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O Teatro em Mato Grosso

Prof. Dr. Aguinaldo Rodrigues da Silva

Época áurea do teatro – século XVIII

As pessoas vão ao teatro, gostam, mas não têm uma leitura a respeito desse
mundo do teatro.

O teatro é uma manifestação tão antiga quanto o ato de fingir inerente do


homem. O ato da representação é tão antigo quanto o homem. Desde que o homem é
homem ele faceia a realidade.

A nossa vivência em sociedade é uma representação por mais verdadeira que


seja a pessoa no seu caráter.

O teatro realista nos diz que o mundo é um grande palco, onde representamos o
tempo todo. A nossa casa é nosso camarim, onde nós colocamos o nosso figurino.
Nosso guarda-roupa, e escolhemos conforme a ocasião social que vamos ter, assim
como os atores faz antes de entrar no palco e representar.

A linguagem nós temos que utilizar apropriadamente conforme o contexto que


nos cerca. As maquiagens, a roupa, tudo isso é próprio desse ato de falsear, de
representar, que nada tem a ver com o caráter. São questões diferentes.

O mundo do teatro pressupõe dois lugares diferentes, o lugar físico do teatro: o


mundo da realidade, em que está o público, expectador, que sabe que está indo para
aquele local assistir algo que está sendo falseado, e o mundo da mentira, da
representação que é o palco, que na teoria da arte nós chamamos de Tableau. O tableau
do teatro é o palco e este palco é como se fosse um mini mundo onde os personagens
tomam vida. Aqueles personagens que no romance, no conto, na trama, ou no poema ou
no script do diretor, um ser de papel, de mentira, fictício, representativo, ele toma vida
porque os atores encarnam esse personagem. É como se o ator se transformasse nessa
personagem, tentasse se aproximar ao máximo da forma como o autor descreveu o
caráter, a forma de ser daquele ser de papel.

A peça teatral tem a capacidade de emocionar, por mais que você sabe que é
uma representação, parece verdade.

No nosso contexto do Estado de Mato Grosso, como está o teatro?

Como foi?

O teatro, de maneira geral, e não podia ser diferente em Mato Grosso, está
muito ligado, no início, ao folclore e às tradições, porque a tradição e o folclore é algo
que tem muita ligação e origem na oralidade, uma ligação muito íntima com a cultura
popular, o ser humano, o mito e o rito.
Desde sempre, quando o homem se apega ao rito e ao mito, é uma forma de
representação, é o homem fazendo teatro.

Quando temos, por exemplo, na cultura africana, e temos porque somos uma
miscigenação, no Brasil, do branco, do índio, do negro, lembremos o Macunaíma de
Mário de Andrade, essa metáfora dessa miscigenação, que temos no Brasil. Então o rito,
quando nos lembramos da cultura africana, na festa do congo, da cavalhada, tem-se
vários rituais, representações, é o teatro que está sendo desenvolvido ali, ligado às
outras artes, plásticas, visuais, dança, música, os índios com seus rituais, aquelas danças
antigamente pra chamar a chuva. Era uma forma de representação. Até hoje nós temos
etnias, nós sabemos, pelo Brasil, que ainda fazem esses ritos, essas representações.
Tudo isso tem a ver com o teatro, o folclore e as danças.

O ciclo do ouro e as influências culturais

No século XVIII, como nos indica o Lott, o Moura que foram os precursores
do teatro em Mato Grosso, o teatro colonial, aquela época em que se denominou o ciclo
do ouro, em que recebíamos em Mato Grosso muita influência de uma cultura européia,
vinham várias peças da Europa para o Brasil, essas peças chegavam a Mato Grosso, elas
eram adaptadas ao gosto português, a ideologia dominante européia portuguesa
colocavam elementos da cultura local, do índio, do negro, então o palco se tornava esse
pequeno mundo, mundo da representação, se tornava um lugar de congregação, onde
índios, negros e brancos conviviam. Mas certamente que essas peças que eram
colocadas para que esse grupo de pessoas representassem, e ao mesmo tempo
brincassem e também fossem evangelizadas, ali havia uma carga muito forte, uma carga
ideológica do dominador sobre o dominado. Ficava muito claro nessas adaptações quem
manda e quem deve obedecer nessas peças teatrais que eram adaptadas.

Momento de riqueza cultural

Nós temos a fase da mineração, que foi um momento de grande efervescência


cultural. O século XVIII é considerado a época áurea do teatro matogrossensse.

Nesse período da fase da mineração, Mato Grosso foi o lugar no Brasil que
mais teve representações teatrais. O total de peças representadas em Mato Grosso, que
somam mais de setenta, quase cem, é uma somatória de peças que foram representadas
no Brasil todo, e assim mesmo, esse total de peças somadas, não dão o total de peças
que foram representadas em Mato Grosso. E essa comprovação se dá por meio de dois
grandes documentos que o Moura e o Lott vãos discutir em seus livros, essas peças
tinham uma carga ideologia muito grande e também, o professor imortal Sebastião
Carlos Gomes de Carvalho depois vai escrever sobre a primeira crítica teatral em Mato
Grosso, belíssimo livro que vai tratar dessa história do teatro, todos esses documentos
indicam que Mato Grosso teve esse período áureo, uma grande época do teatro, o que
depois morre no século XIX. Há uma tentativa e no século XX há uma retomada.
Sobre os dois documentos que comprovam esse momento cultural de grande
efervescência no nosso Estado, a lista das pessoas e a crítica das festas, dois
documentos comprobatórios, dois livros onde eram registradas crônicas das peças
representadas. Esses documentos foram encontrados, analisados, disponibilizados, se
nós formos pegar Moura, Lott, o próprio Sebastião Carlos vamos encontrar referência
dessas fontes, onde podemos ter o contato com esses documentos. Então
comprovadamente já foi pesquisado isso.

As peças representadas, (a professora Beth Siqueira já falou) essas peças são


peças européias, não vinham tal qual a original, sofriam adaptações devido aos fatores
citados, nós éramos colonizados, então nessa adaptação ao gosto português essas peças
sofriam todas modificações ideológicas de uma cultura dominante que queria sobrepor a
sua cultura.

Nesse período do século XVIII, período colonial em que nós tínhamos essa
efervescência cultural, havia uma tentativa muito grande dos portugueses dessa
ideologia dominante européia em refinar o gosto das pessoas do local, da nossa região
matogrossensse. Que eram consideradas rústicas, sem cultura, por isso eles traziam
óperas, entremeses, peças de teatro, músicas pra tentar refinar o gosto de pessoas tão
sem cultura, e ao mesmo tempo a presença da religião pra evangelizar e o cunho político
dominante.

Catequização dos nativos, peças com temáticas evangelizadoras, a integração


de colonizados e colonizadores, o palco se tornava um lugar de congregação. Havia uma
relação metrópole/colônia, dominação pela cultura, ideologia, tudo era motivo, na época
da colonização e Mato Grosso não fica fora disso, para que houvesse uma representação
teatral, a representação de uma ópera, uma entremés (representação de uma peça muito
curta). O rei fazia aniversário lá em Lisboa, então se fazia uma semana de festa no
Brasil e Mato Grosso acompanhava, uma semana de festa em Mato Grosso, com várias
representações para comemorar o aniversário do rei. A mãe da rainha fazia aniversário,
nascia alguém em Portugal, era uma semana de festa popular, aí eles aproveitavam para
essas representações.

Aqui eu apresento um já conhecido de todos nós, o Padre Raimundo da


Conceição Pombo Moreira da Cruz. Grande escritor, entre suas produções nós temos
cinco peças de teatro, notáveis peças de teatro que eu me ocupei de análise, de publicar
artigos dessas peças, de colocar no volume sobre o teatro matogrossensse que eu
publiquei em 2010.

Na minha concepção, o Padre Pombo se põe como o principal dramaturgo de


Mato Grosso de todos os tempos. Ele publicou entre cinqüenta e sessenta, mas são
peças que ficaram para a história da literatura matogrossensse, do teatro
matogrossensse, ou melhor, do teatro e da literatura brasileira produzido em Mato
Grosso, porque a gente não pode ficar fora desse contexto nacional.
O Padre Pombo, além de escritor, além de religioso, ele foi um grande político.
Ele quase chegou a ser governador de Mato Grosso, e eu fui remexer alguns arquivos
sobre o Padre Pombo quando eu estava pesquisando sobre ele para o meu volume do
teatro matogrossensse. E eu encontrei alguns jornais, no âmbito nacional, que
consideravam a perda do Padre Pombo na época em que ele concorria como
governador, um dos maiores roubos da política nacional.

Essa repercussão não foi só na região matogrossensse, mas foi em nível


nacional, porque eu encontrei essa referência em jornais nacionais.

Padre Pombo publicou essas cinco peças: Sinal Misterioso, O Último Pelotão,
Educação Moderna, A Múmia de Tibiriçá, Caduquice de Avô.

A gente fala assim: Nossa! Mas ele era um religioso, as peças dele deve ser um
saco. Deve ser algo assim tão rígido! E não! Padre Pombo escreveu comédias. Agora
vocês imaginem um religioso da estirpe que ele chegou, escrever comédias. A Múmia
de Tibiriçá é uma comédia, Caduquices de Avô é uma comédia. Todas as peças do
Padre Pombo tem um toque de humor. Ele brinca com o todo, com a vida. Uma pessoa
bastante descontraída, é esse padre Pombo que nós temos no teatro. O teatro dele, é
lógico, todas as peças dele contém a sua ideologia religiosa, a sua ideologia como
político, mas é uma peça que diverte, as peças do Pombo, quando encenadas são
apreciadas por crianças, jovens, adolescentes, adultos, todos, e é de fácil leitura também.

Aqui eu cito o Sinal Misterioso que é de 1958, aí eu tiro um trechinho do Padre


Paulo, que é uma personagem, então sempre há um padre na peça, que, não é ele, mas
seria o sujeito lírico, a representação dele enquanto sujeito lírico, e nessa peça, Sinal
Misterioso, ele coloca um personagem que se chama de Padre Paulo, e um outro
personagem chega pra reclamar de um dos seus coroinhas, um de seus pupilos:

“O que vim fazer é um protesto contra a educação que o senhor, que se diz ministro de Deus,
lhe está dando. Então o chicote lhe ensinará. Escute o que lhe vou dizer: se mais uma vez o seu pupilo
aparecer na minha fazenda, dou-lhe uma surra tal que se lembrará de mim ainda 15 minutos depois de
morto.” E sai pisando duro. “Ora sim senhor, só isto!”

Então este personagem criticando a educação pela evangelização e dizendo que


é preciso dar uma surra para educar as crianças e tal, e ele, se posicionando sempre nas
suas peças contra qualquer tipo de violência contra crianças, contra o jovem, contra o
ser humano.

As peças de Padre Pombo foram publicadas pela ordem a que ele pertencia,
Salesiano Dom Bosco.

Outros dramaturgos que fizeram diferença no nosso teatro no século XX:


Zulmira Canavarros, fundamentalmente publicou peças musicadas, as produções estão
entre as décadas de 20 e 30 do século XX. A Última Derrota de Piero, que ela musicou e
havia também todo um contexto de teatralização dessa música.
Amauri Tangará é um grande ícone do teatro matogrossensse da década de 70,
nos legou muitas peças. E ele vive, ao que chega a nós, até hoje, na Europa. Cito uma
peça: Chão Nosso de Cada Dia.

A Glorinha Albues, Rio Abaixo, Rio Acima é uma peça bastante famosa
também, a Glorinha é um outro ícone da nossa dramaturgia. Fundamentalmente, em
Mato Grosso, a produção da Glorinha é da década de 70 e 80. Tanto o Amauri quanto a
Glorinha fizeram escola de teatro em Mato Grosso. Fizeram uma grande diferença.
Então a gente precisa fazer essa reverência e referência a eles.

Outros dramaturgos que, já na segunda metade do século XX, que está entre nós até
hoje, atuando, que eu gostaria de citar, é Israel Figueiredo. Israel Figueiredo escreveu
uma peça que fala da cultura cuiabana, a peça O Clube do Caju Doce, quando, uma
época em que os cuiabanos, na visão dele, sofriam uma grande invasão da cultura
estrangeira, então em O Clube do Caju Doce, ele queria um grupo de mulheres
cuiabanas que se tornem as defensoras da cultura de Cuiabá e elas declaram guerra
mesmo a essa invasão. A peça é uma comédia muito gostosa de ler, muito engraçada.

O Astrevo, Justino Astrevo Aguiar, que nós conhecemos da dupla Nico e Lau,
o Lau é o Justino, que sempre escreve as peças, eles são da Companhia de Teatro
Folhas, inovaram a dramaturgia matogrossensse, muitos falam, criticam, mas eles
trouxeram uma inovação. Tudo que é novo cria resistência, nós sabemos disso, mas nós
precisamos fazer essa referência desse grande dramaturgo que é o Justino.

O Agostinho Domingos Bizinoto, aí entra o interior, ele é de Alta Floresta, e


ele tem feito há muito tempo a diferença no teatro matogrossensse com várias peças
publicadas.

O Flávio José Ferreira, o nosso Flávio, está no outro salão, foi eleito agora,
imortal da academia, merecidamente, mais um do teatro para engrossar esse caldo da
dramaturgia matogrossensse. Até por homenagem a ele coloquei a foto, os outros eu
coloquei um livro e ele eu coloquei a foto para que se visualize o novo imortal aqui da
casa.

O Walter Arantes, lá de Rondonópolis, escreveu uma peça muito famosa que


foi ilustrada e representada por grandes atrizes, a Babi, a Totia Meireles, a peça
chamada Maria Sete Volta. Maria Sete Volta é uma lenda, um mito lá de Guiratinga,
então ele escreve uma peça sobre esse mito da Sete Volta.

E por último Luis Carlos Ribeiro que é um grande dramaturgo, ator, todos eles
atores também, dramaturgos, e o Luis Carlos Ribeiro, eu coloquei o livro dele mais
famoso ali que não é uma peça de teatro, mas tem muito da representação que é o Mala
de Fugir, que é o boom do Luis Carlos Ribeiro que está sempre entre nós também nas
atividades do teatro.

Aqui eu listo algumas companhias de teatro, começo pelo Teatro Cena Onze,
que inclusive o Flávio Ferreira quem fundou. Tem um livro da história do Cena Onze
com várias peças de teatro, eles fazem esse passeio. Vários grupos de teatro, Mosaico,
tanto da capital quanto do interior, aqui é o teatro matogrossensse como um todo.

Quando eu escrevi o Teatro Matogrossensse, o último volume da história do


teatro de Mato Grosso, eu visitei muitos municípios que tinham grupos de teatro. Eu
remexi os arquivos, as peças que estavam publicadas, as peças que foram representadas
mas nunca publicadas, eu analiso essas peças no livro, as premiações que ganharam por
essas peças, mas esses grupos nunca tiveram condições de representar. Quando eu fui
pra Rondonópolis, por exemplo, onde há uma grande efervescência do teatro, eu fiquei
15 dias em Rondonópolis, naqueles arquivos, aproveitei pra dar uma arrumada no
arquivo deles também.

Outros grupos de teatros, Confraria dos Autores, Nó, Mucombe, Teatro Ogan,
que é Campo Novo, Teatro Faces que é de Primavera...

Aqui eu coloco algumas fotos de espetáculos teatrais desses grupos e essas


fotos estão também nesse meu volume da história do teatro matogrossensse.

A fortuna crítica do teatro

Fundamentalmente, nós temos como referência documentos para o estudo do


teatro de nossa região, jornais, eu remexi arquivos para encontrar esses registros de
representações teatrais, até pra inovar nesse volume que eu escrevo, pra avançar, porque
o Moura, o Lott, o Sebastião Carlos eles se debruçam sobre o teatro do século XVIII, o
teatro colonial. O Lenine Póvoas, no seu livro Cultura Matogrossensse, ele avança até o
século XX, mas ele dedica três páginas, onde ele faz um passeio do teatro do século
XVIII, século XIX e chega ao século XX. Então é bem enxuto, mas ele atinge até o
século XX. A minha inovação e contribuição para a história do teatro matogrossensse,
eu me debruço sobre o teatro do século XX, e faço um estudo sobre o teatro do século
XX.

A história crítica teatral em periódicos

A gente encontra vários artigos sobre o teatro matogrossensse.

A história do teatro

Esta é a bibliografia das pessoas que escreveram livro sobre a história do teatro
de Mato Grosso. Não de analise crítica, analisando peças, mas livro sobre história do
teatro matogrossensse. Então nós temos o Carlos Francisco Moura, o Alcides Moura
Lott, o Lenine Póvoas, o Sebastião Carlos de Carvalhos, e esta pessoa que vos fala que é
o último dos últimos dos críticos.

Alguns textos que eu pesquisei, belíssimos, mas que nunca foram encenados,
Na Caravana da Ilusão, do Sandro Lucose, Traído Apologia da Desventura Amorosa, do
Astrevo Justino, Obalada, Para Diagnosticarem Dementes, comédias e vários outros.
São também textos de autores de Cuiabá e do Estado. Eu me ocupo do estudo do teatro
em Mato Grosso de maneira geral.

E para finalizar eu sempre finalizo com essa frase que se refere à minha fala
inicial quando eu falei do teatro realista:

“Mas os homens devem saber que só Deus e os anjos podem ser espectadores
do teatro da vida humana.”

Ou seja, se o mundo é um grande palco, se nós representamos o tempo todo,


nós estamos no pequeno mundo, que e o mundo da representação e os nossos
espectadores, aqueles que nos assistem, é Deus e os anjos.

Vídeo: O teatro em Mato Grosso, palestrado Prof. Dr. Aguinaldo Rodrigues da Silva

https://www.youtube.com/watch?v=CbMJFfakddA