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SOCIOLOGIA DO DIREITO ENSAIOS

Manuela Fialho Galvão

ideia João Pessoa

2018

SOCIOLOGIA DO DIREITO ENSAIOS

LIVRO PRODUZIDO PELO PROJETO

Para Ler o Digital: reconfiguração do livro na Cibercultura – PIBIC/UFPB Departamento de Mídias Digitais – DEMID / Núcleo de Artes Midiáticas – NAMID Grupo de Pesquisa em Processos e Linguagens Midiáticas – Gmid/PPGC/UFPB

Coordenador do Projeto Marcos Nicolau

Alunos Integrantes Bruno Gomes Lívia Macêdo

Editoração Digital Bruno Gomes

Capa Bruno Gomes

atenção: as iMaGens usadas neste trabalho o são Para eFeito de estudo, de acordo coM o artiGo 46 da lei 9610, sendo Garantida a ProPriedade das MesMas aos seus criadores ou detentores de direitos autorais.

Galvão, Manuela Fialho. Sociologia do direito: ensaios. [recurso eletrônico] / Manuela Fialho Galvão - João Pessoa: Ideia, 2018. 317 p. ISBN: 978-85-463-0335-9 Tipo de Suporte: E-book - Formato Ebook: PDF 1. Sociologia do direito 2. Ciência jurídica 3. Ensaios

1. Sociologia do direito 2. Ciência jurídica 3. Ensaios EDITORA a v . n ossa s

EDITORA

av. nossa senhora de FátiMa, 1357, bairro torre

ceP.58.040-380 - João Pessoa, Pb

www.ideiaeditora.coM.br

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SUMÁRIO

Sociologia do direito

Apresentação

06

PARTE III:

 
 

Práticas judiciárias e justiça do consumidor

Prefácio

12

I

- Julgar e conciliar:

 

práticas formativas da justiça pública

150

Oração

22

II

- Justiça de camaleônico:

 

o

fluxo das interações sociais

173

Introdução: sociologia, direito e educação

28

 

PARTE IV:

 

PARTE I:

 

Teoria social da dádiva, redes e constituição social

Estratificação social e igualdade jurídica

I - O sistema de direito e o reconhecimento social

232

I

- Estratificação social e ciência social

36

II - Teoria dos sistemas, redes e associativismo

256

II

- Sobre a igualdade:

o

discurso dos moços da faculdade de direito

51

PARTE V:

 

PARTE II:

Ciências sociais, direito, literatura, arte, recreação e a constituição

O urbano em estudo, cotidiano e direitos humanos

I

- Capoeira, literatura e ciências sociais:

I

- João pessoa, o bairro da torre e as

os desafios do fairplay 279

comunidades em estudo

74

II

- Ciências sociais, direito e literatura:

II

- Cotidiano e direitos humanos

98

arte e recreação na compreensão da constituição 291

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APRESENTAÇÃO

Sociologia do direito

Ensaios de Sociologia Jurídica de Manuela Fialho Galvão nos brinda com um conjunto de dez escritos teóricos e empíricos cuja matriz central é a Ci- ência Jurídica. Os Ensaios escritos entre Joao Pessoa e Recife revelam a traje- tória acadêmica da autora que remetem os leitores a partir de uma belíssima narrativa a uma viajem epistemológica, teórica e metodológica no tempo e no espaço. Nesta perspectiva Ensaios nos apresentam as várias dimensões que orbitam ao redor do direito a partir das lentes de sociólogos clássicos, contemporâneos e de autores de nossa literatura nacional, contemplando temas e problemas contemporâneos, como por exemplo, as políticas de transferência de renda e a sua relação com a moral no sentido maussiano (tema do capítulo terceiro). Ensaios de Sociologia Jurídica é composto por uma breve introdução e cinco capítulos cada qual dividido em duas sessões. Na introdução a autora articula os campos disciplinares do Direito, da Socio- logia e da Educação – matriz para a composição dos ensaios. Após descrição do contexto político e das condições históricas e políticas que possibilitaram o surgimento da Sociologia e do Direito – Revolução Científica, Revolução Industrial Inglesa e a Revolução Política Francesa, Manuela nos apresenta

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autores clássicos da Sociologia, as principais questões à época e as suas li- gações com o campo da educação: educação como solução para as anomias sociais (Émile Durkheim) exploração da classe trabalhadora, alienação, mais- -valia e a educação para emancipação política (Karl Marx) e o direito positivo em consonância com o capitalismo industrial. O capítulo que inicia Ensaios de título “Das desigualdades sociais e estratificação social” trata da visão dos três autores supracitados do processo de estratificação social e da desigual- dade nas sociedades industriais do tipo capitalista a partir da categoria tra- balho. Karl Marx claramente anuncia um princípio ontológico na sociedade de classes a alienação e a exploração do trabalho como motor do processo de produção do valor e da própria história; Durkheim analisa os conflitos sociais como patologias e Weber transcende a explicação economicista e anuncia a esfera da religião – a ascese protestante. Neste capítulo a autora traz reflexões de autores pós-estruturalistas sobre o fenômeno da desigual- dade social, transcendendo as correlações mecanicistas entre classe social e estratificação social até reflexões recentes que anunciam o questionamento da centralidade do trabalho nas sociedades atuais. Ao longo do percurso a autora demonstra mutações na própria teoria social que se enriquece agre- gando em sua reflexão elementos novos, como a distinção cultural, as esfe- ras do agir comunicativo e o mundo da vida, as relações de consumo e as identidades cuja centralidade no mundo contemporâneo é inegável, assim

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como a luta pelo reconhecimento de direitos baseados em sinais diacríticos, um exemplo claro é o sistema de cotas para negros e índios no Brasil e a luta de minorias étnicas, como os catalães na Espanha, a formação do Estado Is- lâmico e seus efeitos nefastos principalmente para as meninas e mulheres, dentre outros casos. O segundo texto intitulado: “Sobre a igualdade: o discurso dos moços da faculdade de direito”, trata dos resultados de pesquisa (de opinião) em- pírica realizada com alunos da faculdade de direito da Universidade Federal da Paraíba no ano de 2003 a finalidade era captar as representações dos alunos sobre “políticas de igualdade que buscassem resolver ou compensar as diversas desigualdades – econômicas (assistência judiciária gratuita, dis- tribuição gratuita de medicamentos, isenção de imposto para baixa renda), sociais (reserva de vagas no estacionamento para deficientes físicos, perma- nência nas escolas normais para portadores de necessidades especiais, fila preferencial para idosos/gestantes/pessoas com crianças, meia-entrada para estudantes em cinemas e espetáculos), étnica (reservas de vagas na univer- sidade para negros e índios) e de gênero (cotas de representação para mu- lheres em partidos políticos); guardando, pois, a igualdade enquanto valor” (GALVÃO, 2014, p. 16 e 17). Resultados da pesquisa sinalizaram para opini- ões divergentes sobre as políticas sociais que tem como finalidade assegurar a igualdade de direitos.

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A parte II apresenta inicialmente uma belíssima descrição da cidade de João Pessoa, quase um tributo à cidade, a reconstitui brevemente a sua his- toricidade, a sua longa ligação com Recife – afinal Paraíba fora território per- nambucano (?). Destaque é conferido ao bairro da Torre e as comunidades Padre Hildon e São Rafael, um pouco de suas histórias, seus locais tradicio- nais, o contraste entre bairro e comunidade e as suas clivagens sociais. A autora discute de forma elegante os problemas sociais, a cultura assisten- cialista que se revela nas políticas públicas, em especial, o Bolsa Escola, fruto da pesquisa realizada pela autora no campo das análises e avaliações das Políticas Públicas, contudo, a partir de uma lente crítica e de um referencial teórico sociológico, metodologia antropológica, demonstrando a solidez da formação acadêmica da autora e a sensibilidade para as questões sociais. Neste caso a referência à Hannah Arendt é bastante feliz! Valiosa contribui- ção para o campo de avaliação das políticas públicas. Na segunda seção nos traz reflexões analíticas sobre interfaces entre campo e cidade, o cenário é a região Nordeste, o acesso a direitos fundamentais do Homem que nos re- metem a Revolução Francesa, a raiz da pobreza e novamente, a referencia a Paulo Henrique Martins e a Telles e que nos remete às reflexões de Marilena Chaui no livro Brasil: mito fundador e sociedade autoritária, a alusão indire- ta ao Ensaio sobre a Dádiva de Marcel Mauss – as modalidades do sistema de dádivas, e, finalmente, a dádiva hierárquica e assimétrica, a referencia a

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Roberto da Matta e o nosso dilema brasileiro, reflexões pertinentes para o Nordeste e o Brasil, a questão agrária não resolvida até os dias de hoje. Na parte III- seção I a autora aborda as práticas judiciarias e a justiça do consumidor problematizando as questões de julgar e conciliar, a partir de um diálogo entre autores como Ortner, Habermas, Foucault, Cardoso de Oliveira, Bourdieu, Alain Caillé e Paulo Henrique Martins. Trata-se de uma reflexão teórica de peso e na reflexão da prática judiciária e de justiça à luz da teoria habermasiana sistema e mundo da vida, onde o autor propõe uma razão comunicativa baseada no melhor argumento e na figura do mediador. A prática judiciaria leva a uma reflexão sobre o modelo de Estado. A seção II são dados e análise da pesquisa de campo da autora realizada entre 2006 e 2007 dos cadernos processuais do Procon estadual. Neste quartoe quinto capítulo a autora demonstra a contribuição dos esportes para a Sociologia, dito de outro modo, os esportes “são bons para pensar”, como diria Claude Lévi-Strauss, questões vitais da disciplina, a exem- plo, dos códigos nativos, da linguagem, o esporte paradigmático é o fairplay, uma alegoria para pensarmos nossas instituições e o Estado de Direito em que a liberdade individual e o respeito a alteridade é uma das pedras fun- dantes: “Com efeito, a regra geral é o fairplay, isto é, o respeito sobre o jogo do outro e o conjunto dialógico” (GALVÃO, p.123). A autora aborda brilhan- temente as ligações entre literatura, sociologia e direito e suas implicações

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recíprocas, suas inspirações teóricas são Max Weber e as obras literárias de Augusto de Anjos, Rachel de Queiroz e José Lins do Rêgo. A partir dos autores realizamos uma viagem ao cenário regional e às tramas históricas que configuram a nossa identidade; com Augusto dos Anjos, inicialmente

a escravidão, as relações raciais e o sistema agrário plantation; Raquel de

Queiroz introduz a mulher no pensamento social brasileiro, particularmen- te a condição da mulher no mundo do trabalho- duplamente punida por

ser mulher e pobre, talvez negra? José Lins do Rego nos traria novamente

a gênese agrária da nação, seus contrastes e por isso mesmo sinaliza para

a questão social, o cangaço! Deus e o Diabo na terra do sol de Glauber Ro-

cha sinaliza para nossas questões sociais a desigualdade de renda fruto da concentração de renda e do latifúndio, afinal são as questões contemporâ- neas, a concentração da renda, mas “para não dizer que não falei das flores” (Geraldo Vandré), a autora sinaliza em seus Ensaios que o exercício pleno da cidadania assegurariam condições de vida mais felizes. Recomendo forte- mente a leitura destes Ensaios redigidos afetivamente entre Paraíba e Recife

aos estudantes de Direito, Ciências Sociais, Serviço Social e Políticas Públicas

e todos interessados nas temáticas.

Alicia Ferreira Gonçalves João Pessoa

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PREFÁCIO

Sociologia do direito

Os anos de 1980/1990 proporcionaram o enlace definitivo das Ciências Sociais e do Direito no Brasil. A abrangência e ao mesmo tempo especificida- de dos campos de pesquisa, os lócus de intervenções e as elaborações epis- temológicas em Sociologia Jurídica (ou Sociologia do Direito, para alguns o debate ainda persiste) convergiram – ou são frutos – também do período de transição entre a ditadura militar para o dito/ escrito Estado democrático de direito. Esse mesmo período adensou mais uma vez a “crise do ensino jurídico” - apontada por Rui Barbosa um século atrás – o tema retorna desta vez am-

parado por um ideal de realização dos ditames constitucionais de 1988 em seus princípios, objetivos, garantias e liberdades fundamentais (direitos civis

e políticos), direitos sociais, econômicos e trabalhistas, direitos ambientais e culturais e por fim o reconhecimento constitucional da importância dos po- vos indígenas e da população negra para uma sociedade pluriétnica, ou seja,

a centralidade dadas está em torno da proteção, promoção e efetivação dos direitos humanos com base no princípio da dignidade humana.

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Sociologia do direito

Na Sociologia Jurídica os conceitos de democracia, política, história, cul- tura, economia, sociedade, direito, participação, metodologia, direitos hu- manos, institucionalidades, movimentos sociais e “lutas pelo direito” ganham contornos teóricos/práticos que abarcam pesquisas, extensões e práticas di- dáticas de relevo no campo do ensino jurídico. A Sociologia Jurídica brasileira no decorrer dos anos conquistou o sta- tus de produtora de conhecimento, discursos e racionalidades institucionais, também é fonte de interpretação/produção normativa pelo tribunais e afins, porém, sua característica enraizada de problematização da realidade ju- rídica-social permanece, não apenas por ser parte de um horizonte pro- gressista da Lei de Diretrizes e Bases (1993) ou do giro humanista na forma- ção dos bacharéis em direito a partir de 1997, ela continua a ampliar suas possibilidades na pesquisa (graduação, mestrado e doutorado), na extensão (preferencialmente popular), na produção acadêmica (livros, artigos e artes) e na criação das intervenções metodológicas – didáticas, sendo estas as di- mensões trabalhadas a partir da obra Ensaios de Sociologia Jurídica de Manuela Fialho Galvão (Manu). A obra revela a concretização de uma geração que ousou ler, ver, intera- gir e relacionar o direito (ciências jurídicas) com a sociologia, antropologia, filosofia, artes, cultura e política, geração (de)formada na universidade (fora dela também) dos anos de 1990 que em sendo parte de um processo de

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transição paradigmática se viu vinculada ao passado que não vivenciou – tempo, ao mesmo desterritorializada em presente que não consegue intervir – espaço e com as incertezas em relação aos futuros que as memórias irão ajudar a constituir – novos saberes.

O livro Ensaios de Sociologia Jurídica remete ao tempo recente quando leitura dos textos críticos do direito eram na maioria das vezes empréstimos de cópias rabiscadas, desgastadas e de raro acesso, geralmente demoravam meses e até anos para a discussão da obra em grupos de estudo e extensão universitária, e grande parte da formação crítica era feita com leituras da Coleção Primeiros Passos da Editora Brasiliense em especial as Obras: O que

é Capital (DOWBOR, Ladislau, 1982), O que é Candomblé (CARMO, João Clo-

domiro, 1987), O que é Cidadania (COVRE, Maria de Lourdes Manzini, 1991),

O que é Etnocentrismo (ROCHA, Everardo.1984), O que é Feminismo (ALVES

e PITANGUY, Branca Moreira e Jacqueline. 1981), O que é Dialética (KONDER,

Leandro, 1981) e O que é Direito (Roberto Lyra Filho, 1982), destas obras se tentava relacionar com o direito, ciência política, democracia e Estado com temas atuais vinculados nos jornais de circulação nacional ou local.

A geração que não estava nos movimentos contra a ditadura, mas sofreu os efeitos e consequências das distensões, a geração que não estava nos es- paços de decisão e poder, mas percebeu as mudanças em curso é nesse tem- po que Manuela Galvão diz em sua obra sobre uma possibilidade de ação co-

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municativa entre a geração que leu Karl Marx, Max Weber, Michael Foucault, Boaventura Souza Santos, Roberto Lyra Filho, Roberto Aguiar, Amilton Bueno de Carvalho, Eliane Junqueira, Luciano Oliveira, Joaquim Falcão, Luiz Alberto Warat, Solange Souto, Cláudio Souto, João Maurício Adeodato, Roberto Da- Matta, Alba Zaluar e temas contemporâneos que estão presentes desde a In- trodução : Sociologia, Direito e Educação, Capítulo I Estratificação Social e Ciência Social e Igualdade Jurídica : 1. Estratificação Social e Ciência Social e Sobre a Igualdade: O Discurso dos Moços da Faculdade de Direito e a preocupa- ção central dos ensaios que fazem parte da composição do livro: perspectivas metodológicas e teóricas em descrição lúdica-didática. Estas são questões aparentemente elementares e de cunho generalista que são raramente bem elaboradas em manuais, livros com temas específi- cos ou de revisão de literatura em sede acadêmica destinados para pesqui- sadores(as), professores(as), extensionista, neófitos no campo sócio-jurídico e curiosos(as) da interdisciplinaridade, mas que na presente obra concretiza um espaço de potencialidades pouco referenciadas e mais intuitivas da for- mação geralmente elementar dos bacharéis de direito no diálogo com outros campos de saberes., merece atenção para além das discussões , talvez após 10 anos revisitar o Centro de Ciência de Jurídica – atualmente composto por dois cursos, Campus I e DCJ – Santa Rita (este último fruto do programa de expansão universitária – REUNI e da forte incidência das ações afirmativas de

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cunho étnico-racial e econômico – social) e replicar a pesquisa sobre ações afirmativas, mas esses são futuros que por certo virão. Por futuros que virão um dos momentos fortes da obra de Manuela Gal- vão é o Capítulo V – Ciências Sociais, Direito e Literatura: Arte, Recreação e a Constituição: 2. Ciências Sociais, Direito, Literatura: Arte e Recreação na Compreensão da Constituição, onde aponta o desafio que ainda está posto no campo da produção do conhecimento: “O desenvolvimentismo carece de uma leitura humanizada. As falhas de cálculos não denunciam uma formação reificada e dogmática? E quando neste domínio somos discutidos, não somos apenas seus dispositivos mal reflexionados? O que é a permanência senão o acumulado da nossa sensibilidade?” (GALVÃO, p.130) Das promessas não cumpridas pela transição dos 1980/2000 são necessá- rias teses, livros e outras referências para adensamento, no campo das ciências jurídicas um arejamento metodológico que permita equacionar quais as novas escalas foram abertas com as transformações das utopias no Brasil, na Améri- ca Latina e no mundo após 1989 com a rápida (re)criação de uma nova ordem mundial que revelou um sentimento de desconforto com entre a teoria e a prá- tica, do tempo – espaço e a necessidade de dialogar com futuros novos saberes, ou seja, a transitoriedade entre o local – global se tornou uma constante, as ci- ências jurídicas passados anos do século XXI ainda precisa da Sociologia Jurídica para alertar que “the times they are a-changin’” como profetiza Mr. Bob Dylan.

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Para que esse se tenha a compreensão dessas mudanças a leitura do Capítulo II O Urbano em Estudo, Cotidiano e Direitos Humanos: 1. João Pessoa, o Bairro da Torre e as Comunidades em Estudo e 2. Cotidiano e Direito Humanos apresenta essa relação local – global através da nítida percepção que ao atravessas da Usina Cultural até o Espaço Cultural, ou atravessar a Av. José Américo (Beira-Rio) do centro até a praia é possível deslocar toda uma parte da cidade através das narrativas de um Bairro da Torre na cidade de João Pessoa – Estado da Paraíba para uma dinâmica global que é capaz ser reproduzida em várias escalas. Ao encontrar nos escritos uma marcar de transterritorialidade nas opções de Manuela Galvão principalmente no que é visível entre os Estados da Para- íba – Pernambuco (Augusto dos Anjos – João Cabral de Melo Netto), também são bem caracterizadas as questões que estão para além da ciência jurídica e da sociologia, que fazem parte de uma percepção ampliada dos fenômenos culturais e compilação teórica de densidade e qualidade produzida pela au- tora que nos remete para linhas bem caracterizadas que expõe a potenciali- dade da Sociologia Jurídica e do Futebol, Capoeira, Direito do Consumidor, Direitos Humanos, Marxismo, Multiculturalismo, História Social, Etnografia, Filosofia do Direito, Teoria da Educação, o Bairro e Mundo, de Habbermans a Offe, de Foucault ao Mestre Raposão, em forte composição intelectual que aproxima por várias vezes a autora de Mauss, Durkheim, Bourdieu e outros.

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Neste sentido o Capítulo III Práticas Judiciárias e Justiça do Consumidor:

1. Julgar e Conciliar: Praticas Formativas da Justiça Pública e 2. Justiça de Camaleônico e o Fluxo das Interações Sociais e Capítulo IV Teoria Social da Dávida, Redes e Constituição Social: 1. O Sistema de Direito e o Reconhe- cimento Social e 2. Teoria dos Sistemas, Redes e Associativismo, são as bases para novos pilares. A criatividade é a boa amiga da curiosidade, sem elas não há capacidade de encontrar (se perder) em outro e no outro, porém, não são apenas es- ses elementos que constituem uma pesquisadora, é preciso ter uma opção metodológica sempre bem definida e nos textos do Capítulo V – Ciências Sociais, Direito e Literatura: Arte, Recreação e a Constituição: 1. Capo- eira, literatura e ciências sociais: Os desafios do fairplay e 2. Ciências Sociais, Direito, Literatura: Arte e Recreação na Compreensão da Constituição, além da criatividade e curiosidade – disponibilidade, a metodologia se encontra com o rigor teórico, ao mesmo tempo que faz intervenção no campo da so- ciologia da educação demonstrando algo didático. A aplicação constante de aportes filosóficos, sociológicos, normativos, da história social em perspectiva local – global (campo – cidade) ao costurar dimen- sões do uso da ação comunicativa, dos conceitos de direitos humanos, das en- trevistas abertas ou na pesquisa de arquivos / cadernos em no Procon estadual e Juizado de Camaleônico permitem a autora transitar com coerência e consis-

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tência teórica com Sérgio Adorno, Rachel de Queiroz, Pierre Bourdieu, Nobert Elias, Émile Durkheim, Michel Foucault, Nancy Fraser , Boaventura de Souza, Gilberto Freyre, Augusto dos Anjos, José de Sousa Martins, Wiliam Shakespe- are, Jessé Souza e Adélia Prado, assim como, por documentos produzidos pelo Conselho Nacional de Justiça, Ministério da Justiça e obras literárias. Em síntese pode-se afirmar que a Sociologia Jurídica no campo das ciên- cias jurídicas se tornou uma promotora, denunciadora e guardiã das pers- pectivas não cumpridas que acompanharam as transformações do Estado e da sociedade brasileira nos últimos 30 anos, ao mesmo tempo – espaço que o mundo foi alterado substancialmente em suas formas de lidar com novos (velhos) saberes é preciso celebrar a obra Ensaios de Sociologia Jurídica de Manuela Galvão enquanto promessa cumprida e sinalização de que ainda as mudanças do(s) tempo(s)-espaço(s) estão vindo conforme Mr. Bob Dylan insiste : “Come writers and critics/ Who prophesize with your pen/ And keep your eyes wide/ The chance won’t come again/ And don’t speak too soon/ For the wheel’s still in spin/And there’s no tellin’ who/That it’s namin’./For the loser now/Will be later to win/For the times they are a-changin’ “.

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Eduardo Fernandes de Araújo (Edu - Paraibucano) Coimbra, Portugal.

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Nota a esta edição: Estes ensaios que aqui levam este nome se tratam de leituras teóricas e pesquisas de campo realizadas durante o percurso aca- dêmico em universidades nordestinas e em um centro universitário. Escritos não apenas acadêmicos para disciplinas curriculares e monografias, mas fo- ram também acatados em sociedades científicas pós-estruturalistas, socie- dades nacionais, e locais. Contaram ainda com financiamentos para pesqui- sa, a exemplo do CNPQ, CAPES e FACEPE. Tratam-se ainda e principalmente de pesquisas de campo, realizadas nos muros e extramuros da universidade. Desta feita em contato com instituições da sociedade como Juizado Especial do Consumidor, Centro Intergeracional Sinhá Bandeira e Museu José Lins do Rego na cidade de João Pessoa. Alguns estão publicados e disponíveis em jornais e livros eletrônicos. Mas a forma com que neste livro são reunidos é inédito, escolhidos entre os melhores papers e editados da melhor maneira que houver. A temática dominante é proveniente do direito e da sociologia. Estas temáticas por sua vez configuram um campo do saber especializado que é a sociologia do direito. Com este campo do saber estabeleci no percurso acadêmico apartes importantes que configuram com o passar do tempo a fronteira do conhecimento! No ano de dois mil e dez ao aceitar o convite para o I Congresso Nacional de Sociologia do Direito na cidade de Niterói, estabeleci o contato com as pesquisas que se desenvolveram no país, e a

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perspectiva “legal culture”. No campus de Gragoatá na Universidade Federal Fluminense, recebemos uma espécie de comenda e de título de sócio-fun- dadores, apenas enunciado no ato de assinatura da ata de fundação, e a partir daquele momento fomos chamados sócio-fundadoresda Associação Nacional de Pesquisadores em Sociologia do Direito, a ABRASD. Tem inspi- ração assim a organização desta coletânea selecionando para o público lei- tor e estudioso os melhores ensaios produzidos até o dia de hoje, o que nos dispensará os breviários.

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ORAÇÃO

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Muito foi feito até aqui quando somos marcados pela profissão. Para in- gressar nesta Universidade pública, inúmeros esforços coletivos foram des- tinados por nossa família e por nossos amigos! Muitos dos nossos amigos se fizeram presentes e, de forma compreensiva, souberam respeitar as horas de leitura, de testes, e de estudo. Quantas ciências nós tivemos que conhe- cer com o coração aberto antes de aqui chegar, a literatura, a matemática, a cultura dos autores, e a sociologia em seu regresso escolar, nós tivemos que nos deter atentamente por horas e horas a fio. Fizemos provas e simulados para nos habilitar aos seus caminhos. Tínhamos que ser os melhores, e o pa- râmetro era esta Casa das Ciências, das Letras, e das Artes. Ao chegar, tivemos a Praça da Alegria por descoberta - quantas pessoas novas, diferentes, quanto o nosso coração se deixou cativar pelas faces de cada pessoa que a este lugar dedica sua existência - muitas vezes acordados, vigiando os caminhos do nosso direito e da nossa liberdade. Quantos com- partilharam de nossa condição e como somos conhecedores da identidade paraibana e do conhecimento das diversas nacionalidades, gêneros, e gera-

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ções! Nesta cidade de João Pessoa, e neste campus, quanto nos inspiramos, quando parávamos para contemplar a beleza e a alegria que é estar junto no cotidiano, e inventamos festas, e comemoramos o sentimento do mundo, e acompanhamos as mobilizações sociais. Muito me orgulha hoje concluir esta caminhada, e futuramente retornar a esta casa tendo a tudo isto contemplado e, com o mesmo sentimento, a ela jurar a fiel amizade. A casa de Mauro Koury, a casa de Amador e a casa de Nívia Cristiane Pereira da Silva. Mas a minha casa, a casa dos meus amigos. Nada do que se passou em seus muros nos foi alheio ou desinteressante, tudo o que se moveu, nela se retratou na memória, tudo o que nesta Casa brilha, brilha porque brilharam os humanos seres. É uma comunidade, um congraçamento, uma empatia, e uma filiação inscrita na alma de seus alu- nos. Esta mesma comunidade que media, conhece, orienta o imaginário, e os serviços humanos. Nesta Casa nos sentimos em casa, a nós se ofereceram o elogio da juven- tude, as rimas poéticas da literatura, a graça do romance, as culturas teóri- cas, a acolhida da alma em toda a sua plenitude. Os sentimentos que eram incontornáveis assim permaneceram, esperando que a letra e que a contra- dição elaborasse a estória. E a vida se encheu de pessoas como os mares que contemplam esta cidade estão cheios de águas. Sentimos não apenas ser a nossa existência singular, mas a existência se tornou, ao redor destes muros,

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e além deles, supremamente interessante. A dor, o sofrimento, a dificulda-

de, o obstáculo, encheram de graça o encontro. Este encontro que é com o semelhante, e com os outros, as gerações, e os antepassados significativos, aqueles que um dia nos convidaram a entrar na vida. É o encontro com o Eu, aquele augusto que marca de sentido e cumplicidade a memória da gente, aquele augusto que nos singulariza como cidadãos.

Quando pensávamos, pela velocidade dos meios, um lugar diferente do habitual, a presença da comunidade nos fixava o cotidiano, e chamava para a responsabilidade e profissionalismo junto à sociedade paraibana. Com

professores, poetas e contistas desta casa tivemos a graça de compartilhar

o sentimento, o simples olhar, a quantos deles teremos que responder com

a nossa formação ética e a nossa especialidade? Quantos de nós, cientistas

sociais, teóricos da pesquisa, e herdeiros da tradição científica, reconhece- mos nesta convivência a prática do outro curso – a prática da justiça pelo serviço social, aprendemos a tecer a constituição da política e do trabalho ao escutar a humilde prece daqueles que são os silenciosos habitantes de nossa cidade.

E nós, os cientistas sociais, que pretensamente conhecemos a totalidade da cultura – as músicas, as danças, e o costume alimentar do povo? Desco- brimos que o tecido e a trama das relações sociais são delicados, e nossa tarefa não se intimida em nenhum momento ao lhe defender - o dom e as

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motivações da existência - diante dos problemas e desafios que lhes foram opostos pelo desengano e pela a exploração do gênio individualista. Se a

ciência por um lado é cálculo duro e experimento na lógica matemática, por outro lado, a ciência humana é intuitiva, artística e emocional. Mas qual é

a pergunta, qual é o logos? No abandono dos saberes não metódicos, dos

saberes doces, e dos saberes tradicionais, diante do ceticismo sobre a vida, entre o acolhimento e a rejeição, o medo e a admiração, a ansiedade de ser,

a angústia patológica, a constatação problemática, a religião, a terapia, a

gratidão, a confiança, a farmacologia e a medicina, como pensar as motiva- ções iniciais? O que controla e limita o pensamento? Como os paradigmas

e as possibilidades se fecham? O diálogo quer dizer atravessar a tudo isto e

partilhar o dia, a complexidade, e com o outro pensarmos a realidade que nos envolve. Entendemos que o tempo é relativo, uma medição arbitrária, que a nova verdade é a impermanência. As anomalias, a busca das soluções, contornar

o

incontornável. O que é o mais básico - a vida, o corpo, a existência iludem

o

funcionamento da agenda. Todas as pessoas que aqui se fazem presentes

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nesta noite são pessoas ricas, responsáveis, éticas, críticas, a fim de não per- mitirem que na sociedade paraibana finquem raízes a ilusão e a imperma- nência. Este é o desafio dos que estão reunidos aqui, a defesa da sociedade paraibana, a compreensão de suas raízes, dos seus dilemas, e da cultura, o

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compromisso com o espírito humano através da leitura, da escrita, e da cria- tividade, a decisão partilhada de seus caminhos. Estamos certos que temos colaboradores que pensam os nossos dile- mas, e que são pensados por nós – nossos costumes, hábitos, organização,

e conflitos, que não são uma mera aparência, mas um acúmulo de fatos e de

acontecimentos que compartilhamos e que são mais ou menos previsíveis pelo conhecimento. O conhecimento que é a causa e o meio com que dialo- gamos. Assim, praticamos a dialética desde Sócrates, do diálogo em rodas, círculos, e jardins, onde o saber é posto em suspeição na relação de alteri- dade – o meu saber, o saber do outro, e o saber sobre as coisas. O conhe- cimento imaginado não é igual, como os corações não são iguais. Cada so- ciedade reflete uma memória, cada sociedade não pode ser concebida sem os cidadãos personalíssimos - homens e mulheres têm nome e sobrenome, uma consciência que é centenária. Pois que venham as próximas gerações, pois se já estávamos inscritos na história desta Casa, agora é que assinamos este compromisso.

As ciências humanas, com que nos damos às mãos, em suas modalidades

e profissões, é uma resposta positiva a condição do ser humano. As ciências

humanas trazem ao seu tempo o conforto de uma justa explicação e com- preensão, esta mesma exposição que nos assegura a perpetuação da casa, da família, da associação, da infância, da meninice, e o mundo do trabalho.

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A vida que conduzimos com tanto zelo e afeição é gestada no ventre de to-

dos, compartilhada cotidianamente, uma experiência gerativa do aluno, do

professor e da instituição – quatro, cinco, e demais anos que se fazem neces- sários para ensejar esta cerimônia. Consideramos completa a nossa tarefa e a tarefa desta Universidade. Na Paraíba, somos apenas uma nau no triângulo das humanidades. Um triângulo infinito, cujos vértices estamos empenhados

e

firmes por conhecer. Justo agora, saímos desta casa para o encontro com

o

augusto, certos da fluência e fluidez das águas. Temos a certeza de que

apenas conjuntamente seremos eloquentes na tarefa de elaborar o territó- rio da sociedade, a Casa das Palavras, a língua materna, e as práticas sociais

que nela se ambienta. Levamos esta condição gerativa como os princípios da vida ética, fraterna, livre, gentil, e calorosa. No momento mesmo em que somos chamados a condução da própria vida, no exato instante em que a vivemos personalissimamente.

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Manuela Fialho Galvão, Oração Geral

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INTRODUÇÃO:

SOCIOLOGIA, DIREITO E EDUCAÇÃO

Estes escritos reunidos marcam a trajetória das ciências sociais, espe-

cialmente a contribuição da sociologia clássica, não apenas para o proces- so social considerado em si mesmo enquanto reflexividade inclusiva para

a configuração do direito contemporâneo. Sobretudo é a relação entre a

sociologia clássica e o processo educacional que está contemplada nestes escritos. Como a leitura dos clássicos responde os problemas contemporâ- neos da educação brasileira? Como as noções críticas, consciência coletiva, alienação, anomia, classe social, status, e solidariedade configuraram com o passar do tempo a microssociologia?

O contexto de surgimento da sociologia é importante desde logo desta- car. A sociologia é de origem recente, o termo foi batizado apenas em 1830 por Comte; como sabemos data do século XIX o processo que a fundamen- tou. São processos revolucionários que retiraram a sociedade do medievo

e a conduziram paradigmaticamente à chamada sociedade moderna. São

notórias as explicações causais dos processos sociais; e a religião como gér-

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men da sociedade é uma das explicações preferidas dos sociólogos como Durkheim e Weber, provenientes ainda do medievo. Uma explicação que é totalmente recusada por Karl Marx, que entendia existir assuntos humanos bem diversos da matriz religiosa. Mas na modernidade a Revolução Industrial e a Revolução Francesa, assim como a Revolução Científica normatizaram a sociedade e formularam para ela

um novo direito. Mas esta história não é tão linear quanto parece. A Revolu- ção Industrial é um processo alarmante, como a película de Chaplin, Tempos Modernos, nos deixa entrever: um sujeito consumido e arrastado pelas má-

uma revolução acelerada que retirava do sujeito moderno a eman-

cipação, uma vez que o capital se desligava do tempo de maturação social, alienando o operariado fabril com relação a própria constituição humanitária. Muitos problemas urbanos apareceram. Este sujeito era marcado pela aliena- ção e, com relação a dinâmica do self, pela anomia. Muitas normatividades não se sustentavam com eficácia e validade, assim como não dialogavam entre si. Isto porque o direito produzido confluía com o capital explorando a força de trabalho, e buscando converte-lo em mais valia e lucro.

quinas

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A Revolução Francesa veio restabelecer os princípios normativos: o prin- cípio da igualdade, da liberdade e da fraternidade, andando pari passu com a sociedade e o direito que deve correspondê-la como a união do casamento. Estes princípios devem ser a priori confrontados com as instituições da so-

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ciedade, não podendo esta se abster de observá-lo desde que foram inscri- tos nas constituições modernas. Mas esta Revolução entrevia algo inédito: a mudança da sociedade e do Estado com a mudança do modo de produção; a mudança do capitalismo para o socialismo. Assim como o papel nascente do proletariado na solução dos problemas urbanos. Finalmente foi a Revolução Científica que ensejou o nascimento da so- ciologia como a conhecemos hoje. Platão, Aristóteles, Descartes, Pascal, Kant, Hegel, Feuerbach e a filosofia constituem a herança científica e o re- pertório crítico da sociologia. Apenas com base na filosofia helênica é que reconhecemos as formulações sociológicas e metodológicas como o fato social por Durkheim. A ciência não é inteiramente nova, e Durkheim não é apenas um autor ingênuo e positivista; nos dias atuais, ele mesmo em suas afirmações hipotéticas - indiscutivelmente científicas - configura a sociolo- gia da cultura. O trabalho da sociologia e das ciências sociais, como a ciência política e a antropologia, são dotados de três estágios: “regarder, écouter, lire”, ao qual acrescentaria “écrire”. Deve-se observar a constituição da casa, do meio, as pessoas, a sociedade e o parentesco; deve-se ouvir os cantos, os ritos, as crenças; deve-se ler os idiomas, e os encontros etnográficos; e escrever es- tando aqui e estando lá (Oliveira, 2006). Este é, com efeito, o trabalho do cientista social do qual Durkheim era exímio articulador. Não apenas obser-

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vou processos microssociólogicos como integrou estes processos ao rela- cioná-los sistematicamente. Assim, Durkheim foi o único dos sociólogos fundadores que ministrou um curso sobre Educação. Neste curso enfatizou a educação enquanto uma instituição integradora, articulando sobre esta, debates sobre igualdade, jus- tiça e liberdade, o que o retiram de um viés conservador. Vislumbra-se uma política educacional, com o objetivo de remediar os males urbanos, como marginalidade e prostituição, assim como aqueles apontados no estudo so- ciológico do suicídio. Durkheim estava marcado pelo pragmatismo norte- -americano e existia para ele a ideia de que uma situação problema deveria ser conciliada. Apenas por meio da educação se chegaria a uma consciência coletiva e ao ser social em sua plenitude reflexiva. O caminho traçado por Marx é bem diferente do sociólogo francês, mas não é inteiramente: nas três fontes do marxismo estão a metodologia ale- mã, a economia política inglesa e a revolução francesa. Marx a sua época leu um importante filósofo - Hegel sobre o Estado de direito, especialmente a filosofia do direito, de onde entendeu ser o Estado uma entidade artificial e desmaterializada, mais do que isto, como aparelho de classe o Estado era alienante para as massas. A primeira fonte do marxismo, Marx estabeleceu uma dialética fenomenológica, onde a alienação se sucedia o estranhamen- to; e um senso de percepção sobre valoração e humanização da economia.

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Para Marx deveria valer a relação de capital e trabalho, e deveria ser confi- gurado o trabalho de valor social. Neste sentido, relata que à época deveria existir a educação da classe trabalhadora, ainda que esta sofra com a aliena- ção, deveria ser esclarecida ou educada para a emancipação e a produção da vida material. Por sua vez o terceiro dos sociólogos fundadores, Max Weber, onde este refletiu processos educativos o fez de forma a criticar a reprodução social. Para o sociólogo alemão a educação esteve voltada para processos técnicos e de especialização característicos do Estado e sua dominação burocrática. A ética docente neste sentido deveria estar refletindo a neutralidade sobre os juízos de valor, no sentido de estabelecer análises ponderadas, o que equi- valeria ao máximo de observações que seria possível estabelecer na prática docente. É importante destacar como contribuição do sociólogo a sacralida- de que reveste a noção de pessoa no ocidente, isto é, para ele deveria haver uma consideração sobre o público, e esta consideração equivale a conceder os mesmos lugares de fala, e de respeito a esta fala do público, o que confi- guraria uma esfera pública como a conhecemos nos dias de hoje, sobretudo nas formulações contemporâneas de Habermas e Richard Sennet. Finalmente, para concluir este aparte discursivo sobre a educação e uma sociologia da educação como área comum a uma sociologia do direito, gos- taríamos de referenciar um importante sociólogo que nos chama a atenção

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para o fato de que a sociologia clássica nos oferece o repertório crítico para compreender os processos educacionais contemporâneos, e este autor se chama Bernard Lahire. A perspectiva clássica que é adotada pelo autor é a mesma que Pierre Bourdieu sendo este antecessor de Lahire na crítica da educação como reprodução social. Eles envolvem as formulações não ape- nas de classe em Marx, mas de status ou de habitus; em Weber e Bourdieu, assim como as noções de parentesco que são proposições do conhecimento da sociologia francesa.Propõe assim Lahire a determinação não apenas de classe no investimento escolar mais ou menos duradouro, mas a influência da origem e da família dos sujeitos da educação. As tecnologias e as redes de pertencimento neste sentido são capazes de determinar as disposições no processo educacional.

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Referências

DURKHEIM, Émile. Pragmatismo e Sociologia. Florianópolis/Tubarão: UFSC e Unisul,

2004.

O Suicídio: estudo de sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

FREDERICO, Celso. A Sociologia da Cultura. São Paulo: Cortez, 2006.

Sociologia do direito

O Jovem Marx 1843-1844: as origens da ontologia do ser social. São Paulo: Ex- pressão Popular, 2009.

KAUTSKY, Karl. As três fontes do marxismo. 5 ed. São Paulo: Centauro, 2002.

NOGUEIRA, Cláudio Marques Martins. A abordagem de Bernard Lahire e suas

con-

tribuições para a sociologia da educação.36ª Reunião Nacional da ANPEd – 29 de setembro a 02 de outubro de 2013, Goiânia-GO2

LAKATOS, E.M. & MARCONI, M.A. Sociologia Geral. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2009.

LOPES, Paula Cristina Lopes.Educação, Sociologia da Educação e Teorias Sociológicas Clássicas:Marx, Durkheim e Weber. Acessado em 16 de setembro de 2014, em <www. bocc.ubi.pt>

MARTINS, C. B. O que é sociologia. Primeiros Passos. São Paulo: Brasiliense, 2004

MARX, Karl. Manuscritos: economia e filosofia. Madrid: Altaya, S.A, 1993.

OLIVEIRA, Roberto Cardoso. O trabalho do antropólogo”. 3. Ed. Brasília: Paralelo 15, São Paulo: Editora Unesp, 2006.

WEBER, Max. Avaliações Práticas no Ensino Acadêmico. In Metodologia das Ciências So- ciais. Parte 2. São Paulo: Cortez, Campinas: Ed.Unicamp, 2001.

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PARTE I:

ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL E IGUALDADE JURÍDICA

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I

DAS DESIGUALDADES SOCIAIS NO ESTUDO DE ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

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Teorias Sociais Clássicas em torno do Trabalho

Das contribuições de Durkheim, o primeiro sistematizador das ciências so- ciais, as diferenciações estruturais da sociedade são resultados da divisão do trabalho - característica fundamental para a compreensão da sociedade mo- derna. Com o desenvolvimento da especialização da produção, os indivíduos ou grupos se tornam interdependentes em relações sistemáticas de troca uns com os outros. Em outras palavras, cada vez mais as pessoas se especializam conforme suas aptidões e capacidades e, agindo solidariamente, a partir da partilha de crenças e valores, conseguem manter uma coesão social. Nas pa- lavras de Giddens (1981:17) “a solidariedade orgânica não pressupõe a simila- ridade dos indivíduos, mas o crescimento das diferenças entre eles”. O raciocínio acima se refere às sociedades complexas, de solidariedade orgânica. Estas possuem o que Durkheim chamou de “desigualdades inter-

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nas” aos indivíduos, ou seja, aquelas que os diferenciam através da capaci- dade e talento de cada um. Essa idéia é feita em contraposição às de “desi- gualdades externas” aos indivíduos, próprias das sociedades primitivas, de solidariedade mecânica, onde a distribuição de recompensas material e in- dividual deriva de circunstâncias sociais do nascimento do indivíduo. Para o professor francês, o desajuste entre a lei e o comportamento mo- ral (anomia) são circunstâncias de transição, que reorganiza o sistema legal, ajustando-se com as formas morais recém-desenvolvidas. A moral durkhe- miana vai se tornando mais densa e dinâmica à medida que se intensificam as diferenciações sociais, necessitando ser efetivada no sistema legal que garante às partes uma confiabilidade mútua. Essas diferenciações sociais ou especializações profissionais funcionam como as partes de um sistema bio- lógico dentro da unidade do corpo orgânico-social. A partir do exposto, uma discussão em Durkheim sobre igualdade pare- ceria estar resolvida, uma vez que garantida pelas implicações que a transi- ção necessária de uma solidariedade mecânica (das sociedades primitivas) para uma solidariedade orgânica (das sociedades complexas) traria. Isto é, a constituição de uma moral ou sistema legal, que se refere igualmente a todos, ainda que diferenciados, por si só garantiria o acesso igual de opor- tunidades numa sociedade cada vez mais madura e justa (perfeita).

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Trazendo um diagnóstico acurado das condições históricas em que se pro- duzem as desigualdades, foram os estudos de Marx sobre o modo de produ- ção capitalista na sociedade moderna, que marcaram o início e desenvolvi- mento das teorias de estratificação social. Para Marx é o trabalho, entendido estritamente como a relação do homem com a natureza e com os outros ho- mens, que funda a sociedade. Através dessa fundamentação antropológica, este autor criou um modelo de transformação social onde as sociedades se desenvolveriam através de duas classes essenciais, a dos proprietários e não proprietários da terra, no feudalismo, e posteriormente no capitalismo dos proprietários (burguesia) e não-proprietários (proletariado) do capital. Entretanto, o materialismo-dialético presente na teoria do autor alemão permitiu-lhe perceber a existência de “classes de transição” nos processos de transformação histórica, ou seja, aquelas classes que ainda não comple- taram as mudanças que o modelo capitalista engendrou ou ainda não de- sapareceram completamente. Para Marx o domínio dos meios de produção pela burguesia implicaria também no seu domínio ideológico sobre o prole- tariado, veículo que permitiria àquela manter as diferenças estruturais entre ambas. Mas o antagonismo inerente a esta relação estrutural terminaria por fazer com que o capitalismo, como todas as demais formas de produção, se extinguisse, dando lugar a uma sociedade que aboliria a dominação de uns pelos outros, ou seja, aboliria a própria estrutura de classes.

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Não obstante a não concretização do seu modelo de transformação do capitalismo para o socialismo-comunismo, em Marx a visão de que as de-

sigualdades e os conflitos suscitados pelo capitalismo são estruturais, pró- prios ou inerentes a ele, assim como a criação do conceito de classes sociais (depois ampliadas por marxistas e weberianos), representaram a alavanca para a teoria da estratificação social. Convém assinalar que esta concepção

é diversa da durkhemiana, onde essas desigualdades constituem uma pato-

logia social a ser curada, portanto transitórias. Apesar do método marxiano apontar a necessidade de situar historica- mente todas as transformações estudadas numa sociedade, o marxismo en- quanto escola cuidou de substancializar os conceitos do seu modelo original que, por sua vez, terminaram por tornar suas análises estanques. Corrobo- rou também para a crítica crescente que se fez a essa teoria o determinismo econômico que apresentava limitação sentida principalmente à medida que

a sociedade moderna capitalista vai se complexificando e se diferenciando. Neste ponto se apresentam relevantes as contribuições de Max Weber para os estudos de estratificação social. Ao fazer sua crítica ao determinismo econômico, Weber ultrapassou a compreensão da instância de classes econô- micas como diferenciador fundamental e exclusivo na sociedade capitalista.

Para Weber existem várias formas possíveis e concorrentes de estratifi- cação ou distribuição de poder dentro da sociedade, não necessariamente

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atrelados à dominação econômica – as classes e o status. “As classes sociais, no sentido de Weber, é formada por um aglomerado de situações de clas- se ligadas pelo fato de que envolvem chances comuns de mobilidade tanto dentro da carreira dos indivíduos quanto através das gerações” (GIDDENS, 1981:53-4). A identificação de “uma situação de classe” com “posição no mercado” torna possível distinguir uma multiplicidade ou pluralidade daque- la, já que existem inúmeros interesses de mercado tanto dentro das “classes proprietárias”, quanto nas “classes de aquisição”. Dessa forma, o sistema de classes e de status constituem formas potencialmente independentes de es- tratificação. Segundo Giddens (1981), enquanto as classes se expressariam nas relações de produção, os grupos de status se expressariam por relações de consumo, determinantes dos estilos de vida, que faz com que os indi- víduos interajam como iguais em termos de status. Portanto, na estrutura social daquelas sociedades onde o comércio e a manufatura estão bem de- senvolvidos serão mais relevantes os grupos de status que as classes.

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Eram as ´situações de mercado´ e as ´oportunidades de vida´ as responsá- veis pela estratificação social, que com isso se tornava plural: dependendo do produto que o indivíduo pudesse levar ao mercado – produtos para con- sumo, terra, força de trabalho, habilidades profissionais específicas -, sua si- tuação no desenho da estratificação se alterava. Além disso, outras formas de estratificação social devem ser contempladas, em particular aquelas ca-

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racterizadas pelos estamentos, cujo principal elemento definidor são os di- ferentes ´estilos de vida´e a ´honra´devida aos ocupantes de determinadas posições. (DOMINGUES, 1999, p. 53)

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Principalmente a partir do pós-guerra, a teoria social sofreu transforma- ções que implicaram numa visão do social, não mais substancial ou ontológica, mas fundada na linguagem e, portanto, relacional. Nesta perspectiva, as idéias de Bourdieu (1997) possuem uma contribuição significativa para os estudos de Estratificação Social. A partir da síntese entre Marx e Weber, Bourdieu criou novas categorias que ampliaram a compreensão acerca das desigualdades so- ciais. Segundo ele, a construção da individualidade moderna se realiza a partir de processos de distinção que leva em conta os diversos recursos – o “capital” cultural, econômico e social. Estes recursos irão dizer que relações dispõem os sujeitos, ou a que grupo pertencem, ou seja, como se inserem no espaço social ou nos diversos tipos de estratificação conhecidos. O espaço social é então o espaço “objetivo” dos grupos, que somente se distinguem através de um espaço simbólico. Esse espaço simbólico se cons- trói sobre disposições dos indivíduos ou grupos, suas práticas e bens que possuem, os produtos culturais/econômicos com que convivem. Assim, o tipo de música (mais ou menos sofisticada) que se ouve, sua postura corpo- ral, regime alimentar, além da educação formal e o aprendizado de padrões

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culturais contam muito para a diferenciação das pessoas e sua classificação em grupos. As teias simbólicas (culturais) que estruturam a vida social foram articu- ladas numa ampla concepção de classes sociais. Em outras palavras, é a dis- tinção cultural entre as classes sociais que desempenha papel fundamental em sua análise. Assim como as críticas weberianas e neoweberianas, também o próprio marxismo, às voltas com as crescentes transformações do capitalismo, pas- sou a reformular suas concepções tradicionais, principalmente aquelas que afirmavam a centralidade da categoria trabalho para a compreensão das sociedades. Este descentramento, que a seguir apontaremos, foi decisivo, como um divisor de águas, para a teoria social contemporânea.

Mudanças na Esfera do Trabalho e o Declínio da sua Centralidade

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Nas tradições clássicas acima expostas o trabalho constituiu o fato social principal, ora dotado de um status ético (Weber), ora de um status auto- ritário (Marx), ou ainda responsável pela solidariedade e integração social (Durkheim) na dinâmica das estruturas da sociedade industrial.

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O modelo de sociedade burguesa consumista preocupada com o trabalho, movida por sua racionalidade e abalada pelos conflitos trabalhistas, apesar de suas abordagens metodológicas e construções teóricas diferentes, é o foco da produção teórica de Marx, Weber e Durkheim. (OFFE, 1995:168).

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Não obstante o trabalho tenha sido categoria central nestes estudos, Claus Offe aponta para diferenciações dentro do seu conceito, que modifi- cam o tipo de racionalidade que o organizava. Por exemplo, o trabalho de serviços. Para o autor, este tipo de trabalho criou uma “nova classe” de pes- soas com capacidade de interação, consciência da responsabilidade, empa- tia e experiência prática adquirida, que processam e mantém o próprio tra- balho, desafiando e questionando a sociedade do trabalho e seus critérios de racionalidade (realização, produtividade, crescimento) em nome dos cri- térios de valor substantivos, qualitativos e mais humanos. Ou seja, em lugar dos critérios de racionalidade estratégico-econômicos incertos, encontra-se estimativas baseadas no costume, no discernimento político ou no consenso profissional. Contemporaneamente também se observa um declínio na ética do traba- lho. Os estudos que constatam mudanças na estrutura do tempo e da renda (para menos) no trabalho mostram, em contrapartida, que aumentaram os espaços para experiências paralelas, orientações e outras necessidades que

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sirvam à interpretação do contexto da vida. “A descontinuidade na biogra- fia do trabalho e o declínio da parte do tempo de trabalho na vida de uma pessoa podem reforçar a concepção do trabalho como um interesse “entre outros” e relativizar sua função como pedra de toque da identidade pes- soal e social.” (OFFE, 1995, p. 186). Outro grande desestruturador, segundo Offe, da importância do trabalho foi a segurança promovida pela política de bem estar social. Uma vez que o Estado garantia a sobrevivência, ainda que temporária, de um trabalhador recém-desempregado, as motivações que o levariam a reivindicar sua reinserção coletivamente se tornam cada vez me- nos determinantes. Além disso, nos lugares onde o desemprego estrutural é concentrado, desenvolve-se uma “economia informal” ou “economia parale- la”, que tornam seus membros pelo menos hostis aos valores e regras legais da “sociedade do trabalho”. Estes indícios que o autor resumidamente expõe, passando pelas des- cobertas e reflexões científico-sociais, mostram que o trabalho perdeu sua condição de posição chave para a teorização sociológica contemporânea. Resta então perguntar como Offe (1995, p. 194): “quais os conceitos so- ciológicos de estrutura e de conflito apropriados para descrever uma so- ciedade que, no sentido aqui abordado, deixou de ser uma ‘sociedade do trabalho’?”

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Novas Dimensões Diferenciadoras e a Teoria Social Contemporânea

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Com Durkheim, vimos que a solidariedade é a característica que permite a existência da Modernidade, uma vez que nela a coesão social só se tornou possível através da cooperação de diversos planos individuais de ação que a divisão do trabalho engendra. A partir das contribuições de Marx, Weber e mais contemporaneamente com Bourdieu, apontou-se para um quadro ge- ral da estratificação social um “modelo pluralista”, onde o sistema de classes vem se representando de maneira multidimensional para dar conta de uma sociedade que se complexifica. Não obstante, constatamos na argumentação de Offe, o esgotamento da instância de classes como diferenciador fundamental, já que a categoria trabalho que a fundamenta perdeu sua centralidade, como demonstra inclu- sive a produção sociológica contemporânea. Para Habermas, isso acontece porque o trabalho se pautou neste período histórico em um agir estratégico de razão instrumental, que necessariamente se constitui em uma distorção transitória do agir comunicativo. O agir estratégico funcionaria, segundo ele, por intermédio de um engodo discursivamente sustentado por um agente, que indica ilusoriamente um fim como objetivo de sua ação, mas desejando subjetivamente um fim diverso. Aqui a interação social se produz com a in- fluência que um sujeito exerce sobre o outro. No entanto, uma vez desven-

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dado o engodo ou as razões veladas no discurso do agente por um terceiro, esse agir estratégico e instrumental fracassaria. Estas questões nortearam o pensamento marxista, e ficou demonstra- do que as construções utópicas em torno do trabalho no capitalismo mo- derno não são mais satisfatórias no sentido de produzir uma integração. A integração que se pretende agora deverá pressupor novos mecanismos de diferenciação e conflito na sociedade contemporânea. Neste sentido, as contribuições de Habermas são, pois, significativas, ao estudar o mundo da vida, e seus mecanismos de agir comunicativo, que pautarão a solidariedade contemporânea.

“uma proposta teórica elaborada, fundamentada na história da teoria socio- lógica, caracterizado pelo abandono os paradigmas teóricos clássicos, Ha- bermas retrata a estrutura e dinâmica das sociedades modernas não como um antagonismo enraizado na esfera da produção, mas como um choque entre os ´subsistemas de ação racional intencional´, mediado, de um lado, pelo dinheiro e pelo poder e, por outro, por um ´mundo vivido´, que ´obs- tinadamente´ resiste a estes sistemas”. (OFFE, 1995, p. 195)

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Em contrapartida do “modo de produção”, no “modo de vida” se de- senrolam diferenciações em torno de questões identitárias, que engendra- ram as desigualdades sociais. Estas questões vêm mobilizando indivíduos

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através de objetivos coletivos, pautados sobre uma razão e agir comuni- cativos. O agir comunicativo, por sua vez, não deverá buscar influenciar o outro, mas a um entendimento ou consenso, alcançado através do discur- so. Nesta linha de raciocínio, pode-se inferir que as forças diferenciadoras de sexo e de raça 1 , constitutivas de dimensões identitárias, provenientes das diferenciações de origem étnica ou nacionalidade, uma vez articulada, constroem seus argumentos e reivindicações, com pretensões de validade, para o intercâmbio público. Tal situação pressupõe duas características do agir comunicativo:

a) os atores participantes comportam-se cooperativamente e tentam co- locar seus planos (no horizonte de um mundo da vida compartilhado) em sintonia uns com os outros na base de interpretações comuns de situação;

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1 Tornou-se consenso na sociologia que a idéia raça é, sobretudo uma construção social, situada no plano da cultura e do imaginário, uma vez que seus fundamentos biológicos não tiveram comprovação científica a partir dos estudos de genética. Sobre a questão de gênero: “Em todas as sociedades humanas, homens e mulheres têm sido tratados de forma diferente (em geral sem equidade), e muitos cientistas sociais do século XIX apontaram que a divisão eco- nômica do trabalho começou com a divisão de tarefas entre os sexos, fontes de muitas diferenças sociais e culturais posteriores, incluindo o domínio masculino na vida política. Nas novas sociedades industriais do século XIX, ainda eram negados às mulheres muitos direitos políticos básicos; embora estes direitos fossem sendo lentamente adquiri- dos em sociedades mais modernas, persistem formas variadas de dominação injusta”. (BOTTOMORE & OUTHWAITE, 1996, p. 208). Sobre a questão de raça: “A diferenciação por raça ou origem étnica é também uma característica im- portante nas sociedades modernas, e distinções semelhantes ocorrem em muitas sociedades pós-coloniais e multitri- bais do Terceiro Mundo. Nos países industriais, porém, em parte como legado do colonialismo, mais particularmente no período do pós guerra, como conseqüência da imigração em grande escala, essa diferenciação está freqüente- mente associada a uma substancial desigualdade econômica e social e a manifestações de RACISMO”. (BOTTOMORE & OUTHWAIT, 1996, p. 208).

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b) os atores envolvidos estão dispostos a atingir os objetivos mediatos da definição comum da situação e da coordenação da ação assumindo os pa- péis de falantes e ouvintes em processos de entendimento, portanto, pelo caminho da busca sincera. (HABERMAS apud GALUPPO, 2002, p. 131).

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Para Habermas, nesta estrutura social há uma nova solidariedade res- ponsável pela sua coesão, alcançada através da linguagem que comunicam nossas pretensões. Por sua vez, estas pretensões (de verdade, de veracidade, de correção normativa) se ligam a respectivamente três mundos em que vi- vemos contemporaneamente: mundo objetivo, dos seres naturais ou cien- tífico; mundo intersubjetivo, dos seres racionais ou da moral e do direito, e mundo subjetivo, individual ou da arte e expressão de sentimentos. Assim, no “mundo vivido”, os indivíduos se articulam para a afirmação de suas identidades coletivas. A mobilização desses grupos acontece no Estado Democrático de Direito através de lutas por reconhecimento (HABERMAS, 1996). Dessa forma, as lutas por reconhecimento se dão através de fenôme- nos aparentados entre si – feminismo, multiculturalismo, nacionalismo e a luta contra a herança eurocêntrica do colonialismo.

Seu parentesco consiste em que as mulheres, as minorias étnicas e cultu- rais, as nações e culturas, todas se defendem da opressão, marginalização e desprezo, lutando assim pelo reconhecimento de identidades coletivas,

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seja no contexto de uma cultura majoritária, seja em meio à comunidade dos povos. São todos eles movimentos de emancipação cujos objetivos políticos se definem culturalmente, em primeira linha, ainda que as depen- dências políticas e desigualdades sociais e econômicas também estejam sempre em jogo. (HABERMAS, 1996, p. 238)

Não obstante, estes fenômenos não devem ser confundidos, podendo ser elucidados através de planos analíticos. As lutas políticas por reconheci- mento travadas pelo feminismo (embora as mulheres não constituam uma minoria em seu conjunto) se voltam contra uma cultura dominante que in- terpreta a relação dos gêneros de uma maneira assimétrica e desfavorável à igualdade de direitos.

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A diferenciação de situações de vida e experiências peculiares ao gênero não recebe consideração adequada, nem jurídica, nem informalmente; tan- to a autocompreensão cultural das mulheres quanto a contribuição que eles deram à cultura comum estão igualmente distantes de contar com o devido reconhecimento e com as definições vigentes, as carências femininas mal podem ser articuladas de forma satisfatória. (HABERMAS, 1996, p. 238)

Para Habermas, esta luta ainda não cessou, e à medida que logra êxito, vai também modificando a identidade das mulheres, assim como na relação

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entre os gêneros e com os homens. Toda a escala de valores da sociedade vai sendo problematizada, desde a esfera privada, até a pública, bem como os limites entre ambas. Outro fenômeno diverso são as lutas emancipatórias de minorias étni- cas e culturais pelo reconhecimento de sua identidade coletiva em face de uma cultura dominante. Esses movimentos podem ser provocados tanto por minorias endógenas, quanto por aquelas surgidas a partir da imigração. O plano de referências em que estes fenômenos podem ser vistos, segundo Habermas, está embasado no direito e na política. O problema das lutas por reconhecimento de grupos culturalmente definidos é também um problema jurídico, uma vez que eles reivindicam a “igualdade jurídica” para a manu- tenção e desenvolvimento de suas distintas identidades no Estado Demo- crático de Direito.

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II

SOBRE A IGUALDADE:

O DISCURSO DOS MOÇOS DA FACULDADE DE DIREITO

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Considerações Metodológicas

No tempo em que se amplia a democracia, e que a igualdade se faz presente em tantos discursos reivindicatórios, faz-se no mínimo curioso buscar perceber qual o discurso jurídico atual acerca da igualdade. Uma vez que o legislador, atento às demandas sociais, já tenha encaminhado medidas de discriminação positiva, são juristas que decidem acerca da sua adequação ou constitucionalidade, bem como da interpretação que garan- tirá ou não a sua eficácia restauradora. Neste sentido, quisemos consultar os alunos da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Paraíba, no intuito de perceber que noção da igualdade lhes foi transmitida através do ensino do direito. A pesquisa de opinião foi realizada entre os estudantes da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Paraíba, que possui 15 turmas de 40

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alunos em sistema anual, totalizando um número de 600 alunos. Buscando delimitar mais o universo desse estudo, foram consultados os alunos das turmas do quinto ou último ano acerca da temática escolhida, o que equi- valeria ao número de 120 alunos que hipoteticamente teriam sua forma- ção jurídica mais completa dentro da faculdade. O espaço amostral ficou definido então em 18 alunos, o que corresponde a 15% do total de alunos do quinto ano. Escolheu-se a entrevista para o levantamento dos dados, porque poderia ser analisada tanto quantitativamente, com uma posterior tabulação; como também qualitativamente, em atenção aos aspectos mais subjetivos das fa- las dos entrevistados. Na elaboração do roteiro de entrevistas, prezou-se pela simplicidade e praticidade de questões, e que estas girassem em tor- no do valor igualdade, categoria central desse estudo. Assim, organizou-se a entrevista em três partes. A primeira parte se destinou à identificação do aluno dentro da faculdade (turno), seu sexo (masculino ou feminino) e con- dição social (se proveniente do ensino médio público ou privado), e ainda de como ele se percebia diante de um critério de cor (branco, preto, pardo, amarelo ou outros). A segunda parte da entrevista se constitui de três perguntas abertas e se destinou a perceber do estudante da faculdade, se a igualdade é valor fun- damental dentro do Estado Democrático; se a igualdade foi tema ministrado

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nas disciplinas do curso, e ainda qual o conceito ou definição de igualdade que ele daria. A terceira parte foi elaborada no sentido de perceber a opinião e po- sicionamento dos alunos diante de políticas de igualdade que buscassem resolver ou compensar as diversas desigualdades – econômicas (assistên- cia judiciária gratuita, distribuição gratuita de medicamentos, isenção de imposto par baixa renda), sociais (reserva de vagas no estacionamento para deficientes físicos, permanência nas escolas normais para portadores de necessidades especiais, fila preferencial para idosos/gestantes/pessoas com crianças, meia-entrada para estudantes em cinemas e espetáculos), étnica (reservas de vagas na universidade para negros e índios) e de gêne- ro (cotas de representação para mulheres em partidos políticos); guardan- do, pois, a igualdade enquanto valor. Certamente que estas desigualdades – econômica, étnica e de gênero - são também desigualdades sociais; no entanto, para fins de organização do roteiro, elas ficaram caracterizadas distintamente. Ainda nesta última parte, as opiniões e posicionamentos dos estudantes em face dessas políticas de igualdade se pautaram segundo quatro graus entre acordo/desacordo, criados e dispostos no roteiro. Desses, dois são de acordo, pleno e com reservas, sendo os outros dois para desacordo, defi- nitivo e com aceitação (ver roteiro de entrevista em anexo). Ao final, foram

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destinados espaços para observações e sugestões acerca das práticas cor- riqueiras e políticas de igualdade, ampliando assim as discussões em torno das mesmas. Dando prosseguimento à pesquisa, foram feitas visitas à faculdade, situ- ada no Centro da cidade, nos seus três turnos, no intuito de aplicar as entre- vistas, sempre com o cuidado de explicar que se tratava de um trabalho de conclusão de curso, orientado pelo professor Eduardo Rabenhorst, docente da própria faculdade. Com esta explicação inicial, as entrevistas foram em geral bem recebidas, não obstante a dificuldade de encontrar as turmas as- sistindo aula na faculdade. Isso porque os alunos já se dispersavam, ao pas- so que se aproximava do recesso escolar na segunda metade de outubro, justamente o mês escolhido para o trabalho de campo. Esse imprevisto, to- davia, não se constituiu em empecilho, antes em maior disponibilidade dos alunos entrevistados. A faculdade se encontrava ainda na primeira metade do ano letivo de 2003 (2003.1), porque aderiu, juntamente com o campus e demais universi- dades federais, à greve contra a Reforma da Previdência protagonizada pelo governo Lula. Assim, a turma concluinte estava redefinindo seu calendário de conclusão do curso de Direito.

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Resultados

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Tendo escolhido pessoas aleatoriamente, verificou-se entre os entrevis- tados que 75% eram homens, sendo os outros 25% mulheres. Inferiu-se pois que o universo dessa pesquisa é predominantemente masculino. Buscando avaliar a condição social dos entrevistados, perguntou-se em que tipo de escola fizeram ensino médio, se público ou privado. Nesse caso, o resultado obtido foi que 87,5% dos estudantes são provenientes do ensino médio privado, sendo o restante 12,5% proveniente do ensino médio pú- blico. Entre os que marcaram ensino médio público, todos os alunos entre- vistados discriminaram que fizeram curso técnico na Escola Técnica Federal da Paraíba, não obstante isso não fosse pedido no roteiro. Desse resultado, concluiu-se que a faculdade, cuja concorrência para ingresso de alunos é das mais altas, comporta uma fatia específica de alunos que pagam/investem na sua formação média. Se não pagam, ingressam na faculdade pelo fato de terem estudado em escola pública de excelência, de acesso também restrito, como fizeram questão de assinalar. Quando perguntados acerca da forma pela qual se percebiam diante de um critério de cor, 50% se viram como pardos, 37,5% se consideravam brancos, restando 6.25% que marcaram outros, e 6.25% que se abstiveram de responder. Entre os que ficaram em menor percentual, alguns demons-

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traram certa resistência diante da pergunta ou uma menor facilidade em respondê-la se comparada às demais, tendo um deles ficado visivelmente

incomodado, outro tendo demonstrado indiferença, e outro que teve dúvida

e não marcou. Da amostra, ninguém se identificou como preto ou amarelo. Quando perguntados se a igualdade constitui um valor fundamental para o Estado Democrático, 100% dos entrevistados responderam que sim. Al- guns ofereceram justificativas, embora não tivessem sido perguntados. As

justificativas se pautaram pela equivalência entre os conceitos de igualdade

e de democracia (“sem igualdade, não há democracia”). Outras constataram

a necessidade da igualdade como princípio já que socialmente não teríamos

igualdade plena, que “as desigualdades são responsáveis pelas mazelas so- ciais”, “que o convívio em sociedade traz implícito o valor igualdade”. E ain-

da: “a igualdade é fundamental, desde que haja previsão e amparo legal”. Se alguma disciplina enfatizou o tema da igualdade, 100% dos entrevis- tados responderam que sim. A ampla maioria citou Direito Constitucional, Direitos Humanos, Ciência Política, Introdução ao Direito e Direito do Consu- midor. Houve ainda quem dissesse todos os ramos, vendo na própria criação de ramos do direito uma necessidade de estabelecer a igualdade – o direito do trabalho, o direito civil, o direito processual. Um deles citou um módulo da igualdade trabalhado em projeto de extensão. Tendo sido (projeto de ex- tensão) a menos comum das respostas, perguntou-se ao entrevistado qual

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a contribuição dessa atividade para sua formação, tendo o mesmo dito ser uma experiência culturalmente interessante, além do contato que estabele- ceu com estudantes de outras áreas “mais politizados”, mas que não via uma grande contribuição para o conhecimento jurídico, já que o trato (teórico) com os temas se dava de maneira superficial. Perguntados sobre uma definição da igualdade, 62% dos entrevistados responderam a definição clássica, cuja autoria é, segundo eles, de Rui Barbo- sa: “tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na proporção de suas desigualdades”. Outros 23% responderam variações desse conceito:

“tratar da mesma forma os que estão no mesmo patamar e procurar igualar os que se encontram em disparidade”; 7.5% responderam citando o texto constitucional: “é ser tratado igualmente, independente de cor, raça, credo, religião”; 7.5% definiram “é o respeito pelas diferenças e oferecer condições para o exercício da cidadania”. Foram recolhidas também definições pouco precisas ou vagas, que não constam nos números acima: “a igualdade é for- ma de buscar a justiça social”; “é formal e substancial”; “é isonomia relativa”. Na terceira parte do roteiro de entrevistas, buscou-se organizar os resul- tados a partir da ideia de tendências – positiva ou de mais acordos, dividida entre acordo e desacordo e negativa ou de maior desacordo. Sobre a opinião ou posicionamento dos estudantes acerca daquelas políticas de igualdade, na maioria dos itens dispostos no roteiro, registrou-se uma tendência posi-

Sociologia do direito

tiva. No entanto, registrou-se tendência dividida entre acordo/desacordo na turma da manhã, e negativa ou de maior desacordo na turma da noite para

o item reserva de vagas na universidade para negros, índios e estudantes de escola pública (ver anexo quadro 1). Os entrevistados tiveram ainda tendência dividida no turno da noite para

o item cotas para mulheres em partidos políticos. Somente uma mulher foi

entrevistada, tendo manifestado seu desacordo; um homem que manifestou desconhecimento acerca do item; outros acharam irrelevante a destinação dessas cotas, uma vez que as mulheres já estão emancipadas, contado inclu- sive com a segurança do texto constitucional, bem como amparo do Novo Código Civil.

Como na maioria dos itens se obteve uma tendência predominantemente positiva, fez-se novo recorte, onde foram eliminados os desacordos, ressaltan- do os acordos pleno e com reservas (quadro 2). Neste novo quadro, foram en- contrados três itens com tendências negativas ou de mais acordos com reser- vas, que acordos plenos: reserva de vagas na universidade para negros, índios

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e

escola pública; escolas normais para portadores de necessidades especiais

e

cotas para mulheres em partidos políticos. Todos os outros mantiveram sua

tendência positiva. Daqui se pode inferir que o valor igualdade se justifica ou

se define pelo reconhecimento das desigualdades econômicas (justiça gra- tuita, medicamentos gratuitos, isenção de impostos). Todavia, os estudantes

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da Faculdade de Direito resistem em estender esse conceito de igualdade, to- mando por referência as desigualdades étnica (reserva de vagas para negros

e índios) e de gênero (cotas para mulheres em partidos políticos). Quanto ao item vagas na universidade para negros, índios e escola pú- blica nenhum acordo pleno foi anotado, contando 100% de acordos com

reserva. As discussões ou reservas aqui giram em torno do ensino público

e a necessidade de sua melhoria, onde todos competiriam com igualdade.

Assim, reservar vagas na universidade se constitui em “paliativo”, que “ni- velaria por baixo”, já que o problema central seria melhorar o ensino públi- co. Percebe-se aqui que as justificativas convergem para o reconhecimento da má qualidade do ensino público, donde se infere que destinar vagas na universidade para estes estudantes provenientes das escolas públicas seria aceitável ou tolerado.

Não obstante, para esses alunos, como a lei (a Constituição Federal, que define o crime de racismo como imprescritível e inafiançável) protege “até severamente” os negros no Brasil, não há nada mais que os desiguale (como havia no passado legislação discriminatória), além da capacidade individual de cada um em conquistar, através dos próprios esforços, sua vaga na uni- versidade. A questão do índio aparece como verdadeiro enigma (quem são e onde estão?), não havendo nenhuma discussão, mas silêncios, uma vez que todos os pontos da entrevista eram abertos a considerações.

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Quanto às reservas acerca da permanência nas escolas “normais” de por- tadores de necessidades especiais, 57% das respostas se uniformizaram em recomendações temerosas, de uma gradação que vai da inserção com res- salvas, até a necessidade de completa separação dos mesmos: “se a neces- sidade especial for compatível (com a escola)”; “poderia complicar a pe- dagogia”; “eles precisam de atenção especial, senão prejudicaria ambos”. Aqui interessa comparar a tendência positiva (94% de acordos plenos) por estrutura física pública urbana (vagas no estacionamento) que aceitem ou comportem os deficientes físicos. Não obstante, verificou-se um tendência negativa (57% de acordos com reservas) para que as escolas adequassem sua estrutura material e pedagógica no sentido de receber portadores de necessidades especiais. Quanto às cotas para mulheres em partidos políticos, 64% dos entrevistados se cercaram de reservas diante de tal prática. Alguns se justificaram dizendo da política partidária “uma questão de vocação”, que a igualdade entre homens e mulheres já estaria garantida constitucionalmente, e que a discriminação con- tra a mulher “já está resolvida na minha cabeça”. No caso das mulheres, as- sim como no caso dos portadores de necessidades especiais, senão ignorância, identificou-se uma ambiguidade no conceito legalista de igualdade oferecido pelos mesmos, já que se tratam de práticas amparadas e previstas por lei, não obstante tenham obtido uma tendência negativa na opinião dos estudantes.

Sociologia do direito

No espaço destinado às sugestões de outras práticas já implementadas, observou-se um grande número de abstenções e de pessoas satisfeitas com aquelas já dispostas no roteiro, outras que acrescentaram: “a formação de um novo paradigma cultural”, “reformas de base na economia e educação”, “política específica de saúde para pessoas que precisam de transplante”, “melhorar a estrutura e aumentar postos de trabalho para deficientes”, “não autoritarismo no trato dos professores com os alunos”.

Discussão

A “Oração aos Moços” é um discurso de Rui Barbosa proferido em 1920 aos bacharelandos da Faculdade de Direito de São Paulo. Este discurso traz entre outras recomendações aos jovens, a recomendação da igualdade:

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A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social,

proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da

Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igual-

dade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real. Os apetites huma- nos conceberam inverter a norma universal da criação, pretendendo, não dar a cada um, na razão do que vale, mas atribuir o mesmo a todos, como

Mas, se a sociedade não pode igualar os que

se todos se equivalessem. (

igualdade. (

)

)

Sociologia do direito

a natureza criou desiguais, cada um, nos limites da sua energia moral, pode reagir sobre as desigualdades nativas, pela educação, atividade e perseve- rança. Tal a missão do trabalho. (RUI BARBOSA, 2003, p. 39)

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Esta noção de igualdade em Rui Barbosa constata a existência das desi- gualdades sociais e naturais, no entanto numa relação de equivalência. As desigualdades sociais existem, porque naturalmente as pessoas são desi- guais. Assim, esta situação somente poderá ser amenizada na ideia liberal, através do esforço pessoal no estudo e no trabalho. Esta é também a noção de igualdade predominante nas nossas entrevistas com os “moços” bacha- relandos da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Paraíba. A igualdade em Rui Barbosa citada pelos estudantes de direito nos repor- tou ao conceito complexo que viemos tratando até aqui, de proporcionalida- de aristotélica, ou da igualdade geométrica. Não obstante, queremos ressaltar que este conceito se refere a um contexto histórico específico, e que chamado contemporaneamente adquire nova conotação, que buscaremos significar. Então, a pergunta que ainda fazemos é quem são iguais e quem são os desiguais, em cada contexto específico? Poderíamos perguntar qual a re- lação entre Atenas, na Grécia Antiga de que cuida Aristóteles, e João Pes- soa, na Paraíba contemporânea dos jovens alunos? Certamente em termos de organização social e jurídica são poucas, embora haja quem reúna mais semelhanças, e queira estudar o novo direito civil através dos institutos do

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direito romano. Nada contra esta fecunda e resistente atividade intelectual ou didática de ensino difundida entre professores, se isto não importar em desmerecer nos estudos jurídicos a compreensão acerca da dinâmica das transformações sociais. Queremos dizer que a noção de igualdade geométrica assume conteúdo diferente contemporaneamente, uma vez que os desiguais são classicamen- te os trabalhadores, ou os consumidores que recebem tratamento desigual; mas também grupos de formas de vida culturais – os negros ou índios, e descendentes. Não somente eles, no estado atual da democracia, outros grupos identitários vêm travando lutas por reconhecimento e, entre os que alcançaram maiores conquistas historicamente em termos de legislação são as mulheres e homossexuais. Também os portadores de deficiência trazem as suas demandas por participação e inclusão. Assim, a ideia de lei abstra- ta e pessoal, que somente discrimina negativamente, está sendo revista ou passando a discriminar positivamente, segundo critérios ou argumentos ra- cionais que a sociedade organizada reclama. Neste caso, se a Teoria do Direito não for capaz de compreender estas demandas coletivas, e conciliá-las com sua orientação tão individualista, de que a pessoa portadora de direitos fundamentais é o indivíduo, colocará em risco a concepção democrática do direito ou a ideia de Estado Democrático de Direito (HABERMAS, 1996).

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Na “sociedade meritocrática” (SILVA JR, 2002), os bens são distribuídos desigualmente aos desiguais, ou seja, a vaga na universidade pública para um dos cursos mais concorridos está destinada a poucos selecionados pro- venientes do ensino privado. A seleção ou vestibular pela qual os estudantes se submeteram foi legítima, porque eles se mostraram capazes durante a realização dos exames. De maneira que os estudantes de escola pública se mostraram incapazes. Além de mais pobres, contam com um ensino de qua- lidade ruim, que os desnivela na competição por uma vaga na universidade. Eles são desiguais. A estes seria razoável destinar cotas, ou preferencialmen- te deveria ser destinado investimento para a melhoria do ensino público. A questão econômica é um critério aceitável para tratar desigualmente os de- siguais – ricos e pobres. Assim, tivemos uma tendência positiva ou de maior aceitação para a assistência judiciária gratuita, distribuição de medicamentos gratuita e isenção de impostos para os pobres. Na literatura jurídica proces- sual que consultamos, a desigualdade social é indiscutivelmente provenien- te das desigualdades econômicas (PORTANOVA, 1999; CINTRA, GRINOVER, DINAMARCO, 1998). O critério de gênero para um tratamento desigual, ou seja, tratar desi- gualmente desiguais – homens e mulheres, recebeu uma tendência negativa ou de desacordo. Realmente como a lei as tratava diferenciadamente dos homens, as lutas das mulheres (feministas) por emancipação perseguiram

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principalmente a equiparação no sentido de participação política e de espa- ço no mercado de trabalho. Na Carta Constitucional de 1988, finalmente re- ceberam igualação constitucional. No entanto, as lutas por reconhecimento das mulheres ainda não conseguiram romper com uma cultura dominante que ainda as exclui desses espaços. De onde situamos as medidas de discri- minação positiva: a idade menor para aposentadoria, que reconhece a dupla jornada de trabalho da mulher (SILVA, 2000), e a lei de cotas para partidos políticos que, não obstante, receberam o desacordo dos estudantes. Formal ou textualmente, as mulheres estão equiparadas perante a lei, mas prosse- guem as suas lutas por igualdade de participação no processo democrático, por igualdade material ou substancial. O critério étnico para o tratamento desigual recebeu predominantemen- te desacordos. Assim, para os “moços”, o tratamento dispensado diferen- ciadamente pela lei às questões de raça ou de cor é severo demais. Mesmo que venha em atendimento de disposições de organismos internacionais, no Brasil esta lei resta inaplicável, porque é equivocada e excessiva (TEJO, 1988, SHECAIRA, CORRÊA JR, 2002). O equívoco talvez não esteja na lei, mas na noção corrente de identidade brasileira, fundada no mito da democracia racial ou na ideias de que cultivamos relações interetnicamente harmonio- sas. Esta noção pode mesmo ser refutada nos limites deste trabalho, na re- ferência silenciosa feita pelos entrevistados acerca do índio. De tal maneira,

Positiva

Positiva

Positiva

Sociologia do direito

os “moços” carecem de serem apresentados como atividade curricular às comunidades indígenas. Aos índios, a legislação assegurou proteção e res- peito, através das lutas travadas por reconhecimento e por demarcações de seus territórios. Não obstante, isso não tenha sido alcançado sem conflitos, como ainda existem acerca dos seus limites, os índios foram mantidos terri- torial e culturalmente segregados do “mundo dos brancos”. Assim também com os deficientes ou portadores de necessidades especiais. Embora tenham alcançado reconhecimento do direito acerca da educação que lhes deve ser dispensada, os mesmos continuam sua luta por inclusão no mercado de tra- balho ou ao acesso e gozo dos mesmos bens compartilhados socialmente, sem que se veja e esteja realmente segregado.

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Quadro-resumo por turno das tendências entre acordo/desacordo

 

Grau de acordo

Manhã

Tendência

Tarde

Tendência

Noite

Tendência

 

%

%

%

 

Concordo plenamente Concordo com reservas Não concordo, mas aceito Não concordo definitivamente

83.3

100

66.6

Justiça gratuita p/ carentes

16.7

Positiva

Positiva

33.4

Positiva

 

100

75

100

 

25

Reserva de estacionamento p/ deficientes

Concordo plenamente Concordo com reservas Não concordo, mas aceito Não concordo definitivamente

Positiva

Positiva

Positiva

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Sociologia do direito

 

Concordo plenamente Concordo com reservas Não concordo, mas aceito Não concordo definitivamente

83.3

100

50

Fila preferencial p/ gestantes, etc.

16.7

Positiva

Positiva

50

Positiva

Reserva de vagas na universidade.

Concordo plenamente Concordo com reservas Não concordo, mas aceito Não concordo definitivamente

50

Dividida

75

Positiva

33.3

Negativa

33.3

 

50

25

33.3

 

Concordo plenamente Concordo com reservas Não concordo, mas aceito Não concordo definitivamente

16.7

75

33.3

Escolas normais p/ deficientes

66.6

Positiva

25

Positiva

50

Positiva

16.7

 

16.7

 

Concordo plenamente Concordo com reservas Não concordo, mas aceito Não concordo definitivamente

83.3

100

83.3

Medicamentos gratuitos p/ carentes

16.7

Positiva

Positiva

16.7

Positiva

 

Concordo plenamente Concordo com reservas Não concordo, mas aceito Não concordo definitivamente

66.6

75

66.6

Isenção de

33.4

Positiva

25

Positiva

33.4

Positiva

impostos p/

carentes

     
 

100

100

83.3

 

16.7

Meia entrada p/ estudantes

Concordo plenamente Concordo com reservas Não concordo, mas aceito Não concordo definitivamente

Dividida

Positiva

Positiva

Sociologia do direito

Cotas p/

mulheres em

part. políticos

Concordo plenamente Concordo com reservas Não concordo, mas aceito Não concordo definitivamente

16.7

50

16.7

16.7

50

50

16.7

33.4

16.7

33.4

Quadro comparativo das tendências exclusivas de acordo

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Concordo plenamente

81

Justiça gratuita p/ carentes

 

Concordo com reservas

Positiva

19

Reserva de estacionamento p/ deficientes

Concordo plenamente

94

Positiva

 

Concordo com reservas

6

 

Concordo plenamente

Fila preferencial p/ gestantes, etc.

75

Positiva

Concordo com reservas

25

 

Concordo plenamente

Reserva de vagas na universidade.

0

Negativa

Concordo com reservas

100

 

Concordo plenamente

Escolas normais p/ deficientes

43

Negativa

Concordo com reservas

57

 

Concordo plenamente

Medicamentos gratuitos p/ carentes

87.5

Positiva

Concordo com reservas

12.5

Sociologia do direito

Concordo plenamente

69

Isenção de impostos p/ carentes

 

Concordo com reservas

Positiva

31

 

Concordo plenamente

Meia entrada p/ estudantes

94

Positiva

Concordo com reservas

 

6

 

Concordo plenamente

Cotas p/ mulheres em part. políticos

36

Negativa

Concordo com reservas

64

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Sociologia do direito

PARTE II:

O URBANO EM ESTUDO, COTIDIANO E DIREITOS HUMANOS

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Sociologia do direito

I

JOÃO PESSOA, O BAIRRO DA TORRE E AS COMUNIDADES EM ESTUDO

Breve história de João Pessoa

A cidade de João Pessoa, capital do estado da Paraíba, localiza-se na Região Nordeste do Brasil, fazendo divisa com o estado de Pernambuco e o estado do Rio Grande do Norte. Fundada no século XVI, em 5 de agosto de 1585, sua santa padroeira é Nossa Senhora das Neves. Parte do sistema de capitanias hereditárias, a cidade se destaca por uma vocação religiosa, e uma coloniza- ção predominantemente portuguesa, este último aspecto que a distingue da cidade-capital vizinha Recife, esta de colonização predominantemente holan- desa. Ao caminhar nas referidas cidades, percebemos as mesmas compõem um processo de descolonização política e cultural através da constituição e demarcação pelos que nelas habitam dos espaços públicos e privados. Este processo de descolonização conjunto compõe também as deci- sões das instituições de Justiça em caráter regional. Mas sem tomar conhe-

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cimento destas decisões por enquanto, queremos lembrar alguns aspec- tos relativos à história pessoense. A começar pelo nome da cidade: “João Pessoa” homenageia o ex-ministro do Tribunal Superior Militar, político paraibano, e ex-presidente da província Parahyba durante o período da República Velha, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. Este político que foi morto na cidade do Recife em 26 de Julho de 1930. João Pessoa Ca- valcanti de Albuquerque é proveniente de família pertencente a elite rural pernambucana, cujo proprietário é o senhor de engenho José da Silva Pes- soa (1837) (MELO, 2003). Conforme a descrição genealógica de Fernando Melo (2003), a união da família Pessoa à família do Barão de Lucena, deu início à formação militar, jurídica e política da família Pessoa, sobretudo através dos estudos iniciados em escola militar por José (1861) com incentivo do Barão de Lucena. O mes- mo incentivo que levou o irmão de José, Epitácio Pessoa, a estudar na Casa de Tobias Barreto, na Faculdade de Direito do Recife, e a seguir a carreira e vocação jurídica, participando de episódios da vida política brasileira e insti- tucional: da elaboração da Constituição de 1891, do Ministério da Justiça, do Supremo Tribunal Federal, do Senado, da Conferência de Paz em Versalhes, da Corte Permanente de Justiça Internacional. Além da carreira jurídica, se- gundo Melo (2003), o Presidente Epitácio foi incentivador do sobrinho João Pessoa a carreira política na Parahyba.

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Esta carreira jurídica sob inspiração militar, transmitida do tio ao sobri- nho, foi, contudo “interrompida” pelo trágico assassinato de João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, na Confeitaria Gloria, na cidade do Recife. As causas deste assassinato são provenientes da desorganização social e em razão da proclamada liberdade de expressão de direitos da época sob o regime do colonialismo e do entre-guerras, uma instabilidade de caráter local e mundial que ficou escrito na história. A cidade então atualmente denominada de João Pessoa (sobrinho de Epitácio Pessoa) procura home- nagear a memória política local, ressaltando o contexto nacional e interna- cional, intelectualmente efervescentes, iniciado sob a égide republicana no início do século XX. O atual processo de descolonização requer para a cidade de João Pes- soa o antigo nome de Parahyba, que data de primeiro de fevereiro de 1654, ou de Cabo Branco, bairro que margeia o ponto mais oriental das Américas. Esta decisão acerca do nome da cidade versa igualmente sobre as consequ- ências que a homenagem a João Pessoa tem legado a Paraíba em termos da cultura e das artes, por seu viés trágico, assim como da relação política que se estabeleceu após este episódio que envolveu as oligarquias nordestinas no período republicano nos “cuidados” com o povo - a relação de caridade e assistencialismo, que marcam igualmente a concepção das grandes obras que caracterizam a interiorização das ações políticas pelo Estado, levada

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a efeito pelo sucessor de João Pessoa, o ministro e então presidente José Américo de Almeida. Se sob o signo de José Américo de Almeida, encontramos uma herança cultural inestimável em termos de literatura regionalista, por outro lado na política paraibana este acenou com ações no governo do Estado, no sentido de “erradicar” a seca sertaneja, resultando esta numa ação de permanen- te “Dívida Divina” do estado para com o interior, descentrando a cidade de João Pessoa para a sua vocação moderna e de sua orientação para a liberda- de e para o cultivo das diversas artes e atividades econômicas e sociais. João Pessoa na atualidade se destaca na literatura por ser uma cidade de funcio- nários públicos, marcada pela orientação interiorana da economia pública e pela reclusão de orientação religiosa. Em outras épocas, sombria, e aos pou- cos, iluminada pela exploração nacional na aventura do turismo como forma de sociabilidade. João Pessoa retoma a sociabilidade de caráter interiorano dos coretos através da revitalização das praças e da cultura dos bairros, de forma mais autônoma e independente, mas sem olvidar suas raízes que são, sobretudo, literárias e regionalistas.

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O Bairro da Torre e as comunidades urbanas Padre Hildon Bandeira e São Rafael

O bairro da Torre, situado a sudeste do Centro Antigo da cidade de João Pessoa, foi um dos últimos bairros centrais criados, ligado por uma grande avenida denominada Ministro José Américo de Almeida, aos bairros da praia, como Cabo Branco e Tambaú. Ao longo desta avenida no sentido praia-cen- tro, do lado direito, situam-se os quarteirões residenciais e o Mercado da Torre, do lado esquerdo, as comunidades urbanas Padre Hildon Bandeira e São Rafael. Além das residências e do crescente comércio, o bairro da Torre é marca- do por sua centralidade, próximo do centro e das praias, e sobre ele avança

o

comércio. Tradicionalmente marcado pela presença das igrejas, entre elas

o

santuário São Judas Tadeu, e por diversas escolas, estaduais, municipais, e

a

escola de dança e Studio de Ballet José Enoch. Este Studio, que tem cerca

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de trinta e cinco anos de existência e de formação de bailarinos, oferta aulas de ballet a crianças matriculadas em escolas municipais. O bairro também é marcado pela proximidade e pelas ações da Fundação Espaço Cultural José Lins do Rego (Funesc), fundada sob os auspícios da década de oitenta pelo

então jurista e governador da Paraíba, Tarcísio de Miranda Burity. Esta Fun- dação, ao lado da Usina Cultural Energisa faz parte do cotidiano do bairro da

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Torre, movimentando a cena local, através de sua inserção no circuito cultu- ral nacional e internacional. Anterior à influência cultural da Funesc, da Usina e do Studio, o bairro da Torre vivenciou diversas transformações, que o colocam dentro de um processo de crescente urbanização. De raiz notadamente rural, os sítios que existiam no bairro cederam espaço a inúmeras residências, delimitadas pelos quarteirões. Na depressão do terreno situadas às margens do Rio Jaguari- be, situam-se as comunidades marcadas pela ocupação e pauperização das condições de moradia, habitação e vida, cujo surgimento data de meados da década de 70, juntamente a construção de “novos bairros” durante o pe- ríodo militar, como Castelo Branco, Geisel, Cristo, Bancários, Mangabeira e Valentina de Figueiredo (CAMPOS, 2010). Segundo catalogação da Funda- ção de Ação Comunitária (2002), órgão pertencente ao Governo do estado da Paraíba, como as comunidades Padre Hildon Bandeira e São Rafael exis- tem mais cento e nove “aglomerados subnormais” em João Pessoa. Entre estas áreas identificadas, escolhemos para o nosso estudo as comunidades Padre Hildon Bandeira e São Rafael, devido ao fato destas comunidades se enquadrarem nos espaços de permanente desigualdade e precarização social. Segundo Campos (2010), isto acontece devido aos processos de pri- vatização social e da lógica da exclusão que caracteriza a estrutura urbana de João Pessoa, marcados pela ausência de infra-estrutura. Além de ter um

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acesso facilitado para o grupo de pesquisa, as comunidades se situam nas proximidades da universidade, entre a Rodovia BR-230 e Avenida Beira Rio, denominação popular da Avenida Ministro José Américo de Almeida. As comunidades se distribuem por bairros residenciais: São Rafael se li- mita também com o Castelo Branco, e a Padre Hildon Bandeira com a Torre, Expedicionários e Tambauzinho. As comunidades são contíguas, separadas pelo Rio Jaguaribe, sendo este o principal vale que corta o município e onde se verifica a maior concentração de “aglomerados subnormais” (FAC, 2002). As áreas de precarização geralmente se situam em bacias, estuário e man- guezais, falésias, dutos e vias, ou em lugares de alta tensão (FAC, 2002, p. 34); as comunidades escolhidas para este estudo expressam igual vulnerabi- lidade físico-natural, uma vez que situadas em bacias fluviais, nos seus vales e encostas, além das vias de grande circulação, aspectos que apresentam diversos riscos a vida e sociabilidade de seus moradores. Assentadas neste terreno de depressão, já nas margens do Jaguaribe, as famílias que ali moram, em aproximadamente trezentos domicílios, possuem procedência predominantemente rural, mas também urbana, conforme dados de pesquisa direta realizada em 2002. Inicialmente construídas de forma rudi- mentar, as casas com o passar do tempo vão passando por melhoras, porém situadas em área de constante risco - risco representado pelas chuvas e cheias periódicas do rio Jaguaribe. O rio Jaguaribe, em outros tempos, serviu às mu-

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lheres lavadeiras de roupa, para banhos, e pesca, tendo perdido estas funções e características, servindo hoje ao escoamento de dejetos, e depósito de en- tulhos que, na época das chuvas intensas, provocam inundações com conse- quências gravosas, sobretudo para aqueles que residem nas áreas ribeirinhas. Embora de perfis sócio-econômicos semelhantes, ao olhar para o cotidiano dos moradores dessas comunidades, percebe-se que suas trajetórias de vida apontam para uma diversidade de elementos analíticos, não tendo se revela- do homogênea a condição de cada um como geralmente se pode pressupor, havendo ali a presença simultânea de diversas inserções e temporalidades. A rua e a situação das casas parecem indicar a gama de relações dos indivíduos, construídas na solidariedade de compadres e familiares, e por esta razão, con- figura-se como um espaço ecológico, de reestruturação e revitalização. Não obstante, a melhoria das casas, realizadas a partir de doações de materiais, revela algumas vezes a prática comum de campanhas eleitoreiras, recebidas com gratidão pelos indivíduos moradores e cuja contrapartida é o voto.

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A orientação dos indivíduos e dos sujeitos das relações de reciprocidade

Nas primeiras visitas exploratórias que fizemos às comunidades, ainda em conversas informais, uma discussão sobre direitos aflorou no relato de

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uma moradora que processava civilmente um indivíduo que havia provo- cado acidente de trânsito na BR-230, causando a moradora grave lesão e a morte de sua vizinha. O depoimento da moradora orientou a posterior entrevista com a mesma e com outros moradores. Neste sentido, procuramos realizar entrevistas com aqueles moradores que estiveram, no passado antigo ou recente, envolvidos com problemas relacionado à esfera de direitos, sendo parte direta ou indi- retamente em processos e procedimentos judiciais, efetivamente ou como testemunhas de algum fato ocorrido no espaço em estudo. Não apenas es- tes, mas procuramos entrevistar moradores que receberam formalmente os direitos de moradia, saúde e educação. Outra via exploratória que procura- mos seguir consistiu em consultar as entidades comunitárias, não obstante tivéssemos percebido algum descrédito e desinteresse dos moradores para com estas organizações. A Associação de Moradores da Comunidade Pe. Hildon Bandeira, segundo a fala do líder-presidente, preocupa-se em enca- minhar alguns moradores a solucionar seus problemas judiciais, mas este “atendimento” acontece segundo um diálogo ritual que pratica a exclusão dos argumentos dos moradores. Dessa forma, ao procurar entrevistar moradores individualmente, perce- bemos que havia entre um morador e a indicação de outrem, o comparti- lhamento solidário de experiências processuais comuns, de informações, de

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sentidos, e do linguajar jurídico. Este compartilhamento pareceu importante e procuramos nos orientar por ele. Fomos então, a cada visita, desenrolan- do este fio (por vezes interrompido, e refeito em outra situação) que faz dos espaços em estudo comunidades no sentido próprio do termo, devido à partilha de situações, de sentidos e de direitos comuns. Apesar de nos dedi- car mais às entrevistas com moradores do que aos processos judiciais, estes últimos se caracterizavam conforme os relatos pela simplificação do jargão jurídico, mas também e o que é preocupante reduzia o espaço de escuta, reclamação, e a desconsideração dos moradores, revelada por uma série de tentativas inquisitoriais de aproximação da Justiça. Assim, a distribuição de direitos elementares de existência civil se dava por meio da política assistencialista, marcada pela ausência do Estado. Por outro lado, a aproximação do Estado, através da justiça inquisitorial, des- cortina, muito timidamente, face ao quadro de destituição de direitos fun- damentais, o horizonte de autonomia e atuação cidadã dos moradores. Os moradores das comunidades urbanas Padre Hildon Bandeira e São Rafael são procedentes de áreas rurais, ou assim se denominaram. A maioria destes se encontra a disposição da comunidade de origem ou da comunidade con- jugada, isto é, encontram-se aposentados ou desempregados, vivendo um cotidiano onde o lazer, o bar, e os jogos são dominantes durante o período da tarde.

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Tendo estas raízes rurais, de seus filhos não se pode dizer o mesmo, uma vez que os mais moços que participaram desta pesquisa nasceram na

cidade de João Pessoa, tendo por este motivo uma escolaridade avançada,

a mesma escolaridade que organiza o cotidiano da casa em que residem, e

que define as relações entre pais e filhos. Mas não apenas a escolaridade, um ofício é transmitido das mães aos filhos, assim como uma conduta ou comportamento civil. Aqueles que deixaram os estudos, e que não estão tra- balhando partilham com alguma discrição “do pecado da tarde”, forma pela qual distraem os pequenos que chegaram da escola, ou aqueles que visitam

a comunidade, provenientes de outros bairros. Os deslocamentos pelos moradores que ali residem ou para aqueles ami- gos e familiares que visitam os moradores, isto é a entrada e saída das co- munidades estudadas, não são de maneira nenhuma à época que iniciamos

a pesquisa um trajeto normal ou fácil. Ao contrário dos dois lados as comuni- dades são cercadas por duas avenidas de grande fluxo de carros. Além destes riscos, a ponte que divide e que liga as duas comunidades e que ajudam os moradores a atravessarem o Rio Jaguaribe, é a mesma ponte onde alguns co- legas de pesquisa nos chamaram a atenção para os horários de passagem. Ao transitar novamente no final de tarde pela Avenida Beira Rio, percebe- mos que a calçada se transformou mais a frente em uma grande praça (em construção pela Prefeitura da Cidade de João Pessoa). Este espaço à época

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que iniciamos este estudo era destinado pela Associação de Moradores para a organização das festas, sobretudo juninas. Além deste espaço, um terreno baldio elevado junto a Avenida, ao lado dele, os moradores passavam a tar- de conversando até o anoitecer, observando a passagem de carros, e con- versando uns com os outros sobre o assunto do dia, num comportamento que consideramos tranquilo e bastante contemplativo. Ao transitar pela Avenida Pedro II e BR-230, descobrimos uma relação eco-social dos moradores com a “Mata do Buraquinho” (reserva de Mata Atlântica), uma relação espontânea e voluntária, mas que passou a ser me- diada após a realização desta pesquisa por instituições, o que viabilizou a construção de uma ponte de transição, evitando os riscos do transito pelos moradores, riscos que envolveram diversos processos e vida e de morte, com os quais compartilhamos e tivemos conhecimento. Não obstante, estes melhoramentos e intervenções são na maioria exteriores, sendo as comuni- dades e os moradores no nosso entendimento em muitos aspectos “aban- donados” pela administração pública, no sentido de incluí-los de forma efe- tiva e permanente na organização deste espaço. Relativamente às casas de propriedade privada, algumas são adquiridas por ocupação do terreno (usucapião), e outras por relação de compra e ven- da. Ambas são construídas de maneira muitas vezes assistencialista, pela doação de materiais, na maioria das vezes estas doações foram realizadas

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no período de campanha política. Assim como estas doações são positivas para os moradores, elas também são assistencialistas, uma vez que além de corruptas, estas “ações” não implementam para os moradores do bairro um projeto comunitário, mas antes mesmo de concebê-lo o descaracteriza. Estas ações não fazem parte apenas do período eleitoreiro, a participação

dos alunos na escola através de bolsa, a distribuição de alimentos – do pão

e do leite pelo Estado, e da sopa pela Associação – todas estas ações têm

raízes assistencialistas. De outra maneira, os moradores procuram organizar

o trabalho com o comércio de alimentos, uma vez que o bairro da Torre é

um bairro de feira, tanto no sentido de diversificar os alimentos consumidos,

quanto no sentido de organizar o cotidiano da comunidade. Neste sentido,

o comércio se revela como um organizador importante, no sentido de um

cotidiano elementar – de autonomia e independência com relação às políti- cas assistencialistas. Este comércio, de caráter familiar, não gera emprego, mas renda da fa- mília, e organização da comunidade. Por outro lado, perguntamos se a bol- sa escola poderá representar uma política de natureza diferente da questão assistencialista, isto é, se esta bolsa poderá se organizar como uma renda de cidadania. Esta relação que a bolsa escola propõe é suspeita, porque ain- da não se pode avaliar com que frequência ela se converte em uma dádiva completa, em uma formação superior, por exemplo. Isto é, não se pode ava-

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liar o que a justiça e a educação podem ofertar aos moradores destas comu- nidades em termos de perspectiva de vida. Senão, vejamos os diagnósticos que alcançamos onde as dádivas não se completam, por uma miríade de violências presenciadas no cotidiano. Não pretendemos avaliar o estatuto da bolsa escola, mas colocá-la em avaliação e suspeição enquanto uma ren- da de cidadania segundo o modelo sociológico.

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Elaboração do Roteiro de Entrevistas

Procuramos no conteúdo das conversas de forma contemplar o campo do direito, quando os próprios moradores não o faziam. Percebemos antes mes- mo da elaboração que os moradores manifestaram disposição e satisfação pela oportunidade de se colocarem em conversa, orientando muitas vezes a própria elaboração do roteiro de entrevista. Dada esta situação inicial, tive- mos muita facilidade em encontrar moradores com experiências semelhantes para serem entrevistados. Concebemos filosoficamente e sociologicamente o roteiro de entrevistas segundo a concepção de vida cotidiana elaborada por Agnes Heller. Para esta autora, o homem se revela acima de sua cotidianidade. Ao elaborarmos o roteiro esboçamos o que seria uma “semicotidianidade”, isto é, uma vida espontânea, mas pautada pela normatividade das instituições, refletindo com centralidade a Justiça, especialmente a questão das práticas da

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Justiça. Pela particularização que a Justiça impõe aos moradores no proces- so, procuramos fazer o caminho inverso, desparticularizando, concebendo-o individualmente, mas em interação com a comunidade em que vivem. Dessa forma, situamos a comunidade através da individualidade dos moradores re- lativamente aos processos em que foram parte no passado antigo ou recente.

E, por sua vez, o problema entre a comunidade e a sociedade em seu conjun-

to. Segundo Agnes Heller (1985, p.80):

“Com efeito, a individualidade humana não é simplesmente uma singu- laridade. Todo homem é singular, individual-particular e, ao mesmo tempo, ente humano-genérico. Sua atividade é, sempre e simultaneamente, indi- vidual-particular e humano-genérica. Em outras palavras: o ente singular humano sempre atua segundo seus instintos e necessidades, socialmente

formados, mas referidos ao seu Eu e, a partir dessa perspectiva, percebe, in- terroga, e dá respostas à realidade; mas ao mesmo tempo atua como mem- bro do gênero humano e seus sentimentos e necessidades possuem caráter humano-genérico. Todo homem se encontra, enquanto ente particular-sin- gular, numa relação consciente com seu ser humano-genérico nessa relação,

o humano-genérico é representado para o indivíduo como algo dado fora

de si mesmo, em primeiro lugar através da comunidade e, posteriormente,

também dos costumes e das exigências morais da sociedade em seu con- junto, das normas morais abstratas, etc.”

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A expressão “vida genérica” está presente em “A questão Judaica”, onde. Karl Marx considera o homem genérico em consciência universal (de acordo com a declaração de direitos), uma consciência que se define por ser uma consciência sobre as coisas e assuntos humanos de natureza não religiosa. Não obstante, a consciência genérica é instrumental e indica para o homem que ele é objeto da consciência de outrem. Consideramos assim o ser gené- rico positivamente: um “ser social” com relação ao Estado político, deixando de lado neste momento o conflito de natureza religiosa. Nesta parte das atividades, escolhemos a entrevista com roteiro semi- -estruturado porque permite uma maior liberdade dos sujeitos na expressão de suas imagens e evocações. Procuramos prezar pela simplicidade, clareza e abertura das questões, buscando uma maior fidedignidade das informa- ções. Para efeito de organização, dividimos o roteiro em três partes, não estando, entretanto, nenhuma delas isoladas umas das outras. Foram, pois, elaboradas para compreender a condição do indivíduo em interação com a comunidade em que vivem. Assim, elaboramos a entrevista: técnica que permite o desenvolvimento de uma estreita relação entre as pessoas Richardson (1999). Procuramos uma maior flexibilidade de nossas questões, formulando um roteiro semi-estru- turado, e ao mesmo tempo não diretivo, pois em certo momento, como nas narrativas acerca dos procedimentos policiais e judiciais, é correto intervir

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minimamente, buscando assumir a função de orientação e estimulação dos entrevistados, deixando-os desenvolverem opiniões livremente. Na primeira parte do roteiro de entrevistas, procuramos fazer a identifi- cação dos indivíduos através de categorias objetivas como idade, sexo, cor, estado civil, escolaridade, procedência ou naturalidade, situação de moradia e ocupação. Na segunda parte, procuramos perceber na subjetividade dos indi- víduos, suas histórias e cotidiano em torno da situação de moradia, educação, trabalho, lazer, saúde. Ainda aqui, buscamos verificar a percepção de direitos desses indivíduos, e a aplicação desse senso às suas realidades. Na terceira e última parte, quisemos perceber a continuidade ou não entre suas percepções de direitos e seus acessos à justiça, com interesse de identificar os fatos que impossibilitaram a continuidade entre estas dimensões. As perguntas nesta parte procuraram compreender a ideia que fazem de direitos fundamentais e sociais, a informação de que dispõem, e o que pensam da Justiça.

Observação Participante e Aplicação do Roteiro de Entrevistas

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No sentido de compreender a forma pela qual acontecem acessos ao direito e à Justiça pelos sujeitos, em suas descontinuidades, fomos primeira- mente anotando impressões, e objetivamente recolhendo elementos que de

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alguma forma respondessem ao nosso problema inicial. Como a nossa inser- ção tivesse acontecido de forma tranquila, uma vez que estive acompanha- da de um grupo de pesquisadores 2 que já vinham desenvolvendo trabalhos naquele espaço, fomos conhecendo seus moradores, contando de antemão com uma receptividade e disponibilidade dos mesmos que iam discorrendo de suas vidas e até das últimas notícias que se tornaram jornalísticas dali, como a morte de um menino devido sua pequena dívida com traficantes de drogas. Mas deste fato, que nos impressiona, foi importante afirmar certo distanciamento, uma vez que estas áreas são por todas caracterizadas pelo tráfico, aspecto que estigmatiza os moradores, e que marca as relações com a sociedade em geral - seja pelo temor e receio de uns, seja pelo consumo de drogas por outros. Este período de observação participante foi também intensificado na fase de implementação do projeto de extensão “Ações integradas em busca de cidadania” 3 . Dessa forma, também fomos conhecendo um pouco dos jo- vens, problemas e aspirações dos meninos e meninas com suas crianças de colo, principalmente o grupo que se reunia para dançar no espaço cedido

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2 Desenvolvi esta pesquisa empírica, com incentivo do PIBIC/CNPQ, enquanto integrante do grupo de pesquisa “Pre-

carização, Desenraizamento e Desigualdade Social”, liderado pela Dra. Eliana Monteiro Moreira, cujos integrantes da graduação eram Chistina Gladys, Gisânia Carla,Lourdes Souza.

3 Este trabalho foi inicialmente realizado junto aos jovens da comunidade Padre Hildon Bandeira. Nossa atividade

consistia em conhecer estes jovens, saber o que praticavam, se se reuniam em grupos, ou o que gostariam de fazer para, junto deles, organizar oficinas culturais.

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pela associação de moradores em algumas manhãs da semana. Este grupo

pequeno se reunia para ensaiar coreografias das músicas de forró, axé e ca- poeira. Foi nesta fase de reconhecimento que fomos reunindo, buscando

o contato, e nos familiarizando com as expressões, algumas muito sisudas,

porém não fechadas ao diálogo, quando fomos apresentando e explicando com clareza e simplicidade a proposta do projeto, acatando sugestões e in- teresses.

Logo nesta entrada, chamava nossa atenção uma placa que de certa for- ma afirmava a comunidade por nós procurada, com os seguintes dizeres

colocados aos passantes da avenida: “a comunidade Padre Hildon Bandeira

oferece: eletricista, pedreiro, marceneiro, lavadeira

com estes dizeres e um número de telefone público que fica em frente à casa

do presidente da associação. Foi comum no final ou início de nossas visitas, ficarmos, como fazem alguns moradores, sentados na calçada da avenida (de frente ao busto do Padre Hildon, entre a comunidade e o asfalto) con- versando, ou simplesmente vendo os carros velozes passarem, observando

o cotidiano, as atividades, e a passagem das pessoas ali. Esta placa percebida já sinalizava o lugar daqueles sujeitos que depois conhecemos, e que se define através da posição que ocupa na divisão do trabalho, encontrando-se na informalidade de serviços muitas vezes dispen- sáveis na vida moderna, e onde não há garantias, nem direitos agregados,

uma placa na Beira Rio

”:

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mas que os mantém no limite da subsistência, repensada e improvisada to- dos os dias. Quando existe esta situação de trabalho que os mantém na miséria, verificamos assim as políticas de assistência da miserabilidade, para não deixar morrer de fome, ou de dor, e de solidão; como pão e leite, distri- buição de medicamentos, de correspondências com americanos do norte, entre outras. Estas políticas, inclusive por alguns moradores rejeitadas são pela maioria aceitas como providência divina, mantendo-os na fatalidade de um destino naturalizado, onde cada um tem o lugar que merece, ou que é capaz de conquistar, garantido por um direito natural. Na São Rafael, percebemos a presença de instituições, como a igreja ca- tólica, evangélica, espírita, umbanda, instituições sinalizadoras da atuação do poder público estatal, como uma escola estadual de ensino fundamental

e a Fundação de Ação Comunitária, além de uma rádio comunitária. Nesta

comunidade, conhecemos uma moradora que se tornou fundamental para

a delimitação da nossa pesquisa, e depois nossa informante, ao fazer uma

narrativa sobre o processo judicial que levava adiante, depois de ter sofrido tentativa de homicídio por motorista que dirigia em alta velocidade na BR- 230, que cerca a comunidade. Os nossos contatos foram frequentes, onde observamos por tardes inteiras suas atividades na barraca, e as pessoas que se reúnem em torno dela para jogar dominó. Nestas circunstâncias, perce- bemos características da vida diária da comunidade daqueles aposentados,

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crianças, mulheres, e jovens desempregados. Achamos pertinente apresen- tar os fragmentos de algumas entrevistas que introduzem elementos da his- tória e eventos cotidianos dos sujeitos moradores das comunidades, como de seus iguais. No universo pesquisado, fizemos um número total de quinze entrevistas, onde aproximadamente, a metade dos entrevistados se situa no intervalo de 44-73 anos, e parte deles se situam no intervalo de 18-26 anos. Entre aque- les entrevistados que se situam no primeiro grupo, o nível de escolaridade é mais baixo, sendo a maioria procedente de área rural, tendo no início da vida trabalhado em roça, e encontrado depois ocupação como vigilantes, autônomos, lavadeira, e ajudante de obra, encontrando-se atualmente apo- sentados. O segundo grupo, em sua maioria, é procedente de área urbana, estudaram por mais tempo que seus pais, não havendo nenhum deles, toda- via, ingressado no estudo superior, e se encontram desempregados. Dessa maneira, detivemo-nos no primeiro grupo, uma vez que o relato e compre- ensão de direitos nos pareceram mais reais e factíveis, do que entre os mais jovens, salvo o relato de um morador, que havia cumprido pena privativa de liberdade. Foi um procedimento comum a todos nas entrevistas uma conversa ini- cial e anterior, onde explicamos os objetivos da pesquisa, e pedíamos auto- rização do entrevistado para a utilização do gravador. Encontramos em geral

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a disponibilidade dos entrevistados, no entanto alguma prudência em dizer de sua relação com delegacias e justiça, porque esta situação poderia ma- cular a ideia que a entrevistadora faria dos entrevistados, situação superada quando explicávamos a importância daqueles fatos e circunstâncias, assim como dos sentimentos neles envolvidos, para o prosseguimento de nossa pesquisa. As entrevistas ocorriam nas ruas das comunidades, ou nas casas peque- ninas, que acolhem tantos sujeitos. Como observamos, os sujeitos das co- munidades são tomados em suas carências e fragilidades para serem “alvos certos” de políticas indignas 4 . Estas políticas são aceitas pela condição de precarização dos sujeitos sem maiores discussões ou criticidade, ou mesmo a participação dos mesmos na sua elaboração. Procuramos nas entrevistas buscar ou mesmo despertar o posicionamento crítico dos mesmos acerca das políticas com que mantinham contato. Ao longo das visitas, observamos que os moradores da São Rafael são alvo de tratamento assistencial de instituições governamentais e não-gover- namentais na forma de políticas indignas 5 . Trata-se de políticas de intervenção de natureza pontual, aceitas pelo estado de precarização em que vivem estes

4 Fazemos alusão à obra de Hannah Arendt, “A Dignidade da Política”.

5 Fazemos alusão a idéia trabalhada por Hannah Arendt (1993), de resgate da dimensão política na obra “A Dignidade da Política: ensaios e conferências”.

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sujeitos sem maiores discussões ou criticidade. Em nossos contatos, vimos que estas ações de cunho filantrópico/assistencialista estão longe de criarem con- dições dignas a estes sujeitos, ao contrário, terminam por reforçar seus senti- mentos de fraqueza, desamparo e inferioridade, impedindo que busquem por si próprios as saídas para as negações/privações que vivenciam. Diante de tal constatação, procuramos construir as perguntas do roteiro de forma que provocassem o posicionamento crítico dos entrevistados acer- ca de assuntos em que geralmente não são chamados a refletir. Procuramos dar um tratamento ao conteúdo das conversas de forma a contemplar o campo do direito, quando os próprios entrevistados não o faziam. Percebe- mos no final das entrevistas, que estes manifestaram satisfação pela oportu- nidade de se colocarem, orientando muitas vezes o próprio rumo da entre- vista, sentimento pela pesquisadora igualmente partilhado e discretamente incentivado. Daí a facilidade que tivemos em encontrar outros sujeitos para serem entrevistados. Terminadas as entrevistas, um entrevistado nos fez um pedido para es- cutar a fita de gravação, porque se sentia “fortalecido” ao contar sua história daquela maneira. Somente duas entrevistas não tomaram este rumo ressal- tado. Nelas, os indivíduos eram um senhor e uma senhora de idade, ambos viúvos, tendo a morte de seus companheiros ocorrido de forma igualmente trágica. Estes foram tímidos em suas falas e expressões, resignados em suas

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vidas, tendo ainda demonstrado de outras formas sua simpatia conosco, preocupando-se com a nossa segurança enquanto estávamos na vila, com- parando o cuidado que tinham conosco ali ao mesmo que tinham com as suas netas. No processo de entrevista é que percebemos como se elabora a face. Segundo Goffman (1980), a face é um valor positivo reclamado pela pessoa durante os encontros sociais. A face não está no corpo da pessoa, mas está difusamente no fluxo de eventos que se desenrolam no encontro, conside- rando o lugar ocupado pela pessoa no mundo social. Uma pessoa está na

face errada quando um seu valor social não se adequa com a linha sustenta- da por ela. Quando está em face, sente-se confiante e segura. Mantém sua cabeça erguida, está aberto aos outros. Fora da face, sente-se envergonhada

e inferior. Salvar a face é a maneira como a pessoa sustenta para os outros

a impressão de não ter perdido a face (conhecida como diplomacia e habi-

lidade social). Ainda segundo Goffman (1980), a face, apesar de pessoal, é empréstimo feito à sociedade, que poderá inclusive ser retirada por ela. Na elaboração da face, a pessoa tenta tornar qualquer coisa que esteja fazendo consistente com a face. “Incidentes” são eventos cujas implicações simbóli- cas ameaçam a face.

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II

COTIDIANO E DIREITOS HUMANOS

Por uma história social dos direitos no continnum campo-cidade

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Ao evidenciarmos a experimentação real ou concreta pelos atores em estudo acerca dos direitos politicamente instituídos pelo Estado, preten- demos fazer uma leitura política em contrapartida às formulações neu- tras dos direitos. A partir das histórias de vida, apresentaram-se a nós trajetórias marcadas pela migração, que entendemos como a destituição em algum momento de direitos e a busca destes em algum lugar onde também mora a esperança. Entre os atores estudados, o momento inicial da destituição de todos os direitos acontece no campo, lançando-se de igual maneira na cidade. Estas mobilidades internas são de todos conhe- cida, revelando-se, sobretudo, nas lutas por reconhecimento, uma busca por um sonho de dignidade, cuja imbricação lógica inclusive dos direitos de cidadania está no bem coletivo do trabalho, mas que se revela nos mo- radores de que cuidamos de forma precarizada, na informalidade muitas

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vezes, com menos direitos, garantias e seguridade, estendendo-se estas mesmas condições aos seus. Dessa forma, o não reconhecimento de direitos no campo parece ante- ceder e complementar a compreensão do urbano e a condição de indivídu- os que nele morrem-vivem 6 privados de direitos fundamentais 7 . A condição precária de vida, moradia, educação, trabalho, lazer, e saúde dos indivídu- os moradores das comunidades pesquisadas são os aspectos que colocam esta população à margem de direitos e garantias constitucionais que tornam possível uma existência cidadã. O continuum campo-cidade em que figura este estado de coisas não é tão evidente, nem as instituições responsáveis pela distribuição de direitos parecem sensíveis a este aspecto da nossa his- tória social. Gerações inteiras de indivíduos e famílias empobrecidas no campo, atra- vés do não reconhecimento de seus direitos pela terra, e ao trabalho nela, vêm protagonizar outro drama social na cidade, ocupando terras de nin-

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6 Utilizamos aqui a mesma inversão feita pelo autor do poema: “Ao inverter o sintagma natural vida e morte, o poeta

registra bem a qualidade de vida que seu poema visa a descrever: uma vida a que a morte preside. E ambas, morte e vida, têm por determinante o adjetivo “severina”. Igualam-se nisso de serem ambas pobres, parcas, anônimas. O substantivo Severino é originariamente diminutivo do adjetivo severo. No auto cabralino há, pois, a reversão da pa- lavra a sua origem, enriquecido em sua carga semântica.” SENNA, Marta de; João Cabral: tempo e memória; Rio de Janeiro: Antares; Brasília: INL; 1980, pp. 58 e 59.

7 Direitos fundamentais no nosso entendimento abarcam também os chamados direitos sociais. A divisão crono-

lógica que separa as chamadas gerações de direitos somente é válida no nosso entendimento para marcar as lutas históricas travadas em tornos dos mesmos.

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guém, quase encruzilhadas, em busca de sua dignidade humana. A procura desses indivíduos por dignidade parece ser a motivação das migrações di- versas e o horizonte-fim de “morte-vidas”. Segundo Martins (1993, p.48):

é também a luta por objetivos que não são imediatamente econômi-

cos, nem políticos. Isso é compreensível num país em que grande número de pessoas vive no limiar do urbano, da política, do direito, da justiça, da moral, num país em que ainda não se tornaram reais algumas conquistas elementares da Revolução Francesa.

) (

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Acerca do campo e de suas transformações, os estudos de Martins (1993) apontam para uma diferença entre Brasil e Inglaterra, onde não tivemos a ex- periência das corporações de ofício extintas pela Constituição de 1824, que nos levasse a exigir o reconhecimento de um direito anterior a grande expansão do capital. Para este autor, os camponeses, por sua vez, nunca tiveram direito, nem mesmo a propriedade, que pertencia ao rei. Segundo Martins (1993), o direito de usar e de ter eram direitos separados, e combinados. Com a grande expansão do capital em meados do século XIX, a crescente importância da renda fundiária ensejou despejos e violências. Esse processo transformador converteu o agre- gado e posseiro em força de trabalho na grande propriedade ou suas simples expulsões. “Os direitos que tinham eram morais e dependiam da exclusividade da vontade e da benevolência do proprietário” (MARTINS, 1993, p. 67).

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Na observação de Martins acerca do universo pesquisado, a luta campo- nesa reafirma um direito costumeiro, de praticar sua agricultura de roça. A terra livre fazia parte do direito, e era o pressuposto da expansão agrícola, resguardada a propriedade do rei, e teve vigência até a promulgação da Lei de Terras em 1850. Portanto, orienta-se por um direito, embora revogado, que permaneceu inscrito nas concepções e experiência dos trabalhadores que não eram escravos. Segundo descreve os choques com o novo direito produzido a partir da agricultura de exportação da cana e do café estabele- ceu um direito absoluto de propriedade e de posse das terras. Embora estas leis tenham passado por constantes atualizações no sentido de absorverem as tensões, estava estabelecido historicamente o choque en- tre a agricultura tradicional camponesa e as concepções dos que têm acesso ao poder, à produção das leis e à criação do direito. Estas mudanças legais no direito de propriedade vieram suprimir, ainda segundo Martins (1998), as concepções populares sobre direitos, e foram revestidas de violentas inva- sões de terras camponesas (e territórios indígenas). Não obstante estes processos de história lenta que acontecem no cam- po, estudados por Martins (1993), e que colocam camponeses e índios como seus sujeitos fundamentais, tenham avançado na construção da bandeira da reforma agrária e no argumento do cumprimento da lei, não perdemos de vista a amplitude dessa luta por reconhecimento de direitos como também

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se referindo aos sujeitos pobres da cidade, em algum momento expulsos do campo pelas transformações legais acima discutidas. Na cidade, todavia, a questão da pobreza não está posta em termos tão diversos daqueles que viemos nos referindo até aqui. Os espaços de origem rural que nos contam a trajetória dos indivíduos são explicadores das formas pelas quais acontecem seus acessos descontinuados e precários à educação, trabalho, saúde, lazer. Os indivíduos das comunidades urbanas precarizadas são reconhecidos por programas assistenciais de naturezas diversas em suas fraquezas e incapacidades para existirem em determinados espaços sociais, características que os fazem pobres. Segundo Telles, vivemos sob uma tradi- ção tutelar, onde o pobre comparece no cenário público brasileiro pela sua obediência, merecendo em contrapartida o favor e a proteção.

A justiça social brasileira não foi concebida no interior de um imaginário igualitário, mas no interior de um imaginário tutelar que desfigura a própria noção moderna de direitos, formulados que são no registro da proteção garantida por um Estado benevolente. (TELLES, 2002, p. 29)

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Nas reflexões de Telles (2001) estes termos através dos quais a questão social comparece no cenário público brasileiro constituem a chave de eluci- dação para o enigma da persistência da pobreza entre nós. Assim, existe um

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imaginário persistente que fixa a pobreza como marca de inferioridade, ou de descredenciamento para o exercício de direitos. Algumas leis constitucionais, como a regra da igualdade, carregam a in- terpretação de seus criadores, que prosseguem em condutas que restringem o reconhecimento de direitos os camponeses, indígenas, como os pobres citadinos. Dessa forma, as mesmas instituições que formalizam a igualdade, excluem determinados grupos, tratando-os numa hierarquia inferior de pré- -cidadãos, ou indivíduos destituídos de autonomia e soberania. Este, alerta Telles (2001), é um dos aspectos mais desconcertantes da sociedade brasi- leira, onde a igualdade prometida pela lei reproduz e legitima hierarquias e desigualdades. Ainda em Telles, o lugar da pobreza na sociedade brasileira está para além da sociedade e da história, ou na naturalização da história, constituído fora da interação humana. A pobreza figura como atraso, um fardo pesado sem autores e responsabilidades, como a incivilidade e amoralidade, o con- traste de um Brasil urbano sob o signo do progresso e da civilização. Afinal de contas, éramos também naturalmente e generosamente um país de re- cursos, de possibilidades e mobilidade social.

A questão social era negada (no período republicano) sob argumentos que forjavam a imagem de um país transformado em pura natureza – natureza

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generosa: um país cheio de recursos, de possibilidades e chances de traba- lho e mobilidade social (TELLES, 2001, p. 41).

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Com vivemos numa cidadania restrita, onde os direitos não se universa- lizaram; somente com o reconhecimento dos direitos para além do forma- lismo que atravessa e oculta as diferenças, e através dessa linguagem, é que poderíamos vislumbrar os diversos interesses em discussão e seus conflitos. O que preocupa nesse horizonte simbólico é a figuração natural das desi- gualdades que impede a construção de um princípio de equivalência, e que pode conferir ao outro a identidade e estatuto de sujeito. Somente a regra que define os atributos que qualificam os indivíduos como cidadãos confe- re, ao mesmo tempo, legitimidade às suas formas de vida e modos de ser. A legislação trabalhista formulada durante o período Getulista significou a intervenção estatal quebrando com exclusividade, arbítrio e favores do mando patronal, mas serviu ainda de instrumento de manipulação do mes- mo arbítrio. Aqui, são os postos de trabalho que definem o lugar de cada um na sociedade, sua existência civil e cidadania. O trabalhador é uma figura honesta, tendo esta imagem neutralizado os efeitos da pobreza. Quem não conseguiu seu lugar ao sol numa sociedade generosa, vivendo os dramas da sobrevivência, devem contar com o amparo do Estado.

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A figuração política do trabalho se confundia, portanto, com a figuração do

próprio poder no interior de um discurso que fazia da justiça social a obra civilizadora por excelência, que tirava o trabalhador do estado de natureza,

o redimia da pobreza através da proteção ao trabalho e o dignificava en-

quanto Povo e Nação. Sob o silêncio imposto pela repressão e pela razão totalizadora do Estado, esse discurso acompanhava a regulamentação da vida fabril, construindo a ficção da lei que garante direitos pela força que emana do lugar de sua enunciação e que prescinde da ação coletiva, en-

quanto luta, conquista e representação (PAOLI, apud TELLES, 2001, p. 48)

Apesar destas figurações, Telles (2001) entrevê um horizonte igualitário e democrático na criação de espaços de negociação de interesses e de for- mação de uma opinião pública plural que recusa a exclusividade da voz do poder. Citando Wefort, ela explica como se deram estas mudanças, como a formação de uma “consciência do direito a ter direitos”:

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A “descoberta da sociedade” se fez na experiência dos movimentos sociais,

das lutas operárias, dos embates políticos que afirmavam, perante o Estado,

a identidade de sujeitos que reclamavam sua autonomia, construindo um

espaço público informal, descontínuo e plural por onde circularam reivindi- cações diversas (WEFORT, apud TELLES, 2001, p. 51).

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Como não deixamos nos enganar pela lentidão destes processos, que podem confundir o observador, sabemos que eles provocam resíduos imen- sos de incompreensões, e sentimentos de injustiça, porque estes indivíduos não se sujeitam simplesmente e, atomizados ou organizados, não compre- endem totalmente o contexto que vivenciam. Dessa forma, e sem negocia- ção em nenhuma instância, ensaiam e reagem de forma igualmente violenta aos processos de negação que os inferioriza e os descredencia para o exer- cício de direitos. São reconhecidos nessa ocasião como potencialmente pe- rigosos à ordem social, devendo ser justamente punidos porque passaram a condição de devedores de um Estado penal. O papel de cidadão, segundo DaMatta (1997), é vivido nestas circuns- tâncias, de modo diferente do que dizem amplamente a Constituição e o direito. Ainda segundo este autor, quando alguém é chamado de “cidadão” está se complicando, encaminhado-se às vias certas de sujeição, às obriga- ções da lei e suas penalidades brutais. Neste sentido, a cidadania costuma ser evitada. E o que dizer acerca da compreensão de direitos, esta categoria tão abstrata na percepção dos indivíduos? Quando não, os direitos se de- finem na concretude de uma situação crítica ou trágica, que os coloca em contato primeiro com a Justiça, através de prisão, homicídio em legítima defesa, acidente ou morte banal numa rodovia. Situações que conseguem resolver na providência divina e na ajuda caridosa de um conhecido que

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se solidarize. Essa mesma prática “solidária” que lhes custam as cruezas da vida cotidiana. Não obstante, as instituições penais foram criadas para confinar quase que exclusivamente os pobres, tendo sido intensificado esse seu mister com a pro- gressiva diminuição do Estado Social. Nas suas análises sobre a instituição da prisão, Wacquant (2001) considera que as políticas policiais e penitenciárias não podem ser compreendidas nas sociedades avançadas sem que sejam recoloca- das no quadro de transformações mais amplas do Estado. Para ele, a ascensão do salário precário e a retomada do Estado punitivo seguem juntos: “a ‘mão invisível’ do mercado de trabalho encontra seu complemento institucional no ‘punho de ferro’ do Estado que se reorganiza de maneira a estrangular as de- sordens geradas pela difusão da insegurança social” (WACQUANT, 2001, p. 135).

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Dimensões e Alternativas à Cidadania Brasileira

Conforme ensina DaMatta (1997), existem duas dimensões ou planos em que podemos realizar a discussão acerca da cidadania brasileira – uma jurí- dico-político-moral e outra sociológica. Esta última dimensão, por retirar o caráter natural do conceito, pode nos indicar caminhos de aproximação da perpetuação da nossa realidade desigual e hierarquizada.

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O conceito de cidadania implica considerar a ideia de indivíduo como uma entidade genérica, universal e abstrata, dotado de igualdade e dignida- de, com direitos e deveres no seu espaço de pertencimento. Todavia, devido aos processos estruturais, históricos e culturais brasileiros, esta mesma no- ção engendra práticas e tratamentos sociais diversos. Existem outras formas de filiação à sociedade brasileira, ou outras formas de cidadania, construídas nos espaços relacionais da casa, e que realizam compensações sociais. Estas relações de família e suas teias de amizade se constituem em lealdades sem compromisso legal ou sociológico; estão “fora da lei”, mas não se pode abrir mão delas e de suas identidades para chamar direitos e deveres universais. Senão, vejamos:

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E: O que é a justiça para você? F: Continua sendo a mesma coisa. Ela foi importante para eu receber os meus direitos, bom demais. Agora eu gostaria que existisse uma lei assim que procurasse sinalizar mais as coisas antes de tomar qualquer atitude, sabe? Do meu ponto de vista acho que deveria ser mais analisado as coisas, sabe, eu sei, tudo bem eu entendo, que o mundo que a gente vive hoje em dia está completamente dominado pela violência, existe muitos lugares já dominados onde não existe policial, não existe juiz e não existe promotores. Existe a justiça, mas acho que a violência está de uma forma, que as pessoas fossem punidas de uma forma sem haver tanta violência. (MANOEL, dados da entrevista direta, agosto de 2004)

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Nesta fala é recorrente a relação da casa e da rua. A casa como o lugar da familiaridade e domesticidade, daquilo que é permitido, e a rua como o lugar da lei, da proibição, e dos “funcionários da lei”. A questão da violência levantada por Manoel é carregada pelas relações dos moradores com as ins- tituições, as práticas eleitoreiras realizadas nos espaços de pobreza, estabe- lecendo aproximações com moradores não só na troca de objetos e votos, mas na garantia de lealdade e gratidão. Através de mecanismos eleitoreiros, portadores da corrupção e violên- cia nas relações sociais, que se valem também os moradores que acionam conhecidos para conseguir precariamente moradia, emprego, atendimento médico, ajuda em necessidade, enfim estes aspectos garantidores e urgen- tes à vida, e na qual a própria sorte de cada um os fez desamparados. Este círculo que estamos chamando de reciprocidade hierárquica inaugura um sistema onde o poder e a violência são os princípios e a injustiça um senti- mento relacional o resultado. A cidadania política brasileira não conseguiu romper com os vícios que a sustenta – compra de votos, concessões e favores. Estes aspectos vêm de longe, e são considerados por Sales (2002) como a raiz rural de nossa cida- dania. O voto expressa entre nós, portanto, menos o direito de participar do exercício do poder político, e mais instrumento de manipulação que alimen- ta as relações de favor.

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Uma insuficiência da teoria damattiana apontada por Souza (2001) es- taria no fato de que ele busca compreender os valores independentemente da vida institucional. Para Souza (2001), podemos realizar uma interpretação alternativa do dilema brasileiro, ou do constante paradoxo entre a via insti- tucionalista e culturalista dos usos e costumes. Para ele, não é peculiaridade brasileira a tendência à corrupção e refração da lei geral (o jeitinho brasilei- ro), ao contrário a grande política é considerada amoral para a maioria das pessoas, sendo um dado estrutural da esfera política moderna. A alternativa apresentada por Souza (2001) parte da ideia de que a misé- ria e a permanência das desigualdades sociais são resultados da seletivida- de e não de um paradoxo do mesmo processo de modernização. Em outras palavras, uma concepção do processo de modernização brasileiro estaria na consideração da relação entre valores e instituições, vinculando-a a es- tratificação social. Dessa forma, a política não seria somente uma atividade intra-estatal, quando consideramos uma terceira instituição, além do Estado e do mercado: a esfera pública teorizada por Habermas. Para Souza (2001) uma forma de resgatar os miseráveis seria começar a discutir a função dessa esfera a partir dos mesmos. Nos estudos de teoria política e de inclusão do outro, Habermas (2002) procura apresentar uma modificação paradigmática do direito, através da sua concatenação com a democracia. Para o autor alemão, esta preocupa-

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ção não constitui uma nova teoria, mas a simples afirmação de que é preciso levar a sério o Estado Democrático de Direito: “apesar de todas as mudanças de minha posição teórica, vinculo à teoria do discurso do direito um sentido radicalmente democrático” (HABERMAS, 2002, p. 373) Esta compreensão diferenciada constitui aquele caminho alternativo apontado por Souza (2001), de pensar a relação entre valores e instituições. No nosso estudo, relacionar valores democráticos às instituições de direito é também o caminho para a inclusão, através do reconhecimento de direitos e da dignidade humana àqueles deserdados no campo e na cidade, em suas diversas formas de vida. Não obstante a cidade de João Pessoa participe de uma mesma coreo- grafia com relação aos países em desenvolvimento, esta cidade não é consi- derada segundo a perspectiva adotada uma metrópole, individualista como padrão de vida. A cidade é retomada segundo as suas especificidades locais, isto é, segundo as biografias ou as histórias de vida de seus moradores em suas diversas inserções e espacialidades o que valoriza sua identidade, a re- gionalidade e a nacionalidade. Assim, a cidade de João Pessoa, e o bairro da Torre que nela se ambienta, não cuidam de um estudo “fácil”, mas de uma realidade bela, pulsante e fluida, e contraditoriamente, difícil de determinar pelas relações que estabelece com o “estrangeiro” ou com o “estranho” nos moldes analisados pelo sociólogo Zigmunt Bauman.

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Embora sua sociabilidade seja marcada por um processo de “desenrai- zamento” do campo e pela precariedade e desigualdade do urbano subsiste

por outro lado na cidade de João Pessoa as redes sociais de diversas ordens e valores – de família, religiosidade, educação, e política, ativando uma ciranda de direitos a balizar como marco social a organização e economia do espaço

– que articulam a interação cotidiana, os costumes, e o modo de vida. Não

obstante, estas redes simbolizadas por marcos regulatórios-simbólicos do sistema social como um todo sejam difíceis de serem apreendidas perma- nentemente no cotidiano em sua constituição, uma vez que os moradores são dispostos segundo as virações ocupacionais e da informalidade social. Geralmente estas redes sociais são mediadas pelos valores compartilhados pelo campo onde o morador se desenraizou social e economicamente, sub- sistindo a memória e a afetividade; o trabalho qualquer que ele seja possui centralidade como produção de renda de cidadania e os direitos constitu- cionais apenas tangenciam esta relação na existência singular do “sujeito”.

Dessa maneira, “a rearticulação destas redes de cultura”, de forma per- manente e válida, constitui uma política social de regulação da instabilidade

a que os moradores se expuseram em razão última de sua desagregação fa-

miliar pela exposição econômica e cultural a que estão submetidos durante sua existência do nascimento a morte civil. Mas estas estes não são capazes de sustentar de forma permanente o cotidiano e a ciranda de direitos, ao

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contrário, elas conformam as desigualdades hierárquicas. Estas redes “con- traídas e contrastivas” internas à comunidade, isto é, próprias a ela mesma, ao seu cotidiano, são desarticuladas pela manipulação imagética da mídia nacional voluntariosa e centralista como modo de entretenimento, conjuga- da pela disposição aversiva do espaço, pela forte regulação legalista e não conciliadora que caracteriza a política urbana em países latino-americanos. Finalmente, a política de sociabilidade através das praças constitui ao lado das redes de direitos, além de um resgate da memória urbana cujos laços remontam a origem predominantemente rural do que a origens citadinas e globalistas, um modo autêntico de exercício da cidadania nas comunidades estudadas, de exercício da vida e da virtude no “novo espaço” no tradicional bairro da Torre, e na cidade de João Pessoa, modos de valorização do coti- diano local e de alternativas a cidadania brasileira. Na discussão que segue, considerando que a noção de rede social ou de “network analyses” é insufi- ciente para articular permanentemente sociedades de raízes rurais, e de co- lonização portuguesa, procuramos analisar segundo as falas dos moradores as trocas de dádivas presentes no circuito cultural de direitos, procurando neste destaque, afirmar segundo a política de renda para a cidadania, consi- derando a história de vida dos moradores, as dádivas positivadas no cotidia- no urbano da cidade de João Pessoa. Mas para isto precisamos antes acertar o que é a dádiva no sentido teórico, em segundo lugar tentar “traduzir” o

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que é a dádiva nas ciências sociais e, finalmente qual a extensão dos direitos na sociedade em estudo segundo este paradigma.

As ambivalências da Justiça

Exploramos o problema da justiça em suas ambigüidades. Estes proble- mas que envolvem a esfera da justiça se referem às limitações e aos desafios da democracia para uma nova leitura dos direitos. Conforme ensina Bourdieu (2001), podemos encontrar princípios explicativos da realidade em campos diversos do próprio local de observação. Por esta orientação metodológica, poderemos nos reportar tanto para as comunidades em estudo, quanto ao campo diverso da instituição jurídica, no que ambos podem nos dizer acerca de um estado de coisas ou dos problemas que não são de maneira alguma fáceis de serem percebidos e com clareza. Vejamos:

E: O senhor acha que tem direitos, seu José?

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J: Olha, eu tenho sim. Muita gente daqui da comunidade não sabe os direi-

tos que tem, porque a gente não conhece das leis, mas a gente sabe que a

gente tem direito. Há alguns anos atrás eu fui numa audiência lá no Geisel (grifo meu: justiça dos bairros na cidade de João Pessoa, além do centro,

e afora a organização dos conselhos e conselheiros, começa pelo Geisel) e

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quando eu cheguei lá o juiz não fez o que era certo e eu procurei e a gente processou ele – o juiz, a gente processamos ele. (JOSÉ, Dados da Entrevista direta, agosto de 2004)

Nestes campos tão diversos, e até incomparáveis esferas da vida social, o que se mostra são programas políticos interferindo e modificando a vida da comunidade e de seus moradores, nem sempre de forma positiva; no ju- diciário, uma gama de procedimentos são quase sempre opostos às preten- sões urgentes das comunidades. Estes são, no entanto, somente os aspectos estruturais e explicadores da permanência das desigualdades que podem ser percebidas, ainda que individualmente, como a miséria de todos. Dessa maneira, naquela indicação de Bourdieu (2001), buscamos as séries causais que estreitam às regiões mais deserdadas do mundo social aos lugares mais centrais do Estado para levantar as possibilidades de refazer uma história não desejada e para o bom funcionamento das instituições democráticas.

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E: Qual era a discussão? J:A discussão era o seguinte: esse senhor de idade vendia o pão na esquina daqui de casa e esse senhor de idade disse que eu tinha ficado devendo a ele, ta entendendo, porque eu botava o pão e a gente descontava daque- le dinheiro, e eu não paguei aquela promissória que eu tinha assinado. Eu deixei de botar o pão para ele, e ele pegou a promissória e levou para o

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juiz quando eu cheguei lá eu não podia falar e eu fiquei meio aperriado na hora lá, eu conversei expliquei, mas não fizeram o acordo, e foi mandado eu calar a boca. Aí, quando eu saí de lá de dentro da sala eu disse, olhe, eu vou saber se eu tenho direito, que eu não sou nenhuma criança e eu sei que o senhor não agiu certo. E quando eu cheguei lá fora da sala eu procurei o cartório e a moça disse tem um juiz lá dentro que manda neste que está na audiência. (JOSÉ, Entrevista direta, agosto de 2004)

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Conforme a fala do morador, percebem-se as dificuldades internas na concepção e administração do poder judiciário para orientar os indivíduos de comunidades populares, como aqueles do bairro da Torre. Como de- monstra o trabalho de Telles (2001), a pobreza figura nos espaços públicos como um atraso devido às nossas origens patrimoniais, ou como um fardo pesado a ser “administrado” nestas instâncias racionalistas e burocráticas. Este horizonte político se apresenta ainda segundo esta autora como aten- tatório ao exercício da cidadania por estes atores, e das suas disposições ou motivações, também institucionalmente despertadas, para a reivindicação de direitos, que se expressam por conta disso, de forma difícil, nervosa ou reativa. A partir desse imaginário político, referente à questão social da po- breza no Brasil moderno e que atravessa as ações do Estado, nas políticas públicas, como igualmente as práticas da Justiça que estamos descrevendo, importa-nos destacar a fala de um magistrado entrevistado por Bourdieu:

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“o social não tem nada de interessante; é chato e de segunda categoria, não

)

Mas quanto a acompanhar as pessoas em

suas vidas para saber o que se passa com elas e tentar ajudá-las, isso é ”

são os problemas jurídicos (

se trata de judicial nobre (

)

O Judiciário é a redação dos atos judiciais (

)

(BOURDIEU,2001)

Trata-se segundo Jessé Souza de um consenso transclassista, cuja pano valorativo de fundo é europeu, a ser enfrentando na esfera pública. Pensan- do com Bourdieu estas questões estruturais, procuramos levantar alguns dos aspectos institucionais que colocam determinados atores como incapa- citados para a vida pública. Entre estes aspectos, destaca-se a fala de uma moradora da comunidade que se percebe como pouco sábia para a expo- sição das questões significativas que instruiu o processo em que é autora; e do qual comumente poderia ser ré, condição que pesa habitualmente sobre os seus e que deveria ser evitada por ela. Ainda que apresentada de forma individual, nós consideramos importante destacar os limites da fala com a instituição, e o não reconhecimento ou consideração adequada das ques- tões levadas pela moradora. A consequente desarticulação moral e a inibi- ção, ao invés da ampliação de direitos, são aspectos provocados ambigua- mente pela própria Justiça aos atores moradores de contextos de pobreza urbana; é esta a justiça institucional que tem reproduzido a condição ampla da subcidadania entre nós (Souza, 2003).

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A dimensão do reconhecimento ou da consideração adequada dos pro- blemas que integraria moralmente a identidade dos moradores fica a re- boque ou totalmente excluída dos processos judiciais, uma vez que estes moradores possuem limites para o equacionamento das causas – calculadas segundo o valor monetário, e por reparação deste valor, cálculo este imposto pela filtragem - do modo judicial de “reduzir a termo”, situação “de balcão” onde se enquadram as demandas em categorias jurídicas e se encaminham administrativamente as mesmas (Cardoso de Oliveira, 2004). Neste procedi- mento corriqueiro, exclui-se da apreciação das causas uma série de deman- das, preocupações, e aspectos das disputas que são significativas para as partes. Esta justiça convive com uma hiperealidade, a mesma que inspirou a literatura kafkiana, com o absurdo e a incompreensão provenientes das ações dos funcionários do Estado na esfera da Justiça relativamente às clas- ses populares. Senão, vejamos o que a entrevista direta com os moradores acerca das questões relativas a justiça institucional nos revelam acerca do cotidiano e como elas podem orientar uma justiça dos bairros, no bairro da Torre e na cidade de João Pessoa:

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E: Alguma vez aqui o senhor se sentiu desrespeitado nestes direitos? J:Me senti uma vez só. Onde a gente mora ali a rua é estreita e o carro vinha em alta velocidade inclusive este carro era de um cara de fora do vizinho da segunda casa, aí chamou um palavrão com meu filho, aí eu perguntei se ele

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tinha chamado ele disse que não tinha chamado aí eu disse tudo bem, aí ele puxou uma faca pra mim estava bêbado chamaram a polícia a mãe dele

é uma pessoa excelente, começou a passar mal, pediu pra policia não levar

ele, quando a polícia saiu ele me chamou eu sou um pai de família e que eu não ia perder a minha cabeça com ele. Até hoje não falo com ele porque não sou amigo, mas não tenho raiva dele fiquei chateado, a primeira vez que aconteceu isto E: O senhor fez o que para resolver na ocasião? Precisou da ajuda de al- guém?

J:

Olha, eu chamei ele pra conversar numa boa, mas ele saiu com uma faca

e

ele não tava querendo me atender quando a policia chegou ele disse que

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tava com uma faca e que ia me matar, e eu disse que não era pra levar ele estar com uma arma branca é inafiançável, eu contei com a ajuda de Jesus que é o pai criador, e é isso aí E: O senhor precisou da J