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O Fabuloso Livro Verde

Tradução:

Marcela Saint Martin


Raul Martins Lima
Veríssimo Anagnostopoulos
O Fabuloso Livro Verde, Andrew Lang
© Editora Concreta, 2018

Título original: The Green Fairy Book

Os direitos desta edição pertencem à


Editora Concreta
Rua Dr. Vale, 24, conj. 402 – Bairro Floresta – CEP: 90560-010
Porto Alegre – RS – e-mail: contato@editoraconcreta.com.br

Editor:
Renan Martins dos Santos
Tradutores:
Marcela Saint Martin
Raul Martins Lima
Veríssimo Anagnostopoulos
Revisão:
Gabriel Ceroni Lied
Ilustrações:
Carolina Pontes
Capa & Editoração:
Hugo de Santa Cruz

Ficha Catalográfica
Lang, Andrew, 1844-1912
L2691o O Fabuloso Livro Verde [edição eletrônica] / edição de Renan Santos.
– Porto Alegre, RS: Concreta, 2018.
– 432p. : col. il. ; 16 x 23cm

ISBN 978-85-68962-32-9

1. Literatura infantil. 2. Contos de fadas. 3. Folclore. 4. Coletânea. I. Título.

CDD-808.899282

Reservados todos os direitos desta obra. Proibida toda e qualquer


reprodução desta edição por qualquer meio ou forma, seja ela eletrônica
ou mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer meio.

www.editoraconcreta.com.br
Q uem acompanha os dados referentes ao sistema educacional bra-
sileiro tem visto, ano após ano, uma nítida e acentuada deca-
dência. Pesquisas recentes indicam que estamos na penúltima
posição entre os 36 países investigados pela OCDE para o ranking in-
ternacional de educação. Agravando ainda mais o quadro nacional, me-
tade dos nossos universitários são analfabetos funcionais. As trágicas re-
percussões disso fazem-se sentir de muitas formas em toda a sociedade.
Enquanto os governantes repetem infinitamente as soluções de sem-
pre à situação, seja propondo aumento da carga horária de aulas, aumen-
to do número de anos de frequência obrigatória, melhor remuneração
aos professores, (a clássica) “mais investimentos em educação”, ou ainda
uma combinação de todas as opções anteriores, pouco ou nada revelan-
do, contudo, sobre o que de fato têm em mente ao falar em educação,
acredito que grande parte da solução do problema passa por uma distin-
ção entre educação e escolarização.
Em termos gerais, pode-se dizer que a primeira envolve a totalidade
do sujeito, conduzindo-o de maneira autoconsciente para além de si
mesmo em direção aos outros, ao mundo e à realidade; já a segunda diz
respeito basicamente a um conjunto de habilidades que têm por objetivo
a preparação da pessoa para o mundo do trabalho. Assim, compreen-
der que educação e escolarização são coisas diferentes, sendo a primeira
muito mais ampla, profunda e podendo ou não abarcar a segunda, gera
então a pergunta sobre quem seriam os responsáveis por este processo
que extrapola em muito o âmbito da escola.
A resposta contempla duas possibilidades: em se tratando de indi-
víduos adultos, eles próprios são os responsáveis pela promoção de seu
crescimento; por outro lado, no entanto, em se tratando de crianças, os
pais são os responsáveis por conduzi-las neste caminho para além de
si mesmas, ampliando seus horizontes e possibilitando sua inserção no
mundo de modo muito mais pleno. E é pensando nelas, nas crianças,
que o selo Homebooks vem a público.
Ao contrário do que afirmam os especialistas, acredito que os pais
têm condições de educar seus filhos, adotando ou não, paralelamente,
o apoio da escola. Baseada nessa convicção, confirmada pela realidade
de um incontável número de famílias brasileiras que praticam o homes-
chooling, o selo Homebooks pretende oferecer aos leitores conteúdos de
qualidade que contribuam para a restauração do protagonismo familiar
na educação dos filhos. Para isso, estão entre os alvos contos de fadas em
suas versões originais, manuais de homeschooling, apostilas de diferentes
disciplinas e muito mais.
Espero que esta iniciativa, empreendida por uma simples dona de
casa e mãe homeschooler, e acolhida tão calorosamente por um jovem
e entusiasmado editor, encoraje você, leitor, a não esperar pelas velhas
“soluções” governamentais, mas a assumir o seu quinhão de responsa-
bilidade pela conquista de uma formação melhor para suas crianças e,
consequentemente, de um futuro melhor para o nosso país. Quiçá a
longo prazo consigamos auxiliar na reversão do triste cenário atual.

Com um abraço,

Camila Abadie
Fundadora do selo Homebooks
Agradecimentos aos colaboradores

Através de campanha de pré-venda no website da Concreta, 450 pessoas fi-


zeram sua parte para que este livro se tornasse realidade. A seguir, a lista com
seus nomes:

Adalcindo Elias Martins Leal Alice Cavalli Viscardi


Adaylson Wagner S. de Vasconcelos Alice Fockink Mendes
Adriana Alves da Silva Alice Henriques
Adriana Lima da C. Vargens Nunes Aline Schneider
Adriano Dal Molin de Oliveira Aline Zamboni
Adrielle Tomaz Tonin Alita Medeiros de Lima
Adrievelly Catana Freitas da Silva Amantino de Moura
Alan Alfim Malanchini Ribeiro Ana Beatriz de Oliveira Sousa
Alex Quintas de Souza Ana Beatriz Valente
Alexandre Luis Soares Pereira Jr. Ana Borba Ferrari Carrati
Alexandre Luiz Rampin Ana Clara Purcina Guimarães
Alexandre Marques Ana Júlia de Alcântara Góes
Alexandre Queiroz de Almeida Ana Luiza Marcelino Oliveira
Alexandre Ventieri Ana Nely Castello Branco Sanches
Anderson Cleiton Sales Rocha Benício Santiago Neiva Viana
Andre Betzler de Oliveira Machado Benjamin Carson V. de Albuquerque
André Carezia Bento Pedrini Menegotto
André Longo Bernardo Minoru Lay Silva
Andre Melo Rios Breno Braz Zanchetta Pinhal
André Miguel Cavalcante Vieira Maia Bianca Thomazine Brocchi
Andre Moreira Brunno Pinto
André Ortlieb Quinto Bruno Diniz Teixeira
André Vinícius V. de Sant Anna Alves Bruno Leal
Andressa Francisca Ribeiro de Souza Bruno Vendramini
Andrey Gómez Kopper Caio Bastos Perozzo
Angélica Jado chagas Camila Zuany Siqueira
Ângelo Augusto Fernandes Barboza Carla Manzzini De Carli
Ângelo Daniel Medeiros de Lima Carlos Alexander de Souza Castro
Anny Kássio Carlos Alexandre de Moraes Leme
Antônia Trevisoli Carlos Calmon
Antônio Carlos Soares Carlos Felipe dos Santos e Silva
Antônio Gomes da Silva Jr. Carlos Roberto Bach
Antonio Jefferson Cavalcante Araújo Cassia Regina Silva
Antonio Jorge De Paula Vicente Cassius Garcia
Antonio Moura Cecília Caprara dos Santos
Antonio Santos de Oliveira Cecília Resende Gouveia
Argemiro Ferreira Cecília Souki Leal D’Carlos Barbosa
Aristela Barcellos de Andrades Celio Antonio Pereira Jr.
Armando Pugliesi do Nascimento César Gianni
Arthur Alves Marcelino César Pacheco
Arthur Belmonte Christian Rocha
Arthur Costa Adriano Cintia Adriane de Aquino Daflon
Artur Andrade Cintia Magalhaes
Augusto César da Silva Campos Filho Clarice Amaral Silva
Aurora Rocha Aydar Clarisier Morais
Bárbara Galvão Claudia Marcia Pompein L. Gomes
Beatriz Fontenele Oliveira Claudia Viana
Beatriz Martins Ribeiro Ferdinandes Claudio Costa
Beatriz Monteiro Tin Cleto Marinho de Carvalho Filho
Clovis Amaral Ednei Consolmagno Jr.
Cristiano Bordoni Silva Edson Flávio de Almeida Pessôa
Cristiano Eulino Eduardo Chaves Bueno
Cristiano Galhardo Cinti Eduardo dos Santos Piva
Cristiano Nunes Laureano Eduardo Fernandes
Cristina Alcântara Eduardo Furtado da Silva
Daiane C. D. Nezzi Eduardo Mecenas Nina
Dallima Um Tseng Elaine Carvalho Lima de Freitas
Daniel Andrighetti Gewehr Elba Valéria da Silva Vieira
Daniel Cirne Torres Eliane Lopes
Daniel Felipe Bonfim da Silveira Elisa Basso
Daniel Mello Elisandra Canabarro
Daniel Pereira Volpato Elisângela Nojoza Aires
Daniel Ribeiro da Silva Elivelton Ribeiro de Brito
Daniela Azevedo Elizabeth de Mello Santos Oliveira
Danielle Mendes Rodrigues Else Mandelli
Daphne Resende Gouveia Emília Lourenço
Davi Bertolino Café dos Santos F. C. Emílio Vagnon Figueiredo Silva
Davi Heckert Bastos Enzo Nicollas Pereira dos Santos
Davi Luigi Zuchi Marchesini Érica Hanke
Davi Moura Erick Robles Lima
Davi Oliveira Calderaro Cunha Estela Lourenço Thé Vanin
Davy Ferreira Leite Sales Ester Andrade Saint Martin
Dayane Cazassa Esther Pedrini Menegotto
Deborah Almeida Lucena Ettore Nicolau Jose da Rocha
Deisiane Cechinel Demessiano Eugenia Beatriz V. Werneck Nunes
Delania Gomes Vieira Eugênio Silva Gomes
Denys Alves dos reis Fabia F. de Albuquerque da Cunha
Denyse Tavares Lopez Fábio Aurélio Bonk
Diego Onetta Fabio Dias
Douglas Pelegati Fábio Salgado de Carvalho
Douglas Zanardi Fabio Seiji Koguti
Drayfine Moura Fabio Silva Ribeiro
Ederson Oliveira Fabricio dos Santos Vieira
Edgar Martins Lírio Fabricio Esmeraldino de Jesus
Felipe Araujo Gracian Li Pereira
Felipe Bello Dias Guiguelhe Arraes Silva
Felipe Gonçalves Assis Guilherme Acurcio Barbosa
Felipe Pina Guilherme Cerqueira K. de Campos
Fernanda Mendes Higuti Guilherme Cerutti Muller
Fernanda Xavier dos Santos Ferreira Guilherme Oliveira
Fernando Gonçalves Gustavo Araujo
Fernando José Ribeiro Gustavo Gianesini
Fernando Pasquini Santos Hapuque Marinho
Fernando Passos Helena Arrias Haswell
Flaurinete do Nascimento O. Torres Helena Petersen Schiffner
Flaviany Marques Martins Mourão Henrique Bolfe Passig
Flávio Sebastião Rocha Macedo Henrique Franklin da Silva
Francine Hehn de Oliveira Humberto Laudari
Francisco Assis Corrêa Jr. Iago da Silva Rios
Francisco Conrado Ferreira Penço Igor Borges de Castro
Francisco Yukio Hayashi Igor de Paula Cardoso
Frank Costa Cavalcante Igor Silveira Santos
Frederico Mendonça Irena Klumb
Gabriel Antonio Macêdo Ferreira Iris Ferreira Leite Chagas da Silva
Gabriel de Paula Isabel Cristina Barbosa Trevisoli
Gabriel Valdino Burkhardt Isabel Souza Mendes Moura
Gabriel Warken Charczuk Isabella Lessa
Gabriela Rigo Rotta Isadora Bonfante Rosalem
Gabriela Soares Arrigoni Ismael Cittadin
Getúlio César Arrais Jacqueline Silva dos Santos
Giovane Goulart Fiorentino Janaína Lopes Oliveira Brito
Gisela Lamarca Janaína Rodrigues Martins
Gisele Santos Jaqueline Santos Lima Almeida
Giselle Marques de Godoi Velasco Jean Carlos Diniz Lopes
Giuliano Sasso Teixeira Jeferson Kuhnen
Glaucia Elisa de Paula Mizuki Jefferson Zorzi Costa
Glaudiney Mendonça Jéssica Orth da Silva
Gleice Marins João Carlos Crestani Jr.
Glicia Siqueira João Coelho Tavares
Joao Diego de Sousa Torres Larissa da Silva Santos
João Furlan Monteiro Larissa de Souza Rabelo
João Gustavo Costa Siscato Larissa Silva
João Lucas Lins Ferreira Leite Laura Amélia Linden Gomes
João Luís Ferreira Batista Leandro Henrique Dessart
João Marcelo Farias Leandro Marchezan
João Miguel dos Santos Adriano Leandro Marcio Teixeira
João Pedro Liberio Alves Leonardo Alves Paulo
João Victor Santos de Moraes Leonardo de Carvalho Rocha
Joaquim José da Silva Moura Leonardo Gabriel da Costa Filho
Joelson Severo dos Santos Azevêdo Leonardo José Ribeiro da Silva
Johann Alves Leonardo Monteiro Carvallo
Jorge Donizetti Pereira Leonardo Souza
Jorge Gabriel Carvalho Pessoa Letícia Bastos de Andrade
Jorge Guilherme Torres de O. Matos Leylane Maia
Jose da Costa Neto Lidiane Foureaux
Jose Eduardo de Mello Barboza Liliane Miilher
José Menezes Lincoln Almeida
José Ribamar Dias Jr. Lívia Formaggio Lara Ratola Azevedo
José Ricardo da Silva Cavalcanti Livia Holanda
Jose Roberto Milevuski Lívia Portela Monteiro
José Ruy Corrêa Jr. Lorenzo Fogliarini Wendt
Josué Tavares do Rego Campina Loriane Comeli
Joubert Carraro Luana dos Santos Oliveira Nunes
Joana Bertolino Café dos Santos F. C. Luana Kim Jardim Picanço
João Pedro Costa Medeiros Bento Lucas Andrighetti Gewehr
Judá Montiel Alves Ferreira Luciana Guimarães Borges Rebello
Juliana Carvalho Ribeiro Luciane Torres Freitas
João Filipe V. Werneck Nunes Luigi Scalco Ulrich
João Gabriel Mensch de B. Almeida Luís Castro
Julio Rodrigues Luís Fernando Rezende Ferreira
Kamila Thabita Alves da Silva Luís Guilherme Bonafé Gaspar Ruas
Karina Bastos Luis Pereira
Laércio Vitorino Luiz Afonso Dias Matos
Lais Diniz Pranzetti Luiz Antônio Alves Marcelino
Luiz Carlos Santos Vieira Matheus Paiva Moscardini
Luiz Felipe Montecinos Maurício Paraboni
Luiz Raphael M. de Menezes Henn Mayara Pereira
Luiz Octavio Cim Pereira Miciara Pinto Serafim Baia
Lysandro Sandoval Miguel Almeida Leme
Manuela Lócio Mallmann Sampaio Miguel Antonio Oliveira de Souza
Marcelo Correia Pereira Miguel Francisco Franzen de Souza
Marcelo Santos Pinto Miguel Freire de Resende
Marcia B. Daldon Miguel Lourenço Thé Vanin
Marcio Pohlmann Miguel Marcelino de Lima
Marco Antônio Oliveira e Silva Mikael Ribeiro Negreiros
Marcos Alcântara Miria Rodrigues
Marcos Aparecido Silva Mislaine Aparecida Santos
Marcos Gomes Morena Maggi de Moraes
Marcos Ribeiro Naira da Silva Faria Landim
Maria Alvarenga Nayara Yone Bueno Yamashita
Maria Calderaro Cunha Nicholas Augusto Gauto
Maria Cecilia Martins Manckel Nicolas Barbieri Beoni
Maria de Lourdes Barbosa Guimarães Nilceia Bianchini
Maria Eugênia Arrais Nilza Russo Ferreira
Maria Isabel Belmonte Nina Joy Meira
Maria Julia Belmonte Olavo Barreto de Souza
Maria Pedrini Menegotto Othavio Backes
Maria Regina Benedita dos Santos Pablo Barboza Cardoso
Mariana Fernandes Baptista Pâmela Arumaa
Mariana Moraes Patrícia A. F. Franco de Lima
Mariana Scarsi Grohs Patrícia De Sousa Cirera
Marina Fonseca Martins Patricia Felix de Almeida
Marina Guimarães Patricia Peterson Santos Vanini
Marina Pessini Patrik Vitório Pinto
Marinaldo Cavalari Paulo Afonso de Mello Correa
Marlan Alves Santana Batista Paula Anjos
Mateus Ceretta Sfredo Paulo Chiaroni
Mateus Cruz Paulo De Tarso Irizaga Pereira
Matheus Knychala Biasi Paulo Henrique Brasil Ribeiro
Paulo José Péret de Sant’ Ana Rodrigo Domingos dos Reis
Paulo Marcelo Moraes Santana Rodrigo Donizete Santana de Pádua
Paulo Oliveira Calderaro Cunha Rodrigo Eidelvein do Canto
Paulo Roberto Magalhães Cristino Rodrigo Erichsen
Pedro Miguel da Silva Costa Rodrigo Lamar
Pedro Paulo Mendonça Bulcão Rodrigo Sevilha
Pedro Pinheiro Antonelli Roger Mendes
Pedro Santos de Moraes Rogério Siqueira Peters
Phellipe Ribeiro Ronald Rafael Lorenzi
Priscila Maranhão Ronaldo Vicente
Priscila Tenório Ronan Okano Gimenes
Quésia Talita Ribeiro Lírio Ronney Lira
Rafael Alves Cursino Roscio Chaves
Rafael Caetano dos Santos Conceição Rubem Seixas
Rafael Plácido Rubens Jardin Nochi Jr.
Rafael Rocha Ferreira Sabrina Gardner
Rafaela Freire Machado Safira Yuko Ohta
Raimundo Felipe de Aguiar Samia Marsili
Raphael Barbosa Justino Feitosa Samuel da Silva Marcondes
Raphael Feitosa Samuel L. Santos
Raul Gonzaga Samuel Tavares do Rego Campina
Reginaldo Amorim Sandro Boschetti
Reginaldo Passero Jr. Sara Calderaro Cunha
Renan Massoto Mendes Sara Rigo Rotta
Renata Fangueiro Saulo Daniel Silva
Renata Gomes Bessa Luz Selma Leite de Souza
Renata Jardim Meneses Sharlie Macente Sirqueira
Renata Passos Martins Sheila Graaff
Renato Cadecaro Sideval Ramos de Paula
Renato Emydio da Silva Jr. Sidicleia dos Santos Jesus
Renato Guimarães Silvio José de Oliveira
Ricardo Felipe Ferreira Rodrigues Sim Oliveira Alves
Ricardo Gasparini Sofia Calderaro Cunha
Ricardo Ribeiro da Costa Sofia Helena Lacombe Cardoso
Rodrigo Domenico Sofia Psiquê da Silva Costa
Sofia Silva Cardoso Vanessa Ribeiro S. Berini Piccolo
Sofis Albrecht Vicente Rigo Niquetti
Solange da Silva Victor Fonseca
Tammy Alcala Chaves Victor Roner Freire Gomes
Tarcisio Moura Victoria Bertolino Café dos Santos O.
Tarsila Meschiari Scotti Vinícius Emanuel Salvador
Tatiana Cristina D’Artibale Vinicius Vicente Martins
Tatiany Fernandes Silva Baptista Virlaine Regina Silva Brito
Télia Oliveira Alves Vitor Hugo Pontes Butrago
Teresa Souki Leal D’Carlos Barbosa Vitor Mendonça Ferreira
Thalles Gabriel Raineri Vitor Montenegro
Thays Costa Dutra Abreu Vivian de Araujo Calliga
Theodoro Mota Colombo Waleska Montenegro de Melo Dantas
Thiago Barbosa de Sousa Wendy Fumis Consolmagno
Thiago Henrique Avelino Cruz Werbson Laurentino
Thiago Junglhaus Werner Spolidoro Freund
Thiara Laranjeira Passos William José Werter
Tiago Assad Yanni Porfírio de Arruda L. de Souza
Tiago Aurich Yuri Bandin Sátiro
Tomás Sakumoto Patote Yuri Gagarin da Ponte Ribeiro
Valdirene Bento Alves Yuri Magadan
Valfrêdo Felinto Cardoso Filho
Sumário

Prefácio à edição brasileira 17


Prefácio à edição original 23

O Pássaro Azul 27
O Meio Pintinho 53
A história do Califa Cegonha 59
O Relógio Encantado 73
Rosanela 79
Silvano e Jocosa 87
Dons de Fada 95
O Príncipe Narciso e a Princesa Potentila 101
O Príncipe Cabeça-de-Vento e a Princesa Celidônia 117
Os Três Porquinhos 133
Coração Gelado 141
O Anel Encantado 171
A Tabaqueira Mágica 181
A Mérula Dourada 187
O Soldadinho 195
O Cisne Mágico 215
A Pastora Suja 221
A Serpente Encantada 227
Os Trambiqueiros Trambicados 237
O Rei Kojata 247
O Príncipe De Lua e a Bela Helena 261
Batraquinha 269
A história de Hok Lee e os Anões 277
A história dos Três Ursos 283
O Príncipe Viviano e a Princesa Plácida 289
A Pequena Um-Olho, a Pequena Dois-Olhos
e a Pequena Três-Olhos 313
Jorinde e Joringel 323
Allerleirauh, ou a Besta de Mil Peles 327
Os Doze Caçadores 335
Fuso, Lançadeira e Agulha 341
O Caixão de Cristal 345
As Três Folhas de Serpente 351
O Enigma 357
João d’Ouriço 363
Os Rapazes de Ouro 371
A Serpente Branca 379
A história do Alfaiate Astuto 385
A Sereia de Ouro 391
A Guerra do Lobo e da Raposa 401
A história do Pescador e sua Esposa 407
Os Três Músicos 417
Os Três Cães 425
Prefácio à edição brasileira

Era uma manhã qualquer de trabalho, ainda bastante tranquila e


silente, há aproximadamente quatro anos. Sentei-me à mesa, liguei o
computador, abri os e-mails entre um gole e outro de café, sem pressa,
e, naquela pequena lista à espera de resposta, encontrei um comentário
a um post escrito recentemente em meu blog Encontrando Alegria,
aguardando moderação. Tratava-se de um texto a respeito de nossa
decisão de não mais utilizarmos televisão em nossa casa. Cliquei para
ler o comentário e deparei-me, então, com um pequeno parágrafo bas-
tante gentil repleto de agradecimentos. O que eu não esperava, contu-
do, era a frase de encerramento, expressa mais ou menos nos seguintes
termos: “eu não sabia que era possível viver sem televisão”. Fui tomada
de perplexidade.
Reli o comentário em busca de algo que me houvesse escapado. Não
havia ironia naquelas poucas linhas. A surpresa do meu interlocutor
era sincera, assim como a minha própria também o era. Sua reação ao
meu texto evidenciava, por um lado, a onipresença da “telinha” nas ca-
sas por ele frequentadas, mas, por outro, demonstrava algo muito mais
dramático: sua reduzida capacidade imaginativa, decorrência direta de
um escopo de vivências bastante limitado. Afinal, qual a amplitude de
um horizonte que ignora o fato de que somente muito recentemente,
há pouquíssimas décadas, a televisão passou a fazer parte da história
humana? Por surpreendente que possa parecer às novas gerações, os
eletrônicos em geral, não só a TV, são exceções em termos de entrete-
nimento e comunicação, não a regra em que a maior parte dos nossos
antepassados viveu.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Mais recentemente, passados alguns anos, lia eu a História de uma


família, sobre os Martin, a família de Santa Teresinha do Menino
Jesus. Em um capítulo bastante avançado da narrativa, já em época
posterior ao falecimento de Santa Zélia e à mudança para Lisieux,
surge a descrição do modo como a família divertia-se: nada de festas
e bailes, nada de grandes ajuntamentos com pessoas desconhecidas,
nada de passeios dispendiosos, nada de exibicionismo e consumismo,
mas somente a discrição dos passeios a pé pelo campo e o deleite junto
aos chamados “serões”, aqueles agradáveis momentos antes de irem
deitar-se, quando liam alguma história em voz alta, cantavam, brinca-
vam. É reveladora a expressão utilizada pelo padre Piat ao resumir as
práticas dos Martin a este respeito: “eles eram auto-suficientes em seus
recreios”. Descobri-me perplexa mais uma vez.
Interrompi a leitura e procurei refletir sobre as razões de minha
perplexidade. Descobri, então, com grande pasmo, que, apesar de já
vivermos em família algo muito parecido ao relatado pelo padre, meu
olhar e minha compreensão estavam ainda muito condicionados pelo
nosso tempo, escapando-me, portanto, as categorias corretas com que
pensar e entender aquilo que vivíamos. Em outras palavras, até aque-
le momento, era-me muito custoso ver que o fato de não estarmos
em busca de elementos externos que animassem nossa vida familiar,
sobretudo nossos singelos divertimentos, não era, absolutamente, um
problema, uma incompletude, uma falha ou omissão. Pelo contrário.
Especificamente sobre esse aspecto, a família Martin mostrou-me que,
quando os pais são generosos no acolhimento dos filhos e, além disso,
conduzem-nos por um caminho de riqueza interior, então não há nada
de errado em que eles “se bastem” na hora da diversão, pois cada um,
com seu temperamento e talentos particulares, consistirá num grande
acréscimo de alegria aos demais.
Mas, afinal de contas, o que tudo isso pode ter a ver com esta pe-
quena esmeralda que Andrew Lang colocou em nossas mãos? Não
é difícil perceber que tudo o que foi dito até aqui faz parte de um
mesmo âmbito de nossas vidas, isto é, aquele espaço destinado aos re-

18
Prefácio à edição brasileira

creios, à diversão, ao entretenimento, âmbito este em que a literatura,


bem como os Fabulosos Livros Coloridos, também podem ser situa-
dos. Mas talvez o que não seja tão fácil perceber, e que as diferentes
situações acima referidas nos mostraram, é o quanto o fato de termos
uma imaginação demasiadamente limitada – pois alguma limitação é
constitutiva – acaba por restringir nosso próprio modo de vida. Como
poderemos refletir e avaliar o modo como vivemos se não consegui-
mos sequer imaginar um modo distinto? E, se não conseguimos nem
ao menos imaginar uma outra maneira de viver e conduzir deter-
minados aspectos de nossas vidas, como poderemos chegar a viver
diferentemente?
Ao investir nosso tempo de lazer na leitura dos contos de fadas,
relembramos uma série de verdades primitivas sobre as quais repousa
a saúde dos povos, verdades tais como o fato de que há uma ordem no
mundo, de que as coisas não acontecem ao acaso, de que tudo tem um
propósito e de que a esperança, quando comprometida com o bem,
é sempre recompensada; verdades, enfim, que nunca caem em desu-
so – embora sempre haja quem se esforce por isso –, verdades que,
em épocas como a nossa, tornam-se imprescindíveis. Além disso, essas
leituras e o tempo a elas dedicado acabam por nos conectar, de algum
modo, àqueles que delas usufruíram antes de nós, às gerações que fo-
ram entretidas e educadas por meio delas, às famílias “auto-suficientes
em seus recreios” que gostavam de ler, conversar e entender aquilo que
liam, famílias, enfim, que viviam seus momentos de diversão verda-
deiramente em família, voltados uns para os outros em busca de um
convívio harmônico e frutuoso.
Que este Fabuloso Livro Verde sirva a você e aos seus como uma
chave mágica, a abrir portas secretas. Contudo, em lugar de conduzi-
-los a um lugar qualquer de fantasia, que ela dê acesso de fato ao cami-
nho percorrido pelas gerações que vieram antes de nós, uma trilha que
já não divisamos mais, pelo excesso de luzes que ofuscam nosso olhar,
mas que está lá, sempre esteve e sempre estará. Precisamos acertar com
ela caso queiramos nos apropriar das heranças que eles nos legaram

19
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

e, principalmente, caso queiramos enxergar mais longe, expandindo


nossos horizontes e, com isso, podendo rever nosso modo de vida, sem
permanecermos mais como reféns inconscientes do agora.

Camila Abadie
Canela, abril de 2018

20
Este Fabuloso Livro Verde é dedicado a
Stella Margaret Alleyne

por Andrew Lang


Prefácio à edição original

Ao amigo leitor,

Este é o terceiro e provavelmente o último* dos Fabulosos Livros de


muitas cores. Primeiro foi o Fabuloso Livro Azul; então, crianças, vocês
pediram mais, e preparamos o Fabuloso Livro Vermelho. E, como vocês
quiseram ainda mais, organizamos o Fabuloso Livro Verde. Tomamos
emprestado de vários países os contos que compõem esses livros – há
histórias francesas, alemãs, russas, italianas, escocesas, inglesas, e até uma
chinesa. Malgrado as insignificantes diferenças entre esses países, todos
têm em comum o gosto por contos de fadas.
A razão, sem dúvida, é que há muito, muito tempo, a mente dos
homens era como a das crianças – e, antes que começassem a produzir
jornais, sermões, romances e longos poemas, eles contavam histórias uns
para os outros. Eles acreditavam que bruxas podiam transformar pes-
soas em animais, que animais podiam falar, que anéis mágicos podiam
tornar invisível quem os possuísse – acreditavam, enfim, em todas essas
maravilhas que se leem nas histórias. À medida que o mundo foi ficando
adulto, os contos de fadas não escritos teriam caído no esquecimento,
não fosse pelas vovós que ainda se lembravam deles e os contavam a seus
netinhos – e quando estes, por sua vez, tornavam-se vovôs, recordavam-
-se dessas histórias e as contavam para seus próprios netos. Esses contos
são, assim, mais antigos que a leitura e a escrita – e muito mais antigos
que a imprensa.

* A previsão pessimista de Lang não se confirmou, e o sucesso dos livros levou-o a publicar
ainda mais nove volumes da série – a serem todos traduzidos pela Concreta. [Nota do Editor]
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Os mais antigos contos de fadas registrados por escrito de que se tem


notícia foram redigidos no Egito, por volta do período em que viveu
José – aproximadamente 3.500 anos atrás. Na Grécia, há quase três mil
anos, Homero conhecia outras histórias de fadas, e com elas compôs um
poema, a Odisseia – o qual espero que vocês leiam um dia. Nele vocês
encontrarão a bruxa que transforma homens em porcos, o homem que
espetou o olho de um gigante tolo, o capacete da escuridão e as sandálias
da agilidade, que mais tarde foram utilizados por Jack, o Matador de
Gigantes.*
Esses contos de fadas são as mais antigas histórias do mundo. Inven-
tados por homens que jamais abandonaram os divertimentos da infân-
cia, eles agradam às crianças e também aos adultos que não se esquece-
ram de que um dia foram pequenos.
Sem dúvida, algumas dessas histórias foram criadas não apenas para
nos divertir, mas para ensinar a virtude. Reparem como, nesses contos,
o menino que trata bem os animais, e que é cortês, generoso e corajoso,
sempre triunfa sobre as adversidades. Certamente pretendia-se que es-
sas histórias inspirassem bondade, generosidade, cortesia e coragem em
quem as ouvisse. Essa é a moral encerrada por essas narrativas. Mas a
verdade é que as lemos mais pela diversão do que pela instrução.
Há quem diga que essas histórias não são boas para as crianças – por-
que não são verdadeiras, porque afinal bruxas não existem, nem animais
que falam, e porque nessas histórias pessoas morrem – especialmente gi-
gantes malvados. Mas o mais certo é que vocês, leitores, sabem diferenciar
muito bem entre a verdade e o faz-de-conta – e jamais ouvi falar de uma
criança que tenha matado um homem prodigiosamente alto só porque
João matou um gigante, ou que tenha destratado sua madrasta (se for o
caso de ter uma madrasta) só porque as madrastas dos contos de fadas são
geralmente más. Se nessas histórias existem monstros assustadores, isso
não é motivo para temer, pois, seja lá o que eles tenham feito há muitos
e muitos anos, a verdade é que já não andam pelo mundo como antes.

* Conto presente no Fabuloso Livro Azul, o primeiro da série.

24
Prefácio à edição original

Foram transformados em pedra, e vocês podem ver nos museus o que


restou deles. Por isso, não receio que vocês fiquem com medo dos magos
e dragões – aliás, eles sempre acabaram se submetendo, ainda que no auge
de sua fúria, a um garoto ou garota de verdadeira coragem.
Alguns dos contos aqui reunidos, como “O Meio Pintinho”, são para
crianças bem pequenas; outros, para crianças maiores. Os contos mais
extensos, como “Coração Gelado”, não foram criados ao mesmo tempo
que os demais; foram escritos em francês, por homens e mulheres de
gênio, como Madame d’Aulnoy e o Conde de Caylus, cerca de 200 anos
atrás. Hoje já não há muitos escritores – se é que ainda existe algum –
capazes de escrever bons contos de fadas, porque eles não acreditam ver-
dadeiramente em suas próprias histórias, e porque pretendem ser mais
espertos do que aos Céus agradaria que fossem.
Deixamos com vocês, por ora, as últimas dessas histórias antigas,
na esperança de que as apreciem e sintam-se agradecidos aos Irmãos
Grimm, que as resgataram dos nossos ancestrais; a M. Sebillot e M.
Charles Perrault, que nos emprestaram alguns contos de seu povo fran-
cês; ao Sr. Ford, que fez as ilustrações;* às Srtas. Blackley, Alma Alleyne,
Eleanor Sellar, May Sellar, Wright e à Sra. Lang, que traduziram muitas
das histórias a partir do francês, do alemão, e de outras línguas.
Se no ano que vem lançarmos um novo livro, não será de contos de
fadas. Qual será a obra é segredo por enquanto, mas esperamos que,
quando o revelarmos, não seja algo sem graça. Por ora, adeus – e, quando
tiverem lido um livro de fadas, emprestem-no a outras crianças que não
possuírem nenhum, ou contem para elas as histórias com suas próprias
palavras, já que esta é uma maneira muito agradável de passar o tempo.

Andrew Lang, 1892

* As belas ilustrações das edições originais foram feitas pelo artista britânico Henry Justice
Ford (1860–1941), e seu estilo serviu de inspiração para os desenhos da presente edição,
elaborados por Carolina Pontes. [N. E.]

25
O Pássaro Azul

ra uma vez um rei imensamente rico, que possuía


grandes extensões de terra e muitos sacos transbor-
dantes de ouro e prata. Nada disso, porém, tinha
para ele a menor importância, pois a rainha, sua es-
posa, havia morrido. Tamanho era o seu pesar, que
se trancava em um pequeno aposento no alto do
castelo e passava os dias martelando a cabeça contra a parede. Os corte-
sãos, temendo que ele se ferisse, forraram as paredes com almofadas de
penas por baixo da tapeçaria, de modo que ele pudesse bater a cabeça à
vontade – se isso lhe trazia algum consolo – sem o risco de se machucar.
Todos os súditos visitavam-no e diziam-lhe tudo que pudesse confortá-
-lo: alguns tinham o ar grave, até sombrio; outros tentavam ser agradá-
veis, até alegres. Mas nenhum conseguia causar a mínima impressão no
rei. Na verdade ele parecia sequer ouvir o que lhe diziam.
Por fim, veio visitá-lo uma senhora envolta em um manto negro, com
uma expressão de profundo pesar, e chorava e soluçava tanto que o rei
não pôde deixar de notá-la. Então a mulher disse que, longe de tentar
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

confortá-lo, ela, que acabara de perder seu querido esposo, tinha vindo
então se unir às suas lágrimas, uma vez que padecia da mesma dor – e
o rei lamentou-se em dobro. Ele começou a relatar à infeliz senhora as
qualidades de sua falecida rainha, ao que ela passou a enumerar todas as
virtudes de seu falecido esposo. O tempo transcorreu de modo tão agra-
dável, que o rei já não tinha vontade de bater a cabeça contra a parede e
a senhora já não enxugava como antes as lágrimas de seus grandes olhos
azuis. Pouco a pouco, começaram a falar sobre outros assuntos que os
interessavam, e não demorou muito para que a notícia do casamento do
rei com a infeliz senhora deixasse todo o reino perplexo.
Ora, o rei tinha uma filha de apenas quinze anos. Chamava-se Flori-
na, e era a mais bela e amável princesa que se possa imaginar, de espírito
sempre alegre e exultante. A nova rainha, que também tinha uma filha,
logo mandou buscá-la para viver no palácio. Troutina – pois esse era
seu nome – vivia com sua madrinha, a Fada Mazila, mas nem todos os
cuidados com a criação da menina foram capazes de fazê-la bonita ou
graciosa. Na verdade, a rainha ficou muito apreensiva quando viu que, ao
lado de Florina, ressaltava-se a feiura e o terrível temperamento de sua
filha. Por isso, passou a fazer de tudo para que o rei se voltasse contra a
sua própria filha e desenvolvesse uma predileção por Troutina.
Certo dia, o rei resolveu que era tempo de Florina e Troutina se
casarem, e decidiu que ofereceria a mão de uma delas ao primeiro prín-
cipe que visitasse a corte, desde que fosse um homem digno. A rainha
respondeu:
— É evidente que minha filha deve ser a primeira a se casar; ela é
mais velha que a vossa, e mil vezes mais formosa!
O rei, que detestava contendas, respondeu:
— Bem, isso não é problema meu, fazei como quiserdes.
Pouco tempo depois, circulou a notícia de que o Rei Formoso – o
mais belo e magnífico príncipe daquela parte do mundo – estava a ca-
minho para visitar o rei. A rainha, ao saber da novidade, encomendou
aos seus ourives, costureiras, tecelões e bordadeiras os mais fabulosos
vestidos e ornamentos para Troutina. Disse ao rei que Florina afinal não

28
O Pássaro Azul

precisava de nenhum acessório novo e, na véspera da chegada do Rei,


subornou sua dama de companhia para que escondesse todos os vestidos
e joias da princesa. Assim, quando chegou o dia e Florina quis se enfei-
tar, não encontrou sequer um laço de fita.
Porém, adivinhando o autor da trapaça, não reclamou: mandou enco-
mendar finos vestidos e acessórios aos mercadores, mas eles lhe disseram
que a rainha expressamente os proibira de fornecer qualquer artefato à
princesa, e que não ousariam lhe desobedecer. Assim, nada lhe restava
para vestir, senão o singelo vestido branco que usara no dia anterior. E
foi com esses trajes que ela se apresentou à chegada do Rei, sentando-se
a um canto, na esperança de passar despercebida.
A rainha recebeu o visitante com todas as honrarias e apresentou-o à
sua filha, cujo esplendor dos trajes apenas ressaltava sua feiura. Ao olhá-
-la de relance, o Rei voltou o rosto para o outro lado; a rainha, contudo,
pensou que era apenas timidez do Rei e fez questão de manter Troutina
bem à vista dele. O Rei então perguntou se havia no palácio outra prin-
cesa, de nome Florina.
— Sim – respondeu Troutina, apontando na direção de Florina. – Ali
está ela, tentando esconder-se, pois não está vestida à altura.
A essas palavras, Florina enrubesceu, e sua aparência tornou-se tão
tímida e amável, que o coração do Rei foi definitivamente arrebatado.
Levantou-se e, inclinando-se diante dela, disse-lhe:
— Senhora, vossa incomparável beleza dispensa ornamentos.
— Senhor – respondeu a princesa –, garanto que não costumo vestir-
-me assim, tão desalinhada e amarrotada. Preferia que o senhor jamais
tivesse me visto.
— Ora, que dizeis? – bradou o Rei Formoso. – Onde quer que se
apresente uma princesa de tão fabulosa beleza, não posso ter olhos para
nada mais.
Neste ponto da conversa, foram abruptamente interrompidos pela
rainha, que disse em tom áspero:
— Garanto-vos, senhor, que Florina já é vaidosa o bastante. Poupai-
-vos de encorajá-la com vossos elogios.

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Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

O Rei entendeu que a rainha não estava nada satisfeita, mas não se
importou, e continuou contemplando Florina conforme mandava o seu
coração – e assim os dois conversaram por três horas seguidas.
Ao ver que o Rei nitidamente preferia a companhia de Florina, a rai-
nha e sua filha desesperaram-se. Foram queixar-se com o rei e implora-
ram sua permissão para que a princesa fosse trancada em algum aposento
do palácio enquanto durasse a visita do Rei Formoso. O rei por fim con-
sentiu, e, naquela noite, quando se dirigia aos seus aposentos, a princesa
foi capturada por quatro capatazes mascarados, que a atiraram no último
aposento de uma alta torre, onde foi abandonada à própria sorte.
Não lhe custou entender que tentavam afastá-la da vista do Rei, a fim
de evitar que ele se enamorasse dela. O problema, entretanto, é que ela já
o estimava, e lhe agradaria muito ser escolhida para sua esposa!
Como o Rei Formoso nada sabia do que sucedera à princesa, con-
tava os minutos para revê-la e perguntava sobre ela aos cortesãos que
o serviam. Porém, seguindo ordens da rainha, estavam todos proibidos
de fazer qualquer elogio à princesa. Os criados, assim, afirmavam que
Florina era vaidosa, volúvel e de mau temperamento; que atormentava
suas criadas e que, apesar de todo o dinheiro que o rei lhe dava, era tão
sovina que, em vez de gastá-lo, preferia andar vestida como se fosse uma
camponesa pobre. Esses relatos deixaram bastante aborrecido o Rei, que
se manteve em silêncio.
— É bem verdade – pensou – que ela estava malvestida, mas pa-
recia tão envergonhada! Só pode ser porque não estava acostumada a
apresentar-se daquela maneira. Não posso acreditar que Florina, com
aquele semblante tão amável, tenha o mau gênio que lhe atribuem. Não,
não. A rainha deve estar com ciúmes por causa de sua filha feia, daí ter
espalhado tanta mentira.
Os cortesãos perceberam que o Rei não gostou do que ouvira e um
deles começou sorrateiramente a aproveitar as ocasiões em que estava
a sós com ele para elogiar Florina. O Rei Formoso ficou tão feliz e
interessado por tudo quanto dizia respeito à princesa, que era evidente
o quanto a admirava. Quando a rainha mandou chamar os cortesãos e

30
O Pássaro Azul

exigiu um relato sobre tudo o que haviam descoberto, suas piores sus-
peitas se confirmaram. Quanto à pobre Florina, só lhe restou passar a
noite aos prantos.
— Ficar trancada nesta pavorosa torre já seria ruim se eu jamais ti-
vesse visto o Rei Formoso – pensava consigo. – Mas, agora que sei que
ele está por perto, é demasiado cruel suportar esta prisão, enquanto to-
dos lá embaixo desfrutam de sua companhia.
No dia seguinte, a rainha enviou ao Rei Formoso magníficas joias
e outros presentes valiosos, incluindo um ornamento encomendando
especialmente para a ocasião do casamento que se aproximava: um co-
ração lavrado de uma pedra inteiriça de rubi, contornado por arcos de
diamantes e cravejado com um brilhante solitário. Na parte superior do
coração, um ornamento de ouro, em forma de nó dos amantes, ostentava
os dizeres: “Apenas um pode ferir-me”, e a peça inteira estava presa por
um colar de enormes pérolas. O mundo jamais vira coisa igual, e o Rei
ficou verdadeiramente impressionado. O pajem que trouxera o presente
pediu que o Rei o aceitasse da parte da princesa, que o escolhera para
seu cavaleiro.
— Como?! – bradou o Rei, indignado. – Acaso a estimada princesa
Florina ousaria cortejar-me?
— Vossa Alteza confunde os nomes – precipitou-se a dizer o pajem.
– Venho em nome da princesa Troutina.
— Ah, é Troutina quem deseja ter a mim por cavaleiro – respondeu,
friamente. – Lamento não poder aceitar essa honra.
O Rei mandou devolver os belos presentes à rainha e sua filha, que
ficaram furiosas com esse tratamento desdenhoso. Na primeira oportu-
nidade, o Rei Formoso foi visitar o rei e a rainha, e, uma vez no salão
do palácio, começou a olhar em volta, à procura de Florina. Seus olhos
voltavam-se ansiosos cada vez que alguém se insinuava no salão, e a rai-
nha percebeu nitidamente sua inquietude e seu ar contrariado. Fingiu,
porém, que nada via, e não fazia outra coisa senão falar sobre todos os
divertimentos que estava planejando. O príncipe respondia ao acaso, e
logo perguntou se não teria o prazer de ver a princesa Florina.

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Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Senhor – respondeu a rainha, altivamente –, o rei ordenou que ela


não saia de seus aposentos até que se realize o casamento de minha filha.
— Por que razão alguém manteria prisioneira tão adorável princesa?
– disse o Rei, profundamente indignado.
— Não sei – respondeu a rainha –; e, mesmo que eu soubesse, não
estaria inclinada a revelar-vos o porquê.
O Rei ficou louco de raiva ao se ver frustrado desta maneira. Tinha
certeza de que havia nisso o dedo de Troutina, e, lançando-lhe um olhar
fulminante, despediu-se da rainha e retornou aos seus aposentos. Disse,
então, a um pajem que o acompanhava:
— Trocaria toda a minha riqueza pelo favor de uma das aias da prin-
cesa, a fim de conseguir falar-lhe por um momento.
— Ora, nada mais fácil – disse o jovem pajem, que em pouco tem-
po fez amizade com uma das aias. Ela então lhe disse que, à noitinha,
Florina estaria a uma pequena janela que dava para o jardim, onde o
Rei conseguiria falar-lhe. Contudo – advertiu –, que ele tomasse muito
cuidado para não ser visto, pois ela estava arriscando seu emprego aju-
dando o Rei a se encontrar com Florina. O pajem ficou muito satisfeito
e prometeu fazer tudo o que ela pedira.
No entanto, enquanto ele apressava o passo para contar ao Rei sobre
o arranjo, a falsa aia foi até à rainha e revelou-lhe tudo que se passara. A
rainha imediatamente ordenou que sua filha estivesse à referida janela, e
a instruiu tão bem sobre tudo o que deveria dizer e fazer, que até mesmo
uma criatura tão estúpida quanto Troutina não poderia errar.
A noite estava tão escura que seria impossível ao Rei descobrir a
trapaça. Ele aproximou-se da janela com inexprimível alegria e disse
tudo o que entretinha há muito tempo em seu coração, a fim de persu-
adir Florina do seu amor. Troutina respondeu conforme fora instruída
– disse que estava profundamente infeliz e que a rainha não cessaria de
maltratá-la até que sua filha se casasse. O Rei então pediu sua mão em
casamento, retirando de seu próprio dedo um anel e colocando-o no de
Troutina, que respondeu o melhor que pôde. De fato, o Rei esperava
uma resposta melhor vinda de sua querida Florina, mas se convenceu de

32
O Pássaro Azul

que seus modos estranhos e pouco naturais deviam-se ao medo de ser


flagrada pela rainha. O Rei não partiria até que ela prometesse encontrá-
-lo novamente na noite seguinte, e Troutina consentiu sem pestanejar.
A rainha ficou exultante ao saber do sucesso de seu plano e prometeu
a si mesma que, desta vez, tudo sairia conforme sua vontade. Com efeito,
no dia seguinte, ao cair da noite, o Rei apareceu trazendo consigo uma
carruagem que fora presente de um feiticeiro seu amigo. O carro era
puxado por sapos voadores, e o Rei sem dificuldade convenceu Troutina
a subir nele. Depois, sentando-se ao seu lado, disse, triunfante:
— Agora, princesa minha, sois livre. Onde desejais que se celebre o
casamento?
Troutina, o rosto encoberto pelo manto, respondeu que a Fada Ma-
zila era sua madrinha e que gostaria que o casamento se realizasse em
seu castelo. O Rei deu a ordem aos sapos, que traziam de cabeça o mapa
do mundo inteiro, e em pouco tempo pousaram no castelo. O Rei te-
ria descoberto a fraude assim que eles puseram os pés naquele palácio
intensamente iluminado, mas Troutina embrulhou-se ainda mais no
manto e pediu para estar um momento à sós com a fada. Então relatou
à sua madrinha tudo que havia se passado e como conseguira ludibriar
o Rei Formoso.
— Ó, minha filha! – fez a fada. – Antevejo grandes problemas. O Rei
ama tão devotamente a Florina, que apaziguá-lo não será tarefa fácil.
Estou certa de que ele não se deixará convencer.
Enquanto isso, o Rei esperava por sua noiva em um esplêndido salão
com paredes de diamante, as quais eram tão transparentes, que através
delas pôde ver a fada e Troutina conversando às escondidas. Ele ficou
muito confuso.
— Quem nos teria enganado? – perguntou a si mesmo. – Como
é possível que nosso inimigo esteja aqui? Na certa, ela está tramando
contra o nosso casamento. Por que demora Florina e não vem logo ao
meu encontro?
Mas a realidade revelou-se pior do que ele imaginava, quando a Fada
Mazila entrou no salão seguida por Troutina e lhe disse:

33
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Ó Rei Formoso, trago-vos a princesa Troutina, a quem prometes-


tes vossa fidelidade. Realizemos, pois, o casamento.
— Eu?! – exclamou o Rei. – Casar-me com… isto? Quem pensais
que sou? Jamais lhe prometi coisa alguma!
— Nem mais uma palavra! Acaso não tendes respeito por uma fada?
– disse, enfurecida.
— Sim, senhora – respondeu o Rei. – Estou disposto a tributar-vos
o respeito devido a uma fada, contanto que eu tenha minha princesa
de volta.
— Ora, pois não estou aqui? – interrompeu-o Troutina. – Eis o anel
que me destes. Com quem conversastes à janela, senão comigo?
— O quê?! – esbravejou o Rei, furioso. – Fui então ludibriado todo
esse tempo? Onde está minha carruagem? Não fico neste castelo nem
mais um minuto.
— Oh-ho – fez a fada. – Quietinho aí! – e tocou-lhe nos pés, que
imediatamente estancaram presos ao chão, como se estivessem colados.
— Fazei de mim o que quiserdes – disse o Rei. – Podeis até transfor-
mar-me em pedra, mas jamais me casarei com outra, senão com Florina.
E o Rei recusou-se a dizer qualquer outra palavra, ainda que a fada
despejasse sobre ele mil censuras e ameaças, e Troutina chorasse e se
enfurecesse por vinte dias e vinte noites. Por fim, falou a Fada Mazila,
furibunda (pois estava exausta com a obstinação do Rei):
— Escolhei entre casar-vos com minha afilhada ou cumprir penitên-
cia por sete anos, visto que desonrastes vossa palavra.
O Rei respondeu vivamente:
— Fazei o que bem entenderdes, contanto que afasteis de mim essa
pavorosa megera!
— Megera! – vociferou Troutina, delirando de ódio. – Quem pensais
que sois, para chamar-me megera? Um maldito Rei que não honra a
palavra e passeia pelos ares em uma carruagem puxada por sapos do
pântano!
— Basta de insultos – bradou a fada. – Ide, Rei ingrato: voai por
aquela janela, e por sete anos sede um Pássaro Azul.

34
O Pássaro Azul

Pronunciadas estas palavras, o rosto do Rei transfigurou-se: seus


braços mudaram-se em asas; seus pés, em pequenas e retorcidas garras
negras. No momento seguinte, seu corpo assumiu uma forma delgada
como a de um pássaro, coberto de penas azuis cintilantes; seu bico era
como marfim; seus olhos, reluzentes como estrelas, e uma coroa de pe-
nas brancas adornava sua cabeça.
Feita a transformação, o Rei soltou um grito doloroso e voou pela
janela, deixando para trás as gargalhadas zombeteiras de Troutina e da
Fada Mazila. Voou e voou, até alcançar o ponto mais alto da floresta,
onde, empoleirado em um cipreste, chorou seu triste destino.
— Pobre de mim! Em sete anos, quem sabe o que será de minha
querida Florina? – disse. – O mais certo é que sua madrasta cruel terá
arranjado seu casamento com outra pessoa antes que eu volte a ser eu
mesmo. Se isto acontecer, de que me valerá viver?
Enquanto isso, a Fada Mazila enviara Troutina de volta para a rainha,
que se consumia de ansiedade por saber como transcorrera o casamento.
Mas, quando sua filha chegou e contou tudo que se passara, ela ficou
transida de ódio e, naturalmente, toda a sua ira voltou-se contra Florina.
— Essa mocinha terá muito que lamentar ter caído nas graças do Rei
– disse a rainha, fazendo com a cabeça um expressivo aceno.
Então, acompanhada por Troutina, dirigiu-se ao pequeno aposento
no alto da torre, onde a princesa era mantida prisioneira.
Florina não coube em si de espanto quando viu Troutina vestida em
um manto real e ostentando uma coroa de brilhantes, e seu coração ficou
compungido quando a rainha lhe disse:
— Minha filha veio mostrar-vos alguns dos presentes de casamento,
pois é agora esposa do Rei Formoso, e os dois formam o casal mais feliz
deste mundo. Ele simplesmente a venera!
Enquanto isso, Troutina exibia aos olhos relutantes de Florina rendas
e joias, finíssimos brocados e laços de fita. Fazia questão especialmente
de mostrar o anel do Rei Formoso em seu polegar. Ao vê-lo, a princesa
reconheceu-o imediatamente e já não podia duvidar de que ele realmen-
te se casara com Troutina. Desolada, ela lhes disse:

35
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Levai embora essas malditas quinquilharias! Como poderia apre-


ciá-las uma pobre prisioneira? – e, perdendo os sentidos, desabou no
chão. A cruel rainha apenas riu-se maldosamente e deixou o aposento
seguida por Troutina, abandonando Florina ao seu próprio desespero.
Naquela noite, a rainha disse ao rei que Florina estava tão apaixonada
pelo Rei Formoso – muito embora este jamais lhe demonstrasse sinal al-
gum de afeição –, que melhor seria mantê-la na torre, até que recobrasse
o juízo. O rei respondeu que nada tinha a ver com isso e que ela podia
ordenar o que bem entendesse com relação à princesa.
Quando a pobre Florina voltou a si e lembrou-se de tudo o que ou-
vira, verteu sentidas lágrimas, acreditando que o amor do Rei estava
perdido para sempre. Durante toda a noite, ficou à janela aos suspiros e
lamentos e, ao despontar do dia, arrastou-se até o canto mais escuro do
pequeno quarto e lá permaneceu, sentada, indiferente a tudo, afundada
em tristeza. Quando anoiteceu novamente, ela mais uma vez postou-se
à janela, lamentando seu triste destino.
Ora, havia algum tempo que o Rei Formoso, ou melhor, o Pássa-
ro Azul, voava em torno do castelo, na esperança de ver sua querida
princesa, embora não ousasse aproximar-se das janelas, por medo de
ser visto e reconhecido por Troutina. Ao cair da noite, estava cansado e
triste, sem ter descoberto onde Florina era mantida prisioneira. Então
empoleirou-se no galho de um alto pinheiro que havia próximo à torre
e começou a cantar até adormecer. Logo, porém, o som de uma voz
suave e plangente chamou-lhe a atenção, e, escutando atentamente,
ouviu-a dizer:
— Ah, rainha cruel! Que vos fiz eu para merecer esta prisão? E já não
vos bastava minha infelicidade de antes, para que viésseis atormentar-
-me com a felicidade de vossa filha, que agora é esposa do Rei Formoso?
O Pássaro Azul, enormemente surpreso, esperou ansiosamente pela
aurora; assim que o dia começou a clarear, voou para ver quem teria
dito aquelas palavras. Entretanto, encontrou a janela fechada e não viu
ninguém. Na noite seguinte ficou à espreita e, sob a clara luz da lua, per-
cebeu que a moça lamentosa à janela era a própria Florina.

36
O Pássaro Azul

— Minha princesa! Finalmente vos encontrei! – disse, pousando


junto a ela.
— Quem está falando comigo? – indagou a princesa, cheia de espanto.
— Acabastes de pronunciar meu nome e já não me reconheceis, Flo-
rina? – disse, entristecido. – Não é de admirar, já que sou apenas um
Pássaro Azul, e devo permanecer assim por sete anos.
— Será possível? Ó pequeno Pássaro Azul, seríeis realmente o gran-
de Rei Formoso? – perguntou a princesa, acariciando-lhe as penas.
— É a mais pura verdade – respondeu. – Foi minha punição por ter
me mantido fiel a vós. Mas, crede-me: ainda que minha punição fosse
em dobro, suportá-la-ia feliz para não trair vosso amor.
— Ó! Que me dizeis? – exclamou a princesa. – Pois se vossa esposa,
Troutina, há pouco visitou-me, ostentando o manto real e a coroa de
diamantes que lhe destes! Não estou enganada, pois vi que trazia vosso
anel no polegar.
O Pássaro Azul, enfurecido, contou à princesa todo o ocorrido –
como o enganaram para que fugisse com Troutina e como, por recusar-
-se a casar com ela, a Fada Mazila o condenara a ser um Pássaro Azul
por sete anos.
A princesa ficou exultante ao saber da fidelidade de seu bem-amado
e não se cansava de ouvir suas palavras de amor e suas explicações, mas
logo o sol subiu, e tiveram de se despedir, para que o Pássaro Azul não
fosse visto por alguém do palácio. Depois de prometer que pousaria
novamente à janela da princesa tão logo anoitecesse, voou para longe,
escondendo-se na pequena abertura de um pinheiro – e Florina ficou a
padecer de agonia, receosa de que o Pássaro caísse em uma armadilha ou
fosse devorado por uma águia.
Mas o Pássaro Azul não ficou por muito tempo em seu esconderijo.
Cruzou os céus até chegar ao seu próprio palácio, onde penetrou por
uma janela quebrada e dirigiu-se ao aposento em que guardava suas
joias. Escolheu um magnífico anel de brilhantes para sua princesa e
voou de volta. Florina esperava por ele sentada à janela e, ao receber o
presente, repreendeu-o docemente por ter se exposto a tamanho risco.

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Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Prometei usá-lo sempre! – pediu o Pássaro Azul, e a princesa


prometeu, com a condição de que ele deveria visitá-la durante o dia e
durante a noite.
Conversaram a noite toda, e na manhã seguinte o Pássaro Azul voou
até seu reino, penetrou furtivamente no palácio através da janela que-
brada e escolheu dentre seus tesouros duas pulseiras confeccionadas a
partir de uma pedra inteiriça de esmeralda. Ao oferecê-las à princesa,
ela meneou a cabeça em desaprovação e disse:
— Julgais que vos amo tão pouco, que preciso desses presentes para
me lembrar de vós?
Ele respondeu:
— Não, princesa minha. Mas meu amor é tão grande que não con-
sigo expressá-lo, por mais que tente. Se vos trago esses objetos sem im-
portância, é apenas para mostrar que não cesso de pensar em vós, mes-
mo que deva deixar-vos a sós por alguns instantes.
Na noite seguinte, ele presenteou Florina com um relógio entalhado
em uma pérola inteiriça. Ao vê-lo, a princesa sorriu e disse:
— Fazeis bem em me dar um relógio, pois, desde que vos conheci,
não pude mais mensurar o tempo. As horas que passamos juntos trans-
correm como minutos, e as horas longe de vós parecem anos para mim.
— Ah, princesa! Não podem ser mais longas do que são para mim
– respondeu.
O Rei trazia cada vez mais tesouros para a princesa – diamantes,
rubis e opalas. À noite, ela se enfeitava para agradá-lo; durante o dia,
escondia os tesouros sob seu colchão de palha. Quando o sol raiava,
o Pássaro Azul, escondido no alto pinheiro, cantava para a sua amada
com tanta doçura, que as pessoas que por ali passavam diziam que a
floresta era habitada por um espírito. Assim transcorreram dois anos
– e a princesa continuava cativa, e Troutina continuava solteira. A
rainha oferecera sua mão a todos os príncipes das redondezas, que
sempre respondiam que, com Florina, de boa vontade se casariam,
mas, com Troutina, sob hipótese alguma. Isso desagradava a rainha
sobremaneira.

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O Pássaro Azul

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Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Na certa, é uma armação de Florina, só para me contrariar! – disse.


– Vamos acusá-la de conspiração.
Então, a rainha e Troutina subiram a torre. Ora, acontece que era qua-
se meia-noite, e Florina, toda enfeitada de joias, estava sentada à janela
na companhia do Pássaro Azul. Quando a rainha parou frente à porta,
ouviu a princesa e seu admirador cantando juntos uma singela canção
que ele há pouco a ensinara, e que dizia assim:

Ó! Desdita maior do mundo inteiro,


Um na prisão e o outro no pinheiro.
Causa de nossa aflição e castigo
Termos sido fiéis, contra o inimigo –
Que age cruelmente, mas em vão:
Cá não há dois, mas um só coração.

Apesar do tom melancólico, as duas vozes cantavam jubilosamente.


A rainha escancarou a porta e esbravejou:
— Arrá! Minha Troutina, vejo que aqui se arma uma conspiração
contra nós!
Tão logo a viu, Florina, com notável presença de espírito, rapida-
mente fechou a janela, a fim de que o Pássaro Azul tivesse tempo de fu-
gir, e então foi ao encontro da rainha, que despejou sobre ela um mundo
de censuras.
— Vossas maquinações foram reveladas, senhorita – esbravejou, sol-
tando fogo pelas ventas. – E não ouseis pensar que vossa alta posição vos
poupará do castigo que mereceis.
— Com quem me acusais de estar conspirando, senhora? – indagou
a princesa. – Acaso não tenho sido vossa prisioneira por dois anos? E
quem tenho visto, senão os carcereiros que me enviais?
A rainha e Troutina a observavam enquanto falava, tomadas de in-
dizível espanto, completamente deslumbradas por sua beleza e pelo es-
plendor de suas joias. A rainha então disse:
— Posso saber, senhorita, de onde vêm todos esses diamantes? Te-
ríeis acaso encontrado uma mina na torre?

40
O Pássaro Azul

— De fato, encontrei-os aqui – respondeu a princesa.


— Tende a bondade de dizer-me – falou a rainha, cuja fúria crescia
a cada minuto – para os olhos de quem vos enfeitastes desta maneira,
se nem nas ocasiões mais importantes da corte vos apresentáveis com
metade desta elegância?
— Para meus próprios olhos – replicou Florina. – Deveis admitir que
disponho de bastante tempo livre; não é de admirar que eu gaste parte
dele embelezando-me.
— Está certo – disse a rainha, desconfiada. – Darei uma olhada por
aqui, a ver se descubro algo.
A rainha e Troutina começaram a vasculhar cada canto do pequeno
quarto, e, quando reviraram o colchão de palha, encontraram tamanha
quantidade de pérolas, diamantes, rubis, opalas, esmeraldas e safiras, que
ficaram boquiabertas, sem saber o que pensar. A rainha decidiu esconder
em algum canto um pacote de correspondências falsas, a fim de provar
que a princesa estava conspirando com os inimigos do rei, e escolheu
como local a chaminé. Para a sorte de Florina, era exatamente ali que o
Pássaro Azul decidira empoleirar-se, para não perder de vista o que se
passava e poder evitar qualquer perigo que ameaçasse sua amada prin-
cesa. Ele então gritou:
— Cuidado, Florina! O inimigo está tramando contra vós!
Essa estranha voz assustou a rainha de tal modo, que ela guardou a
correspondência e apressou-se em abandonar o aposento com Troutina.
Realizaram uma reunião para tentar descobrir quem seria a fada ou o
feiticeiro que estava ajudando a princesa. Por fim, enviaram uma das aias
da rainha para servir Florina. A criada tinha ordens para que parecesse
bastante estúpida, incapaz de ver ou ouvir o que se passava, enquanto
na verdade deveria observar a princesa dia e noite, mantendo a rainha
informada de tudo quanto ela fazia.
A pobre Florina, que adivinhou terem enviado uma espiã, ficou deso-
lada e chorou amargamente, porque não mais ousaria encontrar-se com
seu querido Pássaro Azul, receosa de que algum mal lhe ocorresse caso
fosse descoberto.

41
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Os dias eram demasiado longos, e as noites demasiado monótonas,


mas por um mês inteiro ela não se aproximou de sua janelinha, para
evitar que ele voasse ao seu encontro, como costumava fazer.
Contudo, a espiã, que jamais tirara os olhos da princesa, fosse duran-
te o dia ou durante a noite, ficou por fim tão cansada, que acabou caindo
num sono profundo. Assim que a princesa se deu conta disso, correu até
a janela, abriu-a e chamou, suavemente:

Pássaro Azul, tal qual o firmamento,


Vinde a mim, não há ninguém no momento.

E o Pássaro Azul, que durante todo esse tempo não se afastara muito
do castelo, voou até ela num instante. Tinham tanto que conversar e
estavam tão felizes por se verem mais uma vez, que pareceu durar cinco
minutos o tempo que passaram juntos até o nascer do sol, quando o
Pássaro Azul teve de se despedir.
Na noite seguinte, a espiã dormiu tão profundamente quanto antes,
e o Pássaro Azul veio mais uma vez até a janela. Ele e a princesa, acre-
ditando estarem perfeitamente seguros, começaram a fazer planos para
sua futura felicidade, tal como antes da fatídica visita da rainha. Mas,
que infelicidade! Na terceira noite, a espiã não estava completamente
adormecida e, quando a princesa abriu a janela e chamou, como de cos-
tume:

Pássaro Azul, tal qual o firmamento,


Vinde a mim, não há ninguém no momento,

a espiã despertou de todo – mas, dissimulada como era, a princípio


manteve os olhos fechados. Dentro em pouco ouviu vozes, e, espiando
cuidadosamente, viu sob o luar o mais belo pássaro azul conversando
com a princesa, enquanto ela acariciava-lhe as penas e dava-lhe leves
pancadinhas de afeto.
A espiã não deixou escapar uma única palavra da conversa. Assim
que o dia amanheceu e o Pássaro Azul teve de dizer adeus muito a
contragosto, ela correu até a rainha e contou-lhe tudo que vira e ouvira.

42
O Pássaro Azul

A rainha então mandou chamar Troutina, e as duas conversaram so-


bre o assunto, logo concluindo que aquele Pássaro Azul não podia ser
outro senão o próprio Rei Formoso.
— Ah! Aquela princesa insolente! – exclamou a rainha. – E pensar
que, enquanto a julgávamos profundamente infeliz, ela gozava da maior
das alegrias, junto daquele falso Rei. Mas sei como podemos nos vingar!
Ordenaram à espiã que voltasse à torre e fingisse dormir mais pro-
fundamente que das outras vezes – e, de fato, ela foi se deitar mais cedo
que de costume, e roncou da maneira mais natural possível. A pobre
princesa correu à janela e chamou:

Pássaro Azul, tal qual o firmamento,


Vinde a mim, não há ninguém no momento.

Mas nenhum pássaro veio. Chamou a noite toda, e esperou, e escu-


tou – sem obter nenhuma resposta, pois a cruel rainha ordenara que se
espalhassem facas, espadas, navalhas, tesouras, podadeiras e foices por
toda a copa do pinheiro. Assim, quando o Pássaro Azul ouviu o cha-
mado da princesa e voou em sua direção, teve suas asas cortadas e seus
pequenos pezinhos arrancados, ficando todo perfurado e apunhalado
em vinte lugares. Recuou, sangrando, para seu esconderijo na árvore, e
lá permaneceu, gemendo acabrunhado, pois acreditava que a princesa,
cedendo às pressões, o havia delatado em troca da liberdade.
— Ah, Florina! Seríeis afinal tão bela e tão desleal? – suspirou. – Se
assim for, melhor que eu morra de uma vez!
Virou-se para o lado e começou a desfalecer, entregando-se à morte.
Mas acontece que seu amigo, o feiticeiro, ficara bastante alarmado ao
ver a carruagem de sapos retornar vazia e então saiu pelo mundo por
oito vezes à sua procura, mas em vão. Naquele mesmo instante em que o
Rei abandonava toda a esperança, o feiticeiro passava pela floresta pela
oitava vez e chamava, como havia chamado por todo o mundo:
— Formoso! Rei Formoso! Onde estais?
O Rei reconheceu imediatamente a voz de seu amigo e respondeu
baixinho, pois estava muito fraco:

43
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Estou aqui…
O feiticeiro olhou à sua volta, mas não viu nada. O Rei então disse:
— Sou um pássaro azul.
Então o feiticeiro encontrou-o num instante e, vendo sua lamentável
condição, correu de um lado para o outro sem dizer nada, até que colheu
um punhado de ervas mágicas. Com elas, e uma porção de encantamen-
tos, o Rei rapidamente se recuperou.
— Agora – disse o feiticeiro – contai-me tudo. Estou certo de que há
uma princesa por trás dessa história toda.
— Pois há duas! – respondeu o Rei Formoso com um sorriso forçado.
Contou-lhe então toda a história, acusando Florina de ter revelado à
rainha suas visitas secretas, em troca de obter a liberdade, acrescentando
ainda muitas censuras à volubilidade da princesa e acusando sua beleza
traiçoeira, e assim por diante. O feiticeiro concordou com tudo que o
Rei dissera, e foi ainda mais longe, afirmando que todas as princesas são
iguais – salvo, talvez, no tocante à beleza – e aconselhou-o a dar o caso
por encerrado e a esquecer Florina de uma vez. Mas, de algum modo,
aquele conselho não agradou ao Rei.
— O que faremos? – indagou o feiticeiro. – Tendes ainda cinco anos
para permanecer como um pássaro azul.
— Levai-me ao vosso castelo – respondeu o Rei. – Lá ao menos po-
deis manter-me em uma gaiola, a salvo de gatos e espadas.
— Bem, é o melhor que se pode fazer por enquanto – respondeu o
amigo. – Mas não sou um feiticeiro em vão. Estou certo de que em breve
pensarei em uma solução para o caso.
Enquanto isso, Florina, em tremenda aflição, sentava-se à janela
noite e dia e chamava por seu querido Pássaro Azul, sem obter respos-
ta – e imaginava o tempo todo as coisas terríveis que poderiam ter-lhe
acontecido, até que começou a empalidecer e enfraquecer. A rainha e
Troutina, por sua vez, estavam triunfantes – mas por pouco tempo, pois
o rei, pai de Florina, caiu doente e morreu, e todo o povo rebelou-se
contra a rainha e sua filha, vindo em massa ao palácio exigir a presença
de Florina.

44
O Pássaro Azul

A rainha saiu à sacada do palácio disparando ameaças e maldições


sobre o povo, que por fim perdeu a paciência e pôs abaixo todas as por-
tas do palácio, uma das quais desabou sobre ela, matando-a. Troutina
fugiu apressadamente para o castelo da Fada Mazila, e todos os nobres
do reino resgataram Florina da torre e fizeram-na rainha. Em pouquís-
simo tempo, graças à atenção e ao cuidado que lhe devotavam, Florina
recuperou-se dos efeitos do longo cativeiro, apresentando-se agora em
todo o esplendor de sua formosura. Aconselhou-se com os cortesãos e
organizou a administração do reino para todo o tempo em que estivesse
ausente. E então, tomando um saco cheio de tesouros, partiu sozinha em
busca do Pássaro Azul, sem revelar a ninguém aonde ia.
Enquanto isso, o feiticeiro tinha o Rei Formoso sob seus cuidados.
Porém, como seu poder não era bastante para neutralizar o feitiço da Fada
Mazila, decidiu procurá-la a fim de tentar um acordo favorável ao seu
amigo – pois, como se sabe, fadas e feiticeiros são como primos, afinal de
contas; e, depois de conviverem por cinco ou seis séculos, frequentemente
se desentendendo e fazendo as pazes, eles conhecem um ao outro muito
bem. A Fada Mazila recepcionou-o com muita cordialidade.
— O que quereis, compadre? – perguntou.
— Podeis praticar uma boa ação, se quiserdes – respondeu. – Um
certo rei amigo meu teve a infelicidade de ofender-vos…
— Ah, sei de quem estais falando – interrompeu-o a fada. – Sinto
não poder atender-vos, compadre, mas ele não deve contar com a minha
misericórdia a menos que se case com minha afilhada, a quem podeis ver
ali, tão bela e graciosa. Espero que ele pondere minha proposta.
O feiticeiro não sabia o que dizer, pois achou Troutina a coisa mais
feia deste mundo, contudo não podia ir embora sem fazer mais uma
tentativa por seu amigo, que corria grave perigo vivendo em uma gaiola.
Com efeito, vários incidentes alarmantes já haviam ocorrido. Certa vez,
o prego que prendia a gaiola cedeu, e Sua emplumada Majestade ma-
chucou-se muito com a queda – e a Senhora Gato, que calhava de estar
ali, deu-lhe um arranhão no olho que quase o cegou. Em outra ocasião,
esqueceram-se de repor a água, e ele quase morreu de sede. Mas o pior

45
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

de tudo é que ele estava prestes a perder seu reino, pois estivera ausente
por tanto tempo, que todos os súditos pensavam que havia morrido.
Ponderando todas essas coisas, o feiticeiro entrou em um acordo com a
Fada Mazila: ela devolveria ao Rei a forma humana e levaria Troutina
para passar alguns meses junto dele, em seu palácio; se, depois desse
tempo, o Rei ainda resistisse em se casar com ela, tornar-se-ia novamen-
te um Pássaro Azul.
A fada então envolveu Troutina em um magnífico manto de ouro e
prata, e ambas montaram em um dragão alado, chegando, pouco tempo
depois, ao palácio do Rei Formoso. Ele também acabara de chegar ao
palácio, trazido por seu fiel amigo, o feiticeiro.
Com três movimentos de sua varinha mágica, a fada devolveu ao Rei
sua antiga forma, que então assumiu uma aparência mais bela e encanta-
dora do que nunca. Quando avistou Troutina, porém, julgou demasiado
alto o preço de sua restauração, e a simples ideia de se casar com ela
causava-lhe arrepios.
Enquanto isso, a Rainha Florina, disfarçada de camponesa pobre,
com um grande chapéu de palha cobrindo-lhe o rosto e um velho saco
sobre os ombros, iniciara sua penosa viagem. Tinha percorrido longa dis-
tância – às vezes por terra, às vezes por mar, às vezes a pé e às vezes a ca-
valo – sem saber direito aonde ia, temendo que, a cada passo, estivesse na
verdade afastando-se mais de seu bem-amado. Certo dia, estava sentada
à beira de um riacho, exausta e triste, refrescando seus pezinhos na cris-
talina água corrente e penteando seus longos cabelos, que reluziam como
ouro sob o sol, quando aproximou-se uma velha senhora corcunda que
caminhava apoiando-se em um pedaço de pau. A velha parou e lhe disse:
— Ora, minha pequena, estais sozinha?
— Sim, minha senhora. Estou infeliz demais para desejar alguma
companhia – respondeu, as lágrimas molhando-lhe as faces.
— Não choreis – disse a velha. – Contai-me a verdade sobre o que
vos aflige. Talvez eu possa ajudar-vos.
De boa vontade a rainha contou-lhe tudo que se passara, e que estava
à procura do Pássaro Azul. Ao ouvir toda a história, a velhinha de repen-

46
O Pássaro Azul

te empertigou-se e foi tornando-se mais alta, rejuvenescendo e ficando


cada vez mais bela, e então disse, com um sorriso, à admirada Florina:
— Amável rainha, o rei que procurais já não é um pássaro. Minha
irmã Mazila restaurou-lhe a antiga forma, e ele voltou ao seu reino. Não
temais: ireis encontrá-lo e sereis felizes. Tomai estes quatro ovos: que-
brai um deles quando estiverdes em apuros, e encontrareis auxílio.
Após dizer estas palavras, a fada desapareceu, e Florina, com renova-
da confiança, guardou os ovos em uma bolsa e dirigiu-se ao palácio do
Rei Formoso. Depois de caminhar por oito dias e oito noites, chegou a
um alto morro de marfim polido, tão íngreme, que era impossível firmar
o pé sobre sua superfície. Florina tentou mil vezes, escalando e escor-
regando, mas acabava voltando sempre ao ponto de partida. Por fim,
sentou-se desolada ao pé do morro, e de repente lembrou-se dos ovos.
Sem demora, quebrou um deles e encontrou uns pequenos ganchos de
ouro. Prendendo-os nos pés e nas mãos, escalou-o sem mais problemas,
uma vez que os ganchos a impediam de escorregar.
Assim que atingiu o topo, deparou-se com nova dificuldade, pois do
outro lado do morro – e, na verdade, por todo o vale – estendia-se um
imenso espelho polido, no qual milhares e milhares de pessoas admira-
vam seu reflexo. Esse era um espelho mágico, no qual as pessoas viam
refletida a aparência que gostariam de ter, e por isso atraía peregrinos
dos quatro cantos do mundo. Porém, ninguém jamais conseguira che-
gar ao topo do morro, e, quando as pessoas viram Florina lá em cima,
protestaram em coro, afirmando que, se ela pisasse sobre o espelho, ele
se partiria em mil pedaços. A rainha, sem saber como agir e percebendo
que seria perigoso descer, quebrou o segundo ovo, e então apareceu uma
carruagem puxada por duas pombinhas brancas. Florina entrou e desli-
zou pelos ares suavemente.
Depois de um dia e uma noite, as pombinhas pousaram do lado de
fora dos portões do reino do Rei Formoso. A rainha desceu da carru-
agem, beijou as pombas e agradeceu-lhes; e assim, com o coração pal-
pitante, penetrou na cidade e começou a perguntar às pessoas onde era
possível encontrar o Rei. Todos riam-se dela, dizendo:

47
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Encontrar o Rei? E que assunto teria uma pobre criada, uma aju-
dante de cozinha, para tratar com o Rei? Vai, lava primeiro teu rosto,
teus olhos não estão limpos o bastante para vê-lo!
Diziam isso, pois a rainha se disfarçara, e seus cabelos cobriam-lhe os
olhos, para que ninguém a reconhecesse. Como se recusavam a responder-
-lhe, seguiu adiante e voltou a indagar aos que passavam. Desta vez, res-
ponderam que no dia seguinte ela poderia ver o rei desfilando pelas ruas
acompanhado da Princesa Troutina, pois corria o boato de que ele final-
mente consentira em se casar com ela. Realmente eram notícias terríveis
para Florina. Teria enfrentado tão fatigante viagem, apenas para descobrir
que Troutina conseguira fazer com que o Rei Formoso a esquecesse?
O cansaço e a tristeza impediam-na de dar mais um passo, então
sentou-se a uma calçada e verteu um sentido pranto a noite toda. Assim
que amanheceu, apressou o passo rumo ao palácio. Depois de ser expulsa
cinquenta vezes pelos guardas, conseguiu entrar e então viu no magní-
fico salão os tronos destinados ao Rei e a Troutina, que já era tratada
como se fosse rainha.
Florina escondeu-se atrás de um pilar de mármore e, dentro em pou-
co, viu Troutina apresentar-se ricamente vestida, porém mais feia do
que nunca; o Rei apareceu em seguida, mais belo e deslumbrante do
que Florina se lembrava. Quando Troutina sentou-se no trono, a rainha
aproximou-se.
— Quem és tu, e como ousas aproximar-te de meu trono real? – per-
guntou Troutina, fulminando-a com o olhar.
— Sou conhecida como ajudante de cozinha – respondeu –, e venho
vender-vos algumas coisas valiosas – disse, revirando seu velho saco, do
qual retirou as pulseiras de esmeralda que o Rei Formoso lhe dera.
— Ho, ho! – disse Troutina. – Tens aí uns belos pedaços de vidro.
Suponho que aceites cinco moedas de prata por eles.
— Mostrai-os a alguém que entenda destas coisas, senhora – respon-
deu a rainha –, e então poderemos negociar o valor.
Troutina, que de fato amava o Rei Formoso tanto quanto lhe era possí-
vel amar alguém, e ficava sempre contente quando tinha a oportunidade de

48
O Pássaro Azul

lhe falar, mostrou-lhe então as pulseiras e perguntou quanto deviam valer.


Ao vê-las, ele lembrou-se imediatamente das pulseiras com que presente-
ara Florina; empalideceu, deu um longo suspiro e mergulhou em pensa-
mentos tão tristes, que se esqueceu completamente de que lhe devia uma
resposta. Ela indagou-o novamente, e então ele disse com muito esforço:
— Creio que essas pulseiras valem tanto quanto meu reino. Pensava
haver apenas um par delas no mundo, mas, pelo que vejo, existem outras.
Troutina voltou ao salão onde estava a rainha e perguntou-lhe qual
era o menor preço que ela aceitaria pelas pulseiras.
— Mais do que poderíeis pagar, senhora – respondeu. – Porém, se
permitirdes que eu passe uma noite no Aposento dos Ecos, dar-vos-ei
as esmeraldas.
— Como quiseres, minha pequena ajudante de cozinha – disse Trou-
tina, muito satisfeita.
O Rei não tentou descobrir como aquelas pulseiras tinham ido parar
ali – não porque não quisesse saber, mas porque a única maneira de des-
cobrir seria perguntando a Troutina, e tamanha era sua aversão a ela, que
jamais lhe dirigia a palavra, a menos que fosse estritamente necessário.
Fora ele quem contara a Florina sobre o Aposento dos Ecos quando
ainda era um Pássaro Azul. Era um pequeno quarto de dormir abaixo
do aposento real, e fora construído com tanto engenho, que o mais suave
sussurro emitido ali poderia ser ouvido perfeitamente no aposento real.
Florina tencionava repreendê-lo por sua infidelidade, e aquela lhe pare-
cia a melhor maneira de fazê-lo. Então, quando foi deixada no aposento
por ordens de Troutina, começou a chorar e a lamentar, sem uma pausa
sequer, até o raiar do dia.
Questionados por Troutina, os pajens do Rei contaram que ouviram
soluços e suspiros durante a noite. Ela então perguntou a Florina o que
aquilo significava, e a rainha respondeu que frequentemente sonhava e
falava em voz alta.
Mas, por um infeliz acaso, o Rei nada ouvira daquilo tudo, pois to-
mava um gole de sonífero toda noite antes de dormir e não despertava
até que o sol já estivesse alto.

49
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

A rainha passou o dia em grande inquietação.


— Se ele me ouviu – disse –, seria possível que permanecesse cruel-
mente indiferente? Mas, se não me ouviu, que poderei fazer para ter
outra chance? Tenho muitas joias, é verdade, mas nada tão notável para
chamar a atenção de Troutina.
Foi nesse instante que se lembrou dos ovos. Quebrou mais um e de
dentro dele saiu uma pequena carruagem de aço polido, com detalhes em
ouro, puxada por seis ratinhos verdes. O cocheiro era um ratinho rosado; o
mensageiro, um ratinho cinza, e os ocupantes da carruagem eram peque-
ninas pessoas, verdadeiramente adoráveis, que sabiam dançar e fazer in-
críveis proezas. Florina bateu palmas e saltitou de alegria quando viu esse
prodígio da arte mágica, e, assim que anoiteceu, dirigiu-se a uma passagem
ensombrecida que havia no jardim, pela qual Troutina havia de passar, e
fez os ratinhos galoparem e as pessoas miúdas exibirem suas habilidades.
Quando Troutina aproximou-se e viu o espetáculo, perguntou:
— Ó criadinha, criadinha, o que queres em troca da tua carruagem
de ratinhos?
A rainha respondeu:
— Deixai-me passar mais uma noite no Aposento dos Ecos.
— Não negarei teu pedido, minha criança – disse Troutina, con-
descendente.
Então voltou-se para suas criadas e sussurrou:
— Essa tola criatura não sabe tirar vantagem quando tem a chance.
Bem, tanto melhor para mim.
Ao cair da noite, Florina proferiu as palavras mais cheias de amor
que lhe ocorriam, mas, pobrezinha! não obteve mais sucesso do que an-
tes, pois o Rei dormia profundamente depois de tomar o sonífero. Um
dos pajens disse:
— Essa camponesa deve ser louca.
Ao que um outro respondeu:
— Louca ou não, o que ela diz soa doloroso e comovente.
Florina, por sua vez, julgou que o Rei devia ter um coração duríssimo,
se pôde ouvir o seu lamento e, ainda assim, ignorá-la. Havia somente

50
O Pássaro Azul

mais uma chance, e, ao quebrar o último ovo, descobriu, com enorme


contentamento, que ele continha a coisa mais maravilhosa de todas: uma
torta feita de seis pássaros, preparada com perfeição – contudo, os pás-
saros estavam vivos, cantando e falando, e divertidamente respondiam a
perguntas e liam a sorte. De posse desse tesouro, Florina mais uma vez
posicionou-se no caminho por onde Troutina deveria passar. Enquanto
esperava, um dos pajens do Rei aproximou-se e disse:
— Bem, dona ajudante de cozinha, é sorte que o Rei sempre tome
um sonífero antes de dormir; do contrário, não conseguiria pregar o
olho com toda a tua lamentação.
Então Florina descobriu por que o Rei não lhe respondera. Tirou do
saco um punhado de pérolas e diamantes e disse:
— Se me prometeres que, nesta noite, o Rei não tomará seu sonífero,
dar-te-ei todas estas joias.
— Ó! Claro que prometo – respondeu o pajem.
Neste momento, Troutina apareceu e, ao bater os olhos na apetitosa
torta, com todos aqueles passarinhos cantando e conversando, disse:
— Que torta admirável, minha ajudante de cozinha! O que queres
em troca dela?
— O de sempre – respondeu. – Passar mais uma noite no Aposento
dos Ecos.
— Como quiseres, mas dá-me a torta – disse a gananciosa Troutina.
Quando anoiteceu, a Rainha Florina esperou até que todos no palácio
tivessem adormecido e começou a desfiar seus lamentos, como fizera antes.
— Ah, Formoso! – disse. – Que vos fiz eu, para que me esquecêsseis e
vos casásseis com Troutina? Se ao menos soubésseis tudo por que passei,
e o quanto me custou encontrar-vos!
Ora, o pajem honrara sua palavra e dera ao Rei Formoso um copo
d’água em vez do sonífero usual. O Rei jazia na cama bem acordado e
assim pôde ouvir tudo que Florina dizia, e até reconheceu sua voz, em-
bora não soubesse distinguir de onde ela vinha.
— Ah, princesa! – disse. – Como pudestes delatar-me a vossos cruéis
inimigos, quando vos amava tanto?

51
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Florina ouviu e respondeu prontamente:


— Procurai pela ajudante de cozinha; ela vos explicará tudo.
No mesmo instante, o Rei mandou chamar seus pajens e disse-lhes:
— Sabeis onde está a ajudante de cozinha? Trazei-a até aqui ime-
diatamente.
— Nada mais fácil, senhor – responderam –, pois ela está no Apo-
sento dos Ecos.
O Rei ficou perplexo. Como poderia a amável princesa Florina passar-
-se por ajudante de cozinha? Ou como poderia uma ajudante de cozinha
ter a voz idêntica à de Florina? Vestiu-se num átimo e desceu a escadaria
secreta que dava acesso ao Aposento dos Ecos. Ali, sentada sobre uma pi-
lha de almofadas macias, estava sua querida princesa. Havia-se despojado
de todo o seu feio disfarce e usava um vestido branco de seda, seus cabelos
dourados reluzindo à luz amena da candeia. O Rei não cabia em si de feli-
cidade ao vê-la: atirou-se aos seus pés e fez-lhe mil perguntas, sem que lhe
desse tempo de responder. Florina estava igualmente feliz por encontrá-lo
uma vez mais, e nada os perturbava, senão a lembrança da Fada Mazila.
Mas, neste momento, o feiticeiro entrou no aposento, acompanhado
por uma famosa fada – a mesma que dera os ovos a Florina. Depois de
cumprimentarem o Rei e a rainha, disseram que, como haviam se unido
para ajudar o Rei Formoso, a Fada Mazila já não tinha nenhum poder
sobre ele, e o casamento com Florina poderia realizar-se quando quises-
sem. Imaginai a alegria do Rei!
Assim que o dia amanheceu, a notícia espalhou-se por todo o palá-
cio, e todos que pousavam os olhos em Florina ficavam imediatamente
encantados. Quando Troutina soube da notícia, correu até o Rei e, ficou
furiosa ao vê-lo junto de Florina. Antes, porém, que emitisse qualquer
palavra, o feiticeiro e a fada transformaram-na em uma grande coruja
marrom, que saiu voando por uma das janelas do palácio, arrulhando
tristemente. Celebrou-se o casamento com grande esplendor, e o Rei
Formoso e a Rainha Florina viveram felizes para sempre.*

* Madame d’Aulnoy

52
O Meio Pintinho

ra uma vez uma galinha espanhola, preta e


linda que só, mãe duma ninhada enorme de pin-
tinhos. Eram todos uns pintinhos saudáveis e ro-
liços, a não ser o mais novo, que era um tanto di-
ferente dos irmãos e irmãs. O tal pintinho, a bem
dizer, era uma criatura tão estranha, tão esquisita
dos pés à cabeça, que quando saiu do ovo pela primeira vez, sua mãe
mal podia acreditar no que via, tamanha era a diferença entre ele e
os outros doze pintinhos fofos, aveludados e macios que lhe ficavam
sob as asas. Este parecia como se tivesse sido cortado ao meio. Tinha
só uma perna, e uma asa, e um olho; e tinha metade de uma cabeça e
metade de um bico. Enquanto o olhava, sua mãe balançou a cabeça de
tristeza, e disse:
— Minha cria mais nova é apenas um meio pintinho. Jamais irá
crescer e se transformar num galo alto e garboso como seus irmãos.
Os outros haverão de sair mundo afora e chefiar os seus próprios ga-
linheiros; mas ele, pobrezinho, terá de ficar sempre em casa, com a
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

sua mãe. – E lhe deu o nome de Medio Pollito, que é como a gente diz
“meio pintinho” em espanhol.
Ora, embora Medio Pollito fosse uma criaturinha tão esdrúxula, tão
franzina e tão frágil, logo sua mãe descobriu que o pintinho não estava
nem um pouco a fim de ficar apenas sob a segurança de suas asas. Para
dizer a verdade, ele era, no caráter, tão diferente de seus irmãos e irmãs
quanto o era na aparência. Os demais eram uns pintinhos bonzinhos e
obedientes, e bastava a velha galinha cacarejar, que saíam todos a piar
esganiçados e correr para ela. Mas Medio Pollito tinha um espírito des-
bravador a despeito de ter uma só perna, e quando a sua mãe lhe caca-
rejava para voltar ao galinheiro, fingia não conseguir ouvi-la, já que só
tinha uma orelha.
Quando a mãe saía com toda a família para uma passeio nos campos,
Medio Pollito saltitava para longe e se escondia em meio ao milho india-
no. E para os seus irmãos era um procurar angustiado por minutos a fio,
enquanto a mãe corria para lá e para cá, a cacarejar de medo e desespero.
À medida que envelhecia, tanto mais teimoso e desobediente ficava,
e era muitas vezes terrivelmente malcriado com a sua mãe, além de ser
um brigão e maltratar os outros pintinhos.
Um dia, ele saíra para uma viagem mais demorada do que de costu-
me. Ao retornar, saltitou até sua mãe, muito pomposo, com os pulinhos
e chutes para o ar que eram o seu modo característico de andar, e, cra-
vando nela o seu único olho, disse, muito petulante:
— Mãe, estou cansado desta vida neste terreiro enfadonho, com nada
para se olhar senão um milharal sem graça. Vou para Madri, a fim de
ver o rei.
— Para Madri, Medio Pollito?! – exclamou sua mãe. – És mesmo
um pintinho tonto! Uma jornada assim seria longa até para um galo já
crescido, e uma coisinha de nada como tu já estaria esgotada antes de
trilhar metade do caminho. Não, não, fica em casa com tua mãe, e algum
dia, quando estiveres maior, faremos uma viagenzinha juntos.
Medio Pollito, porém, já se decidira, e não haveria de dar ouvidos aos
conselhos de sua mãe, nem aos rogos e às súplicas de seus irmãos e irmãs.

54
O Meio Pintinho

— Para quê ficarmos todos nós apinhados neste lugarzinho minús-


culo? – disse ele. – Quando eu tiver um pátio só meu, muito fino, no
palácio do rei, talvez vos chame para uma visita rápida – e mal esperan-
do para dizer adeus à família, lá se foi ele, a saltitar todo estabanado na
estrada para Madri.
— Sê gentil e atencioso com todos os que encontrares – gritou-lhe
sua mãe, enquanto corria atrás dele, mas o pintinho estava tão apressado
que não esperou para respondê-la, e sequer olhou para trás.
Um pouco mais tarde naquele dia, enquanto saltitava num atalho que
cortava o campo, passou por um rio. Ora, a corrente do rio estava sufo-
cada, toda soterrada sob ervas daninhas e algas, de modo que as águas
não corriam livres.
— Ó! Medio Politto! – clamou o rio, enquanto o meio pintinho lhe
saltitava nas margens. – Vem cá me ajudar e arranca de mim estas ervas
daninhas.
— Ajudar-te?! – exclamou Medio Politto, a abanar a cabeça e sacudir
as poucas penas que tinha no rabo. – Pensas que não tenho coisa melhor
a fazer do que perder meu tempo com ninharias? Ajuda-te a ti mesma,
e não importunes viajantes ocupados. Vou para Madri ver o rei – e pu-
linho-e-chute para lá, pulinho-e-chute para cá, lá se foi Medio Pollito.
Um pouco depois, chegou a uma chama que fora deixada acesa por
alguns ciganos na floresta. Ela queimava fraquinha, e dali a pouco ha-
veria de morrer.
— Ó! Medio Pollito! – clamou o fogo, numa voz sumida, trêmula. –
Daqui a poucos minutos hei de me apagar, a não ser que tu ponhas em
mim alguns gravetos e umas quantas folhas secas. Ajuda-me, ou morrerei!
— Ajudar-te?! – respondeu Medio Pollito. – Tenho mais o que fazer.
Ajunta galhos para ti mesma, e não me importunes. Vou para Madri
ver o rei – e pulinho-e-chute para lá, pulinho-e-chute para cá, lá se foi
Medio Pollito.
Na manhã seguinte, quando estava já perto de Madri, ele passou em
frente a um enorme castanheiro, em cujos galhos o vento se emaranhara
e acabara preso.

55
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Ó! Medio Pollito! – clamou o


vento. – Dá um pulinho até aqui e liber-
ta-me destes galhos. Não consigo sair, e
é tão desconfortável!
— Acabaste aí por tua própria culpa
– respondeu-lhe Medio Pollito. – Não
posso perder a manhã todinha paran-
do aqui para ajudar-te. Chacoalha a ti
mesmo, sai daí e não me importunes,
pois vou para Madri ver o rei – e pu-
linho-e-chute para lá, pulinho-e-chute
para cá, lá se foi Medio Pollito, alegre
que só, pois já se podiam divisar ago-
ra as torres e os telhados de Madri. Ao
entrar na cidade, viu diante de si um
casarão esplêndido, com soldados em
pé em frente aos portões. Soube ime-
diatamente ser ali o palácio do rei, e
resolveu saltitar até o portão frontal e
aguardar até que o rei saísse. Enquan-
to passava saltitando em frente a uma
das janelas traseiras, foi visto pelo cozi-
nheiro do rei:
— Mas aí está exatamente o que eu
queria – exclamou ele –, pois o rei aca-
bou de enviar uma mensagem dizendo que quer frango para o jantar
– e, abrindo a janela, esticou o braço e agarrou Medio Pollito, e o jogou
dentro do panelão que estava ao lado do fogo. Ó! Quão molhada, fria
e pegajosa lhe parecia estar a água, enquanto caía-lhe sobre a cabeça e
fazia com que as poucas penas que tinha se grudassem todas a um só
lado do seu corpinho mirrado.
— Água, água! – gritou ele, desesperado. – Tem misericórdia de mim
e não me molhes assim.

56
O Meio Pintinho

— Ah! Medio Pollito! – respondeu a água. – Não me ajudaste quan-


do era eu um fiozinho d’água nos campos, agora tens de ser punido.
Então o fogo começou a queimar e escaldar Medio Pollito, que dan-
çava e pulava de um lado para o outro da panela, a tentar fugir da quen-
tura, gritando de dor:
— Fogo, fogo! não me queimes assim; não sabes como dói!
— Ah, Medio Pollito! – respondeu o fogo. – Não me ajudaste quan-
do eu estava a morrer na floresta. Estás a ser punido.
Finalmente, quando a dor era já tão grande que Medio Pollito achava
que iria morrer, o cozinheiro levantou a tampa da panela, a ver se o caldo
estava pronto para o jantar do rei.
— Veja só! – exclamou, horrorizado. – Este frango é inútil. Só ficaram
cinzas. Não posso enviar isto aqui para a mesa real – e, abrindo de novo
a janela, jogou Medio Pollito na rua. Mas o vento o pegou ainda no ar,
e fê-lo rodopiar com tamanha violência que mal podia respirar, e o seu
coração lhe batia tanto contra o peito que parecia prestes a arrebentá-lo.
— Ó, vento! – enfim, a muito custo, arfante, ele disse. – Se me fizeres
rodopiar assim, hás de me matar. Deixa-me descansar um momento,
ou… – mas estava tão sem ar que não foi capaz de terminar a frase.
— Ah! Medio Pollito – replicou o vento –, quando eu estava preso
nos galhos do castanheiro, tu não me ajudaste; agora estás a ser punido.
– E o remoinhou no ar, por sobre os telhados das casas, até alcançarem
finalmente a igreja mais alta da cidade, onde o largou, preso à torre do
campanário.
E lá está até hoje Medio Pollito. Se tu calhares de ir a Madri e andar
pelas ruas da cidade até chegar à igreja mais alta que ali há, verás então
Medio Pollito, empoleirado com a sua única perna no campanário, a sua
única asa caída à ilharga, e o seu único olho a fitar a cidade pasmado e
tristonho.*

* Tradição espanhola.

57
A história do
Califa Cegonha

assid, o Califa de Bagdá, descansava comoda-


mente em seu divã durante um belo entardecer. Fu-
mava um longo cachimbo, e de tempos em tempos
sorvia o café que um escravo lhe alcançava numa
delicada xícara, a cada gole acariciando suas longas
barbas com ar prazenteiro. Qualquer um que esti-
vesse presente à cena perceberia a excelente disposição de espírito do
califa. Com efeito, a esta hora, quem o quisesse abordar estaria seguro
de encontrá-lo afável e de bom humor. É por este motivo que Mansur, o
grão-vizir, sempre escolhia este momento para lhe fazer sua visita diária.
Nesta tarde ele chegou à hora habitual, mas, no lugar de sua habitual
bonança, uma angústia lhe estampava o rosto. O califa tirou o cachimbo
dos lábios por um instante e lhe perguntou:
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Por que trazes o rosto tão aflito, Grão-Vizir?


O grão-vizir cruzou os braços sobre o peito e, curvando-se diante do
seu soberano, respondeu-lhe:
— Ó, meu senhor! Se o meu semblante é de aflição, não o havia
percebido, mas agora há pouco no pátio do palácio vi um mercador que
portava mercadorias tão belas que me entristeci, lembrado de minha
penúria.
O califa, que há tempos queria dar um presente ao grão-vizir, man-
dou um preto buscar o mercador imediatamente. O escravo não tardou
a voltar; atrás dele vinha o mercador, homenzinho robusto, de cara mo-
rena, vestido de trapos. Carregava num baú toda a sorte de artigos: co-
lares de pérolas, anéis, garruchas ricamente adornadas, cálices e pentes.
Depois de examinarem o conteúdo do baú, o califa selecionou algumas
garruchas para si e para Mansur, e para a mulher do vizir escolheu um
pente cravejado de joias. O baú já estava a ponto de ser fechado, quando
o califa, reparando no interior dele uma pequena gaveta, perguntou ao
mercador que artigos ela comportava, e se estavam à venda. Este a abriu
e tirou de dentro dela uma caixinha que continha um pó negro e um
pergaminho com caracteres misteriosos, que nem o califa nem o vizir
eram capazes de ler.
— Comprei estes dois artigos de um vendedor que os encontrara nas
ruas de Meca – disse o mercador. – Não sei qual é o poder deles, mas
como não me servem de nada, vendo-os de bom grado por uma mixaria.
Como tivesse o costume de colecionar manuscritos antigos em sua
biblioteca, muito embora os não pudesse ler, o califa adquiriu o perga-
minho e a caixa, deixando ir o mercador. Então, ávido por descobrir os
segredos do pergaminho, perguntou ao vizir se não conhecia ninguém
capaz de decifrá-lo.
— Ó Príncipe dos crentes – respondeu o vizir –, próximo à Mesquita
mora um homem a quem todos chamam Selim, o Douto, que conhece
todas as línguas da face da Terra. Mande buscá-lo, talvez seja capaz de
interpretar esses misteriosos caracteres.
Selim, o Douto, foi convocado sem demora.

60
A história do Califa Cegonha

— Selim – disse o califa –, ouvi dizer que és um erudito. Examina


este pergaminho e vê se és capaz de ler o que está escrito nele. Se fores
bem-sucedido, cobrir-te-ei com um manto de honra; se, pelo contrário,
fracassares, darei ordens para desferirem doze golpes nas tuas faces e
outros vinte e cinco nas solas dos pés, por ostentares sem razão a alcunha
de Selim, o Douto.
Selim prostrou-se e disse:
— Faça-se conforme sua vontade, meu soberano!
Em seguida cravou os olhos no pergaminho e pôs-se a mirá-lo por
um bom tempo, até que, subitamente, exclamou:
— Que eu pereça e morra, meu senhor, se isto não for latim.
— Pois bem – disse o califa –, se é latim, ouçamos o que tem a dizer.
Selim começou a traduzir:
— Tu, a cujas mãos chegou este pergaminho, louva a Alá por sua
misericórdia. Quem quer que aspire o rapé contido nesta caixa enquanto
pronunciar a palavra “Mutabor”* há de se transformar na criatura que
lhe aprouver, e entenderá a língua de todos os animais. Quando quiser
voltar à forma humana, basta que se curve três vezes em direção ao
Oriente repetindo a mesma palavra. Tome cuidado, no entanto, para não
rir enquanto estiver sob a forma de besta; se o fizer, seguramente esque-
cerá a palavra mágica e permanecerá para sempre um animal.
As palavras do pergaminho, traduzidas por Selim, o Douto, fascina-
ram o califa. Cumpridor de sua palavra, vestiu o sábio com um manto
esplêndido, cuidando antes que ele jurasse jamais tratar daquele assunto
com ninguém, e o deixou ir. Então disse ao vizir:
— Que bela compra, Mansur! Mal posso esperar pelo momento de
me transformar em animal. Quero que chegues cedo amanhã de manhã;
iremos ao campo, cheiraremos um pouco do rapé desta caixinha, e ouvi-
remos o que dizem as vozes no ar, na terra, e na água.

* Pronuncia-se mutábor.

61
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

II

Na manhã seguinte, mal o Califa Cassid acabara de se vestir e fazer o


desjejum, o grão-vizir apresentou-se ao palácio, conforme as ordens que
recebera, para acompanhá-lo em sua expedição. O califa meteu a caixa
de rapé no cinturão e, havendo pedido a seus servos que ficassem em
casa, levou apenas o grão-vizir na sua comitiva. Começaram a expedição
nos jardins do palácio; ali, contudo, não encontraram nenhuma criatura
que os inspirasse a estrear seu novo poder mágico. Por fim, sugeriu o
vizir que seguissem até um lago situado fora dos muros da cidade, onde
muitas vezes avistara um sem-número de criaturas de toda espécie, e em
especial de cegonhas, cujo porte austero e falatório incessante já muitas
vezes lhe cativaram a atenção.
O califa assentiu, e dali se dirigiram ao lago.
Assim que chegaram, notaram uma cegonha desfilando de um lado a
outro com ar majestoso, caçando rãs e, de vez em quando, resmungando
consigo mesma. Ao mesmo tempo, apareceu-lhes outra no alto do céu,
voando para o mesmo local. Disse o vizir:
— Aposto as minhas barbas, Vossa Alteza, que estas duas pernudas
estão para travar uma conversa interessante. Que tal nos transformar-
mos em cegonhas?
— Boa ideia – respondeu o califa –, mas antes nos lembremos dos
procedimentos para voltar à forma humana: curvar-se três vezes em di-
reção ao Oriente e pronunciar “Mutabor”. Quando assim fizermos, eu
voltarei a ser o califa, e tu, o grão-vizir. Mas, por Alá, não rias, ou será
nosso fim!
Assim que terminou de falar, o califa olhou para cima e viu que a ou-
tra cegonha se aproximava cada vez mais do solo. Sem delongas, tirou a
caixinha de seu cinturão, tomou uma pitada de rapé e ofereceu outra para
Mansur; os dois homens cheiraram o rapé e gritaram juntos “Mutabor!”.
No mesmo instante suas pernas se enrugaram e afinaram, ficando
vermelhas; as sandálias amarelas abriram-se em quatro dedos de cego-

62
A história do Califa Cegonha

nha, e os braços, em asas; o pescoço lhes brotou do meio dos ombros,


espichando-se um metro; as barbas desapareceram, e o corpo inteiro se
cobriu de penas.
— Que belo bico ostentas, Grão-Vizir! – exclamou o califa, tão logo
sacudiu o estupor dos primeiros instantes. – Pelas barbas do Profeta,
nunca vi coisa parecida em toda minha vida!
— Bondade sua – respondeu o vizir, retorcendo o longo pescoço –,
porém, ouso dizer que Vossa Majestade é ainda mais belo na forma de
cegonha do que na de califa. Mas venha, aproximemo-nos de nossas
amigas para ver se entendemos, de fato, a língua das cegonhas.
Nesse entremeio, a cegonha que voava no céu já havia pousado. Ro-
çou o bico com a garra, acariciou suas penas, e seguiu em frente até a
primeira cegonha. Os dois homens, agora transformados em cegonhas,
não tardaram a se aproximar e, para seu grande espanto, ouviram a se-
guinte conversa:
— Bom dia, Dona Pernocas. Saiu de casa cedo esta manhã!
— É verdade, minha cara Faladeira. Vim para tomar o café da ma-
nhã. A senhorita aceita um joelho de lagarto, ou uma perna de rã?
— Fico muito agradecida, mas não tenho fome esta manhã. Estou
aqui por outros motivos. Hoje à noite meu pai receberá visitas, e terei de
dançar na frente delas. Vim ao prado para treinar sossegada.
A jovem cegonha começou então a remexer-se dando passos estu-
pendos. O califa e Mansur observaram-na atônitos por um bom tem-
po; mas, no momento em que ela concluiu o espetáculo balançando-se
numa perna só enquanto batia as asas graciosamente para cima e para
baixo, não conseguiram mais se refrear: uma longa risada irrompeu de
seus bicos, e os dois levaram um tempo até recuperar a compostura. O
califa foi o primeiro a se recompor.
— Que piada! – disse ele. – É uma pena que nossas risadas tenham es-
pantado essas palermas, pois estou certo de que no próximo ato cantariam!
De repente, porém, o vizir lembrou-se que o manuscrito lhes avisara
enfaticamente para não rirem enquanto estivessem transformados. Sem
delongas comunicou sua apreensão ao califa, que exclamou:

63
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Por Meca e por Medina! Que brincadeira de mau gosto seria esta,
de permanecer uma cegonha até o fim dos meus dias! Tenta lembrar, por
obséquio, a maldita palavra, pois agora me escapa à memória.
— Temos que nos curvar três vezes em direção ao Oriente e dizer –
como era mesmo? mu… mu… mu…
Voltaram-se para o Oriente e dobraram os corpos até espetar os bicos
no chão; contudo – horror dos horrores –, haviam esquecido de fato a
palavra mágica, e por mais que o califa se curvasse ou o vizir em prantos
repetisse “mu… mu… mu…”, por nada no mundo a palavra lhes acudia
à memória, de modo que os míseros Cassid e Mansur continuavam nos
seus corpos de cegonha.

III

Os dois pássaros enfeitiçados arrastaram-se tristes pelas pradarias.


No alto de sua miséria, não sabiam ao que recorrer. Viam-se incapazes
de despir-se de suas novas formas; e de nada adiantaria voltar à cidade e

64
A história do Califa Cegonha

dizer quem eram, pois quem levaria a sério uma cegonha que declarasse
ser o califa? E mesmo que acreditassem nele, por acaso o povo de Bagdá
aceitaria prestar obediência a uma cegonha?
Deixaram-se então vadiar por vários dias, tirando seu sustento de
frutas, as quais, no entanto, tinham dificuldade de consumir por causa
de seus longos bicos. Sapos e lagartos não eram do seu feitio. O único
consolo para sua tribulação era o poder de voar, e por isso voavam com
frequência sobre os tetos de Bagdá para ver o que andava acontecendo
na cidade.
Nos primeiros dias perceberam desordem e perturbação nas ruas,
mas no quarto dia, pousados no teto do palácio, viram passar na rua
abaixo uma procissão cheia de pompa e esplendor. Tambores e trompe-
tes ressoavam; um homem de manta escarlate, com bordados de ouro,
montava um cavalo ornado com um esplêndido xairel e rodeado de es-
cravos ricamente vestidos; metade de Bagdá se amontoava atrás dele, e
todos na multidão gritavam “Ave Mirza, senhor de Bagdá!”.
As duas cegonhas postadas no telhado do palácio se entreolharam, e
o Califa Cassid falou:
— Adivinhaste agora, Grão-Vizir, o motivo por que fui enfeitiçado?
Este Mirza é filho de meu inimigo mortal, o grande feiticeiro Caxenur,
que num momento de pura maldade jurou vingar-se de mim. Mesmo
assim não entrarei em desespero! Vem, meu fiel amigo; dirijamo-nos
à tumba do Profeta, que talvez naquele lugar sagrado a maldição se
dissipe.
Desprenderam-se do telhado do palácio e alçaram voo em direção a
Medina.
Porém, voar não foi uma tarefa tão simples, já que as duas cegonhas
ainda não tinham muita prática.
— Por Alá! – exclamou o vizir, ofegante depois de algumas horas. –
Já não posso mais; você voa demasiado rápido para mim. Ademais, o sol
já está para se pôr, e temos que achar algum lugar onde passar a noite.
A Cassid pareceu boa a sugestão de seu súdito; divisando no vale abai-
xo umas ruínas que pareciam oferecer abrigo, rumaram para lá. O edifício

65
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

em que tencionavam passar a noite parecia ser um antigo castelo. Belas


colunas continuavam de pé em meio a escombros; vários aposentos, ainda
bem preservados, davam indícios de seu antigo esplendor. Cassid e seu
companheiro perambulavam os corredores do castelo em busca de algum
lugar enxuto, quando, subitamente, Mansur se deteve.
— Meu senhor – sussurrou –, se não fosse absurdo que um grão-vizir,
e mais ainda uma cegonha, tivesse medo de fantasmas, eu teria medo
agora mesmo, pois alguém ou alguma coisa perto de mim suspirou e
gemeu de maneira bastante audível.
O califa parou também e conseguiu distinguir um débil pranto que
mais parecia vir de um ser humano do que de um animal. Com a
curiosidade à flor da pele, estava prestes a ir até o lugar de onde vi-
nha o som plangente, quando o vizir o prendeu pela asa com o bico,
implorando que não se expusesse a um perigo novo e desconhecido.
Porém o califa, em cujo peito de cegonha batia um coração valente,
arrancou-se ao bico do vizir com prejuízo de algumas penas e seguiu
em frente, ao longo de um corredor escuro. No fim dele, topou com
uma porta entreaberta, através da qual chegavam a seus ouvidos uns
suspiros entrecortados de soluços. Empurrou a porta com o bico, mas
não conseguiu tirar a pata da soleira, espantado que ficou do que se
apresentava diante dos seus olhos. No chão daquela câmara em ruínas,
que era frouxamente entreluzida por uma janelinha gradeada, estava
sentada uma grande coruja. Grossas lágrimas rolavam de seus olhos
largos e redondos; através do bico deformado, resmungava roucas la-
múrias. Assim que viu o califa e o vizir – pois no entremeio este insi-
nuara-se atrás de seu soberano – soltou um brado de alegria. Enxugou
as lágrimas com suas asas castanhas e, para espanto das duas cegonhas,
saudou-as em árabe impecável.
— Bem-vindas, ó cegonhas! Sois um sinal propício do meu livra-
mento, pois me foi vaticinado que a boa fortuna recairia sobre mim por
meio de uma cegonha.
Assim que se recobrou da surpresa, o califa ajeitou a postura, inclinou
seu longo pescoço, e disse:

66
A história do Califa Cegonha

— Ó Coruja! Tuas palavras me levam a crer que somos vítimas do


mesmo infortúnio. Mas – ai de mim! – a tua esperança, de com nossa
ajuda te livrares da tua maldição, é de todo vã. Saberás como estamos
perdidos quando ouvires o que aconteceu conosco.
A coruja suplicou que lho contasse, e o califa contou tudo o que le-
mos até aqui.

IV

Quando o califa terminou a história, a coruja lhe agradeceu e disse:


— Ouvi agora minha história, e persuadi-vos de que minha fortuna
não é menos infeliz que a vossa. Meu pai é o Rei da Índia, e eu, sua filha
única, me chamo Lusa. Caxenur, o mago que vos enfeitiçou, é autor
também de meu infortúnio. Certo dia ele chegou a meu pai e exigiu
que desse minha mão em casamento a Mirza, seu filho. Meu pai, que é
um tanto impulsivo, mandou lançá-lo escada abaixo. O desgraçado não
tardou a se aproximar de mim sob outra figura, e certo dia, quando eu
estava no jardim, o mago, disfarçado de escravo, me deu de beber uma
poção que me transformou instantaneamente nesta criatura horrenda.
Enquanto eu desfalecia, incapaz de encarar aquele horror, ele me trans-
portou a este lugar, e exclamou, na sua voz sinistra: “Aqui permanecerás,
sozinha e medonha, desprezada mesmo pelas bestas, até o fim de teus
dias, ou até que alguém, de livre e espontânea vontade, te peça em casa-
mento. Assim me vingo de ti e da soberba de teu pai”. Desde então mui-
tos meses se passaram, e eu vivo aqui, triste e sozinha, como um ermitão,
no interior desta cela; o mundo inteiro me evita, e até os animais fogem
de mim; vedado está a meus olhos tudo o que há de belo na natureza,
pois sou cega durante o dia, e é apenas em certas noites, quando a lua
derrama sua baça claridade neste canto, que o véu cai de meus olhos, e
recobro a visão.
A coruja parou de falar e mais uma vez levou a asa aos olhos para
enxugá-los, pois a narração de seus males lhe havia arrancado novas
lágrimas.

67
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Ruminando no pensamento a história que acabara de ouvir, disse o


califa:
— Ao que tudo indica, há algum vínculo misterioso entre os nossos
infortúnios; a questão é como desvendar este mistério.
A coruja replicou:
— Ó, meu bom senhor! Eu também tenho certeza disso, pois na
minha tenra infância uma sábia augurou que uma cegonha me traria
grande felicidade; e acho que sei como nos salvaremos.
O califa, muito surpreso, perguntou o que ela tinha em mente.
— O mago que é autor da nossa miséria – respondeu – vem uma vez
por mês a estas ruínas. A pouca distância deste aposento há um amplo
salão em que ele costuma repastar com seus amigos. Observei-os várias ve-
zes e os ouvi gabar-se de seus malefícios. É possível que no próximo ban-
quete a palavra mágica de que Vossa Alteza se esqueceu seja mencionada.
— Ó, caríssima Princesa! – exclamou o califa. – Dize lá, quando vem
o mago, e onde fica o salão?
A coruja refletiu por alguns instantes e então disse:
— Não quero que penses mal de mim, mas só o revelarei sob uma
condição.
— Fala, fala! – exclamou Cassid. – Dá as tuas ordens, que eu cumpri-
rei de bom grado o que desejares.
— Pois bem – replicou a coruja –, como vês, eu também quero livrar-
-me desta condição; mas isso só pode ocorrer se um de vós me der a sua
mão em casamento…
Sentindo-se as cegonhas um tanto acuadas pela sugestão, acenou o
califa ao vizir que se retirassem brevemente para deliberar. Já do lado de
fora da câmara, disse o califa:
— Meu Grão-Vizir, sei como é enfadante esta situação, mas podes
ficar com a princesa.
— Por certo! – respondeu o vizir. – Para que a patroa me arranque
os olhos com as unhas quando eu chegar em casa! Ademais, já sou um
velho, e Vossa Alteza, que é jovem e solteiro, seria um partido muito
melhor para uma donzelinha graciosa.

68
A história do Califa Cegonha

— Aí que está – murmurou o califa, as tristes asas abatendo –; como


sabes que a princesa é uma donzela graciosa? Para mim isto é comprar
gato por lebre.
A discussão se estendeu por um tempinho, até que, percebendo en-
fim o califa que o vizir preferiria se manter cegonha para sempre a se
casar com a coruja, decidiu satisfazer as condições ele mesmo, para re-
gozijo da princesa. Ela reconheceu que os dois não poderiam ter vindo
em melhor hora, visto que os magos muito provavelmente se reuniriam
naquela mesma noite.
Tomou então a dianteira para conduzi-los ao tal salão. Percorreram
um corredor longo e escuro até que, a poucos metros de distância, viram
surgir à sua frente um raio de luz que penetrava no corredor através
de uma fenda na parede. Ao se aproximarem, a coruja os aconselhou a
manterem silêncio. Através daquela brecha era fácil inspecionar o sa-
lão inteiro. Adornavam-no colunas elegantes e ricamente talhadas; um
sem-número de luminárias coloridas substituía a luz do dia. No centro
do salão ficava uma mesa redonda coberta de várias iguarias, e ao redor
dela um longo divã, onde estavam sentados oito homens. No meio deles
as duas cegonhas reconheceram o vendilhão que lhes vendera o rapé
mágico. O homem ao seu lado o instava a relatar seus feitos mais recen-
tes, dentre os quais contou também a história do califa e do vizir.
— E que tipo de palavra deste a eles? – perguntou outro velho fei-
ticeiro.
— Uma palavra latina bastante difícil: mutabor.

As cegonhas, assim que ouviram esta palavra, extasiaram-se. Cor-


reram com tal presteza à entrada do castelo, que a coruja mal os pôde
acompanhar. Quando lá chegaram, o califa se voltou para a princesa e
lhe disse, com especial afeto:
— Redentora minha e de meu amigo, como prova de minha eterna
gratidão, aceita-me por marido.

69
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Voltou-se então para o Oriente. Três vezes curvaram seus longos pes-
coços em direção ao sol, que recém vinha surgindo por trás das monta-
nhas. “Mutabor!”, gritaram ambos, e no mesmo instante estavam trans-
formados. Extasiados por terem recebido vida nova, caíram nos braços
um do outro em meio a riso e choro. E quem poderá descrever o estupor
que os acometeu quando finalmente se viraram e enxergaram atrás de si
uma belíssima donzela, vestida de trajes os mais garbosos?
Com um sorriso nos lábios, a donzela estendeu sua mão para o califa
e perguntou:
— Vossa Alteza não reconhece sua coruja?
Era ela! Enfeitiçado pela beleza e graça de sua nova esposa, o califa
declarou que transformar-se em cegonha fora o azar mais feliz de sua
vida. Os três puseram-se em marcha para Bagdá. Felizmente, dentro do
seu cinturão, o califa encontrou não apenas a caixinha do rapé mágico,
como também seu moedeiro, de modo que conseguiram adquirir no vi-
larejo mais próximo tudo o que era necessário para a viagem, e em pouco
tempo alcançaram Bagdá. A chegada do califa causou grande sensação
na cidade. Fora tido por morto, de modo que agora todo o povo rejubi-
lava-se por ver retornar seu amado monarca.
Proporcional ao júbilo popular, contudo, era a raiva que o povo tinha
a Mirza, o usurpador. Marcharam todos até o palácio, derrubaram seus
portões, e prenderam o mago e seu filho. O califa mandou levarem o
mago ao quarto onde a princesa vivera seus dias de coruja e ordenou
que ali fosse enforcado. Ao filho, no entanto, que nada sabia dos crimes
de seu pai, deu a opção de escolher entre a morte e uma pitada do rapé.
Ao optar pelo rapé, recebeu a caixinha das mãos do grão-vizir, e bastou
uma pitada para ser transformado em cegonha. O califa então mandou
prendê-lo numa gaiola e confiná-lo aos jardins do palácio.
O Califa Cassid viveu feliz por muitos anos ao lado da princesa, sua
esposa. As horas mais alegres de seus dias eram quando Mansur os vi-
sitava à tardezinha; e quando estava de bom humor, o califa abdicava
brevemente da própria dignidade para imitar os trejeitos do vizir quan-
do cegonha. Enrijecia as pernas e, grasnando, desfilava com certa gra-

70
A história do Califa Cegonha

vidade de um lado a outro do aposento, baixando o tronco em direção


ao Oriente, e repetindo aquele pranto inútil: “Mu… mu… mu…”. A
sultana e seus filhos se divertiam à beça com a palhaçada; mas quando o
califa prolongava demais o espetáculo, o vizir, sem deixar as gargalhadas
de lado, ameaçava contar à sultana o objeto da discussão que tiveram do
lado de fora da cela da Princesa Coruja.

71
O Relógio Encantado

ra uma vez um homem rico que tinha três filhos.


Quando eles cresceram, o pai enviou o mais velho
para viajar e correr o mundo, e três anos se passaram
até que a família tornasse a vê-lo. Então um dia ele
voltou, em trajes esplêndidos, e seu pai ficou tão sa-
tisfeito com seu sucesso, que preparou um grande
banquete em sua homenagem, fazendo questão de convidar todos os
parentes e amigos. Encerradas as comemorações, o segundo filho pediu
a permissão do pai para viajar e correr o mundo. O pai ficou muito sa-
tisfeito com o pedido e, entregando-lhe generosa soma de dinheiro para
cobrir as despesas, disse-lhe:
— Se te comportares tão bem quanto teu irmão, serás, como ele,
recebido com honrarias.
O jovem prometeu que se esforçaria, e sua conduta nos três anos
seguintes foi exatamente como deveria ser, sem tirar nem pôr. Então
voltou para casa, e seu pai ficou tão contente ao vê-lo que ofereceu um
banquete de boas-vindas ainda mais suntuoso que o anterior.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

O terceiro irmão, que se chamava Jenik, ou Joãozinho, era considera-


do o mais tolo dos três. Em casa, nada fazia além de sentar-se ao pé da
lareira e emporcalhar-se de cinzas. Todavia, também ele pediu permis-
são ao pai para viajar por três anos.
— Vai-te, se quiseres, idiota. Que proveito tirarás disso?
O rapaz não se ofendeu com os comentários do pai, na medida em
que obteve permissão para a viagem. O pai comemorou a partida do
filho, feliz por se livrar dele, e entregou-lhe uma boa quantidade de di-
nheiro para custear as necessidades.
Certo dia, durante uma de suas incursões, aconteceu de Joãozinho
cruzar uma campina onde alguns pastores de ovelhas estavam prestes
a sacrificar um cachorro. Rogou que não o matassem e que, em vez
disso, lhe dessem o animal para criar, no que foi prontamente atendi-
do. Então Joãozinho tomou novamente a estrada, seguido agora pelo
cachorro. Pouco mais à frente, deparou-se com um gato que alguém
estava a ponto de sacrificar. Implorou por sua vida, e o gato passou a
segui-lo. Por fim, em um outro local, salvou a vida de uma serpente,
que também lhe foi entregue, e agora formavam todos um quarteto –
o cachorro atrás de Joãozinho, o gato atrás do cachorro, e a serpente
atrás do gato.
Então a serpente disse a Joãozinho:
— Segue-me aonde eu for.
O caso era que, no outono, quando todas as serpentes se escondem
em suas tocas, aconteceu que justamente esta ia ao encontro de seu rei,
cujo império estendia-se sobre todas as serpentes.
Ela então acrescentou:
— Meu rei há de repreender-me por minha longa ausência; todos já
se recolheram para o inverno, e estou muito atrasada. Serei obrigada a
relatar-lhe todos os apuros por que passei, e como, sem a tua ajuda, eu
certamente teria morrido. O rei perguntará o que desejas como recom-
pensa. Dize-lhe sem falta que queres o relógio que fica dependurado na
parede. Ele tem toda sorte de propriedades maravilhosas; basta friccio-
ná-lo para obter qualquer coisa que desejares.

74
O Relógio Encantado

Dito e feito. Joãozinho assenhoreou-se do relógio e, tão logo partiu,


quis colocar suas virtudes à prova. Estava faminto, e pensou que seria
maravilhoso banquetear-se na campina com um pão fresquinho e um
bom pedaço de bife regado a uma garrafa de vinho. Friccionou o relógio
e, num piscar de olhos, estava tudo ali, diante dele. Imagina só sua alegria!
A noite caiu logo, e Joãozinho friccionou seu relógio, pensando que
seria muito agradável ter um quarto de dormir com uma cama confor-
tável e uma boa ceia. Num instante, tudo aquilo apareceu diante dele.
Depois da ceia, deitou-se na cama e dormiu até a manhã seguinte, como
todo homem digno. Então pôs-se a caminho da casa do pai, imaginando
o banquete que o esperaria. Regressando, porém, com as mesmas roupas
com que partira, seu pai irrompeu em fúria e recusou-se a fazer qualquer
coisa por ele. Joãozinho recolheu-se ao seu velho canto, junto à lareira, e
encardiu-se com as cinzas, sem que ninguém lhe desse a mínima.
No terceiro dia, sentindo-se bastante entediado, pensou que bom se-
ria ver uma casa de três andares repleta de bela mobília, ornada com va-
sos de ouro e prata. Friccionou o relógio e… pronto! lá estava. Joãozinho
saiu à procura de seu pai e lhe disse:
— Não me ofereceste um banquete de boas-vindas, mas permite-me
que te ofereça um; vem, que te mostro minha prataria.
O pai ficou muito admirado e quis saber de onde o filho obtivera ta-
manha riqueza. Joãozinho não lhe respondeu, mas pediu que convidasse
todos os conhecidos e amigos para um grandioso banquete.
Então o pai convidou toda a gente, e todos ficaram maravilhados de
ver tantas coisas suntuosas, toda aquela prataria e tantos pratos finos
dispostos sobre a mesa. Servida a entrada do jantar, Joãozinho pediu ao
pai que convidasse o rei e sua filha, a princesa. Friccionou o relógio e de-
sejou uma carruagem adornada de ouro e prata, puxada por seis cavalos,
com arreios reluzentes crivados de pedras preciosas. O pai não se atreveu
a sentar-se em tão esplêndido coche, mas foi a pé até o castelo. O rei
e sua filha ficaram muito impressionados com a beleza da carruagem e
nela subiram sem demora, rumo ao banquete de Joãozinho. Ele então
friccionou o relógio outra vez e desejou que, por seis milhas, o caminho

75
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

até a casa fosse pavimentado de mármore. O deslumbramento do rei era


sem precedentes, pois jamais percorrera uma estrada tão bela.
Quando Joãozinho ouviu o ruído das rodas da carruagem, esfregou
as mãos contra o relógio e desejou uma casa ainda mais maravilhosa,
com quatro pavimentos, revestida de ouro, prata e damasco e repleta de
belíssimas mesas sobre as quais dispunham-se finos pratos, jamais ex-
perimentados por rei algum no mundo. O rei, a rainha e a princesa nem
sabiam o que dizer, tamanha foi sua surpresa. Jamais tinham visto palá-
cio tão esplêndido, nem um banquete tão luxuoso. Quando a sobremesa
foi servida, o rei manifestou ao pai de Joãozinho o desejo de ter o rapaz
por genro. Dito e feito. O casamento se fez ali mesmo, e o rei voltou para
o seu palácio, deixando Joãozinho e sua nova esposa na casa encantada.
Ora, Joãozinho não era lá muito inteligente e, depois de pouco tem-
po, começou a aborrecer a esposa. Ela indagou-lhe como conseguira
construir palácios e obter tantos bens preciosos. Ele então revelou tudo
sobre o relógio, e a esposa não descansou enquanto não conseguiu sub-
trair-lhe o precioso talismã. Certa noite, ela tomou o relógio, friccio-
nou-o e desejou uma carruagem puxada por quatro cavalos, e, uma vez
instalada no coche, tomou imediatamente o rumo do palácio de seu pai.
Lá chegando, chamou por seus criados, ordenou que a acompanhassem
na carruagem e seguiu direto para o lado da costa. Então friccionou o
relógio e desejou que uma ponte cruzasse o mar, e que no meio dele sur-
gisse um magnífico palácio. Dito e feito. A princesa entrou no castelo e
esfregou as mãos contra o relógio, e num instante a ponte desapareceu.
Abandonado, Joãozinho sentiu-se extremamente infeliz. Seu pai, sua
mãe e seus irmãos – e, na verdade, toda a gente – ria-se dele. Nada lhe
restava senão o gato e o cachorro cujas vidas ele salvara. Tomou-os con-
sigo e foi-se embora para longe, pois já não podia viver com a família.
Chegou afinal a um deserto e viu alguns corvos que voavam em direção
a uma montanha. Um deles havia ficado para trás, e, quando enfim al-
cançou o bando, seus irmãos perguntaram por que se atrasara tanto.
— O inverno se aproxima – disseram eles –, é hora de voar para ou-
tras paragens.

76
O Relógio Encantado

O corvo contou-lhes que vira, no meio do oceano, o mais maravilho-


so palácio jamais construído.
Ao ouvir isso, Joãozinho imediatamente concluiu que se tratava do
esconderijo de sua esposa. Sem mais tardar, pôs-se a caminho da costa,
acompanhado de seu cachorro e seu gato. Ao chegar à praia, disse ao
cachorro:
— És um exímio nadador; e tu, pequeno, és bastante leve. Monta nas
costas do cachorro, e ele te levará ao palácio. Quando chegardes, ele se
esconderá próximo à porta, e tu hás de entrar furtivamente no castelo e
resgatar meu relógio.
Dito e feito. Os dois animais cruzaram o oceano; o cachorro escon-
deu-se próximo ao palácio, e o gato penetrou sorrateiramente em um
aposento. A princesa reconheceu-o e adivinhou por que ele viera. Levou
o relógio para o porão e trancou-o em uma caixa. Mas o gato se espre-
meu tanto que conseguiu penetrar no porão, e, mal a princesa virou as
costas, o bicho arranhou a caixa até fazer-lhe um furo. Apanhou o re-

77
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

lógio com os dentes e aguardou pacientemente que a princesa voltasse.


Mal ela abriu a porta, o gato furtou-se para fora levando o relógio.
Assim que cruzou os portões, disse ao cachorro:
— Agora cruzaremos o oceano; cuida para não me dirigires a palavra.
O cachorro manteve isso em mente e permaneceu calado. Porém, ao
se aproximar da praia, não resistiu e perguntou:
— Trazes o relógio?
O gato não respondeu, pois temia deixar cair o talismã. Ao alcançar
a praia, o cachorro reiterou a pergunta.
— Sim – respondeu o gato.
E o relógio caiu no mar. Então nossos dois amigos começaram a
trocar acusações, e ambos olhavam pesarosamente para o local onde seu
tesouro havia caído. De repente, um peixe apareceu à beira-mar. O gato
o apanhou e pensou que daria um belo jantar.
— Tenho nove filhinhos – disse o peixe. – Poupa a vida de um pai
de família!
— Certamente – respondeu o gato –, desde que encontres nosso
relógio.
O peixe assim o fez, e o relógio retornou ao seu dono. Joãozinho
friccionou-o e desejou que o palácio, a princesa e todos os seus habitan-
tes fossem engolidos pelo oceano. Dito e feito. Joãozinho voltou para o
convívio de seus pais, e viveram todos – ele com seu relógio, seu gato e
seu cachorro – juntos e felizes até o fim de seus dias.*

* Charles Deulin.

78
Rosanela

odo mundo sabe que, apesar de as fadas viverem


centenas e centenas de anos, às vezes elas também
morrem, e especialmente porque são obrigadas a
passar um dia inteirinho por semana sob a forma
de algum bicho; e aí, é claro, ficam à mercê de toda
sorte de acidentes. Foi assim que, certa feita, a morte
pegou de surpresa a Rainha das Fadas, e se fez necessário convocar uma
assembleia geral para a eleição de uma nova soberana. Após muito se de-
liberar, segundo tudo indicava havia no páreo duas fadas: a primeira cha-
mada Surcantina; a segunda, Paridâmia. E os méritos de uma e de outra
estavam tão a par que seria impossível eleger uma sem fazer injustiça à
outra. Assim, pois, por unanimidade foi acordado que a rainha haveria de
ser quem das duas conseguisse mostrar ao mundo a maior maravilha de
todas. Mas a maravilha tinha de ser especial; nada de se jogar montanhas
para lá e para cá ou algum outro truque de fada desses que a gente tanto
vê por aí. Surcantina, portanto, resolveu que iria tomar sob seus cuidados
e criar um príncipe que, de tão volúvel, nada no mundo poderia tornar
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

constante. Enquanto Paridâmia decidiu, por sua vez, mostrar aos mortais
boquiabertos uma rainha que de tão encantadora, ninguém no mundo
poderia ver sem se apaixonar. Acordou-se também que ambas poderiam
levar nisto quanto tempo lhes fosse necessário, pois no ínterim o reino
seria governado pelas quatro fadas mais anciãs.
Ora, Paridâmia era uma velha e boa amiga do Rei Barbandão, mo-
narca dos mais hábeis, cuja corte era um exemplo de perfeição para to-
das as outras cortes. A sua rainha, Balanice, era também muitíssimo
encantadora; a dizer a verdade, é muito raro encontrar um marido e
uma esposa que se entendam assim tão bem. Tinham uma filha peque-
na, à qual haviam chamado “Rosanela”, pois que tinha uma pequena
rosa desenhada na garganta alva. Desde a mais tenra infância, Rosanela
demonstrara uma inteligência espantosa, e a gente da corte sabia-lhe as
frases espertas de cor, repetindo-as sempre que podiam.
No meio da noite que se seguiu à assembleia das fadas, a Rainha Ba-
lanice acordou de súbito, soltando um grito alto e muito agudo. Quando
as suas criadas vieram correndo acudi-la, descobriram que a senhora
tivera um sonho horripilante.
— Eu sonhei – disse ela – que a minha filhinha havia se transforma-
do num buquê de rosas, e, enquanto segurava-a em minha mão, veio de
supetão uma ave, arrancou-a de mim e a levou embora.
— Correi e averiguai se vai tudo bem com a princesa – acrescentou ela.
E lá se foram as criadas, correndo até a princesa; mas qual não foi
o desespero quando viram que o berço estava vazio! E posto que hou-
vessem procurado em todo canto e recanto, não puderam encontrar
nenhum sinal de Rosanela. A rainha ficou inconsolável, e não menos
o rei, que só não deixava transparecer tanto a tristeza por ser homem
e não falar muito sobre seus temores. Propôs então à Balanice que
fossem passar alguns dias num dos palácios que tinham no campo;
coisa que a senhora aceitou sem demora e de bom grado, pois toda a
farra e alegria da cidade já não lhe caíam bem, angustiada como estava.
Numa tarde adorável de verão, em que o rei e a rainha estavam senta-
dos à sombra num pedaço de gramado cujo formato, donde irradiavam

80
Rosanela

81
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

doze esplêndidas alamedas de árvores, era como uma estrela, a Rainha


correu o olhar paisagem afora e viu que doze camponesinhas muito
formosas vinham se aproximando, cada uma por uma das alamedas; e,
o que era ainda mais peculiar, cada uma a carregar uma cesta que pa-
recia tomar-lhes toda a atenção. Uma a uma, foram as camponesinhas
deixando aos pés de Balanice a cesta, dizendo:
— Ó encantadora rainha, que isto vos possa servir de consolação em
vossa tristeza!
Afobada que só, a rainha pôs-se a abri-las, e em cada uma das cestas
deparou com uma bebezinha encantadora, lá pela mesma idade da prin-
cesa pela qual chorava tão amargamente. A princípio, as bebezinhas só o
que fizeram foi renovar-lhe a tristeza; a pouco em pouco, porém, tamanho
foi o seu encanto pelas nenês, que ela se esqueceu da melancolia em meio
à correria para conseguir-lhes babás, criadas que balançassem seus berços
e damas de companhia, e em meio ao vaivém de gente a carregar balanços
para bebê, e bonecas, e piões, e uma fartura das melhores guloseimas.
O curioso é que cada bebezinha tinha também na gargantinha uma
rosa minúscula. De tão difícil que estava sendo escolher nomes apro-
priados a todas, a rainha decidiu escolher em vez de um nome uma cor
até a coisa ser resolvida, o que resultou em nenês que, quando juntas,
mais pareciam um buquê de flores radiantes. À medida que foram en-
velhecendo, apesar de igualmente inteligentes e bem instruídas, foi-se
tornando claro que tinham disposições muito diferentes entre si. Assim,
pois, aos poucos se foi deixando de chamar-lhes “Lilás”, ou “Âmbar”, ou
seja lá qual era a cor que lhes cabia, e a rainha em vez disso dizia: “Onde
está a minha Doce?” – ou “minha Beleza”, ou “minha Alegria”.
É claro que com tantos e tão variados encantos choviam-lhe preten-
dentes. E não apenas gente ali da corte, como também príncipes vindos
de muito, muito longe, lá chegavam sem parar, atraídos pelos rumores já
famosos; mas estas garotas encantadoras, as primeiras Damas de Honra,
eram tão discretas quanto lindas, e não favoreciam a ninguém.
Mas voltemos à Surcantina. Esta havia tomado para si o filho de um
rei, primo de Barbandão, a fim de criá-lo como o seu príncipe incons-

82
Rosanela

tante. Antes, no batismo do rapaz, ela lhe dera quantas graças e dotes
de mente e corpo poderiam ser necessários a um príncipe; agora, porém,
redobrara os esforços e não poupara suor e trabalho para acrescentar-
-lhe todo e qualquer charme e fascínio imaginável. Logo, calhasse ele de
estar emburrado ou afável, vestido esplendidamente ou com a primeira
roupa que vira pela frente, sério ou frívolo, era sempre e invariavelmente
irresistível! A bem dizer, era um rapaz encantador, pois a fada lhe dera
não só o melhor coração como a melhor cabeça no mundo, e não deixara
espaço para se desejar nada ali – nada, a não ser a constância. Pois não
se pode negar que o Príncipe Mirliflor era um namoradeiro incorrigível,
tão volátil quanto o vento; e tanto era assim que, ao completar dezoito
anos, já não restava um só coração no reino de seu pai que não fora por
ele conquistado – eram todos seus, e para ele todos igualmente uma
maçada! Eis aí como andavam as coisas quando lhe fizeram um convite
para visitar a corte do primo de seu pai, o Rei Barbandão.
Imagine como se sentiu o príncipe ao lá chegar e ser apresentado
de uma só vez a doze das criaturas mais encantadoras que já houve no
mundo, embaraço que lhe foi ainda pior pelo fato de o apreço ser recí-
proco, de maneira que, a partir daí, ele não podia mais ser feliz se ficasse
um só minuto sem a companhia delas. Pois não podia ele cochichar
maviosidades à Doce e rir com a Alegria enquanto fitava a Beleza? E,
nos momentos mais sérios, o que poderia ser mais prazenteiro do que
conversar com a Solene à sombra de alguma árvore, enquanto trazia
pousada sobre a sua a mão da Amável, enquanto as demais lhes ficavam
perto, num silêncio feliz e obsequioso? Amava pela primeira vez em sua
vida um amor verdadeiro, muito embora o objeto de sua devoção fos-
sem doze pessoas – às quais estava igualmente afeiçoado – e não uma
só. Até mesmo Surcantina foi ludibriada e jurava de pés juntos que se
tinha ali, enfim, o auge da inconsistência. Paridâmia, por sua vez, não
dizia uma palavra.
Foi em vão que o pai do Príncipe Mirliflor lhe escreveu ordens para
retornar, propondo-lhe um bom partido atrás do outro. Nada no mundo
poderia separá-lo de suas doze musas.

83
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Um dia, a Rainha deu uma grande festa no jardim, e quando os con-


vidados todos estavam já reunidos, e o Princípe Mirliflor como de praxe
estava a repartir sua atenção entre as doze adoráveis garotas, ouviu-se de
súbito um zunido de abelhas. As damas róseas, espavoridas pelos fer-
rões, soltaram gritinhos esganiçados e fugiram correndo, todas juntas,
para longe do resto do grupo. Imediatamente, e para o horror de todos,
as abelhas se puseram a persegui-las, crescendo repentinamente até se
tornarem gigantescas; com as pernas cada uma delas agarrou uma das da-
mas e a carregou voando até o céu, e daí a pouco sumiram de toda a vista.
Tal incidente fantástico lançou toda a corte na mais profunda tribulação,
e o Príncipe Mirliflor, após de início dar vazão à mais violenta agonia, foi
depois aos poucos sucumbindo e se deixando levar por um abatimento
tamanho que se temia o pior, caso não se encontrasse algo para alentá-
-lo. Surcantina veio às pressas tentar fazer algo por seu querido, mas ele
desdenhava e fazia pouco caso de todos os retratos das princesas encan-
tadoras que ela lhe mostrava. Em suma, estava claro que o príncipe ia
mal e que à fada já não restavam muitos truques na varinha. Certo dia,
enquanto andava por aí mergulhado em cogitações melancólicas, ouviu
de repente gritos e exclamações de assombro, e lhe teria bastado um olhar
para cima a fim de se espantar como todo mundo, pois vinha vagarosa,
a se aproximar pelo céu como se soprada pela brisa, uma carruagem de
cristal que rebrilhava à luz do sol. Seis donzelas encantadoras, com asas
cintilantes, puxavam-na por meio de fitas róseas, enquanto outras tantas
mais, igualmente lindas, estavam a carregar longas guirlandas de rosas
que se lhe cruzavam acima, formando uma capota florida. Nela, estava
sentada a Fada Paridâmia, e, ao seu lado, uma princesa, cuja beleza have-
ria de deslumbrar a quem quer que a visse. Desceram aos pés da grande
escadaria e subiram até os aposentos da rainha, ainda que todos houves-
sem corrido juntos e ali se apinhado a fim de ver a maravilha, até que se
tornou um tanto difícil atravessar a multidão, e exclamações de espanto
surgiam de todo o canto a respeito da finura da estranha princesa.
— Grande rainha – disse Paridâmia –, permiti-me restaurar-vos
vossa filha Rosanela, a qual roubei de vosso berço.

84
Rosanela

Após os primeiros arroubos de alegria, perguntou a rainha à Paridâmia:


— Mas e quanto às minhas doze queridas, perdi-as para sempre?
Nunca poderei vê-las de novo?
Paridâmia, porém, respondeu-lhe apenas
— Logo logo não mais sentireis a falta delas! — num tom que evi-
dentemente queria dizer “Não me façais mais perguntas”. E então, en-
trando uma vez mais em sua carruagem, desapareceu.
A notícia da chegada de sua prima logo chegou ao príncipe, que,
porém, quase não teve forças para ir vê-la. No entanto, fazia-se absolu-
tamente necessário prestar-lhe as honras. Mal ficou ele cinco minutos
na sua presença, e já lhe pareceu que a senhora reunia em sua própria
pessoa encantadora quantos dotes e graças havia nas doze damas róseas
cuja perda tão sinceramente lamentara; e, afinal de contas, é realmente
muito mais satisfatório dedicar o amor a uma pessoa por vez. Assim,
pois, sucedeu que, antes mesmo de saber onde estava, já o príncipe
pedira a mão de sua prima; e, no momento mesmo em que as palavras
lhe estavam a sair dos lábios, eis que surgiu Paridâmia, risonha e triun-
fante, na carruagem da Rainhas das Fadas, pois, àquelas tantas, todos já
sabiam de seu triunfo, e o trono já lhe fora dado. Ela teve de explicar,
tintim por tintim, como roubara Rosanela de seu berço e a dividira em
doze partes, a fim de que cada uma delas pudesse conquistar o Príncipe
Mirliflor e, novamente reunidas, curar-lhe a inconstância de uma vez
para sempre.
E, a fim de fornecer ainda mais uma prova de como era fascinante
Rosanela em sua inteireza, digo-vos que até mesmo a derrotada Surcan-
tina enviou-lhe um presente de casamento, e participou aliás da cerimô-
nia, que aconteceu logo que todos os convidados conseguiram ali chegar.
O Príncipe Mirliflor foi perfeitamente constante pelo resto de sua vida.
E, de fato, quem no seu lugar não o teria sido? Quanto a Rosanela, esta
o amou tanto quanto as doze donzelas juntas, e reinaram os dois em paz
e alegria pelo resto de suas longas vidas.*

* Conde de Caylus

85
Silvano e Jocosa

ra uma vez um vilarejo em que viviam duas crian-


ças. Uma se chamava Silvano, a outra se chamava
Jocosa, e eram ambas de singular beleza e inteligên-
cia. Os pais delas, contudo, eram desafetos de longa
data, e muito embora os motivos da contenda já es-
tivessem há tempos esquecidos, a rixa se mantinha
pela força do hábito. Silvano e Jocosa, no entanto, longe de tomar parte
nessa inimizade, só se sentiam felizes ao lado um do outro. Dia após
dia apascentavam juntos seus rebanhos e passavam as horas ensolaradas
brincando ou descansando à sombra de um barranco. Certa vez, a Fada
das Pradarias os viu a brincar, e tanto se encantou com seus belos rostos e
trejeitos delicados que os colocou sob sua proteção; à medida que os dois
cresciam, crescia também a afeição que a fada tinha por eles. No come-
ço, ela manifestava seu afeto deixando nos lugares favoritos das crianças
muitos presentinhos, que as duas se deleitavam de dar uma à outra; com
efeito, amavam-se tanto que suas primeiras considerações eram sempre
“Do que gostará Jocosa?” ou “O que agradará Silvano?”; e deleitava-se a
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

própria fada com o prazer inocente que seus bolos e guloseimas cotidia-
nas lhes proporcionavam. Quando os dois cresceram, querendo a fada se
tornar deles conhecida, apresentou-se enquanto descansavam, protegidos
do sol do meio-dia, à sombra de uma sebe floreada. No primeiro mo-
mento, a aparição daquela senhora alta e esbelta, vestida toda de verde e
coroada de flores, os sobressaltou. Mas quando a fada lhes dirigiu uma
voz doce e lhes confessou seu antigo amor, revelando-se autora de todos
aqueles lindos presentinhos que tanto os surpreendera ao longo dos anos,
eles lhe agradeceram de coração, e se compraziam de responder às per-
guntas que a fada lhes fazia. Pouco depois, ao se despedir, ela lhes disse
para não contarem a ninguém que a tinham visto.
— Ver-me-eis muitas outras vezes ‒ acrescentou –, e muitas outras
vezes estarei convosco, mesmo quando não me puderdes ver.
Ditas estas palavras, desapareceu, deixando maravilhados a Silvano
e Jocosa. Depois desse dia, a fada passou a visitá-los com frequência,
ensinou-lhes muitas coisas e lhes mostrou as várias maravilhas de seu
belo reino, até que um dia lhes disse:
— Sabeis que sempre fui generosa convosco; agora é tempo que fa-
çais algo por mim. Lembrais-vos daquela fonte que eu disse ser a minha
favorita? Prometei a mim que todas as manhãs, antes do nascer do sol,
ireis até ela e removereis de lá todas as pedras que impeçam seu curso,
e todas as folhas e gravetos que turvem suas águas cristalinas. Tomarei
como prova de vossa gratidão se jamais negligenciardes ou adiardes esse
compromisso, e vos prometo que, enquanto os primeiros raios do sol
encontrarem em minha fonte favorita as águas mais límpidas e puras de
todos os meus prados, nunca vos separareis.   
Silvano e Jocosa assumiram de boa vontade o compromisso e reco-
nheceram que era um preço pequeno a pagar por tudo o que a fada lhes
dera e ainda prometera dar. Por muito tempo, cuidaram da nascente
com grande escrúpulo, conservando-a a mais límpida e formosa de toda
a redondeza. Porém, certa manhã de primavera, muito antes que o sol
nascesse, enquanto corriam em direção à fonte desde partes contrárias
do campo, Silvano e Jocosa se deixaram atrair pela beleza e varieda-

88
Silvano e Jocosa

de das flores que ornavam seus arredores; então pararam e resolveram


colhê-las para dar de presente um ao outro.
“Farei para Silvano uma guirlanda”, disse Jocosa; “Esta coroa de flo-
res cairá tão bem em Jocosa!”, pensou Silvano.
Enquanto os dois, desgarrados de seu caminho, se afastavam cada
vez mais da fonte, vendo sempre flores mais bonitas alguns passos à
sua frente, foram surpreendidos pelos primeiros raios da manhã. Saíram
correndo em direção à nascente e a alcançaram ao mesmo tempo, embo-
ra chegando desde lados opostos. Mas qual não foi o susto deles quando
viram suas águas, de regra tão tranquilas, revoltarem-se férvidas e bor-
bulhantes? E logo, ao dirigirem o olhar para baixo, viram jorrar imensa
correnteza, que não tardou a engolir a nascente inteira; em questão de
segundos, Silvano e Jocosa acharam-se apartados por um rio largo e
impetuoso. E tudo aconteceu com tal velocidade que os dois só tiveram

89
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

tempo de proferir um grito de angústia, e erguer, cada um a seu lado do


rio, as flores que tinham colhido um para o outro; mas esse pouco bastou
para entenderem tudo. Vinte vezes Silvano lançou-se às águas turbulen-
tas na esperança de atravessá-las a nado, mas todas as vezes um repuxo
invencível o levava de volta à margem da qual se atirara; Jocosa, do seu
lado, experimentou atravessar a enchente agarrando-se a um tronco que
a correnteza arrancara junto com a raiz e escoara até a margem em que
ela estava, porém seus esforços foram igualmente vãos. Com os corações
pesarosos, puseram-se a seguir o curso do rio, a essa altura tão alargado
que os dois mal conseguiam enxergar-se um ao outro. Noite e dia, sobre
montanhas e através de vales, no frio e no calor, não poupavam esforços,
resistindo à fadiga, à fome e a dificuldades de toda ordem, consolados
apenas pela esperança de um dia se reencontrarem – até que finalmente,
passados três anos, pararam no penhasco onde o rio desembocava no
poderoso mar.
Sentiram-se então mais distantes do que nunca e, do alto de seu de-
sespero, tentaram mais uma vez atirar-se às ondas borbulhantes. Porém, a
Fada das Pradarias, que jamais cessara de velar por eles, não queria que se
acabassem afogados; prontamente, pois, agitou a varinha de condão, e, no
mesmo instante, os dois se viram lado a lado sobre as areias douradas da
praia. Podeis imaginar que alegria, que júbilo tomou posse deles quando
perceberam que seus esforços tinham chegado ao fim, e que satisfação
sentiram ao ver-se finalmente nos braços um do outro. Tinham tanto
a dizer que não sabiam por onde começar, mas estavam de acordo em
culpar-se amargamente por sua negligência, que lhes causara tantos so-
frimentos. Assim que ouviu isso, a fada apareceu. Jogaram-se aos pés dela
e imploraram-lhe perdão, que ela concedeu sem hesitar, jurando-lhes que
sua punição chegara ao fim, e lhes prometendo sua eterna amizade.
Convocou então sua carruagem entrelaçada de junco verde e orna-
da com gotas do orvalho de maio, as quais apreciava particularmente
e colhia sempre com especial cuidado; atrelou a ela suas seis toupeiras
e mandou que levassem Silvano e Jocosa de volta às pastagens que
conheciam tão bem, aonde chegaram em pouquíssimo tempo. Silvano

90
Silvano e Jocosa

e Jocosa regozijaram-se de rever seu amado lar depois de tanta desven-


tura. A fada, que se comprometera a assegurar-lhes em tudo a felicida-
de, na ausência deles dera um jeito de reconciliar seus pais, alcançando
até mesmo que aprovassem o casamento dos namorados fiéis. Levou
os dois ao chalé mais encantador que se possa imaginar, situado próxi-
mo à nascente, que, por sua vez, voltara ao estado pacífico de outrora e
agora escorria docemente no córrego que marcava os limites do jardim,
do pomar e das pastagens pertencentes ao chalé. Com efeito, não se
podia pensar em nada que faltasse nem a Silvano e Jocosa, nem a seus
rebanhos; e comprazia-se a fada – que tudo preparara para agradá-los
– com o deleite que via em seus olhos. Quando já tinham explorado e
se admirado de tudo até não poder mais, sentaram-se debaixo de seu
alpendre coberto de rosas, e a fada lhes disse que contaria uma histó-
ria para se distraírem até a chegada dos convidados do casamento. A
história era a seguinte:

O pássaro amarelo

Era uma vez uma fada que, por ter-se metido em travessuras, foi
condenada pelo Supremo Tribunal da Terra das Fadas a viver por lon-
gos anos transformada em algum bicho e, quando estivesse pronta para
voltar a sua aparência original, a propiciar fortuna a dois homens. Ficou
a seu arbítrio escolher a forma que assumiria, e, como gostasse da cor
amarela, transformou-se num belo passarinho de penas douradas e relu-
zentes, como jamais fora visto. Quando o período da condenação estava
para chegar ao fim, o lindo passarinho amarelo voou a Bagdá e deixou-se
capturar por um passarinheiro. Ora, naquele momento Badi-al-Zaman
caminhava de um lado a outro na frente do seu palácio de verão. Este
Badi-al-Zaman – cujo nome quer dizer “Maravilha do Mundo” – era
considerado em Bagdá a criatura mais afortunada da face da Terra gra-
ças a sua imensa riqueza. A verdade, porém, é que por causa do medo de
perder as riquezas, do fastio que sentia por todas as suas posses e da co-
biça incessante pelo que não possuía, Badi-al-Zaman jamais conhecera

91
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

um instante sequer de felicidade. Mesmo agora, ao sair do palácio, que


era amplo e esplêndido o bastante para satisfazer a cinquenta reis, estava
aborrecido e irritadiço por não encontrar nada que o entretivesse. O
passarinheiro viu nisto uma oportunidade de lhe oferecer o maravilhoso
passarinho, certo de que ele o compraria assim que o visse. E não estava
enganado, pois, quando Badi-al-Zaman tomou às mãos o adorável pri-
sioneiro, viu escrito, embaixo da asa direita, “Há de tornar-se rei quem
comer minha cabeça”, e, embaixo da asa esquerda, “Há de encontrar cem
moedas de ouro debaixo do travesseiro todas as manhãs quem comer
meu coração”; embora já nadasse em dinheiro, Badi-al-Zaman cobiçou
imediatamente o ouro prometido, e em pouco tempo as negociações
chegaram a termo. Surgiu-lhe então a seguinte dúvida: a quem con-
fiaria o cozimento do passarinho? Na horda de serviçais que tinha em
casa, não conhecia um só digno de confiança. Finalmente, perguntou ao
passarinheiro se era casado, e, ao ouvir que sim, pediu-lhe que levasse o
passarinho para casa e mandasse a mulher cozinhá-lo.
— É bem possível – falou Badi-al-Zaman – que esse passarinho me
desperte novamente o apetite, que há tempos já não sinto; se isso acon-
tecer, tu e tua mulher receberão cem moedas de prata.
O passarinheiro correu com grande alegria para casa e chamou a mu-
lher, que, em pouco tempo, preparou um delicioso ensopado de passari-
nho amarelo. Porém, quando Badi-al-Zaman entrou no chalé e começou
a procurar avidamente em seu prato a cabeça e o coração do passarinho,
não conseguiu encontrar nem um nem o outro e voltou-se enfurecido
contra a esposa do passarinheiro. A mulher sentiu tanto medo que caiu
de joelhos na frente dele e lhe confessou que, pouco antes de ele chegar,
seus dois filhos haviam entrado em casa e pediram com tanta insistência
um pouco da comida que estava na panela, que ela não hesitara em dar a
um a cabeça e a outro o coração do passarinho, tendo em vista que esses
cortes não são lá muito apreciados. Badi-al-Zaman tocou-se para fora
do chalé jurando vingança contra a família inteira. Não se deve zombar
das ameaças de um homem rico, por isso o passarinheiro e sua mulher,
preocupados com a segurança de seus filhos, decidiram que o melhor

92
Silvano e Jocosa

modo de mantê-los a salvo era mandá-los fugirem de casa. Mas a esposa,


para consolar o marido, confiou-lhe que havia dado aos filhos a cabeça e
o coração do passarinho de propósito, porque lera o que estava escrito de-
baixo das asas do bicho e sabia o que estava prometido a quem comesse
tais pedaços. Assim, crendo que a fortuna de seus filhos estava assegura-
da, abraçaram-nos mais uma vez e despediram-se deles, rogando que se
afastassem de casa o mais que pudessem, seguissem caminhos diferentes
e mandassem notícias sobre sua condição sempre que possível. Já os pais,
astutos que eram, disfarçaram-se e foram morar escondidos na cidade.
Não demorou, porém, para que, aborrecido e desgostoso com a perda
de seu cobiçadíssimo tesouro, Badi-al-Zaman finalmente morresse; o
passarinheiro e sua mulher, assim que ficaram sabendo disso, voltaram
para casa, onde ficaram à espera de notícias dos filhos. O mais novo, que
comera o coração do passarinho amarelo, logo descobriu os efeitos da-
quela refeição, pois todas as manhãs encontrava, debaixo do travesseiro,
um alforje com cem moedas de ouro. Porém (e sirva isto de consolo aos
pobres), nada no mundo ocasiona tantos aborrecimentos ou requer tan-
tos cuidados quanto a riqueza. O filho do passarinheiro, que se tornara
um notório esbanjador e levava a fama de possuir entesourados muitos
montões de ouro, não tardou a ser atacado por um bando de salteadores;
e, tentando se defender, foi ferido tão gravemente que morreu.
O irmão mais velho, que comera a cabeça do passarinho amarelo,
percorreu uma longa jornada sem topar com nenhuma aventura digna
de memória, até que, por fim, chegou a uma grande cidade da Ásia, que
estava em alvoroço por causa da eleição do novo emir. Todos os cidadãos
eminentes se haviam dividido em duas facções, e foi só depois de muita
querela que consentiram em eleger para emir aquele a quem aconteces-
se o caso mais extraordinário. Pois foi nessas circunstâncias que nosso
jovem peregrino, com expressão cortês no rosto e ar jovial, entrou na
cidade e, no mesmo instante, sentiu pousar algo na cabeça, que logo viu
ser uma pomba branca como a neve. Neste momento todos o fitaram e
sem demora puseram-se a marchar atrás do jovem; em breve ele se viu
às portas do palácio, com a pomba em sua cabeça e a cidade toda a seus

93
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

pés; e, sem ao menos saber onde estava, foi declarado emir, para seu
grande espanto.
Como não há nada mais prazeroso que dar ordens, nem nada que
passe a costume mais facilmente, o jovem emir não tardou a sentir-se
em casa em sua nova posição; nem por isso, contudo, deixou de cometer
toda espécie de erros e de desgovernar o reino a ponto de insurgir-se a
cidade inteira contra ele, privando-o de uma só vez da autoridade e da
vida – punição, aliás, amplamente merecida, porque nos dias de maior
prosperidade havia renegado o passarinheiro e à sua esposa, deixando
que morressem na pobreza.

— Meus caros Silvano e Jocosa – concluía a fada – contei-vos essa


história para provar que este humilde chalé, junto com todos os seus
pertences, é um presente muito mais apto a vos trazer felicidade e satis-
fação do que tantas outras coisas que, à primeira vista, poderiam parecer
melhores e mais desejáveis. Se me prometerdes que cultivareis vosso
campo e apascentareis vossos rebanhos, e que, desta vez, guardareis vossa
palavra mais fielmente, prometo que jamais vos faltará nada daquilo que
é para vosso bem.
Silvano e Jocosa deram sua palavra de honra e, como jamais a des-
cumprissem, gozaram de paz e prosperidade a vida inteira. A fada havia
convidado a todos seus amigos e vizinhos para o casamento, que foi
celebrado logo em seguida com grande alegria e festividade, e os dois
viveram por muitos e muitos anos, sem jamais arrefecer o amor que
tinham um pelo outro.*

* Conde de Caylus.

94
Dons de Fada

contece muitas vezes de o ambiente refletir com


maior ou menor precisão o espírito e as disposições
daqueles que o habitam, e talvez seja por isso que
a Fada-Flor vivia em um palácio lindíssimo, com
o mais agradável jardim que se possa imaginar,
repleto de flores, árvores, fontes, lagos de peixes e
tudo que era maravilha. Pois a fada era ela mesma tão doce e tinha tão
bom coração, que não havia quem não a amasse, e todos os príncipes
e princesas de sua corte sentiam-se tão felizes quanto era possível sê-
-lo, simplesmente por estar ao seu lado. Eles haviam-lhe sido confiados
ainda pequenos, jamais dela se afastando até que estivessem crescidos o
bastante para enfrentar o vasto mundo; e, chegada a hora de dizer adeus,
ela agraciava cada um com o dom que lhe pedissem.
Porém, a história que estais prestes a ouvir trata principalmente da
Princesa Sílvia. A fada a estimava de todo o coração, pois era ao mesmo
tempo um espírito imaginativo e nobre, e estava a ponto de atingir a
idade na qual os dons eram normalmente conferidos. Entretanto, a fada
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

desejava muito saber sobre o sucesso das princesas que haviam crescido
e partido e, antes que chegasse a hora de Sílvia também partir, deci-
diu enviá-la para visitar algumas delas. Então, certo dia a fada mandou
aprontar sua carruagem puxada por borboletas e disse:
— Sílvia, irás para a corte da princesa Íris, que com muito prazer há
de receber-te, tanto por consideração a mim, quanto por consideração a
ti mesma. Retornarás dentro de dois meses para relatar-me tua opinião
sobre ela.
Sílvia não queria partir, mas, sendo aquele o desejo da fada, não o
contestou. Transcorridos dois meses, galgou alegremente os degraus da
carruagem de borboletas, contando os minutos para rever a Fada-Flor, a
quem o reencontro causava igual satisfação.
— Agora, filha – disse ela –, conta-me sobre as impressões que tiveste.
— Enviaste-me, senhora, para a corte da Princesa Íris, agraciada
com o dom da beleza. Todavia, ela em nenhum momento mencionou
que foste tu quem lhe concedeste a formosura, muito embora mencione
sempre tua generosidade em geral. Pareceu-me que sua beleza, a qual
a princípio muito me impressionou, terminou por incapacitá-la para o
uso de quaisquer outros dotes ou encantos. Permitir que os outros a
contemplem parece ser, em sua opinião, tudo quanto se poderia lhe exi-
gir. Contudo, por infortúnio, durante minha visita a princesa caiu gra-
vemente doente e, apesar de ter-se recuperado, sua beleza desapareceu

96
Dons de Fada

por completo; ela agora detesta a própria aparência e vive inconsolável.


Pediu-me que te relatasse tudo quanto se passara e te implorasse que,
por piedade, devolvesse-lhe a beleza. E, de fato, eis aí algo de que ela
necessita profundamente, pois tudo que era suportável em sua pessoa, e
até agradável, quando ainda era bela, parece inteiramente mudado agora
que já não é formosa, e tanto tempo faz desde que utilizou sua inteli-
gência ou sua criatividade natural, que não creio ter-lhe restado nem
sombra dessas coisas. Ela sabe disso muito bem, então podes imaginar
o quanto está infeliz, implorando do fundo do coração por teu auxílio.
— Contaste-me o que eu desejava saber – respondeu a fada –, mas, ai
de mim! Não posso ajudá-la: meus dons são concedidos somente uma vez.
Algum tempo se passou, em meio aos usuais divertimentos do pa-
lácio da Fada-Flor, até que ela mandou chamar por Sílvia novamente
e disse-lhe que, desta vez, deveria passar um período em companhia
da Princesa Dafne. As borboletas, sem demora, conduziram-na até um
estranho reino. Contudo, passado bem pouco tempo, uma borboleta er-
rante trouxe para a fada uma mensagem de Sílvia, implorando que fosse
chamada de volta o mais rápido possível. Dentro em pouco, ela obteve
permissão para regressar.
— Ah, senhora! – exclamou. – Para onde me mandaste desta vez!
— Por quê? Que houve de errado? – perguntou a fada. – A Princesa
Dafne pediu o dom da eloquência, se me lembro bem.
— E muito mal assenta a uma mulher o dom da eloquência – res-
pondeu Sílvia, convicta do que dizia. – É inegável que ela sabe falar bem
e suas frases são escolhidas com acerto, mas, então, ela jamais desiste
de falar e, embora isso possa nos divertir no começo, por fim quase nos
mata de fastio. Ela ama, acima de tudo, uma reunião para tratar dos
assuntos do reino, pois nessas ocasiões pode falar e falar sem medo de
ser interrompida. Mas, ainda aí, mal se encerra a reunião, ela está pron-
ta para recomeçá-la por qualquer motivo, ou por nenhum, conforme o
caso. Ah! Mal posso descrever o alívio por ter saído de lá.
A fada acolheu com um sorriso o indisfarçado desapontamento de
Sílvia com sua última experiência, mas, depois de conceder-lhe algum

97
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

tempo para que se recuperasse, enviou-a à corte da Princesa Cíntia, onde


deveria passar três meses. Ao final desse período, Sílvia voltou com toda
a alegria e contentamento que se pode sentir ao rever um amigo querido.
A fada, como de costume, estava ansiosa por ouvir o que Sílvia teria a
dizer sobre Cíntia, que tinha sido sempre amável e a quem fora dado o
dom de a todos agradar.
— Pensei, a princípio, que ela era a mais feliz das princesas; tinha
mil admiradores que disputavam o privilégio de agradá-la e cercá-la de
atenções. Em verdade, cheguei a ponto de quase decidir que pediria um
dom igual.
— Mudaste de ideia, então? – interrompeu a fada.
— Sim, de fato, senhora – respondeu Sílvia –, e direi o porquê. Quan-
to mais o tempo passava, mais eu via que Cíntia não era verdadeiramen-
te feliz. Sua ânsia de agradar tornou-a insincera, e ela degenerou-se em
mera coquete. Mesmo seus admiradores perceberam que seus encantos
e atrativos não tinham real valor e, por fim, já não se importavam com
ela, indo embora sem olhar para trás.
— Estou satisfeita contigo, filha – afirmou a fada. – Aproveita teu
tempo por aqui; em breve visitarás a princesa Filídia.
Sílvia gostou de ter um tempo para pensar, já que não conseguia
decidir-se quanto ao que pediria para si mesma, e a hora da decisão
avizinhava-se. Entretanto, a fada não demorou a enviá-la para a corte de
Filídia, e aguardou por seu relato com inquebrantável interesse.
— Cheguei a salvo àquela corte – disse Sílvia –, e a princesa re-
cepcionou-me com muita cordialidade, colocando imediatamente em
ação a impressionante perspicácia com que tu a agraciaste. Confesso
que fiquei fascinada com aquela presença de espírito, e por uma semana
cheguei a pensar que nada poderia ser mais desejável. O tempo passou
como por encanto, tão agradável era a sua companhia. Porém, terminei
por desejar aquele dom ainda menos que todos os outros, pois, tal como
o dom de agradar, ele é igualmente incapaz de proporcionar verdadeira
satisfação. Aos poucos, o que antes tanto me agradara passou a causar-
-me verdadeiro fastio, especialmente conforme fui percebendo, cada vez

98
Dons de Fada

com mais clareza, que é impossível ser sempre perspicaz e espirituoso


sem ser frequentemente desagradável e demasiadamente predisposto a
tomar todas as coisas, mesmo as mais sérias, como ocasião para um gra-
cejo inteligente.
Em seu coração, a fada concordou com as conclusões de Sílvia, e
ficou satisfeita por tê-la educado tão bem.
Mas era chegada a hora de Sílvia receber o seu dom, e todos estavam
reunidos para a ocasião. A fada posicionou-se no centro e, conforme era
o hábito, perguntou que dom a princesa gostaria de levar consigo para o
vasto mundo. Sílvia deteve-se por um momento, e então disse:
— Um espírito sereno.
E a fada atendeu ao seu pedido.
Esse maravilhoso dom torna a vida uma felicidade constante para o
seu possuidor e para todos que com ele convivem. O doce semblante da
princesa traz em si toda a beleza conferida por um espírito gentil e feliz;
e se, por vezes, ele parece menos amável devido a um eventual pesar ou
inquietação, o que de mais severo se ouve dizer é:
— O doce semblante de Sílvia parece tão pálido hoje! Causa pena
vê-la assim.
Quando, ao contrário, ela está alegre e cheia de júbilo, o brilho de sua
presença é motivo de prazer para todos que têm a felicidade de desfrutar
de sua companhia.*

* Conde de Caylus.

99
O Príncipe
Narciso e a Princesa
Potentila

ra uma vez um rei e uma rainha que, se bem que


estejam mortos já faz muito tempo, tinham em
vida praticamente os mesmos gostos e propósitos
que as pessoas de hoje em dia. O rei, que se chama-
va Folhado, gostava de caçar mais do que qualquer
outra coisa, mas nem por isso deixava de devotar
ao reino quanto cuidado e atenção sentia lhe serem possíveis – o que
resultava num dobrar e desdobrar de documentos do Estado que não
acabava mais. Quanto à rainha, fora ela lindíssima quando jovem, e
muito lhe aprazia pensar que ainda o era, coisa que, obviamente, é
bastante fácil para rainhas. O seu nome era Frívola, e a única ocupa-
ção que tinha na vida era buscar divertimentos. Bailes, mascaradas e
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

piqueniques seguiam-se uns aos outros numa velocidade vertiginosa,


tão rapidamente quanto Sua Alteza era capaz de organizá-los, e não
é muito difícil de se imaginar que, nestas circunstâncias, o reino aca-
bava um tanto negligenciado. A dizer a verdade, se alguém quisesse
uma cidade ou uma província, ia até lá e simplesmente a tomava para
si – tendo o rei os seus cavalos e cachorros, e a rainha, seus músicos e
atores, pouco mais lhes importava.
O Rei Folhado e a Rainha Frívola tinham uma única filha, e esta
princesa fora desde bebezinha tão deslumbrante que lá pelos quatro
anos de idade já suscitava em sua mãe uma inveja terrível, pois a rainha
temia que a garota, quando crescida, seria mais admirada que ela pró-
pria. Assim, pois, decidiu mantê-la escondida de toda a vista. Ordenou
que se construísse para tanto uma casinha na margem dum rio, não
muito longe dos jardins do palácio, num pedaço de terra cercado por um
paredão enorme; e foi ali que se aprisionou a charmosa Potentila. Sua
babá, que era muda, tomava conta dela, e tudo quanto era necessário à
subsistência da criança ia pegar através de uma pequena janela na pa-
rede, enquanto lá fora guardas marchavam sem parar, para lá e para cá,
com ordens para cortar a cabeça de qualquer um que tentasse se aproxi-
mar, coisa que certamente fariam sem pensar duas vezes. A rainha então
fez saber a todos, com uma tristeza para lá de fingida, que a princesa era
tão feiosa, uma criaturinha tão problemática e no final tão indigna de
todo e qualquer amor, que mantê-la às ocultas era a única coisa que se
lhe poderia fazer. E de tanto contar e recontar a história, toda a corte, no
final, acabou por nela acreditar.
Tal era a situação, até que a princesa atingiu cerca de quinze anos de
idade, e o Príncipe Narciso, atraído pela fama que tinham as alegres fes-
tanças e folias da Rainha Frívola, apresentou-se na corte. Era um rapaz
não muito mais velho do que a princesa e um príncipe muito garboso,
figura que não se vê por aí em qualquer esquina. Além de quê, para sua
idade tinha uns miolos não tão moles. Seus pais haviam sido um rei e
uma rainha cuja história vós talvez chegueis a ler um dia. Morreram os
dois quase ao mesmo tempo, deixando para o filho mais velho o reino,

102
O Príncipe Narciso e a Princesa Potentila

e o filho mais novo aos cuidados da Fada Melinete. Nisto lhe haviam
feito muito bem, pois a fada era tão benevolente quanto poderosa, e
não poupava esforços para ensinar ao príncipe o quanto havia de bom
no mundo para saber, chegando mesmo a transmitir-lhe um pouco dos
seus saberes de fada. Mas assim que o menino cresceu e se fez rapaz, ela
o mandou viajar, a fim de conhecer o mundo. Ficou porém a vigiá-lo em
segredo, pronta a ajudá-lo caso fosse preciso. Antes de o rapaz ir-se em-
bora, a fada lhe deu um anel que o tornaria invisível tão logo fosse posto
no dedo. Ao que parece, anéis assim são bastante comuns – vós já deveis
ter ouvido falar de algum, ainda que nunca tenhais visto um. Foi nas tais
andanças do príncipe, que vagava pelo mundo em busca de aprender o
quanto pudesse sobre os homens e as coisas, que ele enfim foi parar na
corte da Rainha Frívola, onde o receberam extremamente bem. O jovem
encantara a rainha tanto quanto encantara as demais senhoras; o rei, por

103
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

sua feita, tratava o rapaz com bastante polidez, sem porém entender o
porquê de tamanho rebuliço.
O Príncipe Narciso gozava de tudo quanto havia, e o tempo decorria
muito agradável. Não demorou muito, é claro, para chegar-lhe aos ou-
vidos a história sobre a Princesa Potentila. Como quem conta um conto
aumenta um ponto, e como àquela altura o conto já fora contado inú-
meras vezes, pintaram-lhe a senhorita como um monstro tão horrendo,
que o príncipe no fim ficou curioso e resolveu valer-se do anel mágico
para conseguir vê-la com os próprios olhos.
Assim, pois, fez-se invisível e passou pelos guardas sem que estes
sequer imaginassem haver alguém por perto. Escalar a parede não foi
nada fácil, mas tão logo o príncipe viu-se dentro delas, ficou encantado
com a serena beleza que ali reinava, e tanto mais encantado após ver
uma moça esguia e adorável a passear em meio às flores. Foi só após
ter procurado em vão pelo monstro imaginário, que entendeu tudo, e se
deu conta de que a princesa era na verdade a moça que vira mais cedo.
E ali já caíra de amores por ela, pois a verdade é que teria sido difícil
encontrar alguém tão bela quanto Potentila – sentada como estava à
margem do córrego, a tecer uma grinalda de não-me-esqueças para
coroar os anéis dourados de seu cabelo ondulado – ou a imaginar algo
tão amável quanto o carinho que ela dispensava a todos os pássaros e
animais que viviam em seu pequeno reino, e que por sua vez a amavam
e a obedeciam.
O Príncipe Narciso seguia-lhe cada movimento e gesto com o olhar,
e ficava perto dela num encantamento só, sem ousar ainda revelar-se,
de tão humilde que subitamente se tornara em sua presença. E quando
caiu a tarde e lá veio a babá buscar a princesa a fim de levá-la para sua
casinha, o príncipe se sentiu obrigado a voltar ao palácio da Frívola,
com medo de que alguém desse por sua ausência e acabasse descobrin-
do o seu novo tesouro. Só não lhe ocorreu que voltar com a cabeça nas
nuvens, alheio e indiferente, quando há pouco estivera alegre e festeiro,
era o modo mais seguro de levantar suspeitas. E como não fez mais do
que corar e soltar respostas evasivas às perguntas zombeteiras sobre

104
O Príncipe Narciso e a Princesa Potentila

o assunto, logo as senhoras souberam que seu coração fora tomado, e


tentaram de tudo para descobrir quem era a felizarda. Quanto ao prín-
cipe, este ficava dia a dia mais apaixonado por Potentila, e não pensava
noutra coisa senão em admirá-la, sempre invisível, e em ajudá-la e dar-
-lhe absolutamente qualquer coisa que pudesse diverti-la ou agradá-la.
E a princesa, que aprendera a se divertir com as menores coisas em sua
vida pacata, estava por sua vez o tempo inteiro encantada pelos tesouros
que o príncipe continuamente ia colocando em seu caminho. Narciso,
então, implorou à sua fiel amiga Melinete para que enviasse à princesa
sonhos tais que a fariam reconhecê-lo como um amigo quando ele sur-
gisse perante ela.
E tão certo deu o artifício que a princesa ficou um tanto desgostosa
quando não lhe vieram mais aqueles sonhos divertidos, em que um tal
Príncipe Narciso era um amante e uma companhia tão encantadora.
Depois deu ele um passo adiante e começou a ter longas conversas com
a princesa – ainda, porém, invisível, até que a moça tanto lhe rogou para
que se mostrasse, que ele por fim não pôde mais resistir. Após fazê-la
prometer que haveria de amá-lo, fosse qual fosse sua aparência, tirou o
anel do dedo, e a princesa ficou encantada ao ver que havia ali um prín-
cipe tão bonito quanto agradável.
Ora, a dizer a verdade, ficaram extremamente felizes, e passaram o
dia de verão inteiro no cantinho preferido de Potentila, ao pé do córrego,
e quando enfim deu a hora de o Príncipe Narciso deixá-la, pareceu a
ambos que o tempo passara num piscar de olhos. A princesa ficou onde
estava, a sonhar com seu maravilhoso príncipe, e nada lhe poderia estar
mais longe da imaginação do que qualquer pensamento sobre proble-
mas ou infortúnios.
Subitamente, numa nuvem de poeira e escombros, eis que surgiu o
feiticeiro Grumedano, o qual infelizmente calhou de vê-la. Desceu até
a senhora e lhe pousou aos pés, e uma só mirada nos seus magníficos
olhos azuis e sorridentes lábios foi o quanto bastou para convencê-lo a
mostrar-se já, muito embora o irritasse profundamente o fato de estar
usando apenas a sua segunda melhor capa. A princesa pôs-se de pé com

105
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

um grito de terror ante a súbita aparição, pois, de fato, o feiticeiro não


era lá muito bonito.
Para começo de conversa, era enorme e estabanado, e tinha um só
olho, e dentes longos, além de gaguejar muito. Contudo, tinha-se na
conta de sujeito muito garboso, e assim tomou o grito de terror por
uma exclamação de alegre surpresa. Após dar à senhora um tempinho
para admirá-lo, o feiticeiro fez-lhe o discurso mais elogioso que sua
cabeça foi capaz de inventar, e o qual só encantou a ele próprio. Mas a
coisa não agradara nadinha à pobre Potentila, que apenas estremeceu
e gritou:
— Ó! Onde está meu Narciso?
Ao que ele respondeu, com uma risadinha satisfeita:
— Queres um narciso, minha senhora? Bem, não é uma coisa assim
tão rara; terás quantos quiseres.
Então balançou sua mão, e a princesa num segundo viu-se rodeada
e quase soterrada sob as flores cheirosas. Certamente teria revelado ao
feiticeiro que não era esse tipo de narciso que queria, se não fosse a Fada
Melinete, que muito agitada estivera assistindo à conversa, julgando que
já era hora de intervir. Assumindo a voz do príncipe, sussurrou no ou-
vido de Potentila:
— Estamos ameaçados por um grande perigo, mas é só por ti que
temo, minha princesa. Portanto, rogo-te para que escondas o que re-
almente sentes, e ficaremos na esperança de que surja algum modo de
escaparmos a esta dificuldade.
A princesa ficou alvoroçadíssima, e não menos por recear que o fei-
ticeiro houvesse escutado algo; mas ele estivera a chamar-lhe a atenção
para as flores, barulhento que só, enquanto soltava risinhos por sua es-
perteza em havê-las trazido. Foi-lhe um golpe bastante duro, portanto,
quando a senhorita disse, muito fria, que as flores não faziam o seu tipo
e que lhe seria muito grata se as tirasse dali. Fê-lo instantaneamente,
mas em seguida quis beijar a mão da princesa em recompensa por lhe ter
sido tão prestativo. Isto, porém, a Fada Melinete não haveria de permitir.
Surgiu de súbito, em todo o seu esplendor, e bradou:

106
O Príncipe Narciso e a Princesa Potentila

— Para aí mesmo, Grumedano; esta princesa está sob minha pro-


teção, e a menor impertinência custar-te-á mil anos de prisão. Se con-
seguires ganhar o coração de Potentila por meio das vias ordinárias,
não poderei me opor a ti. Mas acautela-te! Truque nenhum teu será
tolerado.
O feiticeiro não gostou nadinha da advertência. Sabia, porém, que
não havia escapatória e que portanto teria de se comportar e devotar
à princesa quantas delicadezas e cavalheirismos conseguisse imaginar,
muito embora tudo isso não lhe fosse nem um pouco costumeiro. En-
tretanto, decidiu que para ganhar uma princesa tão linda todo esforço
valeria a pena. Melinete, sentindo que poderia deixar já a princesa
em segurança, correu para contar tudo ao Príncipe Narciso. É claro,
à simples menção do feiticeiro como seu rival, o moço ficou furioso,
e sabe-se lá que bobagens não teria feito se Melinete não estivesse lá
para acalmá-lo. Fê-lo saber quão poderoso feiticeiro era Grumedano,
e como o vilão poderia fazer recair uma vingança sua contra a princesa
se provocado, pois era o mais injusto e intratável entre os feiticeiros, já
tendo sido muitas vezes punido pela Rainha das Fadas por algumas de
suas malvadezas. Uma vez fora preso numa árvore, e de lá só foi liberto
quando um vento forte calhou de soprá-lo; outra vez fora condenado a
ficar debaixo de uma pedra enorme no fundo dum rio, até que a sorte
a virasse; mas nada era capaz de torná-lo alguém melhor. A fada fez
por fim Narciso prometer-lhe que ficaria invisível enquanto estivesse
com a princesa, pois estava certa de que assim tudo seria mais fácil
para todos.
Então começou uma disputa entre Grumedano e o príncipe (este
último usando o nome de Melinete) para se determinar quem poderia
agradar e divertir mais a princesa e, assim, ganhar-lhe a aprovação. Pri-
meiro, o Príncipe Narciso ficou amigo de quantos pássaros havia no rei-
nozinho de Potentila e lhes ensinou o nome da senhorita e outros tantos
elogios, fazendo-os gorjear o dia inteiro o quanto ele a amava, com as
melodias mais doces e tocantes que se poderiam imaginar. Grumedano,
por sua vez, declarou que não havia aí nada de novo, já que os pássaros

107
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

vinham cantando desde que o mundo é mundo, e todos os amantes já


se haviam imaginado a única razão no mundo para todos os cantos e
gorjeios. Assim, pois, anunciou que haveria de escrever ele mesmo uma
ópera e que esta seria uma novidade absoluta e definitivamente algo que
valeria a pena se ouvir. Quando chegou a hora da performance (que se
arrastou por cinco horas inteiras) a princesa descobriu, consternada, que
a “ópera” consistia inteira destes versos perfeitamente sem graça, canta-
dos por dez mil sapos a plenos pulmões:

Potentilla, boa de admirar,


Acaso pensas ser sábio e gentil
Matar de modo súbito e sutil
Um pobre encantador c’o olhar?

A verdade é que se Narciso não houvesse estado lá para sussurrar-


-lhe no ouvido e distraí-la, não sei o que teria sido da pobre Potentila,
pois, embora a primeira repetição dessa maluquice a houvesse divertido
um tiquinho, estava já quase morta de tédio perto do final. Felizmente,
Grumedano não percebeu nada, pois que estava a chicotear os sapos,
entre os quais muitos morreram miseravelmente de tanta fadiga, já que
ele não os deixava descansar nem por um segundo.
A próxima ideia que ocorreu ao príncipe para divertir Potentila foi
fazer surgir uma frota de barcos, tal qual os de Cleópatra – sobre os
quais certamente os senhores já leram em suas aulas de história –, a
subir o pequeno rio, e na embarcação mais ricamente decorada de todas
fazer sentar-se a própria rainha, que, tão logo chegou ao lugar em que
Potentila se sentara olhando tudo arrebatada, pisou majestosamente na
margem e presenteou a princesa com aquela célebre pérola, da qual vós
tanto já ouvistes, dizendo:
— És mais bela do que jamais fui. Que meu exemplo sirva-te de
aviso para fazeres melhor uso de tua beleza!
E então a pequena frota seguiu em frente e velejou até sumir de vista
nas curvas do rio. Grumedano também assistia ao espetáculo, e fez no-
tar, desdenhoso que só ele:

108
O Príncipe Narciso e a Princesa Potentila

— Não vejo qualquer graça nessas marionetes. Quanto alarde para te


dar uma só perolazinha! Mas se gostas de pérolas, minha senhora, aqui
está algo que te agradará.
E com tais palavras sacou um apito do bolso, e mal o soprara já a
princesa viu a água do rio borbulhar e tornar-se lamacenta, e daí a um
instante centenas de milhares de ostras enormes vieram à tona e com
muito esforço foram subindo até a margem para depositar aos seus pés
quantas pérolas traziam nas línguas.
— É isto que eu chamo de pérolas! – bradou Grumedano, mais satis-
feito impossível. E, a dizer a verdade, havia mesmo tantas que se poderia
pavimentar com elas cada caminho no jardim de Potentila, e ainda so-
brariam algumas! No dia seguinte, o Príncipe Narciso aprontou, para o
deleite da princesa, um charmoso caramanchão feito de galhos folhosos,
com sofás macios de musgo e um piso todo coberto de grama, além de
grinaldas por todos os lados e o nome da senhorita escrito em várias
flores coloridas. Ali ofereceu-lhe um pequeno banquete de petiscos e
iguarias finas, enquanto ao fundo músicos escondidos dedilhavam no ar
uma música calma, e as fontes d’água prateada se deixavam cair suave-
mente nas bacias de mármore; e, assim que se calou a música, um único
rouxinol rompeu o silêncio com seu canto delicioso.
— Ah! – exclamou a princesa, reconhecendo pela voz um dos seus pás-
saros prediletos. – Filomeu, doce meu, quem te ensinou essa nova canção?
E ele respondeu:
— O amor, minha princesa.
Enquanto isso, o feiticeiro estava bastante insatisfeito com o entrete-
nimento. Na verdade, disse que acabara de presenciar o tédio encarnado.
— Não te parece ocorrer nenhuma ideia cá por estas bandas que não
sejam pássaros gritando esganiçados! – disse ele. – E imagine só, dar um
banquete em que mal há um prato de comida!
Então, no dia seguinte, quando a princesa saiu para o jardim, viu que
ali se erguera uma casa de veraneio feita todinha de ouro maciço, ornada
dentro e fora com as suas iniciais entremeadas com o as do feiticeiro.
Dentro havia um mundaréu de comida e uma mesa que tanto cintilava

109
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

com as taças e os pratos dourados, e com as jarras e as louças e os can-


delabros, e centenas de outras coisas mais, que era impossível fixar nela
o olhar. O feiticeiro comeu por seis ogros, mas a princesa nem sequer
conseguiu tocar em nada. Grumedano então fez notar, com um sorriso
arreganhado:
— Não te providenciei nem músicos, nem cantores; mas, como pare-
ces gostar de música, eu mesmo hei de cantar algo para ti.
Dito isso, entrou a cantar a letra de sua “ópera” com uma voz que
mais parecia o guincho duma coruja, só que desta vez felizmente sem
se prolongar por cinco horas e sem o coral de sapos para acompanhá-lo.
Depois, o príncipe mais uma vez recorreu aos seus amigos pássaros, e
quando estes já se haviam reunido, vindos de toda parte, Narciso amar-
rou-lhes ao redor do pescoço uma lampadazinha de alguma cor bri-
lhante e, ao cair da noite, fê-los realizarem toda a sorte de belos truques
perante a encantada Potentila, que bateu palmas de alegria ao ver o seu
próprio nome traçado em pontos de luz recortados contra o escuro das
árvores, ou todo o bando de centelhas ajuntar-se em buquês coloridos,
quais flores vivas. Grumedano, reclinando-se em sua poltrona, com um
joelho a cruzar o outro e o nariz empinado, assistia a tudo com desdém.
— Ó! Então gostas de fogos de artifício, princesa – disse ele; e, na
noite seguinte, todos os fogos-fátuos do país se puseram a dançar nas
planícies. A princesa, que os via pela janela, estava a apreciar o espetá-
culo até que de súbito subiu aos céus um vulcão terrível, a cuspir fu-
maça e chamas que a aterrorizaram. O feiticeiro, cuja gargalhada soava
como um arranca-rabo duma matilha de lobos, achou a coisa o máximo.
Depois, tantos fogos-fátuos quanto cabiam no jardim da senhora lá se
apinharam, e à sua luz os altos teixos dançaram minuetos, até que a
princesa se cansou de tudo e implorou para que voltasse a olhar só para
a noite e mais nada.
Mas, a despeito do esforço enorme que Potentila empreendia para
tratar com toda a cortesia o velho feiticeiro enfadonho, a quem detes-
tava, este já percebera que não conseguia agradá-la, e daí passou a sus-
peitar que a senhora devia amar algum outro e que alguém que não

110
O Príncipe Narciso e a Princesa Potentila

Melinete era o responsável por todas as festanças e banquetes que vira.


Portanto, após muito matutar, bolou um plano para descobrir a verdade.
De súbito foi até a princesa e lhe anunciou que, a muito contragosto, teria
de deixá-la, e viera dar-lhe adeus. Potentila mal pôde esconder a alegria
e, tão logo o feiticeiro virou-lhe as costas, já estava a suplicar para o Prín-
cipe Narciso tornar-se visível mais uma vez. O pobre príncipe estava já
um tanto abatido à força de tanta ansiedade e impaciência, e fez o que
ela pedira, de muitíssimo bom grado. Cumprimentaram-se arrebatados,
e estavam para sentar-se e bater papo e desfrutar juntos a derrota do fei-
ticeiro, quando este saltou de trás dum arbusto, ardendo em fúria. Com
a sua enorme clava, mirou um golpe terrível em Narciso, que certamente
teria sido morto se não fosse pela sagacidade e agilidade da Fada Meline-
te, que chegou a tempo de pegá-lo e levá-lo na velocidade da luz para o
seu castelo no ar. Mas a pobre Potentila não teve o conforto de saber isso.
À vista do feiticeiro ameaçando seu príncipe amado, soltara um grito e
caíra sem sentidos no chão; ao recobrá-los, persuadiu-se como nunca de
que ele estava morto, pois nem sequer Melinete estava mais por perto, e
não restara ninguém para defendê-la do velho e odioso feiticeiro.
Pior ainda, o vilão parecia estar num mau humor horrendo e entrou
a esbravejar e ralhar com a pobre princesa.
— É o seguinte, dona – disse ele –; se amas ou não este principezinho
que mal saiu das fraldas não faz diferença alguma. Casar-te-ás comigo,
então é bom já ires te acostumando com a ideia. Vou sair agorinha mes-
mo para arranjar tudo. Mas, para que não inventes de aprontares uma
das tuas enquanto eu estiver fora, é melhor que eu te ponha para dormir.
E balançou a mão sobre a garota, que daí a alguns instantes estava
já dormindo um sono profundo e sem sonhos, por mais que houvesse
tentado ficar acordada.
Como quisesse fazer o que julgava ser uma entrada apropriada no
palácio do rei, o feiticeiro saiu do reinozinho da princesa e subiu numa
carruagem imensa com rodas gigantescas e maciças, além de uma lan-
ça tão enorme quanto o tronco dum carvalho – e tudo, tudo de ouro.
Carregavam-na a muito custo quarenta e oito bois muito robustos; e o

111
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

feiticeiro reclinou-se, sossegado, a apoiar-se em sua enorme clava en-


quanto segurava, distraído, um leão africano em cima dos joelhos como
a um cãozinho de colo. Era mais ou menos sete da manhã quando a
carruagem extraordinária chegou aos portões do palácio; o rei, já anima-
do, estava prestes a viajar numa expedição de caça; a rainha, por sua vez,
acabara de deitar-se para ter seu primeiro sono – e quem inventasse de
acordá-la haveria mesmo de ser valente!
O rei ficou muito aborrecido por ter de ficar e receber um visitante
àquela hora da manhã, e tirou suas botas de caça, cheio de caretas. En-
quanto isso, o feiticeiro andava arrastado pelo salão de entrada, a bradar:
— Onde está esse tal rei? Dizei-lhe que desejo vê-lo e também à
sua esposa.
Ao rei, que ouvira tudo no topo da escada, isto não lhe pareceu muito
cortês; contudo, foi-se aconselhar com o seu caçador favorito, e, seguin-
do-lhe o conselho, desceu a fim de saber o que é que queriam dele. Ficou
embasbacado ao ver a carruagem, e a olhava, boquiaberto, quando o
feiticeiro foi até ele exclamando:
— Aperta-me cá a mão, Folhado, meu velho! Não sabes quem sou?
— Não, a bem dizer não sei – respondeu o rei, algo embaraçado.
— Ora, sou Grumedano, o Feiticeiro – disse ele –, e vim fazer a tua
fortuna. Vamos, entremos, pois temos muito a conversar.
Em seguida, despachou os bois, que saíram a pular como cervos e
logo sumiram de toda vista. Então, com um golpe de sua clava, transfor-
mou a maciça carruagem numa montanha perfeita de moedas de ouro.
— Isto aqui é para teus lacaios – disse ao rei –, para que possam beber
à minha saúde.
Naturalmente, foi uma algazarra só, e enfim as gargalhadas e os ber-
ros acordaram a rainha, que tocou o sino para chamar as criadas e lhes
perguntou qual era a razão de tamanha e tão extraordinária balbúrdia.
Quando a resposta foi que alguém a queria ver, e a um só tempo cada
criada desatou a contar-lhe uma história fabulosa diferente, das quais
pôde distinguir apenas as palavras “boi”, “ouro”, “clava”, “gigante” e “leão”,
pensou que estavam todas malucas. Nesse meio-tempo, o rei, que per-

112
O Príncipe Narciso e a Princesa Potentila

guntara ao feiticeiro a que devia a honra de uma visita tão ilustre, e rece-
bera a resposta de que nada seria dito até a rainha também estar presente,
saiu a enviar mensageiro atrás de mensageiro rogando à esposa para que
descesse imediatamente. Mas Frívola não ficara lá muito de bom-humor
por ter sido acordada assim tão no susto. Declarou que sentia uma dor no
seu dedo mindinho e que nada no mundo poderia fazê-la descer.
Quando o feiticeiro o soube, insistiu que ela deveria vir.
— Leva a minha clava à Sua Majestade – disse ele – e dize-lhe que
uma cheirada na sua ponta é o quanto lhe bastará para sentir-se mara-
vilhosamente revigorada.
E lá se foram quatro dos soldados mais fortes do rei carregar a coisa,
cambaleando, até a rainha, que após alguma persuasão consentiu em tes-
tar o novo remédio. Mal lhe dera um cheiro, já se declarou perfeitamen-
te restabelecida (se, porém, o restabelecimento foi graças à fragrância
da madeira ou ao fato de que, tão logo a rainha tocou na clava, choveu
uma catarata de joias magníficas, deixo para os bons leitores decidi-
rem). De qualquer forma, ela estava agora ansiosíssima para conhecer o
misterioso estranho, e às pressas jogou de lado o seu cobertor real, pôs
a sua segunda melhor coroa de diamantes em cima da touca de dormir,
aplicou uma quantidade generosa de blush numa e noutra bochecha, e,
segurando em frente ao nariz o maior leque que tinha – pois não estava
acostumada a se mostrar à luz do dia –, lá se foi a passos curtos e afeta-
dos em direção ao salão de entrada. O feiticeiro aguardou até que o rei e
a rainha estivessem sentados em seus respectivos tronos. Então, ficando
entre ambos, começou muito solene:
— Meu nome é Grumedano. Sou um feiticeiro muitíssimo bem re-
lacionado; meu poder é imenso. A despeito de tudo isso, porém, vossa
filha Potentila tanto me encantou que já não posso mais viver sem ela.
A princesa imagina estar apaixonada por um certo fedelho desprezível
chamado Narciso; mas com este eu já lidei. A bem dizer, não me im-
porto se tenho ou não o vosso consentimento, mas sou obrigado a vos
perguntar, graças a uma certa fada intrujona chamada Melinete, com a
qual tenho minhas razões para querer manter boas relações.

113
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

O rei e a rainha ficaram algo embaraçados e não sabiam o que dizer


a tão terrível pretendente; afinal, pediram-lhe algum tempo para pensar
no assunto, já que os súditos – diziam eles – poderiam pensar que a her-
deira do trono não deveria se casar assim com tão pouco cuidado, como
se fora uma leiteira.
— Ó! Tendes um ou dois dias, se o quiserdes – respondeu o feiticeiro
–, mas enquanto isso hei de mandar buscar vossa filha. Quem sabe não
consigais botar-lhe algum juízo na cabeça.
E logo sacou de seu apito favorito e nele soprou uma nota estridente.
Daí a um instante o leão, que estivera a cochilar no pátio ensolarado,
veio saltando leve com suas pesadas patas.
— Órion – disse o feiticeiro –, vai e traze-me a princesa imediata-
mente. Sê gentil!
A estas palavras lá se foi Órion, numa carreira só, e logo estava já na
outra ponta dos jardins do rei. Jogando os guardas à direita e à esquerda,
de um salto pulou o paredão, pegou a princesa ainda a dormir e a jogou
nas suas costas, onde a manteve segurando-lhe a roupa com os dentes.
Então retornou, trotando gentilmente, e em menos de cinco minutos eis
que estava de volta ao salão, perante o rei e a rainha pasmados.
O feiticeiro segurou sua clava próxima ao lindo narizinho da prin-
cesa, ao que esta acordou e gritou de terror quando se achou num lugar
estranho, junto com o odioso Grumedano. Frívola, que não se movera,
imóvel de tamanho desgosto à vista da amável princesa, deu um passo
à frente e, com uma preocupação muitíssimo fingida, propôs-se a levar
Potentila até seus aposentos, a fim de que a moça pudesse gozar da quie-
tude de que precisava. Na verdade, porém, o que queria era escondê-la
de quanta gente fosse possível; assim, pois, jogou-lhe um véu sobre a
cabeça, levou-a embora e a trancou num quarto.
Todo este tempo o Príncipe Narciso, tristonho e angustiado, estivera
preso no castelo que Melinete tinha no ar, e a despeito de todo o esplen-
dor que o rodeava, e de todos os prazeres dos quais poderia gozar, a úni-
ca coisa que lhe estava na cabeça era recuperar Potentila. A fada, porém,
deixara-o lá, prometendo-lhe que faria o quanto pudesse por ele, dando

114
O Príncipe Narciso e a Princesa Potentila

ordem a todas as suas andorinhas e borboletas para que o servissem


e fizessem tudo quanto quisesse. Um dia, enquanto o príncipe andava
tristonho para lá e para cá, julgou ouvir uma voz conhecida a chamá-lo,
e lá surgiu o fiel Filomeu, o favorito de Potentila, que lhe contou tudo
o que se passara: como a princesa, em seu sono encantado, fora levada
embora pelo leão, para a grande tristeza de todos os seus súditos peludos
e de quatro patas; e como ele, Filomeu, não sabendo o que fazer, voou
sem rumo até ouvir a fofoca das andorinhas sobre o príncipe que estava
no castelo no ar e viera conferir se o tal poderia ser Narciso. O príncipe
então ficou mais agoniado do que nunca e tentou em vão escapar do
castelo ao pular do telhado para as nuvens; mas todas as vezes o captu-
ravam, e, rolando-o suavemente nuvens acima, punham-no de novo no
lugar de onde começara. Enfim, o moço desistiu e se pôs a esperar, com
uma paciência desolada, o retorno de Melinete.
Enquanto isso, tudo se ia desenrolando rapidamente na corte do Rei
Folhado, pois a rainha resolvera que uma lindeza como Potentila era
coisa da qual tinha de se livrar o mais rápido possível. Mandou chamar,
portanto, em segredo, o feiticeiro, e após fazê-lo prometer que jamais ex-
pulsaria ela ou o Rei Folhado do reino que lhes pertencia, e que haveria
de levar Potentila para longe, muito longe, de modo que ela nunca mais
precisasse botar os olhos na garota, arranjou tudo para o casamento se
dar no dia seguinte.
O bom leitor pode imaginar como Potentila se pôs a lamentar seu
triste destino, e muito suplicou para ser poupada. O único consolo que
conseguiu foi Frívola dizer-lhe que, se ela preferisse uma taça de veneno
a um marido rico, aquela com certeza seria providenciada.
Quando, então, veio enfim o dia fatal, levou-se a infeliz Potentila
até o grande salão, e se pôs a moça entre o rei e a rainha. Esta última
corroía-se de inveja face aos murmúrios de admiração que em todos
os cantos surgiam pela beleza da princesa. Daí a um instante entrou
Grumedano pela porta defronte. Com o cabelo arrepiado, trazia ele
uma bolsa enorme e usava uma gravata borboleta; seu manto, feito todo
de moedas de prata, tinha um forro rosa; ele não poderia estar mais

115
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

embevecido com a própria aparência. Que alguma princesa no mundo


pudesse preferir uma taça de veneno à sua pessoa não lhe passou um
só instante pela cabeça. Não obstante, foi exatamente o que aconteceu,
pois quando a Rainha Frívola segurou, em deboche, a taça fatal frente à
garota, a princesa a tomou na mão, clamando:
— Narciso, meu amor, estou indo te encontrar! – e já estava com
a taça perto dos lábios quando se espatifou a janela do grande salão e
surgiu a Fada Melinete, flutuando numa nuvem brilhante de pôr do sol,
acompanhada pelo príncipe em pessoa.
Toda a corte ficou a olhar estupefata a cena, enquanto Potentila, as-
sim que avistou o seu amado, deixou cair a taça e correu ao seu encontro.
Ao ver Melinete, a primeira coisa em que o feiticeiro pensou foi
defender-se, mas a fada deslizou até o seu ponto cego e, agarrando-o
pelos cílios, arrastou-o até o teto do salão, onde o segurou enquanto ele
chutava o ar por algum tempo, só para lhe dar uma boa lição. Depois,
tocou-o com a varinha e o prendeu por mil anos numa bola de cristal
pendurada no teto.
— Aprende com isto a dar-me ouvidos da próxima vez – fez notar,
severa.
Então, voltando-se ao rei e à rainha, rogou-lhes para continuarem com
o casamento, já que trouxera um noivo mais apropriado. Também lhes
tirou o reino, pois eram ambos péssimos soberanos, e o deu à princesa e
ao príncipe, que, muito embora não o quisessem aceitar, não tiveram outra
opção senão obedecer à fada. Arranjaram para que o rei e a rainha, apesar
de destronados, sempre tivessem tudo o que pudessem desejar.
O Príncipe Narciso e a Princesa Potentila viveram uma vida longa e
feliz, amados por todos os súditos. E, quanto ao feiticeiro, não creio que
já tenha sido libertado.*

* Conde de Caylus.

116
O Príncipe
Cabeça-de-Vento e a
Princesa Celidônia

ra uma vez um rei e uma rainha. Eles eram as


criaturas mais bondosas do mundo e tinham o co-
ração tão generoso que não aguentavam ver seus
súditos necessitados de coisa alguma. O resultado é
que pouco a pouco se desfizeram de seu tesouro, até
que não lhes sobrou nada nem para viver. Quando
esta notícia chegou aos ouvidos de seu vizinho, o Rei Bruno, este pron-
tamente recrutou tropas e marchou para o país deles. O pobre rei, sem
meios de defender seu país, foi obrigado a se disfarçar com uma barba
falsa, e, levando nos braços seu filho, o Príncipe Cabeça-de-Vento, refu-
giou-se com sua amada rainha em regiões afastadas. Por sorte conseguiu
escapar dos soldados do Rei Bruno, e finalmente, depois de extraordi-
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

nárias labutas e aventuras, viram-se num vale encantador e verdejante,


pelo qual corria um regato límpido como cristal e sombreado por belas
árvores. Enquanto olhavam à sua volta admirados, uma voz lhes disse
de repente:
— Pescai, e vede o que pegareis.
O rei, deveis saber, adorava pescar e nunca saía de casa sem um par de
anzóis no bolso; pegou então com pressa um dos anzóis, prendeu nele o
cinto que a rainha lhe emprestou, e, mal tocando a água, pegou um gran-
de peixe que lhes serviu de excelente refeição – justo quando precisavam,
porque até então não haviam achado senão uns frutos e raízes silvestres.
Decidiram que o melhor a fazer por ora era ficar naquele agradável lugar.
Pôs-se o rei a trabalhar, e em breve construiu para a família um abrigo de
galhos; quando o viu acabado, a rainha ficou tão encantada que declarou
nada faltar a sua felicidade senão um rebanho de ovelhas, que ela e o
principezinho pudessem apascentar enquanto o rei pescasse. Logo des-
cobriram que os peixes do regato eram não apenas abundantes e fáceis de
pegar, como também muito bonitos, com escamas brilhantes de todos os
matizes imagináveis; não tardou o rei a perceber que os podia ensinar a
falar e assobiar melhor do que a qualquer papagaio. Decidiu então levar
alguns à cidadezinha mais próxima para vendê-los; lá o povo todo, como
nunca tivesse visto nada parecido, juntou-se à sua volta e sem demora
comprou todos os peixes que ele pegara. Em breve não havia uma só casa
na cidade inteira que não quisesse um aquário cheio de peixinhos; os
clientes do rei faziam questão de comprar peixes que combinassem com
o resto da decoração da casa e lhe deram muito trabalho para escolhê-
-los. Mas valeu a pena, porque o dinheiro que conseguia com o negócio
lhe permitiu comprar à rainha um rebanho de ovelhas, além de muitas
outras coisas que lhes tornaram a vida mais agradável, e assim nunca se
ressentiram de ter perdido seu reino.
Pois bem: naquele adorável vale, aonde o acaso trouxera os pobres
fugitivos, vivia a Fada das Faias. Era ela quem, apiedada da condição
miserável deles, tanta sorte dera ao rei em sua pescaria, e também em
todo o resto colocara a família sob sua proteção. Tanto maior era sua

118
O Príncipe Cabeça-de-Vento e a Princesa Celidônia

inclinação para fazer isto quanto mais amava as crianças, e o Principe-


zinho Cabeça-de-Vento, que nunca fazia birra e ficava mais bonito dia
após dia, conquistou seu coração. Ela ficou amiga do rei e da rainha sem
lhes revelar ser uma fada, e em breve os dois se lhe afeiçoaram muito,
chegando a confiar a seus cuidados o precioso príncipe, que ela levava
a seu palácio e regalava com bolos e tortas e tudo o que há de bom.
Foi assim que a fada conquistou seu afeto; mas tampouco negligenciou
sua formação, e, à medida que o menino crescia, não poupou nenhum
esforço para educá-lo e treiná-lo da maneira devida a um príncipe. In-
felizmente, apesar de todos os desvelos da fada, o príncipe tornou-se tão
frívolo e vaidoso que, aborrecido com os campos, foi-se embora de sua
terra tranquila atrás das tolas diversões da cidade vizinha. Ali seu belo
rosto e modos encantadores rapidamente o tornaram popular. O rei e a
rainha sentiram profundo pesar por essa mudança em seu filho, mas não
sabiam como emendá-lo, uma vez que a fada o tornara tão voluntarioso.
Foi justamente então que a Fada das Faias foi visitada por uma amiga
de longa data, que se chamava Sarandina. Sarandina precipitou-se para
dentro da casa de sua amiga tão ofegante e com tanta raiva que mal
podia falar.
— Querida, querida… o que houve? – fez a Fada das Faias, num tom
confortante.
— O que houve?! – gritou Sarandina. – Dentro de pouco saberás
de tudo. Sabes que, não contente com dotar Celidônia, a Princesa das
Ilhas de Verão, com tudo o que ela pudesse desejar a fim de torná-la
encantadora, ainda me dei ao trabalho de criá-la por conta própria; e o
que ela faz então, senão vir até mim, com mais branduras e afagos do
que o normal, para pedir um novo favor! E consegues adivinhar o que
era esse favor? Eu mesma só fiquei sabendo depois que fui induzida, por
meio de agrados, a lhe prometer que o concederia. Pois bem: ela pediu
nada mais, nada menos que eu tomasse de volta todos os dons que lhe
concedera. “Afinal”, disse a fina madamezinha, “se um dia alguém gostar
de mim, como vou saber que é realmente de mim que gosta? E assim
será minha vida inteira, sempre que eu conhecer alguém novo. Percebes

119
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

como será enfadante a vida sob tais circunstâncias? Porém, te asseguro que
não sou nada mal-agradecida a ti por toda tua generosidade”. Fiz o que
pude – prosseguiu Sarandina – para que ela o repensasse, mas foi tudo em
vão; assim, depois de cumprir as cerimônias usuais para reaver os dons que
lhe havia concedido, vim até ti atrás de alguma paz e tranquilidade. Mas,
sabes, no fim das contas não tirei de Celidônia nada de muito importante.
A natureza já a fizera tão bela e lhe dera tamanho engenho, que tenho cer-
teza que ela ficará bem sem mim. Mesmo assim, achei que ela precisava
aprender uma lição – por isso a carreguei até o deserto e lá a deixei.
— Como é?! Inteiramente sozinha e sem meios de sobrevivência?
– exclamou a velha fada de bom coração. – Era melhor que a tivesses
entregado a mim. No fim das contas, não faço dela tão mau juízo. Cura-
rei sua vaidade fazendo-a amar alguém melhor do que ela própria. Para
falar verdade, e pensando bem, essa coquete ao tratar a questão mostrou
mais gênio e originalidade do que geralmente se espera de princesas.
Sarandina consentiu de bom grado, e o primeiro cuidado da velha
fada foi remover dos arredores da princesa todas as dificuldades e condu-
zi-la através de uma trilha coberta de musgo e sombreada de árvores até
o abrigo do rei e da rainha, que seguiam vivendo tranquilamente no vale.
Os dois ficaram atônitos com a chegada dela, mas sua face encan-
tadora, somada à condição maltrapilha a que os espinheiros e sarças do
caminho haviam reduzido seus belos trajes, rapidamente lhes moveu a
compaixão. Reconheceram nela uma companheira de desventura, e a
rainha a recebeu com entusiasmo e pediu que compartilhassem a mes-
ma refeição, por mais simples que fosse. Celidônia, com muita gratidão,
aceitou a hospitalidade, e logo contou o que lhe tinha acontecido. Ao rei
encantou o gênio da moça, ao passo que à rainha pareceu que ela fora,
de fato, atrevida demais em se opor aos desejos da fada.
— Como isso resultou em nosso encontro – disse a princesa –, não
consigo me arrepender do passo que dei, e, se me deixardes ficar con-
vosco, será completa minha felicidade.
O rei e a rainha ficaram deveras contentes que uma princesa tão
encantadora tomasse o lugar do Príncipe Cabeça-de-Vento, a quem

120
O Príncipe Cabeça-de-Vento e a Princesa Celidônia

viam muito pouco, já que a fada lhe havia providenciado um palácio


na cidade, onde vivia no maior luxo e nada fazia senão se divertir da
manhã à noite. Celidônia, pois, ficou e ajudou a rainha a tomar conta
da casa; e assim muito em breve passaram a amá-la com grande afeto.
Quando a Fada das Faias os visitou, eles lhe apresentaram a princesa e
contaram sua história, nem desconfiando que a fada sabia muito mais
a respeito de Celidônia do que eles mesmos. A velha fada deleitou-se
igualmente com ela, e muitas vezes a convidou a visitá-la em seu Pa-
lácio Frondoso, que era encantador até não mais poder e estava cheio
de tesouros. Muitas vezes dizia à princesa, ao lhe mostrar alguma
maravilha:
— Isto um dia dará um belo presente de casamento.
E Celidônia, ao ouvir tais palavras, não conseguia deixar de pensar que
era a si que a fada pretendia dar as duas tochas azuis que ardiam sem se
consumir, ou o diamante do qual brotavam continuamente novos diaman-
tes, ou o barco que navegava debaixo d’água, ou qualquer outra maravilha
em que por acaso tivessem colocado os olhos. É verdade que a fada nunca
havia afirmado tal coisa, mas tampouco o havia desmentido, porque pen-
sava que algum desapontamento faria bem à princesa. Mas a pessoa com
quem a fada realmente contava para curar a vaidade de Celidônia era o
Príncipe Cabeça-de-Vento. A velha fada não estava nem um pouco con-
tente com o modo como ele vinha se comportando, porém tinha o coração
tão mole que não queria lhe tirar os prazeres que ele tanto amava, senão
por meio de algo ainda melhor, o que, convenhamos, não é a maneira mais
eficaz de corrigir alguém, mas é certamente a mais agradável.
De todo modo, a fada em nenhum momento sugeriu que o prínci-
pe fosse outra coisa senão a absoluta perfeição, e tanto falava dele que,
quando finalmente anunciou que ele viria visitá-la, Celidônia já esta-
va convencida de que esse charmoso príncipe se apaixonaria por ela, e
muito lhe agradou a ideia. A velha fada também estava convencida de
que tal coisa aconteceria, mas, como não era o que desejava, tomou o
cuidado de lançar à menina um feitiço que a tornaria muito feia e es-
quisita aos olhos do Príncipe Cabeça-de-Vento, ao passo que a todos os

121
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

outros sua aparência se manteria a mesma de sempre. Assim, quando ele


chegou ao Palácio Frondoso, era mais belo e encantador que a princesa
jamais imaginara, mas o rapaz olhou apenas de relance para ela e dedicou
toda sua atenção à fada, a quem tinha um montão de coisas para contar. A
princesa ficou pasmada com a indiferença dele, então assumiu um ar frio e
ressentido, que o príncipe, contudo, não parecia notar. Então, como último
recurso, a moça empregou todo seu espírito e jovialidade para diverti-lo,
mas sem sucesso, porque o rapaz estava em idade de se deixar atrair mais
pela beleza do que por qualquer outra coisa, e, embora respondesse com
bastante polidez, estava claro que tinha os pensamentos em outro lugar.
Celidônia sentiu-se profundamente humilhada, já que o príncipe, de sua
parte, muito a agradara, e pela primeira vez ela se arrependeu de ter se
livrado tão afoitamente dos dons da fada. O Príncipe Cabeça-de-Vento
ficou igualmente perplexo, pois, da parte do rei e da rainha, não ouvira
senão elogios aos encantos da princesa, e o fato de terem falado tanto de
sua beleza apenas confirmou ao príncipe que a gente do interior não tinha
bom gosto nenhum. A seguir contou a sua anfitriã e à princesa a respeito
de suas belas conhecidas da cidade, cujos encantos muita admiração lhe
causaram, causavam, ou ainda haviam de causar, até que Celidônia, que
a tudo ouvia, ficou a ponto de chorar de tão aflita. Também a fada ficou
bastante ofendida com a presunção do príncipe, e bolou um plano para
curá-lo. Mandou-lhe anonimamente e por meio de um mensageiro des-
conhecido um retrato do verdadeiro rosto da Princesa Celidônia, com a
seguinte inscrição: “Toda esta beleza e doçura, com um coração afetuoso e
um grande reino, poderia ser tua, se não fosse por teus notórios caprichos”.
Essa mensagem afetou muito o príncipe, mas não tanto quanto o
retrato. Com efeito, não conseguia tirar os olhos dele, e a plenos pul-
mões exclamou que nunca, jamais vira nada tão lindo, tão gracioso.
Ocorreu-lhe então como era absurdo que ele, o encantador Cabeça-de-
-Vento, se apaixonasse por um retrato; assim, para espantar as lembran-
ças daqueles cativantes olhos, voltou correndo para a cidade; porém, de
algum modo, tudo parecia mudado. As beldades já não o agradavam;
suas conversas espirituosas não mais o entretinham; as moças, por sua

122
O Príncipe Cabeça-de-Vento e a Princesa Celidônia

vez, já não achavam o príncipe tão afável como outrora, e nem ficaram
sentidas quando ele declarou que, no fim das contas, a vida no campo
lhe caía melhor, e voltou para o Palácio Frondoso. Enquanto isso, a
Princesa Celidônia sentia o tempo passar demasiado lentamente na
companhia do rei e da rainha e teve imenso deleite ao ver retornar o
Príncipe Cabeça-de-Vento. Agora, longe de evitá-la, o príncipe ia atrás
de sua companhia e se comprazia de falar com ela, mas a princesa ja-
mais se deixava iludir pela esperança de que ele a amasse, embora não
tenha tardado a concluir que por alguém ele estava apaixonado. No
entanto, certo dia, enquanto vagueava tristemente à beira do rio, a prin-
cesa avistou o príncipe adormecido num sono profundo à sombra de
uma árvore, e aproximou-se furtivamente para deliciar-se com a visão
daquele amado rosto sem ser vista. Imaginai a surpresa dela quando viu
que o príncipe segurava numa das mãos o seu retrato! Em vão tentou
decifrar o comportamento do príncipe, que lhe parecia tão contradi-
tório. Por que guardava com tanto carinho um retrato dela ao mesmo
tempo que a tratava com tanta indiferença?
Certa vez achou uma oportunidade para lhe perguntar o nome da
princesa cujo retrato levava sempre consigo.
— Ah, como vou te contar? ‒ ele respondeu.
— E por que não me contarias? ‒ disse a princesa, timidamente ‒ por
certo nada te impede.
— Nada me impede?! ‒ repetiu o príncipe. ‒ Ora, se fracassaram até
meus maiores esforços para encontrar a dona deste rosto! Me verias tão
triste, se a tivesse encontrado? Pois não sei nem mesmo seu nome.
Então a princesa, mais espantada que nunca, perguntou se podia ver
o retrato, e, depois de examiná-lo por alguns minutos, devolveu-o, ob-
servando acanhadamente que ao menos a modelo tinha todos os moti-
vos para ficar satisfeita com sua representação.
— Então achas que a beleza da moça neste retrato foi exagerada tão-
-somente para lisonjeá-la? ‒ disse o príncipe com severidade. ‒ Realmente,
Celidônia, eu tinha-te em mais alta conta e esperava que estivesses acima
de uma inveja tão mesquinha. Mas as mulheres são todas iguais!

123
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Na verdade eu só quis dizer que ficou muito parecida com a ver-


dadeira ‒ disse a princesa humildemente.
— Então a conheces! ‒ exclamou o príncipe, caindo de joelhos ao seu
lado. ‒ Imploro-te, conta-me já quem é ela, não me deixes no escuro!
— Ó! Não vês que é um retrato meu? ‒ exclamou Celidônia.
O príncipe levantou-se repentinamente, e a muito custo conteve-se de
dizer que a vaidade só a podia ter cegado, para ela pensar que se parecesse,
mesmo que de longe, com aquele belo retrato; e, depois de observá-la por
um instante com gélida surpresa, virou-se e a deixou, sem dizer palavra, e
depois de umas poucas horas foi embora do Palácio Frondoso.
Agora sim a princesa ficou triste, e já não suportava permanecer
num lugar onde fora desdenhada tão cruelmente. Assim, sem ao menos
despedir-se do rei e da rainha, deixou o vale para trás e foi-se embora,
vagueando tristemente e sem destino. Depois de caminhar até ficar can-
sada, viu ao longe um casebre e a ele dirigiu-se a passos lentos. Quanto
mais se aproximava, mais pobre o casebre se revelava, até que finalmente
enxergou uma velhinha sentada na soleira, que disse carrancudamente:
— Lá vem um desses mendigos que nada fazem senão perambular
sem rumo pelos campos!
— Ó, senhora! ‒ disse Celidônia, com lágrimas em seus belos olhos.
‒ Um cruel destino me força a te pedir abrigo.
— Não falei?! ‒ rosnou a velhaca. ‒ Do abrigo passarás a pedir co-
mida, da comida, dinheiro para a jornada. Juro por Deus: se eu tivesse
certeza de sempre encontrar alguém cuja cabeça fosse tão mole quanto
o coração, também eu não escolheria outra vida senão a da mendicância!
Mas dei duro para construir a minha casa e garantir que teria o que
comer todos os dias, e agora, suponho, pensas que vou dar tudo o que te-
nho ao primeiro que me peça! Nem pensar! Aposto que uma bela moça
como tu tem mais dinheiro do que eu ‒ e acrescentou, falando consigo
mesma ‒: vou tentar descobrir se não estou certa ‒ e assim, apoiada em
seu cajado, foi mancando até Celidônia.
— Ó, senhora! ‒ respondeu a princesa. ‒ Quem me dera eu tivesse;
daria tudo para ti com o maior dos prazeres.

124
O Príncipe Cabeça-de-Vento e a Princesa Celidônia

— Mas estás vestida muito elegantemente para o tipo de vida que


levas ‒ continuou a velha.
— Como! ‒ exclamou a princesa. ‒ Achas que vim aqui para mendigar?
— Não faço ideia ‒ respondeu ‒, mas, de todo modo, não vieste para
me trazer alguma coisa. O que queres então? Abrigo? Bem, isso em
si não custaria muito; mas em seguida viria a janta, e disso não quero
nem ouvir falar. Não mesmo! Ora, as pessoas de tua idade estão sempre
prontas a comer, e tu, que vens caminhando de muito longe, suponho
que estejas esfomeada, não?

125
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Na verdade não, senhora ‒ respondeu a pobrezinha ‒, estou triste


demais para ter fome.
— Ah, ufa! Se me prometeres que continuarás triste, te deixo passar
a noite aqui ‒ debochou a velha.
Em seguida fez a princesa sentar a seu lado e passou os dedos em sua
túnica de seda, enquanto murmurava:
— Renda em cima e renda embaixo! Deves ter pagado um bom di-
nheiro por essa peça! Teria sido melhor se economizasses para te ali-
mentar, em vez de vir mendigar à porta de quem não quer se desfazer de
nada seu. Dize, por favor, quanto pagaste por essa roupa?
— Ó, senhora! ‒ respondeu a princesa. ‒ Não a comprei, e, para falar
a verdade, nada sei sobre dinheiro.
— Se me permites perguntar: o que sabes? ‒ disse a velha senhora.
— Pouca coisa; mas estou realmente muito infeliz ‒ exclamou Ce-
lidônia, desfazendo-se em lágrimas ‒ e se meu serviço te for de alguma
utilidade…
— Serviço?! ‒ interrompeu a velhaca com mau humor. ‒ É necessário
pagar por serviços, e não considero minhas tarefas domésticas indignas
de mim.
— Senhora, prestarei serviços para ti em troca de nada ‒ disse a
pobre princesinha, cujo espírito se abatia cada vez mais ‒, farei o que
desejares; tudo o que quero é viver sossegadamente neste cantinho
solitário.
— Ah! Sei que estás tentando me enganar ‒ respondeu a velha ‒,
ademais, se eu permitir que me sirvas, será apropriado que uses roupas
tão mais elegantes do que as minhas? Se eu te mantiver aqui, me darás
tuas roupas e aceitarás usar as que eu providenciar para ti? Afinal de
contas, estou ficando velha e talvez até queira que alguém tome conta
de mim um dia…
— Ah, pelo amor de Deus, faze o que quiseres com as minhas rou-
pas! ‒ exclamou, angustiada, a pobre Celidônia.
A velha saiu mancando toda faceira e pegou de dentro da casa uma
trouxa que continha um vestidinho grosseiro como a princesa nunca

126
O Príncipe Cabeça-de-Vento e a Princesa Celidônia

vira, e ficou dando pulinhos ao redor da menina, ajudando-a a trocar sua


bela túnica pelo vestidinho, enquanto bradava:
— Por todos os santos! Que forro maravilhoso! E como é largo! Me
dará uns quatro vestidos, no mínimo. Ora, mocinha, não sei como con-
seguias caminhar sob tanto peso, e estou certa de que em minha casa
não terias espaço nem para te virares.
Assim dizendo, dobrou a túnica e a guardou com muito cuidado,
enquanto comentava com Celidônia:
— Esse meu vestido assentou em ti que é uma maravilha! Garante
que-me cuidarás bem dele.
Quando chegou a hora de jantar, a velha entrou em casa e recusou
toda ajuda da moça; pouco depois chegou trazendo uma bandeja bem
pequena e disse:
— Agora jantemos.
E assim dizendo entregou a Celidônia uma porçãozinha de pão pre-
to e destampou a bandeja, revelando duas ameixas secas.
— Compartilharemos uma entre nós duas ‒ prosseguiu a velha
senhora ‒, e tu, como és visita, ganharás a metade com o caroço; mas
toma cuidado para não engoli-lo, pois costumo guardá-los para o in-
verno. Não imaginas como são bons para acender o lume! Escuta,
pois, este meu conselho, pelo qual não te cobrarei nada, e lembra que,
por causa dessa serventia, é sempre mais econômico comprar frutas
com caroço.
Celidônia, absorta em seus tristes pensamentos, nem ao menos ou-
viu o prudente conselho, e até se esqueceu de comer sua porção de
ameixa; isto muito agradou à velha, que a guardou para o café da ma-
nhã, dizendo:
— Estou muito satisfeita contigo, e, se continuares como começaste,
te darei muitos conselhos úteis, que o mais da gente não conhece. Por
exemplo, dá uma olhada em minha casa. Foi inteiramente construída
com as sementes de todas as peras que comi na vida. A maioria das pes-
soas as joga fora, o que mostra o quanto se gasta à toa por falta de um
pouquinho só de paciência e engenho.

127
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Mas Celidônia não conseguia de jeito nenhum se interessar por tais


conselhos. A velha dentro em breve a mandou para a cama, temendo
que o ar fresco da noite lhe desse apetite.
A moça passou a noite em branco, e na manhã seguinte a velha se-
nhora comentou:
— Ouvi como dormiste bem. Depois de uma noite dessas, não é pos-
sível que queiras café da manhã; ficarás então na cama enquanto faço as
tarefas domésticas, pois, quanto mais se dorme, menos se precisa comer;
e, como é dia de feira, vou até a cidade comprar um vintém de pão para
a semana.
E assim tagarelava a velha, mas a pobre Celidônia não a ouviu nem
lhe prestou atenção; saiu andando por aquela região desolada para pen-
sar sobre seu triste fado. Porém, a boa Fada das Faias, não querendo que
ela se esfomeasse, mandou-lhe um alívio inesperado na forma de uma
linda vaquinha branca, que a seguiu de volta até o casebre. Quando a
velha viu o animal, transbordou de alegria.
— De agora em diante teremos sempre leite, queijo e manteiga! ‒
exclamou. ‒ Ah! Como é bom o leite! Que pena ser caro a ponto de
levar à falência!
Então, juntando galhos e gravetos, fizeram um pequeno estábulo para
abrigar a vaca, que era uma gracinha, e seguia Celidônia para todos os
cantos feito um cachorro quando esta a levava a pastar. Certa manhã,
enquanto remoía sua tristeza sentada à beira de um córrego, a moça viu
aproximar-se um rapaz desconhecido, e prontamente se levantou para
evitá-lo. Mas o Príncipe Cabeça-de-Vento (pois era ele o tal rapaz), ven-
do-a também, correu em sua direção manifestando grande alegria, porque
reconhecera nela não Celidônia, a quem havia menosprezado, mas a ado-
rável princesa do retrato, a quem buscara em vão por tanto tempo. É que
a Fada das Faias, pensando que a princesa já fora castigada o bastante, lhe
removera o encantamento e o transferira ao Príncipe Cabeça-de-Vento,
que assim, de uma hora para a outra, foi privado da bela aparência que
tanto contribuíra para o tornar vaidoso. Lançando-se aos pés da princesa,
implorou-lhe que permanecesse e ao menos trocasse com ele uma pala-

128
O Príncipe Cabeça-de-Vento e a Princesa Celidônia

vra; ela por fim consentiu, apenas porque o rapaz parecia desejá-lo muito.
A partir de então, o príncipe passou a ir ao mesmo local todos os dias
na esperança de encontrá-la mais vezes, e com frequência expressava o
prazer que sentia por estar a seu lado. Mas certo dia, enquanto o príncipe
implorava que a princesa lhe desse seu amor, Celidônia confessou-lhe
que não havia jeito, pois seu coração já pertencia a outro.
— Coube-me ‒ disse a princesa ‒ a infelicidade de amar um príncipe
caprichoso, frívolo, orgulhoso, incapaz de se preocupar com outra pessoa
que não ele mesmo, mimado por adulações, e, para culminar, que não
me ama.
O Príncipe Cabeça-de-Vento exclamou:
— Mas como é possível que queiras a um tipo tão mesquinho e im-
prestável?!
— Ai, mas quero! ‒ disse a princesa, chorosa.
— Mas onde esse homem tem os olhos ‒ disse o príncipe ‒, que
tua beleza não lhe causa efeito? Quanto a mim, desde que ganhei teu
retrato, corri o mundo inteiro atrás de ti, e, agora que finalmente nos
encontramos, percebo que és dez vezes mais bela que eu imaginava, e
daria tudo o que tenho para conquistar teu amor.
— Meu retrato? ‒ exclamou Celidônia, subitamente interessada. ‒
Será possível que o Príncipe Cabeça-de-Vento se tenha desfeito dele?
— Antes se desfaria desta vida, bela princesa ‒ respondeu o príncipe ‒,
e disto te asseguro, porque sou eu o Príncipe Cabeça-de-Vento.
Naquele mesmo instante a Fada das Faias tirou-lhe o encantamento,
e a feliz princesa reconheceu seu amado, agora verdadeiramente seu,
pois as provações por que passaram os havia mudado e aperfeiçoado
tanto que finalmente eram capazes de amar-se um ao outro. Não é difí-
cil imaginar como estavam felizes e quanto tinham para ouvir e por fa-
lar. Depois de um tempo, já era hora de voltar ao casebre, e foi só quan-
do começaram a caminhar que a princesa se deu conta dos trapos que
trajava, percebendo a esquisita figura que fazia. Mas o príncipe declarou
que o vestido lhe assentava muito bem, e o achava bastante pitoresco.
Quando alcançaram a casinha, a velha os recebeu irritada:

129
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— É o que sempre digo ‒ falou ‒: onde há uma garota, podes ter


certeza que um garoto não tardará a aparecer! Não penses que vou te
acolher aqui na minha casa! Não mesmo: vai-te embora, camarada!
O Príncipe Cabeça-de-Vento tinha tudo para irritar-se com tão
grosseiro acolhimento, mas estava feliz demais para se importar, então
apenas pediu, da parte de Celidônia, que a velha senhora lhe devolvesse
sua roupa para que partisse bem vestida.
Este pedido acendeu a fúria da velha, já que contava com a roupa da
princesa para ter o que vestir pelo resto da vida; assim, levou um bom
tempo até que o príncipe, fazendo-se ouvir, conseguisse explicar a ela
que estava disposto a dar dinheiro pela roupa. A visão de um punhado
de moedas de ouro de alguma forma a apaziguou; e então, depois de cui-
dar que os dois prometessem jamais pedir o ouro de volta, a velha levou
a princesa para dentro do casebre e, do traje, deu-lhe apenas o bastante
para ela ficar apresentável – quanto ao resto, fingiu tê-lo perdido. A se-
guir, o príncipe e a princesa perceberam que estavam com muita fome,
pois não se pode viver de amor, assim como não se pode viver de ar;
nesse momento as reclamações da velha ficaram ainda mais sonorosas:
— Ora! ‒ gritou. ‒ Vou lá eu dar de comer a gente tão feliz? Que
diabos, assim vou à falência!
Mas como o príncipe parecia ficar cada vez mais irritado, a velhaca,
cheia de suspiros e resmungos, trouxe-lhes uma porção de pão, uma ti-
gela de leite, e seis ameixas; com isto os dois namorados ficaram bem
contentes, pois não se importavam com o que tinham no prato desde
que pudessem olhar um para o outro. Podiam ficar ali eternamente com
suas lembranças – o príncipe, contando como correra o mundo inteiro de
beldade em beldade, para se desapontar inevitavelmente ao descobrir que
nenhuma se assemelhava à moça do retrato; a princesa, indagando como
podia o príncipe ter passado tanto tempo com ela sem jamais a reconhecer,
e o perdoando repetidas vezes por tê-la tratado com tanta frieza e desdém.
— Pois como vês, Cabeça-de-Vento ‒ disse a princesa ‒, eu te amo, e
o amor resolve tudo! Mas não podemos permanecer aqui ‒ acrescentou ‒;
o que havemos de fazer?

130
O Príncipe Cabeça-de-Vento e a Princesa Celidônia

O príncipe sugeriu que procurassem a Fada das Faias e se colocassem


novamente sob sua proteção. Haviam recém concordado nisto quando
apareceram duas pequenas bigas cobertas de jasmim e madressilva, e,
tão logo os dois subiram nelas, os ventos, rodopiando, os carregaram de
volta ao Palácio Frondoso. Pouco antes de perderem de vista o casebre,
ouviram altos gritos e lamúrias da velha senhora; virando-se, percebe-
ram que a linda vaquinha estava desaparecendo a olhos vistos apesar dos
frenéticos esforços da velhaca para segurá-la. Tempos depois ficaram
sabendo que ela passou o resto da vida tentando colocar dentro de sua
moedeira o punhado de ouro que o príncipe lhe atirara. É que a fada,
como punição por sua avareza, fez com que o ouro sempre deslizasse
para fora no mesmo instante em que entrava.
A Fada das Faias saiu correndo para dar, de braços abertos, as boas-
-vindas ao príncipe e à princesa, e deleitou-se tanto de vê-los mudados
para melhor que sentiu que podia, sem peso nenhum na consciência,
voltar a mimá-los. Dentro de pouco chegou a Fada Sarandina, trazen-
do junto o rei e a rainha. Celidônia implorou por seu perdão, e a fada
misericordiosamente o concedeu, pois a princesa era tão encantadora
que ela não conseguia recusar-lhe nada. Restituiu-lhe também as Ilhas
de Verão, e prometeu em tudo protegê-la. A Fada das Faias a seguir
informou ao rei e à rainha que seus súditos haviam expulsado do trono
o Rei Bruno e agora esperavam recebê-los calorosamente; porém, assim
que o ouviram, os dois abdicaram e transferiram o trono ao Príncipe
Cabeça-de-Vento, declarando que nada os convenceria a abandonar sua
vida tranquila. As fadas então incumbiram-se de instalar o príncipe e a
princesa em seus lindos reinos. O casamento deles realizou-se no dia
seguinte, e a partir de então viveram felizes para sempre, pois Celidônia
nunca mais foi fútil, e Cabeça-de-Vento nunca mais foi caprichoso.*

* Clément-Pierre Marillier.

131
Os Três Porquinhos

ra uma vez uma porca que vivia com seus três


filhos em um quintal de chácara muito antigo, es-
paçoso e confortável. O mais velho dos porquinhos
se chamava Marronzinho, a do meio, Branquinha,
e o mais jovem e mais bonito, Pretinho. Ora, Mar-
ronzinho era um porquinho muito sujo e – é duro
dizer – passava a maior parte do tempo rolando e se chafurdando na
lama. Nada o deixava mais feliz que os dias úmidos, quando a lama no
quintal amolecia e engrossava. Nestas ocasiões, ele escapulia de sua mãe
e, encontrando o lugar mais lamacento do quintal, ali rolava e se divertia
muito. Sua mãe frequentemente o ralhava por isso, balançando a cabeça
e dizendo: “Ah, Marronzinho! Um dia tu te arrependerás de não teres
obedecido a tua velha mãe.” Mas nenhum conselho ou advertência po-
dia fazer com que Marronzinho se endireitasse.
Branquinha era uma porquinha muito esperta, mas comilona. Esta-
va sempre pensando em comida e esperando a hora do almoço; e quan-
do via a menina da chácara carregando os baldes pelo quintal, erguia-
-se sobre as patas traseiras, dançando e dando piruetas de entusiasmo.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Assim que a comida era despejada no cocho, ela passava por cima de
Pretinho e Marronzinho em sua ânsia de conseguir os melhores peda-
ços. Sua mãe sempre a repreendia por seu egoísmo, e lhe dizia que um
dia ela sofreria por ser tão comilona.
Pretinho, por sua vez, era um porquinho bom e amável; não era nem
sujo nem comilão. Tinha maneiras muito delicadas (para um porco),
e sua pele estava sempre macia e brilhante como um cetim negro. Era
muito mais esperto do que Marronzinho e Branquinha, e o coração de
sua mãe costumava inchar-se de orgulho quando ouvia os amigos do
fazendeiro comentarem entre si que um dia o bichinho preto seria um
porco premiado.
Eis que o tempo passou; a mamãe porca já se sentia velha e frágil,
chegando ao fim da vida. Certo dia ela convocou os três porquinhos e,
com eles reunidos à sua volta, disse-lhes:
— Meus filhos, sinto que estou ficando velha e fraca, e que não vou
durar muito mais. Antes de morrer, eu gostaria de construir uma casa
para cada um de vós, já que este chiqueiro, no qual vivemos tempos tão
felizes, será dado a uma nova família de porcos, e vós tereis de sair. Mar-
ronzinho, que tipo de casa gostarias de ter?
— Uma casa de barro – respondeu Marronzinho, olhando ansioso
para uma poça de lama que havia no canto do quintal.
— E tu, Branquinha? – disse a mamãe porca com uma voz bem tris-
te, desapontada que estava com Marronzinho por sua escolha tão tola.
— Uma casa de repolho – respondeu Branquinha de boca cheia, mal
erguendo o focinho do cocho onde cavocava, buscando sobras de cascas
de batata.
— Mas que crianças mais tolas! – disse a mamãe porca, parecendo
muito aflita. – E tu, Pretinho? – virando-se para seu filho caçula. – Que
tipo de casa devo pedir para ti?
— Por favor, mãe, uma casa de tijolos; pois ela será quente no inver-
no, fria no verão, e segura durante o ano todo.
— Isso é que é um porquinho sensato – respondeu a mãe, contem-
plando-o com ternura. – Darei um jeito para que as três casas fiquem

134
Os Três Porquinhos

prontas logo. E agora um último conselho. Vós já me ouvistes falar da


nossa velha inimiga, a raposa. Quando ela souber que morri, certamente
tentará capturar-vos e levar-vos para sua toca. Ela é muito astuta, e sem
dúvida fingirá ser vossa amiga, mas deveis me prometer que não a dei-
xareis entrar em vossas casas sob nenhum pretexto que seja.
E, sem demora, os porquinhos fizeram a promessa, pois sempre tive-
ram o maior medo da raposa, sobre a qual já haviam ouvido muitas his-
tórias terríveis. Logo em seguida, a idosa porca faleceu, e os porquinhos
foram viver em suas próprias casas.
Marronzinho estava muito encantado com suas paredes macias de
barro e com o chão de argila, que logo ficou parecendo apenas uma
grande torta de lama. Mas era disso que Marronzinho gostava, e ele não
podia estar mais feliz, rolando o dia inteiro e se emporcalhando todinho.
Certo dia, quando estava deitado na lama, meio acordado, meio dormin-
do, ouviu uma leve batida na porta, de onde veio uma voz muito gentil:
— Posso entrar, Senhor Marronzinho? Gostaria de conhecer a vossa
linda casa nova.
— Quem é? – disse Marronzinho, saltando com grande temor, pois,
embora a voz soasse gentil, ele tinha certeza de que era fingida, e temia
que se tratasse da raposa.
— Sou um amigo que veio ver-vos – respondeu a voz.
— Não, não – respondeu Marronzinho. – Duvido que sejas um ami-
go. És a malvada raposa, contra quem nossa mãe nos alertou. Não te
deixarei entrar.
— Ah, é?! É assim que me respondes?! – disse a raposa, falando mui-
to grosseiramente, já em sua voz natural. – Logo veremos quem é o se-
nhor aqui – e com suas garras começou a trabalhar, raspando um grande
buraco na parede macia de barro. Em seguida pulou através dele e agar-
rou Marronzinho pelo pescoço, jogando-o sobre os ombros e levando-o
embora para sua toca.
No dia seguinte, quando Branquinha estava mascando umas folhas
de repolho tiradas do canto de sua casa, a raposa esgueirou-se até a
porta, determinada a levar a porquinha para se juntar ao seu irmão na

135
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

toca. Começou a lhe falar fingindo a mesma voz gentil com a qual havia
falado a Marronzinho; porém, apavorou-a muito quando disse:
— Sou um amigo que veio vos fazer uma visita, e pegar um pouco do
vosso bom repolho para jantar.
— Por favor, não toques neles! – gritou Branquinha muito aflita. –
Os repolhos são as paredes de minha casa, assim se os comeres criarás
um buraco por onde entrarão o vento e a chuva, fazendo com que eu
passe frio. Vai-te embora; estou certa de que não és um amigo, mas nos-
sa malvada inimiga, a raposa – e a pobre Branquinha começou a gemer
e choramingar, desejando não ter sido uma porquinha tão comilona, e
ter escolhido para sua casa um material mais sólido do que repolhos.
Mas agora já era tarde, e no minuto seguinte a raposa abriu caminho a
dentadas na parede de repolho e agarrou Branquinha, que tremia como
vara verde, levando-a embora para sua toca.
No dia seguinte a raposa partiu para a casa de Pretinho, porque ha-
via se convencido de que teria os três porquinhos juntos em sua toca,
onde os abateria, e convidaria todos os amigos para um belo banquete.
Mas, ao chegar à casa de tijolos, descobriu que a porta era cerrada
por ferrolhos e uma tranca. Então, na sua maneira astuta de sempre,
começou:
— Deixai-me entrar, querido Pretinho. Trouxe-vos de presente uns
ovos que colhi num quintal no caminho para cá.
— Não, não, Senhora Raposa – respondeu Pretinho –, não abrirei a
porta para ti. Sei das tuas artimanhas. Levaste os pobres Marronzinho e
Branquinha, mas a mim não pegarás.
A raposa ficou tão furiosa que se arremessou com toda a força contra
a parede, tentando derrubá-la. Mas ela era forte demais e muito bem
construída; e mesmo raspando-a e tentando dilacerar os tijolos com suas
garras, a raposa só se machucava. No fim, teve que desistir, indo embora
cambaleante, com as patas dianteiras feridas e cobertas de sangue.
— Grande coisa! – ela gritou ao deixar o local. – Outro dia te pegarei;
ah, se não te levarei para minha toca e triturarei todos os teus ossinhos
até virarem pó! – e rosnava feroz, mostrando os dentes.

136
Os Três Porquinhos

No dia seguinte, Pretinho teve que ir a uma cidade vizinha fazer


compras, e lá adquiriu uma grande caldeira. Enquanto voltava para casa
com ela pendurada sobre o ombro, ouviu um som de passos furtivos
logo às suas costas. Por um momento, seu coração congelou, tamanho
era o medo – e foi então que uma feliz idéia lhe veio à mente. Ele recém
havia chegado ao topo de um morro e podia ver sua própria casa ani-
nhada lá embaixo, no sopé, entre as árvores. Imediatamente arrancou a
tampa da caldeira e pulou dentro dela. Enrolando-se todo, deitou-se no
fundo da caldeira, enquanto com sua pata dianteira colocou a tampa de
volta, para que pudesse ficar totalmente escondido. Com um leve chute,
impulsionou a caldeira, a qual rolou à toda morro abaixo; e quando a
raposa apareceu, tudo o que viu foi uma enorme caldeira preta girando
no solo a grande velocidade. Muitíssimo desapontada, a raposa já estava
se virando para ir embora, quando viu o objeto parar perto da casa de
tijolos: em seguida Pretinho pulou da caldeira e escapou com ela para
dentro da casa, colocando a tranca e os ferrolhos na porta e estendendo
a persiana sobre a janela.
— Ah, é?! – exclamou a raposa para si mesma. – Achas mesmo que
escaparás de mim dessa maneira, achas? Logo veremos, amiguinho – e
muito sorrateiramente fez a volta na casa, buscando alguma forma de
subir no telhado.
Neste ínterim, Pretinho havia enchido a caldeira d’água, colocando-a
no fogo e sentando-se calmamente enquanto a esperava ferver. Assim
que a caldeira começou a apitar e o vapor a sair pelo bico, ele ouviu um
som no telhado, como de passos macios e abafados, bãm, bãm, bãm, e no
instante seguinte a cabeça e as garras dianteiras da raposa apareceram na
chaminé. Mas Pretinho, muito sabiamente, não havia colocado a tampa
na caldeira; urrando de dor, a raposa caiu na água escaldante, e, antes
que pudesse escapar, Pretinho colocou a tampa de volta; então, a raposa
ferveu até a morte.
Assim que se certificou de que sua terrível inimiga estava realmen-
te morta e não lhe podia mais fazer mal algum, Pretinho partiu para
resgatar Marronzinho e Branquinha. Assim que chegou à toca, ouviu

137
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

grunhidos e guinchos comoventes de seus dois irmãozinhos – que ha-


viam vivido em terror constante, imaginando que a raposa os mataria e
comeria. Mas quando viram Pretinho aparecer na entrada da toca, não
se contiveram de alegria. Ele rapidamente encontrou uma pedra lascada
e cortou as cordas que prendiam ambos a uma estaca no chão. Os três
partiram juntos para a casa de Pretinho, onde viveram felizes para sem-
pre – e Marronzinho parou de rolar na lama de uma vez por todas, en-
quanto Branquinha deixou de ser comilona, pois eles jamais esqueceram
como esses erros quase os levaram ao fim precoce de suas vidas.

138
Os Três Porquinhos

139
Coração Gelado

ra uma vez um rei e uma rainha cuja estultice não


tinha limites, mas que, todavia, amavam-se terna-
mente. É verdade que, para algumas pessoas de lín-
gua ferina, essa era apenas mais uma prova de sua
imensurável estupidez, porém, como o leitor pode
imaginar, tal não era a opinião dos seus próprios cor-
tesãos, uma vez que aqueles eram afinal de contas seu rei e sua rainha, e
até então seu reinado havia sido próspero. Pois, naquele tempo, a coisa
mais importante na condução dos negócios de um reino era manter as
pazes com todas as fadas e feiticeiros, e em hipótese alguma privá-los dos
bolos, rolos de fita e bugigangas dessa natureza a que tinham direito; e,
acima de tudo, quando havia um batizado, lembrar-se de convidar cada
um deles – fosse bom, mau ou indiferente – para a cerimônia.
Ora, a tola rainha tinha um filhinho que estava prestes a ser batizado,
e por vários meses trabalhou com afinco na preparação de uma intermi-
nável lista com os nomes de todos os convidados para a ocasião. Porém
não lhe ocorrera que, para ler a lista, seria necessário quase o mesmo
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

tempo empregado para redigi-la, e assim, chegado o dia do batismo,


o rei – encarregado da leitura – mal havia alcançado o fim da segunda
página e já embolava as palavras, tamanha fadiga e afobação, enquanto
repetia a fórmula usual: “O Rei vos convida, Fada fulana de tal – ou
Feiticeiro tal e tal –, para honrá-lo com vossa presença e, por vossa be-
nevolência, conferir vossos dons ao seu filho”.
Como se não bastasse, vieram avisá-lo de que as fadas listadas na
primeira página já haviam chegado e esperavam impacientemente no
Salão Nobre, resmungando que não havia ninguém para recebê-las –
após o que ele abandonou a lista às pressas e, espavorido, correu para
cumprimentar aquelas que afinal tinham sido convidadas, rogando-lhes
tão sinceramente que o desculpassem, que a maioria ficou sensibilizada
e prometeu não fazer nenhum mal ao seu filho.
O fato, entretanto, é que havia entre elas uma fada de um país dis-
tante, sobre a qual ninguém sabia coisa alguma, embora seu nome cons-
tasse na primeira página da lista. Sentia-se ultrajada por ter-se dado ao
trabalho de atender prontamente ao convite e não haver afinal ninguém
para recepcioná-la, ou ajudá-la a descer do enorme avestruz sobre o
qual fizera tão longa viagem, e passou a resmungar de modo verdadei-
ramente alarmante.
— Ó, disparates! – disse ela. – Vosso filho jamais será grande coisa.
Falai à vontade, mas ele não passará de um mero tangará…
Sem dúvida, ela teria prosseguido e malfadado o infeliz principezi-
nho com meia dúzia de maldições, não fosse pela intervenção da boa
Fada Genesta, que tinha o reino sob sua especial proteção e que feliz-
mente entrou às pressas no exato momento de evitar um estrago ainda
maior. Quando logrou acalmar a desconhecida fada, desfazendo-se em
atenções para com ela e convencendo-a a não dizer nem mais uma pa-
lavra, sinalizou ao rei que aquele era um bom momento para distribuir
os presentes, após o que todos se despediram e se foram, com exceção da
Fada Genesta, que então dirigiu-se à rainha, dizendo-lhe:
— Armastes uma bela confusão, senhora. Por que não tivestes a bon-
dade de me consultar? Ora, tolos como vós sempre creem não precisar

142
Coração Gelado

da ajuda ou do conselho de ninguém, e devo observar que, não obstante


tudo que tenho feito por vós, não tivestes sequer a delicadeza de me
convidar!
— Ó, querida senhora! – exclamou o rei, atirando-se aos seus pés.
– Pois se não tive tempo de percorrer a lista até alcançar vosso nome!
Vede a marcação onde interrompi a tarefa inglória que eu mal havia
começado!
— Calma, calma – respondeu a fada –, não estou ofendida. Não
me permito ofender com ninharias dessa natureza, vindas de pessoas a
quem sinceramente estimo. No entanto, quanto ao vosso filho, salvei-o
de muitos infortúnios, mas deveis permitir que eu o leve e cuide dele
– não voltareis a vê-lo até que esteja completamente coberto de pelos!
Ao ouvir essas misteriosas palavras, o rei e a rainha irromperam em
lágrimas, pois viviam em um clima tão quente, que não podiam ima-
ginar nem como nem por quê o príncipe deveria cobrir-se de pelos, e
pensaram que isso só podia significar mau presságio.
Entretanto, Genesta tranquilizou-os:
— Se eu deixar o príncipe sob vossos cuidados – disse ela –, por fim
ele será tão estúpido quanto vós. Não tenciono sequer permitir que ele
descubra que é vosso filho. Quanto a vós, melhor seria que empregásseis
todas as energias para o melhor governo do reino.
Dito isso, abriu a janela, apanhou o príncipe com berço e tudo e des-
lizou pelos ares como se patinasse no gelo, deixando o rei e a rainha na
mais profunda aflição. Eles inquiriam a todos que encontravam sobre o
real significado das palavras da fada ao afirmar que o filho estaria cober-
to de pelos quando finalmente o reencontrassem. Todavia, ninguém era
capaz de desvendar aquele mistério, embora todos concordassem que
devia ser algo temível. O rei e a rainha mergulharam em uma tristeza
sem precedentes, e perambulavam de um lado para o outro no palácio,
causando pena a quem os visse.
Enquanto isso, a fada levara o príncipe para o seu próprio caste-
lo, confiando-o aos cuidados de uma jovem camponesa a quem a fada
enfeitiçara para fazer pensar que aquele bebê era um de seus próprios

143
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

filhos. Então o príncipe cresceu forte e sadio, levando a vida simples


de um jovem camponês, pois a fada acreditava não haver treinamento
melhor do que esse; somente depois de crescido ela passou a mantê-lo
mais tempo consigo, a fim de que sua mente fosse cultivada e exercitada,
bem como seu corpo.
Os cuidados que lhe dispensou, entretanto, não paravam por aí: tinha
decidido que ele devia ser posto à prova pelas dificuldades e decepções,
bem como pelo conhecimento de seus semelhantes. Isso porque a fada
sabia que o príncipe precisaria de cada auxílio que ela pudesse lhe dar,
uma vez que, apesar de avançar na idade, ele não avançava na estatura,
permanecendo o mais miúdo dos príncipes. Apesar disso, porém, ele era
extremamente ativo e de boa constituição, e no todo tão belo e amável,
que a pequenez de seu tamanho não tinha real importância. O príncipe
sabia muito bem que era chamado pela ridícula alcunha de “Tangará”,
mas se consolava prometendo a si mesmo que a todo custo faria deste
um nome ilustre.
Buscando executar seus planos para o bem do Príncipe Tangará, a
fada começou a enviá-lo nas mais idílicas aventuras por mar e por terra
– e, nestas aventuras, ele era sempre o herói. Por vezes, salvava uma ado-
rável princesa de um terrível perigo; noutra ocasião, seus bravos feitos
rendiam-lhe um reino; até que, por fim, sentiu-se compelido a sair em
busca de sua fortuna em um país distante, onde seu humilde nascimento
não fosse empecilho à conquista de honra e riquezas pelo exercício de
sua coragem, e foi com o coração transbordante de projetos ambiciosos
que ele um dia entrou, cavalgando, em uma grande cidade não muito
distante do castelo da fada.
Tendo partido com o intento de caçar em uma floresta nas redon-
dezas, trajava vestes simples e trazia consigo apenas um arco, flechas e
uma lança, e mesmo esses aparatos conferiam-lhe graça e distinção. As-
sim que entrou na cidade, viu que todos os seus habitantes dirigiam-se
apressadamente para o mercado, e para lá rumou com seu cavalo, curioso
por saber o que se passava. Chegando ao local, viu que alguns forastei-
ros de aparência extravagante estavam prestes a fazer um anúncio aos

144
Coração Gelado

cidadãos reunidos em assembleia, e sem demora foi abrindo caminho


em meio à multidão, até que estivesse próximo o bastante para ouvir as
palavras do venerável ancião que fazia as vezes de porta-voz:
— Saiba o mundo inteiro que aquele que atingir o topo da Monta-
nha Gelada terá como recompensa não apenas a incomparável Zabela, a
mais bela das belas, mas todos os reinos dos quais ela é rainha!
E prosseguiu, depois de fazer o anúncio:
— Eis a lista de todos os príncipes que, arrebatados pela beleza da
princesa, pereceram na tentativa de conquistá-la; e aqui está a lista dos
que acabaram de aceitar esse temível desafio.
O Príncipe Tangará foi tomado por um violento desejo de inscrever
seu nome entre os demais, mas a lembrança de sua posição de depen-
dência e ausência de riqueza o deteve. Porém, enquanto ele hesitava, o
ancião, após muita cerimônia, revelou um retrato da adorável Zabela,
que veio carregado por alguns serviçais. Depois de vê-lo, o príncipe não
mais se conteve e, apressando o passo, pediu que inscrevessem seu nome
na lista. Ao bater os olhos em sua miúda figura e em seus trajes simpló-
rios, os forasteiros entreolharam-se com ar interrogativo, sem saber se o
aceitavam ou recusavam. Porém o príncipe disse, com altivez:
— Dai-me o papel para que eu o assine – e eles lhe obedeceram.
Perturbado pela impressão que a princesa lhe causara e contrariado pela
hesitação demonstrada por seus embaixadores, o príncipe não pensou em
outro nome senão naquele pelo qual fora sempre conhecido. Mas quando,
abaixo de todos os títulos de nobreza dos demais príncipes, ele anotou
simplesmente “Tangará”, os embaixadores irromperam em gargalhadas.
— Miseráveis! – exclamou o príncipe. – Não fosse por consideração
àquele digno retrato, cortaria vossas cabeças.
Ocorreu-lhe subitamente, entretanto, que aquele era de fato um
nome ridículo, e que ainda não tivera tempo de fazê-lo notório; então
acalmou-se e indagou sobre o caminho que deveria tomar até o país da
Princesa Zabela.
Embora seu coração não lhe traísse no mínimo que fosse, ele ain-
da assim pressentia as muitas dificuldades que se interporiam em seu

145
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

caminho e resolveu partir imediatamente, sem ao menos despedir-se


da fada, receoso de que ela tentasse impedi-lo. Na cidade, todos que
conheciam Tangará troçaram de sua empresa, e a notícia chegou até
mesmo aos ouvidos do tolo rei e da rainha, que se riram ainda mais que
todos os outros, sem fazer ideia de que o presunçoso Tangará era seu
próprio filho!
Enquanto isso, o príncipe seguia viagem, embora as direções que ti-
vesse recebido não fossem nem um pouco claras.
— Quatrocentas léguas depois do Monte Cáucaso, receberás tuas
ordens e instruções para a conquista da Montanha Gelada.
Belas ordens de marcha, aquelas, para alguém que iniciava sua via-
gem em um país próximo ao que hoje é o Japão!
Entretanto, ele tomou a direção oriental, evitando passar por qual-
quer cidade, a fim de que as pessoas não rissem de seu nome – pois,
como podeis ver, ele não era um viajante muito experiente, e ainda não
havia aprendido a tirar proveito de uma piada, mesmo que fosse contra
ele. À noite, dormia nos bosques, e a princípio alimentou-se apenas de
frutos silvestres; mas a fada, que mantinha sobre ele seus olhos benevo-
lentes, achou que não estava certo deixá-lo desnutrido daquela maneira,
e encarregou-se de alimentá-lo com toda sorte de alimentos substancio-
sos enquanto ele dormia, e o príncipe admirava-se de que jamais sen-
tisse fome durante o dia! Fiel ao seu plano, a fada enviava-lhe diversos
perigos para testar sua coragem, e ele superava-os todos, não obstante
o azar de ter perdido seu cavalo em seu último embate com um mons-
tro furioso, a um tigre assemelhado. Contudo, com coragem inabalada,
prosseguiu a pé, chegando por fim a um porto marítimo.
Ali encontrou um pequeno navio se dirigindo à costa que ele deseja-
va alcançar, e, com dinheiro suficiente apenas para pagar sua passagem,
embarcou, e então zarparam. Porém, passados alguns dias, uma pavoro-
sa tempestade surpreendeu-os, destruindo completamente o navio, e o
príncipe somente se salvou depois de muito nadar, até alcançar a única
faixa de terra à vista, que se revelou ser uma ilha deserta. Ali ficou viven-
do, pescando e caçando, confiante de que a boa fada o resgataria.

146
Coração Gelado

Um dia, enquanto olhava com tristeza para o mar, distinguiu uma


curiosa embarcação à deriva, que se aproximava lentamente da costa, e que
então enveredou por uma enseada, encalhando por fim na areia. O Príncipe
Tangará precipitou-se como um raio em sua direção a fim de examiná-la
e notou, espantado, que ramos de árvores cresciam nos mastros e nas ver-
gas, cobertos de espessa folhagem, à semelhança de uma pequena floresta.
Deduzindo, daquela quietude, que não havia ninguém a bordo, o príncipe
afastou os galhos com as mãos e saltou para dentro, vendo-se então cercado
pela tripulação, que jazia imóvel como se estivesse morta, em circunstâncias
deploráveis. Também eles haviam se tornado quase como árvores, crescen-
do pelo deque, mastros e flancos do navio, ou por sobre qualquer coisa em
que estivessem encostados quando o encantamento os atingira.
Tangará compadeceu-se da triste condição daqueles homens e tra-
balhou com afinco para libertá-los. Com a ponta afiada de uma de suas
lanças, desenleou seus pés e suas mãos dos galhos que os prendiam e
carregou-os para a praia, um após o outro, friccionando seus corpos en-
rijecidos, aplicando-lhes infusões de diversas ervas – e com tal êxito, que
dentro de poucos dias eles se recuperaram completamente, sentindo-se
mais aptos do que nunca para velejar um navio.
É bem certo que a boa Fada Genesta teve algo a ver com aquela
cura maravilhosa, sendo também responsável por sugerir ao príncipe a
ideia de esfregar no próprio casco do navio as ervas mágicas, limpando-
-o completamente – e não era sem tempo, pois, na velocidade em que
cresciam os ramos, o navio ter-se-ia convertido logo em uma floresta!
Foi imensa a gratidão dos marinheiros, e de boa vontade promete-
ram levar o príncipe aonde ele quisesse. Porém, quando os questionou
acerca do evento extraordinário que lhes havia sucedido, e ao seu navio,
os homens não puderam de forma alguma explicar – tudo o que sabiam
dizer era que, ao passar por uma costa, da densa mata veio uma repen-
tina rajada que, proveniente da encosta, os atingiu envolvendo-os em
uma espessa nuvem de poeira; e, depois disso, tudo no navio que não era
feito de metal começou a ramificar e a germinar, como o príncipe tinha
visto, e os próprios marinheiros foram aos poucos ficando dormentes

147
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

e sentindo-se cada vez mais pesados, perdendo, por fim, a consciência.


O Príncipe Tangará ficou extremamente interessado por essa curiosa
história, e coletou e armazenou cuidadosamente um bocado do pó que
encontrara no fundo do navio, acreditando que sua estranha proprieda-
de poderia ser-lhe bastante útil no futuro.
Partiram alegremente da ilha deserta e, depois de uma longa e feliz
viagem por mares tranquilos, avistaram afinal terra firme e decidiram
atracar – não apenas para renovar os estoques de água e mantimentos,
mas também para descobrir, se possível, em que parte do mundo esta-
vam, e qual direção tomar em seguida.
Conforme aproximavam-se da costa, questionaram-se se aquela seria
mais uma terra desabitada, pois não se divisava ali nenhum ser humano;
no entanto, tornou-se evidente que algo se movia, pois, em meio às nuvens
de poeira que deslizavam ao rés do chão, era possível ver, ainda que indis-
tintamente, diminutas formas negras. Pareciam reunir-se no ponto exato
onde pretendiam desembarcar, e qual não foi sua surpresa ao descobrir
que não eram nada mais, nada menos que grandes e belos cães spaniel
– alguns na posição de sentinelas, outros organizados em companhias e
regimentos –, todos assistindo com vivo interesse ao desembarque.
Quando viram que o Príncipe Tangará, em vez de dizer: “Dispa-
rar!”, como temiam, disse: “Olá, amigões!”, de modo inteiramente sim-
pático e cativante, cercaram-no com a cauda a agitar-se vigorosamente,
oferecendo-lhe as patas, e Tangará logo compreendeu que os cães de-
sejavam que ele deixasse seus companheiros no barco e os seguisse. O
príncipe estava tão curioso por saber mais sobre eles, que concordou em
acompanhá-los; então, depois de combinar com os marinheiros que o
esperassem por quinze dias, seguindo viagem caso ele não voltasse nesse
período, partiu com seus novos amigos.
O caminho que tomaram era pelo interior, e Tangará observou, sur-
preso, que os campos eram bem cultivados, e as carroças e os arados
eram puxados por cavalos ou bois, como em qualquer outro país; todo
vilarejo que cruzavam exibia casinhas elegantes e graciosas, e por todo
o canto pairava um ar de prosperidade. Em um dos vilarejos, oferece-

148
Coração Gelado

ram ao príncipe um pequeno banquete, e, enquanto ele ceava, veio uma


carruagem puxada por dois magníficos cavalos, conduzida com maestria
por um enorme spaniel. Confortavelmente instalado nesta carruagem,
continuou a viagem, e pelo caminho passou por vários outros coches
semelhantes, sendo em todas as ocasiões cumprimentado com muita
cordialidade pelos spaniels que os ocupavam.
Por fim, entraram à disparada em uma grande cidade, e o Príncipe
Tangará não teve dúvida de que se tratava da capital do reino. Era evi-
dente que a notícia de sua chegada havia-se espalhado, pois todos os ci-
dadãos estavam às portas e janelas, e todos os pequenos spaniels haviam
escalado os muros e portões para vê-lo passar. O príncipe ficou encan-
tado com essa recepção tão calorosa e olhava em volta com profundo
interesse. Depois de passar por algumas ruas largas bem pavimentadas,
enfeitadas com fileiras de bonitas árvores, chegaram ao pátio de um
grandioso palácio, repleto de spaniels que eram evidentemente soldados.
— A guarda do rei – pensou o príncipe consigo, enquanto retribuía
os cumprimentos.
Então a carruagem parou, e ele foi levado à presença do rei, que es-
tava deitado sobre um fino tapete persa, rodeado por vários spaniels pe-
quenos, que se ocupavam de afugentar as moscas, para que não incomo-
dassem Sua Majestade. Era o mais belo de todos os spaniels, com uma
sombra de tristeza a turvar-lhe os grandes olhos – tristeza que, todavia,
desapareceu quando ele se levantou de um salto para cumprimentar o
Príncipe Tangará, desfazendo-se em atenções. Depois, fez um sinal para
os cortesãos, que vieram, um por um, fazer as honras da casa ao visitante.
O príncipe pensou que se atrapalharia todo para travar uma conversa,
mas, tão logo viu-se mais uma vez a sós com o rei, mandaram chamar
um Secretário de Estado, que redigira, tomando ditado de Sua Majes-
tade, o mais polido discurso, no qual o rei lamentava não ser possível
conversarem senão por escrito, já que a língua dos cães era difícil de
compreender. A escrita, porém, mantivera-se tal qual a do príncipe.
Na sequência, Tangará redigiu uma resposta à altura e pediu que o rei
satisfizesse sua curiosidade sobre todos os estranhos acontecimentos que

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Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

ele presenciara desde seu desembarque. Isso pareceu despertar no rei tristes
lembranças, mas ele revelou ao príncipe ser o Rei Baiardo, e que uma fada,
cujo reino era vizinho ao seu, apaixonara-se perdidamente por ele, fazendo
tudo que estava ao seu alcance para convencê-lo a se casar com ela. Entre-
tanto, isso não era possível, já que ele devotava todo o seu amor à Rainha
das Ilhas Molucas. Por fim a fada, furiosa com a indiferença do rei, reduziu-
-o ao estado em que agora se encontrava, deixando sua consciência intacta,
mas privando-o da capacidade de falar; e, não satisfeita por vingar-se so-
mente do rei, condenou todos os seus súditos ao mesmo destino, dizendo:
— Lati e correi sobre quatro patas, até o dia em que a virtude for
recompensada pelo amor e pela fortuna – o que, como o pobre rei obser-
vou, seria o mesmo que dizer: permanece um spaniel por todo o sempre.
O príncipe Tangará era da mesma opinião, todavia, disse o que qual-
quer um deveria dizer em tais circunstâncias:
— Vossa Majestade deve ter paciência.
Ele verdadeiramente sentia pelo pobre Rei Baiardo, e disse tudo de
consolador em que podia pensar, prometendo não poupar esforços para
ajudá-lo, se algo pudesse ser feito. Em pouco tempo tornaram-se amigos
leais, e o rei orgulhosamente revelou a Tangará um retrato da Rainha
das Ilhas Molucas; ele concordou sem pestanejar que qualquer perigo
valia a pena por uma criatura tão amável.
O Príncipe Tangará, por sua vez, contou-lhe sua própria história, e
sobre a grande empresa a que havia se lançado; o Rei Baiardo deu-lhe
valiosas instruções sobre a melhor maneira de proceder, e então foram
juntos ao local onde estava o navio. Os marinheiros ficaram muito satis-
feitos por rever o príncipe e constatar que ele estava bem, e, após carre-
gar a bordo todos os mantimentos que o rei lhes providenciara, partiram
mais uma vez. Ambos lamentaram muito a separação, e o rei insistiu que
Tangará levasse consigo um de seus escudeiros, chamado Mousta, que
foi incumbido de acompanhá-lo por toda a parte e servi-lo fielmente – e
Mousta assim prometeu fazê-lo.
Com ventos favoráveis, logo tomaram distância do uivo generalizado
de lamento em todo o exército, dado por ordem do rei como importante

150
Coração Gelado

homenagem, e não demorou muito para que perdessem de vista a terra


firme. Não se depararam com nenhuma outra aventura que valha a pena
ser contada, e logo se acharam a duas léguas do porto que procuravam.
O príncipe, contudo, pensou ser melhor desembarcar onde estava, a fim
de evitar a cidade, uma vez que não lhe restava nenhum dinheiro – e
estava muito hesitante sobre o próximo passo a tomar. Então desem-
barcou junto com Mousta, e os marinheiros voltaram tristonhos para o
navio enquanto o príncipe e seu ajudante caminhavam na direção que
lhes parecia mais promissora.
Logo chegaram a uma linda campina verdejante que ficava nas ad-
jacências de um bosque, e tão agradável foi essa visão, que se sentaram
para descansar a uma sombra, onde ficaram a se divertir assistindo às
artes e cabriolas de um mimoso macaquinho que brincava em umas
árvores próximas. O príncipe ficou tão fascinado com o animal, que dali
a pouco levantou-se de um salto e tentou apanhá-lo, mas o macaquinho
teimava em escapar-lhe, mantendo-se longe do alcance da mão, até que
convenceu o príncipe a prometer-lhe que o seguiria aonde quer que fos-
se; então saltou sobre seu ombro e sussurrou-lhe ao ouvido:
— Não temos vintém, meu pobre Tangará; nossas circunstâncias são
totalmente precárias, e não sabemos o que fazer a seguir.
— Sim, de fato – respondeu o príncipe, com pesar –, e não tenho
nada para te dar, nem torrão de açúcar, nem biscoitos, nem nada do que
gostes, meu pequeno.
— Por vossa consideração para comigo, e paciência para com vossa
fortuna – disse o macaquinho –, mostrar-vos-ei o caminho para a Pedra
de Ouro; tendes apenas de deixar Mousta onde ele está, esperando por vós.
O Príncipe Tangará concordou de bom grado, e o macaquinho saltou
de seu ombro para a árvore mais próxima e começou a correr pela flores-
ta, agarrando-se de galho em galho e dizendo: “Segui-me!”
Não foi tão fácil para o príncipe, mas o macaquinho esperava por
ele e apontava-lhe os caminhos mais fáceis de passar, até que, depois
de não muito tempo, a floresta rareou, e eles chegaram a um campo
aberto e relvado ao pé de uma montanha, no meio do qual erguia-se

151
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

uma pedra de aproximadamente três metros. Aproximaram-se, e o ma-


caquinho disse:
— Esta pedra parece bastante dura, mas golpeai-a com vossa lança e
vejamos o que acontece.
Então o príncipe tomou de sua lança e espetou-a vigorosamente
contra a pedra, que se rompeu em vários pedaços, revelando seu interior,
que, sob o fino revestimento de pedra da superfície, era uma sólida mas-
sa de ouro puro.
A seguir disse o macaquinho, rindo-se do espanto do príncipe:
— Dar-vos-ei de presente aquilo que rompestes; tomai quanto ouro
vos parecer adequado.
O príncipe agradeceu e apanhou a menor das pepitas de ouro, após
o que o macaquinho transformou-se subitamente em uma senhora alta
e bela, que lhe disse:
— Se vos conservardes bom, perseverante e simples de coração, como
sois agora, havereis de superar os mais duros desafios. Segui vosso cami-
nho e não receeis falta de ouro, pois a pequena parte que modestamente
escolhestes jamais se reduzirá, não importa o quanto a utilizais. Mas,
para que vejais o perigo do qual escapastes graças à vossa moderação,
segui-me.
Dizendo isso, guiou-o de volta pela floresta por um caminho diferen-
te do anterior, e ele então viu que estava repleta de homens e mulheres;
suas faces eram pálidas e abatidas e corriam como loucos de um lado
para outro buscando algo pelo chão ou no ar, sobressaltando-se a cada
ruído, empurrando-se e atropelando-se na ânsia desvairada de encontrar
o caminho até a Pedra de Ouro.
— Vede como pelejam – a fada disse –, mas em vão. Terminarão por
morrer de desespero, como centenas antes deles.
Tão logo voltaram ao local onde haviam deixado Mousta, a fada de-
sapareceu, e o príncipe e seu fiel escudeiro, que se desfez em demonstra-
ções de alegria ao revê-lo, tomaram o caminho mais curto para a cidade.
Ali passaram vários dias, enquanto o príncipe equipava-se de cavalos e
escudeiros, muito indagando acerca da Princesa Zabela e do caminho

152
Coração Gelado

até seu reino, o qual estava ainda tão distante, que só conseguiu obter
poucas informações, e estas ainda assim muito vagas. Porém, quando
chegou ao Monte Cáucaso, tudo foi diferente. Ali, parecia não se falar
noutra coisa senão na Princesa Zabela, e forasteiros de todas as partes
do mundo viajavam rumo à corte de seu pai.
O príncipe ouviu muitas confirmações acerca da beleza e da riqueza
da princesa, mas também teve conhecimento da imensa quantidade dos
seus rivais e do seu poderio. Um deles trazia um exército à sua cola;
outro possuía vasta fortuna; um outro ainda era belo e habilidoso como
ninguém – já Tangará nada possuía além de sua determinação de vencer,
seu fiel spaniel e seu nome ridículo. E, não podendo este último valer-
-lhe de nada, nem havendo meios de alterá-lo, decidiu, sabiamente, não
mais pensar sobre o assunto.
Depois de viajar por dois meses inteiros, chegaram finalmente a Tre-
lintim, capital do reino da Princesa Zabela, e ali ouviu histórias desani-
madoras sobre a Montanha Gelada e sobre como nenhum daqueles que
haviam tentado escalá-la jamais retornara. Ouviu também a história do
Rei Farda-Quimbras, o pai de Zabela.
Reza a lenda que ele, um rico e poderoso monarca, havia-se casado
com uma linda princesa chamada Birbantina, e os dois não poderiam
ser mais felizes – tão felizes que, um dia, enquanto passeavam de trenó,
cometeram a imprudência de desafiar o poder que o destino possui de
macular sua felicidade. Ao ouvir isso, uma velha bruxa, sentada à beira
da estrada e assoprando os dedos para mantê-los aquecidos, teria res-
mungado: “Veremos”.
Logo a seguir, o rei começou a sentir-se extremamente irado e quis
punir a esposa, mas a rainha deteve-o, dizendo:
— Alto lá, senhor! Não agravemos a situação; sem dúvida isso é obra
de fada!
A velha então teria dito:
— Tendes razão – e pôs-se imediatamente de pé.
Enquanto ambos a olhavam, horrorizados, ela foi-se tornando gi-
gantesca e terrível; seu cajado transformou-se em um dragão flamejante

153
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

abrindo as asas; sua capa carcomida mudou-se em um manto de ouro, e


seus sapatos de madeira, em feixes de rojões.
— Tendes razão, e, quando virdes as consequências de tuas andanças,
lembrai-vos da Fada Gorgonzola!
E, dizendo isso, montou em seu dragão e saiu voando, os rojões
disparando em todas as direções, deixando atrás de si um longo rastro
de fagulhas.
Em vão Farda-Quimbras e Birbantina imploraram que ela voltasse
e tentaram apaziguá-la por meio de sinceros pedidos de desculpa; ela
sequer dignou-se de olhar para eles, e em pouco tempo desapareceu de
vista, deixando-os sujeitos a todo tipo de infortúnio.
Pouco tempo depois desses acontecimentos, a rainha teve uma fi-
lhinha, que era a mais bela criatura já vista; todas as fadas do Norte
foram convidadas para o batizado e alertadas sobre a malévola Gorgon-
zola – que também foi convidada, mas nem compareceu, nem recebeu
o presente que lhe fora enviado. No entanto, assim que todas as fadas
sentaram-se à mesa, depois de conferir seus dons sobre a princesinha,
Gorgonzola entrou furtivamente no palácio, assumindo a forma de um
gato preto, e manteve-se escondida debaixo do berço até que todas as
babás e criadas virassem as costas; então deu um salto e, num instante,
roubou o coraçãozinho da princesa e escapou com ele, perseguida ape-
nas por alguns cães e ajudantes de cozinha em sua fuga pelo pátio. Uma
vez do lado de fora, subiu em sua carruagem e voou direto para o Polo
Norte, onde encerrou o tesouro roubado no topo da Montanha Gelada,
cercando-o de tantos perigos, que teve certeza de que lá permaneceria
por toda a vida da princesa; e então voltou para casa, comemorando o
sucesso de sua empreitada. Quanto às outras fadas, voltaram para casa
depois do banquete, sem dar pela falta de coisa alguma, e o rei e a rainha
ficaram bem felizes.
Zabela tornava-se cada dia mais formosa. Aprendeu, sem a menor
dificuldade, tudo o que uma princesa deveria saber; mas, ainda assim,
ficava sempre a impressão de que lhe faltava algo para que fosse per-
feitamente encantadora. Tinha uma voz maravilhosa, mas, fossem suas

154
Coração Gelado

canções alegres ou tristes, era-lhe de todo indiferente, pois ela não lhes
compreendia o sentido, e todos que a ouviam cantar diziam:
— Canta perfeitamente, não resta dúvida, mas sem ternura; não co-
loca o coração no que canta.
Pobre Zabela! Como poderia ser diferente, se seu coração estava lon-
ge, nas Montanhas Geladas? E era assim também com tudo o mais que
ela fazia. Conforme o tempo passava, apesar da admiração de toda a
corte e do carinho irrestrito do rei e da rainha, foi-se tornando cada vez
mais evidente que algo estava fatalmente errado: pois aquele que não
ama ninguém não pode ser amado por muito tempo. Por fim o rei con-
vocou uma assembleia geral, convidando as fadas para que ajudassem,
se possível, a descobrir qual era o problema. Depois de expor sua aflição
da melhor forma que conseguiu, terminou implorando que vissem com
seus próprios olhos a princesa.
— Tenho certeza – disse ele – de que há algo errado; o que é exatamen-
te não sei dizer, mas, de alguma forma, vosso trabalho ficou imperfeito.
Elas garantiram que, até onde sabiam, todo o necessário fora feito
pela princesa, e que não haviam negligenciado nada que pudessem con-
ferir a um vizinho tão bom quanto o rei. Depois disso foram ver Zabela
– e, mal haviam-se colocado na presença da princesa, exclamaram todas
em uníssono:
— Ó! Que horror! Ela não tem coração!
Diante de tão pavoroso anúncio, o rei e a rainha soltaram um grito de
terror, e rogaram às fadas que encontrassem uma maneira de remediar
esse infortúnio jamais antes visto. Então a fada anciã consultou seu livro
de magia, que sempre levava aonde fosse, preso na cintura por uma gros-
sa corrente de prata, e lá prontamente descobriu que fora Gorgonzola
quem roubara o coração da princesa, bem como o que a malvada fada
ancestral fizera com ele.
— Que vamos fazer? Que vamos fazer? – diziam a um só tempo o
rei e a rainha.
— Deve certamente causar-vos grave aflição ver e amar a princesa,
que não passa de uma bela imagem – respondeu a fada –, e este estado

155
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

de coisas deve prolongar-se ainda por muito tempo; mas creio que, por
fim, ela recobrará seu coração. O conselho que vos dou é que façais
circular por todo o mundo o seu retrato, e prometais sua mão em casa-
mento, e toda a sua riqueza, ao príncipe que com sucesso resgatar-lhe
o coração. Sua beleza, sem qualquer outro incentivo, é bastante para
convencer todos os príncipes do mundo a aceitar o desafio.
Assim foi feito, e o Príncipe Tangará ouviu dizer que quinhentos
príncipes haviam perecido na neve e no gelo, para não mencionar seus
escudeiros e pajens, e que mais príncipes continuavam a chegar todos os
dias, ansiosos por tentar a sorte. Depois de ponderar um bocado, decidiu
apresentar-se à corte, mas sua chegada não causou nenhuma impressão,
uma vez que seu séquito era tão minguado quanto sua estatura, e tama-
nho era o esplendor de seus rivais, que mesmo Farda-Quimbras ficava
em segundo plano. Entretanto, cumprimentou o rei muito educadamente
e pediu permissão para beijar a mão da princesa, como era o costume. Ao
dizer, porém, que se chamava Tangará, o rei mal conseguiu reprimir um
sorriso, e os príncipes que por ali estavam explodiram numa gargalhada.
Dirigindo-se ao rei, o Príncipe Tangará respondeu, com grave dignidade:
— Vossa Alteza pode rir à vontade, se vos apraz; folgo em saber que
vos proporciono algum divertimento. Mas não admito ser joguete nas
mãos desses cavalheiros, e peço-lhes que afastem imediatamente qual-
quer ideia do gênero – e, dizendo isso, dirigiu-se ao príncipe que rira
mais alto e orgulhosamente desafiou-o para um duelo.
O tal príncipe, que se chamava Fadasse, aceitou o desafio desdenho-
samente, rindo-se de Tangará, que, em sua opinião, não teria a menor
chance contra ele. O confronto foi acertado para o dia seguinte. Ao
retirar-se da presença do rei, o Príncipe Tangará foi conduzido ao salão
de audiências da princesa Zabela. A visão de tamanha beleza e esplen-
dor quase roubou-lhe o fôlego por um momento, mas, recompondo-se
com algum esforço, disse-lhe:
— Adorável princesa, irremediavelmente atraído pela beleza de vos-
so retrato, venho do outro lado do mundo colocar-me à vossa dispo-
sição. Minha devoção desconhece obstáculos, mas meu ridículo nome

156
Coração Gelado

deu causa a que me envolvesse em uma disputa com um de vossos pre-


tendentes. Amanhã hei de bater-me contra esse incauto e desagradável
príncipe, e rogo que honreis o combate com vossa presença, e assim pro-
veis ao mundo que o nome não é nada, e que aceitais tomar a Tangará
por vosso cavaleiro.
Àquela altura, a princesa já não podia evitar divertir-se com a situa-
ção, pois, embora não tivesse coração, tinha senso de humor. Entretanto,
respondeu polidamente que aceitava o convite, o que encorajou o prín-
cipe a pedir-lhe, ademais, que não favorecesse seu adversário.
— Ora, essa! – ela respondeu. – Pois se não favoreço nenhum des-
ses idiotas que vêm agastar-me com seu sentimentalismo e insensatez!
Sinto-me perfeitamente bem, e, ainda assim, ano após ano, eles vêm
falar-me de me salvar de um suposto sofrimento. Não compreendo uma
só palavra das frioleiras que dizem sobre o amor e sabe-se lá sobre o que
mais, porque, confesso-vos, sequer me recordo do que dizem.
Tangará foi arguto o bastante para depreender das palavras da prin-
cesa que diverti-la e avivar-lhe o interesse seriam formas mais certeiras
de obter seus favores do que engrossar a lista daqueles que a importu-
navam com sua tagarelice sobre esse tal “amor”, coisa misteriosa que
tanto ultrapassava seu entendimento. Então desandou a falar sobre seus
rivais, encontrando em cada um deles um motivo de mofa – divertimen-
to a que a princesa aderiu inteiramente, e tamanho foi o seu êxito em
diverti-la que, passado não muito tempo, ela declarou que, de todas as
pessoas da corte, era com Tangará que ela preferia conversar.
No dia seguinte, à hora marcada para o enfrentamento, quando o
rei, a rainha e a princesa tomaram seus lugares, estando toda a corte e
toda a cidade reunida para assistir ao evento, o Príncipe Fadasse fez sua
entrada na arena, esplendidamente armado e aparelhado, seguido por
vinte e quatro escudeiros e uma centena de homens de armas, cada um
montado em um belíssimo cavalo; o Príncipe Tangará, por sua vez, en-
trou na arena pelo lado oposto, armado apenas com sua lança e seguido
de seu fiel Mousta. O contraste entre os dois guerreiros era tão gritante,
que o povo irrompeu em estrepitosa gargalhada. Mas quando, ao som

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Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

da trombeta, os combatentes avançaram um sobre o outro, e Tangará,


desviando-se de um golpe, conseguiu arrancar o príncipe Fadasse de
cima de seu cavalo e espetá-lo contra o chão com sua lança, o som da
risada converteu-se em um murmúrio de admiração.
Entretanto, tendo a vida do príncipe Fadasse em suas mãos, Tangará,
dirigindo-se à princesa, declarou que não pretendia matar ninguém que
se apresentasse como seu cortesão, e pediu ao enraivecido e humilhado
Fadasse que se levantasse e agradecesse à princesa por sua vida. E assim,
em meio ao som das trombetas e dos gritos do povo, retirou-se da arena
solenemente, acompanhado por Mousta.
O rei logo mandou chamá-lo para cumprimentá-lo pela vitória e
oferecer-lhe acomodação no palácio, o que foi prontamente aceito. Já a
princesa manifestou o desejo de ver Mousta. O príncipe mandou buscá-
-lo, e ela ficou tão encantada com seus modos corteses e com sua pro-
digiosa inteligência, que suplicou a Tangará que lhe desse o animal. O
príncipe consentiu animadamente, não apenas por educação, mas por
imaginar que ter um fiel amigo sempre próximo da princesa poderia
ser-lhe útil algum dia. Esses acontecimentos fizeram de Tangará uma
figura muito mais importante na corte.
Pouco tempo depois, cruzou a fronteira do reino o embaixador de
um rei muito poderoso, que enviava a Farda-Quimbras a correspondên-
cia a seguir e pedia, na mesma ocasião, permissão para entrar na capital
a fim de receber a resposta:
“Eu, Brandatimor, envio a Farda-Quimbras meus cumprimentos.
Houvera eu antes visto o retrato de vossa bela filha Zabela, não teria
permitido que todos esses príncipes, aventureiros e sem importância,
viessem bajulá-la e se condenassem a perecer de frio no leviano intento
de merecer sua mão. De minha parte, não temo a nenhum rival, e, agora
que estou resolvido a desposar vossa filha, sem dúvida todos eles recua-
rão. Meu embaixador tem ordens, portanto, para providenciar a vinda da
princesa a fim de se casar comigo imediatamente – pois que não tributo
a menor importância a essa história que tornastes conhecida no mundo
inteiro acerca da Montanha Gelada. Caso a princesa de fato não tenha

158
Coração Gelado

coração, estejais certo de que isso é para mim de todo indiferente, pois,
se existe alguém que pode ajudá-la a descobrir um coração, este sou eu.
Ao meu estimado sogro, adeus!”
A leitura da carta foi causa de constrangimento e desgosto para
Farda-Quimbras e Birbantina; a princesa, por sua vez, ficou furiosa
com a insolência do pedido. Resolveram os três manter seu conteúdo
em sigilo até que decidissem que resposta enviar, mas Mousta arranjou
uma maneira de informar ao Príncipe Tangará sobre o que se passara.
Naturalmente alarmado e indignado, depois de ponderar a questão por
alguns momentos, solicitou uma audiência com a princesa, e com tan-
ta habilidade dirigiu a conversa para o assunto que monopolizava os
pensamentos dela (bem como os seus), que não demorou muito para
que lhe arrancasse uma confissão. Ela então pediu-lhe um conselho so-
bre a melhor decisão a tomar. Era precisamente sobre isso que ele não
conseguia se decidir; entretanto, aconselhou-a que ganhasse um pouco
mais de tempo prometendo dar uma resposta após a entrada solene do
embaixador, o que foi acatado e feito.
O embaixador não gostou nada da protelação, mas foi obrigado a se
conformar, limitando-se a dizer, muito arrogantemente, que, tão logo
sua carruagem chegasse – muito em breve, segundo ele esperava –, daria
ao povo da cidade, e aos príncipes que a infestavam, uma ideia do poder
e magnificência de seu senhor. Tangará, aflito, decidiu que, desta vez,
recorreria ao auxílio da boa Fada Genesta. Ele frequentemente pensa-
va nela, sempre com gratidão, mas, desde o momento de sua partida,
decidira solicitar sua ajuda somente nas ocasiões mais graves. Naquela
mesma noite, após adormecer, exausto de tanto pensar nas dificuldades
da situação, sonhou que a fada punha-se ao seu lado e dizia:
— Tangará, te comportaste muito bem até agora. Continua a agra-
dar-me, e encontrarás sempre bons amigos quando mais precisar. No
tocante ao embaixador, tranquiliza Zabela quanto à sua entrada solene;
tudo há de acabar bem para ela.
O príncipe bem que tentou atirar-se aos seus pés para agradecê-la,
mas despertou e viu que fora tudo um sonho; todavia, muniu-se de reno-

159
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

vada coragem e no dia seguinte foi ver a princesa, dando-lhe misteriosas


e abundantes certezas de vitória. Chegou mesmo ao ponto de lhe per-
guntar se não ficaria grata por aquele que a livrasse do insolente Bran-
datimor. A isso, ela respondeu que sua gratidão seria infinita. Ele então
indagou o que de melhor ela desejaria àquele que fosse feliz o bastante
para consegui-lo, ao que ela respondeu: que ele se tornasse tão insensível
quanto ela a essa asneira chamada “amor”! Estas foram, de fato, palavras
esmagadoras para um amante tão devoto quanto o Príncipe Tangará, po-
rém ele soube com admirável coragem disfarçar a dor que lhe causaram.
O embaixador enviara um recado avisando que, no dia seguinte,
compareceria em pessoa para receber uma resposta. Já muito cedo pela
manhã os habitantes corriam em polvorosa, a fim de garantir os lugares
privilegiados para assistir ao grande acontecimento. Mas a gentil Fada
Genesta preparava-lhes uma boa dose de diversão com a qual eles nem
sonhavam: enfeitiçou os olhos de todos os presentes, e, quando a por-
tentosa procissão do embaixador apareceu, seus magníficos uniformes
pareceram-lhes trapos miseráveis que fariam vergonha a um mendigo;
os cavalos de trote elegante pareceram-lhes pobres criaturas esquálidas,
mal capazes de arrastar uma pata após a outra; e seus arreios, que em
verdade reluziam de tanto ouro e pedras preciosas, pareceram-lhes de
um couro bem carcomido, impróprios até mesmo a um cavalo de tra-
ção. Os escudeiros pareciam os mais esfarrapados daqueles garotos que
limpam chaminés. As trombetas não produziam um som melhor do
que o apito de um canudo de bambu, ou o berro esganiçado daquele
instrumento que se improvisa com um pente e um pedaço de papel. Já
o cortejo de cinquenta carruagens não parecia mais do que cinquenta
carroças puxadas por jumentinhos. No último carro vinha o embaixador,
com o ar altivo e desdenhoso que julgava cair bem ao representante de
tão poderoso monarca – pois este era o ponto alto do ridículo de toda
aquela procissão: que todos os que dela faziam parte tanto se envaide-
cessem e orgulhassem de sua aparência e de tudo que os cercava, o que,
em seu entender, estava plenamente justificado pela importância que
atribuíam a si próprios.

160
Coração Gelado

O riso zombeteiro e o estrepitoso escárnio da multidão se intensi-


ficavam conforme o insólito cortejo avançava, até atingirem os ouvi-
dos do rei, que aguardava no salão de audiências. Antes que a procissão
chegasse ao palácio, informaram-no sobre o caráter do que ali vinha,
e, supondo ser aquilo um insulto, o rei ordenou que se fechassem os
portões. Podeis imaginar a fúria do embaixador quando, depois de tanta
ostentação, descobriu que o rei se recusava terminantemente a recebê-lo.
Desandou, em doida sanha, a praguejar contra o rei e o povo, e o cortejo
retirou-se em grande confusão, achincalhado debaixo de pedras e lama
que a multidão enfurecida lhe atirava. Escusado dizer que ele deixou o
país tão rapidamente quanto os cavalos podiam levá-lo, mas não sem
antes declarar guerra, fazendo as mais terríveis ameaças e prometendo
devastar o país pelo fogo e pela espada.
Alguns dias depois desse desastre diplomático, o Rei Baiardo enviou
alguns cortesãos ao Príncipe Tangará, munidos de uma carta extrema-
mente cordial, colocando-se à sua disposição para o caso de qualquer
dificuldade e indagando, com sincero interesse, como vinha passando.
Tangará respondeu prontamente, relatando todos os acontecimentos
desde sua partida, sem se esquecer de mencionar o evento entre Farda-
-Quimbras e Brandatimor, e que haviam se lançado numa contenda
fatal; finalizou solicitando a seu leal amigo que despachasse algumas
centenas de seus spaniels veteranos para prestar-lhe auxílio.
Nem o rei, nem a rainha, nem a princesa podiam entender de modo
algum o inexplicável comportamento do embaixador de Brandatimor.
Todavia, os preparativos para a guerra prosseguiram a toda prova, e to-
dos os príncipes que ainda não haviam partido para a Montanha Gelada
ofereceram seus préstimos, ao mesmo tempo exigindo as melhores po-
sições no exército do rei. Tangará foi um dos primeiros a se voluntariar,
mas pediu simplesmente o posto de ajudante de campo do comandante
em chefe, um heroico soldado celebrado por suas vitórias.
Assim que o exército pôde se reunir, marchou para a fronteira, onde
deparou-se com o inimigo chefiado pessoalmente por Brandatimor, que
espumava de ódio, decidido a vingar o insulto ao seu embaixador e to-

161
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

mar a Princesa Zabela para si. Tudo o que o exército de Farda-Quim-


bras podia fazer, sendo amplamente superado em número, era investir
na defensiva. Tangará em breve conquistou a estima dos oficiais, graças
à sua habilidade, e a estima dos soldados, graças à sua coragem e preo-
cupação com o seu bem-estar; e em todos os confrontos em que tomou
parte teve a felicidade de derrotar o inimigo.
Por fim, Brandatimor lançou todo o exército em um terrível combate,
e, muito embora as tropas de Farda-Quimbras lutassem com desmedida
coragem, seu general foi abatido, e o exército vencido e obrigado a re-
cuar, com imensos danos. Tangará operava maravilhas, e meia dúzia de
vezes reverteu a situação de suas tropas, obrigando o inimigo a bater em
retirada. Depois, reuniu homens em número suficiente para mantê-los
em prontidão, até que o inverno rigoroso, abatendo-se sobre eles, pôs
uma trégua ao conflito.
Então voltou à corte, onde imperava consternação geral. O rei estava
desolado com a morte de seu general de confiança; por fim implorou a
Tangará que assumisse o comando do exército, e seus conselhos foram
acatados em todos os assuntos da corte. Manteve-se fiel ao seu plano
de entreter a princesa, jamais trazendo à tona aquela maçada chamada
“amor”, de modo que para ela era sempre um prazer vê-lo, e o inverno
passou alegremente para ambos.
Durante todo esse tempo, o príncipe planejava secretamente a pró-
xima campanha; recebera informações confidenciais de que um signifi-
cativo reforço de spaniels havia chegado, e enviou-lhes ordens de que se
posicionassem na fronteira sem fazer alarde, e, tão logo lhe foi possível,
reuniu-se com o comandante dos spaniels, que era um soldado maduro
e experiente. Seguindo seu conselho, ordenou uma batalha campal assim
que o exército inimigo avançasse, e neste ponto Brandatimor não perdeu
tempo, inteiramente convencido de que desta vez poria um fim à guerra
e finalmente derrotaria Farda-Quimbras.
Porém, tão logo deu a ordem de atacar, os spaniels, que se haviam
misturado às tropas sem ser notados, saltaram cada um sobre o cavalo
mais próximo, e não apenas lançaram todo o esquadrão no mais com-

162
Coração Gelado

pleto caos, pelo terror que provocaram, mas, voando sobre o pescoço
dos cavaleiros, derrubaram muitos deles graças ao elemento surpre-
sa do ataque. Então, atacando os cavalos pela retaguarda, espalharam
devastação por toda a parte, abrindo caminho para que o Príncipe
Tangará atingisse facilmente a vitória definitiva. Ele bateu-se contra
Brandatimor em um duelo e conseguiu fazê-lo prisioneiro; porém o
rei não sobreviveu à viagem até a corte, para onde Tangará o enviara:
seu orgulho o matou ao imaginar-se diante de Zabela sob circunstân-
cias tão adversas.
Enquanto isso, o Príncipe Fadasse e todos os outros que haviam fi-
cado para trás preparavam-se para a conquista da Montanha Gelada,
receosos de que o Príncipe Tangará obtivesse neste, como nos demais
desafios, um resultado favorável. Ao voltar da campanha, Tangará ficou
profundamente contrariado com esse estado de coisas. É fato que ele
vinha servindo à princesa, mas ela apenas o admirava e elogiava por seus
feitos heroicos, e não parecia nem um pouco inclinada a conceder-lhe o
amor que ele tão ardentemente desejava. O único conforto que Mousta
podia dar a Tangará nesta questão era que, ao menos, ela não amava
ninguém, e com isso ele teve de se conformar.
Tangará decidiu, porém, que não se demoraria nem mais um mi-
nuto, prosseguindo no intento que o trouxera de tão longe até ali. Ao
despedir-se do rei e da rainha, estes instaram-lhe que desistisse da em-
preitada, pois tinham acabado de saber que o Príncipe Fadasse e todo o
seu séquito haviam perecido na neve. Ele, porém, manteve sua decisão.
Zabela, por sua vez, estendeu-lhe a mão para que a beijasse, com a mes-
ma polida indiferença com que o fizera da primeira vez que se encontra-
ram. Ocorre que essa despedida se deu à vista de toda a corte, e tamanha
era a estima com que agora Tangará era tido por todos, que a frieza do
tratamento da princesa provocou geral indignação.
Por fim, o rei lhe disse:
— Príncipe, tendes sempre rejeitado os presentes que vos ofereço, em
gratidão por vossos inestimáveis serviços, mas desejo que a princesa vos
agracie com o seu manto de pele de marta, e espero que não o rejeiteis.

163
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Ora, tratava-se de um magnífico manto do qual a princesa gostava


muito, não tanto porque sentisse frio, mas porque suas cores combina-
vam perfeitamente com o matiz delicado de sua pele e com o dourado
brilhante de seus cabelos. Não obstante, ela o retirou e, com refinada po-
lidez, pediu que o Príncipe Tangará o aceitasse, ao que ele obviamente
correspondeu, encantado; e levando somente isso e um feixe de lenha,
acompanhado por apenas dois spaniels – dos cinquenta que ficaram com
ele após a guerra – partiu, e em cada cidade por que passava recebia muitas
provas de amizade e afeição do povo. No último vilarejo, abandonou seu
cavalo para iniciar sua penosa caminhada pela neve, que se estendia, bran-
ca e terrível, em todas as direções que a vista alcançava. Este era o local
do encontro marcado com os quarenta e oito spaniels, que o receberam
efusivamente, reafirmando que, em qualquer circunstância, estariam ao
seu lado e o serviriam fielmente. E assim partiram, cheios de esperança.
Primeiro, passaram por uma trilha estreita e difícil, porém não im-
possível de percorrer, mas logo se perderam, e a Estrela Polar foi o único
guia que tiveram. Quando pararam para descansar, o príncipe, que, após
muito refletir, decidiu sobre o seu plano de ação, plantou na neve alguns
gravetos do feixe que trouxera consigo e polvilhou sobre eles uma pitada
do pó mágico que encontrara no pequeno navio encantado. Para sua
imensa alegria, eles imediatamente começaram a brotar e crescer, e, em
questão de alguns instantes, o acampamento ficou cercado por um per-
feito pomar com árvores de todo tipo, que floriam e se curvavam ao peso
dos frutos maduros. E assim todos puderam saciar a fome à vontade,
fazendo depois imensas fogueiras para se aquecer.
Então o príncipe enviou alguns spaniels para fazer o reconhecimento
do terreno, e tiveram a sorte de encontrar um cavalo carregado de provi-
sões, preso na neve. Foram imediatamente buscar seus companheiros e
triunfantemente levaram os espólios de guerra para o acampamento – e,
como estes consistiam principalmente de biscoitos, nenhum spaniel foi
dormir sem antes cear. Desta maneira viajavam durante o dia e acampa-
vam em segurança durante a noite, sempre se lembrando de apanhar um
bocado de gravetos para fornecer-lhes alimento e abrigo.

164
Coração Gelado

Iam encontrando pelo caminho os exércitos daqueles que se aven-


turaram na perigosa empreitada, rijamente congelados, sem sentidos e
imóveis, mas o Príncipe Tangará proibiu expressamente qualquer ten-
tativa de degelá-los. Então seguiram em frente por mais de três longos
meses, e a Montanha Gelada, que já avistavam há algum tempo, apare-
cia-lhes cada vez mais nitidamente, até que finalmente a alcançaram – e,
de tão imensa e íngreme, fez a todos estremecer.
Porém, com paciência e perseverança, foram escalando pé ante pé,
auxiliados pelo fogo de sua lenha mágica, sem o qual teriam perecido no
frio intenso, até que, por fim, viram-se diante dos portões do majestoso
Palácio Gelado, que coroava a montanha, onde, num silêncio mortal e
sono pétreo, jazia o coração de Zabela.
A dificuldade agora era temível, pois, caso se mantivessem aque-
cidos o bastante para sobreviverem, correriam o risco de que os blo-
cos de gelo dos quais se compunha o palácio derretessem, o que fa-
ria toda a estrutura ruir sobre suas cabeças. Porém, cuidadosamente e
com muita agilidade, cruzaram pátios e salões até alcançar o pé de um
enorme trono, onde, sobre uma almofada de neve, estava um imenso
e reluzente diamante, que continha o coração da adorável Princesa
Zabela. Sobre o primeiro degrau do trono lia-se, em letras de gelo:
“Quem quer que sejais, que, graças à vossa coragem e virtude, con-
quistastes o coração de Zabela, desfrutai em paz da boa fortuna a que
valorosamente fazeis jus.”
O Príncipe Tangará escalou os degraus e teve força suficiente apenas
para agarrar o precioso diamante que continha aquilo que ele mais de-
sejava no mundo, antes de cair, sem sentidos, sobre a almofada de neve.
Seus leais spaniels não perderam um segundo e o resgataram, carregan-
do-o rapidamente para fora do salão – e bem a tempo, pois ouviram ao
seu redor o baque dos blocos de gelo que despencavam no chão enquan-
to o Palácio Encantado ruía lentamente sob o efeito daquele calor ines-
perado. Somente pararam para trazer o príncipe de volta à consciência
quando atingiram o pé da montanha, e então sua alegria por achar-se o
possuidor do coração de Zabela foi infinita.

165
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Começaram a voltar pelo mesmo caminho, a toda velocidade, mas


desta vez o feliz príncipe não pôde suportar a visão de seus derrotados e
desiludidos rivais, cujos corpos congelados pontilhavam seu caminho de
vitória. Ordenou aos spaniels que não poupassem esforços para trazê-los
de volta à vida, e tamanho êxito obtiveram, que dia após dia sua comitiva
crescia, de modo que, ao retornar ao vilarejo onde deixara seu cavalo,
vinha seguido por quinhentos príncipes soberanos e um sem-número de

cavaleiros e escudeiros; e era tão cortês e modesto, que todos o seguiam


de boa vontade, ansiosos por agradá-lo. Mas a verdade é que ele se sentia
tão afortunado, que não lhe era difícil estar em paz com todo o mundo.
Dentro em pouco encontrou o fiel Mousta, que vinha correndo a toda
velocidade contar-lhe sobre a repentina e extraordinária transformação
da princesa, que se tornara afável e solícita e não fazia outra coisa senão

166
Coração Gelado

falar sobre o Príncipe Tangará, sobre as penas que ele devia estar sofren-
do, e de sua apreensão por seu bem-estar – e tudo isso com centenas de
outras demonstrações de afeto, para coroar a felicidade do príncipe. En-
tão veio um cortesão trazendo as congratulações do rei e da rainha, que
haviam acabado de receber a notícia de seu retorno, e até mesmo uma
elegante felicitação de Zabela. O príncipe ordenou que Mousta corresse
de volta à princesa, a qual o recebeu com genuína alegria – pois, afinal,
não era um presente de seu amado?
Os viajantes por fim chegaram à capital, onde foram recebidos com
pompas reais. Farda-Quimbras e Birbantina abraçaram o Príncipe Tan-
gará, declarando estimá-lo como a seu próprio filho e futuro esposo
da princesa, ao que ele respondeu que estava muito honrado. Foi então
admitido à presença da princesa, que pela primeira vez corou quando ele
beijou-lhe a mão, e não soube o que dizer. Mas o príncipe, pondo-se de
joelhos junto dela, estendeu-lhe o esplêndido diamante, dizendo:
— Senhora, este tesouro vos pertence, pois nenhum dos perigos e
dificuldades que enfrentei seriam suficientes para tornar-me digno dele.
— Ah, príncipe! – disse ela. – Se o recebo, é apenas para oferecer-vos
de volta a vós, pois na verdade ele já vos pertence.
Neste momento foram interrompidos pelo rei e pela rainha, que en-
traram fazendo toda sorte imaginável de perguntas, e não raro as mes-
mas perguntas de novo e de novo. Parece que há sempre uma pergunta
que todos infalivelmente fazem sobre um dado acontecimento, e o Prín-
cipe Tangará descobriu que a pergunta a que teria de responder para
mais de uma centena de pessoas sobre esta ocasião em particular era a
seguinte: “Pois não achastes muito frio?”
O rei viera para pedir ao Príncipe Tangará e à princesa que o acom-
panhassem ao Salão do Conselho, pedido a que atenderam, ignorando
que o rei pretendia apresentar o príncipe, como seu genro e sucessor, a
todos os nobres lá reunidos. Quando Tangará percebeu essa intenção,
pediu permissão para falar primeiro e contou toda a sua história, inclu-
sive o fato de que acreditava ser o filho de um camponês. Mal acabara
de falar, o céu enegreceu, um trovão rugiu e um relâmpago brilhou, e na

167
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

luz apareceu de repente a boa Fada Genesta. Dirigindo-se ao Príncipe


Tangará, ela disse:
— Estou satisfeita convosco, pois demonstrastes não apenas cora-
gem, mas um bom coração.
E, voltando-se para o Rei Farda-Quimbras, informou-o sobre a ver-
dadeira história do príncipe, e de como ela decidira formá-lo no tipo de
educação mais adequado a um homem que se dedicaria ao governo de
outros homens.
— Agora que conheceis o valor de um amigo fiel – acrescentou, di-
rigindo-se ao príncipe –, tereis o prazer de ver o Rei Baiardo e todos
os seus súditos recobrarem sua forma natural, como recompensa pela
benevolência que demonstraram para convosco.
Neste momento surgiu uma carruagem puxada por águias, a qual por
acaso trazia o tolo rei e a rainha, que abraçaram efusivamente a seu filho
há tanto tempo desaparecido – e ficaram de fato admirados de vê-lo co-
berto de pelos! Enquanto acariciavam Zabela e apertavam-lhe as mãos
(a demonstração de afeto preferida entre os tolos), viram-se carruagens
aproximando-se de todos os cantos, trazendo inúmeras fadas.
— Senhor – disse Genesta a Farda-Quimbras –, tomei a liberdade
de designar vossa corte como o local de encontro para todas as fadas
que poderiam comparecer; e confio que tomareis providências para que
aqui se realize, nesta ocasião, o grande baile que acontece uma vez a
cada cem anos.
Compreendendo perfeitamente a grande honra que a fada assim lhe
fazia, o rei a seguir reconciliou-se com Gorgonzola, e, passado pouco
tempo, os dois juntos declararam aberto o baile.
A Fada Marzontina restaurou ao Rei Baiardo e a todos os seus sú-
ditos sua forma natural, e mais uma vez ele transformou-se em um rei
tão belo quanto se poderia sonhar. Uma das fadas enviou imediatamente
uma de suas carruagens à Rainha das Ilhas Molucas, e seu casamento
aconteceu ao mesmo tempo em que o Príncipe Tangará desposava sua
amável e graciosa Zabela. Eles viveram felizes para sempre, e, passado
pouco tempo, seus vastos reinos foram divididos entre seus filhos.

168
Coração Gelado

O príncipe, para prestar homenagem ao primeiro presente que lhe


fora concedido pela Princesa Zabela, concedeu à mais graciosa das mar-
tas o direito de ostentar seu nome, e é por isso que, até os dias de hoje,
esses adoráveis animaizinhos são chamados zibelinas.*

* Conde de Caylus.

169
O Anel Encantado

ra uma vez um jovem rapaz chamado Rosimun-


do, que era tão benévolo e belo quanto era feioso
e maléfico seu irmão mais velho, Braminto. A mãe
de ambos só tinha olhos para o filho mais novo, e
abominava o mais velho. Braminto, portanto, tinha
do irmão uma inveja terrível, e pôs-se a maquinar
uma história igualmente terrível a fim de arruiná-lo. Disse ao pai que
Rosimundo tinha o hábito de muito frequentar um vizinho inimigo da
família, e segredar-lhe ali tudo o que se passava em casa, além de cons-
pirar com ele para envenená-lo.
O pai, furiosíssimo, pegou Rosimundo e entrou a açoitá-lo até arran-
car-lhe sangue. Então jogou-o na prisão e o deixou três dias a fio sem
qualquer comida, e depois ainda o jogou para fora de casa e ameaçou
matá-lo, se um dia ali voltasse. A mãe, desolada, nada fez senão chorar e
chorar, já que não tinha coragem para dizer alguma coisa.
O jovem, com lágrimas nos olhos, deixou o lar sem ter a mínima
ideia de para onde ia, e vagueou por sabe-se lá quantas horas até enfim
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

chegar a uma mata muito fechada. A noite lhe sobreveio quando estava
aos pés de uma grande rocha, e ele adormeceu numa margem coberta de
musgo, embalado pela melodia duma ribeira.
Já era manhã quando acordou e viu diante de si uma mulher deslum-
brante, a montar um cavalo cinza todo ornado de ouro, e que parecia
estar se aprontando para uma caça.
— Viste porventura passar um veado e alguns veadeiros por aqui? –
ela perguntou.
— Não, minha senhora – respondeu ele.
Então, ela acrescentou:
— Pareces um tanto infeliz; qual é o problema? Toma este anel, que
haverá de fazer de ti o mais feliz e poderoso dos homens, contanto que
nunca faças dele mau uso. Se virares o diamante que nele há para dentro,
tornar-te-á invisível. Se o virares para fora, eis que voltarás a ficar visível.
Se o colocares no teu dedinho, haverás de assumir a aparência do filho
do rei, e uma corte esplêndida seguir-te-á. Se o colocares no teu quarto
dedo, voltarás à tua própria forma.
O jovem rapaz compreendeu, então, que era uma fada quem lhe es-
tava a falar. E esta mal terminara de falar e já se embrenhou na mata
cerrada, sumindo de toda a vista. O moço estava muito ansioso para
provar o anel, e voltou imediatamente para casa. Descobriu que a fada
lhe dissera a verdade, e que podia ver e ouvir a tudo e a todos enquanto
ninguém, em contrapartida, o podia ver. Se quisesse vingar-se de seu
irmão, não correria nisto o menor risco, e não contou a ninguém senão à
sua mãe todas aquelas coisas estranhas que lhe haviam acontecido. Mais
tarde, colocou o anel encantado no dedo mindinho e surgiu como o filho
do rei, seguido por uma centena de alazões os mais finos e uma guarda
de oficiais ricamente vestidos.
Seu pai ficou muito surpreso ao ver o filho do rei ali em sua humilde
casinha, e tanto mais embaraçado por não saber como é que se deveria
agir numa ocasião assim tão grandiosa. Rosimundo então perguntou-
-lhe quantos filhos tinha.
— Dois – respondeu ele.

172
O Anel Encantado

— Desejo vê-los – disse-lhe Rosimundo. – Manda buscá-los agora.


Hei de levá-los ambos para a corte, a fim de dar-lhes fortunas.
O pai hesitou e então respondeu:
— Aqui está o mais velho, o qual eu tenho a honra de apresentar a
Vossa Alteza.
— E onde está o mais novo? Desejo vê-lo também – insistiu Rosi-
mundo.
— Ele não está aqui – disse o pai. – Tive de puni-lo por uma coisa
má que fizera, e ele fugiu.
Rosimundo então respondeu:

173
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Deverias ter-lhe mostrado o que era o certo a se fazer, em vez de


o castigares. Entretanto, o mais velho há de vir comigo. E quanto a ti,
segue estes dois guardas, que te escoltarão a um lugar que eu lhes hei
de dizer.
E lá se foram os guardas, levando seu pai, e a fada de que falamos o
encontrou na floresta e o castigou com um açoite dourado, lançando-o
numa caverna muito funda e escura, onde o largou, enfeitiçado.
— Fica aí – ela disse – até que teu filho retorne e te salve.
Neste meio-tempo, o filho foi para o palácio do rei, e lá chegou jus-
tamente quando o príncipe de verdade estava ausente. Este velejara a
fim de fazer guerra numa ilha longínqua, mas os ventos lhe haviam sido
contrários, e naufragara num litoral desconhecido, sendo capturado
por um povo selvagem. Rosimundo surgiu na corte com a aparência do
príncipe pelo qual todos choravam – pois que o tinham já como morto
– e lhes disse que fora resgatado à beira da morte por alguns mercadores.
O seu retorno foi motivo para festanças públicas, e o rei foi tomado de
tal alegria que não sabia o que dizer, e só o que fez foi abraçar o filho.
A rainha ficou ainda mais radiante, e decretou que se fizessem festas e
banquetes pelo reino afora.
Um dia, o falso príncipe disse a seu irmão verdadeiro:
–— Braminto, bem sabes que te trouxe de tua terra natal para fazer-
-te fortuna; mas descobri que és um mentiroso, e que à força de tuas
mentiras foi que teu irmão Rosimundo tanto sofreu. Ele está escondido
aqui, e tu irás falar com ele, e haverás de ouvir-lhe as repreensões e o
quanto mais houver para se dizer.
Braminto ficou aterrorizado com essas palavras e, jogando-se aos pés
do príncipe, confessou seu crime.
— Apenas isto não basta – disse Rosimundo. – É ao teu irmão que
deves confessar o que fizeste; é a ele que deves pedir perdão. E ele
será muitíssimo generoso se te concederes tal, e isto será muito mais
do que mereces. Vai agora até minha antessala, onde o encontrarás.
Eu de minha parte hei de me retirar para outro aposento, a fim de
deixar-vos a sós.

174
O Anel Encantado

Braminto fez o que lhe fora ordenado e foi para a antessala. Então
Rosimundo trocou o anel de dedo e lá também entrou, por outra porta.
Tão logo viu o rosto do irmão, Braminto sentiu-se terrivelmente en-
vergonhado e imediatamente se pôs a implorar por seu perdão, enquan-
to fazia mil promessas de reparação pelas maldades que cometera. Sem
pestanejar, Rosimundo o perdoou e com lágrimas nos olhos deu-lhe um
forte abraço, acrescentando:
— Tenho grande mercê para com o rei. Cabe a mim fazer com que te
cortem fora a cabeça ou te lancem pelo resto da vida na prisão; mas eu
quero ser tão bom para ti quanto tu foste mau para comigo.
Braminto, atarantado e envergonhado, ouviu tudo sem ousar levantar
os olhos ou lembrar a Rosimundo que era o seu irmão mais velho. Depois
disso, Rosimundo fez notar que iria empreender uma viagem secreta, a
fim de se casar com uma princesa que vivia num reino vizinho; a verdade,
porém, é que fora apenas ver a sua mãe, e lá contara tudo quanto se passara
na corte, além de dar-lhe um dinheiro de que ela muito precisava, pois
tinha liberdade com o rei para pegar exatamente o que quisesse, muito
embora tomasse sempre muito cuidado para não abusar da prerrogativa.
Justo então, irrompeu uma guerra feroz entre o rei, seu senhor, e o monar-
ca do país contíguo, um homem mau, que nunca cumpria a sua palavra.
Rosimundo dirigiu-se para o palácio do rei perverso, e graças ao anel foi
capaz de comparecer a quantos concílios ali houve e ficar a par de quantos
planos ali se fizeram, de modo que os antecipou a todos e os malogrou.
Pôs-se à frente do exército que se reunira contra o rei maléfico e o derro-
tou numa batalha gloriosa. Assim, pois, fez surgir uma paz perfeita e justa.
Dali em diante, só havia na cabeça do rei um pensamento: o de casar
o jovem rapaz com uma certa princesa que, além de herdeira dum reino
vizinho, era tão formosa quanto o céu. Uma manhã, porém, enquanto
Rosimundo estava a caçar na floresta onde vira pela primeira vez a fada,
eis que a sua benfeitora de supetão surgiu diante dele.
— Acautela-te – falou ela, num tom severo – para que não te ca-
ses com alguém que creia ser tu um príncipe. Não deves jamais enganar
ninguém. O príncipe de verdade, que toda a nação pensa ser tu, terá de

175
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

suceder o seu pai, pois é isto que é reto e justo. Vai e procura-o numa ilha
distante, e enviar-te-ei ventos que hão de soprar tuas velas e levar-te até
onde deves ir. Corre para fazeres este serviço ao teu mestre, ainda que seja
algo contrário a tudo quanto ambicionas, e te preparas, qual um homem
honesto, para voltares ao teu estado natural. Não o faças, e tornar-te-ás vil
e infeliz, e eu hei de abandonar-te aos teus problemas de outrora.
Rosimundo ouviu com muito tento esses conselhos. Fez saber a toda
a corte que tomara a seu cargo uma missão secreta numa pátria próxima,
e saiu a velejar, ao sabor do vento que lhe bafejou as velas e o levou até
onde a fada dissera que estaria o príncipe de verdade. Este jovem des-
venturado fora preso por uma gente selvagem, que o pusera para guar-
dar suas ovelhas. Rosimundo fez-se invisível e entrou a procurá-lo nas
pastagens onde ele mantinha o rebanho, e, cobrindo-o com seu manto,
livrou-o das mãos de seus mestres cruéis e o trouxe de volta para o navio.
Mais ventos ainda, enviados pela fada, sopraram-lhes as velas, e juntos
os dois rapazes ficaram na presença do rei.
Rosimundo falou primeiro e disse:
— Até agora pensavas que sou teu filho. Não o sou; mas o trouxe de
volta para ti.
O rei, espantadíssimo, virou-se para o seu filho verdadeiro e lhe per-
guntou:
— Não foste tu, filho meu, que subjugaste meus inimigos e criaste
uma paz tão gloriosa? Ou é verdade que naufragaste e foste preso, e que
Rosimundo te libertou?
— Sim, meu pai – respondeu o príncipe. – Foi Rosimundo quem saiu
à minha procura enquanto eu estava cativo, e foi ele quem me libertou.
Devo a Rosimundo a felicidade de poder ver-te mais uma vez. Foi ele, e
não eu, quem te deu a vitória.
O rei mal podia crer no que ouvia; mas Rosimundo, virando o anel,
de repente se fez príncipe à vista de todos; e o rei ficou a olhar espantado
os dois jovens que pareciam ser o seu filho. Então, ofereceu a Rosimun-
do muitíssimas recompensas pelos serviços prestados; mas ele as recusou
todas. A única mercê que o jovem haveria de aceitar era que se desse ao

176
O Anel Encantado

seu irmão Braminto um dos postos na corte. Pois Rosimundo muito te-
mia as reviravoltas na fortuna, a inveja da humanidade e as suas próprias
fraquezas. Queria apenas voltar para a mãe e, no lugar onde nascera,
passar o tempo a cultivar a terra.
Um dia, a andejar pela mata, deparou-se com a fada, que lhe mostrou a
caverna onde seu pai estava aprisionado e lhe contou quais palavras deveria
usar a fim de libertá-lo. Ele as repetiu com muito gosto, pois desde há mui-
to quisera trazer o velho de volta e tornar felizes os dias que lhe restavam.
Assim, pois, Rosimundo tornou-se o benfeitor de toda sua família e teve o
prazer de fazer o bem a quem lhe quisera fazer mal. E para a corte, à qual
prestara tamanhos serviços, não pedira senão a liberdade de viver longe
de sua corrupção; enfim, para coroar tudo, Rosimundo resolveu restaurar
o anel à fada, temendo que, se o mantivesse consigo, poderia ser tentado a
usá-lo para recuperar a posição que perdera no mundo. Por dias a fio a pro-
curou, e virou a mata do avesso à sua cata até que finalmente a encontrou.
— Por favor, pega de volta o anel – disse ele, segurando-o na mão
aberta que lhe estendia. – É um presente tão perigoso quanto poderoso,
e coisa que temo acabar usando de modo ilícito. Não me sentirei seguro
até ter fechado todas as portas que me permitam escapar de minha so-
lidão e satisfazer minhas paixões.
Enquanto Rosimundo fazia o que podia para devolver o anel à fada,
Braminto, que não aprendera nada com o que lhe acontecera, sucumbiu a
todos seus desejos maus e tentou persuadir o príncipe, há pouco feito rei, a
maltratar Rosimundo. Mas a fada, que sabia tudo que havia para se saber,
disse a Rosimundo, quando este lhe implorava para aceitar o anel:
— Teu irmão perverso está a fazer o quanto pode para envenenar o rei
contra ti e para levar-te à ruína. Braminto há de ser punido, desta vez com
a morte. A fim de que ele se destrua a si mesmo, eu hei de lhe dar o anel.
Rosimundo pôs-se a chorar ao ouvir tais palavras, e então perguntou:
— Que queres dizer com dar-lhe o anel como punição? Só o que ele
fará é usá-lo para perseguir a todos e transformar-se em senhor.
— Muitas vezes, a mesma coisa – respondeu-lhe a fada – é remédio
para uns e veneno mortal para outros. Para um homem naturalmente

177
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

perverso, a prosperidade é a fonte de todos os males. Se quiseres punir


um patife, a primeira coisa que deves fazer é dar-lhe poder. Verás que
com essa corda ele logo se haverá de enforcar.
Tendo dito isso, desapareceu e foi direto para o palácio, onde surgiu
a Braminto sob o disfarce de uma velha coberta de trapos. Sem demora,
falou-lhe nos seguintes termos:
— Tomei este anel das mãos de teu irmão, a quem o havia empres-
tado, e com cuja ajuda ele se cobriu de glórias. O mesmo anel dou agora
para ti. Acautela-te com o que hás de fazer com ele.
Com uma gargalhada, Braminto respondeu-lhe:
— Com certeza não hei de imitar meu irmão, aquele palerma, que
inventou de trazer o príncipe de volta em vez de reinar em seu lugar – e
foi dito e feito.
Só usou o anel para escarafunchar segredos de família e os expor;
para matar e roubar e fazer o quanto mais de ruindades lhe passassem
pela cabeça; e para enriquecer às custas dos outros. E tais e tantos cri-
mes, dos quais não se viam traços ou pistas, encheram o povo de terror.
O rei, ao ver aquela quantidade de casos expostos, públicos e privados,
a princípio ficou tão atônito quanto os demais, até que a prosperidade
fabulosa e a espantosa insolência de Braminto o fizeram suspeitar de
que talvez o anel encantado houvesse caído em suas mãos. A fim de
descobrir a verdade, subornou um estranho recém-chegado na corte,
vindo de uma nação com a qual o rei estava sempre a guerrear, para que
ele à noitinha fosse falar com Braminto e lhe oferecesse honrarias e re-
compensas sem fim em troca de segredos de Estado.
Braminto prometeu contar tudo, e aceitou sem pestanejar o primeiro
pagamento pelo seu crime, enchendo o peito para alardear que tinha
um anel que o tornava invisível, e que com ele não havia lugar que não
pudesse penetrar. Mas seu triunfo não durou muito. No dia seguinte,
Braminto foi preso por ordem do rei, e tomaram-lhe o anel. Depois, fi-
zeram nele uma busca, e encontraram documentos que provavam ser ele
o autor dos crimes; e, muito embora o próprio Rosimundo tenha volta-
do à corte para fazer ao rei uma súplica de perdão, este a recusou. Assim,

178
O Anel Encantado

pois, Braminto foi executado; o anel, portanto, fora para ele ainda mais
fatal do que fora útil para seu irmão.
A fim de consolar Rosimundo pelo destino de Braminto, o rei de-
volveu-lhe o anel encantado, qual uma pérola preciosíssima. O infeliz
Rosimundo, porém, o enxergava de outro modo; e a primeira coisa que
fez ao voltar para casa foi sair, mais uma vez, em busca da fada nas matas.
— Aqui está – disse ele – teu anel. O que aconteceu ao meu irmão
me fez saber muitas coisas que antes ignorava. Fica com ele; só o que
fez foi causar destruição. Ah! Se não fosse o anel, Braminto estaria vivo
agora, e a minha mãe e o meu pai não andariam tão cabisbaixos em sua
velhice, graças a tamanha vergonha e tristeza! Talvez meu irmão pudesse
ter sido sábio e feliz, se nunca houvesse tido a chance de satisfazer seus
desejos! Ó, que perigo é ter mais poder que o resto do mundo! Toma de
volta teu anel. E, como a má fortuna parece seguir a todos quantos tu o
dás, eu te imploro, como um favor que me fazes: nunca o dês a qualquer
um que me seja caro.*

* François Fénelon.

179
A Tabaqueira Mágica

omo acontece muito neste mundo, houve uma


vez um rapaz que passava a vida a andar de terra
em terra. Certo dia, enquanto caminhava, apanhou
do chão uma tabaqueira. Ao abri-la, a caixinha lhe
disse em espanhol:
— O que desejas?
O rapaz ficou muito assustado, mas felizmente, em vez de jogá-la
fora, apenas a fechou bem e meteu no bolso. Depois se foi, foi, foi, e a
certa altura falou consigo mesmo:
— Se a tabaqueira me perguntar de novo “O que desejas?”, desta vez
saberei o que responder.
Tirou então do bolso a tabaqueira, abriu-a, e ela de novo perguntou:
— O que desejas?
— Que meu chapéu se encha de ouro ‒ respondeu o moço, e no
mesmo instante o chapéu se encheu.
Nosso jovem amigo se maravilhou. Dali para frente jamais passaria
necessidade de coisa nenhuma. Continuou então sua viagem e se foi,
foi, foi, através de densas florestas, até chegar a um lindo castelo, onde
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

morava um rei. O rapaz deu várias voltas no castelo, sem se importar se


alguém o via, até que o rei o notou, e perguntou o que fazia ali.
— Só estava dando uma olhada no castelo de Vossa Majestade.
— Querias um igual, não é mesmo?
O moço não respondeu. Porém, depois que a noite caiu, pegou sua
tabaqueira e a destampou.
— O que desejas?
— Um castelo com sarrafos de ouro e ladrilhos de diamante, e mo-
biliado todo com ouro e prata.
Apenas terminou de falar, ergueu-se diante dele um castelo igual ao que
descrevera, fazendo face ao castelo do rei. Na manhã seguinte, ao acordar, o
rei se embasbacou de ver aquele magnífico palácio, que reluzia sob a luz do
sol. Os serviçais, fascinados com a beleza do castelo, não conseguiam voltar
ao trabalho. Vestiu-se então o rei e foi ter com o rapaz. Este lhe disse sem
rodeios que era um poderosíssimo príncipe; que tinha esperanças de todos
irem morar juntos num dos dois castelos, e de o rei lhe dar sua filha por
esposa. Era justamente o que o rei queria. O rapaz casou-se com a princesa
e foram todos viver muito felizes no palácio de ouro.
Contudo, a esposa do rei, a quem a princesa contara a respeito de sua
maravilhosa tabaqueira que lhes dava tudo o que pediam, ardia de inveja
do rapaz e da própria filha. Subornou então uma criada para que furtasse a
caixinha. As duas observaram com muita atenção onde o jovem guardava
o artefato antes de ir para a cama, e certa noite, quando todos já dormiam,
a criada o surrupiou e levou a sua senhora. A rainha deu pulos de alegria
quando recebeu a tabaqueira. Abriu a tampa, e a caixinha perguntou:
— O que desejas?
E a rainha, sem hesitar, respondeu:
— Desejo que leves a mim, meu marido, todos meus serviçais e este
belíssimo palácio para o outro lado do Mar Vermelho; permaneçam
aqui, porém, minha filha e seu marido.
Quando o jovem casal despertou, viram-se de volta no antigo castelo
e sem sua tabaqueira. Buscaram-na em todos os cantos, mas em vão.
O rapaz, não querendo perder tempo, montou seu cavalo, encheu seus

182
A Tabaqueira Mágica

bolsos de quanto ouro neles coubesse, e lá se foi, foi, foi; em vão correu
as terras vizinhas em busca da tabaqueira, e em pouco tempo gastou seu
último centavo. Não desistiu, porém, e foi avante a todo galope, mendi-
gando ao longo da jornada.
A certa altura ouviu dizer de alguém que deveria consultar a Lua,
pois ela viajava o mundo inteiro e talvez lhe pudesse contar alguma coi-
sa. Então lá se foi, foi, foi, e sabe-se lá de que maneira acabou chegando
à terra da Lua. Ali topou com uma velhinha, que lhe disse:
— O que fazes aqui? Minha filha devora a todos os seres vivos que
enxerga; tu, se fores esperto, irás embora sem dar um passo a mais.

183
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

O rapaz, porém, desatou a lhe contar sua desventura; contou-lhe como


era estupenda a sua tabaqueira e como fora roubada; como, havendo dei-
xado a esposa para trás, não lhe sobrava nada e andava necessitado de
tudo. Indagou se a filha da velha, nos seus giros pelo mundo, não tinha
visto algum castelo com sarrafos de ouro e ladrilhos de diamante, mobilia-
do todo com ouro e prata. Acabava de pronunciar estas palavras, quando a
Lua pairou sobre eles e disse que sentia cheiro de sangue e carne humana.
A mãe então explicou à Lua que o pobre rapaz ali presente havia per-
dido tudo, e percorrera longuíssima jornada apenas a fim de consultá-la.
Dirigindo-se então ao rapaz, deu-lhe ânimo e mandou que se apresentas-
se a sua filha. O jovem tomou coragem, caminhou até ela, e perguntou se
por acaso não tinha visto um palácio com sarrafos de ouro e ladrilhos de
diamante, mobiliado todo com ouro e prata; contou que o palácio lhe per-
tencia, mas fora roubado. A Lua respondeu que não, mas disse que o Sol
viajava distâncias muito maiores do que ela, e que o rapaz faria bem em
ir consultá-lo. O rapaz então se despediu e lá se foi, foi, foi, a todo galope,
mendigando para sobreviver, até que, sabe-se lá de que maneira, acabou
chegando à terra do Sol. Ali topou com uma velhinha, que lhe disse:
— O que fazes aqui? Vai-te embora; não sabes que meu filho se ali-
menta da carne de cristãos?
Mas o rapaz disse que não, que se recusava a ir embora, que sua infe-
licidade era tamanha, que já não via diferença entre morrer ou viver, que
se lastimava da perda de tudo quanto tinha, sobretudo do seu esplêndido
palácio, o qual era sem igual no mundo inteiro, pois tinha sarrafos de
ouro e ladrilhos de diamante, e era todo mobiliado com ouro e prata.
Disse ainda que percorrera muitas milhas atrás dele, e que era o homem
mais infeliz do mundo. Com suas palavras tocou o coração da velhinha,
que aceitou escondê-lo.
Quando o Sol chegou, disse que sentia o cheiro da carne de um cris-
tão, e que pretendia jantá-la mais tarde. Ouviu, porém, da boca de sua
mãe a triste história daquele rapaz que perdera tudo e agora vinha do
outro lado do mundo a lhe pedir ajuda. Ao fim do relato, comoveu-se
tanto o Sol que prometeu lhe dar ouvidos.

184
A Tabaqueira Mágica

O moço então saiu do esconderijo e, suplicante, perguntou ao Sol se


nas viagens que fazia pela Terra não vira seu palácio, que era sem igual
no mundo inteiro, e tinha sarrafos de ouro, ladrilhos de diamante, e a
mobília toda de ouro e prata.
O Sol respondeu que não, mas disse que talvez o Vento o tivesse
visto, pois todos os cantos penetrava, e coisas via que ninguém mais via;
com efeito, era muito provável que ninguém, senão o Vento, soubesse
onde estava o palácio.
Partiu mais uma vez o pobre moço a todo galope, mendigando ao
longo do caminho, e sabe-se lá de que maneira chegou à casa do Ven-
to. Topou ali com uma velhinha que estava empenhada em encher de
água uns barris. Ela perguntou ao rapaz quem lhe metera na cabeça a
ideia de peregrinar àquela terra, pois seu filho comia tudo o que via, e
estava para chegar em casa bufando de raiva, e por isso era bom tomar
cuidado. Respondeu-lhe o rapaz que andava tão aflito que já não dava
importância a mais nada, nem mesmo se seria comido ou não. Contou
que lhe roubaram um palácio sem igual no mundo inteiro, e quanto ele
continha; contou que abandonara até mesmo a esposa amada e agora
corria mundo atrás de seu castelo. Concluiu dizendo que fora o próprio
Sol quem lhe sugerira consultar o Vento. A velha o escondeu no vão da
escadaria, e em pouco tempo os dois ouviram se aproximar o Vento Sul,
que chegou sacudindo os alicerces da casa. Queria logo matar a sede,
mas antes falou à mãe que sentia o cheiro do sangue de um cristão, e
que ela faria bem em tirá-lo do esconderijo para levá-lo imediatamente
à panela. A boa mãe, contudo, suplicou ao filho que comesse e bebesse
o que estava posto diante dele; disse que o rapaz ali presente era digno
de comiseração, e que o próprio Sol lhe poupara a vida para que fosse
consultá-lo. Tirou então o rapaz do esconderijo, e este declarou que es-
tava procurando seu palácio, e, como ninguém mais soubesse onde es-
tava, não hesitara ir consultar o Vento. Acrescentou que estava ultrajado
pelo roubo, e que os sarrafos eram de ouro, os ladrilhos de diamante, e a
mobília toda de ouro e prata; perguntou, por fim, se nas suas andanças
não tinha visto semelhante palácio.

185
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

O Vento respondeu que sim, e que, para falar a verdade, passara o dia
inteiro soprando-lhe rajadas desde todos os pontos cardeais, sem conse-
guir, no entanto, mover-lhe um só ladrilho.
— Ah! Conta-me onde está! ‒ gritou o moço.
— Está bem longe ‒ replicou o Vento ‒; foi parar do outro lado do
Mar Vermelho.
Nosso andarilho, porém, já vinha de muito longe e não se deixou
desanimar.
Partiu sem mais tardar, e depois que, sabe-se lá de que maneira, con-
seguiu chegar àquela terra distante, saiu perguntando se alguém precisava
de um jardineiro. Responderam-lhe que o jardineiro-mor do palácio re-
cém largara o emprego, deixando uma boa oportunidade a quem quisesse
tomar o posto. O jovem não perdeu tempo: dirigiu-se ao palácio, pergun-
tou se não precisavam de um jardineiro e, para sua alegria, foi logo contra-
tado. Passou a maior parte do seu primeiro dia fofocando com os serviçais
sobre a opulência de seus senhores e sobre as muitas maravilhas que o
palácio continha. Chegou a ficar amigo de uma das criadas, e quando esta
lhe falou a respeito da tabaqueira mágica, ele, por meio de branduras, a
instigou a lhe mostrar a caixinha. Certa noite, a mulher conseguiu pegar a
tabaqueira sem que ninguém a enxergasse a não ser o rapaz, que depois a
viu guardá-la num compartimento secreto no quarto da rainha.
Na noite seguinte, enquanto todos dormiam, o moço entrou no quar-
to da rainha sorrateiramente e tomou a tabaqueira. Qual não foi a sua
alegria quando abriu a tampa! Quando a caixinha lhe perguntou, como
outrora, “O que desejas?”, o rapaz respondeu:
— O que desejo?! O que desejo?! Ora, o que desejo é voltar junto
com meu palácio ao seu antigo sítio, e que o rei, a rainha e todos seus
criados se afoguem no Mar Vermelho.
Mal terminara de pronunciar estas palavras, viu-se novamente ao
lado da esposa; quanto ao resto dos moradores do palácio, jaziam todos
no fundo do Mar Vermelho.*

* Paul Sébillot.

186
A Mérula Dourada

ra uma vez um grande fidalgo, que tinha três


filhos. Certo dia, o senhor fidalgo caiu muito do-
ente, e o enviaram para médicos de todo o tipo, até
mesmo para um endireita-ossos. Mas os doutores
todos de jeito nenhum conseguiam descobrir o que
havia de ruim nele, e nem mesmo puderam aliviar
seu sofrimento. Enfim veio um médico forasteiro, que declarou: só a
Mérula Dourada é que poderia curar o doente.
Assim, pois, o velho fidalgo enviou seu filho mais velho em busca da
ave maravilhosa e prometeu-lhe um mundaréu de riquezas se a encon-
trasse e a trouxesse.
E lá se foi o moço, e daí a pouco viu-se numa encruzilhada, onde quatro
estradas se encontravam. Como não soubesse qual escolher, resolveu jogar
o chapéu para o alto e seguir em frente na direção na qual ele caísse. Após
viajar por dois ou três dias, cansou-se de ficar a andar sem saber aonde ia,
ou quanto tempo até lá levaria, e fez uma parada numa pousada, cheia de
gente a fazer uma bela duma folia, e pediu algo para comer e beber.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Palavra – disse ele –: é pura besteira gastar mais um minuto que


seja a caçar essa tal ave. Meu pai já é velho, e se ele morrer, hei de herdar
tudo quanto tem.
O velho, depois de pacientemente esperá-lo por algum tempo, en-
viou seu segundo filho à procura da Mérula Dourada. O jovem enfiou-
-se pelo mesmo caminho do irmão, e, ao chegar à encruzilhada, também
jogou o chapéu para o alto, a ver qual estrada deveria tomar. O chapéu
caiu onde já caíra da outra vez, e ele andou até chegar à estalagem onde
o irmão fizera sua parada. Este, debruçado sobre a janela da pousada,
deu-lhe um grito e o chamou para ficar e participar da festança.
— Tens razão – respondeu-lhe o jovem. – Sabe-se lá se eu jamais
haveria de encontrar a Mérula Dourada, ainda que viajasse o mundo a
procurá-la. Na pior das hipóteses, se o velho morrer, herdaremos tudo
quanto ele tem.
Os irmãos entraram na pousada e se puseram a comer, beber e fes-
tejar até não poder mais, e logo gastaram todo o dinheiro que tinham e
que não tinham. Ficaram até devendo para o dono da pousada, que os
manteve como reféns até que pudessem pagar-lhe suas dívidas.
E lá saiu o filho mais novo em seguida, e também ele chegou ao lugar
onde seus irmãos estavam ainda presos. Pediram-lhe para se deter em
seu caminho, e fizeram tudo quanto podiam para impedi-lo de seguir
em frente.
— Não – respondeu ele –, meu pai confiou em mim, e eu hei de cor-
rer mundo afora até encontrar a Mérula Dourada.
— Essa agora! – escarneceram os irmãos. – Encontrarás a Mérula tanto
quanto nós. Que o velho morra, se quiser; repartiremos tudo o que ele tem.
Depois de retomar seu caminho, topou uma pequena lebre, que esta-
cou para olhá-lo e lhe perguntou:
— Aonde vais, amigo?
— A dizer a verdade, não sei – respondeu ele. – Meu pai está doente
e não poderá ficar bom a menos que eu lhe traga a Mérula Dourada. Já
faz muito tempo que saí de casa à sua procura, mas ninguém sabe me
dizer onde posso encontrá-la.

188
A Mérula Dourada

— Ah! – disse a lebre. – Tens ainda um longo caminho pela frente.


Terás de andar ao menos setecentas milhas antes de chegar até ela.
— E como hei de viajar tamanha distância?
— Sobe em minhas costas – disse a lebrezinha –, e hei de te levar
até lá.
O rapaz obedeceu; e, a cada salto, a lebrezinha avançava sete milhas,
e foi sem demora que chegaram a um castelo tão enorme e esplêndido
quanto um castelo poderia ser.
— A Mérula Dourada está numa pequena choupana, aqui perto –
disse a lebrezinha –, e hás de facilmente encontrá-la. O pássaro vive
numa pequena gaiola, que fica ao lado de uma outra, feita todinha de
ouro. Mas faças o que fizeres, não vás pô-la na gaiola bonita, ou todos
no castelo saberão que você a roubou.
O moço encontrou a Mérula Dourada num poleiro de madeira, mas
ela estava tão imóvel e rija que mais parecia morta. E ao lado da gaiola
bonita estava a gaiola de ouro.
— Quem sabe ela não volte à vida se eu a puser cá nesta gaiola bonita
– pensou consigo o rapaz.
Foi a Mérula Dourada tocar nas grades da magnífica gaiola e já des-
pertou, e começou a piar e piar, de modo que todos os criados do castelo
correram a ver o que se passava, dizendo que ele era um ladrão e tinha
de ser preso.
— Não – respondeu ele –, não sou um ladrão. Se apanhei a Mérula
Dourada, foi apenas para com ela curar meu pai, que está muito doente.
Viajei mais de setecentas milhas para encontrá-la!
— Muito bem, então – responderam eles –, deixar-te-emos ir, e até
mesmo a Mérula Dourada havemos de te dar, se fores capaz de nos tra-
zer a Dama de Porcelana.
O jovem foi-se embora, choroso que só, e encontrou a lebrezinha,
que estava a mastigar um bocado de tomilho-selvagem.
— Por que choras, meu bom amigo? – perguntou a lebre.
— Porque – respondeu ele – a gente do castelo não me dará a Mérula
Dourada sem que eu lhes dê em troca a Dama de Porcelana.

189
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Bem vejo que não seguiste meu conselho – disse a lebrezinha – e


colocaste a Ave Dourada na bela gaiola.
— Ai de mim! sim!
— Não te desesperes! a Dama de Porcelana é uma jovem tão linda
quanto Vênus, que mora a umas duzentas milhas daqui. Sobe em mi-
nhas costas e eu te levarei até lá.
A lebrezinha, que a cada salto galgava sete milhas de uma só vez,
num piscar de olhos já estava lá, e deixou o moço na beira de um lago.
— A Dama de Porcelana – disse a lebre ao moço – virá aqui para
banhar-se com suas amigas, enquanto eu como um bocado de tomilho
para revigorar-me. Quando ela estiver no lago, esconde-lhe as roupas,
que são de uma brancura de cegar a gente, e não as devolvas até que ela
concorde em seguir-te.
A lebrezinha foi-se embora, e quase imediatamente lá estava a Dama
de Porcelana, com suas amigas. A senhora despiu-se e entrou na água.
Então o moço deslizou sem fazer um só barulho e pegou-lhe as roupas,
que haviam sido escondidas sob uma pedra um pouco para lá do lago.
Quando a Dama de Porcelana já não queria mais brincar n’água, saiu
para vestir-se. Foi um procurar que não acabava mais por suas roupas,
mas ela não as encontrou em lugar algum. Até suas amigas ajudaram-na
a procurá-las, mas, vendo enfim que a busca de nada estava adiantando,
deixaram-na sozinha na margem, a chorar amargamente.
— Por que choras? – disse o jovem, achegando-se dela.
— Ai de mim! – respondeu ela. – Enquanto estava a banhar-me, al-
guém veio e roubou as minhas roupas, e minhas amigas me abandonaram.
— Hei de encontrar as tuas roupas; basta que venhas comigo.
E a Dama de Porcelana aceitou segui-lo; e, após lhe ter dado de
volta suas roupas, o moço comprou-lhe um pequeno cavalo, veloz como
o vento. A lebrezinha os conduziu de volta, para ele buscar a Mérula
Dourada, e quando se avizinharam do castelo onde o pássaro vivia, a
lebre lhe disse:
— Agora, sê um tiquinho mais perspicaz que da última vez, e se-
rás capaz de levar contigo tanto o Mérula Dourada quanto a Dama de

190
A Mérula Dourada

Porcelana. Apanha com uma mão a gaiola dourada, e deixa o pássaro na


gaiola velha em que está, e traze também esta contigo.
A lebrezinha então sumiu; o moço fez o que lhe fora ordenado, e
os criados do castelo nem sequer suspeitaram que ele estava a levar
embora a Ave Dourada. Ao chegar na estalagem onde seus irmãos
estavam aprisionados, pagou o que deviam e os libertou. E lá se fo-
ram embora, todos juntos. Mas os dois irmãos mais velhos se roíam
de inveja das façanhas do mais novo e, aproveitando a oportunidade
que lhes surgiu enquanto andavam na margem dum lago, atacaram-
-no, arrancaram-lhe da mão a Mérula Dourada e o jogaram na água.
Depois, seguiram em frente, levando consigo a Dama de Porcelana,
crentes de que o irmão se afogara. Mas, felizmente, ele ao cair havia se
agarrado a um tufo preso à margem, e gritou por ajuda. A lebrezinha
veio correndo e disse:
— Segura a minha perna e sai d’água.
Quando já estava seguro na margem, a lebrezinha lhe disse:
— Agora, eis o que tens de fazer: vai e te veste como se fosse um
bretão a procurar um emprego de guardador de estábulo, e oferece os
teus serviços a teu pai. Uma vez lá, facilmente poderás fazê-lo saber a
verdade.
O jovem fez o que a lebre lhe ordenara, e lá se foi para o castelo de
seu pai, a perguntar se não precisavam ali dum guardador de estábulo.
— Sim – respondeu seu pai –, precisamos, e muito. Saibas, porém,
que não é um trabalho fácil. Há no estábulo um cavalo pequeno, arisco
como nenhum outro, que não deixa ninguém se aproximar, e que já coi-
ceou até a morte muita gente que tentou escovar-lhe os pelos.
— Hei de escovar-lhe os pelos – disse o moço. – Jamais vi na vida um
cavalo de que eu tivesse medo. – E o pequeno cavalo deixou-se escovar
sem mover um só músculo ou dar um só coice.
— Valha-me Deus! – exclamou o mestre. – Como pode ser que ele te
deixe tocá-lo, quando mais ninguém o pode?
— Talvez ele me conheça – respondeu o guardador de estábulos.
Dois ou três dias depois, o mestre disse-lhe:

191
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— A Dama de Porcelana está aqui: mas, se bem que seja tão bela
quanto o raiar do sol, é tão maléfica que enche de arranhões quem dela
se aproxima. Vai e oferece a ela teus serviços, e vejas se ela os aceita.
Tão logo o moço entrou na sala onde ela estava, a Mérula Dourada
irrompeu a piar uma canção alegre, e a mesma coisa fez a Dama de Por-
celana, cantando também, enquanto dava pinotes de alegria.
— Valha-me Deus! – gritou o mestre. – Será possível que a Dama de
Porcelana e a Mérula Dourada também saibam quem és?
— Sim – respondeu o jovem –, e a Dama de Porcelana poderá con-
tar-te toda a verdade, se assim o quiser.
Assim, pois, ela contou ao velho fidalgo tudo quanto acontecera,
e como consentira em seguir o moço que havia capturado a Mérula
Dourada.
— Sim – acrescentou o moço –, eu libertei meus irmãos, que haviam
sido presos numa estalagem, e como recompensa jogaram-me num lago.
Disfarcei-me, portanto, e vim até aqui para te contar a verdade e prová-la.
Então o velho fidalgo abraçou muito forte o seu filho e prometeu-
-lhe a herança de tudo o que tinha. Quanto aos dois filhos mais velhos,
que o haviam enganado e tentado matar o próprio irmão, sentenciou-
-os à morte.
O moço casou-se com a Dama de Porcelana, e fizeram uma esplen-
dorosa festa de casamento.*

* Paul Sébillot.

192
A Mérula Dourada

193
O Soldadinho

ra uma vez um soldadinho que voltara há pouco


da guerra. Era um sujeito muito valente, e não per-
dera em batalha nem braços, nem pernas, e estava
portanto intacto. Como, porém, o conflito já havia
acabado e o exército se desfizera, ele teve de voltar à
vila onde nascera.
Ora, o seu nome de verdade era João, mas por alguma razão todos
seus amigos só o chamavam de Reizinho. O porquê, ninguém o sabia –
as coisas eram assim e pronto.
Como não tinha pai ou mãe para dar-lhe as boas-vindas quando che-
gasse em casa, não estava nada apressado. Andava muito vagaroso, com
a bolsa nas costas e a espada na cinta, quando, de repente, numa certa
tarde, ficou com uma vontade danada de acender seu cachimbo.
Tateou-se à procura de sua caixa de fósforos, mas ficou num desgosto
só ao descobrir que a perdera.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Após feita a amarga descoberta, mal percorrera uma curta distância


quando notou uma luz a brilhar por entre as árvores. Foi até ela, e se viu
diante dum velho castelo com a porta aberta.
O soldadinho entrou no pátio e, espiando por uma janela, viu uma
fogueira enorme a arder no canto dum salão de pé direito baixo. Enfiou
o cachimbo no bolso e bateu gentilmente na porta, a dizer, muito cortês:
— Poderias acender-me o cachimbo?
Mas não obteve resposta.
Após aguardar alguns instantes, João bateu na porta novamente, des-
ta vez com mais força. E nada de haver resposta.
Desaferrolhou a porta e entrou: o salão estava vazio.
O soldadinho foi direito até a lareira, pegou uma tenaz e encurvou-se
todo a procurar por uma bela duma brasa vermelha com a qual pudesse
acender o cachimbo, quando ouviu-se um clic!, como de uma mola sol-

196
O Soldadinho

tando, e do coração mesmo das chamas surgiu, serpenteando no ar até


ficar-lhe pertinho do rosto, uma serpente enorme.
E, o que era ainda mais de se estranhar, a serpente tinha a cabeça de
uma mulher.
Muitos homens teriam disparado a fugir diante duma vista assim
tão inesperada, mas o soldadinho, embora fosse miúdo, tinha um verda-
deiro coração de soldado. Só deu um passo para trás e agarrou o punho
de sua espada.
— Não a desembainhes – disse a serpente. – Tenho esperado por ti,
pois que és tu quem me deves libertar.
— Quem és tu?
— Meu nome é Ludovina, sou a filha do Rei dos Países Baixos. Li-
berta-me, e eu hei de me casar contigo e te farei feliz para todo o sempre.
Ora, é bem provável que algumas pessoas por aí não haveriam de
gostar nadinha da ideia de uma serpente com cabeça de mulher prome-
tendo fazê-las felizes, mas o Reizinho desconhecia tais medos. E, além
disso, fora como que enfeitiçado pelos olhos de Ludovina, que o haviam
fitado qual uma cobra fita um passarinho. Eram uns olhos verdes lindís-
simos, não redondos como os de um gato, antes longos e ovais, e neles
brilhava uma estranha luz, e o cabelo dourado que lhes flutuava ao redor
parecia tanto mais brilhoso graças àquela sua cintilação. A face tinha a
beleza de um anjo, ainda que o corpo fosse o de uma serpente.
— Que devo fazer? – quis saber o Reizinho.
— Abre aquela porta. Ver-te-ás numa galeria com uma sala no final,
tal como esta. Atravessa-a, e hás de ver um armário, do qual tens de tirar
uma túnica e a trazer de volta para mim.
Intrépido, o soldadinho se aprontou para fazer o que lhe fora dito.
Atravessou a galeria são e salvo, mas ao chegar à sala viu, sob a luz das
estrelas, oito mãos na altura do seu rosto, ameaçando socá-lo. E, por
mais que houvesse corrido o olhar pela sala, não pôde ver nenhum corpo
ao qual pudessem pertencer.
Abaixou a cabeça e disparou em frente, a correr sob uma chuva de
socos e sopapos, ao que por sua vez devolvia com seus punhos. Ao

197
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

alcançar o armário, abriu-o, tirou de lá a túnica e a trouxe de volta até


a primeira sala.
— Aqui está – disse ele arfante, respirando a muito custo.
— Clic! – uma vez mais abriram-se as chamas, e Ludovina fez-se
mulher até a cintura. Pegou a túnica e a vestiu.
Era uma túnica laranja magnífica, de um veludo todo adornado
com pérolas. As pérolas, porém, não eram tão alvas quanto o pescoço
da mulher.
— Isso não é tudo – disse ela. – Vai até a galeria, sobe a escada que
estará à tua esquerda, e, na segunda sala do primeiro andar, haverás de en-
contrar outro armário, em que está a minha saia. Traze-me também ela.
O Reizinho fez o que lhe fora dito. Mas tão logo entrou na sala,
viu, em vez de apenas mãos, agora oito braços, cada qual a segurar um
enorme pedaço de pau. Sem demora desembainhou a espada e entrou a
cortá-los com tamanho vigor, que mal se arranhou.
Trouxe de volta a saia, feita duma seda tão azul quanto os céus da
Espanha.
— Aqui está – disse João, ao surgir mais uma vez a serpente. Esta já
era uma mulher até os joelhos.
— Tudo o que quero agora são meus sapatos e minhas meias – ela
disse. – Vai e pega-as no armário que está no segundo andar.
E lá se foi o soldadinho, e se viu diante de oito gnomos armados com
martelos e de cujos olhos saíam chamas. Desta vez foi só até a soleira
da porta.
— Minha espada será inútil – pensou consigo. – Estes miseráveis
hão de despedaçá-la como se fora vidro, e se eu não conseguir pensar
em alguma outra coisa, sou um homem morto.
Foi aí que deu com o olhar na porta, que era um pedaço enorme
de carvalho, maciço e pesado. Arrancou-lhe as dobradiças, pô-la em
cima da cabeça e arremeteu direto contra os gnomos, que foram es-
magados. Tirou depois os sapatos e as meias do armário e os levou até
Ludovina, que mal os colocou e já se fez de novo mulher da cabeça
aos pés.

198
O Soldadinho

Quando já pusera suas meias brancas e calçara suas pequeninas sapa-


tilhas azuis, engastadas de pedras preciosas, disse ela ao seu libertador:
— Agora tens de ir embora e nunca mais voltar para cá, não importa
o que aconteça. Aqui está uma bolsa com duzentas moedas de ouro.
Dorme hoje à noite numa estalagem que fica na orla da floresta e acorda
à primeira luz da manhã: pois às nove horas em ponto hei de passar em
frente à porta, e te levarei em minha carruagem.
— Por que não nos vamos agora? – quis saber o soldadinho.
— Porque ainda não é chegada a hora – respondeu a princesa. – Mas
antes poderás beber à minha saúde nesta taça de vinho – e, enquanto
falava, encheu uma taça de cristal com um líquido que mais parecia ouro
derretido.
João bebeu-o, acendeu o cachimbo e foi-se embora.

II

Quando chegou à estalagem, João pediu o jantar, mas, tão logo sen-
tou-se para comer, sentiu um sono tremendo a pesar-lhe as pálpebras.
— Devo estar mais cansado do que imaginava – disse aos seus botões
e, depois de fazer saber à gente da estalagem que tinha de acordar no dia
seguinte às oito da manhã, retirou-se para a cama.
A noite inteira dormiu como se estivesse morto. Às oito da manhã
vieram acordá-lo; e meia hora depois, e vinte minutos depois – e nada de
João despertar! Afinal, acharam por bem deixá-lo em paz.
O relógio batia meio-dia quando João acordou. Pulou da cama, ves-
tiu-se de qualquer jeito e correu a indagar se alguém perguntara por ele.
— Veio uma princesa encantadora – respondeu a estalajadeira –
numa carruagem de ouro. Deixou-te este buquê e uma mensagem di-
zendo que amanhã irá passar aqui em frente, às oito da manhã.
O soldadinho ficou a praguejar contra o seu sono, mas buscou conso-
lar-se ao olhar para o buquê, que era feito de immortelles.
— É a flor da recordação – pensou consigo, esquecendo-se de que é
também a flor dos mortos.

199
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Ao cair da noite, dormiu com um olho aberto e pulou da cama umas


boas vinte vezes numa só hora. Quando os pássaros começaram a cantar,
já não aguentava mais ficar deitado quieto e, saindo pela janela, trepou os
galhos de uma das enormes tílias que ficavam em frente à porta. Sentou-se
ali a contemplar, sonhador, o buquê que ganhara, até que acabou dormindo.
Uma vez adormecido, nada foi capaz de acordá-lo; nem a claridade
do sol, nem as canções das aves, nem o barulho da carruagem dourada
de Ludovina, nem os gritos da estalajadeira que o procurou em todos os
cantos possíveis e imagináveis.
Quando o relógio bateu meio-dia, ele despertou e o seu coração fi-
cou pesado de angústia ao descer da árvore e ver a mesa ser posta para
o almoço.
— A princesa veio? – perguntou ele.
— Sim, veio. Deixou-te esta echarpe, colorida qual uma flor, e disse
que há de passar amanhã às sete horas, mas que será esta a última vez.
— Devo ter sido enfeitiçado – pensou o soldadinho. Então pegou a
echarpe, que tinha um aroma curioso, e amarrou-a em redor do braço
esquerdo, a pensar e repensar que o melhor para se manter acordado era
nem sequer ir dormir. Assim, pois, pagou o que devia, comprou um ca-
valo com o dinheiro que lhe restara e, quando caiu a noite, nele montou
e se pôs à frente da porta da estalagem, resolvido a não pregar o olho a
madrugada inteira.
De vez em quando se curvava para sentir o doce aroma da echarpe
que lhe estava no braço; e a cheirou, e a cheirou mais um tanto, e de
tanto a cheirar enfim acabou afundando a cabeça no pescoço do cavalo,
e um e outro se puseram a roncar.
Quando a princesa chegou, começaram a balançá-lo e esbofeteá-lo e
gritar nas suas orelhas, mas de nada adiantou. Nem homem nem bicho
acordaram até que a carruagem estivesse já sumindo ao longe.
João então esporou o cavalo e berrou com quantas forças tinha um
“Pare! Pare!”, mas a carruagem continuou como antes. E muito embora
o soldadinho tenha galopado no seu encalço por um dia e uma noite
inteiros, não foi capaz de lhe chegar um só passo mais perto.

200
O Soldadinho

E deixaram para trás muitas vilas e cidades, até que enfim chegaram ao
mar. Aqui, João pensou consigo que finalmente a carruagem teria de parar.
Mas, maravilha das maravilhas! a coisa seguiu em frente, e deslizou sobre
as águas tão facilmente quanto rodara sobre a terra. O cavalo de João, que
o carregara tão bem, tombou de fadiga, e o soldadinho sentou-se na praia,
fitando a carruagem que ia desaparecendo rapidamente no horizonte.

III

Contudo, João sem demora pôs-se de pé, sacudiu a poeira e andou pela
praia a ver se encontrava um barco no qual pudesse velejar e sair em busca
da princesa. Mas ali não havia barco algum. Finalmente, cansado e com
fome, deixou-se cair nos degraus da choupana dum pescador para descansar.
Dentro da choupana havia uma moça remendando uma rede. Ela
convidou João para entrar e lhe deu um tanto de vinho e um bocado de
peixe frito, e João comeu, bebeu e relaxou, e contou as suas aventuras à
pequena pescadora. Muito embora a garota fosse linda, com uma pele
tão branca quanto o peito de uma ave, e graças à qual os vizinhos lhe ha-
viam dado o nome de Gaivota, ele não estava a pensar nela em absoluto,
pois que sonhava com os olhos verdes da princesa.
Quando acabou de contar-lhe sua história, a garota compadeceu-se
muito dele e disse:
— Semana passada, enquanto eu pescava, a minha rede fez-se pe-
sada de repente e, ao puxá-la de volta para dentro do barco, encontrei
um grande vaso de cobre, selado de chumbo. Trouxe-o para casa e o
coloquei sobre o fogo. Quando já o chumbo havia derretido um pouco,
abri o vaso com a minha faca e de lá tirei um manto, feito dum tecido
vermelho e uma bolsa na qual havia cinquenta moedas de ouro. Cá está
o manto, a cobrir a minha cama. E quanto ao dinheiro, este o guardei
para o meu dote de casamento. Mas toma-o para ti e vai até o porto
mais próximo, onde hás de encontrar um navio que viajará para os Países
Baixos. Quando te tornares rei, traze-me de volta as minhas cinquenta
moedas.

201
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

E o Reizinho respondeu:
— Quando eu me tornar Rei dos Países Baixos, hei de fazer de ti a
dama de companhia da rainha, pois és tão benévola quanto bela. Até
mais ver! – disse, e mal a Gaivota voltou à sua rede, ele enrolou-se no
manto e se deitou numa pilha de grama seca, matutando nas coisas es-
tranhas que lhe haviam acontecido, até que de súbito exclamou:
— Ó, como eu gostaria de estar agora na capital dos Países Baixos!

IV

Dali a um instante, o soldadinho viu-se diante de um palácio esplên-


dido. Pôs-se a esfregar os olhos, deu-se um beliscão, e foi só quando ti-
nha já certeza de que não estava sonhando que foi falar com um homem
que estava fumando um cachimbo à porta:
— Onde estou?
— Onde estás? És por acaso cego? Estás diante do palácio do rei,
é claro!
— Qual rei?
— Oras, o Rei dos Países Baixos! – replicou o outro em meio a gar-
galhadas, crente de que falava com um maluco.
Já houve no mundo coisa mais estranha? Como, porém, João era um
sujeito honesto, ficou um tanto agoniado, pois que a Gaivota poderia
pensar que ele lhe roubara o manto e a bolsa. E começou a pensar em
como poderia devolver-lhes as duas coisas o mais rápido possível. Lem-
brou-se então de que o manto possuía alguma mágica escondida, que
conferia ao seu portador o poder de se transportar à vontade de um lugar
para outro. Para confirmá-lo, desejou que estivesse na melhor estalagem
da cidade. Num instante, lá ele estava.
Encantado com a descoberta, pediu um jantar, e como já era muito
tarde para visitar o rei naquela noite, foi dormir.
No dia seguinte, ao levantar-se da cama, viu logo que tudo quanto é
casa estava adornada com flores e coberta com bandeiras e que todos os
sinos das igrejas repicavam sem parar. O soldadinho quis saber qual era

202
O Soldadinho

a razão de todo aquele barulho, e em resposta lhe disseram que a Prin-


cesa Ludovina, a lindíssima filha do rei, fora encontrada e estava prestes
a fazer sua entrada triunfal.
— Isso há de me calhar às mil maravilhas – pensou o Reizinho. – Hei
de ficar à porta, a ver se ela me reconhecerá.
Mal teve tempo de se vestir quando surgiu a carruagem dourada de
Ludovina. A princesa trazia uma coroa de ouro sobre a cabeça, e a rai-
nha e o rei vinham sentados ao seu lado. Por acaso, seu olhar foi dar logo
no soldadinho, e ela fez-se pálida e virou a cabeça para o outro lado.
— Será que não me reconheceu? – perguntou-se o soldadinho. – Ou
será que está irritada por eu ter perdido nossos encontros? – e seguiu a
multidão até chegar ao palácio.
Quando a família real lá entrou, João foi dizer aos guardas postos ao
portão que fora ele quem libertara a princesa e que desejava ter com o
rei. Mas quanto mais falava, tanto mais os guardas achavam que ele era
maluco e lhe negavam a entrada.
O soldadinho ficou furioso. Sentiu que precisava dar uma cachim-
bada para se acalmar, e foi até uma taberna e lá pediu uma caneca de
cerveja.
— Tudo por causa deste miserável capacete de soldado – esbravejou
sozinho. – Um tanto de dinheiro era o quanto me bastaria para me tor-
nar tão esplêndido quanto os lordes da corte, mas de que adianta ficar
pensando nisso quando só o que tenho é o que sobrou das cinquenta
moedas da Gaivota?
Abriu a sua bolsa para conferir quanto ainda lhe restava, e descobriu
haver ali ainda cinquenta moedas de ouro.
— A Gaivota as deve ter contado errado – refletiu, e pagou pela
cerveja. Então contou o dinheiro de novo, e ainda havia ali cinquenta
moedas de ouro. Tirou outras cinco e contou uma terceira vez, e ainda
havia cinquenta. Depois esvaziou a bolsa todinha e a fechou; quando a
abriu, lá estavam ainda as cinquenta moedas!
Então um plano lhe surgiu na cabeça, e lá foi ele, imediatamente,
para o alfaiate e o construtor de carruagens da corte.

203
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Ordenou ao alfaiate que lhe fizesse um manto e uma veste de seda azul
engastada com pérolas, e ao construtor de carruagens que lhe construísse
uma carruagem dourada, como a da Princesa Ludovina. Se o alfaiate e o
construtor de carruagens fossem rápidos, prometia-lhes pagar em dobro.
Daí a alguns dias o soldadinho saiu a desfilar pela cidade, numa car-
ruagem levada por seis cavalos brancos, com quatro lacaios ricamente
vestidos andando-lhe atrás. Dentro estava João, a trajar uma seda azul,
enquanto carregava na mão um buquê de immortelles e trazia cingida ao
braço uma echarpe. Deu duas voltas pela cidade, jogando dinheiro a torto
e a direito, e na terceira, enquanto passava debaixo das janelas do palácio,
viu Ludovina erguer um cantinho da cortina para espiá-lo.

No dia seguinte, não havia outro assunto senão o lorde ricaço que
distribuíra dinheiro a todas as gentes. O falatório chegou até mesmo à
corte, e a rainha, que era muito curiosa, encheu-se dum desejo de ver o
maravilhoso príncipe.
— Pois bem – disse o rei –; convocai-o ao palácio: que o sujeito ve-
nha e jogue cartas comigo.
Desta vez o Reizinho não chegou atrasado.
O rei ordenou que se buscassem as cartas, e sentaram-se ambos para
jogar. Jogaram seis vezes, e João as perdeu todas. O valor apostado era
cinquenta moedas de ouro e, a cada derrota, ele esvaziava sua bolsa, que
aparecia cheia de novo no instante seguinte.
À sexta vez, o rei exclamou:
— Mas é fantástico!
A rainha clamou:
—É espantoso!
A princesa disse:
— É inacreditável!
— Não tão inacreditável – respondeu o soldadinho – quanto te trans-
formares numa serpente.

204
O Soldadinho

— Silêncio! – interrompeu o rei, que não gostava nada do assunto.


— Só toquei no assunto – disse João – pois sou eu o homem que
libertou a princesa dos gnomos e com o qual ela prometeu casar-se.
— É verdade isto? – quis saber o rei da princesa.
— É verdade – respondeu Ludovina. – Mas aconteceu de eu dizer ao
meu libertador que estivesse pronto para sair quando eu passasse com
a minha carruagem. Passei três vezes, mas, de tão profundamente que
dormia, ninguém foi capaz de acordá-lo.
— Como te chamas? – disse o rei. – E quem és?
— Meu nome é João. Sou um soldado, e meu pai é um barqueiro.
— Não és um marido adequado à minha filha. Contudo, se nos deres
tua bolsa, haverás de tê-la por esposa.
— Esta bolsa não é minha para que eu possa dá-la.
— Mas a podes emprestar para mim, até o dia de nosso casamento –
disse a princesa, dando-lhe um daqueles olhares aos quais o soldadinho
nunca conseguia resistir.
— E quando será isto?
— Na Páscoa – disse o monarca.
— Ou numa lua azul! – murmurou a princesa, mas o Reizinho não a
escutou e deixou-a pegar sua bolsa.
Na noite seguinte, apresentou-se no palácio para jogar cartas com o
rei e fazer corte à princesa. Mas lhe disseram que o rei fora para o cam-
po, a fim de coletar seus aluguéis. Voltou no dia seguinte, e lhe deram a
mesma resposta. Depois, solicitou ter com a rainha, mas ela estava com
dor de cabeça. À quinta ou sexta vez que o mesmo aconteceu, começou
a entender que estavam a zombar dele.
— Isso não é jeito de um rei se portar – pensou João. – Velho patife!
– e, então, subitamente lembrou-se de seu manto vermelho.
— Ah, mas sou mesmo um pateta! – disse ele. – É claro que posso
entrar onde quiser com a ajuda disto aqui.
Naquela mesma noite pôs-se em frente ao palácio, enrolado no man-
to vermelho. Acendeu-se uma luz no primeiro andar, e João viu nas
cortinas a sombra da princesa.

205
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Desejo estar no quarto da Princesa Ludovina – bastou dizê-lo, e


num segundo já estava lá.
A filha do rei estava sentada a uma mesa, contando o dinheiro que
tirara da bolsa inesgotável.
— Oitocentos e cinquenta, novecentos, novecentos e cinquenta…
— Mil – João completou. – Boa noite, pessoal!
A princesa pulou da cadeira e soltou um gritinho esganiçado.
— Tu aqui! Que queres com isto? Vai-te embora imediatamente, ou
hei de chamar…
— Cá estou – disse o Reizinho – para lembrar a senhora da promessa
que fizeste. Depois de amanhã é a Páscoa, e já passou da hora de pensar-
mos em nosso casamento.
Ludovina irrompeu em gargalhadas.
— Nosso casamento! Foste mesmo estúpido a ponto de acreditar que
a filha do Rei dos Países Baixos um dia tomaria por marido o filho de
um barqueiro?
— Dá-me de volta a minha bolsa, então – disse João.
— Nunca – respondeu a princesa, e com toda a calma do mundo
colocou-a no bolso.
— Como quiseres – disse o soldadinho. – Quem ri por último ri
melhor – e tomou a princesa nos braços. – Desejo – bradou ele – que es-
tejamos nos confins da Terra – e num segundo lá estava, com a princesa
ainda bem segura nos braços.
— Ufa – disse João, pondo a princesa gentilmente ao pé duma árvore. –
Jamais tinha feito uma viagem tão longa antes. Que dizes, minha senhora?
A princesa logo viu que não era hora para troças, e não respondeu.
Além disso, sentia-se ainda algo zonza pela vertiginosa viagem e não se
recompusera por completo.

VI

O Rei dos Países Baixos não era lá uma pessoa muito escrupulosa,
e sua filha lhe puxara o caráter. Por isso é que havia sido transfor-

206
O Soldadinho

mada numa serpente. Fora profetizado que um soldadinho haveria


de libertá-la, e que ela, por sua vez, teria de tomá-lo por esposo, a
menos que este não aparecesse no ponto de encontro três vezes se-
guidas. A princesa, pois, velhaca que só, planejou tudo de acordo com
a profecia.
O vinho que dera a João no castelo dos gnomos, e o buquê de im-
mortelles e a echarpe, todos tinham o poder de produzir um sono pesa-
do como a morte. E nós já sabemos o que é que fizeram com João.
Mesmo aqui, porém, neste momento crítico, Ludovina não perdeu
a cabeça.
— Pensei que eras um simples vagabundo de rua – disse ela, pondo
na voz quanta docilidade e adulação conseguia –, e cá estou, sabendo
agora que és mais poderoso do que qualquer rei. Eis a tua bolsa. Tens aí
contigo minha echarpe e meu buquê?
— Aqui estão – disse o Reizinho, encantado com essa mudança de
tom, e tirou-os de seu peito. Ludovina prendeu o buquê à sua botoeira e
cingiu-se a echarpe ao braço.
— Agora – disse ela – és meu senhor e mestre, e casar-me-ei contigo
quando bem quiseres.
— És mais amável do que eu imaginava – disse João – e nunca have-
rás de ser infeliz, pois tens todo o meu amor.
— Pois bem, meu maridinho, conta-me: como conseguiste levar-me
tão rapidamente para os confins da Terra?
O soldadinho coçou a cabeça.
— Será que ela realmente pretende casar-se comigo – pensou com
seus botões – ou está apenas tentando me enganar mais uma vez?
Mas Ludovina repetiu-lhe a pergunta:
— Não me irás dizê-lo? – com tamanha meiguice na voz, que ele não
soube como resistir.
— Afinal de contas – disse consigo –, que pode haver de mau em
contar-lhe o segredo, contanto que eu não lhe dê a capa?
E contou à princesa tudo sobre o poder que havia no manto ver-
melho.

207
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Ó, meu querido, como estou cansada! – suspirou Ludovina. – Não


te pareces que faríamos bem em tirar um cochilo? Depois, conversamos
sobre quantos planos tivermos.
E esticou-se na grama, coisa que o Reizinho fez também logo em se-
guida, e nisto pousou a cabeça em seu braço esquerdo, ao qual ela havia
amarrado a echarpe. Daí a pouco já dormia profundamente.
Ludovina estava a espiá-lo com um olho aberto, e, tão logo ouviu-
-o roncar, desenrolou o manto, tirou-o com cuidado de sob o corpo e
o envolveu em si, pegou-lhe a bolsa da algibeira e a pôs na sua, e disse:
— Desejo estar de volta em meu próprio quarto.
E num instante lá estava ela.

VII

E quem se sentiu estúpido, senão João, quando vinte e quatro horas


depois acordou sem bolsa, sem manto e sem princesa? Arrancou os ca-
belos, esmurrou o peito, pisoteou o buquê e esfrangalhou a echarpe da
traidora até não sobrar nada.
Além do mais, estava esfomeado e não tinha nada para comer.
Pôs-se a pensar em todas as coisas maravilhosas que sua avó lhe dis-
sera quando criança, mas nenhuma lhe serviu de coisa alguma. Desespe-
rado, calhou de olhar para cima e ver que a árvore sob a qual estivera era
uma soberba ameixeira, pejada de frutos amarelos como o ouro.
— Hora de comer umas ameixas – disse consigo –; na guerra tudo
é válido.
Trepou a árvore e começou a comer. Porém, mal engolira duas amei-
xas, quando, horrorizado, sentiu que alguma coisa estava a crescer-lhe na
testa. Pôs a mão e descobriu que tinha agora dois chifres!
Saltou da árvore e apressou-se até um riacho que corria ali perto. Po-
bre João! Não havia escapatória: dois chifrezinhos charmosos, que não
fariam má imagem na cabeça de um bode.
E ali se foi o que lhe restara de coragem.

208
O Soldadinho

— Como se não bastasse – disse – ter sido tapeado por uma mulher,
o Diabo também quer entrar na dança e emprestar-me seus chifres. Mas
que bela figura faria eu se voltasse para o mundo!
Mas como ainda estivesse com fome e já o mau feitiço houvesse feito
nele seu estrago, intrepidamente subiu noutra árvore, e de lá arrancou
duas ameixas de um verde muito bonito e convidativo. Foi engolir duas
delas, e lá se foram os chifres. O soldadinho ficou encantado, ainda que
bastante surpreso, e chegou à conclusão de que era mau propósito arran-
car os cabelos assim por pouca coisa. Quando acabou de comer, subita-
mente lhe ocorreu uma ideia.
— Talvez – pensou consigo – estas lindas ameixazinhas aqui possam
ajudar-me a recuperar a minha bolsa, o meu manto e o meu coração das
mãos daquela princesa perversa. Como já tem os olhos de um cervo, não lhe
fará mal ter também os chifres. Se eu conseguir botar-lhe na cabeça um par
destes, aposto quanto dinheiro há no mundo que não mais desejarei tê-la
por esposa. Uma senhora chifruda não é lá uma imagem muito agradável.
Assim, pois, emaranhou uns quantos galhos de salgueiros, fez deles
uma cesta e nela colocou, cuidadosamente, ameixas de ambos os tipos.
Depois saiu a marchar, muito valente, dias sem conta, com nada para co-
mer senão as bagas ao pé da estrada, à mercê de feras e homens selvagens.
Mas não temia coisa alguma – a não ser que as ameixas estragassem, o que
não aconteceu.
Enfim, chegou ele a um país civilizado e, com a venda de algumas
joias que trouxera consigo na noite de sua viagem, conseguiu subir a
bordo de uma embarcação que seguia para os Países Baixos. E assim, ao
cabo de um ano e um dia, chegou à capital do reino.

VIII

No dia seguinte pôs uma barba falsa, vestiu-se como um feirante e,


pegando para si uma mesinha, postou-se à porta da igreja.
Espalhou, então, com muito cuidado, numa fina toalha de mesa bran-
quíssima, as suas ameixas mirabelas, que aliás pareciam ter sido colhidas

209
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

naquele mesmo instante. Ao ver a princesa sair da igreja, começou a ber-


rar, numa voz fingida:
— Olha as ameixas! Ameixas excelentes! Ameixas maravilhosas!
— Quanto custam? – disse a princesa.
— Cinquenta moedas cada.
— Cinquentas moedas! Mas o que têm de tão preciosas? Porventura
acrescentam algum juízo a quem as come, ou aumentam-lhe a beleza?
— Não poderiam aumentar o que já é perfeito, ó bela princesa, mas
quem sabe não vos acrescentem algo ainda?
Pedra que rola não cria limo, mas às vezes fica mais polida; e os meses
sem conta que João gastara a andar pelo mundo não haviam sido em vão.
Um elogio tão perfeitamente encaixado lisonjeou Ludovina.
— E o que hão de me acrescentar? – quis saber ela, sorrindo.
— Havereis de saber, bela princesa, quando as provar. Será uma sur-
presa para vós.
A curiosidade de Ludovina fora atiçada. Tirou a bolsa para fora e de
lá fez caírem tantos montinhos de cinquenta moedas de ouro quanto
havia de ameixas na cesta. O soldadinho sentiu um ímpeto selvagem de
arrancar a bolsa de sua mão e gritar aos quatro ventos que se tinha ali
uma ladra, mas conseguiu controlar-se.
Com as ameixas todas vendidas, desfez a loja improvisada, arrancou
o disfarce, mudou de estalagem e ficou quieto, à espera do que iria acon-
tecer em seguida.
Tão logo chegou ao quarto, a princesa exclamou:
— Vejamos agora o que estas suculentas ameixas podem acrescentar à
minha beleza – e, jogando para lá o seu manto, pegou duas delas e as comeu.
Imagine-se qual não foi a surpresa e o horror que a acometeram quan-
do sentiu que algo lhe estava a crescer na testa. Correu até o espelho e
soltou um grito lancinante.
— Chifres! então aí está o que me prometera! Encontrai, imediatamen-
te, o vendedor de ameixas, e trazei-o até mim! Cortai-lhe fora o nariz e as
orelhas! Que ele seja esfolado vivo ou tostado num fogo lento, e as suas
cinzas jogadas ao vento! Ó, morrerei! Morrerei de vergonha e desespero!

210
O Soldadinho

As suas criadas correram ao som de seus berros para acudi-la e ten-


taram torcer e puxar os chifres para arrancá-los, conseguindo apenas
dar-lhe uma tremenda duma dor de cabeça.
O rei então enviou um arauto para proclamar que a mão da prin-
cesa haveria de ser dada a quem conseguisse livrá-la de seus estranhos
ornamentos. E lá saíram de suas respectivas casas quantos médicos e
mágicos e cirurgiões havia nos Países Baixos e nos reinos vizinhos, e se
apinharam todos no palácio, cada qual com um remédio próprio. Mas
foram todos inúteis, e a princesa tanto sofreu à força dos tais remédios
que o rei foi obrigado a despachar uma segunda proclamação, afirman-
do que qualquer um que tentasse curar a princesa e nisto falhasse seria
enforcado na árvore mais próxima.
Mas o prêmio era por demais valioso para que qualquer proclamação
pudesse pôr fim aos esforços da turba de pretendentes. Naquele ano, o
que mais se colheu nos pomares dos Países Baixos foram homens mortos.

IX

O rei ordenara que se caçasse o vendedor de ameixas em todos os


cantos e recantos, mas a despeito de todo o suor e trabalho, não se pôde
encontrá-lo em lugar algum.
Quando o soldadinho descobriu que já não lhes restava paciência,
espremeu o suco das ameixas verdes Reine Claude num pequeno frasco,
comprou um roupão de médico, colocou uma peruca e um par de óculos,
e foi apresentar-se ao Rei dos Países Baixos. Afirmou ser um médico
famoso que viera de terras longínquas, e prometeu curar a princesa, se
apenas pudesse ficar a sós com ela.
— Mais um maluco em busca da forca – disse o rei. – Muito bem,
fazei como ele pedir; não se pode recusar nada a um homem que está
com uma corda no pescoço.
Assim que o soldadinho ficou na presença da princesa, derramou
umas poucas gotas do líquido num copo. Bastou a princesa bebê-las, e a
ponta dos chifres desapareceu.

211
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Teriam desaparecido por completo – disse o falso médico – se não


houvesse algo cortando seu efeito. Só é possível curar pessoas que tenham
a alma tão limpa quanto a palma de minha mão. Tens certeza de que não
cometeste nenhum pecado, por pequeno que seja? Examina-te bem.
Ludovina não precisava pensar muito no assunto, mas ficou entre a
cruz e a espada: de um lado, a vergonha de uma confissão humilhante,
do outro, o desejo de se ver livre daqueles chifres. Finalmente respondeu
a sua pergunta, olhando para o chão:
— Roubei uma bolsa de couro de um soldadinho.
— Dá a bolsa para mim. O remédio não irá agir a menos que a bolsa
esteja nas minhas mãos.
A muito custo, com um profundo suspiro, Ludovina colocou-lhe a
bolsa nas mãos, pois se lembrou de que nenhuma riqueza no mundo lhe
faria bem algum com aqueles chifres na cabeça.
O doutor então derramou um pouco mais de líquido no copo, e,
quando a princesa o bebeu, descobriu que os chifres haviam diminuído
pela metade.
— Deves ter algum outro pequeno pecado em tua consciência. Rou-
baste algo mais do soldado?
— Roubei-lhe também o manto.
— Dá-me o manto.
— Aqui está.
Desta vez Ludovina pensou consigo que, havendo os chifres sumido
de uma vez, chamaria seus criados para que arrancassem tudo de volta
do doutor, à força.
Estava já muito satisfeita com a ideia, quando repentinamente o
doutor de mentira enrolou-se no manto, jogou para longe a peruca e os
óculos, e mostrou à traidora o rosto do Soldadinho.
Ela estacou, muda de medo.
— Eu bem poderia – disse João – ter deixado que continuasses chi-
fruda até o fim de teus dias, mas sou um bom sujeito e um dia te amei;
além do quê… és já muito parecida com o Diabo para que precises de
seus chifres.

212
O Soldadinho

IX

João desejara estar na casa da Gaivota. Ora, a Gaivota estava sentada


à janela, a remendar sua rede. De vez em quando seu olhar ia se perder
lá no mar, como se estivesse esperando alguém. Ao som feito pelo sol-
dadinho, olhou para cima e corou.
— Aí estás! – disse ela. – Como chegaste aqui? – e então acrescentou,
numa voz baixinha: – E conseguiste casar com tua princesa?
João contou à garota todas as suas aventuras. Quando terminou, en-
tregou-lhe de volta sua bolsa e seu manto.
— Que posso fazer com isto? – perguntou ela. – Provaste para mim
que a felicidade não está em se possuir muitos tesouros.
— Não, está no trabalho e no amor de uma mulher honesta – emen-
dou o soldadinho, que pela primeira vez notou como eram bonitos os
olhos da garota. – Querida Gaivota, aceitas-me como teu esposo? – e
pegou-lhe a mão.
— Sim, aceito – respondeu a pescadora, corando muito –, mas só
com uma condição: que enfiemos de volta a bolsa e o manto no vaso de
cobre e os lancemos todos ao mar.
E assim o fizeram.*

* Charles Deulin.

213
O Cisne Mágico

ra uma vez três irmãos: o mais velho se cha-


mava Jacó, o do meio, Frederico, e o caçula, Pedro.
O caçula era feito de gato e sapato o tempo todo
pelos outros dois, que faziam sempre questão de
humilhá-lo. Se algo ia mal em seus afazeres, era
sempre Pedro quem levava a culpa e se encarre-
gava de remediar a situação, e não tinha alternativa senão aguentar os
maus tratos, porque era fraquinho e delicado e incapaz de defender-se
dos irmãos, muito mais fortes do que ele. O pobrezinho tinha a vida
mais atribulada que se possa imaginar, e noite e dia tentava descobrir
algum modo de melhorar sua condição. Certo dia, enquanto estava no
bosque coletando gravetos e chorando amargamente, uma velhinha
aproximou-se dele e perguntou o que havia; o menino então lhe con-
tou todos os seus males.
— Ora, meu bom jovem ‒ disse a senhora, ao terminar de ouvir as
desgraças do rapaz ‒, o mundo é muito grande: por que não tentas a
sorte em outro lugar?
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Pedro levou a sério aquelas palavras e certa manhã resolveu aban-


donar a casa do pai para tentar a sorte mundo afora, como aconselhara
a boa velhinha. Mesmo assim, sentiu pesar o coração quando partiu da
casa onde nascera e passara uma infância breve, porém feliz. Sentado
numa colina, lançou mais um olhar de afeto em direção ao lar.
De repente, a velhinha surgiu atrás dele, cutucou seu ombro e disse:
— Até aqui muito bem, meu rapaz, mas o que pretendes fazer agora?
Pedro, um tanto confuso, não soube o que responder, pois havia acha-
do até então que a sorte lhe cairia do céu. A velhinha, que logo adivi-
nhou seus pensamentos, deu uma risada piedosa e disse:
— Vou dizer o que deves fazer, pois me afeiçoei a ti e sei que não te
esquecerás de mim quando tiveres alcançado o sucesso.
Pedro lhe deu sua palavra, e a velhinha continuou:
— Neste fim de tarde, quando o sol estiver se pondo, vai àquela pe-
reira acolá, que vês na encruzilhada; à sombra dela acharás um homem
dormindo pesadamente, e ao lado dele verás um cisne amarrado na ár-
vore. Desamarra o cisne, tomando cuidado para não acordar o homem,
e leva o animal embora. Verás que todo mundo por quem passares se
encantará com a plumagem dele, e deverás permitir, a quem o desejar,
que lhe arranque uma pluma. Contudo, bastará que o toquem muito
de leve para que o cisne comece a berrar; neste momento deverás dizer
“Quieto, cisne!”. A mão da pessoa que tiver encostado nele ficará re-
tida como se a prendesse um torno, e só se libertará quando a tocares
com esta varinha, que te darei em breve. Quando tiveres capturado
desta maneira um bom número de pessoas, seguirás em frente, acom-
panhado por tua comitiva, e chegarás a uma grande capital; lá mora
uma princesa que leva a fama de nunca na vida ter dado uma risada.
Se a fizeres rir, tua sorte estará assegurada; só peço que nesse momento
não te esqueças de tua velha amiga.
Pedro deu sua palavra novamente, e ao pôr do sol andou até a pereira
de que falara a velhinha. O homem dormia profundamente, e o cisne,
que era grande e belo, estava atado ao tronco com uma corda vermelha;
Pedro o desamarrou e o levou embora sem acordar o dono.

216
O Cisne Mágico

Caminhou por um tempo com o cisne até chegar a uma obra onde
trabalhavam muitos homens; todos, assim que fitaram a ave, ficaram
atordoados com a beleza de suas plumas, e um jovem mais atrevido,
coberto de barro da cabeça aos pés, exclamou:
— Quem me dera eu possuísse uma dessas penas!
— Pega uma para ti, então ‒ disse Pedro cortesmente, deixando que
o jovem agarrasse uma pena da cauda. No mesmo instante começou o
cisne a berrar, e Pedro, lembrado das palavras da velhinha, exclamou
“Quieto, cisne!”; já o infeliz obreiro, por mais que se esforçasse, não
conseguia tirar as mãos do bicho. Quanto mais urrava, mais seus co-
legas gargalhavam, até que uma moça, que estava lavando roupa num
córrego próximo, correu para ver de onde vinha a gritaria. Quando viu
o pobre rapaz preso ao cisne, sentiu tanta pena dele que esticou o braço
para soltá-lo. O cisne berrou.
— Quieto, cisne! ‒ gritou Pedro; e agora a moça também estava presa.
Depois de andar um pouco mais com seus prisioneiros, Pedro en-

217
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

controu um limpador de chaminés, que riu às gargalhadas daquela tropa


inusitada e perguntou à moça o que fazia.
— Ó, meu querido João! ‒ respondeu a moça. ‒ Estende o braço e
me solta deste maldito obreiro!
— Mas é claro ‒ respondeu o limpador, dando a mão à garota. O
cisne berrou.
— Quieto, cisne! ‒ disse Pedro, e aquele homem preto de fuligem se
acrescentou à fileira.
Em breve chegaram a um vilarejo onde se celebrava um festival. Du-
rante a apresentação de uma trupe circense, o palhaço estava fazendo
seus gracejos, e quando viu aquele trio exótico enfileirado atrás do cisne,
esbugalhou os olhos de admiração.
— Ficaste doido, pretinho? ‒ perguntou nas pausas entre uma risada
e outra.
— Isto não é brincadeira! ‒ respondeu o limpador de chaminés. ‒ Esta
moça apertou a minha mão com tanta força que me sinto grudado a ela.
Sê um bom palhacinho e me desprende dela, que um dia te compensarei.
Sem nenhuma hesitação, o palhaço agarrou a mão empretecida que o
limpador estendera. O cisne berrou.
— Quieto, cisne! ‒ gritou Pedro; e o palhaço tornou-se o quarto
membro da turma.
Sabei que na primeira fila da arquibancada estava sentado o prefeito
do vilarejo, homem muito respeitado por toda a população. Achou ele
que tudo não passava de um truque muito bobo, e aborreceu-se tanto
com a brincadeira que agarrou a mão do palhaço para levá-lo à delegacia.
Então o cisne berrou, Pedro gritou “Quieto, cisne!”, e o digníssimo
prefeito teve o mesmo destino que seus predecessores.
A primeira-dama, um palito de mulher, enfurecida com a humilha-
ção a que submetiam seu marido, agarrou-lhe o braço que ficara livre e o
puxou com toda sua força, mas tudo o que fez foi engrossar a procissão.
Depois disto ninguém mais quis se unir a eles.
Após mais uma breve caminhada, Pedro avistou as torres da capital,
logo à sua frente. Estava a ponto de entrar, quando saiu de encontro a

218
O Cisne Mágico

ele uma carruagem reluzente, em cujo interior estava sentada uma jovem
senhorita, linda como a luz do dia, mas de aspecto muito sério e solene.
Bastou, no entanto, colocar os olhos naquela caravana de tipos tão di-
versos para estourar num espalhafatoso ataque de risos, ao qual logo se
juntaram seus criados e damas de companhia.
— A princesa finalmente riu! ‒ bradaram todos alegremente.
A bela moça desceu da carruagem para ver mais de perto aquela cena
espantosa e riu-se outra vez do ridículo a que se prestavam os pobres prisio-
neiros. Mandou dar meia-volta ao cocheiro e foi-se indo de volta à cidade
sem tirar os olhos nem de Pedro nem da procissão que o jovem conduzia.
O rei, quando ouviu a notícia da primeira risada de sua filha, encheu-
-se de alegria e mandou vir ter consigo a Pedro e sua comitiva. Assim
que os viu, riu-se tanto que lágrimas rolaram de seus olhos.
— Meu bom amigo ‒ disse a Pedro ‒, sabes o que prometi à pessoa
que fosse capaz de arrancar risadas à princesa?
— Não sei ‒ respondeu Pedro.
— Então direi: mil coroas de ouro ou a posse de uma terra. Qual
escolhes?
Pedro escolheu a terra. Em seguida, encostou a varinha no jovem
obreiro, na moça, no limpador de chaminés, no palhaço, no prefeito e
na mulher do prefeito. Assim que se viram livres, dispararam todos para
suas casas como se uma chama os atiçasse pela traseira; e, como podeis
imaginar, a debandada deles renovou as gargalhadas.
Nesse momento a princesa sentiu-se compelida a acariciar o cisne,
admirada de suas plumas.
— Quieto, cisne! ‒ gritou Pedro, e ganhou a princesa como esposa.
O cisne, por sua vez, saiu voando e desapareceu no horizonte azul.
Pedro então recebeu de presente um ducado e chegou a se distinguir entre
os homens, mas não se esqueceu da boa velhinha que fora a causa de sua
fortuna: nomeou-a governanta e a levou para morar consigo e sua esposa
real no magnífico castelo em que viveram pelo resto de suas vidas.*

* Herman Kletke.

219
A Pastora Suja

ra uma vez um rei que tinha duas filhas, a quem


amava de todo o coração. Depois que elas cresce-
ram, apoderou-se dele um desejo repentino de saber
se elas o amavam de verdade, e então resolveu que
legaria o reino àquela que oferecesse a melhor prova
de sua devoção.
O rei chamou a princesa mais velha e perguntou-lhe:
— O quanto vós me amais?
— Amo-vos como à menina dos meus olhos! – ela respondeu.
— Ah! – o rei exclamou, beijando-a ternamente enquanto falava. –
Sois verdadeiramente uma boa filha.
Mandou então chamar a filha mais nova e perguntou-lhe o quanto
ela o amava.
— Sois para mim, meu pai – respondeu ela –, como o sal em meu
alimento.
O rei, porém, não se agradou dessas palavras e ordenou que a filha
deixasse a corte e jamais comparecesse à sua presença novamente. A pobre
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

princesa subiu aos seus aposentos, com um peso no coração, e começou a


chorar, mas então lembrou-se da ordem de seu pai, enxugou as lágrimas,
preparou uma trouxa com suas joias e seus melhores vestidos e rapida-
mente abandonou o castelo onde havia nascido.
Percorreu a estrada que se estendia à sua frente, sem saber ao certo
aonde ia, ou o que lhe aconteceria, pois jamais fora ensinada a trabalhar
– tudo o que sabia resumia-se a algumas regras domésticas e receitas de
pratos que sua mãe lhe ensinara muito tempo atrás. E, receosa de que
nenhuma dona de casa desejaria empregar uma moça tão bonita, decidiu
fazer-se tão feia quanto possível.

Por isso, trocou o vestido que vinha usando por uns trapos horrorosos
que pertenciam a um mendigo, rasgados e enlameados. Em seguida es-
palhou lama nas mãos e nas faces e sacudiu os cabelos até que se emara-
nhassem. De aparência assim transformada, saiu oferecendo seus servi-
ços como cuidadora de gansos ou pastora de ovelhas. Mas as esposas dos
fazendeiros nem sabiam o que dizer diante de uma moça tão imunda, e a
despediam com um bocado de pão que por caridade lhe davam.
Depois de andar por muitos dias sem arranjar trabalho, chegou a
uma grande fazenda onde estavam contratando uma pastora de ovelhas,
e de boa vontade a empregaram.

222
A Pastora Suja

Certo dia estava a princesa pastoreando as ovelhas no campo quan-


do sentiu um súbito desejo de embelezar-se com seus ricos vestidos.
Lavou-se cuidadosamente em um regato e, como trazia sua trouxa sem-
pre a tiracolo, facilmente livrou-se de seus trapos. Em alguns instantes
estava transformada em uma respeitável senhora.
O filho do rei, que se perdera enquanto caçava, apercebeu-se da don-
zela à distância e quis observá-la mais de perto. Entretanto, tão logo
notou que era observada, a moça precipitou-se para o meio do bosque,
lépida como um pássaro. O príncipe tentou segui-la, mas, enquanto cor-
ria, seu pé se prendeu na raiz de uma árvore, e ele foi ao chão. Quando
se levantou, já não havia sinal da moça.
Ao ver-se em segurança, ela tornou a vestir seus trapos e novamente
sujou as faces e as mãos. Porém o jovem príncipe, que estava com muito
calor e com muita sede, seguiu rumo à fazenda para pedir um bocado de
sidra, e por lá perguntou como se chamava a bela jovem que cuidava do
rebanho. Todos explodiram em uma gargalhada, dizendo que a pastora
era uma das criaturas mais feias e imundas que poderiam existir.
O príncipe pensou que aquilo devia ser obra de bruxaria, e foi-se
embora antes que a pastorinha voltasse. Naquela noite, ela tornou-se
motivo de galhofa de toda a gente.
Mas o filho do rei pensava frequentemente na adorável donzela que
vira apenas por um breve instante e que o fascinara mais que todas as
moças da corte. Por fim, já não fazia senão sonhar com ela, e foi defi-
nhando dia após dia, até que seus pais quiseram saber o que o amofinava,
prometendo fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para restituir-lhe
a alegria. O príncipe não teve coragem de dizer a verdade, para que não
rissem dele; então disse apenas que desejava comer os pãezinhos prepa-
rados pela criada daquela quinta distante.
Apesar da esquisitice do pedido, apressaram-se por atendê-lo, e o
fazendeiro foi então comunicado sobre o desejo do filho do rei. A criada
não demonstrou nenhum espanto ao receber a ordem de fazer os pãezi-
nhos, e apenas solicitou um pouco de farinha, sal e água, e também que
fosse deixada a sós no pequeno aposento junto ao forno, onde ficavam

223
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

os tabuleiros. Antes de iniciar o preparo, lavou-se cuidadosamente e até


colocou seus anéis, mas, enquanto sovava a massa, um de seus anéis
escapou-lhe do dedo para dentro da mistura. Ao terminar o preparo dos
pães, sujou-se novamente e deixou que restos da massa ficassem gruda-
dos nos dedos, para que parecesse tão feia quanto antes.
O pão, que era bem pequenino, foi levado ao filho do rei, que o pro-
vou com prazer. Ao cortá-lo, porém, deparou-se com o anel da princesa,
e declarou aos pais que se casaria com a moça em quem o anel servisse.
Então o rei fez um anúncio oficial em todo o reino, e moças vieram de
longe reivindicar a honra. Porém, tão estreito era o anel que, mesmo nas
menores mãos, servia apenas no dedo mínimo. Em pouco tempo, todas
as moças do reino, inclusive as camponesas, haviam experimentado o
anel, e o rei estava prestes a anunciar o fracasso de seus esforços, quando
o príncipe observou que não tinha visto ainda a pastora de ovelhas.
Mandaram buscá-la, e então ela compareceu coberta de trapos, porém
com as mãos mais limpas que o habitual, a fim de que o anel deslizasse
com facilidade. O filho do rei declarou que cumpriria sua promessa, mas,
quando seus pais comentaram que a moça não passava de uma guarda-
dora de rebanhos, e aliás bastante feia, a moça respondeu corajosamente
que nascera em berço real e que, se lhe dessem apenas um bocado de água
e a deixassem a sós por alguns instantes, ela assumiria uma aparência tão
digna quanto a de qualquer pessoa elegantemente vestida.
Seu pedido foi atendido e, quando ela reapareceu trajando um mag-
nífico vestido, sua aparência era tão bela, que todos viram que só podia
se tratar de uma princesa disfarçada. O filho do rei reconheceu a donzela
que ele avistara de relance e, atirando-se aos seus pés, pediu sua mão em
casamento. A princesa então contou sua história e disse que seria neces-
sário enviar um embaixador ao seu pai para pedir-lhe o consentimento
e convidá-lo para o casamento.
O pai da princesa, que não passava um dia sem que se arrependesse
da dureza com que tratara a filha, já havia percorrido meio mundo à
sua procura, mas, como ninguém tinha notícia dela, supôs que tivesse
morrido. Por isso, foi com imensa alegria que recebeu a notícia de que

224
A Pastora Suja

ela estava viva, e de que o filho de um rei desejava desposá-la. Acompa-


nhado da filha mais velha, deixou o reino e dirigiu-se à cerimônia.
Seguindo as ordens da noiva, foram-lhe servidos apenas pão sem sal
e carnes sem tempero. Vendo que ele fazia caretas e comia muito pouco,
a filha, sentada ao seu lado, perguntou-lhe se o jantar não o agradava.
— Não – respondeu. – Os pratos foram preparados com cuidado e
dispostos graciosamente, mas a comida está insuportavelmente sem sabor.
— Não vos disse eu, meu pai, que nada havia no mundo melhor do
que o sal? E, ainda assim, bastou que eu a ele vos comparasse, em de-
monstração do meu amor, para que me desprezásseis e repelísseis.
O rei abraçou a filha e admitiu ter cometido um erro ao distorcer o
sentido de suas palavras. E então, pelo restante do banquete de casa-
mento, serviram-lhe pães e pratos com tempero, e ele declarou serem os
mais saborosos que já havia experimentado.*

* Paul Sébillot.

225
A Serpente
Encantada

ra uma vez uma mulher muito pobre, que teria


dado tudo quanto possuía por uma criança, mas ne-
nhuma tinha.
Ora, aconteceu de um dia seu marido ir à mata
apanhar lenha. Ao trazê-la, descobriu que havia uma
bonita cobrinha entre os galhos.
Quando Sabatela (pois este era o nome da mulher do camponês) viu
o bichinho, suspirou profundamente e disse:
— Até mesmo as cobras têm suas crias; só eu sou infeliz o bastante
para não ter filhos.
Mal acabara de dizer estas palavras, e a cobrinha, para seu grande
espanto, dirigiu-lhe seus olhinhos e disse:
— Como não tens filho algum, sê pois minha mãe, e eu te prometo
que jamais irás te arrepender, pois hei de te amar como se fora teu pró-
prio filho.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

A princípio, Sabatela ficou apavorada por ouvir uma cobra falar. Mas,
reunindo à força toda sua coragem, respondeu-lhe:
— Se não houvesse nenhuma outra razão exceto este teu pensamen-
to gentil, ainda assim haveria de concordar contigo, pois hei de te amar
e cuidar de ti como se fosse tua mãe.
Assim, pois, deu à cobrinha um pequeno buraco na casa para servir-
-lhe de cama, alimentou-a com as melhores comidas e parecia mesmo
nunca dar-lhe tanto carinho quanto gostaria. Dia a dia, a cobrinha ia
ficando maior e mais gorda, até que enfim, numa certa manhã, disse a
Cola-Mattheo, o camponês, o qual ela sempre tivera como um pai:
— Querido papai, já tenho agora idade suficiente e desejo casar-me.
— Pois estou de muito acordo – respondeu-lhe Mattheo – e farei o
que puder para encontrar outra cobra que combine contigo, e arranjar
um casamento entre os dois.
— Mas, oras, se fizeres isso – replicou a cobra – não seríamos melho-
res do que as víboras e os répteis, e não quero isto de modo algum. Não;
prefiro antes desposar a filha do rei. Vá, pois, eu te rogo, e sem demora
exige uma audiência com o rei, e dize-lhe que uma cobra deseja casar-se
com sua filha.
Cola-Mattheo, que era um sujeito bastante simplório, lá se foi até o
rei. Havendo conseguido uma audiência, disse:
— Vossa Majestade, como já muitas vezes ouvi falar que quem não
arrisca não petisca, vim informar-vos que uma cobra deseja desposar
vossa filha, e eu ficaria muito feliz de saber se estaríeis disposto a casar
uma pomba com uma serpente.
O rei, que de cara soube como Mattheo era tolo, respondeu, a fim de
se livrar dele:
— Volta para casa e diz ao teu amigo, a cobra, que, se ele puder trans-
formar todo este palácio em marfim, ornado com ouro e prata, amanhã,
antes do meio-dia, dar-lhe-ei a mão de minha filha.
E com uma gostosa gargalhada dispensou o camponês.
Quando Cola-Mattheo voltou para casa com a resposta, a cobrinha
não pareceu nada desencorajada. Disse apenas:

228
A Serpente Encantada

— Amanhã de manhã, antes do raiar do sol, deves ir até a mata e lá


apanhar um monte de ervas verdes. Depois, esfrega com elas a soleira do
palácio, e verás o que há de acontecer.
Cola-Mattheo, que era, como já vos disse, um sujeito muito simplório,
não fez objeção; na manhã seguinte, antes do raiar do sol, lá se foi ele apa-
nhar um punhado de erva-de-são-joão e alecrim e outras tantas ervas, para
depois esfregá-las, como lhe fora dito, no chão do palácio. Mal o fizera, e
já as paredes transformaram-se num marfim tão ricamente ornado com
ouro e prata que deslumbrava a quantos o viam. O rei, ao levantar da cama
e contemplar o milagre que fora realizado, ficou sem saber o que falar ou
pensar, e não tinha a mínima idéia do que cargas d’água tinha de fazer.
Mas quando Cola-Mattheo foi até a corte no dia seguinte e, em
nome da cobra, exigiu a mão da princesa, o rei por sua feita respondeu:
— Não tenhas tanta pressa; se a cobra realmente quiser desposar mi-
nha filha, terá de fazer algumas outras coisas a mais antes, e uma delas é
transformar todos os caminhos e paredes do meu jardim em ouro puro,
e isto antes do meio-dia de amanhã.
Quando a cobra ficou sabendo da nova condição, respondeu:
— Amanhã de manhã, bem cedinho, vai e coleta quantas sobras de lixo
encontrares na rua, e então leva-as até o palácio; joga-as nos caminhos e
nas paredes do jardim, e haverás de ver se não serão mais do que suficien-
tes para o velho rei.
Cola-Mattheo saiu da cama ao cantar do galo, levou para a rua uma
cesta enorme debaixo do braço e se pôs a coletar cuidadosamente todos os
pedaços e cacos de panelas, e frigideiras, e jarros, e lâmpadas e outros lixos
tais. Bastou espalhá-los pelos caminhos e pelas paredes do jardim do rei,
e tudo se fez um brilho só de ouro resplandecente, de modo que o fulgor
cegou a todos, e a todas as almas encheu de admiração. Também o rei ficou
maravilhado, mas ainda não estava decidido a separar-se de sua filha. Assim,
pois, quando Cola-Mattheo veio lembrar-lhe de sua promessa, ele replicou:
— Tenho uma terceira exigência a fazer. Se a cobra puder transformar
todas as árvores e frutas do meu jardim em pedras preciosas, hei de lhe a
dar a mão de minha filha.

229
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Quando o camponês deixou a cobra a par do que o rei dissera, esta


lhe respondeu:
— Amanhã de manhã, bem cedinho, vai até o mercado e compra todas
as frutas que vires, então planta todos os caroços e sementes no jardim
do palácio. A menos que eu esteja enganado, o rei haverá de ficar muito
satisfeito com o resultado.
Cola-Mattheo acordou cedinho, e com uma cesta debaixo do braço, lá
se foi ao mercado, onde comprou todos as romãs e damascos e cerejas e tan-
tas outras frutas quantas pôde encontrar, e plantou seus caroços e sementes
no jardim do palácio. Num instante, as árvores se pejaram de rubis e de
esmeraldas e de diamantes, e de toda e qualquer pedra preciosa imaginável.
Desta vez o rei sentiu-se obrigado a cumprir sua promessa. Chamando
a filha, disse-lhe:
— Minha querida Granônia – pois este era o nome da princesa –,
mais como uma piada que qualquer outra coisa, exigi de teu noivo o que
me pareciam impossibilidades, mas agora que ele fez tudo o que lhe foi
exigido, estou obrigado a cumprir a parte que me cabe na barganha. Sê
pois uma boa filha e, como sei que me amas, não me forces a quebrar
minha palavra, mas te entrega com quanta boa vontade puderes a um
destino muito infeliz.
— Faz de mim o que quiseres, meu senhor e pai, pois és minha lei –
respondeu-lhe Granônia.
Ao ouvir isso, o rei ordenou a Cola-Mattheo que trouxesse a cobra para
o palácio, e lhe disse que estava pronto a receber a criatura como genro.
A cobra chegou na corte numa carruagem feita de ouro, levada por
seis elefantes brancos; mas por todo o caminho as gentes lhe fugiam,
aterrorizadas pela vista do temível réptil.
Quando a cobra enfim chegou ao palácio, toda a corte, até o ajudante
de cozinha mais obscuro, teve calafrios e tremia de medo. O rei e a rai-
nha estavam num estado de nervos tal que foram se refugiar num tor-
reão longínquo. Apenas Granônia se manteve senhora de si. E, se bem
que seu pai e sua mãe muito lhe rogassem para que fugisse e salvasse sua
vida, ela não deu um só passo, dizendo-lhes:

230
A Serpente Encantada

— Certamente não hei de fugir do homem que escolhestes para ser


meu marido.
Assim que a cobra viu Granônia, enrolou-a com sua cauda e a beijou.
Depois, levando-a para um quarto, fechou a porta, e, jogando fora sua
pele, fez-se um belo moço de cachos dourados e uns olhos cintilantes
que abraçou Granônia carinhosamente e lhe disse muitíssimas coisas
bonitas e românticas.
Quando o rei viu a cobra trancar-se num quarto com sua filha, disse
à esposa:
— Que os céus tenham piedade de nossa criança, pois receio que
agora está tudo acabado. É muito provável que esta maldita cobra a te-
nha engolido inteira. – E puseram-se a espiar pelo buraco da fechadura.
Não há palavras que descrevam seu espanto quando viram, em pé
diante da filha, um lindo rapaz e a pele da cobra jogada no chão ao seu
lado. Excitados que estavam, escancaram a porta, pegaram a pele e a
lançaram ao fogo. Mal o haviam feito, porém, o jovem gritou:
—– Ó, gente perversa! O que fizestes? – e, antes que pudessem se
virar para olhá-lo, transformou-se numa pomba, jogou-se contra uma
janela e, quebrando-lhe o vidro, voou e voou, até sumir de vista.
Granônia, que se vira feliz e triste, alegre e desesperada, riquíssima
e miserável, tudo ao mesmo tempo, entrou a protestar amargamente
contra este roubo de sua felicidade, este envenenamento do cálice de
seu júbilo, este infeliz golpe da fortuna; e por tudo culpou seus pais,
muito embora eles repetissem, de novo e de novo, que não lhe que-
riam ter feito mal. Mas a princesa não se deixava consolar, e à noite,
quando os habitantes do palácio já estavam dormindo, ela se escapu-
liu por uma porta dos fundos, disfarçada de camponesa, resolvida a
procurar a felicidade que perdera, até reencontrá-la. Ao chegar à orla
da cidade, guiada pelo luar, deparou com uma raposa que se ofereceu
para acompanhá-la. Granônia de muito bom grado aceitou sua oferta,
dizendo:
— És muitíssimo bem-vinda, pois não tenho a mínima ideia de como
andar cá por estas bandas.

231
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

232
A Serpente Encantada

E lá se foram as duas juntas, e enfim alcançaram uma mata, onde,


cansadas que estavam pela caminhada, fizeram uma pausa para descansar
sob a sombra duma árvore, onde uma fonte d’água brincava com a grama
macia, refrescando-a com suas borrifadas de cristal.
Deitaram-se ambas no carpete verde e logo estavam a dormir pro-
fundamente; e não despertaram até que o sol já estivesse a pino no céu.
Levantaram-se e por algum tempo ficaram a ouvir o canto dos pássaros,
pois Granônia amava-lhes o piar
Quando a raposa o notou, disse:
— Se apenas soubesses, como eu, o que estes passarinhos estão a
dizer, ficarias ainda mais encantada.
Atiçada por suas palavras – pois todos nós sabemos como a curiosida-
de é coisa inerente a todas as mulheres, tanto quanto o amor à conversa
– Granônia implorou à raposa para que lhe contasse o que os pássaros
haviam dito.
A princípio, a raposa recusou-se a contar-lhe o que ouvira aos pás-
saros, mas por fim cedeu às suas súplicas, e fê-la saber que haviam fala-
do sobre as desventuras de um jovem príncipe, muito belo, o qual uma
feiticeira malvada havia transformado numa cobra por um período de
sete anos. Findo o período, o príncipe apaixonou-se por uma princesa
encantadora. Bastou-lhe entrar com ela num quarto, porém, e lançar fora
sua pele de serpente, e os pais da moça invadiram o recinto à força e quei-
maram a sua pele, ao que o príncipe, agora transformado à semelhança
de uma pomba, quebrara uma vidraça ao tentar fugir voando pela janela,
e se ferira tão gravemente que os médicos já o davam quase por morto.
Granônia, ao descobrir que era de seu amado que estavam a falar, per-
guntou sem demora quem era o pai do príncipe, e se havia ainda alguma
chance de recuperação; a raposa, por sua vez, respondeu que os pássaros
haviam dito ser ele filho do Rei de Vallone Grosso, e que a única coisa
capaz de curá-lo seria esfregar nas tantas feridas que tinha na cabeça o
sangue dos pássaros mesmos que lhe haviam contado a história.
Então Granônia pôs-se de joelhos perante a raposa e lhe implorou,
com quanta docilidade tinha na voz e nos gestos, que capturasse os

233
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

pássaros e lhe arranjasse o sangue deles, fazendo ao mesmo tempo mil


promessas de que haveria de recompensá-la ricamente.
— Tudo bem – disse a raposa –, só não fiques tão afobada; aguarde-
mos o cair da noite, quando os passarinhos já estiverem no ninho. Então
hei de trepar a árvore e os capturar a todos para ti.
E assim passaram o dia, ora a falar sobre a beleza do príncipe, ora
sobre o pai da princesa, ora ainda sobre a infelicidade que sucedera a
ambos. Finalmente, caiu a noite, e todos os passarinhos estavam dor-
mindo lá no alto, nos galhos duma árvore enorme. A raposa subiu-a
silenciosamente e foi pegando as criaturinhas pelas patas, uma por uma;
depois de matá-las, colocou-lhes o sangue numa garrafinha que levara
consigo, e a levou até Granônia, que não se aguentava de tanta felicidade
pelo resultado que tivera a incursão da raposa. Mas esta lhe disse:
— Filhinha minha, tua alegria é vã, pois escuta-me bem: este sangue
não fará nada por ti, a menos que acrescentes um tanto do meu próprio
à mistura – e com tais palavras chispou dali.
Granônia, que viu suas esperanças caírem por terra de modo tão
cruel, recorreu à lisonja e à astúcia, armas que já muitas vezes foram
úteis ao seu sexo em situações críticas, e gritou à raposa:
— Pai Raposa, farias muito bem em salvar tua pele se, em primeiro
lugar, eu não sentisse que devo tanto a ti, e, em segundo, não houves-
se outras raposas no mundo; como bem sabes, porém, o quanto te sou
grata, e como há por aí raposas aos montes, podes confiar em mim. Não
faças como a vaca que chuta o balde depois de tê-lo enchido de leite,
mas continua tua jornada comigo, e quando chegarmos à capital poderás
vender-me ao rei, como uma criada.
Ora, a raposa jamais haveria de suspeitar que é possível passar a perna
até mesmo em raposas. Assim, após relutar um pouco, consentiu levá-la
junto consigo, mas não foi muito longe. A garota, esperta que só, pegou
um pau e lhe deu tamanha pancada na cabeça, que a raposa caiu morti-
nha da silva ali mesmo. Então Granônia pegou-lhe um pouco do sangue
e o despejou na sua garrafinha, e lá se foi, tão rápido quanto podia, para
Vallone Grosso.

234
A Serpente Encantada

Chegando lá, foi direto ao palácio real, e fez com que informassem ao
rei que viera curar o jovem príncipe.
O rei ordenou que a trouxessem à sua presença imediatamente, e
ficou embasbacado ao descobrir que era uma garota quem se propunha
a fazer o que os médicos mais brilhantes de seu reino não haviam con-
seguido. Como tentar não faz mal a ninguém, prontamente consentiu
que ela fizesse o quanto pudesse.
— Só o que peço – disse Granônia – é que, se eu conseguir fazer o
que desejas, tu me dês teu filho em casamento.
O rei, que àquela altura já não tinha mais esperanças de ver o filho
curado, respondeu:
— Restaura-lhe a vida e a saúde, e ele será teu. É simplesmente justo
dar um marido a quem me der um filho.
E lá se foram para o quarto do príncipe. No instante em que Gra-
nônia esfregou-lhe o sangue nas feridas, a enfermidade o deixou, e ele
se fez tão sadio e vigoroso como nunca. Quando o rei viu o filho assim
milagrosamente recuperado, de volta à vida e à saúde, voltou-se para ele
e lhe disse:
— Meu querido filho, já te considerava morto, e agora, para o meu
grande espanto e alegria, cá estás vivo mais uma vez. Prometi a esta
jovem que, sendo ela capaz de curar-te, dar-lhe-ia a tua mão e o teu
coração. Como bem vejo que ao Céu aprouve abençoar-nos, deves pois
cumprir a promessa que lhe fiz, já que não é outra coisa senão a grati-
dão o que me força a pagar esta dívida.
Mas o príncipe respondeu:
— Meu senhor e meu pai, fá-lo-ia sem pestanejar, se apenas minha
liberdade fosse tão grande quanto o amor que tenho por ti. Mas como
já dei a minha palavra de honra a outra senhora, o senhor mesmo bem o
sabes – assim como esta jovem que aqui está – que não posso voltar atrás
e ser infiel para com a mulher que amo.
Quando Granônia ouviu estas palavras, e viu quão enraizado e forte
era o amor que o príncipe lhe devotava, sentiu-se muito feliz, e, corando
muito, até ficar toda rosada, disse:

235
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Mas e se eu conseguisse fazer com que esta outra senhora abrisse


mão de seus direitos, casar-te-ias então comigo?
— Longe de mim – respondeu o príncipe – banir a bela imagem do
amor de meu coração. Seja lá o que ela diga, meu coração e meu desejo
hão de se manter os mesmos, e, ainda que com isto perdesse a vida, não
poderia consentir com uma tal troca.
Granônia não pôde mais manter o silêncio. Jogando para longe seu
disfarce de camponesa, revelou sua identidade ao príncipe, que mal sabia
o que fazer, tamanha era sua alegria quando reconheceu sua tão cara
donzela. Então sem demora contou ao pai quem era a senhorita e o que
ela havia feito e sofrido em seu prol.
Mais tarde convidaram o rei e a rainha de Starza-Longa para a sua
corte, e ali fizeram um grandioso banquete de casamento, e provaram
mais uma vez que não há nada tão bom para temperar as alegrias do
verdadeiro amor quanto umas poucas pontadas de angústia.

236
Os Trambiqueiros
Trambicados

ra uma vez um homem chamado Simão, que era


muito rico, mas também avarento e mesquinho até
não poder mais. Ele tinha uma governanta chamada
Nina, mulher engenhosa e capaz, e, como ela fizesse
o seu trabalho com esmero e escrúpulo, o seu senhor
a tinha em grande consideração.
Na juventude, Simão fora um dos rapazes mais alegres e vigorosos
das redondezas, porém, à medida que ficava velho e enrijecido, teve cada
vez mais dificuldade de caminhar, e sua fiel criada instou que ele com-
prasse um cavalo para poupar seus velhos e enfraquecidos ossos. Ao fim
de muita insistência, Simão cedeu ao pedido e à eloquência da gover-
nanta e então, certo dia, foi ao mercado, onde tinha visto uma mula e,
pensando que lhe assentaria bem, comprou-a por sete moedas de ouro.
Bem, acontece que andavam pelo mercado três malandros galho-
feiros, que preferiam viver às custas dos outros a trabalhar por sua
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

subsistência. Assim que viram Simão comprar a mula, um deles disse


a seus comparsas:
— Amigos, juro que essa mula ainda hoje será nossa.
— E como vamos fazer isso? ‒ perguntou um deles.
— Nos posicionaremos em três diferentes lugares no caminho do
velho até sua casa, e cada um à sua vez afirmará que a mula que ele com-
prou é, na verdade, um burro. Se nos ativermos a este plano, a mula em
breve será nossa.
Esta proposta deixou os outros dois satisfeitos, e cada um foi para um
ponto diferente, conforme o combinado.
Pois bem: quando Simão passou pelo primeiro trapaceiro, este lhe disse:
— Deus o abençoe, meu bom cavalheiro!
— Agradeço a cortesia ‒ respondeu Simão.
— De onde vem? ‒ perguntou o larápio.
— Do mercado ‒ respondeu.
— E o que lá comprou? ‒ prosseguiu o patife.
— Esta mula.
— Que mula?
— A mula em que estou montado, ora qual?! ‒ replicou Simão.
— Fala a sério ou está brincando?
— O que queres dizer com isso?
— É que parece que o senhor comprou um burro, e não uma mula.
— Um burro? Que asneira! ‒ gritou Simão, e sem outra palavra se-
guiu seu caminho. Depois de uns cem metros, encontrou o segundo
cúmplice, que assim o saudou:
— Bom dia, meu caro senhor, de que lados vem?
— Do mercado ‒ respondeu Simão.
— Estavam bons os preços? ‒ perguntou o outro.
— Creio que sim ‒ respondeu Simão.
— Achou alguma bagatela?
— Comprei esta mula em que me vês montado.
— É sério que o senhor comprou esse animal por mula?
— Ora, mas é claro.

238
Os Trambiqueiros Trambicados

— Mas, valha-me Deus, esse bicho não passa de um burro!


— Um burro?! ‒ repetiu Simão. ‒ Não sabes o que estás a dizer; po-
rém, se outra pessoa me disser a mesma coisa, darei a ela de presente o
maldito animal.
Com estas palavras seguiu seu caminho, e não demorou a encontrar
o terceiro tratante, que assim lhe disse:
— Deus o abençoe, meu senhor; por acaso vem do mercado?
— Venho ‒ respondeu Simão.
— E que barganha lá conseguiu? ‒ perguntou o ladino.
— Comprei esta mula que agora me carrega.

239
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Mula?! Está falando sério, ou quer me fazer de bobo?


— Falo sem brincadeira ‒ disse Simão ‒. Não me passaria pela ca-
beça fazer tal piada.
— Ah, meu pobre amigo! ‒ exclamou o malandro. ‒ O senhor não
vê que isso é um burro, e não uma mula? Alguém deve ter lhe passado
a perna!
— És a terceira pessoa nas últimas duas horas a me dizer a mesma
coisa ‒ falou Simão ‒, mas até agora não havia acreditado.
Apeando da mula, o velho disse:
— Fica com o bicho, te dou de presente.
O malandro pegou a besta, agradeceu-lhe calorosamente, montou
nela e foi ter com seus parceiros, enquanto Simão seguia o resto da
jornada a pé.
Assim que o velho chegou em casa, disse à governanta que havia
comprado um animal na crença de que fosse uma mula, mas que, no
fim das contas, não passava de um burro (ou ao menos é disto que lhe
haviam certificado várias pessoas que encontrara no caminho), e, por
desgosto, desfez-se do bicho.
— Seu palerma! ‒ exclamou Nina. ‒ Não vê que lhe pregaram uma
peça? Realmente, eu pensava que tinha mais juízo! Nunca me engana-
riam como enganaram o senhor.
— Não faz mal ‒ replicou Simão ‒, vou lhes pregar uma peça duas
vezes pior. Creio que não se satisfarão com terem me tomado o burro, e
tentarão, por meio de novas artimanhas, conseguir mais alguma coisa de
mim, se eu não estiver enganado.
Pois bem, num vilarejo não muito distante da casa de Simão vivia um
camponês que tinha duas cabras, e eram em tudo tão parecidas que não
dava para distingui-las. Simão comprou ambas, pagou o menor preço
que conseguiu e, depois que as levou para casa, pediu que Nina pre-
parasse uma boa refeição: ia convidar uns amigos para a janta. Orde-
nou que assasse uma vitela, cozinhasse uns dois frangos, e lhe deu umas
hortaliças para fazer um antepasto; por fim pediu que preparasse a sua
melhor torta. A seguir, pegou uma das cabras e a amarrou a uma estaca, e

240
Os Trambiqueiros Trambicados

lhe deu de comer um pouco de grama; à outra cabra, porém, ele amarrou
uma corda em volta do pescoço e a levou para o mercado.
Mal havia chegado lá, os três cavalheiros que tomaram sua mula o
avistaram e, aproximando-se dele, disseram:
— Bem-vindo, senhor Simão, o que o traz aqui hoje? Está à procura
de uma bagatela?
— Vim comprar uns mantimentos ‒ respondeu ‒ porque hoje uns
amigos vêm jantar lá em casa; e aliás a vossa presença também muito
me honraria.
Os três cúmplices de bom grado aceitaram o convite; e Simão, depois
de ter feito todas suas compras, prendeu-as no dorso da cabra, a quem
disse, na frente dos trapaceiros:
— Vai para casa, e pede para Nina assar a vitela, cozinhar os frangos,
preparar o antepasto e fazer sua melhor torta. Escutaste-me com aten-
ção? Então vai, e que Deus te acompanhe.
Assim que se viu livre, a cabra, muito carregada, saiu trotando o
mais rápido que pôde, e até hoje ninguém sabe onde foi parar. Simão,
por sua vez, depois de perambular pelo mercado por um tempo com
seus três amigos e também alguns outros que se juntaram a eles duran-
te o passeio, voltou para casa. Quando ele e seus convidados entraram
no pátio, notaram a cabra amarrada à estaca, remoendo calmamente
o pasto. Não foi pequeno o espanto que isso lhes causou, pois segu-
ramente pensaram que fosse a mesma cabra que Simão mandara para
casa carregada de compras. Assim que entraram na casa, Simão disse
à governanta:
— Então, Nina, já fizeste o que a cabra te pediu para fazer?
A mulher, astuta como era, entendeu imediatamente as intenções do
patrão e disse:
— Mas é claro. A vitela está assada, e os frangos cozidos.
— Perfeito ‒ disse Simão.
Quando os três trapaceiros viram as carnes prontas e a torta no forno,
e ouviram as palavras de Nina, ficaram pasmos, e sem demora puseram-
-se a deliberar como se apossariam da cabra. Por fim, terminada a janta,

241
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

depois de haver matutado em vão atrás de algum ardil para sumir com a
cabra de Simão, um dos malandros assim lhe falou:
— Meu digno anfitrião, venda a sua cabra para nós.
Simão respondeu que não estava nem um pouco disposto a se des-
fazer do bicho, já que nenhuma quantia de dinheiro compensaria a sua
perda; contudo, se estavam tão decididos a comprá-la, ele lhes venderia
a cabra por cinquenta moedas de ouro.
Os tratantes, pensando fazer um tremendo negócio, pagaram logo as
cinquenta moedas de ouro e foram embora satisfeitos da vida, levando
consigo a cabra. De volta a casa, cada um disse à sua esposa:
— Amanhã não prepares a janta até que mandemos os mantimentos
para casa.
No dia seguinte foram ao mercado e compraram frangos e outros
alimentos. Depois de carregarem tudo no dorso da cabra (que haviam
trazido junto), contaram-lhe todos os pratos que queriam que suas mu-
lheres preparassem. A cabra, assim que se viu livre, correu o mais rápido
que pôde e dentro de muito pouco lhes escapou às vistas. Até onde sei,
nunca mais se ouviu falar dela novamente.
Quando se aproximou a hora da janta, todos os três foram para casa e
perguntaram às mulheres se a cabra tinha voltado com as os mantimen-
tos necessários, e se lhes havia dito o que preparar.
— Seus tapados! Seus cabeças ocas! ‒ gritaram as esposas. ‒ Como é
possível que tenhais acreditado por um segundo sequer que essa cabra nos
serviria de empregada?! Finalmente alguém vos enganou. É claro, porque,
uma vez que sempre ludibriais os outros, era questão de tempo até que
alguém ludibriasse a vós, e desta vez caístes como patinhos.
Quando os três companheiros se deram conta de que Simão tirara van-
tagem deles e lhes lograra cinquenta moedas de ouro, ficaram tão alterados
que decidiram matá-lo e, pegando em armas, foram para a casa dele.
Mas a velha raposa, temendo que os três patifes lhe fizessem algum
mal, ou mesmo lhe tirassem a vida, ficou alerta e disse à sua criada:
— Nina, toma esta bexiga, que está cheia de sangue, e esconde-a sob
o teu manto; assim, quando os larápios chegarem, te culparei por tudo,

242
Os Trambiqueiros Trambicados

e fingirei estar tão bravo contigo que correrei atrás de ti com minha faca
e perfurarei a bexiga; então cairás no chão como se estivesses morta, e
deixarás o resto para mim.
Terminava Simão de falar estas palavras quando os três patifes apare-
ceram e partiram para cima dele com a intenção de matá-lo.
— Amigos ‒ gritou Simão ‒, do que me acusais? Não acho em mim
culpa nenhuma; talvez a minha criada vos tenha feito algum mal do qual
não estou sabendo.
Ditas estas palavras, virou-se contra Nina e lhe cravou a faca na bexi-
ga cheia de sangue. No mesmo instante a criada caiu como se houvesse
morrido, e o sangue escorreu pelo chão. Em seguida, Simão fingiu sentir
remorso diante daquela pavorosa tragédia, e exclamou a plenos pulmões:
— Ai de mim desgraçado! O que fiz?! Feito um louco, matei a
mulher que era o amparo de minha velhice. Como continuarei a viver
sem ela?
Pegou então uma flauta e, depois de lhe soprar por um tempinho,
Nina se levantou viva e forte.
Com isto, os malandros ficaram mais admirados ainda; esquecendo-
-se completamente de sua raiva, compraram a flauta por duzentas moe-
das de ouro e foram alegres para casa.
Pouco mais tarde, um dos malandros brigou com a mulher e, tomado
de raiva, enterrou-lhe no peito uma faca, e a coitada caiu morta no chão.
Ele então pegou a flauta de Simão e soprou nela com toda a força, na es-
perança de trazer a mulher de volta à vida; mas foi tudo em vão, porque
a pobre mulher continuava mortinha da silva.
Quando um dos seus comparsas ficou sabendo do que tinha aconte-
cido, disse:
— Seu cabeça de bagre! Por certo fizeste algo errado; passa para cá a
flauta e me deixa tentar.
Assim dizendo, agarrou sua mulher pela raiz dos cabelos, passou-
-lhe uma navalha na garganta e em seguida pegou a flauta e soprou
nela com toda a sua força, mas a mulher não voltou à vida. O mesmo se
passou com o terceiro patife, de modo que agora os três haviam ficado

243
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

sem esposa. Transbordando de raiva, correram até a casa de Simão e,


recusando-se a ouvir suas explicações e desculpas, prenderam-no e o
meterem num saco para afogá-lo no rio mais próximo. No meio do ca-
minho, porém, um barulho súbito tanto os apavorou que eles largaram o
saco em que estava Simão e saíram correndo.
Pouco depois um pastor passou por ali com seu rebanho e, enquan-
to seguia lentamente suas ovelhas, que paravam aqui e acolá à beira
do rio para saborear a grama macia, ouviu uma voz lamuriosa que se
queixava assim:
— Insistem que eu a tome, mas não a quero, pois sou muito velho e
de fato não a posso desposar.
O pastor ficou perplexo, pois não conseguia entender de onde vi-
nham aquelas palavras, que se repetiam mais vezes, e olhou à sua volta
e para todos os lados. Por fim, avistou o saco em que estava Simão e, ao
abri-lo, lá encontrou o velho a repetir sua lamuriosa queixa. O pastor lhe
perguntou por que o haviam prendido dentro de um saco. Simão res-
pondeu que o rei insistira em lhe dar por esposa uma de suas filhas, mas
que ele mesmo havia recusado a honra por ser muito velho e enfraqueci-
do. O pastor, simplório como era, acreditou na história sem duvidar por
um segundo e lhe perguntou:
— O senhor acha que o rei me daria a mão de sua filha?
— Sim, com certeza; estou certo de que daria ‒ respondeu Simão. ‒
Isto é, se te encontrasse neste mesmo saco no meu lugar.
Saindo então do saco, meteu-lhe dentro o crédulo pastor, e a pedido
dele, o amarrou com bastante firmeza, e lá se foi levando embora as
ovelhas.
Não havia passado uma hora quando os patifes voltaram ao lugar
onde tinham deixado Simão dentro do saco e, sem mesmo abri-lo, um
deles o apanhou e arremessou dentro do rio. Deste modo afogou-se o
pobre pastor no lugar de Simão!
Os três patifes, sentindo-se vingados, marcharam para casa. No meio
do caminho, notaram um rebanho que pastava a pouca distância da es-
trada. Cismaram de roubar alguns cordeiros e então se aproximaram

244
Os Trambiqueiros Trambicados

do rebanho, mas ficaram aturdidos quando reconheceram que Simão, a


quem haviam arremessado no rio para se afogar, era quem tomava conta
das ovelhas. Perguntaram-lhe como conseguira sair do rio, ao que ele
respondeu:
— Ora, seus imbecis, em nada vos distinguis de burros sem discer-
nimento! Se ao menos me tivésseis jogado em águas mais profundas, eu
teria retornado com um rebanho três vezes maior.
Ao ouvirem isso, os três patifes lhe disseram:
— Ó, querido Simão, faça-nos o favor de nos amarrar dentro de
sacos e nos jogar no rio, para que abandonemos a ladroagem e nos tor-
nemos donos de rebanhos.
— Estou disposto ‒ respondeu Simão ‒ a fazer o que desejais; não há
nada no mundo que não faria por vós.
Então ele pegou três sacos muito resistentes e meteu um homem
dentro de cada um; amarrou-os bem para que não pudessem sair, e os
jogou a todos no rio; e este foi o fim dos três patifes. Simão, por sua vez,
agora que era possuidor de grandes rebanhos e de ouro, voltou para casa,
onde estava Nina, sua fiel criada, e viveu por muitos anos com saúde e
felicidade.*

* Hermann Kletke.

245
O Rei Kojata

ra uma vez um rei chamado Kojata, cuja barba


era tão longa que lhe passava dos joelhos. Casado
já fazia três anos, vivia muito feliz com sua esposa;
os Céus, porém, não lhe haviam dado um herdeiro,
o que o entristecia profundamente. Um dia partiu
da capital, a fim de empreender uma viagem por
seu reino. Após percorrer por quase um ano as diversas partes de seu
território, e ver tudo quanto havia para ser visto, deu meia-volta e se
pôs na estrada de volta para casa. Como o dia estivesse muito quente
e abafado, ordenou aos seus servos que armassem tendas no campo
aberto e sob sua sombra aguardassem o frescor da noite. Subitamente,
uma sede terrível acometeu o rei, que, por não ver água perto, montou
em seu cavalo e saiu a cavalgar pelas vizinhanças a ver se encontrava
uma nascente. Dali a pouco viu-se diante dum poço que estava cheio
até a borda com uma água cristalina, e em cujo leito podia-se ver um
vaso dourado a flutuar. O Rei Kojata imediatamente tentou pegar o
receptáculo, mas por mais que tentasse agarrá-lo com a mão direita, e
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

depois com a esquerda, a bendita da coisa se esquivava sempre de seus


esforços e se recusava a deixar-se capturar. Primeiro com uma mão,
depois com as duas, o rei tentou apanhá-la, mas qual um peixe a taça
invariavelmente escorregava-lhe por entre os dedos e quicava no chão
apenas para daí a um instante reaparecer nalgum outro lugar e zombar
do rei.

— Maldita sejas! – praguejou o Rei Kojata. – Posso muito bem matar


minha sede sem tua ajuda – e, debruçando-se sobre o poço, entrou a
tomar água tão sôfrego que acabou por mergulhar o rosto inteiro, barba
e tudo o mais, na água cristalina. Quando já satisfizera a sede, porém,

248
O Rei Kojata

e quis levantar-se, não conseguiu erguer a cabeça, pois que alguém lhe
segurava as barbas com força dentro d’água.
— Quem está aí? Deixa-me sair! – clamou o Rei Kojata, mas não
houve resposta. O que houve foi uma cara horrenda que desde o fundo
do poço o encarava com dois olhos verdes enormes, brilhantes como
esmeraldas, e lhe sorria com um sorriso que ia de orelha a orelha e ex-
punha duas fileiras de dentes brancos reluzentes. E o que segurava as
barbas do rei não eram mãos mortais – eram duas garras. Enfim, uma
voz cava soou das profundezas.
— Esforças-te em vão, Rei Kojata. Só sairás daqui sob uma condição:
a de me dar algo sobre o qual nada sabes, e que haverás de encontrar
quando voltares para casa.
O rei não parou para pensar muito.
— Pois o que – pensou ele – poderia estar em meu palácio sem que
eu o saiba? A coisa é absurda – então respondeu rapidamente: – Sim,
prometo que o terás.
A voz respondeu:
— Pois bem; mas acautela-te! Se não cumprires tua promessa, coi-
sas más te sucederão.
Então as garras afrouxaram o aperto, e a face sumiu no fundo das
águas. O rei retirou o queixo do poço e se sacudiu todo como um cachor-
ro; depois, montou seu cavalo e cavalgou de volta para casa com sua co-
mitiva, muito pensativo. Ao se aproximarem da capital, todo o povo veio
recebê-los alegríssimo, com grandes aclamações; e, quando o rei chegou
ao palácio, a rainha veio encontrá-lo já na soleira da porta. Ao seu lado,
estava o Primeiro-Ministro a segurar um berço pequenino nos braços,
dentro do qual havia um bebezinho tão lindo quanto o dia. Então o rei
compreendeu tudo e, a gemer profundamente, murmurou consigo:
— Então era sobre isso que eu nada sabia – e as lágrimas rolaram
por seu rosto. As gentes da corte ficaram muito admiradas da angústia
do rei, mas ninguém ousou perguntar-lhe qual era a causa. Ele tomou
a criança em seus braços e a beijou ternamente; depois, colocando-a no
berço, resolveu controlar suas emoções e voltou a reinar como antes.

249
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

O segredo do rei permaneceu um segredo, muito embora o semblan-


te sério e aflito que por aí carregava não houvesse escapado à atenção
alheia. Dia e noite angustiado, com medo de que lhe roubassem o filho,
o pobre Kojata não sabia o que era descanso. Contudo, o tempo passou,
e nada aconteceu. Decorreram dias e meses e anos, e o príncipe cresceu
e se fez um lindo moço, e o rei acabou por se esquecer do incidente que
acontecera há tanto tempo atrás.
Um dia o príncipe saiu a caçar. Ao seguir a trilha dum javali, logo
perdeu-se dos demais caçadores e viu-se sozinho no meio de uma mata
escura. As árvores cresciam tantas e tão emaranhadas que era quase im-
possível enxergar alguma coisa entre elas; só o que o príncipe conseguia
entrever era um trechinho de grama à sua frente, coberto de cardos e
ervas daninhas que não acabavam mais, e no meio do qual se erguia uma
frondosa tília. Subitamente, um ruído fez-se ouvir dentro do tronco da
árvore, e um velho extraordinário, com uns olhos verdes e um queixo tão
verde quanto, rastejou-se para fora.
— Um belo dia, Príncipe Milano – disse ele – fizeste-me esperar uns
bons anos; já era tempo de vires cá visitar-me.
— Quem és tu, por todos os deuses? – exigiu saber o príncipe, atônito.
— Hás de descobri-lo logo, logo. Mas por enquanto faz o que te
ordeno. Vai e cumprimenta por mim teu pai, o Rei Kojata, e dize-lhe
para não se esquecer de sua dívida; já faz muito que se passou o tempo
devido, mas agora ele a terá de pagar. Por ora, até mais ver; havemos de
nos encontrar novamente.
E com tais palavras o velho sumiu dentro da árvore, e o príncipe
voltou para casa um tanto perplexo e contou ao seu pai o que havia visto
e ouvido.
O rei fez-se branco como cal ao ouvir a história do príncipe, e disse:
— Ai de mim, filho meu! É chegado o tempo em que devemos nos
separar – e com o coração pesado contou ao príncipe tudo quanto se
dera no tempo em que ele nasceu.
— Não te preocupes nem te aflijas, meu querido pai – respondeu
-lhe o Príncipe Milano. – As coisas nunca são tão ruins quanto parecem.

250
O Rei Kojata

Dá-me apenas um cavalo para minha jornada, e eu te garanto que em


breve hás de me ver de volta.
O rei deu-lhe um belíssimo alazão de guerra, com estribos dourados,
e uma espada. A rainha lhe pendurou uma pequena cruz ao redor do
pescoço, e, após muito choro e ainda mais lamentos, o príncipe se des-
pediu de todos e deu início a sua jornada.
Cavalgou sempre em frente por dois dias a fio, e no terceiro chegou
a um lago tão imperturbado e liso quanto uma vidraça, e tão límpido
quanto um cristal. Não havia no ar um só sopro de vento, as folhas esta-
vam todas imóveis como estátuas – pairava um silêncio como o de um
túmulo. Apenas no meio do lago trinta patos, com uma plumagem mui-
to brilhante, deslizavam na água. Não muito longe da margem, o Prín-
cipe Milano notou trinta roupinhas brancas caídas na grama. Apeou
do cavalo, pôs-se a rastejar à sombra dos juncos enormes e pegou uma
das roupinhas, para logo em seguida esconder-se atrás das moitas que
cresciam ao redor do lago. Os patos nadaram e nadaram, para lá e para
cá, e mergulharam até as profundezas, e de lá emergiram, e deslizaram
pelas ondas. Finalmente, cansados de brincar, nadaram de volta até a
praia, e vinte e nove deles puseram suas roupinhas brancas e no mesmo
instante transformaram-se em belíssimas damas. Então terminaram de
se vestir e desapareceram. Apenas o trigésimo pato não pôde vir à terra;
ficou a nadar perto da margem e, soltando um gritinho muito agudo,
espichou o pescoço timidamente, correu o olhar esbugalhado em volta,
e então mergulhou mais uma vez. O Príncipe Milano sentiu tanta dó da
pobre criaturinha, que saiu de trás dos juncos, a ver se poderia ser-lhe de
alguma ajuda. Foi só o pato vê-lo e começou a gritar, numa voz humana:
— Ó, querido Príncipe Milano, pelo amor de Deus, dá-me de volta
a minha roupinha e terás a minha gratidão eterna.
O príncipe pousou a roupinha na margem, perto da pata, e voltou
para trás das moitas. Daí a poucos segundos uma garota deslumbrante,
vestindo um robe branco, estava diante dele, tão bela, doce e jovem que
não há pena no mundo capaz de descrevê-la. Deu sua mão ao príncipe
e falou:

251
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Agradeço-te a cortesia, Príncipe Milano. Sou a filha de um má-


gico malvado, e meu nome é Jacinta. Meu pai tem trinta filhas moças e
é um senhor muito poderoso no submundo, com castelos e riquezas à
farta. Há muito tempo já te espera, mas não terás o que temer se apenas
fizeres o que te digo. Assim que ficares na presença de meu pai, lança-te
ao chão imediatamente e dele te achegues de joelhos. Não te preocupes
se ele enfurecidamente bater os pés e praguejar e amaldiçoar a todos.
Do resto cuidarei eu, e nesse meio-tempo o que melhor temos a fazer é
irmo-nos embora.
Com tais palavras a bela Jacinta bateu o pezinho no chão, a terra se
abriu e ambos despencaram no submundo.
O palácio do Mágico fora todinho talhado num único rubi, um car-
búnculo que lançava luz em toda a região circunvizinha, e o Príncipe
Milano foi entrando alegremente.
O Mágico estava sentado num trono, e tinha sobre a cabeça uma co-
roa reluzente, seus olhos chispavam chamas verdes, e em vez de mãos ti-
nha garras. Assim que o Príncipe Milano entrou, pôs-se logo de joelhos.
O Mágico bateu estrondosamente no chão com os pés, cravou-lhe um
olhar terrível com os olhos verdes e praguejou tão alto que fez tremer
todo o submundo. Mas o príncipe, tendo em mente o conselho que lhe
havia sido dado, não teve um só pingo de medo, e achegou-se ao trono
ainda de joelhos. Finalmente, o Mágico soltou uma gargalhada sonora
e lhe disse:
— És mesmo um velhaco! Bem vejo que recebeste bons conselhos
quanto a como fazer-me rir; não mais serei teu inimigo. Sê bem-vindo
ao submundo! Seja como for, graças ao teu atraso terás de fazer três
serviços. Por hoje estás dispensado; mas amanhã hei de ter algo a mais
para dizer-te.
Então dois servos levaram o Príncipe Milano até um belíssimo apo-
sento, onde deitou-se perfeitamente tranquilo na cama macia que lhe
fora preparada, e sem demora caiu no sono.
Na manhã seguinte, já cedo, o Mágico ordenou que o buscassem,
e disse:

252
O Rei Kojata

— Vejamos agora o que aprendeste. Em primeiro lugar, tens de me


construir, hoje à noite, um palácio. E o teto do palácio terá de ser do
ouro mais puro que há, e as paredes, de mármore, e as janelas, de cristal;
ao seu redor deves plantar um jardim maravilhoso, com laguinhos para
peixes e cachoeiras ornamentais. Se o fizeres, hei de recompensar-te ri-
camente; mas se não o fizeres, perderás tua cabeça.
— Ó, monstro perverso! – pensou o príncipe consigo. – Poderias
muito bem já ter me matado agora.
Tristonho, voltou para o seu quarto e, com a cabeça caída, ficou a
pensar no destino cruel que o aguardava, até cair a noite. Ao escurecer,
uma abelhinha voou até ali e, batendo na janela, disse:
— Abre, e deixa-me entrar.
Milano abriu a janela sem pestanejar e, tão logo a abelha entrou,
transformou-se na bela Jacinta.
— Boa noite, Príncipe Milano. Por que estás assim tão tristonho?
— Como poderia não estar triste? Teu pai ameaça-me com a morte,
e eu já me vejo sem a cabeça.
— E o que resolveste fazer?
— Não há nada a se fazer. E, afinal de contas, suponho que a gente
só possa morrer uma vez.
— Ora, não sejas tão tolo, meu querido príncipe; alegra-te, pois não
há razão para se desesperar. Vai para a cama, e amanhã, quando acor-
dares, o palácio já estará de pé. Deves então rodeá-lo inteiro, a dar-lhe
um tapa aqui e outro acolá nas paredes, para que pareça que acabaste de
concluí-lo.
E tudo se deu exatamente como ela dissera. Assim que amanheceu,
o Príncipe Milano saiu do quarto e topou com um palácio que era uma
verdadeira obra de arte, até os mínimos detalhes. O próprio Mágico
ficou embasbacado, tamanha era sua beleza, e mal podia crer no que via.
— Bem, és certamente um trabalhador esplêndido – disse ele ao
príncipe. – Vejo que és muito bom com as mãos; agora tenho de saber
se és igualmente bom com a cabeça. Tenho cá na minha casa trinta fi-
lhas, todas princesas lindas. Amanhã hei de as enfileirar todas, e terás de

253
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

andar na frente delas três vezes, e na terceira terás de mostrar-me qual é


Jacinta, a minha filha mais nova. Se não acertares, perderás tua cabeça.
— Desta vez, cometeste um erro – pensou o Príncipe Milano, e ao
voltar para o quarto sentou-se à janela. – Imagina, eu não reconhecer a
linda Jacinta! Ora, tem-se aí a coisa mais fácil do mundo.
— Não tão fácil quanto pensas – gritou a abelhinha, que passava
voando. – Se eu não estivesse aqui para ajudar-te, jamais haverias de adi-
vinhar. Somos trinta irmãs tão idênticas que o nosso próprio pai muitas
vezes não sabe quem é quem.
— Então o que tenho de fazer? – perguntou-lhe o Príncipe Milano.
— Escuta bem – respondeu Jacinta. – Saberás qual sou eu por meio
de uma mosca minúscula que estará pousada em minha bochecha. Mas
acautela-te, pois será fácil cometeres um erro.
No dia seguinte, mais uma vez o Mágico ordenou que o Príncipe
Milano fosse trazido à sua presença. Já suas filhas estavam enfileiradas
numa linha reta defronte do príncipe, todas vestidas de modo idêntico,
e todas olhando para o chão.
— Agora, ó gênio – disse o Mágico –, olha para estas beldades três
vezes, e então dize-nos qual delas é a Princesa Jacinta.
O Príncipe Milano então passou por elas e as examinou muito de perto.
Mas eram todas tão precisamente idênticas que mais pareciam o mesmo
rosto refletido em trinta espelhos, e da tal mosca não se via sinal algum; na
segunda vez que passou por elas, não viu nada; mas na terceira notou uma
mosquinha minúscula a zanzar numa bochecha, fazendo surgir nesta um
leve rosado. Então o príncipe pegou na mão da garota e gritou:
— Aqui está a Princesa Jacinta!
— Estás certo de novo – respondeu o Mágico, ainda mais embasba-
cado que antes. – Mas tenho ainda outra tarefa para ti. Antes que esta
vela, a qual hei de acender agora, queime inteira, terás de me fazer um
par de botas que cheguem até meus joelhos. Se não estiverem prontas
até lá, perderás tua cabeça.
O príncipe voltou desolado para seu quarto; então a princesa veio até
ele uma vez mais, sob a forma duma abelha, e lhe perguntou:

254
O Rei Kojata

— Por que estás tão tristonho, Príncipe Milano?


— Como poderia eu não estar triste? Teu pai deu-me uma tarefa im-
possível desta vez. Antes que uma vela, por ele acesa agorinha, queime
inteira, tenho de fazer-lhe um par de botas. Mas o que sabe um príncipe
sobre fazer sapatos? Se eu não conseguir, perco minha cabeça.
— E o que pretendes fazer? – perguntou Jacinta.
— Oras, o que há para se fazer? O que ele exige eu nem posso, nem
irei fazer. Então é o meu fim.
— Não, meu querido. Tenho um profundo amor por ti, e tu serás
meu esposo. Ou salvarei a tua vida ou hei de morrer contigo. Temos de
correr agora, o mais rápido que pudermos, pois não há outra escapatória.
Com tais palavras bafejou na janela, e o seu hálito congelou-se no
vidro. Então levou Milano para fora do quarto, fechou a porta e jogou
a chave fora. De mãos dadas partiram afobados para o lugar pelo qual
haviam despencado no submundo, e finalmente alcançaram as margens
do lago. O alazão de guerra do príncipe estava ainda a pastar na grama
que crescia perto da água. Tão logo reconheceu o mestre, o cavalo re-
linchou de alegria, e a todo o galope foi até ele príncipe e estacou à sua
frente, como se enraizado no solo, enquanto o Príncipe Milano e Jacinta
montavam-lhe nas costas. Depois, saiu a correr desabalado em frente,
como uma flecha disparada dum arco.
Enquanto isso, o Mágico aguardava impacientemente pelo príncipe.
Enfurecido pela demora, mandou seus servos irem buscá-lo, pois o pra-
zo já expirara.
Os servos foram até a porta e, encontrando-a trancada, bateram; mas
o hálito congelado na parede lhes respondeu, com a voz do Príncipe
Milano:
— Já estou indo – e com esta resposta voltaram ao Mágico. Porém,
quando o príncipe mais uma vez não apareceu, após um tempo lá foram
os servos pela segunda vez a fim de trazê-lo. E o hálito congelado dava-
-lhes sempre a mesma resposta – mas o príncipe que era bom, nada.
Enfim o Mágico perdeu toda a paciência e ordenou que se arrombasse
a porta. Mas quando os servos a deitaram abaixo, viram que o quarto

255
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

estava vazio, e o hálito congelado soltou uma gargalhada. Fora de si de


tão furioso, o Mágico ordenou que o príncipe fosse perseguido.
Então seguiu-se uma perseguição feroz.
— Ouço cascos de cavalo atrás de nós – disse Jacinta para o príncipe.
Milano saltou do selim, pôs a orelha no chão e escutou.
— Sim – respondeu ele –, estão a nos perseguir, e aliás já quase nos
alcançam.
— Então não há tempo a se perder – disse Jacinta, transformando-se
imediatamente num rio, e ao Príncipe Milano numa ponte de ferro, e ao
cavalo numa mérula. Para lá da ponte a estrada se dividia em três.
Os servos do Mágico vieram correndo no encalço das pegadas ainda
frescas, mas quando chegaram à ponte detiveram-se, pois detinham-
-se também ali, de repente, as pegadas, e eles não sabiam qual das três
estradas tomar. Apavorados, tremendo como varas verdes, voltaram para
dizer ao Mágico o que acontecera. Este explodiu numa cólera terrível
quando os viu e berrou:
— Seus palermas! O rio e a ponte eram eles! Voltai até lá e trazei-me
ambos imediatamente, ou sofrereis as consequências.
Então a perseguição recomeçou.
— Ouço cascos de cavalos – suspirou Jacinta. E lá se foi o príncipe
apear e colar a orelha no chão. – Estão cavalgando depressa e já estão
perto.
Num instante a Princesa Jacinta já se transformara a si mesma, ao
príncipe e ao cavalo numa floresta muito fechada, onde mil caminhos
e estradas cruzavam-se umas às outras. Seus perseguidores entraram na
floresta, mas buscaram em vão pelo Príncipe Milano e por sua noiva. Ao
fim e ao cabo, viram-se de volta no mesmo lugar onde haviam começado
e, desesperados, retornaram uma vez mais de mãos vazias para o Mágico.
— Então eu mesmo hei de dar cabo dos canalhas! – gritou ele. – Tra-
zei meu cavalo imediatamente; de mim eles não escapam.
Mais uma vez a bela Jacinta murmurou:
— Ouço cascos de cavalo muito próximos.
E o príncipe respondeu:

256
O Rei Kojata

— Estão a nos perseguir, com sebo nas canelas, e já se encontram


bastante perto.
— Agora estamos perdidos, pois desta vez quem aí vem é meu pai.
Mas seu poder há de cessar na primeira igreja que entrarmos, e ele não
mais poderá nos perseguir. Dá-me tua cruz.
O Príncipe Milano afrouxou de seu pescoço a pequena cruz dourada
que sua mãe lhe dera, e mal Jacinta nela tocou, já se transformara a si
mesma numa igreja, e virara Milano num padre, e o cavalo, num campa-
nário. Um instante depois lá estavam o Mágico e seus servos.
— Viste porventura passar alguém por aqui a cavalo, padre? – per-
guntou ao sacerdote.
— Não faz um minuto que o Príncipe Milano e a Princesa Jacinta
se foram embora; pararam aqui por alguns minutinhos para rezar e me
disseram para te dar cá esta vela e seus cumprimentos.
— Eu bem gostaria de lhes torcer os pescoços – disse o Mágico, e à
toda voltou para casa, onde fez com que cada um dos seus servos fosse
surrado quase até a morte.
O Príncipe Milano cavalgava vagaroso com sua noiva sem já temer per-
seguição alguma. O sol estava a se pôr, e os seus últimos raios iluminavam
uma cidade enorme, da qual estavam se aproximando. O Príncipe Milano
de súbito foi acometido por um desejo ardente de entrar na cidade.
— Ó, amado meu – implorou Jacinta –, por favor, não vás, pois estou
amedrontada, e temo algum mal.
— De que tens medo? – perguntou o príncipe. – Só o que faremos é
ir até a cidade, e por mais ou menos uma hora lá ver o que há para se ver;
depois, continuaremos nossa jornada para o reino de meu pai.
— Conquanto seja fácil entrar na cidade, sair de lá não é tão fácil quanto
entrar – suspirou Jacinta. – Mas façamos o que desejas. Vai, e eu hei de te
esperar aqui, mas antes transformar-me-ei num obelisco branco; rogo-te
apenas para que tenhas muito cuidado. O rei e a rainha da cidade hão de
sair ao teu encontro, trazendo consigo uma pequena criança. Não importa
o que fizeres, não beijes a criança, ou haverás de te esquecer para sempre
de mim e de tudo quanto nos aconteceu. Esperar-te-ei aqui por três dias.

257
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

E o príncipe se apressou para a cidade, ficando Jacinta para trás, dis-


farçada dum obelisco branco na estrada. Passou-se o primeiro dia, e então
o segundo, e ainda o terceiro, mas nada de o Príncipe Milano retornar.
Pois o príncipe não fizera o que Jacinta lhe pedira. O rei e a rainha saíram
ao seu encontro, como ela dissera, trazendo consigo uma garotinha loira
encantadora, cujos olhos brilhavam como estrelas. A criança logo entrou
a afagar o príncipe que, arrebatado por sua beleza, encurvou-se e deposi-
tou-lhe um beijo na bochecha. Foi o quanto bastou para a sua memória
apagar-se todinha e ele esquecer-se por completo da bela Jacinta.
Ao ver que o príncipe não haveria de retornar, Jacinta pôs-se a cho-
rar amargamente. Transformando-se de um obelisco para uma florzinha
azul do campo, ela disse:
— Hei de crescer cá na beira da estrada até que algum transeunte
pise em mim. – E uma de suas lágrimas lá permaneceu como uma gota
de orvalho, rebrilhando na florzinha azul.
Ora, aconteceu que dali a pouco passou pela estrada um homem,
que, vendo a flor, ficou encantado com sua beleza. Arrancou-a cuidado-
samente pelas raízes e a levou para casa. Lá plantou-a num vaso, e dava
água e todo cuidado à plantinha. E então aconteceu a coisa mais extra-
ordinária do mundo, pois a partir daí tudo na casa do velho se transfor-
mou. Sempre ao acordar pela manhã encontrava o seu quarto já perfeita
e lindamente arrumado, e não se via em lugar algum um só grãozinho
de poeira. Quando voltava para casa ao meio-dia, topava numa mesa já
posta com as iguarias mais finas, e só o que tinha de fazer era sentar-se
e esbaldar-se à vontade. A princípio, ficou tão surpreso que não soube o
que pensar, mas depois de um tempo sentiu-se um tanto desconfortável
e foi até uma velha bruxa para lhe pedir um conselho.
A bruxa disse:
—Acorda antes de o galo cantar, e observa com cuidado até veres
algo se mover, e então rapidamente joga-lhe em cima este manto aqui, e
verás o que há de acontecer.
A noite toda o velho não pregou o olho. Mal o primeiro raio de
luz entrou no quarto, notou ele que a florzinha azul começou a tre-

258
O Rei Kojata

mer, e por fim levantou-se do vaso e saiu a voar pela sala, a colocar
tudo em ordem – aqui limpando a poeira, acolá acendendo a lareira.
Com grande afobamento o velho saltou da cama e cobriu a flor com o
manto que a bruxa lhe dera, e num instante estava diante de si a bela
Princesa Jacinta.
— O que fizeste? – clamou ela. – Por que me trouxeste de volta à
vida? Pois não tenho razão para viver desde que meu noivo, o belo Prín-
cipe Milano, abandonou-me.
— O Príncipe Milano está prestes a se casar – respondeu o velho. –
Neste instante estão a fazer os preparativos para o banquete, e todos os
convidados estão afluindo para o palácio, vindos de todos os lados.
A bela Jacinta chorou amargamente ao ouvir isso; depois, enxugou
as lágrimas e foi até a cidade, disfarçada de camponesa. Seguiu direto à
cozinha do rei, onde havia um vaivém e uma confusão de cozinheiros
com aventais brancos que não acabava mais. A princesa foi até o chefe
dos cozinheiros e disse:
— Querido cozinheiro, faze-me a grande mercê de ouvir meu pe-
dido, e deixa-me fazer um bolo de casamento para o Príncipe Milano.
O atarefado cozinheiro estava para recusar-lhe o pedido e expulsá-la
da cozinha, mas as palavras morreram em sua garganta quando se virou e
viu diante de si a deslumbrante Jacinta. Então respondeu, muito polido:
— Vieste no último segundo, bela donzela. Faz teu bolo, e eu mesmo
hei de colocá-lo diante do Príncipe Milano.
Fez o bolo rapidamente. Os convidados já estavam se apinhando ao
redor da mesa, quando o chefe dos cozinheiros entrou na sala, a carregar
um belíssimo bolo de casamento numa bandeja prateada, e o colocou
em frente ao Príncipe Milano. Ficaram todos boquiabertos, pois que
o bolo era uma obra de arte. O Príncipe Milano não perdeu tempo e
cortou-lhe um pedaço, e qual não foi a sua surpresa quando de lá saíram
duas pombas brancas, e uma disse à outra:
— Meu querido, não voes para longe e me deixes para trás, esque-
cendo-se de mim como o Príncipe Milano esqueceu-se de sua amada
Jacinta.

259
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Milano suspirou profundamente ao ouvir a pombinha. Então, pôs-


-se de pé subitamente e saiu a correr até a porta, onde encontrou a bela
Jacinta a esperá-lo. Lá fora estava o seu alazão de guerra, dando patadas
no chão. Sem parar um só instante, Milano e Jacinta montaram-no e a
todo galope foram para o reino do Rei Kojata. O rei e a rainha os rece-
beram com uma alegria e uma festa como se nunca havia visto até então
no mundo, e todos viveram felizes pelo resto de suas vidas.

260
O Príncipe De Lua
e a Bela Helena

ra uma vez uma linda moça chamada Helena.


Quando era ainda só uma criança, perdera a mãe,
e sua madrasta era com ela tão cruel e rude quan-
to uma madrasta poderia ser. Helena fazia o quanto
podia para ganhar o seu amor, e as tarefas pesadas
que lhe eram dadas cumpria com bom humor e mui-
to esmero; mas o coração da madrasta continuava duro como pedra, e
quanto mais a pobrezinha fazia, tanto mais a malvada obrigava-a a fazer.
Um dia, deu a Helena cinco quilos de penas misturadas e lhe orde-
nou que as separasse todas antes do cair da noite, ameaçando-a com
uma punição dura se não o fizesse.
A pobrezinha da moça sentou-se a fim de cumprir a tarefa, com os
olhos tão cheios de lágrimas que mal conseguia ver alguma coisa. E
quando fizera já uma pilhazinha de penas, suspirou tão profundamente
que lá se foram todas, sopradas e misturadas de novo. E assim foi-se
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

arrastando a tarefa, enquanto a pobrezinha se sentia cada vez mais mi-


serável. Afundou o rosto nas mãos e chorou:
— Não haverá alguém sob o céu que se apiede de mim?
De repente, uma voz suave respondeu:
— Anima-te, filha minha, pois vim ajudar-te.
Branca de pavor, Helena olhou para cima e viu uma fada em pé à sua
frente, que lhe perguntou da maneira mais meiga possível:
— Por que estás a chorar, criança?
Helena, que há muito não sabia o que era ouvir uma voz amigável,
confiou à fada o seu triste relato de aflições e infortúnios e lhe contou
qual era sua nova tarefa e como estava angustiada, crente de que nunca
conseguiria cumpri-la.
— Não te preocupes mais com isso – disse a doce fada. – Deita e
dorme; eu hei de me certificar de que teu trabalho seja feito.
Helena, pois, foi dormir e, ao acordar, viu todas as penas separadas em
pequenos feixes; mas quando virou-se para agradecer, já a boa fada sumira.
À noite sua madrasta voltou e ficou boquiaberta ao encontrar Helena
sentada e muito tranquila, com todo o trabalho feitinho à sua frente.
Elogiou a sua diligência, ao mesmo tempo que quebrava a cabeça
para imaginar uma tarefa que lhe fosse ainda mais penosa e difícil.
No dia seguinte, ordenou a Helena que esvaziasse uma lagoa perto
de casa com uma colher toda esburacada. Helena pôs-se a trabalhar
imediatamente, mas logo descobriu que sua madrasta lhe mandara fa-
zer algo impossível. Já quase arrancando os cabelos, amargurada, estava
prestes a jogar a colher longe, quando de repente a boa fada surgiu mais
uma vez e lhe perguntou por que estava tão triste.
Quando Helena contou-lhe a nova ordem da madrasta, ela disse:
— Confia em mim, e eu hei de fazer a tua tarefa por ti. Neste meio-
-tempo, deita e tira um cochilo.
Helena acalmou-se e foi se deitar e, antes de qualquer um julgá-lo
possível, a fada acordou-a gentilmente e lhe disse que a lagoa estava
vazia. Cheia de alegria e gratidão, Helena foi correndo até a madrasta,
esperançosa de que agora ao menos conseguiria amolecer-lhe um pouco

262
O Príncipe De Lua e a Bela Helena

o coração. Mas a mulher perversa ficou antes furiosa por ver frustrados
seus planos malignos, e só o que fez foi quebrar ainda mais a cabeça,
imaginando uma tarefa ainda pior para a garota.
Na manhã seguinte ordenou-lhe que construísse, antes do cair da
noite, um maravilhoso castelo, e que o mobiliasse todinho, desde o sótão
até o porão. Helena sentou-se nas pedras que lhe haviam sido apontadas
como o local onde se devia construir o castelo, muito tristonha, mas ao
mesmo tempo com uma esperançazinha de que a boa fada mais uma vez
a socorresse.
E assim o foi. A fada apareceu, prometeu-lhe construir o castelo, e
disse a Helena que por enquanto fosse se deitar e dormisse. À palavra
da fada, lá saíram a voar as pedras e rochas, que foram construindo por
si mesmas o maravilhoso castelo, e antes do pôr do sol o mobiliaram
inteirinho – não deixando nada a se desejar. O leitor pode imaginar a
gratidão de Helena ao acordar e ver que sua tarefa fora cumprida.
Mas sua madrasta ficou qualquer coisa menos satisfeita, e andou a
inspecionar o castelo inteiro, de cabo a rabo, a ver se não encontrava
uma falha qualquer pela qual pudesse punir Helena. Por fim, desceu até
um dos porões, mas lá estava tão escuro que acabou por cair nas escadas
íngremes e morreu na hora.
E assim Helena tornou-se a senhora do castelo, e lá vivia em paz e
alegria. Logo os rumores de sua beleza espalharam-se, e muitos preten-
dentes vieram tentar ganhar a sua mão.
Entre os tais havia um certo Príncipe De Lua, que sem demora ga-
nhou o amor da bela Helena. Um dia, sentados muito felizes à sombra
de uma tília em frente ao castelo, o Príncipe De Lua contou a Helena
a triste notícia de que tinha de voltar aos seus pais, a fim de lhes pedir
o consentimento para o casamento. Prometeu voltar tão rápido quanto
pudesse, e lhe rogou para que aguardasse seu retorno sob a tília onde
haviam passado juntos tantas horas felizes.
Na sua partida, Helena deu-lhe um beijo carinhoso na bochecha es-
querda e implorou ao príncipe que não deixasse ninguém mais beijá-
-lo enquanto estivessem separados, e lhe prometeu que ficaria sentada,

263
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

aguardando-o debaixo da tília, pois não tinha a menor dúvida de que o


príncipe haveria de ser-lhe fiel e retornaria tão logo pudesse.
Sentou-se, então, por três dias e três noites, sem mover um só mús-
culo, sob a tília. Mas como seu amado não voltasse, tornou-se muito
infeliz e resolveu sair mundo afora à sua procura. Tomou quantas de
suas joias era capaz de carregar, além de três dos vestidos mais lindos que
tinha – um cravejado de estrelas, o outro, de luas, e ainda o terceiro, de
sóis, todos feitos de ouro puro. Correu mundo de ponta a ponta, mas em
lugar algum pôde encontrar qualquer sinal de seu noivo. Finalmente, já
sem esperanças, abriu mão da busca. Não suportaria retornar ao castelo

264
O Príncipe De Lua e a Bela Helena

onde fora outrora tão feliz com seu amado, e resolveu antes tolerar a
solidão e a desolação numa terra estranha. Foi apascentar o gado para
uma camponesa, e enterrou suas joias e belos vestidos num local seguro
e bem escondido.
Todos os dias levava o gado para pastar, e a todo o tempo não lhe
havia na cabeça nada senão o noivo infiel. Devotara-se sobretudo a
um certo bezerrinho do rebanho, e fez dele um bichinho de estima-
ção, dando-lhe de comer com as próprias mãos. Ensinou-lhe também a
ajoelhar-se perante ela, e então sussurrou em seu ouvido:

De joelhos, bezerrinho, de joelhos;


Sê bem fiel e escuta meus conselhos,
Não como fez o Príncipe De Lua,
Que aos pés de uma tília, certa vez,
Abandonou a bela e nobre Helena
Por pura e sua grande estupidez.

Decorridos alguns anos, ouviu que a filha do rei do país em que vi-
via estava para se casar com um príncipe chamado “De Lua”. Todos se
alegraram com a notícia – todos, menos Helena, para quem a nova foi
um golpe terrível, pois lá no fundo do coração sempre acreditara que o
amado lhe fora fiel.
Ora, calhou de a estrada até a capital atravessar bem a vila onde He-
lena morava, e muitas vezes, enquanto ela apascentava o gado até os
prados, o Príncipe De Lua passava de cavalo ao seu lado e nem sequer
notava a pobre moça, tão absorvido que estava a pensar em sua outra
noiva. Então ocorreu a Helena a ideia de pôr seu coração à prova, a ver
se não seria possível fazê-lo lembrar-se dela. Então um dia, enquanto o
Príncipe De Lua passava, disse ela ao seu bezerrinho:

De joelhos, bezerrinho, de joelhos;


Sê bem fiel e escuta meus conselhos,
Não como fez o Príncipe De Lua,
Que aos pés de uma tília, certa vez,

265
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Abandonou a bela e nobre Helena


Por pura e sua grande estupidez.

Ao ouvir sua voz, o Príncipe De Lua pareceu lembrar-se de algo, mas


exatamente de quê não sabia, pois não ouvira as palavras com clareza,
já que Helena as dissera bem baixinho, numa voz trêmula. A própria
Helena estava por demais comovida para averiguar que efeito suas pala-
vras tiveram no príncipe, e quando olhou em volta, ele já ia longe. Mas
ela notou como ele estava a cavalgar vagaroso, e quão imerso estava nos
próprios pensamentos, e assim não se dera completamente por vencida.
Em honra ao casório que se aproximava, haveria de se dar um ban-
quete na capital que se estenderia por várias noites. Helena depositou
quantas esperanças tinha nisto, e resolveu ir até o banquete e lá sair à
procura de seu noivo.
Quando a noite estava para cair, ela saiu sorrateiramente da choupa-
na da camponesa e, indo até seu esconderijo, pôs o vestido engastado de
sóis dourados, além de todas as joias, e soltou o seu lindíssimo cabelo
dourado, o qual até ali tinha usado sempre debaixo de um lenço. Assim
adornada, lá se foi para a cidade.
Ao entrar no salão do baile, todos os olhos voltaram-se para ela, e
queixos caíam a torto e a direito pela sua beleza, mas ninguém a conhe-
cia. Também o Príncipe De Lua ficou deslumbrado com os encantos da
linda donzela, e nem sequer imaginou que ela outrora fora a sua amada.
Não saiu do seu lado a noite inteira, e foi só com muita dificuldade que
Helena conseguiu escapar dele em meio à multidão, quando chegou a
hora de voltar para casa. O Príncipe De Lua procurou-a por toda parte,
e ficou a aguardar, sôfrego, a noite seguinte, quando a linda senhorita
prometera voltar.
Na noite seguinte, a bela Helena veio cedo ao banquete.
Desta vez viera com o vestido engastado de luas prateadas, e no cabe-
lo pusera um crescente de prata. O Príncipe De Lua ficou encantado por
vê-la mais uma vez, e a senhora parecia-lhe estar ainda mais bela que na
noite anterior. Não saiu um só segundo do seu lado, e não queria dançar

266
O Príncipe De Lua e a Bela Helena

com mais ninguém. Rogou-lhe para que lhe contasse quem era, mas ela
se recusou. Depois rogou-lhe muito para que voltasse na próxima noite,
e isto ela lhe prometeu que faria.
Na terceira noite o Príncipe De Lua estava já tão impaciente para
ver a sua ninfa mais uma vez, que chegou ao banquete horas antes de a
coisa começar, não despregando um só segundo o olhar da porta. Enfim,
Helena lá chegou, com um vestido de estrelas douradas e prateadas e
uma guirlanda de estrelas na cintura, além duma tiara de estrelas no
cabelo. O Príncipe De Lua estava agora mais apaixonado do que nunca,
e implorou, de novo, para que ela lhe contasse qual era o seu nome.
Então Helena beijou-lhe silenciosamente a bochecha esquerda, e
num instante o Príncipe De Lua reconheceu seu antigo amor. Cheio
de remorso e tristeza, implorou por seu perdão. Helena, felicíssima por
tê-lo conseguido de volta, não o deixou – podeis ter certeza – a esperar
muito pelo perdão, e assim se casaram e voltaram ao castelo de Helena,
onde ainda certamente estão sentados, felizes, à sombra da tília.

267
Batraquinha

ra uma vez uma mulher pobre que tinha uma filhi-


nha chamada Salsinha. Assim se chamava a menina
porque preferia salsinha a qualquer outro alimento,
e muito a contragosto comia outra coisa. Sua pobre
mãe não tinha dinheiro para satisfazer-lhe o capricho
o tempo todo; porém, a menina era tão linda que a
mulher não conseguia recusar-lhe coisa alguma, e por isto, em vistas de
agradar à filha, todas as noites entrava no jardim de uma velha bruxa que
morava ali perto e roubava-lhe vários talos da cobiçada planta.
Este gosto tão peculiar da delicada Salsinha tornou-se em breve co-
nhecido de todos, e assim não havia mais jeito de esconder a autoria
dos furtos. A velha bruxa foi ter com a mãe da menina e propôs-lhe
que a deixasse ir morar consigo, onde poderia comer salsinha até não
mais querer. A sugestão lhe pareceu boa, então lá se foi a bela Salsinha
a morar com a bruxa.
Certo dia, três príncipes, os quais o pai tinha mandado correr mundo,
vieram parar no vilarejo onde morava Salsinha; tão logo perceberam
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

aquela bela moça à janela a pentear suas longas cabeleiras negras, fica-
ram perdidamente apaixonados e desejaram tomá-la por esposa; contu-
do, assim que manifestaram seu desejo em uníssono, ferveu-lhes tanto
o ciúme que desembainharam suas espadas e lançaram-se uns contra os
outros. Tão violenta foi a luta, e tão barulhento o rebuliço, que chegou
aos ouvidos da bruxa, que logo disse:
— É certo que Salsinha está por trás disso.
Assim que se persuadiu desta verdade, deu um passo à frente e, en-
furecida com a disputa que a beleza da moça provocava, rogou-lhe a
seguinte praga:
— Transforma-te num sapo asqueroso e vai viver sob a ponte mais
remota do mundo!
Mal tinham saído essas palavras da boca da bruxa, converteu-se a
pobre Salsinha num sapo, e logo sumiu da frente deles. Os príncipes,
agora que lhes fora retirado o objeto de sua contenda, embainharam as
espadas, beijaram-se fraternalmente, e voltaram ao palácio de seu pai.
O rei, como já estivesse muito velho e a cada dia se enfraquecesse
mais, queria passar o cetro adiante a algum de seus filhos, mas não
conseguia decidir qual deles tomaria seu posto; determinou então que
os fados o decidissem no seu lugar. Chamou os três filhos e falou:
— Meus queridos filhos, estou ficando velho, e a cada dia me
aborrece mais a governança; porém não consigo decidir a qual de
vós passarei adiante a coroa, porque vos amo a todos igualmente.
Ao mesmo tempo, contudo, gostaria que o mais hábil dentre vós go-
vernasse meu povo, e por isto resolvi encarregar-vos de três tarefas;
quem as melhor desempenhar há de herdar este trono. A primeira
coisa que vos peço é que tragais até mim uma peça de linho de cem
jardas de comprimento, que seja fina o bastante para atravessar um
anel de ouro.
Os três fizeram reverência ao pai, prometeram que dariam o melhor
de si e, sem mais tardar, puseram-se a caminho.
Os dois mais velhos foram acompanhados de muitos servos e carru-
agens; o mais novo, porém, seguiu sozinho. Em pouco tempo chegaram

270
Batraquinha

a um ponto da estrada onde se encontravam três caminhos: dois deles


eram alegres e cheios de gente, e o terceiro escuro e solitário.
Os irmãos mais velhos escolheram os caminhos mais frequentados; o
mais novo, porém, despedindo-se dos outros dois, seguiu pelo caminho
lúgubre. Aonde quer que ouvissem dizer que se vendia linho, para lá
disparavam os dois irmãos mais velhos, e em pouco tempo carregaram
suas carruagens de muitos fardos do linho mais fino que encontraram e
se foram de volta para casa.
O irmão mais novo, por sua vez, por vários dias trilhou seu caminho ári-
do sem topar com peça alguma de linho que cumprisse os requisitos do pai.
Seguiu, pois, em frente, a cada passo se abatendo um pouco mais. Ao fim de
muito caminhar, alcançou um rio profundo que escorria por um pântano e
sobre o qual cruzava uma ponte. Antes de atravessá-la, sentou-se à margem
do rio e entre suspiros lamentou sua desfortuna. De repente, uma sapa dis-
forme rastejou para fora do brejo, sentou-se à sua frente e lhe perguntou:
— O que há, meu caro príncipe?
O príncipe respondeu com impaciência:
— De que me adianta contá-lo a ti, Batraquinha? Não poderias me
ajudar em nada.
— Como sabes? ‒ respondeu a sapa. ‒ Conta-me o que te aflige e
veremos o que posso fazer.
O príncipe então abriu o coração com a criaturinha e lhe contou com
que missão saíra do reino de seu pai.
— Príncipe, fica certo de que te ajudarei.
Ditas estas palavras, o bicho entrou novamente em seu brejo e, ao
emergir, trouxe de dentro uma peça de linho do tamanho de um dedo;
depositou-a na frente do príncipe e disse:
— Leva isto para casa; prometo que te ajudará.
Ao príncipe não interessava em nada levar consigo um volume de
linho tão insignificante, mas, como não quisesse ofender Batraquinha,
não o recusou; pegou o presente, colocou-o no bolso e despediu-se da
sapa. Batraquinha o observou até sumir de vista e depois se arrastou
novamente brejo adentro.

271
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

272
Batraquinha

À medida que se afastava o príncipe, o rolo de linho se tornava cada


vez mais pesado no bolso, e o coração, cada vez mais leve no peito. Assim
consolado, pôs-se a caminho do palácio, e o alcançou no exato momento
em que seus dois irmãos chegavam com suas caravanas. Deleitou-se o pai
de rever seus meninos, e sem mais tardar tirou o anel do dedo para dar
início à prova. De todos os carregamentos de linho que os irmãos mais
velhos compraram, não havia uma só peça que atravessasse o anel por
mais de dez jardas; e os dois que haviam desconsiderado o irmão mais
novo por voltar sem bagagem nenhuma sentiram-se um tanto humilha-
dos. Mas quem descreverá o que sentiram quando o irmão mais novo ti-
rou do bolso um rolo de linho de fineza, brancura e maciez insuperáveis!
Os fios mal se podiam ver; sem a menor dificuldade o linho atravessava o
anel de cabo a rabo, e media cem jardas sem tirar nem pôr.
O pai abraçou o filho afortunado e mandou atirar na água as demais
peças de linho; virando-se novamente aos filhos, disse:
— Preparai-vos agora, queridos príncipes, para a segunda tarefa. De-
veis trazer-me um cão pequeno o bastante para caber com folga numa
casca de noz.
Os filhos todos se desanimaram com essa nova demanda, mas, como
quisessem obter a coroa, determinaram-se a dar o melhor de si, e após
poucos dias partiram novamente.
Apartaram-se mais uma vez na mesma encruzilhada. O mais novo
seguiu desacompanhado pela estrada solitária, só que desta vez muito
mais confiante. Apenas se sentou sob a ponte e soltou um suspiro, Ba-
traquinha saiu da água e, sentando-se à sua frente, perguntou:
— O que há desta vez, meu caro príncipe?
O príncipe, que já não duvidava do quanto podia a sapinha, contou-
-lhe de imediato seu problema.
— Príncipe, vou ajudar-te! ‒ disse a sapa, e rastejou para dentro de
seu brejo o mais rápido que suas perninhas permitiam. Voltou trazendo
consigo uma avelã e a depositou aos pés do príncipe, dizendo: – Leva
esta avelã para casa e pede a teu pai que a abra com muito cuidado; verás
em seguida o que acontecerá.

273
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

O príncipe agradeceu-lhe de coração e seguiu seu caminho no melhor


dos humores, enquanto Batraquinha rastejava de volta para seu brejo.
Ao alcançar o palácio, viu que os irmãos haviam recém chegado com
suas carruagens, portando nelas vários carregamentos de cãezinhos de
toda sorte. Com a casca de noz em mãos, o rei deu início às provas, con-
tudo, nenhum dos cãezinhos que os filhos mais velhos haviam trazido
chegou sequer perto de caber na casca. Depois que todos os cãezinhos
foram testados, o filho mais novo entregou ao pai sua avelã, fez-lhe reve-
rência e pediu que a quebrasse com muito cuidado. Apenas a quebrou o
velho rei, pulou de dentro dela um cãozinho muito simpático, que ficou
dando voltas na mão aberta do monarca, balançando o rabinho e latindo
energicamente para os outros cães. Foi grande no palácio o regozijo. O
pai abraçou novamente o filho afortunado, mandou submergir os de-
mais cãezinhos para se afogarem e dirigiu-se outra vez aos filhos:
— Já cumpristes as tarefas mais difíceis. Ouvi agora a terceira e última:
quem voltar para casa com a esposa mais bela, há de ser meu herdeiro.
Pareceu-lhes tão fácil e agradável este pedido, e tão magnífica a re-
compensa, que não perderam tempo e puseram-se logo a caminho. Ao
chegarem à encruzilhada, os dois mais velhos ficaram em dúvida se não
era melhor seguir o mesmo caminho que o mais novo, mas o caminho
era tão sombrio e desolado que se desmotivaram, pensando ser impos-
sível encontrar o que buscavam naquela região inóspita; então seguiram
pelos seus caminhos de sempre.
O mais novo, porém, estava muito desanimado desta vez e falou
consigo:
— Em qualquer outra coisa Batraquinha poderia me ajudar, mas esta
tarefa vai além das capacidades dela. De onde ela vai tirar uma bela es-
posa para mim? Os pântanos que habita são vastos e desertos, e nenhum
homem vive ali, apenas sapos, rãs e outros bichos afins.
Não obstante, sentou como de costume embaixo da ponte, suspiran-
do do fundo do coração.
Não demorou para que a sapa se colocasse à sua frente e perguntasse:
— O que há desta vez, meu caro príncipe?

274
Batraquinha

— Ah, Batraquinha, desta vez não poderás me ajudar, pois a tarefa


está além do teu poder ‒ replicou o príncipe.
— Ainda assim ‒ falou a sapa ‒ conta-me tua adversidade, pois quem
sabe se desta vez não consigo ajudar-te novamente?
O príncipe então lhe contou a tarefa de que fora encarregado. Disse
Batraquinha:
— Podes ter certeza que te ajudarei, meu caro príncipe. Vai para casa,
que logo te seguirei.
Ditas estas palavras, Batraquinha, com uma lepidez muito diferente
do que até então se vira nela, saltou para dentro da água e desapareceu.
O príncipe se levantou e seguiu tristemente seu caminho, pois não
acreditava que a sapinha pudesse realmente ajudá-lo desta vez. Havia
dado apenas uns poucos passos quando escutou vir algo atrás de si. Ao
voltar os olhos, viu uma carruagem feita de papelão puxada por seis
enormes ratos. Dois ouriços-batedores cavalgavam à sua frente, escol-
tando-a; sentado na boleia, um camundongo roliço a conduzia; na parte
posterior do veículo, sobre uma plataforma, dois sapos-lacaios iam de
pé. No interior da carruagem estava sentada Batraquinha, que ao passar
pelo príncipe soprou-lhe um beijo.
Remoendo no pensamento os caprichos de sua fortuna, que lhe con-
cedera dois de seus desejos e agora lhe negava o terceiro e melhor deles,
o príncipe mal notou a absurda equipagem do carro, e muito menos lhe
passou pela cabeça rir-se da aparência cômica de tudo aquilo.
A carruagem seguiu à sua frente por um tempo, até que dobrou numa
curva. Qual não foi a surpresa do príncipe quando, ao virar a mesma cur-
va, viu um lindo coche vindo em sua direção, puxado por seis magníficos
cavalos, com batedores, cocheiros, e vários criados vestidos de belíssimas
librés; sentada em seu interior estava a mulher mais bela que o príncipe
jamais vira; e, assim que a olhou, reconheceu ser ela a graciosa Salsinha,
por quem ardera de paixão antigamente. Quando o coche parou a seu
lado, dois criados saltaram e abriram para ele a porta. O príncipe entrou
e sentou-se ao lado da linda Salsinha, agradecendo-lhe encarecidamente
pela ajuda e confessando-lhe seu grande amor.

275
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Chegou na cidade do pai junto com os irmãos, que portavam nas


suas carruagens vários carregamentos de lindas mulheres. Porém, depois
que todas foram levadas à presença do rei, a corte inteira em uníssono
agraciou os louros da beleza à formosa Salsinha.
O velho rei estava encantado. Abraçou carinhosamente o filho três
vezes afortunado e sua nova esposa, nomeou-os herdeiros do trono e
mandou atirar na água e afogar as demais mulheres, no mesmo lugar
que os cãezinhos e as peças de linho. O príncipe casou-se com Batra-
quinha e com ela reinou feliz por longos anos; e, se já não morreram, é
bem provável que ainda estejam vivos.

276
A história de
Hok Lee e os Anões

m uma cidadezinha da China, viveu certa vez


um homem chamado Hok Lee. Era muito traba-
lhador e diligente, e não apenas se entregava com
afinco ao seu ofício, como também fazia todo o ser-
viço doméstico, já que não tinha esposa para fazê-lo
por ele. “Que homem excelente e aplicado, esse Hok
Lee!”, comentavam seus vizinhos. “Trabalha muito! Nunca sai de casa
para se divertir ou aproveitar um feriado, como toda a gente.”
Mas Hok Lee estava longe de possuir as virtudes que os vizinhos
lhe atribuíam. É verdade que trabalhava muito durante o dia, mas, à
noite, quando todos os homens de bem dormiam o sono dos justos, ele
costumava sair furtivamente e juntar-se a um perigoso bando de salte-
adores, que invadia casas de gente rica e roubava tudo que estivesse ao
seu alcance.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Esse estado de coisas prolongou-se por algum tempo, e, embora se


apanhasse um ladrão de vez em quando, nenhuma suspeita jamais recaía
sobre Hok Lee, que era um homem tão respeitável e trabalhador!
Hok Lee já conseguira acumular considerável fortuna com a parcela
que lhe tocava desses roubos quando, certa manhã, ao dirigir-se ao mer-
cado, um vizinho lhe disse:
— Ora, Hok Lee, que há com teu rosto? Um dos lados está todo
inchado.
Realmente, a face direita de Hok Lee tinha o dobro do tamanho de
sua face esquerda, e isso logo tornou-se bastante incômodo.
— Vou ajeitar meu rosto – disse Hok Lee. – Sem dúvida, uma com-
pressa morna há de curar o inchaço.
Mas tal não ocorreu. No dia seguinte a situação estava pior, e sua
bochecha continuou inchando dia após dia, até que se tornou tão grande
quanto sua cabeça, e passou a doer muito.
Hok Lee estava à beira do desespero. Como se não bastasse sua face
disforme e dolorida, os vizinhos começaram a escarnecê-lo e a ridicula-
rizá-lo, o que muito feria seus sentimentos.
Certo dia, por um feliz acaso, um médico viajante aportou à cidade.
Ele não só vendia todo tipo de remédio, como também negociava estra-
nhos encantamentos contra a ação de bruxas e espíritos malignos.
Hok Lee decidiu consultar-se com ele e convocou-o até sua casa.
Depois de examiná-lo com cuidado, o médico afirmou:
— Isto, meu caro Hok Lee, não é um inchaço comum. Tenho fortes
suspeitas de que andaste cometendo algum delito que atraiu sobre ti a
ira dos espíritos. Nenhum desses medicamentos poderá curar-te, mas,
se estiveres disposto a remunerar-me generosamente, posso dizer como
te podes curar.
Então teve início uma dura negociação entre Hok Lee e o médi-
co, e demorou muito até que chegassem a um acordo. O médico, no
entanto, levou a melhor no final, pois estava determinado a não com-
partilhar seu segredo por menos que um determinado preço, e Hok
Lee não estava disposto a carregar sua enorme bochecha a vida inteira.

278
A história de Hok Lee e os Anões

Viu-se, assim, obrigado a abrir mão da maior parte de sua riqueza


ilicitamente obtida.
Assim que o médico embolsou o dinheiro, instruiu Hok Lee que
fosse a uma certa floresta na primeira noite de lua cheia e lá ficasse à
espreita junto a uma determinada árvore. Depois de um tempo, ele veria
emergir dos subterrâneos os anões e uns pequenos espíritos, que sairiam
para dançar. Quando essas criaturas o vissem, é certo que o convidariam
para dançar também.
— Deves dançar o melhor que puderes – acrescentou o médico. – Se
dançares bem e eles se agradarem, conceder-te-ão um pedido, e poderás
pleitear tua cura; mas se dançares mal, o mais certo é que se darão por
ultrajados e se vingarão de ti.
E com essas palavras despediu-se e foi-se embora.
Felizmente aproximava-se a primeira noite de lua cheia e, no tem-
po certo, Hok Lee tomou a direção da floresta. Teve algum trabalho
para encontrar a árvore que o médico descrevera e, sentindo-se um
tanto nervoso, nela subiu.
Mal havia se assentado sobre um galho quando viu os pequenos
anõezinhos reunindo-se à luz da lua. Vinham de todas as direções,
até que, por fim, parecia haver centenas deles. Tudo indicava que es-
tavam alegres: dançavam, saltitavam e davam cabriolas no ar. Ansioso
por vê-los melhor, Hok Lee foi-se arrastando sobre o tronco da ár-
vore até provocar um estalido alto e seco. Todos os anões estancaram
imediatamente, e Hok Lee sentiu como se seu coração estancasse
também.
Então, um dos anões disse:
— Há alguém no alto daquela árvore. Desce imediatamente, quem
quer que sejas, ou iremos atrás de ti.
Tomado de pavor, Hok Lee começou a descer, mas, de tão nervoso,
pisou em falso já próximo ao chão, e foi rolando da maneira mais ridícu-
la possível. Quando se recompôs, apresentou-se com uma reverência, e
o anão que havia falado primeiro, aparentemente o líder, perguntou-lhe:
— Quem és tu, e o que queres aqui?

279
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Então Hok Lee narrou-lhe a triste história do inchaço em sua face,


e falou sobre o conselho que recebera para ir à floresta e pedir aos anões
que o curassem.
— Está bem – respondeu o anão. – Veremos o que podemos fazer.
Todavia, deves primeiro dançar para nós. Se tua dança nos agradar, pode
ser que te ajudemos; mas se dançares mal, com toda a certeza te punire-
mos. Estás avisado; agora põe-te a dançar.
Após dizer isso, o anão e todos os demais sentaram-se formando um
enorme círculo, deixando Hok Lee a dançar sozinho no centro. Ele, por
sua vez, estava transido de medo e, muito abalado pela queda da árvore,
não tinha a menor vontade de dançar. Mas os anões não estavam para
brincadeira.
— Começa! – ordenou o líder, e os demais anões gritaram em coro:
– Começa!
Então, aflito, Hok Lee começou a se mover. Saltou sobre um dos pés,
depois sobre o outro, mas seu corpo estava tão rijo, e ele mesmo tão ner-
voso que suas tentativas todas falharam. Depois de um tempo desabou
no chão e declarou que não podia continuar.
Os anões ficaram enfurecidos. Ajuntaram-se em torno de Hok Lee
e o maltrataram.
— Vieste aqui para ser curado, pois sim! – disseram. – Chegaste com
uma das bochechas inchada, mas partirás com duas.
Disseram isso e desapareceram, deixando Hok Lee sozinho e desam-
parado para encontrar o rumo de casa.
Foi-se embora coxeando, exausto e abatido, e um bocado receoso
quanto à ameaça que o anão lhe fizera.
E não era sem razão o seu receio, pois, na manhã do dia seguinte, sua
face esquerda estava tão inchada quanto a direita, e ele mal podia dis-
tinguir seus próprios olhos. Hok Lee ficou desesperado, e seus vizinhos
zombaram dele mais do que nunca. O médico, por sua vez, desaparecera.
Nada lhe restava senão tentar uma vez mais com os anões.
Esperou por um mês, até a primeira noite de lua cheia, e então me-
teu-se de novo na floresta, trilhando o caminho com dificuldade, e por

280
A história de Hok Lee e os Anões

fim assentou-se sob a mesma árvore de outrora. Não precisou esperar


muito. Dentro em pouco vieram os anões, em bando, até que estivessem
todos reunidos.
— Estou incomodado – disse um deles. – Sinto como se um horren-
do ser humano nos espreitasse.
Hok Lee ouviu estas palavras e deu um passo adiante, curvando-se
até o chão diante dos anões, que então se ajuntaram ao seu redor, rindo-
-se às gargalhadas daquelas bochechas enormes.

— Que queres aqui? – perguntaram, e Hok Lee narrou-lhes seus


últimos infortúnios, e implorou tanto que tivesse mais uma chance na
dança, que por fim os anões consentiram, pois nada amavam mais no
mundo que uma boa diversão.
Ora, Hok Lee sabia o que estava em jogo; armou-se de coragem e co-
meçou, primeiro bem devagar, acelerando aos poucos, e dançou tão bem e
com tanta graça, inventando tantos passos fabulosos, que os anões ficaram
muito satisfeitos. Aplaudiam batendo as diminutas mãozinhas e gritavam:

281
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Muito bem, Hok Lee, muito bem! Continua, estamos gostando!


E Hok Lee dançou à exaustão, até que não pôde mais dançar e teve
de parar. Então o líder dos anões disse:
— Estamos satisfeitos, Hok Lee, e, como recompensa por tua dança,
tua face será curada. Adeus.
Depois de pronunciar essas palavras, o anão e todos os demais desa-
pareceram, e Hok Lee, pousando a mão sobre as faces, constatou, para
sua grande alegria, que haviam voltado ao tamanho normal. O caminho
de volta para casa pareceu-lhe curto e fácil de percorrer, e ele foi dormir
feliz, decidido a nunca mais roubar.
No dia seguinte, a cidade inteira estava sabendo da súbita cura de
Hok Lee. Seus vizinhos o questionavam, mas ele nada dizia, exceto que
havia descoberto uma cura fabulosa para quaisquer males.
Passado um tempo, um vizinho rico, que vivia doente fazia alguns
anos, procurou Hok Lee e ofereceu-lhe uma fortuna para que ele con-
tasse como havia-se curado. Hok Lee concordou em dizer a verdade,
contanto que ele jurasse manter a revelação em segredo. O homem ju-
rou, e Hok Lee contou-lhe sobre os anões e a dança.
O vizinho se foi e seguiu ponto por ponto o que Hok Lee lhe disse-
ra, e foi curado pelos anões. A ele seguiu-se outro, e mais outro, todos
implorando a Hok Lee que revelasse o segredo, e de cada um Hok Lee
exigia um juramento de segredo e uma boa quantia em dinheiro. Assim
transcorreram os anos, até que por fim Hok Lee tornou-se muito rico, e
terminou seus dias gozando de paz e prosperidade.*

* Conto chinês.

282
A história dos
Três Ursos

ra uma vez três ursos que moravam juntos numa


casa na floresta. Um deles era um Ursinho-de-
Nada-Miúdo-que-Só; e o outro era um Urso-Me-
diano, e o último, por fim, era um Urso-Enorme
-e-Gigantesco. Cada um tinha o seu próprio pote
para o mingau; um potezinho para o Ursinho-de-
Nada-Miúdo-que-Só; e um pote mediano para o Urso-Mediano; e um
pote enorme para o Urso-Enorme-e-Gigantesco. E cada um tinha a sua
cadeira para nela se sentar: uma cadeirinha para o Ursinho-de-Nada-
Miúdo-que-Só; uma cadeira mediana para o Urso-Mediano, e uma ca-
deira enorme para o Urso-Enorme-e-Gigantesco. E cada um tinha a sua
cama, para nela dormir: uma caminha para o Ursinho-de-Nada-Miúdo-
que-Só, uma cama mediana para o Urso-Mediano; e uma cama enorme
para o Urso-Enorme-e-Gigantesco.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Um dia fizeram o mingau para o café da manhã e o despejaram nos


seus três potes, e então foram passear na mata. É que a refeição tinha
de esfriar, caso contrário lhes queimaria as línguas todinhas. Enquanto
passeavam, uma velhinha foi até a casa deles. Ela não podia ser uma
daquelas velhinhas boas e honestas, pois logo se pôs a espiar o interior
da casa, primeiro pela janela e depois pelo buraco da fechadura. Assim,
já certa de que não havia ninguém, abriu a porta. Ora, a porta não es-
tava trancada porque os ursos eram ursos bons, que não faziam mal a
ninguém, e jamais suspeitariam que alguém lhes fosse fazer mal. Então
a velhinha abriu a porta e lá entrou; e ficou feliz da vida ao ver os potes
de mingau na mesa. Se fosse uma boa velhinha, teria aguardado até os
ursos voltarem para casa, e aí, talvez, eles lhe teriam oferecido um café da
manhã, pois eram bons ursos – um tantinho rudes, é verdade, como é o
jeito dos ursos, mas ainda assim bondosos e muito hospitaleiros. Porém,
a velha não era boazinha: era descarada e malvada, e já foi se servindo.
Primeiro, provou o mingau do Urso-Enorme-e-Gigantesco; e o min-
gau estava quente demais para a velha, que soltou um palavrão. Depois,
provou o mingau do Urso-Mediano; e este estava frio demais para ela,
que soltou outro palavrão. Por último, provou o mingau do Ursinho-de-
-Nada-Miúdo-que-Só; e este não estava nem muito quente, nem muito
frio, mas no ponto certo; e ela tanto gostou do mingau que o comeu
todinho. Mas de novo a velha malcriada soltou um palavrão, pois que
não havia ali o suficiente para encher-lhe o estômago.
Então a velhinha sentou-se na cadeira do Urso-Enorme-e-Gigan-
tesco, e esta lhe era dura demais. Depois, sentou-se na cadeira do Urso-
Mediano, e esta era macia demais. E depois ainda sentou-se na cadeira
do Ursinho-de-Nada-Miúdo-que-Só, e esta não era nem dura demais,
nem macia demais, mas perfeita. Assim, pois, acomodou-se ali muito
confortável e ficou sentada, até que o fundo da cadeira plaft!, se soltou,
e lá se foi ela com o fundo, a bater com o traseiro no chão. E a velha
malvada soltou um palavrão por causa disto também.
Então a velhinha subiu as escadas e foi até o quarto onde os três ursos
dormiam. Primeiro deitou-se na cama do Urso-Enorme-e-Gigantesco;

284
A história dos Três Ursos

285
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

mas a cama era-lhe muito alta para a cabeça. Em seguida, deitou-se na


cama do Urso-Mediano, e esta era-lhe muito alta para os pés. Enfim,
deitou-se na cama do Ursinho-de-Nada-Miúdo-que-Só; e esta não era
muito alta nem na cabeça, nem nos pés, mas perfeita. E lá se cobriu ela,
toda confortável, até que adormeceu.
A essas tantas, os três ursos pensaram que o mingau já devia ter
esfriado o bastante; então voltaram para tomar café da manhã. Ora, a
velhinha deixara a colher do Urso-Enorme-e-Gigantesco mergulhada
dentro de seu mingau.
— ALGUÉM ANDOU MEXENDO NO MEU
MINGAU!
disse o Urso-Enorme-e-Gigantesco, com seu vozeirão carrancudo e
grave. E quando o Urso-Mediano viu o seu pote, lá estava também a sua
colher. As colheres eram de madeira, pois se fossem de prata, a velhinha
malcriada as teria enfiado no bolso.
— ALGUÉM ANDOU MEXENDO NO MEU MINGAU!
disse o Urso-Mediano, com sua voz mediana.
Então o Ursinho-de-Nada-Miúdo-que-Só viu o seu pote, e notou
que a sua colher estava ali, mas do mingau já não havia é nada.
— Alguém andou mexendo no meu mingau e o comeu todinho!
disse o Ursinho-de-Nada-Miúdo-que-Só, com sua vozinha de nada,
esganiçada que só.
Pois então os três ursos, vendo que alguém havia entrado em sua casa
e comido o café da manhã do Ursinho-de-Nada-Miúdo-que-Só, come-
çaram a procurar saber quem era. Ora, a velhinha não pusera de volta
direito a almofada quando se levantou da cadeira do Urso-Enorme-e-
Gigantesco.
— ALGUÉM ANDOU SENTANDO NA MINHA
CADEIRA!
disse o Urso-Enorme-e-Gigantesco, com seu vozeirão carrancudo,
grave e rouco.

286
A história dos Três Ursos

E a velhinha havia amassado a almofada macia todinha da cadeira


do Urso-Mediano.
— ALGUÉM ANDOU SENTANDO NA MINHA CADEIRA!
disse o Urso-Mediano, com sua voz mediana.
E já sabemos o que a velhinha fizera à terceira cadeira.
— Alguém andou sentando na minha cadeira e lhe arrancou o fundo!
disse o Ursinho-de-Nada-Miúdo-que-Só, com sua vozinha de nada,
esganiçada que só.
Os três ursos chegaram à conclusão de que era preciso fazer mais
buscas; subiram as escadas e entraram no quarto. Ora, a velhinha havia
tirado os travesseiros do Urso-Enorme-e-Gigantesco do lugar:
— ALGUÉM ANDOU DEITANDO NA MINHA
CAMA!
disse o Urso-Enorme-e-Gigantesco, com o seu vozeirão carrancudo,
grave e rouco.
E a velhinha havia tirado a almofada do Urso-Mediano fora do lugar.
— ALGUÉM ANDOU DEITANDO NA MINHA CAMA!
disse o Urso-Mediano, com sua voz mediana.
E quando o Ursinho-de-Nada-Miúdo-que-Só veio olhar sua cama,
lá estava a almofada no lugar que lhe cabia, e em cima da almofada, o
travesseiro, no lugar que lhe cabia, e em cima do travesseiro estava a ca-
beça feiosa e suja da velha – que não estava no lugar que lhe cabia, pois
não tinha o que fazer ali.
— Alguém andou deitando na minha cama; e aqui está ela!
disse o Ursinho-de-Nada-Miúdo-que-Só, com sua vozinha de nada,
esganiçada que só.
A velhinha ouvira, lá no seu sono, o vozeirão carrancudo, grave e
rouco do Urso-Enorme-e-Gigantesco, mas dormia tão profundamente
que o vozeirão foi para ela como o rugir do vento ou o ribombar do
trovão. E ouvira também a voz do Urso-Mediano, mas fora como se ti-
vesse ouvido alguém a falar num sonho. Mas quando ouviu a vozinha de

287
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

nada, esganiçada que só, do Ursinho-de-Nada-Miúdo-que-Só, a voz foi


tão aguda, tão estridente, que a acordou na hora. Acordou alvoroçada,
e, quando viu os três ursos ao pé da cama, rolou toda atrapalhada para
o outro lado e disparou para a janela. Ora, a janela estava aberta, pois os
ursos, bondosos e direitos como eram, sempre a escancaravam tão logo
acordavam de manhã. E de lá pulou a mulher; e se quebrou o pescoço na
queda, ou se correu para a mata e lá se perdeu, ou se de lá conseguiu sair
e foi presa pela polícia e enviada para a Casa de Correção por vadiagem
(coisa de que era certamente culpada), já não sei dizer. O que sei é que
os três ursos nunca mais a viram.*

* Robert Southey.

288
O Príncipe Viviano e
a Princesa Plácida

ra uma vez um rei e uma rainha que se amavam


com muita ternura. Com efeito, a rainha, que se
chamava Santorina, era tão bonita e caridosa que
seria espantoso se o marido não fosse apaixonado
por ela; já o rei, de nome Gredelém, reunia em si
as melhores qualidades que um homem pode ter,
porque a fada que presidira seu batismo invocara as sombras de todos
os seus antepassados e tomara uma qualidade de cada para compor-
-lhe o caráter. Infelizmente, porém, a fada lhe havia dado um coração
demasiado generoso, o que geralmente custa caro a quem o possui; até o
momento, no entanto, o rei havia prosperado em todos os seus negócios.
De todo modo, não era de esperar que uma tal fortuna durasse muito
tempo, e não demorou para que a rainha desse à luz uma filhinha ado-
rável, a quem deram o nome de Plácida. Pois bem: o rei pensava que,
se a filhinha fosse parecida com a mãe em feições e personalidade, não
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

careceria de outros dons, e por isso não se deu ao trabalho de convidar


nenhuma das fadas para o batizado. Esta negligência, que as privava de
seus direitos de fadas, foi-lhes uma ofensa mortal, de sorte que decidi-
ram infligir ao rei um grave castigo. Para desalento do Rei Gredelém,
sua amada rainha adoeceu e veio a desaparecer logo em seguida. Des-
consolado como ficou, não se sabe o que seria do pobre Rei Gredelém
se não tivesse ainda a princesinha, sua filha, para criar. Lolota, uma fada
boa, ofereceu-se, apesar do que acontecera, a cuidar da menina e tam-
bém do Príncipe Viviano, seu priminho, que era órfão e ainda bebê fora
colocado sob a proteção do tio Gredelém.
Por mais que a fada não medisse esforços em educá-los, as perso-
nalidades das crianças, conforme cresciam, demonstravam claramente
que a educação apenas atenua os defeitos naturais de alguém, jamais os
apaga de todo. Plácida, que era amável e tinha uma inteligência tal que
a permitia aprender e entender tudo quanto a ela se apresentasse, no
entanto era preguiçosa e apática como ninguém; já Viviano, ao contrário,
era muito irrequieto e a toda hora buscava algo novo para fazer, mas, tão
logo se entregava a alguma novidade, já se cansava dela, trocando-a por
outro interesse igualmente efêmero. Já que uma das duas crianças um
dia herdaria o reino, era natural que o povo muito se interessasse por
elas. Disso resultou que os cidadãos tranquilos e amantes da paz dese-
jassem que Plácida algum dia fosse a rainha, ao passo que os impetuosos
e exaltados nutriam grandes esperanças por Viviano. Tal discórdia tinha
tudo para levar a guerras civis e a todo tipo de problemas para o Estado,
e mesmo no palácio as duas facções entravam em conflito seguidamente.
Quanto às crianças, apenas sua boa educação as impedia de brigar, pois
era impossível que duas pessoas de sentimentos e inclinações tão opostos
pudessem gostar uma da outra; assim, o casamento dos dois era bastante
improvável. Uma lástima, já que era a única coisa que satisfaria aos dois
partidos. Príncipe Viviano tinha plena consciência da simpatia que parte
do povo lhe devotava, mas, como fosse demasiado nobre para querer mal
à sua graciosa priminha, e talvez impaciente e volúvel em excesso para
pensar a sério sobre o que quer que fosse, deu-lhe na telha sair mundo

290
O Príncipe Viviano e a Princesa Plácida

afora, sozinho, em busca de aventura. Por sorte, a ideia lhe ocorreu quan-
do estava a cavalo, pois, do contrário, é certo que partiria a pé, só para não
perder tempo. Assim, do jeito que estava, bastou-lhe mudar a direção do
cavalo, sem outra intenção senão sair do reino o mais rápido possível.
Essa súbita partida abateu-se como desgraça sobre o reino inteiro, prin-
cipalmente porque ninguém fazia ideia do que acontecera ao príncipe.
Mesmo o Rei Gredelém, que ficara indiferente a tudo após o sumiço
da Rainha Santorina, abalou-se com essa nova perda; e, apesar de não
conseguir nem mesmo olhar para a Princesa Plácida sem debulhar-se em
lágrimas, decidiu verificar por conta própria que talentos e habilidades a
menina apresentava. Logo descobriu que, como se não bastasse a indo-
lência natural da moça, a fada ainda a mimava e paparicava diariamente
como se fosse sua avó; o rei, portanto, foi obrigado a advertir a fada a esse
respeito. Lolota recebeu a censura de olhos baixos, e deu sua palavra que
não encorajaria mais a preguiça e a apatia da princesa. Foi ali que come-
çaram os problemas da pobre Plácida! A coitada ficou responsável por
escolher seus próprios vestidos, cuidar de suas joias, buscar suas próprias
diversões; porém, em vez de se dar ao trabalho de fazer tudo isso, usava
ela o mesmo vestidinho surrado do nascer ao pôr do sol e evitava apare-
cer em público sempre que possível. Havia mais: o Rei Gredelém fazia
questão de que os assuntos do reino fossem explicados a ela, e que a me-
nina comparecesse a todos as assembleias e desse sua opinião a respeito
do objeto em discussão sempre que fosse perguntada. Isto sobrecarregou
tanto sua vida que ela implorou a Lolota que a levasse embora de um
reino onde tanto se exigia de uma infeliz princesinha.
A princípio a fada relutou com grande afinco, mas quem poderia re-
sistir às lágrimas e súplicas de uma princesinha graciosa como Plácida?
Ao fim e ao cabo, a fada transportou a princesinha, do jeito que estava
– aconchegada em seu sofá predileto –, para a gruta que lhe pertencia.
Este novo sumiço levou todo o povo ao desespero, e Gredelém ficou
mais transtornado ainda.
Retornemos agora ao Príncipe Viviano e vejamos aonde seu espírito
inquieto o levou. Embora fosse grande o reino de Plácida, o cavalo o car-

291
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

regou bravamente até seus confins, mas, como já não conseguisse ir adian-
te, o príncipe foi obrigado a apear do cavalo e seguir o resto da jornada a
pé, ainda que o progresso dessa lenta marcha muito o impacientasse.
Depois do que lhe pareceu uma longuíssima jornada, viu-se sozinho
em uma vasta floresta, tão escura e sombria que sentiu arrepios na espinha;
não obstante, escolheu um caminho que lhe parecia o mais promissor, e
por ele seguiu bravamente tão rápido quanto pôde; mas, apesar de todos
os esforços, a noite caiu antes que chegasse à outra margem da floresta.
Por algum tempo foi tropeçando ao longo do caminho, mantendo
seu curso o quanto possível em meio àquela escuridão. Suas energias
estavam quase a esgotar-se quando viu à sua frente uma réstia de luz.
Este vislumbre reavivou-lhe o espírito. Quis se assegurar de que es-
tava perto do abrigo e da refeição de que tanto necessitava, mas, quan-
to mais caminhava, mais a luz se afastava; por vezes a perdia de vista
completamente, e podeis imaginar como estava irritado e impaciente
quando, por fim, alcançou o miserável chalé donde a luz partia. Bateu à
porta com força, e a voz de uma velhinha respondeu do lado de dentro;
porém, como ela não se apressasse a abri-la, o príncipe dobrou a força
das batidas, e exigiu imperiosamente que o deixasse entrar, esquecendo-
-se por completo de que já não estava em seu reino. Mas nada disso
afetou a velhinha, que reagiu àquela gritaria dizendo, em tom delicado:
— Deves ter paciência.
Ele a ouvia se aproximar para abrir-lhe a porta, é verdade, mas como
demorava! Primeiro enxotou o gato, para que não fugisse quando a porta
estivesse aberta; depois, murmurou consigo mesma, dizendo que precisa-
va ajeitar o pavio da lamparina para melhor enxergar quem batia à porta;
em seguida, que já era hora de trocar o óleo da lamparina, que estava
queimado e velho. E assim, ocupada ora com uma coisa, ora com outra,
passou um longo tempo arrastando-se daqui para lá, e de quando em
quando pedia ao príncipe que tivesse paciência. Este, quando finalmente
se viu do lado de dentro da cabaninha, percebeu com desalento que o lu-
gar era o quadro da pobreza e que não havia um farelo sequer para comer;
quando explicou à velhinha que estava morrendo de fome e cansaço, ela

292
O Príncipe Viviano e a Princesa Plácida

apenas respondeu, tranquilamente, que tivesse paciência. Sem demora,


contudo, mostrou-lhe um feixe de palha onde poderia dormir.
— Mas o que vou comer? ‒ clamou o príncipe, rispidamente.
— Calma, calma ‒ respondeu a mulher –, tem paciência, que vou
ao jardim colher umas ervilhas: vamos descascá-las com calma, e então
acenderei o fogo para cozinhá-las, e quando estiverem bem macias po-
deremos comê-las tranquilamente. Não há por que ter pressa.
— Até lá terei morrido de inanição ‒ disse o príncipe, aborrecido.
— Paciência, paciência ‒ disse a velha, olhando para ele com um
sorriso lento e gentil ‒, não tentes me apressar. Já deves ter ouvido que
“quem espera sempre alcança”.
Príncipe Viviano já não aguentava, mas não sabia o que fazer.
— Vem ‒ disse a velha ‒, segura a lamparina a meu lado enquanto
colho as ervilhas.
O príncipe, com sua pressa habitual, apanhou a lamparina tão rapida-
mente que a chama se apagou, e levou um bom tempo até que, usando dois
carvões em brasa desenterrados das cinzas da lareira, conseguisse acendê-
-la novamente. Entretanto, após o fogo ser aceso e as ervilhas finalmente
colhidas e descascadas, estas ainda precisavam ser contadas, pois a velhi-
nha afirmara que não cozinharia mais do que 54 grãos. Em vão tentou o
príncipe mostrar-lhe o quanto estava esfomeado, que 54 ervilhas de modo
algum poderiam matar-lhe a fome, que não faria mal nenhum cozinhar
umas ervilhas a mais. Tudo em vão, e por fim o príncipe teve de contar
uma por uma as 54 ervilhas e, para piorar, na sua pressa acabou deixando
cair algumas, e por isso teve de recomeçar a contagem desde a primeira,
para certificar-se do número delas. Assim que as ervilhas estavam prontas,
a boa senhora pegou uma balança e um pão do armário, e estava prestes a
cortá-lo ao meio, quando o Príncipe Viviano, que já não aguentava mais,
tomou o pão inteiro e o devorou, em seguida retrucando:
— Paciência!
— Achas que é brincadeira ‒ disse a senhora, delicada como das ou-
tras vezes ‒, mas Paciência, na verdade, é meu nome, e algum dia saberás
mais a meu respeito.

293
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Então, depois que cada um comeu sua porção de 27 ervilhas, o Prínci-


pe, muito surpreso, se deu conta de que não sentia mais fome e, sobre seu
feixe de palha, caiu num sono tão suave como se estivesse em seu palácio.
Na manhã seguinte a senhora lhe deu pão e leite no café da manhã,
que ele tomou com satisfação, feliz por saber que não havia nada para
ser colhido, contado ou cozido; quando terminou, pediu à velhinha que
dissesse quem era.
— Farei isso com prazer ‒ respondeu ‒, mas é uma longa história.
— Ah, se é longa, não posso ouvir ‒ exclamou o príncipe.
— Ora ‒ disse a velhinha –, deverias ouvir com mais atenção o que
falam os mais velhos, e aprender a ter paciência.
— Mas… mas… ‒ disse o príncipe, com a voz mais impaciente pos-
sível ‒ os velhos não deveriam ser tão enrolões! Dize-me em que país
estou, e nada mais.
— Com prazer ‒ disse a senhora. ‒ Estás na Floresta do Pássaro
Negro; é aqui que ele anuncia seus presságios.
— Um oráculo! ‒ exclamou o príncipe. ‒ Ah! Preciso ir consultá-lo!
Em seguida tirou do bolso umas quantas moedinhas de ouro, ofere-
ceu-as à velhinha e, vendo que ela as recusava, atirou-as à mesa e partiu
como um raio, sem mesmo perguntar qual era o caminho. Escolheu a
primeira trilha que lhe apareceu à frente e seguiu ao longo dela o mais
rápido que podia; várias vezes se perdeu, tropeçou numa pedra, deu de
cara numa árvore, enquanto deixava para trás, sem arrependimento ne-
nhum, aquela cabaninha que o desagradara tanto quanto sua dona. Pou-
co depois viu à distância um enorme castelo negro, que pairava sobre a
floresta inteira. O príncipe estava seguro de que o castelo era a morada
do oráculo, e alcançou seus portões pouco antes do crepúsculo. O castelo
era todo cercado por um profundo fosso; a ponte levadiça, o portão, e
até mesmo a água do fosso, tudo tinha a mesma cor sombria das paredes
e das torres. Sobre o portão pendia um enorme sino, no qual se lia, em
letras vermelhas, a seguinte inscrição:
— Mortal: se queres conhecer teu fado, bate este sino e te sujeita
àquilo que virá a seguir.

294
O Príncipe Viviano e a Princesa Plácida

O príncipe, sem hesitar, apanhou do chão uma grande pedra e a mar-


telou energicamente contra o sino, que badalou com som grave e ter-
rível. O portão se abriu e, depois que o príncipe o transpôs, fechou-se
estrondoso como um trovão; no mesmo instante, do alto das torres e das
ameias se espalhou pelos ares uma revoada estridente de morcegos, que
escureceu o céu inteiro com sua multidão. A qualquer outra pessoa cau-
saria pavor tal visão sinistra, mas Príncipe Viviano marchou em frente
com firmeza até alcançar o segundo portão, que foi aberto por sessenta
escravos negros, cobertos da cabeça aos pés com longas capas.
Quis o príncipe conversar com eles, mas não tardou a descobrir que a
língua em que falavam era completamente desconhecida, de modo que
não entenderam uma palavra sequer do que ele dizia; o príncipe, que não
estava acostumado a guardar para si o que pensava, ficou muito incomo-
dado com isso – viu-se até mesmo com saudades de Paciência, sua velha
amiga. De toda forma, teve de seguir seus guias em silêncio, os quais
por fim o conduziram a um magnífico salão: ali o piso era de ébano, as
paredes de azeviche, e, pendurada nas paredes, a tapeçaria toda era de
veludo negro. Porém o príncipe, buscando com os olhos algo para comer,
nada encontrou, e sinalizou-lhes que estava com fome. Da mesma for-
ma, deram a entender respeitosamente ao príncipe que esperasse; depois
de muitas horas, as sessenta figuras encapuzadas e cobertas de mantos
apareceram de volta e, muito, mas muito lentamente, conduziram-no
com grande pompa até uma sala de banquete, onde todos se sentaram
ao redor de uma grande mesa. Os pratos estavam arranjados ao cen-
tro dela, e o príncipe, com seu ímpeto costumeiro, agarrou o que estava
mais próximo e tentou puxá-lo para si, mas logo descobriu que o prato
estava firmemente preso. Olhou então para seus companheiros de mesa,
lúgubres e solenes, e viu que estavam todos munidos de longos canudos,
com os quais cada um sugava lentamente sua própria porção. O príncipe
foi obrigado a fazer o mesmo, embora tal procedimento o entediasse
mortalmente. Depois da janta, voltaram ao aposento de ébano da mesma
forma como vieram; lá o Príncipe Viviano foi obrigado a observar as
intermináveis partidas de xadrez de seus companheiros, e foi só quando

295
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

estava quase morrendo de sono que eles, lenta e cerimoniosamente como


sempre, levaram-no a seu quarto de dormir. A esperança de consultar o
oráculo tirou o Príncipe Viviano da cama bem cedo na manhã seguinte,
e, antes de mais nada, exigiu que o levassem à presença daquele. Seus
atendentes, contudo, sem ao menos responder, conduziram-no a uma
imensa banheira de mármore, muito rasa numa ponta e bem funda na
outra, e deram-lhe a entender que entrasse. Quando o príncipe, com toda
a disposição, já estava a ponto de saltar na banheira, eles o detiveram
firme e delicadamente, permitindo apenas que colocasse os pés na parte
rasa, cuja profundidade não excedia uma polegada. Ele ficou quase louco
de impaciência quando soube que o mesmo processo se repetiria todos
os dias, independentemente do que dissesse ou fizesse, e que avançaria
polegada por polegada banheira adentro. Assim foi, e por sessenta dias
o príncipe teve de viver em perpétuo silêncio, ser conduzido de um lado
a outro cerimoniosamente, sugar todas as refeições através de um longo
canudo e observar infindáveis partidas de xadrez, jogo que detestava mais
do que qualquer outro. Por fim, a água chegou à altura de seu queixo, e
seu banho estava completo. Nesse dia, os escravos, em suas capas negras,
estenderam longos bastões sobre sua cabeça, e com o príncipe em meio a
eles, marcharam numa lenta procissão entoando um cântico melancólico;
finalmente, chegaram a um portão de ferro que levava a uma espécie de
templo. Ao som do cântico, outro bando de escravos apareceu e se apos-
sou do infeliz Viviano.
Os escravos deste novo grupo pareciam-lhe em tudo iguais aos que
acabara de deixar, a não ser pelo fato de que caminhavam ainda mais
lentamente, e cada um segurava um corvo sobre o pulso, cujos ásperos
grasnados ressoavam por aquelas paredes sombrias. Com o príncipe se-
guro pelo braço, menos para honrá-lo do que para conter sua impaci-
ência, subiram lentamente as escadas do templo; ao chegarem ao topo,
pensou o príncipe que sua longa espera estivesse perto do fim. Mas, ao
contrário, depois de o amortalharem lentamente com um manto negro
igual aos seus, conduziram-no ao interior do templo, onde foi obrigado
a assistir a um sem-número de cerimônias e longos rituais. A esta altura

296
O Príncipe Viviano e a Princesa Plácida

a impaciente inquietude de Viviano reduziu-se a uma submissa fadi-


ga: bocejava frequentemente e de maneira espalhafatosa, mas ninguém
prestava atenção, até que, fitando já desesperançado a cortina negra
estendida à sua frente, mal pôde acreditar em seus olhos quando de
pronto ela começou a abrir-se, revelando o Pássaro Negro. Era enorme
e estava empoleirado numa barra de ferro muito grossa que ia de uma
parede à outra do templo. Ante esta visão, todos os escravos caíram de
joelhos e esconderam os rostos; o pássaro, depois de três vezes bater as
pujantes asas, proferiu distintamente, na língua de Príncipe Viviano, as
seguintes palavras:
— Príncipe, tua felicidade depende inteiramente daquela que, de to-
das as coisas, é a mais contrária a tua natureza.
A cortina fechou-se sobre o pássaro uma vez mais, e o príncipe, de-
pois de muitas cerimônias, foi presenteado com um corvo, que ficou em-
poleirado em seu pulso, e foi conduzido lentamente de volta ao portão
de ferro. Nesse momento o corvo o deixou, e o príncipe foi novamen-
te entregue aos cuidados do primeiro grupo de escravos, enquanto um
grande morcego, por sua própria vontade, sacudiu as asas e pousou sobre
sua cabeça. O príncipe então foi levado de volta à banheira de mármore
e teve que repetir uma vez mais todo o processo, começando, desta vez,
da parte mais profunda para voltar gradativamente à mais rasa, uma
polegada por dia. Quando o processo chegou ao fim, os escravos o es-
coltaram ao portão externo, e se despediram dele com todo respeito e
polidez; receio, porém, que o príncipe lhes tenha respondido com in-
diferença, pois, tão logo abriram-se os portões, correu para longe, sem
outra intenção senão distanciar-se o mais possível daquele pavoroso lu-
gar, no qual se aventurara a entrar tão precipitadamente — apenas para
consultar um oráculo enfadonho que, ao fim das contas, não lhe dissera
coisa alguma. O príncipe chegou a considerar por cinco segundos como
fora tolo e concluiu que, em alguns momentos, talvez seja aconselhável
pensar antes de agir.
Depois de vaguear pela floresta por vários dias até ficar cansado e
faminto, conseguiu por fim sair dela, e logo veio dar a um largo e rápido

297
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

rio, cujas margens acompanhou na esperança de achar um ponto onde


o pudesse atravessar. Pois bem: quando o sol nasceu na manhã seguinte,
o príncipe avistou alguma coisa de uma brancura atordoante atracada
em meio à correnteza. Assim que olhou mais de perto, percebeu que era
um dos mais lindos navios que já vira, e que seu bote estava amarrado a
uma ribeira próxima. O príncipe foi tomado imediatamente de um forte
desejo de embarcar no navio; soltou um grito para que sua tripulação
o notasse, entretanto ninguém respondeu. Então saltou para o bote e
saiu remando com facilidade, já que o bote, que era feito de papel bran-
co, era tão leve quanto uma pétala de rosa. O navio, como descobriu o
príncipe assim que o alcançou, também era feito de papel branco. Ao
embarcar, não viu a bordo viva alma, mas, como houvesse uma caminha
aconchegante na cabine e uma boa provisão de comidas e bebidas, de-
cidiu aproveitar a oportunidade até que algo novo surgisse. Por causa da
primorosa educação que recebera na corte do Rei Gredelém, o príncipe
era bem versado na arte de navegar; porém, assim que zarpou, a cor-
renteza arrastou a embarcação com tal velocidade que Viviano logo se
viu em alto-mar. Em seguida um vento soprou de popa e o empurrou
até perder a terra de vista. A essa altura o príncipe já estava um pouco
apreensivo e fez o que pôde para virar o barco e levá-lo de volta ao rio,
mas o vento e a correnteza eram fortes demais. Então pensou em todas
as vezes, desde a tenra infância, em que fora alertado para não brincar
com água. Mas já era demasiado tarde, e agora tudo o que lhe restava
era desejar em vão que tivesse ficado em terra e entediar-se do barco, do
mar e de tudo que lhes dissesse respeito – e assim passou muito tempo,
com esses sentimentos no coração. Para dar o toque final à sua desfor-
tuna, em seguida viu-se numa calmaria no meio do oceano, o que seria
uma provação até para o mais paciente dos homens – então já imaginais
como foi para o Príncipe Viviano! O coitado chegou a desejar que esti-
vesse de volta no Castelo do Pássaro Negro, porque ali ao menos havia
seres vivos, ao passo que no barco de papel branco estava absolutamente
sozinho e não fazia ideia de como escapar daquela tediosa prisão. Con-
tudo, depois de muito tempo, viu terra e, de tão impaciente que estava

298
O Príncipe Viviano e a Princesa Plácida

para chegar à praia, sem demora pulou para fora do navio, pensando que
chegaria mais rápido a nado. Mas de nada adiantou, pois, por mais longe
que pulasse para fora do navio, o convés sempre voltava para debaixo
de seus pés antes de atingir a água; resignou-se, portanto, a seu destino
e esperou, reunindo toda sua paciência, até que os ventos e as ondas
levassem o barco a uma espécie de porto natural que se estendia terra
adentro. Depois do longo cativeiro em alto-mar, o príncipe deleitou-se
por ver, ao longo das margens, imensas árvores cujos ramos se pendiam
até a água; e, depois de saltar à terra, não tardou em perder-se na densa
floresta. Após percorrer longo caminho, parou a descansar junto a uma
fonte de água límpida; porém, recém havia deitado sobre o musgo da
ribeira quando ouviu um ruidoso farfalhar vindo de uns arbustos próxi-
mos. Do meio deles pulou uma linda gazelinha, que, exausta e ofegante,
caiu a seus pés, arfando:
— Ó, Viviano! Salva-me!
O príncipe, estupefato, ergueu-se num sobressalto e mal teve tempo
de puxar a espada, quando se viu frente a frente com um grande leão ver-
de, que corria ao encalço da pobre gazelinha numa perseguição frenética.
Príncipe Viviano o atacou intrepidamente, e seguiu-se um feroz embate;
não demorou, contudo, a terminar, pois logo em seguida o príncipe final-
mente derrubou o leão com um terrível golpe. Ao cair, o leão assobiou
três vezes, e com tanta força que a floresta ecoou os assobios, e o som foi
ouvido por mais de duas léguas de distância; depois, nada mais tendo a
fazer, o leão rolou de lado e morreu. O príncipe, sem prestar mais atenção
à fera e seus assobios, voltou-se para a graciosa gazela e disse:
— Pois bem! Estás satisfeita agora? Já que sabes falar, dize-me agora
mesmo, por favor, o que está acontecendo e como sabes meu nome.
— Ah, mas preciso descansar um bom tempo antes de voltar a falar
‒ replicou a gazela. ‒ Além do quê, duvido muito que queiras me ouvir,
pois a coisa está longe de ter chegado ao fim. Para falar a verdade ‒ con-
tinuou ela, em sua voz lânguida ‒, dá uma olhadinha atrás de ti.
O príncipe virou-se bruscamente e, para seu horror, viu um enorme
gigante aproximando-se a passos largos e gritando ferozmente:

299
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Quem fez meu leão assobiar, quero saber!


— Fui eu ‒ respondeu corajosamente o Príncipe Viviano ‒, mas te
garanto que ele não fará isso de novo.
Ao ouvir estas palavras, o gigante começou a gemer e chorar.
— Ai de mim, meu pobre Pequerrucho, meu querido bichinho! ‒ ex-
clamou. ‒ Mas ao menos poderei me vingar de tua morte!
Ditas estas palavras, avançou sobre o príncipe, brandindo uma imen-
sa serpente enrolada no pulso. O príncipe calmamente virou contra ela
a espada para desferir um tremendo golpe; bastou, contudo, tocar a ser-
pente para que esta se transformasse em gigante e o gigante se transfor-
masse em serpente, com tal rapidez que deixou o príncipe tonto. Isto se
repetiu uma meia dúzia de vezes, até que enfim, com um golpe certeiro,
Viviano cortou a serpente pela metade; depois pegou uma das meta-
des da serpente e a arremessou com toda a força no nariz do gigante,
que caiu duro em cima do leão. No mesmo instante uma nuvem negra
e espessa surgiu sobre os monstros, tapando-os completamente; assim
que se dissipou, os dois haviam desaparecido. O príncipe, sem ao menos
embainhar a espada, correu de volta à gazela, gritando:
— Já tiveste bastante tempo para descansar e não tens nada mais a
temer, então me conta quem és e o que esse gigante horrendo, com seu
leão e sua serpente, tem a ver contigo; e sê rápida, pelo amor de Deus!
— Contarei com prazer ‒ respondeu ela ‒, mas por que a pressa?
Quero que venhas comigo ao Castelo Verde, mas não quero ir caminhan-
do, porque o lugar é tão distante, e caminhar, tão cansativo…
— Partamos de uma vez então ‒ respondeu o príncipe com severida-
de ‒, que do contrário terei de deixar-te aqui. Não se envergonha uma
gazela jovem e vigorosa como tu de recusar-se a caminhar um pouco?
Quanto mais distante for esse castelo, mais rápido teremos de caminhar,
mas, como isso não te agrada, prometo que iremos lentamente; podemos
conversar ao longo do caminho.
— Eu prefiriria que me carregasses ‒ disse ela, docemente ‒, mas
como não quero dar trabalho a ninguém, podes me carregar, e aquele
caracol pode carregar a ti.

300
O Príncipe Viviano e a Princesa Plácida

Assim dizendo, apontou languidamente com um dos cascos em di-


reção a algo que o príncipe pensara ser uma pedra, mas que, olhando
novamente, viu ser um enorme caracol.
— Como é? Eu, montar num caracol?! ‒ exclamou o príncipe. ‒
Estás rindo da minha cara. Além disso, nos levará pelo menos um ano
até chegarmos.
— Ah, então esquece ‒ replicou a gazela ‒, não me importo de ficar
aqui. A grama é verde, a água é límpida… Mas se eu fosse tu, aceitaria
meu conselho e montaria o caracol.
Então, embora muito o desagradasse, o príncipe tomou a gazela
nos braços e montou no caracol; este se foi, deslizando muito calma-
mente, e não se apressava com as batidas que o príncipe lhe dava com

301
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

o calcanhar. Em vão tentou a gazela mostrar ao príncipe que a viagem


muito a agradava, e que este era o melhor meio de transporte que co-
nhecia. O Príncipe Viviano, louco de impaciência, achava que jamais
alcançariam o Castelo Verde. Porém, enfim o alcançaram, e todos os
que estavam nele acorreram para ver o príncipe apear de sua peculiar
montaria. Mas qual não foi a surpresa do príncipe quando, a pedido da
gazela, ele a colocou delicadamente nos degraus que levavam ao castelo,
e viu-a de repente transformar-se numa princesa encantadora, a quem
reconheceu ser Plácida, sua graciosa priminha, que o saudou com sua
doce tranquilidade costumeira. O príncipe não se conteve de tanta ale-
gria e a seguiu sequiosamente para dentro do castelo, ansioso por saber
que acasos a levaram a tal lugar. Mas, no fim das contas, teve que espe-
rar para ouvir a história da princesa, pois os habitantes da Terra Verde,
ao ouvir que o gigante estava morto, prontamente ofereceram o reino
para o matador do monstro, e o príncipe teve que escutar várias arengas
elogiosas, que lhe tomaram bastante tempo, por mais que as tentasse
encurtar dentro dos limites da polidez – ou até mesmo fora deles. Mas
afinal conseguiu se desvencilhar de todos para ir ter com Plácida, que
imediatamente desatou a contar suas aventuras.
— Depois que foste embora, tentaram me ensinar a governar o reino,
o que me entediou mortalmente, de modo que implorei e supliquei a
Lolota que me levasse embora com ela, o que fez imediatamente, embo-
ra muito a contragosto. Assim, depois que, deitada em meu sofá favorito,
fui levada à sua gruta, passei lá muitos dias deliciosos, repousando sob
uma luz verde que era como a das faias na primavera, ouvindo o murmú-
rio das abelhas e o burburinho das cascatas. Mas ai! Lolota foi obrigada
a participar da Assembleia Geral das Fadas, e voltou muito cabisbaixa,
dizendo que sua complacência para comigo lhe havia custado caro, pois
fora repreendida severamente e recebera ordens para me entregar à Fada
Mirlifiche, que já estava havia tempos encarregada de ti, e fora muito
elogiada pela forma como te conduziu.
— E que bela condução ‒ interrompeu o príncipe ‒, se é a ela que
devo todas as aventuras pelas quais passei! Mas continua a contar tua

302
O Príncipe Viviano e a Princesa Plácida

história, prima. Te contarei dos meus feitos depois, e então poderás jul-
gar por ti mesma.
“Primeiramente, muito me entristeci por ver chorar Lolota ‒ conti-
nuou a princesa ‒, mas logo me dei conta de que ficar triste dá muito
trabalho, então achei melhor acalmar-me; em pouco tempo vi chegar
a Fada Mirlifiche, montada em seu magnífico unicórnio. Ela parou na
entrada da gruta e pediu a Lolota que me trouxesse a sua presença, o que
fez minha fada chorar mais do que nunca e beijar-me não sei quantas
vezes; no entanto não ousou desobedecer. Fui alçada ao dorso do uni-
córnio, atrás de Mirlifiche, que assim me disse:
“— Agarra-te bem a mim, garotinha, se não queres quebrar o pescoço.
“E tive mesmo que me segurar com toda a força, pois seu terrível cor-
cel galopava tão violentamente que até perdi o fôlego. Por fim paramos
em uma grande fazenda, e o fazendeiro e sua mulher correram até nós
tão logo viram a fada, e nos ajudaram a apear.
“Fiquei sabendo que eles eram na verdade um rei e uma rainha a
quem as fadas puniram por sua ignorância e preguiça. Como podes ima-
ginar, a essa altura eu estava morta de cansaço, mas Mirlifiche insistiu
que, antes de mais nada, eu desse de comer a seu unicórnio. Para tanto,
tive que subir uma longa escada até o celeiro, e descer vinte e quatro
vezes com as mãos cheias de feno. Nunca, jamais, haviam me dado ta-
refa tão ingrata! Só de pensar nela tenho calafrios, mas não foi tudo.
Da mesma forma tive que levar feno ao estábulo vinte e quatro vezes; e
então já era a hora de jantar, e tive que servir a janta aos outros. Depois
de tanto trabalho, achei que já merecia ir descansar placidamente na
minha caminha, mas quê, nem pensar! Antes de tudo tive que fazer mi-
nha própria cama, pois estava toda desarrumada, e depois tive que fazer
a cama da fada, aconchegá-la e fechar o dossel a sua volta, além de lhe
prestar vários servicinhos com os quais não estava nem um pouco acos-
tumada. Por fim, já exausta de tanto trabalhar, era a minha vez de ir para
a cama, mas, como eu nunca houvesse me despido por conta própria,
não sabia por onde começar, e, assim, acabei me deitando como estava.
Infelizmente, a fada se deu conta disso e, no exato momento em que o

303
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

sono começava a me embalar, tirou-me da cama novamente. Consegui


despistá-la outra vez e, para dormir, só tirei a sobreveste. Cá entre nós,
sempre chego à conclusão que a desobediência vale a pena. Por mais que
eu seja repreendida, consigo assim poupar muitos esforços.
“Ao raiar do dia seguinte, Mirlifiche me despertou e me obrigou a ir
várias vezes até o estábulo para lhe informar como dormira seu unicór-
nio, quanto feno comera, que horas eram, se o dia estava bonito… Eu era
tão lerda e cumpria minhas tarefas tão mal, que a fada, antes de partir,
chamou o rei e a rainha e lhes disse:
“— Estou bem mais satisfeita convosco este ano. Continuai a dedi-
car-vos a vossa fazenda com diligência, se quereis voltar a vosso reino, e
cuidai desta princesinha para mim; ensinai-a a ser útil, para que, quando
eu voltar, encontre-a livre de seus defeitos. Do contrário…
“Neste ponto ela interrompeu seu discurso com um olhar muito sig-
nificativo, montou em meu inimigo, o unicórnio, e rapidamente desa-
pareceu.
“Então o rei e a rainha, dirigindo-se a mim, perguntaram quais eram
as minhas habilidades.
“— Nenhuma, eu vos garanto ‒ respondi, em um tom que eu esta-
va certa de que os convenceria, mas eles seguiram descrevendo vários
serviços, e buscavam saber qual deles seria mais do meu feitio. No fim,
contudo, convenci-os de que não fazer absolutamente nada era só o que
me interessava, e que, se realmente me queriam bem, me deixariam ir
para cama dormir, sem insistir que eu fizesse nada. Para minha grande
alegria, não apenas o permitiram, como também, na hora das refeições,
a rainha passou a trazer o prato a minha cama. Mas na manhã seguinte,
bem cedo, ela veio e disse, como quem pede desculpas:
“— Filhinha, receio que devas tomar a resolução de te levantares
hoje. Sei muito bem como é gostoso o ócio absoluto, pois, quando eu e
meu marido éramos soberanos, nada fazíamos da manhã até a noite, e
espero sinceramente que não tardem a voltar aqueles dias felizes. Mas
por enquanto eles não voltaram a nós nem a ti, e sabes, pelo que disse
a fada, que talvez coisas ainda piores nos aconteçam se não lhe obede-

304
O Príncipe Viviano e a Princesa Plácida

cermos. Apressa-te, suplico, e desce para tomar o café da manhã, que


separei uma nata deliciosa para ti.
“Tudo aquilo me aborreceu muito, mas não houve jeito, tive que descer.
“Porém, assim que terminei de tomar o café da manhã, meus anfitri-
ões voltaram àquela cantilena de sempre: ‘O que farás?’
“Em vão respondi:
“— Absolutamente nada, senhora, se for de seu agrado.
“A rainha por fim deu-me um fuso e cerca de dois quilos de cânhamo
numa roca, e enviou-me aos pastos para vigiar as ovelhas, confiando-
-me que não havia ocupação mais agradável e que nela eu poderia ficar
à vontade. Fui obrigada a sair de casa bastante contrariada, como podes
imaginar; porém, nem bem havia caminhado um pequeno trecho, eis
que avisto a sombra de um barranco que me pareceu um lugar encanta-
dor. Estirei-me comodamente sobre a grama macia e, com o fardo de câ-
nhamo sob a cabeça, dormi tranquilamente, como se não houvesse ove-
lha nenhuma no mundo.As ovelhas, por sua vez, como se não houvesse
pastora, vagueavam de um lado a outro livremente e invadiram todos os
campos, pastando ao longo do caminho toda sorte de iguarias proibidas,
até que os camponeses, alarmados pelo estrago que elas faziam, ergue-
ram suas vozes, que em pouco tempo chegaram aos ouvidos do rei e da
rainha. Estes vieram correndo ver o que havia e, quando perceberam a
causa do rebuliço, apressaram-se a recolher seu rebanho. E foi bom que
o tenham feito o quanto antes, pois tiveram que ressarcir todos os da-
nos. Quanto a mim, observei-os deitada enquanto corriam de um lado
a outro, pois eu estava muito a conforto e lá teria continuado se os dois
não tivessem vindo até mim ofegantes e me obrigado a levantar e seguir
atrás deles; além disso, me repreenderam com amargor, e é desnecessário
dizer que nunca mais me confiaram seu rebanho.
“Mas, não importa o que me dessem para fazer, sempre acontecia a
mesma coisa: eu dava um jeito de arruinar tudo, e obtive tanto sucesso
em irritar até mesmo as pessoas mais pacienciosas, que certo dia fugi da
fazenda, por temer realmente que a rainha fosse obrigada a me dar uma
surra. Quando cheguei ao riacho onde o rei costumava pescar, achei um

305
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

bote amarrado a uma árvore e, após subir a bordo, o soltei, e deixei a


correnteza me levar. O bote deslizava tão suavemente pela água que não
me importei nem um pouco quando a rainha me avistou e, correndo ao
longo das margens, gritou:
“— Meu barco, meu barco! Homem, vai atrás da princesinha, que
está fugindo com o meu barco!
“Não tardou para que a correnteza deixasse seus gritos para trás. A
melodia das ondas e o sussurro das árvores embalaram meus sonhos, até
que o bote parou, e vi que estava estancado às margens de uma pradaria
verdejante, e que àquela hora o sol já raiava. Vi à distância umas casi-
nhas construídas de forma muito peculiar, e, como a essa altura estivesse
faminta, fui em sua direção; porém, após uns poucos passos, enxerguei
pelo ar um sem-número de objetos brilhantes, que pareciam pendura-
dos, sabe-se lá pelo quê.
“Aproximei-me e vi um cordão de seda que descia até o solo; então
o puxei, apenas porque já estava à mão. No mesmo instante ressoou
pelo prado o badalar melodioso de sinos prateados; e o som era tão har-
monioso que me sentei para escutar e para contemplá-los balançando
e cintilando sob os raios do sol. Antes que o som cessasse, surgiu uma
revoada de pássaros, os quais, empoleirando-se cada um sobre um sino
diferente, juntaram ao concerto seu próprio canto gracioso. Quando
terminaram, levantei os olhos e vi aproximar-se de mim uma senhora
majestosa e alta, cercada e seguida por um bando de pássaros de todas
as espécies.
“— Quem és tu, mocinha ‒ disse ela ‒, que te atreves a vir aonde não
deixo viver nenhum mortal, para que não se perturbem meus pássaros?
No entanto, se tiveres alguma utilidade ‒ acrescentou ‒, talvez eu ature
tua presença.
“— Senhora ‒ respondi, levantando-me ‒, podes ter certeza de que
nada que eu fizer assustará teus pássaros. Apenas imploro, pelo amor de
Deus, que me dês algo de comer.
“— Assim farei ‒ respondeu ‒ e depois te mandarei para onde me-
reces ir.

306
O Príncipe Viviano e a Princesa Plácida

“Assim dizendo, despachou seis gaios, que eram seus pajens, para bus-
car todo tipo de biscoito, enquanto outros pássaros traziam frutas madu-
ras. Tomei, é verdade, um delicioso café da manhã, embora não me agrade
ser servida com tanta rapidez. Não gosto nem um pouco que me apressem.
Ocorreu-me que seria muito gostoso ficar em um país tão aprazível, e as-
sim falei à majestosa senhora, mas ela, com o maior desdém, respondeu:
“— Achas mesmo que te quero manter aqui? A ti?! Ora, em que se-
rias útil a este país, onde são todos tão prestativos e ocupados? Não, não:
já mostrei toda a hospitalidade que te posso conceder.
“Ditas estas palavras, ela se virou e puxou vigorosamente o cordão de
seda de que antes falei; porém, em vez de um badalar melodioso, ressoou
um clangor horrível que muito me assustou, e instantaneamente surgiu
um enorme Pássaro Negro que, pousado aos pés da fada, disse, em sua
voz sinistra:
“— O que queres de mim, irmã?
“— Quero que leves imediatamente esta princesinha a meu primo, o
Gigante do Castelo Verde ‒ respondeu ela ‒ e que peças a ele, em meu
nome, que a faça trabalhar noite e dia em sua linda tapeçaria.
“Ao terminar de ouvi-la, o grande pássaro me apanhou do chão, ape-
sar dos meus protestos, e saiu voando a uma velocidade alucinante…”
— Ah, priminha, só podes estar brincando! ‒ interrompeu o Príncipe
Viviano. ‒ Queres dizer “numa maçante vagareza”. Conheço esse terrível
Pássaro Negro, e sei o quanto é lento em tudo o que faz.
“— Como queiras ‒ respondeu Plácida, tranquilamente. ‒ Não su-
porto discussões. Talvez nem fosse o mesmo pássaro. De todo modo, ele
me levou embora a uma velocidade prodigiosa e me depositou delicada-
mente neste castelo, o mesmo que agora te pertence. Entramos por uma
das janelas, e o pássaro, depois que me entregou ao gigante (do qual,
felizmente, me livraste) e lhe repassou o recado da fada, foi-se embora.
“Então o gigante, dirigindo-se a mim, falou:
“— És então uma desocupada? Ah, pois bem, te ensinaremos o que é
trabalhar. Não serás a primeira a quem teremos curado da preguiça. Vê
como andam ocupados todos os meus hóspedes.

307
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

“Assim que o gigante terminou de falar, levantei os olhos e vi que


todas as paredes do salão estavam revestidas de teares de tapeçaria, e,
colocadas à frente delas, havia rocas, meadas de lã, estampas, e os demais
instrumentos do ofício. Diante de cada tear, estavam sentadas cerca de
doze pessoas trabalhando com afinco. Ante esta visão terrível, desmaiei,
e, assim que me recobrei, puseram-se a perguntar o que eu sabia fazer.
“Em vão respondi como antes, desejosa de que me levassem a sério:
“— Absolutamente nada.
“O gigante apenas respondeu:
“— Então deves aprender algum ofício: neste mundo há trabalho
para todos.
“Vi que bordavam na tapeçaria as histórias favoritas das fadas, e ten-
taram ensinar-me a ajudá-los, porém, desde a primeira aula – quando
começaram a ensinar-me o ofício – fui cada vez mais para baixo e nem
mesmo os pontos mais simples eu conseguia aprender. Em vão me casti-
garam com todos os métodos de costume. Em vão mostrou-me o gigan-
te o seu viveiro de animais, composto inteiramente de crianças que se
recusavam a trabalhar. Nada adiantava, e por fim fui rebaixada a carregar
a água para o tingimento da lã. Mesmo neste trabalho, porém, eu era tão
lerda que hoje de manhã mesmo o gigante, enfurecido, transformou -me
em gazela. Estava para me colocar no viveiro quando, por acaso, avistei
um cão, e fiquei tão apavorada que saí correndo à máxima velocidade,
conseguindo escapar pelo pátio externo do castelo. O gigante, temendo
me perder de uma vez por todas, mandou seu leão verde atrás de mim,
para que me trouxesse de volta, custasse o que custasse; e sem dúvida eu
me deixaria capturar, devorar, ou qualquer outra coisa, em vez de con-
tinuar correndo, se não houvesse tido a sorte de te encontrar perto da
fonte. E, ufa! ‒ concluía a princesa. ‒ Como estou feliz de mais uma vez
sentar quieta e descansar em paz. Eu estava tão cansada de ser obrigada
a aprender coisas novas!”
Príncipe Viviano disse a ela que, de sua parte, havia estado por de-
mais inativo, e não achara isso em nada divertido. Então lhe relatou
todas suas aventuras num só fôlego. Falou tudo: como encontrara abrigo

308
O Príncipe Viviano e a Princesa Plácida

na casa da Senhora Paciência, como consultara o oráculo, como nave-


gara no barco de papel. Depois os dois foram, de mãos dadas, libertar
todos os prisioneiros do castelo e todos os príncipes e princesas enjau-
lados no viveiro, os quais, assim que o Gigante Verde morrera, haviam
recuperado sua forma original. Como é de supor, estavam todos muito
gratos, e a Princesa Plácida lhes rogou que nunca, nunca mais nas suas
vidas mexessem sequer um dedo para trabalhar. Todos prontamente
acenderam uma fogueira no pátio e queimaram solenemente todos os
teares e rocas de fiar. A princesa deu-lhes então uns esplêndidos pre-
sentes, ou melhor, ficou sentada, enquanto era o Príncipe Viviano que
os distribuía, e houve grande regozijo no castelo, onde todos esforça-
ram-se ao máximo para agradar o príncipe e a princesa. Mas, apesar
das boas intenções, acabaram cometendo muitos enganos, pois Viviano
e Plácida estavam sempre em desacordo quanto ao que queriam; por
isso, ninguém sabia o que fazer, e com frequência cumpriam as ordens
do príncipe muito vagarosamente, ou se apressavam como um raio para
fazer o que a princesa sequer havia pedido; e assim foi, até que, com o
tempo, os primos começaram a consultar um ao outro e consolar-se por
seus desapontamentos; por fim, passaram a gostar-se tanto que, pelo
bem de Plácida, Viviano tornou-se paciente, e, pelo bem de Viviano,
Plácida fez esforços como nunca antes. Agora, porém, as fadas, que vi-
nham observando todo esse desenvolvimento com interesse, pensaram
ser hora de intervir e certificar-se, por meio de novas provações, de que
esse progresso teria continuidade, e de que os dois realmente se ama-
vam. Então fizeram com que Plácida parecesse atacada de uma febre
violenta, e que Viviano parecesse debilitado e cada dia mais abatido, de
modo que ficassem muito preocupados um com o outro. Assim, numa
ocasião em que os dois não estavam juntos, a Fada Mirlifiche apareceu
subitamente diante de Plácida e disse:
— Acabo de ver o Príncipe Viviano, que me parece muito doente.
— Ai! É verdade, senhora ‒ respondeu a princesa ‒, e se o curares,
deixo que me leves de volta à fazenda ou que ressuscites o Gigante Ver-
de, e verás como serei obediente.

309
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Se queres de verdade que o príncipe se recupere ‒ fez a fada ‒,


deves capturar o Rato-que-Trota e o Tentilhão-em-Voo e trazê-los até
mim; mas lembra-te que não há tempo a perder!
Mal terminava a fada de falar essas palavras, a princesa disparou
para fora do castelo; e a fada, que a observou até perdê-la de vista,
deu uma risadinha e foi atrás do príncipe. Este suplicou-lhe do fundo
do coração que o mandasse de volta ao Castelo Negro, ou mesmo ao
barco de papel, desde que salvasse a vida de Plácida. A fada balançou a
cabeça com ar sério. Concordou com o príncipe: o estado da princesa
era, de fato, grave.
— Contudo ‒ disse ‒, se encontrares a Toupeira-Cor-de-Rosa e a
deres à princesa, ela se recobrará.
Era agora a vez de o príncipe sair em disparada, só que, mal saiu
do castelo, foi em direção oposta à de Plácida. Pois bem, podeis ima-
ginar como os dois devotos namorados perseguiram sua caça noite e
dia. A princesa, no mato, sempre correndo, sempre atenta, perseguia
avidamente aquelas duas criaturas, sem nunca desistir, por mais que se
esquivassem à captura. O príncipe, por seu turno, perambulava sem ces-
sar pelas pradarias, os olhos fixos ao chão, atento a cada movimento de
toupeira. Foi obrigado a andar muito vagarosamente, na ponta dos pés,
mal se atrevendo a respirar. Às vezes ficava horas parado, imóvel como
uma estátua, e, no que dependesse de sua vontade, em breve estaria de
posse da Toupeira-Cor-de-Rosa. Mas, infelizmente, só conseguiu cap-
turar toupeiras pretas e bem comuns; mesmo assim, por estranho que
pareça, jamais ficou impaciente, e estava sempre disposto a retomar sua
tediosa caçada. Não estranheis, contudo, pois essa mudança de caráter
é um dos milagres mais corriqueiros do amor. Nem o príncipe nem a
princesa pensaram em outra coisa senão chegar ao fim de suas emprei-
tadas. Sequer lhes passou pela cabeça indagar em que país tinham ido
parar. Podeis então adivinhar como ficaram espantados quando um dia,
depois de alcançarem os objetos de suas tão longas e cansativas caçadas,
exclamaram ao mesmo tempo:
— Enfim, salvei meu amor!

310
O Príncipe Viviano e a Princesa Plácida

E, reconhecendo um a voz do outro, levantaram os olhos e correram


para se abraçar com uma alegria desenfreada. O espanto os manteve
silenciosos enquanto, por um delicioso momento, ficaram a fitar nos
olhos um do outro; logo em seguida não é que aparece o Rei Gredelém
– pois tinham ido parar em seu reino! Ele também os reconheceu, e
com grande alegria lhes deu boas-vindas; mas, quando se viraram para
ver a Toupeira-Cor-de-Rosa, o Tentilhão-em-Voo, e o Rato-que-Trota,
estes haviam desaparecido, e no lugar deles havia uma bela senhora
(que os dois apaixonados desconheciam), o Pássaro Negro e o Gigante
Verde. O Rei Gredelém, assim que olhou para a senhora, pegou-a nos
braços com gritos de alegria, pois era ninguém menos que Santorina,
sua esposa, que havia muito desaparecera, e sobre cuja prisão na Terra
das Fadas talvez um dia possais ler.
Então o Pássaro Negro e o Gigante Verde voltaram às suas formas
originais (pois eram feiticeiros), e Lolota e Mirlifiche lá se foram pelos
ares em suas carruagens encantadas. Seguiram-se muitos beijos e felici-
tações, pois todos haviam recuperado alguém que amavam – até mesmo
os feiticeiros, pois amavam de coração suas formas originais.
O Rei Gredelém e a Rainha Santorina depois de todas aquelas expe-
riências, não tinham a menor vontade de continuar governando. Então
se aposentaram e foram morar num lugar tranquilo, deixando o reino
ao príncipe e à princesa, que eram amados por todos seus súditos e
encontraram a maior felicidade de suas vidas em fazer felizes as vidas
dos outros.*

* Conde de Caylus.

311
A Pequena Um-Olho,
a Pequena Dois-Olhos e
a Pequena Três-Olhos

ra uma vez uma mulher que tinha três filhas.


A filha mais velha chamava-se Pequena Um-Olho,
porque possuía apenas um olho, localizado no
meio da fronte; a segunda filha, Pequena Dois-
Olhos, pois possuía dois olhos, como toda a gen-
te; e a terceira e mais nova, Pequena Três-Olhos,
pois possuía três olhos, sendo o terceiro também localizado no meio
da fronte. Mas a Pequena Dois-Olhos, por assemelhar-se às outras
crianças, era um estorvo para sua mãe e suas irmãs, que não a podiam
tolerar, e diziam-lhe:
— Tu, com esses dois olhos, não és melhor do que a gente comum,
não és como nós.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Davam-lhe empurrões, atiravam-lhe as roupas esfarrapadas pelo


chão, e, para comer, a Pequena Dois-Olhos contava apenas com as so-
bras que a mãe e as irmãs rejeitavam – dispensavam-lhe, enfim, o pior
tratamento possível.
Certo dia a Pequena Dois-Olhos teve de sair a pastorear a cabra,
mas estava faminta, pois suas irmãs haviam-lhe dado muito pouco que
comer. Então, sentou-se no meio da campina e desatou a chorar, e tanto
chorou, que suas lágrimas formaram dois regatos. Quando olhou para
cima, com os olhos embaciados de lamento, viu uma senhora ao seu
lado, que então lhe perguntou:
— Pequena Dois-Olhos, por que choras?
A menina respondeu:
— E não tenho motivos para chorar? Choro porque possuo dois
olhos, como toda a gente, minhas irmãs e minha mãe não me toleram
– dão-me empurrões de um lado para o outro – e, para comer, nada me
resta senão as sobras que enjeitaram. Hoje deram-me tão pouca comida,
que estou faminta.
Então a sábia senhora lhe disse:
— Pequena Dois-Olhos, enxuga tuas lágrimas e te mostrarei como
jamais sentir fome outra vez. Dize simplesmente à tua cabra:

Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, sai do escondido,

e uma mesa lindamente disposta aparecerá diante de ti, com deli-


ciosos manjares, para que possas comer à vontade. E, quando ficares
saciada, basta que digas:

Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, vai p’ro escondido,

e então ela desaparecerá.


Tendo dito isso, a sábia senhora foi-se embora. Mas a Pequena Dois-
Olhos pensou:
— Testarei imediatamente se isto é verdade, pois jamais senti tanta
fome quanto agora.
E então disse:

314
A Pequena Um-Olho

315
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, sai do escondido.


Mal acabara de pronunciar as palavras, surgiu diante dela uma peque-
na mesa coberta com um forro branco, sobre o qual estavam dispostos
um prato, um garfo, uma faca e uma colher de prata, além dos mais belos
manjares, fumegantes como se tivessem acabado de sair do forno. Então
a Pequena Dois-Olhos fez a oração mais curta que sabia de cor e pôs-se
a comer, refestelando-se com aquele jantar tão agradável. Sentindo-se
satisfeita, pronunciou a fórmula que a sábia senhora lhe ensinara:
— Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, vai p’ro escondido.
E imediatamente a mesa e tudo quanto estava sobre ela desapareceu.
— Mas isto é a maravilha da vida doméstica! – pensou a Pequena
Dois-Olhos, sentindo-se muito feliz e satisfeita.
À noitinha, quando tomou o rumo de casa com sua cabra, deparou-se
com um pratinho de barro contendo a comida que suas irmãs haviam
lhe atirado, mas sequer tocou nele. No dia seguinte, saiu novamente com
sua cabra, deixando intocados os restos que lhe cabiam. A princípio suas
irmãs nada notaram, mas, como o comportamento se reiterasse, por fim
perceberam algo estranho e disseram:
— Qual o problema com a Pequena Dois-Olhos? Ela agora nem
toca em sua comida, logo ela, que antes devorava tudo o que lhe dáva-
mos. Certamente encontrou outra maneira de obter alimento.
Então, a fim de descobrir a verdade, ficou decidido que a Pequena
Um-Olho acompanharia a Pequena Dois-Olhos no pastoreio da cabra,
prestando especial atenção ao que sucederia ali, e se alguém lhe daria
comida ou bebida.
Ora, estava a Pequena Dois-Olhos prestes a partir, quando a Pequena
Um-Olho aproximou-se e disse:
— Irei contigo para ver se cuidas bem da cabra e se a conduzes ao
pasto como se deve fazer.
Porém, a Pequena Dois-Olhos percebeu o que a Pequena Um-Olho
tinha em mente, e então conduziu a cabra até onde a relva ia alta e disse:
— Vem, Pequena Um-Olho. Sentemo-nos aqui, e cantar-te-ei uma
cantiga.

316
A Pequena Um-Olho

A Pequena Um-Olho assentou-se e, exausta devido à longa caminha-


da – à qual não estava habituada – e ao calor intenso, e porque a Pequena
Dois-Olhos entoou uma cantiga – “Pequena Um-Olho, estás acordada?
Pequena Um-Olho, estás a dormir?” –, cerrou seu único olho e adorme-
ceu. Quando a Pequena Dois-Olhos viu que a Pequena Um-Olho caíra
no sono e já não podia ver nada, disse:
— Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, sai do escondido.
E sentou-se à mesa, comeu e bebeu até ficar satisfeita. Terminada a
refeição, disse:
— Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, vai p’ro escondido.
E, num piscar de olhos, tudo havia desaparecido.
A Pequena Dois-Olhos então despertou a Pequena Um-Olho e
disse-lhe:
— Pequena Um-Olho, vieste para observar, mas, em vez disso, pe-
gaste no sono. Enquanto isso a cabra deve ter percorrido meio mundo.
Vem, vamos para casa.
Voltaram para casa, e a Pequena Dois-Olhos mais uma vez não tocou
no prato, e a Pequena Um-Olho não sabia dizer à sua mãe o porquê, e
justificou-se dizendo:
— É que fiquei tão sonolenta lá na campina…
No dia seguinte, a mãe disse à Pequena Três-Olhos:
— Desta vez, tu acompanharás a Pequena Dois-Olhos a fim de des-
cobrir se ela faz alguma refeição na campina e se alguém lhe oferece
comida e bebida, pois ela deve comer e beber às escondidas.
Então a Pequena Três-Olhos aproximou-se da Pequena Dois-Olhos
e disse:
— Irei contigo para ver se cuidas bem da cabra e se a conduzes ao
pasto como se deve fazer.
Porém, a Pequena Dois-Olhos percebeu o que a Pequena Três-Olhos
tinha em mente, e então conduziu a cabra até onde havia um campo de
relva alta e disse:
— Sentemo-nos aqui, Pequena Três-Olhos, e cantar-te-ei uma
cantiga.

317
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

A Pequena Três-Olhos sentou-se; estava cansada devido à longa ca-


minhada e ao calor escaldante. A Pequena Dois-Olhos entoou a mesma
cantiga novamente:
— “Pequena Três-Olhos, estás acordada?” – só que, em vez de cantar
o que deveria: – “Pequena Três-Olhos, estás a dormir?” – ela cantou, sem
se dar conta: – “Pequena Dois-Olhos, estás a dormir?” – e deste modo
continuou cantando:
— “Pequena Três-Olhos, estás acordada? Pequena Dois-Olhos, estás
a dormir?”, de modo que os dois olhos da Pequena Três-Olhos adorme-
ceram, mas não o terceiro, pois não fora mencionado na cantiga, e assim
permaneceu desperto. Evidentemente, a Pequena Três-Olhos fechou-o
também, por malícia, a fim de parecer que dormia; mas, na realidade,
pestanejava e conseguia ver tudo nitidamente.
Quando a Pequena Dois-Olhos julgou que a Pequena Três-Olhos
dormia profundamente, entoou os versinhos:
— Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, sai do escondido.
E comeu e bebeu até se fartar, fazendo depois a mesa desaparecer,
dizendo:
— Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, vai p’ro escondido.
Mas a Pequena Três-Olhos a tudo assistira. Então a Pequena Dois-
Olhos aproximou-se dela, despertou-a e disse-lhe:
— Bem, Pequena Três-Olhos, estavas dormindo? És boa observa-
dora! Vem, vamos para casa.
Ao chegar em casa, a Pequena Dois-Olhos mais uma vez não comeu
nada, e a Pequena Três-Olhos contou à mãe:
— Descobri por que essa criaturinha orgulhosa já não come nada.
Quando diz à cabra no pasto: “Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha,
sai do escondido”, surge uma mesa repleta dos mais finos pratos, muito
melhores do que o que temos para comer. E, quando está satisfeita, diz:
“Ó cabrinha, solta um balido; ó mesinha, vai p’ro escondido”, e tudo
desaparece. Vi tudo isso perfeitamente. Ela fez adormecer dois de meus
olhos com uma cantiga, mas o olho em minha fronte continuou desper-
to, por sorte!

318
A Pequena Um-Olho

Cheia de inveja, a mãe então disse:


— Come então melhor do que nós? Pois será pela última vez! – e,
tomando de uma adaga, matou a cabra.
Ao ver isso, a Pequena Dois-Olhos retirou-se, o coração transbor-
dante de pesar; foi à campina, sentou-se na relva e começou a derramar
doloridas lágrimas. Uma vez mais, a sábia senhora fez-se presente diante
dela e disse-lhe:
— Pequena Dois-Olhos, por que choras?
— E não tenho motivo? – respondeu. – Pois a cabra que, quando
ouvia a cantiga, dispunha a mesa tão lindamente, minha mãe a matou, e
agora estou fadada a passar fome e padecer novamente.
A sábia senhora disse:
— Pequena Dois-Olhos, dar-te-ei um conselho. Pede a tuas irmãs
que te deem o coração da cabra morta, e enterra-o em frente à porta de
casa. Deste modo terás sorte.
Tendo dito isso, desapareceu, e a Pequena Dois-Olhos foi para casa
e disse às suas irmãs:
— Queridas irmãs, por favor, dai-me uma recordação de minha ca-
bra; peço-vos apenas seu coração.
As irmãs riram e disseram:
— Podes ficar com o coração, se não queres nada melhor.
A Pequena Dois-Olhos tomou o coração e enterrou-o à noitinha,
quando tudo estava quieto, exatamente como a sábia senhora lhe dissera,
diante da porta de casa. Na manhã seguinte, quando todos acordaram
e abriram a porta, depararam-se com uma magnífica árvore cujas fo-
lhas eram feitas de prata e na qual cresciam frutos de ouro. Jamais se
vira coisa mais encantadora e bela! Ninguém sabia dizer como a árvore
aparecera durante a noite; apenas a Pequena Dois-Olhos sabia que ela
brotara do coração da cabra, pois aquele era o local exato onde ela o
havia enterrado. A mãe então disse à Pequena Um-Olho:
— Sobe nesta árvore, minha pequena, e apanha-nos um de seus frutos.
A Pequena Um-Olho subiu, mas, ao tentar arrancar uma das maçãs
de ouro, o galho esquivou-se de suas mãos; e como isso se repetisse

319
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

sempre, não conseguiu apanhar uma só maçã, por mais que tentasse.
Então, a mãe interveio:
— Pequena Três-Olhos, vamos, sobe tu; com três olhos, podes ver
melhor à tua volta do que a Pequena Um-Olho.
A Pequena Um-Olho desceu e a Pequena Três-Olhos subiu, mas
sem maior sucesso; por mais que olhasse à sua volta, as maçãs de ouro
recuavam e fugiam-lhe das mãos. Por fim a mãe, perdendo a paciên-
cia, subiu ela mesma, porém teve um resultado ainda mais pífio que a
Pequena Um-Olho e a Pequena Três-Olhos, e ficou apalpando o ar.
Então, a Pequena Dois-Olhos disse:
— Tentarei apenas uma vez; talvez eu tenha mais sucesso.
As irmãs gritaram:
— Com teus dois olhos, por certo que hás de conseguir!
A Pequena Dois-Olhos subiu na árvore e as maçãs não se esqui-
varam dela – exatamente como seria de se esperar de uma maçã –, de
modo que foi apanhando uma após a outra e desceu com o avental
carregado de frutos. A mãe tomou-os todos, e, em vez de tratarem
melhor à pobre Pequena Dois-Olhos como deveriam, encheram-se
de inveja porque apenas ela conseguia apanhá-los, e trataram-na com
ainda mais rispidez.
Certo dia, enquanto estavam todas junto à árvore, avistaram um jo-
vem cavaleiro que vinha cavalgando.
— Rápido, Pequena Dois-Olhos! – disseram as duas irmãs. – Es-
conde-te, para que não atraias desgraça sobre nós – e rapidamente co-
locaram-lhe sobre cabeça um barril vazio que estava próximo à árvore,
e empurraram para debaixo dele as maçãs de ouro.
Quando o cavaleiro, que era um rapaz muito bonito, passou caval-
gando, ficou maravilhado com a árvore de ouro e prata e perguntou às
irmãs:
— A quem pertence essa bela árvore? Terá tudo o que desejar aquela
que me der um de seus ramos.
Então a Pequena Um-Olho e a Pequena Três-Olhos responderam
que a árvore lhes pertencia, e que elas certamente lhe dariam um de seus

320
A Pequena Um-Olho

ramos. Tiveram muito trabalho para consegui-lo, mas em vão: os ramos


e os frutos sempre se esquivavam de suas mãos. O cavaleiro então disse:
— É muito estranho que a árvore vos pertença e que, apesar disso,
não consigais arrancar sequer um de seus ramos!
Elas, porém, continuaram afirmando que a árvore lhes pertencia; e
nisto insistiam quando a Pequena Dois-Olhos, exasperada por terem
faltado com a verdade, empurrou duas maçãs de ouro por debaixo do
barril, as quais foram rolando até parar junto aos pés do cavaleiro. Ao
vê-las, o rapaz ficou muito admirado e perguntou de onde provinham. A
Pequena Um-Olho e a Pequena Três-Olhos responderam que tinham
uma outra irmã, a quem não se podia ver, pois tinha apenas dois olhos,
como a gente ordinária. O cavaleiro, entretanto, exigiu vê-la, e chamou:
— Pequena Dois-Olhos, apresenta-te.
Então a Pequena Dois-Olhos deixou o barril, faceira, e o cavaleiro,
maravilhado com sua deslumbrante beleza, disse-lhe:
— Pequena Dois-Olhos, estou certo de que podes apanhar-me um
dos ramos dessa árvore.
— Sim, posso – respondeu a Pequena Dois-Olhos –, pois a árvore
me pertence.
Subiu na árvore e arrancou-lhe, sem nenhuma dificuldade, um pe-
queno ramo, com suas folhas de prata e fruto de ouro, e entregou-o ao
cavaleiro, que então lhe disse:
— Pequena Dois-Olhos, que posso te dar em troca?
— Ah – respondeu a Pequena Dois-Olhos –, padeço de fome, sede
e pesar, de manhã cedo até tarde da noite. Se me levásseis convosco,
libertando-me deste suplício, eu seria feliz!
Então o cavaleiro ergueu a Pequena Dois-Olhos, montou-a em seu
cavalo e levou-a para o castelo de seus pais, onde morava. Lá, presen-
teou-a com belas roupas, deu-lhe comida e bebida; e, porque muito a
amava, casou-se com ela, e a cerimônia realizou-se com muito júbilo.
Quando o belo cavaleiro levou embora a Pequena Dois-Olhos, suas
irmãs a princípio invejaram sua boa sorte. “Mas a árvore maravilhosa
ainda está conosco, afinal”, pensaram, “e, ainda que não possamos colher

321
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

nenhum de seus frutos, todos irão parar para vê-la e procurar-nos para
elogiá-la, e quem sabe isso não nos renderá frutos?” Todavia, na manhã
seguinte, a árvore havia alçado voo, e com ela todas as esperanças; e
quando a Pequena Dois-Olhos acordou e olhou pela janela, viu que ali
estava a árvore, para sua imensa satisfação. A Pequena Dois-Olhos viveu
muitos anos felizes. Certa feita, duas senhoras pobres foram até o cas-
telo pedir esmola. A Pequena Dois-Olhos reconheceu nelas suas irmãs,
a Pequena Um-Olho e a Pequena Três-Olhos, que haviam-se tornado
tão pobres, que ali estavam a implorar por um pedaço de pão. Mas a
Pequena Dois-Olhos deu-lhes as boas-vindas e tratou-as com tamanha
bondade, que ambas se arrependeram de um dia terem sido tão cruéis
para com a irmã.*

* Irmãos Grimm.

322
Jorinde e Joringel

ra uma vez um castelo no meio duma floresta


fechada, onde vivia uma velha muito solitária, pois
que era bruxa. À luz do dia transformava-se ela num
gato ou numa coruja, mas à noite voltava a ser uma
mulher comum. Era capaz de atrair a si animais e
pássaros, os quais matava e depois cozinhava. Se
qualquer moço chegasse a um raio de cem passos do castelo, era forçado
a ficar imóvel, e não conseguia mover um só dedo até que ela o liber-
tasse; mas se alguma moça bonita entrava neste perímetro, a bruxa fazia
dela um pássaro e o trancafiava numa gaiola feita de vime, a qual punha
num dos aposentos do castelo. Tinha cerca de sete mil das tais gaiolas
no castelo, com pássaros raríssimos ali trancafiados.
Ora, havia uma donzela chamada Jorinde, donzela mais bela que ou-
tras donzelas, e que há pouco ficara noiva de um moço chamado Joringel,
rapaz tão bonito quanto ela. A coisa de que mais gostavam no mundo era
de ficarem juntos. Assim, pois, para que pudessem ter uma boa conversa
sem hora para acabar, saíram uma tarde para um passeio na floresta.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Toma cuidado – disse Joringel – para não chegares perto demais


do castelo.
Era uma tarde encantadora; o sol brilhava radiante entre os troncos
das árvores e sobre o verde escuro das folhas da mata, e a rola cantava
alegre e viçosa, empoleirada nos velhos espinheiros.
Jorindel chorava de quando em quando, e sentou-se à luz do sol e se pôs
a lamentar, e também Joringel lamentava-se. Sentiam-se tão tristes como
se tivessem sido condenados à morte; olharam à sua volta e ficaram con-
fusos como nunca, e não conseguiam se lembrar do caminho de volta para
casa. Metade do sol ainda pairava acima da montanha, e a outra metade já
lhe estava atrás, quando Joringel viu entre as árvores, muito perto, o velho
paredão de um castelo. Ficou aterrorizado, morto de medo. Jorinde cantou:

De rubra garganta o pássaro meu


Canta a tristeza triste, triste, triste;
Triste canta à pomba que já morreu,
Canta a tristeza, tris… piu-piu-piu

Joringel levantou o olhar para Jorinde. Esta fora transformada num rou-
xinol, que estava a cantar “piu-piu”. Uma coruja com olhos brilhantes voou
três vezes ao seu redor e chilreou três vezes “Uuu-uuh! Uuu-uuh! Uuu-
-uuh!”. Joringel não conseguia se mover; ficara ali só, hirto qual uma está-
tua; não conseguia chorar, ou falar, ou mover mão ou pé. O sol já se pusera.
A coruja voou para dentro de uma moita e imediatamente de lá saiu uma
velha encurvada; magricela e de pele amarelenta, além de olhos vermelhos
enormes e um nariz tão adunco que quase lhe tocava o queixo. Murmurou
qualquer coisa para si mesma, pegou o rouxinol e o levou embora na mão.
Joringel não pôde dizer nada; não pôde nem mesmo mover um músculo, e
lá se foi o rouxinol. Enfim, a mulher voltou. Disse-lhe então, rude e brusca:
— Boa noite, Zaquiel; quando a lua brilhar sobre o cesto, estarás
logo livre, Zaquiel.
Então Joringel foi liberto. Caiu de joelhos perante a mulher e lhe
rogou muito que a sua Jorinde fosse trazida de volta. Mas a bruxa lhe
respondeu que ele jamais a veria de novo, virou as costas e sumiu entre

324
Jorinde e Joringel

as árvores. Joringel gritou pela


amada, e chorou e se lamentou;
tudo em vão.
— O que será de mim?! –
pensou consigo.
Então foi-se embora e chegou
enfim a uma vila estranha, onde
pastoreou ovelhas por um longo
tempo. Enquanto estava lá, fre-
quentemente andava à roda do
castelo, mas nunca perto demais.
Finalmente, sonhou uma noite
que encontrara uma flor cor-de-
-sangue, em cujo centro havia
uma pérola enorme e linda. Então
arrancava a flor e com esta se diri-
gia para o castelo; ali, tudo quanto
com ela tocava via-se livre do en-
cantamento. Com isto, conseguia
ele a sua Jorinde de volta.
Quando acordou de manhã, ficou a correr o mundo em busca de uma
tal flor, em todos os cantos e recantos de montanhas e vales. Procurou-a
por oito dias; no nono, bem cedinho, encontrou a flor cor-de-sangue.
No seu centro lá estava uma gota de orvalho, tão enorme quanto a mais
encantadora pérola. Viajou, então, dia e noite com a flor, até alcançar
o castelo. Quando já estava a menos de cem passos deste, não estacou
imóvel como antes, mas continuou até chegar ao portão. Ficou numa
alegria sem igual por seu êxito, tocou o grande portão com a flor, e este
se lhe escancarou. Entrou, passou pelo pátio de entrada, e então parou,
a fim de escutar o canto dos pássaros; e finalmente os ouviu. Seguiu
em frente, entrando no castelo, e no salão de entrada deparou-se com
a bruxa, e com ela sete mil aves em suas gaiolas de vime. A velha ficou
furiosíssima ao ver Joringel, e lhe exalou veneno e fel, mas não foi capaz

325
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

de dar um só passo em sua direção. Ele a ignorou completamente e


foi examinar as gaiolas dos pássaros. Havia, porém, centenas e cente-
nas de rouxinóis! Como ele poderia saber qual era Jorinde? Enquanto
matutava no que fazer, viu a velha bruxa surrupiar uma gaiola e com ela
dirigir-se para a porta. Imediatamente foi-lhe ao encalço, e tocou com
a flor tanto a gaiola quanto a mulher, que agora já não mais podia fazer
feitiçarias. E lá estava Jorinde, com os braços a enlaçar-lhe o pescoço,
mais deslumbrante do que nunca. Joringel transformou todas as outras
aves novamente em donzelas e se foi para casa com Jorinde. E os dois
viveram uma vida longa e feliz.*

* Irmãos Grimm.

326
Allerleirauh, ou a
Besta de Mil Peles

ra uma vez um rei cuja esposa tinha cabelos dou-


rados e era tão bela que não havia outra igual no
mundo inteiro. Um dia ela se adoentou e, sentindo
que estava à beira da morte, mandou vir ter consigo
o rei, e disse:
— Se quiseres casar depois da minha morte, não
coroes nenhuma mulher que seja menos bela do que eu, ou que não te-
nha cabelos dourados como os meus. Promete isto para mim.
Depois que o rei lhe deu sua palavra, a rainha fechou os olhos e morreu.
Por muito tempo o monarca ficou desconsolado, e não pensava em
casar de novo, até que um dia seus conselheiros disseram:
— É dever do rei casar novamente, para que tenhamos uma rainha.
Emissários em nome do rei saíram mundo afora a buscar-lhe uma
nova esposa, mas não havia mulher em parte alguma que fosse igual
em beleza à falecida rainha, e, ainda que houvesse, certamente não teria
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

os mesmos cabelos dourados. Os emissários voltaram para casa com as


mãos abanando.
Sabei, no entanto, que o rei tinha uma filha tão bela quanto a mãe,
e com os mesmos cabelos dourados que a falecida. Certo dia, quando a
menina já estava crescida, o pai olhou para ela e viu que era igual à sua
mãe; disse então aos conselheiros:
— Casarei minha filha com um de vós, e há de ser ela a rainha, pois é
igual à falecida mãe; e, quando eu morrer, o marido dela há de ser o rei.
A princesa, contudo, não ficou nada contente com a decisão do pai
e lhe disse:
— Antes de cumprir o seu desejo, peço três vestidos: um dourado
como o sol, outro prateado como a lua, e o terceiro cintilante como as
estrelas. Quero também um manto feito de mil peles diferentes: cada
espécie de animal do reino deverá dar um pedaço de sua pele para
compô-lo.
Enquanto o dizia, pensava consigo mesma:
— É certo que ninguém poderá cumprir este pedido, de modo que o
rei nunca me obrigará a casar com quem não me interesse.
Ao rei, contudo, nada o poderia abalar de seu propósito: mandou que
as moças mais hábeis de todo o reino costurassem os três vestidos: um
dourado como o sol, outro prateado como a lua, e o terceiro cintilante
como as estrelas; deu ordens a todos os seus caçadores para que fossem
atrás de um animal de cada espécie das que havia no reino, e da pele de
cada cortassem um pedaço para compor o manto de mil peles.
Por fim, quando estava tudo pronto, o rei mandou trazer o manto,
estendeu-o na frente da princesa e disse:
— Amanhã será teu casamento.
Quando a menina viu que era impossível dissuadir o pai, decidiu
fugir de casa. Na calada da noite, a moça levantou da cama e pegou três
artefatos de seus baús: um anel de ouro, uma roca de ouro e um fuso de
ouro, meteu numa casca de noz o vestido do sol, o da lua e o das estre-
las, cobriu-se do manto de mil peles e enegreceu a cara e as mãos com
fuligem. Depois de encomendar-se a Deus, saiu de casa e viajou a noite

328
Allerleirauh, ou a Besta de Mil Peles

inteira até chegar a uma grande floresta. Como estivesse muitíssimo


cansada, agachou-se dentro de uma árvore oca e pegou no sono.
Ao nascer do sol a menina ainda estava dormindo, e seguiu dormin-
do quando se aproximava o meio-dia. Acontece que naquela mesma
hora o rei a quem pertencia aquela floresta estava ali caçando. Quando
seus cães de caça se aproximaram da árvore, cheiraram-na e começaram
a correr a sua volta, latindo. Disse o rei a seus caçadores:
— Ide ver que besta-fera ali dentro se esconde.
Os caçadores foram e, quando voltaram, trouxeram a seguinte notícia:
— Na cavidade da árvore, está deitado um animal que desconhece-
mos, cuja aparência não lembra nenhum outro, e sua pelagem é feita de
mil peles; porém, está dormindo.
— Capturai-o com vida e o amarrai à carroça ‒ disse o rei ‒, que o
levaremos junto conosco.
Assim que foi capturada, a moça acordou e, muito assustada, urrou:
— Sou apenas uma pobre criança, abandonada por pai e mãe, tende
piedade de mim e deixai-me acompanhar-vos.
— Besta de Mil Peles ‒ responderam ‒, poderás trabalhar na cozi-
nha; vem conosco, que varrerás as cinzas do chão.
Colocaram a moça na carroça e se dirigiram ao palácio do rei. Lá
chegando, mostraram-lhe um pequeno quarto no vão da escadaria, aon-
de não chegava a luz do sol, e lhe disseram:
— Besta de Mil Peles, viverás e dormirás aqui.
Mandaram-na então para a cozinha, onde passou a carregar lenha e
água, atiçar a brasa, lavar as verduras, depenar as aves, varrer as cinzas do
chão e fazer, enfim, todo o trabalho pesado.
Assim, nesta pobreza, viveu por muito tempo a Besta de Mil Peles.
Ó, formosa filha do rei, o que será de ti agora?
Certa vez, quando celebravam uma grande festa no palácio, disse ela
ao cozinheiro:
— Permites-me subir para dar uma olhada? Ficarei atrás da porta,
não entrarei.
O cozinheiro respondeu:

329
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

330
Allerleirauh, ou a Besta de Mil Peles

— Permito. Sobe, mas em meia hora te quero de volta aqui para que
varras as cinzas.
A menina tomou então sua lamparina, entrou em seu quartinho, des-
piu-se das mil peles que a cobriam, e limpou a cara e as mãos da fuligem
para que resplandecesse a sua beleza. À medida que as lavava, era como
se por entre nuvens pretas despontassem os raios do sol. Abriu em se-
guida a casca de noz, tirou de dentro dela o vestido dourado como o sol,
e o vestiu. Depois disso, saiu para a festa; lá chegando, todos recuaram
para deixá-la passar, pois ninguém a reconhecia, e pensavam ser ela a
filha de algum rei. Dentro do salão, o rei a tirou para dançar e, enquanto
dançava com ela, pensava:
— Meus olhos nunca contemplaram mulher mais bela!
Ao fim da dança, a princesa fez-lhe reverência e desapareceu, sem que
o rei ou nenhum dos convidados a pudesse rastrear. Os guardas que vigia-
vam a entrada do salão foram interrogados, mas tampouco a tinham visto.
A moça disparou para dentro do seu quartinho e em pouco tempo
se despiu, enegreceu as mãos e as faces, vestiu o manto de mil peles, e
estava transformada novamente na Besta de Mil Peles. Havia acabado
de entrar na cozinha e recém começara a varrer as cinzas quando o
cozinheiro lhe disse:
— Deixa isso para amanhã, e cozinha a sopa do rei no meu lugar,
pois quero espiar os convidados da festa lá em cima. Mas toma cuidado
para que nenhum fio de cabelo caia na panela, caso contrário nunca mais
receberás comida!
Foi-se o cozinheiro, e a Besta de Mil Peles pôs-se a preparar a sopa
do rei. Fez a melhor sopa de pão caseiro que sabia cozinhar e, ao termi-
nar, pegou no quartinho o seu anel de ouro e o colocou dentro da terrina
em que seria servida a sopa. Quando o baile terminou, a sopa foi levada
ao rei, que começou a tomá-la; e era tão gostosa, que ele tinha certeza de
nunca ter tomado sopa igual em toda sua vida. Quando chegou ao fundo
da terrina, viu um anel de ouro, e não fazia ideia de como fora parar ali.
Mandou então trazer o cozinheiro, que sentiu um frio na barriga quan-
do ouviu esta ordem, e disse para a Besta de Mil Peles:

331
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Deves ter deixado cair na sopa um fio de cabelo; mereces uma


boa surra!
Ao se apresentar ao rei, este lhe perguntou quem havia feito a sopa.
— Fui eu ‒ disse o cozinheiro.
Mas o rei disse:
— Não é verdade, pois esta sopa estava muito diferente e muito me-
lhor do que qualquer uma que já tenhas cozinhado
Então o cozinheiro disse:
— Confesso: não fiz a sopa; é a Besta de Mil Peles que a preparou.
— Traze-a até mim ‒ ordenou o rei.
Quando a Besta de Mil Peles chegou, o rei lhe perguntou quem era.
— Sou uma pobre criança sem pai nem mãe.
Perguntou-lhe então o rei:
— Que serviço prestas no meu palácio?
— Nenhum, a não ser levar bordoadas de todo mundo.
— Como caiu nas tuas mãos o anel que estava na sopa? ‒ perguntou
o rei.
— Nada sei sobre esse anel ‒ respondeu a menina.
O rei, não conseguindo colher dela informação nenhuma, teve que
deixá-la ir.
Pouco tempo depois houve outra festa, e a Besta de Mil Peles implo-
rou ao cozinheiro, como da última vez, que a deixasse ir para dar uma
olhada. Ele respondeu:
— Deixo, mas volta em meia hora para cozinhar ao rei a sopa de pão
caseiro que ele tanto aprecia.
Disparou então para seu quartinho, lavou-se rapidamente, tirou de
dentro da casca de noz o vestido prateado como a lua, e o vestiu. Quan-
do subiu, parecia a filha de um rei. Encantado por vê-la novamente, o rei
veio em sua direção, e como o baile houvesse recém começado, os dois
dançaram juntos. Porém, ao terminar a dança, a menina desapareceu
mais uma vez, e saiu tão depressa que o rei não viu para que lado foi. A
menina correu para o quartinho, transformou-se de novo na Besta de
Mil Peles e voltou em seguida para a cozinha, onde preparou a sopa de

332
Allerleirauh, ou a Besta de Mil Peles

pão caseiro. Enquanto o cozinheiro espiava o baile no andar de cima,


a menina pegou a roca de ouro, colocou-a na terrina e a cobriu com a
sopa. O prato foi levado ao rei, que ao degustá-lo achou-o tão delicioso
como da última vez. Mandou trazer o cozinheiro, e este mais uma vez
foi obrigado a confessar que o responsável pela sopa era a Besta de Mil
Peles. Apresentou-se a besta ao rei, mais uma vez lhe dizendo que só
servia para levar bordoadas e que nada sabia da roca de ouro.
No terceiro baile do rei, as coisas não se passaram do mesmo modo
que nos dois primeiros. O cozinheiro disse:
— Deves ser uma bruxa, Besta de Mil Peles, pois sempre colocas na
sopa algo que a torna muito mais agradável ao paladar do rei do que
as minhas.
Porém, como a menina implorasse muito, ele a deixou subir, contanto
que voltasse no tempo estipulado. Desta vez ela trajou o vestido cinti-
lante como as estrelas e, assim vestida, entrou no salão.
De novo o rei dançou com a bela moça, e jamais a vira tão bela como
naquela noite. Enquanto dançava, colocou em seu dedo um anel de ouro
sem que ela o sentisse, e mandou que a dança durasse mais tempo que o
normal. Depois que terminou, quis o rei segurar a mão da menina, mas
esta se soltou dele e disparou com tanta rapidez por entre a multidão,
que o rei a perdeu de vista. A moça correu o mais rápido que pôde para o
quartinho no vão da escadaria, mas, como tivesse ultrapassado, e muito,
a meia hora estipulada, não deu tempo de tirar o vestido, então apenas
o tapou com o manto de mil peles; além disso, na pressa, não conseguiu
cobrir-se toda de fuligem, deixando branco um dedo. Correu a Besta
de Mil Peles cozinha adentro, cozinhou para o rei a sopa de pão caseiro
e, quando o cozinheiro se ausentou, depositou na sopa o fuso de ouro.
Quando o rei achou o fuso no fundo do prato, mandou vir ter consigo
a Besta de Mil Peles; e, ao vê-la se aproximar, percebeu nela o dedo sem
fuligem e o anel do baile. Pegou então sua mão e a segurou bem; ela,
tentando se desvencilhar, deixou reluzir por debaixo do manto uma par-
te do vestido cintilante como as estrelas. O rei então agarrou o manto e
lho arrancou. Os dourados cabelos lhe desceram: lá estava ela em todo

333
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

seu esplendor, já incapaz de se esconder. Depois que limparam, por fim,


a fuligem e as cinzas de seu rosto, viu-se que não havia mulher mais bela
no mundo inteiro. E disse o rei:
— És minha querida noiva, jamais nos separaremos um do outro.
Celebrou-se então o casamento deles, e os dois viveram felizes para
sempre.*

* Irmãos Grimm.

334
Os Doze Caçadores

ra uma vez o filho de um rei que estava noivo


de uma princesa a quem amava ternamente. Um dia,
enquanto sentava ao seu lado, sentindo-se profunda-
mente feliz, recebeu a notícia de que seu pai se en-
contrava no leito de morte e que desejava vê-lo antes
de morrer. O príncipe então disse à sua bem-amada:
— Sinto muito, mas tenho de partir agora e deixar-te aqui. Fica com
este anel e usa-o como recordação de mim, e quando eu for rei voltarei
para te levar para casa.
O príncipe então partiu. Ao reencontrar o pai, viu que ele estava
muito doente e que a morte se aproximava.
O rei então disse:
— Querido filho, era minha intenção te rever antes de morrer.
Promete-me, imploro-te, que te casarás conforme o meu desejo – e
então mencionou a filha de um rei das vizinhanças, que ele desejava
ver casada com seu filho.
Tomado pela tristeza, o príncipe não conseguia pensar em ninguém
além de seu pai, e afirmou:
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Sim, sim, meu querido pai, vosso desejo há de se cumprir.


O rei então fechou os olhos e morreu.
Após sua proclamação como rei, e passado o período usual de luto,
o príncipe julgou que deveria manter a promessa feita ao pai, e então
enviou um pedido de casamento à filha do tal rei, pedido este que foi
prontamente aceito.
Ora, essa notícia chegou aos ouvidos daquela que era sua primeira noi-
va, e a traição de seu bem-amado lançou-a em tão sentido pesar, que ela
foi definhando de desgosto quase até à morte. Seu pai então lhe disse:
— Minha querida filha, qual o motivo de tanta tristeza? Se houver
qualquer coisa que desejes, dize-me, e o terás.
A filha ponderou por um momento e então disse:
— Querido pai, desejo que encontreis onze moças de altura, idade e
aparência semelhantes à minha.
O rei respondeu:
— Se tal coisa se pode fazer, teu desejo será atendido.
E o rei movimentou todo o reino para encontrar onze donzelas de
altura, porte e aparência semelhantes à de sua filha.

336
Os Doze Caçadores

A princesa então encomendou doze trajes completos de caçador, to-


dos exatamente iguais, e as onze moças tiveram de vesti-los, cabendo o
décimo segundo à princesa. Depois disso, despediu-se do pai e partiu
com as outras moças rumo à corte de seu antigo noivo.
Ao chegar lá, inquiriu se o rei acaso não precisava de alguns caçadores,
e se não desejava empregá-los todos. O rei não a reconheceu e, achando
muito bonitos todos aqueles jovens, respondeu que sim, de bom grado
os empregaria. E eles então se tornaram os doze caçadores da Coroa.
Ora, o rei tinha um prodigioso leão, que sabia de todas as coisas
ocultas e secretas.
Certa noite, o leão disse ao rei:
— Então julgais que tendes doze caçadores, não é?
— Por certo, eles são doze caçadores.
— Pois é aí que vos enganais – disse o leão –; são doze donzelas.
— Impossível – replicou o rei. – Como pretendes provar o que dizes?
— Basta espalhar um punhado de ervilhas pelo chão de vossa ante-
câmara – respondeu o leão – e então vereis. Os homens têm um passo
forte e resoluto; se lhes acontece pisar em ervilhas, nenhuma delas se-
quer sairá do lugar. Moças, por outro lado, tropeçam, escorregam, desli-
zam, e as ervilhas se espalham por toda a parte.
O rei ficou satisfeito com o conselho do leão e ordenou que se espa-
lhassem ervilhas pelo chão de sua antecâmara.
Por sorte, um dos criados do rei desenvolvera especial afeição pelos
jovens caçadores e, ao ouvir sobre o teste ao qual seriam submetidos,
procurou-os e disse-lhes:
— O leão quer convencer o rei de que sois apenas meninas – e reve-
lou-lhes todo o plano.
A filha do rei agradeceu-lhe a revelação e, tendo ele se retirado, cha-
mou as moças e advertiu-as:
— Fazei o possível para pisar com toda a firmeza sobre as ervilhas.
Na manhã seguinte, quando o rei mandou chamar os doze caçadores
e eles cruzaram a antecâmara cujo chão estava repleto de ervilhas, todos
pisaram com tanta força, caminhando com um passo tão seguro e firme,

337
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

que nenhuma ervilha se espalhou, nem sequer saiu do lugar. Depois que
se retiraram, o rei disse ao leão:
— E então? Andas contando mentiras. Viste com teus próprios olhos
que eles caminham como homens.
— É que elas sabiam de antemão que estavam postas à prova – respon-
deu o leão –, por isso se esforçaram por andar daquela maneira. Mas colo-
cai doze rodas de fiar na antecâmara. Quando elas passarem pelo aposen-
to, vereis como ficarão animadas, diferentemente do que faria um homem.
O rei ficou satisfeito com o conselho e ordenou que doze rodas de
fiar fossem colocados em sua antecâmara.
Mas o bondoso criado do rei procurou os caçadores e revelou-lhes
tudo sobre o novo plano. Assim, tão logo se viu sozinha com suas com-
panheiras, a filha do rei advertiu-as:
— Meninas, esforçai-vos por nem sequer olhar para as rodas de fiar.
Quando o rei mandou chamar seus doze caçadores na manhã se-
guinte, eles atravessaram a antecâmara sem sequer virar o rosto para
onde estavam as rodas de fiar.
Então o rei disse mais uma vez ao leão:
— Enganaste-me uma vez mais; eles são homens, pois nenhum deles
sequer fez menção de olhar para as rodas de fiar.
O leão respondeu:
— Elas sabiam que estavam sendo testadas e contiveram seus instintos.
Mas o rei recusou-se a acreditar no leão.
Então os doze caçadores continuaram a acompanhar o rei, e a cada
dia sua afeição por eles aumentava. Certo dia, enquanto estavam a caçar,
receberam a notícia de que a pretensa noiva do rei estava a caminho,
podendo chegar a qualquer momento. Quando a verdadeira noiva do rei
ouviu isso, sentiu como se uma espada lhe atravessasse o coração, e desa-
bou no chão, sem sentidos. O rei, temendo que algo houvesse acontecido
ao seu caçador, correu até ele para ajudá-lo, e arrancou-lhe as luvas. Foi
então que viu o anel com o qual presenteara sua primeira noiva, e, ao
fitar-lhe o semblante, reconheceu-a, e seu coração enterneceu-se de tal
modo que ele a beijou. Quando ela abriu os olhos, ele disse:

338
Os Doze Caçadores

— Sou teu, e és minha: eis aí algo que nenhum poder sobre a terra
será capaz de alterar.
Enviou um mensageiro à outra princesa, pedindo que voltasse ime-
diatamente ao seu próprio reino.
— Pois – disse ele – tenho uma esposa, e aquele que encontra uma
chave antiga não tem necessidade de uma nova.
O casamento foi celebrado com grande pompa, e o leão reconquistou
os favores do rei, pois dissera a verdade, afinal de contas.*

* Irmãos Grimm.

339
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

340
Fuso, Lançadeira
e Agulha

ra uma vez uma garota que ainda criancinha


perdera o pai e a mãe. Sua madrinha vivia sozi-
nha numa pequena cabana no canto mais afastado
duma vila, e lá ganhava o pão de cada dia a rodar
e a fiar e a costurar. A velha senhora pegou a or-
fãzinha para criá-la e inculcou-lhe hábitos bons,
piedosos e muito industriosos.
Quando a garota tinha quinze anos de idade, a boa madrinha ficou
muito doente. Chamando-a ao pé de seu leito, disse-lhe:
— Filha minha, sinto que meu fim está perto. Deixo-te a minha ca-
bana, que ao menos haverá de abrigar-te, e também o meu fuso, a minha
lançadeira de costura e a minha agulha, com os quais ganharás o teu pão.
Então pôs as mãos na cabeça da garota, abençoou-a e acrescentou:
— Tem cuidado e sê boa para com todos, e tudo irá bem contigo. –
Com o que fechou os olhos pela última vez. Ao ser carregada para a cova,
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

a garota foi atrás do caixão o trajeto inteiro, e lhe prestou todas as últimas
honrarias.
Depois da morte da madrinha, a garota passou a viver sozinha na
pequena cabana. Ela trabalhava duro, a rodar e a fiar e a costurar, e a
bênção que lhe dera sua velha madrinha parecia tornar próspero tudo
quanto fazia. O linho parecia espalhar-se e aumentar; e tão logo costu-
rasse um carpete ou um lençol, ou fizesse uma camisa, era certo encon-
trar algum cliente disposto a pagar-lhe bem. Assim, não só ela já não
passava necessidades, como era mesmo capaz de ajudar os outros.
Ora, aconteceu que lá pelas tantas o filho do rei estava fazendo uma
viagem através do reino a fim de procurar por uma noiva. Não podia
tomar por esposa uma moça pobre, e tampouco queria casar-se com
alguma que fosse rica.
— A minha noiva – disse ele – será aquela que for a um só tempo a
mais pobre e a mais rica de todas.
Ao chegar à vila onde morava a garota, entrou a perguntar quem ali
era a garota mais rica, e quem a garota mais pobre. Primeiro nomeou-se
a mais rica; quanto à mais pobre, esta lhe disseram ser uma garota que
vivia sozinha, numa cabana no campo mais afastado da vila. A garota rica
sentou-se à sua porta, a vestir as melhores roupas que tinha e, quando o
filho do rei chegou perto, pôs-se de pé, foi até ele e lhe fez uma mesura.
Este a observou bem, não disse uma só palavra e continuou a cavalgar.
Ao chegar à casa da garota mais pobre, não a encontrou à porta, pois
ela estava a trabalhar no seu quarto. O príncipe segurou as rédeas do ca-
valo, olhou pela janela, através da qual o sol estava a rebrilhar refulgente,
e viu a garota sentada, atarefadíssima a rodar e a fiar.
Ela olhou para cima e, assim que viu que o filho do rei a contem-
plava, fez-se vermelha qual um pimentão, baixou os olhos e continuou
a rodar a roca. Se a tecedura estava tão lisa e regular quanto de costume
realmente não sei dizer, mas ela continuou a fiar até o filho do rei ir-se
embora. Então foi até a janela e abriu a treliça, dizendo:
— Como está abafado este quarto! – mas não tirou os olhos do prín-
cipe até onde pôde ver as plumas brancas em seu chapéu.

342
Fuso, Lançadeira e Agulha

Então sentou-se para trabalhar novamente e continuou rodando a


roca, e ao fiar veio-lhe à cabeça uma cantiga que muitas vezes ouvira de
sua madrinha, enquanto esta trabalhava, e começou a cantá-la:

Fuso meu, fuso meu, ó fuso meu,


Vá ver onde meu amor se meteu.

E eis que, surpresa! o fuso lhe pulou da mão e saiu desabalado para
fora do quarto, e quando ela já se recuperara suficientemente de sua
surpresa para procurá-lo, viu-o a dançar alegremente pelos campos, dei-
xando atrás de si um longo fio dourado, e logo sumiu de toda a vista.
A garota, havendo perdido seu fuso, pegou a lançadeira, e, sentando-
-se ao tear, começou a fiar. Neste meio-tempo, o fuso dançou e bailou
e girou e, justamente quando já acabara com o fio dourado, chegou aos
pés do filho do rei.
— Mas que é isto? – exclamou ele. – Este fuso parece estar querendo
me apontar uma direção. – Então virou a cabeça de seu cavalo e cavalgou
de volta, seguindo o fio dourado.
E a garota fiava ainda, sentada, a cantar:

Lançadeira, fia e tece com afeto,


Traz meu amor p’ra debaixo deste teto.

A lançadeira na hora escapuliu de sua mão, e num salto estava já fora


da porta. Ali, na soleira, começou a tecer o carpete mais lindo que já se
viu no mundo. Rosas e lírios floresciam num e noutro lado, e no centro
parecia crescer-lhe uma floresta, com coelhos e lebres a correr para lá
e para cá, cervos e veados espiando por entre os ramos, e pássaros de
uma plumagem tão brilhante, e cores tão vivazes, que a gente ficava a
esperá-los cantar lá dos galhos mais altos onde estavam. A lançadeira
corria de um lado para o outro, e o carpete como que surgia de dentro
si mesmo.
Como também a lançadeira lhe havia escapulido, a garota sentou-se
para costurar. Pegou sua agulha e cantou:

343
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Costura e costura, ó agulha, em cruz


Que assim meu quarto se alegra e reluz,

e a agulha prontamente escorregou-lhe dos dedos e saiu a voar pela


sala, como um raio. Era de se crer que espíritos invisíveis estavam a ope-
rar ali, pois num piscar de olhos a mesa e os bancos estavam já cobertos
com um manto verde, e as cadeiras com veludo, e das janelas pendia uma
seda elegantíssima. Mal a agulha dera o último ponto, quando a garota,
espiando pela janela, com o canto do olho viu o chapéu emplumado do
filho do rei, que fora guiado de volta pelo fuso com o fio dourado.
Este desmontou e andou sobre o carpete até dentro da casa. Ao en-
trar no quarto, lá estava a garota corando como uma rosa.
— És a mais pobre e, ainda assim, a mais rica – disse ele. – Vem co-
migo, hás de ser minha noiva.
Ela não disse nada, mas segurou sua mão. Então ele a beijou, levou-a
para fora, ergueu-a até a sela do cavalo e com ela cavalgou até o palácio
real, onde se celebrou o casamento com muito júbilo e festas.
O fuso, a lançadeira e a agulha foram postos no tesouro com todo o
cuidado, e tidos na mais alta conta para todo o sempre.*

* Irmãos Grimm.

344
O Caixão de Cristal

inguém duvide que um pobre alfaiate possa dar-


-se bem neste mundo, ou até mesmo alcançar altas
honrarias. Tudo o que precisa é trabalhar com afin-
co, mas o mais importante mesmo é obter sucesso.
Certa vez, um jovem alfaiate, muito inteligente e
empenhado, pôs o pé na estrada e acabou chegando
a uma floresta. Lá, como não soubesse por onde ir, logo se perdeu. Veio
a noite, e não havia jeito senão achar um abrigo onde repousar. O rapaz
poderia muito bem se acomodar num canto coberto de musgo, mas,
como o medo de animais selvagens lhe perturbasse a mente, resolveu
passar a noite em cima de uma árvore.
Encontrou um alto carvalho, subiu ao topo e deu graças a Deus por
ter no bolso seu ferro de passar roupa, pois o vento soprava forte no alto
das árvores e era capaz até de derrubá-lo se não fosse pelo peso a mais.
Depois de passar algumas horas da noite com grande medo e tremedeira,
notou uma luz brilhando a pouca distância e, na esperança de que viesse
de uma casa, onde se abrigaria melhor do que no topo da árvore, desceu
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

cuidadosamente e foi em direção a ela. Acabou encontrando uma caba-


ninha de juncos entrelaçados. Bravamente bateu à porta, a qual abriu, e
à luz que de dentro reluzia viu um velho de cabelo grisalho, vestindo um
casaco feito com retalhos de cores vivas.
— Quem és e o que queres? – perguntou o velho grosseiramente.
— Sou um pobre alfaiate – respondeu o jovem. – Fui surpreendido pela
noite na floresta e lhe rogo que me acolha em sua cabana até o raiar do sol.
— Vai embora – respondeu o velho num tom rabugento. – Não que-
ro nada com andarilhos. Procura outro lugar.
Com estas palavras tentou esgueirar-se para dentro da casa, mas o
alfaiate segurou-lhe as abas do casaco, e tanto lhe implorou para o deixar
passar a noite ali, que o velhote, que não era tão rabugento quanto pare-
cia, ficou tocado por suas súplicas e o deixou entrar. Depois de dar-lhe
um pouco de comida, conduziu-o até uma boa cama num canto do apo-
sento. O alfaiate, cansado como estava, não precisou de nenhum embalo
para cair no sono, e dormiu profundamente até os primeiros raios da
manhã, pois a essa hora um barulho tremendo o despertou. Altos gritos
e chiados penetravam pelas finas paredes da cabaninha. O rapaz, com a
coragem renovada, saltou da cama, vestiu-se com pressa e saiu. Do lado
de fora, viu um embate entre um enorme touro negro e um cervo grande
e elegante. Investiam um contra o outro com tanta fúria, que debaixo de
seus pés o chão parecia tremer, e todo o ar encher-se com seus brados.
Por um tempo o resultado da luta esteve incerto, mas, finalmente, o cer-
vo cravou os chifres com tanta força no corpo do oponente, que o touro,
com um berro terrível, caiu ao chão, e mais alguns golpes bastaram para
acabá-lo. O alfaiate, que vinha observando a luta estupefato, ainda não
conseguira se mover quando o cervo saltou em sua direção e, antes que
ele pudesse escapar, o aforquilhou com seus chifres; saiu então correndo
a todo galope por sebes e fossos, montes e vales, rios e florestas. O al-
faiate nada pôde fazer senão segurar-se com as duas mãos nos cornos do
cervo e resignar-se a seu destino. Sentiu que voava pelos ares. Por fim,
o cervo parou diante de um rochedo íngreme e com muita delicadeza
pousou no chão o alfaiate.

346
O Caixão de Cristal

Mais morto do que vivo, o alfaiate parou por um momento para re-
cobrar os sentidos e já estava um pouco melhor, quando o cervo bateu
com tanta força em uma porta na parede do rochedo que ela se escan-
carou. Chamas e brasas arrojaram-se desde dentro; seguiram-nas tantas
nuvens de fumaça que o cervo teve que desviar os olhos. O alfaiate não
sabia o que pensar nem o que fazer para escapar de tão horrenda selva-
geria e voltar para o meio dos homens.
Enquanto hesitava, uma voz desde o rochedo bradou:
— Entra sem medo, nenhum mal cairá sobre ti.
Ainda ficou parado, incerto, mas uma força misteriosa o impelia, e
ao passar pela porta viu-se num amplo saguão, cujo teto, paredes e chão
eram cobertos de finos azulejos, talhados inteiramente com figuras des-
conhecidas. Passeou os olhos por todos os cantos, repleto de admiração,
e estava a ponto de sair pela porta quando a voz comandou:
— Pisa na pedra no meio do saguão, e a boa fortuna te acompanhará.
A esta altura, o rapaz já havia ganhado tanta coragem que não hesi-
tou em obedecer à ordem; mal havia pisado na pedra quando ela come-
çou afundar delicadamente até as profundezas. Quando alcançou o chão
firme, viu-se dentro de um saguão mais ou menos do mesmo tamanho
que o superior, porém muito mais cheio de coisas para se maravilhar. Ao
longo das paredes havia vários nichos e, dentro de cada, vasos cheios de
fumos azulados ou de algum tipo de vapor de cores muito vivas. Colo-
cadas no chão havia duas enormes caixas de cristal de frente uma para a
outra; estas, por algum motivo, lhe atiçaram a curiosidade.
Ao se aproximar de uma delas, viu em seu interior o que lhe pareceu
um modelo em miniatura de um belo castelinho rodeado de fazendas,
galpões, estábulos e uns quantos outros edifícios. Era tudo bem peque-
nininho, mas tão lindo e feito com tanto esmero que podia muito bem
ser a obra de um hábil artista. O rapaz teria observado por muito mais
tempo aquela raridade se a voz não tivesse pedido que ele se virasse para
olhar o caixão de cristal do outro lado.
Qual não foi seu espanto quando viu que nele jazia uma garota de
incomparável beleza! Estava deitada como se dormisse, e seus longos

347
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

cabelos dourados a envolviam como um manto precioso. Os olhos es-


tavam cerrados, mas a viva cor de sua face, somada ao movimento de
um lacinho, que subia e descia conforme a respiração da moça, não lhe
deixou dúvidas de que ela estava viva.
Enquanto a contemplava com o coração a mil, a donzela subitamente
abriu os olhos e sobressaltou-se com grande alegria:
— Santo Deus! – exclamou. – Meu livramento se aproxima! Rápido,
rápido, me ajuda a sair desta prisão: basta levantar a lingueta deste caixão,
que estarei livre.
O alfaiate prontamente obedeceu, e quando ela empurrou a tampa de
cristal, saltou para fora do caixão e foi correndo até um canto do saguão,
onde se envolveu em uma grande capa. Em seguida sentou-se sobre uma
pedra, pediu ao rapaz que se aproximasse, deu-lhe um beijo afetuoso e disse:

“Meu aguardado salvador, os céus te conduziram até mim e puseram


fim a meu sofrimento. Tu és o esposo que o destino me prometeu; tu,
amado por mim e dotado de toda sorte de riquezas e de poder, passarás o
resto de tua vida com paz e felicidade. Agora senta e escuta minha histó-
ria. Sou a filha de um rico nobre. Meus pais morreram quando eu ainda
era pequena, e assim me deixaram aos cuidados de meu irmão mais velho,
que me educou com grande esmero. Nós nos amávamos tão afetuosamen-
te, e nossos gostos e interesses eram tão parecidos, que decidimos jamais
nos casar, e passar o resto de nossas vidas juntos. Nunca sentimos falta
de companhia em nossa casa, que estava sempre cheia: amigos e vizinhos
nos visitavam com frequência e deixávamos a casa aberta para todos. Pois

348
O Caixão de Cristal

aconteceu numa tardezinha que um estranho cavalgou até nosso castelo


e rogou-nos por nossa hospitalidade, já que não alcançaria a cidade mais
próxima antes do anoitecer. Demos-lhe o que pediu, corteses e prestativos,
e durante a janta ele nos entreteve com conversas agradáveis entremeadas
com divertidas anedotas. Meu irmão afeiçoou-se tanto a ele que o instou
a ficar uns dias a mais conosco; e o estranho, depois de hesitar um pouco,
aceitou. Já era tarde quando nos levantamos da mesa, e, enquanto meu
irmão levava o hóspede a seu quarto, segui depressa ao meu, pois estava
muito cansada e desejava deitar. Havia apenas adormecido quando fui
acordada por uma melodia amena e graciosa. Querendo saber de onde
vinha, ia chamar a criada que dormia no quarto vizinho ao meu, quando,
para meu espanto, senti sobre o peito um enorme peso que me paralisou,
de modo que lá fiquei deitada, incapaz de proferir o menor som. Entre-
mentes, à luz de meu abajur aceso, vi entrar em meu aposento o estranho,
embora a entrada do quarto estivesse defendida por duas portas muito
bem trancadas. Ele se aproximou de mim e disse que, por meio do poder
de sua magia, havia feito soar uma música para me acordar, e atravessara
as linguetas e ferrolhos das portas para me oferecer sua mão e seu cora-
ção. Minha aversão a sua magia era tamanha que não me dignei a lhe dar
resposta alguma. Por um tempo ele aguardou sem se mover, na esperança,
por certo, de uma resposta positiva; vendo, no entanto, que eu me man-
tinha calada, declarou raivosamente que acharia um jeito de punir meu
orgulho e a seguir saiu do quarto espumando de raiva.
“Passei o resto da noite com grande perturbação e só consegui cochi-
lar quando se aproximava a manhã. Assim que despertei, pulei da cama
e corri para contar a meu irmão o que tinha acontecido, mas seu quarto
já estava vazio, e um serviçal me disse que ele saíra ao romper do dia a
caçar com o estranho.
“Fiquei apreensiva. Vesti-me com pressa, mandei encilhar meu pa-
lafrém e cavalguei a todo galope até a floresta, acompanhada de um
só servo. Avancei sem parar, e não tardou para que eu visse o estranho
vindo em minha direção, guiando um belo cervo. Perguntei-lhe onde
deixara meu irmão, e onde encontrara o cervo, de cujos olhos enormes

349
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

transbordavam lágrimas. Em vez de responder, começou a rir, e fiquei


tão irada que puxei a garrucha e atirei nele. A bala, porém, ricocheteou
de seu peito e atingiu a testa de meu cavalo. Caí ao chão, e o estranho
murmurou umas palavras que me fizeram perder os sentidos.
“Quando os recobrei, vi-me deitada dentro do caixão de cristal nesta
câmara subterrânea. O mago novamente apareceu, e disse-me que trans-
formara meu irmão num cervo, reduzira nosso castelo e todas suas defesas
ao tamanho de uma miniatura e os prendera numa caixa de vidro; depois
de transformar todos os habitantes do castelo em vários tipos de fumos,
confinou-os a frascos. Bastava que eu cedesse a seus desejos para que ele
abrisse todos os recipientes e a todo mundo devolvesse sua forma original.
“Como eu me mantivesse calada como antes, ele desapareceu, deixan-
do-me nesta prisão, onde um sono profundo logo tomou conta de mim.
Dentre os vários sonhos que flutuavam em meu cérebro, havia um, bas-
tante alegre, de um jovem rapaz que viria me libertar, e hoje, assim que
abri meus olhos, te reconheci e soube que meu sonho se realizara. Agora
me ajuda a cumprir o resto de meu presságio. A primeira coisa que deves
fazer é colocar nesta grande pedra a caixa de vidro que contém o castelo.”
Assim que o alfaiate o fez, a pedra começou a elevar-se delicadamente
e os levou ao saguão superior, de onde foi fácil carregar a caixa para o lado
de fora. Em seguida a dama tirou-lhe a tampa, e causou grande maravi-
lhamento ver o castelo, as casas e as fazendas crescerem e se expandirem
até que retomassem seu tamanho normal. Depois o jovem casal voltou
para dentro usando a pedra móvel e de lá trouxe todos os recipientes
cheios de fumo. Tão logo desafrouxaram as rolhas, o fumo azul começou
a se despejar e transformar-se em homens vivos, os quais a senhorita, com
grande alegria, reconheceu serem seus muitos serviçais e acompanhantes.
Seu deleite tornou-se completo quando viu seu irmão (que havia ma-
tado o mago transformado em touro) vindo da floresta em sua forma
original. E naquele mesmo dia, conforme fora prometido, ela deu sua
mão em casamento ao jovem e feliz alfaiate.*

* Irmãos Grimm.

350
As Três Folhas
de Serpente

ra uma vez um homem que, de tão pobre, não ti-


nha mais condições de manter em casa o seu único
filho. Então, um dia, o filho lhe disse:
— Meu querido pai, és tão pobre que não pas-
so de um fardo para ti. Prefiro errar pelo mundo em
busca do meu próprio sustento.
O pai abençoou-o e despediu-se dele com muito pesar. Nessa época,
estava em guerra um poderoso rei de um vasto reino. O jovem alistou-
-se em seu exército e saiu em campanha. Quando se depararam com
o inimigo, uma batalha começou; houve intenso combate e os projé-
teis formavam sobre eles uma nuvem tão densa, que seus companheiros
tombavam por terra por toda a parte. Quando o comandante também
caiu, todos quiseram bater em retirada, mas o rapaz tomou a liderança e
os animou, exortando os soldados:
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Não permitiremos que destruam nosso país!


Outros combatentes começaram a segui-lo, e eles tanto insistiram,
que por fim derrotaram o inimigo. Quando chegou à corte a notícia de
que a vitória se devia àquele rapaz, o rei conferiu-lhe o posto mais alto
no exército, agraciou-o com fabulosos tesouros e fez dele o homem mais
importante do reino.
O rei tinha uma filha muito bonita, mas também muito cheia de
caprichos. Ela fizera um voto de não se casar com ninguém que não
prometesse que, em morrendo ela primeiro, consentiria em ser enterra-
do vivo junto com ela. “Se ele verdadeiramente me ama”, ela costumava
dizer, “de que lhe valeria continuar vivendo?” Ao mesmo tempo, ela se
dispunha a sacrifício igual, prometendo que, morrendo o esposo antes
dela, consentiria em ser enterrada junto com ele. Este curioso voto havia
afastado todo e qualquer pretendente até aquele momento, mas o jovem
foi de tal modo cativado por sua beleza, que nada o podia deter, e ele
pediu a mão da princesa a seu pai.
— Sabeis – respondeu o rei – o que tereis de prometer?
— Terei de ser enterrado junto com ela – respondeu –, caso eu lhe
sobreviva; mas meu amor é tão grande que não considero os perigos.
O rei consentiu com o casamento, que foi celebrado com grande
esplendor.
Ora, por muito tempo viveram ambos felizes na companhia um do
outro, mas então a jovem rainha caiu gravemente doente, e nenhum
médico podia salvá-la. Quando por fim a rainha morreu, o jovem rei
lembrou-se do que prometera e estremeceu ao pensar que teria de jazer
ao seu lado, em vida, porém não havia escapatória. O rei dispusera guar-
das ao longo de todos os portões, não sendo possível fugir ao destino.
Chegado o dia em que o corpo deveria ser depositado no sepulcro
real, para lá o jovem rei foi levado, e a entrada devidamente aferrolhada
e lacrada.
Próximo à urna havia uma mesa com quatro velas, quatro pães e qua-
tro garrafas de vinho. Quando essas provisões se esgotassem, ele neces-
sariamente teria de morrer. Permaneceu ali sentado, tomado de pesar e

352
As Três Folhas de Serpente

amargura, comendo a cada dia apenas um pedacinho de pão e beberi-


cando uns parcos goles de vinho, sentindo a morte cada vez mais perto.
Certo dia, estando ali sentado e perdido em pensamentos sombrios, viu
uma serpente sair furtivamente do canto da parede e dirigir-se ao ca-
dáver. Crendo que a serpente tencionava tocar no corpo, empunhou a
espada e disse:
— Enquanto eu viver, não permitirei que lhe causes nenhum mal! – e
cortou a serpente em três.
Alguns instantes depois, uma segunda serpente veio rastejando do
canto da parede. Ao deparar-se com a primeira, morta e aos pedaços, deu
meia-volta e logo retornou trazendo na boca três folhinhas verdes. Tomou
os três pedaços da serpente e os dispôs em ordem, e então deitou uma
folhinha sobre cada junção. As partes da serpente emendaram-se num
instante, a cobra começou a se mexer, viva novamente, e ambas as serpen-
tes precipitaram-se para fora. As folhinhas permaneceram sobre o chão e
subitamente ocorreu ao rapaz, que a tudo assistira, que o fabuloso poder
daquelas folhas poderia surtir efeitos também sobre um ser humano.
Apanhou então as folhas e deitou uma delas sobre a boca, e as outras
duas, sobre os olhos da mulher que jazia morta. Mal acabara de fazê-lo,
o sangue voltou a circular em suas veias e suas faces pálidas recobraram
a cor. Ela tomou fôlego, abriu os olhos e disse:
— Ah! Onde estou?
— Estás comigo, senhora minha – respondeu, contando-lhe tudo
que se passara, e como lhe restituíra a vida.
Em seguida deu-lhe um bocado de pão e vinho. Tão logo sentiu re-
novadas suas forças, ela se levantou. Dirigiram-se até a porta e bateram e
gritaram com tamanho alarido, que os guardas os ouviram e reportaram
o acontecido ao rei. Sua majestade veio pessoalmente abrir a porta, en-
contrando lá dentro a ambos, felizes e bem dispostos, e juntou à alegria
deles a sua, agora que tudo estava bem. Mas o jovem rei entregou as três
folhas da serpente ao seu criado, dizendo-lhe:
— Guarda-as para mim com muito cuidado e leva-as sempre conti-
go. Quem sabe se elas nos servirão em alguma necessidade!

353
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Parecia, contudo, que algo se alterara na jovem rainha desde que ela
recobrara a vida, e que todo o seu amor pelo esposo desaparecera de
seu coração. Algum tempo depois, enquanto cruzavam de navio o oce-
ano para visitar o velho pai do rapaz, ela se esqueceu de todo o amor
e fidelidade que ele lhe demonstrara e de como a salvara da morte, e

354
As Três Folhas de Serpente

apaixonou-se pelo capitão. Um dia, enquanto o jovem rei dormia, ela


chamou o capitão e agarrou a cabeça do rei adormecido, fazendo com
que o capitão lhe agarrasse os pés, e juntos o atiraram ao mar. Depois de
perpetrar tamanha barbaridade, ela lhe disse:
— Ora, voltemos para casa e contemos a todos que ele morreu du-
rante a viagem. Cobrir-te-ei de tantos elogios, que meu pai providencia-
rá nosso casamento e fará de ti o sucessor do trono.
Mas o criado fiel, que a tudo assistira, lançou um bote ao mar, sem
que ninguém o visse, e remou até seu senhor enquanto os traidores se-
guiam viagem. Resgatou o afogado das águas e, com a ajuda das três
folhas da serpente que trazia consigo, restaurou-o à vida, deitando-as
sobre sua boca e seus olhos.
Os dois remaram tão vigorosamente quanto podiam, dia e noite, e
seu pequeno bote navegou tão rápido, que alcançaram o velho rei antes
dos outros dois. O rei ficou muito espantado ao vê-los retornar sozinhos
e perguntou-lhes o que havia acontecido. Quando ficou sabendo da per-
versidade de sua filha, disse:
— Não posso acreditar que ela tenha agido tão mal, mas a verdade
logo virá à tona.
Providenciou que os dois se escondessem em uma câmara secreta,
tomando cuidado para que ninguém os visse.
Pouco tempo depois, aproximou-se o grande navio, e a malévola
donzela apresentou-se diante de seu pai com profunda tristeza estam-
pada no rosto. Ele lhe disse:
— Por que vieste sozinha? Onde está teu esposo?
— Ah, meu querido pai – ela respondeu –, é com grande pesar
que volto para casa. Meu esposo adoeceu repentinamente durante a
viagem e morreu. Não fosse a ajuda do bom capitão, eu também teria
morrido. Ele estava junto ao leito de morte e poderá relatar-vos como
tudo se passou.
O rei respondeu:
— Pois hei de trazer o morto de volta à vida – e abriu a porta do
aposento, chamando a ambos para fora.

355
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Ao avistar o esposo, a moça ficou paralisada de espanto, caiu de joe-


lhos e implorou por misericórdia. Mas o rei disse:
— Não mereces compaixão. Teu esposo estava disposto a morrer
contigo e te restaurou a vida, mas tu o mataste enquanto ele dormia, e
por isso terás o castigo que mereces.
Então ela e seu cúmplice foram colocados em um navio previamente
perfurado e lançados ao mar, onde logo pereceram em meio às ondas.*

* Irmãos Grimm.

356
O Enigma

ra uma vez o filho de um rei, que muito queria


viajar pelo mundo; e lá se foi ele, levando consigo
apenas um servo de sua confiança. Um dia chegou a
uma grande floresta. A noite caía já, e ele não con-
seguia encontrar abrigo, e não tinha a mínima ideia
de onde poderia passar a madrugada. Subitamente
viu uma mulher indo em direção a uma casinha e, ao chegar-lhe perto,
reparou que era moça, e muito bonita. Falou com ela, dizendo:
— Querida jovem, será que poderíamos passar a noite em tua casa,
eu e meu servo?
— Ó, sim – respondeu a moça, com uma voz tristonha. – Podeis, se
o quiserdes; mas eu vos aconselharia a não o fazerdes. O melhor é que
não entreis.
— Mas por quê? – quis saber o filho do rei.
A garota suspirou e respondeu:
— Minha madrasta é uma praticante de magia negra, e não é muito
amigável com estrangeiros.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

O príncipe logo adivinhou que viera parar na casa de uma bruxa.


Como, porém, já estivesse bastante escuro naquela hora e não lhe fosse
possível continuar num tamanho breu – e como, além do mais, não tinha
um só pingo de medo –, entrou na casa.
Uma velha estava sentada numa poltrona ao pé do fogo e, tão logo os
estranhos entraram, cravou neles os seus olhos vermelhos.
— Boa noite – murmurou.
E, fingindo ser muito amigável:
— Não quereis vos sentar?
Alimentou o fogo no qual estava a cozinhar algo numa panelinha,
e sua filha os avisou, em segredo, para que prestassem muita atenção e
não bebessem nem comessem nada, já que os cozidos da velha seriam
provavelmente perigosos.
Foram deitar-se e dormiram bem tranquilamente até a manhã.
Quando já estavam prontos para partir, tendo o filho do rei já montado
o seu cavalo, a velha disse:
— Esperai um minutinho, tenho de vos dar uma bebidinha para a
viagem.
No meio-tempo em que a fora pegar, o filho do rei foi-se embora a
galope, e o servo, que lá ficara para apertar as correias de sua sela, estava
sozinho quando a bruxa voltou.
— Leva isto para o teu mestre – disse ela; mal falou, porém, e o copo
se rachou, e o veneno espirrou no cavalo, e era tão forte que a pobre
criatura caiu morta ali mesmo. O servo, então, correu até o mestre e lhe
contou tudo quanto acontecera; depois, como não queria perder a sela
além do cavalo, voltou para pegá-la. Quando chegou ao local, viu que
um corvo se havia empoleirado na carcaça do bicho e estava a bicá-la.
— Quem sabe encontremos algo melhor para comer hoje! – disse o
servo. Deu um tiro no corvo e o levou embora consigo.
Então puseram-se a cavalgar o dia inteiro pela floresta, e nunca lhe
chegavam ao fim. À noitinha alcançaram uma estalagem. Entraram,
e o servo deu o corvo ao estalajadeiro, a fim de que o cozinhassem
para o jantar. Ora, calhava de a tal estalagem ser o refúgio frequente

358
O Enigma

dum bando de assassinos, e também a bruxa velha tinha o hábito de


frequentá-la.
Mal caiu a noite, e doze assassinos chegaram, perfeitamente resolvi-
dos a matar e saquear os estrangeiros. Antes de realizarem seu intento,
porém, sentaram-se à mesa, e o estalajadeiro e a bruxa se juntaram à
turba, pondo-se todos a comer algum ensopado no qual fora cozida a
carne do corvo. Uma ou duas colheradas foi o suficiente para que caís-
sem mortos, pois o veneno havia passado do cavalo para o corvo, e deste
para o ensopado. Assim, não sobrou ninguém na casa a não ser a filha do
estalajadeiro, que era uma moça muito boa e direita, e que nunca tomara
parte nas malvadezas.
Ela abriu todas as portas e mostrou aos estranhos o mundaréu de
tesouros ajuntado pelos ladrões, mas o príncipe ordenou-lhe que ficasse

359
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

com quanto ali havia para si, pois nada queria, e seguiu em frente com
o seu servo.
Após viajarem por algum tempo, chegaram a uma cidade onde vivia
uma princesa encantadora, mas arrogante que só. Esta fizera saber a to-
dos que o sujeito que lhe propusesse um enigma que ela não conseguisse
resolver haveria de ganhar sua mão; se, por outro lado, ela o resolvesse, o
sujeito tanto não ganharia a mão como perderia a cabeça. Pedia três dias
para pensar sobre os enigmas, mas era tão perspicaz que invariavelmente
os adivinhava muito mais rápido. Nove pretendentes já haviam perdido
a vida quando o filho do rei lá chegou e, deslumbrado por sua beleza,
resolveu arriscar a própria vida para ganhar sua mão.
Apresentou-se a ela e lhe propôs o seguinte enigma:
— O que é, o que é? – perguntou. – A ninguém atacou, e doze matou.
Ela não sabia dizer o que era! E pensou, e pensou, e folheou quantos
livros de enigmas e charadas tinha, mas nada encontrou que a pudesse
ajudar; e simplesmente não conseguia resolvê-lo. A dizer a verdade, já
esgotara toda sua perspicácia. Como não lhe ocorria modo algum de
adivinhar o enigma, ordenou à sua criada que entrasse escondida no
quarto do príncipe à noitinha e lá se pusesse a escutá-lo, a ver se ele
não falaria durante o sono e trairia o segredo. Mas o servo sagaz havia
tomado o lugar do mestre. Tão logo chegou a criada, ele arrancou-lhe
o manto no qual ela se envolvera e saiu a persegui-la com um chicote.
Na segunda noite, a princesa enviou sua dama de companhia, espe-
rançosa de que esta se saísse melhor. Mas o servo também lhe arrancou
o manto e foi persegui-la.
Na terceira noite, o filho do rei pensou estar já são e salvo, e foi
deitar-se. Eis, porém, que na calada da noite veio a própria princesa,
toda enrolada num manto acinzentado, e sentou-se perto dele. Quando
pareceu à senhora que ele estava no quinto sono, começou a fazer-lhe
perguntas, crente de que o moço as responderia em meio aos sonhos,
como muita gente faz. Mas o filho do rei não pregara o olho e a tudo
ouviu e entendeu perfeitamente.
Então ela perguntou:

360
O Enigma

— “A ninguém atacou”; o que significa isto? – e ele respondeu:


— Um corvo que havia se alimentado da carcaça dum cavalo enve-
nenado.
Ela continuou:
— “Doze matou”; o que significa isto?
— Doze assassinos que comeram o corvo e morreram envenenados.
Assim que descobriu o enigma, tentou escapar silenciosamente, mas
ele agarrou seu manto com tanta força que ela foi obrigada a deixá-lo
para trás.
Na manhã seguinte, a princesa anunciou a todos que adivinhara o
enigma, e o declarou perante os doze juízes. Mas o jovem implorou para
falar e disse:
— À noite ela veio fazer-me perguntas. De outro modo jamais o
teria adivinhado.
Os juízes disseram:
— Tens alguma prova?
Então o servo trouxe os três mantos. Mal os juízes bateram os olhos
no manto acinzentado, que a princesa muito usava, disseram:
— Encraveis este manto de ouro e prata; aí está teu vestido de ca-
samento.*

* Irmãos Grimm.

361
João d ’Ouriço

ra uma vez um fazendeiro que levava uma vida


de conforto. Tinha terras e dinheiro, mas, embora
vivesse na abundância, sua felicidade era incom-
pleta, porque não tinha filhos. Sempre que se en-
contrava com outros fazendeiros no burgo mais
próximo, caçoavam dele, perguntando como era
possível que não tivesse filhos. Um dia o fazendeiro ficou tão irritado
que exclamou:
— Preciso de um filho, e algum filho, de alguma espécie, hei de ter,
mesmo que seja um ouriço!
Não demorou para sua mulher dar à luz um filho; mas, se da cintura
para baixo a criança era um belo menino, da cintura para cima era um
ouriço. Assim, quando a mãe o viu pela primeira vez, ficou assombrada
e disse ao marido:
— Viste só? Amaldiçoaste a criança!
O fazendeiro respondeu:
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Para que fazer tanto escarcéu? Imagino que temos que batizar a
criatura, mas não sei a quem convidar para padrinho; ademais, que nome
lhe daremos?
— Que outro nome podemos lhe dar, senão João d’Ouriço? ‒ res-
pondeu a mulher.
Levaram-no então para ser batizado, e o vigário disse:
— Jamais conseguireis deitar esta criança numa boa cama, por causa
de seus espinhos.
Era verdade, mas deram um jeito de forrar com palha um canto atrás
do fogão, que lhe serviu de cama por oito anos. Com o tempo, o pai se
cansou do filho e várias vezes desejou que morresse, mas a criança não
morria, e continuava a se deitar ali ano após ano.
Pois bem: um belo dia houve uma feira no burgo, à qual o fazendeiro
pretendia ir; perguntou então à esposa o que deveria trazer de lá.
— Um tanto de carne e pães para a casa ‒ disse a mulher.
Depois perguntou à empregada o que desejava, ao que ela respondeu
que queria meias e um par de chinelos.
Por último, falou:
— Então, João d’Ouriço: o que queres que eu te traga?
— Papai – respondeu ‒, traze-me uma gaita de foles!
Quando o fazendeiro voltou para casa, deu à mulher e à empregada o
que haviam pedido; depois foi para trás do fogão e deu a João d’Ouriço
sua gaita. Em posse da gaita, João d’Ouriço falou ao pai:
— Papai, por favor vai ao ferreiro da aldeia e pede-lhe que coloque
ferraduras no nosso galo: prometo que montarei o bicho, partirei e não
te aborrecerei nunca mais.
O pai, alentado pela esperança de ver-se livre do filho, mandou ferrar o
galo; quando estava tudo pronto, João d’Ouriço montou nele e partiu para
a floresta, seguido por todos os porcos e asnos dos quais ficara de cuidar.
Ao chegar à floresta, voou com o galo para o topo de uma árvore
muito alta e lá se sentou para vigiar seus porcos e burros, e seguiu sen-
tado por vários anos até que o rebanho se tornou bastante numeroso; e,
durante todo esse tempo, o pai não teve nenhuma notícia dele.

364
João d’Ouriço

Sentado no topo de sua árvore, João d’Ouriço tocava sua gaita à von-
tade e nela executava as mais lindas melodias. Certo dia, enquanto toca-
va, um rei, que se perdera na floresta, passou ali perto e, ao ouvir aquela
música, muito se admirou, e mandou um de seus lacaios descobrir de
onde ela vinha. O criado espiou por todos os cantos, mas nada encon-
trou a não ser uma pequena criatura que mais parecia um galo, empolei-
rado numa árvore, com um ouriço montado nas costas. O rei pediu ao
lacaio que perguntasse à estranha criatura por que estava sentada ali, e
se conhecia o caminho mais curto até seu reino.
Diante disto, João d’Ouriço desceu da árvore e disse que se compro-
meteria a indicar ao rei o caminho se este, de sua parte, prometesse por
escrito que lhe daria de presente a primeira coisa que topasse em sua
volta para casa. O rei pensou com seus botões:
— Ora, é muito fácil prometer-lhe qualquer coisa. Por certo a criatu-
ra não sabe ler, e assim poderei escrever o que quiser.
Pegou então pena e tinteiro e escreveu qualquer coisa; quando ter-
minou, João d’Ouriço lhe apontou o caminho, e o rei chegou em casa
são e salvo.
Pois bem: quando a filha do rei avistou seu pai voltando ao longe,
ficou tão feliz que correu a seu encontro e atirou-se a seus braços. Lem-
brou-se então o rei de João d’Ouriço, e contou à filha que uma criatura
extraordinária se oferecera a lhe mostrar o caminho de casa, e que ele,
obrigado pelas circunstâncias, lhe prometera dar de presente a primeira
coisa que visse ao retornar. A criatura, disse, montava num galo como
se fosse um cavalo e tocava músicas encantadoras, mas ele, como estava
certo de que o bicho não sabia ler, simplesmente escrevera que não lhe
daria coisa alguma. A princesa ficou contente com o que ouviu e elogiou
o pai pela astúcia com que lidara com a situação, pois, obviamente, por
nada no mundo iria viver com João d’Ouriço.
Enquanto isso, sentado no alto de sua árvore, João d’Ouriço cuidava
de seus asnos e porcos e tocava sua gaita de foles, sempre lépido e fa-
gueiro. Depois de um tempo, outro rei que se perdera na floresta passou
por ali com seus servos e sua escolta, tentando descobrir o caminho de

365
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

volta, pois a floresta era muito vasta. Também ele ouviu a música e man-
dou um de seus homens descobrir de onde ela vinha. O homem parou
embaixo da árvore e, olhando para cima, viu João d’Ouriço montado
em seu galo. O servo perguntou a João d’Ouriço o que fazia lá em cima.
— Cuido de meus porcos e burros; mas o que desejas tu? ‒ respondeu.
Disse-lhe então o servo que ele, seu rei e seus colegas estavam per-
didos e queriam que alguém lhes mostrasse o caminho para casa. João
d’Ouriço desceu montado em seu galo e falou ao velho rei que mostraria
o caminho certo se este prometesse solenemente que lhe daria a primei-
ra coisa que topasse à frente do castelo.
O rei concordou e deu a promessa por escrito a João d’Ouriço.
Então João d’Ouriço, montado em seu galo, tomou a dianteira do
grupo e lhes apontou o caminho; e o rei chegou a seu país são e salvo.
Pois bem: tinha o rei uma filha única que era belíssima; e ela ficou
tão feliz com a volta do pai, que correu a seu encontro, atirou-lhe os
braços à volta do pescoço e deu-lhe um afetuoso beijo. Perguntou em
seguida por onde andara vagueando esse tempo todo; o pai contou que
se perdera e talvez jamais chegasse em casa se não fosse por uma estra-
nha criatura, metade homem, metade ouriço, que montava num galo e
tocava belas músicas sentado no topo de uma árvore, e fora esta criatu-
ra que lhe mostrara o caminho certo. Contou-lhe também como fora
obrigado a prometer que daria à criatura a primeira coisa que topasse
às portas do castelo, e quão triste ficava ao pensar que fora ela, a filha, a
primeira a encontrá-lo.
Mas a princesa o consolou, dizendo que, por causa do amor que tinha
ao velho pai, dispunha-se a ir embora com João d’Ouriço quando quer
que ele viesse buscá-la.
João d’Ouriço permaneceu cuidando de seus porcos, que se multipli-
caram tanto ao ponto de a floresta ficar lotada deles. Decidiu então que
não moraria mais ali, e mandou recado a seu pai dizendo que esvaziasse
todos os estábulos e dependências do vilarejo, pois traria uma vara tão
numerosa que todos poderiam matar quantos porcos quisessem. O pai
ficou muito aborrecido com essa notícia, pois esperava que João já esti-

366
João d’Ouriço

vesse morto há muito tempo. João d’Ouriço montou seu galo e, tocan-
do seus porcos vilarejo adentro, permitiu a todos os moradores abater
quantos quisessem. E foi um tal de matar e retalhar porcos, que seus
grunhidos foram ouvidos a muitas milhas de distância. João então disse:
— Papai, manda o ferreiro pôr ferraduras no meu galo novamente,
que eu prometo ir embora e não voltar jamais enquanto viver.
Então o pai mandou ferrar o galo, dando graças aos céus de saber que
se livraria do filho.
João d’Ouriço então seguiu para o reino do primeiro rei; este havia
ordenado expressamente que seus soldados perseguissem a tiros quem
quer que fosse visto montado num galo carregando uma gaita de foles, e
que sob hipótese alguma o deixassem penetrar no castelo. Assim, quan-
do João d’Ouriço chegou às portas do palácio, os guardas investiram
sobre ele com suas baionetas, mas João d’Ouriço meteu suas esporas
no galo, voou por sobre o portão e parou justamente na janela do rei;
ali desmontou no parapeito e anunciou que, se não recebesse o que lhe
fora prometido, o rei e sua filha pagariam com a vida. O rei então con-
seguiu convencer a filha a ir embora com João para salvar suas vidas. A
princesa vestiu-se toda de branco, e seu pai lhe deu uma grande quantia
de dinheiro e uma carruagem com seis cavalos e criados vestidos com
lindíssimas librés. Ela subiu na carruagem, e João d’Ouriço, com seu
galo e sua gaita, sentou-se a seu lado. Juntos partiram, e o rei teve a
certeza de que nunca mais os veria. Mas as coisas aconteceram de modo
muito diverso do que ele esperava, pois, a certa altura do caminho, João
arrancou a roupa da princesa, espetou-a toda com seus espinhos, e disse:
— É o que mereces por ser traiçoeira. Agora volta para casa. Não
quero mais saber de ti!
Dito isto, tocou-a de volta para casa, perseguindo-a até os portões do
palácio, e ela sentiu que estava desonrada e humilhada pelo resto da vida.
Em seguida, João d’Ouriço cavalgou com seu galo e sua gaita até o
país do segundo rei a quem mostrara o caminho. Este, de sua parte, para
caso João aparecesse, à guarda ordenou que apresentasse armas, ao povo,
que o aclamasse, e a todos, que o conduzissem em triunfo ao palácio.

367
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Ao ver João d’Ouriço, a filha do rei ficou um tanto espantada com


sua aparência por assim dizer única, mas, no fim das contas, reconheceu
que havia dado sua palavra e não podia voltar atrás. Deu boas-vindas a
João, e os dois noivaram ali mesmo. Durante a janta ele sentou ao lado
de sua noiva à mesa real, e comeram e beberam juntos.
Na hora de se retirarem a seus aposentos, a princesa receou que João
a quisesse beijar e acabasse espetando-a com seus espinhos, mas ele a
acalmou, dizendo que nenhum mal lhe aconteceria. Então ele pediu ao
velho rei que colocasse quatro sentinelas à porta de seu aposento e as
mandasse atear uma fogueira. Quando estivesse para se deitar, ele raste-
jaria para fora de sua pele de ouriço e a deixaria ao lado da cama; nesta
hora, os homens deveriam entrar correndo, lançar a pele ao fogo e ficar
a postos até ela consumir-se em chamas.
E assim foi, pois quando bateu onze horas, João d’Ouriço entrou em
seu aposento, despiu-se da pele e a deixou ao pé da cama. Os homens
entraram correndo, tomaram a pele imediatamente e a lançaram ao fogo,
e tão logo se consumiu nas chamas, João ficou livre de seu encantamen-
to; deitado na cama, o que se achava era, da cabeça aos pés, um homem
– embora todo preto, como se estivesse gravemente chamuscado.
O rei mandou buscar o médico do palácio, e este lavou João de cima a
baixo com vários bálsamos e essências, com o que ficou todo branco e se
revelou um jovem de singular beleza. Quando a filha do rei o viu, ficou
muito contente; no dia seguinte, celebraram a cerimônia de casamento,
e o velho rei passou o trono a João d’Ouriço.
Depois de alguns anos, João foi com sua esposa visitar o pai, mas o
fazendeiro não o reconheceu, e declarou já não ter filho nenhum; tivera,
sim, um filho, mas este nascera com espinhos de ouriço e saíra mundo
afora. Quando João contou sua história, o velho pai regozijou-se e foi
com ele viver em seu reino.*

* Irmãos Grimm.

368
João d’Ouriço

369
Os Rapazes de Ouro

m homem pobre e sua esposa viviam em um ca-


sebre e sobreviviam da pesca de peixes no rio que
ficava ali próximo. Viravam-se como podiam, dis-
pondo apenas do necessário à subsistência. Acon-
teceu que, certo dia, ao recolher as redes, o pescador
deparou-se com um magnífico peixe, inteiramente
de ouro. Enquanto o examinava, muito surpreso, o peixe abriu a boca
e disse:
— Pescador, ouve bem: se me atirares de novo ao rio, transformarei
teu casebre em um maravilhoso castelo.
O pescador respondeu:
— De que me valerá um castelo, se nele nada terei que comer?
— Ó – disse o peixe dourado –, tratarei disso também. Haverá um
armário no castelo dentro do qual encontrarás todo tipo de comida que
desejares.
— Se é assim – disse o homem –, nada tenho a objetar.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Sim – observou o peixe –, mas há uma condição em minha pro-


posta: é preciso que não reveles a uma só vivalma de onde veio tua for-
tuna. Se disseres uma só palavra, tudo desaparecerá.
O homem atirou o peixe de volta ao rio e voltou para casa. No local onde
antes ficava seu casebre, havia agora um vasto castelo. O homem arregalou
os olhos, entrou e deparou-se com a esposa em trajes de gala, sentada em
uma sala de estar ricamente decorada. Estava de bom humor e disse:
— Ó meu esposo, como isso é possível? Estou tão feliz!
— Sim – respondeu o marido –, também estou feliz. Mas sinto uma
fome descomunal e preciso comer alguma coisa imediatamente.
A esposa respondeu:
— Não há nada que comer, e não sei orientar-me nesta nova casa.
— Não te preocupes – respondeu o homem –; vejo um armário gran-
de ali. E se o abríssemos?
Ao abrir o armário, encontraram carnes, bolos, frutas e vinho, tudo dis-
posto da maneira mais convidativa. A mulher deu pulos de alegria e disse:
— Minha nossa! Que mais se há de desejar? – e então sentaram-se,
comeram e beberam.
Quando terminaram, a esposa perguntou:
— Mas, querido, de onde vêm todas essas coisas?
— Ah! – disse ele. – Não me perguntes. Não posso contar. Se eu revelar
a alguém o segredo, tudo estará acabado.
— Muito bem – ela respondeu. – Se não podes dizer, é claro que não
faço questão de saber.
Mas a mulher não falava com sinceridade, pois sua curiosidade
jamais lhe dava um segundo de trégua, de dia ou de noite, e ela tanto
aborreceu e atarantou o marido, que ele por fim perdeu a paciência e
revelou de uma vez que tudo aquilo provinha de um maravilhoso peixe
dourado que ele pescara e devolvera ao rio. Mal acabara de pronunciar
estas palavras, o castelo, o armário e tudo o mais desapareceu, e o casal
viu-se sentado novamente em seu humilde casebre de pescador.
O homem teve de retomar seu antigo ofício e voltou a pescar. Por
sorte, pescou o peixe dourado uma segunda vez.

372
Os Rapazes de Ouro

— Escuta-me – disse o peixe –; se me devolveres ao rio, terás nova-


mente o castelo e o armário com todas as suas maravilhas. Mas toma
cuidado e a ninguém reveles a origem de tua riqueza, ou mais uma vez
ela desaparecerá.
— Tomarei cuidado – respondeu o pescador, e atirou o peixe de volta
ao rio.

Voltou para casa e encontrou todas as maravilhas restauradas, e sua


esposa não cabia em si de contentamento por tamanha sorte. Mas sua
curiosidade continuava a atormentá-la e, depois de contê-la a duras pe-
nas por alguns dias, começou a perguntar ao marido sobre o que havia
acontecido e como ele reouvera tudo aquilo.
O homem manteve-se em silêncio por um tempo, mas a mulher tan-
to o azucrinou, que ele por fim revelou o segredo, e no mesmo instante

373
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

o castelo desapareceu e eles se viram sentados mais uma vez em seu


casebre miserável.
— Pronto! – exclamou o homem. – Bem como querias! Agora só nos
resta passar fome.
— Ora! – replicou a esposa. – Pois saibas que prefiro não ter todas
aquelas riquezas, se não posso saber de onde provêm; eu não teria um
segundo de paz.
O homem voltou a pescar e, certo dia, quis o destino que viesse o
peixe dourado cair-lhe na rede pela terceira vez.
— Bem – disse o peixe –, é evidente que estou fadado a cair em tuas
mãos. Leva-me para casa e corta-me em seis pedaços. Dá à tua esposa
dois pedaços para comer e dois à tua égua; planta os outros dois no teu
jardim e assim terás bênçãos.
O homem levou o peixe para casa e fez tudo exatamente como ele
dissera. O tempo passou, e dos dois pedaços enterrados no jardim nasce-
ram dois lírios de ouro; a égua pariu dois potrinhos de ouro, e sua esposa,
por sua vez, deu à luz dois gêmeos de ouro.
Os meninos cresceram saudáveis e bonitos, e os potros e os lírios
cresceram junto com eles.
Certo dia, os filhos dirigiram-se ao pai e disseram:
— Pai, queremos montar em corcéis de ouro e sair a correr mundo.
O pai respondeu com tristeza:
— Como poderia consentir se, estando longe de mim, nenhuma no-
tícia terei de vós?
Mas os rapazes replicaram:
— Os lírios dourados te dirão tudo sobre nós: basta que olhes para
eles. Se o caule se curvar, significa que adoecemos; se cair e começar a
morrer, será um sinal de que estamos mortos.
Eles então partiram, e por fim chegaram a uma hospedaria onde
muitas pessoas, tão logo os viram, desataram a rir e a zombar deles.
Ao perceber isso, um dos irmãos perdeu todo o ânimo e decidiu que
não mais prosseguiria, dando meia-volta e regressando à casa do pai.

374
Os Rapazes de Ouro

O irmão, entretanto, seguiu em frente, até alcançar os limites de uma


enorme floresta. Alguém então lhe disse:
— É melhor que não cavalgues pela floresta, pois está repleta de
ladrões e, por certo, algum mal te sucederá, principalmente quando vi-
rem que tu e teu cavalo são feitos de ouro. Sem dúvida sereis atacados
e mortos.
Mas não era fácil intimidar o rapaz, que respondeu:
— Devo prosseguir, e assim o farei.
Então arranjou umas peles de urso e com elas cobriu a si e ao cavalo,
sem deixar nenhuma parte do ouro à mostra, e embrenhou-se cheio de
coragem no coração da floresta.
Após percorrer certa distância, ouviu um farfalhar entre os arbustos e
um ruído de vozes. De um dos lados, escutou sussurrarem:
— Aí vem alguém.
Do lado oposto, responderam:
— Deixa que passe; é apenas um tratador de ursos, tão pobre como
um rato de igreja.
Assim, o rapaz de ouro atravessou a floresta sem que nenhum mal
lhe sucedesse.
Certo dia, chegou a um povoado onde avistou uma moça que lhe pa-
receu a mais amável criatura do universo, e, profundamente enamorado,
aproximou-se dela e disse:
— Amo-te com todo o meu coração; queres casar comigo?
A moça gostou tanto do rapaz que, pousando a mão sobre a dele,
respondeu:
— Sim, serei tua esposa, e fiel a ti até o fim de nossos dias.
Casaram-se, pois; e, em meio às comemorações e festividades, o pai
da moça voltou para casa, e grande foi sua surpresa ao descobrir que ali
se celebrava o casamento de sua filha. Ele perguntou:
— Quem é o noivo?
Alguém apontou-lhe o rapaz de ouro, ainda envolto nas peles de
urso, e o pai vociferou, furioso:

375
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Jamais permitirei que um mero tratador de ursos se case com mi-


nha filha – e, precipitando-se sobre ele, tentou matá-lo.
A noiva fez o que pôde para acalmá-lo, e implorou-lhe, dizendo:
— Não há remédio; ele é meu esposo, e eu o amo de todo o meu
coração.
O pai enfim cedeu, mas não cessava de pensar no assunto, e no dia
seguinte levantou-se bem cedo e achou que devia espiar o marido da filha,
para ver se não era realmente nada mais que um mendigo esfarrapado.
Dirigiu-se então ao quarto de dormir do genro, e qual não foi sua surpresa
ao ver sobre a cama um rapaz de ouro, jazendo sobre o chão as toscas peles
de urso. Afastou-se cuidadosamente, sem fazer ruído, e pensou consigo:
“Por sorte contive minha fúria! Teria sido de fato um crime terrível.”
Enquanto isso, o rapaz de ouro sonhava que tinha saído para caçar e
perseguia um belo cervo. Quando acordou, disse à esposa:
— Devo sair e caçar.
Ela foi tomada por ansiedade e implorou que ele ficasse em casa,
acrescentando:
— É bem provável que te acidentarás.
Mas o marido apenas respondeu:
— Devo ir, e irei.
Partiu então para a floresta, e logo um bonito cervo, como o que tinha
visto em sonho, parou diante dele. O rapaz fez mira e estava prestes a ati-
rar quando o cervo saiu em disparada. O rapaz foi ao seu encalço, abrindo
caminho por entre arbustos e sarças, sem parar o dia inteiro. À noitinha o
animal desaparecera completamente de vista, e o rapaz de ouro saiu a pro-
curá-lo, quando se viu em frente a uma choupana na qual vivia uma bruxa.
Bateu à porta, que se abriu, revelando uma velhinha. Ela perguntou:
— Que queres a essa hora e no meio desta imensa floresta?
O rapaz respondeu:
— Acaso viste um cervo passar por aqui?
— Sim – ela respondeu. – Conheço bem o cervo – e, enquanto falava,
um cachorrinho veio correndo de dentro do casebre, latindo e morden-
do os calcanhares do jovem.

376
Os Rapazes de Ouro

— Quieto, seu pestinha – exclamou o rapaz –, ou te mato com um tiro!


A bruxa ficou enfurecida e vociferou:
— Como é?! Vais matar meu cachorro, então?! – e no instante seguin-
te o rapaz foi transformado em estátua.
O rapaz por lá ficou, petrificado e imóvel, enquanto sua esposa em
vão esperava por ele, pensando consigo:
— Ai de mim! Sem dúvida o mal que eu temia, e que me pesava o
coração, aconteceu ao meu esposo.
Enquanto isso, o outro irmão estava em casa, diante dos lírios de
ouro, quando de repente um deles curvou-se e caiu ao chão.
— Céus! – exclamou. – Algo de muito grave aconteceu ao meu ir-
mão. Devo partir imediatamente; talvez ainda haja tempo de salvá-lo.
Seu pai instou com ele:
— Fica em casa. Se eu te perder também, que será de mim?
Mas o filho respondeu:
— Devo ir, e irei.
Montou em seu cavalo de ouro e cavalgou até chegar à floresta onde
estava seu irmão transformado em estátua. A velha bruxa saiu à porta de
seu casebre e chamou por ele, pois com muito gosto teria lançado tam-
bém sobre ele seu feitiço, mas o rapaz foi cuidadoso e não se aproximou
dela, e disse:
— Restaura a vida do meu irmão imediatamente ou levarás um tiro
agora mesmo.
A bruxa, relutante, tocou na estátua com o dedo, e num piscar de
olhos a forma humana foi restituída. Os dois irmãos abraçaram-se efu-
sivamente e cavalgaram juntos até os limites da floresta, onde se sepa-
raram, voltando um deles para seu velho pai e o outro para sua esposa.
Quando aquele chegou em casa, o pai disse:
— Como repentinamente o lírio se erguesse e desabrochasse, eu sa-
bia que havias conseguido salvar teu irmão.
Então todos viveram felizes até o fim e tudo correu-lhes bem.*

* Irmãos Grimm.

377
A Serpente Branca

á não muito tempo atrás viveu um rei cuja sabe-


doria ganhara fama pelo mundo. Parecia não haver
coisa na Terra que ignorasse, e era como se os ven-
tos lhe viessem deixar a par dos maiores segredos.
O rei tinha um hábito um tanto peculiar: todos os
dias, após já limpa a mesa de jantar e vazias todas
as cadeiras, um criado seu de confiança trazia-lhe um prato. Este vinha
coberto, e nem o criado nem qualquer outra pessoa imaginava o que
havia ali, pois o rei nunca lhe retirava a cobertura ou o comia até estar
inteiramente sozinho.
E assim foram as coisas, até que um dia o criado responsável por
retirar o prato da mesa ficou com uma curiosidade tamanha que já não
podia resistir, e o levou para o próprio quarto. Após trancar a porta cui-
dadosamente, levantou a coberta e viu uma cobra branca esparramada
no prato. Não se conseguiu conter, cortou-lhe um naco e o pôs na boca.
Mal o tocara com a língua, começou a ouvir umas vozinhas de nada,
muito estranhas, a sussurrar do lado de fora da janela. Foi até o caixi-
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

lho para ouvir melhor, e descobriu que o som vinha dos papagaios, que
tagarelavam sem parar, contando uns aos outros tudo quanto haviam
visto pelo campo e mata afora. O pedacinho daquela cobra branca que
comera o fizera um sabedor da linguagem dos bichos!
Ora, justamente naquele dia calhou de a rainha perder o seu anel fa-
vorito. A suspeita logo recaiu sobre o tal criado de confiança, pois tinha
ele acesso a todas as partes do palácio. O rei mandou chamá-lo e muito
furioso o ameaçou, dizendo que, se não encontrasse o ladrão até o dia
seguinte, ele mesmo seria preso e julgado.
De nada adiantou afirmar e reafirmar sua inocência; e o criado foi
dispensado sem cerimônias. Alvoroçado e angustiado, foi até o jardim
para matutar no que poderia fazer neste seu apuro. Ali estavam uns
quantos patos a descansar perto de uma ribeira, alisando com o bico suas
plumagens, enquanto conversavam alegremente. O criado ficou quieto,
a escutá-los. Estavam a falar donde haviam zanzado a manhã inteira, e
das boas comidas que haviam encontrado, mas um deles então fez notar,
muito tristonho:
— Há uma coisa me pesando muito cá no estômago, pois na minha
afobação acabei engolindo um anel, que estava caído logo embaixo da
janela da rainha.
Mal ouviu o pato dizer isso, agarrou-lhe o pescoço e o levou até a
cozinha, e disse ao cozinheiro:

380
A Serpente Branca

— Parece-me que, se passares a faca neste pato, hás de ver que é um


bicho gordo e muito suculento.
— Sim, é verdade – disse o cozinheiro, a pesar o pato na mão. – Este
aqui não poupou esforços para se estofar bem, e já devia estar aguardan-
do o espeto há algum tempo. – Então cortou-lhe a cabeça fora, e quando
o abriu, lá estava no seu estômago o anel da rainha.
Com isso o criado conseguiu facilmente provar sua inocência, e o rei,
sentindo que lhe fizera uma injustiça, e ansioso por fazer alguma repara-
ção, fê-lo saber que poderia pedir o que quisesse, e que todo e qualquer
cargo na corte estava-lhe à disposição.
O criado, porém, a tudo recusou, e só o que fez foi rogar por um
cavalo e um tanto de dinheiro para viajar, pois estava ansioso para ver
o mundo.
Concederam-lhe o pedido, e lá saiu ele a galope, e no decorrer de
um dia chegou a uma grande lagoa, à beira da qual viu três peixes
que se haviam enredado nos juncos e estavam arquejando por falta
de água. Muito embora se suponha que os peixes sejam no geral bas-
tantes quietos, ele os ouviu lamuriando-se pela perspectiva de uma
morte tão miserável. Como tinha um bom coração, apeou do cavalo
e logo os libertou, jogando-os de volta no lago. Os peixinhos salta-
ram e se sacudiram de alegria, e esticando a cabeça para fora d’água,
disseram:
— Não nos iremos esquecer, e havemos de recompensar-te por nos
salvar.
E lá saiu ele a cavalgar de novo, e após um tempinho julgou ouvir
uma voz na areia, sob seus pés. Parou para escutá-la, e ouviu o Rei das
Formigas, muitíssimo zangado:
— Quem me dera se os homens e aquelas suas bestas estabanadas
ficassem longe de nós! Este cavalo estúpido está a esmagar o meu povo
sem dó com aqueles cascos enormes.
O criado imediatamente foi para uma estrada ao lado, e o Rei-For-
miga gritou-lhe:
— Não nos iremos esquecer, e havemos de recompensar-te.

381
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

A estrada a seguir enfiava por uma floresta. Lá, viu ele um pai e uma
mãe corvos que, de pé ao lado do ninho, estavam a jogar para fora seus
filhotinhos:
—Vamos, malandros! – gritavam. – Já não temos como alimentar-vos.
Já estais bem grandinhos, podeis cuidar de vossos narizes.
Os pobrezinhos dos pássaros estavam caídos no chão, a bater e agitar
as asinhas, e soltavam berros esganiçados:
— Nós, crianças indefesas, alimentar-nos! Ora, mas não sabemos nem
voar ainda; que poderemos fazer senão morrer de fome?
Então o bondoso moço desmontou, desembainhou a espada e matou
seu cavalo, deixando-o lá como comida para os corvozinhos. Estes saí-
ram pulando, mataram a fome e piaram:
— Não nos iremos esquecer, e havemos de recompensar-te!
O rapaz estava agora obrigado a fiar-se nas próprias pernas, e após
palmilhar um bom caminho chegou a uma grande cidade. Lá deparou
com uma enorme multidão, e uma comoção que só nas ruas, enquanto o
arauto cavalgava para lá e para cá, anunciando:
— A filha do rei está em busca de um marido, mas qualquer um que
a quiser cortejar terá de executar antes uma façanha e, se nisto falhar,
perderá sua vida.
Muitos a haviam arriscado – e perdido. Quando o jovem viu a filha
do rei, ficou tão deslumbrado com sua beleza, que perigo algum lhe pas-
sou pela cabeça, e ele foi até o rei anunciar-se como pretendente.
Feito isto, foi levado até um lago enorme, aonde, diante dos seus
olhos, foi jogado um anel. Segundo o rei, ele teria de mergulhar e trazê-
-lo de volta. Depois, acrescentou:
— Se retornares sem o anel, serás jogado no lago de novo e de novo,
até que te afogues nas suas profundezas.
Todos sentiram pena do belo rapaz e o deixaram sozinho na margem.
Ali ficou a pensar e a imaginar o que poderia fazer, quando de súbito viu
três peixes nadando no lago, e os reconheceu como os três peixes cujas
vidas salvara. O peixe do meio trazia um mexilhão na boca, o qual pôs
aos pés do moço. Quando este o abriu, lá estava o anel dourado!

382
A Serpente Branca

Radiante, ele o trouxe de volta até a filha do rei, esperando ganhar o


que lhe fora prometido. Mas a arrogante princesa, ao saber que não se
tinha ali alguém bem nascido como ela, desprezou-o e exigiu o cumpri-
mento de uma segunda tarefa.
Foi até o jardim, e com as próprias mãos esparramou dez sacos cheios
de milhete ao longo da grama.
— Ele terá de os coletar todos até amanhã, antes do raiar do sol –
disse ela –; nenhum grão poderá faltar.
O jovem sentou-se no jardim e se pôs a refletir em como lhe seria
possível cumprir tamanha tarefa, mas não pôde pensar em nada; e ficou
lá, sentado e cabisbaixo, à espera de sua morte no raiar do dia.
Mas quando os primeiros raios do sol caíram sobre o jardim, viu que
os dez sacos haviam sido cheios até a boca, e estavam já enfileirados, sem
que lhes faltasse um só grãozinho sequer. O Rei-Formiga, com os seus
milhares e milhares de súditos-formigas, haviam vindo durante a noite e
essas criaturinhas, muito agradecidas, industriosamente coletaram todos
os milhetes e os puseram nos sacos.
A filha do rei desceu até o jardim e, para o seu espanto, viu que o
pretendente cumprira a tarefa que lhe cabia. Mas a altiva princesa não
deu o braço a torcer e disse:
— Muito embora tenhas cumprido as duas tarefas, não serás meu
marido até que me tragas uma maçã da árvore da vida.
O moço nem mesmo sabia onde crescia a tal da árvore da vida, mas lá
se foi ele, resolvido a andar até onde suas pernas o pudessem levar, muito
embora não acalentasse esperança alguma de encontrá-la.
Após viajar por três reinos diferentes, certa noite chegou a uma flo-
resta e se deitou sob uma árvore, pronto a dormir. De repente, ouviu um
barulho nos galhos, e uma maçã dourada caiu-lhe na mão. No mesmo
instante, três corvos voaram até ele, pousaram em seu joelho e disseram:
— Somos os três corvozinhos que salvaste da fome. Quando, já cres-
cidos, ficamos sabendo que estavas à procura da maçã dourada, saímos a
voar, para muito longe, para além dos mares e até o fim do mundo, onde
a árvore da vida cresce, e de lá pegamos uma maçã dourada para ti.

383
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Cheio de alegria, o moço pôs-se no caminho de volta e trouxe a maçã


dourada à bela princesa, cujas objeções agora haviam sido inteiramente
silenciadas. Dividiram a maçã da vida e a comeram juntos, e o coração
dela encheu-se de amor por ele, e viveram uma era de felicidade imper-
turbável.*

* Irmãos Grimm.

384
A história do
Alfaiate Astuto

ra uma vez uma princesa muito soberba. A qual-


quer pretendente ousado o bastante para pedir-lhe
a mão, a princesa prontamente o desafiava a resolver
uma charada; e, caso o pretendente fracassasse, era
tocado para fora da cidade com escárnio e zombaria.
A princesa mandou anunciar ao povo inteiro que
quem quisesse estava convidado a pôr à prova suas habilidades, e quem
fosse capaz de matar a charada se tornaria seu marido.
Acontece que certo dia, estando reunidos três alfaiates, os dois mais
velhos julgaram que, se haviam costurado tantos pontos bem-feitos sem
jamais errar um só, haviam também de acertar nessa ocasião. O tercei-
ro alfaiate, por sua vez, era um malandro preguiçoso que não conhecia
direito nem mesmo o próprio ofício, mas tinha certeza de que a sorte
estaria a seu lado desta vez, pois, do contrário, o que seria dele?
Os outros dois lhe disseram:
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Podes ficar em casa, não chegarias muito longe com essa meia-
ração de cérebro que recebeste.
Mas o jovem alfaiate não se deixou intimidar: disse que já estava
decidido a encarar o desafio e que daria o melhor de si. Então levantou
e partiu com eles, como se o mundo inteiro estivesse a seus pés.
Assim que chegaram ao palácio, os três alfaiates se apresentaram à
princesa como manda o figurino e instaram que lhes propusesse suas
charadas.
— Eis diante de Vossa Alteza ‒ disseram ‒ mentes tão agudas que
facilmente passariam pela cabeça de uma agulha.
Disse-lhes então a princesa:
— Tenho em minha cabeça dois tipos de cabelo. De que cores são?
— Se é este vosso desafio ‒ disse o primeiro alfaiate ‒, é muito prová-
vel que sejam pretos e brancos, como certas malhas acinzentadas.
— Está errado ‒ disse a princesa.
— Neste caso ‒ disse o segundo alfaiate ‒, se não são pretos e bran-
cos, são vermelhos e castanhos, como o casaco que meu pai usa em dias
de festa.
— Está errado novamente ‒ disse a princesa. ‒ Vejamos o que o ter-
ceiro tem a dizer. Parece ter-se em conta de quem sabe tudo.
O jovem alfaiate passou com muita audácia à frente dos outros e falou:
— A princesa tem um fio de cabelo prateado e outro fio de cabelo
dourado, são estas as duas cores.
Ao ouvir estas palavras, a princesa empalideceu e quase teve um des-
maio pelo assombro que sentiu, pois acreditava que nenhum mortal se-
ria capaz de adivinhar a resposta à sua pergunta, mais eis que o jovem
alfaiate havia acertado em cheio.
Depois de se recompor, disse:
— Não penses que já me ganhaste; ainda tens que cumprir mais uma
tarefa. No estábulo do palácio mora um urso; deves passar a noite com
ele e, se na manhã seguinte eu te encontrar vivo, aí sim te casarás comigo.
Esperava, é claro, ver-se livre do alfaiate com tal desafio, pois o urso
jamais poupara a vida de ninguém que se pusesse ao alcance de suas

386
A história do Alfaiate Astuto

garras. Mas o alfaiate, que não sentia medo de nada, respondeu alegre-
mente:
— A coragem é meia batalha ganha.
No fim da tarde foi levado ao estábulo. No instante em que chegou, o
urso tentou agarrá-lo e dar-lhe umas calorosas boas vindas com suas patas.
— Calma, calma ‒ disse-lhe o alfaiate ‒; dentro de pouco te ensina-
rei a ser mais manso ‒ e sem sobressalto tirou do bolso um punhado de
nozes, quebrou-as e comeu-as com ar despreocupado. Vendo isto, o urso
também apeteceu algumas nozes. O alfaiate enfiou as mãos no bolso,
mas, em vez de dar-lhe nozes, entregou-lhe um punhado de pedrinhas,
que a besta meteu na boca sem pensar duas vezes; contudo, por mais que
se esforçasse, não achava jeito de quebrá-las.
— Puxa vida ‒ pensou consigo mesmo ‒, devo ser mesmo algum
idiota para não conseguir quebrar estas nozes!
E então, virando-se para o alfaiate, falou:
— Escuta, amigo, me farias o favor de quebrar estas nozes para mim?
— És um sujeito um tanto delicado, não? ‒ disse o alfaiate. ‒ Estra-
nho pensar que essas mandíbulas enormes não consigam quebrar nem
mesmo umas nozes!
Então pegou de volta as pedrinhas, trocou-as furtivamente por ou-
tras nozes, e crac!, partiu-as ao meio num abrir e fechar de olhos.
— Dá-me as nozes que vou tentar de novo ‒ disse o urso. ‒ Não é
possível que seja tão fácil para ti e tão difícil para mim.
Deu-lhe então mais umas pedrinhas, e o urso, como era de se esperar, por
mais que lhes cravasse os dentes e as roesse, não conseguiu quebrar uma só.
Em seguida o alfaiate descerrou uma rabeca e começou a tocá-la. O
urso, ao ouvir a música, não conseguiu refrear sua vontade de dançar e,
quando acabou a dança, estava tão contente que perguntou ao alfaiate:
— Amigo, dize-me: é difícil tocar rabeca?
— É brincadeira de criança! ‒ replicou o alfaiate. ‒ Olha só: basta
apertar as cordas com os dedos da mão esquerda, e com a mão direita
arrastar sobre elas o arco, assim; aí não tem engano: para cima e para
baixo e tralalalalá!

387
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Ah! ‒ exclamou o urso ‒ como eu gostaria de tocar assim, para


poder dançar sempre que me desse na telha. O que achas? Poderias me
dar umas lições de rabeca?
— Com prazer! ‒ respondeu o alfaiate. ‒ Desde que sejas um bom
aluno. Mas deixa-me ver tuas patas… Ó céus, tuas unhas estão demasia-
do longas. Preciso antes apará-las.
Pegou então uma prensa, deitou nela as patas do urso e as prendeu
firmemente.
— Espera aí enquanto busco minhas tesouras ‒ disse, e deixou o urso
rugindo à vontade enquanto ia dormir num canto.
Aquela noite, ao ouvir rugidos tão estrondosos, a princesa teve certe-
za de que o urso rugia pelo prazer de estraçalhar o alfaiate.

388
A história do Alfaiate Astuto

Na manhã seguinte, ela se levantou alegre e despreocupada, mas,


quando lançou o olhar em direção ao estábulo, viu o alfaiate de pé em
frente à porta, lépido e faceiro como um peixe na água.
Depois dessa ocasião, não foi mais possível faltar à promessa, então
o rei mandou preparar o coche real para levar os dois à igreja onde se
casariam.
Assim que o cocheiro iniciou a viagem, os outros dois alfaiates,
invejosos da felicidade de seu colega mais novo, foram ao estábulo e
soltaram o urso, que disparou atrás do coche, espumando de raiva. A
princesa, ouvindo os seus arquejos e rugidos cada vez mais próximos,
gritou apavorada:
— Ó céus! O urso está atrás de nós e certamente nos alcançará!
O alfaiate, impassível, plantou uma bananeira, colocou as pernas para
fora do veículo e, batendo uma contra a outra, dirigiu ao urso as seguin-
tes palavras:
— Estás vendo esta prensa? Se não deres meia-volta agora mesmo,
amarrarei tuas patas nela.
Assim que viu aquilo, o urso virou as costas e bateu em retirada o mais
rápido que pôde. O alfaiate seguiu sossegadamente até a igreja, onde se
casou com a princesa, e com ela viveu por muitos anos feliz da vida.
E quem não acreditar nesta história me deve cinco pratas.*

* Irmãos Grimm.

389
A Sereia de Ouro

m poderoso rei possuía, dentre muitos outros te-


souros, uma fabulosa árvore em seu jardim, que a
cada ano produzia lindas maçãs de ouro. Mas ele
jamais conseguia desfrutar de seu tesouro, pois, por
mais que as vigiasse e protegesse, as maçãs eram
sempre furtadas tão logo começavam a amadurecer.
Por fim, já em desespero, mandou chamar seus três filhos e disse aos dois
mais velhos:
— Preparai-vos para uma viagem. Levai convosco ouro e prata, bem
como um séquito de criados – como convém a dois nobres príncipes – e
cruzai o mundo até descobrir quem é o responsável por furtar minhas
maçãs de ouro, e, se possível, trazei o ladrão até a minha presença, para
que eu lhe aplique o merecido castigo.
Os filhos ficaram muito satisfeitos com a proposta, pois há muito
desejavam correr o mundo. Prepararam-se para a viagem sem perda de
tempo, despediram-se do pai e deixaram a cidade.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

O príncipe mais novo ficou muito desapontado por não ter sido
convocado para a viagem, mas seu pai não podia admitir que ele par-
tisse, pois fora sempre visto como o mais idiota da família, e o rei
temia que algum mal lhe sucedesse. Mas o príncipe tanto pediu, e
com tamanha insistência, que por fim o pai permitiu que ele partisse,
entregando-lhe ouro e prata, como fizera com os irmãos. Destinou-
lhe, entretanto, o pior cavalo do estábulo, pois o tolo rapaz não pedira
um cavalo melhor. Assim, também ele partiu em busca do ladrão, em
meio à zombaria e às risadas de todos os membros da corte e de todos
os habitantes da cidade.
O caminho que tomou conduziu-o a uma floresta, e não havia per-
corrido grande distância, quando se deparou com um lobo magro, que
permaneceu impassível enquanto ele se aproximava. O príncipe pergun-
tou-lhe se estava com fome e, quando o lobo respondeu que sim, apeou
do cavalo e disse:
— Se estás de fato com tanta fome, como o dizes e aparenta, toma o
meu cavalo e devora-o.
O lobo não esperou uma segunda oferta, mas pôs-se em ação imedia-
tamente, e num instante devorou o pobre animal. Quando o príncipe viu
transformada a aparência do lobo após a refeição, disse-lhe:
— Bem, meu amigo, agora que comeste meu cavalo, e tendo eu tão
longa jornada pela frente que, nem com toda disposição do mundo, con-
seguiria percorrê-la a pé, o mínimo que podes fazer por mim é suprir a
falta de meu cavalo, carregando-me nas costas.
— É para já – respondeu o lobo, que, permitindo ao príncipe montar
em seu lombo, saiu trotando alegremente pelo bosque.
Depois de percorrer alguma distância, o lobo indagou ao seu condu-
tor aonde ele gostaria de ir. O príncipe então contou-lhe toda a história
das maçãs de ouro que haviam sido furtadas do jardim do rei, e como
seus outros dois irmãos haviam partido com numeroso séquito a fim de
encontrar o ladrão. Ao terminar a história, o lobo, que na realidade não
era lobo algum, e sim um poderoso mago, respondeu que talvez pudesse
dizer quem era o ladrão e ajudár a capturá-lo.

392
A Sereia de Ouro

— Em um país vizinho – disse ele – vive um poderoso imperador que


possui um belo pássaro de ouro preso em uma gaiola; esta é a criatura
responsável por furtar as maçãs de ouro. Porém, ele voa tão rápido, que é
impossível apanhá-lo no ato. Terás de penetrar no palácio do imperador
durante a noite e roubar o pássaro com a gaiola junto; mas cuida para
não tocares nas paredes quando fores sair.
Na noite seguinte, o príncipe penetrou sorrateiramente no palácio do
imperador e deparou-se com o pássaro na gaiola, tal qual o lobo lhe dis-
sera. Apanhou-o cuidadosamente, mas, apesar de toda precaução, tocou
em uma das paredes ao tentar passar despercebido por alguns guardas
que dormiam. Eles despertaram no mesmo instante e, apanhando-o,
bateram nele e o acorrentaram. No dia seguinte foi levado à presença do
imperador, que imediatamente o condenou à morte, determinando que
fosse atirado a um calabouço até o dia de sua execução.
O lobo, que, por meio de suas artes mágicas, naturalmente sabia de
todo o ocorrido com o príncipe, transformou-se sem demora em um im-
ponente monarca com um grande séquito e dirigiu-se à corte do impera-
dor, onde foi recebido com todo tipo de honraria. Conversou com o impe-
rador sobre muitos assuntos, e, dentre outras coisas, o visitante perguntou
a seu anfitrião se ele possuía muitos escravos. O imperador respondeu que
possuía mais do que conseguia administrar, e que um novo escravo acaba-
ra de ser capturado na noite anterior, ao tentar furtar seu pássaro mágico,
mas que, possuindo escravos já em número bastante para alimentar e cui-
dar, mandaria executar este último cativo na manhã seguinte.
— Deve ser um ladrão muito audacioso – disse o rei – para tentar
furtar o pássaro mágico, pois é certo que deve haver muitos guardas para
vigiá-lo. Eu gostaria muito de ver esse ousado patife.
— Pois não – disse o imperador, e conduziu pessoalmente o visitante
até o calabouço onde o príncipe era mantido prisioneiro.
Quando o imperador retirou-se da cela acompanhado do rei, este
último lhe disse:
— Ó magnânimo imperador, devo confessar que fiquei muito decep-
cionado. Pensei que encontraria um ladrão vigoroso, mas em vez disso

393
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

o que avistei foi a mais pobre criatura que se possa imaginar. O enfor-
camento é uma punição nobre demais para ele. Se estivesse em minhas
mãos sentenciá-lo, eu o desafiaria a realizar uma tarefa muito difícil e
com perigo de morte. Logrando êxito, tanto melhor para vós; fracassan-
do, tudo voltaria à estaca zero, e ele poderia ser enforcado.
— Vosso conselho – disse o imperador – é excelente, e na verdade te-
nho o desafio perfeito para ele. Meu vizinho mais próximo, um imperador
também muito poderoso, possui um cavalo de ouro, que vive sob ostensiva
proteção. Ordenarei ao prisioneiro que o furte e o traga para mim.
Libertaram o príncipe e lhe disseram que sua vida seria poupada
caso ele sucedesse em trazer o cavalo de ouro ao imperador. O prínci-
pe não ficou exatamente exultante, já que não tinha a menor ideia de
como faria aquilo, e tomou a estrada derramando amargas lágrimas,
perguntando-se por que, afinal, havia abandonado a casa de seu pai.
Porém, antes que tivesse percorrido grande distância, seu amigo lobo
parou diante dele e disse:
— Caro príncipe, por que estás abatido? É verdade que não conse-
guiste apanhar o pássaro, mas não permitas que isso te desanime, pois
desta vez serás ainda mais cuidadoso e sem dúvida tomarás o cavalo.
O lobo tranquilizou o príncipe com essas palavras, dizendo-lhe ou-
tras coisas mais, alertando-o especialmente para que, na hora de sair, não
tocasse nas paredes, nem permitisse que o cavalo as tocasse, ou repetiria
o fracasso que tivera com o pássaro.
Depois de uma viagem um tanto fatigante, o príncipe e o lobo che-
garam ao reino governado pelo imperador que possuía o cavalo de ouro.
Tarde da noite, alcançaram a capital, e o lobo aconselhou o príncipe a
iniciar os trabalhos imediatamente, antes que sua presença na cidade
despertasse a atenção dos vigias. Penetraram furtivamente no estábulo
do imperador, bem no local onde havia mais guardas, pois ali, como
acertadamente supôs o lobo, deveriam encontrar o cavalo. Ao atingirem
uma determinada porta interna, o lobo disse ao príncipe que perma-
necesse do lado de fora, enquanto ele entraria. Em pouco tempo, ele
voltou e disse:

394
A Sereia de Ouro

— Meu caro príncipe, o cavalo é ostensivamente vigiado, mas enfei-


ticei todos os guardas, e, contanto que tenhas o cuidado de não tocar em
nenhuma das paredes ao sair, nem deixar que o cavalo encoste nelas, não
haverá nenhum perigo, e sairás vitorioso.
O príncipe, que estava decidido a ser mais do que cuidadoso desta
vez, pôs mãos à obra cheio de entusiasmo. Deparou-se com os guardas
mergulhados em sono profundo; penetrando na baia onde estava o ca-
valo, agarrou-o pelas rédeas e conduziu-o para fora. Mas, infelizmente,
antes que tivessem deixado o estábulo, uma mosca pousou no cavalo,
que então agitou a cauda, a qual encostou na parede. Em um instante,
todos os guardas despertaram, apanharam o príncipe e surraram-no sem
piedade com os açoites, após o que o acorrentaram e atiraram em um
calabouço. Na manhã seguinte, ele foi levado à presença do imperador,
que então lhe dispensou exatamente o mesmo tratamento que o rei do
pássaro de ouro, ordenando que fosse decapitado no dia seguinte.
Quando o lobo-mago percebeu que o príncipe havia falhado mais
uma vez, transformou-se novamente em um imponente rei e dirigiu-se
à corte do imperador acompanhado de um séquito ainda mais deslum-
brante do que da primeira vez. Foi acolhido com toda a cordialidade, e
novamente, após o jantar, conduziu a conversa ao assunto dos escravos,
solicitando ver o audacioso ladrão que ousara invadir o estábulo do im-
perador para roubar seu mais valioso tesouro. O imperador consentiu, e
tudo se passou exatamente como sucedera ao imperador do pássaro de
ouro – a vida do prisioneiro seria poupada sob a condição de que, dentro
de três dias, capturasse a sereia de ouro, da qual até então nenhum mor-
tal jamais tinha conseguido se aproximar.
Profundamente abatido por essa árdua e perigosa tarefa, o príncipe
deixou a prisão, mas, para sua felicidade, encontrou seu amigo lobo antes
que tivesse viajado muitas milhas. O astucioso animal fingiu que não
sabia nada do que sucedera ao príncipe, e perguntou-lhe sobre o seu
sucesso com o cavalo. O príncipe relatou-lhe toda sua desventura e a
condição imposta pelo imperador para poupar-lhe a vida. O lobo então
lembrou-o que por duas vezes o tirara da prisão e que, bastando que ele

395
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

tivesse confiança em suas palavras e as observasse fielmente, sem dúvida


lograria êxito nesta derradeira empreitada. Dito isso, tomaram a direção
do mar, que se se estendia diante deles até onde os olhos podiam alcan-
çar, as ondas dançando e brilhando à luz do sol.
— Agora – prosseguiu o lobo – transformar-me-ei em um barco
carregado das mais belas sedas, e nele tu deves embarcar armado de toda
coragem e navegar com minha cauda em tua mão direita rumo ao mar
aberto. Logo encontrarás a sereia de ouro. Haja o que houver, não vás
atrás dela caso ela te chame, mas, ao contrário, dize-lhe: “O comprador
vem até o vendedor, e não o vendedor até o comprador”. Depois, deves
conduzir o barco rumo à terra. A sereia há de seguir-te, pois não será
capaz de resistir às belíssimas mercadorias a bordo do navio.
O príncipe prometeu observar fielmente as instruções, e então o
mago transformou-se em um navio repleto das mais extraordinárias se-
das, de todas as cores e tons que se possa imaginar. O príncipe, boquia-
berto, entrou no barco e, segurando a cauda do lobo nas mãos, navegou
corajosamente rumo ao mar aberto, onde o sol coroava com seus raios
dourados as ondas azuis. Em pouco tempo, avistou a sereia de ouro na-
dando rente ao navio, acenando para ele e convidando-o a acompanhá-
-la. Entretanto, atendo-se ao alerta do lobo, respondeu em alta voz que,
se ela desejava comprar o que fosse, deveria vir até ele. Tendo dito isso,
mudou a direção do navio e rumou de volta para a terra firme. A sereia
pediu que parasse, mas ele se recusou a escutá-la e não parou um mo-
mento sequer até atingir a areia da praia.
Ali ele atracou e esperou pela sereia, que vinha nadando logo atrás.
Quando ela se aproximou do navio, ele constatou que era muito mais
bela do que qualquer mortal que ele jamais tivesse visto. Ela nadou em
volta do navio por algum tempo, depois atirou-se graciosamente a bor-
do, a fim de examinar mais de perto as belas sedas. O príncipe então
tomou-a em seus braços e, cobrindo-a de beijos, jurou-lhe eterno amor.
Num piscar de olhos, o navio transformou-se novamente em lobo, as-
sustando de tal modo a sereia que ela se agarrou ao príncipe em busca
de proteção.

396
A Sereia de Ouro

397
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Estava assim capturada a sereia de ouro, que ficou muito feliz ao ver
que não precisava temer ao príncipe ou ao lobo. Ela montou nas costas do
animal, e o príncipe logo fez o mesmo, e assim cavalgaram juntos. Quando
chegaram ao país governado pelo imperador do cavalo de ouro, o príncipe
desmontou do lobo e, auxiliando a sereia a descer, conduziu-a até o impe-
rador. Ao avistar a bela sereia e o temível lobo, que desta vez acompanhava
o príncipe, os guardas fizeram respeitosas mesuras, e logo os três se apre-
sentaram diante de Sua Majestade Imperial. Após ouvir a narrativa do
príncipe sobre a maneira como obtivera seu merecido prêmio, o imperador
reconheceu no mesmo instante que o rapaz fora auxiliado por alguma arte
mágica, e sem demora renunciou a toda reivindicação à bela sereia.
— Meu bom jovem – disse ele –, perdoai-me minha lamentável con-
duta para convosco, e, como prova de que me perdoais, aceitai o cavalo
de ouro como presente. Reconheço que a grandeza de vosso poder está
além da minha compreensão, pois conseguiste capturar a sereia de ouro,
da qual nenhum ser humano jamais conseguira aproximar-se até então.
Preparou-se então um grandioso banquete, e o príncipe teve de rela-
tar suas aventuras mais uma vez, para o assombro e admiração de todos
os presentes.
Mas o príncipe mal via a hora de voltar ao seu reino. Assim, tão logo
encerrado o banquete, despediu-se do imperador e tomou o rumo de
casa. Montou a sereia no cavalo de ouro, e juntos cavalgaram alegre-
mente, com o lobo a segui-los, até que chegaram ao país do imperador
do pássaro de ouro. A fama do príncipe e de suas aventuras antecipara-
se à sua chegada, e o imperador, sentado ao trono, aguardava a chegada
do príncipe e seu séquito. Quando os três cruzaram o pátio do palácio,
surpreenderam-se e alegraram-se por encontrar tudo festivamente ilu-
minado e decorado especialmente para recebê-los. Quando o príncipe
e a sereia de ouro, seguidos pelo lobo, galgaram os degraus do palácio,
o imperador aproximou-se deles para recepcioná-los, conduzindo-os
então até o salão do trono. No mesmo instante, um criado aproximou-
se trazendo a gaiola com o pássaro de ouro, e o imperador pediu que
o príncipe aceitasse o presente e perdoasse os insultos que ali sofrera.

398
A Sereia de Ouro

O imperador fez então uma profunda reverência à bela sereia e, ofere-


cendo-lhe seu braço, conduziu-a à sala de jantar, seguido de perto pelo
príncipe e por seu amigo lobo – este último sentou-se à mesa, nem um
pouco constrangido por não ter sido convidado para tal.
Terminada a suntuosa refeição, o príncipe e a sereia despediram-se
do imperador e, montando em seu cavalo dourado, prosseguiram via-
gem. Durante o caminho, o lobo disse ao príncipe:
— Meus caros amigos, é chegada a hora de despedir-me de vós; contu-
do, em circunstâncias tão favoráveis, não posso entristecer-me por partir.
O príncipe ficou muito triste ao ouvir essas palavras e insistiu que o
lobo permanecesse com eles para sempre. Mas o bom animal recusou,
não sem antes agradecer ao príncipe pelo convite, e disse-lhe ao desa-
parecer na mata:
— Se algum mal se abater sobre vós, caro príncipe, a qualquer tempo,
confiai em minha amizade e gratidão.
Estas foram as últimas palavras do lobo, e o príncipe não conseguiu
conter as lágrimas ao ver seu amigo desaparecer na distância. Um olhar,
entretanto, para sua amada sereia alegrou-o novamente e continuaram
felizes a viagem.
Notícias das aventuras do filho já haviam alcançado a corte de seu
pai, e todos estavam mais do que atônitos diante do sucesso daquele
príncipe até então menosprezado. Seus irmãos mais velhos, que em vão
partiram em busca do ladrão das maçãs de ouro, ficaram furiosos dian-
te do êxito do irmão mais novo e tramaram uma maneira de matá-lo.
Esconderam-se na floresta que o príncipe teria de atravessar para chegar
ao palácio, e ali o atacaram, espancando-o até a morte, tomando o cavalo
e o pássaro de ouro. Todavia, nada no mundo convenceria a sereia de
ouro a acompanhá-los ou a sair de onde estava, pois, desde que deixara
o mar, desenvolvera tal afeição pelo príncipe, que nada mais desejava do
que viver ou morrer com ele.
Por muitas semanas, a pobre sereia velou o corpo de seu querido
amado, vertendo lágrimas salgadas por sua perda, até que um dia seu
velho amigo lobo apareceu e disse:

399
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Cobre o corpo do príncipe com todas as folhas e flores que pude-


res encontrar na floresta.
A jovem fez tudo conforme lhe fora dito, e então o lobo soprou sobre
a sepultura revestida de flores, e – surpresa! – ali estava o príncipe, dor-
mindo calmamente como uma criança.
— Agora podes acordá-lo, se quiseres – disse o lobo, e a sereia cur-
vou-se sobre ele e beijou delicadamente as feridas infligidas pelos ir-
mãos em sua fronte.
O príncipe despertou, e podeis imaginar sua felicidade ao ver sua
querida sereia ao seu lado, apesar de sentir uma pontada de tristeza pela
perda do pássaro e do cavalo de ouro. Depois de algum tempo o lobo,
que também se jogara ao pescoço do príncipe, aconselhou-o a prosseguir
viagem – e, mais uma vez, o príncipe e sua amada noiva montaram nas
costas do fiel animal.
A alegria do rei ao abraçar seu filho mais novo foi imensa, pois há
muito que perdera as esperanças de revê-lo. Recebeu com toda cordia-
lidade também ao lobo e à bela sereia, e o príncipe teve de contar todas
as suas aventuras desde o princípio. O bom e velho pai ficou muito triste
ao saber do comportamento vergonhoso dos irmãos mais velhos, e man-
dou chamá-los. Eles ficaram pálidos de morte ao ver o irmão, que acre-
ditavam ter matado, ali de pé, cheio de vida. Tão espantados estavam,
que, quando o rei lhes perguntou por que haviam perpetrado tamanha
crueldade contra o irmão, nem conseguiram mentir, mas confessaram de
uma vez que haviam matado o jovem príncipe a fim de obter o cavalo e
o pássaro de ouro. A ira de seu pai era infinita, e ele ordenou que os dois
filhos fossem banidos. Por outro lado, nada que fizesse parecia suficiente
para honrar o filho mais novo, e seu casamento com a bela sereia foi ce-
lebrado com muita pompa e magnificência. Encerradas as festividades,
o lobo despediu-se de todos e partiu mais uma vez para sua vida na flo-
resta, o que o velho rei, o jovem príncipe e sua esposa muito lamentaram.
E assim terminaram as aventuras do príncipe com seu amigo lobo.*

* Irmãos Grimm.

400
A Guerra do Lobo
e da Raposa

ra uma vez um homem e sua esposa, que tinham


um cachorro velho e uma gata velha. Um dia, o
homem, cujo nome era Simão, disse à esposa, cujo
nome era Susana:
— Por que estamos ainda com essa gata velha?
Já não pega nenhum rato hoje em dia, e é tão inútil
que resolvi afogá-la.
Mas sua mulher respondeu:
— Não o faças, pois tenho certeza de que ela é ainda capaz de pegar
ratos.
— Bobagem – disse Simão. – Os ratos poderiam dançar em cima de
sua cabeça, e ela nunca seria capaz de pegar um só que fosse. Já estou
resolvido: a próxima vez em que a vir, hei de botá-la na água.
Susana ficou infeliz demais ao ouvir isso, e não menos a gata, que estivera
ouvindo a conversa atrás do fogão. Quando Simão foi-se embora trabalhar,
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

a pobrezinha da gata miou tão tristonha, e deitou um olhar tão patético ao


rosto de Susana, que a mulher rapidamente abriu a porta e disse:
— Foge e salva tua vida, meu pobre bichano, e vai para bem longe
antes que teu dono retorne.
A gata seguiu-lhe o conselho e disparou em direção à mata, com
quanta força ainda restava em suas pernas já velhinhas. Quando Simão
chegou em casa, sua mulher lhe disse que a gata havia sumido.
— Tanto melhor para ela – disse Simão. – E agora que já nos livra-
mos dela, temos de pensar no que fazer com o cachorro velho. Ele está
perfeitamente surdo, e tão cego quanto surdo. Fica a latir sem nenhuma
razão e, quando há razão para latir, não solta um pio. Acho que a melhor
coisa que tenho a fazer com ele é enforcá-lo.
Mas Susana, coração mole que era, implorou:
— Por favor, não o faças; ele certamente não é assim tão inútil.
— Não sejas tola – disse-lhe o marido. – O jardim poderia estar api-
nhado de ladrões, que ele não desconfiaria de nada. Não, assim que o vir,
será o fim daquele cão, pode apostar.
Susana ficou infeliz que só ao ouvir-lhe as palavras, e não menos o
cachorro, que estava deitado num canto da sala e ouvira tudo. Mal Si-
mão saíra para trabalhar, o cachorro pôs-se de pé e começou a uivar tão
tristonho, com uma melancolia tão comovente, que Susana logo abriu-
-lhe a porta, dizendo:
— Foge por tua vida, pobre cãozinho, antes que teu dono volte. – E
lá se foi o cão, com sebo nas quatro canelas e o rabo entre as pernas, para
a floresta.
Quando o marido retornou, sua mulher lhe disse que o cão havia
sumido.
— Sorte dele – replicou Simão, mas Susana suspirou, pois se apegara
muito ao bicho.
Ora, aconteceu de o gato e o cachorro haverem se encontrado nas
suas andanças, e muito embora não tivessem sido lá melhores amigos
quando viviam em casa, ficaram muito felizes pelo encontro. Agora não

402
A Guerra do Lobo e da Raposa

estavam completamente entre estranhos. Sentaram-se ambos debaixo


dum azevinheiro e se puseram a lamentar seus infortúnios.
Uma raposa passava por ali naquele instante, e, ao ver aquele par
desconsolado, perguntou-lhes por que estavam ali, e do que estavam a
resmungar.
A gata respondeu:

403
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Peguei ratos sem conta quando era jovem, mas agora que estou
velha e incapaz de trabalhar, meu dono quer me afogar.
E o cachorro disse:
— Noites sem conta fiquei a vigiar e guardar a casa de meu dono, e
agora que estou velho e surdo, ele quer me enforcar.
A raposa lhes respondeu:
— É assim que o mundo funciona. Mas eu vos ajudarei a cair de volta
nas graças de vosso dono; contudo, primeiro, tereis de ajudar-me com
meus próprios problemas.
Prometeram fazer o melhor que pudessem, e a raposa continuou:
— O lobo declarou guerra contra mim e está agorinha junto com um
urso e um javali marchando para encontrar-me. Amanhã haverá uma
batalha feroz entre nós.
— Muito bem – disseram o cão e a gata –; ficaremos a teu lado, e
se morrermos, antes morrer num campo de batalha a morrer de forma
ignóbil em casa – e apertaram as patas e fecharam a barganha. A raposa
fez saber ao lobo que o encontraria em tal e qual lugar, e lá se foram os
três para encontrar a ele e a seus amigos.
O lobo, o urso e o javali chegaram primeiro, e quando estavam a es-
perar já fazia algum tempo pela raposa, o cachorro e a gata, o urso disse:
— Hei de subir cá neste carvalho, a ver se estão vindo.
A primeira vez correu o olhar pela paisagem e disse:
— Não vejo nada.
E na segunda vez correu o olhar e disse:
— Ainda não vejo nada.
Mas na terceira vez disse:
— Vejo um exército poderoso ao longe, e um dos guerreiros está a
carregar a maior lança que vós já vistes na vida!
Este era a gata, que vinha marchando com o rabo ereto.
E gargalharam e zombaram à beça, e estava tão quente que o urso disse:
— Neste ritmo, o inimigo levará ainda horas e horas para chegar aqui.
Sendo assim, vou me deitar cá nesta forquilha no galho d’árvore e tirar
uma soneca.

404
A Guerra do Lobo e da Raposa

E o lobo se deitou sob o carvalho, e o javali foi enterrar-se num


monte de palha, de modo que só o que se podia ver dele era uma orelha.
E enquanto estavam assim deitados, a raposa, a gata e o cão chega-
ram. Quando a gata viu a orelha do javali, pulou-lhe em cima e a agar-
rou, crente de que era um rato na palha.
O javali levou um susto medonho, levantou-se com um grunhido
barulhento e sumiu dentro da mata. Mas a gata ficou ainda mais apavo-
rada que o javali, e, silvando de terror, subiu toda afobada até o forquilho
da árvore – e, portanto, até a cara do urso. Agora foi a vez do urso ficar
alarmado, e com um rugido retumbante saltou da árvore e caiu bem em
cima do lobo, que ficou mortinho da silva.
Na volta para casa, a raposa pegou um punhado de ratos, e quando
chegaram à choupana de Simão, pôs todos eles no fogão e disse à
gata:
— Agora vai e pega um rato atrás do outro, e os vai pondo diante de
teu dono.
— Pois bem – respondeu a gata, e fez exatamente o que lhe fora
ordenado.
Quando Susana viu isso, falou ao seu marido:
— Vê só, cá está nossa velha gata de volta, e olha quantos ratos trouxe!
— E não é que milagre acontece mesmo?! – bradou Simão. – Eu
certamente nunca imaginaria que esta gata velha haveria de pegar outro
rato na vida.
Mas Susana respondeu:
— Pois aí está, eu sempre te disse que nossa gata era uma criatura
das mais excelentes… mas vós, homens, sempre achais que sabem tudo.
Nesse meio tempo a raposa disse ao cão:
— Nosso amigo Simão acabou de matar um porco; quando ficar um
pouco mais escuro, deves ir até o quintal e latir com quantas forças tens
no pulmão.
— Pois bem – disse o cachorro, e tão logo começou a escurecer, co-
meçou a latir e latir, alto que só.
Susana, que o ouvira primeiro, disse ao seu marido:

405
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Nosso cachorro deve ter voltado, pois eu o ouvi latindo, muito


alarmado. Sai lá fora e vê qual é o problema; talvez ladrões estejam a nos
roubar as salsichas.
Mas Simão respondeu:
— Aquele bicho estúpido é tão surdo quanto um poste, e está sempre
a latir para coisa nenhuma – e se recusou a se levantar.
Na manhã seguinte Susana saiu da cama cedinho, para ir até a igreja
na cidade vizinha, e achou por bem levar algumas salsichas à sua tia,
que lá morava. Mas quando foi até sua despensa, descobriu que todas as
salsichas haviam sumido e que havia um buraco enorme no chão. Gritou
ao seu marido:
— Eu estava totalmente certa. Ladrões estiveram aqui ontem à noite,
e não nos deixaram uma só salsicha. Ó! Se tivesses te levantado quando
eu te pedi!
Então Simão coçou a cabeça e disse:
— Não estou entendendo é mais nada. Eu certamente não acreditava
que o velho cão tivesse uma audição tão aguçada.
Mas Susana respondeu:
— Eu sempre te disse que o nosso velho cão é o melhor cachorro do
mundo – mas, para variar, pensaste que sabias muito mais do que eu. Os
homens são mesmo iguaizinhos, no mundo inteiro.
E a raposa também se deu bem no final, pois fora ela quem levara as
salsichas!*

* Irmãos Grimm.

406
A história do Pescador
e sua Esposa

ra uma vez um pescador que vivia com sua esposa


numa cabana perto do mar, aonde todos os dias ia
pescar, e lá passava o dia inteiro pescando. Ali sen-
tado, com a vara de pesca estendida, contemplava as
águas reluzentes e lá passava o dia inteiro as con-
templando.
Pois bem, certa vez a linha desceu até o fundo do mar, e, quando o
pescador a puxou de volta, puxou junto um enorme linguado. E o lin-
guado assim lhe falou:
— Ouve-me, pescador. Imploro que me soltes: não sou um linguado
de verdade, e sim um príncipe encantado. De que te adiantaria me matar?
Minha carne não deve ter um bom sabor. Devolve-me às águas e deixa-
-me ir embora.
— Está bem ‒ disse o homem ‒, não faças tanto escarcéu. Tenho
certeza de que é bem melhor soltar um linguado falante do que comê-lo.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Dito isto, devolveu-o ao mar, e o linguado nadou para o fundo, dei-


xando em seu caminho um rastro de sangue.
O pescador então se levantou e seguiu para casa.
— Meu homem ‒ disse a esposa ‒, não pescaste nada hoje?
— Não ‒ disse o homem ‒, apanhei apenas um linguado que dizia
ser um príncipe encantado, e o devolvi à água.
— Não pediste nada a ele? ‒ perguntou a esposa.
— Não pedi ‒ disse o marido. ‒ O que deveria ter pedido?
— Ah ‒ disse a esposa ‒, é horrível ter que morar a vida inteira nesta
cabana apertada e suja. Devias ter pedido a ele um confortável chalé. Vai
até lá e o chama; dize-lhe que queremos um chalé, e com toda certeza
o peixe o dará.
— Ai! ‒ disse o homem ‒ de que adiantará que eu volte agora?
— Ora ‒ respondeu a esposa ‒, tu o apanhaste e depois o devolveste ao
mar; estou certa, pois, de que ele te dará o que pedires. Vai logo!
O homem não estava nada contente em ter que ir, mas como era impos-
sível convencer sua mulher do contrário, lá se foi ele de volta à beira do mar.
Quando chegou, o mar estava verde-musgo, e já não reluzia como an-
tes. O pescador postou-se na praia e disse:

Ó príncipe-linguado,
que nadas encantado
Temo dizer o que quer
Ilsebel, minha mulher.

O linguado nadou até a praia e falou:


— Pois bem, o que ela quer?
— Ai de mim! Minha mulher fala que eu devia ter te segurado e feito
um pedido. Ela não quer mais morar numa cabana; gostaria de ganhar
um chalé.
— Vai para casa, então ‒ disse o linguado ‒; ela já o tem.
Então o homem voltou para casa, onde encontrou sua mulher senta-
da na varanda de um lindo chalé. Ela o pegou pela mão e lhe disse:
— Entremos, e dize-me se não está bem melhor.

408
A história do Pescador e sua Esposa

Entraram, e dentro do chalé havia um pequeno saguão, uma linda


sala de estar, um quarto de dormir com cama, uma cozinha e uma sala de
jantar toda mobiliada com o que havia de melhor, provida de todo tipo
de utensílios de estanho e cobre. Do lado de fora havia um quintal com
patos e galinhas, e também um jardim com verduras e fruteiras.

409
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Vê só ‒ disse a esposa ‒; não é bonito?


— É, sim ‒ respondeu o marido. ‒ Aqui permaneceremos e vivere-
mos felizes.
— Isto veremos… ‒ falou a mulher.
Ditas estas palavras, jantaram e foram deitar. Tudo correu bem por
um par de semanas, até que a esposa disse:
— Escuta, homem: o chalé é muito pequeno, e também o quintal e o
jardim. O linguado bem que poderia ter-nos dado uma casa maior. Eu
gostaria de morar num grande castelo de pedra.
— Ah, mulher ‒ disse o pescador ‒, o chalé está de bom tamanho;
por que havemos de morar num castelo?
— E por que não? ‒ disse a mulher. ‒ Desce até a praia; o linguado
pode muito bem nos dar tudo isso.
— Não, mulher ‒ disse o homem. ‒ O linguado nos deu o chalé. Não
quero ir lá de novo; pode ser que ele leve a mal.
— Vai ‒ disse a mulher. ‒ Com certeza ele pode nos dar um castelo,
e o fará de bom grado. Vai já.
O pescador foi muito a contragosto, com o coração pesaroso. Dizia
consigo mesmo:
— Isto não é certo.
Mas foi ainda assim.
Quando chegou ao mar, a água estava toda violeta e azul-escura, toda
espessa e baça, e já não tinha o azul-esverdeado de antes, embora ainda
estivesse tranquila. O pescador ali postou-se e disse:

Ó príncipe-linguado,
que nadas encantado
Temo dizer o que quer
Ilsebel, minha mulher.

— O que ela quer agora? ‒ disse o linguado.


— Ah ‒ disse o pescador, meio sem jeito ‒, quer agora viver num
grande castelo de pedra.
— Vai para casa, que a encontrarás diante do portão ‒ disse o linguado.

410
A história do Pescador e sua Esposa

O pescador voltou ao lar pensando que não encontraria casa alguma.


Ao se aproximar, no lugar de seu chalé havia um grande castelo de pe-
dra, e na soleira do portão estava a esposa, prestes a entrar. Ela o pegou
pela mão e disse:
— Entremos.
Entraram juntos no castelo, e dentro ele viu um grande saguão com
piso de mármore, e muitos criados a postos para abrir as enormes por-
tas; nos aposentos havia mesas e cadeiras de ouro, dos tetos pendiam
lustres de cristal; e todos os quartos eram cobertos de lindos tape-
tes. As melhores comidas e bebidas estavam à disposição para quan-
do quisessem jantar. Do lado de fora da casa, havia um grande pátio,
com uma estrebaria para os cavalos, um estábulo para o gado, e uma
cocheira – todos construídos com muito capricho. Havia também um
esplêndido pomar com as mais belas flores e fruteiras, e num parque
de mais ou menos uma légua havia cervos, corças e lebres, e tudo mais
que se possa desejar.
— E então ‒ disse a esposa ‒: não é lindo?
— Certamente ‒ disse o pescador. ‒ Agora permaneceremos aqui,
viveremos neste lindo castelo e seremos muito felizes.
— Vamos pensar a respeito… ‒ disse a esposa, e foram deitar.
Na manhã seguinte a esposa acordou ao romper do dia, e da cama
olhou para os lindos campos que à sua frente se estendiam além do
castelo. O marido ainda dormia, então ela cravou os cotovelos em seus
flancos e falou:
— Homem, acorda e olha pela janela. Não poderíamos ser os sobe-
ranos de toda esta terra? Vai até o linguado e dize-lhe que desejamos ser
rei e rainha.
— Ah, mulher! ‒ replicou o marido. ‒ Por que eu haveria de ser rei?
Não quero ser rei.
— Bom ‒ disse a mulher ‒, se não queres ser rei, serei eu o rei. Vai até
o linguado; eu serei rei.
— Ai de mim, mulher! ‒ disse o pescador. ‒ Por que queres ser rei?
Não posso pedir tal coisa.

411
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— E por que não? ‒ disse a mulher. ‒ Desce agora mesmo à praia.


Tenho que ser rei!
Então lá se foi o pescador, muito vexado de sua mulher querer ser rei.
— Não é certo! Não é certo! ‒ pensava. Não queria ir, mas foi.
Quando chegou à beira do mar, a água estava cinza-escura e avançava
sobre a praia. Lá o pescador postou-se e disse:

Ó príncipe-linguado,
que nadas encantado
Temo dizer o que quer
Ilsebel, minha mulher.

— O que ela quer agora? ‒ perguntou o linguado.


— Ai de mim! ‒ disse o pescador. ‒ Quer ser rei!
— Vai para casa, que ela já o é ‒ disse o linguado.
O pescador foi para casa e, quando se aproximou do palácio, viu que
estava muito maior, que tinha enormes torres, e estava entalhado com
belíssimas gravuras. Uma sentinela guardava o portão, e marchava um
grande número de soldados com tímbales e trompetes. Quando entrou
no palácio, viu que era todo feito de mármore e ouro puro, com cortinas
de damasco e borlas de ouro. Então as portas do saguão se escancararam,
e lá se encontrava a corte inteira ao redor de sua esposa, que estava sen-
tada num trono muito elevado, feito de ouro e diamante; usava na cabeça
uma coroa de ouro e nas mãos segurava um cetro feito de ouro e pedras
preciosas; de cada lado dela havia seis pajens enfileirados, cada um mais
alto que o outro por uma cabeça. Ele então foi até a mulher e disse:
— Ah, mulher, agora és rei?
— Sou ‒ disse a mulher. ‒ Agora sou rei.
Ficou a olhar para ela, e depois que a olhou por um tempo, disse:
— Já basta, mulher, agora que és rei. Não há nada mais que possamos
desejar.
— Não, homem ‒ disse a mulher, irrequieta ‒, meus desejos não têm
fim, e já não os posso conter. Desce à beira do mar para ver o linguado:
rei já sou, hei de ser imperador.

412
A história do Pescador e sua Esposa

— Ai de mim, mulher! ‒ disse o pescador. ‒ Por que queres ser im-


perador?
— Homem ‒ disse ela ‒, vai ao linguado; eu serei imperador.
— Ah, mulher! ‒ disse o marido. ‒ Ele não pode tornar-te imperador;
não quero lhe pedir tal coisa. Só há um imperador no reino. Não mesmo,
de jeito nenhum: não há como ele fazer-te imperador.
— Como é? ‒ disse a esposa. ‒ Eu sou rei, e tu és meu marido. Vai de
uma vez! Vai! Se o peixe pode fazer um rei, pode fazer um imperador, e
imperador hei de ser. Vai!
O homem teve que ir. Porém, no caminho, sentiu muito medo, e
pensou consigo mesmo:
— Isto não pode estar certo; aspirar a imperador é muita ambição. O
linguado afinal se enfadará.
Assim pensando chegou à praia. O mar estava negro e espesso, as on-
das rebentavam e engoliam a praia inteira; a espuma voava pelos ares, e
o vento soprava rajadas: tudo era desolação. O pescador tremia de medo.
Ali postou-se e disse:

Ó príncipe-linguado
que nadas encantado,
Temo dizer o que quer
Ilsebel, minha mulher.

— O que ela quer agora? ‒ perguntou o linguado.


— Ai de mim! ‒ disse o homem. ‒ Minha mulher quer ser imperador.
— Vai para casa ‒ disse o linguado. ‒ Já o é.
O pescador foi então para casa e, quando chegou, viu que o castelo
inteiro era feito de mármore polido, ornado de ouro e estátuas de ala-
bastro. Diante dos portões, soldados marchavam, sopravam trompetes
e batiam tambores. Dentro do palácio caminhavam barões, condes e
duques, todos às ordens do imperador; estes lhe abriram o portão, que
era de ouro batido. E o homem, quando entrou, viu sua mulher sentada
num trono feito de um bloco maciço de ouro, de uns seis côvados de al-
tura. Na cabeça a mulher usava uma esplêndida coroa de ouro, com três

413
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

metros de altura e cravejada de brilhantes e gemas cintilantes. Numa


das mãos segurava um cetro, e na outra, o globo imperial. De cada lado
havia duas fileiras de alabardeiros, cada um menor que o outro, desde
um gigante de três metros até o mais pequerrucho dos anões, que não
passava do tamanho de um minguinho. Vários príncipes e duques esta-
vam virados para ela. O pescador aproximou-se discretamente e disse:
— Mulher, és agora imperador?
— Sim ‒ disse ela. ‒ Sou imperador.
O homem ficou observando a sua magnificência e, depois que a ob-
servou por um tempo, disse:
— Ah, mulher, agora que és imperador, já basta.
— Homem ‒ disse ela ‒, por que estás aí parado? Já sou imperador, e
quero também ser papa; vai até o linguado.
— Ai de mim, mulher! ‒ disse o pescador. ‒ O que mais vais querer?
Não podes ser papa; há apenas um papa para toda a cristandade, e o
linguado não te pode dar tal coisa.
— Homem ‒ disse ela ‒, serei papa. Desce já; hei de ser papa hoje
mesmo.
— Não, mulher ‒ disse o pescador. ‒ Não posso pedir tal coisa. Não
é certo, isso já é demais. O linguado não te pode fazer papa.
— Homem, que asneira! ‒ disse a mulher. ‒ Se pode fazer impera-
dor, pode fazer papa também. Desce agora mesmo; sou imperador, e tu
és meu marido.Vais agora, ou terei que mandar outra vez?!
Então ele teve medo e saiu, mas sentia-se fraco, tremia e chacoa-
lhava, e suas pernas e joelhos vergavam sob seu peso. O vento soprava
feroz por toda a terra, e as nuvens que cruzavam pelo céu eram escuras
a ponto de o dia parecer noite; as folhas voavam, arrancadas das árvo-
res; a água espumava, fervia e rebentava na praia. Ao longe, o pescador
via quanto perigo enfrentavam os navios, que dançavam e sacudiam
sobre as ondas. Apesar disso, o alto do céu estava ainda muito azul,
embora o horizonte se inflamasse de vermelho, como se estivesse para
cair uma grande tempestade. Então ali se postou, estremecido e aflito,
e disse:

414
A história do Pescador e sua Esposa

Ó príncipe-linguado
que nadas encantado,
Temo dizer o que quer
Ilsebel, minha mulher.

— Pois bem, o que ela quer agora? ‒ perguntou o linguado.


— Ai de mim! ‒ disse o pescador. ‒ Quer ser papa.
— Vai para casa, então, que já o é ‒ disse o linguado.
Foi então para casa e, quando chegou, viu uma enorme igreja cercada
de palácios. Abriu caminho pela multidão e viu o interior, todo ilumi-
nado com milhares e milhares de velas, e sua mulher vestida de ouro e
sentada num trono ainda mais elevado que antes, e na cabeça dela havia
três coroas de ouro. Cercavam-na multidões de dignitários da Igreja, e
de cada lado havia duas fileiras de círios, dos quais o maior era alto como
um campanário, e o menor, pequeno como uma vela de Natal. Todos os
imperadores e reis estavam ajoelhados diante dela e lhe beijavam os pés.
— Mulher ‒ disse o pescador, olhando para ela ‒, és agora papa?
— Sim ‒ disse ela. ‒ Sou papa.
Ficou então a olhar para ela, e era como se olhasse para o brilho do
próprio sol. Depois de olhar por um bom tempo, disse:
— Ah, mulher, agora que és papa, já basta.
Mas ela se manteve imóvel e reta como uma árvore, e não se mexeu
nem se dobrou minimamente. O homem repetiu:
— Mulher, fica satisfeita agora que és papa. Não podes ser nada maior.
— Isto veremos… ‒ disse a esposa.
Com estas palavras, foram deitar. Mas a mulher não estava satis-
feita; sua cobiça não a deixava dormir, e ela passou a noite pensando e
repensando o que mais poderia vir a ser. Então o sol começou a raiar, e
a mulher, quando viu a alvorada vermelha, foi até a ponta da cama para
olhá-la melhor, e, enquanto a observava, pensou consigo mesma:
— Ah! E se eu pudesse mover o sol e a lua?
Disse então a seu marido, fincando-lhe nas costelas os cotovelos:
— Homem, acorda. Desce e vai até o linguado; serei um deus.

415
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

O pescador ainda não estava bem acordado, mas se assustou tanto que
caiu da cama. Pensou não ter escutado bem, então arregalou os olhos e disse:
— O que disseste, mulher?
— Homem ‒ disse ela ‒, enquanto eu não puder, com a minha sim-
ples presença, mover o sol e a lua, não conheço repouso. Não descansarei
até que possa mover o sol e a lua.
O homem olhou-a com pavor, e um tremor lhe correu o corpo inteiro.
— Desce agora mesmo; serei um deus.
— Ai de mim, mulher! ‒ disse o pescador, caindo de joelhos diante
dela. ‒ O linguado não te pode dar isto. Que sejas imperador e papa, isto
ele pode te dar. Imploro-te, fica satisfeita e permanece papa.
A mulher então perdeu as estribeiras, e seus cabelos enfurecidos se
esparramaram sobre a cara; ela empurrou o marido com o pé e gritou:
— Não estou satisfeita e nunca estarei satisfeita! Vai já!
Ele então se vestiu o mais depressa que pôde e saiu correndo feito
louco. Porém, a tempestade se agitava com tanta violência que ele mal
conseguia ficar de pé. Casas e árvores voavam pelos ares, montanhas in-
teiras chacoalhavam, e estilhaços de pedras rolavam mar adentro. O céu,
preto como carvão, trovejava e relampejava, e no mar revolto as ondas,
crescidas, se igualavam às torres das igrejas e às montanhas, e tinham
todas uma crista branca de espuma.
Então o homem gritou, incapaz de ouvir a própria voz:

Ó príncipe-linguado
que nadas encantado,
Temo dizer o que quer
Ilsebel, minha mulher.

— O que ela quer agora?


— Ai de mim! ‒ disse o homem. ‒ Quer ser um deus.
— Vai para casa, então, que ela está sentada em sua velha cabana.
E ali estão sentados até hoje.*

* Irmãos Grimm.

416
Os Três Músicos

ra uma vez três músicos que saíram de casa para


excursionar pelo mundo. Todos haviam aprendi-
do música com o mesmo mestre, e então decidiram
manter-se unidos e tentar a sorte em terras estrangei-
ras. Peregrinavam alegremente de cidade em cidade
e assim conseguiram granjear uma boa vida, sendo
muito admirados por todos que os viam tocar.
Certa noite, chegaram a um povoado onde a todos encantaram com
sua música maravilhosa. Por fim, pararam de tocar e começaram a comer,
beber e ouvir a conversa que circulava à sua volta. Ficaram sabendo de
todos os mexericos do lugar, e muita coisa espantosa foi dita e discutida.
A conversa enfim enveredou sobre um castelo que havia nas redondezas, a
respeito do qual se disseram muitas coisas estranhas e prodigiosas. Alguém
disse que ali se encontrava um tesouro escondido; outro, que ali se serviam
os manjares mais esplêndidos, apesar de ser um castelo desabitado; um ter-
ceiro, ainda, disse que ali vivia um espírito maligno tão terrível, que quem
forçasse sua entrada no castelo sairia de lá mais morto do que vivo.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Tão logo os três músicos viram-se sozinhos em seu quarto de dormir,


concordaram em explorar o misterioso castelo e, se possível, encontrar
e tomar o tesouro escondido. Decidiram, ainda, agir cada um por si, um
após o outro, por ordem de idade, ficando acordado que cada explorador
teria um dia inteiro para tentar a sorte.
O rabequista foi o primeiro a lançar-se na aventura, e o fez com o
melhor dos ânimos, armado de toda a coragem. Ao chegar ao castelo,
encontrou o portão aberto, como se já o esperassem. Porém, mal cruza-
ra o portal da entrada, uma pesada porta fechou-se atrás dele com um
estrondo, sendo trancada por uma enorme barra de ferro, como se uma
sentinela estivesse a postos mantendo a guarda, mas não se via ninguém
em lugar algum.
Um pavoroso terror apossou-se do rabequista, mas era em vão pensar
em voltar ou permanecer onde estava, e a esperança de encontrar ouro e
outras riquezas o reanimou, dando-lhe força e coragem para seguir em
frente e prosseguir na exploração do castelo. Subiu e desceu as escadas,
vagou por corredores suntuosos e majestosos aposentos, passando por
requintados budoares – tudo disposto com muita beleza e mantido na
mais perfeita ordem. Mas sobre todas as coisas pairava um silêncio mor-
tal, e nenhuma criatura viva, sequer uma mosca, se via ali.
Todavia, o rapaz sentiu remoçar o espírito quando penetrou na par-
te inferior do castelo, pois encontrou na cozinha os mais apetitosos e
tentadores manjares; a adega estava repleta dos mais caros vinhos, e a
despensa, abarrotada de potes de geleia de todas as qualidades que se
possa imaginar. Nas labaredas do forno, um assado era preparado por
alguém que não se podia ver, como também o eram toda sorte de legu-
mes e outros pratos tentadores. Antes que o rabequista tivesse tempo de
colocar as ideias em ordem, foi levado a um pequeno aposento por mãos
invisíveis, onde uma mesa estava posta para ele, com todos os apetitosos
pratos que vira sendo preparados na cozinha.
O rapaz tomou de sua rabeca e tocou uma bonita ária, que ecoou pelos
corredores silenciosos, e depois pôs-se a comer vorazmente o que havia
sobre a mesa. Não demorou muito, entretanto, a porta se abriu e por ela

418
Os Três Músicos

entrou um pequeno homenzinho, que não chegava a medir um metro de


altura. Vinha metido num roupão, tinha o rosto pequeno e enrugado e
uma barba cinza que se estendia até as fivelas de seus sapatos. O homen-
zinho sentou-se ao lado do rabequista e pôs-se a cear também. Quando
chegaram à travessa de carne, o rabequista ofereceu ao anão um garfo e
uma faca, pedindo-lhe que se servisse primeiro e então passasse a travessa.
O anão assentiu com um movimento de cabeça, mas se serviu tão desa-
jeitadamente, que derrubou no chão o pedaço de carne que havia cortado.
O rabequista, que tinha bom coração, abaixou-se para pegá-lo, mas,
num segundo, o homenzinho avançou sobre suas costas e começou a
golpeá-lo, dando-lhe uma verdadeira sova. Estando o rabequista quase
à beira da morte, o malvado anão parou de espancá-lo e o enxotou do
castelo, empurrando-o portão afora – o mesmo portão que poucas horas
antes cruzara tão cheio de esperanças.
O ar fresco fê-lo reviver um pouco e, passado não muito tempo, já
conseguia mover os membros doloridos para voltar cambaleando à hos-
pedaria onde estavam seus amigos. Era noite quando a alcançou, e os
dois outros músicos dormiam um sono profundo.
Na manhã seguinte, todos ficaram admirados por vê-lo dormindo
na cama ao lado e bombardearam-lhe com perguntas, mas o rabequista
apenas escondia o rosto e as costas e respondia-lhes com poucas pala-
vras, dizendo:
— Ide vós mesmos e vede o que há para ver! É medonho, posso vos
garantir.
Foi a vez do segundo músico, um trompetista, e tudo lhe sucedeu
exatamente como ao rabequista. A princípio foi tratado com hospita-
lidade e, logo em seguida, cruelmente atacado e espancado, de modo
que no dia seguinte também amanheceu sobre a cama como uma lebre
ferida, garantindo a seus amigos que entrar no castelo não era um pas-
seio no parque. Contrariando a advertência de seus amigos, o terceiro
músico, que tocava flauta, seguiu decidido a tentar a sorte e, cheio de
coragem e ousadia, partiu determinado a encontrar e assenhorear-se do
tesouro escondido.

419
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

Percorreu, destemido, todo o castelo; e, enquanto vagueava por seus


fabulosos aposentos, pensou consigo como seria bom viver sempre ali,
principalmente com a despensa cheia e uma adega à sua disposição.
Também para ele uma mesa fora posta e, depois de andar por algum
tempo, cantando e tocando flauta, sentou-se à mesa, como seus amigos

420
Os Três Músicos

antes de si o fizeram, pronto para saborear o convidativo jantar disposto


à sua frente. Então o homenzinho barbado entrou, como antes, e sen-
tou-se ao lado do flautista, que não se surpreendeu nem um pouco com
sua aparência, travando com ele uma conversa, como se fossem velhos
conhecidos. Seu companheiro, entretanto, não parecia muito comuni-
cativo. Chegaram, finalmente, à travessa de carne, e, como de costume,
o homenzinho deixou cair seu pedaço no chão. O flautista gentilmente
fez menção de apanhá-lo, mas então percebeu que o anãozinho estava
prestes a avançar-lhe sobre as costas. Virou-se rapidamente e, agarrando
a criaturinha pela barba, deu-lhe um safanão tão forte, que a barba se
soltou e o anão caiu no chão, gemendo.
Mas, tão logo apoderou-se da barba, o jovem sentiu-se tão poderoso
que parecia invencível, e se deu conta de muitas coisas no castelo que
não notara antes; ao mesmo tempo, toda a força parecia ter-se esvaído
do anãozinho. Ele choramingava e soluçava:
— Ó, dai-me minha barba novamente, e revelar-vos-ei toda a mágica
que envolve este castelo, e ajudar-vos-ei a obter o tesouro escondido, que
vos fará rico e ditoso para todo o sempre!
Mas o esperto flautista respondeu:
— Terás tua barba, mas ajuda-me primeiro, como prometeste. Até
que o tenhas feito, não te devolverei coisa alguma.
Então o velhote viu-se obrigado a cumprir o que prometera, embora
não tivesse tido a menor intenção de fazê-lo, e, se disse o que disse, foi
apenas para obter a barba de volta. Conduziu o rapaz por escuras pas-
sagens secretas, grutas subterrâneas e rochedos cinzentos, até chegar a
uma área aberta, que parecia pertencer a um mundo mais belo do que
este nosso. Caminharam até um rio de correnteza; o homenzinho sacou
de um cajado e com ele tocou nas ondas, ao que as águas se dividiram e
ficaram imóveis, e os dois cruzaram o leito do rio a pé.
Como tudo era belo, do outro lado! Encantadoras trilhas verdejantes
cortavam bosques e campos cobertos de flores; pássaros com penas de
ouro e prata cantavam sobre os galhos das árvores; adoráveis borboletas
e besouros cintilantes batiam as asas e rastejavam aqui e ali, e pequenos

421
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

animaizinhos escondiam-se nos arbustos e nas sebes. Sobre eles, o céu


não era azul, mas iluminado por raios do mais puro ouro, e as estrelas
pareciam ter o dobro do tamanho normal e brilhar mais do que as do
nosso mundo.
O espanto do flautista crescia à medida que o homenzinho grisalho
o conduzia por um castelo ainda maior e mais suntuoso que o primeiro.
Neste também reinava o mais profundo silêncio. Percorreram todo o
castelo e, por fim, chegaram a um aposento em cujo centro estava uma
cama cercada de pesadas cortinas. Sobre a cama dependurava-se uma
gaiola, e o som das bonitas melodias que o pássaro entoava cindia o
espaço silencioso. O homenzinho grisalho ergueu as cortinas que cir-
cundavam a cama e acenou para que o jovem se aproximasse. Sobre
almofadas de seda bordadas com fios de ouro e prata, jazia uma moça
encantadora, que dormia. Era bela como um anjo, com cabelos dourados
que lhe caíam em cachos sobre os ombros de mármore, e, sobre sua ca-
beça, uma coroa de brilhantes reluzia. Estava, entretanto, encantada por
um sono de morte, e nenhum ruído era capaz de despertá-la.
Então o homenzinho encarou o semblante maravilhado do rapaz e
disse-lhe:
— Vede! Aqui está a pequena adormecida. É uma poderosa prin-
cesa. Este magnífico castelo e esta terra encantada lhe pertencem, mas
há centenas de anos ela dorme esse sono encantado. Durante todo esse
tempo, nenhum vivente jamais conseguiu chegar até aqui. Eu, sozinho,
tenho mantido sua guarda, incumbindo-me de ir diariamente ao meu
castelo buscar alimento e dar uma lição nesses miseráveis sequiosos de
lucros que invadem minha morada. Tenho zelado pela princesa todos es-
ses anos e posso garantir que nenhum desconhecido jamais se aproximou
dela, porém todo meu poder mágico reside em minha barba e, agora que
a tomastes de mim, nada posso fazer. Não posso mais manter a bela prin-
cesa em seu sono encantado, sendo obrigado a revelar-vos meu valioso
segredo. Então, mãos à obra, faz o que vos ordeno. Tomai o pássaro aci-
ma da cabeça da princesa, cujo canto fê-la dormir esse sono encantado
– um canto que jamais cessou desde então. Tomai-o e matai-o; devereis

422
Os Três Músicos

arrancar seu coração e reduzi-lo a cinzas, as quais derramareis sobre os


lábios da princesa. Então, ela despertará na mesma hora e conceder-vos-á
seu coração e sua mão em casamento, seu reino e seu castelo, e todas as
suas riquezas.
O anãozinho parou, esgotado, e o rapaz não demorou a cumprir suas
ordens. Executou imediatamente tudo o que o homenzinho lhe dis-
sera, nos mínimos detalhes; e, tendo arrancado o coração do pássaro,
tratou de reduzi-lo a cinzas. Assim que as derramou sobre os lábios
da princesa, ela abriu seus belos olhos e, observando o semblante feliz
do rapaz, beijou-o com ternura e agradeceu-lhe por tê-la libertado do
sono encantado, prometendo ser sua esposa. No mesmo instante, um
estrondo como o de um trovão ecoou pelo castelo, e ruídos inundaram
as escadarias e cada um dos aposentos. Então uma multidão de criados e
criadas entrou no quarto de dormir onde estava o ditoso casal e, depois
de desejar felicidades à princesa e ao noivo, espalharam-se por todo o
castelo, ocupados com os mais diversos afazeres.
Mas o homenzinho grisalho começou a exigir que o rapaz devolves-
se-lhe a barba, pois, em seu perverso coração, estava decidido a dar um
basta a toda aquela felicidade. Ele sabia que bastava reaver sua barba
para que pudesse fazer o que bem entendesse com todas aquelas pessoas.
A astúcia do flautista, porém, nada deixava a desejar quando comparada
à do homenzinho grisalho, e ele então disse:
— Está bem, não temas, terás tua barba antes de voltarmos. Entre-
tanto, permite que minha noiva e eu te acompanhemos por um trecho
do caminho.
O homenzinho não pôde recusar o pedido, e então caminharam to-
dos juntos pelas trilhas verdejantes e campos floridos, chegando afinal
ao rio que se estendia por muitos quilômetros em torno das terras da
princesa, formando a barreira de seu reino. Não havia ponte nem barco
em lugar algum, sendo impossível chegar ao outro lado, pois o mais
destemido nadador não ousaria enfrentar a correnteza feroz e as águas
revoltas. Então o jovem disse ao anão:
— Dá-me vosso cajado para que eu divida as águas.

423
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

O anão foi obrigado a obedecer, porque o jovem ainda detinha a


barba; mas aquela criaturinha perversa estremeceu de júbilo e pensou
consigo: “Esse rapaz tolo devolverá minha barba assim que tivermos
cruzado o rio, e então restaurarei meu poder. Tomarei meu cajado de
volta e impedirei que os dois retornem ao seu belo reino.”
Mas as intenções malignas do anão estavam destinadas a fracassar. O
afortunado rapaz tocou na água com o cajado, e as ondas imediatamente
se dividiram e ficaram imóveis. O anão seguiu na frente e cruzou o leito
do rio. Assim que o fez, as águas fecharam-se atrás dele, permanecendo
o rapaz e sua bela noiva em segurança do outro lado. Então atiraram a
barba para o velho por cima do rio, mas se mantiveram em posse de seu
cajado, de modo que o malvado anão jamais pudesse penetrar naquele
reino. O feliz casal voltou ao castelo e desfrutou de uma vida pacífica e
próspera para sempre. Os outros dois músicos esperaram em vão pelo
retorno de seu amigo e, como ele não voltasse, disseram:
— Ah, esse agora leva a vida na flauta – até que a frase virasse um dito
popular para se referir a alguém que vive sem se dedicar ao trabalho.*

* Irmãos Grimm.

424
Os Três Cães

ra uma vez um pastor que tinha dois filhos; um


menino e uma menina. No seu leito de morte, vol-
tou-se para eles e lhes disse:
— Não tenho nada para vos deixar senão três
ovelhas e uma casinha; dividi-o como quiserdes,
mas em hipótese alguma brigueis sobre a partilha.
O pastor morreu, e o irmão perguntou à sua irmã o que ela preferia:
se as ovelhas, se a casinha. Quando ela escolheu a casa, ele disse:
— Então hei de pegar as ovelhas e correr mundo à procura de mi-
nha fortuna. Não vejo por que não possa ser tão sortudo quanto tantos
outros que saíram em busca do mesmo, e não foi por nada que eu nasci
num domingo.
E lá saiu ele a viajar, conduzindo as suas três ovelhas sempre dian-
te de si, e por muito tempo não pareceu estar nos planos da fortuna
favorecê-lo em nada. Um dia o moço estava sentado numa encruzilhada,
desconsolado, quando de repente um homem surgiu à sua frente com
três cães, cada qual maior que o outro.
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

— Olá, meu velho – disse o homem –, vejo que tens aí contigo três
ovelhas gordas. Digo-te o seguinte: se me deres uma delas, dou-te em
troca meus três cães.
Por mais desgostoso que estivesse, o moço sorriu e respondeu:
— E o que eu faria com teus cães? As minhas ovelhas ao menos se
alimentam a si mesmas, mas eu teria de encontrar comida para os ca-
chorros.
— Meus cães não são como os outros cães – disse o estranho. –;
Alimentarão a ti ao invés de tu a eles, e hão de fazer-te rico. O me-
nor chama-se “Sal” e te dará comida sempre que quiseres; o segundo
chama-se “Pimenta” e rasgará em pedaços qualquer um que te queira
fazer mal; e o grande, e maior de todos, chama-se “Mostarda” e é tão
poderoso que pode rasgar ferro e aço com os dentes.
O pastor enfim deixou-se convencer, e deu sua ovelha ao estranho.
Para testar o que este lhe dissera acerca dos cães, não perdeu tempo e
disse:
— Sal, estou faminto – e mal as palavras lhe haviam saído da boca, já
o cachorro sumira, apenas para daí a alguns minutos ressurgir com uma
cesta repleta da comida mais deliciosa que se poderia imaginar. Então
o moço ficou satisfeitíssimo consigo mesmo pela barganha que fizera e
seguiu em frente num bom humor que só.
Um dia, deparou-se com uma carruagem, drapeada toda com um
tecido preto; e até os cavalos vinham cobertos da mesma cor, e também
o cocheiro estava vestido dos pés à cabeça com uma roupa de funeral.
Dentro da carruagem estava sentada uma linda moça, com um vestido
tão negro quanto todo o resto, chorando amargamente. Os cavalos se
iam arrastando, num passo melancólico, cabisbaixos.
— Cocheiro, por que tanta tristeza? – perguntou o pastor.
A princípio o cocheiro não disse palavra, mas de tanto o rapaz pres-
sioná-lo acabou por contar-lhe que um dragão gigantesco vivia por
aquelas redondezas e todos os anos exigia que lhe sacrificassem uma
bela donzela. Neste ano escolhera-se a filha do rei, e o país inteiro fora
portanto acometido de uma angústia enorme.

426
Os Três Cães

O pastor muito se apiedou da encantadora donzela e resolveu seguir


a carruagem. Daí a pouco esta fez uma parada no pé de uma montanha
muito alta. A garota saiu e se pôs a se arrastar, com uma tristeza de
morte, em direção ao seu terrível destino. O cocheiro notou que o pastor
desejava segui-la e o alertou que melhor lhe seria ficar longe, se dava
algum valor à vida, mas o pastor não lhe deu ouvidos. Quando estavam
na metade da colina, eis que avançou sobre eles um monstro horrendo
que, com corpo de cobra e asas e garras gigantescas, cuspia fogo e estava
pronto a agarrar sua vítima. Então o pastor gritou:
— Pimenta, estou em apuros! – e o segundo cachorro atacou o dra-
gão, e depois de uma batalha feroz cravou-lhe os dentes tão fundo no
pescoço que o monstro parou de lutar, e logo caiu morto no chão. De-
pois, o cachorro comeu-lhe o corpo inteiro, a não ser as duas presas da
frente, que o pastor pegou do chão e meteu no bolso.

427
Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

A princesa ficou tão aterrorizada quanto alegre e desmaiou aos pés


de seu salvador. Ao recobrar os sentidos, rogou ao pastor para que re-
tornasse com ela até seu pai, que o recompensaria ricamente. Mas o
rapaz respondeu-lhe que desejava conhecer o mundo e que ao cabo de
três anos haveria de voltar, e coisa nenhuma o faria mudar de ideia. A
princesa sentou-se mais uma vez em sua carruagem e, dando-se ambos
adeus um ao outro, separaram-se – ela, para voltar a casa, ele, para co-
nhecer o mundo.
Mas enquanto a princesa atravessava uma ponte, a carruagem de sú-
bito estacou, e o cocheiro virou-se para ela, dizendo:
— Teu salvador já não está aqui, e faz pouco caso de tua gratidão.
Serias muito gentil se fizesses um pobre diabo feliz; portanto, poderias
dizer ao teu pai que fui eu quem matou o dragão. Se te recusares, jogo-te
no rio e ninguém nunca desconfiará de nada, pois todos creem que estás
já na barriga do dragão.
A donzela ficou num estado de dar dó quando ouviu tais palavras,
mas não havia nada a se fazer senão jurar que diria a todo o reino que
o cocheiro a salvara, e que jamais contaria o segredo a ninguém. Assim,
pois, voltaram à capital, e todo o povo ficou encantado ao ver a princesa
ilesa; tiraram-se as bandeiras negras que havia pelas torres do palácio
e em seu lugar puseram-se outras, coloridas e alegres, e o rei abraçou a
filha e o seu suposto salvador com lágrimas de alegria. Depois, voltando-
-se para o cocheiro, lhe disse:
— Não apenas salvaste a vida de minha criança como libertaste o
país de um flagelo terrível, portanto, não há nada mais justo do que te
recompensar ricamente. Toma, pois, minha filha por esposa. Mas como
ela é ainda muito moça, o casamento há de ser celebrado apenas daqui
a um ano.
O cocheiro agradeceu ao rei sua benevolência e então foi levado para
ser vestido com o que havia de mais excelente e ser instruído em quantas
artes e finezas cabiam à sua nova posição. Mas a pobre princesa chorava
amargamente, muito embora não ousasse confiar sua angústia a nin-
guém. Quando acabou-se o ano, tanto implorou por mais um ano de

428
Os Três Cães

espera que lho deram. Mas também este ano passou, e ela se jogou aos
pés do pai, e rogou-lhe por mais um ano, tão comovida, que o coração do
rei se derreteu, e este lhe concedeu o pedido. A princesa só faltou pular
de alegria, pois sabia que o seu salvador de verdade haveria de surgir ao
cabo do terceiro ano. E lá se acabou também este ano como os outros
dois, e marcou-se o dia do casamento, e todas as pessoas estavam prepa-
radas para uma festança das mais alegres.
Mas no dia do casamento aconteceu de um estranho chegar à cidade
com três cães pretos. Perguntou qual era o motivo de toda aquela festa e
rebuliço, e lhe responderam que a filha do rei estava para se casar com o
homem que matara o terrível dragão. O estranho imediatamente pôs-se a
denunciar o cocheiro chamando-o de mentiroso, mas ninguém lhe dava
ouvidos, e ele foi preso e jogado numa cela com barras de ferro.
Enquanto estava deitado em sua cama de palha, a matutar pesaroso
no seu destino, julgou ouvir o choro baixinho de seus cachorros lá fora,
então lhe ocorreu uma ideia e começou a gritar com quantas forças tinha
no pulmão:
— Mostarda, vem e me ajuda! – e num segundo viu as patas do maior
de seus cães na janela de sua cela e, antes que pudesse contar até três, já
o bicho rasgara com os dentes as barras de ferro e se pusera ao seu lado.
Então saíram ambos da prisão pela janela, e o pobre rapaz viu-se livre
mais uma vez, embora estivesse ainda angustiado por um outro gozar da
recompensa que era sua por direito. Estava também com fome. Chamou
então seu cachorro
— Sal! – e lhe pediu alguma comida.
A criatura fiel saiu a trotar, e daí a pouco voltou com um guardanapo
de mesa repleto de uma comida deliciosa, e no próprio guardanapo via-se
bordado o brasão real.
O rei, junto com toda sua corte, acabara de se sentar para o ban-
quete, quando o cão surgiu e se pôs a lamber a mão da princesa, como
se a fazer com isto uma súplica. Com um gesto tão assustado quanto
alegre, ela reconheceu o bicho e amarrou-lhe o seu próprio guardanapo
ao redor do pescoço. Depois, reuniu toda a sua coragem e contou ao

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Andrew Lang · O Fabuloso Livro Verde

pai a história inteira. O rei imediatamente enviou um servo no encalço


do cão, e em seguida o estranho estava à sua frente. O antigo cocheiro
fez-se branco como um fantasma ao ver o pastor e, caindo de joelhos,
implorou por misericórdia e pelo perdão do rei. A princesa reconheceu
seu salvador à primeira vista e nem mesmo precisou da prova, que eram
os dois dentes do dragão que ele tirou do bolso. Jogaram o cocheiro
numa masmorra escura, e o pastor tomou o seu lugar ao lado da prin-
cesa. E desta vez, podeis ter certeza de que ela não implorou para que
se cancelasse o casório.
O jovem casal viveu por algum tempo em grande paz e felicidade
quando, um dia, subitamente, o antigo pastor lembrou-se de sua pobre
irmã e quis revê-la, a fim de com ela compartilhar a sua boa fortuna.
Uma carruagem foi enviada para buscá-la e, tão logo a moça chegou à
corte, viu-se uma vez mais nos braços de seu irmão. Então um dos cães
falou, dizendo:
— Nosso dever já está cumprido; não precisas mais de nós. Só nos de-
moramos para ver se com a prosperidade não te esquecerias de tua irmã.
E com essas palavras os três cães tornaram-se três pássaros e se foram
embora, voando em direção ao céu.*

* Irmãos Grimm.

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