atrair
determinadas criaturas. Sua fraqueza espiritual é a porta de entrada para esses seres.

222
Alguns até se deixam possuir propositalmente, pois tem tendências suicidas ou
acreditam que assim possam ser melhores. - e completou com ar esperançoso. - Isso
ajuda?
— Não, mas valeu.
— De nada. - sorriu desanimado
— Bem, é só isso?
— Não – respondeu Ian, voltando ao foco – O que aconteceu naquela noite foi
estranho porque o corpo não ficou lá. Ele simplesmente virou cinzas, desapareceu.
— O que você pensa?
— Nada ainda me ocorreu. - disse fitando o nada - Pretendo investigar melhor
quando partir.
— Mas... – Ana disse subitamente, agora com um pouco de esperança - Talvez
seja melhor você ficar então. Pense bem, se esse sujeito apareceu por aqui, podem ter
mais. Seria até melhor para você manter todos aqui seguros.
— Obrigado pela tentativa, mas não - cortou Ian com um sorriso – Primeiro, não
acredito que haja mais alguém. Como eu disse, a maneira como ele apareceu, de forma
tão descuidada, me pareceu mais um encrenqueiro afim de confusão. E em segundo, se
há mesmo mais pessoas atrás de mim, quanto mais cedo eu cortar os laços com as
pessoas daqui, melhor.
Ana não encontrou argumentos e mordeu o lábio inferior tentando esconder a
tristeza que sentia.
— Eu não quero que você vá! - disse diretamente, mas a sineta tocou.
— Não podemos nos atrasar para a aula – declarou rapidamente cortando o
assunto.
— Não fuja de mim – chamou a garota quando ele se levantou e ameaçou sair.
— Ian! - ela chamou novamente, tentando correr atrás dele, quando sentiu alguém
segurando seu braço.
— Ana, para de agir que nem histérica – era Laila falando no ouvido da garota.
— Laila, me solta - Ana tentou se libertar
— Sossega menina – sibilou a garota - Tá pagando mico. Olha em volta.
Ana reparou e viu que tinham algumas pessoas olhando para as duas.
— Correr atrás de homem não é bom. Melhor o deixar voltar pedindo desculpas –
aconselhou.

223
27 – A especialista em sonhos.

Ângelo estava sentado na sala de espera do consultório de Cassandra, admirando


espantado a decoração multicolorida do lugar, que fez com que ele se lamentasse ter se
esquecido dos óculos escuros. Mapas espaciais, véus, velas coloridas e outras coisas
enfeitavam o ambiente, tornando-o um tanto agressivo para olhos despreparados.
Cassandra, com certeza, não queria ser levada a sério. A decoração seguia o que
se esperava de um Centro de Tarô comum, só que muito mais exagerado. Aquilo devia
ter a função de dar a noção para um visitante novo de que jogaria seu dinheiro no lixo se
quisesse se consultar com Cassandra.
Ângelo estava sentado num sofá de dois lugares vermelho confortável, enquanto
olhava as coisas em sua volta. À sua frente, uma mulher magra com óculos fundo de
garrafa digitava alguma coisa nervosamente e quando percebia que Ângelo a olhava,
dava-lhe um sorriso expondo seus dentes meio tortos. De fato a mulher completava a
atmosfera estranha que preenchia o lugar.
Enfim, ele ouviu o barulho da porta de Cassandra se abrir e um senhor de terno e
gravata saiu acompanhado da maga. O homem devia ter seus quarenta anos, era branco,
meio calvo e tinha uma barriga um pouco avantajada.
— Obrigado Cassandra – agradeceu o homem balançando a mão da maga com
força. Ângelo podia ver a pobre mulher lutar para se manter de pé com a força do aperto
de mão – Você me tirou um peso de meus ombros.
— Não se preocupe meu caro. Sua mulher o ama mais que tudo. Não duvide
disso. – afirmou com um sorriso.
O homem saiu dali radiante e assim que a porta se fechou, ela murmurou para a
sua secretária.
— Coitado Esmeralda. A mulher dele deve estar com o jardineiro nesse momento.
Se ele correr ainda pega os dois. - Depois deu de ombros e se virou para Ângelo. O
garoto se revoltou com o que ouvira.
— Mas então por que não avisou ao homem? - disse se levantando – Por que o
deixou sair iludido?
— Ora, pois foi pra isso que ele veio – comentou Cassandra como se fosse a coisa
mais óbvia do mundo. – Ele já sabe há muito tempo disso, mas queria que alguém lhe
dissesse o contrário. Pessoas como ele vem aqui apenas para se iludir. - e completou,

224
parecendo um pouco ofendida com a ousadia do garoto - Ele esta pensando agora
mesmo que sou uma golpista e nunca mais vai voltar aqui. – e deu de ombros - Pelo
menos eu o fiz feliz por um momento.
— Ele quer se iludir? – comentou Ângelo, perplexo.
— A ignorância muitas vezes é uma dádiva Ângelo. Então? Não veio aqui
fiscalizar meu trabalho, aposto.
Ângelo ficou surpreso, lembrando-se que não tinha lhe dito seu nome antes.
— Como a senhora sabe meu nome? - perguntou
— Bem – ela sorriu – Você marcou hora com Esmeralda ontem à noite e lhe deu
seu nome.
Ouvindo isto, Ângelo sentiu seu rosto corar e se calou. Cassandra soltou uma
risada com vontade.
— Não pense que vou fazer como nos filmes, anunciando seu nome e dizendo que
já o aguardava, querido. - disse a mulher, achando graça - Isso eu deixo para as pessoas
que vieram aqui para serem enganadas. Com meus camaradas, eu sou eu mesma.
A mulher sorriu e o convidou a entrar. O garoto a seguiu, imaginando que seus
olhos pudessem ser mais maltratados, mas havia se enganado. O ambiente interior era
ainda mais colorido e berrante que o anterior. Cassandra se sentou numa mesinha e
convidou Ângelo a se ocupar a frente dela. Ele obedeceu olhando para a mesa aonde
pôde ver cartas de tarô e outras utilidades que ele não sabia identificar.
A mulher, que estava vestida naquele dia com um manto rosa com detalhes
dourados, tirou um fino xale que lhe cobria os ombros e estalou os dedos, fazendo as
velas se acenderam. Depois, fitou Ângelo com os olhos cheios de curiosidade.
— Não imaginei que o Bispo traria alguém aqui, enfim. – ela falou se sentindo
lisonjeada em finalmente ser útil. – Então, resolveram me contar mais?
— Como sabe que sou da Ordem?
— Não é obvio? - respondeu - Quase todos vocês possuem a mesma áurea
prateada. A Quintessência de vocês é quase que padronizada e especifica. É fácil
reconhecer vocês. E acima de tudo, eu reconheci seu nome. – ela o olhou como se
estivesse estudando-o e depois falou numa voz exaltada – Ângelo, o mago prodígio. Ele
fala muito de você,
Ângelo não pôde esconder o orgulho que sentiu estufando o peito, mas foi
interrompido pela entrada de uma alguém na sala. Ela vestia roupas semelhantes às de

225
Cassandra, só que no tom verde esmeralda. Ângelo já tinha visto essa vestimenta antes.
E a reconheceu como sendo igual a da moça da recepção, mas não podia ser ela. A
recepcionista era estranha e aquela mulher era deslumbrante. Era ruiva também, só que
seus cabelos eram melhores tratados e tinham um volume que realçavam suas
bochechas, além de ser muito mais jovem. Ela sorriu ao entrar, mostrando dentes
perfeitos. Mas o que mais chamavam atenção nela era o verde de seus olhos.
— Esmeralda querida – saudou Cassandra – Então? Tudo acabado?
— Sim – disse a moça com ar de triunfo - A senhora não será mais incomodada
hoje. Despachei todas as visitas.
— Esmeralda? - o queixo de Ângelo caiu. Não pode ser.
— É – Cassandra se divertia com a expressão de espanto de Ângelo – Ela vinha
tendo problemas com alguns de meus clientes e adotou um visual diferente para afastá-
los. - e se virou para a garota - Mas agora está ao natural, não é querida?
— Alguns homens não sabem dar o respeito – ela bufou soprando uma mecha que
ficou desalinhada na frente do rosto – É melhor ouvir piadinhas do que certas cantadas –
e se sentou numa cadeira entre os dois.
— Espero que não se incomode de minha aluna ficar aqui. - comentou Cassandra.
— Eu... não... – disse Ângelo tentando tirar os olhos da garota - Acho que não seja
uma boa idéia.
— Bem, - começou ainda achando graça da falta de jeito do garoto - Imaginei que
o bispo não quisesse envolver aprendizes, mas pelo visto mudou de idéia. Não vejo
problemas em Esmeralda ficar ciente. Ela é de confiança e eu não gosto de esconder
nada dela.
— Até porque você saberia se eu não fosse - Lembrou Esmeralda.
— Saberia mesmo – sua voz subiu alguns oitavos.
— Mas não foi o bispo quem me mandou. - cortou Ângelo, começando a
recuperar o dom da fala.
As duas ficaram surpresas ao olharem para ele.
— Então... - começou Cassandra - você está aqui contra as ordens do bispo?
— Não contra – Ângelo tentou se defender - ele apenas não sabe.
— Isso muda muita coisa – refletiu Esmeralda, meio que de deboche.
— Muita – concordou a mestra.

226
Ângelo percebeu que os ânimos no local tinham se elevado. Provavelmente as
duas eram chegadas em burlar as regras.
— Então – incitou Cassandra – quer continuar?
— Sim. -respondeu.
— Bem, – Começou Esmeralda num tom cuidadoso – o que o levou a agir por
contra própria?
Ângelo ainda não gostava da presença da garota e não sabia se era por causa de
ela ser uma intrometida naquele tipo de assunto ou se apenas era sua beleza que
colocavam seus votos em xeque. Mas no fim, deu um pigarro e decidiu continuar.
— O problema é que eu não sei se o bispo está em condições de lidar com a
situação.
— Só isso? - perguntou Cassandra com os olhos no garoto. - Isso parece um
pouco pretensioso da sua parte.
Na verdade tinha uma coisa a mais. Uma idéia que havia lhe ocorrido há pouco,
mas que mesmo assim não deixava de incomodá-lo.
— Não – continuou – Também acho que tem coisas erradas acontecendo...
— Que tipo de coisas? - a atenção da sala agora era toda dele.
— Não é bem uma coisa... só... um pressentimento.
— Bem, essa é minha especialidade. - disse feliz, apoiando o queixo nas mãos
com os dedos cruzados. - Me diga, o que o está incomodando?
— Não sei bem, só que ontem... nada. - desistiu
Ângelo não gostava de falar de pressentimentos, ainda mais com uma sonhadora.
— Assim não posso ajudar – lembrou Cassandra.
Ângelo se lembrou da pílula que trazia no bolso e a pegou num movimento
rápido. Desde que vira o bispo naquele estado, não conseguia tirar da cabeça aquele
pressentimento estranho, sentindo como se César estivesse sendo negligenciado ou
coisa do tipo.
— A senhora tem algum conhecimento sobre remédios de ervas? - ele estendeu a
pílula.
Cassandra se surpreendeu com o ato.
— Bem não, mas Esmeralda... - disse se voltando para garota.
Antes que ela completasse a frase, a garota meteu a mão no comprimido e o
analisou com seus olhos verdes.

227
— Feito de Beladona pelo que vejo. - disse de cara – Olhando, eu diria que é um
remédio para conter uma inflamação.
— É isso mesmo - confirmou Ângelo se sentindo um tanto estúpido.
— Por que você mostrou então? – perguntou a garota.
— Só pensei que tivesse algo mais.
Esmeralda revirou os olhos, tentando vasculhar a mente e depois respondeu com
simplicidade:
— Às vezes sim...
— Como assim? – exasperou-se Ângelo - Então veja se tem algo a mais.
— Estou dizendo que a composição está correta. É um remédio para inflamação –
cortou a garota irritada com a educação de Ângelo.
— Mas o que você disse sobre poder ter algo mais?
— É que uma das propriedades da planta Beladona é a de ser um bom recipiente
mágico - explicou um pouco impaciente - É possível se depositar magia nela.
— Então ela pode ter magia? Essa pílula?
— Bem, sim – Esmeralda deu uma boa olhada na apreensão do garoto - A
Beladona já foi usada muito como um recipiente para se guardar todo o tipo de mágica:
magia, necromancia, feitiço, e outros. Era como ter uma arma sempre a mão. Como
numa guerra por exemplo. Antigamente os magos colocavam magias ofensivas em
recipientes feitos com base nessa planta e depois largavam como se fosse uma granada.
É bem útil, pois assim você tem munição extra para o caso de ficar sem energia. Mas... -
e fitou o rosto de Ângelo – Só magos experientes são capazes disso. De quem você
desconfia?
Ângelo baixou a cabeça pensando se devia duvidar de um superior assim para
estranhos. A verdade é que não tinha prova alguma. Talvez fosse só implicância devido
a fato de o frade estar o tratando tão mal. Ao olhar par frente, percebeu que as duas
esperavam pacientemente pela notícia como se fosse a última fofoca do momento.
— O Frade Henrique – falou finalmente.
Cassandra arregalou os olhos, espantada. Para Esmeralda a notícia não quis dizer
nada. Provavelmente nem sabia quem era.
— Isso é muito sério Ângelo – avisou Cassandra.
— Eu sei – afirmou o garoto.
— Conheço o Frade Henrique há muito tempo.

228
— Mas... - ele ia dizer, quando foi interrompido
— Bem, não tem nada. - ouviram a voz de Esmeralda.
— Como? - Ambos se viraram pra ela.
— Não tem nada – repetiu a garota. - Acabei de checar. Nada. Vazia. Nenhuma
magia.
— Isso diz muita coisa... – falou Cassandra.
— É – concordou Ângelo, cabisbaixo.
— Mas eu estou curiosa para saber o que o levou a ficar tão desconfiado.
— Não é nada, só... um pressentimento. - falou se sentindo ridículo.
— Sério? - ela parecia interessada.
— É - confirmou.
Cassandra ficou pensativa.
Meu Deus, o que estou fazendo batendo um papo com uma louca dessas?
— Mas também têm outras coisas – tentou se defender. Não queria se basear
apenas em uma superstição para acusar o frade – ele também tem agido estranho. Parece
não... - mas não tinha argumentos. Melhor calar a boca.
— Vamos mudar de assunto? – propôs Cassandra e Ângelo se sentiu aliviado. –
eu tenho novidades sobre o demônio que está caçando.
Essa notícia fez atiçar sua atenção.
— Sim. Mas como a Ordem dos Iluminados não tem interesses em envolver mais
ninguém, eu não pretendo revelar meus segredos.
O animo de Ângelo se esvaiu.
— Entretanto – ela deixou suas palavras fazerem efeitos na expressão de Ângelo.
– tanto eu quanto você estamos excluídos nisso tudo. Então, acho que não há problemas
em lhe contar.
Ela limpou seus óculos na toalha da mesa e continuou.
— Desde a vez em que me encontrei com seu bispo, eu tenho ficado de olho nesse
sonho. Eu fiz até mesmo uma cópia pra mim das chamas da lareira. E realmente o rastro
de energia que essa criatura emana é assustador. Tão assustador e incomum que é até
mesmo possível de ser rastreado.
— Eu já pensei nisso - respondeu presunçoso.
— Que bom – falou a mulher sem dar importância ao gênio dele. - Era o mínimo
que deveria pensar – alfinetou

229
O garoto fechou a cara:
— Pelo que ando vendo, o sonho de seu mestre é muito claro e a aparição do
demônio iminente. - continuou - O rastro deixado me permitiu localizá-lo, mas sua
posição real é muito imprecisa. Eu consegui resumir a sua busca para algum lugar dessa
região.
E mostrou um mapa. Na verdade, Cassandra estalou os dedos e num movimento
no ar, como se tivesse desdobrando uma folha, fez surgir uma ilusão perfeita de um
mapa.
Uma ilusionista. Ângelo a olhou com desconfiança.
— Sei que sua Ordem é contra pessoas como eu – falou Cassandra, interpretando
as feições do rapaz – Mas você não vai me julgar em tais circunstancias, não é?
— Não. - respondeu.
— Ótimo. Enfim, é essa a região – ela circulou o dedo na área que engloba os
bairros Vila da Penha e Vicente de Carvalho.
— Reduziu bastante – admitiu.
— Sim, mas ainda não é preciso.
— Acho que posso cuidar disso – afirmou Ângelo, confiante.
— Como?
— Uma mágica especial – disse com certo mistério.
— Entendo. - comentou – Não sei o que vocês da Ordem tem que não confiam
nos outros e sempre querem fazer tudo sozinhos. Não me admira que não consigam
alianças.
Ângelo sentiu uma pontada no seu orgulho e a julgar pela expressão da mulher,
era exatamente isso que ela queria.
— Mas não acho bom você se meter assim, sozinho. - completou – Não sabemos
se esse ser está só ou como está preparado. Mesmo você sendo um prodígio como
dizem, não acho uma boa idéia.
— Agradeço a sua preocupação, mas eu sei me cuidar.
Esmeralda deu mais uma bufada de impaciência.
— Espero que saiba o que está fazendo – desejou insatisfeita.
— Não se preocupe. – comentou – Posso me cuidar sozinho.
— Então por que veio até mim pra começo de conversa? - disse com um sorriso
presunçoso.

230
— Só queria uma direção.
— Entendo – disse com um ar meio vago. - Então façamos um trato. Você tenta
procurar esse ser sozinho. Mas não vá fazer a besteira de tentar enfrentá-lo sem preparo.
Entre em contato com seus superiores ou conosco se o localizar.
Ângelo não gostava da forma como a mulher lhe tratava. Parecia a sua mãe. Mas
decidiu concordar para poder se livrar delas.
— Bem, Obrigado. Tenho de ir.
E se levantou, saindo sem esperar respostas.
— Ele é um tanto irritante – comentou Esmeralda quando o garoto fechou a porta
atrás de si.
Mas Cassandra não prestava atenção no que ela dizia.
— Mestra? – chamou Esmeralda - A senhora está bem?
— Ah, sim claro – ela parecia ter saído de um sonho – O que dizia?
— Eu estava falando desse tal Ângelo. Ele é um tanto arrogante. Não acho que vá
fazer o que prometeu.
— Eu acredito que não querida – concordou com a voz ainda distante – Mas na
verdade não estou tão preocupada com ele, mas sim com uma coisa que ele disse.

231
28 - Revirando o passado.

As aulas enfim dariam uma pausa de meio de ano e Ana teve a notícia de que não
precisaria freqüentar o resto da semana para fazer a recuperação, já que suas notas eram
razoáveis. Então estava oficialmente de férias, até dia vinte e cinco do mês de julho.
O que fazer com o tempo vago? Essa era a sua maior dúvida. Na verdade, não
tinha muito que pensar. Queria aprender mais do mundo de Ian e isso tomaria todo o
mês. Seriam aulas nas férias, pensou. Mas esse tipo de matéria ela queria aprender. Mas
então lhe houve uma idéia nova. Uma coisa que há muito tempo precisava ter feito e
que não podia mais ser adiada. Olhou na saída a procura de Ian e o viu indo para casa.
Precisava falar com ele.
A garota acelerou o passo, mas com cautela para não ser percebida. Ainda tinha
medo de que ele a visse e andasse mais rápido. Ian havia adquirido o hábito irritante de
fugir dela nos últimos dias. E foi quando percebeu que uma pessoa vinha na direção
oposta, fazendo-a ficar preocupada ao reconhecer quem: Lucas. Ana estremeceu, não
porque ainda sentisse algo pelo ex, há muito esse não era mais um problema pra ela,
mas porque ele estava indo na direção de Ian.
Ana se lembrava das ameaças que Lucas havia feito para ele e a garota percebia a
iminência de um confronto e começava a ficar preocupada. Sabia bem agora que Ian
tinha força ao suficiente para acabar com seu adversário, mas havia aprendido também
que ele não se permitia entrar em brigas com medo de perder o controle. Sempre julgou
Ian como sendo pacifico, por sempre evitar confrontos, até mesmo nas brigas mais
bobas da infância. Mas agora que sabia que a realidade era outra, não achava justo o
garoto apanhar por não poder se defender.
Meu Deus. Pensou, perdendo a calma e começou a correr na direção dos dois
antes que se cruzassem. Faria qualquer coisa para evitar desentendimentos entre eles.
Mas foi quando Lucas percebeu Ian. Seu rosto ainda tinha algumas escoriações da
última queda de moto. Mas o que aconteceu depois, Ana não entendeu. Quando seu ex
viu o garoto, seus olhos se arregalaram e ele atravessou a rua para evitá-lo.
O que aconteceu? Ela parou sem entender. Lucas parecia com medo, mas Ian não
botava medo em ninguém no bairro, nem mesmo nela que sabia seu segredo. E voltando
a olhar para frente, viu Ian olhando para ela, parecendo esperá-la com a expressão calma
no rosto.

232
— Você não é boa em seguir pessoas – comentou, quando ela chegou perto.
Depois lhe deu um beijo de estalo no rosto e a convidou a acompanhá-lo.
Depois de um segundo de hesitação, ela concordou. Ainda estava perplexa com o
acontecido. O caminho foi lento e silencioso e a animação que Ana tinha para falar com
ele parecia ter sumido no mar de dúvidas. Ela queria propor algo para Ian, mas decidiu
tentar quebrar o gelo com ele antes.
— Ian – ela fitou o garoto que parecia tranqüilo – Não sei, mas me pareceu que o
Lucas tinha fugido de você – ela viu a lábio dele sorrir. Um sorriso traquina, controlado,
culpado. - Você por acaso...
Ele a olhou nos olhos e dava para ver que ele segurava o riso, como uma criança
travessa.
— O que você fez?
— Nada – ele disse parecendo sincero, mas ainda sim ocultando alguma coisa –
Ele só veio me bater, como prometeu.
— Você revidou? Brigou com ele? – Ana já via como a luta devia ter sido injusta.
— Na verdade não, eu só me defendi. A maior parte do tempo foi ele quem se
machucou.
— Como assim? Como ele podia ter se machucado dessa forma, batendo em
você?
— Bem. - ele pensou ainda achando graça. Até que estendeu o braço para ela -
Aperta a minha mão.
Ana o olhou meio hesitante.
— Não se preocupe – a acalmou – não é aquele velho truque do puxa o meu dedo.
Rindo de leve, ela apertou a mão: macia, quente, normal.
— O que tem? – e soltou.
— Agora aperta de novo. – pediu
— Ian, que palhaçada é essa?
— Vai – encorajou.
Ana pegou na sua mão de novo e levou um susto quando a sentiu. Não parecia
mais ser tecido vivo o que ela tinha nas mãos. Continuava quente, mas agora parecia
que estava segurando um bloco de concreto.
Ela o largou, incrédula.
— Como você faz isso?

233
— Concentrando minha Quintessência nessa parte do corpo - explicou – Isso é
uma das bases do controle de energia que você ainda deve aprender. Eu posso com isso
enrijecer uma parte do corpo, tornando-a tão dura quanto rocha. Entre outras coisinhas
mais. – Acrescentou com falsa modéstia - Mas por enquanto é tudo o que você tem que
entender. – acrescentou – Já da para imaginar o quando doeu nele me bater, não?
— Ian...
— Desculpe – apressou-se em dizer – Sei que não foi muito nobre, mas era o
Lucas. Eu não queria apanhar pra ele de graça.
— Entendo - ela não queria rir. Ainda achava um pouco injusto, mas pensando
bem até que merecia. - Pelo menos você não bateu nele.
— É... – concordou com um ar vago e Ana sentiu a mentira na sua voz.
— Ian! - exclamou.
— Foi só um – ele prometeu. Agora parecia uma criança se desculpando – Juro,
um só. Só pra ele me deixar em paz. E... funcionou! - Acrescentou orgulhoso.
— Então a queda na moto...
— Ele inventou. Lucas não ia gostar de dizer que um garoto franzino como eu
havia batido nele. Por mim é até melhor.
— Mas não é arriscado você usar seu poder assim na frente de outros?
— Não tem perigo – afirmou - Ele jamais ira pensar em algo assim. Lucas, como
qualquer adormecido, vai pensar em várias teorias para explicar aquilo. A preferida das
pessoas é que alguém teve um surto de adrenalina – ele riu – Essa sempre funciona.
Era engraçado falar com ele dessas coisas. Ana se sentia de volta a infância e
aonde tinha intimidade com Ian de falar essas loucuras.
— Você só me surpreende – comentou sorrindo.
— Que bom. – ele disse. - Essa é a principal vantagem de se viver como um
mago. Você sempre se surpreende. Confesse que é bem melhor do que o mundo
monótono dos adormecidos. Vale até o risco de ser caçado.
— Tenho que concordar – admitiu.
— Pena que não terei muito tempo para te ensinar mais.
Aquilo foi um aviso. Uma forma de Ian reforçar para ela e para ele mesmo que
estava decidido. E Ana sentiu mais uma pontada no peito e ficou em silêncio, deixando
o sorriso de seu rosto desaparecer.

234
— Você veio comigo só para relembrar os velhos tempos ou tem algo a mais? -
ele decidiu mudar de assunto.
Ele já sabia.
— Acho que você quer me pedir alguma coisa – ele continuou despreocupado. -
Vá em frente. – encorajou.
— Por acaso você sabe ler mentes também? - perguntou.
— Não – respondeu – Só te conheço. Contanto que não queira me pedir para ficar
– ele apressou-se em dizer – pode ser qualquer coisa. Ficarei feliz em lhe realizar um
último pedido antes de ir.
Na verdade, esse era seu principal desejo, mas Ian ainda estava muito certo de sua
escolha. Sabia que agora não conseguiria nada dele, mas quem sabe ganhar um pouco
de tempo. O pedido que ela tinha em mente poderia lhe dar esse tempo. Tempo para
fazê-lo mudar de idéia e assim poderia realizar duas coisas em uma só. Mas acima de
tudo, era uma coisa que ela queria fazer. Uma coisa que ela já devia ter feito.
— Sim, eu gostaria de lhe pedir uma coisa. - confessou - Você também já está de
férias, não?
— Sim. – respondeu, esperando que ela continuasse.
Aquilo era como na noite do jogo da verdade. Ana sentia que o garoto sabia
exatamente o que ia pedir, mas esperava que ela falasse. Por que ele não podia poupá-la
disso?
— Eu queria que você viajasse comigo nessas férias. – propôs.
— Para Três Corações – ele completou. Ana não se surpreendeu
— Sim.
— Para saber o que aconteceu com suas tias.
— Também, mas... - ela hesitou – eu também tenho coisas pra fazer lá. Pessoas
que nunca mais vi. Lugares em que nunca mais estive.
— Entendo – ele parecia sincero. – Conte comigo. - disse por fim.
Ana sorriu em agradecimento.
— Seus pais... – ele questionou.
— Não acho que eles vão fazer objeção – Ana sabia que esse era o maior sonho de
sua mãe: Ela voltar para visitar seu avô e sua avó. E ao se lembrar da avó Marieta, seu
coração apertou. Queria poder olhá-la de novo, mas a última imagem dela ainda era
forte em sua cabeça. A maneira como acabou enlouquecendo depois do incidente.

235
E ficou imaginando que esse poderia ser seu destino. Seria seu destino se não
fosse... Ela parou de pensar. Ao mesmo tempo em que isso lhe dava alegria, também lhe
causava dor. Pois seu protetor desejava deixá-la.
— Minha mãe também quer que eu viaje para espairecer – ele disse.
— Por quê? - perguntou Ana.
— Para me afastar de possíveis más companhias.
Ana percebeu que a preocupação de Marta com o filho era realmente mais séria
do que pensava. Por isso Ian estava tão convicto que seu plano de fuga ia dar certo com
ela.
— Obrigada.
— Não por isso - respondeu
Eles se despediram ao chegarem em suas casas e Ana viu que sua mãe voltara do
trabalho mais cedo naquele dia. Ela sabia que uma bronca a esperava, mas teve uma
idéia de como evitar esse confronto. E então, como parte do plano, correu animada para
a cozinha onde a mãe terminava o almoço.
— Mãe!– ela chamou, deixando toda a sua animação transbordar. Sentia-se
ridícula atuando daquela forma, mas tinha que seguir o roteiro em sua cabeça.
— Ainda bem que você veio mocinha... – a voz dela era severa, mas Ana não a
deixou terminar de falar.
— Eu entrei de férias hoje e...
— Você sabe que temos de conversar... - a mãe não dava muita atenção
— Eu estava pensando em...
— Sabe muito bem que...
— Ir para Três Corações ver meus avós
E foi quando conseguiu fazer Helena se calar, reação essa que Ana já esperava.
Ela pôde notar um sorriso começando a surgir no rosto de sua mãe, que ela tentava
repreender, mas não conseguiu, pois parecia ter se esquecido do motivo pelo qual estava
brava há algumas horas.
— É sério, querida? - ela não parecia acreditar no que ouvia.
— Sim – disse com animação – Eu pensei nisso hoje. Estou com saudades deles e
queria muito ir lá.

236
— Mas isso é... maravilhoso. – Helena estava radiante – Bem, eu e seu pai não
podemos ir, mas... - ela começava a falar consigo mesma – ele pode deixá-la lá e depois
voltar. Aí você pega um ônibus pra voltar... ou...
Ana foi concordando com tudo o que ela dizia com movimentos de cabeça.
— Mas mãe. – ela interrompeu – A idéia foi do Ian – mentiu – Ele poderia ir
junto?
— A idéia foi dele? – o sorriso dela parecia ganhar mais força – Que bom. Claro,
claro.
Ana concordou com um sorriso meio tenso, pois já sabia do apreço da mãe pelo
garoto e com isso, acabara de ganhar mais pontos para ele com Helena. O que ela vai
pensar quando descobrir que Ian é usuário de drogas? Pensou, e até conseguiria achar
graça da idéia se não fosse tão triste.
— Então, tudo bem? - perguntou esperançosa.
— Sim. – concordou Helena – Pode! Vou falar com seu pai hoje mesmo.
— Que bom e... – se fez de desentendida - o que você queria conversar comigo?
A expressão de Helena mostrava que ela acabara de voltar a terra quando escutou
a pergunta. Mas não conseguiu sentir mais a raiva de antes para dar bronca na garota.
Vendo que sua autoridade foi perdida, tentou da melhor maneira passar um sermão.
— Você sabe que fez coisa errada ontem, não é? – Helena tentava ser o mais
severa que conseguia.
— Sei – e Ana tentava parecer o mais culpada que conseguia.
— Então não faça mais isso – apressou-se.
— Prometo.
— Ótimo. Agora vá tomar um banho para comer.
— Sim senhora – e correu para o quarto.
Chegando lá, foi até a janela e viu que Ian já estava ali, esperando por ela.
— Então? - perguntou – Sua mãe deixou?
— Claro – sorriu Ana – e a sua?
— Também – ele retribuiu o sorriso – Eu disse que ela queria muito isso.
— Que bom. Vou almoçar agora. Até.
— Até.
E fecharam as janelas.

237
29 – Caça ao demônio.

Numa casa pequena, na Rua Oliveira Belo, morava uma pequena família de classe
média, composta de quatro pessoas. Mario, o chefe da casa, estava em seu momento de
lazer em frente à televisão esperando à hora para voltar ao trabalho. Um serviço que ele
odiava, mas sustentava a sua família e era isso o que importava. Cecília, a esposa,
estava ocupada arrumando a bagunça da cozinha, mantendo sua rotina diária. Cristiano,
o filho do casal de dez anos, estava mais uma vez trancado em seu quarto com seu vídeo
game novo e se recusava a acabar com sua distração para brincar na rua. Coisa que seu
pai odiava, ameaçando-o várias vezes de tirar-lhe o jogo, mas sua mãe sempre
intercedia a seu favor. E Corine, a sogra, que estava mais uma vez em seu quarto lendo
seus preciosos romances. Apesar de quase nunca abrir a boca, sempre que o fazia, era
para dar alguma reclamação. Seja pela vida sedentária de Cristiano, pela rabugice do
genro, ou pela capacidade sobre humana de sua filha em suportar tudo isso.
E como todos os dias comuns. Mario se recostava na sua poltrona favorita vendo
o noticiário da tarde, tentando aproveitar cada momento que tinha antes de voltar ao
martírio de seu emprego. Então, a campainha tocou.
— Querido, pode atender? – gritava a mulher da cozinha.
— Cristiano! A porta! – berrou, mas o filho não respondeu nada.
Não adiantava pedir a Corine, então, mesmo resmungando, ele foi atender.
— Eu vou explodir o jogo desse garoto aí ele me escuta...
Quando abriu a porta, não se preocupou em parecer educado ao visitante. Seja ele
quem fosse. E quando viu quem chamava, tomou um susto. O garoto era a coisa mais
feia que ele vira. Coitado.
— O que você quer? É um dos amigos de Cristiano? – questionou.
— Não senhor. Eu só queria um minuto de sua atenção.
Mario notou as roupas do sujeito: Calças sociais pretas, camisa de botão bem
passada. Cabelos arrumados e sapatos.
Merda. Pensou.
— Não queremos nada. – e tentou fechar a porta, mas o garoto a conteve.
— Por favor, senhor. Só quero lhe passar a mensagem de Deus.
— Escuta aqui meu filho – ele falou baixo, mas com a voz dura – eu tenho um
emprego que detesto, uma mulher que não faz amor comigo, uma sogra que me da nos

238
nervos e um filho que vive em Matrix. Desculpa, mas a palavra de Deus não me parece
muito atraente no momento. E fechou a porta numa batida.
— Quem era Mario? – gritou sua mulher da cozinha.
— Só mais um Crente.
E a voz de Corine pôde ser ouvida lá de cima.
— Francamente. É por isso que essa família desanda. Vocês são um bando de
Ateus.
Mario decidiu ignorar o comentário e voltou para sua televisão, sentindo-se
frustrado por ter perdido seus sagrados minutos.

*
Já é a sétima porta na cara, contou Ângelo. Estava bem difícil encontrar o que ele
queria. O garoto havia vagado pelos bairros da Vila da Penha e Vicente de Carvalho
conforme Cassandra havia o direcionado, mas ainda não encontrou nada.
Ele precisava de apenas alguns segundos para ver se seu crucifixo, encantado com
a Bússola de Inês, reagia. Claro que se ele fosse mais habilidoso isso não seria
necessário, já que A bussola de Inês era tão poderosa que conseguiria encontrar a
emanação energética daquele demônio a muitos quilômetros de distância. Mas,
infelizmente, Ângelo não tinha poder para tanto, tendo que se conformar com a versão
genérica da magia.
Talvez se eu tivesse pedido ajuda ao bispo... Mas não. Ele havia decidido
continuar sozinho. Queria isso. E além de tudo a Bússola era uma magia complexa
demais, até mesmo para César. Até onde Ângelo sabia, nenhum mago, com exceção da
própria Inês, foi capaz de realizar aquele encantamento com perfeição. Assim, para os
demais praticantes de magia, era necessário estar a uma boa distância do alvo para que a
Bússola começasse a reagir. E naquela casa não havia nada.
E pensando melhor, foi até bom o dono ser um grosso, pois assim ele não perdia
tempo e ganhava mais para visitar outra casa. Pior era quando ele deparava com pessoas
dispostas a discutir sobre e existência de Deus ou então falar sobre suas próprias
crenças. Esses dificultavam seu trabalho.
Respirando fundo e tentando recuperar o ânimo, ele continuou a sua busca. Passou
por várias casas e nada da Bússola reagir. Começou a se questionar se tinha feito a

239
magia corretamente, mas não gostava de duvidar de suas próprias habilidades,
preferindo por a culpa na velha louca. Talvez ela tivesse errado na área.
Como ainda faltavam casas a serem visitadas, continuou sua busca, até que
chegou a uma bonita residência na Rua Feliciano Pena. Já sem esperanças de conseguir
algo, ele tocou a campainha. E foi instantâneo. Assim que uma bela senhora abriu a
porta, ele sentiu o crucifixo começar a se aquecer dentro de sua roupa.
— Sim? – a mulher surgiu para ele. – Em que posso ajudá-lo?
— Desculpe o incômodo senhora, - ele começou a se sentir eufórico com a
possibilidade. A circulação de seu corpo se acelerou e Ângelo lutou para poder falar
com precisão. - é que eu precisaria tomar um pouco do seu tempo. Poderia me dizer o
seu nome, se não for muita ousadia?
A mulher pareceu perceber do que se tratava e não estava muito animada, mas
ainda assim foi paciente.
— Marta – disse sem muito ânimo.
— Bem, Marta. Eu faço parte de um grupo religioso que tenta conscientizar as
pessoas para a palavra de...
Mas foi interrompido quando seu crucifixo pareceu entrar em combustão em seu
peito. Ele fez uma careta de dor colocando a mão no peito e Marta o olhou com
curiosidade.
— Aconteceu alguma coisa? Se sente mal?
— Não, nada... - tentava falar enquanto ajeitava o crucifixo na blusa para que ele
não queimasse tanto a pele.
— Mãe? Algum problema? - ouviu-se uma voz atrás dela e um garoto apareceu na
porta.
O jovem parecia ter seus quinze ou dezesseis anos. Era alto e de porte médio. Seus
olhos, no momento interrogativos, eram muito negros em contraste com uma pele muito
branca.
A bússola queimava mais que nunca, agora que o garoto estava perto.
— Nada Ian – a mulher disse, dando um beijo no rosto do garoto - Vai comer se
não o almoço esfria.
E o tal Ian saiu de vista. Mas por último, lançou um olhar desconfiado para
Ângelo. Agora seu peito se aliviava um pouco.
— Você está bem? - tornou a perguntar.

240
— Sim senhora. Desculpe, mas tenho que voltar agora. Lembrei-me de uma coisa.
Outro dia continuamos a conversa, pode ser?
— Claro – ela respondeu prontamente, embora sua voz mostrasse que não
desejava muito isso.
— Até – despediu-se Ângelo
— Até – respondeu, fechando a porta.
Ângelo foi andando ligeiro, tirando o crucifixo rapidamente de baixo da blusa. A
ponta negra dele, onde havia recolhido a energia do demônio, estava piscando. Ele
finalmente havia encontrado.
O garoto é jovem e eu não senti uma presença muito forte lá dentro, então isso
quer dizer que o demônio ainda esta adormecido. Preciso agir, mas tenho que esperar
ele ficar só. Não é uma boa idéia dar um show na frente da mãe dele. Acho que posso
exorcizá-lo, mas não faz diferença. O corpo não tem nenhum espírito além do demônio,
então mesmo que eu o esconjure, o corpo vai morrer.
Pobre mulher, mas acredito que ela vai preferir ter um filho morto a um possuído.
Isso tem que ser feito.
Ele não pode despertar.

241
30 – Boa o bastante.

Ana já estava na mesa do almoço com seus pais, esperando a mãe tomar a palavra.
Helena prometera dar a noticia e a garota queria saber se ela usaria esse momento. Mas
não teve que esperar muito, pois logo que deixou um minuto de silêncio para que a
família saboreasse o prato, ela se virou para Oscar, seu marido.
— Querido, você não vai acreditar no que nossa filha decidiu.
— Agora é nossa? – ele comentou, limpando a boca – Até hoje de manhã era
minha.
Ana riu, imaginando que ela fora reclamar para o pai por ter dormido toda
ensopada.
— Agora é nossa – ela disse sem se interromper – Ela decidiu passar parte de suas
férias com os avós em Três Corações.
Oscar a olhou impressionado.
— Sério? O que levou essa mudança?
— Saudades eu acho. - respondeu a garota - Na verdade eu já tinha isso em mente
– mentiu – e o Ian também me deu uma força para decidir.
— O Ian? – ele disse feliz. - Gosto desse garoto. - comentou
Sei que gosta, pensou Ana.
— Por mim é uma excelente idéia – sorriu Oscar – Se quiser te levo amanhã
mesmo. Não vou trabalhar e aí, vejo meus sogros e volto.
— Sério?
— Bem, eu estava brincando um pouco – disse constrangido olhando pra garota
iludida – mas... - e pensou - pode ser. Eu não vou poder ficar, mas aí você fica por lá.
— Seria bom – ela não queria esperar muito – Vou falar com o Ian – e voltou a
comer.
— Por quê? – seu pai perguntou.
— Ele vai comigo – disse simplesmente, voltando-se para seu prato. Depois olhou
para o pai e viu que ele não estava mais tão contente – Desculpe. Esqueci de comentar,
eu acho.
— Acho uma péssima idéia – ele fechou a cara.
Que mudança, pensou. Ana ia replicar quando sua mãe interveio na discussão.
— Amor. É o melhor amigo dela. - defendeu - Deve ser uma boa companhia.

242
— E eu não quero que seja boa demais. Francamente Helena. Os dois, sozinhos.
— Mãe – Ana gemeu.
— Calma – pediu estendendo a mão para que a garota se mantivesse calada –
Oscar, do que você tem medo? Eles são amigos há tanto tempo e você sempre gostou
dele.
Gostava quando pensava que o Ian era gay. Por que resolveu mudar de idéia
quanto a isso? Pensou em falar, mas preferiu se manter calada. Tinha experiência e
sabia que a mãe era melhor em argumentar com seu pai do que ela
— Oscar. Isso é uma verdadeira benção. Há quanto tempo você não queria que
Ana voltasse a ver os avós. Sabe como isso é importante para meu pai e quanto é pra
mim. Não vá estragar tudo por um complexo de super proteção.
Oscar bufou e Ana entendeu isso como um sinal de fraqueza. Preferiu conter o
sorriso nos lábios.
— Não sei ainda.
— Meus pais estarão lá. Nada vai acontecer de ruim. Francamente! O que você
acha que pode acontecer?
Ele ficou em silêncio. Sabia que o pai morria de vergonha de falar sobre essas
coisas na frente da filha. Então, comeram por mais um tempo em silêncio. Helena tinha
um ar emburrado, mas Ana sabia que era apenas uma de suas armas de manipulação.
Era boa nisso.
Quase uma feiticeira. Analisou.
— Bem – comentou Oscar quando terminou – Vou levá-los amanhã.
— Obrigado! – ela correu para beijar-lhe a bochecha.
— De nada. Mas juízo, por favor?
— Prometo - e saiu correndo para pôr o prato na pia e subir até seu quarto antes
que o pai resolvesse desistir. Ana ainda podia ouvir o que se falava no andar de baixo
enquanto se afastava.
— Eu sempre faço o que você quer - resmungou Oscar
— Faz mesmo – riu-se Helena.
No quarto, Ana viu que a janela de Ian estava fechada.
— Ian – chamou – Ian, você está aí?
Ela escutou um barulho vindo do quarto do garoto e depois a janela se abriu.
— Oi - ele apareceu

243
— Vamos amanhã mesmo – disse ela com alegria.
— Amanhã? - se espantou – Isso é um pouco precipitado.
— Tem algum compromisso?
— Não, só que eu queria te apresentar a alguém antes – e depois deu de ombros –
Vou falar com minha mãe sobre essa mudança. Pode me encontrar aqui em baixo daqui
a meia hora?
— Claro. – disse curiosa.
— Legal. Vou lá então. - despediu-se.
— Tchau – e fechou sua janela para poder trocar de roupa.
Meia hora depois, estava na frente de sua casa esperando. Ian saiu e veio de
encontro a ela.
— Então? – perguntou impaciente.
— Vou sim – disse ele – Não disse que minha mãe quer se livrar de mim? –
completou, fingindo-se de ferido.
— Não brinca assim.
— Foi mal.
— Então – ela se animou – A quem você quer me apresentar?
— Você não tem a menor idéia de quem seja?
— Não - respondeu sinceramente.
Ian se aproximou com calma dela segurando seu rosto com as mãos. Ana sentiu
sua pulsação se acelerando conforme ele ia se aproximando, fitando-a os olhos. Pega de
surpresa, ela não sabia o que fazer naquele momento e a apreensão fez com que o ar
escapasse de seus pulmões. Foi quando ele virou sua cabeça em direção a casa de
Solange e a garota se sentiu feliz por não externar a impressão que teve das intenções do
garoto.
— Solange – As palavras saíram um pouco decepcionadas - Acho que ela não
gosta de mim. - comentou.
— Que isso. Ela gosta de todos.
— Eu também achava. Até ontem.
Ian riu.
— É isso? – disse, fazendo pouco caso – Não ligue. É que ela me viu saindo de
casa naquela manhã sabendo que eu tinha te contado tudo na noite anterior. Como me

244
viu muito pra baixo, imaginou que você tivesse fugido de mim depois de saber a
verdade.
— Eu nunca faria isso.
— Mas ela não sabe disso. - lembrou - Ela gosta muito de mim e só queria me
proteger.
— Eu imagino – disse inconscientemente, entre os dentes cerrados.
— Como? - ele pareceu surpreso com a mudança de humor.
— Nada. - tratou de se recompor. – Por que você quer tanto me apresentar ela?
— Se esqueceu de que ela é como eu? Solange também é uma maga. Na verdade,
membro de um grupo muito específico: a Irmandade da Rosa.
— É verdade – lembrou-se Ana - E que tipo de grupo é esse da Irmandade da
Rosa?
Fitando o amigo, Ana percebeu um sorriso travesso se formar no rosto dele. Ela
ainda tentou identificar o que significava, mas não conseguiu.
— Do que você está rindo?
— Nada – ele coçou o nariz. Era mentira.
— Fala! - mandou.
— É que... – ele lutava para tirar o sorriso da boca – Você vai se espantar.
Eles estavam parados de frente para a casa de Solange.
— Acho que você concorda que já passei por várias coisas que podiam ter me
espantado, não?
— Sim, mas... – ele ainda ria.
— Fala logo Ian – ela começou a lhe fazer cócegas na barriga.
— Tá bom. Para! – levantou as mãos em sinal de rendição – É que... Como vou
explicar – ele fitou o horizonte atrás de respostas. Não conseguia parar de achar graça e
Ana começou a pensar que ela estava fazendo o papel de palhaça.
— Existem, – começou, ainda em dúvida – várias formas de se liberar a
quintessência de um corpo. Ponto.
— Você me disse isso – respondeu Ana – Dança, meditação, luta. – foi repetindo
o que se lembrava - Continue.
— Então. - ele fez uma pausa - Você conseguiu através de uma simples
concentração. Ponto. - Porque ele não tirava aquele sorriso da boca? - Mas existem
outros meios. Ponto.

245
— Para de falar ponto.
— Sim. Ponto – e riu – Foi mal. Então, além dessas três que você citou, existem
as maneiras mais peculiares de se liberar energia do corpo. Tem grupos que cultuam a
dor e através de rituais de mortificação, liberam sua magia. Outros preferem a
abstinência.
— Sim... – incitou.
— E tem a Irmandade da Rosa que tem como principal condutor mágico o prazer
– e acrescentou rápido – o prazer da dança, o prazer da música... e só. Essa é a
Irmandade da Rosa. - encerrou.
Ana percebeu que ele acabou rápido demais. Ian tinha deixado algo solto que a
garota tentava pescar e quando finalmente conseguiu compreender o que Ian deixara de
falar, arregalou os olhos.
Ele balançou a cabeça afirmativamente ao ver suas expressões.
— Eles usam... – a palavra engasgou em sua garganta - sexo como ritual mágico?
— Entre músicas e danças – tentou defender.
— Isso realmente me impressionou - sua expressão não a deixava mentir.
Imaginar Solange realizando rituais sexuais era um golpe muito forte para sua mente.
Conseguiu superar a visão dela beijando Ian, mas aquilo...
— Bem Ana, pra entrar nesse mundo você tem que quebrar certos preconceitos. -
explicou Ian.
— Não é preconceito, é que... – e apontou para a direção da casa – imaginar ela...
— Você se impressionaria se soubesse como ela... – e parou no meio vendo o
rosto de Ana. Seu sorriso desapareceu e ficou serio – Ela é uma boa... maga. - disse por
fim.
— Sei – disse a garota tentando esconder o incomodo que sentia. – Só que ela
deve ter uns cinqüenta.
— Sessenta e cinco para ser sincero.
Agora Ana se impressionou.
— Nem parece. - admitiu
— Não é? - concordou Ian.
— Ian? – ela se virou para encará-lo.
— Oi.

246
— Você. - ela tinha dificuldades em perguntar, aquilo era uma intimidade da vida
do garoto que ela nunca se atreveu a tentar descobrir - já participou de algum desses... -
e gesticulou tentando fazê-lo entender.
Ian riu.
— Infelizmente minha condição não permite. - lembrou.
— É mesmo – concordou - A Besta.
— Só consigo participar dos menos insinuantes, ou os de música – ele sorriu.
O beijo dado em Solange caia bem no quesito, menos insinuantes. Diabos, por
que não consigo me livrar disso?
— Vamos entrar? – convidou ele.
— Ah. – disse, cortando seus pensamentos - Claro, mas... - hesitou ao o ver
abrindo o portão - Não vai chamar?
— Ela não gosta dessas formalidades com pessoas íntimas. - explicou - Vamos.
Aposto que você vai poder aprender muitas coisas com ela. Ela é uma das magas mais
poderosas que eu tive a oportunidade de conhecer. E olha que eu tenho quase cem anos
de vida. - completou.
E foi então ela entendeu o objetivo de toda aquela animação em lhe apresentar
Solange. E essa compreensão fez a garota parar no meio do caminho, e, vendo Ian se
afastar dela, sentiu um peso no peito.
Ele não quer que eu sinta falta dele.
Ana percebia sua idéia principal se esvaindo. Acreditava que Ian demoraria a
abandoná-la, afinal, ele ainda tinha muitas coisas para lhe ensinar sobre esse mundo,
mas não era bem assim. Pois naquele momento, ele estava tentando encontrar um novo
mestre pra ela.
Ian se virou ao notar que não era seguido.
— Vamos, pode entrar. - encorajou
Suspirando fundo, deixou a tristeza de lado e continuou. As palavras dele ainda
estavam vivas em sua cabeça e ela se lembrou do que ele lhe contou quando narrou sua
vida como Ian. Quem sabe Solange não poderia lhe iniciar nas artes mágicas, afinal,
você já teve muita experiência com suas tias.
Acho que ele nunca se esqueceu desse plano. Percebeu.
E os dois atravessaram a porta e, ao entrar, Ana pensou que tinha sido levada para
outro mundo, pois a casa simples do lado de fora não parecia suportar o luxo que tinha

247
na parte de dentro. Ela olhava os móveis de incrível qualidade espalhados pela sala
espaçosa, com direito até a um piano de calda.
Como isso tudo coube?
Ana e Ian tiraram os tênis antes de entrarem e os pés de Ana foram recebidos por
um tapete muito macio.
— A vaidade é uma característica muito forte na Irmandade da Rosa. – comentou
o garoto, notando seu espanto.
— Mas - ela tentou juntar as palavras – como é que ela consegue?
— Por que você acha que Solange, por mais simpática que seja, nunca convida
muita gente para a sua casa? - perguntou com ar divertido – Sua casa é repleta de
mágicas. Quando ela precisa realmente receber algum adormecido ela pode
simplesmente fazer uma ilusão para que a pessoa tenha a impressão que está numa casa
humilde, digna de uma viúva.
— Bem vindos – ouviram a voz de Solange. Quando olhou, Ana pôde ver a
mulher entrando na sala. Ela estava vestindo um roupão se seda vermelho que realçava
seu porte corpulento, que não diminuíra com a idade. Vendo-a, Ana não pôde deixar de
invejar o corpo de Solange. Mesmo que não parecesse uma jovem de trinta anos, a
mulher conseguia se manter bem conservada. Jamais diria que ela tinha mais de
sessenta.
— Bem, então finalmente você despertou. – ela perguntou sorrindo
amistosamente. Ian estava certo. Ela voltara a tratá-la com a mesma delicadeza de antes
– O que acha desse novo mundo?
— Fascinante – comentou Ana, ainda intimidada pela presença da mulher.
— Aposto que Ian ainda vai poder lhe mostrar muito mais. - disse a mulher.
Ana olhou hesitante para o garoto. Será que Solange não sabia dos planos dele de
empurrá-la pra ela?
Mas Ian parecia naturalmente calmo com suas palavras. Depois daí, a conversa se
seguiu tranqüilamente entre os três. Assuntos triviais encheram o lugar, o que
decepcionou um pouco Ana, que acreditava poder ter mais lições sobre magia. Porém,
Solange não parecia querer falar desses assuntos naquele momento.
Mas acima de tudo, a conversa corria tranqüila e animada. Ana até se sentia
envergonhada por já ter pensado tão mal daquela mulher um dia. Mas ainda não
conseguia deixar de ter um pé atrás com ela. No fundo, ainda sentia certo incomodo

248
imaginando uma mulher daquela idade se sujeitando a certos tipos de rituais. Ian havia
dito para ela vencer esses preconceitos, mas ainda era um pouco difícil. Precisaria de
tempo para digerir tudo aquilo.
E foi quando menos percebeu, havia dado a hora de partir. Ana ainda tinha que
organizar algumas coisas para levar para Três Corações e provavelmente seu pai iria
querer levar-lhes cedo na manhã seguinte.
— Bem, acho que temos de ir. - falou para Ian e Solange.
Ian concordou com a cabeça já se levantando. Depois, se virou para a mulher.
— Eu posso falar com você uns minutos? - e depois se virou para Ana – Pode
indo se estiver com pressa.
Ana notou que aquilo era mais uma imposição do que um conselho, mas fingiu
não entender.
— Vou lhe esperar aqui no jardim.
— Tá certo. – concordou, sem muita resistência.
Eles ficaram em silêncio enquanto Ana saía do cômodo.
Ela queria perguntar o que eles fariam para não quererem sua presença, mas não
teve coragem para tamanha ousadia e concordou em ficar do lado de fora. Mas sua
paciência durou por apenas uns trinta segundos, até que sua curiosidade lhe deu o golpe
de misericórdia.
Olhando a janela que dava à sala de Solange, ela foi se esgueirando pelo quintal
até ela e, sem aparecer, encostou o tronco na parede, a fim de tentar ouvir melhor o que
se passava lá dentro.
— Solange, nós combinamos – a voz de Ian era revoltada, mas ele a mantinha sob
controle. Provavelmente, não queria que Ana ouvisse a discussão do lado de fora.
— Não combinamos nada – replicou Solange, numa voz cortante –Você tomou as
decisões achando que eu ia simplesmente concordar, mas não vou.
— Qual o problema? Ela tem potencial. E você é uma excelente mestra. Precisa se
dar outra chance.
— Não estou interessada no momento, obrigada. - disse com sarcasmo.
Ian ficou em silêncio, mas Solange não.
— E potencial apenas não é o bastante Ian. – continuou – É preciso mais, é
preciso paixão. Coisa que muito falta nessa garota. - e fez uma pausa entes de continuar
- Você mesmo disse que ela demorou dias para finalmente conseguir vencer o seu

249
ceticismo, mesmo quando as coisas estavam debaixo de seu nariz. Como espera que ela
possua a paixão necessária para partilhar da Irmandade da Rosa?
Tudo ficou em silêncio. Ana começou a pensar que eles tinham acabado a
discussão e talvez nem estivessem mais na sala, quando a voz de Solange voltou.
Estava mais fraca que o habitual e parecia estar carregada de dor.
— Valéria também tinha potencial, Ian. E você sabe o que aconteceu. Não vou
arriscar outra só porque é um prodígio. Você sabe o que eu senti, ou quer sentir de
novo?
Parecia que aquela frase tinha posto a discussão por encerrada. Valéria? Esse
nome não trazia nenhuma lembrança para Ana.
— Desculpe por te incomodar – disse Ian com a voz dura – Vou-me embora,
então.
— Adeus - a despedida dela parecia bem carregada, como se acreditasse nunca
mais vê-lo.
Ana correu até a frente da casa e se sentou num banco da varanda, tentando
disfarçar. Quando Ian saiu pela porta, ela o olhou tentando dissimular a decepção que
sentia.
Então não sou boa o bastante. Aquele pensamento a havia atingido com mais
força do que esperava. Era lógico que ela queria um pouco disso. Quem sabe com
Solange se recusando a lhe ter como discípula, Ian não teria de assumir esse cargo. Mas
as palavras dela foram tão duras e lhe trouxeram tantas lembranças ruins.
— Então? Pronto? - ela perguntou.
— Sim – ele olhava para baixo o tempo todo com um ar de derrota.
E foram para casa sem se falar. Ana não queria perguntar nada com medo que sua
dúvida a traísse e Ian acabasse percebendo que a garota espiou tudo. Mas no fundo, ela
acreditava que Ian já sabia disso. Mas ele também não parecia entusiasmado para iniciar
a conversa.
Chegando ao quarto, ela pegou a mesma mala que usou para ir ao sitio de Laila e
tirou algumas roupas sujas que ainda estavam ali, levando-as para o cesto de roupas
sujas. Depois, começou a organizar o que levaria. A todo o momento olhava para sua
janela, que dava visão direta ao quarto de Ian. O garoto também parecia entretido em
arrumar sua bagagem, mas seus olhos denunciavam o aperto que sentia no coração.
Ele quer realmente se livrar de mim.

250
Ana sabia que era infantilidade sentir isso, mas não conseguia evitar. Desde que
sua vida deu uma guinada para a pior ela sempre foi a excluída. Das brincadeiras, das
festas de aniversário, dos grupinhos de escola. Só conseguiu remediar essa situação
depois de algum tempo, mas a sensação de exclusão ainda a tomava. E agora, que
parecia que tudo era diferente, onde finalmente acreditava ter conquistado seu espaço
nesse novo mundo que se abria pra ela, descobriu que seu lugar ainda não era bem
definido.
Ian não a queria por perto, com medo de feri-la. Não podia culpá-lo. Se nem
mesmo a poderosa Catarina durou minutos com ele, que chances ela tinha? E Solange
dizia que ela não tinha paixão. Mas que diabos aquilo significava? Ian disse que ela
tinha talento natural, ela era um prodígio. Ainda gostava dessa palavra. Ela deixava-a
lisonjeada e agora tudo caía como um castelo de cartas. Tudo porque não tinha paixão.
Ana temia a partida de Ian. O que seria dela, sem ninguém para lhe guiar nesse
novo mundo? Ficaria bem sozinha? Ana já havia passado muitas vezes solidão. A
solidão de ninguém acreditar nela. A solidão de se sentir como um alienígena em meio
aos terráqueos. Isso já não a devia incomodar tanto. Mas incomodava.
Incomodava porque ela sentia que uma parte muito importante de tudo aquilo
estava prestes a ir embora pra sempre. Havia superado a solidão sim, mas como? A
verdade é que ela nunca esteve completamente só, pois mesmo nos piores dias, sempre
tinha alguém perto dela. Alguém que a ouvia, que a protegia. Alguém que por si só
supria toda a falta de todo o resto.
Nunca se dera conta do tesouro que tinha em mãos. Só agora que estava prestes a
perdê-lo. Quem sabe se eu nunca tivesse descoberto nada? E se nunca houvesse
atravessado o Véu e se permitido dar uma olhada no mundo maravilhoso que se estende
depois dele. Talvez assim ela pudesse passar melhor pela falta que estava prestes a
sentir. Talvez seria mais fácil se despedir de Ian.
Não, pensou. Estou me enganando. Ainda assim uma coisa muito importante seria
perdida. Não era do Ian mago que ela sentiria falta. O Ian Garow. Era o Ian
companheiro. O Ian protetor. O Ian de olhos negros.
Ana acabou de arrumar tudo e deixou a roupa que usaria amanhã preparada. Não
quero continuar sozinha daqui, pensou triste, olhando a janela à sua frente. Ian poderia
vê-la dali? Veria que ela estava chorando, como há muito tempo não fazia?

251
Saiu de frente dela. Não queria ser vista assim. Resolveu então matar alguns
minutos na frente do computador. Quem sabe um jogo de paciência não lhe daria sono e
assim ela pudesse esquecer simplesmente o que acontecia em sua volta. Não queria
terminar aquela noite conversando com Ian. Seria mais difícil hoje.
O jogo não funcionou. Resolveu usar a internet, ver seu horóscopo e a frase do
dia. E foi quando uma idéia lhe ocorreu: e se isso fosse verdade? Essas previsões que se
vêem por aí, seriam feitas por magos de verdade? Pelo menos algumas delas? Ana
sempre teve o hábito de ler essas coisas, mas nunca por crença. Na verdade, não sabia o
real motivo por se interessar por Astrologia.
Então ela leu a sua frase do dia.
Só nos damos conta do valor das coisas quando estamos prestes a perdê-las.
— Ta de saca você também! – exclamou para máquina. A brincadeira de astróloga
a havia distraído bem, mas agora se tornara sem graça e, desligando o computador, foi
se deitar, forçando-se a dormir um sono que custava a chegar.

252
31 – Compreensão.

Fazia-se muito tempo que Ana não sonhava e talvez por isso tenha tido tanta
dificuldade em perceber que estava dormindo naquele momento. Era noite ainda e ela
estava correndo. Correndo como nunca na vida por uma rua que parecia não ter fim.
Corria como se sua vida dependesse daquilo. Corria porque tinha que alcançar alguém.
À sua frente, via uma pessoa andando. Sabia que quanto mais aquela pessoa se
afastava, mais seu coração parecia ficar apertado dentro do peito. Por isso corria e
corria. Mas a distância nunca era vencida. Só aumentava cada vez mais, até ele quase
sumir.
— Ian – ela gritava – Espera!
Mas ele não parecia ouvi-la e continuava andando. Cada passo que Ana dava a
frente era como se ele tivesse dado dois. Ian não corria, andava e por mais que Ana
disparasse em sua direção, não saía do lugar.
Até que finalmente desapareceu nas trevas.
— Ian! - ela acordou sentindo o corpo suar. Ainda teve dificuldades para perceber
que tudo não passava de um sonho e que agora estava segura na realidade.
Olhou para sua janela e viu o quarto de Ian bem à frente. Percebeu que ele estava
ali e isso lhe deu mais confiança. Assim, respirou mais fundo para regular a entrada de
ar e passou a mão na cabeça a fim secar o suor, quando percebeu que além da testa, o
rosto estava úmido. Ela tinha chorado.
Levantou-se então para comprovar para si mesma que ele ainda estava ali e ficou
olhando para dentro do quarto de Ian até achá-lo. E o achou, dormindo num sono
profundo abraçado a um travesseiro. Agora, vendo-o, pode enfim relaxar. Mesmo sendo
um sonho, Ana notou o recado nele. Era claro como a água: À medida que o tempo
passava, mais ele se afastava e ela não conseguia fazer nada para detê-lo.
Ian sempre estava um passo à frente. Havia planejado tudo e todas as idéias que
Ana teve para tentar mantê-lo, foram dribladas. O que eu faço?Mais do que nunca a
urgência agora cobrava da garota alguma atitude. Então se lembrou de Solange e como
ela não aceitara treinar Ana.
Por um momento, conseguia ver com felicidade aquela situação, pois Ian não
conseguia um substituto e assim ele teria de ficar mais tempo. Mas e se ele for embora

253
mesmo assim? E se me deixar a própria sorte. Ela balançou a cabeça como que
tentando jogar o pensamento para fora dela. Ele nunca faria isso.
Agora, tentando tirar a preocupação do pensamento, ela o olhava dormir e via
como ele se agarrava forte ao travesseiro. Havia lido em algum lugar, numa revista de
psicanálise talvez, que esse era um sinal claro de carência. E foi com essa compreensão
que começou a sentir muita pena. Quantos anos ele teria vagado sozinho? Quanta culpa
ainda carregava por tudo? Sentia falta de Catarina?
Ela queria poder saltar aquela janela e encurtar a distância entre eles que não
conseguiu no sonho. Estar perto dele e poder suprir sua carência. Poder fazer isso por
ele. E também, por que não, fazer por ela mesma? Quanto tempo ainda teriam juntos?
Quanto ainda poderia aproveitar de sua companhia? Era muito incerto.
Ele tanto podia ir embora daqui a muito tempo como agora mesmo. Basicamente
duas escolhas se estendiam pra ela nessa situação: Ela podia tentar aproveitar o máximo
aqueles momentos, deixar ser eterno enquanto durasse, ou tentar romper desde já e
tornar a despedida menos dolorida. Mas sabia que nenhuma das alternativas era boa.
Porque nunca a despedida seria menos dolorosa e nunca os momentos seriam eternos.
Ana já era capaz de sentir o buraco que aquela despedida ia fazer. Já conseguia
sentir a dor e era forte demais, e acreditou que não sobreviveria quando acontecesse. Ele
ia embora e ela percebia isso mais forte do que nunca. Não conseguia lutar, por mais
que tentasse.
Ela corria e ele andava, mas nunca o alcançava. Ela queria ser forte o bastante
para poder segurá-lo, mas não era. Queria ser rápida para alcançá-lo, mas não era.
Queria ser resistente para suportá-lo, mas não era. Não era Catarina, não era nem maga
ainda. Que chances ela tinha? Voltou para a cama com todo o peso extra que agora
carregava. Era claro que alguma coisa estava mudando. Algo que ela queria manter sob
controle, mas não conseguia.
Não pode estar acontecendo. Por favor, não pode. Pedia ao se deitar.

*
Ana se sente voltando ao mundo real através de uma mão quente e doce que
acariciava seu rosto. Instintivamente agarrou-a sem abrir os olhos e a empurrou para
mais perto de seu rosto.

254
— Filha, acorde. – escutou uma voz feminina falando. E isso foi um estalo na sua
mente que a fez se por de pé num segundo. Esfregando os olhos para fazê-los se
acostumar a nova claridade, ela olhou para a mãe que a fitava, levemente espantada.
— Com o que você estava sonhando Ana?
— Nada – respondeu, sentindo o rosto corar.
— Eu hein! - ela riu-se – Mas desce logo. O café está pronto e seu pai quer levar
vocês bem cedo.
Ana olhou pela janela e viu que tinha acabado de amanhecer.
— Meu Deus! - lembrou-se – eu nem falei para o Ian da hora que agente ia.
— Não se preocupe – acalmou a mãe com a mão no ombro da filha – Eu liguei
para a Marta ontem à noite. Ele já deve estar acordado. Agora se arruma.
E saiu do quarto.
Ana se arrumou, vestindo a roupa que havia separado na noite anterior: uma bata
verde folgada, uma calça jeans e um par de sandálias verde água rasteiras. Quando
desceu, seu pai já estava pronto lendo o jornal na mesa, enquanto Helena servia-lhe um
pão com ovo e café preto.
Ana comeu em silêncio, ainda lembrando o sonho da noite anterior.
— Ânimo Ana - era mãe quem falava – Não quer mais ir para a casa de seus
avós?
— Claro que quero - Ana tentou consertar o rosto - Só estou com sono.
O pai sorriu por cima do jornal.
— Não está acostumada, isso que dá.
Ela sorriu em retribuição. Um sorriso fraco, mas ele nem reparou. E voltou a
comer.
— Pai – Ana virou se para Oscar – Por que decidiu ir tão cedo?
— Bem, é melhor se eu quiser voltar ainda hoje.
— Não vai passar a noite lá?
— Não, amanhã trabalho. - lembrou - Só estou indo hoje para aproveitar sua
animação e porque também tenho que entregar umas coisas do Sílvio que estão aqui há
muito tempo.
E sem dizer mais nada, Ana terminou seu café e foi escovar os dentes. Quando
voltou, tudo já estava pronto e eles foram para a rua. Ian já estava ali esperando por eles
com a mãe o abraçando e falando coisas a seu ouvido. Estava uma manhã um pouco

255
mais fria e Ian não perdeu a oportunidade deu usar uma camisa de manga longa branca
com uma calça jeans. O garoto balançava a cabeça afirmativamente para o que a mãe
falava. Pela sua expressão, devia estar recebendo uma série de conselhos e dicas que
todas as mãe davam e que todos os filhos já sabiam, mesmo que muitas vezes não
seguissem.
Quando ele viu a garota saindo, seu rosto não escondeu o alivio. Ana
cumprimentou Marta e deu um beijo no rosto do garoto.
— Vamos? – perguntou – Até breve tia Marta. Eu vou cuidar de seu filho.
— Ma faça esse favor - ela lançou um olhar torto para o garoto – Adeus e juízo
Ian.
Ian falou com Oscar que lhe respondeu com educação embora um pouco frio.
— O que deu nele? - ele perguntou
— Nada – ela sorriu – Acho que está pensando besteira por você estar indo viajar
comigo.
— Ele não pensava que eu era gay?
— Até ontem à tarde eu acho que sim. - respondeu.
— E se eu contasse minha história pra ele. Será que ele ficaria mais calmo? Pelo
menos assim ele saberia que eu não tentaria nada com você.
— Acho que aí que ele não ia deixar você ir mesmo – comentou e ele riu.
Ana tentou retribuir o sorriso, mas ela sentiu que saiu tão falso como uma nota de
três reais.
— Algum problema? - Ian analisava seu rosto.
Ana tentava desviar a face, fugindo do olhar penetrante do garoto. Tinha medo
que com apenas uma olhada ele pudesse ver todo o conflito que se passava dentro dela.
— Não é nada – respondeu – Só estou com sono.
Ian fez uma careta e eles entraram no carro. Antes de entrar, Ana foi falar com seu
pai.
— Pai, eu vou me sentar ali atrás com Ian, sim?
Oscar lhe deu um olhar desconfiado, mas concordou.
— Juro que você é o único homem da minha vida. - prometeu.
— Você disse a mesma coisa antes de conhecer o Lucas.
Ana sorriu.
— E mesmo assim nunca deixou de ser verdade. - garantiu.

256
O pai sorriu forçado e ela foi para o banco de trás. Ana o viu ajeitar o retrovisor
para poder ver bem os dois. É. Quem precisa olhar quem vem atrás no meio de uma
avenida? Dando de ombros, Ana agarrou o braço do garoto sem ligar que estavam
sendo observados. Queria muito tirar aquele tempo para conversar com ele.
Sabia que o pai tinha o hábito de dirigir ouvido música nos seus fones de ouvido,
pois não gostava de ninguém falando com ele durante o percurso. Mas mesmo assim,
teria que tomar o cuidado de falar baixo, já que não tinha total consciência do grau de
protecionismo do pai. Talvez ele pudesse até ficar prestando atenção no que os dois
conversavam.
Ian pegou seu aparelho de MP3 que levava na mochila e lhe ofereceu um fone que
ela pôs no ouvido. E assim, seguiram viajem. Nos primeiros minutos ficaram em
silêncio, esperando que Oscar parasse de olhar tanto para trás e Ana aproveitou esse
tempo para ficar sentindo a brisa que entrava pela janela escutando uma música acústica
no MP3. Depois de um tempo, quando a barra estava limpa, olhou par Ian.
— Você nunca foi para Três Corações, não é?
— Você nunca me convidou – ele lembrou.
— Eu nunca mais fui – ela rebateu sorrindo – Acho que você vai gostar de lá. -
comentou - É bem calmo e perto da natureza.
— Devo gostar sim – ele confirmou e, agora, diminuindo o volume da voz –
Ainda mais que podemos conhecer os espíritos que suas tias mantinham contato.
— O que você acha que são? – perguntou no mesmo tom de sussurro, mesmo
percebendo que o pai não prestava atenção.
— Não sei. Embora tenha minhas suspeitas.
— Nada de ruim, não é?
— Duvido. Os espíritos que habitam as áreas naturais podem ser bons ou até
mesmo neutros, mas nunca cruéis.
— Que bom. - respondeu - Odiaria pensar que elas mantinham contato com
alguma criatura horrível.
— Sem dúvida tiveram – concluiu o garoto, mas depois tratou de explicar ao ver o
olhar de Ana – Não estou dizendo que elas fizeram algum pacto. Provavelmente o
enfrentaram e acabaram...
— Morrendo – completou.
— Desculpe. - pediu encabulado.

257
— Não precisa – ela falou – Dói, mas é bom. Sinto orgulho delas por terem
enfrentado um ser desses. – e sua mente a levou de volta para aquela noite. Para aquela
voz escondida atrás da ventania e o espectro entre as chamas.
— Você não tem que se culpar – Ian falou, parecendo ler seus pensamentos –
Você era jovem demais. Não tinha como fazer nada.
— Eu sei. - concordou - Não era e não sou tão forte como Catarina – e se
arrependeu de ter feito esse comentário. Por que foi fazer isso?
Ian a fitou depois do comentário, mas não parecia chateado, só surpreso e pensou
um pouco procurando o que devia responder.
— Verdade. - concordou por fim – Não é. Não por enquanto pelo menos.
Ana lembrou-se do desenho. De como elas duas eram parecidas e decidiu se
esclarecer.
— Você vê alguma semelhança entre mim e Catarina? – perguntou - Não sei, é
que parece meio estranho ela ter sido seu primeiro amor e depois você vir a gostar de
alguém como eu.
Ian pensou de novo. Ele parecia meio apreensivo como se qualquer resposta que
desse, pudesse colocá-lo em apuros.
— Talvez alguma coisa. – respondeu cauteloso - Na aparência talvez. Seus traços
são assemelhados aos dela agora que cresceu.
— Sério? – Ana já tinha sido alertada disso, mas agora que ele falava, sentia-se
mais lisonjeada. Catarina era uma mulher muito bonita, pelo menos na forma como Ian
se lembrava dela. – Talvez seja isso que lhe tenha atraído - tentou não dar importância a
seu próprio comentário.
— Com certeza foi – ele concordou e Ana sentiu uma fisgada no peito – Mas
apenas no inicio. - ela olhou pra ele - Eu não contei pra você antes, mas quando te vi
pela primeira vez, tomei um susto. Você já era parecida com Catarina, mas agora está
ainda mais. Eu cheguei a pensar, seria possível ela ter conseguido se salvar, mas minha
ilusão durou segundos. Eu sabia que não era assim. Assim como eu tinha certeza de que
Adele era Catarina, eu estava certo de que você não era. Não sei explicar porque, mas é
assim. Eu não te amei – o verbo no passado não era convincente – por você ser
Catarina, mas sim porque você era Ana. Vocês duas tem muitas diferenças.
— Cite algumas – desafiou.
— Bem, primeiro você é mais... feminina.

258
Ana estranhou a tonalidade usada na última palavra.
— E isso é bom ou ruim? – perguntou
— Bom claro – ele riu - Só que o que me atraiu em Catarina foi justamente sua
independência. O fato de ela conseguir ser totalmente livre numa época bem mais
machista que a nossa. Acho que eu gostei de ser desafiado e ela foi a primeira a fazer
isso.
Ela ficou em silêncio.
— E depois – ele continuou - ela sempre cuidou mais de mim do que eu dela.
Acho que gostava disso também. Eu podia ser totalmente criança perto dela. - e analisou
suas expressões antes de continuar – Você por outro lado, era um pouco mais... - pensou
um pouco – dependente, de certa forma.
— Não entendo - ela interveio um pouco chateada – Ela era totalmente o oposto
de mim: corajosa, bonita, independente, forte. Então porque você gostou de mim.
Ian a alertou com os olhos apontado para seu pai, que a sua voz tinha aumentado.
Depois respondeu num sussurro.
— Acho que foi justamente isso. - disse meio sem jeito - Você despertou novos
sentimentos em mim. Nunca pensei em ter alguém para poder cuidar, proteger. Não
sabia que eu era bom nisso. No início eu me via como seu irmão mais velho, apesar de
minha idade fisiológica ser menor que a sua. - ele fez uma pausa - Mas aí você cresceu
e as coisas mudaram sem eu perceber. Você despertou o meu lado protetor e acima de
tudo você me queria e precisava de mim. Há muito eu não sentia isso. Eu passei anos da
minha vida como Lucien, vendo as pessoas olharem pra mim com ódio ou medo. Você
não, me olhava com carinho, com ternura. Foram armadilhas, que eu cai feito um
patinho.
— Desculpe.
— Deve mesmo. – disse num sorriso zombeteiro - Você é má.
— E como você está agora? - disse um pouco esperançosa.
— Acho que já me curei – ele levou mais uma vez a mão ao nariz. Mentira. Ana
não sabia como se sentia com relação a isso. Ao mesmo tempo em que lhe dava alegria
saber que ele estava mentindo, não podia evitar uma dor no peito.
— Que bom – disse por fim.

259
Então, acabando o assunto, Ana apertou o braço de Ian com mais força, como se a
qualquer momento ele pudesse pular pela janela do carro e fugir. Seu coração já não
estava em calma.
Ele me ama.
Ela queria se sentir culpada por isso, mas não conseguia. Estava feliz por saber
que seria difícil para ele a deixar. Talvez ele nem me deixe mais. Era egoísmo pensar
nisso, mas quem disse que o amor não podia ser egoísta. Amor. Pensara nessa palavra
quase que automaticamente. Amor. Ela amava Ian, demorou um pouco, mas agora sabia
disso.
Toda essa última semana serviu para por sua a amizade em xeque. Ela sobreviveu
a tudo: aos segredos, aos perigos e ao beijo, mas quem disse que também não se
modificou? Não posso amá-lo. Ela não queria isso. Sabia que ele nunca poderia ser
totalmente dela. Mas será que ter apenas uma parte dele já não valeria à pena?
Inevitavelmente começou a compará-lo com Lucas, com o que sentia por Lucas
no começo do namoro. Não queria igualar, pois sabia que isso era uma armadilha, mas
não tinha escolha. Seu cérebro estava trabalhando sozinho. Ela se lembrou de quando
achava que amava Lucas. Quando começou a namorar ele e como se sentia feliz em
estar ao seu lado. Naquele tempo, ela podia jurar que aquilo era o amor. Estava bem e
feliz e isso era tudo o que importava.
Mas tinha seu lado negro também. Com o tempo a paixão foi morrendo. Nenhum
dos dois sabia explicar o que tinha acontecido e então começaram a haver cobranças.
Lucas dizia que era homem e tinha necessidades. Esse assunto nunca fora mencionado
entre eles e ela não entendia porque era tão importante de uma hora para a outra. Lucas
a acusava de não gostar dele, pois ela se recusava a se entregar. Queria explicações do
porque disso. Mas Ana não tinha as respostas, nem mesmo para ela mesma.
Sabia que amava Lucas, então por que tinha dificuldades em expressar esse amor?
Quando se questionava sobre isso não conseguia encontrar motivos para não avançar
um passo na relação. Não era conservadora e não tinha planos de se guardar para o
matrimônio, então qual era o problema? Mas aí já era tarde, ele já não mostrava mais
interesse por ela. A relação foi morrendo até se chegar o dia em que foi guiada pela voz
até o flagrante.
Agora ela pôde observar seus sentimentos com mais clareza. O que ela sentiu na
hora? Raiva. Mas raiva de que? Raiva por estar sendo traída, enganada. Raiva, não de

260
ele estar com outra, mas sim dele não ter terminado com ela antes. Na verdade nunca se
sentiu mal por estar perdendo Lucas. Foi fácil deixá-lo partir, mas agora era diferente.
Ela se lembrava de seu primeiro dia de retorno a vida de solteira. Seu primeiro dia
na fossa. Mas que fossa? Sorvete, filmes tristes, ela apenas estava reproduzindo os
filmes piegas que assistia. Tentando agir como se sentisse mal por ter terminado. Ela
tentava reproduzir aquilo que não conseguia sentir, mas por que não sentia? Droga, ela
amava aquele garoto, então por que o deixou ir embora tão facilmente? Por que não o
segurou, não prometeu melhorar? Mesmo que não fizesse nada disso, por que não sentiu
falta dele ao menos? Por que não chorou?
O que mais lhe doía não era ter deixado Lucas, mas sim como aquilo não
significava simplesmente nada pra ela. Como ela podia estar tão passível a tudo? Como
não conseguia sentir nada? Era insensível e não sabia? Seria Ana alguém tão fria?
De fato ela não o amava como imaginava, tanto que não demorou nem mesmo
dois dias para se jogar nos braços de outro, alegando estar tentando tampar o buraco
provocado pela carência. Mas a verdade é que ela estava, inconscientemente, tampando
um buraco muito maior que há muito tempo vivia aberto em seu peito. Era seu coração
lutando por uma coisa que seu cérebro relutava em aceitar. Ficou tanto tempo
enganando a sim mesma, quando estava tudo tão na cara. Não sabia se foi mais difícil
pra ela voltar a crer em magia ou se perceber que estava gostando do amigo.
As duas situações eram bem parecidas. Ambas eram coisas que estavam bem
evidentes, mas ela sempre buscava outra explicação. Lutava em fazer acreditar que eram
apenas amigos, mesmo com tudo mostrando ao contrário. O sonho, o beijo na piscina e
principalmente o beijo roubado. Era como se ela previsse um momento assim. Como se
no fundo soubesse que ia acabar sofrendo. Deixar Lucas, não doeu nada. Agora ela
sabia o que era dor de verdade. Era aquilo que sentia agora.
O desespero da partida, a urgência em se tentar fazer algo para evitar e a apatia em
ver que nada dava resultados. Ana agarrava o braço de Ian com mais força ainda,
percebendo a iminência do adeus.
Não queria dizer adeus.

261
32– Possessão encubada.

Com certo pesar, Marta escuta a campainha tocar e vai atender a porta. Há muito
tempo havia uma dúvida que a dilacerava. Um medo terrível e uma sensação de
impotência diante do novo desafio. Queria desabafar urgentemente, mas não sabia com
quem. Tinha medo de revelar sua dúvida para algum conhecido e não saber que reações
teriam.
Quando abriu a porta, relutou ao ver que se tratava do jovem da tarde anterior.
— Bom dia dona Marta. Sou Ângelo, lembra-se de mim? – anunciou o garoto.
— Bom dia. - a voz da mulher era trêmula – lembro... claro.
Esse não era o melhor momento para ouvir sermões, mas foi então que Marta
percebeu nele uma oportunidade. Estava com medo em deixar sua apreensão
transbordar para os conhecidos, mas quando veria aquele rapaz de novo? Provavelmente
nunca.
Ângelo esperou paciente para ver se a mulher saía de seu torpor.
— A senhora está bem? – ele tentou chamar sua atenção.
— Sim... eh, mais ou menos – ela tentava parar de gaguejar.
— Posso ajudá-la? – Ângelo se mantinha em sua postura impecável de frente pra
porta.
Marta ficou pensativa por mais um tempo, sentindo o conflito sendo travado
dentro de si. Não era uma mulher muito religiosa, porém, tinha motivos de sobra para
rezar nesses dias. Seu filho estava lhe dando muita coisa com o que se preocupar.
Provavelmente ele não imagina que ela saiba as horas que ele vinha entrando em casa,
ou suas saídas escondidas. Sempre que tentava puxar esse tipo de assunto com o filho,
ele era evasivo. Ian estava lhe escondendo alguma coisa, ela sentia. E tinha medo de já
saber o que era.
Voltando sua atenção para o jovem parado, ela o convidou:
— Entre, por favor.

Ângelo adentrou e ficou esperando que seu crucifixo começasse a lhe incomodar,
mas nada. O garoto não está em casa, deduziu. Virando-se para encarar a mulher,
percebeu que ela parecia prestes a cair em lágrimas e, sem nada dizer, conduziu-a para
um sofá próximo, como se fosse o dono da casa. Depois que ela se acomodou, ele falou:

262
— Eu estou aqui para lhe ajudar, senhora.
— Eu não sei o que dizer a você. – ela começava com a voz engasgada.
— Pode me chamar de Ângelo – acalmou o garoto.
Ela respirou fundo. Já não conseguia mais segurar as gotas que desciam e Ângelo
segurou sua mão e aguardou que ela estivesse pronta para falar. Estava muito surpreso
por encontrá-la assim, embora já começasse a ter suspeitas do que tinha causado toda
aquela tristeza.
— Desculpe por estar te alugando - pediu com os olhos suplicantes, de rasgar o
coração.
— Tudo bem senhora. Estou aqui para trazer-lhe paz – Ângelo disse em tom
amável.
— Pode me chamar de Marta - e forçou um sorriso.
— Qual o problema, Marta?
— Olha, eu não sou uma mulher religiosa e...
— Não tem problema. - acalmou - A palavra de Deus é para todos. Mesmo que as
pessoas tentem escutá-la de formas diferentes, ele sempre fala para todos.
E Marta sorriu mais calma. Não sabia o porquê, mas sentia que podia confiar no
jovem. Mesmo que não pudesse, não tinha chances de se encontrarem novamente, então
ela podia desabafar.
— É meu filho – finalmente soltou.
Como imaginei.
— O que tem seu filho? – perguntou, parecendo completamente alheio ao assunto.
— Eu não sei, - ela começou pensando nas palavras - ele tem... agido estranho
ultimamente. Eu... não sei...
— Como assim, agido estranho?
— Ele vem mantendo segredos. Vem agindo diferente, chegando tarde ficando
noites sem dormir. Seu humor parece variar. Eu não sei o que é.
Era complicado escutar aquilo. Ângelo sabia exatamente do que se tratava. Ele
estava despertando. O demônio do garoto começava a dar seus primeiros sinais. Pela
descrição da mulher, o jovem estava passando pelos primeiros estágios.
Quando um demônio encubado começa a despertar, inicia-se um processo de
recuperação de personalidade que vem com a volta da memória demoníaca. O
hospedeiro começa estranhando as mudanças que vem ocorrendo com ele mesmo, as

263
lembranças de coisas que não viveu, as sensações que nunca teve e geralmente esse é o
período em que seu humor começa a mudar. Alguns já tendem a apresentar uma
personalidade cruel desde o nascimento, mas outros não. Nascem e crescem como
crianças comuns. Muitos até como bons filhos: educados, amáveis e responsáveis.
Então, depois com o despertar, que a personalidade ruim começava a surgir. Pelo
que via, esse tal Ian era o segundo caso. Pelo sofrimento da mãe, ele devia ser um bom
filho até agora. Pobre mulher. Em alguns casos, as crianças começam a sofrer de um
sonambulismo perigoso. Perigoso porque o espírito demoníaco as obriga
inconscientemente a satisfazer seus desejos nefastos e o hospedeiro, sem entender,
começa a perambular pela noite. Em alguns momentos podem até tentar cometer um
assassinato por ordem do demônio. Entre as características básicas, perda de sono e
mudança de humor, são as mais freqüentes.
Mas Ângelo não sabia como dizer isso à Marta. Verdade ou ignorância? Qual
seria a melhor naquela situação? Como não sabia como contar pra ela, optou pela
ignorância e tentou usar um artifício.
— Seu filho, qual o nome dele?
— Ian – disse, enxugando os olhos com a palma da mão.
— E esse Ian, como ele é? Ou era antes dessas mudanças?
— Ele sempre foi excelente. - respondeu a mulher - Educado, carinhoso,
prodigioso até. Nunca deu trabalho.
Prodigioso, era mais uma boa característica. Normalmente as crianças possuídas
tinham a tendência a ter uma educação precoce, devido à idade do espírito possuidor.
— Ele era até bem dotado, digamos? – perguntou, tentando dar pouco caso.
— Sim. - respondeu orgulhosa - Sempre tirou notas ótimas e sempre era o
primeiro da turma.
— E o que a senhora pensa que é? - perguntou – Digo. O que você acha que o
mudou?
— Eu não sei – a sua voz era hesitante. Ela tinha uma suspeita.
— Pode dizer. Não tenha medo. - encorajou.
Marta o fitou bem nos olhos e mais uma vez sentiu confiança no rapaz.
— Acho que são... – a palavra era difícil de sair. Tinha muito medo que elas
acabassem por se confirmar – drogas.

264
Drogas? Era um bom álibi, refletiu. Talvez seja realmente melhor para a mulher
acreditar nisso. Não eram muitos que ficavam bem sabendo que seus filhos na verdade
eram demônios encarnados. Pensou em dar corda a essa crença, mas não conseguia
fazer isso. Não conseguia confirmar seus temores. Ela estava tão arrasada, que Ângelo
começou a sofrer de empatia por ela.
Decidiu, por fim, tentar acalmá-la. Infelizmente, quanto a Ian, este teria que
morrer e rápido. Não podia deixar que ele despertasse por completo.
— Minha senhora, digo, Marta – corrigiu - Quantos anos seu filho têm?
— Vai fazer dezessete daqui a uma semana.
Dezessete era um pouco tarde para o despertar. Geralmente o espírito começa a
apresentar os primeiros sinais aos quinze. Mas podia ser um mero atraso.
— Desculpe se sou pretensioso, mas não creio que haja motivo para alarde.
Ângelo se lembrou de Cassandra quando disse: A ignorância muitas vezes é uma
dádiva. E naquele caso seria. Não era a coisa mais honesta, mas Marta já teria muito do
que sofrer quando ele destruísse aquilo que ela acredita ser seu filho. Ela não precisava
antecipar essa dor. Pelo menos por enquanto, ele poderia dar-lhe um pouco de paz. É o
que ela quer ouvir, pensou, lembrando-se mais uma vez de Cassandra.
— Como assim? – ele pôde sentir um pingo de esperança em sua voz e isso o
mortificava. Tentou manter o tom despreocupado ao continuar.
— Bem, esse é um bairro pacato. Seu filho é aquele que eu vi ontem, não? – ela
balançou a cabeça confirmando – Então. Ele me parece um jovem saudável. Saudável,
demais acredito. E talvez seja isso que o esteja modificando. Todos nós passamos por
um momento desses e isso não quer dizer que o problema seja drogas. Ao julgar pela
aparência saudável dele eu diria que nem comer carne vermelha ele come. É só um
momento de rebeldia, hormônios, acredite. – acrescentou com mais animação - Eu
mesmo passei por algo semelhante antes de encontrar Jesus. – e de repente lhe veio uma
idéia – Se a senhora quiser, eu posso dar o endereço de nossa igreja e ele pode ir lá um
dia desses. Na verdade, temos um culto hoje à tarde – e deu uma ênfase a mais a palavra
hoje.
Ela enxugou as lágrimas parecendo bem mais aliviada.
— Obrigada – Marta conseguiu sorrir agora – Pode ser uma boa idéia – comentou
– Aquele garoto anda muito desligado da igreja ultimamente. Claro que vou falar com
ele quando voltar.

265
— Que horas ele chega do colégio? – arriscou Ângelo sem parecer ansioso
demais. Talvez pudesse até mesmo interceptá-lo antes que chegasse em casa. Queria
acabar logo com aquilo e depois fugir, ignorando o aviso da cigana.
— Não, ele não foi pra aula hoje – ela agora parecia um pouco mais orgulhosa -
Ele é um bom aluno e ganhou férias antecipadas. Então eu o mandei para uma viagem.
Então, Ângelo sentiu como se uns cinqüenta quilos de concreto caíssem em seu
estomago de uma só vez. Uma leve vertigem o acometeu e foi com muita dificuldade
que ele uniu as letras que formariam a próxima pergunta:
— Como?
— Ele viajou com uma amiga para Três Corações. Deve voltar em dois dias.
Dois dias podem ser tarde demais! Ele queria gritar.
— Quer um café? – ofereceu bondosamente a mulher.
Ângelo balançou a cabeça afirmativamente olhando o nada, mesmo não gostando
de café. Na verdade, ele aceitaria até mesmo cachaça naquele momento. A mulher se
levantou para a cozinha enquanto o garoto fitava a parede.
Meu Deus, o que eu fiz? Por que não tentei cuidar disso ontem mesmo? E agora?
— Açúcar ou adoçante?
— Adoçante – na verdade ele odiava adoçante, mas respondeu a primeira coisa
que lhe veio à cabeça. Não estava em condições de pensar.
E então, passando os olhos pela sala como se aquelas paredes pudessem oferecer a
resposta que ele tanto clamava, viu uma folha de papel que estava na mesa de cabeceira.
Até então, nada que chamasse sua atenção, mas as palavras Três Corações entraram em
foco e ele a agarrou. Tinha um número de telefone nele.
Deve ser o número da casa onde ele vai ficar. Preciso descobrir o endereço.
E colocou o papel no bolso.

Marta acabou de colocar o café numa bandeja e foi servir. Com certeza estava um
pouco mais leve. Realmente não podiam ser drogas, Ian esbanjava saúde. Qualquer um
que o visse diria isso. Até mesmo suas olheiras desapareceram quando ele começou a
dormir cedo.
Ela havia deixado o noticiário a preocupar demais. Ainda bem que não externou
suas preocupações com Ian. São tantos jovens entrando nesse mundo, refletiu. Marta
sentia pena das outras mães.

266
Podendo agora sorrir com sinceridade, chegou à sala trazendo a bandeja com duas
xícaras e viu Ângelo de pé.
— Desculpe senhora por não poder ficar – ele se apressou em dizer – mas tenho
que resolver assuntos urgentes.
— Mas você...
— Infelizmente não posso. Perdão e... adeus. – e saiu da casa sem esperar ser
acompanhado.
— Foi alguma coisa que eu disse? – refletiu.

Ângelo saiu transtornado e acabou descontando parte de sua raiva numa pobre
lixeira, começando a chutá-la e a praguejar contra sua sorte. Quando se sentiu calmo,
pegou de novo o número do telefone nas mãos. Precisava agir rápido e já tinha um
plano: Procuraria uma Lan House e lá acharia o endereço pertencente e esse número e
depois, tentaria ver alguma forma de condução até Três Corações, nem que tivesse de
recorrer à Ordem.
Não podia deixar a coisa se seguir assim. Era arriscado demais.

267
33 – A Testemunha.

Com um bocejo involuntário, Ana acordou e, mais uma vez, percebeu haver
dormido durante a viagem. Que efeito será que tinham as estradas e os automóveis nela?
À medida que voltava do mundo dos sonhos, começou a se familiarizar com os sons a
sua volta.
Primeiro, a música que tocava no MP3. Depois, as vozes: seu pai e Ian
conversavam, mas não sabia sobre o que. E por último, o som, ou melhor, a falta de
som. Não estavam mais no caos da Avenida Brasil.
Ao olhar pela janela, viu que estavam começando a entrar em Minas Gerais.
— Quanto tempo eu dormi? - perguntou
Seu pai riu.
— Acho que umas três horas. Já estamos chegando. – anunciou. Desta vez ele não
estava mais usando os fones de ouvido.
— Nossa!
— Você estava mais cansada do que imaginava – comentou Ian.
— Essa aí sempre está cansada - debochou Oscar.
Ao ouvir a piada, Ana não entendeu. Agora os dois estavam unidos contra ela?
Quando isso aconteceu? O que eles estavam falando que fez seu pai parar de olhar para
Ian como se tivesse o desejo de deixá-lo no meio da estrada? Ela perdera muita coisa
nesse cochilo.
— Que bom que você acordou. - ouviu Ian cochichar em seu ouvido. Ela viu que
era um assunto confidencial – Tenho um exercício para você.
— Um exercício? Como assim?
— Uma coisa que eu quero que pratique quando chegarmos, mas seria bom você
começar a treinar agora.
— Pode falar. – ela agora estava mais animada.
— Então, lembra quando eu te mostrei como consigo fazer minha pele endurecer.
— Sim. Você vai me ensinar isso?
— Também. Mas primeiro preciso que você entenda o que eu fiz. - Ele deu um
pigarro antes de continuar - Pronta para uma aulinha?
— Claro.

268
— Bem, assim como suas células, a sua energia também tende a circular pelo
corpo através do seu sangue. - ele começou - O sangue é a essência da Quintessência de
qualquer animal, e é por isso que os rituais de sangue são tão comuns. Pois bem,
fechando o parêntese, o que eu quero que você faça é se concentrar. Tende prestar
atenção nas batidas de seu coração e assim tente sentir seu sangue circulando. Com isso,
você vai poder começar a sentir a energia que roda em seu corpo também.
— Parece complexo.
— E é. Mas você é um prodígio, não terá problemas – fez pouco caso – Enfim, o
que eu quero é que você consiga sentir essa energia, pois esse é o primeiro passo para
poder controlá-la. Esse controle é de vital importância para a execução de qualquer
magia.
— Mas e a parte de endurecer a pele? - ela parecia mais entusiasmada com essa
parte.
Ian riu antes de responder.
— Esse será o segundo passo do exercício. Controlar a Quintessência para mexer
no corpo é o fundamental no ensino de magia. Com esse controle, você não só poderá
tornar sua pele mais resistente, como pode fazer seus músculos ganharem maior
potência, ou suas pernas mais velocidade. Pode controlar seu peso e... lá eu lhe dou
maiores demonstrações. - prometeu.
— Tá bom.
— Mas eu gostaria que você tentasse sentir sua áurea desde agora. - ele disse –
Essa viagem de carro seria perfeita devido à calma da estrada. Pena que você perdeu
mais da metade do percurso.
Ana não falou mais e tentou seguir o conselho dado.
Estranho. O que fez com que ele mudasse de idéia sobre me treinar? Por que ele
está me ensinando coisas?
Ana não queria se iludir, mas não conseguiu evitar sentir certa alegria com tal
possibilidade. Ele teria desistido de partir agora que ela não tinha mais mestra? Talvez.
E por isso, Ana não ia dar motivos para ele se decepcionar. Quem sabe se ele visse o
quanto ela progredia, isso não o fizesse mudar suas metas. Não tinha mais idéia e se
agarrou a essa.
Começou a tentar.

269
Fechando os olhos, começou a se concentrar novamente. Primeiro passo: acreditar
que isso era possível. Ter fé era à base da magia. Atravessar o Véu era crer no que
ninguém mais cria.
Concentrou-se.
— Ela dormiu de novo? – escutou o pai incrédulo.
Decidiu ignorar o comentário.
De olhos fechados, começou a perceber as batidas de seu coração. Eram bem
rápidas. Em pensar que cada pulsação dessa era um jorro de energia que andava pelo
seu corpo. Sua quintessência. Pensando assim, ela até conseguia ver inúmeras bolas de
chama roxas, iguais aquelas que ela conjurara no quarto de Ian, circulando pelo seu
sistema.
Ela posicionou as mãos em forma de cuia e sentiu Ian as tampando.
— Não faça isso aqui. - ele sussurrou.
Ana até tinha esquecido onde estava. Recolheu as mãos.
Então como farei? Como eu posso sentir essa energia que ele tanto fala sem
poder vê-la? Como controlá-la? Não podia desanimar. Ela ainda pensava nele como seu
mestre. Tinha que fazer merecer isso.
E foi quando percebeu que ainda segurava o braço de Ian. Lembrando-se que se
não conseguisse, ele poderia ir embora. E o desespero voltou.
Para, ela se ordenou. Não fique nervosa. Ele não vai embora. Não ainda.
E foi quando sentiu seu coração acelerar devido ao medo e um estalo ecoou em
sua cabeça. Cada vez que se forçava a pensar em sua partida, ele acelerava. Em cada
acelerada, maior o número de impulsos. Maior o número de impulsos, maior a
quantidade de energia liberada. E acreditou chegar à chave de tudo: Sentimentos.
Essa seria a forma de controlar o fluxo de energia no seu corpo. Se pensasse em
coisas que fizessem seu sangue circular mais rápido, a energia liberada para o corpo
seria maior, se estivesse relaxada, a energia seria menor.
— Sentimentos. Emoções - ela pensou alto.
— Como?
— A chave para se controlar. - falou baixo, sem abrir os olhos - As emoções.
— Você não cansa de me impressionar – ele parecia perplexo, apesar de não
poder ver seu rosto - Como chegou a essa conclusão tão rápido?
Ana não respondeu.

270
— Bem, você avançou um pouco na lição, mas ainda é importante que você
consiga sentir essa energia. Então vá treinando mais. - aconselhou - Deixe as coisas em
seu devido tempo.
— Tá – e voltou a se concentrar. Ele tinha se impressionado, esse era um bom
sinal.
O resto do caminho, não teve maiores progressos, mas ela se sentia muito mais
animada.

*
Ao chegarem à casa dos avós de Ana, a garota olhou-a com curiosidade e viu que
continuava da mesma forma como se lembrava. A casa de Sílvio era espaçosa e se
situava afastada do centro do município, onde árvores enfeitavam a paisagem e o cheiro
do asfalto era substituído por terra e grama. Ela não fazia idéia de como esse cheiro lhe
fazia falta. Já tinha ido para floresta da Tijuca e para o sitio de Mônica, mas nenhum
desses lugares tinha esse cheiro. O cheiro de casa, de lar.
Eles saíram do carro e Ian deu um grande suspiro enchendo os pulmões de ar. A
expressão dele era de contentamento. A idéia de trazê-lo parecia a cada hora mais
acertada na mente de Ana.
— Meu Deus! – o som dos pássaros foi cortado por essa voz. Uma voz fraca e
doce, que Ana julgava estar esquecendo. Mas agora sabia que isso nunca acontecera.
Estava guardada para esse momento. Para que quando fosse ouvida novamente, lhe
trouxesse esse mar de emoções que estava sentindo.
Ela se virou em câmera lenta e viu a figura do avô com lágrimas nos olhos e
braços estendidos para ela. Silvio tentava andar o mais rápido que podia até Ana, mas a
idade não o ajudava muito. Ele continuava igual como ela se lembrava. Um homem um
pouco acima do peso, de barba branca parecendo com o Papai Noel, vinha em sua
direção. Sua pele era morena de sol e seus olhos eram castanhos, como os de Ana.
Você tem os olhos de seu avô, era o que sempre diziam e ela via que não era um
comentário equivocado.
Finalmente, passado o primeiro momento, Ana conseguiu vencer a inércia que
atingira seu corpo devido ao choque do encontro e disparou na direção do ente querido.
Sua velocidade era absurda e ela começava a imaginar se já não estava aprendendo o

271
que Ian tinha lhe dito. Mas não, era apenas a emoção do reencontro adiado por quase
cinco anos.
Ela correu o mais que pôde para vencer a distância que os separava no menor
tempo possível. E foi quando se aproximou, teve a idéia de pensar no impacto que
aquela velocidade ocasionaria. Nos últimos milésimos, ela reduziu a velocidade e no
ultimo tempo, se agarrou ao avô com lágrimas nos olhos.
Nenhuma palavra foi dita. Mas nenhuma palavra era necessária. Ana se deixou
ficar o tempo que quisesse naquele abraço forte. Não importava quanto tempo passasse.
Não importava que anoitecesse ou chovesse. Ela não queria soltar.
Quando enfim conseguiu se soltar do avô, este deu uma boa olhada na garota.
— Meu Deus! - sua voz quase morria no meio da emoção - Olha pra você.
— Não estou tão mal assim - brincou com a voz engasgada.
— Não. Esta ótima. A cara de sua mãe.
— Mas tenho seus olhos - lembrou.
— É mesmo – concordou, ainda chorando.
E aquela emoção toda no avô fez Ana perceber o mal que devia ter feito deixando
de visitá-lo por tantos anos. Começou a se ver como um monstro por tanto tempo de
ausência.
Sílvio olhou em volta e viu Ian.
— Não sabia que já namorava. - disse feliz – Quem é o garoto?
— Ah não... – Ana desfez o mal entendido - Ele é só... amigo.
Como era difícil dizer essa palavra depois da súbita compreensão do carro. Ian se
precipitou e apertou a mão de Sílvio.
— Muito prazer. Ian - ele anunciou num tom um pouco mais polido que o normal
e Ana pôde jurar que quem estava falando era Lucien, e não Ian.
— Muito prazer.
Oscar deu um leve pigarro. Ele não gostava de se sentir assim, tão excluído.
— Ah, e você Oscar. - Sílvio parecia só ter notado a presença do genro naquele
momento - Como vai minha menina?
— Muito bem cuidada, como sempre. Ela lamenta não poder vir e prometeu que
em nossas próximas férias passaremos uns dias aqui. A família toda.

272
— Como nos velhos tempos – a voz dele ainda era cheia de emoção. Ele ainda se
mantinha muito próximo a Ana. Talvez ainda pensasse que a garota pudesse fugir de
repente.
Ela sabia como era isso.
— Como nos velhos tempos – confirmou Ana.
Todos entraram e Ana não pôde evitar a avalanche de perguntas que foram
direcionadas a ela. Seu avô queria saber de tudo: se estava bem, se tinha namorado,
como ia na escola e todo o resto. Em nenhum momento citou sua ausência ou o motivo
dela. Ele não queria tocar nessas feridas e Ana agradeceu mentalmente essa decisão.
Ian também não escapou e foi o segundo a sofrer um interrogatório, embora quase
todas as perguntas estivessem, de alguma forma, ligadas à Ana: como eles se
conheceram, quanto tempo eram amigos, se havia algum podre que Ana não tinha
contado, entre outras coisas. A conversa com Oscar foi breve e o pai de Ana devolveu
um baú cheio de pertences dele e de sua avó, que ficou na sua casa por muitos anos.
O baú era pesado e Oscar pediu a ajuda de Ian. Ana teve que se segurar para não
rir quando seu avô disse que Ian era franzino demais e provavelmente não agüentaria o
peso. Ele se propôs até a chamar um dos empregados, mas Ian afirmou que não
precisava e se dispôs a pegar o baú. Ele e o pai de Ana carregaram o peso até a sala de
Sílvio, onde o deixaram num canto. Ana podia ver Ian lutando para parecer que estava
fazendo algum esforço com aquilo. Já seu pai, colocava os bofes para fora.
Emília, a empregada de seus avós, que estava na família desde a época de Ana,
também foi uma que não resistiu ao impulso de agarrar a garota e se debulhar em
lágrimas, apertando Ana contra o corpo e criticando sua magreza.
— Você não tem se alimentado direito, não é? - ela falava - Eu sabia. Esse pessoal
do Rio de Janeiro não sabe comer.
Ana se sentiu lisonjeada com a crítica de Emília, pois sempre se considerava um
pouco acima do peso, como todas na sua idade. E agora, completamente enturmada,
experimentou uma leveza nunca antes sonhada, pois conseguia enfim tirar o peso que a
separação prolongada criou em seu peito, mas ainda faltava alguém.
— E a avó? Onde ela está?
Ana notou a hesitação nos olhos de seu pai e seu avô. Ela aguardou até eles
poderem falar. Sabia que a situação da avó era ruim e eles deviam querer poupá-la
daquilo tudo. Mas ela se sentiria horrível se não pudesse vê-la.

273
— Ela está lá em cima, no quarto, mas... - tentou falar o avô
— Tudo bem, eu vou – prontificou-se antes que ele terminasse. - Vem Ian -
chamou e subiu as escadas escutando os passos do garoto atrás dela.
Ela subiu correndo e acabou ficando sem fôlego no fim da escada. Ela tinha se
esquecido do quanto àquelas escadas eram cansativas. Na verdade, nunca notara.
Quando criança e cheia de energia, aquilo era muito fácil pra ela. Mas agora, precisava
parar para tomar fôlego enquanto Ian a esperava com o rosto bastante tranqüilo e a
respiração controlada e isso a deixou um pouco invejosa.
— Como você consegue? – ela olhou para ele.
— Muito exercício, boa alimentação... – comentou bem presunçoso - Não levo
uma vida sedentária.
— Até parece – debochou enquanto dava um beliscão na sua barriga. - Tem até
pneu.
— Ei! - ele deu um passo pra trás protegendo o abdômen. – Não se aperta a
barriga de um homem quando ele está relaxado.
Ela riu e voltou a andar. Na verdade, tinha se impressionado ao notar como ela era
dura. Mas não comentou, pois isso o deixaria mais convencido. Quando chegou de
frente para a porta, parou, levando a mão à maçaneta sem mexê-la.
— É difícil, não? – Ian dizia atrás dela.
— Um pouco. - admitiu - Sinceramente eu fico imaginando que poderia ser eu ali.
— Você teve a sorte de ter a mente mais aberta na época. Isso a ajudou a superar o
trauma, de certa forma. Já sua avó, estava completamente desprotegida da avalanche de
informações que aquela noite causou. Foi mais difícil pra ela.
— Sem dúvida.
— E eu ainda acredito - ele continuou – que ela tenha visto muito mais coisa que
você naquela noite.
Ana se virou para encará-lo.
— Você acha que ela viu mais coisa do que aconteceu as minhas tias?
— É um palpite. - alertou - Você desmaiou cedo demais e é bem provável que ela
tenha ficado acordada para poder ver mais. E esse mais, fez toda a diferença.
— Você acha que ela ainda se lembra?
— Com certeza, mas duvido que queira falar. E não seria justo interrogar.
— Não, não seria. - murmurou um pouco desanimada.

274
— Pronta? - ele perguntou, lhe dando forças.
— Acho que sim.
E girando a maçaneta, a enorme porta de madeira que dava acesso ao quarto da
avó Marieta começou a se abrir. Ana a empurrou até a metade quando lhe faltou
coragem de ir mais além. A última imagem da avó, dopada numa cama de hospital,
ainda a perturbava muito e tinha medo de se deparar com a mesma cena ao entrar
naquele lugar. Entretanto, foi quando sentiu outra mão envolvendo a sua. A pele quente
de Ian segurava sua mão, dando-lhe forças. Ela não olhou para o garoto, mas agora tinha
maior convicção para seguir em frente.
Preparando-se para o choque, Ana adentrou o aposento e olhou em volta a procura
de sua avó, mas o que viu foi muito melhor do que podia supor, dando-lhe uma
sensação de alívio. A avó estava lá, sentada em uma poltrona na varanda olhando a
floresta que se seguia logo atrás da casa. O quarto era todo branco e era muito bem
iluminado pela luz da manhã que entrava e banhava o corpo da velha senhora com seus
raios. Olhando melhor para Marieta, Ana ficou encantada com sua cascata de cabelos
prateados que eram banhados pelo sol da manhã.
Sua pele era mais pálida que a do avô. Provavelmente, por ficar a maior parte do
tempo trancada no quarto. Mas o que mais a encantou foi a expressão tranqüila em seu
rosto. Ela parecia em paz olhando a paisagem verdejante. Quando se virou para olhar
quem entrava, sorriu ao ver Ana. Não era o mesmo sorriso exaltado de seu avô ou de
Emília. Este era mais um sorriso que mostrava o quão contente estava por receber
visitas, mesmo que de desconhecidos. Sua avó não a reconhecera e isso caiu como um
martelo no peito te Ana.
— Vó? – sua voz era vacilante.
A mulher sorriu. Um sorriso amável e que serviu de convite para Ana se
aproximar, fitando seus olhos cinza. Esses olhos que transbordavam ternura, carinho e
acima de tudo, paz. Ao chegar bem perto, ajoelhou-se em frente à Marieta e pegou na
sua face enrugada com as mãos. A avó parecia adorar aquela caricia e deixou o rosto
cair nas mãos de Ana.
— Desculpe – sussurrou, sentindo que ia perdendo o controle para as emoções de
novo – Desculpe por não vir antes.
Ana via que a mulher não entendia o que ela falava, mas isso não importava. Ela
precisava aliviar aquele peso que sentia. Marieta agora estendeu a mão e acariciou o

275
rosto da neta. Um toque leve e confortante, o mesmo de anos atrás. Um toque que nem
mesmo a ausência e a loucura conseguiram modificar. O toque da sua avó.
Agora, Marieta passava seus olhos cheios de curiosidade para Ian, que permanecia
em pé ao lado da porta. O garoto se aproximou lentamente, se ajoelhando ao lado de
Ana. A mão da avó corria agora pelo rosto do garoto, que sorria fitando os olhos da
mulher.
— Ela gostou de você. – Ana comentou – Assim como toda a minha família.
— Tenho esse dom – brincou.
— Convencido.
O garoto deu um sorriso doce para ela que a deixou com um aperto maior no
coração. Não poderia viver sem aquele sorriso.
— Ela parece muito feliz – disse Ian
— É.
E parecia mesmo. Por mais terrível que a situação pudesse parecer, Ana se sentia
bem, pois via que a avó alcançara um estágio de paz que provavelmente todos os seres
no planeta buscam. Ela estava feliz por estar ali e conseguir tirar a última imagem da
avó numa cama de hospital da cabeça.
A partir de agora, quando fosse pensar em Marieta, veria uma linda mulher em
paz, sentada numa poltrona, recebendo a luz do sol da manhã enquanto admirava uma
bela paisagem.
— Obrigado – Ana disse para Ian, mas o garoto não percebeu que era com ele que
ela falava.
— Obrigado Ian – ela agora direcionou melhor o agradecimento.
— Pelo o que? – ele a fitou ainda recebendo os carinhos de Marieta no rosto.
— Por esse momento – ela olhou nos seus olhos negros - Se você não tivesse me
mostrado a verdade. Se não tivesse me feito atravessar o Véu, ainda ficaria presa no Rio
e não teria essa oportunidade. Você não sabe o bem que está me proporcionando.
— Amigos são para estas coisas - disse sorrindo.
Amigos. Como sentia raiva dessa palavra agora. Parecia tão falsa.
E foi quando a porta do quarto se abriu e Emília colocou a cabeça para dentro. A
mulher sorriu ao ver o momento íntimo que se estendia ali, hesitando estragar tudo. Mas
Ana se virou para ela, encorajando-a a falar.
— O almoço está servido. - disse baixinho – vocês devem estar com fome.

276
— Já vamos descer – anunciou Ana e depois se virou de volta para a avó.
Deixou-se ficar mais uns minutos ali e depois se levantou e saiu com os braços em
volta da cintura de Ian.

277
34 – Decisões

Dentro de um ônibus na rodoviária do Rio de Janeiro, Ângelo aguardava


impacientemente a hora de ir. O garoto nem acreditava em sua sorte. Assim que
descobriu o endereço através do telefone na casa de Marta, foi olhar os vôos para Minas
Gerais e viu que não tinha nenhum para perto. Ele começou a perder as esperanças
quando viu que a rodoviária tinha um ônibus que sairia naquela manhã mesmo para
Belo Horizonte e que dali poderia pegar outra condução para Três Corações.
Provavelmente chegaria lá amanhã de manhã.
E por sorte também que todos os membros da Ordem dos Iluminados possuem um
cartão de crédito para situações de emergência. Assim poderia tentar salvar um pouco a
tragédia que havia ocasionado.
Devido ao rumo que as coisas tomavam, ele viu que precisaria engolir o orgulho,
pois essa viagem poderia ser o tempo necessário que o demônio precisava para
despertar no corpo do jovem Ian. Ele tinha que ser detido. Decidiu então que não podia
mais continuar sozinho. Ligou para a Ordem e como não atenderam, deixou um recado
contando de forma resumida e objetiva tudo o que ocorrera. Quem sabe com os recursos
da Ordem dos iluminados o Frade ou o Bispo não chegariam a Três Corações antes
mesmo dele.
Caso não cheguem, terei de resolver sozinho.
O demônio não teve tempo de se despertar por completo e provavelmente Ângelo
mesmo poderia liquidá-lo se chegasse a tempo. Não adiaria mais isso. Os sinais eram
claros e ele não tinha mais dúvida. Ian era o demônio e tinha que morrer. Agora que
sentara, sentiu o cansaço da correria cair sobre si. Ele havia revirado a cidade atrás do
demônio e agora o vira escapar para outro estado bem por entre seus dedos.
Fora um erro tentar agir por conta própria e agora estava pagando por ele. Deixara
suas suspeitas o afastá-lo do resto da Ordem. Chegara ao cúmulo de duvidar da
fidelidade do Frade Henrique. Agora ele se sentia péssimo por isso. Mas no fundo, ele
ainda não conseguia deixar que uma sensação de que alguma coisa lhe escapava fizesse
pesar em seu estômago. Ele estava se esquecendo de algo, podia sentir.
— Sexto sentido – escarneceu. O convívio com os loucos dos Sonhadores o
deixara tão doido quanto eles. Como pôde deixar um mau pressentimento abalar seu

278
raciocínio lógico e, pior, como pode deixar que isso o desviasse de sua missão e o
afastasse do frade e do bispo.
A doença de César avançava a longo passo e o frade Henrique estava duas vezes
atarefado tentando cuidar de sua saúde e resolver essa importante missão. E em vez de
Ângelo ajudá-lo com a segunda tarefa, deixou seu ego comandar e tentar fazer tudo
sozinho.
Recuperado novamente, deixou seus pressentimentos de lado e tentou se
concentrar no objetivo a sua frente: Matar o garoto. Em seu colo tinha apenas sua
mochila com algumas de suas anotações das aulas com César. Na correria, não pegou
roupas ou qualquer outra coisa que precisaria numa viajem. Mas não fazia tanto mal,
afinal, ele não pretendia ficar lá muito tempo. Se a Ordem não tivesse recebido seu
recado a tempo, ele enfrentaria o demônio sozinho e aí, seria matar ou morrer. Qualquer
uma das duas reduziria o tempo de sua visita em Minas Gerais.

279
35 – A discípula das fadas.

Ana não se lembrava de ter comido tanto na vida. Realmente a comida de Emília
fazia falta em seu sistema e era muito bom matar essa vontade de anos. Como toda a
comida mineira, esta era bem temperada e pesada e a garota sentia que nem mais um
pedaço de pão conseguiria descer por sua garganta.
— Não me diga que você já parou, menina? – Emília erguia a colher
ameaçadoramente em direção ao prato da garota. - Que tal mais um pouco de Tutu?
— Não - ela a segurou – Não agüento mais, é serio. Obrigada
— Por isso está tão magra – e se virou para Ian – E o namorado, vai querer?
Ana desistiu de tentar esclarecer esse mal entendido e Ian não estava interessado
em corrigir aquela que o alimentava e, sem pensar duas vezes, ergueu o prato.
— Esse é um dos meus! – exclamou Emília cheia de orgulho e saiu.
— Isso vai entupir suas artérias – avisou Ana.
Ian engoliu antes de responder.
— Habilidades mágicas requerem muita energia. Tenho que repô-las de alguma
forma. - explicou.
— Mas essa comida é muito pesada. Pode fazer mal.
Ian parou mais uma vez e a olhou nos olhos antes de falar:
— Ana – disse com a voz calma e um sorriso – Os únicos prazeres carnais aos
quais posso me entregar em anos são os culinários. Por favor, não em tire isso.
Ana levantou as mãos num gesto de rendição.
— Desculpe. – e descansou enquanto Ian acabava.
Quando o garoto finalmente acabou, eles foram até a varanda onde o pai se
despedira.
— Até logo pai – disse dando um abraço em Oscar.
— Se cuida e juízo – avisou o pai dando uma olhada de rabo de olho para Ian.
— Tudo bem – e depois, se lembrando, perguntou – Vamos ficar até quando?
— Eu venho buscá-los em dois dias. Quinta de manhã eu estou aqui.
— É pouco – refletiu Ana – Mas é bom por enquanto.
— Sei que você tem muitas saudades daqui, então nas nossas próximas férias
passaremos umas duas semanas com seus avós. Prometo.
— Eu não vou esquecer. - lembrou Ana.

280
— Nem sua mãe – completou Oscar. Depois se despediu de Sílvio e de Ian e foi
embora.
Sílvio acenava até que o carro desapareceu numa curva e depois se voltou para os
dois.
— Então? Vão descansar o almoço?
— Eu pensei em caminhar pelo campo - sugeriu Ian.
— Realmente o dia está bonito hoje, mas vocês acabaram de passar pela comida
de Emília. Você é novato nisso garoto e Ana está em abstinência há quatro anos. Não
acho que deveriam ir tão fundo. Podem passar mal e vocês ainda têm o amanhã todo.
— Não vamos nos esforçar muito. - avisou Ian - Prometo.
Sílvio ficou indeciso e olhou para Ana.
— Tudo bem – ela falou sorrindo - Não se preocupe vô. Eu estou mesmo
querendo matar toda a saudade daqui.
E Sílvio se deu por vencido.
— Tudo bem então, mas cuidado. - alertou - Você ainda se lembra os caminhos,
não é?
— Claro.
— Então, boa caminhada. – e entrou na casa.
— Qual o motivo da caminhada? - perguntou.
— Bem, achei que seria bom pra você conhecer um pouco o mundo das suas tias.
Assim que Silvio atravessou a porta, Ian fez sinal para que Ana o seguisse e,
juntos, adentraram a floresta que ficava atrás da casa.
— Estamos indo pra onde exatamente? – Ana não tinha intenção de esconder a
excitação.
— Nos perder. – respondeu simplesmente.
Ela parou de caminhar olhando para Ian.
— Como?
— Nos perder. – repetiu, se virando pra ela - Se suas tias forem de fato druidas,
elas devem ter uma espécie de altar em homenagem aos espíritos por entre essa floresta.
– e apontou mata adentro - Claro que não é um local de fácil acesso, então duvido que
você conheça o caminho. Então, temos que nos perder se quisermos encontrar.
Esse não era um convite muito tentador, mas Ana não fez objeção quando o
garoto estendeu a mão a convidando para que o acompanhasse. Eles andaram por um

281
longo tempo de mãos dadas, num ritmo lento e constante. Ana começava a ficar cansada
e a sentir uma leve apreensão por não saber mais como voltar para casa. O tempo estava
claro ainda e ela agarrava a mão de Ian com força. O garoto sentiu seu medo e tentou
confortá-la.
— Confie em mim. Vamos conseguir voltar. – e depois sorriu – E acabo de ver
uma fada.
— Uma fada? – a voz de Ana era perplexa. Ela olhava para a direção onde Ian
mantinha o foco.
— Sim. Os espíritos da floresta que eu digo, são também conhecidos pelo nome
de fadas, duendes, entre outros. Eu gosto de fadas.
Ana olhava, mas não via nada. Uma fada? Parecia um tanto fantasioso demais.
— Não acredito que possam existir... – ela começou a falar, mas se conteve ao
perceber o olhar de censura de Ian.
— Eu não acredito, não é a coisa certa a se dizer. Lembre-se Ana, o primeiro
passo é acreditar.
Ana se sentiu envergonhada por esquecer a principal regra da magia: - A fé cega –
e tentando concertar as coisas, olhou de novo tentando procurar a fada, tentando
imaginar como seria. Talvez encontrasse uma pequena boneca voadora como a Sininho
de Peter Pam, mas nada parecido se fez presente. Teria ela passado tão rápido que Ana
não fora capaz de ver?
E já ia perguntar para Ian se ele ainda era capa dez ver a tal fada quando uma bela
borboleta cruzou seu caminho. Ana, normalmente não daria atenção ao animal se a
beleza dele não fosse tão grande. Em todos os aspectos era um inseto, só que um pouco
maior que a média. O tamanho do animal era igual à de sua mão aberta e suas asas eram
coloridas de um azul vivo. Mas o que mais chamava a atenção de Ana era o brilho que
caía do animal quando este ruflava as asinhas.
— Que linda! – exclamou.
De repente, Ana viu que ela não estava sozinha. Num segundo, dezenas de
borboletas surgiram, todas do mesmo tamanho da primeira, porém, cada uma de uma
cor diferente. Elas voavam num balé na mata deixando cair seu brilho por toda a
vegetação.
— De onde elas surgiram?

282
— Elas estavam aqui há alguns minutos, mas você demorou um pouco para vê-las
– explicou Ian.
— Como? – perguntou soltando-se da mão de Ian e andando, como que
hipnotizada, em direção a elas.
— Como eu te disse, quando falamos de magia, as regras da ciência de ver para
crer não funcionam. Você tem que fazer o contrário. - explicou - Quando acreditou, elas
apareceram pra você.
— Então elas são...
— Fadas? – completou Ian – Sim. Não são como as que você deve ter imaginado,
mas são reais. Elas são as guardiãs dessa floresta e com certeza os seres que concederam
os poderes à Teresa e Samanta.
— São lindas!
E agora que estava bem próxima do grupo de fadas, quase as tocando, um
animalzinho começou a voar em volta da garota, fazendo cócegas quando tocava seu
rosto.
— Elas gostaram de você - disse Ian satisfeito – Devem ter lhe reconhecido como
herdeira das duas bruxas anteriores.
Ana não respondeu. Ainda olhava maravilhada o balé aéreo que os minúsculos
insetos faziam bem acima dela.
Ela pulou para tentar tocar em uma delas, sentindo-se criança de novo.
— Tome cuidado! - Alertou o garoto – Elas podem ser poderosas, mas são frágeis.
— E como isso é possível? - perguntou. De alguma forma, aquilo não fazia
sentido.
— Bem, fadas são seres mágicos poderosíssimos, mas que se recusam a usar seus
poderes contra seres humanos adormecidos...
Ana analisou o tom de voz do garoto e sentiu que ele queria falar mais.
— E... - encorajou.
— E por isso que grandes florestas são devastadas todos os dias e nada acontece
que impeça. As fadas não usam seus poderes contra quem não é capaz de se defender e
assim, as pessoas destroem suas casas e dizimam milhões desses seres e elas são
incapazes de se defender.
— Que horrível! - disse espantada.

283
— É sim - concordou Ian – Depois que abandonaram a magia como maneira de
resolver seus problemas, a humanidade partiu para um caminho mais seguro e também
mais destrutivo. Cometemos um erro no passado, eu admito. – Ana sentiu que ele falava
de todos os magos – Mas isso não justifica a destruição que estão fazendo, a fim de
conseguir satisfazer suas necessidades e caprichos. – dava para sentir certa revolta na
voz do garoto. - é triste ver as coisas terríveis que estão acontecendo.
Ana ficou em silêncio até ele se recuperar da súbita revolta. Foi só quando ele deu
um suspiro e parecia ter voltado ao normal, que Ana perguntou:
— Mas e o que você disse sobre não usar com adormecidos? Então você...
— Elas me matariam se me achassem uma ameaça – falou com naturalidade – E
elas podem ser mortais quando querem. Isso me faz lembrar... – e se agachou numa
reverência para as borboletas - Elas são caprichosas – e sorriu.
Ana se curvou também, reverenciando os belos animais. Agora, mais borboletas
se aproximaram e rodearam a garota. Algumas fadas batiam de leve em suas costas e
Ana sentia como se elas a quisessem levar a algum lugar. Olhou para Ian um pouco
assustada e o garoto fez um gesto afirmativo com a cabeça, estimulando-a.
Mais confiante, foi deixando ser empurrada pelas fadas com Ian seguindo atrás
dela. Eles andaram por mais uns minutos até chegarem a uma clareira na floresta. No
meio da clareira, recebendo luz do sol, havia alguns pedestais de mármore já
abandonados e sinais de fogueiras extingas, já a muito esquecidas, no chão.
Era tudo muito simples e demonstrava ser um local para rituais bem primitivos de
adoração a natureza.
— Achamos – disse Ian. Ana continuava a olhar tudo aquilo maravilhada.
— Era aqui que minhas tias faziam seus rituais?
— Sim. Foi aqui que elas ganharam seu poder e foram instruídas pelas fadas.
Aposto que foi aqui que elas fizeram o ritual que acabou com o período de pestes na
história que você me contou.
— Deve ter sido. – concordou, sem prestar muita atenção.
Ela vasculhava cada centímetro do local à procura de mais e mais coisas. Notou
Ian se dirigindo ao altar central e colocando a ponta do dedo indicador na boca. Antes
que pudesse questionar o que ele estava fazendo, pôde perceber seu intento e tentou
fechar os olhos, mas era um pouco tarde e acabou vendo os dentes do garoto rasgaram a
carne do dedo, produzindo uma fina linha que escorreu em gotas até que o garoto a

284
estendeu diante do altar, fazendo-as cair em uma tigela de barro rústica. As fadas então
voaram em sincronia, parecendo mais agitadas, mas felizes com a oferenda.
— Fazia anos que elas não recebiam nada - Ian começou a falar calmamente –
Então decidi fazer uma oferenda. Não precisa contribuir não – acelerou em dizer quando
viu que a garota levava o dedo a boca, mas hesitava em cortá-lo – Umas gotas já são
mais que o suficiente.
Ela não pôde deixar de se sentir aliviada. Não gostava de auto flagelação.
— Eu imaginei que rituais de sangue eram coisas de quem compactuava com
demônios.
— Também – corrigiu Ian – Todas as tribos mágicas possuem rituais de sangue.
Afinal, ele é o fluido com maior quantidade de energia do planeta, pois contêm toda a
Quintessência de um ser vivo. Mas as bruxas, ao contrário dos demais grupos, são os
únicos que utilizam este sangue com base no sacrifício de um inocente. As fadas só
aceitam sangue que for dado de bom grado e não resultar na morte do doador.
Ana olhava as borboletas gigantes rodarem Ian, contentes.
— Guarde seu sangue – avisou – Afinal, você deve ter que fazer muitas oferendas
a elas ao longo do tempo. Achei que seria legal você assumir o lugar de suas tias. Acha
que consegue se tornar responsável por esse templo?
— Seria uma honra – falou contente.
— Que bom. – Ian parecia animado – Em troca, você vai ganhar muitos
conhecimentos, assim com Teresa e Samanta. E a oferenda não precisa ser só sangue.
Você pode trazer animais filhotes para que elas cuidem, ou sementes. Nada morto, por
favor, nem mesmo os animais. Elas não gostam de sacrifícios. - lembrou.
— Então os animais significam o que? E as sementes.
— Recomeço. Tanto os filhotes como as sementes significam um novo começo
para a natureza e as fadas gostam de cuidar deles.
— Vai ser ótimo poder cuidar de uma coisa que foi de minhas tias.
— Sabia que você ia gostar. Por isso resolvi te trazer.
— Obrigada de novo. - e sorriu para ele que retribuiu.
Ana sentiu um calor lhe invadir o peito com aquele sorriso. Era tudo tão mágico.
Em tempos atrás, duvidaria que isso fosse possível. Mas esses tempos passaram e ela
agora podia enxergar toda a beleza que o mundo da magia tinha a oferecer. Ana queria
falar, mas sentiu que ia perdendo o controle de suas emoções e decidiu se calar. Segurou

285
as lágrimas de emoção que cresciam para que Ian não percebesse. Ainda sentia
vergonha de chorar na frente do garoto, afinal, ele nunca a viu fazer isso.
O sol começava a se despedir da clareira e, chegando ao horizonte, tingiu o céu de
laranja, deixando o lugar onde estavam envolto na penumbra. Há quanto tempo estariam
fora?
— Acho que ficamos tempo demais aqui. Melhor voltarmos. – sugeriu Ian, já
andando de volta. Ana o seguiu sem falar nada e antes de sair da clareira, deu um último
olhar para as fadas que começavam a entrar em alguns troncos de árvores. E seu brilho
desapareceu da floresta, deixando-a mais escura.
Ian segurou a mão de Ana e foi a guiando. Ela agora só ouvia a sua voz alertando-
a contra possíveis acidentes ao longo do percurso, pois Ana era incapaz de ver qualquer
coisa à sua frente.
— Grave bem o caminho. Qualquer coisa, nós voltamos amanhã para que você o
memorize.
— Claro – garantiu – Acho que já gravei. Acredito até que minhas tias já o
tenham me trazido aqui algum dia. Mas faz muito tempo.
— Não duvido. Provavelmente elas iam querer que você aprendesse tudo sobre as
fadas. Elas seriam boas mestras. - comentou.
Sem dúvida, concordou em silêncio. Ainda bem que eu tenho você pra substituir.
E continuaram andando em silêncio. Mesmo naquele escuro, Ana não sentia medo
e seguia o caminho traçado por Ian sem opinar. Podia confiar nele. Ela sentia seus dedos
entre os dela, aproveitando o toque. Ultimamente o garoto evitava encostar nela. Desde
o beijo que nunca mais recebeu os carinhos dele e isso fazia falta.
Queria tanto poder falar pra ele o que demorou tanto pra descobrir, mas uma coisa
a impedia. Ela ainda se lembrava na noite em seu quarto e como ele ficou apavorado
com a idéia de que Ana pudesse gostar dele. Devia ser bem ruim pra ele se controlar,
mas o que pensaria se fosse correspondido? Como se portaria se soubesse que Ana
sentia mesmo?
Provavelmente fugiria agora mesmo. Refletiu desanimada.
Ana sabia que gostar dele significaria investir nele. Tentá-lo. Provavelmente ele
não ia querer arriscar a besta novamente. A besta. O que seria? Ana não conseguia
deixar de pensar que Ian exagerava um pouco nisso. Ela conhecia o garoto e sabia o

286
quanto era controlado. Ele não perdia a calma com facilidade e imaginá-lo como um
animal descontrolado estava fora de cogitação. Talvez ele estivesse se subestimando.
Era um pouco insensível pensar aquilo. Lógico que Ian não arriscaria perder o
controle com ela. Já bastava Catarina. Ele não ia arriscar matar Ana também. Mas e se
ele realmente estivesse mais controlado do que quando era Lucien? Era bem provável
isso, mas era melhor não externar seus pensamentos. Não ainda.
Ia anoitecendo e a floresta ganhava cada vez mais um aspecto macabro. Ana agora
mal conseguia ver Ian, que estava bem na sua frente. Eles andavam em um ritmo mais
lento agora, para evitarem tropeços e Ana olhava as árvores com seu aspecto mais
terrível agora de noite, mas ainda não sentia medo, pois sabia que aquele lugar, por mais
assombroso que parecesse agora, era o lar de criaturas tão engraçadinhas e belas como
as fadas.
Pensando assim, uma dúvida veio até ela. E suas tias? O que de fato tinha
acontecido a elas?
— Ian? – ela parou de andar.
— O que foi? - ele parava também e se virou para ela. Agora, eles estavam sob
uma pequena clareira onde a lua conseguia jogar sua luz prateada de modo que as
feições de Ian eram mais ou menos reconhecíveis.
— Eu estou pensado. Se minhas tias não tinham pacto com nada demoníaco, então
como explicar a morte delas?
O garoto pareceu pensar um pouco.
— O fato de elas não compactuarem, não as tornam imunes a essas criaturas. – ele
fitou a lua antes de continuar – Meu palpite é que em algum momento elas se depararam
com um demônio. Provavelmente tentaram combatê-lo, mas o ser devia ser muito
poderoso e elas...
— Caíram – completou Ana.
— Sim – respondeu – Sinto muito.
— Não sinta – ela o olhava com os olhos cheios de lagrimas. Ainda bem que
estava tão escuro. – Sinta orgulho, como eu sinto. Elas lutaram, elas enfrentaram uma
criatura terrível, mas... – ela balançava a cabeça, mas não conseguia mais segurar e as
lágrimas começaram a cair.
Ian passou a mão em seu rosto sentindo as lágrimas que desciam por sua face e
Ana deixou o rosto cair na mão dele. Ele continuava a acariciando quando começou a

287
afastar sua franja limpando sua testa, fazendo-a estremecer com aquele gesto. Depois,
puxou-a pra perto num forte abraço. Ana sentiu a força do garoto contra ela, mas não
era incômodo aquilo, era bom. Ela se deixou ficar ali, recebendo cafunés na cabeça
enquanto molhava a camisa do garoto com suas lágrimas.
Quando finalmente conseguiu parar, ela olhou para ele e viu que estava com os
olhos azuis.
— O que houve?
— Desculpe – pediu, tentando conter a raiva na voz – Não gosto de vê-la
chorando. Se eu pudesse encontrar o desgraçado que fez isso...
— Não! – a voz dela acabou saindo mais alta que imaginava – Não. – disse agora
mais controlada. – Não faça isso.
Ana estremeceu com essa possibilidade e a cena da casa em chamas voltou à sua
mente. Ela não agüentaria perder mais ninguém para aquilo.
— Não faça isso. Não tem como achar ele. – ela agarrava o garoto com mais
força.
— Eu não tenho muitas esperanças de encontrá-lo. – disse, tentando acalmá-la –
Não sabemos nem ao menos quem fez isso. Mas se um dia eu tivesse a chance, juro que
faria isso por você.
— Mas não faça. Não quero que você se... machuque – a palavra que ela ia usar
era morra, mas não quis pensar nisso.
— Eu sou forte Ana – a voz dele era divertida – Não dizendo que suas tias não
eram, mas eu tenho a experiência de meu clã para combater criaturas desse tipo. Além
do mais, eu sou um guerreiro. Estou acostumado a combates. Suas tias não eram boas
nisso e também, lembre-se que tenho alguns anos de experiência. – completou com um
sorriso, exibindo os longos caninos como um diabinho travesso.
Ao ver sua cara, Ana não pôde evitar rir da expressão que se formara, apesar de
ainda estar nervosa com a possibilidade de Ian enfrentar a criatura. Então, para mudar
de assunto, ela falou:
— Como é ser tão antigo? Digo... como se sente?
— Velho.
Ela riu.

288
— Sério. - confirmou como se ela não estivesse acreditando - Sempre fui assim,
me sentindo um tanto precoce. E isso mesmo antes de despertar para minhas memórias
passadas. Eu sempre me senti como um alienígena no meio das outras crianças.
Ele agora ria.
— Teve um dia - disse se lembrando - que uma criança no jardim de infância me
perguntou de onde vinham os bebês. Eu tinha seis anos na época.
— E você?
— Contei a ela. - respondeu simplesmente achando graça - Ela me olhou com
espanto e se afastou de mim. O pior é que eu nem tinha idéia de onde eu sabia isso.
Os dois riram agora. E ficaram abraçados por mais um tempo. Até que Ian falou:
— Seu avô deve estar preocupado – ele sussurrava em seu ouvido – Acho melhor
irmos pra casa antes que ele ligue para seu pai.
— É verdade. - concordou.
E seguiram de volta.
— Eu tenho que ir à antiga casa de minhas tias – falou enquanto andavam.
— Amanhã – falou Ian com doçura. Está tarde e já vimos coisas demais.
Chegando em casa, a preocupação de Ian acabou se mostrando acertada, pois seu
avô quase mandara chamar a polícia atrás dos dois. Ana viu a hora e já passavam das
onze. Não tinha idéia que caminharam por tanto tempo.
Ana então se desculpou, prometendo não sair mais aquele dia e o jantar decorreu
tranqüilo. Sílvio estava feliz demais com a visita da neta depois de tantos anos para ficar
irritado com tão pouco. A avó de Ana também comeu na mesa e desta vez, Ana pediu
que dispensassem Emília da tarefa de alimentá-la. E ela mesma fez isso.
Ian, mais uma vez, comeu por três e Emília estava muito contente achando que
sua comida fazia sucesso. Ana achou melhor não comentar que Ian comeria até mesmo
carne crua se colocassem na sua frente, pois ela estava tão feliz com aquilo. Não valia a
pena estragar tanto orgulho de um trabalho que Ana sabia que Emília fazia muito bem.
Na hora de dormir, Sílvio anunciou que o quarto de Ian seria ao lado do seu. Ana
sentiu o dedo de Oscar nessa medida, mas o garoto não se incomodou. Despediram-se
no corredor quando foram dormir e ele lhe deu um beijo na testa depois de tirar sua
franja rebelde de seu rosto. Que bom que ele voltara a fazer essas coisas.
Ana colocou a avó para dormir e foi tomar um banho para se deitar. A caminhada
foi cansativa e ela logo adormeceu. Nesta noite, fadas dançaram em seu sonho.

289
36 – No quartel.

Quem caminha pelo Largo da Carioca pode ver inúmeros edifícios cortando o céu,
cada um parecendo competir com outro em quem chega mais perto de tocar as nuvens.
Mas dentre todos os prédios encontrados, há um que chama a atenção em especial, não
por sua arquitetura, ou por sua fachada, pois nisto, ele é igual aos outros, mas sim pelo
que ocorre em seu interior.
O homem de terno preto chegou até ele olhando rapidamente para a fachada que
anunciava o local como sendo pertencente a uma respeitável indústria de Software, mas
que ele sabia bem o que era no interior. Ao entrar, foi rapidamente cumprimentado por
uma bela recepcionista:
— Bom dia senhor André – disse em voz profissional.
Um gesto de cabeça foi o suficiente para servir de resposta e ele se dirigiu até a
parte dos elevadores, aonde entrou em um especial com a placa dizendo: PRIVATIVO.
Sozinho, ele olhou para o painel aonde se mostravam os botões correspondentes a cada
andar. Logo abaixo, encontrava-se um orifício reto na vertical com cerca de uns dois ou
três centímetros. O homem vasculhou seus bolsos atrás de alguma coisa, quando
finalmente encontrou uma chave de prata presa a um chaveiro que representava uma
pequena cruz. Introduzindo a chave no pequeno orifício, ele fez com que o elevador
começasse a descer muito além da garagem subterrânea.
Assim que as portas se abriram, um cenário espetacular apareceu para ele. Agora,
devendo estar a uns duzentos metros abaixo da terra, todo o lugar era iluminado
artificialmente por uma fileira de lâmpadas fluorescentes que se estendiam durante um
longo corredor, aonde um senhor obeso - o mesmo que encontrou dentro do Astra
naquela noite chuvosa - ao vê-lo, veio em sua direção. Este parecia ansioso, mas como
sempre, não conseguia tirar aquele sorriso do rosto.
— Rauch, até que enfim – o homem se precipitou – O conselho recebeu seu
relatório e gostariam que você adiantasse o fim desse caso.
— Eles acreditam que as informações conseguidas com os padres já são o
suficiente? – perguntou Rauch, em seu tom frio habitual.
— Sim e agora chegou à última parte da missão: Eliminar os que estão por dentro.
— Entendo. - concordou – Pode dar o recado a cúpula que os Membros da Ordem
dos Iluminados serão eliminados em no máximo setenta a duas horas Vitor.

290
— Setenta e duas horas? - perguntou incrédulo. - Não acha que é tempo demais?
Um simples olhar já havia dado a Vitor toda a resposta que ele precisava, mas
mesmo assim, Rauch resolveu explicar:
— Pretendo interrogar o velho só mais uma vez. Depois os libero. - disse
simplesmente. E continuou seguindo o corredor. Rauch foi acompanhado por Vitor até
uma pequena sala com três computadores, onde apenas um jovem ficava responsável
pelos três.
O garoto era a imagem típica de um Nerd: Magro, óculos, roupas sociais e não
desgrudava o rosto das telas.
— Bom dia Rauch – cumprimentou o garoto sem tirar os olhos da tela.
— Bom dia Cris – respondeu – Já fez o que lhe pedi?
— Só mais um minuto.
Ele esperou. Dava para ver que Vitor estava muito curioso pelo assunto, mas
lutava para não perguntar. Rauch, também não ajudou. Não gostava dele, era irritante
demais.
— Bem Rauch. – começou, meio hesitante – Então todos os membros da Ordem
estão sobre controle?
— Sim - respondeu simplesmente.
— E... – ele tentou de novo – Agora falta apenas um último interrogatório para
podermos eliminá-los?
— Sim.
— Então está tudo terminado?
Rauch deu um suspiro, rendendo-se à insistência do companheiro.
— Na verdade, eu descobri que um aprendiz também foi informado por César de
nosso acordo – disse - Por isso estou atrás dele antes de por um fim a tudo. Não quero
que ele espalhe que nós e os Iluminados tínhamos um acordo antes de termos todos os
membros da Ordem.
— Excelente – felicitou Vitor muito animado – Essa escória já devia ter sido
eliminada há muito tempo. Em pensar que queriam voltar a se aliar a nós. - completou
como se isso fosse um absurdo.
— Enquanto eu for importante aqui nos Inquisidores, isso nunca acontecerá. –
garantiu Rauch.

291
— Eu também – concordou o outro – Mas me diga Rauch. E toda aquela história
de demônio reencarnado?
— Não me diga que acreditou?
— Bem... não! Só que... – Vitor já se mostrava constrangido pelo comentário.
— Você sabe bem que essa coisa de demônio não existe – garantiu o primeiro.
— Mas então o que estivemos caçando durante tanto tempo na história?
E Rauch deu mais um suspiro de impaciência. Ele tentava se lembrar que Vitor
ainda era novo naquela história toda. Ao contrário da maioria dos Inquisidores, ele não
fora recrutado e treinado desde a infância. Nascendo e crescendo como um mero
adormecido: trabalhador honesto, chefe de família honrado e cidadão modelo. Mas tinha
um pequeno defeito: era bom demais no que fazia.
Ele trabalhava como detetive para casos específicos no Rio de Janeiro, que com o
tempo foi ganhando destaque. Seus casos, cada vez mais bombásticos, mostravam o
talento do homem e seu faro natural para encontrar as causas dos principais eventos do
planeta. Tal habilidade não passou despercebida pelos olhos dos Inquisidores. E logo
seu trabalho começou a se mostrar um risco para sociedade.
Grande parte das pessoas que contratavam os serviços de Vitor eram mulheres
atrás de pulos do marido, ou parentes de pessoas desaparecidas. De vez em quando, era
recrutado para solucionar um crime sem explicação. Então, o faro natural do homem
começou a infiltrá-lo no mundo que se estende além do Véu e os Inquisidores acabaram
tendo que lutar muito para manter o sujeito afastado desses assuntos, mas ele era bom
demais e começava a descobrir coisas demais.
Quem diria que por trás desse rosto bobo e redondo se escondia um cérebro.
Pensou. No fim, os Inquisidores tinham duas escolhas: Matar Vitor ou incluí-lo na folha
de pagamento. A cúpula optou pela segunda, levando-se em conta as habilidades
dedutivas do homem. O problema é que como não fora treinado devidamente, Vitor
ainda desconhecia muita coisa sobre os praticantes de magia. Logo, era comum
perguntas daquele tipo saírem de sua boca.
Apesar de não gostar de bancar o professor, Vitor era um Inquisidor, um
companheiro, e ele tinha a obrigação de esclarecê-lo.
— Vitor – começou no tom mais paciente que conseguiu – Eu sei que você deve
ter aprendido que um dos motivos ligados a inquisição, era a caça a bruxos, pois esses
têm pacto com o demônio, mas isso é um mito. Esse tipo de coisa não existe, só usamos

292
tal desculpa pois a Igreja era uma das principais associadas ao nosso grupo e eles
precisavam de um álibi para justificar suas ações. Nós só fingíamos que acreditávamos
quando na verdade sabíamos que os verdadeiros demônios eram todos os praticantes de
magia em geral.
— Mas então esses padres, eles...
— Acredito que não. Eles não devem ter mentido. – explicou, sem deixar Vitor
expressar suas dúvidas - Na verdade, existem sim lunáticos que acreditam nessa
baboseira. E a Ordem dos Iluminados é uma. Esses caras vêem demônios em todo o
canto e talvez até acreditem que estejam fazendo algum bem afinal. O erro deles foi
pensar que pensaríamos a mesma coisa.
— Nossa! - exclamou – Não sabia disso, mas... - ele olhava para Rauch como que
pedindo permissão para continuar a perguntar. Não recebeu, mas isso não o impediu -
não acha que tem alguma coisa aí? Não sei. Acho que eles não arriscariam entrar em
contato conosco se não fosse algo grande.
Rauch balançou a cabeça com um sorriso descrente e Vitor ficou apreensivo. O
comandante quase nunca sorria, mas quando o fazia, parecia ter pouca prática, pois seu
sorriso sempre saía com um ar sombrio que amedrontavam todos à sua volta.
— Meu amigo – disse no que deveria ser um tom amável – existem duas
possibilidades: um, é que eles estão blefando. Os Iluminados há muito tempo não
conseguem aliados nesse mundo e percebem que o cerco esta se fechando entre eles.
Eles não têm o apoio dos magos que antes eles ajudaram a caçar e também não tem o
nosso. Logo, eles querem apenas cair nas graças de alguém de novo.
“A segunda, possibilidade é que realmente exista alguma coisa surgindo, mas que
com certeza não é um demônio. Eu já lhe disse como esses clérigos são supersticiosos.
Vêem demônios em tudo. No começo, fingíamos acreditar só para termos sua ajuda,
mas nos dias de hoje? Não. Com certeza se trata de um desses mágicos imundos, que
nós vamos cuidar depois. Primeiro, temos que aproveitar essa oportunidade que nos foi
dada e eliminarmos de uma vez essa Ordem que tanto nos chateia. Depois, conferimos
se suas crenças são reais”.
Vitor não tinha mais o que discutir. Não gostava de importunar Rauch. Na sua
presença, tentava manter o ar mais calmo possível, mas a verdade é que aquele homem
lhe causava arrepios.
— Então. – Vitor tentou mudar o foco – Qual será o próximo passo?

293
— Como você mesmo disse: eliminar os envolvidos. – disse, parecendo mais
relaxado - César e Henrique já estão sob controle, então podem esperar. Mas existe o
fedelho.
— Então temos que pegá-lo primeiro.
— Exatamente. Ele provavelmente não sabe ainda de nada do que está
acontecendo em sua Igreja e assim deve ser. Nós conseguimos o endereço de várias
sedes da Ordem dos iluminados, graças e Henrique e César, e seria terrível que o tal
Ângelo os alertasse e impedisse nosso ataque surpresa. Por isso, antes de agirmos contra
os outros dois, temos que pegá-lo.
Vitor ficou em silêncio parecendo satisfeito no momento. Graças a Deus, pensou
o comandante Rauch. Não gostava daquele interrogatório todo. Era muito chato ter que
explicar o básico, mas era bom manter Vitor informado de tudo. Pois quanto mais ciente
dos magos ele estivesse, mais útil seria para a sociedade.
Rauch sabia que a cúpula estava planejando colocar Vitor em uma investigação
especial contra as atividades dos magos logo. Ele tinha um interesse especifico sobre
uma onda de desaparecimentos que estavam acontecendo no Rio de Janeiro. No
momento, a mídia local dizia que os seqüestros, seguidos de morte em alguns casos,
eram obra de traficantes internacionais, mas ele sentia que tinha algo a mais naquilo.
Eram os magos com certeza. Cada neurônio de Rauch o alertava quanto a isso. Se
Vitor tivesse metade da capacidade de resolver enigmas de magos quanto tinha para
humanos, ele seria uma peça fundamental.
— Cris – Rauch falou com o jovem no comando dos computadores. Vitor até
tinha esquecido que aquela terceira pessoa estava ali.
Cris nem mesmo olhou para eles enquanto abria uma janela no computador. A
imagem de um jovem magro e de cabelos grandes e oleosos apareceu na tela.
— Quem é o feioso? – perguntou Vitor.
— Parece que o principal pupilo de César. O pirralho que falta pegarmos. Pelo
que me consta, o bispo passou informações para ele.
— Entendo. E onde ele está?
Desta vez, quem respondeu foi Cris. Em muitos meses de serviço era a primeira
vez que Vitor ouvia o hacker falar.
— Eu o rastreei como pediu Rauch. Parece que ele usou o cartão da Ordem dos
Iluminados para compra uma passagem de ônibus.

294
— Para onde?
— Belo Horizonte, e depois para Três Corações.
— Então vamos para lá – ordenou Rauch – mande uma equipe de cinco para Três
Corações e deixe ordens para que não se preocupem em trazê-lo vivo. Duvido que ele
tenha algo a nos oferecer.
— Sim senhor – Cris respondeu enquanto pegava o aparelho de telefone na sua
mesa e discava. Rauch saiu da sala e Vitor o seguiu.
— Por que você acha que ele foi para lá, Rauch?
— Não sei. Provavelmente caçando seu demônio.
— Então não seria melhor mandar uma equipe maior?
Rauch virou e encarou Vitor, que ficou mudo.
— Como eu já disse, não acredito que se trate de um perigo real, então, não há
necessidade de preocupação. Deixe que eu sei fazer o meu trabalho.
E saiu de novo, deixando o companheiro fixado na mesma posição.
Não gosto dele, pensou Vitor, antes de se virar e ir embora pela outra direção.

295
37 – Primeiras aulas.

Ângelo desceu em Três Corações às seis da manhã de terça feira. Dormiu no


ônibus no caminho e já se sentia revigorado. Na verdade, a adrenalina da caçada o
deixava aceso. Ele sentiu o cordão se aquecer em seu peito assim que chegou. Por sorte,
tinha aproveitado algumas horas da noite, em que a maioria dos passageiros estava
dormindo, para tentar melhorar alguns defeitos da bússola.
Agora, ela parecia trabalhar melhor e já estava reagindo mesmo longe da presença
do demônio. O município era pequeno então não demoraria a encontrar o Ian. Que Deus
esteja comigo. Ao descer do veículo, notou uma igreja próxima e decidiu ir até lá para
orar antes de seguir em frente. Quando saiu, foi para uma parte pouco movimentada e
segurou a cruz, apoiando-a deitada na palma da mão por um tempo, até que ela
começou a girar. A parte negra apontava para o norte.
E foi pra lá que ele seguiu.

*
A alguns poucos quilômetros dali, Ana despertou. Ao se sentar na cama, sentiu o
corpo dolorido e decidiu esperar até que seus olhos se acostumassem com a claridade
que entrava pelas frestas da janela para se levantar. Acho que estou meio fora de forma.
Pensou, se lembrando da caminhada da noite anterior.
Enfim, ela conseguiu se levantar e descer para o café. Chegando à mesa da sala,
vê que tanto seu avô quanto Ian já estavam acordados.
— Vem minha filha – chamou Sílvio – Estávamos esperando você.
Ana olhou bem para as migalhas de pão espalhadas pela mesa antes de responder:
— Estou vendo. - e sorriu - Obrigada.
— Desculpe, não resistimos – falou Ian com uma falsa expressão de culpa. Ele
parecia estar ótimo e Ana se perguntou o quanto ele ficou cansado do exercício de
ontem. Talvez nada, concluiu.
— Espero que vocês não tenham planos de sumir hoje, ouviu Ana? – falou Sílvio,
quando a garota se sentou e Ana ia pedir perdão quando Ian se intrometeu.
— Desculpe tio Sílvio. A culpa é minha. Estava tão doido para que Ana me
mostrasse tudo que a fiz perder a hora.

296
Sílvio encarou o garoto, mas seu olhar não era severo, depois, deu de ombros e
continuou passando manteiga no pão.
Sílvio foi o primeiro a sair e Ian ficou esperando Ana acabar o café.
— Obrigada - disse
— Não por isso.
Ana voltou sua atenção para sua comida e Ian continuou a falar.
— Espero que você coma bem, afinal, hoje você vai precisar de energias para as
aulas que vou te dar.
— Aulas? - ela tentou esconder a excitação
— Sim. Eu fiz você atravessar o Véu e então é importante que eu te guie nesse
novo mundo enquanto puder. Não quero te deixar como cega no meio do tiroteio.
Ana tentou conter a emoção.
— Essas aulas, serão como exatamente?
— A continuação do que eu te falei. Controle de energia. Você tem treinado? -
pela a acusação de seu olhar, Ana sentiu que ele já sabia a resposta. O peso daquele
olhar a fez baixar a cabeça, permitindo-se apenas encarar o próprio café. O garoto deu
uma risada.
— Estou de brincadeira. - falou - Sei que não teve tempo além da viajem. Quero
lhe dar umas demonstrações para você ver bem do que estou falando. Então, quando
acabar de comer, vamos voltar para a floresta.
Ana não respondeu e tratou de comer mais rápido. Estava muito animada com
essa tarde. Ao subir, escovou os dentes e deu um jeito no rosto e no cabelo. Por incrível
que pudesse parecer, todo o cansaço havia sumido de seu corpo com a expectativa de ter
aulas de magia.
Ao se arrumar, parou de frente para a mala, tirando toda a roupa e decidindo o que
iria vestir para a ocasião. Como se veste para ter aulas de Magia? Ana pensou nas
habituais vestes compridas que sempre via nos filmes e ilustrações, mas não tinha
nenhuma. E também seria complicado usar aquele tipo de roupa para treinar numa
floresta.
E optou por um vestido amarelo que tinha. Era curto e confortável. Permitiria a
ela se movimentar com facilidade pelo caminho acidentado. Pensou bem no
comprimento da roupa e achou melhor por coisas a mais para que seu avô não tivesse
um infarto. Então, mexeu a bolsa atrás de um top e um short para por baixo do vestido.

297
— Pronto - disse quanto acabou e se olhou no espelho. Pelo menos assim não
mostraria coisas demais caso houvesse algum acidente.
Era engraçado, mas naquele momento ela começava a fazer as pazes com o
espelho, gostando muito do que via refletido. Não sabia o que era, mas ela parecia estar
com um brilho diferente. Na verdade, tinha muitos motivos para estar mais feliz. Tudo
ocorria bem. Ela recuperava seu vínculo com o passado, suas crenças e sua família
renegada. Estava aprendendo coisas novas que lhe enchiam os olhos e acima de tudo,
sentia que Ian estava desistindo de partir.
Ele quer ser meu mestre. Pensou animada. Seria eu uma daquelas alunas
apaixonadas pelo professor? Continuou com seus devaneios. De fato era.
E desceu para encontrar Ian. Antes de avisarem a Sílvio da saída, Ana passou na
avó para poder cumprimentá-la e dar-lhe um beijo. Não queria ficar um dia a mais sem
fazer isso. E assim, saíram de casa, prometendo estarem de volta para o almoço.
Entraram na floresta mais uma vez e Ana deixou Ian guiando o caminho.
— Aonde vamos?
— Para um lugar discreto. - disse simplesmente.
Saíram da trilha que estavam seguindo e Ana começou a ouvir o som de um rio
próximo. Ao chegarem, os dois podiam ver a água cristalina que cortava ao meio a
floresta. A correnteza era muito fraca ali e Ana teve uma sensação de Déjà-vú
— Aqui está bom. Acho que ninguém deve vir aqui. – falou Ian, olhando em
volta.
— Eu já estive nesse lugar. - lembrou-se Ana - Vinha aqui com minhas tias. Era
um ótimo lugar para nadar. A água é muito boa.
— Então acha que é um lugar bom para ficarmos? - perguntou Ian.
— Sim, é. Acho que as únicas que conheciam essa parte eram minhas tias - Ana
falou maravilhada com o sopro de lembranças que aquele lugar lhe inspirava.
Ela sabia que logo atrás haveria uma clareira onde, uma vez, fez uma fogueira
quando tinha mais ou menos nove anos. Ela, Samanta e Teresa, ficaram ali contando
historias de bruxas e comendo besteiras enquanto olhavam as estrelas. Ana se lembra
ainda que aquela fora a primeira vez que ouviu a história dos Garow. Seu fascínio por
esse clã a atingiu de imediato.
E imaginar que estou de frente para um agora.

298
— Ana? – Ian estava na sua frente sacudindo a mãos para lhe chamar atenção -
Volte para a terra.
Ana deu um pulo com o susto. Não imaginava que havia viajado tanto, pois, em
um segundo, Ian estava longe e agora, aparecera em seu lado. Como um piscar de olhos
pôde durar tanto tempo?
— Com o que estava sonhando?
— Nada – ela disse rapidamente – só... lembrando.
— Ah. Bem, vamos começar?
— Claro – Ana agora estava totalmente na terra.
Ian ficou andando pela borda do rio enquanto parecia pensar em como começar
até que uma idéia lhe veio à cabeça e ele se virou para Ana.
— Você me disse, ontem no carro, que sentimentos eram a chave para se controlar
seu fluxo de energia. - começou em seu tom metódico.
— Sim – concordou Ana se lembrando vagamente. Na verdade ela estava muito
sonolenta naquele dia.
— Bem, você encontrou de fato a chave para desencadear o fluxo de energia de
seu corpo. Os sentimentos são como válvulas de escape que você regula para aumentar
ou diminuir o fluxo de energia.
Ana concordou com a cabeça e Ian continuou.
— Então, sentimentos fortes como amor, ódio, desespero, tendem a aumentar esse
fluxo, pois aumentam os batimentos cardíacos e, assim, liberam mais sangue carregado
de energia para o organismo. - ele fez uma pausa - E a calma, a tranqüilidade, a apatia,
entre outros, tendem a diminuí-lo. Isso você já concluiu, Agora o segundo passo é
aprender a canalizar essa força.
Ele agora caminhava para um local onde havia uma pedra, do tamanho de uma
bola de basquete, repousada na grama. Ian apoiou o pé em cima dela, falando:
— Como todo o ser humano da minha idade e do meu porte eu teria dificuldades
em erguer essa pedra e muito mais dificuldades se quisesse quebrá-la. Isso é uma
limitação natural que eu teria que vencer, caso quisesse quebrá-la com um chute, por
exemplo. Para que isso ocorra, eu teria que seguir dois passos: um, seria canalizar o
máximo de energia para o meu pé e, dois, controlar meus sentimentos para liberar o
máximo de energia possível.

299
E sem mais explicações, Ian ergueu o pé ameaçando chutar a pedra com toda a
força. No susto, Ana não teve nem mesmo a reação de gritar e tudo o que foi capaz de
fazer foi virar o rosto para não ver a cena. E foi então que ela escutou um som muito
semelhante ao de uma explosão ecoar pela floresta. E quando se atreveu a olhar de
novo, viu uma quantidade de poeira voando e, percebendo rápido, conseguiu enxergar
estilhaços do que antes foi uma pedra atingirem a outra borda do rio e, alguns deles,
golpearem com força as árvores próximas, ricocheteando entre elas.
Ian deu um sorriso amarelo coçando a cabeça ao ver o estrago que tinha feito.
— Melhor eu maneirar se não as fadas vão comer meu couro – e se voltou para
Ana – Bem, isso é uma demonstração do que se pode fazer. Como eu tive uma educação
para ser um guerreiro, isso é fácil pra mim. Na verdade, esse é um exercício padrão que
todo o mago iniciado sabe fazer, mas nem todos o usam ou tem muita prática com ele. -
e se aproximou de Ana a olhando nos olhos - E agora vou usar uma deixa sua para dar
uma demonstração do que não se deve fazer.
— Eu?
— Sim. Hesitar. – ele esperou que ela entendesse do que ele estava falando. –
Quando eu escolhi quebrar aquela pedra, além de concentrar toda a minha energia no
meu pé, também tive que liberar certa raiva contra aquele ser inanimado para que um
fluxo de quintessência considerável chegasse ao meu membro. - fez uma pausa
esperando que ela assimilasse - Se eu hesitasse, por um único minuto que fosse. Se eu
tivesse medo de me ferir ou pena da pedra. Esses sentimentos fariam meu fluxo de
energia cair. Poderia até chegar a um nível insuficiente para quebrá-la. E você imagina o
que aconteceria?
Ana ficou em silêncio, sem querer responder.
— Você provavelmente teria que me carregar de volta com uma trilha de sangue
seguindo atrás de você - respondeu como se isso fosse uma coisa do dia a dia. – Então,
quando for chutar uma pedra, não hesite.
— Vou me lembrar disso – respondeu, embora não acreditasse precisar disso em
seu futuro.
Ian riu e depois a olhou sério
— Mas é sério. Quando você vai lançar qualquer magia, hesitar é a linha que
separa o sucesso do fracasso total, pois a hesitação altera o fluxo de energia em seu
corpo. Entendido?

300
— Entendido. – Ana confirmou, olhando maravilhada a pedra destruída à sua
frente. O pé do garoto estava totalmente ileso, apresentando apenas alguma sujeira
provocada pela poeira.
— Você ainda acha incrível demais para acreditar? – perguntou, fitando seus
olhos.
— É fantástico sim, mas dá pra acreditar – respondeu eufórica.
— Que bom! – ele sorriu – Outros em seu lugar tentariam dar alguma explicação.
— Acho que seria difícil não acreditar depois de ver isso - comentou.
— Nem tanto Ana – respondeu – Não subestime o ceticismo das pessoas. Ou se
esqueceu do quanto você demorou a acreditar mesmo depois de me ver em ação?
A garota baixou a cabeça um tanto encabulada.
— Não fique assim. É natural no mundo de hoje. Acreditar em mito na sociedade
moderna é fazer papel de louco. – e concluiu - por isso as pessoas hoje em dia podem
ver milagres a sua frente o tempo todo e continuarem céticos. Muitos são capazes até
mesmo de fazer magia sem crer nela.
— Fazer magia?
— Sim. – explicou - Essa demonstração que acabo de lhe dar, por exemplo.
Quantas vezes você não soube de casos em que as pessoas são capazes de feitos até
mesmo sobre-humanos quando a necessidade aperta. Pense numa mãe vendo seu filho
num carro em chamas. Ela quer salvar a pessoa que ama. Nessas circunstâncias, ela até
mesmo poderia criar uma força monstruosa e arrancar à força a porta do carro. Isso se
chama Mágica Espontânea.
— Mágica espontânea – repetiu como que tentando gravar o nome.
— Sim. – respondeu – É a mágica que é feita quando a necessidade aperta, de
forma inconsciente. Essa mãe, por exemplo, mesmo não sabendo usar magia, é capaz de
fazer o sangue circular rapidamente através de seu corpo de forma o suficiente para lhe
dar forças, nem que por um segundo, de salvar o filho.
Ele fitou o horizonte e depois continuou.
— Outro exemplo de Mágica Espontânea é a que me fez nascer como Ian. Quando
me taquei do alto daquele penhasco, meu desespero era tamanho que eu acabei ativando
a magia de ressurreição sem querer.
Ele ficou em silêncio por um tempo.

301
— Bem - continuou olhando em volta tentando mudar o assunto – Essa foi uma
demonstração do uso de Quintessência para aumentar a força do usuário – e ficou em
silêncio enquanto pensava em algo - mas… existem outras finalidades para essa energia.
- Agora ele parecia ter reassumido o fio da aula – Para todas elas, é necessária uma
canalização adequada de quintessência do usuário e também um fluxo regular e exato de
energia.
— Entendo. E o que mais pode se fazer, exatamente?
— Muitas coisas. Quando se sabe controlar o fluxo de energia, você basicamente
possui um controle extensivo de seu próprio corpo – ele se agachou – Você pode fazer
uma infinidade de coisas que parecem impossíveis, como levar força aos músculos das
pernas para um bom salto – e sumiu um borrão
Foi como se Ian tivesse sido abduzido de repente. Num segundo, ele estava lá, e
no outro, não. Ana olhou nervosamente em volta à procura do garoto até que escutou
sua voz vinda de cima.
— Ou relaxar para que seu fluxo de energia seja menor, reduzindo seu peso.
Quando Ana olhou para a direção, viu que Ian estava e cima de um galho de
árvore. Aquele pedaço onde ele estava era muito fino e provavelmente quebraria sob o
peso de um pequeno animal. Mas ao contrário de partir, o galho apenas oscilava um
pouco, como se em cima tivesse não um homem, mas um passarinho.
— Assim como você pode colocar energia no corpo para aumentar o peso e a
força, você também pode tirar para reduzi-los.
— Isso deve ser maravilhoso para magas com problema de peso – brincou Ana,
mas viu que a piada não agradou.
— Bem... – ele revirou os olhos, tentando voltar ao assunto – também podemos
usar a quintessência para ganhar velocidade – e sumiu num outro borrão.
— E usar nossa redução de peso para sermos silenciosos – um sussurro fazia-se
ouvir no ouvido de Ana.
Ela levou um susto e quando se virou, Ian estava a meio centímetro de seu corpo.
Nem o ouviu chegar.
— Outra coisa muito útil é levar energia para os sentidos para que se possa
perceber a chegada e os movimentos do inimigo. - lembrou.

302
O garoto tinha os olhos azuis naquele momento e eles fitavam seu rosto com ar
divertido. Ela correu os olhos rapidamente e podia ver as garras em suas mãos e uma
presa, que pulava para fora de sua boca, mesmo fechada.
— Nossa! – exclamou Ana.
— Legal né? – disse ele, muito contente – Como eu disse, essas são habilidades
muito usadas por guerreiros como eu, mas qualquer praticante de magia sabe usá-las,
embora alguns cultos não sejam muito especialistas nelas. Na verdade, muitos magos
não sabem brigar. - completou – mas essa prática se tornou muito mais comum devido
aos riscos que corremos.
— Fala dos Inquisidores? - perguntou Ana.
— Eles também - respondeu – Mas principalmente pelos demônios. Quando eles
assumem um corpo, suas condições físicas são muito maiores que a de um humano
comum. Logo, aprender a controlar a energia do corpo acabou por ser tornar um
princípio para qualquer mago.
— Entendo.
Agora, o olho azul de Ian se dirigia ao rio e um sorriso presunçoso surgiu em seus
lábios.
— O que foi?
Ian não respondeu e começou a caminhar em direção à água, parando na borda
antes de olhar para Ana.
— Magia também nos permite fazer milagres. – e saltou de pé na água do rio.
Nesse momento, Ana não precisou desviar o olhar. Aquela parte do rio não era
funda e a correnteza não era forte, então não oferecia perigo. Só ficou um tanto
espantada com tal atitude, espanto esse que não foi nem metade do que experimentou ao
ver o que se seguiu. Mas mesmo acompanhando cada detalhe, Ana não conseguiu
explicar o que houve. Quando imaginou que Ian sumiria dentro da água, eis que ele fica
de pé como se na verdade estivesse ainda com os pés no solo. Quando Ana olhou para
seus pés, seu queixo caiu. Ian estava de pé em cima da água, sorrindo para ela. Ele
poderia estar como se em cima do solo se não fosse por um leve balançar que era
ocasionado pela fraca correnteza.
- Se fosse um lago ou um rio mais calmo, seria como se estivesse no chão. – disse,
enquanto tentava não perder o equilíbrio devido à oscilação da água - Esse truque era
muito útil para o pessoal do meu clã, pois haviam épocas em que os lagos não estavam

303
congelados, mas isso não quer dizer que a água não estivesse fria. Então, usávamos isso
para atravessar as lagoas e rios para encurtar nossa viajem. - ele pareceu finalmente
encontrar o ponto de equilíbrio.
— Isso é um milagre realmente – ela estava maravilhada.
— Bem, um pouco. – disse modesto – Essa não é uma técnica fácil de usar. É
necessário muito controle do fluxo de energia para se deixar o corpo com uma
densidade menor que a da água. Qualquer distração, eu afundo. É difícil usar isso em
situações de tensão, mas não é impossível.
— Jesus Cristo seria um mago, então?
— Possível, quem sabe? – ele deu de ombros. Ana sabia que as convicções
religiosas de Ian não eram fortes.
A garota ficou mais um tempo visualizando o espetáculo que era tudo aquilo. Ian
parecia querer brincar com ela e dava mortais para trás caindo com os pés em cima da
água e sorrindo pra ela. Deveria ser maravilhosa a sensação.
Seus olhos correram da pedra espatifada até o galho e depois para o rio e ficou ali,
olhando.
— Uma moeda por seus pensamentos – ofereceu Ian, parando de pular.
— Não é nada, é só que... é tudo tão lindo.
— Magia é bonita Ana. Seria muito melhor se todos a usassem ao invés de
destruir o planeta. Mas não podemos mandar nos outros.
— É que... – Ana pensava em como falar – Desde que minhas tias faleceram que
eu tenho olhado a magia com uma visão negativa. Primeiro, não acreditando nela e
depois, vinculando-a ao mal. Entende?
— Entendo bem – falou Ian, solícito – Eu admito que a magia tenha seu lado
negro, mas isso não é culpa dela. Ela é uma ferramenta, e sua utilidade depende do uso
dado por quem manuseia. – ele ia se afastando até a outra borda enquanto falava e Ana
tentou perguntar o que ele estava fazendo – Assim como a energia nuclear que foi
descoberta por Einstein a fim de ajudar a humanidade, foi pega por algum idiota para se
criar a famosa bomba A, a magia também pode se tornar perigosa nas mãos de pessoas
mal intencionadas. – agora ele se virou para Ana sem sair do rio – Então, mesmo uma
magia que foi usada anos atrás para fazer uma criança chorar... – e levou a mão até a
boca, sussurrando algo ali que Ana ao conseguiu identificar.

304
Ana ia perguntar o que ele estava fazendo quando sentiu uma brisa passar por seu
rosto. O vento começou a passar por suas orelhas, produzindo um som que a deixou
assustada com as lembranças que causava. Mas logo serenou, pois a voz que ali se
produzia estava longe de ser aquela medonha e fria do dia da morte de suas tias.
Esta era doce e dizia-lhe uma frase linda demais.
Eu te amo.
Ana sorriu reconhecendo a voz de Ian no vento.
—... pode fazer, anos depois, uma mulher sorrir. - completou a frase.
Ana agora não podia deixar de sorrir. Era como se tivesse desaprendido a não
expor os dentes, tamanha era a sua alegria.
— Essa magia se chama Mensageiro. - explicou - Muitos grupos primitivos de
magos conhecem-na – explicou, aproximando-se de novo de Ana. – Ela usa a
capacidade do ar em conduzir as ondas sonoras e faz com que uma determinada
informação seja anexada ao vento, ocultamente. Assim ela pode ser transportada até o
receptor. É uma forma segura de mandar mensagem.
Ele sorriu. Ana se aproximou da borda do rio. Ian se mantinha ainda dentro da
água.
— Então, essa é a forma mais segura de se mandar mensagens? – Na verdade, ela
tinha um assunto mais importante para falar. A frase dita pelo vento ainda ecoava em
sua cabeça.
— Uma das mais eficientes talvez, mas não a mais segura – corrigiu Ian –
Qualquer mago com percepção boa pode interceptar o conteúdo do mensageiro se
estiver no caminho do vento.
— Então, qual é a forma mais segura? - O que isso importa? Pensou. Só queria
ficar mais perto dele, mas a fronteira do rio a impedia.
— Me permite demonstrar? – o Garoto tinha um ar de mistério. Seus olhos azuis a
fitavam intensamente.
— Claro – disse Ana olhando-o e sentindo todo aquele desejo que sentira na noite
do primeiro beijo.
— É uma arte bem rebuscada... – falou hesitante, conforme foi se aproximando
mais e inclinando o rosto em sua direção – A Irmandade da Rosa o usa
constantemente... – respirou fundo e seus olhos demonstravam o conflito em sua mente

305
– Normalmente eu não me permito usar, mas... – Ana não sabia o que fazer,
contemplando seu rosto que se aproximava a cada palavra dita. – Eu...
E foi quando ele se pôs na ponta dos pés e, sem sair da água, beijou-a.
Ana ficou imóvel, presa nos primeiros momentos da surpresa. Então,
instintivamente, fechou os olhos para sentir melhor o contato dos lábios. Foi um toque
tímido e suave, mas que conseguiu fazer com que suas pernas bambeassem. Ana
avançou um pouco, forçando sua língua a entrar na boca dele, mas não foi capaz. Isso
por que, algo inesperado a impediu.
Num segundo uma seqüência de imagens invadiram sua cabeça. Elas eram rápidas
demais para que Ana conseguisse identificar o que se tratavam, deixando-a confusa.
Com clareza, ela só conseguiu entender uns poucos momentos.

*
Numa cena, ela estava dentro do quarto de Ian. Ana se encontrava apoiada na
janela vendo seu quarto à sua frente. Ali, dentro do quarto, conseguiu ver ela mesma, só
que mais jovem, penteando os cabelos em frente a um espelho. O que esta
acontecendo? Perguntava-se.
Mas a cena acabou.
E foi para outro momento. Neste, ela estava sentada numa cadeira em uma festa
estilo brega. Ela reconheceu o lugar como o aniversário de Fernanda, onde começou a
namorar Lucas. Ana, agora, observava sentada, ela mesma, abraçada com o recém
namorado, dando-lhe um beijo apaixonado.
Ela não pôde explicar como, mas sentiu uma dor aguda em seu peito ao ver aquela
cena.
A terceira que ela conseguiu pegar foi a mais consistente. Nela, Ana estava
agarrada a ela mesma, abraçando-a, protegendo-a. Eles estavam no meio de uma estrada
de terra com matos altos em volta, que ela reconheceu como a estrada do sitio, no dia
em que ela e Ian saíram para comprar coisas de última hora para Mônica.
Ana agarrava a ela mesma num desespero terrível. Não podia permitir que Ana –
ou ela mesma, já não sabia – se machucasse. Ela vasculhava o lugar a procura do ser
que estava conjurando aquela espécie de vulto negro que os rodeava, sentindo uma
vontade louca de rosnar para a criatura. Uma raiva começava a surgir dentro de seu

306
peito, mas ela tinha urgência em mantê-la sobre controle. Não podia arriscar nada com
Ana ali, tão próxima.
Quando a sombra chegou bem perto de Ana – a que ela estava abraçada – Ana – a
real - a agarrou e, levando energias para as pernas, saltou para trás. Um salto muito
maior que a média humana, mas a garota encolhida em seus braços parecia nem
perceber.
Ana tinha raiva. Não queria que ela mesma, que estava em seus braços naquele
momento, fosse ferida. O rosnar começava a crescer dentro de seu peito e ela mostrava
os dentes feito um cão raivoso para tentar intimidar a criatura escondida nas sombras.
Tinha que achá-la. E seus olhos vasculhavam cada centímetro da mata.
E foi quando finalmente sentiu uma energia vinda de uns cem metros de onde
estava. Era ali. Então largou uma Ana no chão pedindo para que ficasse ali em
segurança enquanto se lançava no escuro querendo acabar com o demônio que havia
conjurado aquele ser espectral.

*
Ana se afastou de Ian, sentindo uma leve dor de cabeça. Nada muito forte, mas
incômodo mesmo assim. Voltando a realidade, ela tentava assimilar os flashes que
vinham em sua mente.
Eu fui Ian, ela concluiu. Estava em sua mente por alguns segundos.
— O Beijo - disse Ian se afastando. Dava para ver que ele se arrependera de ter se
permitido ir tão longe – é a forma mais segura de se mandar uma mensagem. Além de
você conseguir mandar muito mais informação, incluindo imagens e sons, um mago
pode transmitir fragmentos de sua memória através do beijo. Lançando sensações e
sentimentos para que o receptor saiba exatamente sobre alguma coisa. - e concluiu - É
uma maneira impossível de ser interceptada. Por mais habilidoso que o alguém seja.
Ana ficou olhando Ian com a mão nos lábios e o garoto deu um sorriso fraco ao
continuar.
— Como é puramente um ato mágico, sem a necessidade de um contato ou
envolvimento mais íntimo, eu posso usá-lo. – e depois ficou cabisbaixo de novo –
Embora eu não seja totalmente imune.
Ana lembrou-se do dia em que viu Ian e Solange se beijando e imaginou...

307
— A Irmandade da Rosa tem esse meio de comunicação como seu favorito –
Informou como se pudesse ler seus pensamentos e uma alegria incontrolável surgiu no
rosto da garota.
— O que foi? – perguntou Ian, erguendo as sobrancelhas.
— Nada – disse exaltada – Nada mesmo. Está tudo ótimo.
Ana sentiu um calor enorme abrasar-lhe o corpo. Mesmo tendo se esquecido do
ocorrido, por um tempo, aquele acontecimento ainda a incomodava muito, mas agora,
explicado, fez a garota rir sem controle.
Foi só um ritual mágico! Mas o que será que ela passou pra ele... Ah, pouco
importa. Foi só um ritual mágico. Ian olhou intrigado para ela, que, num acesso de riso,
abanava o corpo tentando fazer o calor abrandar em sua pele. E foi quando olhou para a
água que o garoto estava pisando. Devia estar ótima.
— Que calor - comentou e Ian ficou em silêncio.
Então, uma vontade irresistível de mergulhar a acometeu. Uma necessidade de
apaziguar o calor que sentia. Lembrando-se que tinha um top e um short por baixo do
vestido, ela meteu a mão na barra da saia e o puxou com toda a força para cima,
despindo-se num só movimento. Mas algo aconteceu.
— Ah! - escutou Ian gritar junto com o som de algo caindo pesadamente na água.
Ana tirou o vestido de frente da cara, segurando-o nas mãos. Ela olhava em volta,
mas o garoto havia sumido.
— Ian? - vasculhou com os olhos o lugar à procura dele. – O que aconteceu?
Onde você está?
Ana já começava a ficar preocupada quando uma mão surge de dentro do rio e se
agarra à borda. Ao ver o garoto se apoiar para subir enquanto tossia nervosamente a
água que havia ingerido, ela se questionou sobre o que teria acontecido, quando ele
falou em uma voz engasgada:
— Eu te disse que não posso em distrair... – tossiu de novo - Enquanto estiver sob
a água.
E foi então que a vontade de rir veio com mais força do que nunca ao olhar o
estado do garoto à sua frente.
— Você me deu um susto – disse o garoto, enquanto tentava recuperar o fôlego.
— Desculpa! – gritou Ana no meio das fortes gargalhadas que lhe faziam doer o
peito.

308
O garoto a olhou com uma expressão carrancuda no rosto, mas depois não resistiu
e começou também a rir, parando em alguns momentos para tossir novamente a água.
Ana foi perdendo a força nas pernas e se ajoelhou com as mãos na barriga. Tinha que se
controlar ou morreria por insuficiência respiratória.
Ambos estavam muito alegres ali e nem percebiam que a alguns metros de
distância, alguém os observava.

*
Ângelo finalmente havia encontrado o demônio.
Ele estava lá com uma garota que não devia saber o tamanho da ameaça que ele
representava. O crucifixo em seu peito parecia que ia torrar a sua pele, mas isso não o
incomodava tanto quanto o que acabara de ver.
Ele chegou há apenas alguns segundos, mas já viu coisas demais.
Ele consegue andar sob a água. Isso é magia elevadíssima. Meu Deus, ajude-me
a detê-lo aqui e agora. Ele não pode sair daqui vivo.

309
38 - O confronto.

Ana tentou ajudar Ian a se levantar, mas não conseguiu reunir forças o suficiente,
pois o riso atrapalhava. Então, ambos foram se apoiando um no outro até que
conseguiram ficar de pé.
— Gente, mas eu queria ter visto – comentou, tentando regular a respiração.
— Acha graça? É que não foi você quem afundou. - respondeu o garoto sem
poder parecer zangado como queria – Bebi tanta água que quase explodi.
— Mas o que aconteceu pra você cair desse jeito?
Ian baixou a cabeça. Estava constrangido demais para falar e Ana olhou para o
vestido em suas mãos.
— Ah... tá. Isso – ela sentiu o rosto corar um pouco.
Enfim, ela se virou de costas, dando uns passos para frente e se distanciando de
Ian para poder colocar novamente a roupa. A idéia de pular na água havia saído de sua
cabeça, mas foi essa a deixa necessária para o que aconteceria a seguir.
Tudo aconteceu de forma muito rápida. Num instante, ela parou de escutar o riso
de Ian atrás de si e quando se virou, mal viu o garoto se jogando em sua direção. Em
pouco mais de um segundo, ele já havia a segurado e se jogando com ela para uma
direção da floresta ao mesmo tempo em que se escuta o som de uma explosão. Sem
entender o que acontecia, ela sentiu o corpo sendo levado para o interior da vegetação
até que Ian os escondeu atrás de uma árvore.
No susto, havia se esquecido de respirar e agora, enchia os pulmões de ar para
compensar a falta de oxigênio. Percebendo a tensão no ambiente, traduzida na
respiração descompassada vinda do peito dele, tentou sussurrar:
— O que está acontecendo?
— Alguém nos atacou – ela notava os olhos azuis vasculhando cada centímetro da
floresta - E se escondeu.
— Mas quem? As fadas?
— Não, esse não foi um ataque de uma fada. E nós não fizemos nada que
merecesse isso – Sua voz era uma mistura de fala e rosnar – Foi um mago quem fez
isso.
Ana olhou na direção da explosão que escutou e seus olhos se arregalaram com a
cena. Havia um buraco enorme no caule da árvore atingida. Era como se uma bomba

310
fosse acionada ali. Atrás da árvore atingida, uma pedra, que deveria ser dez vezes maior
do que a que Ian havia destruído, estava em migalhas naquele momento.

A alguns metros dali, Ângelo blasfemava.


Merda! Errei. O ataque dado foi muito bem concentrado para poder destruí-lo em
um único momento, mas no último segundo, o demônio percebeu a investida.
Ângelo olhava com cuidado para a direção onde o demônio correu com a garota.
Por algum motivo, Ian queria proteger a companheira e agora Ângelo começava a
duvidar a inocência da jovem. No início, achou que fosse alguém por fora do assunto e
por isso esperou que ela se afastasse para atacar o demônio sem molestá-la, mas agora
não tinha certeza se ela devia ser poupada.
O garoto olhava para a árvore onde os dois correram e preparou um novo ataque
com a mesma potencia do anterior. Tinha que aproveitar o fato do demônio ainda não
ter descoberto seu esconderijo. Então, segurando seu crucifixo e o apontando em
direção à árvore, começou a se concentrar.

— Ana – Ian falou ao seu ouvido – Fique aqui e não importa o que aconteça...
— O que você vai fazer? – ela lutava para que sua voz não se elevasse muito.
— Vou distraí-lo. Obrigar que se revele.
— Não Ian...
Ele tampou a sua boca.
— Isso não se discute – ele ordenou – primeiro... - e seus olhos focaram em um
ponto. Droga!
Ele a abraçou novamente, arrastando-a para outra parte quando a árvore onde
estavam explodiu.
— Agora eu achei – rosnou.
E largando Ana atrás de uma grande pedra, disparou em direção ao inimigo. Ian
pensou em fazer um ataque direto, pois quem quer que estivesse atacando, não deveria
ser bom num combate cara a cara e isso lhe daria vantagem. Assim, correndo em
ziguezague e evitando a chuva de esferas prateadas que lhe eram lançados, ele foi se
aproximando.
Peguei.

311
E quando chegou a uma boa distância, fincou o pé no chão freando o corpo
bruscamente e fazendo uma pequena nuvem de poeira se elevar. No mesmo instante,
realizou um movimento com as garras, como se estivesse arranhando o ar.
Concentrando energia nas pontas dos dedos, ouviu-se o som semelhante ao de uma serra
enquanto quatro linhas brancas apareciam no ar se direcionando rapidamente em
direção a uma árvore próxima, onde estava o mago agressor.

Ele me viu. Ângelo se desesperou e tentou atacá-lo rapidamente, mas o maldito


era rápido e evitou todas as magias lançadas. Agora era ele quem investia contra o
iluminado e algo que parecia com quatro linhas brancas vinham em sua direção numa
velocidade alucinante. As árvores eram muito estreitas e ele não sabia como se
movimentar rapidamente entre elas.
Sua chance era ficar na clareira junto do demônio e enfrentá-lo frente a frente.
Como não tinha como se esquivar com sucesso do ataque, Ângelo apenas juntou as
mãos em oração e liberou sua energia.

Assim que tocaram o tronco, Ian viu sua magia atravessar a árvore como se ela
fosse manteiga. Depois, se seguiu uma explosão e uma nuvem de poderia subiu.
Enquanto a neblina se dissipava, Ian aguardava o resultado de seu ataque. Não viu
ninguém sair do lugar, então acreditava ter atingido seu alvo. E quando a poeira se
dissipou, ele pôde ver que atingira sim, mas não surtiu o efeito esperado.
Uma barreira translúcida num tom prateado, semelhante às esferas que foram lhe
lançadas a pouco, envolviam o corpo de um jovem magro e de cabelos longos e claros.
Quando conseguiu focalizar bem o rosto do garoto, Ian se lembrou dele. Era o mesmo
garoto que estava em sua casa, falando com sua mãe anteontem. Sabia que ele era um
Iluminado, pois o reconhecia pela cruz que segurava. Mas o que um Iluminado quer
comigo?

Ângelo estava ofegante.


Que ataque! Pensou surpreso. Ainda bem que conjurei a barreira a tempo. Mas
no fundo ele estava feliz. Pelo menos o demônio ainda não havia despertado
completamente. Ao julgar pela energia emanada pelo sonho do Bispo, um ataque

312
daquela criatura deveria ser tão terrível que atravessaria sua barreira e lhe cortaria ao
meio. Mas não foi assim.
Tinha que acabar com ele agora. Ou ele podia despertar enquanto lutavam.
— O que você quer de mim? – falou o garoto e Ângelo se surpreendeu por ele
querer conversar.
Mas não respondeu.
— Sei que você é um Iluminado – continuou - Então responda. O que você quer
comigo?
Então o demônio me conhece. Não era de se espantar, afinal, demônios e
Iluminados eram inimigos declarados há séculos.
— Se sabe quem eu sou, sabe o que quero demônio. – gritou Ângelo enquanto
saía em direção à clareira.
— Do que está falando? – Ian gritava em resposta, parecendo sinceramente
confuso.
Ele não deve se lembrar completamente, mas eu não vou esperar que isso
aconteça.
E fechando os olhos, ergueu o crucifixo para frente e logo o chão começou a
tremer. Então, várias pedras se colocaram levitando entre ele e Ian e, com um gesto
realizado pela mão livre, elas avançaram em direção ao garoto.

Ian conseguiu se desviar com perfeição, se lançando em direção a uma das


árvores. Mas seu agressor não desistiu, fazendo as pedras seguirem seu adversário
enquanto ele tentava escapar. A chuva de rochas mantinha uma distância muito
arriscada de Ian, impedindo-o de arrumar tempo para contra-atacar.

Enquanto ele o perseguia, Ângelo tomava cuidado para que o garoto não
conseguisse se aproximar mais. Não era bom em combates corpo-a-corpo. E num gesto
com a mão livre, fez parte das pedras se separarem, indo por outro caminho enquanto
um grupo continuava seguindo o demônio de perto. Enquanto mantinha um grupo
próximo, fazia as outras darem a volta para fechar suas passagens.

Ian saltava e corria, mas não conseguia evitar a rajada de rochas pontiagudas que
o seguiam de perto. Decidiu então usar a estratégia mais antiga do mundo e correr em

313
direção do Iluminado para fazê-lo se atingir com seu próprio ataque, mas ao pensar
nisso, viu que era um pouco tarde. Metendo os pés na terra para conseguir frear, ele viu
surgindo à sua frente outro grupo de pedras que fechavam seu caminho. Sem tempo
para desviar ele fechou os braços em volta do corpo, esperando o impacto.

— Ah! – o grito de Ian fez Ana dar um pulo onde estava.


Não! Por favor.
Ela olhava na direção de Ian onde viu uma densa neblina de poeira, levantada pelo
ataque do mago invasor. Sem tirar a atenção enquanto a poeira se dissipava, ela enfim
pôde constatar que Ian estava bem. Pelo menos continuava de pé, mas as pedras o
pegaram em cheio. Vários arranhões marcavam o corpo do garoto e boa parte de suas
roupas tinham rasgões.
Ana deu um suspiro de alivio ao constatar que Ian conseguiu endurecer o corpo a
tempo ou o resultado seria pior. Ela queria poder fazer alguma coisa, mas o que? Sentia
que, como sempre, o medo lhe fazia ficar imóvel e muda atrás daquela pedra, sentindo-
se completamente impotente.

Ângelo se espantou quando o garoto tirou os braços de frente do rosto e pode dar
uma boa olhada em seus olhos.
É o demônio, com certeza.
Ele escutava o rosnar que era emitido por Ian e sentiu uma leve pontada de medo.
Parecia um animal selvagem que estava de frente pra ele, mas o que mais o assustava
era a tonalidade que seus olhos, antes azuis, começavam a ganhar. Era como se uma
mancha vermelha começasse a tomar conta da íris do garoto, se espalhando por todo o
globo ocular à medida que ele rosnava.
E um frio na espinha lhe acometeu, mas Ângelo não tinha tempo para sentir medo,
não podia fraquejar. Então, mantendo a concentração, preparou um novo ataque que
nem ao menos passou perto de seu alvo, deixando o iluminado surpreso com a
velocidade com que Ian desviou dessa vez. Com certeza estava mais rápido que antes.
Desta vez ele nem havia conseguido acompanhar os movimentos dele e agora sentia a
apreensão de não saber onde o inimigo estava.
Tinha que achá-lo, pois ele parecia ficar mais forte a cada minuto.

314
Ian se colocou por trás de uma árvore próxima. Parece que havia conseguido
despistar seu caçador e isso lhe dava tempo para se preocupar com algo um pouco mais
urgente. Olhando para o próprio corpo, percebeu os ferimentos provocados pelo mago e
logo a dor das pedradas o fez sentir raiva.
Via alguns cortes nos braços, pernas e tronco, mas não eram tão importantes e
logo passariam. O que mais o preocupava era a raiva que sentia. Devido à adrenalina
que a luta proporcionava e a fúria por ser ferido, ele começava a sentir a presença da
besta bem próxima, querendo assumir o controle da situação.
Ele tentava controlar a respiração, assim mantendo a calma. Fazia muito tempo
que não enfrentava alguém assim. O Iluminado era bom e isso era diferente de lutar
contra Lucas ou o demônio do sitio. Os dois eram fracos e por isso Ian não precisou se
entregar de corpo e alma a luta, como era forçado a fazer naquele momento. Suas mãos
tremiam involuntariamente e, à medida que os minutos passavam, sentia a besta
tentando sair para o mundo. Seria ótimo arrancar a cabeça daquele garoto, mas os riscos
eram grades demais.
Não podia permitir, não podia perder o controle ali. Ana correria muito perigo se
isso acontecesse. Ian tinha que se concentrar numa forma de derrotá-lo sem gastar muita
energia. Não podia usar todos os seus poderes contra ele sem libertar a besta. Então,
sem arrumar uma idéia melhor, juntou as mãos cruzando os dedos bem na altura de sua
barriga e começou a se concentrar. Foi quando uma pequena bola azul ganhou forma em
suas mãos.
E não demorou muito para o clima começar a mudar.

Ângelo vasculhava as árvores com os olhos sem sair do lugar, quando percebeu
uma neblina densa que surgia.
Esse demônio controla o clima? Pensou espantado. Quer me cegar, não é? Não
vou permitir.
E levando a mão até os olhos e colocando a ponta dos dedos acima das pálpebras
fechadas, ele ativou a sua Visão da Aura. Ângelo ainda se lembrava da áurea do
demônio. Ela era negra e por isso ficaria muito visível naquela floresta, onde se
predominava a cor verde. Com ela, seria fácil localizá-lo.

315
E quando abriu os olhos novamente, eles eram tão claros que quase não se notava
a existência de íris. Com eles, o Iluminado vasculhava a floresta, mas não viu nenhuma
mancha negra no meio de tudo. Onde ele está? Teria ido tão longe assim?
Tal engano o custou caro, pois quando percebeu o vulto azul que disparava em
sua direção, era um pouco tarde. Ângelo só viu o garoto quando este estava bem ao seu
lado, erguendo o punho em direção a seu braço. E se desesperou. Sua força iria
destroçá-lo, mas como não teve tempo para conjurar uma barreira, concentrou toda a
energia que tinha para endurecer o membro para que pudesse sobreviver ao impacto.
Mas foi quando se surpreendeu com a leveza do golpe. Ele nem podia dizer que aquilo
tinha sido um soco. Parecia mais que o garoto estava batendo numa porta do que contra
seu inimigo.
Ele viu o vulto do demônio passar por ele e se virou para encará-lo. Ao fitar seus
olhos, que voltaram ao tom azul, percebeu que Ian tinha um sorriso presunçoso em seu
rosto, mas não entendeu o que isso significava até sentir a dor agonizante em seu braço.
Num espasmo violento, Ângelo sentiu como se tivesse farpas penetrando em sua carne.
A dor o fazia gemer e cair de joelhos no chão, parecendo que seu braço iria ser
arrancado a qualquer momento.
O mago olhou para o próprio braço e não via nenhum machucado nele. O que é
isso? Pensava desesperado. Era uma dor aguda demais, e foi então que reconheceu
aquele sintoma: Era hipotermia. Ele via seu membro ficando acinzentado e logo perdeu
o controle sobre ele, deixando sua cruz cair no chão. Pensava em pegar sua arma caída,
mas o mínimo movimento fazia com que a dor aumentasse.
Ele olhava para o demônio à sua frente enquanto ele fazia um gesto com a mão
que fez sua cruz voar para dentro do rio. Agora Ângelo estava perdido. Os olhos
furiosos do demônio o encaravam enquanto ele se aproximava vagarosamente,
parecendo estar curtindo o momento enquanto deixava o garoto experimentar a tensão
agonizante.
— Não sei por que diabos você resolveu me atacar – a voz do garoto era
controlada e fria – mas na verdade isso não me importa.
Ele ergueu a mão em forma de garra contra Ângelo, que tentou conjurar uma nova
barreira com a mão boa, mas sem seu crucifixo era inútil. Num golpe apenas, todo o
escudo foi destruído e ele viu vários fragmentos de sua barreira cair como cacos de
vidro e desaparecerem no chão.

316
O garoto o olhava com seus olhos brancos cheios de pavor e agora percebia uma
coisa. Algo estava muito errado. A áurea do garoto era azul clara e não negra. Por quê?
Era pra ser negra como a do demônio que eu estive caçando. Por que ela não é negra?
Será que... E a possibilidade o aterrorizou. Teria se enganado? Teria feito a magia
errada e estava o tempo todo caçando um inocente?
— Meu Deus! - Exclamou. Só podia ser isso.
Ele caçou a pessoa errada e agora estava prestes a morrer por isso. Queria explicar
o mal entendido, mas o garoto já erguia a mão em forma de garra para um novo ataque.
E este, com certeza, rasgaria sua carne. Ângelo não tinha mais forças para conjurar
barreiras e a dor no seu braço o impedia de sair dali ou sequer pensar em algo útil.
Enfim, não tendo mais escolhas, fechou os olhos esperando a morte.
Perdão Mestre. Eu falhei.

317
39 - Ataque surpresa.

A neblina começava a se dissipar e Ana podia enxergar de novo. Assim, pensou


em arriscar uma nova olhada no confronto desejando que a situação já estivesse ao seu
favor. Por favor, Ian, esteja bem. O que ela viu, aliviou-a. O inimigo estava no chão e
Ian acabava de destruir sua barreira.
Agora ele estava no controle e avançava calmamente em direção do mago invasor.
Seu gesto, porém, apavorou-a. Ele ergueu uma das mãos em forma de garra mais uma
vez e desta vez, o garoto no chão não parecia capaz de se defender. Ana levou a mão à
boca temendo o que Ian pretendia fazer.
Não!

Ângelo queria que ele acabasse logo com isso. Não agüentava mais manter os
olhos fechados esperando o golpe de misericórdia. Ele orava enquanto esperava que
aquelas garras rasgassem toda a sua carne e possivelmente os ossos também. Só torcia
para que fosse rápido.
Foi quando ouviu:
— Não!
Era um grito de mulher. Uma voz que veio como música para seus ouvidos. Seria
um anjo que veio em sua salvação? Ângelo abriu um olho e percebeu que o mago de
olhos azuis parou com a investida.
— Ana, volte! – ele ordenou para a garota em sua companhia – É perigoso.
— Ian não faz isso, por favor. – Ângelo podia ver as lágrimas querendo cair do
rosto da tal Ana. Sentiu-se aliviado por ela interceder a seu favor e culpado também.
Em pensar que eu quase a matei.
Ian hesitou e Ângelo viu a oportunidade de tentar se consertar.
— Espere... – ele tentou falar, mas quando sua voz saiu, Ian se voltou para ele
pegando-o pelo pescoço e o erguendo do chão.
— Cala a boca – ordenou em um rosnado - Ana, volte.
— Não Ian. - ela insistiu - Por favor, não mata ele.
— Ele estava me caçando – defendeu-se Ian - eu já vi o desgraçado. Ele foi até a
minha casa anteontem e agora está aqui.

318
Ângelo queria ao menos se livrar da mão e poder respirar, mas não conseguia.
Além de aquela garra estar fortemente agarrada em seu pescoço, ele sentia que o mago
liberava aos poucos um ar frio em Ângelo, que causavam hipotermia em todo o seu
corpo, impedindo-o de se concentrar para liberar Quintessência. Assim, não tinha forças
nem para se defender, nem para trazer sua arma de volta. Estava completamente
vulnerável.
— Foi um engano – ele cuspiu as palavras no meio dos engasgos
O garoto se virou pra ele com os olhos cheios de raiva.
— Engano? Então foi engano você ir até a minha casa e foi engano me seguir até
aqui? - e completou com ironia – Ou talvez o seu engano foi o de julgar que poderia me
matar, não?
— Não – ele tossiu – eu o confundi... com... outra coisa.
— Ian – suplicou Ana que agora estava bem do lado dele, segurando seu braço.
Ian hesitou, provavelmente se odiando por ceder, e depois o largou no chão.
— Explique-se – falou com Ângelo assim que ele caiu no chão e depois se virou
pra Ana – Espero que seu senso de julgar as pessoas esteja correto.

Ana sorriu, agradecendo a Ian com o olhar. Ainda bem que não presenciara nada
mais trágico, pois não queria vê-lo matando alguém, não conseguia suportar essa idéia.
Os braços do garoto tremiam e Ana via que ele lutava com a besta interna para manter o
controle sob o corpo. Talvez se ele matasse o mago caído isso poderia desencadear toda
a fúria que sentia.
Então, voltando à atenção para o garoto no chão, observou. Deve ter a minha
idade. E percebendo isso, não conseguia pensar nele como uma ameaça, apesar de ter-
lhes atacado há pouco. Queria dar um voto de confiança. Só esperava não se arrepender.

Ângelo não conseguia acreditar na sua sorte. Realmente aqueles dois não podiam
ser coisa ruim, mas agora ele tinha que convencê-los de que ele também não era.
— Perdão – foi a única coisa em que conseguiu pensar.
— Bom começo – zombou Ian. – Agora, por que veio atrás de mim então?
— Vai parecer estranho, mas estava caçando um demônio. Um demônio que
pensei que fosse você.

319
— E como chegou a tal conclusão? – o rosto dele não tinha uma expressão
definida.
— Usei uma espécie de rastreador mágico que me levou até você. - explicou com
rapidez, como se a qualquer momento ele pudesse perder a paciência a atacá-lo
novamente.
— Acho que deve melhorar seus truques então Iluminado. – escarnou e Ângelo
sentia que ele ainda não estava muito afim de perdoá-lo.
Apesar de não gostar de ter suas habilidades menosprezadas, decidiu não discutir
com alguém que lutava para não dilacerar-lhe a carne.
— E como conseguiu saber que estava errado? - perguntou a garota.
— Quando vi sua áurea. - disse para Ian - A do demônio era negra e a sua é azul.
Ângelo ficou feliz ao ver no rosto de Ian, que ele começava a acreditar.
— Quando você estava escondido eu tentei usar a visão da áurea para localizá-lo.
– explicou Ângelo – Aí vi que estava errado.
— Áurea? – questionou Ana.
— É a manifestação da Quintessência no corpo – explicou Ian – é como aquele
fogo que você conjurou. Só que ele fica circulando em volta de seu corpo
constantemente e funciona como se fosse uma identidade mágica de cada ser. Com a
visão certa, você pode enxergar isso nas pessoas.
— Eu sei, mas. Não podem existir duas iguais?
— Não. - respondeu Ian e Ângelo percebeu o que tinha feito. Havia acabado de
atrapalhar a aula de um mestre com sua pupila. - Geralmente as diferenças são sutis,
mas existentes. É como uma impressão digital e com a observação certa você nota as
diferenças. - explicou sem tirar os olhos de Ângelo.
— E não tem como você disfarçá-la? - ela parecia muito curiosa em aprender.
— Muito difícil e... – e lançou um olhar disfarçado para Ângelo – Você também
não ta ajudando.
— Perdão – Ana conteve sua curiosidade.
— Ela é sua discípula? - perguntou Ângelo
Ian pensou um pouco antes de responder.
— Sim. - Ângelo não sentiu firmeza na sua voz, mas não era importante isso
agora.

320
O Iluminado ficou esperando para ver se tinha se safado. A dor já havia passado e
se quisesse poderia se defender de novo, mas não tinha mais motivos. Só conjuraria seu
crucifixo de volta se fosse absolutamente necessário.
— Então? – a garota olhou suplicante para o companheiro.
Ian parecia confuso. Ele lançava olhares de Ângelo à Ana e dava para ver que
ainda estava com raiva, mas parecia que a garota tinha algum controle sobre ele. Era
bom que ela estivesse do seu lado.
— Acho que... – ele lutava contra as palavras e seus olhos começavam a mudar de
cor: do azul para o preto. Ângelo ficou intrigado com aquele fenômeno. Já era a terceira
cor que via. Queria perguntar, mas o que aconteceu depois não lhe deu chance.
Os olhos do garoto interromperam a mudança rapidamente voltando ao azul
intenso. Sua íris, muito menor que a média, focou em algum ponto distante atrás de
Ângelo, que precisou de alguns segundos a mais para perceber o que ele estava olhando.
E foi quando sentiu que alguém se aproximava por trás.
Quando se virou para ver, teve se agir rápido para evitar o disparo que veio em
sua direção. Da forma mais rápida que encontrou, conjurou uma barreira que impediu
sua cabeça de ser atingida por uma bala. Escutou outros disparos e ouviu um rosnado
vindo do garoto. Ian agarrava Ana, se colocando entre ela e os disparos. Ângelo viu uma
pequena mancha de sangue nas suas costas antes de ele pular com ela para algum ponto
distante.
A única coisa que ele teve tempo de fazer foi se proteger atrás de uma árvore.

Mais uma vez as coisas aconteceram rápidas demais para que Ana tivesse tempo
para entender. Num segundo, escutou o som de disparos e no outro um rosnar de Ian
que a segurava e a arrastava para longe. Ana olhava para a árvore ao lado e via o outro
mago também escondido. Podia ouvir o rosnar baixo de Ian bem próximo de seu
ouvido.
Ela o olhou e viu que seus olhos estavam fechados e suas presas trincadas.
Abraçando-o, sentiu um líquido quente em suas costas e quando puxou a mão para ver
do que se tratava, notou o líquido rubro que a sujava.
— Ian! - se alarmou, mas o garoto não pareceu lhe dar atenção.
Ele abriu os olhos mais uma vez e começou a vasculhar o lugar
— Um... dois... três – ele sussurrava – quatro... merda! Cinco Inquisidores.

321
Inquisidores?
Ana se encolhia nos braços do garoto, quando ouviu o som de mais tiros que
atingiram as árvores onde eles e o outro mago estavam. Ela tentava alertar Ian sobre o
ferimento em suas costas, mas ele parecia estar mais ocupado tentando se comunicar
com o outro Mago. Estava apontando para situá-lo da localização dos inimigos.
O garoto confirmou com a cabeça.
— Estranho eles aparecerem assim - Ian comentava consigo mesmo – Ataque
direto não faz parte do feitio deles.
— Ian. – ela sussurrou - Você está ferido.
— Eu sei – respondeu ainda concentrado na direção dos Inquisidores – depois eu
cuido disso. Só queria entender o que está acontecendo.
— Eles devem ter pensado que conseguiriam acabar com vocês com um único tiro
- Ana sussurrou.
— Pode ser. Mas por que então só atiraram no iluminado e aí depois resolveram
apontar pra agente?
— Talvez não esperassem encontrar outro mago aqui. Podiam estar vindo atrás
dele.

Ângelo estava tremendo. Teria o bispo mandado os Inquisidores ali após receber
seu recado? Esperava que não. Agora que descobriu caçar miragens, tinha medo pelo
que eles poderiam fazer com aqueles dois. Com certeza não os deixariam sair dali vivos.
Não, não é isso, refletiu. Aquele tiro foi apontado pra mim, eu tenho certeza.
Talvez nem soubessem que o outro também era um mago. Tanto que eles atiraram em
Ana e o único motivo para Ian ter sido atingido foi que ele se atirou na frente.
Droga, eles estão me caçando. Por quê?
Ele viu Ian lhe dizer a localização dos demais. Pelo menos o garoto não acreditou
que ele tivesse algo haver com isso.
Ângelo se concentrou um pouco, pensando em seu crucifixo e conseguiu fazer sua
arma saltar para sua mão, mas isso denunciou a sua posição. Uma varada de tiros
penetrou na árvore onde ele estava e quando menos percebeu, seu crucifixo voou de sua
mão, indo parar no meio da floresta.
O que?
Ângelo não sabia o que fazer, eles pareciam ter vindo preparados para matá-lo.

322
Ian fez Ana se abaixar.
— Fique aqui. Não se mexa.
Desta vez, a garota não reclamou e Ian desapareceu de vista. Saindo do
esconderijo, ele tentou se aproximar cautelosamente de um dos atiradores, mas, ao
perder a proteção da árvore, foi atingido de raspão no braço. A dor lhe causou uma onda
de raiva que ele não tinha o direito de sentir.
Aguardou atrás de outra árvore para se recuperar da dor. Ele tinha que se
aproximar com calma, os Inquisidores não se mostrariam se não tivessem alguma coisa
a mais. Mas por mais que ele olhasse em volta, não conseguia achar nada.
Estranho.
Ian sentia que todas as miras estavam apontadas para a sua árvore e tinha que
arrumar um jeito de sair daquela ratoeira. Então, viu um enorme galho bem na sua
frente e pensou. O truque mais velho de todos.Então, pegou o pedaço de madeira e o
arremessou com tudo numa direção e, assim que ouviu a chuva de disparos, lançou-se
na direção oposta.
Correu o mais rápido que pôde tentando se tornar invisível para os atiradores. Ao
aguçar seus sentidos para poder captá-los, acabou escutando um fragmento de
comunicação.

— Sim senhor, tem outro aqui. E não parece ser principiante.


Então, eles realmente não estavam preparados para mim. Tal pensamento aguçou
a excitação nas veias do garoto. Pelo menos tinha a vantagem da surpresa. Vendo que
tinha que acabar logo com aquilo, se lançou rumo aos inimigos usando as árvores para
se esgueirar.
Acabou por encontrar um deles, que ficou de rosto pálido ao vê-lo. Não fez
perguntas e com apenas um golpe na cabeça fez o homem tombar. Ao cair, o rádio que
usava caiu no chão e a voz de dentro dizia nervosamente.
— Carlos, Carlos você está bem?
Com um pisão, o aparelho foi despedaçado. Ian olhou em frente e notou que um
dos Inquisidores o viu. Ian se lançou ao lado antes que ele conseguisse disparar. O
homem começava a mandar balas desesperadamente, mas as habilidades de Ian no meio
das florestas, coisa que ele aprendeu como Kalish, garantiam que conseguisse escapar e
se aproximar de seu alvo.

323
Não demorou muito e o segundo homem estava no chão.

Ângelo escutava os disparos, mas nenhum deles vinha em sua direção. Pelo visto,
Ian se mostrou um alvo mais tentador do que ele e essa era a sua chance de localizá-los
e terminar com aquilo. Ficou pensando em quantos já haviam caído. O garoto era
realmente muito bom. Melhor até que eu. Concordou a contragosto.
Mas ainda estava interessado naqueles olhos. Nunca tinha ouvido falar de nada
parecido. Esquece isso agora. Recomendou a si mesmo. E continuou com calma a
procura para não chamar atenção. Não era um guerreiro, então não era seguro dar as
caras. Não tinha sua arma para se garantir e nem ciência de quantos apontavam as armas
pra ele.
Quando finalmente encontrou um, ele estava virado de costas para Ângelo.
Quando o garoto ia atacá-lo quando viu o que tinha acontecido com sua arma. Ao lado
do homem, estava uma espécie de cubo de metal parecido com uma caixa de som, só
que no local onde deveria ser a saída dos ruídos, sua cruz estava grudada com muita
força.
Eles de fato vieram apenas para matá-lo e com certeza não esperaram encontrar
outro mago ali. Toda aquela emboscada tinha sido preparada pra ele. Dava para ver
pelos sinais. Primeiro, eles se mostraram muito facilmente. Caso soubessem que tinha
algum guerreiro no lugar, teriam esperado mais e preparado uma armadilha melhor.
Segundo, aquela máquina. Ela exercia uma tração magnética forte o bastante para
desarmar qualquer Iluminado numa grande distância.
Conseguindo desarmar Ângelo, seria mais fácil derrubá-lo.
O homem vestido em uniforme preto se virou, percebendo que não estava
sozinho, mas não teve tempo de reagir. Com um movimento de mão ele foi atingido por
uma espécie de escudo invisível. Voou cerca de três metros, indo bater de encontro a
uma árvore próxima.
Ângelo ouviu os tiros cessarem. Demorou a se acostumar com o silêncio e ficou
aguardando para ver se não sobrava algum. E foi quanto Ian apareceu atrás dele
— Acabou aí? – perguntou.
— Sim. – respondeu, levando um susto.
— Beleza, então acabou de vez. Só vieram cinco.
Ângelo ficou surpreso com a informação.

324
— Você derrotou quatro?
— Eles não vieram preparados pra mim – disse, tentando parecer modesto – Acho
que eles nem esperavam encontrar alguém além de você.
— Tenho que concordar – Ângelo olhava para a caixa preta.
Ele se dirigiu a ela tentando encontrar uma forma de desligá-la, quando achou um
interruptor na parte de baixo. Ao desligá-lo, sua cruz caiu no chão.
— Então, eles vieram a sua procura – Ian falou. Não era um pergunta e sim uma
deixa para que ele se explicar.
— Acho que sim.
— Por quê?
Agora que não estavam mais agitados com o confronto, a cabeça de Ângelo pôde
começar a se preocupar com outras coisas.
— Bispo! – ele exclamou.
— Quem? – Ian ergueu uma sobrancelha.
— Eu só... - mas não conseguia falar. Então, seus medos estavam certos. Alguma
coisa de muito grave estava acontecendo na Igreja. Os Inquisidores de alguma forma
penetraram as suas paredes e devem ter visto recado deixado por Ângelo.
— Meu Deus! Mas como? – Ele falava sozinho.
Como o bispo pôde permitir que eles adentrassem seu santuário sagrado. Por
quê?
Ele tinha que correr.
— Desculpa cara - apressou-se Ângelo – eu tenho que correr. Eles estão atrás de
mim. De meu grupo. Eu preciso fazer algo.
E correu. Ian nada fez para impedir.

325
40 – Um novo mundo.

Ana ainda tampava os ouvidos com força para afastar o barulho das balas. Mesmo
depois que o tiroteio havia cessado, ela não conseguia tirar as mãos, pois tinha medo de
que o som dos tiros fosse substituído por algo pior como o grito de Ian.
Era uma verdadeira loucura. Mal tinham saído de um problema e já entraram em
outro. Quando finalmente conseguiu desgrudar as mãos dos ouvidos, arriscou uma
olhada para a floresta, quando sentiu uma mão em seu ombro. No inicio levou um susto,
mas logo seu coração se acalmou ao ver que era Ian.
Sem dizer nada, ela apenas se atirou nos braços do garoto deixando a respiração ir
se regulando aos poucos com a cabeça encostada em sua camisa rasgada e suja e areia.
Ele estava todo sujo, mas ela não ligava, estava muito feliz que tudo tinha acabado. Só
esperava que agora fosse pra valer.
— Acabou – ela o ouviu sussurrar a seu ouvido – Fica calma.
Ela começava a tatear o corpo dele a procura de novos ferimentos, mas há não ser
por um arranhão no braço, ele estava como antes e foi quando se lembrou da bala
alojada em suas costas. Ela se precipitou para olhar o ferimento, mas ele a segurou.
— Relaxa. - disse – eu vou ficar bem.
Ana sorriu com aquela declaração. Finalmente conseguia respirar normalmente de
novo e seu coração começava a entrar no compasso. Ele parecia um mendigo, todo sujo
e desfiado, mas Ana conseguia achá-lo ainda mais bonito assim.
Ele sorriu para acalmá-la, exibindo os caninos avantajados.
— Mas como? – ela ficou perplexa – E suas feridas.
Ele riu baixinho, parecendo um tanto surpreso.
— Estranho você ainda não me perguntar sobre os Inquisidores ou pelo o outro
mago – e depois sorriu pra ela – mas fico feliz que sua preocupação comigo seja
prioridade. Obrigado.
— Fala sério – ela conseguiu rir - lógico que estive preocupada contigo. Nem sei
como foi, só fiquei ali escutando tiros e imaginando se você estava bem.
— Não se preocupe. Parece que os caçadores vieram apenas atrás do nosso amigo
ali. Não estavam preparados pra se encontrarem com um Garow – ele deu uma
entonação a mais para a última palavra.
— Mas você está ferido – lembrou, com a voz fraca.

326
— Pode parar de se preocupar um pouco? Além do primeiro, eles só me acertaram
mais um de raspão – disse mostrando o braço – E o Iluminado me atingiu com as
pedras, mas eu consegui endurecer o corpo no último segundo aí só levei alguns
arranhões. – ele levantou a blusa e mostrou as costas arranhadas. Depois comentou -
Assim é melhor, aí podemos falar para deu avô que eu apenas levei um tombo feio. –
acrescentou com um sorriso. - ele não precisa ver o tiro nas costas.
— Fala sério Ian. Eu ainda estou preocupada.
— Eu sei - ele ficou mais sério. Mas não acredito que aqueles caras vão voltar.
Como eu disse, eles mandaram poucos, pois acharam que o Iluminado era a única
ameaça. Então, não deve haver mais nenhum em Três Corações até amanhã de tarde. E
até lá, já estaremos longe.
— Mas e quando eles acordarem? Eles podem querer caçá-los de novo.
Ian ficou em silêncio. Ana viu que suas feições ficaram um pouco mais sombrias e
ele provavelmente tinha alguma coisa a contar, mas não sabia como. Quando finalmente
entendeu, sentiu sua voz ficando fraca ao fazer a próxima pergunta:
— Eles... não vão acordar, não é?
— Não - disse simplesmente.
Ana ia falar, mas Ian a interrompeu:
— Ana escute – disse seriamente, segurando-a pelos ombros – Sei que isso tudo é
novo pra você, mas tem que entender que esse mundo para o qual você está entrando
tem seus lados negros.
— Mas você disse que não gostava de ser um assassino. – ela gemeu em resposta.
— O que eu disse – sua voz era dolorida. O que Ana tinha dito o havia machucado
– era que eu não suportava matar mais inocentes. Ana – ele acrescentou, olhando nos
olhos da garota – esses homens vieram com um único motivo. Na verdade, eles vivem
com um único motivo: Matar o máximo de nós que encontrarem. Deixá-los vivos seria
assinar nossa sentença, pois eles teriam gravado nossos rostos e com certeza, viriam até
nós mais tarde.
Ana ficou em silêncio. Fazia total sentido, mas mesmo assim...
— Escute Ana. – continuou numa voz vagarosa – Até agora você apenas
testemunhou o lado romântico da magia, e isso é minha culpa. Realmente ela tem uma
face muito bonita, mas essa não é a única. Eu te disse que estamos numa guerra. Temos
os demônios de um lado e os Inquisidores do outro e estamos bem no meio dela. – ele

327
respirou fundo antes de continuar – Olha. Eu sei que tirar uma vida deve ser terrível pra
você. Sei bem que você só me impediu me matar aquele Iluminado, pois não queria me
ver como um assassino, mas Ana, aquilo era uma questão de sobrevivência.
— Eu entendo – sua voz continuava fraca. Matar era uma coisa que Ana se
perguntava se seria capaz de fazer um dia.
— Que bom que você estava certa sobre aquele cara – falou em tom mais
despreocupado, tentando acalmá-la – se não estaríamos fritos. - e sorriu. - Mas pense
bem no mundo em que está entrando. Você pode até ter a sorte de passar uma vida
inteira sem confrontar com nenhum dos perigos que ronda nosso mundo, mas aviso, isso
é sorte de muito poucos.
Ana se lembrou de suas tias inconscientemente.
— Pense bem – continuou – você pode decidir continuar por esse caminho ou
virar as costas pra ele e fechar a porta atrás de si. É uma escolha sua. Assim como você
vai encontrar beleza e alegrias na magia, também vai ver dor e sofrimento. - e mudou o
tom para um mais divertido ao completar – embora eu duvide que alguém seja capaz de
fechar a porta depois que se descobre do que nosso mundo é feito. Você vai ver magia
em tudo agora e ela sempre vai estar com você.
Ana deu um meio sorriso em retribuição. Agora que ela se lembrava do outro
mago que estava com eles.
— Onde está o Iluminado?
— Os Inquisidores estão atrás dele. Ele foi ver o que acontecia com os demais
membros do seu grupo.
— E não vamos ajudar?
— Infelizmente não dá – Ian fez uma careta de susto com o vamos.
— Por quê?
— Bem, é um pouco complexo. A Ordem dos Iluminados está meio que renegada
das demais organizações mágicas do planeta. Por isso eles tendem a não confiar em
mais ninguém, além deles mesmos. Se fosse ao contrário ele teria pedido a minha ajuda,
mas não o fez. Preferiu seguir sozinho.
Ana agora se lembrava da historia que Ian lhe contou. Lembrou que durante anos
os Iluminados lutaram ao lado dos Inquisidores para destruir as irmandades mágicas
existentes. Lembrou-se também que tinha dito um bem feito depois que descobriu que

328
agora eles também estavam sendo caçados. Mas agora, vendo o que era realmente ser
caçado, se comovia com a situação do jovem. Não desejava aquilo a ninguém.
— E ainda tenho mais – Ian cortou os pensamentos da garota – Eu não sei se seria
bem recebido.
— Por quê?
— Bem – ela viu que essa lembrança o deixava um pouco triste. – Nos primeiros
anos em que eu descobri estar amaldiçoado, recorri a um grupo de Iluminados.
— E?
— E que eles me consideraram um possuído pelo diabo e tentaram me matar.
Inúmeras vezes pra ser sincero. – completou – Sorte o nosso novato não saber de minha
situação, ou nossa luta só acabaria com a morte de um.
— Nossa. - agora Ana entendia a relutância de Ian em poupar o garoto.
— Então, o que faremos agora? – ela perguntou.
Ian olhou para o relógio e depois falou:
— Bem, primeiro, ponha seu vestido. Depois vamos pra casa descansar e comer
alguma coisa. Depois vemos o que faremos do nosso dia. - e olhou em volta - Nossa
aula de hoje acaba aqui. Classe dispensada.

329
41 – Traição.

Ângelo chegou ofegante a uma parte da floresta. Agora, bem afastado do rio e dos
outros dois, ele podia dar asas a seu desespero. Não era fã de demonstrar emoções na
frente dos outros. Mestre, Frade, como eu pude abandoná-los? Se ele tivesse dado
atenção à sua intuição, nada disso teria acontecido.
Tenho que voltar ao Rio de Janeiro. Merda, onde deixei a mochila?
O garoto vasculhava o local à procura do pertence quando finalmente o encontrou
encostado atrás do tronco de uma grande árvore. Ele se precipitou para pegar a bolsa e
na pressa acabou derramando seu conteúdo no chão.
— Droga! – praguejou. Andava fazendo muito isso ultimamente. Teria que se
confessar depois.
Ele catava os papeis com pressa colocando-os de qualquer maneira dentro da
bolsa. Grupo por grupo, os papeis foram sendo amassados dentro da mochila, quando
um deles fez Ângelo parar o que estava fazendo.
Ele ficou perplexo por alguns minutos, olhando para o pedaço de papel que
continha a sua letra. Era a anotação que ele fizera em uma de suas aulas com o Bispo.
Agora Ângelo entendia o que era a sensação de deixar algo passar que o atormentava há
quase uma semana. Na folha, estava uma espécie de oração em Latim, que Ângelo sabia
que não era nada religioso, mas sim uma forma de encobrir o que de tão poderoso
estava entre as suas linhas.

*Traduzido do Latim
Que as asas dos anjos o guiem para a face da luz,
Que o senhor seja seu guia e te controle para que evites o caminho das trevas.
Seja Feita a vossa vontade.
E nesse caminho cego, sua fé lhe levará...

A oração de Lucas Levstross! Sua mente retornou a cerca de quatro noites atrás,
quando saía de uma conversa com o Bispo César e encontrara o Frade Henrique orando
em frente ao altar.
As mesmas palavras da oração de Henrique. Ângelo sabia que nenhuma oração
da ordem usava essas palavras. Henrique, no momento da oração, havia recitado-a em

330
português, e por isso Ângelo não foi capaz de fazer a comparação de imediato, pois só a
havia aprendido em latim.
Não acredito que não percebi
Então as lições do bispo ecoaram em sua cabeça causando-lhe dor do peso na
consciência.
O fato de um feitiço ter sido banido não significa que seu uso também o foi
...
Ainda há resquícios deles em toda a parte e não duvido que existam pessoas
dentro da própria Ordem que se sintam tentados em usá-los.
...
Identificá-los é de vital importância para se interceptar um feitiço lançado contra
você
...
Francamente garoto. Você deve prestar mais atenção. Assim nunca vai se tornar
um grande mago.

E eu não prestei. Pensou cheio de culpa.


Mas ele podia estar usando esse feitiço contra os inquisidores, pensou com mais
esperança do que com lógica. No fundo, sabia que essa teoria não era válida. Ângelo
conhecia a fidelidade do bispo à Ordem e sabia que César jamais usaria uma coisa
condenada pela igreja. Mesmo contra seus inimigos.
Assim como não permitiria a entrada de um Inquisidor na sua igreja a menos
que... estivesse controlado.
Agora tudo fazia sentido.
Meu Deus.
Abaixo da oração, havia algumas anotações sobre feitiços: Anotações que Ângelo
tinha lido à apenas alguns dias, atrás.
A segunda característica de alguém enfeitiçado é a fraqueza que a pessoa sofre
quando o controle é quebrado. Quando alguém é vitima de um feitiço, ela não está
completamente alheia ao que acontece. Dentro da mente da vítima é travada uma
batalha entre seu subconsciente e o invasor. Tal luta tende a deixar uma fadiga muito
grande para trás, logo, é comum as vítimas desmaiarem após serem controladas por
outro mago.

331
Ele se lembrava do bispo desmaiado do sofá da Igreja e de como sua áurea estava
fraca. Meu Deus. Eu ainda me considero um prodígio.
Quanto mais raciocinava, mais via que as coisas estavam na sua cara o tempo
todo. Mas tinha uma coisa que ainda não se encaixava. Ele conhecia o Bispo, sabia de
suas habilidades, então como não conseguiu interceptar o frade antes que ele o
enfeitiçasse?
Quem lhe respondeu foi uma voz feminina que veio em sua mente.
Uma das propriedades da planta Beladona é a de ser um bom recipiente mágico.
...
A Beladona já foi usada muito como um recipiente para se guardar todo o tipo de
mágica: magia, necromancia, feitiço, e outros.
...
Só magos experientes são capazes disso. De quem você desconfia?

Ele usava a Beladona para depositar feitiços. Assim a magia ia direto ao corpo
do bispo sem ele perceber.
Ângelo começava a entender tudo. Tantas explicações de uma vez o deixavam até
um pouco nauseado, mas não queria perder a linha do raciocínio.
Quando o frade fez a oração eram apenas alguns minutos antes de conversar com
o bispo. Lógico, ele é muito esperto para colocar a magia em todas as pílulas do bispo
de uma vez. Além de aumentar as chances de César descobrir, ainda tinha o
inconveniente de alguém vê-lo num estado de torpor.
Por isso ele só enfeitiçava as pílulas nos momentos exatos.
Ângelo sentia raiva agora. O bispo confiava em Henrique, tanto que o deixou a
par de tudo. Entregou toda a sua saúde nas mãos dele. O garoto gritou. Um grito para
ninguém ouvir, há não ser as árvores e pedras próximas. Um grito que servia apenas
para desabafar. Liberar a tensão.
Decidido, ele se levantou e correu em direção à rodoviária.

332
42 – Os guardiões do segredo.

Ana e Ian chegaram à casa e o avô já estava pronto para dar um sermão pelo
atraso da dupla, quando viu o estado do garoto.
— O que aconteceu? – disse ele num tom que era mais de surpresa do que de
comoção.
— Caí – disse Ian com um sorriso amarelo.
— Estávamos caminhando e Ian caiu de um pequeno barranco – acrescentou Ana,
dando corda a mentira.
— Meu Deus! – Ana viu que Sílvio estava achando mais graça do que compaixão
pela situação do garoto, mas disfarçava muito bem o riso e lutava para manter a postura
séria. Ana sabia que o avô tinha essa veia sádica – Você está bem?
— Sim. Não me machuquei – garantiu Ian.
— Então vão tomar um banho que vou mandar a Emília servir o almoço.
Sem dizer mais nada, eles subiram as escadas até os banheiros. Não demorou
muito e eles puderam escutar a risada vinda do térreo. Ian fitou a garota com uma
expressão divertida e os dois riram também. Ana o olhava e ele parecia bem à vontade
apesar dos arranhões.
Pelo menos não é nada tão grave. Pensou quando seus olhos bateram na mancha
de sangue atrás da blusa.
— Melhor vermos isso. Agora. – ela apontou para o ferimento.
— O que? - ele perguntou. Parecia que tinha esquecido completamente do buraco
de bala em sua pele.
— Tira a camisa. – mandou
Ian obedeceu e eles entraram no quarto da garota para ela poder ver melhor o
buraco nas suas costas.
— Ian, você foi atingido!
— Shiiiii! – o garoto colocou a mão na boca dela – Quer estragar o disfarce?
Relaxa! Eu já sei.
— Mas quando foi exatamente? Foi tão rápido.
— Foi na hora em que os Inquisidores dispararam pela primeira vez. - ele falou,
olhando o buraco na frente de um espelho – Como eu disse, eles não deviam estar

333
esperando por mim. Tanto que além de só darem o primeiro disparo no Iluminado, eles
também miraram o segundo tiro em você
Ele falava com naturalidade do ocorrido, mas Ana sentiu uma apreensão ao
descobrir que aquela bala estava endereçada a ela. E falou um tanto triste:
— Então você teve...
— Aí eu me joguei na frente. Foi tão rápido que não tive tempo de endurecer a
pele por completo e acabou que ela entrou – e olhava mais no espelho sem dar muita
atenção ao sofrimento da garota. - Mas não foi nada grave. Pelo menos consegui
endurecer o suficiente para que ela não atravessasse meu corpo ou atingisse algum
órgão vital.
— Desculpe. - pediu encarando o chão, sentindo-se envergonhada.
— Não tem porque se sentir culpada – Ian se virou pra ela – Balas são fogo
mesmo. São rápidas demais para você esquivar com perfeição e potentes demais para se
absorver todo o dano.
— Mas se eu pudesse me virar você não teria que levar a bala por mim.
— Por favor, não fala merda. – comentou e Ana se assustou com a indelicadeza. -
Por enquanto, você é minha aprendiz e eu tenho responsabilidades sobre você. E além
do mais – completou – eu jamais me perdoaria se acontecesse algo com você.
Ana sorriu.
— Vou ter que tirá-la daqui. – comentou, voltando a atenção para o espelho.
— Como? – Ana se surpreendeu.
— A bala. Está dentro do meu corpo, mas não muito fundo. – e começou a tentar
enfiar o dedo na ferida.
Ana mordeu o lábio inferior e se virou rápido para não olhar.
— Ai! – ele gemeu e a garota tentou se virar e olhar o processo, mas quando viu a
linha de sangue sair o ferimento do garoto conforme ele tentava tirar a bala, desistiu.
Ela sabia que tinha que ter estômago forte nesse novo mundo que Ian lhe falou,
mas tudo tinha seu tempo.
— Ufa! Até que enfim. – ele falou.
Ana se virou agora e viu que ele segurava a bala nos dedos.
— Tá aqui a desgraçada – disse, erguendo o projétil.
Ana viu que a dor tinha o feito manifestar o fenótipo do clã. Os dedos que
seguravam a bala tinham garras e os olhos azuis estavam com um ar divertido, apesar da

334
dor, enquanto ele a encarava com um sorriso cheio de dentes afiados e quatro caninos
avantajados.
Outras transformações também aconteciam quando ele se transformava, como os
cabelos que ficavam um pouco mais ouriçados e os músculos mais realçados, sem
ganhar volume. E eram justamente esses músculos avantajados que ela olhava agora,
sentindo o rosto ficando vermelho pela semi-nudez dele. Era raro vê-lo sem camisa.
Além do peito nu, partes da calça também estavam rasgadas, mostrando alguns
pedaços de pele. Ian lembrava um modelo de campanhas de itens de aventura, naquele
estado tão selvagem. Ela decidiu puxar um assunto para ver se conseguia parar de olhá-
lo. Foi quando ele levou a mão até o ferimento de novo e Ana já se preparou para virar
novamente, quando viu a uma energia azul na palma de sua mão.
A curiosidade a fez continuar a olhar enquanto ele botava a mãos sobre o
ferimento e, depois de alguns segundos, o buraco sumira.
— Bem melhor – disse mexendo a coluna comprovando que o antigo ferimento
não o incomodava mais.
— Por que não faz isso com os outros arranhões? – sugeriu Ana ainda
maravilhada com a cura.
— Tenho que manter o álibi da queda no barranco. – ele disse, dando de ombros
– Melhor deixá-los se curar sozinhos.
— Deve ser complicado guardar esse tipo de segredo, não?
— Mais ou menos – disse Ian – só temos que ser assim com os adormecidos.
Geralmente nós nos isolamos da sociedade normal e vivemos com os nossos poucos
companheiros. Eu que sou uma aberração e tive de me isolar deles também. - completou
com um sorriso largo exibindo as presas para Ana.
— Não fale assim – Ana comentou irritada. Não gostava quando ele se
menosprezava.
Ele riu.
— Desculpe – e continuou para deixar essa passar – Além do mais, nós temos um
forte aliado para nos manter ocultos.
— Quem?
— Os Inquisidores.
Ana ficou em silêncio.

335
— Eu falei que eles nos querem mortos e por isso eles trabalham para que
estejamos de fato mortos para todos. – começou, sabendo que logo teria que responder
as dúvidas da garota - Eles têm muitas influências na polícia e na imprensa, e são
capazes de abafar a nossa existência em um piscar de olhos – e depois de dobrar a
camisa em cima do braço, continuou – Você ficaria surpresa em saber quantas notícias
ditas como acidentais ou tragédias naturais não foram na verdade manifestações nossas
encobertas.
— Hum...
— É. – concordou – Mas nem sempre é culpa nossa – tratou de se defender –
muitas desgraças acontecem porque esses caras insistem em nos caçar e nos obrigam a
tomar medidas drásticas.
— Entendo – concordou Ana – Como hoje.
— Como hoje – confirmou – Aposto que os mortos serão escondidos antes de
serem achados por qualquer autoridade da região e os tiros dados vão ser atribuídos a
algum caçador eventual. – e se voltou para o espelho para conferir que a ferida estava
totalmente fechada.
— Chega a ser assustador o controle deles – refletiu Ana.
— E é. Por isso que eu te disse, que não pense que tudo é beleza quando se
atravessa o Véu. Você tem que estar preparada para se defender.
— Eu sei. Vou aprender. - disse confiante. - Tenho um ótimo mestre. –
completou.
Por um segundo, Ian desviou os olhos para o chão, foi um gesto rápido, mas que
Ana captou no momento exato. Já tinha muita experiência em decifrar a linguagem
corporal de Ian e não gostou nada do que percebeu. Tinha certeza que os planos de fuga
ainda estavam vivos na cabeça do garoto, mas podia manter-se calma, por enquanto.
Afinal, Ian mesmo disse que não queria deixá-la sozinha, que tinha responsabilidades
para com ela. Enquanto ele não arranjasse um substituto, ela ficaria bem.
— É mesmo – disse com um sorriso forçado – Então vejamos seu progresso – e se
aproximou, levando o rosto pra perto dela. – Me bate.
— Como? – ela se assustou com o pedido.
— Me bate – repetiu como se aquilo fosse algo costumeiro – Quero ver como está
o seu controle de energia.
— Eu não posso bater em você.

336
— Claro que pode. – ele encorajou – É só me imaginar como uma pedra. Não se
preocupe. Você ainda não deve ter força para me matar com uma porrada. Vai! – e virou
o rosto de forma a facilitar o ângulo de seu golpe.
— Mas eu não posso – insistiu rindo – Você mesmo disse que eu tenho que ter
raiva para poder liberar minha energia e eu não sinto raiva de você.
— Bem lembrado, mas você sempre pode criar raiva dentro de si. Vamos imagine
– e a segurou pelos braços – Pensa que eu sou um tarado e quero te agarrar a força. O
que você faria? Só não bata lá – concertou rápido apontando com os olhos para as partes
baixas - Não sei se posso endurecer ali com eficiência.
Ana gargalhou. O olhar de Ian parecia o de uma criança travessa, divertindo-se
com a situação inventada. Mas então, já que era para dar asas a imaginação, Ana
resolveu arriscar também uma brincadeira.
— E se eu não quisesse oferecer resistência se você me agarrasse à força? – ela
atiçou.
— Não brinque com isso – apesar do sorriso, sua expressão ficou mais seria. Ele
largou os ombros da garota. – Tem gente que não sabe brincar – comentou e revirou os
olhos tentando mudar de assunto - Acho que temos de tomar banho. Estou com fome e
já tive situações demais para me policiar por hoje.
E saiu do quarto dela.
— Covarde - murmurou baixinho quando ele saiu e depois foi se lavar no
banheiro do quarto.
Depois do banho, eles desceram para comer. Ian, como sempre, comeu pelos dois
e isso garantiu a ele vários elogios de Emília.
Sílvio acabou comentando no meio da refeição.
— Ainda bem que vocês vieram logo. É melhor não andarem pela floresta mais
hoje.
— O que houve? – perguntou Ana, interessada.
— Parece que temos uns caçadores fora de época. – informou, tomando um gole
de suco - Nós ouvimos tiros vindos da floresta e a polícia está vasculhando as
redondezas.
— Acharam alguma coisa? - perguntou Ian.
— Nada ainda. Simplesmente sumiram. – respondeu Sílvio – Mas ainda acho
melhor não voltarem para a mata hoje.

337
Ian deu um olhar para Ana que queria dizer claramente: Não disse?
— Mas foram muito rápidos – disse Ana respondendo a Ian, mas se arrependendo
depois.
— Eu sei – concordou avô, obviamente não entendendo a real intenção do
comentário – Geralmente só temos caçadores no verão.
Ian lançou um olhar de alerta para Ana que respondeu com um desculpa, que não
saiu som.

338
43 – Paciência.

O local tinha as paredes rochosas como as de uma caverna e as únicas luzes que
ali havia eram as provenientes de uma série de tochas enfileiradas nas paredes, que
acabavam por contribuir para o ar fantasmagórico do ambiente. Ali, uma pessoa estava
aparentemente sozinha. Fitando o interior de um recipiente de barro que continha um
líquido rubro semelhante a sangue.
A bela jovem de longos cabelos prateados e pele branca parecia estar esperando
alguma coisa surgir. Com a expressão paciente, ela mexia no líquido rubro com a ponta
do dedo, parecendo acariciar-lhe como se faz com um animalzinho.
— Satine. – uma voz fraca e fria parecia vir do nada. – Como está o andamento
das coisas, minha filha?
— Se acalme, meu senhor – disse a mulher numa voz doce – Logo eles retornarão
de sua viagem e eu duvido que fiquem juntos após isso.
— Essa espera está me matando Satine. - murmurou a voz que vinha do
recipiente.
— Peço que tenha um pouco mais de paciência, meu amo. – seu olhar era de
profunda devoção para com aquele líquido falante – Não vai demorar muito e vamos
conseguir a garota. Assim que seu guardião a abandonar, ela estará vulnerável a nós.
Peço que tenha um pouco mais de paciência – tornou a pedir.
— Paciência eu tenho Satine. O problema é que eu sinto urgência nisso. Não sei
como, mas alguém sabe de nós, de nosso plano.
— Mas isso não é possível – continuou a mulher sem se abalar - Como alguém
poderia saber? Não envolvemos mais ninguém. – e deu um sorriso para o recipiente.
— Eu também não sei. - começou a explicar calmamente - Mas enquanto minha
alma foi trazida para esse mundo por seu encantamento, eu senti que minhas energias
estavam sendo percebidas por um mago. Um bispo, para ser mais exato. Um membro
dos Iluminados.
Satine torceu o nariz demonstrando nojo pelo nome.
— Não acho que esses padres possam nos impedir, meu senhor. - disse confiante
— Provavelmente não, mas tentaram.
Agora ela estava surpresa.
— Como?

339
— Percebi um membro perambulando pelo bairro. Um novato, mas ele acabou
seguindo uma pista falsa - e riu. Uma risada fraca, mas muito sincera.
— Então não há problemas. – a mulher sorriu de novo.
— Não, não há. Mas espero que quando aqueles padres malditos voltarem a nos
procurar, eu já esteja forte. Sabe que nossa posição é pouco favorável aqui.
— Eu juro lhe proteger com minha vida! – garantiu.
— Sim, eu sei que você é capaz disso, mas não quero lhe sacrificar em vão, minha
menina. Por isso não quero que você enfrente o Garow. Caius tentou e você viu o que
aconteceu.
Satine mostrou-se comovida com essas palavras.
— Ah, meu amo. O senhor é tão bom. Eu sei que não sou capaz de enfrentar
aquele garoto, mas eu prometo que com o meu plano aqueles dois vão se separar e aí o
caminho estará livre. Ana não terá para onde fugir.
— Ana... – ele parecia se deliciar com o nome – É uma pena não tê-la matado
enquanto pude. Um erro tolo, mas que não tinha como eu saber.
— O senhor não erra meu amo. O senhor a poupou quando ela era apenas uma
garotinha. É uma pena que ela acabou se tornando uma pedra no nosso caminho.
— Ela seria uma boa aquisição para o nosso time. – ele não parecia ter prestado
atenção ao ultimo comentário de Satine. – Sinto um forte potencial naquela menina.
Satine fechou a cara, tirando seu dedo do liquido. A voz riu novamente.
— Não fique assim minha Satine. Você é fiel a mim e isso é uma virtude que eu
sei reconhecer acima de tudo. Eu só estava comentando. Aquela garota jamais aceitaria
se juntar a nós. Não depois do que eu fiz. – sua voz não tinha culpa e sim parecia se
divertir com alguma lembrança.
— Aquelas duas não tiveram chance contra o senhor. Seu poder é impressionante
– Satine mostrava excitação.
— E é por isso que eu quero a garota. Preciso voltar a ter aquele poder.
— Ela será sua. Não dou mais que dois dias para que isso aconteça.
— Eu confio em você minha queria. Confio em você.

340
44 – Adeus Tias.

Quando finalmente acabaram de comer, Ian e Ana foram para o quarto e


decidiram arrumar logo sua bagagem para o dia seguinte. Infelizmente, a curta estada
em Três Corações já chegara ao fim e os acontecimentos marcantes do decorrer da visita
deram a sensação de uma passagem ainda mais rápida do tempo.
— Vamos deixar tudo pronto para amanhã – sugeriu Ian – Quero ir com você a
um lugar e depois podemos passar as últimas horas com seus avós.
— É verdade – concordou Ana – tivemos tanto o que fazer e tantas coisas
aconteceram. – E depois, se lembrando, perguntou – para onde vamos?
— Se esqueceu? Do que me pediu?
Ana ficou em silêncio. Tinha entendido o que faltavam fazer naquela viajem.
— Tenho que dizer adeus a elas - murmurou para Ian depois de um tempo.
— Essa vai ser a parte mais difícil – alertou.
— Mas minha viajem não estaria completa sem isso – acrescentou Ana.
— Vamos daqui a pouco - sugeriu Ian – Aí voltamos à noite e ficamos com seus
avós. Eles sentiram muito a sua falta e merecem isso.
Ana confirmou com a cabeça e juntos terminaram de arrumar a bagagem. Falaram
com Sílvio avisando da saída e prometeram voltar cedo. Mais uma vez o avô não os
impediu, apesar de não estar muito feliz com isso. Só os fez prometerem que não
andariam pela floresta e os liberou.
Agora, os dois caminhavam pela estradinha de terra que dava até a antiga casa de
Teresa e Samanta. Suas tias viviam ainda mais isoladas do centro de Três Corações,
preferindo assim para estar mais próximas a natureza. Ao chegar a um trecho do
caminho, Ana se lembrou do momento em que, naquele mesmo lugar, anos atrás, ouviu
pela primeira vez a voz trazida pelo vento. A mensagem de morte que tanto a assustou.
— Eu só não entendo uma coisa – apesar de estar fitando o horizonte, ela falava
com Ian – Por que ele não me matou naquela noite?
Ian ficou em silêncio.
- Digo – ela continuou – ele teve a chance. Eu, de certa forma, testemunhei o que
ele fez. Não penso como ele podia me permitir viver depois disso. Por que apenas elas?
— Aquele demônio tinha um alvo Ana. Eram suas tias e ele não considerou você
uma ameaça. Seja lá o que ele queria, tinha muita pressa em chegar até as duas.

341
— Mas ele parou para me assustar. Por que fez isso?
— Por prazer. O medo é um dos sentimentos que mais animam um demônio.
Causar dor, tormento, e outras frustrações, mexe com a excitação destes seres. Eles são
tão atormentados que só conseguem ser completamente felizes se conseguirem provocar
isso em outras pessoas.
Ana ficou em silêncio.
— Eles já tinham um alvo traçado naquela noite. – agora ela olhava para o garoto.
Não era uma pergunta. Ana sabia que sim.
— Sim – respondeu assim mesmo.
— Só queria saber por quê?
— Infelizmente, não acredito que vamos descobrir hoje. – e pensou bem antes de
continuar - Talvez não saibamos nunca.
A garota baixou a cabeça percebendo verdade nas palavras de Ian. E quando se
sentiu mais forte, levantou-a novamente e forçou um sorriso.
— Mas eu não estou aqui atrás de vingança. Não hoje: só quero me despedir.
— E é isso que vamos fazer – ele retribuiu o sorriso.
Ana segurou na mão do garoto e juntos caminharam sob o sol da tarde até a antiga
casa. Ana não tinha mais medo. Ela se lembrava ainda da voz, mas ela não lhe causava
mais pavor, pois sabia que aquilo foi apenas um truque. O mesmo truque usado por Ian,
mas não para assustá-la e sim para lhe fazer feliz.
— Sabe, durante muito tempo eu passei a ter medo do vento. Uma simples brisa
já me deixava nervosa e uma ventania me apavorava completamente. Demorei muito até
perder esse medo. Engraçado que quando eu o senti daquela vez em que...
Ana parou de andar de repente.
— O que houve? – Ian parou ao seu lado
As expressões de Ana mudaram rapidamente. Da surpresa, para a dúvida, da
dúvida para a raiva, da raiva para a satisfação. No fim, ela olhou para Ian com um
sorriso incrédulo.
— Foi você, não foi?
— Eu o que? - o garoto foi pego de surpresa.
— No dia do meu aniversário? Quando eu dei um flagra em Lucas?
Ian revirou os olhos. Culpado.
— Você me guiou até lá com o Mensageiro. – essa parte não era uma pergunta.

342
— Confesso que não me orgulho, – assumiu – mas meu ciúme e minha raiva por
ele me fizeram fazer isso. Eu queria tanto você naquele momento e ver que quem te
tinha não estava dando o devido valor, me fizeram cometer essa loucura. Eu devia
imaginar que você entraria em pânico ao escutar mais uma vez o Mensageiro.
— Mas eu não fiquei com medo – Ana o corrigiu.
— E isso foi o mais estranho – ele riu incrédulo – Não sei como você não saiu
correndo. Infelizmente eu só pensei nessa possibilidade depois de fazer. Que bom que
você não se assustou – ele voltou a encará-la – Mas por quê? Por que você não correu
naquele dia? Por que confiou em mim? Digo... em minha magia.
— Não sei – respondeu sinceramente – acho que no fundo eu sabia que as vozes
eram diferentes. A de quando eu era criança queria me destruir, mas a sua queria me
salvar. Não sei como, mas pude sentir a diferença.
— Mesmo assim isso não justifica o que eu fiz. Desculpe.
— Mas eu não te culpo. – acrescentou Ana rápida – você me ajudou, abriu meus
olhos. Ultimamente você tem feito muito isso – acrescentou, fazendo o garoto sorrir
sem graça.
Ana não queria mais constrangê-lo e resolveu continuar andando em silêncio. Ela
só queria confirmar uma coisa que já sabia e agora conseguiu. Estava feliz. Gostou de
saber que Ian sentia ciúmes dela. Isso a fazia se sentir bem, querida. Engraçado, refletiu
consigo mesmo. Ele leva um tiro por mim, mas saber que sente ciúmes me faz acreditar
mais no seu amor.
Continuaram a andar. Uma feliz demais com seus devaneios e outro constrangido
demais para puxarem algum assunto, quando finalmente chegaram ao que antes era a
confortável casa de Teresa e Samanta. O lugar havia sido deixado de lado. Ninguém
pareceu mostrar interesse pelo terreno e os escombros continuaram iguais há anos atrás,
com a única mudança é que o mato havia crescido bastante, mesclando a natureza
naquele cenário de destruição.
Ficaram ali, parados, contemplando a paisagem. Ana deixou a emoção inflar em
seu peito enquanto Ian aguardava que ela estivesse pronta para falar. Imagens do
passado vieram à tona, muitas de uma vez e demais para qualquer ser humano conseguir
assimilar.
Ana sentia como quando Ian havia lhe demonstrado O beijo. As lembranças
vinham rapidamente, permitindo a Ana não mais do que uma leve espiada naqueles

343
tempos tão felizes. Mesmo estando no local da morte, o dia do assassinato foi a única
lembrança não despertada. Havia pouco tempo para ficar ali e ela não queria perder
tempo com uma memória que já ocupou tanto tempo em sua vida.
— Eu vivi muitos bons momentos aqui - murmurou para Ian.
— Sei que sim. Por isso queria tanto que você viesse aqui.
— Engraçado – ela comentou – Tantas lembranças e nenhuma referente aquela
noite.
— Que bom! - exclamou o garoto – Não é bom guardar coisas tristes.
— Mas é difícil se lembrar de coisas positivas quando sentimos saudades. – ela se
perguntou se ele entenderia o duplo sentido de sua frase.
— Eu sei, mas se prender a coisas ruins não ajuda. Tudo termina um dia, todos se
vão. Tentar lembrar as coisas boas não trás ninguém de volta, mas ajuda a aliviar a
tristeza. – ele tinha entendido e estava rebatendo.
Ana desistiu de discutir. Ela tentava fazer uma ligação da despedida de suas tias
com a que Ian queria forçá-la afazer, mas o garoto rebatia muito bem. Então, ela entrou
nos escombros. O fogo realmente havia devorado tudo e Ana não conseguia reconhecer
muito pouco do que fora antes. A única coisa que a fazia reconstruir aquele local como
a casa de suas tias, era suas lembranças.
As brincadeiras, as histórias, o carinho que recebia.
Ian estava logo atrás dela adentrando os diferentes cômodos da velha casa. Não
havia mais paredes então ela conseguia ver por onde ele andava. E perguntou-se se ele
tentava encontrar pistas sobre o assassino, mas não conseguia imaginar que tipo de
pistas aquilo deixaria.
Aqui foi o lugar onde tudo mudou. Nesse lugar, uma garota cheia de sonhos e
fantasias se tornou uma adolescente descrente e solitária. Foi aqui que minha vida deu
uma guinada para trás. Foi aqui que começou o processo de transformação, onde eu
tive que passar depois por inúmeros especialistas, a fim de me curar.
Mas também... lembrou-se. Foi aqui que marcou o inicio de uma história nova.
Uma história que me levaria de encontro à... ele.
Ian voltou pra junto da garota e se surpreendeu ao ver que ela o fitava.
— O que foi? – perguntou meio sem jeito.
— Nada. – disse emocionada – Só estou pensando.
— Posso saber em que?

344
— Claro – ela deu de ombros – Estava pensando em como nossos caminhos se
cruzaram. – e ergueu os braços para o local – começou aqui.
Ele ficou um tempo calado até finalmente entender.
— É verdade. - disse enfim - Esse ser realmente deu uma guinada em nossas
vidas.
— E o que você diz dessa guinada?
— Como assim?
— Foi positiva ou negativa?
— Pra mim ou pra você?
— Para nós.
— Bem, - ele revirou os olhos à procura da resposta – Não consigo dizer que foi
negativa. Embora quisesse.
— E por que você acha que deveria dizer que foi negativa?
— É só olhar para os fatos. - disse - Se isso não tivesse acontecido você não
perderia suas tias, não teria de passar por todo um tratamento que te deixaria arrasada.
Você provavelmente seria uma maga feita a essa altura e com certeza sua vida seria
melhor.
Ana tinha que concordar com o que ele disse. Muita coisa ruim aconteceu, mas
gostava de pensar que também lhe aconteceram coisas boas. O garoto à sua frente era
uma delas. Resolveu não entrar nesse assunto ainda.
— E quanto a você? – ela perguntou.
— Bem, - disse hesitante - Você acabou adiando todos os meus planos de vida.
Você me fez amar de novo, você me fez sentir querido de novo. Mas acima de tudo,
você me fez querer viver de novo.
Ana estranhou o tom de voz dele.
— Você fala com uma conotação negativa.
— É que no meu caso é. Morrer seria a coisa mais decente que eu poderia fazer,
mas você me impediu.
— Talvez porque não seja a sua vez de partir.
— Minha vez de partir foi há trezentos anos. - ele lembrou - Mas eu burlei as
regras e permiti que muito sangue inocente fosse derramado. - e suspirou, parecendo
cansado de ter de explicar a mesma coisa - Não mereço viver, Ana. E só você não
consegue enxergar isso.

345
— Eu ainda digo que não era a sua hora. - insistiu mordendo o lábio inferior.
Odiava quando ele falava assim - Talvez todas essas suas vidas, só o estivessem lhe
preparando para essa – ela se surpreendeu com a sabedoria que parecia sair da sua voz –
Talvez você não pudesse morrer sem viver como Ian. Sem descobrir que não é um
monstro.
— Mas eu sou um monstro – e argumentou – Tenho um currículo extenso que
mostra todos os que eu já matei para provar.
— E tem outro que mostra quantos você já salvou. – contra-argumentou.
— Eu não entendo – ele começava a se exaltar – Todos me vêem como um
animal. Todas as pessoas a quem conheci viram o monstro em mim, mas você se recusa
a enxergar. Por quê?
— Porque não há monstro para enxergar. Porque a verdade não é que eu não
enxergue e sim que eu enxergo melhor que os outros. Eu consigo ver melhor que os
outros. Eu te conheço
Ian ficou em silêncio e Ana se odiou por dentro. Não era isso que ela queria dizer.
Essa era a chance perfeita para falar o que estava há muito tempo engasgado. O que ela
deveria ter dito a noites atrás quando ele declarara seu amor por ela, o que ela deveria
ter dito na manhã de hoje quando ele perdeu por um segundo todo o controle disse as
palavras eu te amo sopradas ao vento.
Porque eu te amo, era isso que ela devia ter dito, mas a sua covardia não permitiu.
— Eu não entendo – ele repetiu balançando a cabeça.
Ficaram em silêncio mais um tempo. Uma eternidade em um segundo.
— Quer fazer mais alguma coisa? – ele falou enfim, com os olhos no chão,
desistindo do assunto e Ana percebeu mais uma vez que deixara a oportunidade escapar.
— Só uma – e saiu da casa.
Depois, voltou e deixou um buquê improvisado no chão, dizendo um último
adeus. Eles saíram de volta à casa do avô. O sol ia se despedindo no horizonte, deixando
um céu laranja que aos poucos ia escurecendo. Seguiram seu caminho em silêncio,
assim como na ida. Um silêncio constrangedor, que fez Ana ficar se perguntando se Ian
sabia o que ela queria ter dito há horas atrás.
Ele saberia que ela o amava? Não. Ela havia destruído essa crença quando disse
que o beijo que havia lhe dado fora apenas fruto de carência. Na época, ela acreditava
nisso, mas agora sabia que não era verdade. O que ela tinha era medo de dizer eu te amo

346
pra ele. O que aconteceria quando finalmente contasse? Quando finalmente declarasse
seu amor?
Ana sentia a Roleta Russa girar sempre que refletia sobre essa decisão, pois, assim
como poderia significar o ato libertador que faria Ian definitivamente desistir de ir
embora, poderia ser o catalisador de sua fuga. Tinha medo de já saber a resposta. Ela
conhecia o medo que Ian tinha dela se apaixonar por ele. E por isso que tentava fazer o
máximo para que ela ficasse bem em sua ausência. Para que ela não sentisse a sua falta,
mas já era tarde. Tarde demais.
Ana se assustou quando percebeu que já tinham feito todo o trajeto da casa de
suas tias até a casa de seus avós. Tinha se esquecido como as duas eram próximas.
Quando viu seu avô na sala, Ana se lembrou que ainda faltava aproveitar isso em sua
viajem. Na manhã seguinte voltaria ao Rio de Janeiro e tinha que dar ao seu avô e a ela
mesma esses momentos juntos.

347
45 – O caçador de magos.

Rauch socava a mesa, esbravejando palavrões.


— Que inferno! Como falharam?
Apesar de toda a fúria do homem e do fato de ele estar naquele momento socando
a sua mesa, Cris não se demonstrou intimidado. Ele continuava calmamente mexendo
em seu computador.
— Pelo que me informaram senhor, havia outro mago no local.
— E por que não o abateram também? Não são treinados para isso?
— Sim, mas eles não haviam levado equipamento para enfrentar um mago
daquele tipo. Pelas poucas mensagens que me enviaram aquele parecia ser um guerreiro
e tanto. - continuou com seu tom de voz profissional.
— Inferno! – Rauch começava a tentar manter a calma – Não fazia a menor idéia
de que ainda havia desses em Três Corações. Pra mim aquele lugar estava livre dessa
peste.
— Todos pensavam assim, senhor - respondeu Cris.
— Droga! – Apesar de ainda gritar, começava a se sentir mais calmo – Então eu
devo presumir que esse garoto em breve estará aqui no Rio, não é?
— Quanto a isso eu já não tenho certeza – ele abriu uma tela no computador
enquanto falava – Estava olhando as últimas transações dele e vi que esse Ângelo usou
seu cartão de crédito para comprar uma passagem de ônibus, mas não para o Rio de
Janeiro. - completou - Ele está indo para São Paulo.
— São Paulo? Mas o que diabos ele estaria fazendo em São Paulo?
— Não sei senhor. Pode ser um truque para nos distrair, agora que sabe que está
sendo caçado. – sugeriu Cris.
— Talvez. Ou... – ele começou a refletir.
— O que?
— Talvez ele deva estar recrutando mais gente. Mais gente da laia dele.
— Como assim? - Cris parecia sinceramente intrigado.
— Com o contato que tive com os administradores daquela paróquia no centro,
soube que esses tais Iluminados possuem algumas cedes em São Paulo.
— Entendo. - refletiu Cris - Mando pessoas interceptá-lo?

348
— Claro. – concordou Rauch – Apesar dele jamais conseguir chegar aqui a tempo,
não quero que alerte os demais da laia dele. Até porque pretendo terminar meu trabalho
com o Frade e o bispo e amanhã mesmo devo tê-los eliminado. Depois partirei para
caçar os demais membros da Ordem.
— Entendo – o garoto voltou-se para seu computador. - desta vez não vou medir
esforços.
— Excelente – felicitou - Vou me preparar para o interrogatório de amanhã. Mais
algumas informações e tanto o bispo quanto o frade serão dispensáveis.
Rauch se dirigiu à porta de saída quando a voz de Cris o fez parar.
— Posso lhe fazer uma pergunta, senhor? Pessoal?
Rauch não entendeu. Não se lembrava de Cris interessado na vida das pessoas.
Geralmente seu relacionamento com os demais colegas de trabalho não atravessava a
barreira do profissional.
Como não recebeu respostas, Cris perguntou mesmo assim.
— Sabe, - disse se virando pela primeira vez para encarar o homem - todos nós
aqui fazemos esse trabalho porque acreditamos que estamos fazendo um bem a todos
nos livrando desses magos. Mas o senhor é diferente. Sei que não é da minha conta, mas
acho que aconteceu alguma coisa com o senhor que o fez odiar tanto eles. Da para ver
isso pela maneira como você fala. Estou certo?
— Você tem razão – falou o homem – não é da sua conta. – e saiu.

Andando pelos corredores, Rauch não conseguiu conter a raiva que sentia da
abordagem de Cris. De fato o garoto havia acertado na mosca e Rauch sentia seus
pensamentos lhe fazendo voltar no tempo. Numa época em que ele morava com a
família em Niterói. Numa época quando ainda era conhecido como Rafael e não como
Rauch, nome que adotou quando entrou para os Inquisidores.
Naquela época, ele podia se considerar uma criança feliz. Tinha dinheiro, pais que
o amavam, amigos. Nada lhe faltava até que tudo lhe foi tirado. Rauch ainda se
lembrava perfeitamente do dia em que estava dormindo tranqüilamente em casa quando
ouviu o som de um grito. A voz lhe causou um profundo terror quando reconheceu ser
de sua mãe.
Se lançando para o chão e correndo o máximo que pôde, conseguiu abrir a porta
do quarto de seus pais a tempo de ver a cena que mudaria a sua vida.

349
Além de seu pai e sua mãe, havia uma terceira pessoa no quarto. Alguém que
Rafael nunca tinha visto na vida. O homem era alto e magro. Seus cabelos eram mal
cuidados e suas roupas pareciam esfarrapadas, mas o que mais assustou Rafael não foi a
sua aparência e sim o que ele estava fazendo.
Inclinado próximo de sua mãe, ele segurava uma garrafa próxima de seu pescoço
onde uma fina linha rubra caia de uma fenda feita na jugular da mulher, até o interior do
vidro. Ele se lembra de que ficou paralisado por intermináveis segundos. Nesse tempo,
o homem percebeu que tinha um espectador, mas isso não o impediu de continuar seu
ato. Parecia apenas que ganhava mais um incentivo para continuar.
Lentamente, o sangue enchia o recipiente. Rafael olhou para o lado da mãe se
perguntando por que seu pai não fazia nada, quando notou que ele também tinha um
corte no pescoço. Sua pele estava pálida e ele tinha os olhos esbugalhados na direção do
garoto.
Quando finalmente conseguiu sair da inércia, Rauch disparou contra o agressor e
lhe distribuiu uma serie de socos, que em nada afetaram o homem. Apesar de sua
aparência frágil, ele se mostrava bastante resistente a surra e com um simples bofetão, o
garoto foi lançado contra a parede e ali caiu inconsciente.
Quando acordou, pensou que tudo não passava de um sonho, mas ao abrir os
olhos e se ver na cama de um hospital com alguma coisa imobilizando seu pescoço, a
dura realidade bateu nele como um soco no estômago. Deu seu depoimento aos policiais
que vieram lhe visitar e eles atribuíram a culpa a um maníaco qualquer. Desde aquele
dia, mesmo tendo apenas treze anos, um desejo mortal de vingança brotou no seu peito
como uma semente cruel. Um desejo que cresceria dentro dele e criaria raízes em seu
peito pelos próximos doze anos que se seguiriam até chegar à vida adulta.
Naquele dia, Rafael já sabia o que queria ser quando crescer. Seria detetive.
Alguém que caçaria maníacos, como o que matou seus pais. Ele se vingaria colocando
não só o assassino de sua mãe, mas todos os maníacos na cadeia. Depois de duas
semanas, quando recebeu alta do hospital, ele foi levado a um orfanato.
Seus bens seriam congelados até que completasse a maioridade e como não tinha
outros parentes – seus pais nunca falaram deles – teria de passar o resto da sua
juventude ao lado de outras crianças sem lar. No orfanato onde esteve, não pôde dizer
que teve vida. Ele estudava muito e fazia exercícios físicos diários, almejando um dia

350
ser policial, mas não conseguia fazer amizades. Isso se devia mais por culpa dele
mesmo do que pelos outros.
Rafael não conseguia se enturmar, principalmente quando alguém tentava puxar
assunto sobre seus pais. Ele era muito irritadiço e sempre arrumava briga. Com o tempo,
os outros garotos aprenderam a respeitá-lo assim como a temê-lo.
E foi quando completou quinze anos, que finalmente recebeu uma visita que
marcaria a segunda mudança em sua vida. Ele estava em seu dormitório, lendo um
exemplar de A Arte da Guerra que lhe fora emprestado por um dos professores, quando
uma das responsáveis pela arrumação lhe chamou, avisando que tinha uma visita
importante a receber.
Sem entender quem ia querer lhe visitar depois de tantos anos, Rafael foi curioso
até a sala de visitas. Chegando ali, encontrou apenas um senhor bem vestido,
aparentando ter mais ou menos uns cinqüenta anos de idade, que lhe aguardava. O
homem usava um terno azul marinho e tinha os cabelos e a barba rala muito brancos.
Sua pele era morena e seus olhos cinza. Tinha um porte atlético, mostrando que mesmo
depois da velhice, não abandonara os exercícios.
Rafael ficou parado olhando curioso para seu visitante inesperado.
— Você deve ser o Rafael. – disse o homem com um sorriso – Por que não se
senta ao meu lado? – ele dava tapas no lugar vago no sofá onde estava – Tenho uns
assuntos a tratar com você que acredito serem de seu interesse.
Sem falar nada, o garoto se aproximou, mantendo certa distância ao se sentar. Seu
olhar ainda mostrava muita desconfiança.
— Pelo visto você não está muito interessado em bater papo e deve estar se
perguntando o que trouxe um velho como eu até aqui.
Rafael se limitou a balançar a cabeça confirmando.
— Bem, então vou direto ao assunto. Meu nome e Evandro Martins e eu comando
um internato especial para jovens e gostaria que você fizesse parte de nossas fileiras de
aprendizagem.
Rafael continuou em silêncio.
— Nós recrutamos jovens com certos... potenciais para receber ensino gratuito em
nossas instalações e você foi selecionado Rafael. Você deve estar perguntando o que
nos chamou a atenção para você – disse rapidamente ao ver a boca do garoto
começando a se abrir – Pois eu digo que não estamos atrás de você por causa de seu

351
comportamento, que não é dos melhores, nem por suas notas, apesar de serem muito
boas. – deu um suspiro antes de continuar. – O que nos chama a atenção é a sua
motivação meu jovem.
Ele não entendeu e Evandro continuou:
— Sabemos sobre seus pais. – disse simplesmente.
A expressão de Rafael passou da dúvida para a raiva. Já ia fazer menção de se
levantar e sair quando o homem falou:
— E se eu disser que lhe daremos a chance de se vingar? - incitou - Se falarmos
que sabemos quem foram e quem são as pessoas capazes de tamanha monstruosidade e
lhe dermos condições de combatê-las?
Agora o garoto tinha toda a sua atenção para o homem.
— Eu sei o que você pensa Rafael. Que a morte de seus pais foi fruto de um mero
psicopata. Mas eu digo que não. - completou – Infelizmente, se tornar policial não vai
ajudá-lo a combater o tipo de gente que fez aquilo com seus pais.
— Como o senhor sabe? – era a primeira vez que ele falava e a dureza em sua voz
espantou o homem.
— Sei, porque essa é minha especialidade – respondeu, mantendo o tom casual. –
Sei porque passo minha vida caçando gente como essa. Sei porque, como você, pessoas
assim me tiraram coisas, coisas importantes.
Evandro parecia ter se emocionado um pouco, mas se recompôs num segundo
para continuar:
— Minha escola especial é responsável pelo treinamento de pessoas que assim
como nós, estão assustados com essa ameaça que nos ronda e que querem fazer algo a
respeito.
— Mas que tipo de ameaça é essa que você está falando? Até agora você não me
disse o que matou meus pais.
O homem deu um pigarro, provavelmente desaprovando o tom autoritário de
Rafael, e depois lhe respondeu:
— Se eu lhe dissesse agora, não acreditaria em mim. Não iria lhe culpar, afinal,
você não teve nenhuma experiência muito fantástica com o assassino. – e pensou um
pouco – Entenda apenas que existem pessoas ligadas a uma espécie de... seita. Uma
grande seita. Imagine o assassino de seus pais assim.

352
Era fácil para ele imaginar isso, era a teoria da policia também ao julgar o
assassinato ser um tanto ritualístico.
— Isso eu já imaginava. - respondeu.
— Mas o que você não imaginava era que esse cara não é um mero doido varrido
e sim um membro de algo muito maior, organizado e perigoso.
Rafael ficou em silêncio.
— Bem, eu não posso te provar nada aqui, mas estou-lhe convidando para vir à
nossa escola. Já falei com sua diretora e ela autorizou uma visita. Se você não gostar,
não precisa aceitar, embora eu acredite que não desperdiçará essa oportunidade. Eu já
recrutei outros garotos como você e todos garantiram para si um excelente futuro,
pergunte a sua diretora. O que me diz?
Rafael não tinha muito que pensar.
— Acho que uma visita não será ruim.
— Assim se fala! – o homem lhe deu uma tapinha no ombro. – Vamos!
E saíram do orfanato e foram de carro para um prédio no Centro de Niterói.

— Aqui é a escola? – Perguntou, vendo o prédio que parecia um edifício


comercial.
— Não – riu-se o homem – Estou aqui apenas para lhe mostrar sobre o que lhe
falei. Mostrar-lhe os assassinos de pessoas como os seus pais.
Entrando, Rafael se sentiu numa empresa das que aparecem em filmes. O
mármore branco predominava se contrapondo aos moveis cinzas e as aparelhagens
modernas que enchiam o lugar.
Ali havia um balcão onde uma recepcionista cumprimentou Evandro e eles
seguiram até o elevador. Enfiando uma chave num buraco logo abaixo do painel com os
andares, Rafael sentiu o elevador descendo muitos andares antes que as portas se
abrissem, mostrando um enorme corredor que deixava o do andar superior no chinelo.
Várias portas se passaram enquanto Rafael e Evandro passavam. Em algumas
partes da parede havia janelas de uns seis metros de largura e Rafael se permitiu dar
uma espiada. Ali, ele viu um laboratório numa sala e em outra uma espécie de sala de
tiro ao alvo, onde homens vestidos com uma roupa preta da cabeça aos pés brincavam
com uma espécie de óculos na cabeça.

353
Rafael percebeu que estava ficando pra trás e acelerou o passo para alcançar o
homem, que apesar da idade, andava bem rápido. No fim do corredor havia uma porta
por onde eles entraram. Ali, uma sala espaçosa com um grande computador deixou o
garoto de queixo caído, e um homem de jaleco branco que se mantinha sentado,
levantou-se para recebê-los com um sorriso.
— Então esse é o recruta? – saudou, olhando para Rafael
— Se Deus quiser, sim – riu-se Evandro. E depois se virou para Rafael – Esse é
Miranda e ele vai lhe explicar melhor sobre o que conversamos.
Antes que o garoto pudesse falar algo, o homem já tinha se sentado na frente do
computador, ignorando seu cumprimento. A mão do garoto ficou estendida à toa e ele a
recolheu de volta.
— Bem Rafael – começou, clicando numa tecla – Você deve reconhecer essa
cena.
Na tela gigante, mostrou-se uma imagem que causou um frio na espinha do
garoto. Nela, um homem adulto, diferente do que ele vira há dois anos, segurava o
pescoço de uma criança enquanto sangue vertia de um corte em seu pescoço.
— Lembro sim – disse, trincando os dentes.
— Então, como você vê, o sujeito está praticando uma espécie de ritual com o
sangue dessa criança, que ele vai usar depois, sabe-se lá pra que. Provavelmente num
encantamento mágico.
— Esse homem é diferente do que atacou meus pais – falou Rafael.
— Sim, mas não pense que eles são os únicos. - respondeu Miranda - Junto com
eles existem vários. Uma centena ainda, eu diria.
Rafael ficou surpreso. Não imaginava que houvesse tantos malucos que matassem
suas vítimas para roubar-lhes o sangue.
— Então está me dizendo que esse cara faz parte de uma espécie de seita que
acredita ser capaz de realizar magia com o sangue das pessoas? - perguntou incrédulo.
— Infelizmente não só acham Rafael, – corrigiu Miranda – eles são realmente
capazes disso.
O garoto deu uma risada de escárnio, mas quando olhou a expressão seria dos
homens, calou-se.
— Isso não é possível – falou, acreditando que estavam brincando com ele.

354
— Infelizmente é. – corrigiu Miranda – Felizmente, poucos sabem disso. Se todos
soubessem seria um caos, mas você, assim como nós, foi escolhido para combater gente
assim – e ao olhar o rosto cético do garoto, ele concluiu – Mas não precisa acreditar em
mim agora. Deixe-me lhe mostrar mais umas coisinhas
As próximas passagens foram um estupro à objetividade do garoto. Várias cenas,
algumas até em vídeos, mostravam pessoas capazes de fazer as mais incríveis coisas:
voar, lançar fogo, conjurar objetos, entre outras coisas. As imagens eram perfeitas
demais. Difícil crer existir alguém com tamanho talento para criá-las em computador.
— Como você pode ver, – narrou Miranda – existem pessoas em nosso planeta
capazes das coisas mais fantásticas. Com certeza algumas coisas parecem bonitas na
primeira olhada, mas não se engane. Elas são terríveis. Elas criam o caos, elas são
egoístas e atrás de seu poder está o sacrifício de inocentes. Inocentes como seus pais.
Os dentes de Rafael trincaram mais uma vez.
— É isso que combatemos Rafael. Pessoas assim – agora a imagem mostrava os
atos mais terríveis praticados por magos. Pessoas sendo queimadas vivas, outras
sofrendo lavagem cerebral. E algumas, como os pais dele, perdendo seu sangue em
nome de rituais. Essas ganharam um espaço especial de tempo na tela. - Esses são
Magos, garoto. Eles são aberrações que vão contra as leis da natureza.
Com o tempo, Rafael foi perdendo o ceticismo. Logo ficou espantado com tudo
aquilo. Quando saiu dali, já tinha a decisão tomada. E uma semana depois foi enviado
para Brasília onde ficava academia. Diferente do orfanato, ali ele fez muitas amizades.
Os outros internos eram como ele, pessoas que foram brutalmente lesados por aqueles
seres.
Rapidamente ele foi ganhando destaque dentro da Sociedade e quando completou
dezoito anos, foi chamado para servir em missões. Ali, também se destacou e acabou se
tornando líder de tropas com apenas vinte e dois anos. E depois, comandante de unidade
aos vinte e nove e chegou agora à líder de base aos trinta e um.
Ele ainda se lembra do feliz dia em que capturaram o assassino de seus pais. Ele
havia ganhado o presente de poder ficar sozinho com o monstro numa sala de
interrogatório. Ali, não se é necessário narrar os acontecimentos. Ele ainda se lembra do
homem pedindo perdão pelos seus crimes, chegando ao absurdo de alegar que estava
possuído por um demônio na noite do assassinato

355
— Demônios – bradou Rauch com sarcasmo, voltando à realidade - Todos alegam
isso.
Para os magos existe uma barreira que os separam, onde se dividem os magos do
bem, preocupados apenas em manter suas tradições e os do mal, que são sedentos de
poder e compactuam com demônios a fim de alcançá-los.
Para Rauch todos eram aberrações e deveriam ser dizimados. Estava fazendo isso
naquele momento. Com as informações conseguidas pelo bispo e pelo frade da Igreja da
Iluminação, acharia toda uma rede de membros da Ordem dos Iluminados. Mal podia
esperar para completar a missão.

356
46 – Última noite.

Faltavam cerca de dez horas para que Oscar viesse buscar os dois. Eram nove da
noite e Ana decidiu passar seus últimos momentos em Três Corações com os seus avós.
Durante um tempo, ela ajudou a avó a tomar banho e se arrumar e, depois, jantaram
juntos. No fim, passou o resto da noite na sala com o avô vendo televisão.
Infelizmente, aquela viagem tinha durado bem pouco, mas o que confortava Ana
era saber que era a primeira de muitas outras. Não agüentaria mais ficar muito tempo
longe dali. Ainda mais agora que sabia sobre as fadas. Poder cuidar de uma coisa que
suas tias se dedicaram tanto lhe faria um bem enorme.
O avô se recostava em sua poltrona enquanto Ana e Ian estavam sentados no chão
com as costas encostadas no sofá da sala. A garota ia passando os canais à procura de
algo interessante, quando passou por uma notícia dizendo que mais dois jovens haviam
desaparecido misteriosamente. A notícia fez brotar o nervosismo em Ana ao se lembrar
do plano de Ian para fugir. Nem um dos dois comentou nada sobre a reportagem. Foi
Sílvio quem o fez.
— Esse Rio de Janeiro está muito perigoso – ele disse com desaprovação. Ana
sabia que a violência foi o motivo para Sílvio nunca ter se mudado para perto da filha e
o que o faz evitar visitas a neta. O avô morre de medo de assalto. – Por que vocês não
vêm morar aqui por uns tempos? Até essa onda parar.
— Eu adoraria vovô, mas estou no meio do ano na escola e meus pais não podem
largar o emprego.
— Mas eu ficaria bem mais tranqüilo se vocês estivessem longe desse caos.
— Eu sei que sim - concordou Ana com um sorriso - Por isso eu te amo.
O rosto de Sílvio começou a corar e ele tentou mudar de assunto para evitar que
os outros percebessem.
— O que está passando de bom aí?
Ana continuou viajando pelos canais até que parou em um filme que parecia ser
interessante e acabou optando por ele mesmo. Era um filme de suspense chamado A
visita, que narrava uma história de assassinato de uma jovem no Brooklin após ter
recebido uma visita misteriosa e a tentativa de um amigo de conseguir solucionar o
caso.
O filme foi ficando interessante até que seu avô se levantou.

357
— Bem jovens, já são onze e isso já é demais pra mim. Não se esqueçam que
amanhã seu pai vem buscar vocês cedo, Ana.
— Tudo bem – garantiu Ana – Só vamos esperar acabar o filme.
— Mas acho que o garoto não vai agüentar muito não. – comentou, olhando para
Ian.
Ian riu.
— Mas tenho – respondeu – Quero saber quem é o assassino.
Ana olhou para ele e viu que o avô estava certo. A cara de Ian mostrava que ele
estava realmente com muito sono.
Quando o avô saiu, ela comentou:
— Você está mesmo cansado, não?
O garoto deu um sorriso fraco e respondeu:
— Gastei muita energia hoje. Primeiro contra o Iluminado e depois contra os
Inquisidores. Estou um pouco esgotado.
— Por que não vai dormir então?
— Porque quero ter certeza que Sophie é a assassina.
Ana olhou para o filme e depois para Ian.
— Você acha que foi ela? - sua voz mostrava descrença – Mas ela está ajudando
tanto o Peter a encontrar o assassino. E ela também não tem um motivo real para ter
feito aquilo.
— É isso mesmo. Ela ajuda demais – e bocejou – Provavelmente o que ela esta
tentando mesmo é fazer o Peter seguir por um caminho errado e se safar.
— Mas e que motivo ela teria pra matar a amiga?
— Não sei. Isso vai se revelar no fim do filme. - garantiu
Ana continuou sem levar fé. Pra ela o assassino era Brent. Ela era o ex-namorado
e apesar de parecer bom moço ela sentia que ele ainda tinha ciúmes da vitima. Ficaram
acompanhando o filme por mais um tempo em total atenção, e foi quando Ana pensou
em comentar com Ian uma cena, que sentiu a cabeça dele caindo em seu ombro.
Por um segundo ela estremeceu com o contato, então percebeu que ele tinha os
olhos fechados.
— Ian? - uma respiração pesada foi o que ela ganhou em resposta. Ele estava
dormindo pesadamente em seu ombro. Ana sorriu para ele quando percebeu que e a sua
cabeça escorregava perigosamente até o chão.

358
Rapidamente, ela a segurou com delicadeza a o apoiou em suas pernas onde ele se
ajeitou sem acordar.
A garota ficou fazendo cafuné em sua cabeça enquanto acompanhava o filme, mas
sua atenção agora estava dividida entre o que se passava na TV e expressões tranqüilas
do garoto dormindo. E foi quando chegou à conclusão de que gostava mais de Ian
assim, adormecido, pois além de parecer mais relaxado, tinha outro ponto a favor.
Pelo menos dormindo ele não foge de mim. Se estivesse acordado, Ana tinha a
certeza que o garoto teria se levantado com o carinho que ela fazia e se afastado.
Recordou-se do sitio, quando dormiu agarrada a ele. Ela sabia que se ele tivesse
acordado naquele momento, teria a empurrado e fugido dela. Pelo menos no meio dos
sonhos ele era menos precavido.
O garoto se mexeu um pouco, ajeitando a sua posição e agarrando com força a
coxa de Ana. Com certeza ele jamais faria isso acordado. Pensou, se divertindo com a
idéia. Ela começou a acariciar o rosto dele e depois passou a mão no braço onde sentiu
as cicatrizes da batalha contra o Iluminado. Lembrando-se da luta, foi quando começou
a sentir vergonha de si mesma, por sua participação precária no acontecimento: ficar o
tempo todo escondida atrás de alguma proteção, tampando os ouvidos.
Ana ainda não se acostumara totalmente com esse novo mundo. A mesma
sensação de exclusão que sentia antes de atravessar o Véu permanecia com ela só que
de forma diferente. Antes, ela se sentia excluída por ser diferente, agora por se sentir
inútil. Inútil, ela pensou melhor na palavra. Mas era assim realmente que se sentia.
Nos dois momentos em que suas vidas corriam perigo, ela só fez ficar escondida
atrás das árvores. Mais uma vez se lembrou de Catarina, a primeira mulher que Ian
amou e se perguntava como ele podia gostar dela depois de conhecer aquela maga tão
poderosa e independente. Com certeza se fosse ela quem estivesse com Ian na floresta, a
luta teria sido mais fácil. Eles poderiam ter lutado juntos, e vencido com mais facilidade
e sem cicatrizes.
Com certeza ela não estava aos pés de Catarina e isso a martirizava. Era mais
como uma criança irritante, que sempre tinha de ser fiscalizada e protegida enquanto
torrava a paciência dos adultos com suas perguntas idiotas. Infelizmente, sentia que
nunca tinha nada a oferecer em troca.
Era sempre ele: ele a ajudava, ele a protegia, ele a ensinava. Onde estava o
retorno?

359
— Eu só queria ser um pouco mais útil para você – ela sussurrava para o garoto
adormecido – Poder estar ao seu lado sem você precisar me proteger de tudo, sem que
você precisasse me proteger de você mesmo. - ela falava enquanto acariciava o rosto do
garoto.
Ana suspirou, sentindo o peito ficando apertado.
— Eu queria poder fazer alguma coisa por você. Te dar algo do que você está me
dando. Retribuir de alguma forma. Eu... - ela criou coragem para terminar a frase – Eu
te amo tanto.
Mesmo com ele dormindo era difícil falar. Ainda tinha medo que ele pudesse estar
escutando alguma coisa.
— Eu tenho tanto medo de que você saiba disso e fuja de mim. Eu sei que você
não quer que eu goste de você, mas eu não escolhi isso. Desculpe. - falava com mais
ênfase sem aumentar o tom de voz - Eu só... queria que você olhasse para mim e não me
visse tão frágil quanto sou. Que você não me visse fraca e incapaz de ficar ao seu lado.
Não quero que você pense que tem que me proteger de tudo. Queria que você me visse
como uma igual, se possível.
Ela sentiu a emoção começar a se manifestar. Era bom poder botar aquilo pra fora,
mesmo com ele adormecido. Com os sentimentos aflorados, ela acabou colocando
muita força em uma carícia, fazendo o garoto se mexer com o toque. Por um segundo,
ficou nervosa com a possibilidade de tê-lo acordado, mas no fim, ele só se mexeu um
pouco coçando a região atingida como se fosse uma mosca que tivesse pousado nele.
Segundos depois, sua respiração voltou a ficar pesada.
— Para quem tem uma ligação com os cães, você tem o sono bem pesado – riu-se
sentindo o aperto diminuir.
Então, depois de já ter dito tudo o que queria, resolveu aproveitar o momento que
lhe restava. Aquela era a última noite que passaria em Três Corações e provavelmente a
última que passaria tão junto de Ian. Quando voltassem ao Rio, eles não dormiriam mais
juntos e ela não poderia se aproveitar de sua sonolência. Ainda teriam suas janelas, mas
não seria a mesma coisa depois de hoje.
O filme acabou e, no fim, Sophie era realmente a assassina.
— Acho que não posso competir com sua experiência de cem anos - comentou
surpresa. Aconteceu exatamente como Ian havia falado e o motivo do crime foi

360
justamente ciúme. Parece que Sophie gostava do ex-namorado da vítima e se
martirizava lembrando que mesmo após o termino ele ainda gostava dela.
— Você acha que as mulheres são tão ciumentas a ponto de matar? - comentou
com Ian como se ele estivesse acordado.
— Se fosse assim, ainda bem que Catarina está morta, - refletiu - Ela me destruiria
se pudesse ver a gente aqui.
— Gente, mas que coisa horrível de se pensar – concluiu. Mas Ian nem se quer se
mexia.
Acho melhor dizer amanhã que o assassino era o Brent. Sabia que o amigo ia se
vangloriar por ter acertado e era bom ele pensar que estava errado só para variar um
pouco. Se divertindo com a idéia, desligou a televisão e pensou em chamar Ian para
irem para os quartos, mas se lembrou que teria de dormir separada dele. Então, olhou o
tapete e, vendo que era bem confortável, pegou uma almofada e se alinhou ao seu lado.
— Boa noite – sussurrou para Ian, roubando-lhe mais um beijo.
Aconchegou-se para mais perto dele e ali fechou os olhos. Mais rápido do que
queria, adormeceu.

361
47 – A Volta.

Ana sente alguém lhe balançando e, mesmo lutando contra o despertar, percebe
que seu corpo começa a voltar para a realidade enquanto o se percebe no chão da sala de
deu avô, com Emília a sacudindo.
— Acorda menina – chamava a mulher – Vai tomar um banho. Imagina se teu pai
chega e lhe vê dormindo aqui.
— Que horas são? – disse numa voz meio confusa devido ao sono.
— São cinco e meia.
— Então ainda falta muito pra ele chegar – reclamou.
— Mas seu avô também não vai gostar nada de vê-los dormindo aqui. – lembrou.
Ana se levantou. Agora que se lembrava de ter passado a noite dormindo com Ian
no chão. Ambos se puseram de pé sem mais reclamações e foram até os quartos. No
seu, Ana tomou um banho, o que lhe ajudou a despertar e desceu novamente.
Em baixo, seu avô já lia o jornal do dia.
— Madrugou hoje, hein querida?
— Acho que estou me acostumando – respondeu com um sorriso fraco pelo
cansaço.
Nesse dia, os dois tomaram café e passaram as últimas horas com os avós de Ana.
Pelas dez horas, o pai da garota chegou para buscá-los e, ficando apenas algum tempo, o
suficiente para descansar, pegaram a estrada novamente.
— Como foi Ana? Se divertiu? – seu pai perguntou.
— Melhor do que o esperado. – respondeu com sinceridade.
— E você Ian, o que achou?
— Muito bom. Realmente o lugar é demais.
— Que bom. Quem sabe não voltamos em breve.
— Seria bom – Ana disse.
Ficaram em silêncio. O sono estava forte demais e Ana olhava para o garoto e via
que este estava tão ruim quanto ela. Por um momento se surpreendeu. Era comum ela
acordar cedo com cara de zumbi, ele não.
— Parece bem cansado - comentou.
— Está tão evidente assim? - ele deu um riso fraco.
— Acho que você está tão ruim quanto eu – disse, sorrindo pra ele.

362
— Nossa! - exclamou - acho que estou mesmo enferrujado - completou baixo,
apesar do pai dela estar usando seus habituais fones de viajem.
— É por causa da luta com o Iluminado? - sussurrou
— A verdade é que faz muito tempo que não me exercito tanto. Ele me fez gastar
muita energia.
— Deve estar ficando velho - zombou.
— Possível. Você acha que uns oitenta anos, aproximadamente, é muito velho?
— Não - debochou - Está na flor da idade.
— Obrigado.
— Aquele mago era bem poderoso. - mudou o foco.
— Muito - concordou o garoto - e era tão jovem.
— Acha que ele é como você?
— Como assim?
— Igual a você. Você sabe. Um reencarnado.
— Ah não! – descartou - Duvido muito disso. Essa mágica que eu usei foi
original. Não sei de mais nenhum mago que a tenha descoberto. Acho que era um
prodígio mesmo.
— Um prodígio? E ele pode chegar a ser tão forte assim em pouco tempo? - Ela se
interessou. - Digo. Você é muito mais velho que ele e devia ser mais forte. - pensou com
lógica.
— Não necessariamente. - ele corrigiu. Dava para ver que era difícil admitir
aquilo - Eu sou de fato mais experiente, mas não necessariamente mais forte. Tenho
alguns pontos fracos em relação a ele.
Ana estava curiosa em saber, mas não achou delicado perguntar. Ian percebeu seu
interesse e continuou.
— Bem. A magia é a arte de se controlar as energias, tanto do próprio corpo
quanto do ambiente em sua volta. Minha mágica é voltada ao controle da natureza. Em
especial, do gelo.
Ele ficou pensado, provavelmente em como usar palavras simples.
— E como eu te disse, magia tende a ir contra todas as leis da natureza e nem
mesmo nós magos vamos contra as leis sem sofrermos penalidades. Quando mechemos
na realidade, ela se volta contra nós.
— Como em Efeito Borboleta?

363
— Exato – ele pareceu ter encontrado uma forma melhor de explicar com a deixa
dela – É a Teoria do Caos. Lembra quando o personagem do Ashton Kutcher, sempre
que voltava no tempo para tentar mudar algo, acabava mexendo em mais coisas do que
queria?
— Lembro.
— Então é mais ou menos isso. No meu caso quando eu uso meu poder de
controlar o clima, tenho que tomar cuidado, para que a corrente fria que eu conjurar não
atinja demais o meio ambiente onde eu estou.
Ele olhou pela janela por uns segundos como que se estivesse perdido em
pensamentos.
— Lembra quando eu convoquei aquela neblina?
— Sim - ela já imaginava que tinha sido ele.
— Então. Aquilo foi uma pequena manifestação de meus poderes. Eu podia ter
convocado uma nevasca em cima dele, porém, é muito arriscado. Eu poderia acabar
mudando o ciclo de chuvas de Minas Gerais com isso. E você sabe que mais
conseqüências poderiam isso acarretar, pois eu já lhe expliquei antes. Você entende,
não?
— Sim, você não aceita perder e esta achando uma desculpa – brincou.
Ele riu com vontade.
— Bem, possivelmente. Mas, além disso, eu tenho outro probleminha contra mim.
— Qual... - mas ela se calou entendendo do que ele estava falando.
— A besta - ele se preocupou em falar mais baixo essa parte. - Adrenalina demais
é uma das coisas que podem me fazer perder o controle. Lembre-se que eu sempre tenho
que me vigiar mais que as pessoas normais.
A garota concordou. Era engraçado ouvir Ian falar assim. Tinha horas que parecia
que ele fazia uma tempestade num copo d’água. Ela sabia que era triste pensar assim.
Era injusto talvez, mas ainda assim, os únicos momentos em que sentiu essa besta que
Ian tanto falava foi num breve lampejo em seus olhos quando se beijaram, mas até ali
não sentiu em nenhum momento o perigo de que ele tanto a alertava.
Ela tinha certeza que Ian era mais controlado agora do que como Lucien e que
poderia muito bem subjugar sua besta com mais facilidade. Quem sabe ele nunca mais
tivesse problemas com ela, afinal, nunca perdeu o controle como Ian.
— Sem falar que eu estou há muito tempo parado. - ele falou, cortando suas

364
conclusões - Não tenho tido muita ação nessa vida. Como Ian tem sido uma existência
calma e pacata. Estou muito fora de forma.
Ana despertou com a voz de Ian. Tinha viajado em suas reflexões de novo.
— Você está bem? - ele perguntou.
— Sim - riu sem graça - só via