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ANÁLISE DO POTENCIAL ENERGÉTICO DO BIOGÁS GERADO

NO ATERRO MUNICIPAL DE MANAUS – AMAZONAS

ALEGRIA, Johnny Martin Manrique 1


MATTOS, Carlúzi Santos Silva.2
1
Mestrando em Ciências do Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia pela Universidade Federal do
Amazonas, UFAM. Graduado em Engenharia Ambiental, Universidad Alas Peruanas, Peru. E-mail:
jmanriquealegria@gmail.com
2
Pós-graduada em Iluminação e Design de Interiores pelo Instituto de Pós-Graduação, IPOG. Graduada
em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Salvador, UNIFACS. E-mail:
carluzimattos@hotmail.com

RESUMO
O relevante volume de resíduos sólidos depositados no aterro municipal de Manaus,
Amazonas e a consequente quantidade de metano gerada pela decomposição biológica de
tais vestígios, apresenta um contexto latente, a fim de se investigar o potencial energético
do presente biogás. Neste artigo, propomos realizar uma estimativa de tal potencial para
o referido aterro, através do cálculo do montante de biogás gerado no período de 2010 a
2017. Para tanto, uma análise descritiva de dados coletados foi feita para o mesmo
período, contemplando as variáveis: crescimento populacional; produto interno bruto -
PIB; geração de resíduos sólidos e geração de metano (CH4). Para a estimativa deste,
utilizamos a referência de fluxo mensal de gases no “flare” e a percentagem de metano,
deduzindo assim o volume em metros cúbicos (m³). Adotou-se uma taxa de conversão de
1m3 de CH4 equivalente à 1,43 Kwh proposta por dois autores, para o cálculo do potencial
energético. A partir dos resultados analisados, observou-se uma tendência ao crescimento
da geração de metano e do potencial de energia elétrica, podendo existir um
aperfeiçoamento do processo, considerando os benefícios de tecnologias em paralelo a
um contexto mercadológico de materiais reciclados. Além disto, observamos a
necessidade de se determinar a finalidade do aterro voltada para a geração de energia, o
que viabilizará o empreendimento com maior eficiência, conjuntamente com o apoio de
um modelo de gestão de resíduos sólidos para esta finalidade, o que atenderá a previsão
para 2019 de geração de energia através de biogás do Plano Municipal de Gestão
Integrada de Resíduos Sólidos de Manaus – PMGIRS.
Palavras - Chave: Recuperação Energética; Biogás; Aterro Sanitário; Resíduos Sólidos;
Manaus.

1. INTRODUÇÃO

A política brasileira de resíduos sólidos representa os esforços em promover uma


adequada disposição final destes. Esta política busca proporcionar a recuperação
energética de tais resíduos municipais, por meio de técnicas como a queima do biogás
gerado nos aterros sanitários, a incineração de resíduos sólidos em função à viabilidade

1
apresentada pelos mesmos (FERREIRA et al., 2018). A geração de energia a partir de
aterros tem sido uma alternativa para o manejo e aproveitamento dos gases remanescentes
destes locais, além de permitir a venda de créditos de carbono, incentivo da esfera
internacional.

A considerar o Plano Nacional de Energia 2030 brasileiro, do Ministério de Minas e


Energia - MME e da Empresa de Pesquisa Energética - EPE (2007), nada foi identificado
acerca de geração de energia a partir de resíduos sólidos. Contudo, este mesmo ministério
define as diretrizes para o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia
Elétrica – Proinfa, lei 11.493/2009, a fim de ampliar a diversidade da matriz energética
brasileira (MME, s/a), que segundo Machado (2014), cabe aperfeiçoamento nesta política
de incentivo, para fins de considerar eficientemente o recurso energético oriundo de
resíduos, de forma a viabilizá-la.

O MME lançou em 2016 o RenovaBio, em que se trata da Política Nacional de


Biocombustíveis, cujo decreto que a regulamenta é o de nº 9.308/2018. Esta política
pretende favorecer combustíveis que emitem baixo carbono, dentre eles o biogás
resultado de resíduos orgânicos. Pretende-se, através do Crédito de Descarbonização –
CBIO, que é um ativo financeiro negociável em bolsa a ser emitido por quem produz tal
biocombustível na comercialização, valorizar a presente fonte energética através de
remuneração por serviço ambiental (MME, 2018a e 2018b).

Além disto, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela lei 12.305/2010,
em seu artigo 7º, inciso XIV, contempla como objetivo a inclusão da exploração
energética, a partir do reaproveitamento destes resíduos, através do fomento à elaboração
de sistemas de gestão ambiental e empresarial. Inclusive, permite em suas diretrizes
aplicáveis, artigo 9º, parágrafo 1º, a utilização de tecnologias para a recuperação
energética dos mencionados resíduos de forma comprovada sobre sua viabilidade, bem
como contemplando o monitoramento de emissão de gases tóxicos.

Contemplando a capital amazonense, considera-se o Plano Municipal de Gestão


Integrada de Resíduos Sólidos de Manaus – PMGIRS, no qual descreve o sistema de
captação de gás do aterro municipal, cujo controle é feito junto à um medidor de biogás,
e prevê para 2019 a geração de energia, a partir da disposição final de tais resíduos
(SEMULSP, 2015)

Dentre os fatores que compõem a problemática considerada nesta pesquisa, tem-se: a


quantidade de resíduos sólidos gerados na cidade de Manaus, que, conforme (SEMULSP,
2017), a massa coletada corresponde à média diária de 2.432,21 t/dia para o mencionado
ano; o consequente volume de metano oriundo da decomposição biológica dos resíduos
sólidos orgânicos do aterro municipal, produzido em média 55% deste gás para o ano de
2017, conforme processamento dos dados fornecidos pela citada secretaria; bem como a
sua relevante demanda energética, identificada através do histórico mensal de consumo,
fornecido pela Amazonas Energia – Eletrobras, cuja média calculada neste trabalho
referente à 2017 corresponde à 290.514,37 Mwh. Tais aspectos conduziram à busca por
tentar entender o comportamento destes resíduos sólidos e da geração de metano no citado

2
aterro municipal, contemplando a hipótese de existir um potencial energético inerente ao
sistema.

O motivo desta investigação baseia-se, além das políticas, leis e planos acima
tratados, no compromisso assumido pelo Brasil em 2015, junto à Organização das Nações
Unidas - ONU, através da adoção do Acordo de Paris, em que visa a redução na emissão
de gases do efeito estufa – GEE. Este acordo foi ratificado em 2016, o que tornam as
metas brasileiras um compromisso oficial. A considerar a Pretendida Contribuição
Nacionalmente Determinada - intended Nationally Determined Contribution – iNDC do
Brasil (MMA, 2012), dentre as mitigações destacam-se: contribuir em 37% com a
redução de emissões dos gases de efeito estufa até 2025, a considerar os níveis abaixo de
2005, e abranger o território nacional por completo, contemplando, dentre os gases
mencionados, o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4), estes produtos de aterros
sanitários em questão. Tal propósito converge para o cumprimento do Objetivo de
Desenvolvimento Sustentável – ODS número treze, referente a providências inevitáveis,
a fim de reagir contra a mudança climática e respectivos impactos, cujas metas estão
presentes no plano de ação global, Agenda 2030 (ONU, 2015).
O presente trabalho propõe realizar uma estimativa do potencial energético do
aterro sanitário da cidade de Manaus por meio do cálculo da quantidade de biogás gerado
em função do material recebido anualmente desde o ano 2010 até o ano 2017. O potencial
energético é comparado com o comportamento da geração de resíduos sólidos, o
crescimento populacional da cidade e o produto interno bruto - PIB para a mesma faixa
temporal, com a finalidade de analisar os comportamentos destas variáveis. Cabe
destacar, que o tempo de vida útil do aterro municipal de Manaus encontrasse previsto
até o ano de 2021 (SEMULSP, 2015), com isso pretende-se contribuir na discussão dos
dados levantados com a gestão, o projeto e a construção do próximo aterro sanitário para
a referida cidade, de preferência este, diante dos compromissos firmados e impactos
ambientais hoje vivenciados, voltado para a geração de energia.

1.1. Resíduos Sólidos Urbanos

O crescimento populacional, o desenvolvimento econômico e aumento da


urbanização são problemáticas que influenciam diretamente na geração de resíduos
sólidos. Os países em desenvolvimento enfrentam grandes desafios na gestão e manejo
destes, sendo que a disposição inadequada dos mesmos causa inúmeros perigos a
sociedade e ao ambiente (DHAR et al., 2017).

No Brasil, foram geradas 214.868 t/d de resíduos sólidos em 2017 registrando um


aumento de 1% com respeito ao ano 2016, 212.753 t/d. O índice de coleta de resíduos
sólidos foi de 91,6%, sendo que 6,9% de resíduos não foram objeto de coleta e
consequentemente tiveram destino impróprio, na sua maioria, ambientes naturais, corpos
de água e florestas (ABRELPE, 2017).

3
O comportamento da disposição dos resíduos sólidos pode ser observado em
função dos dados de disposição final destes por município. Segundo a Tabela 1, pode-se
observar um crescimento na quantidade de lixões, em contraste ao decréscimo na
quantidade de aterros sanitários e aterros controlados. Isto significa um relevante
problema, a considerar que os lixões não dispõem de nenhum controle dos impactos
ambientais produzidos por este tipo de destino.

Na região Norte do país, o índice de coleta de resíduos sólidos no ano 2017 foi
de 81,27%, sendo que foram gerados 196.050 t/d, o valor de resíduos não coletados foi
de 5,81 milhões de toneladas. Na cidade de Manaus foram coletados 887.759,750
toneladas de resíduos sólidos no ano 2017, esta quantidade foi disposta no aterro
municipal da referida cidade (SEMULSP, 2017).

Disposição Brasil 2017- Regiões e Brasil


Brasil
final 2016 Norte Nordeste Centro-Oeste Sudeste Sul
Aterro
2239 90 449 159 817 703 2218
sanitário
Aterro
1772 108 484 159 634 357 1742
controlado
Lixão 1559 252 861 149 217 131 1610
Brasil 5570 450 1794 467 1668 1191 5570

Tabela 1 - Disposição final por Município, Brasil 2016-2017. Fonte: ABRELPE, 2017.

1.2. Energia em Aterros Sanitários

Diferentes autores têm discutido sobre a viabilidade do aproveitamento energético


em aterros sanitários. Estes são definidos como uma técnica de manejo de resíduos
sólidos, os quais são dispostos em camadas de terra com a finalidade de reduzir os
impactos negativos, por meio de recuperação de biogás e tratamento de chorume
(KUMAR e SAMADDER, 2017). BARROS et al. (2013) menciona que há viabilidade
para a geração de energia por meio de queima do biogás em aterros sanitários, em cidades
que tenham mais de 200.000 habitantes. O potencial brasileiro de geração de energia em
aterros é de 1,6 Gw (SANTOS et al., 2018), sendo que a população da cidade de Manaus
em 2017 atingiu a marca de 2.130.264 habitantes (SEMULSP, 2017), o que teoricamente
demonstra a existência de significativo potencial de aproveitamento energético por meio
desta alternativa.
A partir de estudo elaborado pela ARCADIS (PNUD, 2010), a pedido do Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD e o Ministério do Meio Ambiente –
MMA, cuja pesquisa buscou a potencialidade dos resíduos de saneamento na geração de
energia, com fins de impulsionar o uso de biogás como energia renovável alternativa no
Brasil, este contemplou 56 locais pesquisados, definidos a partir de critérios específicos,

4
o que se calculou a curva de vazão do biogás entre 2010 e 2020. Os potenciais energéticos
estimados somados para 2010 foram de 311Mw de potência instalada de biogás,
resultante da decomposição de resíduos sólidos municipais, o que, segundo o trabalho,
tem a capacidade de abastecer uma população de 5,6 milhões de habitantes. Cabe
destacar, que o estudo menciona visita técnica realizada ao aterro de Manaus, dentre os
onze considerados nas visitas, como forma estratégica de entendimento das diversas
características dos municípios brasileiros em suas respectivas regiões.

O aterro municipal da cidade de Manaus funciona desde 1986, recebendo resíduos


sólidos de classe II em conformidade com a ABNT NBR10.004 (SEMULSP, 2015), a
qual corresponde a resíduos de coleta domiciliar, coleta manual, coleta mecanizada,
coleta de poda e coleta seletiva (refugo). Alocado no km 19 da rodovia AM-010, conta
com uma área de 55 ha. O processo de confinamento dos resíduos sólidos no aterro passa
por espalhamento em camadas, compactação, colocação de camada de cobertura (15 – 30
cm de solo inerte) e fechamento da célula para continuar com as seguintes camadas
alternadas entre resíduo e solo inerte.

Segundo a proposta do Plano Municipal de Gestão Integrada dos Resíduos Sólidos


elaborado em 2015 pela Secretaria Municipal de Limpeza Pública, o aterro municipal tem
capacidade para receber diariamente 2250 t/d, no entanto, segundo o relatório de
atividades da SEMULSP, o volume de resíduos recebidos diariamente no ano 2017
corresponde a 2432,218 t/d, situação similar foi apresentada em 2016. A Tabela 2 expõe
os valores da geração de resíduos sólidos desde 2010. A importância deste dado repercute
no tempo de vida útil do aterro, o qual foi projetado até maio de 2021 (SEMULSP, 2015)
e consequentemente na geração de biogás.

Resíduos sólidos coletados Média diária


Anos
(ton.) (t/d)
2010 1088172,09 2981,29
2011 1215678,16 3330,63
2012 947420,87 2595,67
2013 947445,83 2595,74
2014 1027678,06 2815,56
2015 1045254,76 2863,71
2016 881281,13 2414,47
2017 887759,75 2432,22

Tabela 2 - Resíduos sólidos recebidos no aterro municipal de Manaus.


Dados fornecidos por SEMULSP
Desde 2008, o aterro conta com uma usina de queima de biogás. A usina consta
de uma rede se sistemas de coleta horizontais e sopradores centrífugos, os quais
direcionam os gases remanescentes ao queimador ou “flare”. Além disto, conta com um
sistema de tabulação, o qual realiza a quantificação do biogás gerado e posteriormente
queimado, permitindo a sua troca por créditos de carbono.

5
No ano 2017, foram gerados 30253 m3 de metano1 no aterro municipal da cidade
de Manaus, cujo dado corresponde a uma geração energética de 149 Mwh. Esta produção
representa uma potencialidade para contribuição na alimentação da rede elétrica.

2. METODOLOGIA

O presente estudo realiza uma análise descritiva de dados coletados para a cidade de
Manaus, no período de 2010 a 2017, dos quais são analisadas variáveis, como:
crescimento populacional; produto interno bruto - PIB; geração de resíduos sólidos e
geração de metano, em função do volume de resíduos sólidos e potencial de geração de
energia. Os dados de geração de tais resíduos foram coletados no aterro municipal da
corrente cidade; o dado relativo ao crescimento populacional teve como fonte de
informação o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, assim como os dados
do PIB. Para a obtenção deste referente aos anos 2016 e 2017, foi realizada uma projeção
estatística segundo o comportamento observado nos anos de 2010 a 2015.

Para a estimativa do metano foi utilizado como referência o dado de fluxo mensal de
gases ingressados ao “flare” e a percentagem do mesmo. Foi deduzido o volume em
metros cúbicos - m3 do gás produzido desde 2010 a 2017. Para o cálculo do potencial
energético, foi considerada a taxa de conversão de 1m3 de metano equivalente à 1,43
Kwh, segundo Ferreira et al. (2018) e Almeyda (2016).

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A cidade de Manaus contou com uma população de 2.130.264 habitantes no ano 2017
(IBGE, 2018), valor que vem aumentando em 1,9% aproximadamente desde o ano 2010.
Este desdobramento populacional foi acompanhado por uma tendência de crescimento no
PIB per capita, refletido no período 2010-2011 com um valor de 8% e no período de 2013
-2014 com um valor de 3,6%. Um comportamento concomitante encontra-se refletido na
geração per capita de resíduos sólidos, a qual acompanha as variações do PIB ao longo
da série de dados. O procedimento contrário é estudado por Tavares (2013), mencionando
uma dissociação entre o comportamento de ambas variáveis, a partir do surgimento de
áreas de recuperação e reciclagem, porém no caso da área em estudo este setor
encontrasse ainda em desenvolvimento. Segundo o relatório de atividades da SEMULSP
(2017), o percentual de participação do programa de coleta seletiva representa 0,1% dos
resíduos sólidos gerados.
Um comportamento de decrescimento do PIB é observado no ano 2012, este
comportamento se viu refletido na geração de resíduos sólidos, tendo como responsável
principal o baixo desempenho da indústria de transformação (SOUZA, 2014).

¹Valor obtido a partir de dados fornecidos pela SEMULSP

6
2.00

RESÍDUOS SÓLIDOS (TON)


2.6

POPULAÇÃO (MILHÕES)
1.50
2.2
1.00
1.8
0.50
1.4
0.00
2 0 1 02 0 1 12 0 1 22 0 1 32 0 1 42 0 1 52 0 1 62 0 1 7 1
TEMPO (ANOS) 20102011201220132014201520162017
TEMPO (ANOS)

37000
35000
PIB PER CÁPITA R$

33000
31000
29000
27000
25000
2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017
TEMPO (ANOS)

Gráfico 1: Comportamento de variáveis 2010-2017. 1a Resíduos sólidos, fonte dados


fornecidos por SEMULSP. 1b Crescimento demográfico, fonte IBGE (2018). 1c PIB
per capita, fonte IBGE (2018).

Segundo o Gráfico 1, é possível observar uma queda na geração de resíduos sólidos


dispostos no aterro municipal para 15% e 14,3%, referente aos anos de 2016 e 2017
respectivamente, em comparação com a média dos anos 2010 até 2015. Este
comportamento tem uma possível explicação em função da aparição de lixões no distrito
industrial da cidade (CARVALHO, 2015). Esta problemática é complexa e tem a ver com
o controle e a fiscalização dos resíduos sólidos especiais. Segundo a proposta do Plano
Municipal de Gestão de Resíduos Sólidos de Manaus – PMGRS (2015), a gestão destes
vestígios especiais tais como resíduos industriais, de transporte, construção e demolição,
além de serviços de saúde são de responsabilidade direta dos geradores. Isto significa que
os diferentes atores devem implementar planos de gestão de resíduos que contemplem a
empresas terceiras para a disposição final dos seus resíduos. Por fim, a falta de
fiscalização e monitoramento das referidas empresas de gestão de resíduos sólidos faz
com que não só resíduos especiais sejam dispostos por essas empresas se não também
resíduos domésticos, uma ocorrência do anteriormente mencionado é o caso do lixão da
colônia Antônio Aleixo (CAMPINAS, 2018).
O potencial energético do aterro municipal apresenta um comportamento crescente
segundo o Gráfico 2, observa-se que, a pesar da queda na quantidade resíduos sólidos
recebidos pelo aterro nos anos 2011-2012 e 2015-2016, o potencial energético do aterro

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não acompanhou esse comportamento principalmente pela geração contínua de metano.
Segundo o registro de gases ao “flare”, o metano presente no biogás não apresentou
quedas. Isto é explicado pelas etapas da biodigestão anaeróbica, as quais dependem de
variáveis como a temperatura do sistema, o PH, a concentração de matéria orgânica, as
substâncias inibidoras do desenvolvimento microbiano, tais como metais pesados, entre
outros. Assim, a quantidade de metano gerada no aterro sanitário não responde a um valor
pontual, se não a uma variação temporal.

1,400,000 2000.00

Petencial Energetico Mwh*


1,200,000
1,000,000 1500.00
Resíduso sólidos (ton)

800,000
1000.00
600,000
400,000 500.00
200,000
0 0.00
2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017
RS P.E

Gráfico 2: Comportamento resíduos sólidos e potencial elétrico do aterro municipal de


Manaus 2010 -2017. * 1 m3 de biogás conteúdo de CH4 50% equivalente a 4,95 Kwh (Almeida, 2016)

A pesquisa realizada por BARROS et al. (2014) apresenta diferentes cenários de


geração de energia a partir do aproveitamento do biogás gerado em aterros sanitários,
obtendo como resultado uma viabilidade econômica para o aproveitamento em
populações acima de 200.000 habitantes. Porém, a viabilidade do empreendimento
encontra-se em função da finalidade do aterro sanitário, sendo voltada a geração de
energia e o importante apoio de políticas públicas municipais, as quais definam um
modelo de gestão de resíduos sólidos voltado para este fim. Isto é de relevante
importância com miras na construção do próximo aterro sanitário na cidade de Manaus.
Os Gráficos 1 e 2 apresentam um comportamento de geração de metano e de potencial de
energia elétrica com uma tendência ao crescimento, cujo desempenho pode ser
aprimorado contemplando, como proposto por SANTOS et al. (2019) em seu estudo, o
aproveitamento de tecnologias, dentre elas: usinas de incineração de resíduos ou reatores
de produção de biogás, juntamente com o mercado de vendas de materiais reciclados.
Segundo este mesmo autor, para um município de 500.000 habitantes em um período de
20 anos, seriam geradas 24108 Gwh/ano, por meio de recuperação de biogás em um aterro
sanitário.

8
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise dos dados mostrou que a geração de metano produzido no aterro municipal
de Manaus, mesmo não sendo dimensionado com uma finalidade de geração energética,
apresentam potencial para gerar em média 1500 Mwh de energia ao ano. Este valor
constitui uma quantidade de energia que poderia ser subministrada à rede pública. A usina
de queima de biogás, atualmente em funcionamento, representa uma alternativa de
manejo de gases adequada para o aterro, considerando a sua finalidade de confinamento
e não de aproveitamento energético e o decorrente aproveitamento dos créditos de
carbono. Sugere-se à entidade responsável pelo gerenciamento do aterro realizar uma
vigilância da quantidade de resíduos ingressados, com a finalidade de não ultrapassar a
capacidade de carga do aterro, além disso de evitar a diminuição da vida útil do mesmo,
o que facilita o monitoramento dos impactos decorrentes desta atividade.

O sistema municipal de gestão de resíduos sólidos poderia direcionar o foco da gestão


em função ao aproveitamento energético dos resíduos sólidos, impulsionando o programa
de coleta seletiva e mantendo um adequado registro e vigilância das empresas dedicadas
à gestão de resíduos sólidos especiais. Sugerem-se pesquisas que utilizem ferramentas de
modelamento como software “LandGem”, já que permitem as análises da viabilidade de
usinas de Biogás e aproveitamento energético a partir de uma determinada quantidade de
população e um volume estimado de geração de resíduos. Contudo, o aterro municipal da
cidade de Manaus e o próximo aterro a ser implementado, representam uma oportunidade
de melhoria na gestão de resíduos sólidos no estado de Amazonas, experiência esta que
deve ser replicada nos demais municípios do estado.

REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS

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Policy, v. 65, p. 150–164, 2013.
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<https://www.acritica.com/channels/manaus/news/lixoes-clandestinos-cobram-mais-
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