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Teoria Literária :

Poetica
Material Teórico
A Estrutura do Poema e a Construção do Sentido: O Efeito da Repetição

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Manoel Francisco Guaranha

Revisão Textual:
Profa. Ms. Silvia Augusta Albert
A Estrutura do Poema e a Construção do Sentido:
O Efeito da Repetição

• Métrica e as Figuras Sonoras do Poema

• Os Efeitos de Sentido da Gradação

• Os Efeitos de Sentido da Personificação: A


Memória Coletiva na Imagem do Cavaleiro
Associado à Morte

·· Nesta unidade, daremos continuidade à análise de textos


poéticos sempre ressaltando os elementos formais e os sentidos
que eles constroem.
·· É necessário que você perceba que não esgotaremos as
possibilidades de análise, mas sempre buscaremos mostrar
como você pode realizar uma leitura dos aspectos formais não
como meros instrumentos produtores de beleza, mas como
veiculadores de mensagens poéticas que ampliam o sentido
do texto.

Para que você consiga apreender de modo adequado o conteúdo da disciplina, é necessário que
realize o seguinte percurso:
a) Leitura da contextualização;
b) Leitura do material teórico (esta leitura deve ser feita várias vezes destacando-se os principais conceitos
ou as definições contidas no texto, bem como procurando compreendê-las por meio dos exemplos);
c) Realização da atividade de sistematização;
d) Realização da atividade de aprofundamento;
e) Consulta ao material complementar fornecido ou visita aos sites sugeridos;
f) Leitura das referências da unidade, especialmente a que se encontra na biblioteca virtual da
universidade. Assim você entrará em contato com diferentes visões sobre o conteúdo abordado,
além de obter um repertório maior de conceitos sobre a lírica e métodos de análise de textos poéticos.
g) Contato com o professor tutor para esclarecer dúvidas ou mesmo expor suas ideias a respeito do assunto.

Atenção
Lembre-se, a disciplina é a distância, mas isso não significa que você está sozinho nesse pro-
cesso: o diálogo é a forma mais produtiva de ensino e aprendizagem. É preciso compreender,
ainda, que o estudo deve ir além dos conteúdos disponibilizados nos textos da unidade e a
forma de fazer isso é consultar a bibliografia indicada.

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Unidade: A Estrutura do Poema e a Construção do Sentido: O Efeito da Repetição

Contextualização

O texto não diz apenas por meio do significado das palavras. Contribuem para a construção
do sentido, sobretudo na poesia: a escolha dos versos, a disposição deles, os recursos sonoros,
a escolha das imagens que representam as ideias, entre outros elementos.
A consciência disso e a prática de leitura que busque destacar esses fenômenos e atribuir-lhes
sentido é parte da competência leitora e permite o desenvolvimento de análises de textos, bem
como nos sensibiliza para a prática de produção textual.
É parte do processo de aprendizagem o preenchimento das lacunas que o enunciador deixa
no material linguístico e por isso é que o texto literário é tão fascinante: trata-se de uma espécie
de jogo e, como em todo jogo, temos de conhecer as regras para poder jogar.
Esta unidade pretende pôr em prática, de forma mais efetiva, os elementos estudados nas
unidades antecedentes de modo a sensibilizá-lo e capacitá-lo a aplicar o instrumental teórico à
análise de futuros textos.
É claro que temos consciência de que não se pode fazer uma leitura de todos os aspectos de
cada texto, uma vez que essa pretensão iria contra o reconhecimento de que o texto literário
é sempre reatualizável, sempre produz novos sentidos em função daquele que o lê. Contudo,
é possível sistematizar o estudo e é isso que nos propomos a fazer nessa disciplina e nessa
unidade, especificamente, em relação à repetição.

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Introdução

De acordo com o que estamos estudando até aqui, a análise de textos literários não é
apenas uma operação de identificar fenômenos e classificá-los. Não adianta só verificar que
os versos têm tal medida, apresentam tal esquema de rimas ou possuem determinadas figuras
de linguagem. O importante é que esses elementos sejam considerados em função do efeito de
sentido que eles produzem, da expressividade que conferem aos textos. Só assim podemos dizer
que estamos praticando uma leitura interativa.
O conteúdo teórico desta unidade procura apresentar um exercício de leitura interativa que
parta dos elementos perceptíveis do poema e mostre como eles ampliam o significado do texto.
Lembram-se do texto “Metáfora”, de Gilberto Gil, estudado na unidade III? Pois bem, é com
esse espírito que você está convidado a analisar o poema a seguir, observando as repetições,
combinadas a outros elementos, e os efeitos de sentido que o texto produz:

A morte a cavalo
A cavalo de galope
a cavalo de galope
a cavalo de galope
lá vem a morte chegando.

A cavalo de galope
a cavalo de galope
a morte numa laçada
vai levando meus amigos.

A cavalo de galope
depois de levar meus pais
a morte sem prazo ou norte
vai levando meus irmãos.

A morte sem avisar


a cavalo de galope
Sem dar tempo de escondê-los
vai levando meus amores.

A morte desembestada
com quatro patas de ferro
a cavalo de galope
foi levando minha vida.

A morte tão depressa


nem repara no que fez.
A cavalo de galope
a cavalo de galope

me deixou sobrante e oco.

Carlos Drummond de Andrade

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Unidade: A Estrutura do Poema e a Construção do Sentido: O Efeito da Repetição

1. A Métrica e as Figuras Sonoras do Poema

O poema “A morte a cavalo” constrói seu sentido basicamente por meio da repetição, recurso
linguístico que sugere a rapidez com que a morte chega e, consequentemente, evoca ideias
como a surpresa que ela nos provoca, apesar de contarmos como certo que ela chegará, (assim
como nos assustamos ao ouvir o som de galope de cavalos).
Também a brevidade da vida humana, inesperadamente tolhida pela morte, é sugerida por
meio do ritmo rápido que o verso heptassílabo ou redondilho maior imprime ao texto. (Lembre-
se de que versos heptassílabos ou redondilhos maiores são aqueles que têm sete sílabas poéticas)
Por outro lado, o fato de a morte vir a cavalo e de galope evoca seu caráter violento, pois a
imagem do cavalo sugere força bruta.
Essas características sonoras e métricas revelam a indissociabilidade entre a forma e o
conteúdo do texto. Contudo, não basta observar apenas a repetição do verso para compreender
o poema. A escolha lexical empreendida pelo sujeito poético também contribui para a eficiência
na transmissão da mensagem.
A expressão “A cavalo de galope” reproduz, de forma onomatopaica, o som surdo da batida
das ferraduras do cavalo no chão, pois possui a consoante bilabial surda /p/, que é produzida
quase sem vibração das cordas vocais. Já ao efeito sonoro produzido pela repetição da consoante
constritiva sonora /l/, reproduz a velocidade do galope.
Há também a repetição de uma sequência vocálica /a/ (vogal aberta); /o/, /e/ (vogais
semifechadas) na expressão: A cavalo de galope. Isso pode sugerir que se parte de algo alegre,
positivo, que é a vida (expressão aberta do /a/), para algo fechado e, em certo sentido negativo,
que é a morte (expressão fechada do /e/ e do /o/).
Quando falamos de repetição sistemática de sons consonantais, estamos falando de um
fenômeno que se chama aliteração, ou pelo menos de um efeito aliterativo, no caso do texto.
Já quando falamos em recorrência de sons vocálicos, o nome do fenômeno é assonância.
Poderíamos dizer que as repetições de palavras ou figuras pleonásticas que ocorrem no textocriam
também figuras sonoras que aumentam o valor expressivo dos versos.

Figuras pleonásticas são aquelas que se baseiam na repetição


de termos ou até de versos inteiros ao longo do texto literário.

Apesar de existir no poema a assonância, não há a ocorrência de rimas externas, ou seja, a


coincidência ou recorrência sonora no final dos versos. Trata-se de versos brancos, excetuando-se
aqueles que se repetem. Nesse caso, a assonância ocorre entre palavras iguais, o que caracteriza
o efeito de eco:

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Em poemas rimados, a recorrência sonora permite que se
tenha um certo padrão dentro do texto, ou seja, o leitor espera
um tipo de som igual ao encontrado no final de algum verso
precedente, há a previsibilidade sonora. Pode-se dizer, portanto,
que os versos brancos quebram essa previsibilidade que os
versos rimados dariam ao texto. É possível concluir desse fato
que a construção está a serviço do conteúdo veiculado pelo
poema, pois a morte, apesar de certa, tem sua chegada de
forma imprevisível. Em outras palavras, a imprevisibilidade
sonora dos versos brancos (aqueles sem rima) aponta para a
imprevisibilidade da morte. Por outro lado, o impacto que ela
nos causa, fica impresso sonoramente no poema por meio do
eco que as passadas do cavalo deixam.
Apesar de imprevisível, a morte é certa, já que é a conclusão do ciclo vital e invade bruscamente
nossa vida. Para materializar linguisticamente tal ideia, a repetição dos versos segue um esquema
decrescente, veja: na primeira estrofe, temos três vezes o mesmo verso “A cavalo de galope”; na
segunda, duas; e na terceira, apenas uma vez, sempre no início de cada estrofe.
E o esquema decrescente continua: na quarta estrofe, a expressão “a cavalo de galope”
aparece com menos destaque, no segundo verso; na quinta estrofe, aparece apenas no terceiro
verso e na sexta estrofe reaparece no terceiro e quarto versos. Pode-se dizer que uma leitura
desse fenômeno sugere que o sujeito poético queira imitar o som do cavalo que passa por nós
e depois vai perdendo-se ao longe, deixando apenas o som distante nos nossos ouvidos. Nesse
caso, recorremos novamente à ideia do eco, observada anteriormente.
Inversamente, a expressão “A morte”, ocorre num sentido crescente: ela abre o poema por
estar no título e aparece novamente no meio do quinto verso da primeira estrofe. Começa a
ganhar destaque na segunda e terceira estrofes, abrindo os terceiros versos de ambas e passa a
figurar de maneira enfática no poema ao ser repetida, por meio de uma estrutura anafórica, no
quarto, quinto e sexto versos.
O que chamamos de estrutura anafórica deriva-se do uso da anáfora em sentido literário (na
linguística, anáfora significa unidades textuais que remetem a outras anteriormente presentes
nos textos). Em sentido literário, anáfora é a figura que consiste no uso da mesma palavra ou
expressão no início de sucessivos segmentos métricos, que é o que ocorre quando o poeta
começa o quarto, quinto e sexto versos com a expressão “A morte”.

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Unidade: A Estrutura do Poema e a Construção do Sentido: O Efeito da Repetição

A morte vai ganhando terreno no poema, o que nos leva a perceber a inserção definitiva
dos efeitos de sua passagem pela vida do sujeito poético: a solidão e o vazio (presente no
significado das palavras: sobrante e oco). Não é à toa que o último verso encontra-se isolado
dos demais (as estrofes de quatro versos, as quadras, agora são substituídas pelo monóstico,
estrofe de um verso apenas), solitário, assim como o sujeito poético que perdeu seus amigos.
Aliás, percebemos que neste último verso a morte parece atingir o próprio “sujeito poético”,
uma vez que ele diz “me deixou sobrante e oco”.
É relevante também, quanto ao aspecto do efeito da morte sobre o sujeito poético, o uso dos
tempos verbais. As ações da morte sobre os outros estão sempre representadas por meio de uma
locução verbal que se constrói por meio de um verbo no presente do indicativo somado a um
verbo no gerúndio: “Vai levando...”(meus amigos, meus irmãos, meus amores). Esse uso verbal
reforça a ideia de ação contínua. Quando se refere a si próprio, contudo, o sujeito usa uma
locução verbal que apresenta o verbo auxiliar no pretérito perfeito do indicativo “foi levando”
(minha vida). Como o pretérito perfeito indica uma ação acabada no passado, é como se o
sujeito se sentisse tão ou mais atingido pela morte do que aqueles que realmente morreram ou
como se a somatória de todas as perdas contínuas resultasse no fim do próprio sujeito poético.
O uso do verbo “deixar” no pretérito, agora sem estar compondo uma locução verbal,
“deixou”, se repete no último verso, o monóstico, construindo, desse modo, a irreversibilidade
dos efeitos da morte sobre o sujeito poético, que se coloca no centro da questão quando usa
o pronome oblíquo “me” no início do verso: “me deixou sobrante e oco”. Observe ainda
que o verso se inicia com o pronome oblíquo “me”. Embora esse procedimento constitua
inadequação em relação à norma culta da língua, deve-se usar “deixou-me” de acordo com as
regras gramaticais, essa construção – bastante utilizada na linguagem oral - expressa de modo
mais informal e, portanto, natural, os sentimentos do sujeito poético, além de colocá-lo no
centro do processo.

2. Os Efeitos de Sentido da Gradação

Há também o uso da gradação no poema. As ações da morte são igualmente progressivas,


gradativas: na primeira estrofe, a morte vai chegando; na segunda, a morte vai levando os amigos
numa laçada; na terceira, leva os pais e os irmãos do sujeito poético “sem prazo ou norte”:

A cavalo de galope
depois de levar meus pais
a morte sem prazo ou norte
vai levando meus irmãos.

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Isso significa que a morte age sem hora marcada e aleatoriamente; na quarta estrofe,
inesperadamente, leva os amores para, finalmente, na quinta estrofe, levar o próprio sujeito
poético, violentamente, “desembestada e com quatro patas de ferro”:

A morte desembestada
com quatro patas de ferro
a cavalo de galope
foi levando minha vida.

Repare, contudo, que esta última ação da morte é metafórica, pois o sujeito ainda vive
biologicamente. Essa morte metafórica sugere que os amigos, irmãos, pais e amores levados
eram a essência da vida do sujeito poético, pois agora que eles se foram, ele ficou oco, ou seja,
sua existência perdeu o sentido.
A gradação, contudo, não segue uma ordem natural, ou seja, a morte não atinge primeiramente
as pessoas mais velhas, os pais, depois os amigos, irmãos e amores. Portanto, o poema não nos
autoriza a dizer que há uma hierarquia quanto à importância afetiva que cada elemento que
morre tem para o sujeito poético. Os fatos apresentados no texto são tão aleatórios quanto a
própria ocorrência da morte que, apesar de certa, nem sempre segue uma lógica quanto à
ordem das pessoas que leva.

3. Os Efeitos de Sentido da Personificação: A Memória Coletiva


na Imagem do Cavaleiro Associado à Morte

É produtivo, ainda, para a análise deste poema, notar o uso de outra figura de retórica: a
personificação ou prosopopeia - que não é uma figura pleonástica - e que consiste em atribuir
qualidades humanas a seres ou objetos inanimados. A morte é personificada: ela chega a
cavalo, ela laça e leva as pessoas de forma violenta (“desembestada, com patas de ferro”) e
insensivelmente (“nem repara no que faz”). Seria o caso de nos perguntarmos se, tratando-se
de um poema moderno, por que o sujeito poético não colocou a morte vindo de carro ou de
avião, já que esses elementos estão indissociavelmente vinculados à nossa vida e também à do
poeta, que viveu no mundo contemporâneo?
Para essa resposta, podemos recorrer ao Dicionário de Símbolos:

...uma crença, que parece estar fixada na memória de todos os povos,


associa originalmente o cavalo às trevas do mundo ctoniano, quer ele surja,
galopante como o sangue nas veias, das entranhas da terra ou das abissais
profundezas do mar. Filho da noite e do mistério, esse cavalo arquetípico
é portador da morte e de vida a um só tempo, ligado ao fogo, destruidor
e triunfador, como também à água, nutriente e asfixiante. (CHEVALIER;
GHEERBRANT, 1990, P. 202-203)

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Unidade: A Estrutura do Poema e a Construção do Sentido: O Efeito da Repetição

Isso explica porque a iconografia antiga representa a morte por meio de um cavaleiro, padrão
encontrável em toda a história da humanidade, desde os tempos primordiais. Na Bíblia, por
exemplo, temos a menção aos quatro cavaleiros, personagens descritos na terceira visão profética
do Apóstolo João em seu livro Apocalipse: Peste, Guerra, Fome e Morte.
Trata-se, aqui, de pensarmos na literatura como uma forma de comunicação inter-humana e
que a constelação de imagens que a compõe transita de geração em geração, por meio de
determinados símbolos ou imagens recorrentes, que estão no inconsciente coletivo, às quais
denominamos arquétipos ou ainda que o discurso sobre a morte recupera a memória coletiva
da humanidade, o que dá à imagem do cavalo uma dimensão mais atemporal do que daria a
imagem do automóvel, por exemplo.

Perceba que nessa breve apreciação do poema,


começamos falando de algo que o caracteriza à
primeira vista: a repetição de elementos. Contudo,
notamos gradualmente que, se as figuras pleonásticas
são a base do poema, elas nos remetem a outros
elementos que devem ser considerados na tentativa
de compreensão ampla do texto: a sonoridade, a
estrutura das estrofes e dos versos, outras figuras
que aparecem ao longo do poema, os símbolos e
imagens utilizados etc. Qualquer elemento que se
destaque num primeiro momento na análise de um
texto não deve ser considerado de forma estanque,
mas deve ser visto como uma peça que atua em
conjunto com outras, já que a obra literária constitui
um processo de significação, instaura um universo
próprio com leis internas que regem sua coerência.

Esperamos com isso ter apresentado um exemplo de como podemos utilizar aqueles recursos
poéticos que estudamos nas unidades anteriores para empreender análises que ultrapassem
a mera descrição dos textos literários. Quanto mais lemos os textos, mais vamos adquirindo
prática de identificar e interpretar os elementos métricos, sonoros, as figuras de linguagem em
função do tema que o poema apresenta.

Agora você deverá fazer a Atividade de Sistematização (AS). Trata-se de uma atividade que
se propõe a mostrar que a poesia desconhece limites quanto a temas. A partir da modernidade
todas as questões frequentam o universo literário, e não só aquelas consideradas nobres como
acontecia na Antiguidade. O excluído e as causas da exclusão são, frequentemente, tratados pelos
poetas que, dessa forma, produzem um discurso engajado. Outro tema que frequenta a poesia
contemporânea é a reflexão sobre a própria linguagem, o que chamamos de metalinguagem.

A leitura que a Atividade de Sistematização propõe destaca as características sociais e


metalinguísticas que se cruzam no poema de João Cabral de Melo Neto, que apresentamos a seguir:

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Rios sem discurso

Quando um rio corta, corta-se de vez


o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água porque ele discorria.
***
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o rio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase a frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

(João Cabral de Melo Neto)

Estanque: estagnada;
grandiloquência: modo afetado de se expressar, que se
utiliza de palavras rebuscadas;
interina: passageira, provisória, temporária.

Atenção

Importante: Leia o poema atentamente e mais de uma vez para responder às perguntas colocadas
na Atividade de Sistematização. Para facilitar, em cada enunciado das questões que a compõem rea-
presentaremos o texto integralmente ou o fragmento que possibilita responder à questão.

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Material Complementar

Para que você possa entender melhor ainda como se analisa poemas, é indispensável que
você leia o livro: CANDIDO, A. Na sala de aula: caderno de análise literária. 8. ed. São Paulo:
Ática, 2000. (E-book)
Para esta atividade, já que abordamos o tema do cavalo e do ritmo, indicamos que você leia
o capítulo “Cavalgada ambígua”, páginas 38 a 53. Nele, o crítico analisa o poema de Álvares
de Azevedo “Meu Sonho”, dando destaque ao ritmo como elemento organizador do texto.
Este livro está disponível na Biblioteca Virtual da Universidade, acessível por meio do link:
http://sites.cruzeirodosulvirtual.com.br/biblioteca. Depois de acessar o sistema com seu login,
clique em “E-books da Pearson (em português)”.
É muito importante você fichar o capítulo, pois assim poderá reler os principais conceitos
sempre que quiser sem ter de recorrer à leitura do capítulo todo. Além disso, o fichamento faz
com que você treine as habilidades de síntese e paráfrase de conceitos.

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Referências

Bibliografia Básica:

GOLDSTEIN, N. S. Versos, sons, ritmos. 14. ed. São Paulo: Ática, 2007. (E-book)

MICHELETTI, G.; BOAVENTURA, A.; CURY, B. Estilística: um modo de ler... poesia. 2.


ed. São Paulo: Andross Editora, 2006.

COUTINHO, A. Notas de Teoria Literária. São Paulo: Vozes Editora, 2008.

Bibliografia Complementar:

BOSI, Alfredo (org.). Leitura de poesia. São Paulo : Ática, 2007. (E-book)

CANDIDO, A. Na sala de aula: caderno de análise literária. 8. ed. São Paulo: Ática, 2000. (E-book)

CHARAUDEAU, P; MAINGUENEAU, D. Dicionário de Análise do Discurso. Trad. Fabiana


Komesu. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2006.

D’ONOFRIO, S. Forma e sentido do texto literário. São Paulo: Ática, 2007. (E-book)

MAINGUENEAU, D. Discurso literário. Trad. de Adail Sobral. São Paulo: Contexto, 2006.

MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. 12ª ed. São Paulo: Cultrix, 1997.

PROENÇA FILHO, D. A linguagem literária. 8. ed. São Paulo: Ática, 2008. (E-book)

SOUZA, R. A. Q. Teoria da literatura. São Paulo: Ática, 2007. (E-book)

TRASK, R. Dicionário de Linguagem e Linguística. Trad. Rodolfo Ilari. São Paulo: Contexto, 2004.

TAVARES, H. Teoria literária. 9. ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989.

ZILBERMAN, R. Estética da recepção e história da literatura. São Paulo: Ática, 2009. (E-book)

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Anotações

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