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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

Pedro Alves Fagundes

O Caso M: Uma Análise com base na Teoria Cognitivo Comportamental

Porto Alegre
2018
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO: A TERAPIA COGNITIVO


COMPORTAMENTAL​……………………...…3
2. O MODELO COGNITIVO DE AARON BECK​…………………………………………...…...3
2.1 Crenças Centrais……………………………………………………………………4
2.2 Crenças Intermediárias…………………………………………………………….5
​ 3. ESTRUTURANDO AS SESSÕES​………………………………………………………………6
3.1 A Primeira sessão e a Avaliação inicial………………………………………..…7
​ 4. IDENTIFICANDO E ALTERANDO AS CRENÇAS​………………………………..…………9
​5. O CASO M​……………………………………………………………………………………….11
5.1 O Caso…………………………………………………………………………...…12
5.2 Reflexões Teóricas…………………………………………………;;;…………...13
​6. CONSIDERAÇÕES FINAIS​……………………………...…………………………………...15
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS​…………………………………………………………17

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1. Introdução: A Terapia Cognitivo Comportamental

Aaron Temkin Beck (1921 -) desenvolveu uma forma de psicoterapia no início da década
de 1960. Essa psicoterapia ficou conhecida como terapia cognitiva. Hoje a conhecemos como
terapia cognitivo comportamental. Desde aquela época, ele e outros autores tiveram
sucesso na adaptação dessa terapia a populações surpreendentemente diversas e com uma ampla
abrangência de transtornos e problemas (Beck, 2014).
Beck desenvolveu essa abordagem quando decidiu testar o conceito psicanalítico de
depressão, que a vê como resultante de uma hostilidade voltada a si mesmo. Assim, Beck
investigou os sonhos dos pacientes em depressão e notou a repetição de temas relacionados a
fracasso, privação e perda (Beck, 2014). Ao começar a questionar paciente deprimidos, Beck
notou que todos eles tinham padrões de pensamentos automáticos negativos e isso estava
intimamente ligado ao surgimento de suas emoções negativas. Começou então a ajudar os
pacientes a responder a esses pensamentos irrealistas e desadaptativos (Beck, 2014).
O tratamento por meio da terapia cognitivo comportamental criada por Beck, está
baseado em uma formulação cognitiva, em crenças e estratégias comportamentais que
caracterizam determinados transtornos como a depressão. O tratamento também está baseado em
uma conceituação, ou compreensão, de cada paciente (suas crenças específicas e padrões de
comportamento). O terapeuta procura produzir de várias formas uma mudança cognitiva:
modificação no pensamento e no sistema de crenças do paciente para produzir uma mudança
emocional e comportamental duradoura (Beck, 2014).
Para isso, a teoria tem como base um modelo cognitivo, que propõe que pensamentos
disfuncionais são comuns a todos os transtornos.

2. O Modelo Cognitivo de Aaron Beck

O modelo cognitivo na teoria cognitivo comportamental, propõe que a percepção das


pessoas sobre as situações influencia em suas reações (Beck, 2005). Dessa forma, de
acordo com uma determinada situação, o paciente através de sua própria ‘lente cognitiva’
interpretará aquele episódio levando a determinado pensando automático, que por sua vez

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levará a reações emocionais, reações fisiológicas, e reações comportamentais naquele
indivíduo. Esses tais pensamentos automático são cognições baseadas em auto avaliação
e acontecem de forma espontânea, ou seja, o paciente não está consciente tentando pensar
ou não daquela forma.

Esse modelo cognitivo proposto por Aaron Beck (1921- ) entre as décadas de 50 e 60
propõe que os pensamentos disfuncionais (aqueles automático que influenciam o humor e
pensamento do paciente) são comuns em todos os transtornos mentais. Apenas quando o
paciente se conscientizar de seus pensamentos e crenças distorcidas, irá melhorar as
emoções e comportamentos. Dessa forma, a pessoa pode ter muitos pensamentos
negativos no dia a dia porque possui regras e crenças de que é vulnerável, má ou
dependente (Beck, 2007).

2.1 As Crenças Centrais

O modelo cognitivo acima descrito foi produzido por Beck, a partir do tratamento de
inúmeros pacientes depressivos. O autor notou que pacientes com esse diagnóstico traziam

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diversos pensamentos automáticos, que convergiam na chamada Tríade Cognitiva Depressiva,
composta por pensamentos distorcidos a respeito de: o mundo a seu redor; qualificação de si
mesmo; e sobre seu futuro (Cheibub, 2017).
As crenças são influenciadas por uma infinidade de experiências de vida (ensinamentos
dos pais, atividades educativas, experiência com seus pares, traumas, etc). As crenças mais
centrais formadas ao longo da vida se tornam tão duradouras que o paciente as toma como
verdades absolutas no julgamentos das situações (Beck, 2007). Assim, as crenças centrais são
verdadeiras lentes cognitivas sobre todas situações.
Essas crenças podem ser disfuncionais, como no caso de pacientes com depressão que
tendem a perceber a si mesmos a partir de crenças de ​desvalor, desamor e desamparo​.
Frustrações e resultados negativos tendem a aumentar essas crenças disfuncionais (“ Fui
rejeitado, logo ninguém gosta de mim”). Quando as experiências infantis são vistas
negativamente, às crianças, normalmente, atribuem qualidade negativas a si próprias, do seu
mundo, e sobre outras pessoas, passando a processar as informações de forma distorcida e
disfuncional, focando nos aspectos negativos (Beck, 2007).

2.2 As Crenças Intermediárias

Essas crenças centrais acabam influenciando o surgimento de outras crenças de classe


intermediária que são as atitudes, regras e pressupostos. A regra pode ser, por exemplo:
“desisto de um desafio quando ele parece grande”. O pressuposto pode se representado por: “se
eu tentar me aproximar, serei rejeitado, se eu me afastar, ficarei bem”. E a atitude, nesse sentido:
“eu não vou ser aceito” (Cheibub, 2017)
Dessa forma, tanto a crença central quando as crenças intermediárias ditarão os moldes
da lente cognitiva que nos levará a ter determinados pensamentos automáticos, aquelas
cognições que surgem espontaneamente em nossa mente mediante uma situação. Assim é
representado o esquema:

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3. Estruturando as Sessões

Em geral, os terapeutas cognitivo focam nos problemas atuais, preocupantes e que


provavelmente trarão mais angústia na semana seguinte, se concentrando, também, nas
cognições (pensamentos e crenças) relacionadas a problemas importantes. Essas cognições

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podem estar muito distorcidas ou disfuncionais, o que envolverá trazer temas recorrentes para o
pensamento do paciente (Beck, 1995).
Para planejar uma terapia eficiente, os terapeutas devem coletar dados provenientes dos
encontros iniciais com o paciente, gerando hipóteses baseadas nesses dados, que mais tarde
podem ser confirmados ou não. Essas hipóteses são relacionadas a que tipo de crença central
disfuncional está envolvida nos julgamentos daquele paciente (desamparo, desvalorização ou
desamor). Em muitos casos, o terapeuta vai auxiliar na descoberta e modificação de
pensamentos, de crenças e de comportamentos disfuncionais centrais do paciente (Beck, 2007) .
Para isso, conceituar corretamente a categoria da crença central do paciente é fundamental para
se estruturar as sessões. A classificação da crença central como desamparo, desamor ou desvalor
é, portanto, essencial para a condução da terapia.
É importante entendermos também que a maioria dos pacientes se sentem mais
confortáveis quando sabem o que esperar da terapia. Por isso, é fundamental priorizar a
compreensão do paciente sobre o tratamento, explicando para ele a estrutura geral das sessões, e,
doravante, aderindo a essa estrutura (Beck, 2014). Podemos, na verdade, planejar a sessão antes
mesmo do paciente chegar na primeira consulta, apenas examinando o seu quadro e seus
objetivos com o tratamento (posteriormente, anotações terapêutica e exercícios de casa serão
outros recursos). O objetivo da sessão é criar um plano para que o paciente se sinta melhor e
mais confortável, agindo mais funcionalmente ao longo da semana (Beck, 2014).
O objetivo durante a primeira parte de uma sessão é restabelecer a aliança terapêutica e
coletar dados para que paciente e terapeuta possam colaborativamente definir e priorizar os itens
da pauta. Na segunda parte de uma sessão, paciente e terapeuta vão discutir os problemas que
estão na pauta. No contexto da solução desses problemas, deve ser passado ao paciente
relevantes habilidades cognitivas, comportamentais, de solução de problemas e outras (Beck,
2014). Ao final da sessão, perguntamos ao paciente quais pontos achou mais importante na
sessão, anotando essas ideias, estimulando e respondendo ao ​feedback do paciente sobre a
sessão. Dessa forma, estamos continuamente reforçando o modelo cognitivo, ajudando o
paciente a avaliar e responder os seus pensamentos automáticos, pedindo-lhe para assumir novos
entendimentos (Beck, 2014).

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3.1 A Primeira Sessão e a Avaliação Inicial

Geralmente, a primeira sessão de terapia cognitivo comportamental dura em torno


de 1hora, com as sessões posteriores variando de 40 a 50 minutos. A primeira sessão terá como
passo importante, a coleta de dados para conceituar o paciente e planejar as sessões. É a partir da
primeira sessão também, que começamos a familiriarizar o paciente com o tratamento (educando
sobre o modelo cognitivo e o processo terapêutico), criando um ‘​rapport’​ de confiança e
formando a aliança terapêutica. É interessante também desenvolver uma lista de objetivos, e
começar a resolver um problema importante que o paciente queira trazer. Para seguir esses
objetivos, segundo Judith Beck (2014) sugere uma divisão em 3 etapas:

É importante termos em vista, que a avaliação não está limitada ao primeiro


encontro do tratamento. A cada sessão devemos continuar coletando dados com o objetivo de
confirmar, alterar e acrescentar ao diagnóstico a conceituação (Beck, 2014). É possível ocorrer
uma falha no diagnóstico inicial, devido a falta de informações e precipitação do terapeuta.
A avaliação na terapia cognitivo comportamental, poderá ocorrer em um
encontro, antes mesmo da primeira sessão da terapia. Esse encontro é importante para a
formulação das primeiras impressões. Deve ser certificado que o paciente entenda que a

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avaliação define se ele é um bom candidato ou não para a terapia cognitivo comportamental, e se
você poderá oferecer o tratamento (Beck, 2014). Para a avaliação inicial, é especialmente
importante que o paciente chegue a fazer um ​check-up médico recentemente (mais tarde, na
análise do caso teremos esse exemplo).

4. Identificando a Alterando as Crenças

Na terapia cognitivo comportamental, de forma geral, buscamos primeiro


trabalhar a consciência do paciente sobre os seus pensamentos automáticos, antes de se
preocupar em mudar as crenças. Isso não impede o terapeuta de, desde o início, formular
hipóteses que vinculem os pensamentos automáticos a crenças profundas. Para identificar as
crenças centrais e intermediárias, assim como pensamentos automáticos que surgem com certas
situações, Judith Beck (2014) propõe seguir o desenho de um modelo cognitivo abaixo, desde a
primeira sessão:

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Depois de algumas vezes praticado, o modelo cognitivo apontará certos padrões
emergidos que possam relacionar seus pensamentos automático em situações típicas, a uma
determinada crença central. É importante também, compartilhar com o paciente essa
conceituação inicial, sempre indicando como hipótese a ele. O terapeuta precisa analisar os
pensamentos automáticos como expressões de uma crença por trás. Após identificar a crença por
trás daqueles pensamentos automático, é preciso classificá-la como central ou mais periférica, e
o quanto o paciente realmente acredita nela (Beck, 2014).

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A técnica de pergunta o que significa aquele pensamento automático ​para o paciente,​
geralmente pode trazer à tona uma crença intermediária. Pergunta o que aquele pensamento
revela ​sobre o paciente geralmente desvenda uma crença nuclear (Beck, 2014). O terapeuta
pode, também, simplesmente identificar crenças do paciente, apenas procurando temas comuns
em seus pensamentos automáticos diante várias situações. Logo depois, levanta-se a hipótese
sobre uma crença e pede para que o paciente reflita se ele acha que seja verdade (Beck, 2014).
Nessa fase, cabe ao terapeuta buscar educar o paciente sobre as crenças na terapia cognitivo
comportamental. Além dessas técnicas, questionários para a identificação de crenças que podem
ser oferecido ao paciente: Escala de Atitudes Disfuncionais (Dysfunctional Attitude Scale,
Weissman e Beck, 1978) ou o Questionário de Crenças de Personalidade (Personality Belief
Questionnaire, A. T. Beck e Beck, 1991).
Antes do processo de modificação de uma determinada crença já identificada,
perguntamos ao paciente o quanto ele acredita naquela crença (0 a 100%). Em geral, os
terapeutas consideram que a crença já foi atenuada quando o paciente a vê com menos de 30%
(Beck, 2014). O exercício de ler e reclassificar a intensidade com que o paciente endossa as suas
crenças é um exercício típico na terapia.
Existem algumas técnicas dentro da terapia cognitivo comportamental utilizadas para
modificar crenças intermediárias e centrais. É possível criar, por exemplo, experimento
comportamentais para o paciente avaliar a validade de sua crença. Esse experimentos quando
planejados e executados de forma adequada, podem modificar a crença do paciente. O terapeuta
pode provocar o paciente realizar uma experiência para por em xeque aquela crença distorcida,
de forma que ele se dê conta que ela não condiz com a realidade. Alguém que tem uma forte
crença de estar sendo menosprezado pelas pessoas, pode ser sugerida de pedir ajuda a alguma
pessoa para testar essa crença, por exemplo. Caso o terapeuta julgasse que tal menosprezo
realmente pudesse acontecer, caberia discutir com o paciente o que esse menosprezo significaria
para e ele e como poderia enfrentar essa situação (Beck, 2014).
Outra técnica é conhecida como o Questionamento Socrático para modificar crenças.
Essa técnica consiste em basicamente aplicar a crença geral do paciente em situações concretas
hipotetizadas e avaliá-la junto com o paciente frente a situações específicas. Isso ajuda a tornar a

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avaliação mais concreta e significativa, fazendo o paciente colaborar consigo mesmo. Analisar as
crenças de outra pessoa de referência, sem ser o paciente, e discuti-la na sessão também é
interessante para que o paciente comece a ver certa inconsistência no que acredita ser verdade e o
que ele acredita ser verdade para outra pessoa (Beck, 2014). Por vezes também é interessante
focar em um comportamento específico do paciente, pois mudando certo comportamento, aquela
crença profunda pode ir se atenuando gradativamente.
Por fim outra técnica bem conhecida seria a autoexposição para modificar crenças. A
autoexposição pode ajudar pacientes a encarar suas crenças de uma maneira diferente. O
terapeuta educa o paciente sobre a natureza daquela crença distorcida, transforma regras e
atitudes na forma de pressupostos e explora os lados negativos e positivos da crença.
Mentalmente, a ideia é formular uma crença nova e mais funcional ao paciente (Beck, 2014). A
ideia é treinar todas essas técnicas com o paciente, de forma que ele já consiga as praticar em
suas situações cotidianas. Essas mesmas técnicas citadas podem ser usadas para modificações
tanto de crenças intermediárias quanto de crenças centrais.

5. O Caso M

No dia 25 de abril de 2018, tive a oportunidade de comparecer a clínica psicológica da


UFRGS a fim de observar um caso. Fui o terceiro aluno naquela tarde a observar, e foi me
passado o caso de uma jovem de 22 anos que alegava se estar se sentindo muito mal por causa do
trabalho. Trabalha ainda em uma creche infantil, já a alguns anos, e se dizia sobrecarregada, sem
apoio. Parecia atribuir todo o mal estar de sua vida ao trabalho, mas não comentou sobre sair
deste. Já era casada a alguns anos, com um homem muito mais velho, de 31 anos, com quem
reside em um apartamento. Abaixo está a descrição detalhada do caso.

5.1 O Caso

M, 22 anos, começa dizendo ao terapeuta que não se sente bem por uma tristeza que ‘não
sabe dizer porquê’. Diz ter pensamentos suicidas: descreve uma faca grande que tem em sua

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cozinha que já pensou em utilizar para se matar, mas não o faz pois tem medo da dor que sentirá.
Diz que às vezes tem vontade de sumir. Recentemente acordou, foi ao trabalho e não conseguiu
trabalhar, precisou ir até um posto de saúde, pois estava se sentindo mal. Começou a partir daí o
uso de diazepam e fluoxetina.
Ma trabalha com educação infantil em uma creche, é auxiliar infantil. Atribui seu
desgaste emocional a sobrecarga ao trabalho: já estava desgastada com isso. Diz que não tem
parceria com sua colega de trabalho. Recentemente foi sugerida uma troca de serviço,
transferindo-a para o jardim 1 e 2 (crianças maiores). Diz que teve muito medo dessa mudança.
Diz que as crianças são mais agitadas e descreve um menino do jardim 1, muito agressivo, diz
que ele deve ter problemas neurológicos. Tem medo de não conseguir dar conta disso, pois
nunca lidou com uma criança assim. Diz que o nervosismo daquele menino a afetou muito. “Eu
estando lá, não me sentia muito bem. E se eu não der conta sabe...”.
Trabalha há 5 anos no local e diz que a carga horário é muito alta, já chegou a trabalhar
10h por dia. Sempre gostou de crianças, mas diz que está saturada com esse trabalho: desde o
primeiro trabalho na educação infantil, não gostou. Destaca a falta de auxílio lá dentro. Diz que
foi absorvendo muito os problemas das crianças, como os problemas de falta de atenção, de
famílias envolvidas com o tráfico, de agressividade. Cita um exemplo de um aluno do jardim que
quase morreu em casa. Diz que desabafa tudo para o Marido, 31 anos, com quem é casada, mas
que este a cobra muito e tem uma visão muito simplista da situação (fala para ela largar e
procurar outra coisa), acabam discutindo muitas vezes. Diz que só está no trabalho por questões
financeira. Diz também que mudou no final do ano passado em relação ao trabalho e, desde
então, vêm “levando com a barriga”, até perceber que precisava procurar ajuda. Cita que a
decisão de vir e procurar ajuda foi difícil, que já deveria ter feito antes.
Atualmente M fala que está fazendo um curso de maquiagem desde janeiro. Diz que está
gostando, gosta de maquiagens. Mas também diz que sente muito medo em não conseguir
terminar o curso e não conseguir cumprir as metas. Diz que duvida muito dela mesma, e que se
sente nervosa quando o professor de maquiagem passa as orientações para ela. No dia marcado
que iria fazer um trabalho de maquiagem se sentiu muito nervosa e passou mal. Nesse ponto o
terapeuta relaciona se essa crise não era semelhante a que teve atualmente e precisou ir ao posto.

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Diz que em ambas situações não conseguiu fazer nada. Quando o terapeuta lembra dessa outra
crise mais recente que a levou ao posto, ela dá mais informações: não conseguia parar de chorar,
mas que só desabou em choro naquele dia porque uma amiga se dirigiu a ela e disse que ela não
parecia muito bem (“quando ela disse isso, veio tudo de uma vez”).
Perguntada novamente sobre suas relações em casa, diz que seu marido a cobra muito,
pois não se encontrou profissionalmente. Realmente gosta de estética e cosmética, mas acharia
muito difícil um curso nessa área. Diz que educação infantil não é para ela. Por fim, o terapeuta
explica o funcionamento das consultas. Fala dos pagamentos e que se ela precisar pode pensar
em um valor e pagar uma mensalidade pelas consultas feitas naquele mês. Ela diz que fica
melhor, pois assim pensará num valor e poderá se organizar melhor. Diz que também está com
problemas financeiros devido ao financiamento de seu apartamento.

5.2 Reflexões Teóricas

Achei muito interessante observar o caso com base no modelo cognitivo comportamental.
M relata uma série de informações importantes sobre o seu contexto profissional e pessoal, e
duas crises que tivera frente a situações que podem ser relacionadas (a exigência de mudá-la de
posição no trabalho, e a exigência do professor de maquiagem de realizar um trabalho). Em
ambas essas crises M se dizia paralisada, sem vontade ou energia para realizar as atividades. As
mudanças e desafios parecem afetar muito M, de forma que ela se sente desprotegida, sem
confiança que vá conseguir dar conta de realizar. Como uma primeira sessão, podemos
hipotetizar a presença de uma certa crença central por trás desses pensamentos automáticos da
paciente, mas que, obviamente, precisariam ser confirmadas. Infelizmente para esse tipo de
abordagem, o terapeuta não se preocupou tanto nesse primeiro encontro em questioná-la sobre
sua história de vida, detalhes familiares e acontecimento marcantes. Como discutimos, todas
essas questões poderiam ser importantes formuladores da crença central distorcida que ela tem
em ser achar insuficiente diante cobranças.
Podemos considerar, diante a descrição deste caso, que há uma marcada crença em M de
“não sou bom o suficiente” ou “eu sou ineficiente”. Essas duas regras, ou seja, crenças

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intermediárias, estão associadas a uma crença central de Desamparo. Podemos, de fato, observar
que o tema desamparo parece estar presente em vários momentos do discurso de M. “Meu
marido é a única pessoa que eu desabafo, ele não me dá apoio” ou “Eu não tenho auxílio nenhum
no trabalho”. Podemos pensar também o episódio em que ela só desatou a chorar quando sua
amiga notou que ela estava ruim, como uma forma de chamar por apoio, de dizer se sente fraca,
vulnerável, e necessita de ajuda. A crença do desamparo, nitidamente se representa em uma lente
cognitiva de como M vê suas situações. Ela entende as cobranças do seu professor de
maquiagem, ou as agitações da crianças maiores, como situações em que lhe despertam o
seguinte pensamento automático: “Eu não vou dar conta, pois não sou capaz”.
Seguindo o modelo cognitivo, esse pensamento automático acaba por despertar a emoção
de profunda tristeza e desesperança que ela diz estar sentindo. O seu comportamento em
consequência disso pode ser o da evitação. M evita trabalhar, realizar o trabalho de maquiagem,
ou mesmo se arriscar em começar um curso superior de estética e cosmética (“gostaria de fazer,
mas acho que será muito difícil”).
Um outro conceito teórica na terapia cognitivo comportamental são as Estratégias
Compensatórias. São estratégias que o paciente assume, quando precisa lidar com a sua crença.
As estratégias compensatórias são comportamentos nos quais todos se engajam eventualmente.
Estas ações causam sofrimento quando são executadas em excesso, em detrimento de outras
estratégias mais funcionais. As estratégias compensatórias atuam como uma forma de
retroalimentar o sistema de crenças, sendo que quando as mesmas são disfuncionais acabam por
reforçar e auxiliar a manutenção dos sintomas e o sofrimento dos clientes (Beck, 2007).
A estratégia comportamental que M parece assumir, poderia ser o ligado a procrastinação
ou evitação. Diz que desde o início do ano está levando o trabalho “com a barriga”, mas não
comenta sobre começar um outro trabalho, também diz que deveria procurar auxílio psicológico
muito antes mas só conseguiu fazê-lo agora. Também não tem quaisquer planos futuros, a
respeito da maquiagem e curso de estética e cosmética. Uma forma que ela encontra de evitar
fracassos, é simplesmente não tentar. Por exemplo, podemos imaginar estar em operação o
seguinte pressuposto: “Se eu não me arriscar, não vou fracassar”, na atitude “Fracassar é muito

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ruim” e na regra “ Se eu não fizer o trabalho de maquiagem não fracassarei, mesmo se eu tentar
fazê-lo não conseguirei”.
Por último, é evidente que a relação de M com o marido pode ser prejudicial para essa
crença, na medida em que ele é única pessoa que a paciente desabafa, e não recebe o apoio. M
relatou que brigavam constantemente em casa após o serviço. Uma vez que ela também não têm
auxílio alguma na educação infantil, isso torna o ambiente facilitador para o fortalecimento da
crença de “estou desamparada, vulnerável, não vou dar conta de nada sem apoio”. Portanto, esse
ambiente em sua casa precisa ser mais trabalhado ao longo das sessões, também pelo fato de que
M atribui a sua tristeza unicamente ao trabalho, o que é outra visão distorcida.

6. Considerações Finais

O processo de modificar crença centrais pode exigir um trabalho constante e sistemático.


Muitas técnicas aplicáveis à reestruturação de pensamentos automáticos e crenças intermediárias
podem ser usadas em conjunto com técnicas mais especializadas, orientadas especificamente
para as crenças nucleares. Para confirmar o possível diagnóstico do caso M, precisariam de
outras sessões e avaliações, levando em conta a história de vida e passado de M, que não tivemos
acesso.
Embora faltem informações importante, futuramente uma vez identifica a crença central
de desamparo, o terapeuta deve educar M sobre a sua crença nuclear. É fundamental apresentar
ao paciente, como uma ideia, não como uma verdade, e que, como uma ideia, podemos testá-la.
Sobretudo, explicitar que o terapeuta e paciente trabalhando juntos, podem usar estratégias ao
longo do tempo para mudar essa crença de desamparo e fazer ela se ver de forma mais realista.
Assim, aos poucos desenvolvemos uma nova crença nuclear mais funcional e guiamos o paciente
na direção dela, enfraquecendo a crença central negativa e fortalecendo a positiva (Beck, 2014).
O terapeuta vai trabalhar e fortalecer essa nova crença positiva, por meio de duas
técnicas. Primeiro é preciso evocar dados positivos do paciente por meio de questionamentos, e
lhe apontar esses dados positivos (principalmente dados que contradizem a crença de desamparo)
e apoiam a nova crença. Em segundo lugar, solicitar que o paciente examine suas experiências de

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nova maneira que facilite a capacidade de reconhecer dados positivos. Também é importante que
M possa começar a notar o que ela está fazendo ou o que está acontecendo para que sua crença
de desamparo se fortaleça. Por fim, é importante a cada sessão o terapeuta estar perguntando a
intensidade com que ela acredita nessa crença, no nível intelectual e no nível emocional
(geralmente começam a se modificar primeiro no nível intelectual), reforçando a interpretação
dela quando a crença estiver mais alta e ajudando-a a reorganizar o significado de experiências
quando essa sua crença estiver relativamente baixa (Beck, 2014).
Finalmente, concluo imaginando que podemos levantar a hipótese de que inicialmente o
terapeuta precisaria focar em: ajudá-la a resolver os problemas profissionais e da vida íntima
com o marido, encorajá-la a tornar-se muito mais ativa e ensinar-lhe a identificar, avaliar e
modificar seus pensamentos negativos inadequados e inúteis, especialmente os pensamentos
associados a fracasso e incompetência (uma vez que ela expresse essas ideias). Incluindo nesses
pensamentos negativos, podemos colocar o fato dos pensamentos suicidas que M tem com sua
faca na cozinha. Também não possuímos a certeza se crenças de desamor e desvalor também
podem estar em jogo (a última, principalmente, é possível que esteja presente em M). Devemos
continuar o plano básico de tratamento durante a terapia, à medida que conhecemos melhor M e
a natureza das suas dificuldades.

7. Referências Bibliográficas

Beck, J. S. (2007). Terapia Cognitiva para Desafios Clínicos: O que Fazer Quando o
Básico não Funciona. Tradução Sandra Moreira de Carvalho – Porto Alegre: Artmed, 2007.

Beck, J. S. (2014). Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. Judith S. Beck;


tradução: Sandra Mallmann da Rosa; revisão técnica: Paulo Knapp, Elisabeth Meyer. – 2. ed. –
Porto Alegre: Artmed, 2014.

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Cheibub, M., Marin, D. (2017). A terapia Cognitivo Comportamental Aplicada à
Obesidade. Published in: Health & Medicine.

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