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Matriarcado Africano

Cheikh Anta Diop

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“Uma vez uma menina dançou sob o céu africano e o sol
beijou seus ossos. Ela viu seu reflexo no lago e entendeu
sua conexão espiritual. Ela nunca traiu sua Mãe África.”
Nah Dove
Matriarcado

O sistema matriarcal é a base da organização social no Egito e em toda a


África Preta. Por outro lado, nunca houve qualquer prova da existência de
um matriarcado paleo-Mediterrâneo, supostamente exclusivamente Bran-
co. Para apoiar esta afirmação, precisamos apenas citar os argumentos
de um autor que dedicou 437 páginas a uma vã tentativa de branquear a
África Preta:
Sucessão ao trono é regulada em Kano [Nigéria] por matriarcado, um le-
gado paleo-Mediterrânico, até a época da dominação Fulani. Somos infor-
mados de que a Rainha de Daura tinha um boi-de-sela. Isso nos lembra os
costumes dos antigos [Líbios] Garamantes; assim, nós encontramos nova-
mente antiga África Branca com o seu sistema matriarcal. Estreitamente
relacionadas são os povos de Kordofan [Sudão] e Núbia, incluindo Teda e
Tuareg, bem como os soberanos do Sudão. (Baumann, op. Cit., P. 313.)
Deve notar-se que estas declarações cuja seriedade é igualada apenas
pela sua imprecisão, seguem a partir de um único fato sem importância:
a Rainha de Daura montou um boi-de-sela. De passagem, Baumann tem
clareado até mesmo os soberanos do Sudão Ocidental, de acordo com um
procedimento nazista bem conhecido que consiste em explicar qualquer
civilização Africana pela atividade de uma raça branca ou seus descen-
dentes, mesmo que tenhamos que decretar que existam “Pretos” brancos
ou Brancos “Vermelho escuro”, e etc., todos os quais são agrupados sob o
conveniente termo “Camitas”.
Se o sistema matriarcal, herdado de algum paleo-Mediterrâneo branco,
fosse alguma coisa além de uma fantasia mental, este teria durado através
dos períodos Persa, Grego, Romano, e Cristão, assim como ele tem conti-
nuado até hoje na África Preta. Mas isso, obviamente, não é o caso.
Ciro arranjou sua sucessão com antecedência através da designação de
seu filho mais velho, Cambyses, que matou seu irmão mais novo para
evitar a concorrência. Na Grécia, a sucessão era simplesmente patrilinial,
assim como em Roma.
Na realidade, nunca houve uma tradição monárquica na Grécia. Exceto
pelo reinado efêmero de Alexandre, o país nunca foi unificado. Os reis da
época heróica dos quais Homero fala, eram apenas governantes de cida-
des, chefes de aldeia, como Ulisses. As hostilidades entre essas aldeias
pareciam até mesmo infantis: pedras eram atiradas em habitantes de uma
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cidade vizinha enquanto eles passavam através de outra comunidade. Nos
melhores períodos, cidades gregas tais como Atenas eram governadas por
aventureiros, comerciantes ambiciosos que ganharam o controle através
de intriga. Alexandre era um estrangeiro da Macedônia. A ausência de
rainhas na história Grega, Romana, ou Persa, pode ser notada; O Império
Bizantino deve ser considerado como um complexo separado. Em con-
traste, durante essas épocas remotas, rainhas eram freqüentes na África
Preta. Quando o mundo Indo-Europeu adquiriu força militar suficiente para
conquistar os antigos países que o tinham civilizado, eles se depararam
com a feroz resistência inflexível de uma rainha cuja luta determinada
simbolizava o orgulho nacional de um povo que, até então, havia coman-
dado outros. Esta foi a rainha Candace, do Sudão Meroítico. * [* - O nome
Meroë não parece derivar de uma raiz Africana. É provavelmente o que os
estrangeiros utilizaram após Cambyses para designar a capital da Etiópia
(no Sudão). Citando Diodoro, Estrabão relata que a esposa - ou irmã - de
Cambyses foi morta na Etiópia e foi enterrada lá quando este conquista-
dor tentou sem sucesso tomar o país à força. O nome dela era Meroë.] Ela
impressionou toda a Antigüidade por sua postura à frente de suas tropas
contra os exércitos Romanos de Augusto César. A perda de um olho na ba-
talha apenas redobrou sua coragem; o seu furor e seu desprezo pela morte
forçaram até mesmo a admiração de um machista como Estrabão: “Esta
rainha teve coragem acima de seu sexo”. No início da civilização ocidental,
os reis francos gradualmente adquiriram o hábito de arranjar a sua su-
cessão antecipadamente, excluindo qualquer noção de matriarcado. Desta
forma, no Ocidente, direitos políticos são transmitidos pelo pai - isso não
significa que a filha não seja autorizada a recebê-los.
Por outro lado, o matriarcado Negro está tão vivo hoje como esteve du-
rante a Antiguidade. Em regiões onde o sistema matriarcal não foi alterado
por influências externas (Islam, etc.), é a mulher que transmite direitos
políticos.
Isso deriva da ideia geral de que hereditariedade é efetiva somente ma-
trilinearmente.
Outro aspecto típico do matriarcado Africano, um aspecto muitas vezes
incompreendido, é o dote pago pelo homem, um costume revertido em
países Europeus. Mal interpretado na Europa, este costume tem feito as
pessoas pensarem que a mulher é comprada na África Preta, assim como
um Africano pode dizer que uma mulher compra um marido na Europa.
Na África, uma vez que a mulher detém uma posição privilegiada, graças
ao matriarcado, é ela quem recebe uma garantia sob a forma de um dote
na aliança chamada de casamento. O que prova que ela não é comprada
como um escravo, é que ela não é rebitada ao lar conjugal pelo dote; se o
marido estiver realmente em falta, o casamento pode ser quebrado dentro
de algumas horas após seu desfavor. Ao contrário da lenda, as tarefas me-
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nos onerosos são reservadas para as mulheres.
Qual é a origem do matriarcado negro?
Não sabemos ao certo no tempo presente; no entanto, a opinião atual
sustenta que o sistema matriarcal está relacionado com agricultura. Se a
agricultura foi descoberta por mulheres, como às vezes se pensa, se é ver-
dade que elas foram as primeiras a pensar em selecionar ervas nutritivas,
pelo próprio fato de elas permanecerem em casa, enquanto os homens
engajavam-se em atividades mais perigosas (caça, guerra, etc.), isto, jun-
tamente com o matriarcado, explicaria um aspecto importante, mas quase
despercebido da vida Africana: A mulher é a dona da casa no sentido eco-
nômico da palavra. Ela está no comando de todos os alimentos, que nin-
guém, nem mesmo o marido, pode tocar sem o seu consentimento. Fre-
qüentemente um marido, ao alcance da comida preparada por sua própria
esposa, não ousa tocá-la sem a sua autorização. É degradante para um
homem entrar em uma cozinha na África Preta. Conformemente, a mulher
exerce uma espécie de ascendência econômica sobre a sociedade Africana,
a mais acentuada, porque é tão geralmente aplicada.
A hipótese (de que a mulher descobriu a agricultura) também nos permi-
tiria entender por que as mulheres ainda habitualmente cultivam um pe-
queno jardim ao redor da cabana. Este é o seu próprio domínio, onde elas
cultivam os seus condimentos.
Pode-se supor que a agricultura apareceu em todos os lugares durante
o mesmo período, cerca do oitavo milênio a.C.. No entanto, dificilmente
em qualquer outro lugar exceto no Saara, nós encontramos vestígios de
vida agrícola que podem positivamente ser rastreados até aquela época.
Esta agricultura era feita por uma raça “Negróide”, “Esteatopígica” (Preta),
como Théodore Monod sugere. A agricultura deve ter se espalhado muito
cedo sobre toda a zona inter-tropical, desde o Saara até a Índia, talvez tão
longe quanto o Lago Baikal, enquanto que as planícies da Eurásia, absolu-
tamente desfavoráveis para a agricultura e a vida sedentária, parecem ter
sempre sido o berço do nomadismo. Foi por isso que os Indo-Europeus,
moldados pelo seu meio geográfico, vieram a ter visões diametralmente
opostas àquelas dos Pretos.
O fim da época Egéia foi marcado pela rejeição do matriarcado Negro,
embora os Indo-Europeus tinham sido influenciados por ele em certa me-
dida. Uma vez que matriarcado é uma característica básica de civilização
agrícola Negra, seria absurdo esperar que este regule a sucessão em um
governo criado por Brancos. E assim, apesar da Tarikh el Fettach, é difícil
aceitar essa hipótese. Além disso, Kâti começa o capítulo V de suas Crôni-
cas como segue:

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“Agora é hora de voltar ao nosso assunto: a biografia de Askia.*1 - Na
verdade, pouco poderia ser obtido porque quase todos os contos que pre-
cedem são mentirosos”.*2 [*1 –„Askia‟ - Título de vários imperadores de
Songhai, o mais famoso dos quais foi Mohammed Touré, Askia o Grande,
que reinou de 1493 até 1529.] [ *2 - Mahmoud Kâti, Tarikh el Fettach, p.
80, French translation by O. Houdas and M. Delafosse. Paris, 1913.
Muitos muçulmanos Africanos alteram a sua árvore genealógica, acres-
centando ramos remontando à Maomé (Mohammed), reivindicando assim
ascendência Marroquina. Tal deve ter sido a tendência dos príncipes Sara
na Gana antiga quando eles se tornaram Sarakolé, isto é, quando uma in-
filtração de sangue Árabe, acompanhada de Islamização, marcou a dinas-
tia de Ganesa.
Graças a cronistas Árabes da Idade Média, é sabido que os regentes Pretos
de Gana reinavam sobre os Berberes-Tuaregues de Aoudaghost, que lhes
pagavam tributo. “Aoudaghost” soa curiosamente como uma raiz Germâ-
nica; recorda nomes como Visigodos e ostrogodos. Esta noção se encaixa
com a hipótese de uma origem Vândala - Germânica - dos Berberes.
Ibn Battuta, que visitou o Sudão na Idade Média, ficou impressionado com
o sistema matriarcal Negro. Ele afirmou ter encontrado um fenômeno se-
melhante somente nas Índias entre outras populações Pretas:
“Eles tomam o nome de seu tio materno, e não o de seu pai. Não são os
filhos que herdam de seu pai, mas sim os sobrinhos, filhos da irmã do pai.
Eu nunca encontrei este costume em qualquer outro lugar, exceto entre os
infiéis de Malabar, na Índia. “ [- Voyage au Soudan, translated by Slane,
p. 12.]
Matriarquia não deve ser confundido com o reinado das Amazonas Afri-
canas ou aquele das Górgonas. Esses regimes lendários em que a mulher
alegadamente dominava o homem foram caracterizados por uma técnica
destinada a rebaixar o sexo masculino: em sua educação, elas evitavam
atribuir-lhes tarefas que poderiam desenvolver a sua coragem ou reviver
sua dignidade. Ele servia como enfermeira no lugar das mulheres que de-
fendiam a sociedade e tinham seus seios removidos para melhorar o seu
“arco e flecha‟. Por pouco que possamos confiar na lenda, somos compe-
lidos a supor uma inicial feroz dominação dos homens sobre as mulheres,
talvez uma época de um regime “patriarcal”, seguido pela emancipação das
mulheres e um período de vingança, aquele das Amazonas. Esta revolta e
vitória das mulheres sobre os homens foi apenas parcial, pois houveram
alegadamente apenas duas nações de Amazonas e Górgonas na remota
Antiguidade. O fato de que as Amazonas eram cavaleiras intrépidas nos
inclina a pensar que elas vieram das planícies da Eurásia, se aquela região
é de fato o habitat original do cavalo, como é reivindicado.

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O sistema matriarcal adequado é caracterizado pela colaboração e flo-
ração harmoniosa de ambos os sexos, e por uma certa preeminência da
mulher na sociedade, devido originalmente à condições econômicas, mas
aceita e até mesmo defendida pelo homem.

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Egito

Este é um dos países da África onde o matriarcado foi mais manifesto e


mais duradouro. Com efeito, foi possível determinar, através de calculos
astronómicos, com um rigor matematico, que 4 241 anos antes da nossa
era , o calendário ja era usado no Egito. O que significa que os Egípcios
chegaram a adquirir conhecimentos cientificos teóricos ou práticos sufi-
cientes para inventar um calendário, cuja periodicidade é de 1 461 anos. É
o intervalo de tempo que separa os dois nascimentos helíaticos de Sothis
ou Sírius: a cada 1 461 anos, Sírius e o Sol elevam-se simultaneamente
sob a latitude de Mênfis. É provável que este numero tenha sido fixado
mais por cálculos do que pela experiência, isto é, através da observação.
É dificil, de fato, imaginar que quarenta e oito gerações possam transmitir
as suas observações celestes para que, chegado o momento previamente
referido, a quadragésima oitava geração, durante uma aurora especifica,
se prepare para assistir, pela primeira vez, ao nascimento helíaco de So-
this. Isto levaria a supor, de resto, a existencia de arquivos astronómicos
por escrito, com uma cronologia precisa, durante o periodo considerado
como pré-historico. Em todo o caso, o mito de Isís e de Osíris é anterior a
esta data, uma vez que está na origem da nação egípcia. Portanto, desde
esta época recuada - e até ao final da história egípcia – o casamento entre
irmãos permaneceu em vigor na familia real, já que Isís e Osíris são, em
simultâneo, conjunges e irmãos. Durante este longo periodo, unico pela
sua duração nos anais históricos do mundo, o Egito terá conhecido todos
os refinamentos da civilização e iniciado todos os jovens povos do mediter-
râneo, sem que a sua estrutura social deixasse de ser fundamentalmente
matriarcal. Podemos, então, ficar legitimamente surpreendidos com o fato
de não ter existido uma passagem do matriarcado para o patriarcado.
O caráter agrário e matriarcal da sociedade egipcia faraónica encontra-se
suficientemente representado no mito de Isís e de Osíris. Segundo Frazer,
Osíris é o deus do trigo, o espírito da árvore, o deus da fertilidade:
A análise do mito e do ritual de Osíris que antecede pode ser suficien-
te para provar que, sob um dos seus aspectos, o deus representava uma
personificação do trigo, acerca do qual se pode afirmar que se extingue e
retorna à vida a cada ano. Através de toda a pompa e glória com as quais
os sacerdotes rrevestiam o seu culto, a concepção de Osíris como deus
do trigo emerge de modo evidente na celebração da sua morte e da sua
ressurreição, que era concretizada no mês de Khoiak e, posteriormente,
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durante o mês de Athyr. Esta festividade parece ter sido essencialmente
uma comemoração das sementeiras, que coincidia justamente com a data
em que o agricultor confiava as sementes à terra. Nesta ocasião, enterra-
va-se, com rituais fúnebres, uma efigie do deus do trigo, construída com
este ultimo e terra: esperava-se que ao morrer naquele local, o mesmo
poderia ressuscitar com uma nova colheita. A cerimónia era, de fato, um
encanto, destinado a fazer crescer o trigo através de uma magia simpáti-
ca1.
De seguida, o autor descreve a cerimónia identificando Osíris à árvore:
no interior de um pinheiro oco, colocava-se o corpo modelado de Osíris,
juntamente com material de linho. O autor considera que esta é, sem du-
vida, a contrapartida ritual da descoberta lendária do corpo de Osíris en-
carcerado numa árvore. Mais adiante, descreve a celebração do Djed, que
terminava a 13 do mês Khoiak com o levantamento de um pilar, que não
era outra coisa senão uma árvore com os ramos cortados: esta elevação
simbolizaria a ressurreição de Osíris, visto que, na teologia egípcia, o pilar
era interpretado enquanto a coluna vertebral do mesmo.
Originalmente, Ísis era, de acordo com Frazer, uma deusa da fecundida-
de. É a grande benfeitora Deusa-Mãe cuja influência e cujo amor prevale-
cem em toda a parte, quer seja nos vivos, ou nos mortos. Esta representa,
à semelhança de Osíris, a Deusa do trigo, do qual tinha inventado o cultivo:
Ísis deve certamente ter sido a deusa do trigo. Com efeito existem
bastantes motivos que justificam esta apreciação. Diodoro da Sicília,
cuja autoridade parece ter sido o historiador Manetão, atribuía a Ísis a
descoberta do trigo e da cevada: nas suas celebrações transportavam-
se, em procissão, caules destes cereais para comemorar a dádiva que
esta tinha dado aos homens. Santo Agostinho acrescenta um outro
detalhe: Ísis terá descoberto a cevada no momento em que oferecia
um sacrificio aos antepassados do seu esposo, que eram também
os seus e que tinham todos sido reis: esta terá mostrado as espigas
recentemente descobertas a Osíris e ao seu conselheiro Thot (ou
Mercúrio, tal como o designavam os escritores romanos). É este o
motivo pela qual, acrescenta Santo Agostinho, Ísis e Ceres se iden-
tificam2
Constata-se aqui uma espécie de confirmação, através da lenda da tradi-
ção, que atribui às mulheres um papel ativo na descoberta da agricultura.
Na época das colheitas, os Egípcios entregavam-se a lamentações em
honra do espírito do trigo ceifado, isto é, em honra de Ísis, criadora da ver-
dura, Senhora do pão, Senhora da cerveja, Dona da abundância, personi-
ficando o campo de trigo. Frazer vê a prova desta identificação no epíteto
1.Frazer, James George, Atys et Osiris: étude de religions orientales comparées: Librairie Orientaliste, Paul Guthner, 1926, p.
117.
2. Frazer: op. Cit., pp. 133-134
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Sochit, atribuido a Ísis e que significa ainda, em lingua copta, campo de
trigo.
Os gregos identificavam-na tambem a Demetra e consideravam-na como
a deusa do trigo. Foi esta que deu origem aos “frutos da terra”.
O fundamento do mistério de Ísis e de Osíris representa então, essen-
cialmente, a vida agrária.
A monogamia constituia originalmente uma regra, já que Osíris tinha
apenas uma mulher, Ísis, cujo nome é uma alteração do termo Egipcio Sait
ou Sît. É interessante notar; ocasionalmente, que estes dois termos, numa
língua africana , o wolof, significam “a nova noiva”, a esposa.
Seth, irmão de Osíris, é igualmente monógamo; a sua esposa – que é
tambem sua irmã – Néftis.
Até ao fim da história egípcia, o povo permaneceu monógamo. Unica-
mente a familia real e os dignatários da corte praticaram a poligamia, em
graus diferentes segundo a tua fortuna. Esta emergiu como um luxo que
foi transplantado na vida familiar e social , ao invés de constituir o seu
fundamento primordial. Existiu no Egito, tal como na Grécia no tempo de
Agamémnon, na Ásia e na aristocracia germânica na época de Tácito; po-
der-se-ia tambem citar outros exemplos nas cortes reais ocidentais dos
Tempos Modernos.
O casamento com a irmã é uma consequência do direito matrilinear. Já
observámos que, no regime agrícola, o pivô da sociedade é a mulher; é
ela que transmite todos os direitos, políticos e outros, porque representa o
elemento fixo, podendo o homem ser relativamente móvel: este pode via-
jar, emigrar, etc., enquanto que a mulher educa as crianças e sustenta-as.
É, portanto, normal que estas herdem tudo daquela e não do homem que,
mesmo na vida sedentária, mantém um certo nomadismo. Originalmente,
em cada clã, era ao elemento feminino – e somente a ele – que retornava
a totalidade de herança. A preocupação em evitar contendas de sucessão
entre primos – isto é, filhos de irmãos e irmãs – parece ter levado estes
ultimos , no âmbito da familia real, a perpetuar o exemplo do casal real ori-
ginal, Ísis e Osíris. Com efeito, imagine-se um irmão e uma irmã descen-
dentes de um casal real que se casam, no exterior da sua própria familia,
com uma princesa e com um príncipe. Segundo o direito matrilinear, só o
descendente da irmã é que pode reinar no paíes; o do irmão prevalecerá
no país da sua mãe, caso o direito matrilinear se encontre ali em vigor; se
for o contrário a suceder; não tera direito ao trono, a menos que o ususrpe
em um dos dois países. Ao desposar a sua irmã, o faraó conservava o trono
na mesma familia e eliminava, em simultâneo, os litígios de sucessão.
O Faraó que casa com sua irmã é, ao mesmo tempo, o tio do seu filho.
Ora, no regime matrilinear, só o sobrinho é que herda do tio materno, e
este ultimo possui o direito de vida e de morte sobre ele. Em contrapartida,
os seus próprios filhos não são seus herdeiros e, ele próprio, não pertence

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à familia da sua mulher. Todos estes inconvenientes são eliminados graças
àquilo que se designou por “incesto real”. Este é o unico exemplo de familia
meridional, com base matrilinear e na qual o homem e a mulher pertencem
à mesma família; é um tipo especifico no interior do matriarcado e que se
justifica pelos interesses superiores da nação ligados à coesão da familia
real. Pode aqui entrever-se a possibilidade de uma explicação no caso da
Rainha Hatsheput, que será apresentada no capítulo IV.
No casamento, o homem traz o dote à mulher. Esta ultima, durante toda
a história egípcia faraónica, usufrui de uma liberdade total que se opõe à
condição de mulher sequestrada indo-europeia dos tempos clássicos, seja
ela grega ou romana.
Não há conhecimento de qualquer testemunho literário ou de documen-
tos históricos – egipcios ou outros – dando conta de um mau tratamento
sistemático das mulheres egípcias pelos homens. Estas eram honradas e
circulavam livremente e sem véu, contrariamente a algumas Asiáticas. A
afeição pela mãe e, sobretudo, o respeito com o qual esta devia ser trata-
da, representava o mais sagrado dos deveres. O mesmo encontra-se ano-
tado num texto egípcio bastante conhecido:
Quando tu nascete, ela (a tua mãe) tornou-se verdadeiramente tua es-
crava; as tarefas mais ingratas não entristecem o seu coração ao ponto
de a levar a pronunciar: “Por que terei de me submeter a isto?”. Quando
ias para a escola para te instruir, ela instalava-se perto do teu instrutor,
trazendo todos os dias os pães e a cerveja de casa. E agora que cresceste,
que te casas, que constróis a tua própria familia, lembra-te sempre de to-
dos os cuidados que a tua mãe teve contigo, a fim de que ela nada tenha
a censurar-te e não venha a levantar as mãos para deus, porque ele aten-
deria à sua maldição.
A estes conselhos dados ao jovem egípcio, pode-se-ia opor a conduta de
Telémaco dando ordens à sua mãe Penélope, fazendo figura de um verda-
deiro senhor da casa na ausência de Ulisses, ou a de Orestes matando a
sua mãe Clitemnestra para vingar o seu pai.

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Bicameralismo3
Tradução: Wanessa Yano

Um estudo do nosso passado pode dar-nos uma lição de governo.


Graças ao sistema matriarcal, nossos antepassados, antes de qualquer in-
fluência estrangeira, deram à mulher um lugar de escolha. Viam não como
objeto sexual, mas como mãe. isto tem sido verdade desde o Egito dos Fa-
raós até ao dias atuais4. As mulheres participavam na gestão dos assuntos
públicos no âmbito de uma assembleia feminina, sentadas separadamente,
mas com as mesmas prerrogativas que a assembleia masculina5.
Estes fatos permaneceram inalterados até a conquista colonial, especial-
mente em estados não-islâmicos como os iorubás e os daomeanos. Acre-
dita-se que a resistência militar de Behanzin6 ao exército francês sob o
comando do coronel Dodds7 resultou da decisão da assembléia feminina
do reino, encontrando-se à noite depois que os homens se encontravam
durante o dia revertendo-os e ordenando mobilização e a guerra - depois
disso, o homem ratificou a decisão.
A África Negra tinha seu bicameralismo específico, determinado pelo
sexo. Longe de interferir na vida nacional, colocando os homens contra as
mulheres, garantiu o livre florescimento de ambos. É para honra de nossos
ancestrais que eles puderam desenvolver esse tipo de democracia. Onde
quer que encontremos isso tão tarde quanto o período do mar Egeu. a ine-
gável influência sulista é inegável. Ao re-estabelecê-la na forma moderna,
permanecemos fiéis ao passado democrático e profundamente humano
dos nossos antepassados: de uma vez por todas, relaxamos a sociedade
da humanidade libertando-a de uma contradição milenar latente. Podería-
mos, sem dúvida, inspirar outros países a ordenar seus assuntos.
Re-estabilizar este bicameralismo ancestral em uma base moderna signi-
fica que devemos encontrar junto com nossas mulheres e excluir qualquer
tipo de demagogia, um modo de representação verdadeiramente eficaz
para o elemento feminino da nação. A constituição desta assembleia, o
3 Bicameralismo é o regime em que o Poder Legislativo é exercido por duas Câmaras, a Câmara baixa e a
Câmara alta. No Brasil representadas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, respectivamente. No
artigo Diop refere-se a um bicameralismo específico, determinado pelo sexo, garantindo ampla participação e
florescimento de ambos.
4. Matriarcado, A origem africana da civilização: mito ou realidade, pp 142 -145
5. No senegal, em certos casos, refere-se a um homem que governa de acordo com o costume N’Deye Dj Rév
(mãe do país), e ninguém se choca com isso. esta referência habitual ainda existe entre os Lebu (Grupo étnico
do Senegal)
6. Décimo primeiro rei de Daomé, governou de 1889 -1894
7. Comandante das forças francesas no Senegal em 1890, e liderou a conquista do Daomé contra o rei Béhan-
zin- 1892 a 1894
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método de eleição dos seus membros e a estrutura do bloco de base dos
partidos militantes da África negra são, portanto, muitos problemas práti-
cos a serem resolvidos.
Tais reformas permitiriam a normalização do papel político da mulher,e
a restauração de sua dignidade como mãe de família, a realização de ma-
neira eficaz e significativa definitivamente seria o que todos os países cha-
mam de direitos das mulheres.
Uma experiência comparável foi realizada na URSS, sob o regime de sta-
lin, no início da construção socialista, mas apenas no domínio da produção.
As assembleias de mulheres eram criadas para assumir um papel peda-
gógico e especialmente de deveres na produção. Em todos os lugares, os
resultados foram prodigiosos; as assembléias foram dissolvidas antes da
Segunda Guerra Mundial, quando a construção socialista foi suficientemen-
te desenvolvida por isto não havia mais força de trabalho feminina. Tais
assembléias existiram após 1945 na mais recente União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas, onde o desenvolvimento social não era tão avançado
como na Ucrânia, Bielorrússia, Letônia e eles continuam operando.
Alguns de meus compatriotas sentem que, no momento estaríamos satis-
feitos com uma simples assembléia consultiva para mulheres.
* Nota: Sou especialmente grato ao professor Issa Diop por me ajudar a
reformular e adaptar este capítulo.

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Referências Bibliográficas

Diop, Cheikh Anta. (1954) Nations nègres et Culture


Diop, Cheikh Anta. (1978) Black Africa, The Economic and Cultural Basis for a Federated State
Diop, Cheikh Anta. (1960) A Unidade Cultural da Africa Negra, Esferas do Patriarcado e do
Matriarcado na Antiguidade Clássica.

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