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Consumindo o outro: Branquidade,

educação e batatas fritas baratas


Michael W. Apple

Comendo Batatas Fritas Baratas

O sol se refletia no teto do pequeno carro, enquanto percorríamos a estrada de pista simples. O
calor e a umidade faziam-me perguntar se sobraria algum líquido no meu corpo, ao fim da viagem,
e levava-me a apreciar os invernos de Wisconsin mais do que seria de se esperar. A idéias de
inverno parecia muito remota, neste pequeno país asiático pelo qual eu tenho grande apreço, mas
o assunto em discussão não era o clima, eram as lutas dos educadores e ativistas sociais para
construir uma educação que fosse consideravelmente mais democrática do que aquela vigente no
país, no momento. O tópico era perigoso. Discuti-lo filosófica e formalisticamente em termos
acadêmicos era tolerado. Trazê-lo abertamente à discussão e situá-lo dentro de uma séria análise
das estruturas de poder econômico, político e militar que agora detêm o controle sobre tantas
coisas na vida diária desse país é uma outra questão.

À medida que progredíamos por aquela estrada rural, no meio de uma das melhores conversações
que já tive sobre as possibilidades das transformações educacionais e das realidades das
opressivas condições que tantas pessoas estavam enfrentando naquela terra, meu olhar da
alguma forma foi atraído para um dos lados da estrada. Num daqueles acontecimentos quase
acidentais, que esclarecem e cristalizam o que realidade é realmente, meu olhar caiu sobre um
objeto aparentemente inconseqüente. Em intervalos regulares havia pequenas placas de
sinalização plantadas na terra a poucos metros do lugar onde a estrada e o campo se
encontravam. A placa era muito mais do que familiar. Levava a insígnia de um dos mais famosos
restaurantes de ?fast food? dos Estados Unidos. Trafegamos por quilômetros, passando por
terrenos aparentemente desertos, ao longo de uma planície quente, ultrapassando sinal após
sinal, cada um deles uma réplica do precedente, cada um com menos de meio metro de altura.
Não se tratava de ?outdoors?. Estes dificilmente existem nessa pobre região rural. Ao contrário,
eles eram exatamente ? exatamente! ? iguais às pequenas placas que são encontradas próximas
às fazendas do meio-oeste americano e que indicam o tipo de semente de milho que cada
agricultor plantou no seu campo.

Fiz ao motorista ? um amigo chegado e meu ex-aluno que havia retornado àquele país para
trabalhar nas reformas educacionais e sociais que eram tão necessárias ? aquela que se revelou
por fim uma pergunta ingênua mas crucial para minha própria educação. ?Por que estas placas do
**** estão ali? Há um restaurante **** por perto?? Meu amigo olhou-me surpreendido.
?Michael, você não sabe o que estas placas significam? Não há restaurantes ocidentais num raio
de oitenta quilômetros de onde estamos. Estas placas representam exatamente o que há de
errado com a educação, neste país. Ouça isto.? E eu o escutei.

Trata-se de uma história que deixou em mim uma marca indelével porque ela condensa, em um
conjunto importante de experiências históricas, as conexões entre nossas lutas como educadores
e ativistas, em muitos países, e as formas pelas quais o poder atua de forma diferencial na vida
cotidiana. Não poderei transmitir os estranhos sentimentos que nos assolavam olhando aquela
vasta, às vezes linda, às vezes assustadora e crescentemente despovoada planície.

Ainda assim é crucial ouvir a história. Escutem-na.

O governo da nação decidiu que a importação do capital estrangeiro é crítica para sua própria
sobrevivência. Trazer americanos, alemães, britânicos, japoneses e outros investidores e fábricas
claramente criará empregos, criará capital para investimentos e tornará a nação capaz de
ingressar rapidamente no século XXI. (trata-se, evidentemente, de uma ?conversa? dos grupos
dominantes, mas vamos supor que eles acreditem, realmente, nisso). Um dos modos pelos quais o
governo, dominado pelos militares, planejou fazer isso constituiu em colocar parte de seus
esforços de recrutamento no ?agri-business?. Na busca deste objetivo, o governo ofereceu vastas
extensões de terra aos interesses internacionais na área de ?agri-business?, a muito baixo custo.
De particular importância para a planície que atravessávamos era o fato de muito desta terra havia
sido oferecida a um fornecedor de uma grande empresa americana de restaurantes de ?fast food?
pra plantar batatas, para fazer as fritas do restaurante, uma das marcas registradas de seu grande
sucesso por todo o mundo.

A empresa estava ansiosa para aproveitar a oportunidade de transferir parte de sua produção de
batatas dos Estados Unidos para a Ásia. Como muitos dos trabalhadores rurais dos Estados Unidos
estão agora sindicalizados e estão (corretamente) exigindo salários razoáveis, e uma vez que o
governo daquela nação asiática desaprova oficialmente sindicatos de qualquer tipo, o custo de
plantar batatas seria bem menor. Além disso, a terra naquela planície era perfeita para o uso de
tecnologias recentemente desenvolvidas pra o plantio e a colheita de batatas com um número
consideravelmente menor de trabalhadores. Máquinas substituiriam seres humanos. Finalmente,
o governo estava muito menos preocupado com leis sobre proteção do meio ambiente. Tudo
considerado, este era um bom negócio para o emprego do capital.

Obviamente, pessoas viviam em parte desta terra e cultivavam para seu próprio sustento e para
vender o excedente , depois que suas próprias necessidades ? relativamente mínimas ? eram
satisfeitas. Isto não deteve nem os interessados no ?agri-business? nem o governo. Afinal, o povo
poderia ser removido para dar lugar ao ?progresso?.

E, afinal, os camponeses ao longo daquelas planícies não tinha realmente os documentos de posse
daquela terra (eles haviam vivido ali talvez por centenas de anos, bem antes da invenção dos
bancos, das hipotecas e das escrituras ? sem papel não há propriedade). Não seria difícil remover
o povo da planície para outras áreas para deixá-la ?livre? para a produção intensiva de batatas e
para ?criar empregos?, retirando sustento de milhares e milhares de pequenos agricultores, na
região. escutei com redobrada atenção, à medida que o resto da história ia se desdobrando, e que
passávamos por campos (com as placas da referida empresa) e vilas abandonadas. O povo, cuja
terra havia sido tomada por tão pouco, mudara-se, naturalmente. Assim como em tantos outros
lugares similares, nos países que os grupos dominantes chamam de Terceiro Mundo, eles
migraram para cidade. Tomaram suas magras posses e se mudaram para as favelas, sempre em
expansão dentro e ao redor do único lugar que oferecia alguma esperança de encontrar suficiente
trabalho remunerado (se todos, incluindo as crianças trabalhassem) para que pudessem
sobreviver.

O governo e os segmentos importantes da elite empresarial oficialmente desencorajavam isto,


contratando, por vezes, bandidos para queimar as cidades miseráveis, outras vezes, mantendo as
condições tão adversas que ninguém ?gostaria? de morar ali. Mas, ainda assim, os despossuídos
vinham, às dezenas de milhares.

Afinal as pessoas pobres não são irracionais. A perda de terra arável tinha que ser compensada de
alguma forma e se isso implicava ser empilhado em lugares que eram infernais, bem, quais eram
as outras alternativas? Havia fábricas, sendo construídas na e em torno das cidades, que pagavam
salários incrivelmente baixos (algumas vezes menos do que o suficiente para comprar o alimento
necessário para repor as calorias gastas pelos trabalhadores no processo de produção), mas ao
menos poderia haver trabalho remunerado, se o sujeito tivesse sorte.

Assim, máquinas gigantes colhiam as batatas e as pessoas se transferiam para as cidades e o


capital estrangeiro ficou feliz. Não é uma bonita história. Não o que ela tem a ver com a educação?
Meu amigo continuou minha educação.

O governo dominado pelos militares deu todas essas grandes empresas internacionais vinte anos
de isenção de impostos para facilitar as condições de sua vinda para o país. Assim, há hoje muito
pouco dinheiro para fornecer saúde, moradia, suprimento de água, eletricidade, serviço de esgoto
e escolar para milhares e milhares de pessoas que buscam o seu futuro na cidade ou foram
literalmente empurrados para ela. O mecanismo para não fornecer esses serviços era realmente
inteligente. tomemos a falta de qualquer instituição de educação formal como exemplo. Para que
o governo construísse escolas deveria ser mostrado que havia uma ?legítima? necessidade para a
realização desse gasto. Estatísticas tinham que ser produzidas de numa forma que fossem
oficialmente aceita. Isto poderia ser feito apenas através da determinação oficial de números de
nascimentos registrados. Entretanto, o próprio processo de registro oficial tornava impossível a
milhares de crianças serem reconhecidas como realmente existentes.

Para realizar a matrícula na escola, a mãe/o pai tinha que registrar o nascimento da criança no
hospital local ou nalguma instituição do governo ? nenhum dos quais existiam nessa área de
favelas. E mesmo que tal instituição pudesse ser encontrada, o governo oficialmente
desencorajava as pessoas vindas de fora da região da cidade de mudar-se para ali.
Freqüentemente, recusava-se a reconhecer a legitimidade da mudança, como uma maneira de
impedir os agricultores desalojados de virem para as áreas urbanas, aumentando, assim, a
população. Nascimentos de pessoas que não tinham o direito ?legítimo? de ali estar não
contavam, de fato, como nascimentos. Esta é uma brilhante estratégia na qual o Estado cria
categorias de legitimação que definem problemas sociais de modos muito interessantes.

Assim, não haviam escolas, nem professores, nem hospitais, nem infra-estrutura. As causa
profundas dessa situação não estão na situação imediata. Elas só podem ser esclarecidas se nos
centrarmos na cadeia de formação do capital internacional e nacionalmente), nas necessidades
contraditórias do Estado, nas relações de classe e nas relações entre campo e cidade que
organizam e desorganizam aquele país.

Já fazia um bom tempo que meu amigo e eu estávamos rodando. eu me esquecera do calor. A
frase final da narrativa não é nada bombástica. Foi dita devagar e claramente, dita de um modo
que a tornou ainda mais imperiosa. ?Michael, esses campos são a razão pelas quais não existem
escolas na minha cidade. não há escolas porque há tantas pessoas que gostam de batatas fritas
baratas?.

Conto essa história que me foi contada, por uma série de razões. Em primeiro lugar, porque este é
simplesmente um dos modos mais poderosos que conheço de lembrar a mim mesmo da
importância capital de ver a escola relacionalmente, de vê-la em conexão, fundamentalmente,
com as relações de dominação e exploração da sociedade mais ampla. Em segundo lugar, e
igualmente tão importante, conto essa história para marcar uma posição teórica e política crucial.
relações de poder são de fato complexas e nós precisamos realmente levar muito a sério o foco
pós-moderno no local e na multiplicidade das formas de luta nas quais necessitamos nos envolver.
É também importante realmente reconhecer as mudanças que estão ocorrendo em muitas
sociedades e ver a complexidade do nexo ?poder/saber?. Entretanto, em nossos esforços para
evitar os perigos que acompanham alguns aspectos das ?grandes narrativas? anteriores, não
vamos agir como se o capitalismo tivesse de alguma forma desaparecido. Não vamos agir como se
as relações de classe não contassem. Não vamos agir como se tudo que aprendemos cobre as
formas de compreender o mundo pudesse, de alguma forma, ser jogado fora simplesmente
porque agora nossas teorias são mis complexas.

A negação dos direitos humanos fundamentais, a destruição do ambiente, as condições abjetas


sob as quais as pessoas (apenas) sobrevivem, a falta de um futuro significativo para s milhares de
crianças que mencionei em minha história ? tudo isso não é apenas ou mesmo primariamente um
?texto? para ser decifrado nos nossos livros acad6emicos à medida que seguimos nossos temas
pós-modernos. é uma realidade que milhões de pessoas experimentam nos seus próprios corpos,
diariamente. O trabalho educacional que não seja fortemente relacionado com a profunda
compreensão destas realidades (e esta compreensão não pode abandonar a séria análise da
economia política e das relações de classe sem perder muito de sua força) está em perigo de
perder a sua lama. As vidas de nossas crianças exigem mais do que isso.
Sobre a branquidade

Não seria inadequado terminar esse ensaio com a última frase do parágrafo precedente. Mas
desejo propor-me a algumas reflexões adicionais sobre o que significa a história que contei,
porque penso que o tema das batatas fritas baratas oferece um exemplo extremamente
importante da política do senso comum e da política, não apenas de classe, mas das suas
intersecções com ?branquidade?, com raça, colonialismo e neocolonialismo.

Talvez seja apropriado, nesse momento, que eu diga algo sobre minhas opiniões políticas. Fui e
continuo sendo um acad6emico ativista e um ativista acadêmico, dependendo da situação em que
me encontro. Assim, como muitas outras pessoas, esforço-me por aliar meus escritos a
movimentos pela transformação social e por permanecer um intelectual org6anico, cujo trabalho
tem origem nesses movimentos, mas também os realimenta. Isto é mais bem sucedido algumas
vezes do que outras, mas exige um esforço consciente. E, como tantas outras pessoas, isso tem
significado tomar parte concreta em esforços anti-racistas, na política sindical, contra a ganância
empresarial, em mobilizações contra a guerra e o imperialismo, na política pela educação e em
inúmeras outras lutas. Previsivelmente, isto inclui uma cota de riscos desde a confrontação com
membros da Ku Klux Klan, até ser preso em um país asiático (diferente daquele com o qual
comecei este texto) por falar contra repressão dos eu governo militar aos direitos humanos e a
prisão de professores líderes sindicais.

Digo tudo isso, não para tentar demostrar que ?bom sujeito? Michael Apple supostamente é, mas
para oferecer um tipo diferente de argumento. O fato de alguém ser claramente um ativista
político não garante que ele esteja livre das din6amicas diferenciais de poder, dinâmicas que
penetram em nossas vidas diárias sob formas muito sutis. Isto pode exigir um ato consciente para
interromper nosso senso comum e tornar esta participação clara.

Na história que contei, raça e classe fazem uma intersecção com relações coloniais e neocoloniais
tanto nacional quanto internacionalmente. Destaquei as conexões entre a prática de consumo nos
Estados Unidos e o empobrecimento de certos grupos, claramente identificáveis, numa nação
asiática. Penso estarem claras as relações de classe que emergem e que ali são criadas. A
destrutividade das relações de produção e o correspondente empobrecimento de milhares e
milhares de pessoas num país como esse não podem ser separados da capacidade de consumir o
povo de outra nação.

No entanto, esta também é uma história sobre din6amica racial e sua institucionalização sob
formas coloniais e neocoloniais. Relações de ?branquidade? são estruturalmente recriadas aqui.
Não constitui um acidente histórico que estas relações internacionais sejam criadas e toleradas
entre um ?centro? arrogante e uma ?periferia? que ? quando chega a ser vista ? é vista pelos do
?centro? como habitada por pessoas ?descartáveis? que, para os olhos dos imperiais, são, de
algum modo, ?diferentes? ou ?menos que?. Por que isso não é óbvio?
Como educadores, estamos envolvidos numa luta em torno de significados. Entretanto, nessa
sociedade, como em todas as outras, apenas certos significados são considerados ?legítimos?,
apenas certas formas de compreender o mundo acabam por tornar-se ?conhecimento oficial?.
Isso não é uma coisa que simplesmente acontece. Nossa sociedade é estruturada de tal modo que
os significados dominantes têm mais possibilidades de circular. Esses significados, obviamente,
serão contestados , serão resistidos e algumas vezes serão transformados, mas isso não diminui o
fato de que culturas hegemônicas têm maior poder para se fazerem conhecidas e aceitas.

John Fiske expressa a idéia de que nossos significados estão igualmente implicados em relações de
poder:

A produção de cultura (e a cultura está sempre em processo, nunca acabada) é um processo


social: todos os significados sobre o eu, sobre as relações sociais, todos os discursos e textos que
exercem esses importantes papéis culturais podem circular, apenas, quando relacionados ao
sistema social, no nosso caso, o capitalismo branco, patriarcal. Qualquer sistema social necessita
um sistema cultural de significação que sirva para mantê-lo seja para desestabilizá-lo, para fazê-lo
mais receptivo a mudança. Cultura... e significados... são portanto, inerentemente políticos. Estão
centralmente envolvidos na distribuição e possível redistribuição das várias formas de poder social
(Fiske, 1989, p.1).

Ele prossegue, dizendo:

O conhecimento nunca é neutro, nunca existe uma relação empírica e objetiva com o real.
Conhecimento é poder, e a circulação do conhecimento é parte da distribuição social do poder. A
capacidade discursiva para construir um senso comum que possa ser inserido na vida cultural e
política é central na relação social de poder (Fiske, 1989, pp. 149-150).

Essas são afirmações genéricas, mas quando aplicadas ao específico da situação que relatei antes
tornam-se ainda mais convincentes. Elas colocam minha necessidade de ser ensinado sobre as
condições daquela verdejante planície dentro de seu contexto sócio-cultural mais amplo. Elas
cristalizam em uma única história diferenças de construção de significados que separam o que no
?Ocidente? poder ser visto simplesmente como comer batatas e naquela nação asiática é visto por
muitos ativistas como a destruição das possibilidades de um futuro melhor para milhões de
crianças. A história documenta a importância de se perguntar ?a quais grupos pertencem as
compreessões que são postas em circulação? Por que eu nada sei sobre isso? Qual a minha
própria localização em um sistema internacional de relações econ6omicas que produz essas
condições??

A história fala da continuada circulação de formas coloniais de compreensão, associadas de forma


complexa e sempre cambiantes com os modos de produção econômica e de distribuição e
consumo que estamos acostumados. De muitas maneiras, muitos de nós somos aprisionados nos
discursos universalizantes de nosso próprio mundo, um mundo que pressupõe que de alguma
forma já sabemos como compreender os eventos diários dos quais participamos. No entanto, a
história que me contaram naquele passeio de carro e aquilo que vi são coisas que dizem respeito à
questão de saber qual é a realidade q qual é o conhecimento ? isto é, de quais grupos ? que são
tornados públicos. Vêm-me à mente aqui as palavras tão apropriadas de Edward Said:

Sem exceções importantes os discursos universalizantes da Europa e dos estados Unidos


modernos supõe o sil6encio voluntário ou não do mundo não-europeu. Há incorporação, há
inclusão, há domínio direto, há coerção. Mas raramente há um reconhecimento de que o povo
colonizado deveria ser ouvido, Ter suas idéias conhecidas (Said, 1993, p. 50).

As idéias de Said nos falam da relação entre as formas de compreensão que dominam ?nossa?
sociedade e do silenciamento das vozes do mundo ?não-europeu?, ?não-ocidental?. Entretanto,
não são apenas as vozes que são silenciadas ( e eu conscientemente emprego a palavra silenciada
ao invés de silenciosa pra significar que há um processo ativo no qual os grupos dominantes têm
que fazer um esforço para manter o poder de seus significados hegemônicos), de forma que é
quase por acidente que estou numa posição de ser ensinado a ver o mundo de forma diferente.
São as conexões determinadas entre vidas nos países do ?centro? e vidas nos países da ?periferia?
? uma classificação em si mesma arrogante e infeliz ? que são tornadas invisíveis nesse mesmo e
exato momento.

Esta invisibilidade é crucial. Há uma geografia social da branquidade. Sob muitos aspectos,
branquidade é um conceito espacial. Nesse caso, ela implica viver uma vida intimamente
conectada ? de maneira identificável ? à din6amica internacional que tem alterado tão
radicalmente as relações econômicas políticas e culturais, em muitas nações. Não está,
necessariamente, baseada numa escolha consciente. Ao contrário, ela está profundamente
cimentada nas nossas compreensões do senso comum, da vida cotidiana. compramos nossas
roupas, comemos nossa comida e fazemos o que fazemos de um modo que naturaliza as relações
sociais e econ6omicas que realmente criaram as condições para a produção e o consumo dessas
roupas e dessa comida. A branquidade, pois, é uma metáfora para o privilégio, para a capacidade
de comer batatas fritas baratas.

Obviamente, este não é um argumento novo nem original. Há uma tradição bastante longa na
economia política que nos faz lembrar que cada objeto manufaturado não é simplesmente uma
coisa que carregamos na mão. Essa visão, de fato, é mais do que apenas reificante. Ao contrário,
um objeto manufaturado, ou processado ? de caros tênis e camisas e mesmo à comida que
colocamos na boca ? é corporificação concreta do trabalho humano e das relações sociais
produtivas e destrutivas que resultam nele, ou são o resultado de sua feitura. Assim, comer
batatas fritas baratas significa colocar a comida na nossa boca, mastigá-la e engoli-la. No entanto,
neste mesmo e exato momento, é também e profundamente um ato social pleno. Significa estar
inserido no ponto final de uma longa cadeia de relações que retirou pessoas da terra, causou sua
ida para as favelas e negou aos seus filhos cuidados médicos e escolas. Ainda, de modo mais
imediato, significa estar em uma relação com os trabalhadores que preparam as fritas e as
serviram, no restaurante de ?fast food?, trabalhadores que usualmente recebem um pagamento
extremamente baixo, nenhum benefício, nenhum sindicato, e devem esfalfar-se em dois ou três
empregos de tempo parcial para tentar colocar comida na sua própria mesa. Estou tentando dizer,
neste momento, que comer batatas fritas baratas é uma das expressões máximas da branquidade.

De modo muito similar, quase todos os benefícios econ6omicos desfrutados hoje pelos ricos ? e
mesmo pelos não tão ricos ? num país como os Estados Unidos dependem do desenvolvimento
histórico de uma infra-estrutura econômica, depende do trabalho não-remunerado ou de baixo
custo. Trabalho que freqüentemente teve a raça como uma din6amica constitutiva a sustentá-lo.
Assim, não seria exagerado dizer que as fábricas t6exteis do Norte industrial foram alimentadas
pelo trabalho não-remunerado dos escravos que cultivavam a matéria prima no Sul (obviamente,
a economia inteira dependia do trabalho não-remunerado das mulheres, em casa, ou na fazenda).
Por centenas de anos, capitalismo e escravidão estiveram vinculados, numa tensa relação. Deste
modo, a branquidade como privilégio, não é apenas uma metáfora espacial mas também
temporal. As condições de existência, a partir das quais nossa economia atual se desenvolveu, têm
suas raízes no solo de centenas de anos deste trabalho. ?Nós?, presentemente, aproveitamos as
vantagens obtidas com esse trabalho. (Infelizmente uma séria discussão sobre o fato de que essas
presentes ? e tão desigualmente controladas e distribuídas ? vantagens são completamente de
dependentes dessas relações históricas dificilmente vem à tona no conhecimento oficial do
currículo escolar. Isto dá bem uma idéia sobre a importância daquilo que não é ensinado nas
escolas, assim como daquilo que é parte do ?corpus? do conhecimento considerado ?legítimo?).

Talvez eu possa tornar mais claro meu argumento de que estamos estreitamente conectados, de
mil maneiras, com relações de privilégios, através de um outro exemplo, mais uma vez, pessoal.
Tomemos o ensaio que você está lendo. Enquanto olho pela janela do edifício no qual ele está
sendo escrito, vejo uma usina termelétrica. Esta é uma importante parte da história.

Esta manhã, Michael Apple veio para seu gabinete, abriu a porta, ligou o interruptor de luz e
começou a digitar. Podemos interpretar isso como um simples ato físico. Apple coloca sua mão
sobre o interruptor, aciona-o e surge a luz. entretanto, este simples ato não é tão simples porque
ele precisa ser entendido relacionalmente. Michael Apple realmente abriu a porta, ligou a luz, foi
até sua mesa e iniciou a digitação. Mas Michael também tinha uma relação anônima ? mas não
menos real ? com os homens e mulheres mineiros que escavaram o carvão, em condições
freqüentemente perigosas e crescentemente explorativas, carvão este que foi queimado para
produzir a eletricidade que permitiu que a luz fosse acesa. A ação de digitar este texto é
totalmente de pendente desse trabalho.

meu propósito, com este exemplo, não é ?colocar um foco luminoso? (perdoem-me o trocadilho)
sobre essas condições de uma forma tal que poderia nos levar ao imobilismo. ?Ah, tudo é tão
complicado politicamente que tudo o que fazemos tem graves implicações?. Ao contrário, meu
objetivo é discutir sobre a natureza do senso comum. ?Nossos? (refere-se aqui a grupos brancos e
economicamente privilegiados) modos ordinários de compreender nossa atividade cotidiana,
dentro e fora da educação, podem tornar extremamente difícil que apreciemos completamente o
nexo das relações sociais das quais participamos. Nas palavras de Fiske, desejo ?desestabilizar?
nossas compreensões ordinárias da educação e da nossa própria posição na sociedade mais
ampla. Como Antônio Gramsci nos lembrava, a dominação racial, de gênero e de classe é
legitimada através da criação do senso comum, através do consentimento. Este tema é
especialmente importante hoje, dada à restauração conservadora que é tão poderosa nas esferas
econ6omica, política e cultural da sociedade, uma vez que uma compreensão da natureza
estrutural dessas conexões está sendo retirada de nossas vidas diárias.

Meu desejo básico é que pensemos o social, reconheçamos que vivemos envolvidos em processos
de dominação e subordinação que são muito velados. Compreender isso, pode exigir que nos
desvencilhemos do senso comum porque nós estamos profundamente interconectados,
queiramos ou não. O branco é definido não como um estado, mas como uma relação com o preto,
ou com o marrom, ou amarelo, ou vermelho. O centro é definido como uma relação com a
periferia.

Nos nossos modos usuais de pensar essas questões, a branquidade é algo sobre o qual não temos
que pensar. ela está simplesmente aí. Trata-se de um estado naturalizado de ser. Trata-se de uma
coisa ?normal?. Tudo o mais é o ?outro?. É o lá que nunca está lá. Mas está lá, porque ao nos
reposicionarmos para ver o mundo, como constituído a partir de relações de poder e privilégio, a
branquidade como privilégio desempenha um papel crucial.

Este mesmo senso de conectividade ou relacionalidade, no seu contexto internacional, é tornado


caro, nas palavras gaguejantes do Sr. ?Whiskey? Sisodia, nos versos Satânicos de Salman Rushdie.
?O problema com os in...ingleses é que sua his... história aconteceu no além mar, assim, eles não
sabem o que ela significa?. Colocar qualquer outro grupo nacional privilegiado no lugar de
?ingleses? pouco muda a idéia de Rushdie sobre a natureza de nossa compreensão ? ou a falta
dela ? das relações internacionais e das vantagens desiguais que têm origem nos modos pelos
quais tais relações são hoje estruturadas.

Pensamentos finais à guisa de conclusão

Contei uma história autobiográfica e refleti sobre ela para lançar luzes sobre a espacialidade da
?branquidade? como uma relação internacional. Pelo fato de que grande parte constitui uma
narrativa pessoal, necessito admitir Ter estado um pouco preocupado com o que fiz nesse ensaio.
Tal preocupação leva-me a fazer uma advertência a mim mesmo e a voc6e, leitor, sobre algum dos
efeitos ocultos do (geralmente elogiável) impulso de empregar registros autobiográficos para
elevar as conexões, não apenas entre a educação e a sociedade mais ampla, mas também entre
nós e outros grupos de pessoas e que podem estar ocultas, dados os mapas de realidade que
empregamos.

Muito do ímpeto por detrás das narrativas pessoais é moral. A educação é sita, corretamente,
como um empreendimento ético. O pessoal é visto como um modo de despertar sensibilidades
éticas. Ou é percebido, corretamente, como uma maneira de dar voz às subjetividades das pessoas
que têm sido silenciadas. Há muito a elogiar nesta posição. No entanto, alho se mantém um tanto
abafado nos bastidores, em muitas variantes de tais histórias ? uma pungente consciência do
político, das estruturas sociais que condenam tantas pessoas identificáveis a vidas de luta
econômica e cultural (e também corporal) e, em alguns casos, desespero. Fazer conexões entre o
que pode ser chamado de imaginação literária e narrativa e o movimento concreto que busca
transformar nossas instituições é simplesmente essencial neste caso. Argumentos políticos não
constituem alternativas para preocupações morais. São, antes, estas preocupações tomadas
seriamente, em suas implicações plenas.

Ora, freqüentemente vejo os relatos e as narrativas interpretativas como convincentes e plenos de


significados. E, obviamente como usei essa forma, neste ensaio, não quero descartar o seu poder.
Entretanto ? permitam-me ser pouco sutil e apresentar minha preocupação aqui ? também
freqüentemente estes textos correm o risco de cair num individualismo possessivo. Mesmo
quando o autor faz ?a coisa certa? e discute seu lugar social, num mundo dominado por condições
opressivas, se ele não for reflexivo em relação a isso, seu texto pode servir à função confortadora
de dizer basicamente ?chega de falar sobre vocês, deixem-me contar-lhes sobre mim?. Por estar
ainda bastante comprometido em levantar questões sobre as dinâmicas de raça e classe é que me
preocupo com as perspectivas que supostamente reconhecem as vozes negadas de muitas
pessoas no nosso pensamento sobre educação mas que, na verdade, ainda acabam privilegiando
os brancos, as mulheres ou homens de classe média, numa necessidade aparentemente infinita de
auto-exibição.

Não interpretem de forma errônea o que estou dizendo aqui. Como já foi fartamente
documentado em trabalhos feministas e pós-colonialistas, o pessoal é freqüentemente a presença
ausente por detrás dos escritos mais desencarnados, mas ao mesmo tempo é igualmente crucial
que interroguemos nossos motivos ?ocultos?, nesses casos, quando empregamos tais modos de
apresentação. É a insistência no pessoal, uma insistência que sustenta em grande parte a mudança
para formas literárias e biográficas, também, em parte, um discurso de classe? Devemos admitir
seu poder em esclarecer como o mundo é construído, em torno de muitos eixos de poder, e de
aclarar também nossa participação pessoal nesses eixos. Entretanto, embora ?o pessoal possa ser
político?, podemos perguntar: o político se esgota no pessoal? Ainda Mias: porque devemos
pressupor que o pessoal é menos difícil de entender que o mundo ?externo??

Levanto essas questões, mas não posso respond6e-las de forma que valha para todas as situações.
O que posso dizer é que tais questões necessitam ser feitas por todos nós que estamos
compreendidos com múltiplos projetos envolvidos na luta por uma educação mais emancipatória.
Por esta mesma razão, contei uma história da minha própria educação ? como branco e visitante
estrangeiro ? que está conscientemente conectada a uma clara compreensão da realidade das
relações de exploração e dominação estruturalmente geradas, relações que fazem com que nos
perguntemos até mesmo se existe alguma educação numa situação como essas. foi, para mim, um
momento educativo sobre o que significa ?ser branco? num contexto internacional, um momento
educativo que tronou claro para mim como o privilégio penetra nos atos humanos mais básicos,
tais como comer. Como vocês poderiam esperar e eu estou certo que muitos de vocês o fariam, se
tivessem uma experiência similar, estou agora envolvido, de forma mais consciente, no apoio às
ações dos movimentos democráticos naquele país asiático, tanto nos Estados Unidos quanto lá.
como vocês poderiam também esperar, não como batatas fritas baratas.

Michael W. Apple é professor da Universidade de Wisconsin, Madison, EUA.