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Instituto se propôs a dar atendimento à seguinte
questão: dentro de que condições é possível ins-
taurar no Brasil uma democracia estávct e social-
mente responsável, na presente situação do pais
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últimos cinquenta anos e do qual corre sério risco
de ficar prisioneiro: a democracia gera um popu-
lismo que desestabiliza a economia e rompe o
Hélio Jaguaribc equilíbrio social, levando as classes médias a
Francisco Iglesias apelar para a intervenção salvacíonista das Forças
Armadas; estas congelam o processo político e

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\amireh Chacon ao tentar resolvê-lo pela mera repressão e sendo
conduzidas a formas cada vez mais restritivas e
Fábio Comparato abusivas de exercício do poder, que terminam
mergulhando o país na inépcia e na corrupção;
tal situação desacredita o regime, privando-o de
RÊMIO BANORTE DE qualquer apoio e rompendo a unidade das Forças


Armadas, que são compelidas a restaurar a de-

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DE 1985/86 suscitam o populismo, com todos os riscos de que
se repita o mesmo processo.
2? edição Como sair do círculo vicioso e assegurar que,
desta vez, se consolide uma democracia estável
e socialmente responsável? Para atender a essa
questão a pesquisa Brasil, sociedade democrá-
tica busca analisar os problemas de uma forma
abrangente e sistemática, com o emprego de rigo-

SOCIEDADE DEMOCRÁTICA
rosa metodologia científica. Ademais de uma in-
trodução metodológica, o estudo compreende
cinco grandes áreas de problemas: 1) Como veio
a prevalecer, na história ocidental, o princípio da

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democracia e, sobretudo, como logrou efetiva

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COLEÇAO
DOCUMENTOS
aplicação, na Grécia clássica e nos experimentos BRASILEIROS
europeus, a partir do século XVIII? 2) Como,
no caso brasileiro, ocorreram, desde a Indepen-
dência, momentos de relativa democracia em 196
nossa história e dentro de que condições esses HÉLIO |A£iUí,Kint
períodos democráticos se revelaram possíveis e FRANCISCO
foram, subsequentemente, afetados por severas
crises? 3) A partir dos esclarecimentos trazidos GUILIIUMME
pela análise dessas duas questões, quais são as DOS. SANIOS
características atuais da sociedade brasileira e as CHACON
possibilidades de que nela se instaure uma demo- FÁBIO CoMI'AHA-10
cracia estável e socialmente responsável? 4) Em
todo esse processo, que papel exerceram e exer-
cem, no mundo e no Brasil, os meios de comuni- CO j-j-f
cação de massa? Em que medida refletem, díslor-
cem ou configuram a opinião pública? Que con-
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tribuição, positiva e/ou negativa, trazem para o
processo democrático? 5) Finalmente, todas essas
questões levadas em conta, quais os principais
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requisitos institucionais, no Brasil contemporâneo,
para assegurar a estabilidade de uma democracia
socialmente responsável?
No presente livro o leitor encontrará as cons-
tatações e conclusões a que foram conduzidos
seus autores, ao procurar dar atendimento a
esse conjunto de questões. Essas constatações e
conclusões, depois de uma primeira seção con-
tendo uma introdução metodológica, se acham
distribuídas pelas Seções II a VI deste estudo e
foram resumidas na sétima e última seção do
livro. A resposta final é uma cautelosa afirmação
de que, neste Brasil de nossos dias, lornou-se
efetivamente possível a instauração de uma de-
mocracia estável e socialmente responsável sem-
pre que, entre oulras condições, se logre estabe- OS AUTOKIíS DA O U R A
lecer e preservar, com ampla base consensual, (Tolo de rliuidln liigimillir)
um novo pacto social. Um pacto que assegure, De pé, a partir da esquerda:
dentro de condições não inflacionárias, uma ace-
lerada incorporação das grandes massas a níveis HÉLIO JAGUARIBH C FRANCISCO 1(11 1ÍMAS
superiores de vida, de produtividade e de parti- Sentados:
cipação. Tal objetivo, por sua vez, é realizável
através de um amplo plano de desenvolvimento FÁBIO COMPAKATO, W A N D I - K I . U Y ( I n i i n r i t M i IH>S SANTOS
social, fundado numa retomada do desenvolvi- e VAMIREH CHACON
mento económico, que mobilize apropriados ser-
viços de educação, de habitação, de alimentação,
de assistência médica, de transporte e de lazer
para as grandes massas, rurais e urbanas, custean-
do-os mediante tolerável e consentida redução do
excessivo poder de consumo das classes supe- 321.8
riores. B 8 .'3

í J.O.
BRASIL.
SOCIEDADE DEMOCRÁTICA

O PRESENTE ESTUDO conlém os resultados da pes-


quisa empreendida pelo Instituto de Estudos Po- BRASIL,
líticos e Sociais — IEPES, no curso de 1984, e
realizada, sob a direção geral do Professor Hélio
(aguaribe, pela eminente equipe de cientistas so-
SEMOCRATíCA
ciais mencionada na capa deste livro. Ante o
processo de "abertura" e a perspectiva de final
restauração da democracia brasileira, como iria
ocorrer com a eleição do Sr. Tancredo Neves, o
Instituto se propôs a dar atendimento à seguinte
questão: dentro de que condições é possível ins-
taurar no Brasil uma democracia estável e social-
mente responsável, na presente situação do país
e do mundo?
Por baixo dessa questão se configura o cír-
culo vicioso em que o país se encontrou nos
últimos cinquenta anos e do qual corre sério risco
de ficar prisioneiro: a democracia gera um popu-
lismo que desestabiliza a economia e rompe o
equilíbrio social, levando as classes médias a
apelar para a intervenção salvacionista das Forças
Armadas; estas congelam o processo político e
tentam uma solução autoritário-lecnocrática dos
problemas do país, agravando o problema social,
ao tentar resolvê-lo pela mera repressão e sendo
conduzidas a formas cada vez mais restritivas e
abusivas de exercício do poder, que terminam
mergulhando O país na inépcia e na corrupção;
ta! situação desacredita o regime, privando-o de
qualquer apoio e rompendo a unidade das Forças
Armadas, que são compelidas a restaurar a de-
mocracia; com isto, se renovam as condições que
suscitam o populismo, com todos os riscos de que
se repita o mesmo processo.
Como sair do círculo vicioso e assegurar que,
desta vez, se consolide uma democracia estável
e socialmente responsável? Para atender a essa
questão a pesquisa Brasil, sociedade democrá-
tica busca analisar os problemas de uma forma
abrangente e sistemática, com o emprego de rigo-
rosa metodologia científica. Ademais de uma in-
trodução metodológica, o estudo compreende
cinco grandes áreas de problemas: 1) Como veio
a prevalecer, na história ocidental, o princípio da
democracia e, sobretudo, como logrou efetiva
COLEÇÃO
DOCUMENTOS BRASILEIROS
DIRIGIDA POR AFONSO ARINOS DE MELOFRANCO
VOLUME N? 196

BRASIL,
SOCIEDADE DEMOCRÁTICA
HÉLIO JAGUARIBE
FRANCISCO IGLËSIAS
WANDERLEY GUILHERME DOS SANTOS
VAMIREH CHACON
FÁBIO COMPARATO
PRÉMIO BANORTE DE INTERPRETAÇÃO
DA CULTURA BRASILEIRA DE 1985/1986
2.a edição

l I.O.
JOSÉOLVMPIOJFDIIORA

RIO DE J A N E I R O / 1986
' Hí'ii<> Jaiittiirilw
l-ratutsiti Ifflésia!,. Wamiertev Guilhi-rm<- J<>i Suntox,
Vamireh Chiimii c Páhiti Cumparatu. 1985

Todos os direitos desta edição reservados à


LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA S.A.
Rua Marquês de Olinda, 12
Rio de Janeiro, RJ — República Federativa do Brasil
l'rintt'ií in Brazií l Impresso no Brasil
ISBN H5-03-00122-5
SUMARIO

AGRADECIMENTOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . vii
APRESENTAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ix

BRASIL
SOCIEDADE DEMOCRÁTICA

ANO NACIONAL CARLOS GOMES SEÇÃO I — Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3

SECA o H — Q Experimento Democrático na História Ocidental


(Hélio faguaribe) ................................ 19
d ibliOUC nn 9a O Problema da Democracia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20

Fr-f. üoiüo ,•• Breve Comparação Histórica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .


Análise Crílica . . . , . . . . . , . , . , . . , , . . , . . , , . . . . . . . . .
38
102
Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118

SEÇÃO I I I — Momentos Democráticos na Trajelória Brasileira


(Francisco Ig/ésias) .............................. 125
Introdução: Proposição do Tema . . . . . . . . . . . . . . . . . . 126
Construção da Nacionalidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 130
A República Velha . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 156
Procura de Afirmação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 167
O P-Brasil. Catalogai; ao-na-fonte A Conlra-Revolucâo de 1964 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 204
Sindicato Nacional dos Fditores de Livros. RJ
SEÇÃO IV — A Pós-"ReïOlução" Brasileira
(Wanderíey Guilherme dos Santos) . . . . . . . . . . . . . . . 223
B8Ï Brasil, sociedade democrática / Hélio Jaguaribe... |et al.| — 2. ed. — Introdução 1984=1964? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 224
Rio de Janeiro: José Olympio. I9S6. Do Autoritarismo Político à Sociedade Desigualmente
(C'olecão Documentos brasileiros; v. n. 1%) Aberta . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 231
Bibliografia Macromorfologia e Microdinâmica do Brasil Con-
temporâneo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 276
l. Democracia 2. Democracia — Brasil L Jaguaribc, Hélio II. Série Declínio da Ordem Regulada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 292
Em Direcão a um Novo Pacto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 306
CDD — 321.8 Anexo de Dados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 311
„,_,„,, 321.80981
V — Os Meios de Comunicação na Sociedade Democrática
(Vumireh Chacon) ............................... 337
Imprensa e Opinião Pública . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 358
Os Meios de Comunicação de Massa . . . . . . . . . . . . . . 350
O Fuluro dos Media ........ ................... 380

StrÃo VI — Um Quadro Iivstiluciocial para o Desenvolvimento


Democrático
(/•«ò/o Koncler Compuruta) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 393
Introdução: A Queslãu Metodológica e a Ordem da
Exposição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 394
Premissas Conceiluais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 396
O Constitucionalismo Clássico e a Função Funda- AGRADECIMENTOS
menta] do Kstado Moderno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 400
Soluções Constitucionais pura o Brasil . . . . . . . . . . . . 410

SEÇÃO VII — Considerações Finais


(Hélio faguaribL') ...... ....................... 433 A PESQUISA Brasil, sociedade democrática não seria exequível,
C O M t N I Í P I O S SOHR1' A PFSQUISA I Í R A S I L . SOCI! OADE l DEMOCRÁTICA .. 447 como ocorre com trabalhos desse género, se não houvesse con-
I — (Prof1-1 Míii-iü Victoria Rencvides) . . . . . . . . . . 448 tado, sob múltiplas formas, com o generoso apoio de diversas
II — (Prol. Afonso Arinos fie Melo Franco) . . . . . . 450 pessoas e instituições.
III — (Pi-of. V i c t o r Márcio Konder) . . . . . . . . . . . . . 452
IV — (Prof. Bolívar I.amounier) . . . . . . . . . . . . . . . . 464 A viabilidade inicial da pesquisa foi assegurada pela decisão
V — (Prof. Márcio Vieira de Mello) . . . . . . . . . . 456 da FINEP de financiar parte dos custos. Coube ao Dr. Gerson
V! — (Prof. MaruÜo Marques Moreira) . . . . . . . . . 476 Edson Ferreira Filho, então presidente daquela entidade, uma
V I I — ( P r o f . l'e. Henrique C. de Lima Vá/.) . . . . . . 480
intervenção decisiva na matéria, ao assumir, pessoalmente, os
ÍNDIO; ONOMÁSTICO .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 487 imprevisíveis riscos contidos num trabalho que lida com ques-
tões carregadas de implicações valorativas. A confiança depo-
sitada pelo Dr. Ferreira Filho no Instituto e no diretor da pes-
quisa muito nos desvaneceu e dela deixamos grata constância.
Nossos agradecimentos institucionais à FINEP também exigem,
de nossa parte, especial menção ao permanente apoio que nos
foi dado pelo Dr. Celso Alves da Cruz e pela Dra. Madalena
Diegues.
Uma segunda vertente do financiamento dessa pesquisa é de-
vida ao Banco do Estado de São Paulo, por direta intervenção
de seu presidente, Dr. Luís Carlos Bresser Pereira. Deve-se à
assislència do BANESPA a possibilidade de se concluírem QS
trabalhos, quando já estavam esgotados os fundos iniciais da
FINF.P, e as despesas faltantes de muito excediam as modestas
disponibilidades do Instituto.
Ademais da assistência financeira, diretamente conferida para
o empreendimento, sua realização foi possibilitada pela gene-
rosa contribuição voluntária que vem sendo prestada ao Insti-
tulo por seus sócios institucionais e titulares, mediante a qual
são atendidos os gastos correntes da instituição.

VI Vil
Um empreendimento intelectual de ampla envergadura, como
esta pesquisa, só é viável, nas modestas condições financeiras
em que foi realizado, se contar, como ocorreu, com o devotado
entusiasmo académico de seus pesquisadores- No presente caso,
os eminentes scholars, entre os quais foram repartidas as ta-
refas da pesquisa, deram a valiosa contribuição que consta deste
volume percebendo honorários simbólicos, que não apresentam
nenhuma relação com o tempo investido e, muito menos, com
o saber e o talento de cada um deles.
Não menos generosa foi a contribuição de algumas eminentes
personalidades, das áreas académica e pública e de variadas
APRESENTAÇÃO
posições, no espectro das opiniões políticas brasileiras, que. em
atenção ao que lhes solicitamos, apresentaram comentários so-
bre esta pesquisa, destacando seus principais pontos J j conver-
gência e divergência. Com isso se buscou proporcionai' <ios lei- O PRESENTE estudo constitui o relatório gera! da pesquisa Bra-
tores algumas referências críticas, para melhor avaliação das sil, sociedade democrática, empreendida pelo Instituto de Estudos
constatações e conclusões da pesquisa. Aos Srs. ProlV-i^m Maria Políticos e Sociais, com parcial cobertura dos custos propor-
Victoria Benevides, Professor Afonso Arinos de Melo Franco, cionada pela FINEP e pelo Banco do Estado de São Paulo.
Professor Vïctor Márcio Konder, Professor Bolívar Latnounier, A pesquisa teve início em junho de 1983 e foi concluída
Embaixador Mário Vieira de Mello, Professor Marcílio Marques em agosto de 1984. Para realizá-la foi constituída uma equipe
Moreira e Professor Pé. Henrique C. de Lima Vaz, S|, nossos académica compreendendo os Professores Hélio (aguaribe, como
penhorados agradecimentos. díretor da pesquisa e responsável pelas Secões 11 c V I I ; Fran-
cisco Iglésias, responsável pela Seção III; Wandcrley Guilherme
HÉLIO JAGUARJBB dos Sanlos, responsável pela Seção IV; Vamirch Chacon, res-
ponsável pela .Seção V, e Fábio Konder Comparato, responsável
pela Seção VI.
Na realização dessa pesquisa adotou-se, como regra de tra-
balho, o princípio da aprovação consensual, pela equipe da pes-
quisa, dos critérios, da metodologia e dos pressupostos valora-
tivos (Seção I) relativos ao conjunto dos estudos a serem em-
preendidos, a partir de uma proposta elaborada por Hélio fa-
guaribe. No tocante à problemática a ser especificamente abor-
dada, dividida em cinco grandes áreas, que correspondem às
Secões II a VI deste livro seguiu-se o princípio de atribuir
cada uma dessas áreas à responsabilidade de um pesquisador,
conforme a repartição de tarefas precedentemente indicada, e
se lhe conferir completa liberdade académica.
Sem prejuízo da plena liberdade com que foram empreendidos
os estudos correspondentes às Secões II a VI do presente livro
guardam elas, entre si, manifesta coerência, decorrente do con-
senso da equipe em matéria de pressupostos valorativos e de
metodologia de trabalho, referidos na Seção I deste livro. Tal
coerência, entretanto, não exclui o fato — e disto a equipe tinha

viu
antecipada consciência — de que a Secao VI. relativa às
condições institucionais, exprima pontos de vista académi-
cos c eívieos não necessariamente coincidentes com os de
outros membros da equipe. Pela nalure/.a c pêlos objelivos dessa
seção da pesquisa, de canitcr predominantemente normativo e BRASIL,
prcserilivo, o princípio de se a t r i b u i r a seu autor plena e ex-
clusiva liberdade no traio da matéria importava, como inevitável SOCIEDADE DEMOCRÁTICA
corolário, em maior ou menor margem de discrepância, relati-
vamente aos demais membros da equipe, quanto ao diagnóstico
da problemática institucional e, sobretudo, quanto às prescrições
a lhe serem propostas. É próprio ã práxis política a pluralidade
de alternativas na formulação de projetos para a sociedade, mo-
tivo pelo qual somente a negociação democrática permite um
aceitável cquacionamento para tais divergências — como preci-
samente o comprovam as constatações e conclusões desta pesquisa.
No caso da matéria traíada na Scção VI deste livro, a
solução adotada foi a de a deixar totalmente a critério do res-
pectivo responsável, no âmbito da referida secão- Por outro
lado, atendendo à necessidade de explicitar as consequências que
decorrem dos estudos efetuados, a partir de um consenso da
equipe quanto aos seus pressupostos valorativos e metodológicos,
optou-se por conferir a Hélio Jaguaribe a elaboração de uma
Seçào V I I — Considerações Finais — em que, a partir de sua
própria visão da matéria, sintetizasse as principais conclusões
da pesquisa. Ficou igualmente estipulado que, no tocante à pro-
blemática da Sccão VII, Hélio faguaribe dispusesse de plena
liberdade na formulação de suas próprias conclusões, indepen-
dentemente das explícita ou implicitamente constantes do trato
da referida seção.
Em anexo a este livro constam as reações e reflexões crí-
ticas de algumas eminentes personalidades, que generosamente
se dispuseram, por solicitação da equipe da pesquisa, a con-
signar seus principais pontos de convergência e divergência com
o presente estudo. A importância académica e cívica de que se
reveste a matéria, objeto da pesquisa, exigia que seu trato não
ficasse restrito à equipe que a realizou, de sorte a se propor-
cionar ao público o benefício de uma reflexão crítica sobre tais
questões, a partir de personalidades representativas de alguns
dos principais pontos de vista políticos existentes no Brasil.
Seção I
Introdução
terísticas atuais c seu rumo evolutivo e, cm seguida, levando
em conla as constatações e conclusões precedentemente alcança-
das, buscar determinar as condições de que dependa a instau-
ração e a preservação, no Brasil, de forma estável, de uma demo-
cracia socialmente responsável.
A quarta questão, de earáíer complementar à precedente, se
refere ao problema, na história ocidental e na brasileira, nota-
damcnte nas presentes condições do pais, das relações entre
os meios de comunicação e a opinião pública. Em que medida
e de que forma os media tendem a refletir, a formar ou a de-
formar a opinião pública? Que efeito têm os meios de comu-
nicação, positiva ou negativamente, para a instauração e a pre-
servação do sistema democrático em uma sociedade?
A quinta c última questão concerne ã problemática das con-
dições institucionais para a estável preservação, na presente si-
Considerações preliminares tuação brasileira, de uma democracia socialmente responsável.
A pesquisa Brasil, sociedade democrática teve por finalidade Levadas em conta as constatações e conclusões a que conduziu
a presente pesquisa, trata-se de analisar a problemática da estru-
úllïma buscar determinar, na medida do possível, as condições
turação jurídica, com base na experiência de outros países e
de que dependa a instauração, na presente situação do Brasil,
do próprio Brasil, para tentar determinar os principais requisitos
de uma democracia estável, socialmente responsável. Para esse
efeito prcviu-se. ademais da adocão de uma apropriada metodo-
institucionais necessários para uma apropriada c estável orde-
logia de investigação — cuja exposição constitui a Seção I nação democrática da sociedade brasileira.
deste estudo — que seria necessário elucidar cinco principais Os estudos concernentes a essas cinco áreas de problemas
questões. constituem as Secões II a VI do presente livro. Para o
encaminhamento dos estudos de cada uma dessas secões formu-
A primeira questão se refere aos aspectos históricos do expe-
lou-se uma serie de hipóteses iniciais de trabalho. As hipóteses
rimento democrático. Como veio a surgir, em determinadas socie-
de trabalho constituíram um conjunto de suposições que orien-
dades, no curso da história — restrita esta, para os fins em
taram a busca inicial de dados. Ern função da acumulação destes,
vista, à história ocidental — a generalização da convicção de
tais hipóteses foram objcto de duas sucessivas revisões críticas.
que a legitimidade do poder depende do consentimento dos go-
vernados? De que fornia, dentro de que condições e cm que O regime de trabalho adotado para a pesquisa, a partir desse
medida tal convicção veio a ser implementada no universo cons-
momento, foi o de plena liberdade académica para cada pes-
quisador, constituindo as hipóteses de trabalho um instrumento
tituído por um conjunto suficientemente representativo, diacrô-
heurístico a que cada pesquisador, no desenvolvimento de seus
níca e sincronicamente, das experiências democráticas na história estudos, deu a margem de atendimento que julgou apropriada.
ocidental?
Para a formulação dessas hipóteses de trabalho, bem como
A segunda questão é uma particularização da precedente, ao para o levantamento e tratamento dos dados pertinentes, utili-
caso brasileiro. Quais foram os momentos de relativa democracia, zaram-se os métodos usualmente aplicados cm Ciência Política,
na história independente do Brasil? Dentro de que condições a partir de uma posição valoratíva mareada por uma concepção
foram possíveis tais momentos e como e por que vieram a social-humanista da sociedade e do mundo.
entrar em crise? A seguir, são indicadas, para as secões II a VI deste li-
A terceira questão diz respeito à presente sociedade brasileira. vro, as hipóteses de trabalho adotadas para o encaminhamento
Trata-sc, inicialmente, de tentar determinar suas principais carac- da pesquisa.
SEÇAO II: O EXPERIMENTO DEMOCRÁTICO NA 3. Tanto no caso de Atenas como no caso da Europa Ocidental
HISTORIA OCIDENTAL o êxito do experimento democrático se deveu ao íato de
se haver consolidado, na cultura política dessas sociedades,
1. a) A democracia, como regime de governo e de tomada de a convicção de que toda legitimidade política depende do
decisões, no âmbito de uma sociedade, depende de deter- consentimento dos governados, dentro de condições internas
minadas condições culturais e estruturais, estas tanto de que permitam crescente fluidez e mobilidade às relações massa/
ordem interna quanto externa. elite e de condições externas que permitam assegurar a sobe-
rania territorial dessas sociedades e evitar excessivas inge-
b) As condições apropriadas decorrem da formação da con- rências externas em seus negócios domésticos.
vicção, na cultura política de uma sociedade, de que a
legitimidade do poder depende do consentimento dos go- 4. A experiência histórica de Atenas e da Europa Ocidental
vernados. Tal convicção, por sua vez, provém da genera- indica que o processo democrático se realiza e consolida
lização, na cultura de uma sociedade, de valores e de tanto por via gradual como de fornia dialéiica. Em ambos os
uma visão do mundo de sentido humanístico, que reco- casos, a democracia se inicia dentro de um âmbito de parti-
nheça a igualdade básica dos homens, como iercs dotados cipação restrita aos estratos aristocráticos da sociedade, sob
de liberdade e racionalidade e constate que tais atributos a forma de uma democracia de notáveis: Sólon, em Atenas,
conferem inata dignidade ao homem, a preservação da monarquias constitucionais do século XVIII c princípios do
qual depende da preservação socui! daqueles atributos. XIX. A democracia de notáveis se segue uma democracia de
c) As condições estruturais infernas concernem ao relaciona- classe média, incorporando ao âmbito participatório os es-
mento massa/elile. Para que uma sociedade seja demo- tratos burgueses: Clístenes, em Atenas, democracia burguesa
crática é necessário que esse relacionamento seja pluri- cie meados do século XIX a princípios do XX. À democracia
lincal e dinamicamente fluido. Sendo plurilineal, torna-se de classe média se segue uma democracia de massas: Péri-
possível que alguém seja elite ou massa, num dos quatro clcs, em Atenas, democracias de massas dos anos 20 e 30:
subsistemas sociais — o cultural, o político, o económico, MacDonald, Fronl Populaire; weljarc slatc de após a Segunda
ou o soeial — sem que, necessariamente, o seja também Guerra Mundial.
nos outros. Para que seja dinamicamente fluido deve exis- 5. O trânsito de uma para outra etapa da democracia, tanto na
tir uma razoável mobilidade vertical, que permita transitar experiência grega como na europeia, se realizou sempre em
da massa à elite, ou da elite à massa, em cada um dos regime de tensão, com maior ou menor taxa de violência c
quatro subsistemas sociais. às vezes com momentos de relrocesso e de congclamento do
d) As condições estruturais externas concernem à efetiva processo político: a crise dos regimes de Sólon e de Clístenes,
possibilidade, por parte de uma sociedade, de exercer sua o assassinato de F.fialtes, a tirania dos "50, etc., na Grécia;
a Revolução Puritana e a de 1648. preparatórias de condi-
soberania política, em seu próprio território e preservá-
ções para a democracia na Inglaterra, a rebelião ehartrista,
la, estavclmenle, de excessivas ingerências externas. na Inglaterra; a revolução de 1848, na Alemanha: a Revo-
2. Sem prejuízo de outras experiências históricas, de mnis curta lução Francesa; o interregno rcacionário de Napoleão III e
duração (Tchas, República Romana) ou de mais restrito âm- de Bismarck; o fascismo e o nazismo, antes da generalização
bito (eleições papais, na Igreja Católica), o experimento de- do weljare staíe.
mocrático só teve a oportunidade de se realizar plena e dura- 6. O Brasil não é excecão ;i regra. A democracia brasileira se
douramente, na história ocidental, cm duas ocasiões e loca- inicia, no Império, como uma democracia de notáveis e assim
lizações: na Atenas clássica, de Sólon à conquista macedô- persiste até a revolução de 1930. A democracia de classe
nica, e na F.uropa Ocidenlal, a partir do século XVTT1, com média é interrompida pelo Estado Novo. Com a restauração
subsequente expansão, por influência desta, a outras áreas da democracia, em 194"í, e a Constituição de 1146, resta-
do mundo. belece-se uma democracia de classe média que, com o popu-
lisrno, se orienta para converter-se em uma democracia de — a terceira restauração democrática, da supressão dos
massas. O processo c interrompido por golpes reacionários, atos institucionais, em 1979, seguida das livres eleições
em 1982, até a sucessão do Presidente Figueiredo.
um primeiro ern 1954 c um segundo em 1964. Somente no
2. a) A experiência brasileira não constitui uma cxceção à uni-
curso dos primeiros anos da década de 80, com a final invia-
versal. A democracia brasileira vem se mostrando, como
bilização do autoritarismo militar, reabre-se a oportunidade a grega c a europeia, dependente da prevalência do prin-
para a democracia brasileira e seu encaminhamento para cípio de que a legitimidade política depende do consenti-
uma democracia de massas. mento dos governados, do processo de fluidificação das
relações massa-elitc e da medida em que o país logre as-
segurar sua própria soberania e resistir a pressões externas,
SEÇÃO III: MOMENTOS DEMOCRÁTICOS NA
b) Aspecto fundamental, na preservação dos momentos de-
TRA]ETÚRIA BRASILEIRA mocráticos brasileiros, íem sido a manutenção de uma
razoável correspondência entre a modalidade pela qual se
1. a) A história brasileira, desde a Independência, apresenta
exerça a relação massa-elífc, na sociedade civil, e a mo-
uma observável alternância entre períodos de relativa de- dalidade pela qual ela se manifeste, no subsistema polí-
mocracia, alguns bastante longos, e crises de regime que tico. Sempre- que a relação massa-clilc, na sociedade civil,
conduzem a governos autoritários, que entram por sua é mais liberal do que no sistema político, geram-se pode-
vez em crise e dão margem ao reaparecimento de regimes rosas pressões, reformistas ou revolucionárias, para am-
democráticos, pliar o teor democrático dente: maioridade de Pedro II,
b) As grandes etapas dessa alternância são: Leí Saraiva, queda de Dcodoro, revolução de 1930, res-
— o período de relativa democracia que vai da outorga tauração da Constituição de 1967. Contrariamente, sem-
da Constituição de 1824 até a Regência Una, de cará- pre que a relação massa-cüíc, no sistema político, é muito
ter autoritário: mais avançada do que na sociedade civil, geram-se pode-
rosas pressões conservadoras, ou golpes reacionários: gol-
— da maioridade de Pedro II — passando por períodos pes de 1937, de 1954 e de 1964.
de maior ou menor democracia, num processo tenden-
3. Aplicando-se as constatações da história universal e da brasi-
cialmente orientado para formas crescentes de democra-
leira à análise desta última, conclui-se que nesta se verifica
cia (Lei Saraiva) — até a Proclamação da República
a mesma tendência universal ao trânsito, em condições de
e os regimes autoritários de Dcodoro c Floriano;
tensão e de violência, da democracia de roláveis à de classe
— a democracia de notáveis da República Velha, da elei- média e desta, num processo ainda em curso incipiente, à
ção de Prudente de Morais até a forcada imposição, democracia de massas. Observa-se, igual mente, que a esta-
por Washington Luís, da candidatura Túlio Prestes, com bilidade da democracia, em q u a l q u e r das etapas do processo,
a consequente deflagração da Revolução de 1930 e o depende da relativa correspondência entre o teor de demo-
período autoritário do Governo Provisório; cracia abrigado pelo sistema político, comparativamente ao
— a democracia de elasse média, da Constituição de 1934 que exista, na sociedade civil, nas relações massa-elite. Todo
até o golpe de Estado de 1937; intento de incrementar excessivamente o teor de democracia,
— a restauração democrática e a democracia populista, no plano político, relativamente ao social, conduz a retro-
da deposição de Vargas, em 1945. e da Constituição de cessos autoritários. Contrariamente, o insuficiente ajustamento
1946, até o golpe m i l i t a r em 1954; do teor de democracia, no sistema político, no que já se ma-
— a segunda restauração democrática, do aiitigolpe do nifeste na sociedade civil, conduz a pressões reformistas ou
Marechal Lotl, com a decorrente posse do Presidente revolucionárias. A conclusão final a extrair é no sentido de
Kubitschck, até o golpe de 1964; que o processo de democratização só progride estavelmente

8
quando, a partir de um cerio patamar de democracia, no ciáveis". Isto levou o empresariado industrial e a classe
plano político, se logre induzir um patamar de democracia média moderna a se deslocarem para a direita, unindo-se
algo superior, no plano social, o que permilirá um posterior às forças reacionárias. Para se defenderem de uma temida
passo adiante, no plano político. e supostamente eminente radicalização do regime — por
golpe de Goulart ou de Brízola — as classes superiores
apelaram, preventivamente, para a intervenção militar,
SEÇAO IV: A POS-"REVOLUÇÃO" BRASILEIRA que, como -vem ocorrendo na história brasileira, se dá, em
momentos de crise, em favor dos interesses e das aspira-
1. A atual situação política brasileira está marcada por uma du- ções da classe média.
pla crise: a crise do populismo, de fins de 1961 a 1964 c a 3. a) O autoritarismo militar suscitado pelo golpe de 1964 e
crise do autoritarismo militar, a partir de 1974 e, marcada- tjuc se configura, gradualmente, até a edição do Al-5, con-
sistiu erti uma aliança implícita, mas eficaz, entre a bur-
mente, de 1979.
guesia e os setores superiores da classe média, sob o res-
2. a) O populismo consistiu em uma frouxa mas eficaz aliança paldo das Forças Armadas e a liderança da cúpula militar
de classes: empresariado industriai, setor moderno da clas- e seus assessores íecnocráticos, no sentido de retomar o
se média e proletariado industrial, mobilizados a favor desenvolvimento económico em condições que congelas-
do desenvolvimento, dentro de uma concepção predomi- sem o status quo sociopolítico.
nantemente democrática e nacionalista, rersus burguesia b) Num país como o Brasil, em que todas as camadas da
latifúndio-mercantil, setor carlorial de classe média e mas- população internalizaram o princípio de que a legitimi-
sas rurais e inorgânicas, preservadoras do síatus quo da dade política depende do consentimento dos governados,
sociedade semicolonial e da economia primário-exporta-
o regime militar, para se compalibilizar com a cultura
dora.
política do país, gerou o subterfúgio da legitimidade de
b) O populismo tinha uma retórica de esquerda, de caráter exceção, que seria requerida por uma situação de emer-
socializante, mas na verdade era um capitalismo, embora gência, definida, por Carlos Lacerda, como produto do
com consciência social, em que a participação no exce- conluio de agentes subversivos com a corrupção. Tratava-
dente económico era fortemente privilegiada cm favor do se, assim, de uma "operação cirúrgica" por prazo limitado,
emprcsariado, com boas oportunidades para a classe media que extirparia os germes da subversão e da corrupção,
gcrencial e lécnica c rnais modestos benefícios para o pro- através de um mandato temporário de caráter excepcional
letariado. Assim mesmo, os trabalhadores industriais tive- conferido às Forças Armadas. Essa legitimidade de exce-
ram com o populismo um acentuado incremento de seus ção buscou, com o governo Mediei, se institucionalizar
níveis de consumo e de participação. para durar a longo prazo através da ideologia da "segu-
c) A preservação de um relativo equilíbrio interclasses, no rança nacional".
populismo, decorria da redístribuicão, em favor das mas- c) O autoritarismo militar entrou em crise quando se esgota-
sas, de certa parcela dos ganhos de produtividade, guar- ram, para a classe média, as razões que a levaram à le-
dados os fortes diferenciais de participação precedente- gitimidade de excecão e, concomïtantemente, quando se
mente referidos. O populismo entrou em crise, a partir exauriram as virtualidades do modelo económico Campos-
de 1961, quando a estagnação económica devida ao esgo- Delfini, ante a crise do petróleo (1971 e 1979) e a decor-
tamento do modelo kubitschekiano de desenvolvimento não rente recessão mundial. Relevante para o esgotamento da
permitiu mais uma significativa redistribuicão da riqueza "legitimidade de exceção" é a alta laxa de rotação geracio-
nova. As massas passaram então a pressionar no sentido
nal apresentada pelo Brasil. Dez anos depois do golpe de
da redistribuicão da riqueza existente ("reformas de base")
1964, a maioria dos titulares de papéis de classe média
e, com isto, cedo ultrapassaram a faixa de tolerância das
classes superiores, ameaçando seus "interesses não-nego- havia mudado, sendo substituídos por uma nova geração.

10 11
Htica, depende da formulação de um apropriado novo
Enquanto os pais dessa geração tinham medo de Brízola, pacto social e da mobilização em torno dele, do mais am-
ela, ao contrário, vivera, na universidade, a experiência plo consenso social.
do conflito com o governo e tinha medo da polícia. Para- b) Ü fundamento do novo pacto social é o projeto de um
lelamente, o esgotamento do modelo Campos-Delfini levou tnini-max, expresso por um apropriado leque de políticas
a burguesia c a classe média a aspirarem por uma nova po- e medidas, concebidas de modo a assegurar, a longo prazo,
lítica económica, mais independente do mercado mundial mas desde logo, a mais acelerada incorporação das massas
e mais dirigida para o doméstico, que voltasse a assegurar
a níveis superiores de educação, de produtividade, de con-
o pleno emprego e um elevado desenvolvimento.
sumo c de participação, compatíveis eom o equilibrado de-
4. a) A democracia brasileira depende da medida cm que sejam
senvolvimento geral da economia, dentro de condições que
compatibilizávcis as relações massa-clitc, efetivamente ocor-
não imponham às classes superiores sacrifícios inconciliá-
rentes na sociedade civil, com o teor de democracia do
sistema político. A crescente restrição, pelas Forças Arma- veis com a preservação de seus interesses fundamentais.
das, do âmbito dos que participavam do controle do Es- c) A determinação de um mini-max ótïmo, ou pelo menos al-
tado, dele excluiu a burguesia e a classe média, como clas- tamente viável, é algo a que não se pode chegar apenas
ses, lançando-as ã reivindicação da restauração democrá- por via académica, porque implica em uma grande mobiliza-
tica. ção social e delicada negociação política. Pode-se, entre-
b) A possibilidade de uma pronta e amplamente consensual tanto, por via académica fazer significativos exercícios, a
restauração da democracia, no Brasil, depende da medida partir de certos cenários mais prováveis e mediante o em-
cm que o processo não apresente imediatas ou ostensivas prego de certos modelos de formação e distribuição da
ameaças ao status quo social, .iem, por outro lado, privar renda, com taxas rcdistributivas estimadas entre um míni-
as massas da expectativa de que a democracia conduzirá, mo que produza algum efeito (tipo 5% ao ano) c um
em futuro não remoto, a uma revisão mais equitativa do
previsível máximo tolerável pêlos setorcs superiores da
aluai regime social. Depende, igualmente, da retomada,
pelo país, de maior autonomia, relativamente às pressões sociedade (tipo 10% ao ano).
externas, que se fortaleceram ante nossa crise de divisas. 6. A democracia social comporta várias modalidades viáveis e
c) A longo prazo, a Estabilidade da democracia brasileira — válidas, dentro do pressuposto de que ela só subsiste se
ademais da preservação da autonomia internacional do
for efetivamente operada por uma democracia política, a
país — depende da medida em que a democracia política qual, por sua vez, só subsiste se conduzir a uma efetiva
logre gerar uma democracia social, manlcndo-se entre aque- democracia social. Como no caso do núni-inax social, não
la c esta um regime de reeíp.-oco positivo condicionamen- se pode por via académica estabelecer, validamente, qual
to. Não poderá haver no Brasil uma democracia estável a modalidade preferíve! de democracia social, entre, por
enquanlo não se redigir, significativamente, o abissal in- exemplo, a variante do socialismo democrático (com pre-
tervalo que separa as condições de vida da massa das con- dominante transferência dos meios de produção para o
dições de vida da classe média. Por sua vcv, a tolerância, setor público) e a variante da soeial-dcmocracia (manten-
pelas classes superiores, de um regime encaminhado para do a economia de mercado e a empresa privada sob es-
a promoção social das massas depende da gradualidade trita orientação social, supervisionada pelo poder público).
do processo, requerendo taxas moderadas de sacrifício da- A opção entre as variantes da democracia social depende
quelas classes e tornando visível, em termos de custo-bene- da mobilização da opinião pública c da negociação polí-
fício, as vantagens cumulativas da paz social para todos tica. Pode-se, entretanto, por via académica, definir os
os estratos da população. principais modelos e suas características e analisar os
cenários de que dependeria, nas condições brasileiras, a
5- a) A promoção de urna democracia social, em regime de recí-
adoção de cada um desses modelos.
proco condicionamento positivo com uma democracia po-

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13
SEÇÃO V: COMUNICAÇÃO DE MASSAS
pótese: falta de abertura das bases partidárias à participação
popular e, nos parlïdos, de democracia interna.
NA SOC1EÜADE DEMOCRÁTICA
5. Levantamento da situação brasileira e das próprias duas hi-
1. A democracia depende de formas institucionalizadas de parti- póteses, a seguir formuladas, em matéria de imprensa escrita,
cipação popular. Sem participação popular não se sustenta a falada e televisionada. Hipóteses:
democracia, ante as pressões restritivas dos allos estratos so- i) Controle dos media por um pequeno grupo privado, sob
ciais c políticos. O excesso de participação, por outro lado. excessiva dependência de um reduzido número de contro-
também c prejudicial à democracia, na medida em que suscila ladores de publicidade, resultando numa imprensa com
mais demandas do que as que o sistema político pode conve- pouca liberdade, ainda menor independência e insuficiente,
nientemente processar. senão negativo, sentido educacional;
2. O processo de participação popular depende, entre outras ii) Correção dos inconvenientes existentes mediante a consti-
condições, da existência de um sistema livre, independente e tuição de um importante fundo público, a ser operado, sob
educativo de comunicações, que transmita sobre a sociedade, a democrática fiscalização do Estado, por fundações res-
o mundo exterior c a cultura, informações que permitam, pela ponsáveis, representativas, a exemplo do modelo alemão,
pluralidade de perspectivas c seu sentido educacional, a for- das principais tendências políticas e culturais do país, que
mação de imagens representativas e abrangentes da realidade minimizem os efeitos do oligopólio privado da imprensa,
pública, que sejam também ineentivadoras de condutas so- sem prejuízo da liberdade desta e sem sua transferência
cialmente responsáveis. Esse sistema, no mundo contemporâ- para o controle do Fstado, e restaurem, em significativa
neo, consiste na imprensa escrita, falada e televisionada, avul-. medida, a função educacional da imprensa, noíadamente
tando o crescente predomínio da influência desla última. da televisão.
3. A liberdade, a independência e a educatividadc da imprensa,
no mundo contemporâneo, se defrontam com sérios e difíceis
problemas: SEÇÃO VI: UM QUADRO INSTITUCIONAL PARA O
DESENVOLVIMENTO DEMOCRÁTICO
a) A tendência à concentração, restritiva da liberdade, que
submete o conjunto da imprensa ao controle oligopolístico
1. A democracia, ademais de depender das condições culturais
de um pequeno número de cidadãos, nos regimes demo-
cráticos, ou ao monopólio do Estado, nos autoritários. e estruturais a que se faz referência na scção I I da pesquisa,
b) A desmesurada influência sobre a imprensa, restritiva da e do processo de participação popular a que se refere a se-
independência, de um pequeno número de controladores ção V, depende de um adequado ajustamento das instituições
de publicidade nos regimes democráticos de mercado, ou de um país a sua realidade sócio política.
de interesses polílico-ideológicos, nos regimes de imprensa 2. O problema institucional brasileiro apresenta duas dimensões:
pública. uma, de carãter conjuntural, se refere aos resíduos institucio-
c) A disputa, pêlos órgãos da imprensa, do agrndo do público, nais da ditadura militar; outra, de caráter estrutural, diz res-
para ampliar sua respectiva margem de influência, que peito à própria experiência histórica do país.
leva a substituir propósitos educativos por indiscriminadas
concessões ao gosto popular, privando a sociedade de for- 3. Em termos conjunturais o fulcro do problema institucional re-
mas eficazes de Iransmissão de padrões de conduta social- side no fato de que permanece espuriamente em vigor a legis-
mente responsáveis, num momento histórico em que a lação da ditadura em matérias que afeiam diretamente a de-
família, a Igreja e outras agências tradicionais da educa- mocracia brasileira, o caso mais grave e inaceitável sendo o
ção popular estão perdendo vigência. Colégio Eleitoral que elege o Presidente da República. Tal
4. Levantamento da situação brasileira e da própria hipótese a Colégio viola o princípio republicano e democrático da repre-
seguir mencionada, em matéria de participação polftica. Hi- sentatividade política, ao conferir o mesmo número de seis

14 15
parlamentaremos que lograram apropriadas formas institu-
votos às representações de Estados com diferente magnitude cionais para e v i t a r a excessiva instabilidade dos Gabinetes,
eleitoral e ao permitir que senadores "bíônícos", sem repre-
contrastadas eom as inconveniências historicamente manifesta-
sentação popular, exerçam indevidamente esta, ao votarem em
das pelo presidencialismo brasileiro, sugerem a necessidade
nome do eleitorado.
de uma revisão das instituições políticas do Brasil, na ocasião
4. Em lermos de caniler estrutural o problema institucional bra- em que se restaura nossa democracia.
sileiro vem sobrcludo residindo, historicamente, na hipertrofia
Levantamento da opinião pública sobre a reforma das institui-
dos poderes do Execulívo e no inapropriado relacionamento
ções — incluídas duas hipóteses a seguir indicadas. Hipóteses;
entre este c o Legislativo.
a) Reformas de emergência destinadas, a curto p.'azo, a ex-
5. a) A experiência do Brasil, com o parlamentarismo do Impé-
purgar da legislacío os dispositivos incompatíveis com o
rio, revelou apreciáveis vantagens decorrentes do fato de
regime republicano e democrático, noladamente no que se
que o chefe de Eslado dispunha do Poder Moderador, en- refere ao aluai sistema para a eleição do Presidente da
tendido como a atribuição, independente do Governo em
República;
exercício, de defender e preservar a Constituição e os in-
teresses superiores do Estado, Poder esse a ser desempe- b) Reformas de profundidade, no tocante aos aspeetos estru-
nhado com apoio nos pareceres de um Conselho de Estado, turais da Constituição, notadamente no que se refere ao
governo da República. Instauração de um regime que as-
b) A experiência com o Poder Moderador, no Império, por segure a efetiva represenlatividade popular do Parlamento
outro lado, foí algo prejudicada pela concomitante atribui- e lhe confira a atribuição de eleger o Poder Executivo, a
ção, ao Imperador, de parcelas do Poder Executivo (o "po-
ser exercido por um Primeiro-Ministro e por Ministros de
der pessoal"). Na medida em que se consolida, nos anos escolha daquele, dentro Jc condições que assegurem esta-
f i n a i s do ImpJrio, o sistema parlamentarista, eom maiores
bilidade aos Gabinetes e confiram, ao Presidente da Re-
e mais d e f i n i d o s poderes do Primeiro-Minislro. o exercício
p ú b l i c a , alribuições de Poder Moderador, como defensor
do Poder Moderador se torna mais depurado de ineursões
e preservador da Constituição e dos superiores interesses
na área executiva e, por isso mesmo, menos controver-
do Estado, atribuições essas a serem exercidas com o apoio
tido.
nos pareceres de um Conselho de F.slado, eonferíndo-se
6. A experiência da Uepública revela que o presidencialismo bra- ao Presidente, em situações de crise, o poder de exonerar
sileiro o Primeiro-Ministro, designar-lhe sucessor provisório e
a) Tem sido pouco compatível eom ,a independência do Le- convocar, a curto prazo, novas eleições parlamentares.
gislativo. Via de regra, o Congresso opera como mero ho-
mologador dos projelos presidenciais. Quando se torna
mais independente, suscita graves crises, que ou conduzem
a um autoritarismo do Fxcculivo (Dcodoro) ou conduzem
(Tâiiío Quadros) à queda do Presidente;
b) Tem sido excessivamente vulnerável ,is crises políticas.
Como tudo depende do Presidente; o Presidente, por sua
vez, depende da normalidade de todas as eoisas. Nos mo-
mentos de séria crise (Vargas, Goulart), as instituições re-
publicanas se revelaram incapazes de processar as tensões
e foram sempre violadas, eom graves danos para a demo-
cracia brasileira.
7. A favorável experiência do Império, combinando Poder Mo-
derador com parlamentarismo e as favoráveis experiências dos

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17
Secao I I
O Experimento Democrático
na História
HÉLIO JAGUARIBE
entre os homens, diferenciações de ordem secundária, derivadas
de circunstâncias externas à essência humana. O fundamental é
a básica igualdade dos homens, todos igualmente dotados de li-
berdade e de razão. Por isso mesmo, segundo Péricles, todos os
homens dispõem do saber político necessário para participar da
direcão geral da sociedade.
Os críticos da democracia, na Grécia clássica, se distribuíam,
basicamente, em dois grupos, que se poderiam designar como
O PROBLEMA DA DEMOCRACIA críticos por motivos de elasse e críticos por motivos filosóficos.
Os primeiros exprimiam, simplesmente, a tradição da hegemonia
política do patriciado — os eupatridai — que se consideravam
dotados de superior aretê. ou virtude, no sentido grego da ex-
pressão, que implica em capacitacão. Somente eles dispunham
CÜNCEITUAÇÃO DE DEMOCRACIA da aretê necessária para dirigir a coisa pública. O redime aristo-
crático de F.sparta. eom a conotação de SCITS valores cívico-mili-
Sentido básico tarcs, constituía o modelo político das clas?es altas, que em Ate-
O sentido básico do termo democracia está contido na sua nas reiteradamenfe tentaram fnzê-lo prevalecer, semnre com maior
etimologia: governo (kratia) do povo (demos). Desde suas origens ou menor dependência do auxílio espartano. Os críticos filosóficos
na Grécia clássica, entretanto, esse sentido básico se reveste da integravam, naturalmente, um pequeno círculo de pensadores, em
ambiguidade que lhe advém do duplo significado cie demos. geral pertencentes no rtarricindo ateniense, como Pl.ilão. Vinculados,
Então, como hoje, demos é povo, no scnlido amplo do conjunto muitos deles, por laços de família e de grupo <=oci;il, às correntes
dos membros de uma dclcnninada sociedade. Mas demos é tam- olïgárquicas. delas se diferenciavam por repelirem suas preten-
bém, lanto em seu scnlido clássico como no atual, povo no sen- sões ao poder, fundadas em razões de elasse, e basearem suas
tido de plebe, representando as grandes massas, as camadas po- concepções políticas em princípios de excelência individual, ad-
bres e deseducadas que forniam a maioria da população. quirida pelít educação e pela prática da virtude. 2
T.ssa ambiguidade básica do conceito de democracia, ademais Sóerates (de nrocccléncia não-aristocrática) assinalará, em suas
de inserida em sua etimologia originária, estava igualmente pre- conversações públicas, a necessidade de entregar a dircção da
sente na concciluação teórica do regime. Amigos c inimigos do sociedade a pessoas efetivamcnte capacitadas, da mesma forma
sistema nele descortinavam ambos os aspectos, distinguindo-se uns como se exige proficiência cm pilotagem, para dirigir navios c
dos outros por privilegiarem o primeiro ou o segundo sentido cm medicina, para curar enfermos. Platão, retomando, com ela-
de demos. borações próprias, as ideias de Sóerates. insistirá na correspon-
Os partidários da democracia entendiam que o importante, no
dência entre a perfeição da alma e a perfeição da cidade. So-
regime, era o fato de que, sendo os homens basicamente iguais,
a despeito de suas óbvias diferenciações de fortuna c de educa- mente o saber c a prática da virtude — notadamente da virtude
ção, somente em tal regime podiam, livre e igualmente, participar suprema, que é a justiça — levam à perfeição da alma, no ho-
da condução da coisa pública, como cidadãos, fazendo prevalecer mem individual e, coletivamentc, à perfeição da cidade. O mal
a vontade da maioria. Democracia, dirá 1'érÍcles, é o governo dos da democracia não deeorre do fato de que as maiorias são inte-
muitos, cm oposição ao (injusto) governo de minorias privile- gradas pelas classes pobres, mas do falo de que não se requer o
giadas.' As desigualdades de fortuna e de educação estabelecem,
3
Cf. Marpherita I. Parente, Cilfà e Redimi Ptilitici nul Pensiero Greco,
' Cí. Oração Fúnebre Jc Pcriclus, em Hélio faguaribe, org. A Democracia Torino, Loescher, 1980; vide, lambem, A. E. Taylor, Sóerates, Garden City,
Grega, p. 143 e scgt.. liniííliii, Ed. Univ. de Brasília, 1982. Anchor Books, 1953, p. l"50 e segs.

20 21
curso de Gettysburg, "é o governo do povo, pelo povo e para o
prévio adestramento nas virtudes por parte daqueles que irão povo". Nessa clássica definição de democracia, Lincoln deixava
dirigir a cidade.3 constância da convicção, que compartia com os pensadores dos
Numa posição menos moralista e mais realista Aristóteles en- séculos XVIII e XIX, de que em tal regime o povo (no sentido
fatizará a necessidade de equilíbrio na dirccão da sociedade. O de Péricles) exercia efetivamente o poder, escolhendo as políti-
mal da democracia, em sua forma pura, como simples governo cas que lhe pareciam melhores e designando, para executá-las, re-
das maiorias, como o desejava Péricles. decorre do fato de que, presentantes de sua confiança.
na prática, tal regime equivale ao governo dos pobres. A estes, Essa concepção veio a ser contestada pêlos analistas contem-
por um lado, falta o indispensável tirocínio administrativo e, por
porâneos. Schumpeter, em sua antológíca discussão da matéria,
outro lado, ocorre a inevitável propensão a se apropriar dos bens
diferencia o entendimento clássico da democracia do contempo-
dos ricos, gerando a cizânia dentro da cidade, com as sequelas râneo. Os clássicos consideravam que as decisões políticas eram
da guerra civil e, eventualmente, do empobrecimento geral, pela tomadas pela cidadania, sendo a execução de tais decisões con-
liquidação das fontes de riqueza. Donde a preferência de Aris- fiadas aos representantes do povo. Na verdade, observa Schum-
tóteles por equilibradas formas mistas, que combinem a liberdade peter. o aitc ocorre é algo distinto. As decisões políticas são
de todos os cidadãos e a participação política da plebe, com a tomadas por uma minoria de especialistas ou ativistas — com-
supervisão diretiva ou corretiva das classes superiores. 4 petentes ou não — que são os políticos, aos cidadãos cabendo,
O conflito enlre os dois aspectos da democracia, como governo apenas, a escolha entre grupos alternativos oue disputam o po-
dos "muitos" ou governo dos "pobres", perdurará ale o mundo der. Ou, nas palavras de Schumpeter: "o método democrático é
moderno. aquele arranio institucional para chepar a decisões políticas em
A teoria e a prática da democracia, na Furopa do século XVIII ene alguns indivíduos adquirem o poder de decidir mediante uma
e nrimeira melüde do XTX, conduzirá a uma diferenciação entre disnuta competitiva pelo voto popular."5
cidadãos ativos e passivos. Alivos são os q u e , por suas qualifi- Esse entendimento do efetivo modo de decisão, nas democra-
cações patrimoniais, educacionais e como chefes de família, são cias, tornou-se o dominante, na teoria democrática contemporâ-
supostos terem a responsabilidade pessoal para poder, de forma nea. Exprimindo tal convicção Almond c Verba declaram: "a
também responsável, se ocupar dos negócios do Estado. O sufrá- nota comum que se encontra nas várias definições da democracia
gio censitário, em vigor nesse período, restringe a participação é a de que uma democracia é uma sociedade em que os cidadãos
política a uma minoria de cidadãos, membros das classes altas,
comuns exercem um relativamente alto grau de controle sobre
mnis tarde estendido para incorporar as elnsses medias. Os de-
mais cidadãos têm direitos civis, mas não ingerência política. seus líderes."6
• O sufrágio universal masculino, na maioria dos países europeus, Na verdade, observará Sartori. a diferenciação entre cidadãos
só veio a ser adotado em princípios do século XX: 1917, na Ho- ativos e passivos independe da imposição de um sufrágio censi-
landa, 1918, na Inglaterra e na Suécia. O sufrágio universal fe- tário. Ë próprio do processo político que a ingerência dos cida-
minino viria ainda mais tarde. dãos, ainda que assegurado o sufrágio universal, se realize de
forma extremamente diferenciada. Por razões diversas, apenas
Essa ambiguidade referente ao duplo sentido de demos, no
conceito de democracia, veio a experimentar, modernamente, pequenas minorias, relativamente ao conjunto da população, pro-
uma polarização no tocante ao entendimento de como se exerce penderão a se envolver, continuadamente, no processo de deci-
sões polílicas. A democracia consiste em assegurar, igualmente, a
o poder do povo. Democracia, dirá Lincoln em seu famoso dis-
s
1 Cf. Schumpeter, Capitalism. Socialista and Democracy, London, Allen &
Cf. Plaldo. La l'oUliin;e, ïn Ocwrcx. vol. 2. pp. 242-293, 395 e scgs., Pa- Unwin, 1950.
ris, Ilibliot. de l.a Plêiade, 1950. 6
Cf. Almund & Vorba, Thv Civic Cutiure. Boston, Liltle Ilrown, 1965,
4
CF. Aristóleles, TÍ?L Politics. Book III, c. XI e liook IV, e. VIII, tr. Emes! pp. 118 e 119.
Barker, New York, Oxford Univ. Press., 1162,

23
22
todos os cidadãos, o direito e a possibilidade de se dedicarem à a inexistência de restrições arbitrárias a tal autonomia. A liber-
atividade política, embora, de fato, apenas uma minoria ativa dade de cada homem, dirá [. S. MÍ11, deve ter por único limite
a preservação da liberdade dos demais.1* Mas a liberdade tem,
venha a fazé-lo. "Assim", dirá Sartori, "a democracia c e só pode
politicamente, um outro sentido, o sentido ativo da liberdade de
ser aquele sistema político em que o poder reside no demos participar nas decisões que interessem à coletividade. Importa
ativo."7 observar que, se a filosofia clássica se deu perfeita conta do pri-
meiro sentido da liberdade, e dela fez um dos apanágios do ho-
mem — entendido como o ente dotado de liberdade e de razão
Ingredientes e tipologia — foi a liberdade de participação a que, politicamente, caracte-
As considerações precedentes permitem constatar que o regime rizou o mundo clássico. A liberdadc-autonomia só adquiriu seu
democrático contém três elementos fundamentais: povo, liber- sentida potíttco-social no mundo moderno com a teoria política
dade e igualdade. O povo, nas diversas acepções do demos, é de Lockc e a prática da democracia liberal. 10
o titular do poder, exercendo-o diretamente ou por intermédio No que concerne ã igualdade, importa salientar a diferencia-
de seus representantes. A liberdade é, ao mesmo tempo, um dos ção entre a igualdade abstraia do cidadão perante a lei e a igual-
pressupostos básicos do regime e a expressão mesma de seu exer- dade concreta, nas condições reais de vida. O pensamento clás-
cício. Desde a Grécia clássica, é no intento de compatibilizar a sico se inteirou dessa diferenciação, ao opor o demos, no sentido
liberdade individual com a regulamentação social que se funda- de Péricles, ao demos, no de Aristóielcs. E este último, como já
menta a legitimidade do regime democrático. E é através do foi indicado, tinha plena consciência da necessidade, para o bom
exercício político da uberdade que se realiza a democracia. A equilíbrio das sociedades, de se evitar excessivas desigualdades
igualdade, por sua vez, é um dos outros pressupostos do regime, reais, embora, por razões de outra índole, admitisse a escravidão.
fi porque os homens são basicamente iguais que a todos cabe Sem prejuízo de algumas antecipações, contidas no pensamento
igual direito a participar da direcão da sociedade. Por outra parte, estóico e, mais explicitamente, nas ideias de pensadores dos sé-
o regime democrático tem, idealmente, como inerente objetivo, culos XVI ao X V J I I , como Morus, os Icvcllers, Mably ou Uabeuf,
assegurar a igualdade dos cidadãos pcranle a lei e, quanto pos- é o pensamento socialista, dos "utópicos" a Marx, que acentuará
sível, em termos reais, uma vez que tal igualdade constitui um a fundamental importância da igualdade real e a medida em
de seus pressupostos e a exacerbação das desigualdades reais re- que a meramente legal, desapoiada da real, se constitui em fic-
presenta o principal entrave para o funcionamento da demo- ção ou impostura.
cracia. As diversas acepções dadas aos três elementos fundamentais
Esses Ires elementos, entrclanlo, podem e têm sido concebidos que compõem o regime democrático ensejam, na teoria e na prá-
de forma diferente. Sartori. elaborando sobre as diferenciações tica, diferentes formas de democracia.
no significado de demos, distingue cinco principais acepções: 1) Burdeau, considerando a extensão da participação popular,
o povo como relativa pluralidade: os muitos; 2) como integral restrita ou ampla, distingue a "democracia governada", no pri-
pluralidade: cada um; 3) como conjunto orgânico: polis, nação; meiro caso, da "democracia governante", no segundo." Macpher-
son propõe11 uma tipologia de quatro modalidades: 1) a demo-
4) como pluralidade expressa por absoluta maioria; 5) como plu-
ralidade expressa por relativa maioria. 8
Os conceitos de liberdade c de igualdade apresentam, também, " Cf. J. S. Mill, On Liberty, London, Diait & Sons, 1947, ch. I. Iníroduc-
uma diversificação fundamental. A liberdade, em seu sentida lion.
1(1
Cf. Celso I,afer, Ensaios svbre a Liberdade, São Paulo, Ed Perspectiva
básico, exprime a autonomia da vontade e significa, socialmente, 1180. p. 72 e segs.
11
Cf. Gcorges Burdeau, La Démocratie, Rruxelles, Office de Ia Publicite,
1 " Cf. C. B. Macpherson, The Li/e and Times of Libera! Democracy Ox-
Cf, Giovanni Sarlori, Dcmocraíic Theory, New Yürk, Praeger, 1955, p. 90. ford, Oxford Univ. Press. 1980.
8
Cf. Giovanni Sartori, op. cit., p. 18.

24 25
dade e igualdade. 14 Esses três elementos, no processo de tomada
cracia protetiva, característica da preservação dos direitos indivi- de decisão, se organizam em função de quatro principais variá-
duais, do liberalismo inicial; 2) a democracia desenvolvimentista, veis. Estas dizem respeito: 1) ao modo de exercício do poder po-
do liberalismo posterior, orientada para a maximização das poten- pular; 2} ã amplitude do sufrágio; 3) à extensão dos poderes as-
cialidadcs de cada indivíduo; 3) a democracia do equilíbrio, em sumidos ou conferidos pêlos que exercem o poder e 4) à abran-
que se busca evitar o predomínio excessivo de uma classe ou de gência das decisões que possam ser tomadas pelo poder púbüco.
um grupo sobre outros; 4) a democracia participante, em que se Levando-se em conta as quatro variáveis precedentemente re-
intenta generalizar a ingerência cfetiva dos membros da socie- feridas chcga-sc a uma tipologia teórica e empírica da democra-
dade na condução de seus negócios. Dahl, 1 ' lendo em mcnlc a ex- cia que apresenta as seguintes modalidades:
periência americana, diferencia (1) a democracia madisoniana, 1) Quanto ao exercício do poder;
baseada no conceito abstraio da cidadania, da (2) populista, que — democracia direta: (Atenas)
leva cm conla as exigências sociais das maiorias, da (3) poliárqui- — democracia representativa: (moderna)
ca, que equilibra, através de um pluralismo institucional, as de-
2) Quanto ao sufrágio:
mandas das diversas classes e dos diversos grupos.
— democracia de notáveis: (censo alto — Sólon, século
Em sua boa contribuição ao tópico '"democracia", na Enci- XVIII. britânico)
clopédia Britânica {edição de 1966), Frcdcnck M. Watkins pro- — democracia de classe media: (censo amplo — Clístenes,
põe uma tipologia que leva em conta tanlo a forma do exercício Luís Filipe)
do poder popular como as implicações de liberdade e igualdade — democracia de massas: (sufrágio universal — Europa
contidas nas principais modalidades históricas da democracia atual)
e diferencia os seguintes lipos de regime democrático:
3) Quanto aos poderes:
1) aquele em que as decisões políticas são diretamenle tomadas — democracia totalitária, com poderes irrestritos: (Atenas)
pela assembleia dos cidadãos, segundo o princípio da maio- — democracia consuetudináría, com poderes limitados pela
ria: democracia direta; tradição: (britânica)
2) aquele pelo qual os cidadãos têm o direito de livremente es- — democracia constitucional, com poderes regulados pela
colher os representantes que os governam: democracia repre- Constituição: (americana)
sentativa; •1) Quanto ã abrangêneia:
3) aquele que apresenta as características do precedente, mas em — democracia regulatória, ou liberal, que simplesmente re-
que as decisões da maioria suo reguladas por normas consti- gulamente a sociedade civil, para os fins desta: (Europa, do
tucionais, que protegem certos direilos i n d i v i d u a i s e coletivos; século XIX a princípios do século XX)
democracia liberal ou constitucional; — democracia organiza to ria, ou social, que configura a so-
4) aquele cm que, independentemente dos três sentidos anterio- ciedade para os fins da coletividade: (weljare state contem-
res, se busca mininwar as diferenciações sociais e económicas porâneo).
resultantes da desigual distribuição da riqueza.
Sem elaborar, excessivamente, sobre as tipologias da democra- Diferenciação histórica
cia, importa levar cm conta a necessidade, desatendida por mui- A democracia, como todas as instituições sociais, experimentou
tos analistas, de se desagregarem as principais variáveis que condi- c continua experimentando decisivas modificações, no curso da
cionam o regime. )á se salientou que são três os elementos fun- bistiSria- É clássica a já referida oposição, em termos globais,
damentais que compõem um sistema democrático: povo, libcr-
14
Cf. Harold f. Laski, Parliamentary Government in England, London,
1
'- Cf. Robcrí A. Datil, A frcfacc to Demncralic Tíieory, Chicago, The Allen & Unwin, 1952.
U n i v . of Chicago Press, 1956.
27
26
M:II exercício dircto. For outro lado, em lermos prálieos, a cres-
entre democracia antiga e democracia moderna. A democracia cente extensão territorial e populacional do Estado moderno e a
antiga, comandada pelo princípio da participação, inerente ao crescente complexidade de sua administração, contrastando com
conceito clássico de -cidadania, assegurava a todos — c a todos as condições do Fstado-cidade, exigem formas delegadas de po-
de certa forma impunha — ativa participação na direcâo da coisa der e magistraturas especializadas de caráícr permanente. 17 Na
pública. Ademais das particularidades típicas das democracias própria democracia representa! i vá. importa d i f e r e n ç a r as formas
estritamente dirctas, como a ateniense (não-dclegacão de poderes
menos modernas de representação, que envolviam, como nos
c prática inexistência de magistrados), a democracia clássica des-
conhecia a oposição entre o público e o privado, como também, antigos parlamentos britânicos, uma verdadeira transferência da
em ampla 'medida, entre o secular e O religioso. Eram, assim, pra- soberania do povo ao Parlamento, das formas mais contempo-
ticamente ilimitados os poderes da Assembleia. Tais extremos râneas de representação, cm que os m a n d a t á r i o s do povo são
chegaram ao ponto, com a f.raphc paranomon, de estabelecer a agenles deste, que persiste como t i t u l a r da soberania.
eficácia rctroatïv.1 das decisões da Eccleaia.1' No que diz rcsneilo à amplitude da f r a n q u i a , a história da
Diversamente, a democracia moderna se f u n d a no princípio da democracia, t a n t o no seu desenvolvimento ateniense como no
prolccão dos direitos individuais. Em sua concepção originária sen desenvolvimento na Turopn moderna, acusa uma marcante
está contida a ideia do contrato social. Os homens têm direitos equivalência de clapas, A democracia ^c i n i c i a , na Grécia, com
individuais considerados corno absolutos, conferidos por Deus as reformas de Sólon. sob a forma de u m n democracia de notá-
ou pela Natureza. c.] u c precedem quaisquer disposições sociais c, veis. O me^mo ocorrerá na Tuirnp.i. t a n t o na experiência do
por isso, sobre elas imperam e as regulam. Não é o direito à par- P a r l a m e n t o b r i t â n i c o , a partir da (llorhnts l'i'\:oliition, como nas
ticipação política que gera o conceito moderno de democracia experiências continentais. A sepnir. a f r a n q u i a política será am-
(embora tenha decisivamente influenciado sua prática) e sim a p l i a d a para i n c l u i r as Hasses média 1 -, t a n t o na Grécia (Clístcncs)
necessidade cie protecão dos direitos individuais: vida, liberdade como na Furopa (Keforin fíil! de I8Ï2, Luís Filipe, ctc.}. Final-
(como ausência de constrangimentos arbitrários) e propriedade. mente, o sufrágio se irá estendendo a sei ores cada vez mais
A participação política dos cidadãos, nas decisões públicas, é urna amplos da população (Pendes, na Grécia, Disracli, Gladslone,
decorrência de sua liberdade individual, que lhes assegura o di-
Segunda República francesa) ale se converter, em princípios do
reito a não serem constrangidos por decisões em que não pudes-
••éeulo XX, em sufrágio u n i v e r s a l masculino (posteriormente es-
sem tomar parte,'*
(endido às mulheres) c assumir as características de uma demo-
Entre a democracia d i ré ta e irrestrita de Atenas e o welfarc i lacia de massas.
xtaiü democrático da Europa contemporânea, fundado numa de-
mocracia representativa, constitucional c social, medeia uma gran- No tocante à extensão dos poderes, a democracia seguiu, his-
de distância. Essa distância se faz sentir no entendimento de toricamente, um curso restritivo. Já se mencionou como a demo-
cada uma das quatro variáveis precedentemente referidas. iTuciíi prega era, p r a t i c a m e n t e , dotada de poderes ilimitados,
No que diz respeito ao exercício do poder popular, a dife- .V democracias modernas, surgindo como expressão de uma
i n s t i t u c i o n a l i z a ç ã o política dos direitos i n d i v i d u a i s , tiveram sem-
renciação se observa na transição da democracia dírcta para a
pre a proleeão destes como objetivo e como limite da área de
representativa. Essa transição decorre de várias razões. Concei-
ni"crcncia do poder público. As democracias contemporâneas
tualmcnte, a democracia dos direitos individuais é melhor pre-
i T r t i v a m e n l e merecedoras desta designação preservaram a tra-
servada pelo exercício delegado do poder popular do que por
dição liberal dos direitos i n d i v i d u a i s , i n t r o d u z i n d o outras res-

15
Cf. f , B. liury, ch. XIII de The Cambridge Ancient History, Vol. V, 1
p. 391 e segs., Caiïibridge, The Univ. 1'ress, 1969. ' (T., entre outros. Friccler Marchold, "Democracia e Complexidade" in
lf>
Cr., entre oulrus, C. B. Macpherson, The Lije and Times o/ Liberal De- HII-UT S'-'n p h nas i-í i'l . Análise i/í' Sistemas, Teciiucracia u Democracia, Rio.
mocracy, op. c i t. ( • • r i i p u Brasileiro, 1974.

28
trições ao exercício do poiler, em defesa de minorias*, de grupos de sua viabilidade empírica e o probiema de sua validade
normativa.
desvalidos e de interesses sociais.
Relativamente ao grau de abrangéncia dos atos regulalórios Consideremos, brevemente, o primeiro problema. O que está
da sociedade, a democracia, como no tocante ao sufrágio, evo- em jogo, basicamente, é a questão de se saber como é possível
luiu, com exceção do caso grego, de um senlido muito restrito que venha a prevalecer o princípio democrático, na cultura polí-
a um sentido muito amplo. A democracia clássica, por isso mesmo tica cie uma sociedade e, sobretudo, como possa vir a ser efe-
que se revestia de poderes ilimitados;, regulava todos os as- tivamenlc implementado, ante as desigualdades sociais observá-
pectos da vida social que, nas condições da época, se julgava veis em todas as sociedades não-primitivas.
possível e conveniente. Tais aspectos, além de abrangerem a Como já foi prece de n l em ente referido, essa questão envolve
vida económica, ou o próprio regime de estratificação social a ambiguidade, inerente ao sistema democrático, entre demos
(rcestru tu ração das classes sociais por Sólon c por Clístcnes), como povo soberano c demos, como massa dos pobres. Foi por
abrangiam, também, o mundo religioso e a administração do entender que num sislema puramente democrático os pobres se
sagrado. A oposição entre o privado e o público, que se desen- valeriam de sua superioridade numérica para impor, através da
volverá gradualmente no Ocidente, a parlir do f i m da idade Assembleia, medidas expropriativas dos ricos, assim gerando in-
Média, bem como a oposição entre o secular e o religioso, in- sanáveis e autodcstrutivos conflitos sociais, que Aristóteles con-
troduzida pelo cristianismo, eram estranhas ao mundo clássico. denou tal regime como malsão. Importava, segundo o estagi-
Daí a adoção, pela Lcclesia, de decisões confiseatórias dos bens rita, estabelecer um equilíbrio entre os princípios da democracia,
privados dos ricos (molivo f u n d a m e n t a l da oposição destes ao tendencialmente asseguradores das liberdades públicas e da par-
regime), assim como as decisões p u n i l i v a s por motivos religio- licipacão popular, e os da monarquia e aristocracia, tendencial-
sos, como as que afetariam Anaxápora^ ou Hdias c, pelo menos mente asseguradores de certas formas sociais de excelência e
no plano da justificação, a condenação de Sócrales.
preservadores de condições que permitam modalidades razoá-
A democracia moderna parle, ao contrário, da oposição entre veis de acumulação e de preservação da riqueza.
O privado c o público c da não-inlcrfcrência do Estudo em
Vista essa questão em seu âmbito mais amplo, o que ela apre-
assuntos religiosos — esta nem sempre respeitada (anticatoli-
cismo anglo-saxão. anliproleslanlismo lalíno). A parlir de uma senta, tanto teórica como praticamente, é uma inerente propen-
concepção m i n i m a l i s t a das atribuições do Kslado c do governo, são ao conflito entre os princípios da igualdade e da liberdade,
própria da democracia liberal do laissez-fairc.-. observa-se, em ambos constituindo elementos necessários do regime democrático.
todos os países em que se desenvolveu, contemporaneamente, a Na medida cm que, em uma dada sociedade, exista signi-
experiência democrática, a gradual extensão do conceito das ficativa taxa de desigualdade social — o que empiricamente
responsabilidades do Fsiado e do governo. De puro "cndarma sempre tende a ocorrer — a tensão entre minorias ricas e maio-
dos conlratos o Fslado se tonui. de F i n s do século X I X a prin- rias pobres se constitui em algo de inevitável. Face a tal tensão,
cípios desle, fiscal da i n t e r d i ç ã o de certas pníliais que possam uma das alternativas é a de que as maiorias pobres, num re-
afetar o interesse público (medidas a n l í t r u s t e ) e, f i n a l m e n t e , ativo gime democrático logrem, cm atendimento a seus interesses, im-
coordenador da economia (du ipj-^mo) e preservador dos inte-
por às minorias ricas medidas redistribulivas inaceitáveis para
resses das classes t r a b a l h a d o r a s (democracia social).
estas, assim gerando os insanáveis conflitos a que se refere
Arisioteles. A outra alternativa é a de que as minorias ricas,
por mais aptas ao exercício do controle social, limitem eficaz-
DUPLO PROliLL-MA DA D E M O C R A C I A
mente a capacidade participalória das massas, preservando a
riqueza e o predomínio político das minorias, mas, em tal caso,
O problema tía
cerceando as liberdades democráticas e impedindo que a di-
Desde sua emergência na Grécia clássica o icgime democrá-
tico se d e f r o n t o u com u m d u p l o problema básico: o problema
reção da sociedade exprima a vontade da maioria.

30 31
A democracia, como forma de direção da sociedade, é um i l . n l e s nu q u e , por abusos do tirano, da o l i g a r q u i a ou das massas,
regime que implica, idealmente, a otimização da liberdade e a i 1 p r a l i q u c m i m p u n e m e n t e sérios alentados à ordem moral, so-
minimïzação da desigualdade. Se a minimizacão desta é empi- I r r m correspondente deterioração de sou sistema de internali-
ricamente insuficiente, ou a liberdade de muitos tende :i oprimir ,'.11,,io c de socialização de valores. Deixa de funcionar apropria-
a dos poucos ou a dos poucos tende a oprimir a de muitos. ( l . i i ! K ' i i l c o processo de regularem espontâneo da funcionalidade
• i n i ; i l das condutas, ampliando-se as laxas de anomia, de dês-
vi.mca e de alienação. No l i m i t e do processo, as sociedades que
O problema da validade f i n d e m sua moral perdem sua viabilidade interna e externa,
Independentemente de seu problema úc viabilidade, sucinta- l'oi por sua convicção na p r o f u n d a correspondência entre
mente referido no tópico precedente, a democracia apresenta, .1 ordem moral e a soeial que l ' l a t ã u considerava que a direcão
também, um sério problema em termos de sua validade. As da coisa pública requer o p r é v i o adeslramenlo moral de todos os
decisões públicas, para que subsista uma sociedade, devem aten- l ' . M i i c i p a n ( e s e exige uma estrita equivalência entre o nível de
der a um satisfatório nível de competência técnica c de consis- M u n p r e e n s ã o c prática das v i r t u d e s e o n í v e l de ingerência das
tência a,xiológica. Se a maioria adota decisões tecnicamente in- ivsuas uu condução da coisa p ú b l i c a .
competentes, a sociedade reduzirá, correspondentemente, a efi- O problema da validade das decisões públicas, no regime de-
cácia de seu relacionamento cum a natureza, com outras socie- mocrático, decorre do fato de q u e o princípio da maiori:i não é,
dades ou consigo mesma. No limite da possibilidade, a incom- i n - i i i a n a l í t i c a nem e m p i r i c a m e n t e , a^-segurador d;t validade lêe-
pelêneia técnica conduz a desastres naturais, militares, políticos p i i c : i nu moral de tais decisões. Donde as obiecões tecnoerálieas
ou sociais, que podem aniquilar urna sociedade. ou moral islãs à v a l i d a d e da d e m o c r a c i a .
Por outro lado, as relações entre a ordem moral e a social f o n i r a t a i s ohjcçõcs os defensores da democracia, desde Pé-
não são apenas ornamentais. E certo que a experiência histó- i i r l e ^ . observam, por u m lado — com e v i d e n t e ra/ão — que
rica e a contemporânea indicam que as sociedades podem ser .r- formas a l l e r n a l i v a s de governo não ai>e»iiram melhores eon-
expostas a alarmantes graus de desrespeito das normas morais
i l i i o r s para a v a l i d a d e l é > n i e a ou moral de snas decisões. Ao
sem que, de imediato, ocorram, necessariamente, significativas
consequências sociais. Os antológicos abusos de certos impe- , o u l n r k i , a e x p e r i ê n c i a tem i n d i c a d o , notadimicnle nas condi-
radores romanos ou de dirigentes contemporâneos como Stalin , 1 ' i ' s r o n f e m p i i r â n e a s . q u e os governos exercidos por grupos res-
e Hitler são exemplos de como as mais graves violações da jus- i : r i o s e íecliados são m u i Io mais susceptíveis do que os demo-
tiça c de princípios éticos básicos podem perdurar por bastante i i . u i c o s de res\alar para a corrupção e até mesmo para falácias
tempo, iübsa mesma experiência, entretanto, acusa, afinal, uma i ' ' i iiiea 1 -. Por ou Iro lado, como a s s i n a l a m os a t u a i s analistas, a
incseapável correlação entre a ordem moral e a social, embora 11, nmcracia representai i vá contemporânea dispõe, m u i t o satis-
tal relação esteja submetida a condições que podem retardá-la l . i i o r i a m e n i e , de mecanismos e processos q u e permitem que as
ou d i l u n d i r seus efeitos. Os abusos dos imperadores romanos , i | n oe1, populares se iam medial i/adas por competentes equipes
usualmente terminaram por suscitar sublevações ou conspirações i i i nicas, cm condições que pralicamenlc excluem a possibilidade
que os levaram à morte. H i l l e r provoca seu próprio aniquilamento i Ir ci ros grosseiros nas decisões de tais democracias. O que,
f i n a l c Stalin, ainda que se mantenha no poder tité sua morte M N d ú v i d a , não pode ser evitado, é a eleição de dirigentes
natural, lermina repudiado por seus sucessores e tem sua me- i|nr não se revelem à ai lura das funções que lhes se iam eonfe-
mória levada à execração pública. i idas pelo volo popular. Mesmo r e l a t i v a m e n t e a lal hipótese
Mais do que correlações específicas entre as violações sociais c u j a oconcncia não é infreqüenle -•- as democracias rcpre-
..•nialjvas modernas contam com melhores remédios do que
da ordem ética e a punição social dos violado rés, o que a
experiência histórica registra é uma genérica eo rrelação entre
.|naisqtier regimes alternativos. Fstes vão desde a não-rccleicão
. l i - maus candidatos até a neutralização de t i t u l a r e s inconvcnien-
a deterioração da ordem ética e a da ordem social. As socie-

32
tes pelo sistema de contrapesos do Estado democrático contem-
porâneo, incluídos os processos que permitem, democraticamente, políticas de prazo mais longo, dentro de diferentes regimes
a destituição de mandatários que violem as leis ou adotcm políticos.18
medidas ÍnaceÍtá\eis pura a maioria do eleitorado. A democracia, entretanto, não prosperou ern Roma. Como em
outras sociedades, o projeto democrático romano surgiu da reivin-
dicação, pela plebe, de ter assegurados determinados direitos
A experiência histórica públicos, inclusive no tocante às decisões políticas. A plebe lo-
A democracia surge na Orcria clássica e se desenvolve plena- grou impor tais reivindicações ao patriciado, combinando a
mente em Atenas, a pariir d;is reformas de Solou- A democracia ameaça de guerra civil com formas de suspensão de colaboração,
ateniense apresenta, para um observador eontemporàneo, impor- semelhantes ao que atualmente seria a greve geral. A composição
tantes limitações. A l g u m a s não decorrem, propriamente, do re- entre os interesses da plebe e os do patriciado, entretanto, em
gime, mas das características da cultura clássica. Assim, a exis- vez de conduzir, como ocorrera em Atenas, a uma revisão do
tência da escravidão c a exclusão das mulheres da vida política. processo decisório e uma ampliação do quadro de participantes,
Certas c i r c u n s t â n c i a s , também devidas às condições gerais da teve um curioso encaminhamento contratualístico. Instituciona-
sociedade clássica, foram p a r t i c u l a r m e n t e d c i r i m e n t a i s para a liza-se, dentro do Estado, o mundo patrício e o mundo plebeu,
democracia ateniense. Mencionem-se, entre tais circunstâncias, as àquele cabendo, através do Senado, as decisões públicas e a
que não permitiram que se l ornasse unia elara diferenciação este correspondendo, através de um inviolável e sagrado tribu-
entre a sociedade c i v i l e o listado. F n t ré as m ú l t i p l a s conse- nato da plebe, o direito de veto das decisões senatoriais. Esse
quências dc.s.sa nãu-difereneiacâo. os seniços públicos não l oram sislema não se revelou capaz, a longo prazo, de conduzir a
i d e n t i f i c a d o s como um serviço prestado pelo F.slado ã sociedade uma concepção unificada da cidadania política, que assegurasse
c i v i l , por cujos ciMos es-la devesse se responsabilizar. Em conse- a soberania popular e a escolha dos magistrados por um eleito-
quência, não se formou a ideia de uni sistema t r i b u t á r i o objetivo. rado único. A crise do sistema, sem prejuízo de outros fatores,
li m seu lugar, persistiu o costume das pa^tacõe*; pessoais, às conduziu à crise da República e à resultante solução, depois da
custas das classes abastadas, que gerou Ioda sorte de problemas ditadura de César, do principado de Augusto. Algo de reminis-
financeiros e políticos, cente, em termos muito mais estruturados e institucionalizados,
Entre as limitações específica^ tia democracia ateniense, en- da antiga tirania grega."
t r e t a n t o , é pacífica a constatação de une a i n e x i s t ê n c i a de ins- A fdade Média assistirá à reemergência de alguns princípios
tâncias mediadoras da v o n t a d e popular, i n c l u s i v e de magislra- democráticos, A ideia da responsabilidade do príncipe, ante o
luras, no sentido que seria conhecido e desenvolvido pelo mundo povo, desenvolvida pêlos tratadista; medievais, desde Santo To-
romano, privou o siilem;i político de Atenas de estabilidade. K más, será favorecida pela controvérsia entre o Papa e O Impe-
terminou conduzindo à mina o resume c o Estado. rador. Os gibelhios, para conter as pretensões papais, acentuam
F. interessante observar que o sislema político romano foi apto o caráter secular da autoridade, implícita ou explicitamente vin-
a solucionar muitos desses problemas, ü direito romano dife- culada ao consentimento do povo. Os guelfos. p n rã justificar
rencia, claramente, a área privada da pública, tornando possível a preeminência p a p a l , destacam os l i m i t e s do poder imperial e a
estabelecer-se critérios objetivos c universais para o relaciona- subordinação de- su:t l e g i t i m i d a d e aos mandamentos divinos,
mento dos indivíduos com o Estado. O sistema político ro-
mano, por outro lado, desde seus momentos incipientes, desen-
'" d'. F. l! *.iL'.>iA Ktiiuttu 1'tiliiiiii! lilcíis tniil 1'rntires. Anu Arbor, Univ.
volve o conceito das magistral viras públicas, com competências oí Midiiu.m l1!!-^ I l i54; vidi- irimlicin \1:irin A l l i l i o !,evi, 1'olitk-al l'owcr
específicas e mandato por prazo determinado. Tal circunstância in thi' Andem \Vvild, "Ni;w York AiïiL-rkan Lihrary, 1965.
possibilitou a formulação e execução, de forma consistente, de " Cf. M.irio A t l i l i o Ltvi. Political /'ou w in lhe Ant-icttt World, NL'W Yurk.
New American [ . i h r a r y , 1965, p. 161) e segs.
34
Para intentar responder a tais questões é necessário proceder
e ao bem comum, no duplo contrato do príncipe corn Deus e
a um duplo esforço. Importa, em primeiro lugar, identificar as
com o povo.20
experiências históricas mais relevantes cm matéria de desenvol-
A controvérsia religiosa suscitada por Luiero terá, a partir de vimento democrático e buscar compreender, cm cada caso, como
fins do século XVI, efeïlos equivalentes ao conflito tio papa tal experiência se realizou. Em segundo lugar, uma vez esta-
com o imperador. Os prolestantes, para justificai' sua liberdade belecido um quadro comparativo dessas experiências, deve-se
religiosa, são conduzidos a restabelecer na sociedade um espaço icnlar determinar as condições denlro das quais leve lugar cada
para a liberdade individual, com as amplas implicações políticas uma dessas principais experiências e daí inferir os requisitos de
de tal exigência. Delas decorrerá, sem prcjuiVo de outros fato- ordem mais geral que condicionaram o processo democrático e
res, a revolução inglesa, nas sucessivas etapas que a conduzem seu maior ou menor êxito."
de Cromwell a Guilherme de Orange. Por razões distintas, os
monarcômanos católicos são levados a equivalentes exigências.21
Ë com a Ilustração, entretanto, que se processa o redescobri-
mento da teoria democrática, fundada nos princípios da liber-
dade e da igualdade." A concepção de que a única forma de
autoridade política legítima é a que decorre do consentimento
dos cidadãos se generaliza pela Europa, do século XVIII à pri-
meira metade do XIX e conduz, sob formas várias, a subor-
dinar o arbítrio dos príncipes às deliberações dos representan-
tes do povo. Consolida-sc c se expande, assim, a democracia
ocidental.

A problema!iça
Essa extraordinária carreira histórica da democracia suscita
algumas perguntas fundamentais. Como foi possível, a despeito
das desigualdades sociais que se manifestam tanto na Grécia
clássica como na Ftiropa moderna, i m p r i m i r vigência c viabili-
dade efeliva ao princípio democrático? Como se logrou evitar,
nos casos cm que a democracia se desenvolveu e consolidou,
que o potencial de irracionalidade conlido em muitas expecta-
tivas populares ficasse m a n t i d o denlro de limites que preser-
varam, ruiMcamente, a validade de decisão dos governos demo-
cráticos? Por que a democracia teve êxito em determinados
países c em determinadas ocasiões e não em outros? Ou seja,
para ver as coisas em seu sentido mais amplo, dentro de que
condições o experimento democrático se revelou viável, está-
vel e válido?

!U
Cl'. George Siibine, Historia de Ia Teoria Política, México, Fundo de
Cultura Económica, 1945, Caps. X1T, XIV 6 XV. •'•' Cf. Ernsl Cassirer, Filosofia de Ia Iluslracïón. México. Pondo de Cultu-
21 i:t Económica, 1943; vide lambem. Benno von Wiese, La Cultura de Ia
Cf. J, W. Allen, A History of 1'olitical Thought in thc Sixíeenih Cen- Ilustrado», Madrid, Centro de Estúdios Conatitucíonales, 1979.
lury. New York, liames & Noble, 1961.
37
Esse sistema hierático, de que o império persa será a úl-
tima c a mais abrangente expressão, encontrará seu término
com a irrupção, na história ocidental, e suas repercussões, no
Oriente, da aventura grega, com seu prosseguimento através
do mundo hclenístico e, posteriormente, do romano." Essa aven-
t u r a , entretanto, se marcada pela superação da visão mágica
do mundo por uma visão racional, que permitirá experimentos
democráticos cm algumas cidades gregas e, em certa medida,
na República Romana, se revestirá de um autoritarismo mili-
BREVE COMPARAÇÃO HISTÓRICA tar na sua expansão mundial, com o Império de Alexandre, os
reinos helenístieos e o Império Romano.
O autoritarismo será. também, a marca das sociedades tradi-
cionais que se configurarão na sucessão do Império Romano.
Somente na Europa Ocidental, depois da revolução puritana
OS CASOS RELEVANTES c da Glorioiis Revoluiion, na Inglaterra do século XVII, e da
Ilustração, no século X V I I I , ressurgem sociedades baseadas em
A democracia na história princípios racionais c democráticos. Assim mesmo, as socieda-
A democracia, como forma de organização política da socie- des modernas e contemporâneas, no próprio mundo ocidental,
dade, ainda que entendida na sua m.iis ampla acepção, é uma resvalam frequentemente para formas ideológicas ou pragmáticas
ocorrência historicamente rara, notadamente no que se refere de autoritarismo, quando confrontadas com agudas crises sociais.
aos casos dotados de relativa continuidade. Se as formas fami- A contemplação geral da história, portanto, conduz indubita-
lísticas da autoridade, nas sociedades tribais, ostentam algumas velmente à constatação de que o experimento democrático tem
características de uma democracia de chefes de linhagem, o trân- sido algo de bastante raro, que só logrou êxito estável cm Atenas,
sito da autoridade familística para a autoridade territorial se de Solou a Dcmóstencs, teve intentos apreciáveis, no curso da
deu sempre sob forma autoritária. O autoritarismo político República Romana, ate" Mário c Sila. e, finalmente, logrou um
se acentua com a revolução urbana e a formação dos grandes perdura v u I exilo na Europa Ocidental e áreas da dircta influên-
impérios antigos, seja nos caisos paradigmáticos do Egito e da cia desta, a panir do scculo X V III.
Mcsopoiãmia, seja nos easos de culturas tão afastadas umas
das outras como as da América pré-colombiana, a do vale do
Indo ou a do vale do rio Amarelo. Os roteiros da democracia
Vista a história em sua generalidade, observa-se que a civi- A observação histórica, ademais da raridade do fenómeno
lização surge, com a revolução urbana, no desenvolvimento final 'Imiotrãtico, revela também que o mesmo se realiza dentro de
do neolítico, sob a forma de culturas mágicas, em que o poder i crias constantes e seguindo certos roteiros alternativos. Isto a
político esiá intimamente assoeiado ao sagrado, quer porque o •Icspcito do fato de que os experimentos democráticos se dão
rei seja, como no Egito, uma encarnação do deus, quer porque •m sociedades tão distintas c tão separadas, no tempo e nas
os deuses sejam, como no caso surnero-acadiano, donos da terra nas características socioeultiiniis, como a grega clássica e a
e da cidade e a administrem por intermédio de seus sacerdotes. airopcia moderna, nesta ú t uma sendo também consideráveis as
As culturas mágicas são hieráticas e gernm formas sagradas do iMVrenc-is, por exemplo, que medeiam entre as inovadoras expe-
absolutismo político;'' • üL-iicias de governo parlamentar, na Inglaterra de Locke ou de

21
Cf. [iL-nri F n i n k f o r l , The liirth of CiwUzaticin in lhe Mitldle Ea-,1, Car- ('[.. i-ntrc outros, T. A. Sinclair. A Uistory of Grcck Poli t içai Thought,
Joi Cily, llíHihli-Jay. l%2 L' S;ihalino Moscati, 'lhe ince aj the Anciant -vcliind, Meridian BooKs, 1968. p. 229 c segs.
Orient. üarilen City, Anchor Booke, 1462.

38 39
como nos casos da Espanha e de Portugal. A tendência, empiri-
Benlham, e o curso retardatário da democracia, na Espanha ou camente constatável, à referida sucessão de etapas, se apresenta,
em Portugal. assim, dentro de certas alternativas de roteiro.
De um modo geral, em todas as sociedades em que O pro- No caso da Europa Ocidental três principais cursos s tio obser-
cesso democrático logrou se realizar com certa plenitude, observa- váveis. Um desses cursos apresenta uma acentuada predominân-
se que ele consiste, essencialmente, em uma continuada am- cia gradualista, embora não isenta de fortes tensões soeiopolíticas.
pliação dos grupos sociais admitidos a participar da decisão Tal é o caso da Grã-Bretanha, dos Países Ra!sós e dos países
política, dos mais altos aos mais baixos. Esse fenómeno, que escandinavos. Um segundo curso observável tem características
atualmenle se designa como ampliação da franquia, se realiza, marcadamente dialéticas, acusando fortes retrocessos autoritá-
por sua vez, mediante uma sucessão de etapas. Tal sucessão rios e apresentando elevado teor de violência revolucionária e
jamais c perfcitnmcníe linear, pacífica e gradual e tampouco anti-revolucionííria. Tal é o caso da França, da Alemanha e da
exclusivamente dialélica, revolucionária c abrupta. Independen- Tíália, Um terceiro roteiro, observável na experiência europeia
temente, entretanto, do modo como se combinem ou alternem moderna, i o d e sociedades cujo processo democrático se realiza
as mudanças graduais e relativamente pacíficas com as abruptas de fornia retardatária, corno ocorre nos casos da Espanha e de
c mais ou menos violentas, observa-se uma nítida tendência, no Portugal.
processo democrático, à já referida sucessão de etapas. Na presente pesquisa se; «o examinados, compara (Í vãmente,
A democracia, com efeito, se inicia, com Sõlon, na Grécia alguns dos casos típicos de desenvolvimento democrático, na
e com as monarquias constitucionais, na líuropa moderna, como Grécia 1 clássica e na Europa moderna e contemporânea. Escapa
uma democracia de notáveis. Trata-se, fundamentalmente, da aos objetivos desta pesquisa proceder a uma analise exaustiva dos
introdução, nas precedentes formas autoritárias de governo, mo- experimentos democráticos do mundo. Houve outros importan-
nárquicas ou oligárquicas, do princípio e da prática do consen- tes experimentos democráticos na C ri cia clns^ica, alem do de
timento dos governados, por parte de ti m grupo social mais Atenas, embora nenhum tão abrangente e continuado como o
amplo, embora restrito aos estamentos superiores da sociedade, desta e. ademais, relativamente tão bem conhecido. A República
que fala em nome desta, impõe regras de procedimento à to- Romana, que aqui será mencionada de forma incidente, atingiu
mada de decisões políticas e delas participa, com básica igual- importante margem do que se poderia desipnar de democracia
dade de direitos entre os membros do grupo. Quando o expe- por convénio de classes, com o controle do Senado pelas classes
rimento democrático tem êxito, a esta etapa se segue, embora, superiores e do t ri bu nato da plebe, por esta última. Houve,
frequentemente, não sem interrupções de sua continuidade (como lambem, na Europa moderna c contemporânea, outros experi-
a tirania de Pisístralo ou o interregno de Napoleão), uma outra mentos além dos precedentemente referidos, como o da (3rocia
etapa, de participação mais ampla, a da democracia de classe moderna ou o dos países da Europa Oriental, antes de sua
média Assim ocorre, em Atenas, com Clístcnes e, na Europa, submissão a um modelo sócio político de l i pó t ovirlico. Haveria
com Luís Filipe, por exemplo. A terceira e última etapa dos que mencionar, por outro lado, experimentos de democracia de
experimentos democráticos que logram ^eu pleno desenvolvi- notáveis, nas cidades renascentistas, ou diversamente, a expan-
mento conduz, passando por graus variáveis de turbulência socio- do da democracia europeia para as Américas e países da
política, a uma democracia de massas, como no caso da Atenas Commonwealíh, com os notáveis casos, na Ásia. do Tapão e
de Póriclcs e, na Europa contemporânea, com os experimentos de < l a índia contemporâneos.
MaeDonald, na Inglaterra dos anos 20, e do Fremi Populaire, Um estudo abrangente das experiências democráticas na his-
na Franca dos anos 30, experimentos esses que se consolidarão ló ri a universal constituiria aipo de extremamente importante,
e generalizarão, depois da Segunda Guerra Mundial, com a demo- ',oh todos os aspectos. Extravasaria, entretanto, o objetivo cen-
cracia social do wctjare state europeu. n;il da presente pesquisa, que é a compreensão dos problemas
Essa observável serJaçíïo de etapas, na história dos experi- com que se defronta a instauração, nas condições atuais do
mentos democráticos, não se realiza, entretanto, de modo uni- Brasil, de uma democracia estável. Par» tal propósito, í sufi-
forme, havendo casos em que a etapa intermediária, da demo- t i n i t e a análise díacróniea c comparativa de uma amostragem
cracia de classe média, não chega a se consolidar plenamente,
41
40
significativa, como ;i da Atenas clássica e a dos países euro- U óhiJo culegiadu que superintende a vida da cidade, o Areó-
peus supra-ré f cridos. Com relação a e^les últimos, proccder- pa[>o. ê um conselbo de anciãos da nobtxva, cm que têm assento
sc-ã de acordo com os três roteiros alternativos precedentemente i>s u\-Jtrcontc!:. A Hcclesia, como assembleia popular integrada
meneionados: o dos países de gradual evolução democrática, o pelas classes altas, que constituem a cidadania ativa — eom
dos que tiveram um curso dialético c os de carreira retarda- exclusão dah miissas, do plclhos, que formam a cidadania pas-
tária. Tal estudo conterá, no íinal, algumas indicações sobre siva -•• toma as decisões básicas, já ostentando características
o processo democrático, na história dos Estados Unidos e da que prenunciam uma futura democracia de notáveis.
América Latina. Hm i m p o r t a n t e passo, na dircção da institucionalização de-
Na seguinte seção da presente pesquisa proeeder-se-á ao es- mocrática de Atenas, é dnclo com a adução, em 624, do código
tudo dos momentos de relativa democracia observáveis na pró- do Drikun. A l e i , para a Grécia arcaica, é uma disposição de
pria experiência histórica brasileira, a parlir da Independência, cHíiem d i v i n a , que participa da harmonia geral do cosmos. A
com a discussão das condições que tornaram possíveis tais mo- uilcrvenção dos homens não consiste em produzi-la, mas em
mentos e que, eventualmente, vieram a conduzi-los a uma si- l e v e l ã hi e interpretá-la, função essa que era exercida, com
tuação de crise. c \ekisi v idade, pêlos anciãos da nobreza, através do Areópago.
A i n t r o d u ç ã o de um código penal escrito, como o de Drãcon,
t e v e o m é r i t o de d e f i n i r , de forma universal e pública, as dis-
A DKMÜCRACIA A P K N L L N S n [HIMÇÜCS da lei cm m a t é r i a c r i m i n a l , assim restringindo o arbí-
t r i o do Areópago.
l!asc preparatória (.'oncomitantemcnte eom a i n s t i t u c i o n a l i z a ç ã o da polis, o sc-
Ultimada, no século V I I I , a unificação da Aliea. sob a forma
culu \ l l conduz a uma crescente expansão comercial. Atenas se
(k; um Vistado-cidade com base em Atenas, o século seguinte
loriui um empório m a r í t i m o de intercâmbio de mercadorias, ex-
conduziu à estruturação da instituição de uma sociedade aristo-
]\iri;nií](.i a/cile. cercais e produtos manufaturados cie cerâmica
crática, sob o controle de sua nobreza, os ctipalriclai. A realeza,
c i m p o r t a n d o certos géneros alimentício 1 ;. A expansão comercial
caindo cm gradual desuelude. é finalmente aboüda, em 6S2,
H'[>CK'ute p r o f u n d a m e n t e na vida socincconômica da cidade. Gcra-
substiluindo-a a instituição do arcontado. Criam-se, inicialmente,
•-c uma economia crescentemente monetária, com uma lavoura
três areontes, com mandato a n u a l , um deles, o basileus, com
a:, antigas funções religiosas do rei, outro, o polemarca, com o i i e n l a d a para a e\|x.riação. fuirjje e se expande uma burguesia,
funções militares, e um terceiro, com funções civis. Posterior- í';i-eaJa na riquc/a m e r c a n t i l e na propriedade de navios, em-
mente, seis arconles juniores, os thcMnotliftm.'. serão incumbidos i i i c e n d i m e n l ü s esses de que também p a r t i c i p a m membros da no-
de funções judiciais e de guardiães da lei.- 1 hc/.a. l'or outro lado, estimuladas pela e\por(aeão, as grandes
p i o p r i e i b d e s rurais se desenvolvem às expensas da pequena la-
K
Cf.. L-nlri; ouí[•£>«, p;ira os as nuc !'.><• polílicos. IcórkMs c prálu-oi,
v o u r a . !"s!a, f o r c a d a pela monetari/acão da economia a levantar
R j i r k e r , drcek l'o!::ica! Th<-or\\ l omlon Mclhui-n, Is"i2; M I. Finkv. l'o- i-nipréslimos, a juros altos, leva os pequenos lavradores a se en-
liticN in ihí' Aiicit-ut WiírStl. ( ' i i m h r i í l j j c . Cíinihriilíio U n i v . I'n:"i. 19RT; Hclio • ';; i i l a r e m c a perderem seus bens e sua p r ó p i i a liberdade, sob
liijjuaribi', or£. A Drniticrucia Grc;'a. linuília. Ktl. U n i v . de lirasília, 1981;
Mário Allilio l . c \ i . Potitiffd /'mirr in lhe Anclt-ií! World. New York. New .1 l o r r n a rie servidão por dívida.
A m e r i c a n L i b r u r y . 196') e M ü r . J i m t ü I. 1'arenle, Citlà e jtr^imi 1'ohtlci ncí O I r á n ^ i l o do ^étimo para o sexto século, cm Atenas, é assim
l'cni,ií'ru Grcco. Toríno, l OIT L'h f.'r. WO. Para as. U]stiH.iv~>L-h tia cUliiclc p repa
ü u i v a d o pelo contraste e n t r e o desenvolvimento económico do
v i d e Gustave Ulotz, La Cüc (•rccqur, l';iriv Alhiti M i c h c l . l%8 e Kathk-cn
Ki-eeinan Greek Ciiy Sítitcs. New York Norlon, l'K>"! P n r a o desenvolvi- !'M:tdo-eidade e o a p r o f u n d a m e n t o da crise social, que atinge
mento liihLórico. viile M. lïosliivlzcv. Cn-ccc, N';w ï ork, Ü\foríl Llniv [Miiporçoes pré-revolucionárias. Nessa, corno em algumas outras
i'i-tí3, !%() c os V u l í 1\' C V tia Ciunl>riil('L' Anci,'iil í/íVcrv. Cuiiihrklp?.
. K ;].-.ioes de en-;e. ;^ ehisses altas atenienses deram prova de cie-
The U t i i v . Prcis. Sohr« Véricles. t m p;irlicnl:ir, \itk- A li. lïiiniï, Pericics
um! Mhens. New Y o r k . Collicr lïixiks, 1948 i- rrjnçoii Chülek-t. 1'cricli",. v , i d a sabedoria política. Buscam uma soUicão imaginativa para
Paris, KJ. CompkxL-s. 1969. ' v i u i r os riscos de uma guerra c i v i l e Sólon. da mais alta no-

42
breza, descendente do último rei de Atenas, famoso por sua sa- quista Salamina, num engajamento que mobilizou Ioda a cida-
bedoria c independência, c designado arconte único. dania e na qual se distinguiu, como general-eoniandanle, i'isi's-
trato, de ilustre família nobre. O prestígio conquistado por Pisis-
frato facilitou suas ambições políticas. Tornando-se chefe dos
Democracia de notáveis setores populares, que aspiravam a mais profundas reformas su-
As reformas de Sólon, cm "Ï94, abrangem amplos C importan- ciais, Pisístrato, depois de dois intentos de curta duração, logrou
tes aspectos da vida económica, social e política de Atenas. No instalar-se solidamente (546-327) na tirania de Alertas, prolon-
plano económico, Sólon determina o cancelamento das dívidas, gando-a, depois de sua morte, através de seus filhos Hípias e
com a extinção do i n s t i t u t o da servidão por dívidas, liberação Hiparco (527-510),
dos que se adiavam em tal estado, e resgate, pelo erário público, A t i r a n i a de Pisístrato é um exercício moderado e ilustrado
dos que h a v i a m sido vendidos ao exterior. Fixam-se úrcas máxi- de mediação social, que conduz ao aprofundamento e à conso-
mas para ns lavouras, de sorte a conter os latifúndios e se esta- lidação das reformas de Sólon, reduzindo o poder da nobreza e
belecem novas regras sucessórias, visando a uma melhor distri- facilitando aos camponeses acesso à terra c aos equipamentos
buição dn propriedade. A exportação de cereais, que condu/ira agrícolas. Pisístrato dedica também particular atenção ã cultura.
a uma forte elevação do preço interno, é proibida, para manter estabelecendo o texto escrito dos poemas de Homero, desenvol-
baixo o custo da alimentação, reduzindo-se a exportação agrí- vendo as panalenéias, as dionísías e outras festa" cívicas e dando
cola à do óleo de oliva. início ao embelezamento da cidade. A construção do Odeon,
No plano social. Sólon reforma :i estruturação da sociedade onde se recitavam os poemas homéricos e do Hecatompedon, pre-
ateniense, adulando u m a diferenciação de base económica, e não decessor do Partenon, marcam esse momento de transição da Ate-
gcntHícia. criando q u a t r o classes de cidadãos: 11 os peiitakosio- nas arcaica para a clássica.
mcdimnoi, proprietários produtores anuais de pelo menos 500
medimni (equivalentes a cerca de 22.300 litros) de milho, incum- icia Í/L' c!a\se média
bidos de ítrmar as t r i r r e m e s da frolai 2) os hippcis, produtores de A tirania de Pisíslrato e de Hípias, embora politicamente
mais de ïOO m e d i n i n i , incumbidos da cavalaria; 3) os zeiigitae, de. caráter repressivo e antidemocrático, constituiu, na verdade,
produtores de mais de 200 m e d i m n i . formadores da infantaria do ponto de vista cconómieo-social. um aprofundamento das re-
pesada dos lioplitas c 4) os íhclcj-. tniballiadores braçais, que formas de Sólon, que d e f i n i t i v a m e n t e eliminou a supremacia dos
serviam como remadore= ila lïola e como i n f a n t a r i a ligeira. citpalridai c, desta forma, criou condições que facilitariam o Irãti-
No plano político Sólon reserva às duas classes mais aitas o b-ilo de Atenas para uma democracia de classe mediu. Esse trânsito
acesso ao arcontado. mas c o n s t i t u i um t r i b u n a l popular, cujos será efeluado por outra eminente figura da nobiv/a ateniense,
membros são eleitos por todos os cidadãos, redu/indo-se o Areó- Clístenes.
pago à função de t r i b u n a l penal. O Conselho de 400, bmilc. in-
Derrubando a t i r a n i a de H í p i a s com apoio espartano, em
tegrado por membros das três classes mais a l t a s , se constitui como
' ï i ü , Clíslenes logra, mais tarde, desvencilhar-se de seus cir-
o órgão orp.ani/ador da v i d a p ú b l i c a e encaminhador de propos-
cunstanciais aliados lacedemômos — que haviam, previsivelmente.
tas à Assembleia. As leis se tornam escritas c públicas.
passado a apoiar as forças uligãrquícas em Atenas — e, com
As reformas de Sólon criaram as bases da democracia atenien-
['orle respaldo popular, introduz em 508-507 sua reforma cons-
se, sob a forma de uma democracia de notáveis. Mas, se logra-
liiucional.
ram evitar os riscos da guerra c i v i l , não conseguiram instaurar a
desejada concórdia social. Os ricos não se conformaram com as Como as de Sólon, as reformai- de Clístenes abrangem um largo
perdas sofridas com o cancelamento das dívidas e os pobres jul- espectro da vida pública ateniense. A base ^oeinl dessas reior-
garam insuficientes as vantagens alcançadas, notadamcnte por üiíis a partir do principio geral da isonomia. ou igualdade de
falta de acesso à propriedade da terra. 'lii-eito, consiste cm reeslruturar a organização soeiopolítica da
Entrementes, continuava a expansão económica e também mi- polis, no sentido de a democratizar cm profundidade, superando
litar da polis. Em vitoriosa guerra contra Mégara, Atenas con- .is divisões genlilícias e o f accionai ismo localista.

44 45
r, rs_ n es, c-

pêra r o faccionalismo regional


tigas Iribos genlilícias, passandi

porá aos novos danes numeroE


pendente da vinculacão ao de
se subslilucrn às antigas phra\
t/> -O 3

camponeses, no campo, marin

correspondenle, cada série, a i


tivessem represeníação em cadi
são levados à Assembleia,
minïstracão. F todos os assu
dirigida por um demarca. As t
próprios negócios locais, com
prytanco, que dirige os negócii

pcriores da reforma de Sólon.


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designa 50 de seus membros


signando 50 membros para o
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sliluicões conduziriam a uma natural ten-

l omento de institucionalização e de con-

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ai-i-bsii ao arcontado e u de estabelecer modesta remuneração pela cão necessária para a aprovação de tributos. São, enlrelanto, os
prestação de ï e r v i e u s públicos, cujo desempenho sempre fora conflitos religiosos provocados pelo catolicismo dos Stuarts e
g r a t u i t o . C'oni esta ú l t i m a medida p c i m i t i u q u e os trabalhadores pela veemente oposição que este suscita na gcntry e na burguesia
diaríMa.i puderem exercer as m a g i s t r a t u r a " , o que precedente- urbana que irão conicrir o absolutismo do zelo religioso aos es-
m e n t e não NK-S era dado I a / c r . pela dependência em que se en- forços de contenção do arbítrio real.' 6
c o n t r a v a m de > : a n l i a r su;t;> iurnadas. !'or outro l a d n . i m p r i m i n d o Ü primeiro uto desse grande drama se desenrola no reinado
à sua l i d e r a n ç a um profundo scnlidu eívíeo, ilu'-Irado c generoso, de Carlos l, conduzindo à guerra civil de 1642-48, que, termina
que se tornou u m p a r a d i g m a do espírito público esclarecido, mo- com a v i t ó r i a do Parlamento, com as iwndiids de Oliver Crom-
hili/ou a adesão e o e n t u s i a s m o dos melhores cidadãos indusivt; \vcll, sobre o rei i; seus cavaüers. A execução do rei, em 1649,
da aristocracia a t e n i e n s e , de q u e o próprio lYHelcs, eomo um se^ue-se a d i t a d u r a r e p u b l i c a n a de Cromwcll, até sua tnorle,
a l c m e ô n i d a , er.i uni do > m;n^ h d i m u - i v p r e s e n l a n l e s . em 1658. A restauração, por Monk, em 1660, de Carlos II, filho
Com I V l i c l e s . A t e n a s -- e a t r a v é s dela a Grécia clássica — do predecessor, abre um segundo momento nesse processo. Os
n l i i i f r e o seu m a i s alto i m d histórico, q u e r no f u n c i o n a m e n t o in- Sluarls restaurados aspiram, em primeiro lugar, a transpor pura
terno de ma d e m o c r a c i a , quer ti n sua importa lie ia i n t e r n a c i o n a l , a Inglaterra o absolutismo real que h a v i a m conhecido no conti-
quer na MI prema q u a l i d a d e de sua aríe. As c i í t i e a - à democracia uenle. Ademais, desejam assegurar a liberdade de culto aos ca-
alcnieiT-e, embuça apoiadas cin dados ohjetivos. como o da ex- tólicos, n u m processo que condiu o catolicismo a se identificar
clu^ïo da<; m u l h e r e s < l a viila política ativa ou a c > i s l è n c i a da socialmente como uma religião da corte e eomo um princípio lê-
escravidão, não l e v a m em c o n t a o f a t o de que n e n h u m sistema «itimador do absolutismo real.
p o l í t i c o potle M i n e r a r os parâmetros, de sua própria c u l t u r a . N u m a As tensas relações entre o rei e o Parlamento, no período de
c u l t u r a patriarcal anli«:i o papel da m u l h e r cia necessariamente Carlos I I (í660-85) se agravam no reinado de Jaime II (1685-
e o n l i d o nas dimcmões do lar f. a escravidão era unia i n n i t u i c ã o 88), irmão do precedente, c assumem proporções críticas com o
j u s t i f i c a d a , ein ú l t i m a a n á l i s e , por u m a concepção heróica da nascimento, em 1688, do filho deste. Ü público protestante vê
v i d a . O etcravo c. f u n d a m e n t a l m e n t e , o vencido na guerra, qu« no aparecimento de um terceiro herdeiro masculino da casa Stuart
preferiu à morte a condição s e r v i l , em troca da preservação da a ameaça de perpetuação do "papismo" real. Esse temor une,
prónria v i d a . Aeresecnte-se. q u e - d i f e i v n l e m e n l e do i'omano — momentaneamente, a grande maioria dos setorcs influentes da
o escravo a t e n i e n s e , com cxeecão de u n t a m i n o r i a submetida ao Inglaterra no propósito de evitar o risco, mediante a destituição
t r a b a l h o das minas, t i n h a um n í v e l de v i d a e q u i v a l e n t e ao dos do rei e a convocação, para sucedê-lo, de seu genro, o estatuder
homens l i v r e s c percebia, por seu i r a b a l h u , remuneração igual da Holanda, Guilherme de ürangc. Guilherme desembarca com
suas forcas em 5 de novembro de 1688, em Torbay e é recebido
à destes.
pela aclamação popular, que o leva até Londres, forçando [a-
mes II a fugir para a França. Era a Gloiious Ravvlulion. E seria
o começo da gradual aplicação das ideias políticas de Locke.
OI-AIOCRACIAS 1)1 IJr.SrNVOl.VIMr.NTO GRADUAL
Uma Convcncão-Parlamento, convocada após a fuga de Jai-
me- II, condiciona a proclamação conjunta de Guilherme de
íl)
Orange, como Guilherme 111 e sua mulher Mary, de convicção
ÍV/.sï' \'rcparaíÓrla
ü processo de dcmocratÍ7ação da I n g l a t e r r a c sua continuação -'" Para uma história ptral da Inglaterra e da Reino Unido, vide G. M.
pelo Reino U n i d o leni suas ori«ens remotas no uso de consulta 'li-evelyan, Hisíory oj England, New York, Longmans, Green & Co., 1942;
dos notáveis pêlos reis, desde a cnría rcgis dos normandos, e na p.ira unia história iodai, vide François Uúdarida, A Sucia! fiislory of En-
Ktuiid -- ]851-197\ Fng. tr. A. S. Fostcr, LonJon, Mcthuen, 1979; para
circunstância de que, de uma ou de outra forma, tal prática pros- uma análise do sistema político, vide Harold Laski, ParHamenlary Govern-
sejnie ale a Reforma e n Idade Moderna. O Parlamento do sé- ment 111 Eniíhmd, London, Alten & Unwin, 1952 e Ernest Barker, Essays
culo X V I I a i n d a não é um órgão de governo, mas já é a institui- tm Government, Oxford, The Clarondon Press, 2d. Ed., 1951.

48 49
O Reino Unido havia, entrementes, se tornado uma potência
protesiante. f i l h a de (aimc T I , como Maria I I , à aceitação da mundial. William Pitt, durante a Guerra de Sele Anos, soubera
Declaração de Direitos de 1689, que se t o r n a r i a o Hill af Righls,
administrar, com superior entendimento estratégico, os ï n; •_• res-
O documento subordina a decretação de impomos c a mobilização tes britânicos. Apoiando financeiramente a Pnissia, dei.xur:? a
do exercito à aprovação parlamentar, estipula a convocação re-
cargo desta a guerra com a França, na Europa, empregando a
g u l a r deste, sua soberania na aprovação das leis e interdiz os
energia inglesa na expansão, às custas dos franceses, do linpcrio
católicos de ascenderem ao trono, ü Tricnnial Act, de 1696, li- colonial britânico, no Canadá e na índia. Quando, mais tarde,
n i i l a a três anos cada legislatura e prescreve eleições periódicas.
as guerras de Napoleão colocam em grave perigo a hegemonia
O A c t of Lmablishtnent. de 1701. estabelecerá que a sucessão mundial britânica, o segundo Pitt, coordenando as primeiras
de Guilherme Í I I caberá a sua cunhada Anne e, em seguida, à coalizões para conter o Imperador, logra obter um forte apoio
casa de Hanôver, da opinião pública e, assim, limitar o poder pessoal do rei, inau-
O período de Guilherme I I I (de 168') a 1694, em co-rcinado gurando um regime de gabinete baseado no apoio parlamentar.
com M a r i a I I e, isoladamente, depois da morte desta, até 17021, Consolida-se, com o segundo Pitt, uma democracia de notá-
corresponde a uma fase de crescente poder económico e político
veis, operando através de um gabinete que expressa, com cres-
(!n Inglaterra na Kuropa, levando-a a sobrepujar os Países Baixos
cente independência frente ao rei, a maioria parlamentar, sob o
e a a s s u m i r a posição que estys detinham no mundo. Os Stuarts
controle da geniry e significativa parcela de influência da grande
tenlíinio. reiteradarnentc, via Escócia, recuperar o trono, mas burguesia urbana.
sempre sem êxito. Uma fração dos torics, os jacobítas, manterá
sen apoio à antiga dinastia. A genfry e a burguesia urbana se A Grã-firetanha se transforma, aceleradamente, com a Revo-
conservarão solidamente fiéis à Glurious Rt-valulion e constituirão lução Industrial. Diversamente da aristocracia francesa, a britâ-
o grupo whig, que se tornará o partido de apoio do trono pro- nica participa da vida económica do país. Já o fizera no período
mercanlilista e continuará a fazè-lo, durante o processo de indus-
testante e, gradualmente, lormurá a tradição do governo de ga-
binete. Ë entre a maioria ivft/fl do Parlamento que Guilherme I I I trialização. H se é certo que os interesses agrários e os industriais
escolhe seus ministros. Anne continuará ess.a tradição, com Marl- encontram importantes áreas de conflito — como exprime a
borough e Godolphin, até 1710. Depois, passará para os tories longa controvérsia cm torno das com Iaü>s, não é menos verdade
que se forma, na Grã-Bretanha, um conlinuiim social e n t r e a
com Harley e Bolingbroke.
a l t a burguesia e a gcnlry, que f a c i l i t a o enobrecimento da gran-
Os whigs, na oposição, se aproximam do próximo sucessor, de burguesia e o enriquecimento da nobreza. Kssa democracia
lorge [, cujo reino OK devolverá ao poder Jorge II (1727-60) de notáveis, sob o controle político da giMtry. tem por base um
continuará com os \\-higs. Assim, a circunstância de a coroa ser Jsicma de circunscrições eleitorais oriundo do período pré-indus-
detida por príncipes estrangeiros, dissociados do ambiente bri- ( r i a l , que favorece desmesuradamente os distritos rurais, que per-
tânico e que mantinham forte interesse por seus reinos de origem, deram sua população para as cidades, em detrimento destas.
facilitará o processo de gradual transferência das atribuições go- São os famosos "burgos podres", que asseguram a perpetuação
vernamentais para um gabinete dependente tanto do apoio par- da regime.
lamentar quanto do beneplácito real. Robert Walpolc será, de
f a t o , um primeiro Primeiro-Ministro, dirigindo o gabinete de
Í715 a 1717 e, novamente, de 1721 a 1742. democracia de classe média
Com a derrota de Napoleão a Grã-Rrctanha se afirma como a
Democracia de notáveis grande potência marítima e colonial c como a emergente po-
|orge T i l (1760-1820) é o primeiro monarca "inglês", desde icnda i n d u s t r i a l . Oasllereagh e Canning dirigem uma política
a ascunsão da casa de Hanôver. Nascido e educado na Ingla- •\terna distinta da Santa A l i a n ç a , impedindo a excessiva expan-
terra e bem inserido no meio britânico, busca recuperar o poder ,11) das potências continentais e mantendo o equilíbrio europeu.
pessoa! que seus antecessores haviam perdido para o gabinete e i > si&terna político britânico, todavia, c o n t i n u a i n t e r n a m e n t e con-
o Parlamento.

50
Esse estado de coisas persiste até a emergência, com Disraelí,
trolado pela gcníry, suscitando dupla c crescente oposição. A cie uma nova forma de liderança política. Rompendo com Peei.
oposição de uma emergente classe mediu urbana, politicamente
cm 1845, Dis-raeli compreende que as novas condições sociais
marginalizada. B a oposição de uma nascente classe operária, tra-
da G rã-Bretanha exigiam, por um lado, a incorporação cia maio-
balhando c vivendo nas dramáticas condições de que nos falam ria da população ao sistema político. Mas também compreende,
Dickeos e, mais tarde, F.ngels. por outro lado, que as condições gerais de prosperidade do país
As reivindicações obreiras sau violentamente reprimidas (mas- e o extraordinário sucesso de seu capitalismo industrial e colo-
sacre de 1'aiecloo, em Manehesler, em 1819) ruas a pressão da nial davam às classes dirigentes reais possibilidades de exercer
classe média, apoiada pela difusão das ideias cie jientham, encon- uma liderança consentida, e não apenas um predomínio por ex-
tra crcsccnle ressonância. Kssa pressão termina conduzindo o clusão eleitoral do povo.
gabinete a propor, cm 1831, um projclo de reforma eleitoral.
Fortemente resistido pela Câmara dos Lordes, um terceiro pro-
jeto de reforma acaba, com a intervenção do rei, sendo aprovado Democracia de massas
em 1832. Suprimem-se os "burgos podres" e se reelassifiea o elei-
Líder dos Comuns e Chanceler do Kxchcquer. com Lorde Derhy
torado, reduzindo-se o nível censitário. A classe média é abran-
como Prcmier, Disraeli logra persuadir o gabinete, em 1867, a
gida pela Iranquia c o eleitorado britânico se eleva de menos lazer passar uma lei cie reforma que, reduzindo a proporções
de 800 mil para cerca de l milhão de eleitores. O grosso da modestas o limite censitário, incorpora ao eleiíorado os arren-
população britânica, entretanto, c o n t i n u a r á excluído do eleito- datários agrícolas, a pequena burguesia c o artesanato, dupli-
rado, pela preservação do regime censitário. cando o número de eleitores. Logra assim Disraeli criar, pela
A democracia de clnsse média, introduzida no princípio do primeira vez, o núcleo de um partido conservador de massas.
reinado de Guilherme IV (18ÏÜ-37) se consolida bob sua sobri- O ú l t i m o terço do século XIX corresponde, na Grã-Bretanha,
nha e sucessora, a Rainha Vitória (,1837-1901), lïsla desempenha a uma alternância, no poder, entre os conservadores de Disraeli,
o papel de monarca constitucional, que prefere os conservadores
que sucede a Lorde Derby cm 1868 c volta a chefiar o gabinete
(que emergem do antigo partido íory) aos liberais (que emergem de 1874 a 1880, e os liberais de Gladslone (1868-74, 1880-85,
do antigo partido whig) mas, embora interferindo mais nos as- 1886 e 1892-94). Esse fim de século assinala o início da for-
suntos de governo do que o fariam os reis posteriores, é apta a
mação de uma democracia britânica de massas. A prosperidade
conviver com gabinetes que não são de seu agrado c deixar seus
britânica prossegue, até à Primeira Guerra M u n d i a l , berrt como
ministros administrarem o país.
a expansão do Império, apesar da hostilidade ctieo-soeíal que
O período que corresponde às três primeiras déeadas do rei-
nado de Vitória conduz à completa industrialização da Grã-lire- lhe tem Gladstone. Internamente, prosseguem as medidas de li-
tanha e à consolidação de sen império colonial. Concomitantc- beralização política. Voto secreto, em !872, voto amplo em 1884,
menle com a crescente prosperidade do país, e n t r e t a n t o , agrava- sufrágio universal masculino em 1918. O f e m i n i n o só viria em
se a crise sociopolílica decorrente da marginaliznção das classes 1928.
populares, tanto econòmico-socialmeníe quanto politicamente. A Os movimentos sociais acompanham, na Grií-firefanha, o pro-
reforma de 1832 satisfizera a classe média iluslnida mas manti- cesso de liberalização política. Em 1881 Hyndman cria a Fe-
vera O regime censitário, excludente da maioria da população. deração Democrática, que se torna, cm 1884, a Federação So-
A falta de representação política das massas prolonga, de maneira eiai-Democrálica, de orientação marxista. Em 1888 Kcir Hardie
crítiea, as extremamente precárias condições de trabalho e de f u n d a o Partido Trabalhista Uscocês. O Indcpcndcnt Lábour
vida do proletariado britânico de meados do século XÍX. O 1'arty, com Hardie e MacDonalcl, surge cm 1893. O atual Lábour
movimento cartista mobiliza um gigantesco apoio de opinião pú- !'arty c fundado em 1906, resultando da fusão do movimento
blica, para a introdução de novas reformas, durante as décadas sindical com o pensamento de vanguarda dos intelectuais da
de 1830 e 1840, b e m que as classes dirigentes, entretanto, se dei- 1'íibian Society, como os Webbs e Üernard Shaw.
xassem sensibilizar.
53
52
lados Gerais, para o conjunto dos Países Baixos, como assem-
O princípio do século XX é marcado por uma 1'otte tomada bleias dos notáveis da região."
tle consciência social por parte dos liberais. A mobilização das Corno no caso da Inglaterra, com os Stuarts, a desestabilização
pressões populares, que passam a se canalizar através do Labour do sistema político dos Países Baixos decorreu da explosiva com-
1'ai-ty. induzem os liberais, sob a liderança de I.loyd Georgc, com binação dos conflitos de religião com o absolutismo monárquico
Asquith como Premier, a adotar uma série de medidas sociais de Felipe 'II. Área de alta cultura, em fins do século XVI, a
— que superam, com apoio do Rei ïorge V (1910-36), as resis- Flandres e regiões circunvizinhas foram o berço da devutio mo-
tências da Camará dos Lordes — introduzindo na Grã-Bretanha derna, predecessora da Reforma. Daí a rápida expansão da Re-
as bases do wcllare state. forma, a partir da segunda década do século XVI, nas provín-
Após os difíceis anos da Primeira Guen-a Mundial, o Labour cias do Norte dos Países Baixos. Carlos V lenta impedir essa
Party experimenta um extraordinário crescimento, tornando-se o expansão eom o apoio dos notáveis da região que se mantinham
segundo partido parlamentar, a partir de 1922. Fm 1924 Mac- fiéis a Roma. Contrariamente, seu herdeiro, Filipe II buscou,
Donald logra, com o apoio dos liberais, constituir o primeiro concomitantemente, impor o absolutismo real e um catolicismo
governo trabalhista da Inglaterra e do mundo. A experiência não de estilo espanhol, apoiado pela Inquisição. Fssa dupla pressão
terá longa duração. Mas, duas décadas depois, cm um novo após- se revelou insuportável para a nobreza e a burguesia dos Países
guerra, o Labour 1'arty adquire, isoladamente, a maioria absoluta Baixos, notadamente no caso das províncias protestantes do
do Parlamento, levando Clemenl Alflcc a se substituir a Churchill. Norte, da região que viria a formar a Holanda. Desatendidos em
o vencedor da guerra. A Grã-Bretanha se consolidava, definiti- seus apelos cm prol de moderação religiosa e da preservação
vamente, como uma democracia social. E a partir de então os de seus privilégios, os notáveis, com grande apoio popular, se
aspectos fundamentais do novo regime adquiririam grande es- revoltam, sob a direção de Guilherme de O range, o Taciturno.
tabilidade. A alternância dos conservadores, no poder, deixou Filipe TI manda o Duque d'Alba exercer impiedosa repressão.
Guilherme, por seu lado, com base nas províncias de Holanda
de significar um repúdio à democracia social c passou a repre-
e Zelândia, organiza um exército para resistir aos espanhóis. F.ra
sentar, principalmente, uma alternativa de administração desta,
a rebelião dos gueux, que se prolongaria de 1568 a meados do
mais apoiada no sctor privado e menos expansiva do sctor pú- século XVII.
blico. No processo, acentuam-se, irreversivelmente, as diferenças en-
Ire as províncias do Norte, calvinistas e de língua flamenga, e as
do Sul, católicas e de língua francesa. Estas, com o tratado de
(2) BAIXOS Arras (1578), logram um acordo com a Espanha que lhes as-
segura as liberdades provinciais. As províncias do Norte, pela
Fase preparatória União de Utrccht (1579), formarão as Províncias Unidas, sob
As 17 Províncias dos Países Baixos se achavam, cm meados Guilherme de Orangc. Seu f i l h o Maurício de Nassau, que, de-
do século X V I , submetidas à unificada autoridade de Carlos V. pois de seu assassinato (1584) o sucede, eom apenas 17 anos de
O Imperador herdara a maior parte, da região de Carlos, o Teme- idade, finalmente consegue, com apoio inglês, um armistício com
rário e u l t i m a r a , por conquista, a submissão das províncias fal-
tanles. Maria de Hungria, irmã do Imperador, assistida pelo
'' P.jra uma visão de conjunto d[i Holanda, vide Bartholomew Landneer,
Conselho de Hslado, pelo Conselho Privado e pelo Concelho de l dil.. La jVac/üii Holandesa, Mcxito, FonJo de Cultura Económica, 1945;
Finanças, dirigia os Países Baixos, como Governadora Geral, iiik lambúnl. Michel Mourrc m. Dictiimiiair? d'llii.twre Llnivarscllv, o vcrhe-
n- "Hólpii|ii-j". pp. I 4 7 - 1 Ï 2 . í',11-,1 :i i-Mihiçíio histórica díi H ü l u n d e c <ln Üélgi-
com sede em Bruxelas. O sistema político adotado por Carlos V i : i . vide LÜÍIÍÏ I l i i l p l i L - n . 1'hiliopc Sapiiai: i'i ti!.. ;i mau-ria f o n s l n n i e dos volu-
lograva, de forma bastante e q u i l i b r a d a , combinar a administra- nii-s X l l i (/.u Kfvolinion l'ríiiiçtii>,c) ;i XX l/,d liúUite de !a Paix), da sírie
ção das Províncias pelo Governador -Geral, como representante fftiplcs et CiviliwlivHs, -ü vü!s., Pisri;-. PIT, 1Q4&- 1 )). Sohre os aspectos
• .^ILHÏ, L L un[L'j]ipotJii]L'ii'.. v i d i - \. R. K ; i i i n - C \ i i K Í k L . Cvmpilrultvti Social Ptí-
do Imperador, com uma certa margem de autimoverno. através li'\< and Social Securít\, New York. Piinelloii. 1973.
dos Estados Provinciais, no nível de cada Província e dos Fs-
55
54
depois de uni acordo entre católicos e liberais, na área belga,
a Espanha (1604) que praticamente assegura a independência era Í828. A revolução francesa de 1830 produz uma sublevação
das províncias do Norte, Esta seria formalmente reconhecida em Bruxelas e desencadeia o movimento de independência da
pelo tratado de Westfália (1648) como República das Províncias Bélgica.
Unidas. O reinado de Guilherme I é marcado, cm seus últimos anos,
As Províncias Unidas terão uma extraordinária expansão co- por conflitos entre o autoritarismo real e a oposição liberal.
mcrcinl. marítima c cultural durante a primeira metade do sé- Jolian Thorbecke, líder dos liberais, compele o rei a renunciar,
culo XVH, apoderandosc de importantes cnclaves coloniais que assumindo seu filho. Guilherme II (1840-49). Este, depois de
pertenciam aos Impérios espanhol c português. O final do século, parecer continuar a política do pai, muda radicalmente de posi-
todavia, ó de relativo declínio, marcado por derrotas nas guerras ção e, em 1848, contra o parecer de seu próprio gabinete, con-
com » Inglaterra c com Luís XIV. A outorga do trono inglês cede uma reforma constitucional diretamente inspirada por Thor-
a Guilherme de O range, bi&neto do Taciturno (1688% não ttouxe becke, reduzindo, os poderes do rei e aumentando os do Parla-
particulares benefícios para as Províncias Unidas. O declínio do mento. Mantcm-se o sufrágio censitário para a Câmara Baixa e
país se acentuaria, r.o século XV1H. com a prática conversão se torna a Câmara Alta elegível pelas assembleias provinciais.
das Províncias Unidas cm satélite da Grã-Brctanha a partir da
guerra d» Sucessão da Espanha (1702-11) e, no final do sículo, Entrementes, a Holanda experimenta ura vigoroso desenvolvi-
com o desenvolvimento da revolução francesa. O "partido patriota". mento económico. Guilherme I havia realizado um importante
representando as ideias francesas, põe cm cheque a autoridade programa de obras infra-estrulurais, abrindo canais e ferrovias.
do cstiitudcr Guilherme V. A invasão da Holanda pelas tropas No curlü reinado de Guilherme I I tem origem um surto de desen-
da revolução forca Guilherme V a fugir para a Inglaterra e ins- volvimento comercial e industrial que florescerá na segunda me-
taura a República Ralava, sob a dirccão dos "patriotas" e o prá- tade do século, durante o reinado de Guilherme III (1849-1890).
tico controle dos franceses. Com Mapolcão, a Holanda será, ini-
cialmente, convertida cm Reino da ï l ol anda, sob Luís, irmão
de Napolcão, que tenta defender os interesses de seus súditos. Democracia de classe media e de massas
Isto levará Napjleao à pura c simples anexação do país. A Holanda da segunda metade do século X I X apresenta inte-
O bloquei» continental prejudica cnormemcnte a Holanda ressante contraste entre uma crescente opinião pública liberal,
que. na primeira oportunidade, se revolta, quando da derrota aberta, progressista e moderada e as posições tradicionalistas dos
francesa de l.cipyig (l K m . O Protocolo de U i to Artigos (1814), setores, sobretudo rurais, que permanecem vinculados a confli-
concluído entre o príncipe de Oranpc e os «liados, depots da tantes lealdades religiosas, que opõem calvínistas e católicos. O
derrota de Napolcão. condu? à criação de um Reino Neerlandês, crescimento do setor liberal, estimulado pela prosperidade co-
incorporando a Holandu &.• íi ltél;;ica. sendo a coroa do novo mercial do reinado de Guilherme 111, logra introduzir em 1887
reino cunferkla ;m próprio p r í n c i p e , filho do cstatuder deposto unia importante reforma no sistema do sufrágio, que pratica-
mente duplica o eleitorado. Passa-se de uma democracia de no-
cm 17^S, que u assume como Guilherme 1.
Niveis para orna democracia de classe média.
Concomitantemente, trava-sc a controvérsia entre a escola laica
J)cm(\'mnYi <fc f ? f ; f ( ' í ' s i1 <i religiosa. Uma coalizão de calvinístas e católicos logra obter,
Guilherme l ( 1 H 1 4 - I R 4 0 ) outorpa em 1814 uma Constituição mi 1889, uma legislação assegurando assistência financeira a
democrática oo reino, de corte francês, e promulga uma nova cm (mias as escolas religiosas, de qualquer denominação, mantendo-
181?, depois do episódio dos Cem Dias de Napolcão. semelhante r, porém, a eseola pública laica.
à precedente. \ Constituição de 1815 alterna a capital entre O trânsito de uma democracia de classe média para unia de-
Bruxelas c Haia. K Guilherme tenta levnr a fnbo uma política mocracia de massas se realiza, na Holanda, de forma ainda mais
de equânúne unidade bclgo-hulandcsa. As diferenças linguísticas 1'Mtlual e suave do que no Reino Unido. Uma reforma eleitoral,
e religiosas, entretanto, se revelam ïn contornáveis e % agravam,
57
56
A matéria mais controversa, no período, é a do regime escolar,
que opõe os defensores da escola laica, sustentada pêlos liberais,
contra a ebcola religiosa, d e f e n d i d a pêlos católicos. As eleições
de 18S4 dão a maioria ao partido católico, que faz passar uma
legislação que permite às comunas optar pela escola privada
católica.
O mais importante tema de debate, nas últimas décadas do
século, se refere ao regime eleitoral. A industrialização do país
dera nascimento a um importante movimento sindical e ao de-
senvolvimento de um partido socialista, a que a legislação elei-
toral, restrita aos proprietários, nào dava representação política.
Greves sucessivas forçam o Parlamento à adoção de um novo
um regime eleitoral, em 1893. Concede-se sufrágio universal, como
pleiteado pêlos socialistas, mas com a qualificação, exigida pêlos
conservadores, do voto plural, que assegura aos pais de família,
Bf.LGlCA aos proprietários e aos diplomados uma ou duas vozes suple-
mentares.

Democracia de classe media e de massas


O regime eleitoral adotado cm 189i perdurará até 1912. Por
intermédio dele a Bélgica transita, rapidamente, para uma abran-
gente democracia de classe média que vai adquirindo, gradual-
mente, características de uma democracia de massas.
Depois da Primeira Guerra Mundial a Assembleia Constituinte
reforma, em 1919, a Carta de 1831, estabelecendo o sufrágio
universal masculino. O feminino só viria em 1949. Após a Se-
juinda Guerra Mundial a opinião pública forca o Rei Leopoldo I I I ,
o voto i|iie havia capitulado ante os alemães e fora mantido prisioneiro,
eleitores. côa-
;i abdicar em favor de seu filho, coroado cm I 9 í l , como Bal-
diiíno I. No reinado deste, a democracia belga adquire, como as
demais europeias, as características de um wt-ljare síií/e.

"maioria parlamentar marcado por grande


(•l) PAÍSES ESCANDINAVOS
na do de Leopoldo II (1865 ^ dos ^ seclllo,
° industrial. Seguindo ^ de Q cOotd
Os três países escandinavos tem hislórias estreitamente inter-
nol livrc-cambista, com um ^si £m experimenta
l i j v i t l a p . Por largo período, no final da Idade Media, Dinamarca,
I pelo B—— ^cional, fundado ™ J 8 *'^ mctade do sé- Kuri[e«a e Suécia formaram uma unidade polílíca, que se rompe
' ordinário ,urto cconom,co. na se «n )vcndo a side-
dindo seu sistema fcrrovuno de c ^^^ ^^^ Con. • •m 1513, com a revolta de Gustavo Vasa, da Suécia. Até 1814
l"Tsisíe a união Danesa-Norucguesa. E a união pessoal Sueco-
r-.uiucguesa, imposta por Bernadotte em 1814, perdurará até
co
rande aventura colonial no 59
1905, quando a Noruega designa para seu trono um príncipe contra a segunda, e reduzir a democracia dinamarquesa aos li-
dinamarquês, que ascende como Haakon V I I . A relação entre dois mites de uma democracia de notáveis.
desses reinos, por outro lado, é também de intenso confluo. A F,sse estado de coisas, entretanto, se modifica de fins do sé-
Dinamarca e a Suécia disputarão, militurmentc, por longo tempo, culo XIX para princípios do corrente. O fim do século passado
a supremacia no Báltico/8 introduz profundas modificações económicas, sociais e culturais
Ü processo de democratização dos reinos escandinavos, embora na sociedade dinamarquesa, que se moderniza rapidamente, tern
apresente diferente cronologia, segue um curso basicamente se- grande expansão económica, com o incremento da produtividade
melhante. Encontraremos nos três reinos a sedação já observada agrícola e o desenvolvimento da indústria de alimentos e con-
no estudo dos casos precedentes: depois de um período prepa- comitante desenvolvimento cultural. Essas novas condições re-
ratório forma-se uma democracia de notáveis, que evolui para forçam as correntes liberais que loaram, finalmente, em 1901,
se tornar uma democracia de classe media, que se converte em uma esmagadora vitória eleitoral. O rei é compelido a adorar,
uma democracia cie massas e assume, com antecipação cm rela- dentro da Constituição de 1849, uma forma parlamentar de
ção aos demais países europeus, as feições de uma democracia governo.
social, sob a predominância de um partido social-democrático. A democracia de classe media, instaurada com a? eleições de
Interessante traço comum, no processo de democratização dos 1901. rapidamente evolui para uma democracia de massas. Em
países escandinavos, é a relativa facilidade com que, atingido o 1915 o sufrágio universal c adotado, também, para a Câmara
es,iágio'da democracia de classe média, transitam para o da de- Alta, formando-se um governo de direcão social-dcmocrática. O
mocracia de massas. No caso da Dinamarca, a transição se rea- reinado cie Cristiano X, de 1912 a 1947, incluirá as duas guerras
liza eni cerca de quinze anos. Essa transição se fará em cerca mundiais. A social-dcmocracia dinamarquesa se constitui e desen-
de trinta anos, na Noruega. Já no caso da Suécia, entretanto, o volve no nrimeiro após-guerra e se aperfeiçoa e consolida no
processo será mais longo e tomará cerca de quarenta anos. segundo. lím 1963 nova Constituição sunrime o Landsting e
O processo de democratização da Dinamarca, depois de um inslilui o regime unicameral, mais adequado ao parlamentarismo
período de despotismo esclarecido e de influência das ideias da .^ocial-democrático do país.
Revolução Francesa, tem um desenvolvimento relativamente con- No caso da Noruega, o experimento democrático começa mais
tinuado a partir da Constituição liberal outorgada em 1849 por cedo, a partir da Constituição liberal adotada em 1814, depois
Frederico V i l . Uma vez mais, será decisiva a influência francesa, da primeira duecla de Napoleão, segundo o modelo da carta
desta vez pelas repercussões que a revolução de 1848 desperta francesa de 1791. O regente Christian Froderick, da Dinamarca,
é eleito rei. A aquisição da Noruega pela Suécia, dentro dos ajus-
na Europa central e nórdica, mobilizando a opinião pública di-
tes que se seguiram à derrota final de Napoleão, depois dos cem
namarquesa c forçando o rd a um compromisso constitucional.
A revisão conservadora de lïíòò reduzirá o alcance da Carta de dias, permite, entretanto, a Bcrnadotte, então na direcão dos
negócios suecos, como príncipe herdeiro da coroa daquele país,
1849. Ü conflito cnlre a Câmara Alia, o Landsting, de eleição
imnor m i l i t a r m e n t e aos noruegueses a aceitação do rei da Suécia,
censitária, ti a Cumaru Baixa, o Folkcting, de suírágío universal
Carlos XIII, como rei da Noruega, em regime de união pessoal.
masculino, permiic ao rei e seus ministros apoiar-se na primeira,
Fsse rcüime é consolidado quando Bernadotte sucede a Carlos
X I I I , comu Carlos XIV.
-'* Sobre os países escandinavos, vide imi Mithel Mourre, Dictiunnaire Apesar de seu autoritarismo, Carlos XIV assegura, prudente-
d')U:,íi»rí' VttivvrsMc. op. til., os vi-Tbclcs. "Danemark", pp. 347-599, "Suè- mente, a autonomia da Noruega para os assuntos locais. Essa au-
tlc'', pp. 1.440-1.492 e "Norwge", pp. 1.104-1.106. Para a evolução histó-
r i u a ili>>-i> pniV,1'.. viJt o- v o l u n i L i 11 a 20 Ipmodo (Je 1814 a 1939) de
tonomia é institucionalizada em 1832, tornando-se o governo no-
W i l l i j m Langor et ai. í ' . d i t b . , na c o L-irão 77ic Risi' t) j Modern i'uropc, 21) rueguês plenamente soberano, a partir de 1873.
vijls.. New York, ï l a r p e r & Roív. 1%2-(i4. Para os aluais aspectos sociais Desde meados do século XIX, sob Oscar I (1844-59), acen-
da S u ü t i a , cf. Hugh Heclí. Modern Social 1'olii.y in Hritain and Sweden,
luam-se as tendências liberais, tanto na Noruega como na Suécia,
op. t i l .

60
61
com a liberdade de imprensa, cm 1845. c de culto, cm facção dos "bonés", favorável a uma política externa moderada
No reinado de Carlos XV (1859-72) combinam-sc o desenvolvi- de tendência anglófila, e a facção dos "chapéus", propensa a
mento económico do país, com a expansão do comércio e da ma- retomar à política de hegemonia no Báltico e inclinada, para
rinha mercante, com a crescente influência dos liberais. Passava, tanto, a uma aliança com a França. As oscilações de partido ter-
assim, a Noruega, gradualmente, de uma democracia de notáveis minam com a escolha, por Carlos XIII, do Marechal Bernadotte
para uma democracia de classe média. para herdeiro real. Tal opção, que visava a satisfazer Napoleão,
Os anos que se seguem, ale fins do século X I X , são de cres- foi habilidosamente invertida por Bernadotte, quando se deu
cente desenvolvimento económico, com o aparecimento e a con- conta da inevitabilidade da derrota final do império francês e
solidação da indústria mecânica, conjunlamente com a crescente alinhou a Suécia com a Rússia c a Inglaterra, Teve com isto
liberalização do regime. A esquerda liberal, majoritária a partir Bernadolte, ao assumir a sucessão do trono, como Carlos XIV,
condições favoráveis para um exercício bastante autoritário do
de 1872, obtém em 1898, sob a direcão de |ohan Sverdrup, a poder real.
adoção du sufrágio universal masculino. !nslaura-sc, com ele,
uma democracia de massas que conduzirá, ainda antes da Pri- O reinado de seu sucessor, Oscar I (1844-59) marca um pe-
meira Guerra Mundial, ao sufrágio universal f e m i n i n o |191ít. ríodo de transição, com crescente influência das correntes libe-
Concomitantemcnle com a conversão da democracia norue- rais. Conseguem os liberais, finalmente, em 1864, no reinado
de Carlos XV (1859-72) uma reforma democrática da Consti-
guesa em uma democracia de massas, acentua-te o sentimento
tuição, abolindo as quatro ordens e constituindo um parlamento
nacional e a incompatibilidade com o regime de união pessoal bicarneral, com sufrágio indireto para a Câmara Alta e direto
com a Suécia. F.xigências de representação diplomática e de ban- censitário para a Baixa. Estabelecia-se, assim, uma democracia
deira nacional próprias conduzem, f i n a l m e n t e , em junho de de classe média, que abrangia, entretanto, apenas cerca de 10%
1905, à declaração de dissolução da união pessoal. A Suécia se de uma população predominantemcnte camponesa.
conforma com a situação c o tratado que regula a separação, cm O penúltimo decénio do século é marcado, na Suécia, por se-
16 de outubro de 1905. consigna a renúncia do rei sueco Os- vera crise de superpovoamento, com correspondente deficiência
car II ao trono norueguês e a ascensão a este, comu Haakon VII, de emprego, fome e vultosa emigração. O processo de indus-
do príncipe Carlos, da Dinamarca. Depois da Secunda Guerra trialização, entretanto, iniciado na década de 70, começará a
M u n d i a l , consolida-se na Noruega uma democracia social de modificar a estrutura econômieo-social do país a partir da última
inspiração social-democrática. década do séeulo passado e de princípios deste. Com o retorno
A marcba da Suécia para a democracia se i n i c i a antes do pro- da prosperidade, reforçam-se as correntes liberais e progressistas
cesso cie democratização dos outros países escandinavos, mas que logram, em 1889, introduzir as primeiras medidas de pro-
se revelará mais demorada, particularmente por causa da lide- teção ao trabalho, concomitantemente com a criação do Partido
rança autoritária de lïeinadotle, como Carlos X I V , de 1818 Social Democrático. O chefe desse partido, Hjalmar Branting,
a 1844. será, em 1896, o primeiro deputado socialista. Em 1907 é intro-
A instauração de um regime de democracia de notáveis tem duzido o sufrágio universal masculino, a que se seguiria o fe-
lugar, na Suécia, em princípios do século XV11I, depois — e minino, em 1919.
por causa — dos b r i l h a n t e ? mas extenuantes esforços militares de Passada a Primeira Guerra Mundial, as forças socialistas lo-
Carlos X I I (1697-1718). Sua i r m ã , Ulrica l ; leonora. o sucede gram, em princípios de 1920, formar o primeiro governo socia-
no trono, sob a condição de aceilar uma nova Constituição, que lista sueeo com Branting. 'A Suécia se torna uma democracia
divide os poderes do rei com o rlkxilav,, em que tinham repre- de massas, em que se alternam no governo socialistas e conser-
sentação os três estados superiores, nobreza, clero e burguesia. vadores progressistas. Depois da Segunda Guerra Mundial tem
A primeira fase da democracia de notáveis, na Suécia, se re- lugar uni longo e continuado período de predomínio social-
vela instável, com violentas lutas parlid.irias i n t e r n a s , entre a democrático.

62 63
vesse preferido, à negoeiaçao parlamentar, buscar, com a fuga
DEMOCRACIAS !)!• D E S L N V Ü L V I W M O D I A L K T I C O
de Varenne, o apoio das baionetas para restaurar o absolutismo.
(D I'RANÇA
A Revolução Francesa é um complexo processo em que, de
certa forma, ao isolamento de Versailles, que condenara a mo-
Fase preparatória narquia a se alienar completamente da realidade social do país,
O mercantilismo de Colhcrl, com a expansão económica dele se sucede o isolamento revolucionário de Paris, relativamente ao
decorrente, prosseguida no curso do século X V I I I , a despeito dos conjunto da nação. Produ^-se, assim, uma retroalimentação ra-
infortúnios coloniais, juntamente com a renovação de ideias e de dical, no processo de mudança política, que o coloca à mercê
hábitos trazida pela Ilustração constituem, na França, condições da plebe parisiense e de seus dirigentes radicais, divorciando o
preparatórias do trânsito do Ancion Regime para a sociedade que poder político, novamente, do conjunto do país e das aspirações
nele predominantes.
resultaria da Revolução/'
ü f i m do século X V I 1 1 é mareado por um intenso intervalo A Constituição de 1791 era a expressão da vontade política
que separa o país oficial, de Ven,aillcs, baseado num absolutismo da burguesia e da classe média ilustrada. A Constituição do
real que perdura legitimidade, apoiado por unia nobreza ociosa, Ano I (1791), que não chega a vigorar, pela superveniente ado-
que perdera funcionalidade, do pais real, dirigido pela burguesia ção do regime do Terror, era uma earta de democracia doutri-
e pela classe média urbanas. Psse intervalo poderia ter sido nária, exprimindo os pontos de vista da intelectualidade jacobina.
franqueado por via reformista. Fsta era, na verdade, a aspiração Adotava o sufrágio universal e o total predomínio do Legislativo.
da burguesia c da classe média, que mantinham respeito pela A Constituição do Ano l ! l (1795) retorna ao sufrágio censitário,
instituição da realeza e pressentiam, com temor, o potencial ao predomínio da burguesia e ao restabelecimento de um Exe-
revolucionário do proletariado de Paris e do campesinato, su- cutivo autónomo, o Diretório. A Constituição do Ano X (1802)
estabelece, sob a forma do consulado vitalício, o sistema napo-
jeito a diversos resíduos da servidão da gleba.
leônico, como uma adaplação, à Franca de princípios do século
A incapacidade política de Luís X V I , medíocre c vacilante, e XIX, do cesarismo romano. A Constituição do Ano X I I (1804)
o ambiente totalmente alienante de Versailles, que prolongava,
é o remodelamento, sob forma imperial, da carta precedente.
no faustoso isolamento da Corte, os hábitos e as ilusões do abso-
lutismo, foram responsáveis pelo malogro das tentativas de re-
forma. Com Turgot, com Neckcr, com Calonne e até mesmo com Democracia de notáveis e de classe média
Mirabeau, já nos primórdios do processo revolucionário, a mo-
narquia poderia se ter salvo, como outras, na Europa, se tivesse A Restauração traz, com Luís X V l l t , a Carta de 1814, esta-
mantido com firmeza, contra as conspirações da Corte, os vários belecendo uma democracia censitária sob a direcão executiva do
projetos de reforma que foram, postos à disposição do rei. Até rei, com ministros dependentes do beneplácito re;il. Era uma
mesmo depois de promulgada a Constituição de 1791, Luís XVI democracia de notáveis, combinando, com as bases burguesas
poderia se haver tomado um monarca constitucional, se não hou- implantadas pela Revolução, a restauração, quase apenas formal,
dos privilégios da aristocracia.
Dois principais fatores conspiraram para privar de estabili-
2
' 1'ara uma visão de conjunto il;i história francesa, vide Georges Duby, dade o regime de 1814. De um lado, o elevado earáter censitário
F!d., H/i/oire de Ia France, Paris, Larousse, 197Q. Para uma boa síntese, do sufrágio dele excluía a quase totalidade do povo, limitando
alo a Tcrteira República, vide Sisley Huddlcston. A Hislory o/ France, aos notáveis a participação no processo político. De outro, a
Londun, Erncst llcnn, !4HO. Para uma história das insiiluições políticas,
vide ], J. Chcvalier, Uisialre dês Instituiiüns Politiques de Ia France —
ideologia rteoclericalista, que marcou o espírito da restauração,
de 1789 à nos ]ours. Paris, Dalloz, 1952. Para urna análise socio-política. opondo-a ao liberalismo burguês e ao nacionalismo napoleônico,
v i J e Felix 1'onleil, J^cs Bourgetns et Ia Democratie Sociale, Paris, Albin Mi- tornava impopulares os ministérios que mereciam a preferência
chcl, 1S71, Mauricc Duvergcr, La Vi." Republique et lê Regime Presidentiel, real. A circunstância de os ministros serem diretamcnte respon-
Paiis. Atliíme Fagard, 1961 e Slanley Hoffmarm, Hssais sur Ia France, Pa- sáveis perante o rei favorecia a formação de governos impopu-
ris, Scuil, 1974.

64 65
lares e conduziu Carlos X a um estilo autoritário de governo, sufrágio universal, tornaram clara essa diferença, levando para
a Assembleia Constituinte uma representação conservadora, que
que restabelecia, na prática, o absolutismo.
repudia o socialismo de Paris e quer uma república Hberal-bur-
A revolução de 18^0 foi, assim, um movimento com amplo guesa. A supressão, pela Assembleia, dos alelicrs nationaux, em
suporte nacional, que instaurou, com Luís Filipe, um regime junho de 1848, provoca a rebelião do proletariado parisiense,
mais representativo, tipicamente burguês, estabelecendo uma de- que c esmagado pela repressão do general Cavaígnac. A bur-
mocracia de classe média, baseada num sufrágio censitário (200 guesia, atemorizada, quer um presidente forte. Luís Napoleão,
francos) mais abrangente. A Guarda Nacional, reorganizada, pro- sobrinho de Bonapartc, jogando habilidosamente com a legenda
tege o regime. E este se orienta, ativantente. para propiciar o napoleôníca e as aspirações burguesas, se faz eleger Presidente da
enriquecimento da burguesia ("enrichissez-vous") através do de- República por esmagadora maioria. Num segundo momento,
senvolvimento económico e do ideal do progresso. Ressurge o apresentando-se, ao mesmo tempo, como um garantidor da or-
colonialismo, já agora com objetivos económicos e de escoa- dem pública, para a burguesia liberal, uma reedição de Rona-
mento demográfico, e não rnais como busca da glória militar, parte, para os saudosistas do império e um líder progressista,
conduzindo os franceses à ocupação da Argélia. Guizot, ministro para o proletariado, Luís Bonaparte articula as condições que lhe
do Interior, depois, da Instrução Pública e, finalmente, Primeiro permitirão o golpe de listado de ISÍ], instaurando o Segundo
Ministro, de 1840 a 1848, encarna a ideologia do regime. império.
O regime, entretanto, excluía da participação política a gran-
de maioria da população, mantendo em condições miseráveis a
emergente classe obreira. Tal situação gerou uma crescente de- O Scgttndo Império
manda de reformas, ostentando diversas tendências, que iam de O golpe de Luís Bonapartc encontrou forte resistência, por
um novo republicanismo a um saudosismo napoleônieo, mas ten- parte da burguesia republicana. Para assegurar sua ditadura o
do como nota dominante a reivindicação do sufrágio universal. segundo Napoleão teve de apelar para n mais violenta repressão
Os movimentos reformistas terminaram desencadeando, em fe- policial, com prisões em massa e a deportação de mais de dez
vereiro de 1848, uma amotinação da plebe parisiense e Luís mil pessoas. Mas o receio dos incipientes movimentos socialistas
Filipe, perdendo a calma, abdica em favor de seu neto. Os in- leva o conjunto das classes conservadoras a aceitar o novo regime.
surgentes, entretanto, invadem a Câmara e proclamam a Re-
O Segundo Império é um primeiro experimento histórico de
pública. tecnocracia conservadora, despolitizanle, que preserva o xtatus
A revolução de 1848, que para a França foi, essencialmente, <jiio social em nome da segurança nacional, do desenvolvimento
uma mobilização da plebe parisiense pelas lideranças radicais, económico e do prestígio internacional do país. A tradição na-
teve imensa repercussão internacional, influenciando profunda- poleòniea compelia Luís Napoleão a um certo exercício inter-
mente o subsequente curso dos acontecimentos na Europa cen- nacional de poder militar. Assim ocorreu na Criméïa. na inter-
tral e nórdica. Na França, propriamente, a revolução instaurou,
venção de Napolcíio Hl na independência i t a l i i i n n e na aventura
com a Segunda República, um regime democrático de irrestrita
com M a x i m ï l ï a n o , no México. Mas o reconhecimento da relativa
liberdade, com sufrágio universal e uma ideologia inspirada no
socialismo romântico, rnas com precárias bases de sustentação. debilidade francesa, em confronto com as verdadeiras grandes
Os atcliers naúonaux, concebidos como solução para o desem- potências da época, a Grã-líretanha. a Rússia e a 1'rússia, em
prego e a sub-remuneração da classe obreira, constituem uma acelerada expansão, continham o militarismo do Segundo Im-
expressão típica desse socialismo romântico. pério dentro de prudentes limites.
Uma vez mais, entretanto, como sucedera no curso da Revo- A vocação mais permanente do regime foi a Jo desenvolvi-
lução Francesa, Paris impunha à França expectativas e projetos mento económico, tendo sido notáveis os resultados nesse plano
representativos da conjugação da intelligenlzia radical com o alcançados, F.sse êxito a n i m a o império a tidotar, a parlir de
proletariado urbano, profundamente divorciados das demandas 1860, com o tratado com a fnglateira, urna política económica
prevalecentes no resto do país. As eleições de 1848, votadas por liberal. O regime também se liberaliza politicamente, tentando,

b7
na chefia do governo. Derrotadas em 192T, essas forças retor-
crn princípios de 1870, com F.mile Ollivicr, um rcd i racionamento nam com o pacto antifascista de 1934 e chegam ao poder em
parlamentarista. Mas o faial encaminhamento, por Luís Napo- 1936, com o Front Populaire.
leão. da crise com a Prússia, o conduziria à declaração de guer-
ra. E com esta se viabilizaria, rapidamente, a real debilidade A derrota da França, na Segunda Guerra Mundial, não signi-
ficou, apenas, um desastre militar, com a ocupação, pelo inimigo,
da máquina militar francesa.
da capital e de grande parte do território. Foi, também, com
Pétain c o governo de Víchy, um experimento de restabeleci-
mento de um Fstado conservador e paternalista, antimarxista e
A Terceira República anti-socialista, de inspiração calólico-corporativa. à semelhança
Precedida pela revolução da Comuna de Paris, de 17 de março do regime de Salazar. De certa forma, assim como Napoleão I I I ,
de 1871. e sua terrível repressão, cm ma i u do mesmo ano, a Ter- nas condições de meados do século XIX, buscou evitar a emer-
ceira República, sob a díreçiio inicial de Thicrs. c conduzida a gência das novas forças sociais, que haviam impulsionado a re-
uma posição extremamente conservadora. Os constituintes, com volução de IM8, congelando o processo social na tecnocracia
maioria monárquica, aspiravam a uma monarquia constitucio- do Segundo Império, o Estado Novo de Pétain, nas condições
nal, que circunstâncias ocasionais não deixaram concretizar-se, dü meados do nosso século, buscou, cm colaboração com o ocu-
ü rcp.ime que veio a se configurar como a Terceira República, pante alemão, impedir a transição da França para uma democracia
baseado nas leis constitucionais de 1875. fui um parlamentarismo de massas, mediante novo modelo tecnoerálieo, de capitalismo
bieamerul. com a Câmara Baixa eleita por sufrágio universal, corporativo.
um Senado de eleição indireta, um t'residente da República com
mandato de sele anos, eleito pelas duas Câmaras, exercendo A vitória dos aliados e a resistência trouxeram, com De Gaulle,
a chefia do Estado, sendo a chefia do governo confiada a um a Quarta República, instaurando na França uma democracia so-
Gabinete dependendo da confiança de ambas as casas do Par- cial. As dificuldades do parlamentarismo francês, exacerbadas
pela crise colonial, noladamcnte no caso da Argélia, conduziram
lamento. ao golpe branco de 1959 e à instauração da Quinta República.
As eleições de 1877 superam as tendências monárquicas e for- O novo regime retoma uma das constantes políticas francesas, que
mam uma sólida maioria republicana, que desenvolverá, até o é a de um certo bonapartismo na chefia do Estado. Mas con-
fim do século, uma democracia de classe média — laica, liberal, serva, apesar da hipertrofia dos poderes presidenciais, o fun-
imperialista e colonialista, no Terceiro Mundo — que se vai damental do parlamentarismo. Conserva-se, igualmente, a orien-
gradualmente abrindo, na metrópole, às aspirações populares. tação social da democracia francesa, embora, por longo tempo,
Na virada do século surge, com o "Bloco das Esquerdas", de sob a administração cie presidentes conservadores. A vitória dos
Waldeck-Rousseau (1899-1902) e Combcs (1902-05) a primeira socialistas, em 1981, com Mitterrand, acentuará a vocação social
manifestação do crescente poder social e político das tendências do regime, embora mantendo o "parlamentarismo presidencia-
socialistas. lista" insliluído por De Gaulle.

Diulética (!a democracia de massas (2) ALEMANHA


A transição da Franca de uma democracia de classe média
para uma democracia de massas foi mais difícil do que sua pas-
Democracia de notáveis
sagem de uma democracia de notáveis, com a Restauração, para
uma dcmocraeia de classe média, com Luís Filipe. A Ilustração representou, para o conjunto dos Fstados germâ-
Passada a hccatombc da 1'rimcira Guerra Mundial, as forças nicos e o brilhante reinado de Frederico I I (1740-86), para a
sociais que já haviam despontado, politicamente, com o "Bloco Prússia, um período de grande modernização, lanto no plano tias
ideias como no da organização e administração do Eslado. A Re-
das Fsquerdas", tornam a se fazer presentes com o "Cartel das
volução Francesa teve um impacto inicial extremamente favorá-
Esquerdas", cm 1924, com Doumergue na presidência e Briand

68 69
sal. mas no regime das três classes l iscai;, - que privilegia a
vel, entre as classes cultivadas. A reação posterior, motivada pelo nobreza c u burgiieMa — c a Câmara A l t a (ílerrenhaiti,), repre-
Terror e, mais tarde, pelo expansionismo militar de Napoleão, sentando a aristocracia. U^ m i n i s ü o s t-ao responsáveis perante
não afetou, no âmbito da burguesia liberal c da mlelligentzia, o rei. O Laniitug volti os novos, l i i b u l o s e as novas leis mas o
renanas, a validade da mensagem liberadora da Declaração dos rei pode, no recesso do Parlamento, legislar por ordenações.
Direitos do Homem.50 Paralelamente, o Parlamento de F r a n k U i r t , concebido pur.i
No caso da Prússia, notadamente, a derrota militar suscitou si, r a grande Assembleia C o n s t i t u i n t e de ioda a Alemanha, t,e
um profundo movimento de renascimento nacional, a que Fichte defronta com a d i l i c u l d a d e que marcará, p r o l u n d a m e n t e , o des-
e Hegel imprimiriam um transcendente alcance filosófico. Con- tino dos listados alemães. Tratava-se da oposição entre um con-
comitantemente, o processo de união aduaneira, defendido por ceito abrangente da germantdade, ineltiiiido a Á u s t r i a e lenden-
List, amplia sua área de abrangência, no curso dos anos 30, cialmente dela fazendo o eentro do sis-lenut, e uni conceito mais
permitindo a expansão da economia renana e a formação das bases residiu, excludenle da Á u s t r i a por MUI n a l u r c / L i de F.slado dinás-
de que emergeria a grande indústria germânica. tico m u l t i n a c i o n a l e. porlanlu, não piiranieule gei-mânieo. lïssa
Denlvo dessas condições, a revolução parisiense de 1848 teve concepção mais restrita se o r i e n t a para 1'a/er da Priissia o eentro
um enorme impacto na Europa central, precipitando a adoção de do sistema alemão.
reformas que vinham sendo exigidas pela difusão das ideias li- Diversos outros problemas d i f i c u l t a m a t a r e f a du Parlamento
berais e a crescente importância da burguesia e das classes mé- de Frankfurt. Por um lado, a questão do regime dos ducados de
dias ilustradas. Frederico Guilherme IV, confrontado, em março Sehleswig e l l o l s i c i n , predoininantcmeiiie germânicos pela popu-
de 1848, com o ievantamento de barricadas em Berlim, prefere, lação, situados na zona de fronteira com a Dinamarca e perten-
a uma repressão sangrenta, um encaminhamento liberal para a centes ao rei daquele país. Por outro lado, as questões ideoló-
crise, anunciando reformas. gicas, opondo no Parlamento uma direita conservadora, que de-
As reformas dos anos de 1848-49, na Alemanha e na Prússia, seja uma constituição imperial que preserve a autonomia dos
conduzem ao estabelecimento de monarquias constitucionais, com listados alemães (Radowilz, Príncipe Lichnowsky), uma esquer-
parlamentos representativos das classes superiores. No caso par- da republicana, favorável a uma federação forlemeine centrali-
ticular da Prússia, Frederico Guilherme IV aspirando, ao mesmo zada (Vogt, Ruge) e posições i n t e r m e d i á r i a s .
tempo, a preservar sua auioridade real, que fundamentava no Enfraquecido por suas d i s p u t a s internas, desprestigiado pelo
direito divino dos reis, e a conquistar a simpatia das classes ilus- rei da Prússia e destituído de poder efetivo, num sistema em que
tradas, é levado a dissolver a Assembleia pmssiana, para outorgar, os listados germânicos preservavam sua independência e seus
ele próprio, a Constituição. A Constituição outorgada, baseada meios de acão, o Parlamento de Frankfurt aprovou, f i n a l m e n t e ,
nos precedentes trabalhos da Assembleia, cria um parlamento em 27 de março de 1M9, a constituição de um estado federal
bicameral, a Câmara liaixa (Landmg), eleita por sufrágio univer- parlamentarista, sob a chefia hereditária de um Imperador da
Alemanha, incluindo Iodos o^ territórios' alemães, inclusive a
parte germânica da Á u s t r i a . No dia seguinte, o Parlamento ele-
30
l*ara uma história geral d:i Alemanha pós-medieval. vide Geoffrey Bar- geu o Rei da Prússia Imperador da Alemanha. Frederico Gui-
raclough. The Origina o! MoJmi Germany, New York, Capricorn Books, lherme, entretanto, reetisa a coroa, alegando que só a podia acei-
1963 e Marshall Dill )r., Germany, A Modern History, Ann Arbor, The tar com o consentimento dos príncipes e das1 cidades livres. Essa
Univ. cif Michigau Press, 19bl. Para uma História sodopolítica, vide A.
Ramus-Oliveira, Historia .Sotiaí y 1'oHlica de Alemania, 2 vols., México, decisão privou de qualquer eficácia a nova constituição imperial,
Fundo de Cultura r^ojiómica, 1964, Sobre lïismarck, vide Erich Eyek, com ela malogrando a combinada intenção de u n i f i c a r a Alema-
Bismarck and thi- German Empire, New Yürk, Norton, 1904 e Alan Palmcr. nha c de a submeter a uma m o n a r q u i a parlamentar.
fíisniarcL, íiraiília. Ed. Univ. de Brasília, 1982. Subre o período de Weimar,
vide Petor Gay, W amar Culture, New York, Harper & Row, 1968 e Walter Üs anos que se seguem ao malogrado intento do Parlamento
Laqueur, Weiinar — A Cultural History, New York. Pulnams Sons, 1974. de Frankfurt são mareados pelo csmorecímenlo do impulso re-
Sobre a Alemanha contemporânea, vide Ralf Dahrendorf, Sodety and De- volucionário, no conjunto dos Estados alemães, dando margem ao
mocracy in Germany, Gardcn Ciiy, Anchor Books, 1969.

71
70
retorno a tendências rcacionárias. No caso da Prússia, depois Domesticamente, a era bismarekiana, através da manipulação
que as eleições de 1859 devolvem a maioria parlamentar aos por Bismarck, ao mesmo tempo autoritária, eficiente e extrema-
liberais, se estabelece um sano conflito político-institucional_ entre mente sagaz, do poder executivo prussiano e imperial, conduz a
ü governo e o Parlamento, em torno do projeto de reorganização um regime que é um misto de absolutismo e de uma democracia
do exército proposto pelo Ministro da Guerra, general von Roon. de notáveis. Uma democracia de notáveis que se vai gradualmente
O Parlamento se opõe a uma renovação do militarismo prussiano. convertendo em uma democracia de classe média, na medida em
negando os créditos solicitados pelo regente e futuro Guilherme I, que o sufrágio universal, embora através do voto pelas três clas-
irmão de Frederico Guilherme, que se tornara insano. O regente ses, vai conduzindo a burguesia e a classe média ao domínio
e os militares insistem no projeto. O impasse será resolvido, de do Parlamento. Mas uma democracia que exclui, na prática, das
forma auloritáiia, com a designação de Oito von Bismarck, em deliberações do Parlamento, as grandes decisões de política ex-
1862, para Ministro Presidente c, posteriormente, Chanceler, da terna e interna.
Prússia. Bismarck dispensa a aprovação de novos créditos, pror- Concomitantemente com o extraordinário desenvolvimento eco-
rogando o orçamento precedente c, desta forma, reduz o Parla- nómico da Alemanha, fundado numa poderosa e expansiva in-
mento a funções praticamente decorativas. dúslria pesada, se desenvolve a consciência social dos trabalha-
dores germânicos. Depois dos esforços iniciais de Eassallc, o so-
cialismo marxista, sob a dircção de Wilhelm Liebknecht e August
O império alemão Bebei forma, no Congresso de Fisenach (1869). o Partido Social
O longo período de liderança de Bismarck, como Chanceler
da Prússia e, mais tarde, também du Império Alemão, que vai Democrático Operário. Apesar da legislação anti-socialista que
de sua nomeação por Guilherme I, cm 1862. à sua demissão pelo Bismarck logra obter do Parlamento (1S78), em seguida a duas
tentativas de assassinato do Kaiser — que não foram da respon-
neto deste, Guilherme I I , em 1890, constitui uma era de extra-
ordinária expansão poHtico-miütar, económica e cultural da Prús- sabilidade dos socialistas — o socialismo alemão se expande con-
sia, que se torna o centro articulador e diretivo do Império Ale- tinuamente e se tornará, nas vésperas da Primeira Guerra Mun-
mão e com este se firma como a maior potência europeia. dial, o principal partido do Reiehstag.
A era hismarckiana. considerada cm termos internacionais, re-
presenta a gradual, embora acelerada e eficaz, realização de um
A conquista da democracia social
grande plano de dominação da Alemanha pela Prússia e da Eu-
ropa pela Alemanha. Através de alianças ofensivas e defensivas, Como no caso da França, a instituição de uma democracia de
de colaborações e de consentimentos, do uso da força c do em- massas, na Alemanha, constituiu um processo extremamente lon-
prego da astúcia, Bismarck logra, inicialmente, com a co-partici- go e penoso, marcado por períodos de grande retrocesso. Em
pação militar da Áustria, conquistar da Dinamarca os ducados grandes linhas, esse processo se realiza através de três principais
de'$chleswig e Holstein, em 1864. Em seguida, em 1866. derrota fases: 1) a do crescimento das forcas socialistas, nos ííltimos de-
fragorosamente os austríacos, filmando a absoluta superioridade cénios do Império Alemão, 2) a da República de Weimar e, fi-
da Prússia entre os Estados germânicos. Finalmente, em 1870, nalmente, "Í) a da instauração da democracia sócia!, no segundo
induz Napoleão ITI a declarar uma guerra que conduziria o Im- após-guerra.
pério Francês a um rápido e completo desastre. A guerra franco- Como foi precedentemente indicado, a legislação anti-socialista,
prussiana, por outro lado, favorece a fina! unificação do Norte que Bismarck logra obler do Parlamento em 1878 e que vai re-
e do Sul 'da Alemanha, sob um Império Alemão, que preservava novando até sua exoneração, em 1890, dificulta mas não conse-
a autonomia e o regime político dos Estados integrantes. Inte- gue impedir a expansão do socialismo alemão. Depois de uma
gravam o Império quatro reinos (Prússia, Bavária, Saxônia e fase de compromisso com o lassalísmo, consubstanciado no Pro-
Wüttemberg), cinco grãos-ducados, treze ducados e principados, grama de Colha (1875), o socialismo alemão se torna ortodoxa-
três cidades-livres (Hamburgo, Brcmcn e Lübeck) e as rccém- mente marxista, com o Congresso de Erfurt, de 1891. O sentido
anexadas províncias francesas da Alsácia e da Lorena. revolucionário do socialismo germânico, entretanto, é questkma-

72 73
do por Bernslein, a partir de 1889, gerando-se a grande polé- ceder à eleição da Assembleia Constituinte. Hbert é eleito Pre-
mica do revisionismo. As teses ortodoxas de Kaustsky e de Rosa sidente pela Assembleia de Weimar (11-11-1919) e a Constitui-
Luxemburg prevalecem no Congresso de Lübcck (1901) u con- ção é aprovada em agosto de 1919. Mas o compromisso de ori-
duzem à condenação do revisionismo, no de Drcsden (1903). gem, que tomara possível encaminhar o projeío de uma demo-
Não obstante, o reat caráter revisionista que linha o socialismo cracia social pela modalidade democrát íco-pa ri ame n ta r, havia
sindicalista alemão, exercido nos quadros de um parlamentarismo criado urna dualidade de poderes na República. As instituições
autoritário c com a efeliva aceitação deste, importava, de fato, dependiam, para resistir à subversão dos radicais, de um poder
na prática do revisionismo bcrnsteiniano. A Primeira Guerra Mun- militar reconstituído, que não t i n h a , na verdade, nenhuma leal-
dial exacerbará, na Alemanha, o conflito entre o revisionismo, dade àquelas instituições.
c fé ti vãmente dominante, e uma minoria de socialistas revolucioná- O desenrolar dos acontecimentos conduziu, no período final
rios, que formarão, com Liebknccht e Rosa Luxemburg, o grupo da República, a outro compromisso, que poderia, ao que tudo
espartaquísla c um novo partido, fundado em 1417, o Partido indica, ler sido evitado c que tinha um caráter necessariamente
Social-Dcmocrata Independente da Alemanha. suicida. O compromisso de aplacamento das forcas da direita,
A trágica experiência da República de Weimar constitui a que se foram aceleradamente fundindo com o Nacional-Socialis-
mo. Nas eleições de I9ÏU o Partido Soe i a I-De moerá tico ainda
segunda fase do processo de democracia de massas, na Alemanha.
se conserva como a principal força política da Alemanha, com
Resumindo a poucas linhas uma ocorrência histórica extrema- mais de 8.5 milhões de votos, cerca de 2 milhões de militantes
mente complexa, cm que os desenvolvimentos sociais internos fo- em sua formação de l u t a , a Reichshanncr. e com o controle do
ram fortemente a f e* a d os por circunstâncias externas, decorrentes sistema sindical e seus & milhões de membros. E sem embargo
d;t derrota alemã c do Tratado de Versai 11 es. pude-se dizer que permite que Hindenburg, a partir de então, conduza a República
o malogro sociopolílico da experiência de Weimar decorreu, no na direcão do desastre nazista, que se formaliza com a nomeação
fundamental, de certas contradições teórica:, e práticas, então de I l i t l e r como Chanceler, em ^0 de janeiro de 1913. tlsse
ainda não resolvidas, no âmbilo do próprio marxismo. processo, sob o pretexto de não provocar o nazismo nem dele
A contradição teórica era a que opunha o princípio da libera- aceitar provocações, resulta, sem resistência, na dissolução de
ção total do homem, conducente a uma irrestrita democracia todos os instrumentos de poder das forças democráticas, nas pri-
suciai, como núcleo central do p roje to emanei patório marxista, meiras semanas do governo de Hitler.
à ideia instrumental da ditadura do proletariado, com suas impli- A derrota total da Alemanha na Segunda Guerra Mundial eli-
cações antidemocráticas. A contradição prática era a que opunha minou todas as bases de poder do nazismo. A experiência dos
o socialismo leninista, com sua estratégia do partido revolucioná- erros praticados no primeiro pós-pucrra. por outro lado, permitiu,
rio totalitário, ao socialismo s i n d i c a l i s t a , com sua estratégia elei- tanto aos aliados como às forças progressistas, dentro da Alema-
loral-parlamcntar e suas exigências pluralistas. Os socialistas de- nha, a rápida reconstrução democrática do país. ressalvada a inc-
mocráticos, que formavam, na A l e m a n h a , a maioria du SPD. vitabilidade de sua partição entre uma Alemanha Ocidental, cor-
consideraram indispensável, no processo revolucionário que se respondente às zonas de ocupação dos Estados Unidos, da Grã-
seguiu à derroki militar, de fins de 1918 a princípios de 1919. Brctanha e da França, c a área de ocupação soviética, que daria
impedir que os conselhos de sol d u dos e operários consolidassem nascimento à República Democrática Alemã. Fm maio de 1949
um poder não-dclepado, nem sujeito ao cuntrole popular, que é constituída a República Federal da Alemanha, com capital cm
conduziria o socialismo alemão por um c a m i n h o totalitário equi- Bonn, regulando-se por um regime constitucional semelhante ao
valente ao soviético. Mas. para atingir tal propósito, tiveram que de Weimar, mas com a a [loção de corretivos para os principais
se aliar, objetivarnente, aos remanescentes da Rcïtïiswchr. A li-
inconvenientes da antiga constituição. Konrad Adcnauer. com
derança soeial-demoiTátiça (Khcrt. Schcidemunn. Lamlsbergl con-
pequena maioria para seu partido Deniuerata-Orïstáo, é o pri-
seguiu impedir o ;>olpísmo dos concelhos, mediania sangrentas
repressões (em 2Ï-24 de dezembro de 19lfí c nu levantamento meiro Chanceler da nova República Com ele se i n i c i a um regime
esparlaquista de 11-15 de janeiro de 1919), podendo assim pro- que tem conseguido, nos seus quase quarenta anos de existência

74
— alternai! d o-se, no poder, democrata-cristaos e só d ai-demo tra- Savóia, o centro dirctïvo das reformas c da unificação, começam
tas — combinar uma grande eficiência administrativa e econó- a se materializar, a p a r t i r dos dois último 1 : anos do reinado de
mica com um amplo programa de garantias sociais, que situam Carlos Alberto ( l b ' 3 I - l 8 4 < - l ) . !'or um ladu. Carlos Alberto ou-
a democracia social alemã entre :is mais abrangentes da Europa. torga (5-3-18481 uma Constituição ao Piemonte, nele i n s t a u r a n -
do uma democracia censitária, com urn parlamento bicameral e
um m i n i s t é r i o responsável perante o Parlamento. Por outro lado, no
surto revolucionário suscitado na I t á l i a pela revolução parisiense de
(3) ITÁLIA
1848, concede o apoio pedido pêlos revolucionários müaiieses
e engaja as forças do Piemonte contra as austríacas. Derrotado,
Fase preparatória
i n i c i a l m e n t e , cm Custozza (24-5-184S} e, mais tarde, decisiva-
Como nos Estados alemães, a Ilustração, a Revolução Francesa
mente, cm Novara f 2 W1849), Carlos Alberto abdica em favor
e a gesta napoleônica afelaram, profundamente, as ideias e a
de seu f i l h o Vítor Emanuel I I (1849-78). Mas, embora termi-
forma de vida dos Estados italianos. A classe média e a burguesia
nando em malogro a primeira intervenção do Piemonte, estavam
liberal alimentavam a expectativa de reformas que modernizas-
sem e democratizassem o Estado e conduzissem à unificação do lançadas as bases de um movimento liberatório e unificador, a
p a r t i r da Casa de Savóia.
país. A derrocada do império napoleónico, entretanto, submeteu
a Itália à dominação da Áustria e da Santa Aliança c restabele- O arqniUíto da liberação e da unificação da I t á l i a foi o conde
ceu, sob a supervisão de Metternich, o absolutismo dos príncipes, C a m í l l o Bcnso di Cavour, um dos principais responsáveis pela
instaurando, de forma ainda mais acentuada do que os Buurbons outorga da Constituição de 1848. e que dirigirá, seguidamente,
na França, urna ideologia neoclencalisla. 31 os negócios do Piemonte, de 1852 até sua morte, em 1861.
A reação à restauração do absolutismo clericalista e ao do- Cav,.nir prepara cuidadosamente o empreendimento, reforçando
mínio da Áustria se torna crescente, na Ttália, no curso das dé- económica t- m i l i t a r m e m e o Piemonte e a r t i c u l a n d o uma aliança
cadas que se seguem ao Congresso de Viena. Essa reação é man- com Napoleão 111- No curso de um longo e custoso processo,
tida e difundida através de sociedades secretas, como a maço- e n v o l v e n d o , a p a r t i r de 1859, com reveses e rei ruce ç sós, diversos
naria e os carbonarl, de origem napolitana, e suscita levantes em engajamentos militares (Majunta, Solferino) e i n i c i a t i v a s revo-
diversos estados italianos. Estes, entretanto, são eficazmente re- lucionárias (cm sítios como a ToscAnia, Modena, Par m n e ou-
primidos com o apoio das forças austríacas. O malogro dos in- tros) as forças piemontesas, com decisivo apoio i n i c i a l das fran-
(entos insurreicionais isolados, promovidos por sociedades se- cesas c i m p o r t a n t e contribuição tra/ida por (Jaribaldi, logram
cretas, conduz as forcas progressistas italianas a buscar uma derrotar os austríacos c os príncipes italianos a eles aliados. !ím
ação de conjunto, visando, concomitanteniente, à unidade da 17 de março de 1861 é proclamado o Reino du I t á l i a e Vitor
Itália e aspirando a que esta seja promovida pelo Piemonte. Mui- Emanuel é instituído como seu primeiro rei, adoíando-^e uma
tas dessas expectativas, numa formulação mais radical e republi- Constituição baseada na piemontesa de 1848. Pouco depois mor-
cana, encontrarão seu porta-voz cm Giuseppe Mazzini (1805- re Cavour. O momento final da unificação i t a l i a n a , entretanto,
1872) c seu movimento da ]ovem Itália. seria ainda adiado por alguns anos. Dependendo, internamente,
Os intentos liberatórios, nas décadas de 30 c 40, continuam do apoio dos católicos, Napoleão I I I m a n t i n h a suas forças em
impotentes para vencer a coligação dos príncipes com a Áus- Roma, protegendo a autoridade temporal do Papa. Somente de-
tria. Mas as expectativas italianas de fazer do Piemonte — o pois' da derrota de Sedan pôde a Itália completar sua unificação,
mais importante e adiantado Estado italiano —, sob a Casa de incorporando Roma e nela instalando a capital do reino.

31
Para uma história geral da Itália, vide Luigi Salvatorelli, A Concise His-
tory oi Italy, New York, Oxford Univ. Press, 1977. Para o fim do século Dos notáveis à classe média
XIX e princfpio do XX. vide Bencdeío Croce, Storia d'ltalia dal 1S7I ai A adoção de um regime político baseado no do Piemonte ins-
1915, Barí, 1928. Sobre Cavour e a Independência, vide Massimo Salvado-
ri, Cavour and the Unijicatïon oi Ilaly, Prïnceton, Van Nostrand, 1961. taura, na Itália, uma democracia de notáveis, em que apenas

76 77
cerca de 2% da população parlicipava do processo poiítico. Esse indicado, o período se caracteriza, do ponto de vista político c
regime será significativamente alterado em 1881, com uma re- social, por crescente intervalo entre a política parlamentar e as
forma eleitoral que abaixa, de 2^ para 21 anos, a idade de votar grandes demandas e aspirações populares. O c o n t i n u a d o desen-
e reduz os requisitos íïscais do registro eleitoral de 40 para 19 volvimenlo i n d u s t r i a l i t a l i a n o , desde a unificação, criará um gran-
liras, assim elevando o eleitorado italiano de cerca de 600 mil de proletariado que c o n t i n u a v a vivendo em condições extrema-
para cerca de 2 milhões de eleitores. mente precárias e não tinha apropriada representação parla-
O período correspondente ao f i m do século XIX c princípios mentar e política. Contrapondo-se aos movimentos de esquerda,
do XX é marcado por grande progresso económico, com o de- intensificara-se, em amplos selores da classe media, com reper-
senvolvimento do centro industrial milanês. Acompanha-o um cussões na obreira, um nacionalismo i r r i d e n t i s t a , de d i r e i t a , que
importante surto cultural e artístico, que completa o quadro de favorecia a a v e n t u r a colonial e clamavn pela anexação de ter-
notáveis realizações do Risorgimenlo. Nesse período a Itália, a ritórios de população ou tradição i h i l t a n a s , que permaneciam
exemplo das grandes potências europeias, intenta adquirir um sob controle austríaco. Sob a i n f l u ê n c i a teórica de Nielz^ehe e
império colonial. Ingressando tardiamente nesse empreendimento, do hegelianismo de d i r c i l a , enfatizavam-se os valores heróicos e
as virtudes bélicas.
concentra seus esforços na costa sudoeste do Mar Vermelho, lo-
grando formar colónias na Somália e na Erilréia mas sofrendo Sobrevindo a Primeira Guerra M u n d i a l . Ciolitti busca manter
grave revés na Etiópia (derrota de Adua, em 1896) que envolveu a [latia n e u t r a (tese do "egoísmo saprado'\ rompendo o pacto
o país em profunda desmoralização. Alguns anos mais tarde, sob da Tríplice A l i a n ç a . A o p i n i ã o pública, entretanto, mobilizada
a pressão dos movimentos nacionalista e irridentista (D'Aniran- pelo n a c i o n a l i s m o antiaustríneo. conduz o governo de Salandra,
zio, Corradini) o governo Giolittí é conduzido (1911) à guerra que sucede a G i o h l t i . a e n t r a r na guerra contra a A u s t r i a - H u n -
coníra a Turquia, que liiva è ocupação da Cirenaica, da Tripo- í>ria (2"í-'i-l91í) e, mais tarde (9-8-19161, cnntra a Alemanha.
litania e do Dodecaneso, reinsíaurando o orgulho nacional italiano. A participação da I t á l i a na primeira guerra, custosa cm vidas
A política parlamentar italiana, nas últimas décadas do sé- (670 m i l monos) e em recursos m a t e r i a i s (queda de 26% da
culo XIX à Primeira Guerra Mundial — em que sobressaem as riqmva n a c i o n a l ) e mareada por grandes variações no desempe-
figuras de Francesco Crispi, favorecendo a aproximação com a nho de suas forcas (ealaslrõïiea derrota de Caporetio, em 1417,
Prússía e, por tal razão, a convivência com a Áustria, na Tríplice e b r i l h a n t e v i t ó r i a de V i l t o r i o Veneto, em 1918). conduziu o
Aliança, e Giovanni Giolittí, mais aberto às correntes de es- país a u m a p r o f u n d a f r u s t r a ç ã o quando, depois da guerra, as
querda — ficou conhecida pela designação de "transformismo". demais potências a l i a d a s se- recusaram a c u m p r i r as promessas
Tratava-se de um sistema extremamente pragmático de compro- que h a v i a m l e i t o á I t á l i a , concernentes ao T r e n t i n u , à E s i r i a , à
missos entre diques parlamentares, pouco representativo das de- Dahttáeia e outras.
mandas populares, que se orientam, por isso, para formas extra- Nesse q u a d r o de profundas frustrações, agravadas por d i f i c u l -
parlamentares de manifestação, tendenciaímente violentas. A base dades f i n a n c e i r a s , pela inflação, e pela d e f i c i e n t e reabsorção dos
eleitoral, entretanto, é extremamente ampliada, cm 1912, ele- veteranos na vida c i v i l , o precedente intervalo entre a política
vando o eleitorado de três para mais de oito milhões, e se esta- p a r l a m e n t a r e os conflitos sociais c ideológicos em curso adquire
belecendo, praticamente, o sufrágio universal masculino. O fe- proporções extremamente críticas. A esquerda i t a l i a n a se lança
minino só seria implantado em 1948. numa estratégia insurreicionista, que conduz à ocupação operá-
ria das fábricas e a prolongadas e desgastares greves. Dividida,
entretanto, entre socialistas e comunistas, não logra assumir o
Crise' c fascismo poder, quer por via parlamentar, quer por via revolucionária. A
Os anos que precedem a Primeira Guerra Mundial constituem, direita, organizada, desde 1919, no m o v i m e n t o fascista, sob a
para a Itália, uni período de grande expansão industrial e desen- liderança do ex-socialista Henilo M u s s o l i n i , parle para a ação
volvimento económico, incrementando de mais de 60% o pro- dircta nos conflitos de rua e se apresenta à burguesia e às classes
duto per capita do fim do século. Por outro lado, como já foi médias como a única força asseguradora da ordem. De menos

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cerca de 2% da população participava do procedo político. Ksse indicado, o período se caracteriza, do ponto de visia político c
regime será significativamente alterado cm Í881, com uma re- suciai, por crescente intervalo entre a política parlamentar e as
forma eleitoral que abaixa, do 2'ï pura 21 anos, a idade de votar grandes demandas c aspirações populares. U c o n t i n u a d o desen-
e reduz os requisitos fiscais do registro eleitoral de 40 para 19 volvimento industrial italiano, desde a unilicacào, criará um gran-
liras, assim elevando O eleitorado italiano de cerca de 600 mil de proletariado que c o n t i n u a v a vivendo cm condições extrema-
para cerca de 2 milhões de eleitores. m e n t e precárias e não t i n h a apropriada representação parla-
O período correspondente ao f i m do século X I X e princípios mentar e política. Contra pondo-se aos movimentos de esquerda,
do XX é marcado por grande progresso económico, com o de- intensificara-se, em amplos sctores da classe média, com reper-
senvolvimento du centro industrial milanes. Acompanha-o um cussões na obreira, um nacionalismo i r r i d e n t i s l a , de d i r e i t a , que
importante surto cultural e artístico, que completa o quadro de favorecia a a v e n t u r a colonial e clama v-t pela anexação de ter-
notáveis realizações do fílsor^imcnto. Nesse período a Itália, a ritórios de população ou tradição i t a l i a n a s , que permaneciam
exemplo das grandes potências europeias, intenta adquirir um sob controle austríaco. Sob a i n f l u ê n c i a teórica de Ntetxsche e
império colonial. Ingressando tardiamente nesse empreendimento, do hegclianÍMiio de d i r e i t a , enfatizavam-se os valores heróicos e
concentra seus esforços na costa sudoeste do Mur Vermelho, lo- as virtudes bélicas.
grando formar colónias na Somália e na F.ritréía mas sofrendo Sobrevindo a Primeira Guerra M u n d i a l , G i o l i t t i busca manter
grave revés na Etiópia (derrota de Adua, em 1896) que envolveu a Itália n e u t r a (tese do "egoísmo sagrado"), rompendo o pacto
o país em profunda desmoralização. Alguns anos mais tarde, sob da Tríplice A l i a n ç a . A opinião p ú b l i c a , c n l i e l a n t o . mobilizada
a pressão dos movimentos nacionalista e irridcntista (D'Annun- pelo n a c i o n a l i s m o a n t i a u s t r í a c o , conduz o governo de Salandra,
zio. Corradini) o governo Giolitii é conduzido (1911) à guerra que sucede a G i o l i t t i . a entrar nu guerra contra a A u s t r i a - H u n -
contra a Turquia, que leva à ocupação da Cïrenaica, da Tripo- »ria (2VÍ-1915) e, mais tarde (9-8-1416), contra a A l e m a n h a .
lilânia e do Dodecaneso. reinstaurando o orgulho nacional italiano. A pá r l i e i pavão da I t á l i a na primeira f u e r r a , custosa cm vidas
A política parlamentar italiana, nas últimas décadas do sé- (670 mil mortos) e em recursos mate ria i < (queda de 26% da
culo XIX à Primeira Guerra Mundial — em que sobressaem as rique/a n ^ i o n a l ) e marcada por ^ivmdes variações no desempe-
figuras de Francesco Críspi, favorecendo a aproximação com a nho de suas l orças ( c a t a M r ó l i e a derrota de Caporetlo, cm 1917,
Prússia e, por tai razão, a convivência com a Áustria, na Tríplice c brilhante vitória de V i t t o r i o Venelo, em 1 9 1 8 ) , conduziu o
Aliança, e Giovanni Giolitti, mais aberto às correntes de es- país a u m a p r o f u n d a frustração quando, depois da guerra, as
querda — ficou conhecida pela designação de "transformismo". demais potências aliadas se recusaram a cumprir as promessas
Tratava-se de um sistema extremamente pragmático de compro- que h a v i ; t m l e i t o à I t á l i a , concernentes ao Trcnlino, à f st ria, à
missos entre cliques parlamentares, pouco representativo das de- Dalmácia c outras.
mandas populares, que se orientam, por isso, para formas extra- Nesse quadro de profundas frustrações, agravadas por dificul-
parlamentares de manifestação, tendenciaíirienfe violentas. A base dades financeiras, pela inflação, e pela deficiente reabsorção dos
eleitoral, entretanto, é extremamente ampliada, cm 1912, ele- veteranos na vida c i v i l , o precedente i n t e r v a l o entre a política
vando o eleitorado de três para mais de oito milhões, e se esta- parlamentar c os conflitos sociais j ideológicos em curso adquire
belecendo, praticamente, o sufrágio universal masculino. O fe- proporções extremamente críticas. A esquerdo i t a l i a n a se lança
minino só seria implantado em 1948. numa estratégia ínsurreicionista. que conduz à ocupação operá-
ria das fábricas c a prolongadas e desgastantes greves. Dividida,
entretanto, entre socialistas e comunistas, não logra assumir o
Cr/st1 e fascismo poder, quer por via parlamentar, quer por via revolucionaria. A
Os anos que precedem a Primeira Guerra Mundial constituem, direita, organizada, desde 1919. no movimento fascista, sob a
para a Itália, um período de grande expansão industrial e desen- liderança do cx-socialista lienilo Mussolini, parte para u ação
volvimento económico, incrementando de mais de 60% o pro- direta noa conflitos de rua e se apresenta n burguesia e às classes
duto per capita do fim do século. Por outro lado, como já foi medias como a única força as seguradora da ordem. De menos

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de 20 mil aderentes, em 1919, u fascismo conta com mais de da Iiália, a República Social Italiana, com capital em Saio. Pri-
700 mil militantes, em 1922. vado de condições cfctivas de poder, o regime de Saio se limita
a executar, cm Verona, alguns dos chefes fascistas que haviam
À "semelhança do ocorrido na R e p ú b l i c a í í c \Veimar. o final do
traído o Ducc. Na prática, Mussolini consegue apenas, com sua
parlamentarismo italiano é ma rendo, d u um lado, pela fatal k-
niOneia Jos governos parlamentai-e? ante u crescente agressivi- tardia reformulação social, ressaltar a necessidade de uma de-
mocracia social, na Itália do após-guerra.
dade do fascismo c, de outro, pela crescente cumplicidade do
rei c dos militares com Mussolini. l'm Limbos os casos, o que A semelhança da Alemanha, a instauração da democracia so-
condiciona a conduta da maioria pnrlamentar. do rei e dos chefes cial, na Itália, se fax sob a égide da Democracia Cristã, sob a
competente dirccão de Alcide de Gusperi, que assume o governo
militares e, por trás deles, das forcas sociais que representam,
a burguesia e a classe média, é o medo du comunismo. O parla- cm 10 de dezembro de 1945. fim 194& um plebiscito repudia a
mentarismo e a monarquia não se consideram mais capacitados
monarquia c conduz à proclamação da República. F.m l de ja-
a eviliir ;i revolução social. Tardiamente, o último gabinete par- neiro de 1948 entra em vigor a nova Constituição italiana, ela-
lamentar, sob 11 presidência de Facto, ante a "marcha sobre Ro- borada pela Constituinte eleita cm 1946. A Constituição esta-
ma", pede a proclamação, pelo rei. da lei marcial. Sendo-lhe belece uma república parlamentar "fundada sobre o trabalho",
sob a presidência de um chefe de F.stado sem poderes executivos
recusada a medida. Facta se demite e o rei (21-10-1922) convida
M u s s o l i n i a formar o gabinete, recebendo, do rei e do Parla- e dirigida por um Gabinete dependente da maioria parlamentar.
mento (2V11-19221 um mandato de plenos poderes, com vigên- O regime italiano da carta de 1946 se desenvolve como uma
cia até ï l de dezembro de 1923. M a n i p u l a n d o a máquina do democracia social parlamentar, operada por coalizões tcnden-
F st ido e a acão dircta dos fascistas. Mussolini logra, rapidamente, cíalmenlc de centro-esquerda. O Partido Democrata Cristão, co-
o controle total do poder, formalizado por retumbante vitória mandando cerca de um terço do eleitorado, tende a ser a prin-
eleitoral cm 6 de abril de í924. cipal força política, compondo maiorias parlamentares, com cor-
respondente representação no Gabinete, mediante alianças com
partidos menores do centro e da esquerda. A tendência para a
esquerda moderada se acentua, nos anos mais recentes, sob a
,4 democracia soda! influência de Aldo Moro, assassinado cm 197K.
A derrota militar do Lixo na Itália, com a capitulação das Diversamente, entretanto, do que ocorre com a nova demo-
forcas alemãs cm 2 de maio de 1945, foi precedida de impor- cracia alemã, a italiana não logrou instaurar um regime dotado
tantes acontecimentos políticos. Por um lado, os hierarcas mais de satisfatória eficiência administrativa e representai i v ida de po-
realistas do regime buscam minorar os efeitos da derrota derru- lítica e social. Excluindo da análise as óbvias e importantes di-
bando Mussolini (24-25 de j u l h o de 19431 que c preso, cm se- ferenças económicas e socioculturais que separam a Itáli» da
guida, por ordem do rei. O marechal líadoglio í. incumbido de Alemanha contemporâneas, o problema básico da atua! demo-
dirigir o governo e de negociar, secretamente, um armistício cracia italiana decorre das peculiares características do Partido
com os Aliados. Cientes de tal manobra, entretanto, as forças Comunista Italiano.
alemãs se antecipam, ocupando militarmenic Roma e a Itália Acentuando tendcncias que j;i se encontravam nas formulações
central e setentrional, forçando o rei e Badoglio a se refugiarem teóricas de Granirei c nas posições de Togliatti, o PCI. sob a
com os Aliados, na Itália do sul. Por outro lado. as forças pro- dirccão de Enrico Bcrlingucr. a dotou, com o Kurocomunismo,
gressistas i t a l i a n o s formam corpos de parti gianï que fustigam uma \Í!ião profundamente democrático-liumnnista do marxismo.
as tropas alemãs, cooperam com os Aliados c imprimem, assim, Taí posição diferencia, complctamentc, o comunismo italiano dos
ativíi participação popular à f i n a l liberação da I t á l i a . partidos alinhados com a União Soviética c também, embora
Fenómeno interessante, nesse período, c o cspctactilsr resgate não declaradamcntc, da própria perspectiva leninista do marxis-
de Mussolini (12-9-1941), da prisão de Gran Sasso, por urna ope- mo. Essas peculiaridades fazem do PC f um legítimo partido so-
ração de comando dirigida por ütlo Skorzeny. Liberado, Mus- cialista democrático — embora não um partido social-dcmocrá-
solini tenta instaurar uma versão social do fascismo no norte tico — que comanda cerca de 30% do eleitorado italiano. Tal

80 81
condição priva o Partido Socialista Italiano de se tomar, como Apesar Já ocupação militar, as forças patrióticas logram man-
o francês ou o SS'D alemão, o grande partido do socialismo de- ter sua resistência cm Cádiz, até a chegada de Wellington c a
democrático. fim contrapartida, o PC! não logrou até hoje, in- derrota final Jos franceses, cm 1814. Forma-sc, assim, em Cádiz,
terna c externamente ao partido, condições para operar, à seme- uma J u n t a de Governo, representativa da ititeüiocntziü liberal,
lhança Já Democracia Cristã, como um centro coordenador de que adula, em 1 8 1 2 , uma Constituição inspirada na francesa de
uma coligação política Já esquerda democrática. Acrescente-se 1 7 9 ] , estabelecendo uma monarquia constitucional. Como os
finalmente, que as tentativas, por parte do PCI, Jc lograr um príncipes italianos, depois da queda Jc Napoleão, Fernando VII
"compromisso histórico" com a Democracia Cristã, nunca en- ( 1 8 1 4 - 3 3 ) , restaurado, suprime a Consliluição Jc 1 8 1 2 e resta-
belece o absolutismo.
contraram suficiente acolhida de parte desta.
O longo impasse que vem privando de maior rcpresentativida- O restabelecimento do absolutismo suscita grande reaeào nos
de social as maiorias parlamentares italianas c os Gabinetes delas meios l i b e r a i s . A perJa das colónias americanas, por outro lado,
decorrentes afeia, inevitavelmente, a eficiência do sistema polí- contribui para o desprestígio do rei e o débilitamcnlo financeiro
tico, impedindo a solução dos mais graves problemas cconômíco- da Coroa. Esse descontentamento termina provocando a insur-
suciais do país. A democracia suciai italiana, entretanto, em- reição da guarnição de Cádiz, cm 1820, segui Já por outros mo-
bora imperfeita, é claramente vista como algo de valioso, pelo vimentos revolucionários e a adesão, à insurreição. Já guarnição
povo, o que lhe permitiu resistir, cxitosamcnte, ao assalto extre- Jc Madri. Fernando cede à pressão revolucionária c restaura
mista dos brigadislas. A despeito de tudo, o regime tem logrado a Constituição de 1 8 1 2 , tornanJo-se. praticamente, um prisio-
preservar o elevado nível de vida e as abrangentes garantias so- neiro Jos rebeldes. A Santa Aliança, entretanto, comissiona a
ciais de que gora a Itália. Franca, por instigarão de Chatcuubníind, a i n t e r v i r na Espanha,
para restaurar a autoridade do rei. DerrotuJos os rebeldes cm
Troeadcro (31-8-1823), o absolutismo c rés l abe l eu i do na Espanha.

DEMOCRACIAS DE DESENVOLVIMENTO TARDIO


Cari i sino c lihrralixmo
A morte de Fernando V I I , em 1833. abre na Espanha um
(1) LSPANHA largo período Jc instabilidade, cm que se alternam momentos Jc
restauração liberal com outros, de absolutismo, transcorrendo,
Fase preparatória concomitantemente, o conflito sucessório entre Isabel TI, filha
Como nos demais países da Europa, a Ilustração e as ideias de Fernando, c o irmão Jeste, D. Carlos. Querendo que sua fubá
da Revolução Francesa suscitaram, nos sclores progressistas da o sucedesse no trono, Fernando revoga a lei sálica, que proibia
Espanha, expectativas de reformas modernizadoras c liberais. A
sucessões pela l i n h a feminina. D. Carlos, representando as forcas
invasão napoleônica, como ocorreria na Alemanha, produziu
mais conservadoras, se insurge contra a revogação Já lei e em-
efeitos contraditórios: enérgica repulsa ao invasor, através de
uma prolongada guerra de guerrilhas c aceitação das mensagens preende diversas rebeliões, para conquistar o trono — as guerras
carlistas —, que serão sempre debeladas.
liberatórias da Revolução. 32
No começo do reinado Jc Isabel, então menor, sua mãe Maria
Cristina, como regente, necessitada Jc apoio Jos liberais para
32
Para uma visão geral da história espanhola, vide o trabalho clássico de conter D. Carlos, promulga um F.slatuío R e i i l . instituindo uma
Salvador de Madariaga, Spain, London, Í952. Para uma visão mais atuali-
zacla, Raymond Carr, Spain — ISOS-J975, Oxford, 1982. Para uma lúcida
democracia de notáveis, baseada n ti m parlamento hieameral —
analise du franquismo c seu processo de transição, vide Ludovico Garniccio, as Cortes — com poderes legislativos, mas com um ministério
Spngíiíi síTjza Mil!, Milanu, 1964. Para o desenvolvimento económico do dependente do rei. Menos liberal que a Constituição de 18Í2, a
f i m du franquismo, vide a edição especial de Tiers Monde (N. 32, Oct./Dec. nova Carta d i v i d i u a opinião liberal, com os moderados a acei-
1*367), Sobre a aluai política de descentralização, cf. R- Calvo et ai.. Lãs
Autonomias Regionales, Madrid, 1977. tando c os profirexxixíeia demandando a restauração Já Constitui-

82 8"!
çao anterior. O regime instituído pelo Estatuto Rea!, além de de- impulso renovador, que se fará sentir, sobretudo, no plano cul-
satender à verdadeira opinião liberal, teve sua vigência interrom- lural, com pensadores corno Unamuno e Ortega. Mas a crise
pida por diversos golpes reackmários, que fazem do reinado de institucional, de forma mais branda ou mais aguda, persistirá
;iinda por longo prazo.
Isabel um período de instabilidade e dcscontimlidade institu-
cionais. Ainda que se beneficiando da neutralidade, durante a Pri-
meira Guerra Mundial, a Espanha enfrenta períodos de crescentes
A insurreição de 1868 conduz à deposição da rainha e ao
dificuldades no curso das duas primeiras décadas deste século,
governo liberal dos generais Serrano e Prim, promulgando-se em
seriamente agravadas, em 1921, pelo desastre militar de Anual,
1869 nova Constituição. Mas a nova tentativa de democratização
no Marrocos espanhol. A deterioração do regime conduz, era
tampouco se revelará eficaz. A crise da sucessão espanhola, que
I*í23, ao golpe militar do general Primo de P.ivera, corn apoio do
seria usada por Bismarck para provocar a guerra franco-prus-
rei. Aquele intenta, por dois anos, sob a égide da coroa, uma
siana, termina instalando no trono da Espanha, em 1871, como
ditadura salvacíonista, visando a uma recuperação económica e
Amadeu I, o Duque de Aosta, que não logra estabilizar-se e
cívica do país, deníro de uma orientação nacionalista e corpo-
abdica em 1873. Surge então, também sem estabilidade, um in- rativista de direita. A partir de 1925 a ditadura se transforma,
tento republicano, que perdurará, apenas, ale 1874. Ameaçados
por iniciativa própria, visando à formação de uma "União Pa-
por um último levante carlista, a opinião pública liberal e os
triótica", com a continuação da liderança de Primo de Rivera.
dirigentes militares se inclinam a favor da restauração de uma
As dificuldades político-institucionais persistem, continuando
monarquia constitucional, com o filho de Isabel, que ascende ao
a se acentuar o atraso da Espanha, relativamente à Europa. Em
trono, em 1875, eomo Afonso XII.
19"50 Primo de Rivera renuncia. Cresce, entrementes, a propa-
ganda republicana. O rei busca, em 1931. através de eleições
municipais e provinciais, restaurar um regime constitucional. Mas
Democracia de classe média a convocação, inicialmente, das eleições municipais, produz uma
Estabelecem, Afonso XII e a nova Constituição, votada em grande vitória dos republicanos. Afonso X I I I se decide, então,
1876, na Espanha, uma democracia de classe média, que perdu- sem abdicar, a abandonar o país, consliluindo-se, com Alcalá
rará até os anos 20 do nosso século. Zamora. um governo republicano provisório.
A nova Constituição, com elementos das de 1845 e 1869, esta- As eleições de 28 de junho de 1931, para a Assembleia Cons-
belece uma monarquia constitucional censitária, cm que o rei tituïnle, dão ampla maioria à coligação Republicano-Socialista.
escolhe os ministros e estes, de fato, manipulam as Cortes. Cá- Em 9 de dezembro adota-se a nova Constituição, com sufrágio
novas dei Castillo, conservador, e Prãxedes Sagasta, liberal, serão universal, câmara única, ministério responsável peranle o Parla-
aí mais importantes figuras da restauração espanhola. O sistema mento e um presidente da República, com mandato de seis anos,
censitário será modificado em 1890, com a adoção do sufrágio eleito por um colégio eleitoral compreendendo os membros do
universal masculino. Apesar do sufrágio universal, entretanto, o Parlamento e igual número de eleitores, escolhidos por voto
popular.
regime continuará sentiu representativo apenys cias classes supe-
riores e médias. A política parlamentar, como no Rhorgimento A segunda República espanhola, que teria duração algo maior
italiano, terá pouca conexão com as realidades profundas do do que a primeira, revelaria, entretanto, como a monarquia cons-
país. A Espanha vive num regime de faz-de-conta. E a crescente luucional que a precedera, a mesma incapacidade para assegu-
brecha entre o país oficial e o real conduz, em fins do século rar, de forma estável e representativa, a ordenação da sociedade
XIX, em torno das vicissitudes criadas pela revolução da inde- c o desenvolvimento do país. Diversos fatores contribuem para
pendência cubana, à intervenção dos Estados Unidos em Cuba inviabilizar a República, num país que permanecia economica-
e à catastrófica guerra hispano-amerïcana. A guerra liquidará mente atrasado e onde ocorria excessiva distância entre a mo-
com quase todos os remanescentes do império colonial espanhol, déstia da capacidade produtiva e as aspirações sociais da es-
mergulhando o país em profunda humilhação. Desta humilhação querda. Um dos principais fatores, em tais condições, será o ex-
nacional sairá, com a grande geração de 98, um extraordinário tremismo ideológico, que conduz os republicanos e socialistas

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moderados a ler de enfrentar, no seu próprio campo, sérios pro- poder com eficiência, muda a orientação C o sentido de seu
blemas de manutenção da ordem, e de contenção de greves governo de aeordo com as circunstâncias e se uliliza, com su-
(como os levantamentos anarco-sindicalistas de Barcelona, de 8 prema habilidade, das variações da conjuntura internacional.
de janeiro e 9 cie dezembro de 1933), ao mesmo tempo em que, Assim, no tocante a estas, Franco logra, no curso da Segunda
nu campo adverso, as forças readonárias tentam golpes eontra Guerra Mundial, manter a neutralidade da Espanhi, transitando
a República, como o levantamento do general Sanjurjo, em habilidosamente, no curso do conflito, de uma neutralidade pró-
1932, como a formação das Juntas de Ofensiva Nacional Sindi- Kixo a uma neutralidade pró-Aliados, quando, desde meados
calistas (JONS) e a criação, em 1933, da Falange, por José An- de (942, se deu conta de que estes terminariam vencendo a
tónio Primo de Rivera, filho do falecido ditador. guerra. No após-guerra, logra, com não menor habilidade, su-
Esse clima de instabilidade favorece a direita, que alcança perar o isolamento diplomático que cerca a Espanha, jogando
44% das cadeiras do Parlamento, nas eleições de 19 de novem- com os Esíados Unidos a carta anli-soviéliea, durante a guerra fria.
bro de 1933, contra 22% dos partidos de esquerda. Mas com Internamente, o regime de Franco se inicia com furte orien-
isto deixam de ser implementadas as grandes reformas sociais tação ideológica, como um corporativismo eatólico-falangista.
dos dois primeiros anos da República, gerando profunda frus- Hm atenção aos novos rumos, da guerra, Franco adota posições
Iração popular. Tal estado de coisas suscita a reação dos parti- mais moderadas a partir de Í942, Depois da guerra, vence,
dos de esquerda, coligados numa Frente Popular, que logra arn- gradualmente, o bloqueio internacional à Espanha, logra habi-
pla vitória, nas eleições de 1936. As Cortes cassam o mandato litar-se à ajuda do plano Marshall e termina ingressando nas
de Alcalá Zamora, por abuso de poder e elegem presidente Ma- várias instituições das Nações Unidas. A década de 1960 será,
nuel Azaíïa. Novamente, entretanto, o extremismo ideológico e com o Opus Dei, dedicada a um grande programa de desen-
anticlerical conduz a uma onda de violência por todo o país, volvimento económico, alcançando altas taxas anuais de cresci-
culminando com o assassinato (13-7-1936), por oficiais da po- mento para o P1B. Os anos finais do regime já acusam vários
lida, do líder monarquista Calvo Sotelo. Esse fato proporciona elementos de transição. Constituído, desde 1947, em regime mo-
o último induzimento para a rebelião dos militares de direita, nárquico, sob a regência do caudilho, Franco formaliza em 1969,
sob a direção do general Francisco Franco. pelas Cortes, sua sucessão pelo príncipe |uan Carlos. No final
do regime, sob a direção de Árias N a v a r r o , adotam-se impor-
tantes medidas de liberalização.
Do jranquismo à democracia social N'a verdade, ainda que sem prévio desígnio, a longa ditadura
A guerra civil, esíendendo-se, por três penosos anos, num con- de Franco, ;i semelhança do regime de Napoleão 111, opera como
flito que produziu mais de quatrocentas mil vítimas, foi, ao mes- um fator de mobilização cio desenvolvimento económico e de
mo tempo, a grande confrontação entre a esquerda e a direita mediação do conflito social. De p;n's basicamente agrícola, a
espanholas, ambas levadas ao mais extremo radicalismo, e uma Espanha se [orna um apreciável centro industrial, ampliando,
antecipação da Segunda Guerra Mundial. Enquanto os governos significativamente, sua autonomia produtiva e sua capacidade de
democráticos, na França e na Inglaterra, se refugiavam numa gerar excedentes redislribítíveis sob a forma de melhores salários
pusilânime e hipócrita neutralidade, a Alemanha e a tlália, pra- e de benefícios sociais. Concomitantemente, a expansão da classe
ticamente sem disfarces', davam às forças do general Franco o média e a emergência de um emprcsariado moderno modificam
maior apoio inalerial e humano, assegurando-lhe as condições a estrutura social do país, ampliando. con-iideravetmerUe, os es-
de vitória. tratos médios e as formas racionais de tomada de decisões, com
A derrota da República proporciona a Franco uma longa e a concomilanle tendência à adução de políticas moderadas c
estável ditadura, que se prolongará de 1936 até seu falecimento, consensuais.
em 1975. A longevidade e a estabilidade do regime se devem, em Ascendendo ao trono em 1975. o Rei foão Carlos I se re-
grande parte, à sagacidade política e administrativa de Franco. vela um c\lr;iordinário estadista. Mantendo, inicialmente. Árias
Hslc organiza sempre apropriadas bases de apoio, maneja o Navarro na chefia do governo, o rei logra minimizar as resistên-
cias ao processo de redemocratízacão que, rapidamente, se põe
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em marcha. Numa segunda etapa, com o centrista Adolfo Suárez,
estabelece as bases de uma nova convivência social através do 1'ornbal recebe um país atrasado em todos os planos da vida
Pacto de Moncloa (1977) c, mediante habilidoso plebiscito, obtém, rmcional, que dilapidara no reinado de João V (1706-50), em
em 1978, mais de 66% de votos a favor da nova Constituição, piiNiuoh c festas, na faustosa emulação do estilo de Luís X!V,
que consagra seu trono e faz da Espanha uma monarquia consti- .1. riquezas que extraía do Brasil. Pombal se empenhou, com
r.i.nule êxito, numa gigantesca obra de modernização da econo-
tucional parlamentar, com forte orientação social. O governo
centro-progressista de Suárez (1976-81) cria, assim, condições m i a , da cultura e da administração portuguesas. Teve tle cn-
l u - i i i a r , nos primeiros anos de sua gestão, as devastações do lerre-
para um reagrupamento democrático da esquerda. E em 1982
m u i u de Lisboa (1755), a perigosa conspiração aristocrático-cle-
Felipe González, depois de haver reorganizado, com bases mo-
m : i l dos Távoras (1758) c os excessivos privilégios concedidos
dernas e democráticas, o Partido Socialista, logra confortável
• <«'• ingleses. Mas, combinando uma superior compreensão dos
vitória que o conduz à chefia do governo. Uma das mais desta-
1'uiMemas portugueses com indomável energia, e dando apro-
cadas contribuições do rei à nova democracia espanhola será
p r i ; u ! i > uso às riquezas que continuavam afluindo do Brasil,
sua brava desarticulação da tentativa de golpe militar, em 1983.
i c i i i g u n i / o u a produção agrícola, desenvolveu as manufaturas e
Sem incidir no culto da presonalidade de João Carlos I, é
i l i o u novas indústrias (seda, cutelaria), dinamizou a capacidade
indiscutível que se deve uma relevante parcela do êxito da
inniLTcia! do país, constituindo companhias de comércio para
redemocratização espanhola à sua esclarecida e corajosa arbi-
• f. vinhos, a pesca c as riquezas do Brasil, rccstruturou a admi-
tragem institucional. As condições para tornar a Espanha uma
niMmçüo pública, o Exército e a Marinha, adotou uma política
democracia social, entretanto, se foram configurando no curso
i ' \ i c i n a independente e reformou, dentro do espírito da Ilustra-
dos últimos quinze anos da ditadura de Franco. E a alta capa- i.,m, ;i Universidade de Coimbra e a vida intelectual portuguesa.
cidade política que revelarão os atuais dirigentes espanhóis, de
A L'\pulsão dos jesuítas (1759), num período em que aquela
Árias Navarro a Adolfo Suárez e deste a Felipe González, re-
uiik-m se havia convertido no símbolo do clericalismo absolu-
flete, entre outras circunstâncias, as longas e penosas frustrações
ii-.|;i, constituiu um passo necessário para a modernização inte-
experimentadas pelo país, desde a restauração, cm suas suces-
livhKil do país, onde um escolasticismo esclcrosado impedia o
sivas tentativas de edificar, estavelmente, instituições democrá- IMI-.IL-SSO do pensamento moderno.
ticas e modernas.
As grandes reformas de Pombal ampliaram, significativamente,
.1 i ,-ipacidade económica, cultural e mililar do reino, reaproxí-
(2) PORTUGAL m;nu!o a nação do nível dos demais países europeus. Suas polí-
i i L . r . , entretanto, não tiveram continuidade, no reinado de Ma-
Fane preparatória M . I l 11777-1816), que sucede a D. )osé I, voltando a se fazer
A Ilustração e a modernização das ideias c do estilo de vida ••inlir a predominância aristocrático-clerical. As reformas de
coincidem, em Portugal, com a extraordinária gestão do Mar- l ' c i i i l i ; i l conservariam importância no Brasil, facilitando sua sub-
nucs de Pombal que, como Ministro da Guerra e. posteriormente, • ' i | i n - i i t c expansão com D. foão VI; lançariam, na metrópole,
Primciro-Ministro. administra o país durante o reinado de Dom . 1 . l>;iscs de um pensamento moderno e de uma burguesia li-
José ï (1750-1777)- 33 I " i . i l que, depois das guerras napoleônicas. conduziriam à for-
in.i..,10 das forças liberais portuguesas.
)3
Para uma visão histórica gera), vide A. H. de Oliveira Marfins, História
de Portugal. Lisboa, Guimarães Ed.. 1168. Para uma análise das condições
económicas, sociais e políticas do século XIX e princípio do XX. vide Ma- l\i tíftnocracia de notáveis à de classe media
nuel Villarès de Cabral. O Desenvolvimento do Capitalismo cm Portugal no .V, condições existentes em Portugal, depois da queda de Na-
Século X I X , Lisboa. A Regra do logo. 1981 e Portugal na Alvorada do Sé-
culo XX, Lisboa, A Regra do Jogo, 1979. Para problemas da ahialidade. l " ' l c , i < i , com a permanência de D. |oão VI no Brasil e a metró-
vide Amónio dc'Spín.°'a. Portugal e o Futuro. Rio, Nova Fronteira, 1974 |i"lr praticamente entregue ao proconsulado de Beresford, em-
e Mário Soares. Portugal: que Revolução?, Rio, Paz e Terra, 1976. l i . u v i d o r da Inglaterra, favoreceram o desenvolvimento das ideias

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democracia de classes altas e médias e o povo português, con-
e das forças liberais, que desencadeiam, em 1820, a revolução duziu as reivindicações populares a se encaminharem por canais
do Porto e instauram um regime constitucional, com a Carta de estranhos au parlamento e a serem mobilizadas por ideologias
1822, inspirada na espanhola de 1812. antimonárquicas, do republicanismo liberal m> anarco-sindicalismo.
Os anos que se seguem são marcados pela instabilidade polí- A revolução republicana, de 4/5 de outubro de 1910, consii-
tica e institucional, com conflitos opondo .os liberais radicais tuiu um governo provisório, sob a direção do Dr. Teófilo Braga
aos moderados" e ambos ao absolutismo miguelista. Na compli- e convocou uma Assembleia Constituinte. A Constituição Repu-
cada sucessão de D. João VI, que falece em 1826, D. Pedro blicana foi promulgada em 20 d u agosto de 1911, adotando um
busca, ao mesmo tempo, manter-se como Imperador do Brasil liberal regime parlamentar, com sufrágio universal e elegendo
e assegurar o trono português para sua filha menor, Maria da como primeiro Presidente o Dr. Manuel d'Arriaga.
Glória, sob a regência de seu irmão D. Miguel. D. Miguel, Como no caso da Espanha, a República portuguesa, embora
entretanto, aspira ele próprio ao trono c à restauração do abso- de mais longa vida, não logrou alcançar nem estabilidade polí-
lutismo, o que marcará, com as guerras miguelistas, os anos tica nem salisfatória representai) vidade social. Em ambos os
de 1828 a 1834, à semelhança do que ocorreria na Espanha, países, mais acentuadamente em Portugal, abria-se urna brecha
com as guerras carlistas. A derrota final de D. Miguel (1834) crílica entre as condições e as expectativas. Portugal permane-
não traz, entretanto, a esperada tranquilidade, porque a instável cia, em princípios do século, um país predominanternente agrí-
democracia portuguesa de notáveis se defronta com uma divisão cola, com um modesto centro i n d u s t r i a l na área do Porto, uma
interna entre os liberais "setembristas", favoráveis à restauração população deseducada, com eerca de 70% de analfabetos, vi-
da Constituição de 1822 e os moderados, que apoiam a Carta vendu, com a relativa exceção da região vinícola do Douro,
mais autoritária, outorgada por D. Pedro em 1826. de uma agricultura de muito baixa produtividade. Um proleta-
O acesso ao trono de D. Pedro V (1853-61), a que se segue riado relativamente numeroso, na área de Lisboa, dependia de
o longo reinado de D. Luís I (1861-1889), abre, finalmente, formas semi-artesanais de produçáo ou de ocupações tereiárias,
um largo período de tranquilidade política, estabilidade insti- ambas de baixíssima renda. Contrastando com essas modestas
lucional e marcante progresso económico. A monarquia se con- condições, supunha-se que a mera instauração da República
solida como um regime parlamentar, alternando-se no poder as conduziria à rápida elevação do nível de vida das camadas po-
correntes regeneradora (conservadores) e progressista (radicais). pulares. As expectativas se carregavam, positiva c negativamente,
Como na Restauração espanhola, a monarquia constitucional por- de uma visão idealista da política, alimentando a crença de
tuguesa é um regime das classes superiores, em que o povo não que modificações na ideologia da equipe dirigente se traduzi-
tem nenhuma representação. As consequências dessa alienação riam, quase automaticamente, em melhoria do nível de vida do
popular, entretanto, só se fariam sentir mais tarde. Com Pedro V povo. Tal estado de coisas conduziu a um constante conflito
e Luís í, Portugal dinamiza sua economia interna, desenvolvendo- entre os liberais moderados e a esquerda radical, agravados pelas
se um centro industrial em torno do Porto, e rcativa sua pre- tentativas conservadoras de restauração da monarquia (levante
sença colonial, adormecida durante séculos, lançando-se à explo- de 1919) c por endémico golpismo militar: Pimenta de Castro, em
ração económica da África portuguesa. 1915, Sidõnio Pais, em 1917, levante de 1925 e, finalmente, a
derrocada do regime com a insurreição de 1926.

A crise republicana
A monarquia portuguesa caiu em 1910. Duas principais cir-
O salazarismo
cunstâncias se conjugaram para pôr um lermo ao regime. Por O golpe de 28 de maio de 1926, sob a efémera direção do
um lado, Carlos I (1889-1908) e Manuel II (1908-1910), suces- general Gomes da Costa, logo substituído, estável mente, pelo ge-
sores de Luís I, se revelaram monarcas incapazes e irresponsá- neral António de Fragoso Carmona, se iniciou como um salva-
veis, entregues a uma vida licenciosa, que desmoralizaram a auto- cionismo militar de direita, para pôr ordem em Portugal. So-
ridade real. Por outro lado, o crescente intervalo entre «ma

90
meme dois anos mais tarde, quando António de Oliveira Salazar, tuguesa na África e de uma suposta profunda diferença entre
professor de economia em Coimbra, é chamado para dirigir, as províncias "ultramarinas", no caso português, ré Ia li vãmente às
com poderes ditatoriais, as finanças portuguesas, é que o novo colónias britânicas ou francesas, Salazar não admite nenhuma
regime começa a adquirir um perfil próprio. Salazar alcança concessão aos movimentos independcntistas. Conforme estes se
rápido e decisivo êxito, logrando equilibrar o orçamento público acentuam, responde por massívo incremento da repressão militar.
e estabilizar a moeda. O colonialismo destrói o salazarismo, produzindo as condições
A partir de seu êxito financeiro, o novo ministro expande, que derrotariam o regime em 1074. Menos de seis anos depois
celeremente, suas áreas de ingerência c seus poderes. Em 1930, da transferência da chefia do governo a Marcelo Caetano, em
organiza as bases políticas do novo regime, o Estado Novo, 1968, por incapacitação física de Salazar, uma rebelião militar,
apoiando-o num partido único, de tipo corporativista, a União coordenada por um grupo de coronéis, derruba o governo e
Nacional. Em 1932 formaliza sua posição hegemónica no go- reorienta Portugal para um regime democrático.
verno, tornando-se Primeiro-Minístro. Em 1933 é promulgada
a nova Constituição, que configura o regime como um capita-
lismo corporativo-cri s t ao, baseado num partido único e numa A democracia social
representação corporativa de caráter consultivo. O Presidente da
República, eleito por sufrágio universal para um mandato de sete A "revolução dos cravos" é um movimento extremamente inte-
anos, designa um Gabinete, .sob a direção de um Primeiro-Minis- ressante produzido, em função de divergis circunstâncias, inclu-
sive a influencia ideológica das guerrilhas africanas, pelo des-
tro, responsável perante o Presidente. O catolicismo é religião
de Estado e amplas prerrogativas são concedidas à Igreja. gaste crescente que as guerras coloniais impunham a Portugal e
pela igualmente crescente evidência de que a solução militar
Mais semelhante ao franquismo — de que foi um predeces- não poderia ter exilo. Decisivo, como fator de conscientização
sor — do que ao fascismo italiano — e hostil a este e ao na- da inviabilidade da política colonial portuguesa, foi a publica-
zismo — o salazarismo, entretanto, se distingue do modelo es- ção, cm 1Q74, pelo general Spinola, do livro Portugal e o Futuro.
panhol por ser menos mobUizacionista. À União Nacional não Spinola viria a exercer, logo depois do golpe dos coronéis, im-
é conferida a influência ideológico-política de que gozaria a portante papel, assumindo a chefia do movimento e a primeira
Falange, nos primórdios do franquismo. O Partido Ünico por- presidência do governo revolucionário.
tuguês é um mecanismo de mobilização e de coonestação elei-
torais cios candidatos do governo e uma agência do clientelismo Nos seus dez anos de existência, o novo regime português
oficialista, que premia os aderentes do regime com favores lo- logrou, sobretudo a parfír de 1982, apreciável grau de estabi-
cais c pessoais. lidade. Numa primeira fase, sob o controle de um grupo de
\ gestão de Salazar é mais homogénea, no curso do tempo, oficiais de esquerda, com o general Costa Comes na chefia
do que a de Franco. Porque mais prudente e moderado, Salazar, do Estado e o coronel Vasco Gonçalves na chefia do governo,
duranle a guerra, mantém uma neutralidade favorável aos Alia- o regime forma uma aliança com o Partido Comunista de Álvaro
dos e encontra, assim, menos resistências, no após-guerra. Sua Cunhal — de orientação stalinista — e se encaminha para um
gestão é essencialmente financeira, voltada para a acumulação socialismo radical, de tendência soviética. A rcação da esquerda
de reservas c a estabilidade do orçamento e da moeda. Embora democrática, sob a liderança do Partido Socialista e este, sob
busque desenvolver os serviços infra-estruturais e a indústria, a de Mário Soares, logram, com o apoio das forças centristas e
e se empenhe em alivar a exploração económica da África, al- dos setores não comunistas do Exército, depois de uma difícil
cança, apenas, modestas taxas de crescimento. e turbulenta confrontação, rcdirecionar o regime no sentido de
Por outro lado, os movimentos de independência, na África um socialismo parlamentar. As eleições de 1975 para a Assem-
portuguesa, a partir da década de 60, prejudicam e finalmente bleia Constituinte dão aos comunistas apenas 13% dos votos,
anulam os planos de ativa exploração económica das colónias, contra 38% para os socialistas e 26% para o Partido Popular
imbuído da convicção da legitimidade histórica da presença por- Democrático, do centro.

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Urn segundo momento do regime, marcando sua oscilação pen- brusca, em seu primeiro ano de governo, produzindo o deslo-
dular para uma posição de centro-direita, emergirá com as elei- camento para a metrópole de cerca de um milhão de portugueses
ções de 1979, que conduzirão à vitória eleitoral a Aliança Demo- emigrantes das colónias, numa conjuntura interna e externa de
crática de Sá Carneiro e, com a morte acidental deste, Freitas recessão, que tornava impossível a ampliação do emprego.
do Amaral à chefia do governo. A Constituição de 1975 é enlão Defronta-se, assim, o país, presentemente, com uma situação
revista, no sentido de eliminar os resíduos da ingerência política cconômico-financdra e social de extrema gravidade. Com uma
dos militares — o Conselho da Revolução — e de excluir, do taxa de inflação da ordem de 30% e muito modestas disponi-
texto constitucional, excessivos compromissos ideológicos. Fica, bilidades para a assistência social, tem que enfrentar um desem-
assim, o regime português constitucíonalmenie definido como prego que atinge a 15% da força de trabalho. As grandes in-
uma República parlamentar, com expressa vocação social, diri- dústrias novas portuguesas, afetadas pela recessão doméstica e
gida por um Gabinete responsável perante o Parlamento, o Presi- internacional, estão parcial ou totalmente paralisadas, quando
dente e o Parlamento sendo eleitos por sufrágio universal. não inviabilizadas pelas novas condições internacionais, como
Um terceiro momento desse processo será o retorno do pên- no caso do grande estaleiro de Setenavcs. A apressada e ideoló-
dulo eleitoral, nas últimas eleições, para uma posição de centro- gica nacionalização de empresas, efetuada em princípios da revo-
esquerda, devolvendo ao Partido Socialista a predominância par- lução, entregou ao Estado um sistema que se tornou altamente
lamentar e a chefia do governo a seu líder, Mário Soares. ineficiente e deficitário, cuja sustentação já forçou a contratação
de empréstimos externos da ordem de US$ 7,5 bilhões. Acres-
A eleição para a Presidência da República, em 1976, do cente-se que as medidas iniciais da revolução, no setor agrário,
general António Ramalho Eancs — que já havia dado decisiva desorganizaram a lavoura portuguesa, que precedentemente aten-
contribuição para debelar o putxch de 1975 da extrema es- dia à demanda doméstica, impondo a importação de 60% dos
querda — foi um importante fator de estabilidade para o regime. alimentos, a um custo anual da ordem de ÜS$ 900 milhões. Com
Da mesma forma como sua atuação moderadora, na primeira isto, a dívida externa portuguesa atinge a casa dos US$ 14 bi-
fase da revolução, contribuiu decisivamente para conter o que lhões, correspondentes a cerca de 50% do PIB.
já parecia uma inevitável radicalização de esquerda, sua atuação,
na seguinte fase, pela preservação da vocação social-democrática Ante tal situação, são óbvias as dificuldades que enfrenta o
do regime, impediu que as forças conservadoras, durante o pre- governo Mano Soares e compreensível o Forte declínio de sua
domínio parlamentar de centro-dïreita, desfigurassem o sentido popularidade. As esperanças do país dependem, assim, em pri-
social do novo sistema político português. Reeleito, com 57% meiro lugar, da estabilidade políüco-institucional alcançada pelo
dos votos, cm 1980, o general Eanes contribuiu, significativa- regime. Se esta for suficiente para permitir ao governo enfrentar
mente, para que a revisão constitucional de 1982, suprimidos os um período extremamente ingrato, tudo indica que, dentro das
excessos declaratórios do texto original, preservasse seu compro- mais favoráveis condições internacionais, que se delineiam para
misso com a democracia social. os próximos anos, Portugal logrará, no âmbito da Comunidade
Europeia c do sistema Atlântico, recuperar seu equilíbrio econô-
Presentemente, os problemas com que se defronta o novo mico-financeíro c retomar o caminho do desenvolvimento eco-
regime português são menos de caráter polílicoinstitucional do nómico e social.
que de cunho económico-social. Diversamente do ocorrido na
Espanha, onde o franquismo, ainda que indeliberadmnente, legou
aos sucessores uma sociedade com apreciável nível de desenvol-
vimento económico-social, o legado final do salazarismo foi ne- O CASO DAS AMÊRICAS
gativo. A guerra colonial reduziu a proporções modestas as an-
tigas economias do sistema, logo consumidas nos primórdios da Os estudos de caso precedentemente empreendidos, da Grécia
revolução. Modesto, também, foi o grau de desenvolvimento eco- clássica à Europa moderna e contemporânea, ainda que redu-
nómico logrado na metrópole. F, pesadíssimos, os encargos da zidos às indicações mais fundamentais, para mante-los dentro
descolonização, que o novo regime teve de assumir de forma de dimensões compatíveis com o conjunto da presente pesquisa,

94 95
Red Bank, 1843) mas, diversamente, se aproximava mais dos
tornam possível uma discussão comparativa e crítica das condi- experimentos colonizadores da Grécia do século V I I I .
ções dentro das quais tende a se desenvolver o processo demo-
crático. Esse estudo será sucintamente intentado no capítulo se- Trazendo para os Estados Unidos de princípios do século XVII
guinte da presente seçào. Importaria, entretanto, antes de con- as inquietudes religiosas e políticas da Inglaterra da época, ten-
cluir esta resenha histórica de processos democráticos, no mundo deram, prontamente, a uma forma democrática de organização
ocidental, fazer uma brevíssima referência ao caso dos Estados local, que i n f l u i u , poderosamente, na formação da cultura polí-
Unidos e da América Lalina. tica americana no período da Independência. Com a Indepen-
dência, lograda a superação do inicial intento confederativo pela
Se observarmos, numa visão de conjunto, o desenvolvimento Constituição de 1787, os Estados Unidos dão início a uma de-
dos processos democráticos nos Estados Unidos e na América
mocracia formulada, filosófica e juridicamente, como uma de-
Latina, verificaremos, desde logo, que há neles algo de comum e,
mocracia de classe media mas, cfetivamente. estruturada e ope-
por outro lado, que seguem roteiros bastante diferentes.
rante nas condições de uma democracia de untáveis. A democracia
O aspecto comum, entre esses vários processos, é o mesmo jeífersoniana é um sistema aberto aos cidadãos livres m a f , tanto
que foi constatado nos precedentes estudos de caso: a tendên- pêlos mecanismos decorrentes do regime então vigentes para o
cia de O processo democrático se iniciar como uma democracia Colégio Eleitoral, como por razões de ordem sócio!éigica, ligadas
de notáveis, evoluir para uma democracia de classe média e só ao prestígio dos notáveis e ao pouco interesse p a r l i c i p a t ó r i o do
cm sua maturidade lograr confígurar-se como uma democracia homem comum, no plano da política federal (não da local),
de massas. Esse processo, entretanto, segue um distinto roteiro, essa democracia não ultrapassa o marco de uma democracia de
em cada uma das Arnéricas. notáveis.
Um interesse geral pela política surgirá com a expansão para
a fronteira e a ampliação da represenlação política v i n c u l a d a à
!. O caso dos Estados Unidos
candidatura e à presidência de Andrew |acW>n. cm 1829. De
Nos Estados Unidos, os joundïng jathcrs são pessoas de mar- 1829 a 1850 o homem comum se f a z s e n t i r na política ameri-
cadas convicções religíoso-políticas, que se deslocam para a Amé- cana, generalizando-se. por Estados, o s u f r á g i o u n i v e r s a l mas-
rica buscando constituir uma sociedade conforme a essas con- culino dos branco1;. Pata dessa época o primeiro esforço de
vicções. Trata-se, de certo modo, de um empreendimento, efe- mobilÍ7ação da i n c i p i e n t e classe obreira, com a f u n d a ç ã o , em
tuado em escala bastante grande, semelhante ao que intentariam Nova York. do \Vorkini!tni'n's 1'arly. Essa a b e r t u r a do sistema
realizar, no século XIX, alguns socialistas utópicos, aspirando instaura, sob a forma de uma democracia universal, uma demo-
a criar a sociedade ideal. Estes, todavia, padeceram, por um cracia dj que p a r t i c i p a m os varões adultos da população branca,
hido, de insuficiente massa crítica e sofreram, assim, sem prévia com características de uma democracia a m p l i a d a de classe média.
noção do problema, todos os efeitos que decorrem de se in- Três grandes eventos m o d i f i c a r i a m , p r o f u n d a m e n t e , o curso
tentar i m p r i m i r lormas macroorganizacionais a microorganiza- subsequente da vida americana: a i m l u s t i i a l i / a c ã o e o conflito
ções. Por outro lado, operando no âmbito de uma sociedade Norte-Sul, ainda no scculo X I X , e a grande depressão, com a
preexistente, a própria sociedade norte-americana, não puderam emergência do Nc'w Dcül, sob a liderança de f r a n k l i n Roosevelt,
se eximir da tremenda i n f l u ê n c i a desta sobre seus microexperi- nos anos ">ü do nosso século. A i m h i s l r í a l i / a c ã o americana se
mentos. Os fouiuling fathers, diversamente, constituíam um seg- acentua a partir de 1850, com a expansão dos meios de trans-
mento suficientemente auto-sustentável da sociedade originária, porte. Concentrada, i n i c i a l m e n t e , no Norte dos lotados Unidos,
que se estabelecia em terra virgem ou habitada por indígenas favorecerá consideravelmente a este. no c o n f l i t o com a Confe-
de nível cultural incomparavelmente mais modesto. Soa expe- deração Sulina, -em torno da questão da escravidão. A guerra
riência, sob esses dois decisivos aspectos, nada tinha cm comum civil de 186M8&5, conducente à completa derrota dos confe-
com as de gente como Owen (New I-Iarmotiy. em Indiana, 1825) derados, tem consequências imediatas, sobre o regime político,
ou Consideram, com as ideias de Fourier (Brookfarm, 1840 e mais de caráter formal do que real. Só gradualmente as grandes

96
massas se incorporarão, efelivamente, ao processo político no
plano federal. E, na verdade, só recentemente, a partir dos mo- do poder requer o consentimento dos governados é algo de tar-
vimentos civis da década de 60, a população negra americana dio, nos países ibéricos, algu, inclusive, que lhes chega como
passa ativamente a participar da vida pública. um legado exlerno, a partir da Revolução Francesa. £ algo,
É com a crise da grande depressão que as arraigadas con- finalmente, que só. logra um primeiro e precário intenlu de
vicções privatistas, peculiares ã cultura política americana, so- realização com a Junta de Cádk (1812), na Rspanha e a Revo-
frem um importante abalo, que conduzirá a opinião pública a lução do Porlo (1820), em Portugal. O retardamento que caracte-
aspirar a uma proteção social assegurada pelo Estado e a apoiar riza o processo democrático, nos países ibéricos, tem reflexos
o New Deal de Rooscvcll, cuja primeira presidência se inicia correlates, na América Latina.
em 1933. Data daí, verdadeiramente, a instauração, nos Estados
Unidos, de uma democracia social de massas. A abertura polí- Por outro lado, no plano de vida correnle e de suas condi-
tica do regime, para a participação de todos os cidadãos, remonta, ções económico-sociais, a colonização das duas Américas, nota-
formalmente, a Lincoln e à derrota dos confederados, cm 1865- darncnle no seu período formativo, é muito dilerenle, opondo a
Mas só gradualmente o individualismo privatista americano per- colonização de pequenos e médios fazendeiros, nos Estados Uni-
mitiu, no nível da cultura política e da prática efctiva das pes- dos, à grande propriedade operada com o braço servil, na Amé-
soas, a superação de um quadro sociopolítico que tornava as rica Latina. Só tardiamente, a partir de meados1 do século X I X ,
grandes massas politicamente não participantes c as fazia marca- o grande incremento da demanda de algodão conduz a uma
damente dependentes de ideias e projctos vinculados ã classe correspondente expansão da fazenda escravista, no Sul dos Es-
media.'14 tados Unidos, assegurando as condições que gerariam O con-
f l i t o da guerra de secessão. No caso latino-americano, as con-
dições próprias ao período da Independência, que se prologam,
2. America J.atina de u m modo geral, pelo século X I X , até o primeiro terço do
No caso da America T.ntina nos encontraremos com duas aluai, eram tipicamente conlíguradures de uma democracia de
circunstâncias p r o f u n d a m e n l e dif'jrenles. Por um lado, no plano notáveis."
das ideias, os colonizadores bispano-porlugucscs são portadores
de uma cultura poli liça muito diferente da que se forma na No caso da Argentina, a grande imigração europeia, que se
Inglaterra dos séniloï X V I I c XV11I, Como se pode ver. com- i n i c i a a partir da década de Í870, m o d i f i c a , de fins do século
parando os estudos de caso dos respectivos países, constantes X I X a princípios do XX, lanlo a composição geral da população
desta sccão, a emergência da convicção de que a legitimidade quanto as earacteríslieas da produção agrícola, na "pampa grin-
ga", gerando uma nova classe média, uma mentalidade participa-
cionista, inclusive sindical e uma exigência de ampliação do
14
Píira uma análise clássica da democracia americana, vide Alexis de quadro político, A reforma eleitoral de 1412, com Roque Saenz
Tüoqueville, De hi Démocratie i'ii Amérique, 1 vols.. Paris, Ed. M. Th. Gé-
n i n . 1951; vide lambem Harold ) . Lasti, The American Democracy, London,
Pena, introduzindo o sufrágio universal, gera as condições que
Allcn & Unwin. Ifíl. Para uma visão geral da tradição liberal na história
americana, vide I.unis I l a r r z , The Librrit! Tradifion in America, New York,
llíircourl. Rrücê <£ World, 1951). Para a história americana, a partir de ^ Para uma vii.au histórica de c o n j u n t o i!a América L a t i n a , vide Tulio
fins do século X I X . vide Jlcnry CommajíCs, The American Mind, New Halperín Donphi, llhtiíruí Coutetnivráiica de América Latina, Madrid,
Haven. Yalc Univ. Press, l%ï. Sobre o sistema poHlico americano, vide Alian/a FJ.. 1970; v i d a l a m h c m , l l a v i d Muuri:, Historia de Ia America
W i l l i a m Bemicu Muriro. The Gtn-i'riiiiii'nt u! tlic Unired Síu/cs. New York, Latina. Buenos Aires, Pnscidon. 194Í. Pura a hisloria económica, vide T.n-
M.icmillan. 1946 c F r? d Grccnslcin, The American Parly Sysfem and lhe ritjin: Hoivsfano et a!.. La Hi^ttiriti i'.coiii'inicci í-n Atnéricu Latina. 1. vols.,
American P copie. Englewood C l i f l s , Sentitc-Hall, 1963. Sobre os problemas Moxrto, Scp/Sctentas. 1972. Para u*, aspecioi sociopolílioos. vide Hélio Ia-
c a crise a l u a i s , v i d e Norman Binibaum, The Crhis aj lhe Industrial So- guarihc, Oí.vcs L' Alternativas da America Latina, íião Paulo, Ed. Perspectiva,
cicty, T o n d o n Oxford U n i v . Prc^s. 1970 e l ï a v í d . Horovilz, Ed., Contaín- I97h; vide lambem. F". H. Cardoso e l1'. \VYfforl Compil. América Latinu
and Rcvolution. — fjjsf/vos de Intcrprcíitcióit SociotíigÍL-ti-Polílica, Siiuíiago, l.d. Universitá-
ria, 1970.
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fins do súculo XVIU, notadamcnle com Pitl, uma democracia
de classe media, depois da Kejorm BUÍ de 18^2, e uma gradual
democracia de massas, £i partir de Disraeli c de Gladstone. Essa
sucessão de etapas bastante nítidas também se verifica na evo-
lução J anocrát i ca da Holanda e da Bélgica. lá no caso dos países
escandinavos, noladamünte da Dinamarca e da Noruega, a dife-
renciação entre a fase de democracia de classe média e a de
massai é muito ténue, aquela se transformando rapidamente
nesta. Diversamente, no caso da Alemanha, a intervenção de
Bismarck contribuirá para dificultar a emergência de uma demo-
ANÁLISE CRÍTICA cracia de classe média. A. democracia de notáveis da revolução
de 1S48 se prolonga, de certa fornia, durante a longa hegemonia
política de Bismarck, que por muito tempo logra impedir o
Parlamento alemão, representando predominantemente a burgue-
sia, de se constituir eni um verdadeiro centro de poder.
OS TRÊS ESTÁGIOS
Entre as condições tjue mais aeentuadamente interferem na
Os estudos de caso empreendidos nu capítulo precedente tor- fornia pela qual se realizam as sucessivas etapas do processo
nam muito claro o fato de que o processo de democratização de democratização avulta o tipo de clivagem social existente em
consiste numa incorporação, lauto de forma gradual tomo brusca, uma determinada sociedade. Sociedades como a britânica de fins
dos estratos inferiores da sociedade às diversas modalidades de do século XV1I1 e primeira metade do século XIX tinham uma
participação na tomada de decisões dessa mesma sociedade. estrutura de classe nitidamente tripartida, entre uma classe alta,
Os casos estudados revelaram que esse processo incorpora- compreendendo a aristocracia e posteriormente a alta burguesia,
tivo, seja gradual e pacífico, seja brusco e violento, se realiza uma classe média, compreendendo a pequena burguesia urbana
sempre por etapas. As democracias se iniciam como democra- e rural c as profissões L t3cnico-ge rendais, e uma classe baixa,
cias de notáveis, que se transformam, linear ou dialeticamenlc, compreendendo o proletariado e o campesinato. Daí a tendên-
em democracias de classe media que, por sua vez, também por cia a uma nítida sucessão de etapas, no processo democrático,
formas graduais ou bruscas, KC convertem cm democracias de conforme este- incluía apexias a classe alta, passava a incorporar
a média e, finalmente, se abria para as massas. Em outros casos,
massa.
A análise comparativa a que se procedeu precedentemente como nos países escandinavos, a clivagem social era mais nítida
conduziu, no caso da ïuiropa moderna, à constatação de três na separação entre a classe alta e as demais. Donde a tendên-
principais modalidades de processos de democratização. Os que, cia de, vencida a barreiríi cxcludente da classe média, dar-se com
relativa facilidade e rapicioz a incorporação das massas. Em ou-
como no caso da Grã-Hrelanha, foram predominantemente gra-
dualísticoti. Os que, como na Alemanha, se realizaram de forma tros casos, finalmente, CCJITIO ocorre com Espanha e Portugal,
dialétíca, com avanços e recuos e importantes conflitos. E os uma das dapas difíceis é, precisamente, a inicial. As classes
que, como na Espanha c em Portugal, se realizaram de forma altas preferem proteger-stj com o absolutismo monárquico —
retardatária. Essas diferenças na modalidade de realização do bubcando influenciar o pc_»der por via cortesã, em vez de por
processo de democratização conduziram, em alguns casos, a via parlamentar — de sorte a não assumir os riscos de uma
comprimir uma das etapas ou a praticamente fundi-la com a abertura democrática, a nível de notáveis, pela dificuldade que
seguinte. experimentam de impedir a penetração ou excessiva influência
As três ciapas em referencia ficam muito nítidas no caso da da classe média. Trata-se de uma situação em que a relativa
Grécia clássica: democracia de notáveis, com Sólon, de classe Iluideí social, na relação entre a classe média e a alta classe,
média, com Clístenes, de massas, com Policies. Da mesma forma, cm \inude da importância social assumida por letrados e diri-
na Grã-Bretanha, define-se uma democracia de notáveis em
103
102
fins do século XVIII, notadamenlc com l'itl, uma democracia
de classe média, depois da Reform liilt de 18ï2, e uma gradual
democracia de massas, a partir de Disraeli c de Gladslone. Hssa
sucessão de etapas bastante nílidas também se verifica na evo-
lução democrática da Holanda e da Bélgica. Já no caso dos países
escandinavos, notadamcnte da Dinamarca e da Noruega, a dife-
renciação entre a fase de democracia de classe média e a de
massas é muiio ténue, aquela se transformando rapidamente
nesta. Diversamente, no caso da Alemanha, a intervenção de
Bismarck contribuirá para dificultar a emergência de uma demo-
ANALISE CRÍTICA cracia de classe média. A democracia de notáveis da revolução
de 1848 se prolonga, de certa forma, durante a longa hegemonia
política de Bismarck, que por muito tempo logra impedir o
Parlamento alemão, representando predominantemente a burgue-
sia, de se constituir eni um verdadeiro centro de poder.
OS TRÊS ESTÁGIOS
Entre as condições que mais acentuadamcnte interferem na
Os estudos de caso empreendidos no capítulo precedente tor- forma pela qual se realizam as sucessivas ciapas do processo
nam muito claro o fato de que o processo de democratização de democratização avulta o tipo de clivagem social existente em
consiste numa incorporação, tanto de forma gradual como brusca, uma determinada sociedade. Sociedades como a britânica de fins
dos estratos inferiores da sociedade ás diversas modalidades de do século XVI11 c primeira metade do século XIX tinham uma
participação na tomada de decisões dessa mesma sociedade. estrutura de classe nitidamente tripartida, entre uma classe alta,
Os casos estudados revelaram que esse processo incorpora- compreendendo a aristocracia e posteriormente a alta burguesia,
tivo, seja gradual e pacífico, seja brusco e violento, se realiza uma classe média, compreendendo a pequena burguesia urbana
sempre por etapas. As democracias se iniciam como democra- e rural e as profissões léenico-gereneiais, e uma classe baixa,
cias de notáveis, que se transformam, linear ou dialetieamente, compreendendo o proletariado e o campesinato. Daí a tendên-
em democracias de classe média que, por sua vê?., também por cia a uma nítida sucessão de etapas, no processo democrático,
formas graduais ou biuscas, se convertem cm democracias de conforme este incluía apenas a classe alta, passava a incorporar
a média e, finalmente, se abria para as massas. Em outros casos,
massa,
A análise comparativa a que se procedeu precedentemente como nos países escandinavos, a clivagem social era mais nítida
conduziu, no caso da Europa moderna, à constatação de três na separação entre a classe alta e as demais. Donde a tendên-
principais modalidades de processos de democratização! Os que, cia de, vencida a barreira excludenle da classe média, dar-se com
como no caso da Crã-l!relanhu, foram predomínantemente gra-
relativa facilidade e rapidez u incorporação das massas. Em ou-
dualísticos. Os que, como na Alemanha, se realizaram de forma tros casos, finalmente, como ocorre com Espanha e Portuga!,
rjïalética, com avanços e recuos e importantes conflitos. E os uma das etapas difíceis é, precisamente, a inicial. As classes
que, como na Espanha e em Portugal, se realizaram de forma altas preferem proteger-se com o absolutismo monárquico —
retardatária. Essas diferenças na modalidade de realização do buscando influenciar o poder por via cortesã, em vez de por
processo de democratização conduziram, em alguns casos, a via parlamentar — de sorte a não assumir os riscos de uma
comprimir uma das etapas ou a praticamente fundi-la com a abertura democrática, a nível de notáveis, pela dificuldade que
seguinte. experimentam de impedir a penetração ou excessiva influencia
As três ciapas cm referência ficam muito nítidas no caso da da classe média. Trata-se de uma situação em que a relativa
Grécia clássica: democracia de notáveis, com Sólon, de classe fluidez social, na relação entre a classe média c a alta classe,
média, com Clístenes, de massas, com Pendes. Da mesma forma, cm virtude da importância social assumida por letrados e diri-
na Grã-Bretanha, define-se uma democracia de notáveis cm
103
102
gentes militares procedentes Já classe media, leva a aristocracia, e permanentes para se fazerem sentir, pelo menos no âmbito
na autoprcscrvaçao de seus privilegias, a evilar us riscos de uma das civilizações ciática e ocidental, em sociedades Ião diferen-
regra do jogo democrática, ainda que de alcance restrito. ciadas, inclusive quanto ao seu respectivo período hislórico, como
as que foram estudadas no capítulo precedente.
Esse mesmo tipo de problemas kc encontra na origem das
condições que diferenciam os processos democráticos gradualís- Analisando-se, histórica e comparativamente, as condições den-
ticos dos que se realizam de forma dialétka ou retardatária. tro das quais, nos casos de democratização precedentemente dis-
Quanlo maior a clivagem entre uma classe e a que imediata- cutidos;, se realizou tal processo, pode-se constatar que, ademais
mente lhe segue, na estratificação social, tanto maior a resis- de particularidades próprias a eada sociedade e a cada época
tência para a incorporação da classe mais baixa ao processo histórica, determinados requisitos foram sempre atendidos. Esses
requisitos, que constituem, em conjunto, condições necessárias,
decisório.
embora nem sempre de forma cumulativa, para a realização de
Por «utro lado, reveste-se de igual, senão de maior impor-
um processo de democratização, podem ser enumerados da se-
tância, o tipo de elite existente em uma determinada sociedade. guinte forma:
Fssa questão será ventilada posteriormente. Agora cabe men-
cionar, apenas, que é m u i t o variável a medida cm que as van-
tagens de uma elite dependam de modalidades estatutárias de 1. Modificação nas relações de força entre as classes sociais;
2. Incremento da competitividade da elite;
privilegiamcnto. Quanlo mais as vantagens de uma elite depen-
dam de privilégios que l lies sejam formalmente assegurados, 3. Desenvolvimento, na cultura política, do princípio díi depen-
tanto maior resistência tal elite tenderá a oferecer ao processo dência da legitimidade do poder para com o consentimento
de democratização. Aí as razões, por exemplo, da propensão ao dos governados, com a correspondente intemalização e socia-
absolutismo, por parte das elites ibéricas, nos dois primeiros lização dessa convicção;
terços do século X I X . Ao contrário, quanto mais as vantagens 4. Emergência de líderes carismáticos, nos momentos mais de-
desfrutadas por uma elite dependerem da internalização, por licados de transição de um estágio para outro do processo
essa elite, de qualificações competitivas, t a n t o menos resistên- de democratização;
cia tenderá a opor à democratização das regras de jogo. Ocorre, 5. Apropriada correspondência entre o nível de democracia vi-
em tal hipótese, que a democratização não aíctará suas vantagens gente na sociedade civil e o vigente no sistema político.
comparativas mas, ao contrário, legitimará os benefícios destas.
Tal é. tipicamente, o caso da elite britânica, a p a r t i r de fins A ocorrência de cumulatividade, nesse conjunto de condições,
do século X V I 1 1 , quando a nobreza e a tíciiíry ingressam no tende a lhes imprimir o caráter de condições suficientes para
mundo dos negócios c adquirem crescente competência empresarial. desencadear um processo de democratização.

CÜNDIÇOnS RÃS l C AS Relação de forças


A modificação na relação de forças entre as classes sociais
Análise geral é o requisito mais geral e necessário do conjunto de condições
Us precedentes estudos de ca^o, ademais de revelarem a ten- ora em discussão. Em nenhum processo de democratização dei-
dência de o processo de democratização se realizar por uma xou de ocorrer uma prévia modificação nas relações de força
sucessão de etapas, como se acabou de d i s c u t i r , purmitcm, tam- entre as classes sociais, ao se realizar a democratização, a qual,
bém, a determinação histórico-comparativa de certas condições por sua vez, tende a retroalïmcntar essa modificação nas rela-
de ordem geral de que depende o desenvolvimento c a conso- ções de força.
lidação de tal processo. A importância de tal f a t o não pode São diversos os fatores que ocasionam significativas modi-
ser subestimada, pois indica a existência de certas leis tendcn- ficações na relação de força entre as ciasses, desde os que afe-
ciais do processo de democratização, suficientemente universais tam, objetivamente, os recursos de poder de que disponha cada

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classe, «ti os que interferem na consciência de classe c em tâncias, entre outras, que conduziram às reformas de Clístenes
sua respectiva autónoma capacidade organizacional. e ao trânsito de uma democracia de notáveis para uma demo-
Uma dys mais comuns hipóteses de modilicacao nn relação cracia de classe média.
de forçam entre as classes suciais se deve aos efeitos dos pro- Efeitos equivalentes se fazem sentir com o desenvolvimento
cessos de mudemizacão. que conduzam uma economia agrária do mercantilismo europeu, a partir de fins do século XIV. A
a se converter n u m a economia comercial e industrial. Assim, na nova economia mercantil expande os burgos livres e neles de-
Grécia clássica, foi o desenvolvimento do comercio marítimo senvolve uma burguesia c uma classe média de mestres arte-
que criou unia burguesia mercantil levada e capacitada a se sãos que adquire crescente importância social e, concomitante-
opor aos grandes senhores fundiários. O mercantilismo c, depois menlc, crescente consciência de classe. O desenvolvimento do
dele, a revolução i n d u s t r i a l , alteraram, completamenlc, as preexis- Renascimento italiano e flamengo, com suas repúblicas ou prin-
tentes relações de força entre as classes sociais, na Europa mo- cipados burgueses, é uma consequência da emergência dessa nova
derna. A formação de uma economia capitalista, dependendo classe. Para o conjunto da Europa Ocidental, entretanto, o sur-
de relações monetárias entre seus agentes, desloca o poder dos gimento de democracias foi retardado de vários séculos em vir-
proprietários rurais para os mercadores, mestres artesãos c in- tude do falo de que o conflito eníre a emergente burguesia e a
dustriais. Numa etapa posterior, a formação de grandes massas nobreza feudal conduziu, por um longo período — com efeitos
obreiras gera, quantitativamente, um incipiente poder operário, que reoperam sobre as cidades italianas e hanscáticas — à
que se desenvolve com a formação c a consolidação de uma formação de monarquias absolutistas. Somente a última fase do
consciência de classe e o decorrente incremento de autónoma mercantilismo, estimulada pelo colonialismo e o novo surto do
capacidade organizacional. comércio internacional, bem como pelas ideias da Ilustração,
Pundamcntal, para que surtam cfcilo as modificaçõc". objcti- conduziria, corno se viu no capítulo precedente, a democracias
vas ocorridas nas relações de forç;i cm ré as classes sociais, é a de notáveis, em fins do século XVIII e princípios do XIX.
formação e o desenvolvimento de u m ti consciência de classe. Os efeitos da revolução industrial, na Europa, são equivalen-
Tal consciência de classe condu? tuna classe oprimida à consta- tes aos da revolução mercantil. Forma-se, com a industrialização,
tação das discriminações sofridas por «cão da classe opressora uma nova classe, o proletariado industrial, que adquire cres-
e induz à formulação, organização c implementação de projctos centes proporções numéricas, desde o primeiro terço do século
corre ti v os. Na medida cm que a correlação de forras se tenha X I X e crescente consciência de classe, a partir de meados do
deslocado a favor da classe oprimida, n consciência de classe
lhe permite utilizar, cm henefício próprio, essa mais favorável século. Tais circunstâncias levam a classe operária a se orga-
nizar em sindicatos, a desenvolver suas reivindicações e formas
correlação de forças. de luta e, finalmente, a partir de fins do século passado, a ter
O mercantilismo, t a n t o nas condições da \lcnas clássica como crescente participação nos processos decisórios.
nas da Europa do fim da Idade Média, pç mu urna classe de
mercadores e de mestre'* artesãos cujo crescimento e enrique-
cimento a foi constituindo, gradualmente, em um importante Competitividade da elite
setor da sociedade. O novo papel social dessa ckissc estimulou
o desenvolvimento de * u a consciência de classe. \o caso ate- O desenvolvimento, dentro de determinadas condições sociais,
niense, essa consciência de classe c o n d u z i u , por um lado. à de alia competitividade por parte de uma elite, constitui uma
constatação do um elevado nível da capacitaciio. ou seja. de das mais importantes condições para um processo de democra-
arfír. num novo citrato social d i s t i n t o da nobreza, íi^sim pri- tização. Essa decisiva condição não tem recebido suficiente aten-
ção, por parte dos estudiosos da matéria. Para os autores que
vando esta da pretensão de exclusividade na detenção de tal privilegiam os falores culturais, a emergência, na cultura polí-
atributo. Concomitantcmcnte. e s t i m u l o u a consciência cidadã da tica de uma sociedade, da convicção de que a legitimidade do
burguesia e da classe média atenienses. lc\ ando-as a exigir maior poder depende do consentimento dos governados — questão
participação na condução da coisa pública. Foram essas circuns* que será subsequentemente discutida no presente capítulo —

106 107
os tem levado a ignorar ou subestimar a importância da con- grupo social, não são apenas legitimas, senão a condição meamii
versão de uma elite privilegiada em uma elite competitiva. Di- da preservação do ordenamento mundial.
versamente, para os autores que privilegiam, sob maior ou me- As sociedades tradicionais são sociedades, a partir da ídado
nor influência das ideias de Marx, as forças produtivas e os do bronze até a idade moderna, no caso da civilização ocidental
modos de produção, a questão da modificação na correlação de ou até nossos dias, em outros casos, caracterizadas pela ruptura
forças entre as classes sociais, precedentemente discutida, parece do continuum entre a ordem cósmica e a humana, ao qual se
oferecer uma suficiente explicação para o desenvolvimento dos substitui uma realidade compreendendo, basicamente, três níveis:
processos de democratização. o divino, o cósmico e o humano, preordenados pelo divino. Nes-
A verdade, entretanto, é que as características de que se re- sas sociedades, o mundo humano é concebido sob a direcão
vista uma elite constituem um dos fatores decisivos para a con- de uma elite constituída por uma aristocracia que nas fases
figuração das relações massa-elite, numa dada sociedade e, a arcaicas é vista como portadora de inerentes virtudes de exce-
partir daí, para a estruturação do conjunto da sociedade, inclu- lência e, nas fases pós-arcaieas, é entendida como depositária
sive de seus possíveis processos de democratização. Para o enten- de uma delegação divina de autoridade e de preeminência. As
dimento da matéria, entretanto, importa proceder a uma breve sociedades tradicionais representam um primeiro momento de
elucidação do que se pode designar como uma tipologia geral secularização da visão do mundo, em que se separa o divino
das elites. do cósmico e do humano, embora o cósmico seja usualmente
Muito sinteticamente, pode-se dizer que a observação histórico- visto como habitado por deuses. O mundo humano é enten-
comparativa das elites leva à constatação de que iodas as moda- dido como sujeito à direção da elite, pela própria divina orde-
Lidadts de elite histórica e contemporaneamente analisáveis são nação geral das coisas. E a elite é vista, ou como inerentemente
excelente (Homero, Chanson de Roland) nos períodos arcaicos,
redutíveis a quatro grandes categorias. Tais categorias são de
ou, pelo menos, nos períodos pós-arcaicos (século VI na Grécia,
carátcr analítico, ou seja, exprimem, dentro de- uma determi-
séculos XV a XVII na Europa Ocidental), como titular de fun-
nada sociedade, os fundamentos que conduzem um certo esta-
ções de mando c de preeminência decorrentes da vontade divina.
mento social a ser dirigente ou dominante. 1'ur outro lado, entre-
tanto, essas categorias têm, também, um sentido histórico, na O segundo momento de secularização da visão do mundo,
medida em que cada um dos grupos, a serem mencionados, tende correspondente ã emergência de épocas modernas, conduz, tanto
a ocorrer em determinado período da evolução das sociedades. na antiguidade clássica como na civilização ocidental, a uma
critica da legitimidade das elites tradicionais. Não se contesla,
A tipologia em refcrcncr-i conduz aos seguintes tipos de elite:
apenas sua suposta inerente excelência mas, também, sua legi-
1) elites sagradas, próprias às sociedades hieráticas, 2) elites aris-
timidade, em vista de uma presumida ordenação divina do mundo
tocráticas, próprias às sociedades tradicionais, 'ï) elites piivilc- e da sociedade. As elites tradicionais, sob a crítica racionalisln
giadas, próprias às sociedades pós-tradicionais. c 4) elites com- desse segundo processo de secularização, são dcsmistificadas sob
petitivas, aptas a surgir nas sociedades modernas. a forma de elites privilegiadas, cujas vantagens aseriptivas cons-
As sociedades hieráticas, emergindo direlamenlc da revolução tituem um abuso social a ser corrigido e que por elas são con-
urbana, no f i n a l do neolítico — como nos casos da egípcia, da servadas unicamente pela força ou pela astúcia. Esse momento
sumero-acadiana, da do vale do Indo, da do vale do Rio de desmistificação das elites corresponde, na Grécia clássica, ii
Amarelo, das prc-colombiunas, nas Américas — são sociedades emergência da democracia de massas, com Péricles, à críticn
em que a ordem cósmica e a humana constituem um coniinuum dos costumes, por Aristófanes, e ao desvendamento dos segredou
sob a ativa e permanente intervenção dos deuses. As elites sa- do poder, pêlos sofistas. Na Europa Ocidental, esse momento
gradas são transmissoras da vontade d i v i n a c intermediárias ne- corresponde à formação e expansão da Ilustração, a partir do
cessárias entre o divino e o humano. Sua condição de elite fins do século XVII, com Fontcnelle.
decorre de sua f u n ç ã o de intcrmedincão do divino e qualquer
interrupção dessa função é concebida como acarretando catas- Confrontadas com a desmistificação de seus privilégios, "i
tróficas consequências. Tais elites, portanto, consideradas como elites aseriptivas têm, historicamente, oscilado entre duas prln-

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cipais alternativas. Em alguns casos e, frequentemente, numa Legitimidade democrática
mesma sociedade, um certo setor da elite busca preservar seus Como se pôde observar no capítulo precedente, todos os expe-
privilégios, reafirmando vol u n turística mente sua legitimidade e, rimentos democráticos que tiveram êxito dependeram, entre ou-
com maior ou menor convicção desta, tenta impor, cuerci ti vã- tras condições, da generalização da convicção, na cultura polí-
mente, um regime social que os proteja. Assim procedeu o par- tica de uma sociedade, de que a legitimidade do poder depende
tido conservador em Atenas (assassinando, por exemplo, o líder do consentimento dos governados. Fssa nova concepção da legi-
da plebe, Efialtes), assim procederam, crn sua grande maioria, timidade, distinta da sagrada e da tradicional, tende a emergir
os aristocratas franceses, ante a Revolução, ou, na Alemanha, os quando uma nova correlação de forças, entre as classes sociais,
junkers, sob a liderança de Bismarck. A outra alternativa, em leva à contestação das formas tradicionais da autoridade e sus-
outros casos ou, numa mesma sociedade, em outros setorcs da cita um pensamento crítico a respeito dos fundamentos da legi-
elite, consiste em aceitar, preferivelmente de forma gradual, a timidade do poder.
supressão dos privilégios formais, assegurados por via estatutá- Nas civilizações clássica e ocidental essa reflexão esteve sem-
ria e eompensá-los através da aquisição de uma superior compe- pre associada ao desenvolvimento do humanismo. Foi o desen-
titividade, no terreno mesmo em que se situem os principais volvimento do humanismo grego, já presente em Homero, mas
contendores da elite tradicional. Péricles e diversos de seus nele ainda vinculado a uma concepção aristocrática da areie,
amigos, provenientes da mais alia nobreza ateniense, se incor- que, através dos trágicos, notadamente Sófodes e Eurípides, deu
poram ao partido popular e o dirigem. A aristocracia e a geniry margem à concepção filosófica da igualdade dos homens, cuja
inglesas, de fins do século XVI1Í e princípios do XIX, con- essência reside na liberdade racional. Esse humanismo conduzirá
frontadas com a ascensão da burguesia e a desmistificação das Sócrates e Platão à descoberta da liberdade interior, para todos
formas tradicionais do privilégio, valem-se de sua superioridade os homens e levará Péricles à afirmação da liberdade exterior, ou
educacional para ingressar, também, no mundo dos negócios e política, para todos os cidadãos.
na política de representação da sociedade burguesa, logrando o Na Europa Ocidental observa-se o mesmo processo de condi-
maior êxito nesse empreendimento. cionamento recíproco entre nova correlação de forças entre as
As elites competitivas logram preservar-se, dispensando as van- classes soeiais, com O fortalecimento da burguesia, através do
tagens do privilegíamento estatutário, por ínternalizarem os fa- mercantilismo do século XVIIi e o novo humanismo da Ilus-
tores de sua superioridade e se tornarem efetivamenle aptas, tração, com Voltaire, Diderot e Rousseau. üs philosophes, como
dentro da nova regulamentação mais democrática da sociedade, os sofistas gregos, negam a validade da autoridade tradicional.
Enquanto na Grécia, entretanto, a sofística oscilava entre con-
a obter os benefícios a que aspiram. A supervivência desse tipo cepções de tendência democrática, com Protágoras, ou de polí-
de elite, por outro lado, tem como contrapartida uma crescente tica de poder, com Trasímaco, o pensamento da Ilustração é
margem de abertura para a incorpora cão, nos quadros da elite, democratizante e sua mais alta expressão, Rousseau, chega a des-
de novos membros, os novos homens, que são as figuras de cortinar, com surpreendente antecipação, a problemática da de-
vanguarda da nova classe ascendente, o que constitui um dos mocracia social.
fatores do processo de democratização. Assim ocorreu no mundo A generalização, na cultura política de uma sociedade, da con-
clássico, com a incorporação das classes medias dos zeiigitai, vicção de que a única forma de compatibilizar a liberdade hu-
em Atenas, ou dos equites, em Roma, ao círculo dirigente. mana com a ordenação política da sociedade é fazer esta depen-
Assim aconteeeu com a incorporação da burguesia europeia e, der do consentimento dos governados, com a correlata convicção
mais tarde, da classe média, aos respectivos círculos dirigentes. de que as desigualdades, entre os homens, são de caráter contin-
Assim ocorre, numa contemporânea democracia social de mas- gente, não afetando a igualdade básica que decorre de sua co-
sas, com a incorporação ao círculo dirigente dos líderes sindi- mum essência, fundada na liberdade racional, gera uma con-
cais e o ingresso, no próprio grupo dirigente, dos chefes e cepção democrática da legitimidade. A internalização e a sociali-
representantes dos partidos populares. /acão dessa concepção condicionam, inevitavelmente, o processo

110 111
r político, compelindo Iodas as formas de poder que se pretendam Neste caso, nem se invoca a transitoriedade emergencial dos atos
racionais e legítimas, a se ajustarem, ainda que ficticiamente, de arbítrio nem se os pretende exercidos por inerentes delega-
aos requisitos democráticos. ções democráticas, na implementação de uma dialclica de libe-
Os constrangimentos exercidos pela generalização da concepção ração final do homem. No caso do fascismo se renuncia, expres-
democrática da legitimidade, na cultura política do mundo oci- samente, às formas racionais de poder. Em lugar de um orde-
dental contemporâneo, podem ser bem observados nas moda- namento racional da sociedade, o sistema político é concebido
lidades de que tendem a se revestir os experimentos políticos como a expressão triunfante de uma comprovável superioridade,
não-democráticos. Com efeito, considerados os diversos casos de fundada na raça ou no projeto de império. Mandam os que
violação da legitimidade democrática, nas atuais sociedades oci- devem mandar, porque dotados para tal de uma superioridade
dentais, observar-se-á que eles tendem a se distribuir por três que se revela no próprio êxito do projelo de poder. Neste caso,
principais modalidades. entretanto, bem examinadas as coisas, o que efetivamente ocorre,
A modalidade mais frequente c a da excepcionalidade, em por um lado, é uma divisão interna da sociedade, entre os que
situações de emergência, como usualmente ocorre no caso dos mandam, e assumem o monopólio da cidadania e os que são
golpes de Estado na América Latina. Alcga-se a ocorrência de mandados e como tal reduzidos a uma condição análoga à do
graves ameaças, que poriam ern risco valores ou interesses su- hilota messênio. Por outro lado, representa o fascismo, relati-
premos da sociedade, como sua própria sobrevivência ou a de vamente aos que mandam, um retorno romântico e irracional
suas instituições fundamentais e, para a defesa emergencial desses às formas heróicas do poder. Ocorre, apenas, que nas condições
valores c interesses, argumenta-se ser indispensável a prática culturais de nosso tempo, marcadas pela mais absoluta secula-
de um alo de força c de arbítrio, supostamcnte nor curto pe- ridadc e relatividade, um retorno às formas heróicas de poder
ríodo, de sorte a que, superados esses riscos, os cidadãos possam não logra a legitimidade de gesta que genuinamente habita o
de novo livremente dispor de seu destino. herói homérico ou medieval, mas conduz, inexoravelmente, a um
A segunda modalidade que se observa, nos processos antide- cínico sistema de societas scelcris.
mocráticos contemporâneos, consiste na alegação de que estão
sendo adotadas formas de democracia ainda mais profundas do
que as da simples "democracia burguesa". O Icninismo, com Carisma
iodas as variantes revolucionárias dele tributárias, consiste na
alegação do princípio de que o proletariado, constituindo a A atuação de personalidades carismáticas, de óbvia impor-
maioria espoliada da sociedade, c representado pelo Partido, tância em múltiplos aspectos do processo histórico, tem corres-
como a vanguarda da classe, o qual, por sua vez, é represen- pondente relevância nos experimentos democráticos. Essa rele-
tado por sua dircção, que exerce autoritariamente o poder como vância pode ser observada nos estudos de caso precedentemente
forma de realização, através da ditadura do proletariado, da empreendidos. Ë interessante levar em conta, no entanto, que
grande democracia social que conduzirá à supressão das clas- os precedentes cm referencia, contrariando uma difundida opi-
ses e da espoliação social. nião sobre a matéria, não são necessariamente no sentido de
No primeiro caso, se reconhece a ilegitimidade do poder mas vincular as lideranças carismáticas à mobilização reivindicatória
se alega que tal ilegitimidade é transitória c deeorre de um das classes oprimidas. Tal tipo de mobilização certamente tem
estado de necessidade, superado o qual se restaurará, em sua existido e sua importância é evidente. Os irmãos Gracos mobi-
plenitude, a legitimidade democrática. No segundo caso, invoca- lizam a plebe romana contra o domínio oligárquico do patri-
se uma supcrlegitimidade, decorrente de inerentes delegações
ciado. Cromwell mobiliza a pequena burguesia britânica contra
democráticas, num processo dialclico que conduz à superação
das próprias causas da desigualdade (a propriedade privada e as o rei e a alta nobreza. Danton mobiliza a plebe de Paris. Lassale
classes nela fundadas) e do cerceamento da liberdade humana. mobiliza o proletariado alemão. Os exemplos são inúmeros e
Uma terceira modalidade contemporânea de violação da legi- sempre se encontrará, nos grandes movimentos populares, figuras
timidade democrática é apresentada pêlos experimentos fascistas. que os encarnam e dinamizam.

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económico, que determina o modo de produção; o político, que
Ë interessante, entretanto, observar a importância histórica de regula, por comandos, as atividades colclivas. Ü princípio de
que se revestiram lideranças carismáticas cuja relevância depen- congruência, como tive a ocasião de analisar em outro estudo,
deu tanto de tal capacidade quanto da capacidade que tiveram estabelece (como uma generalização por indução empírica) que
de tranquilizar as forcas conservadora^ c de induzi-las a aceitar, as relações entre os subsistemas requerem sua recíproca compa-
com conformidade, se não com cfcliva adesão, importantes refor- tibilidade, ou congruência. Assim, mudanças ocorridas em um
mas sociopolíticas. Um dos segredos da longa liderança de Pé- dos sistemas ou produzem efeitos eorrclatos nos outros, ou so-
ricles, à frente do partido popular, em Atenas, foi sua capa- frem de um processo regressivo, que tende a restabelecer naquele
cidade de tranquilizar o patríciado e assegurar uma feliz combi- subsistema o status quo ex ante, ou, finalmente, produzem graves
nação entre o atendimento das demandas populares e a mobi- consequências disruplivas na sociedade cm questão.
lização das classes superiores num continuado esforço de busca
Um dos correlates do princípio de congruência é a existên-
da excelência. Esses a t r i b u l o u iremos encontrai- nos grandes i i n
cia de relações de congruência entre o grau de democracia obser-
peradores romanos, de Augusto a Adriano c a Marco Aurélio.
vável na sociedade civil e no sistema político. A democracia
A combinação, em Napolcão, notadamente no fértil período de
na sociedade civil resulta das práticas efetivas no relacionamento
seu consulado, de um líder da revolução com um restaurador
das pessoas, nas relações de ocupação e emprego, na família, nas
da ordem e um homem compromissado com todas as formas de
excelência, c o n t r i b u i u , decisivamente, para a consolidação in-
instituições docentes, nas associações voluntárias e religiosas,
no intercâmbio anónimo da rua ou no intercâmbio da amizade.
lerna de seu poder. Não menos notável é o desempenho de
Disraeli, ao lograr persuadir os conservadores a aceitar a lei A democracia no sistema político resulta das normas c práticas
que regulam a participação popular, a forma de conferimcnto
de reforma de 1867. que incorpora a pequena burguesia, o
e de exercício do poder e da autoridade e o seulido de que se
artesanato c os arrendatários agrícolas ao eleitorado britânico,
dando início ao processo que conduziria a uma democracia de
revistam, em termos do interesse geral e dos interesses de se-
massas. Assim, na mesma linha c no mesmo país. em subse- tores e classes, as políticas em curso.
quente período histórico, a atuação de Lloyd Gcorgc, introdu- Não é infreqüenle que as laxas de democracia da sociedade
zindo o wcljarc statc. eivil e do sistema político apresentem significativas diferenças.
Essa capacidade de tranqüi1Í7üção e acomodamento das classes Há sociedades c momentos cm que o sistema político é mais
superiores com políticas orientadas para o atendimento de de-
democrático do que a sociedade c i v i l e pressiona esta na dï-
reção de maior participação popular e menor autoritarismo nos
mandas populares é um atributo que encontraremos tanto entre
processos de tomada d u decisão, nas várias i n s t i t u i ç õ e s da socie-
líderes populares, que logram conquistar a confiança das forças
conservadoras, como entre líderes conservadores que manifes- dade civil. Há sociedades c momentos em que. inversamente,
a margem de democracia vigente na sociedade c i v i l supera a
tam uma efetiva abertura e compreensão relativamente às de-
que exista no sistema político.
mandas populares. No inundo contemporâneo, De Gaulle ê um
bom exemplo do segundo caso e Willy Brandi do primeiro. En- As diferenças de taxas de democracia, entre a sociedade civil
e o sistema político, operam no sentido de o elemento mais
tre dirigentes políticos de nítida posição de esquerda são nolá-
democrático exercer uma pressão propulsora sobre o outro e
veis exemplos dessa capacidade o rccém-falecido Enrico Ber- este, ao contrário, uma ação freadora. A história, como se pode
linguer, à frente do comunismo italiano, e Felipe González, na observar nos estudos de caso do capítulo precedente, apresenta
liderança do socialismo espanhol. exemplos de ambas as alternativas. Os e f e i t o s da ação de pro-
pulsionamento do sistema político sobre a sociedade e i v i l ou
destn sobre aquele tendem, entretanto, a ser bastante diferen-
Relações de congruência
ciados.
A sociedade c um sistema de quatro subsistemas: o partici- Os cíisos em que o sistema político é mais democrático que
pacional, que determina quem é ou não membro, dentro de que a sociedade civil e impulsiona esta para maior aberlura demo-
condições; o cultural, que regula os símbolos e as crenças; o
crática, correspondem, via de regra, a momentos em que, pací- toral da esquerda, com a Frente Popular, nas eleições de 1936,
fica ou violentamente, o poder passa a ser exercido por lide- suscita nova radicalização ideológica, que favorece o levanta-
ranças representativas de aspirações mais populares. A pressão mento franquista. Semelhantemente, a radicalização ideológica
democratïzante do sistema político sobre a sociedade civil tende da república portuguesa, nos anos 20, favorece condições que
a suscitar grandes resistências. Aníe tais resistências, as três estimulam as tentativas de golpe de Estado e de aliança entre
alternativas históricas correnles são: 1) o recnidescimento da os militares e as forças conservadoras, que terminam condu-
pressão política, cora tendência a adquirir sentido autoritário zindo ao salazarismo.
e radical; 2) o recuo tático do poder, e 3) a mudança, pacífica Diversamente, nos casos em que a democratização da socie-
ou violenta, da liderança política por dirigentes mais conser- dade civil precede a do sistema político, aquela tende a exercer,
vadores. sobre este, uma pressão progressista de caráter gradualístico. Os
As sociedades que, nos estudos de caso precedentemente em- países que, nos precedentes estudos de caso, tiveram um pro-
preendidos, figuram no grupo daquelas cujo processo de demo- cesso de democratização basicamente evolutivo e contínuo, que
cratização seguiu um curso dialélico, são sociedades em. que a lhes permitiu transições pacíficas para estágios sucessivamente
democratização do sistema político tendeu a se antecipar à socie- mais abrangentes de democracia, foram países em que o desen-
dade civil. Assim, no caso da Revolução Francesa, o sistema volvimento da sociedade antecedeu ao do F.stado. O êxito da
político, que se encontrava, inicialmente, com forte atraso, rela- revolução mercantil, na Inglaterra e nos Países Baixos, gera
tivamente à margem de democracia já existente na sociedade, é condições que elevam a margem de democracia imperante em
rapidamente conduzido, depois da execução de Luís XVI, a ul- ambas as sociedades. Tal circunstância inviabiliza, socialmente,
trapassar a taxa de democracia da soeiedade civil. Os resultados a democracia de notáveis que traziam de fins do século XVIII e
dessa falta de congruência serão, inicialmente, a radicalização princípios do XIX. impelindo aqueles países para uma demo-
democrática do sistema, com a Consumição do Ano I (1793), cracia de classe media. Da mesma forma, o êxito da revolução
logo seguida pela radicalização autoritária, com o regime do industria], apesar de se prolongarem por muitos decénios as
Terror. liste, ao cabo de certo tempo, produzirá a rcação termi- misérias da condição obreira na Grã-Bretanha, alarga significa-
doriana, que desembocará no Diretório e, em seguida, em Napo- tivamente o âmbito dos setores a ti vãmente participativos, na
leão. Da mesma forma, a revolução de 1848 conduz o sistema vida sociocconómica do país, gerando condições que tornariam
político francês a ultrapassar significativamente a margem de possível para Disraeli e o Partido Conservador a iniciativa da
democracia da sociedade civil, gerando, em seguida, a reação
reforma de 1867.
conservadora do segundo Bonaparte.
As observações precedentes se aplicam igualmente a um país
No caso da Alemanha, o parlamento de Frankfurt se situa
numa posição democrática sensivelmente superior à do con- como o Brasil, como se verá, delalhadamente, na seguinte seção
junto do país, com exclusão da burguesia libera] renana, criando deste estudo. Mencione-se agora, tão-somente, o interessante con-
as condições que tornariam possível a rcação bismarckiana. De traste que se pode observar nas relações entre sociedade civil c
forrna algo equivalente, a revolução alemã de 1918-19, levantando sistema político, nas crises de 1954 e 1964, comparativamente
o espectro do comunismo, à semelhança do soviético, leva os com a situação que se foi formando a partir de fins da década
setores de centro da República de Weimar a um compromisso de 1970 e se configurou plenamente em 1984. No primeiro
defensivo com a Reichswehr que se revelaria, a mais longo caso — nos anos de 1954 e de 1964 — o sistema político tenta
prazo, fatal para a República. antecipar-se à sociedade civil com os grandes projetos de re-
Algo de equivalente se observa no caso da segunda República forma do segundo governo Vargas e do governo Goulart. Esses
espanhola, cuja radicalização ideológica, nos primeiros anos da projetos suscitam extremadas reacões das forcas conservadoras,
década de 1930, produz, inicialmente, uma reação conservadora nestas incluídos amplos setores da classe média, que logram
do eleitorado, nas eleições de 19 de novembro de W5, imobi- a mobilização das Forças Armadas para a derrubada de ambos
lizando seus projetos de reforma. A bem sucedida reação elei- os governos.

116 117
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No segundo caso, a situação que se vai formando a partir de Ciimhridge Modtirn History, 14 York, Harpcr & Rew, 1965.
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dado pela sociedade civil e dentro de uma orientação política e o n s t i t u i n d o o vol. 2 do History New York, Broziller, 1%1.
excessivamente diferente das expectativas desta. O efeito desse
descompasso foi a desarticulação do sistema de poder do go- C A N A L I S i ; SÜCIOPOLfïlCA
verno, formando-se uma nova coalizão de forças majoritárias, J. W. Allen — A History oj Política! (•torpes I f u r d e a u — I.u Démocraiie,
em torno do governador e futuro presidente Tancredo Neves, Tliauglií in the Sixteeiith Centuiy, lirutelloï. Oífiee de Ia Publicite,
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Seção III
Momentos Democráticos
na Trajetória Brasileira
FRANCISCO IGLÉSIAS

124
de modo acentuado, na época colonial, nos trezentos anos de
domínio português; nos 67 anos de governo monárquico; mais
acentuado e cada vez em ritmo de mais intensidade, quase acele-
ração, cm tempos mais recentes, quando se chega ao máximo
nos dias aluais. A dinâmica se intensifica, a mudança é cada
vez mais rápida e envolve número de pessoas ou grupos cada vez
mais avultados. A consciência crítica pode movimentar o pro-
cesso, alterando-o substancialmente, imprimindo-lhe rumos. A
luta é uma constante e suas vitórias com frequência aceleram
o ritmo, como se dá na história de vários povos conhecidos e
INTRODUÇÃO: PROPOSIÇÃO DO TEMA será ilustrado aqui, com a análise do caso brasileiro.
Bus co u-s e fazer a apresentação dos momentos democráticos
nesse longo período de cento e sessenta e dois anos. Uma res-
Ao LONGO da trajetória da nação brasileira, de 1822 a 1984, posta ligeira poderia dizer que eles inexistem, o país estaria
sempre sob o signo da repressão feroz que anula fodas as aspi-
naturalmente é variável o comportamento do povo e do listado.
rações. É claro que não se pode aplicar a épocas mais ou menos
Nossa história política não é uma linha rcta v e r t i c a l , afirmadora
recuadas critérios atuais de realização política, em função de
dos direitos públicos c individuais. F. oscilante, na busca de quadro complexo e desenvolvido como é o de hoje, não só no
prerrogativas oficiais ou particulares. Ora c u lotado que avança,
Brasil mas no mundo. A consciência histórica é eminentemente
ora c D povo. ÏIstc é quase sempre contido, pois a máquina es-
relativisla. O julgamento em função do contemporâneo falseia
talal, óbvia cxprestão dos interesses do ;:rupo dominante, está
o estudo e leva ao anacronismo. Cada situação admite e cria
sempre alerta e consegue deter qualquer arrancada mais auda- uma consciência possível e é em função dela que as análises
eiosa. Na medida em que os interessei, amadurecem, mudam de adquirem ou não densidade e funcionalidade. Dizer que no
natureza, passando do agrícola ao indir.lrial, do comerci;il ao país nunca houve democracia, pelo fato de não haver corres-
financeiro; com o reconhecimento de clileivnles privilégios e pondência entre certo momento de ontem c a ideia de agora,
direitos populares, a linha avança ou recua. Guando a aspira- è cometer erro; também no futuro se poderá dizer de 1984 que
ção do grande número não representa perigo para a ordem esta- não é democrático o sistema ou a aspiração de sua mudança.
belecida, havendo coincidência entre esta e o povo, pelo amadu- Por certo existe tendência a esse procedimento e custa um pouco
recimento do quadro social, afeiado pela constante metamorfose dominá-la, na busca de explicação do falo de haver ou não a
que leva às várias faces do processo, há um condenso mis mu- democracia ac longo de fase que já é longa, mas de expressão
danças, naturalmente verificadas. F a nação caminha. Sc não apenas limitada na perspectiva histórica.
há, o comum í o relroeesso. com aumento da repressão policial
Já se convencionou unia periodização para a existência do
c de todos os falores coercitivos.
Brasil nacional. Em esquema sumário, haveria o Império e a
Fm sentido muito geral, observada em longos períodos c não República, ou de 1822 a 1889 e de 1889 a 1984. O esquema
em fases bem delimitadas, a sociedade e a política sempre ca-
é excessivamente tosco e pouco operacional. Pode-se faïar então
minham para melhor entendimento e crescem e progridem. A
no Império, reconheceudo-Ihe três fases: 1) o Primeiro Reinado,
afirmativa não deve ser vista como ingenuidade nem como de-
sejo de verificar a constância cvolucionisla inspirada pela ideia
de 1822 a 1831; 2) á Regência, de 1831 a 1840; 3) o Segundo
de progresso. Também não deve ser vista como ilustração do Reinado, de 1840 a 1889. Esta fase de 49 anos pode ser porme-
esponlaneísmo, segundo o qual uma fatalidade pesa sobre o norizada, como fez, aproximadamente, Capistrano de Abreu, em
destino humano e social, marcando-lhe todos o1- passos. A in- ensaio de 1925, da seguinte forma: 1) de 1841 a 50, votação
quietação, a crítica, a denúncia e o combate são permanentes das leis básicas, asseguradoras da ordem; 2) de 1850 a 64,
na vida dos povos. Assim e no caso brasileiro, como se vê, relativa estabilidade geral e o primeiro surto de realizações ma-

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r f a i a i s sipmficaiiva 1 ;; 3) de í 864 a 70. dominado pela guerra
cura o Paraguai; 4) de 1870 a 89, q u a n d o , -pé', ar da relativa
1888 a 1930, do ângulo económico, social, político e intelectual,
acelerando a busca rnodernizadora vinda do Império, notada-
mente de 1850 em diante. Agora a direção é diversa e o país
oiüeni e de cerio desenvolvimento, aí conhüdicõcs se aguçam,
com ij campanha abolicionista e r e p u b l i ^ m a , a;c o golpe f i n u l . tem algo mais que nova forma política, curti a República que
A Republica, sumariamente, pode '-.er d i v i d i d a em dois grandes coloca o Brasil junto às demais nações do continente: tem outro
momentos; República Velha, de 1889 a 191U; República Nova, sistema produtivo, implicando em economia monetária c mobi-
do 1430 ii 1484. Os dois admiiem r a / u á \ e l p-ü-menorizacão, F. lidade social desconhecida antes. A participação do povo na
fala-se: 1) i n s l i m i c ã o , o poder dos maivchaK, do 1881 n 1894; política contínua restrita, mas deverá ampliar-se, até chegar à
2) recuperação do poder pei;is o l i g a r q u i a s , de 1894 a 1922; 3) intensidade de agora, pela dinâmica do social e económico.
crise do sKlema. de 192J a M-JïU. A sefirmkt R e p ú b l i c a comporta: Terceiro, a revjlucnn de 1930, que inaugura a fase mais inte-
1) ditadura c constitucionnli/neiki, de l *•! if) a 37; 2) Fitado ressante da vida n a c i o n a l , com mudanças bem mais acentuadas,
Novo, de 19)7 a 40; 3) e x p e r i ê n c i a l i b e r a i , df ]9-l i ) a b4; 4) em fases m u i t o menores, a 1964. O processo histórico KC ace-
governo dos milhares, cm decorrência do golpe de 31 de marco, lerou, de modo a não ser fácil o seu acompanhamento. Ele sur-
de 1964 aos dias atuais. preende os que o v i v e m , por ve/es inseguros ou até perplexos
Tal periodização é feita com marcos e x c l u s i v a m e n t e políticos, ante seus desdobramentos. Busca-se sobretudo a superação da
sem levar em conta o social e o económico, que não lhe corres- dependência, no plano internacional (embora por vezes se che-
pondem necessariamente. Ora. sabe-sc que a história política, gue ao máximo de submissão às forças externas); da maior
sobretudo quando feila tendo em vista só o cspetacular dos participação na política, não mais com partidos ou grupos de
acontecimentos, pode ser superficial, í-cni lembrar ou explicar reduzido alcance numérico, mas com o povo em ascensão para
as forcas mais profundas, de natureza locial ou económica, que viver q u a n t o o país í ou pode ser; de igualdade de todos no
muitas vezes ou sempre condicionam o político. Mellior, pois, plano social, com uma consciência crítica de identidade, con-
buscar outro tipo de periodização. Se menos rígido e didátïco, duzindo à ideia da democracia de massas; de busca da superação
pode ler maior riqueza explicativa, da miséria de amplos segmentos da sociedade ou de áreas ex-
Parece-nos possível estabelecer marcos que digam respeito às cluídas do conjunto dos bens, de sobrevivência vegeíativa; de
transformações p r o f u n d a s , tendo cm vista o focíal, o intelectual atendimento das necessidades básicas de todos, de usufruto dos
e o político, sem fragmentação excessiva. De acordo com o bens conquistados, inclusive do lazer, que leva a considerável
básico na trajelória nacional, há quatro momentos assinaláveis, alargamento da criatividade e da inventiva tecnológica e artística.
que lembram ;t divisão e s t r i t a m e n t e política, já referida, mas Quarto, de 1964 aos dias atuais. Do movimento de 30 em
cunlendo bem algo mais, superando-a em poder analítico. E diante, assiste-se à abertura sócia! e política — eom os naturais
lem-se: p i i m e i r o , a independência, de 1822 a 1841, projetando- avanços e recuos —. decorrente do desenvolvimento económico.
se até ! KH8, ou de 7 de setembro de 1822 a ! 3 de maio de A população cresce de modo acelerado, atingindo a casa dos
1888 (poder-se-ia lembrar 1889, com a instauração da licpú- cem milhões, logo chegando a mais de cento e vinte milhões.
blica, mas o término do sistema de trabalho escravo tem mais O modelo populista de Vargas, Kubitschek, Jânio e Goulart
força). O momento ernancipador vai de 1822 a 1841, ou da conhece enormes dificuldades a contar da renúncia de Jânio
separação à ici de reforma do Código de Processo Criminal, e da posse de Goulart. Como este advogasse medidas arrojadas,
quando se constrói o arcabouço legal da nacionalidade, arma-se assusta-se a sociedade e os seus segmentos mais conservadores
a estrutura de domínio. No decurso das lutas do período, forma- preferem deter o impulso, como se fizera na Regência em 1840
se aos poucos o sentido nacional, na superação dos localismos e 41. Daí o golpe de 31 de março de 1964, feito pelas forças
que vinham dos primeiros tempos. Daí até o fim há relativa armadas com o concurso de políticos temerosos do abato da
estabilidade, que não deve ser exagerada, como se verá. ordem. A nação está de fato dividida. Aliam-se então setores
Segundo, a mudança do sistema de trabalho, com a passa- da política e das três armas e depõem o governo constituído,
gem da escravidão ao regime assalariado, f. fase importante, de em rnais um golpe: não é o primeiro, no Brasil,1 embora muito

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comum nu América l.alina. F, assiste-se a desenrolar de processo diversa à do nobre tradicional. O século X V I é mesmo dessas
que logo revela sua insidtenUibilklade. Apesar de tudo, mantém- fases em que a mudança é mais sensível e profunda, alinge as
se ale hoje, ao longo de arrastados vinle anos. Agora, em 1984, estruturas c inaugura algo de novo. O interesse do europeu pelo
revela a cxauslãu, como só procura dcmonslrar no lugar próprio- americano coincide com o que se convencionou chamar de Idade
Moderna. E o crescente prestígio do capital comercial vai con-
f. a analise e a lenlaliva de explicação que MC fazem a seguir,
figurar O desenvolvimento económico, político e social de cerca
soh orientação eminenlementc histórica, uu seja, o condiciona-
mento das diferentes situações pelas temporalidades. De objetivo de trezentos anos, conhecidos como a época mercantilista. O
abrangente de uma longa duração — mais de cento e cinquenta conquistador vem para o saque, em busca de melais e pedras
anos —, não se i n s i s t i r á em minúcias. O autor parte da premissa preciosas; quando essas faltam tem de criar riqueza, estabele-
de que o factual é bem conhecido cios leitores, de modo que se cendo populações que domina para produzir géneros agrícolas,
dispensa da t a r e f a de exposição excessivamente dïd;itica. Os fatos notadamente aqueles mais cobiçados e não existentes em suas
ou cveníos, de Ião difícil determinação, em geral são apenas terras, como cana-de-açúear, algodão, tabaco. Traz as suas for-
referidos, buscando-se antes entender o seu significado. mas de organização política, técnicas de administrador, arles,
ciências e um universo religioso.
Claro, ele encontra na nova terra toda uma cultura, às vezes
até muito estratificada e com formas sólidas. Há grupos humanos
CONSTRUÇÃO DA N A C I O N A L I D A D E dos mais diversos estádios, desde os astccas, maias c inças, de
complexa organização social e política, com o domínio de tecno-
1. Surgimento c organização logias aprimoradas, artes e formas religiosas sutis, até grupos
As três primeira;; décadas do século XIX assistem a amplo mais simples, como os existentes no Brasil. O espanhol destrói
movimento de descolonizaçno, com o processei emancipador das
pela violência culturas do maior requinte, de amplo potencial
de desenvolvimento e que são submetidas pela forca — as cul-
colónias espanhola c portuguesa no continente amerieano. Em
turas decepadas, conforme classificação já feita. O português
poucos anos surgem inúmeras nações novas, como se verificará
também o fará. O choque de mentalidadcs tào diversas e a domi-
nos anos quarenta e seguintes do século atual na África. As
nação implacável, subjugadora de povos e culturas, vai provocar
possessões ibéricas no Novo Mundo vinham do expansionismo
muito desajustamento psicológico e de grupos, atrofiando o sen-
europeu a contar dos séculos XV c X V I , quando navegantes
tido criativo de imensas populações que se reduzem a pouco ou
sobretudo portugueses, espanhóis e italianos se lançam às gran-
quase nada. O contalo de europeus e ameríndios terá represen-
des viagens e deslocam o eixo do mar Mediterrâneo para os
tado muita perda para os nativos, com sua cultura destruída
oceanos Atlântico, Indico e Pacífico. li um dos instantes mais
ou desfigurada, florescente em sentido diverso do original. A
densos da trajctória universal o período dos quinhentos, quando,
identidade do americano resulta do processo de comunicação
com a dilatação dos horizontes geográfico e histórico, há corno
entre os dois elementos — o nativo c o adventício, que impõe
uma inflexão decisiva, completada com a Reforma religiosa c o
suas formas, pela força ou pela elaboração mais convincente.
Renascimento c a consequente laicização do humanismo, cada
vez menos tcocéntrieo e cada vez mais antropocèntrico. Se o sistema colonial é instaurado no início da convencionada
Idade Moderna, seu fim coincide com o do mesmo período e
A dominação de outras arcas pelo europeu vai levar a cultura
por ele forjada para terras distantes. Ë mais uma fase de domi- o início da Idade Contemporânea, no princípio do século XIX.
nação na história do imperialismo, agora marcada pela prática O capital comercial amadurecera, o novo relacionamento do
mercantilista. Pode-se ver aí um capítulo mais arrojado da ex- comércio exigia mais, a tecnologia aprimorada hipertrofiava o
pansão do comércio, a serviço do Estado Nacional que se substi- industrialismo, e a burguesia ascendente, depois de conquistas
tui à anliga atomização do feudalismo; as mercadorias passam económicas, logra o comando político. O processo de laicização
a ter mais interesse que a terra e impulsionam a nova classe cuímina com o Enciclopcdismo, ;i Ilustração. O pensamento li-
burguesa a realizações afirmativas e pioneiras, com mentalidade beral, vitorioso na política com a Revolução Gloriosa na Ingla-

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terra cm 1689 c, sobretudo, com i\ Revolução Francesa, domina ac-ão do Imperador na Espanha, usurpando o Irono de Carlos IV
a economia, com ;i escola físiocrálica francesa e a escola clás- c pasüindü-o a .seu irmão losé lionaparte, a t e i a os brio:, ibéricos e
sica inglesa, que inManram a ciência económica como a ciência gera protestos que acabam por signiltcar perda para a expansão
social Tilais estrulnrada. í J capitalismo se lui laleccra e domina imperial da (-'rança. A dificuldade da monarquia em manier-se
soberano, com as chamadas revoluções coineu.ial, agi i,'ola, m- vai ai ciar a administração da-, possessões espanholas, l1', elas se
dusln.il. A;'ora é a v c/, du capital ÍIK'UIMVÍ,I! L ímanceïro. O aproveitam para a agitação, a contar de 18H), do México à
mcrcanliüsmo é Miperadu, sob os íogos da erílica liberal, teorica- Argentina. O mesmo se dá era Portugal, ü mais antigo aliado
mente consagrada. da Coroa c a Inglaterra, exaiametite o principal adversário de
Pode-te di/er, em síntese, (|iie uma transformação tecnológica Napoleão. Quando este decreta o bloqueio do continente, no
— a Revolução Industrial inglesa —- e uma transformação jurí- prupósilo de isolar os brilánicus, quer o apoio porluguôs, que
dica - a Revolução [''lanceia -— vão eonlignrar n nova ordem lhe é negado, forno as negociações íalham, resolve pela ocupa-
do século X I X . inarcadn pelas ideologias do liberalismo c do ção do lerriíório, imadíndo-o.
nacionalismo O antigo sistema cólon i LI l -olVc duros golpes e, C) rogou l c D. loao e o governo adotam o antigo plano de
se níui se extingue de pionlo. v a i conlinnar M,> cm alguns resí- vir para a América: a pequena nação é ocupada pelas tropas
duos, tc-mionai-, ou na1- leis e costumes. Ouanío ao mais, no Irantcsíis, por pequeno lempo. Alguns aiR.'S, no entanto, o re-
nnini.iit americano, ]ia--am a existir nações — México, Guiitc- gente Uca no Brasil: de 1804 a 1821 a amiga colónia passa a
m,''la, Honduras Nicarágua, l-l Salvador, Co-ta Rica, Venezuela, ser sede a d m i n i s t r a t i v a , no procedo conheiido como a '"inversão
Colômbia, fquador, Bolt'. ia. Persi, Chile, l'ara;«,!ai. Argentina brasileira", l.) regente era 1 8 1 8 passa a l"). )oao V L , com a morte
e Uru"uai, cnlre 1810 c T S , congelação de nações cm que se da rainha I). Maria l, Mia m,ie; o Brasil ganhara o título de
fragmenlou o an(i»o império espanhol, explicável pelo sentido Reino Unido ao de 1'orlu^al e A l g a r v e cm I K l ï . São bem conhe-
da administração anterior adotada, tjiic deu forca às parles, des- cidas as providências tomadas pelo JIÜM.TIIO que resultam em
conhecendo sentido unitário. Ks^a alomivacão de forças nacionais benelício para o país: a supressão do monopólio, a abertura dos
reM'!|ou não só do Inbnlfio do antigo coloni/ador. como da portos à.s nações amigas, a revogação do ahará de 1785 impe-
;:rão do- chefes libertadores, cada um exprimindo sua área. Com ditivo da aiividade industrial, a criação do lïaneo do Brasil, a
o preparo para a Inla e a forca armada, tornam-^e os chefes lo- permissão da vinda de v i a j a n t e s ou imigranlcs de qualquer
cfi!"- e serão os caiidílhos, de papel de tanto realce rio conti- nacionalidade, o início do movimento imigratório com o esta-
nente. C) ideal de Bolívar — o sistema amc.scano -- foi ficção belecimento de colónias estrangeiras, a criação de escolas como
!o"o de- f e i t a , e marca tiiMc-menlc o fim de sua \ i d a . as de ensino medico e preparo militar, de iiisiitulos como o
jardim Botânico e a Biblioteca Nacional, a vinda da missão
lá a cii'õni;i poilu^ue^a manlém a unidade Mibre vasln terri-
anística francesa, o incentivo as atividadcs agrícolas e intlus-
uVio, quase ci!UÍ\'a1ente ài;ucle. com unia administração, uni
iriais. com as vantagens financeiras e ouiras, a alracão de técni-
inverno, unia língua, uma tradição v ipi:ro',a que rarante a «obrc-
cos renoniados da l'uropa. A siderurgia, por exemplo, t e v e en-
\ t > . ê i K - i a de f:'K: - de torra'- às \ e / c ? tão M-n-ivi-Vmi.-nte desiguais.
lão o momento mais impoMantc de lodo o século X I X . A cidade
O lempo soldará mais ainda essa unidade, de modo que em
do Rio de lancho é iran.-lïgiKada. poic. iccebe de repente mi-
meados do oiliTcntos ia há a realidade de união do Brasil de hoje.
lhares de moradores de alio padrão, precisado-, de east. A se-
Se o paiS foi colónia instihmissa. sempre cm lula contra a gunda década é um dos peiíodos de seu impulso inbanísiieo e
dominação, c - t a se accnUM no nvitlo X V I U . quando o ideal de embele/amenio.
libei >ái io que inspirou a^ Tre/c colónias inplesas a constituírem O Imperador nãn é homem brilhante, mas Icm a ajuda de mi-
a República do- Fsiados 1,'nidot vai ^cr um modelo para todos ni..U os por \\vcs 1101,1', e is. A versão eoi lenle da hisioriografia
o:- ameiicauos do norte c do sul. A filosofia ilustrada, vitoriosa vê na Li v i? i!e sua pcnn. meneia instante po;iti vo no processo
na Revolução Trancesa, é outro elemento a fortalecer a cons- nacional. T o caso da obra de (lli\eira I.ima í). Jaiio \'I no
ciência emanciraeionisfa. A roniunlura ci"opéia. alterada com /!n'sií. de !l!09. A críiica. no entaiifo. aparece lúcida em A/evedo
o- movimento' de Napoleão. \ a i repercutir no No\ o Mundo. A Amaral, em A arfnlitra /'ulíiica do Uru:,:!, de 14)0, ao afirmar

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leira cm 16P-4 u. sobretudo, com n Revolução Francesa, domina ação do Imperador na Espanha, usurpando o irono de Carlos IV
a economia, com a escola fístoerática lr;mcc'-a c a escola^clas- c passando-o a seu irmão loiê lionaparte, a t e i a os lírio., ibéricos e
sica inglesa, que instauram a ciência económica (.-orno a ciência gera protestos que acabam por significar perda paia a expansão
social mais estruturada. C) capitalismo M.' forlaleecra c domina imperial da r-Yanca. A dificuldade cia monaiqiiia em manter-sc
soberano, com as chamadas revoluções ccmeicial, agnoola. m- vai afclar a administração das possessões espanholas, h elas, se
dus[|-i.!l. Agora L- a vê/ do eapilai hiduMi iu! L- hnaíieeiro.^ O aproveitam para a agitação, a contar de ! 8 I O , do México à
mercantilismo ó superado, sob o> fogos da uílka liberal, teorica- Argentina. O mesmo se dá cm 1'orlugal. O mais aníigo aliado
menle consagrada. da Coroa é a Inglaterra, exalamcnte o principal adversário de
Pode-se di/er. em Miilesc. que uma transfoimação tecnológica Napolcão. Ouando e.ste decreia o bloqueio do lonlitientc, no
— a Revolução Indrr n ial inglesa • c uma inmsformacão jurí- propósito de isolar os britânicos, quer o apoio português, que
dica — a R e \ o l i K : i o Fiancesa - - vfio confirmar a nova ordem lhe é negado. Como as negociações falham, resolve pela ocupa-
ção do len-ilório, ín\adindo-o.
do sjciílo X ! X , marcado pelai, ideologia-, do liberalismo e do
nacionalismo O amigo sMema colonial s o f r e duros golpes c, O regente I). |oão e o governo adotam o antigo plano de
vir para a América: a pequena nação é ocupada pelas tropas
si- nLÏO se c\nti;,Mie de pionlo, vai continuar M cm alguns resí-
duos, termonaH ou nas leis e coMurucs. Ouatilo ao mais, no t r a i i L C s a s , por pequeno tempo. Alguns anos, no entanto, O re-
mundo americano, pa^ani a e x i s t i r nações - México, Guate- genie fica no lïni>il: de I.SOi a 1821 a anliga colónia passa a
mala, Honduras, Nieaiï-j-níi, I-l Salvador, C o - t a Rica, Vencvucla, ser sede administrativa, no pioecsj-o conh^^ndo eoiuo a "inversão
brasileii^a". O regente em I81EÍ pa^sa a I"), loao \'l, eom a morte
Colômbia, l ; quador, líolíua. IVn', fliile. 1'anfïisaÍ. Ai.aenüna
da rainha l). Viária l, Mia mãe; o Brasil ganhara o lílulo de
e UriüMifii, enire 1810 e ï K . eoiT-K'lauãu i!i- nações cm que sc
rnifiiiiciiluii o antigo império espanhol, explicável pelo sentido Reino Unido ao de Puilugal e Algarve em 1 8 1 Ï . São hem conhe-
da administração anterior adotada, que deu força às parles-, de"- cidas as providéneijs tomadas pelo go'.erno que resultam em
eonticceitdo •.enlido unilário. Tssa niomi/íicão de lorcas nacionais benefício para o pai.-,: a supressão do monopólio, a abertura dos
re^iUou n;"iD só do tivihallio do antigo coluni/ndor. como da poiïoi iis nações amigas, a revogação do alvará de 1785 impe-
dilivo da atividadc industrial, a criação do [lanço do lirasil, a
arão do- chcrcs liherlaclore^, cada uni exprimindo ^iia ávea. Com
o preparo pnra a 1u!n c a Torça aunada, tornam-^e os chefes lo- perniissào da vinda de v i a j a n t e s ou imignmies de qualquer
nacionalidade, o início do movimento imigratót io eom o esla-
i-ni'; e '•erfío o-, eaudlliioí,, de papel de t a n t o realce no conti-
beiecïmenlo de colomas estrangeiras, a k i iação de escolas como
nente, t) ideal de llo!í\ar — o sistcnr! aineiicam> — foi ficção
as de ensino mediai e preparo miliiar, de i n s t i t u t o s como o
1u"o d e s f e i t a , e marca tri^temetilc o fim de sua \ i d a .
Jardim Hoiamco e a Hihlioleea Nacional, a vinda cia missão
|;1 a cuiôüia poi1iiL'iie'-a manlém a unidaile sobie vuMo tcrri-
anímica l fancesa, o iiieeniivo às a l iv idades agrícolas e ind us-
lói io, quase nuMvalenlc àquele, com uma administração, um
inais, com as vantagens financeiras e ouiras, a atracão de técni-
p..verno. u'ii:> !:rn!',ií'. uma t t a d i c ã o viforo a que raranle a scirire-
eos reiiomados da Europa. A sidei urgia, por e\emplo, leve cn-
\ i \ , ' - n c i r » de \'-n\:^ de t e r i a s às \ e / e s Ião '-en-i' e'me:ite desipuais.
tüo o momenlo mais impotiante de todo o sécuV X I X . A cidade
(.1 iempo soldará mais ainda essa unidade, de modo que cm do l'io de laneiro e liansfigm-atla. pois i-ecche de repente mi-
meado- do nihvemos já lia a realidade de união do lirasil de hoje.
lhares de moradores cie alto padrão, precisados de casa. A se-
Se o pai1- foi colónia ïnsuhmissa. sempre em lula contra a gunda década e um dos períodos de seu impulso urbanístico c
dominação, e s t a se acentua no st'eulo XVI M. quando o ideal de embelc/amemo.
lihenáiio que inchou n* tre/e colónias ineje^as a constituírem O imperador não é homem lirjllunite, mas leni a a j u d a de nii-
a lícpOMiea d..- 1'slados Unidos vai ser um modelo para todos IU.-!>MS por v e / e s no!.heis A versão c o t ; e n t e d.i historiografia
os amene.inos do norte e do sul. A f i l o s o f i a ihisirada, vitoriosa vê na fase de sua permanência insianle po;iii\ o 1:0 processo
na Revolução TraTice^a. c ovilro elemento a fortalecer a cons- nacional, l o caso da ob;a de Oliveira I.iina /). j IMO VI no
ciência emancinaeionista. A fonjunlura euviiicia. alterada com /ÍAT.M"/. de 1^09. A crítica, no enl.mlo. aparece Uicidn em A/evedo
os movimenlir ile Napoleão. vai repercutir no Novo Mundo. A Amaral, em A avcntttm fuliiica do límúl, de I9)t), ao afirmar

132 133
Pesava a possibilidade de fracionamcnto, tal como se deu na
que "em 1808 começa nossa descida aos infernos". Para O his- America espanhola, pois não exislia ainda a consciência nacional.
toriador-sociólogo, sem a presença da Corte o Brasil teria outra Em balanço da colónia, Capislrano de Abreu escreve em 1908,
evolução, desligada de muito ranço da tradição portuguesa. D, João em Capitulas de história colonial, que a administração da Coroa
seria uma distorção do destino nacional. A vinda dü governo respeitou fisionomias locais, de modo que havia regiões brasilei-
trouxe a obsoleta e viciosa máquina adminislrativa, instalando-a ras, não o Brasil. O autor vê cinco regiões, ligadas pela língua
aqui e sendo maniida mesmo depois da volla a Portugal. A aná- e religião, moldadas pelas condições de cinco realidades dife-
lise de Azevedo Amaral lem muito de exercício à maneira da rentes. Elas têm pela terra entusiasmo estrepitoso, desprezo pelo
cüuníerfactual History dos norte-americanos, válida em uma português, mas sem se prezarem umas às outras. A distância e o
historiografia como a deles, mas bem menos, senão discutível, vazio desuniam núcleos dispersos do país. A separação era fatal:
em nosso caso. O alheamento à realidade, a alienação, o divórcio se a colónia tinha mais densidade que a Metrópole, pesava mais
mure o ideal e o concreto, entre o Direito-lei e o Direito-eostume no Império português que ela. Não podia continuar dependente,
— tudo está na denúncia de Azevedo Amaral. Que não é nova, pois linha força, expressão, f u t u r o — caracteríslicas inencon-
pois é devidamente explicitada e mais sistematizada nas obras Iráveis em Portugal, Demais, a presença da Corle e depois a
de sociologia, política e direito de Oliveira Viana, desde 1920. regência de um príncipe explicam o regime monárquico por mais
Esie, por sua vez, desenvolve e aprofunda o pensamento de
de cinquenta anos, experiência singular do Brasil no continente.
Alberto Torres, de quem foi discípulo confesso, em livros como
A organização nacional e O problema nacional do Brasil (ambos O sentido de unidade seria o fruto do trabalho das duas primeiras
de 1914), Está aí uma constante do pensamento conservador ou décadas da nação.
reacionário no Brasil — por vezes ate do revolucionário —, vinda A nova terra tem sérios problemas pela frente. Deve governar-
do Império, da ucão e da ideologia de alguns nomes do partido se. Para essa tarefa dispõe de quadros excepcionais, contando
conservador do Rio de Janeiro, como Uruguai, F.uzébio de Quei- com a presença de portugueses experientes e de largo descortino
rós, Itaboraí, a famosa "irindade Saquarema", tão expressiva da c com alguns brasileiros excelentemente formados na Europa, de
área fluminense, da qual procedem lambem Alberlo Torres e ampla vivência dos problemas nacionais, pe!a participação em
Oliveira Viana. E uma das vertentes, talvez a mais sólida, do lulas conlra a antiga Metrópole ou em tarefas administralivas.
conservadorismo do Império e da República. Seguramente, nenhuma das outras nações latino-americanas conia
De q u a l q u e r modo, é insligante a História contraí actual: ten-
com um número tão expressivo de gente capaz {algumas têm mes-
tando-a, não se pode deixar sem referência que o período joanino
mo sérias dificuldades — caso do Paraguai, por exemplo — pela
é mesmo rico de aspectos e realizações; se instaurou um arca-
bouço burocrático dispensável, o certo é que a Corte no Brasil falta de quadros do seu povo). Se antes o país era ligado a Lis-
e depois a regência do príncipe D. Pedro deram um encaminha- boa, agora deve ligar-se a oulro cenlro. Que é evidenlemenle
mento original a nosso processo emancipador. As disputas entre Londres, eixo da hisiória ocidental no século X I X . Porlugal tinha
o príncipe e o governo da Metrópole, sua insubordinação às or- tradicionalmente a mesma vinculação ou dependência. A Ingla-
dens recebidas, o corpo administrativo no país, consliluído de terra vê com bons olhos o surgimento de vários núcleos no mun-
portugueses c brasileiros com interesses locais, não porluguescs, do americano, pois sabe de sua ascendência sobre cies. Ajuda a
tudo deu a nosso caso uma fisionomia toda particular, distinguin- emancipação do Brasil e dos demais, por ser contra a Santa Ali-
do-ii do vcbto do continente. Rm torno do príncipe, do Rio de ança c pêlos interesses comuns: se o Brasil é contra os mono-
Innciro, São Paulo c Minas Gerais é que se fez a independência; pólios, a Inglaterra também o é. Ambos são contra o português,
as demais Províncias aderiram depois, algumas ale com certa pois. Não tardam, porém, os atritos, resultantes das contradições
animosidade, quando vencidas pelas armas, como se deu com o — a nova terra é pela escravidão, base de sua economia, en-
Grão-Piirá, o Maranhão e Piauí, Bahia e Cisplatina, nas quais quanto a Inglaterra lhe é contrária, origem de muitos choques
havia considerável concentração portuguesa. Sem esse centro de até 1850.
direção, c questionável a independência una, como se verificou.
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O fim da tutela estrangeira tinha tradição na luta do povo, Algumas o farcm. 1% assim que. a t rã vi s do artifício, s u posta mente
contra pretensões como as francesas e inglesas, provocadoras de se [em o beneplácito do povo. Haveria um plebiscito, não ou-
saques c tentativas sem profundidade, ou as holandesas, mais torga. Uma í-utileza do novo governo.
serias e vitoriosas em ocupação de mais de vinte anus de larga A Constituição de IR24 é documento inteligente, evidência do
faixa do território; na luta contra o português, os índios e negros alio preparo Jc seu& autores, Exprimia o mais avançado na ma-
rebeldes; de brasileiros, no século XVH contra os privilégios téria na época, a ideologia liberal de então. Traduz mais a in-
comerciais — a experiência de Companhias leva à revolta de fluência europeia continental, que a inglesa ou norte-amcrieana.
Búckman no Maranhão, em 1684 —. ou contra a presença do Sua principal fonle e" a Carta de 1814, outorgada por Lufs X V H f .
homem c do administrador, como nos episódios dos emboabas f á fora ultrapassado o radicalismo revolucionário do fim de se-
c mascates, na primeira década do século XVIH cm Minas e Per- tecentos é a vez da Restauração na !• rança. D, Pedro contou com
nambuco. as conjurações mineira, carioca, ha i anã e pernambu- a colaboração de homens conhecedores de quanto se escrevera
cana, o importante movimento de 1817, cm Pernambuco, para de importante cm matéria de Política e Direito Constitucional.
citar apenas os de mais repercussão. Cmbora o processo c man- A maior originalidade da peça é a consideração de quatro podc-
ei pador na fase final (unha sido conduzido pelo príncipe regente rc": além dos ires da fórmula clássica — Executivo, Legislativo
c grupos políticos du três Províncias, ele não fui pacífico, como e ]udiciário —, condigna um quarto poder — o Moderador. Há
se afirmuu d ura n W muito tempo na historiografia convencional. aí muito de Hcnjamín Constant, o conservador. O novo poder
Tose" Honório Rodrigues cm /Mí/ejJCMífrncííT; Rci/ofi;cü(j c Confra- í cxerudo pelo Imperador c é visto como "a chave de toda a
reuo/f^õa (1975. cinco volumes), combate u tc^e do canltcr in- organizarão política''; concede prerrogativas especiais à primeira
cruento, provando que a separação fez milhares de vítimas no figura, para harmoni/ação dos três outros poderes. Uma delas
Brasil, apesar do tempo curió (1822-21), enquanto na América a de dissolver a Câmara, ante impasses criados. K uma transação
espanhola custou muitos anos. Sustenta o earátcr nacional da entre liberalismo c absolutismo, atestando nos autores compe-
luta, verificada em todo o país c não üó nas Províncias de mais tência e imaginação. Tem-se nesse poder idealizado por constitu-
resistência à ideia, de modo a ser errónea a teso do caráter incruen- cionalizas temerosos dos avanços do radicalismo da Revolução
to ou de doação a liberdade, penosamente conquistada pelo povo. ("rance s n uma espccie de compromisso entre a tendência consti*
feita a independência, o problema que se colocava a seus lucionalizadora — vitória do liberalismo — c o apego a fór-
artífices era o de organizar a nação. Depois, é elaro. de subjugar mulas do Antigo Regime, que deviam ser abafada? pelas novas
elementos adversos internos, submissão conseguida com o fim ideia":. U poder moderador concilia as duas tendências e foi
de choques nas Províncias de mais acentuada influência portu- introduzido na lei brasileira. 1^ um eco da obra da Restauração
guesa e com y reconhecimento da nova nação pelas grandes po- na Trinca. Seu exercício representava perigos: um chefe impul-
tências. An l c s mesmo da vitória, em setembro de 1822. cm sivo eomo D. Pedro I podia cxcedcr-sc com ele. um chefe pru-
limbo é convocada uma Assembleia Constituinte, que começa os dente como D. Pedro II podia manejá-lo sem maiores riscos.
trabalhos em maio do ano seguinte. IScsse primeiro ensaio par- De qualquer modo. é artifício a ser evitado, revelando nos clabo-
Inmentar, dcbatem-sc interesses portugueses e brasileiros, aliados radorcs do texto o sentido conservador.
de D. Pedro f c seus inimigos, radicalismo c conservadorismo, Arma-se o país para enfrentar a tarefa de defesa da ordem,
tendências liberal e absolutista, a maçonaria. Como os deputados ou seja, dos interesses dos elementos mais representativos do
não se atém à questão constitucional, mas tratam de problemas corpo social. Atendo-se à economia, eminentemente agro ria, com
políticos, às vezes de modo exaltado, D. Pedro l se exaspera e base na produção de géneros agrícolas para consumo e expor-
fecha a Assembleia, em novembro, cm seu primeiro ato de ar- la cão. podcr-sc-ia deduzir que o grupo dominante fosse o do se-
bítrio a afastú-lo do povo. Como desculpa, promete uma Cons- nhor de terras, do grande latifundiário ou fazendeiro, com base
tituição "duplicadamentc liberal". E de fato o faz. Um Conselho no trabalho escravo. Certo, a propriedade í algo intocável. O
de homens capazes elabora um documento que í submetido às jogo político, contudo, não é feito pelo latifundiário, diretamente,
Câmaras Municipais, para manifestação destas com sugestões. mas por seus agentes. E esses podem ser profissionais liberais,

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^t! 1817, em que se manifesta c se exercita o impulso libertário
comerciantes. O senhor de terras garante o voto e todo apoio a nordestino. Tal como aquela, a de 1824 será brutal mente repri-
quem não lhe perturba os negócios, A Constituição não fala em mida. Alto preço cu.stuu à região, notadamcnle a Pernambuco,
escravos. Claro, cies não têm cidadania. Ora, dizer que é liberal seu sentimento político ré v ol u cio u ú rio popular, ü desprestigio
e excluir a metade da população, nem sequer a considerando, é de D. Pedro l é crescente: a guerra no sul, por uausa da Císpla-
estranho. Contudo, é a consciência social possível no princípio íina, é mal visla c logo acaba, conltibuindo para desgaste impe-
de oitocentos, como hoje a legislação não tem em conta amplos rial. Mesmo sua vida privada, que não era exemplo canónico,
setores da sociedade, desassistidos de todo. afeta-lhe a imagem. A imprensa c v i r u l e n t a , manifestando-se cm
Demais, a Constituição de 1824 defende outros privilégios: pasquins que nada poupam. Choques enire portugueses e brasi-
o Senado é vitalício e o senador é eleito em lista tríplice pelo leiros são frequentem: o falo de D. Pedro l ser português pesava-
povo, para a escolha imperial. A Câmara de Deputados podia ser lhe negalivãmente. Suas hesitações enlre o país de origem e o
dissolvida. Nem todos são elegíveis ou volantes: o sistema é adoüvo o comprometem, como se dá, sobretudo, cum o momento
indireto, com a eleição de dois graus. Para votar e ser votado é de quase aceitação da coroa de Portugal — era o herdeiro de
preciso que o cidadão disponha de um mínimo de renda, sem L). |oào V I , cuja morte é de 1826 —, o que faria ressurgir a
a qual não participa do processo político. Mesmo sem a exclusão uiiiáo luso-brasileira, de todo inaceitável, sobretudo pouco de-
do analfabeto, a nação em sua quase totalidade está fora do pois da independência de nação ainda nào consolidada. O jovem
jogo. Comparando-se a lei básica brasileira com a de outros, Imperador, despreparado para tarefas :ão importantes, não podia
tem-se que ela c avançada, é liberal, exprime uma consciência suportar a carga. Eram superiores, ele precisou renunciar, como
relativa da democracia, fi a expressão dos interesses dominan- o faz pouco menos de nove anos depois de assumir a alta função.
tes: proclama a liberdade, mas diz que a religião católica é
oficial. O direito à propriedade é assegurado em sua plenitude.
Contra os entraves- ao trabalho, declara-o livre, proibindo as 2. DÍI maré liberal ao Regresso
corporações de ofícios. Exprime privilégios dos latifundiários:
se a independência é feita por eles. naturalmente organizaram A abdicação de D. Pedro I a 7 de abril de 1831 parecia uma
o Estado em função de quanto queriam. Não se procurem con- vitória liberal, pois feita pêlos brasileiros contra a presença por-
trastes entre interesses rurais e urbanos, í,e a classe dominante é a tuguesa — o Imperador e o grupo que aqui vivia, em geral nos
mesma. Nem entre letrados e fazendeiros, se deles c que saíam portos, cuidando do comércio, do qual linha verdadeiro mono-
e saem os estudantes para as Universidades da Europa (como pólio —, da democracia contra o absolutismo. Seria seguida de
no período anterior), ou saem agora, em maior número, para as certa instabilidade social e política, notadamente na Capital, com
escolas de Direito de São Paulo e Olinda, criadas exatamente no mais choques episódicos entre brasileiros e portugueses, entre
primeiro reinado. A lei devia ser ainda completada, como o o povo e o comércio, como não é raro nos centros urbanos. Su-
seria, com um Código Criminal, um Código de Processo Cri- cediam-se as manifestações de rua. O povo, na ilusão de domínio
minal, o Ato Adicional, leis de reforma e interpretação, o Código do ambiente, exige sucessivas medidas cm favor de seus inte-
Comercial. Se muita matéria importante seria objeto de lei re- resses. No quadro da consagração em leis, votam-se medidas
guladora, faltava um Código Civil, necessidade só atendida quase como o Código do Processo Criminal (1832) e o Ato Adicional
(1834). O Código Criminal é de 1830. Com justeza designou-se
cem anos depois, em 1916.
a fase do 7 de abril de 1831 a 1834, votação do Ato Adicional,
Em 1826 começa a funcionar normalmente o Legislativo, de-
de maré übera!, quando parecia que o sentido de liberdade se
pois da curta experiência desastrosa de 1823. A dissolução vio-
lenta da Assembleia Constituinte é uma das razões do movimento impusera de vez nas leis e nas instituições, na teoria e no fun-
cionamento.
liberal de 1824, com a Confederação do Ecmador. que envolve
figuras notáveis da política nordestina e de amplo apoio popu- Na verdade, porém, havia aí apenas o despertar de um voo
lar, de acenluado sentido revolucionário — para citar apenas para urna política ideal, logo abafada pela pretensa correção.
um, lembra-se Frei Caneca —, revivescência da admirável luta Teófilo Otoni estava certo quando disse que o 7 de abril foi

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jotinií-e dês dupcs: tal com u no episódio francês em que imensa e desatinada pivgaeao política por jornais. Durante pouco
os inimigos de Richelicu foram vencidos, depois de aparente vi- mais de quatro anus. a regência cuidou <.!o reprimir as pertur-
tória, os beneficiários da renúncia à Corou só lucraram nos pri- bações (ia ordem, verificadas na Capital e em a'a u mas 1'rovíncias.
meiros momentos, logo abafados e reduzidos à situação de antes. Contou para tanto só tire tudo com a ação do ministro da Justiça
Com a ida tio Imperador pura a Europa, o trono passava ao me- Lliogo António Feijó, que marca a sua ascensão no período, no
nor, príncipe D. Pedro de Alcântara, na idade de cinco anos qual começam a ganhar forma também outros nomes de enorme
e quatro meses. Aclamado como D. Pedro I I , só podia exercer significado depois.
o poder quando atingisse a maioridade, fixada então em dezoito Os motins no Rio de Umeiro envolvem exaltados c restaura-
anos. Tinha irmãos, mas lambem menores: a regência deveria ser dores, no combate ;;o-; modulados, ora coiiíundidos com disputas
eleita pela Assembleia Gemi, com o Senado e a Câmara; a lei entre brasileiros e portugueses, liberais e absolutistas. São co-
falava cm regência trina, presidida pulo mais velho. Como o muns cm quartéis, nas fortalezas onde se formam grupos que
parlamento estivesse em f ú r i a s , os membros presentes no Rio invadem a cidade, provocando distúrbios. O Lífércilo era frágil-
elegeram, cm canítcr provisório, os senadores José Joaquim mente constituído. Fntre seus oficiais, lia inúmeros estrangeiros,
Carneiro de Campos (marquês de Caravelas) e Nicolau Vergueiro homens que se distinguem nas forças da l'rança ou de cidades
e o brigadeiro Francisco de ï. i m» e Silva. O parlamento só se alemãs, marinheiros ingleses, envolvidos em episódios de seus
reuniria cm maio. quando é escolhida a regência permanente. países ou frustrados em suas aspirações c que se engajam como
Esta será constituída pêlos deputados José da Costa Carvalho, mercenários nas forcas dos novos Kstados da Amei iça, então
João lïnkilio Mimiz e o mesmo brigadeiro membro da provisória. cm formação também do ân:mlo m i l i t a r . Aeinclo só por interes-
O quadro político é evidentemente alterado com a nova or- ses, c natural não sejam merecedores de confiança. Os anos de
dem: quem fa/.ia oposição a D. Pedro I se divide cm dois grandes 1831 c 52 assistem a inúmeros levantes do gúnero. logo sufoca-
grupos — o dos moderados, que estão no poder; os exaltados, dos pela energia de Feijó. mas sempre i n t ranq ü i l i za dores. Entre
que sustentam teses radicais, entre elas a do federalismo, com os jovens oficiais que se distinguem na defesa da ordem está o
concessões maiores às Províncias. Outros, deputados c senadores, major Luís Alves de Lima, no começo de tua carreira. Ante a
conselheiros de Fstado, jornalistas c propagandistas políticos, per- insuficiência dos corpos permanentes, c ri n-se e;n 1831 a Guarda
manecem em atitude de reserva, expectativa ou crítica. Deles, Nacional, logo irradiada a todo o país c de t a n t o relevo até o
aos poucos, surgem os restauradores ou cara m uru s. na preconi- fim do Império-
zação da volta de D. Pedro I ao trono. Entre eles formam os Nas Províncias foram comuns os perturbações. Não há inte-
três And rã das — José Bonifácio, António Carlos c Martim resse cm sumariá-las. A título de exemplo, lembrem-se apenas:
Fram/isco, com a agravante de ser |osé Bonifácio tutor do prín- na Bahia, nos dias de abril de 18?l, levantes nativistas, lambem
cipe menor, por escolha de 13. Pedro I e ratificação da Assem- para reivindicações dos soldados ou contra os portugueses, tão
bleia. C aram uru s c exaltados — depois conhecidos por farrou- numerosos c atuanles; cm fevereiro de ~,2 í a vez do interior,
pilhas e j u rui ubás — combatem os govcrnistas, conhecidos por quando a Federação dos U u anais chega a constituir governo,
chimangos. Surrem os clubes, principalmente na cidade do Rio logo vencido, no Recôncavo. Chegou a haver o bombardeio de
de Janeiro, com as conotações das três correntes. São instáveis Salvador. Todos esses episódios se beneficiam da colaboração
de revoltas de negros, como os grupos islamiVados dos nagõs
cm sua conduta e nos elementos congregados. e haussás, constantes na região baiana. ï'ern;:-nbuco conheceu
Ë expressiva a agitação, movimentada por uma imprensa com- vários levantes em 1831. cognominados pêlos meses — a setem-
bativa, às vezes exagerada e falsa em suas páginas: a paixão é hrizada, a novembrada; como em casos anteriores e posteriores,
permanente na: três orientações, não recuando diante de nada, o alvo c o comércio, dominado pelo porti.isi.ijs: 110 ano seguinte
nem mesmo da intimidade de cada um. Os pasquins surgem e & a vez da abrilada, de carátcr restaurador. Ala«oas conheceu
desaparecem. Têm nessa fase o ápice de sua existência: possi- as cabanadas. Como no Rio de Janeiro, eram movimentos sem
velmente em nenhum outro instante, no Império e na República, profundidade e logo abafados. Também no Grão-Pará e Mara-
mesmo em dias da segunda metade do século atual, houve tão nhão há choques, com ligeiras variações nos pretextos. Cabanos

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n rabanadas são denominações que aparecem. Ceará foi palco ü próprio texto previa as dificuldades, como se vê nu artigo 25:
cie episódio restaurador, terminado com a insólita condenação à "no caso de dúvida sobre a inteligência de algum artigo desta
morte do cabeça, em julgamento sumário local. Insólita, pois a relorrna, ao Poder Legislativo compete interpretá-lo". E ele o
regra era a íinislia. Minas Gerais viu em 1833, cm Ouro Preto f a r á , como se mostra adiante, cm sentido dcsvirtuador de quanto
— ano de bruma bem mais intensa —, a revolta restauradora do se estabelecera, l-m documento famoso — a Circular dedicada
ano da fumaça, que exigiu choques e movimentos. Como se vê, aus senhores eleitores, de 1860 —, Teófilo Otoni captou bem
o quadro era de instabilidade; sem ser grave, abalava a ordem, esse aspecto: "o Alo Adicional era um penhor de aliança que
logo reposta. Mais sérias seriam as conotações depois de 1835, aos liberais mais adiantados ofereciam os estadistas moderados,
já sob o signo da Regência una. senhores da situação. No entanto, a concessão tinha sido arran-
A atribuição de prerrogativas ao povo e às unidades regionais, cada, não às convicções, mas ao medo".
características da maré liberal, culmina com a votação do Alo A eleição para a chefia da Regência é f e i t a em 1835 e resulta
Adicional. Se a Constituição era eminentemente unitária, pouco na escolha de Diogo António Feijó. O paulista venceu sobretudo
concedendo às Províncias, sua reforma com acento descentrali- pêlos votos obtidos em Minas Gerais, uma vez que em São Paulo
zador, sempre pedida pela pregação federalista — constante na e R i o de [aneíro era m u i t o combatido, e n q u a n t o o nordeste votou
trajctória do Brasil —, tem lugar com a reforma de 12 de agosto no pernambucano Holanda C a v a l c a n t i , em d i s p u t a do cargo. A
de 1834, conhecida como Ato Adicional à Constituição do Im- v i i ó r i a f u i a p e r l a d a , por menos de 600 votos. O prande eleitor
pério. Para fazê-la, era preciso concordância do Senado e da foi o j o r n a l i s t a Evaiïsto da Veiga, deputado por M i n a s Gerais,
Câmara, o que não era fácil, pois o Senado, mais conservador, o r i e n í i t d n r dos moderados. Em outubro de 15 começa Feijó o
opunha-se à pretensão, não só por conceder privilégios às uni- seu difícil governo. A u t o r i t á r i o e intransigente, conquista animo-
dades, substituição dos Conselhos Gerais das Províncias por sidades consecutivas. |á não tem o apoio de ïlvaristo, dele afas-
Assembleias Legislativas, supressão do Conselho de Estado, como tado — morreria pouco depois —, bem como de outros chefes
pelo lemor cie ser extinta a vitaliciedade do Senado, como era moderados. O regente, com grave enfermidade, não tem a forca
defendido pêlos liberais. Feito o acordo, lei de 1832 autorizou a de seu tempo de ministro da justiça. O grupo chímango conhece
Assembleia a reunir-se em 1834 e fazer a emenda. De importante, divisões sucessivas. Mais importante, o país c abalado por cho-
criaram-se as Assembleias Legislativas, com mais ação que os ques de extrema gravidade: não m a i s os motins da regência
antigos Conselhos. Matéria delicada era principalmente a tribu- trina, de 1831 a 35, mas verdadeiros movimentos revolucioná-
tária, com a delimitação de quanto competia ao Império, às rios, com intensa participação popular, põem em jogo a ordem
Províncias e aos municípios. A regência trina é substituída pela interna e ameaçam a u n i d a d e nacional. A Regência é mesmo o
regência una, com o regente escolhido pelo voto popular para período mais rico de toda a história b r a s i l e i r a ; mais que uma
um mandato de quatro anos. Extinguia-se o Conselho de Estado. "experiência republicana", liberal e federaliza, é a explosão dos
Como se VÊ, algumas das reivindicações liberais pareciam aten- mais fundos desejos populares, contra os privilégios dn explo-
didas. Não se suprimiu o Poder Moderador e manleve-se n vita- ração da grande propriedade. Em nenhum outro momento há
liciedade do Senado. Entre os .seus artífices, destacava-se Ber- t a n t o s episódios, em vários pontos do país, c o n t a n d o com a pre-
nardo Pereira de Vasconcelos, vivendo aí o último momento li- sença da massa no que ela tem de mais humilde, desfavorecido.
beral. Como dirá mais tarde, era "preciso parar o carro revolu- Uai as notáveis conflagrações verificadas no Pará. no Mara-
cionário". E na própria lei que tanto ajudou estava a força cie nhão, em Pernambuco, na Bahia, no líio Grande do Sul: são os
sua negação; as esferas do geral, provincial e municipal não episódios da cabanada, no Pará, em 1835-40, com os assassínios
eram perfeitamente delimitadas, de modo a criar um sern-número de presidente da Província e comandantes de armas, índios e
de questões de difícil encaminhamento. Demais, era ilusório atri- mestiços a j u d a m os esforços de chefes caboclos que não se en-
buir às Províncias certas possibilidades sem os recursos indis- tendem c acabam por favorecer a acào repressiva. Houve milha-
pensáveis. Como chegar à desejada descentralização — ideal fe- res de vítimas, em l u l a s na selva e nos rios. Mais que a recusa de
deralísta — quando os presidentes de Província continuavam de presidentes nomeados pelo Rio Je Janeiro, conlavam as reivin-
livre nomeação do Imperador, atendendo às diretrizes do dia? dicações de terras pelo povo, engajado profundamente na luta.

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A fragilidade de leis ainda não provadas, como o Código do Ë enorme o significado desses acontecimentos. Cela primeira
Processo Criminal e o Ato Adicional, a débil autoridade insti- vez o povo, em suas camadas mais .simples, eia protagonista do
tuída, kido favorece a eclosão de protestas, rccruladores da processo histórico. F.vidcncia-sc o fato ale nos nomes plebeus:
imensa marginalidade sempre disponível. Daí o caráter excessi- cabanos, balaios, farrapos. O compurlamenlo primitivo, quase
vanienle cruenlo das lulas. bárbaro, o caráler cruenlo de tais manifestações assustava o po-
Logo é a vez do Maranhão, levantado entre 1838 e 41. Os cons- lítico das cidades, ale então alaslado de convívio do género. A
tantes atritos partidários de governo e oposição acirram os ódios falta dc compreensão é traduzida em lançar a culpa sobre esses
c o inierior explode. A frente colocam-se Figuras populares, como homens, como se eles não fossem as1 vítimas. Os políticos não
bc vê pêlos seus nomes: o mais famoso c Manuel Francisco dos queriam ou não podiam reconhecer :t injustiça do processo so-
Anjos Ferreira, o Balaio —- daí balaiada para o conjunto. O cial e pensavam que tais comportamentos eram provocados pela
governo cuidou da repressão armada, bastante eficiente, mas ambição, pelo desejo de vingança de grupos rudes, aproveitando
com dificuldades. Vence, afinal, com a participação decisiva do de certa frouxidão da autoridade, não só por causa da Regência
coronel Luís Alvos de Lima. C) choque ultrapassa a era regen- como pelas leis que tanto haviam dado ao povo. F'rã preciso
cial, chega ao Segundo Reinado, em 1841. refazer o quadro anterior, com toda a violência dc legislação que
A Bahia também foi cenário de atritos, com a fumosa sabtna- nada cunccdía de liberdade, firmando-^e antes por armar de
da. de 18Ï7-78. Dïiïüiu-n o medico Francisco Sabino, preten- modo completo e forte o braço do governo. Urgia reformar as
dendo criar a República Baiense, desligada do regente, provisó- leis que lamo lia1, iam concedido, a fim de "paiar o carro revolu-
ria, ale o exercício de 1). Cedro II no trono. Os rebeldes toma- cionário", como di/ia Bernardo Ccreira dc Vavoncelos. um dos
lani a cidade 'Jc Salvador, mas a reacão veio dos arredores, cora arautos da ordem e dc profunda coerência c consciência conser-
o governo oficial mais organbado. Facilitou a ação de Sabino vadora.
o grande número de elementos sempre disponíveis para as revo- O regente l eiju se desgastara c não era homem de conciliação.
luções na liahia. principalmente os negros íslami/ados, Ião signi- Preferiu largar o posto a ceder. Fm ••elembro de Iisï7 chama
fijaltvüs cm sua população. Pedro de Araújo Lima para ministro, a q;k:m cabe cxctxer a
O episódio mais importante da regência foi o mais longo, indo autoridade, provisoriamcnle. Feijó renuncia ;>o po-to. Feita elei-
de 18">T a 4 ^ , e conhecido como revolução farroupilha ou guerra ção, em abril de 38, o minisUo é e-colhido para o cargo. Com
dos farrapos. Dos proleslcs comuns aos outros movimentos, aca- Araújo l,ima os moderados conservadores i-easMiman a sif.iaçáo.
bou adquirindo feições peculiares. A posição fronteiriça do Rio No plano político ob^crva-se a definição dos, narüdus, feita agora.
Grande do Sul cm muito o explica. Ocupou terras e forcas da Atiles h a v i a facções, grupos, não parlido,-.. No princípio da Re-
1'rovíncia do exlremo-snl e Santa Catarina. Havia na área muito gência havia as facções dos extremados radicais c restaura-
mais presença militar. Da recusa de ffovernos nomeados pelo dores (espécie de esquerda e direita) c moderados. Com a morte
centro, os farroupilha:) chegam a outras reivindicações, como de D. Cedro I cm Cortugal. cm Iííï4, desaparecia o motivo de
proteção a seus produtos — notadamcnte a carne —, disputando ser dos restauradores. F'lês passam a formar com os moderados.
o mercado nacional com os provenientes do Prata — Uruguai e O Ato Adicional foi o último capítulo realizado pêlos radicais,
Aryenlina, obtidos em melhores condições, Forca armada, vio- embora aí parcialmente vencidos, pois não se consegue, quanto
lência, audácia c mdo mais marca LI luta dos gaúchos. Há fases, aspiravam: era demais para a monarquia, nvús dc acordo com
como u República líio Gnmdense (18^6-^81, a República TU- a República, então ideia frágil para v i t ó r i a . Os moderados o
li;!i'<i, a presidência e o comando de Caxias, até a pacificação em realizaram: como já se notou antes, mais peio temor que pelas
K-'!1'. Foi a mais demorada e a menos marcada pela presença
convicções.
de clcmcnlos humildes, pois congrega praticamente Ioda a so-
Votado o Alo Adicional, os pülílicos ião ainda riais alertados
ciedade do Rio Grande. Legou à história o folclore de nomes de
combatentes e batalhas, dando novas cores à já tão rica fisio- pela gravidade dos episódios em lodo o pai-, pondo em risco a
nomia gaúebii. que conheceu depois outros momentos dignos de unidade nacional e a ordem estabelecida. Cresce então a corrente
nota. conservadora: os moderados passam a contar com os antigos res-

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tauradores e com a prudência de grande número de liberais, an- de 1841. Se o Código era liberal, estabelecia autoridades judi-
tes exaltados e agora temerosos da explosão socínl tradu/ida em ciais com funções policiais, eleitas pelo povo, admitia o habeas
episódios Ião fortes. Pode-se di/cr pois q u e u primeiro partido corpus c o júri, um esquema em que é ampla a participação po-
foi o liberal, logo seguido pelo conservador. No período de pular, a reforma vem a ser uma distorção do sentido da lei de
Araújo Lima fica bem definidu o quadro, com as duas correntes. 18.32. Retira-se do voto o estabelecimento de autoridades, agora
Aparecem no Brasil, como e x i s t i a m na Inglaterra — modelo po- nomeadas pelo ministro da Justiça. As autoridades policiais ad-
lítico conhecido c admirado - — e outros países. Consolidam-se aos quirem prerrogativas judiciais, em inversão da tendência original.
poucos na década seguinte, já sob o governo de D. Pedro Í T . Arma-se poderoso esquema, dos mais simples funcionários aos
Este alcança o poder antes da idade fixada na lei, pelo descon- juizes nomeados pelo ministro da Justiça. A grande figura não
tentamento entre as forças políticas e seus atritos. Como OS é mais o juiz de paz, mas o chefe de polícia. Mais que reforma
conservadores estão no governo, os l i b e r a i s lideram a decretação do Código, dá-se a inversão de suas dirclrizes: naquele, a auto-
da maioridade: o jovem Imperador l c m pouco ma> de quatorzc ridade da justiça tem poderes na polícia, enquanto nesta é o po-
anos e passa a d i r i g i r o país, por uin rnovimcnlo de pressão ir- licial que interfere na justiça. A lei é sábia na tradução do anseio
resistível dos liberais, em um golpe de Estado em que a forca regressïsta, mostrando nos políticos sólida consciência de suas
das opiniões se sobrepõe ã l e i . Vni começar o Segundo Reinado, funções dominadoras.
a fu^c mais longa cia história do Urasil, de face hcm determinada A repressão está mais do que armada. Houve protestos libe-
— de 23 de j u l h o de 1840 a H de novembro de 1889. Contri- rais, chegando-se mesmo à revolução de 1842, verificada em
b u i u para essa relativa paz. aparente amortecimento de l u l a s , o São Paulo e M i n a s . Teve mais profundidade cm Minas que em
bem montado esquema de leis reguladoras que traduzem o sen- São Paulo: nas duas Províncias a causa liberal parecia ter força,
tido conservador do grupo dominante da sociedade. mas foi dominada. Após choques e lulas, com muitas vítimas,
Se a contar de 1831 e x i s t i u a maré libera], a contar cio 38 chega-se à deposição de armas, primeiro em São Paulo, depois
existe a maré reaeionária ou regressista, como se prefere dizer cm Minas. O agente decisivo da ordem militar é mais uma vez
então. O fortalecimento dessa política se faz alravés de algumas Caxias. O protesto não foi nacional, mus local: os liberais de
leis que tanto debate suscitaram, defendidas por moderados e Pernambuco, tão fortes, não o apoiaram; a ideia de ligar a luta
conservadores do p a r t i d o conservador c atacadas pêlos liberais. ã dos farrapos, em pleno processo, não vingou. De fato, as leis
A primeira delas c a lei de interpretação do Ato Adicional, de convinham à ordem estabelecida c foram sustentadas por con-
12 de maio de 1840 (anterior pois à m a i o r i d a d e ) . Se o Alo tinha servadores e liberais quando no poder os dois partidos, no re-
certo acento descentrali^ador, agora, através da sutile/a de in- vezamento constante na política manejada por D. Pedro II.
lerprctacão de palavras, negava-se muito do que antes se obti-
vera. Restringem-^- mais a i n d a as prerrogativas provinciais c
municipais, com o fortalecimento do poder c e n t r a l . Os empregos 3. O Segundo Reinado
públicos e a magisíralura são cerceados de modo a evitar mani- Não vem ao caso relembrar o que foi o Segundo Reinado, o
festações de localismo. Ü sentido ccnlralizador da Constituição período mais longo, de fisionomia bem determinada, da histó-
é valori/ado c fortalecido. ria do Brasil. Quase meio século, enquanto a primeira República
Mais importante é que os responsáveis pela mudança não se teve apenas quarenta anos. Interessa-nos antes fixar quais os
delem, mas fazem outras leis completando o objelivo unitário: momentos de democracia aí nítidos. Sc nos detivermos mais em
deereío de 18 de setembro de 1841 fi\:i a nomeação dos vicc- aspectos do Primeiro Reinado e da Regência é que neles se de-
presidcnlcs das Províncias lambem pelo governo central, sem f i n i a a nacionalidade, em seus aspectos social e político. Quanto
indicarão da Assembleia. Lei de 23 de novembro de 1841 cria ao novo período, serão lembrados apenas alguns episódios que
um Conselho de Estado — na verdade o restabelece, pois a o marcaram de modo decisivo. Como se escreveu, não se cogita
C o n s l i t u i c ã o o consagrara e o Alo Adicional o extinguira. A leí da reconstituïção política da trajetória, mas de um de seus pro-
principal é a de reforma do Código do Processo, de 3 de dezembro blemas fascinantes — a existência ou não de democracia.

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Lembre-se, em primeiro lugar, a enorme bibliografia despertada moiro reuniam-se os votantes, que escolhiam os eleitores. li estes
pela fase,- a historiografia nativa, nem sempre opulenta, já se votavam para us postos de senadores, deputados gerais ou pro-
dedicou niuilo ao meio século, quase com exaltação. Ë comum vinciais. O presidente de Província era nomeado. Ora, em país
o u v i r ler sido a mais brilhante de todn a nossa história, ou a de vasto lerrilório, falta de policiamento, legislação frágil, ficava
mais tranquila, o que não significa a ausência total de lutas. d i f í c i l corrigir os males: na eleição prevaleciam as forças locais,
Basta consignar, em seu princípio, em 1842, a revolução liberal desejosas de se sustentarem no poder. Afastava-se o votante in-
em São Paulo e Minas, contra a votação da reforma da lei do desejável, sob qualquer pretexto ou n e n h u m . A apuração era
Código do Processo Criminal, em 1841, e contra a dissolução irregular. O Imperador manifestou constantetnente o desejo de
de uma Câmara liberal em benefício do Partido Conservador, corrigir o defeito, não o conseguindo jamais. Daí algumas tenta-
que assume o poder pouco depois do golpe liberal da maiori- tivas curiosas, como a da lei dos círculos: dividia-se a Província
dade. Ainda na primeira década, em 1848, cm Pernambuco, a em subimidadcs, cabendo a estas a escolha de três representantes
revolução pvaieira, de tanto interesse: mais uma vez levanta-se ou um. F,ra um modo de aproximar o votante do eleito, na supo-
o partido liberal da Província, com suas teses tradicionais contra sição de que o conhecimento pessoa! dos candidatos levaria a
o monopólio do comércio retalhista de Recife, exercido por por- escolha mais exala. Foi um equívoco, pois se a primeira expe-
tugueses. O movimento tem mais interesse que simples revolta riência teve exilo, pela correção do gabinete, já as outras não o
de Parlido, pois teve a pregação de leses radicais sobre a pro- tiveram. Defeito grave de tal eslilo c a escolha de figuras inex-
priedade da icrni, resultado do trabalho de doutrina de naturc?a pressivas, potentados ou glórias locais, inexperientes ou medío-
socialisln. Depois não se assinala mais nenhuma l u l a de cará ter cres no exercício de política mais ampla — caso das célebres
profundo, mas s i m p l e s levantes contra medidas locais ou gerais. notabilidades de aldeia.
O comum é a busca do poder, expressa nos alritos entre os Impunha-se purificar o processo, e tenta-se o resultado com a
Partidos l i b e r a l e conservador. D. Pedro 11 começa com os li- eleição dircla. Para fazé-la chama-se o partido liberal, sustenta-
berais, cm 184(1, para logo no ano seguinte cliamar os conserva- dor da ideia. A fórmula é um processo sutil: a Constituição es-
dores para formação de gabinete. Os liberais vollam de 44 a 48. tabelecia o sistema índireto, de dois graus. Impunba-se pois a
He 48 a 5í é o domínio conservador, q u a n d o se i n i c i a a tentativa reforma constitucional. Como fosse considerada perigosa, fez-se
de Irégua conhecida como conciliação, dirigida pelo marquês assim mesmo a adocão do sistema direlo, através de lei comum.
tio Paraná. Vai até 58, q u a n d o os gabinetes a d q u i r e m de novo f. a chamada lei Saraiva, de 1881. Nela colaborou de modo di-
conotação conservadora. He 48 a 62, é a c h a m a d a Liga Pro- rcto um jovem deputado que iniciava sua carreira política no
grcssihla, sob dirccão liberal. Oue vai até b8. q u a n d o se verifica plano nacional, como representante da Bahia — R u i Barbosa.
a famosa queda do gabinete Zacarias — a mais r e t u m b a n t e do A lei era pormenorizada, aprimorava o sisiema de votação e apu-
Império —, convocados de novo os conservadores. Permanecem ração; estabelecia o título eleiloral — documento importante
a i o 1878, ciim a \ u l l a dos l i b e r a i s , mantidos no poder até 1881). para moralizar o sistema. Se permitia a elegibilidade dos não-
K n ião, retornam os conservadores e se mamem quase quatro católieos e dos libertos, não suprimia a exigência de renda mínima
anos: são subslíluídos. ainda cm 1889, pêlos l i b e r a i s . Com eles para ser votante ou para o exercieio de cargos, alongando-se cm
t e r m i n a a m o n a r q u i a , como com eles começara o governo de determinações confusas. Se ampliava de um lado, restringia por
I ) . Pedro i l . Como se vê, ha' relativo e q u i l í b r i o c n t i e as duas outro, com o afastamento dos analfabetos, vício que se mante-
forças, com ligeiro predomínio dos conservadores. Hm 1870 ria na legislação pêlos anos afora, no Império c na República,
surge o P a n i d o R e p u b l i c a n o , que chega a ler representação na vedando a política a parcela considerável da população do país
C â m a r a a i n d a na monarquia. de poucas letras e mínima assistência à escola. Se a primeira
A a l l e r n J n c i a no poder resulta do desejo i m p e r i a l de corrigir experiência da chamada lei Saraiva deu resultados positivos, já
os erro.-, da.i eleições: o sistema era i m p e r f e i t o , í a / c n d o Câmaras' as outras foram manipuladas pêlos agentes desvirtuadorcs da
u n â n i m e s , em denúncia do falseamento da v o n t a d e popular. A verdade das urnas. A fórmula ideal tropeçava sempre com a
C o i M i t u i ç á o fixava eleições indiretas, ou em dois turnos. Pri- realidade nacional.

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Na alternância do liberais c conservadores exercia-se u Puder de seu governo o pais conheceu rela! i vá m o d c r n i / a ç á o , com a
Moderador; D. 1'edro J l chamava u n s e outros p;ira corrigir as i i i d ú s i ! ia, p i a i k a j ] i n a n c e i r a s ás vc/cs ou-adas, melhoramentos
distorções da prática política. Não o fi/esse e sempre e s t a r i a ã m a t e r i a i s , como ferrovias e telégrafo: em estiada 1 - e comunicações
Fivnte do governo o mesmo elemento, pois ele se perpetuava o país icm pape! de relevo no m u n d o do século X I X , J.m síntese,
pelo d c s v i r t u a m e m o das leis em lavor do grupo dominante. O ,.c o I m p é r i o 11:10 chegou a ser progressista, não é a realidade
que à primeira vista poderia parecer a r b í t r i o pessoal — disso- m u m i í i u i d a de cerlo estereótipo historiografia).
lução de uma Câmara e chamada para d i r i g i r o gabinete de outro O u a n t o a ser uma fase b r i l h a n t e , depende do conceito de
partido que não o m a j o r i t á r i o c n l ã o - - era na verdade um modo b r i l h o . Se se pé n si em a t i v i d a d e p r i o r i t á r i a , lembre-se que o
de corrigir ou a t e n u a r o sistema. Constítucionalmentc o impe- Secundo R e i n a d o deixa a desejar. O d e s e n v o l v i m e n t o da iiis-
rador podia fa/c-lo, li o fe^ com a chamada gangorra, quando írueão pública foi m u i t o pequeno. l'oueo se fez no ensino supe-
a l t e r n a v a no poder as duas corrente"!. rior, no s e c u n d a i io c no pi íniário. Sobretudo a t a i i a do ú l t i m o
Dizer q u e o Segundo R e i n a d o f o i fa^e de progresso é e x p r i m i r e m.ii'- sensível e deve ser d e p l o r a d a . No p l a n o da criação artís-
meia verdade, t) país atravessa seus c i n c o decénios mantendo ü n c a . n,to há d ú v i d a que foi b r i l h a n t e em certo setor; conheceu-se
r i l m o i n d o l e n t e , moroso, liara uma v i h i a ç ã o maior. C) certo, \ asia e rica c r i a t i v i d a d e l i t e r á r i a , com expressai) sobretudo no
porém, é que t r a l o u de melhorar sua e s t r u t u r a , imnondo as for- r i i m a n i i . s i n o ; seus nomes supremos, na corrente indiani^ia, foram
mas lida.s como a v a n ç a d a s . Assim é q u e f e z experiências índus- ( p o n ç a l v c s Dia- e |o.sé de A l e n c a r ; em o u t r a s , A l v a r e s de Azevedo
l i i a l i M a s . de maior ou menor êxito. (Anuo >e d;i na década de c CaMro A l v e s ; a n t e r i o r m e n t e , a ^ i n a l c se o p r i m e i r o u u l o r con-
ei u q ü e n i a e n;is seguinte 1 -, q u a n d o a pi o v e i ia a d i s p o n i b i l i d a d e siderável de t e a t r o no p.iís —- M a r l i n s IVna. As escolas realistas
de c a p i t a i s , r e s u l t a n i c da lei de suprc-^ao do t r á l i c o de escravos, e n a t u r a l i s t a s também íoram presentes, t ê m então seu início, mas
em l^"ïO. para inw-li-lus em i n d u s i i i a s . Ante-., o pequeno capital se d e s e n v o l v e m sobretudo na última década, já na R e p ú b l i c a .
disponível cru a p l i c a d o no ncfõcio de e - c i a v o s e na grande pro- M u s i c a e a r i e s p l á s t i c a s tiveram cultivo, sem apresentarem mar-
priedade a g r á r i a , para p r o d u ç ã o de género e x p o r t á v e l - - - - açúcar, cos como se v c r i l i c a r a na Colónia e se v e r i f i c a r á depois. O Di-
café, algodão, labaco. 1'roibido o I r á f iço, há grandes reservas i c i t u l c \ e e.\pressi)Ca n o t á v e i s . O pensamento l t f o j ó f i e o ou so-
para possível aplicação i n d u s t r i a l . O ( a t o coincide com o surgi- cui!õ:'ico não Foi a u s e n t e , mas t a m b é m não apresenta nome ex-
mento do p r i m e i r o grande empresário n a t i v o — I r i n e u lívange- p o n e n c i a l . A economia cresceu, f i i m a n d o - s e a supremacia da
lisia de Sousa. Visconde de M a u á . [;.\c ú i n d u s t r i a l disperso em lavoura cafecira, a c a m i n h o da superprodução, de tantos proble-
diferentes sciorc-, é h a n q u e i r o nu Brasil c no estrangeiro, é po- mas para os dirigailcí- republicanos. A atividade industrial já
lítico; i n v e s t e cm a l i v i d a d e s de tudo género, transportes, bancos '-e impõe, embora permaneça com r i t m o moroso e eum muito
e serviços publico-.. Fm país de m e n t a l i d a d e lonceira, seu upa- de aile.sanal c m a n u f a t u r e i r u . A era da máquina fica para o sé-
recimenlo tem ali>u ile fenómeno. Sacode a e c o n o m i a , a ponto de e;'ío s e g u i n t e .
a década ser c o n h e c i d a como a "era Mauá". Acahou f a l i n d o , por A p o l í t i c a foi praticada com fórmulas superiores, com a ado-
incompreensão do governo, que não o ampara como podia e cão de sistema que se poderia chamar de p a r l a m e n t a r i s m o , so-
q u a n d o d e v i a . N a l u r a l , pois o empresário era demais para o seu bretudo com .1 f i g u r a do presidente do Conselho de ministros,
meio, l i m i t a d o e miúdo. ...nada cm líï-17. Os debates são feitos em alto n í v e l , com sena-
Decerto, o lïnisil é sacudido por novos investimentos, por uma dores c depuiados de extraordinário preparo para a vida públi-
política t a r i f á r i a às ve/es protccionisla —- sempre f l u u i o u a le- ca. Podcr-s-e ia fazer a citação de dezenas de nomes de grandes
gislação a respeito — , por compreensão elástica da doutrina li- oradores, que falavam com impacto c justeza, conhecedores da
h c r a l , predomitiimte no século. A imagem de IX Pedro I! como realidade nacional e do que havia de mais avançado no mundo.
homem limitado, com apepo á literatura e falsa visão da reali- locam inúmeros os estadistas do império, para lembrar o título
dade, pode merecer icparos. como se vê em a l i v i d n d e s de amparo do livro de J o a q u i m Nabueo. O pnblícismo de natureza política
e i n e e n l i v o a experiência 1 ; novas e em passagens de seu diário, üianiíciiy-se nas Câmaras e no Senado, em livros e na imprensa.
reveladoras do entendimento dos problemas do l-suido. No fim Muito do que se faz peca por uma alienação do rea!, coro o

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a fórmulas e sistemas importados dos grandes centros, sem e popular; nesse sentido, é mais notável que o movimento da
a indispensável filtragem e crítica, como acentuam principal- indcpcndOncia, menos popular c menos nacional. Cresce cie vulto
mente os estudiosos dessa produção já em nosso século. a participação do lixército. Não é possível mais conter a pro-
Deve-se acompanhar essa atïvidadc política sobretudo no de- posta: ela cresce, avassaladora, domina o povo. t imposição na-
bate e encaminhamento dos grandes problemas vividos. O prin- cional, em parte atingida com a lei de I'5 de maio de 1888. A
cípal. evidente mente, É a escravidão. Vinda do sículu XVI, esta- dala c fundamental, pois f i x a m u d a n ç a no sistema de trabalho.
bcleceu-se mais no centro-sul c no nordeste, crescendo no sete- Para ela c o n t r i b u i u a sociedade no seu lodo. Destai.|ue-se como
centos, com as minas. Com a independência, começa a pressão primeiro fator, no caso, a acão do próprio negro. Sua liberdade
inglesa pelo fim do estatuto, a começar pelo tráfico. R m vários não foi dádiva do governo, mas sobretudo uma conquista pelo
Tmtados com o Brasil, como antes com Portugal, a Inglaterra .sacrifício c coragem. Sua l u t a contra a violência a que era sub-
insiste na iddie; os governos se comprometem, embora certos metido começou já no século X V I , a t i n g i n d o forte expressão no
da inviabilidade de solução imediata. A contar da quinta década, seguinte, com o mais famoso dos quilombos — o de Palmares,
entretanto, o caso fie» mais difícil, sobretudo com a determina- primeiro instante a t i r m a d o r da liberdade do homem no Brasil.
ção inglesa do M/ /tbcn/er». de 184% f i x a n d o o apresamento de Durou quase todo o século e foi exemplo para dc/enas de outros
todos os navios, não importa de qual nacionalidade, contendo levantes o organi/accn:-; no setecentos c no oiloccntos, em vários
carga escrava, ri a agonia do tráfico, que cresce no período, pela pontos do território. Só agora a historiografia passa a interessar-
certeza tio fim próximo. O debate d áspero no Parlamento, li- se v e r d a d e i r a m e n t e por esse aspecto, q u a n d o tem em conta não
berais c conservadores acusando-se de deslealdade e submissão só a perspectiva do dominador, mas também a do dominado: o
a ditames estrangeiros. A f i n a l , cm 1850 í aprovada a lei. conhe- negro deixa de ser c u r i o s i d a d e ou exotismo para ser protagonista.
cida como Euzébío de Oucirús. Mais algumas reduzidas entra- Uberlrim-se em 1888 quase 800.000 escravos. Minas tem cerca
das se verificam ate" 1855 e interrompe-se o movimento. de 250.000. Abolição sem indcni/ação, a t i n g e muitos proprie-
Vai intensificar-se o comércio intcrprovincial de cativos, com a tários e sobretudo a Província do Rio de Janeiro; imprevidentes,
venda nas Províncias do centro, em prosperidade, com o declínio não se adiantaram, com o estabelecimento do trabalho livre, atra-
do nordeste. Ê forte o impacto na economia, não só pela certeza vés de imigrantes e colónias. A economia impunha a lei, com a
do fim do sistema como pela liberação do capital aí investido, adoção de forma superior de produ7Ír. O labor assalariado é a
que se volta ptira outras oportunidades, sobretudo na indústria. norma. Deve-se recompor a economia nacional, com política
A campanha pela abolição vai intensificar-se. As lutas no Prata. financeira menos tímida, como se verá depois. Ü certo é que a
cm terras uruguaias, argentinas e paraguaias. revelnm mais a abolição não representará a calamidade temida c anunciada.
necessidade de trabalho livre. Tinda a guerra cm 1R70, o movi- Com ela íe resolve o mais premente problema social, político
mento cresce. A f i n a l , só Brasil c Cuba mantém J escravidão, ex- c económico do Brasil, dando lugar a outros. Fim do escravismo
tinta nos Falados 1. 'n idos em 186S. depois de violento disputa sem indcnização vai fa/er o ressentimento dos senhores, que se
entre o norte e o sul. que marcaria fundo o destino do país. afastam do trono. Morreu a forma de trabalho, mas não acabou
Tornai:;, discursos, comícios tratam do problema: laz-se a pres- o l a t i f ú n d i o . A reforma agrária devia complementar aquela me-
são de todas as forças, inclusive do estrangeiro, de associações dida. A massa de negros, arruinada, sem lerra e sem serviço,
filantrópicas, pedidos de escritores e estadi&tas. A Coroa admite vem para as cidades e será a base do proletariado, marcando
a ideia, pede seu encaminhamento. Em 1871 é feita a lei que negativamente a formação do trabalhador, por sua falta de pre-
liberta o f i l h o de escrava — o ventre livre. Algumas Províncias, paro para ativídades urbanas e pelo total abandono em que se
de menor contingente negro, fazem logo a abolição. Depois é a encontra. A emancipação real do negro ainda não se completara.
lei dos sexagenários, concedendo alforria nos mnis \elhos de Também aciona publicistas, povo e responsáveis pelo país a
65 anos, causa do federalismo. Contra a unidade centralista imposta pela
Diferentes segmentos da sociedade empenh»m-se na campanha. Constituição, prega-se autonomia para as parles, a fim de acabar
O abolicionismo foi o primeiro instante de consciência nacional com o hipertrofia do centro e a debilidade do reslo. A ideia es-

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gens económicas que a configuraram como classe inovadora e
tava nos conspiradores mineiros de 1789, está cm a l g u n s exalta-
ascendente. A ideia do liberalismo era de um Estado interferindo
dos q u a n d o da organi/aeão n a c i o n a l depois d,' 1822, v e n c i d o s
o menos possível, de modo que do livre jogo dos interesses se
cníao. Acenma-^e na maré l i b e r a l , com a abdicação c a K,' ; ;cncia,
impusesse o melhor; partia-se da ideia de ser o bem comum a
como se da tio Código do l'rocc-.-o C r i m i n a l de 1 K Ï 2 c sobre-
soma dos interesses dos indivíduos. Individualismo, utilitarismo,
tudo no Alo A d i c i o n a l de 1KÏ4. Conheço a p l e n i t u d e em a l g u n s
liberdade de ação, enriquecimento eram as formas e os objetivos
movimentos libertários então verificados — como na Sabinada
consagrados. A classe média e os trabalhadores começam a orga-
e na guerra dos farrapo 1 -, federaliMa-. c não s e p a r a t i s t a s - -, de
nização para a defesa de suas causas, que só se impõem ao longo
modo a provocar a reação nas leis r e f o r m a d o r a do p r i n c i p i o dos
do século e do seguinte. Na época chamada liberal o pleno exer-
anu.s quarenta, quando se arma a e s t r u t u r a u n i i á n a f é r r e a que cício dos direitos políticos está restrito a minorias às vezes insig-
em parte explica a relativa estabilidade do Sc;:undu R e i n a d o . nificantes.
A pregação de reforma, com a c n l i c a an c e n t r a l i s m o político e
Tendo-se à vïsia esse quadro geral do mundo, pode-se falar em
sobretudo ao c e n t r a l i s m o a d m i n i s t r a t i v o c c o n s l a n i e . como se vê
em discursos c proietos de lei na Câmara c no Senado. F.la vai
democracia no Brasil, pela existência aqui de uma estrutura po-
ser o f u n d a m e n t o da c a m p a n h a r e p u b l i c a n a , \ i - i a ri"iio impos-
lítica regulada cm leis e em funcionamento decorrente de um
sível na monarquia. O ú l t i m o g a b i n e t e -- o do visconde de Ouro
sistema administrativo organizado. O povo é ouvido cm mani-
Preto • t e n t o u a reforma, não o conseguindo. Será o lema do
festações eleitorais, origem de seus representantes. Ë certo que
a maior parte da população é excluída. Sem levar em conta o
n o v u reginie i n s t a u r a d o em 1881)
escravo — cerca de um terço do lotai —, já se afasta número
Fm síntese, o primeiro m o m e n t o da t r a j e l ó r i a b r a s i l e i r a , de
considerável. Ü fato é tanto mais s i g n i f i c a t i v o ante a lembrança
1822 a i^t. é marcado pela i n d e p e n d ê n c i a e c o i i s l r u c a o da nacio-
de outros impedimentos à participação política, como o critério
n a l i d a d e . Anli;;o anseio p u p u l a r . nem sempre ai l i n d a d o e coe-
de renda mínima para alguém ser votante ou eleitor. Trata-se
r e n t e , ganha corpo entre I H 2 2 c A l . A ú n i c a forca social consis-
pois de seleção no quadro social apenas dos homens de certa
tente era c o n s t i t u í d a pelo <>ovcrno do p r í n c i p e l ) . 1'cdro c sua riqueza.
corto no K i o de J a n e i r o , bancada nos dom"- de icrras e c 1 cravos.
O r g a n i / a r a m o poder à sua i m a g e m , l l a v i a utrta i n c i p i e n t e bur- Demais, o complexo u n i t á r i o da política fonalecia o centro em
guesia n a c i o n a l interessada na e m a n c i p a ç ã o . u > o p l i ' d a pelo go- prejuízo das outras unidades formadoras do país. A Província
era pouco considerada C menos ainda os municípios, que só me-
verno, pêlos interesses comuns. I'.la ia e - i a ^ i na c ú p i d a , ainda
receram algum favor no Código do Processo Criminal de 1832,
i ] no não fosse ' c i c i e i m í n a n l e . pois de v ia ' u b í n c l c r se ao grupo
m e r c a n t i l p o r l i i - u ê s . No no\ o 1 ' M a d o . o c l c i > i e i i i o n a t i v o iria logo abafados cm 1841. Na verdade não havia tradição de vida
crescer c afirmar-se, a l e a imposição dos b r a s i l e i r o s , qn L - e i i l m i n a pública, pois o regime português foi rigoroso c vigoroso. Com
com a abdicação do I m p e r a d o r em 18"ï1 C o n f u n d e - s c então por-
o reconhecimento dos direitos só dos chamados homens bons,
I U ! ' i i ó s tom a b s o l u l i s m u , b i a - i l e i i o com l i b e r a l i s m o R e s í d u o s do excluía-se a totalidade da população. Além cie posses, rcqucria-se
c a p i t a l porlujHics permanecem n u comércio tio-, portos c na v i d a cumprimento de preconceitos esligmalízadores de negros, judeus,
f i n a n c e i r a , ao lonpo da Regência c tio S e y i a i i l n R e i n a d o , só per- seguidores de Mafoma, pequenos comerciantes e a r t i s t a s — gente
fora dos padrões da nobreza, fora da vida p ú b l i c a . A decantada
dendo de \ e / a s i g n i f i e a c ã o na RcpúNk 1 ;:. i;; no progénie século.
experiência democrática do município colonial — Ião frequente
O líra.-il ]nonái-quico e x i ^ r i m e ossc p r n p \ el. 1 d a i ã a- i'oordcnadas.
em ampla bibliografia — tem poucos créditos hoje.
•\ nação a d q u i r e l i s i o n o n i i a , cuiislri' 1 ! a "-ua b . s t u r i a r e l a ï i v a-
Faltava à nova nação a vivência política. Não se podia formar
n i c n i c a u t ó n o m a . Cresce de cerca de 4 : n i l l i o c - do l i a b i t a n l c s 1 ,
um universo militante e menos ainda democrático de um dia
cm I n 2 2 , a 14 iniünVs. em UÏS1-), A r e a l M a d o j i o S i i i c a a ] i r o \ i m a -
para outro. Certo aparato rilualístieo que fala em parlamenta-
sc do r.'odelo demücr:'!lico \ i g c n l c no -cento X I X , inarcaLlo polo
rismo à maneira inglesa não consegue d i s s i m u l a r a realidade de
Mbciaüsmo. O paí-i tem C o n s l i l u i ç ã o c o u ^ i ; : r a d ; ' r a dos direito 1 :
T uma nação de dominados c excluídos da sociedade c i v i l , em be-
ctiião v i g e n t e s , qui; eram o> da burgues-a i r i e cbej a ao poder nefício de pequeno grupo social privilegiado em tudo. Hm turno
polílico com a Revolução francesa, depois de c o n s e g u i r as v a n t a -
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da reivindicação do formalismo liberal movimentava-se o Brasil. civis. E a época do Partido Republicano e da propaganda de
No fim da monarquia já era patente uma ciasse média, nianifes>- nova forma de governo. Os militares não têm apreço pela ordem
tada pela ação da Igreja e do demento m i l i t a r . O amadureci- estabelecida, são elementos- susceptíveis de fácil adesão à ideia
mento económico diversificava os grupus. d e f i n i u posições. Lie de República. Por outro lado, a supressão do escravo implica em
levou à superação do escravismo pelo t r a b a l h o l i v r e , regime as- novas exigências administrativas, como a multiplicação dos meios
salariado. Km torno e\atamente da abolição corpoiiíicou-se um de pagamento para atender ao trabalho assalariado. Fica evidente
estado de consciência a exigir mudança. Depois da independência, a necessidade de descentralização administrativa, tão ligada à
o abolicionismo foi um movimento do qual participou a maioria propaganda federalista, aspiração permanente e nos últimos anos
da nação, O sentido desse m o v i m e n t o é m a i s orgânico, decidido quase vitoriosa, como se vê nas propostas de políticos e até de
e definido que aquele, ü f i m doj anos oitenta é outra fase no- ministros. A soma de todos os descontentamentos garantia a im-
tável da trajetóiia nacional. possibilidade do terceiro reinado.
Crise política igual a muitas outras conhecidas precipitaria os
acontecimentos e a f i n a l a forma de governo é substituída por
A REPLJIU.1CA V L L H A simples golpe de Estado eminentemente militar. Dizer que o
povo não participou é esquecer os mártires de muitos momentos
4. A/«)«f» c Í.TÍ.M' t/íi.s da Colónia c do Império. Se quanto aconteceu cm 15 de novem-
O f i m dos regimes escravista e m o n á r q u i c o não se deu quase bro tem as características de golpe, lembre-se o quadro com suas
ao mesmo tempo por acaso. A m o n a r q u i a se cn f i aquecera com raízes c a falta de consistência da monarquia no Brasil, país em
a perda do apoio da I g r e j a , q u e vem desde os choques entre ela que não existe o culto ou veneração da autoridade, como a
e o governo, \ e r i f i c a d o s na primeira metade da década de se- Coroa supõe e impõe (veja-se o exemplo das monarquias típicas).
tenta. Novo e mais sério a f a s t a m e n t o do trono há com a abolição Demais, o regime era exccção no continente, o mundo americano
como é feila, sem indení/.ação aos senhores pêlos prejtií/os. Sen- marcando-se pela República.
tem-se traídos e atfolam a causa republicana. Outra perda para Com a inovação, há algumas alterações da ordem. Institui-se
a monarquia se da com as desconfianças de parte considerável o sistema federativo — é a República dos Estados Unidos do
do r\ército, pêlos a t r i t o s entre m i l i t a r e s e c i v i s , que começam a Brasil. O modelo político deixa de ser a Inglaterra ou a França
agravar-se na mesma época, em decorrência do t e r m i n o da guer- — a cultura é eminentemente francesa até meados do século
ra do Paraguai e do rq-resso de m i l i t a r e s dos' campos de batalha, atual, quando começa o predomínio dos valores do mundo an-
quando se investem da a t i t u d e de salvadores e campeões da de- glo-saxão — para ser .1 República dos Estados Unidos, fi o que
cência, como é cumuirt no grupo. Fle> reclamam de Falta de aten- se vê, por exemplo, na Constituição que deve reger o novo sis-
ção das a u t o r i d a d e s p ú b l i c a s , nu que não d e i x a m de ter ra7Ões,
tema — a de 1891 —, federalista, mas sem extremos comprome-
pois até o começo da l u l a o Brasil p r a t i c a m e n t e não t i n h a Exér- tedores do velho sentido unitário formador do Império. Curio-
cito: com tropas formadas às1 pressas, t u d o se fez de improviso. samente, o federalismo brasileiro é essencialmente diverso do
Era real o preconceito a n t i m i l i t a r de I"). Pedro I I , como o era norte-americano: enquanto aquela República foi constituída qua-
também o preconceito a n l i c l e r i c a l , duas f o r m a s típicas do século se no fim do século XVII! pelo complexo de colónias inglesas
X I X e que c u s t a r i a m a ser desfeitas. O Imperador achava melhor que renunciam a suas prerrogativas para o estabelecimento de
o soldado ser engenheiro ou construtor de estradas, como o pa-
uma forca aglutinadora central, no Brasil são unidades regidas
d i e ser professor de escola.
pelo centro que conquistam relativa liberdade. Em um, a abdi-
O militar era novo segmento social, de s i g n i f i c a d o e ascendên-
cia crescentes, diverso pela origem e pela formação dos grupos cação de velhos direitos, em outra, a conquista de novos direitos.
dominantes provenientes da economia agrária, constituintes do Aqui não se chegou a nenhuma exaltação federalista próxima do
maior número de políticos aluantes. ü soldado provinha de se- separatismo, pois os vários Estacíos devem moldar-se em suas
torcs sobretudo urbanos. Mas duas u l t i m a s décadas da monarquia leis pela Constituição federal, da qual não divergem em matéria
representa problemas, pelas aspirações em geral diferentes dos básica. Só o Rio Grande do Sul fugiu ã regra, pela forte in-

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lluéncia positivista. O documento de 1891 leve existência longa, leiias ainda pelo governo provisório. Na pasta da Fa/enda, Rui
até 1930: sofreu apenas uma revisão — a de 1926. Barbosa lorna decisões indispensáveis, como a manutenção am-
pliada da política financeira do Visconde de Ouro Prelo —
Tal como a do Império, traduzia os i TI t c ré s se s- do grupo domi-
último ociipanle da pasta no Império —, com d piãtíea cie emis-
nante. Nau podia deixar de ser assim, se o regime resultara em
sões multiplicadoras do meio circulante para atender ás necessi-
parle da dissidência naquele grupo de fazendeiros nâo-escra-
dades de pagamento. Aclota também uma política protecionista
vistas, mas latifundiários e inimigos de qualquer reforma refe-
audaciosa, quando se pensa em estabelecer indústrias. Ë outro
rente à terra. Concedia-se a abolição, mas não o fira da proprie-
momento que parece marcar o impulso industrial, com a criação
dade imóvel. Muda-se bastante a ordem, de modo que merece
de dc/eiías de unidades de todo tipo, em diferentes pontos do
reparos a ideia da sobrevivência do essencial: sobreviveu quanto
país, com o predomínio do Rio de Janeiro. Ë fase curiosa, rica de
à posse da terra c todas as suas profundas implicações, mas o
ensinamentos pehi experiência arrojada. Conhecida com o nome
trabalho agora é assalariado, não existe mais a alivtdade nao-
de cuciíhawcino — de caráier pejorativo, lembrança da jogatina
paga — embora subsistam as formas de espoliação do homem
da bolsa, como se Sn/, em regra nas corridas de cavalo —, foi
do campo ao longo de todas as primeiras décadas da República.
iim anúncio que não se confirmou, pois a maior parte das inicia-
O governo e a administração tem o u t i a e s t r u t u r a , embora a dis-
t i v a s não unha nenhuma base ou propósito sério, não passando
torção do ideal republicano lenha comprometido o esquema, como
Je expedientes especulativos. Sem a sistemática de política ma-
se \crá adiante. dura e c o n t i n u a d a , 'ião podia dar frutos.
Demais, ha fases bem marcadas na írajetória: a.-sirn c que se A e;i:la duração tio primeiro ministério da Fazenda — qua-
pode fíilar em peio menos três — - 1) a política d