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EXCELENTÍSSIMO (A) SENHOR (A) JUIZ (A) DE DIREITO DAVARA

DA FAZENDA PÚBLICA MUNICIPAL, COMARCA DE GOIÂNIA-GO.

O MINISTÉRIO PUBLICO DO ESTADO DE GOIÁS, por seu Órgão de Execução,


com sede na Av. Fued Rassi, Esq. C/ Av. B, Qd 6, Lt. 15/24, salta T-36, Ala B,
Jardim Goiás, nesta Capital, na qualidade de substituto processual de THAWANY
GUEDES CONSTANTE, brasileira, recém nascida (2 dias), neste ato
representada por seus genitores Denis Constante Pereira e Maria Guedes de
Carvalho, residente e domiciliada na rua Av. Henrique Fontes, Qd. 21, Lt. 7, Vila
Maria Dilce, vem perante Vossa Excelência, com fulcro nos artigos n° 796 e
seguintes do Código de Processo Civil, propor a presente

AÇÃO CAUTELAR INOMINADA COM PEDIDO LIMINAR


Em desfavor do Secretário Municipal de Saúde, Dr. PAULO RASSI, gestor
legal/constitucional da pasta, com endereço na av. 5 a Radial, Qd. 216-A, Lt. 5,
Setor Pedro Ludovico, Goiânia-Go, pelas razões de fato e direito que a seguir
expõe:

DOS FATOS

A Substituta nasceu no dia 13/01/2009, na cidade de Goiânia-GO, sendo que de


imediato foi constatado ser portadora grave insuficiência respiratória, tendo
sofrido parada cardíaca e outras complicações. Diante do quadro, o médico
Osmar Gabriel de Oliveira (Hospital do Dom Bosco) indicou o imediato e
URGENTE encaminhamento da criança a um leito de UTI neo-natal. É a única
medida que pode salvar a vida da infante.

Fato é que a recém-nascida foi encaminhada para o Hospital Materno Infantil,


onde vem recebendo os cuidados médicos possíveis, mas insuficientes, no
aguardo de vaga em UTI. Assim, buscou o Ministério Público, via administrativa,
o encaminhamento de THAWANY a um leito de UTI neo-natal conveniado no
município de Goiânia. Contudo, a Secretaria Municipal de Saúde, por meio do
Setor de Controle e Avaliação, informou não haver nenhuma vaga na capital.
Isto, claro, para a grande massa de contribuintes sujeitos ao atendimento pelo
Poder Público. Para os que possuem plano de saúde ou recursos para o
custeio, jamais falta, faltou ou faltará leitos de UTI, qualquer que seja a
especialidade.

Acionado, o perito médico do Ministério Público, Dr. Francisco Albino Rebouças


Júnior, que por via informatizada de monitoramento das vagas existentes em
toda a rede conveniada da Capital, atestou que realmente no momento não
existem vagas disponíveis na rede precariamente tecida pelo Município para
socorro de seus associados/cidadãos. E mais, ficou comprovado que a razão da
ausência é a contratação insuficiente, por parte do Município, dos leitos. Dos 26
leitos de UTI neo-natal catalogados em Goiânia, apenas 17 são contratados
pela Secretaria Municipal de Saúde, o que, comprovadarnente, é insuficiente e
vem causando o óbito de incontáveis crianças recém-nascidas.

Segundo o perito ministerial, diante das constantes denúncias de falta de vagas


de UTI neo-natal e pediátrica no município, é notório que a quantidade de leitos
contratados/habilitados pelo SUS para esta especialidade é insuficiente para
atender a demanda.

Um fato é certo: essa atitude denota total descompromisso por parte dos
gestores, especificamente o gestor mor. Sobre estado de absoluto caos em que
se encontra o sistema de saúde na cidade de Goiânia, é de se indagar acerca
dasuntuosidade com que o nosso alcaide inaugura obras faraónicas, com
vultuosas quantias gastas em foguetórios e shows com duplas sertanejas.

Podemos concluir que chegamos ao status de total sociopatia do Estado,


onde o administrador em eterno culto narcísico/maquiavélico elege como
prioridade as belas formas de reconhecimento externo em obras, fazendo troca
e relegando à insignificância a vida humana.

Repetimos, sociopatia de Estado. E explicamos. Aestrutura burocrático/política


chegou ao cume da insensibilidade: quando se reconhece que a vida humana
perecerá diante da recusa de gasto que poderia impedir a morte, se aceita o
resultado como natural. Eis a nova escala de valores em que se funda o Estado.
Necessário que sejam tomadas todas as medidas para tentativa de salvar a
vida da criança Tawany. Inclusive a imediata contratação de um leito. Se não
possível deve o município providenciar imediato deslocamento da pequena
paciente, em avião apropriado, para centro onde o recurso UTI neo-natal esteja
disponível (outro Estado ou cidade do interior de Goiás). É o mínimo. Que não
se indague de custos, pois que indubitavelmente a vida humana não pode, ou
não deveria ser mensurada em termos de pecúnia. Mas se tal raciocínio for
trazido ao palco de argumentos, basta cotejar: valor do show da dupla acima
mencionados o do transporte ou da compra de leito para salvaguarda de uma
vida Humana.

DO FUMUS BONI I U RIS

No presente caso, não há sequer falar-se em fumaça do bom direito, mas


efetivamente de direito assegurado constitucionalmente. Ante escassez de
tempo, cingir-nos-emos a enumerar, por óbivio, apenas os dispositivos
constitucionais que garantem a todo cidadão brasileiro o direito à saúde e, via
de consequência, a vida:

O artigo 196, da Constituição Brasileira vaticina que:


"A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido
mediante políticas sociais e económicas que visem à redução
do risco de doenças e de outros agravos e ao acesso
"universal igualitário às ações e serviços para a sua
promoção, protecão e recuperação,".

Ainda, no artigo 198, preceitua que:


"As açÒes e serviços de saúde integram uma rede
regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único,
organizado de acordo com as seguintes diretrizes: "I-
descentralização, com direçào única em cada esfera de
governo;".
Por sua vez, a Constituição do Estado de Goiás comanda:
"Artigo 153 - Ao sistema unificado e descentralizado de
saúde .
compete, além de outras atribuições:
"IX - prestar assistência integral nas áreas médica,
odontológica, fonoaudiológica, farmacêutica, de^ enfermagem
e psicológica aos usuários do sistema, garantindo que sejam
realizadas por profissionais habilitados." (grifamos).

Por definição legal é o Senhor Secretário de Saúde do Estado de Goiás o Gestor do SUS
no âmbito dessa esfera de governo. Comanda o artigo 9", da Lei n° 8.080/90:
,
"A direção do Sistema Único de Saúde (SUS) é única, de acordo com o
inciso l, do artigo 198, da Constituição Federal, sendo exercida em cada
esfera de governo pelos seguintes órgãos: "II- No âmbito dos Estados e
do Distrito Federai, pela respectiva Secretaria de Saúde ou órgão
equivalente".

O Tribunal de Justiça do Estado de Goiás possui mesmo


entendimento, nos termos seguintes:
DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO. MANDADO DE SEGURANÇA.
FORNECIMENTO DE EXAMES. liWlaliMT.IOUTDO E CERTO. A
HEBHHE UM BHHiJKlNr)RRRC)OAVEL DO CIDADÃO, PREVISTO
NO ART. 196 DA LEI MAGNA, COM ESPECTAL ATENÇÃO AO IDOSO,
A CRIANÇA E AO ADOLESCENTE, SENDO INDISPONÍVEL. POR
TRADUZIR-SE EM PRESSUPOSTO ESSENCIAL A VIDA. A OMISSÃO
DO PODER PUBLICO EM DISPONTBILIZAR A REALIZAÇÃO DE
EXAMES A PESSOA ENFERMA E CARENTE CONSTITUI OFENSA A
IBiBmJLTOUTDO E CERTO. REMESSA CONHECIDA E 1MPROV1DA
(200803488429 , DÊS. ABRAO RODRIGUES FARIA, DJ 236 de
15/12/2008).
DO PER1CULUM IN MORA

Como se percebe claro, a recém-nascida cncontra-se em estado grave (insuficiência


respiratória) e necessita ser encaminhada, em regime de URGÊNCJ A, à UTI neo-natal
em um dos hospitais da capital. Vagas existem. Apenas não estão disponibilizadas ou
contratadas pelo Município, que tem outras prioridades de aplicação de recursos
públicos. Diante da primazia do Direito à vida sob qualquer outro argumento que poderia
ser oferecido pelo Poder Público, deve ser providenciado atendimento à recém-nascida
em qualquer unidade da Federação, onde haja recursos, inclusive assim reza a Portaria
n11 055/99 do Ministério da Saúde: quando um Estado não possui condições de atender
determinado procedimento médico deve confessá-lo e fazer uso do instituto do
tratamento fora do domicilio, inclusive com custo pago pelo Governo Federal.

No caso sob análise o Município de Goiânia diz ter estrutura suficiente para atendimento
da demanda. No entanto, como é de conhecimento geral, sempre há a ausência de vaga
cm UTTs, ao custo de muitas vidas de bebés oriundos de famílias sem recursos
financeiros, excluídos do glorioso contrato social. Em face da situação colocada restam
somente 2 (duas) alternativas para tentar salvar a vida de THAWANY GUEDES
CONSTANTE: disponihilizar vaga na UTI pediátrica em Hospital da Capital ou custear
deslocamento im diato da paciente, via aérea, se for o recomendável, para centro médico
mais avançado, como por exemplo São Paulo.

DO PEDIDO
Ante o exposto, requer a Vossa Excelência o DEFERIMENTO de liminar maldita altera pars,
determinando:

Ao Secretario Municipal de Saúde alternativamente:


) a imediata colocação da recém-nascida THAWANY GUEDES CONSTANTE em UT1 neo-
natal em leito na cidade de Goiânia, onde deverá se submeter aos procedimentos médicos
específicos ao caso;
b) Caso seja constatada a absoluta ausência de vaga em UT1 neo-natal, seja determinado ao
Secretário Municipal de Saúde o envio da paciente, imediatamente, a um dos Estados Federados
onde haja recurso para tentativa de salvamento da vida da criança ou mesmo em cidade do
interior do Estado de Goiás onde haja leito disponível. O translado deve ser via área e com nave
dotada de recursos específicos.
A citação do Gestor constitucional da Saúde, Dr. Paulo Rassi, Secretário Municipal de Saúde
para responder aos termos da presente ação.
No prazo legal será proposta açào cominatória com obrigação de fazer.
Pelo Deferimento.
Goiânia, 14 de janeiro de 2009.
MARCUS ANTÓNIO FERREIRA ALVES
Promotor de Justiça
Defesa do Cidadão