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Sobre alguns temas em Walter Benjamin

Alvaro Bianchi

Quem quiser se aventurar pela obra de Walter Benjamin deve estar

predisposto à surpresa e à perplexidade. Ela se apresenta sob uma forma fragmentária

e entrecortada, mas ai de quem interpretar essa fragmentação como sinal de

imaturidade ou de inconclusividade. Na verdade, seus fragmentos estão prenhes de

conteúdo e é possível acompanhar, através deles, a evolução de alguns temas caros ao

pensamento de Walter Benjamin.1

A surpresa que a leitura da obra de Benjamin produz ocorre pelo que está em

sua obra. De forma extremamente concentrada aparecem em seus escritos algumas

das observações mais sagazes da crítica contemporânea. Não é de se estranhar que

vários dos temas por ele colocados nesses escritos tenham reaparecido sob várias

1
O fato de utilizar traduções da obra benjaminiana, evidentemente coloca, por si, vários problemas de
interpretação. Para reduzir seu impacto e evitar as freqüentes confusões que ocorrem na abordagem deste tema,
confusões agravadas pela ligeireza de alguns tradutores, recorremos a um pequeno quadro conceitual, baseado
na obra de Willi Bolle (1994: 319-320). O quadro formulado por Bolle assemelha-se às opções terminológicas
utilizadas por Jeanne Marie Gagnebin (1994).

Gedächtnis Memória
Erinnerung Recordação, memória, lembrança,
willkürliche Erinnerung, mémoire voluntaire Memória voluntária
unwillkürliches Gedächtnis, mémoire involuntaire Memória involuntária
Erinnerungs-, Gedächtnisspur, Erinnerungs-, Gedächtnisrest traço mnemônico
Andenken, souvenir Lembrança
Eingedenken Rememoração
Erlebnis Vivência
Erfahrung Experiência
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formas. É o caso de sua crítica às historiografias da social-democracia e do

historicismo alemão, historiografias das grandes narrativas.

A crítica ao marxismo vulgar veiculado pela social-democracia alemã

reaparecerá mais de uma vez ao longo da obra de Walter Benjamin, adquirindo força

e vigor nas famosas teses “Sobre o conceito da história”, nas brilhantes cinco páginas

que dedicou à análise da poesia de Erich Kästner e em “História e colecionismo:

Eduard Fuchs” (1996b, 1996c e 1994). Partilhará , assim, da crítica realizada a partir

da década de 20 por autores como Georg Lukacs, Karl Korsh e Antonio Gramsci ao

cariz evolucionista de inspiração darwiniana que caracterizou o marxismo dessa

corrente, antecipando, em muito, as observações de Herbert Marcuse a respeito.2

As agradáveis surpresas decorrentes da leitura de Benjamin não são menores

do que as perplexidades e das dificuldades que dela provêm. Mas ao contrário das

surpresas que provém daquilo que está posto na obra, as perplexidades e dificuldades

advêm do que está pressuposto. São os silêncios da pressuposição os que deixam os

leitores perplexos. As conexões conceituais estão implícitas, as definições ocultas, as

explicações subentendidas. E, entretanto, elas existem.

As interrupções e a fragmentação existente no discurso benjaminiano, como

um leitor atento já alertou,3 são, de certa maneira, uma resposta às interrupções e

rupturas que ocorreram na biografia do crítico alemão: o fim abrupto de sua carreira

acadêmica, os sucessivos exílios, a precariedade de seus empregos, sua atividade

ocasional como jornalista, suas crises depressivas. Sua existência condiciona, assim,

sua atividade teórica, da mesma forma como os grandes acontecimentos da conjuntura

2
Na curta mas interessante introdução que Jesus Aguirre faz a Walter Benjamin, Discursos interrumpidos, é citado
o débito de Marcuse para com Benjamin, mas os demais autores que protagonizaram a crítica ao pensamento da
social-democracia alemã são simplesmente esquecidos.
3
Ver Aguirre (1994: 7).
3

contemporânea imiscuíam-se na cotidianidade de sua existência, como podemos ver

na sua resposta a uma carta de seu amigo Bertold Brecht, datada de 1933: “temos

rádio, periódicos, baralhos, logo seus livros, estufas, pequenos cafés, uma língua

assombrosamente fácil, e o mundo também aqui está desmoronando, mas com mais

calma” (Apud, Aguirre, 1994: 8).

A fragmentação não é, entretanto, unicamente biográfica. É também uma

opção metodológica que pode ser remetida à diversidade de suas fontes inspiradoras

— que vão da teologia judaica ao marxismo — e a sua convicção de que a atividade

do materialista histórico deveria ser explodir o continuum da historia, presente tanto

no artigo sobre Fuchs, como nas teses Sobre o conceito da história. Como opção

metodológica a fragmentação é expressão da diversidade do real.

Nem a fragmentação biográfica, nem a metodológica impediram a preservação

de alguns temas entre as preocupações do autor. Essa preservação aparece sob a forma

de recorrências. São pequenos segmentos que se repetem sob diferentes formas em

diversos momentos de sua obra. Não estão ali ocultos, sua presença é facilmente

perceptível, informando ao leitor a manutenção de uma problemática à qual ele já

deve estar familiarizado.

Dentre esses segmentos merece destaque aquele que tematiza o

empobrecimento da experiência. Em Experiência e pobreza (1933), é disso que

Benjamin trata. Nesse ensaio, o crítico alemão toma como ponto de partida uma

parábola. Nela, um velho pai, no leito de morte, revela a seus descendentes que um

tesouro estava escondido no vinhedo da família. À procura de tal tesouro, os filhos

cavam sem nada encontrar. Mas o outono trará produtivos vinhedos e percebem o que

seu pai quisera dizer: a felicidade é fruto do trabalho.


4

O que o pai transmite a seus filhos nessa parábola é, segundo Benjamin, “uma

certa experiência” (Benjamin, 1986d: 114). A experiência é, aqui, comunicada sob a

forma de parábola e, em outras ocasiões, sob a forma de profecia, de conselho, de

narrativa. Ela pressupõe, portanto, que seja experiência partilhada por uma

coletividade, é a Erfahrung alemã, contraposta a Erlebnis, a vivência particular e

privada. Na explicação dada por Leandro Konder, temos que

“ ‘Erfharung’ é o conhecimento obtido através de uma

experiência que se acumula, que se prolonga, que se desdobra, como

numa viajem (e viajar, em alemão, é fahren); o sujeito integrado numa

comunidade dispõe de critérios que lhe permitem ir sedimentando as

coisas com o tempo. ‘Erlebnis’ é a vivência do indivíduo privado,

isolado; é a impressão forte, que precisa ser assimilada às pressas, que

produz efeitos imediatos.” (Konder, 1989: 72)

Para Walter Benjamin, é essa capacidade de partilhar experiências o que se

encontra em declínio. A afirmação pode parecer paradoxal. Quando o crítico alemão

faz esse poderoso vaticínio, o mundo havia acabado de viver uma das mais terríveis

experiências da história, a Guerra Mundial que começando em 1914 se prolongou até

1918. Mas foi justamente a Guerra o acontecimento que colocou em evidência o

declínio da experiência. “Na época já se podia notar que os combatentes tinham

voltado silenciosos do campo de batalha. Mais pobres em experiências comunicáveis,

e não mais ricos”, afirma Benjamin (1986d: 114-115).

A Guerra e seus horrores modificaram não só o mundo exterior, como o

universo ético foi abalado por ela de tal forma que não deixou nada para ser contado.

Já vários autores trataram do abalo provocado por situações para as quais a


5

experiência nada tem a dizer.4 A guerra é, provavelmente, pela sua violência e horror,

a mais marcante destas situações.5 À devastação e desmoralização trazidas por ela,

Benjamin acrescentará aquelas postas pela hiperinflação do pós-guerra na Alemanha,

pela fome, pela corrupção dos governantes e pelo monstruoso desenvolvimento da

técnica. É nesse mundo completamente transformado que a experiência perderá

significado. A conclusão de Benjamin é estarrecedora: “é preferível confessar que

essa pobreza de experiência não é mais privada, mas de toda a humanidade. Surge

assim uma nova barbárie” (Benjamin, 1986d: 115).

O que é, para Benjamin essa “nova barbárie”? O autor introduz, aqui, um

conceito “novo e positivo de barbárie” (Idem: 116). Para o bárbaro, a pobreza de

experiência o induz a partir para a frente e começar com pouco, ela tem um potencial

inovador e criador. Foi a partir desse potencial, que homens como Albert Einstein e

Paul Klee abandonaram os cânones da ciência e da arte precedentes e se lançaram à

construção do novo. Não se deve pensar, entretanto, que esse tipo homens aspire

novas experiências: “eles aspiram a libertar-se de toda experiência, aspiram a um

mundo em que possam ostentar tão pura e tão claramente sua pobreza externa e

interna, que algo decente possa resultar disso” (Idem: 118).

A solução apresentada por Benjamin à perda da experiência não deixa de

surpreender. O retrato que ele faz de seu tempo e devastador e nada condescendente.

Não deixa de falar da crise econômica e da sombra da próxima guerra. Mas, ao

4
Alfred Schutz, no ensaio “A volta ao lar”, observa que os soldado que voltam para casa, quando conseguem falar
sobre suas experi6encias, ficam assombrados ao perceber que seus ouvintes não conseguem perceber a
singularidade delas (Schutz, 1975: 115).
5
Foram sem dúvida Auschwitz e o holocausto durante a Segunda Guerra Mundial os acontecimentos que
provocaram de forma mais intensa esse abalo. Foi justamente essa intensidade que emudeceu a literatura judaica
por cerca de 20 anos. Nos primeiros anos do pós-guerra, pouquíssimas obras ficcionais foram escritas sobre a
temática do holocausto (a schoá, palavra bíblica que significa destruição, em hebraico) por absoluta
incapacidade emocional (Berezin, 1995: 223).
6

mesmo tempo, afirma a existência de um pequeno grupo de homens, “bárbaros no

bom sentido”, ou seja, portadores do novo:

“Em seus edifícios, quadros e narrativas, a humanidade se

prepara, se necessário, para sobreviver à cultura. E o que é mais

importante: ela o faz rindo. Talvez esse riso tenha aqui e ali um som

bárbaro. Perfeito. No meio tempo, posa o indivíduo dar um pouco de

humanidade àquela massa, que um dia talvez retribua com juros e com

os juros dos juros (Idem: 119).

No pequeno ensaio sobre Nikolai Leskov, O narrador (1936), Walter

Benjamin retomará algumas das idéias apresentadas em Experiência e pobreza. Se

Benjamin aborda neste curto mas precioso ensaio a desvalorização da experiência e o

fim da figura do narrador não é, entretanto, para lamentar o fim de uma época ou para

anunciar uma “nova barbárie”, como em Experiência e pobreza. Seu objetivo é

mostrar que na atividade do narrador pode ser encontrada uma missão que não perdeu

sua atualidade: a retomada salvadora do passado (Gagnebin, 1994: 71). Esta é,

também, a missão do historiador materialista, como veremos mais adiante.

Em Benjamin, essa temática nos permite desvendar os vínculos existentes

entre sua teoria da história e sua teoria da literatura. Estes vínculos, como Jeanne

Marie Gagnebin destacou podem ser remetidos aos muitos significados que o

vocábulo história assume nas línguas latinas (Gagnebin, 1994: 2-3). É a história como

processo real, como acontecimento vivido; é a história como disciplina; e é a história

como narração.

Em alemão, freqüentemente é utilizado a expressão Geschichte (Ferrater

Mora, 1994: 337) para os dois primeiros sentidos e Erzählung para o terceiro. Foi
7

justamente para evitar as ambigüidades do termo que muitos sugeriram a utilização da

distinção entre Geschichte e Histoire, ou entre história e historiografia.

A solução apresentada por Benjamin afasta-se desse fácil caminho. Criticando

tanto a historiografia historicista alemã e a social-democrata, narrativas dos grandes

acontecimentos, Benjamin diluirá as fronteiras entre Geschichte, Erzählung e

Histoire. Atenção: elas são diluídas, mas não eliminadas. O que se verifica em sua

obra é, antes de mais nada, uma interdependência entre os termos, uma profunda

vinculação entre o acontecido, o narrado e o fazer do historiador. É essa

interdependência que permite ao crítico alemão transitar da crítica literária à crítica da

historiografia; do comentário da obra à análise da realidade.

A importância de O narrador no conjunto da obra do crítico alemão pode ser

medida pela sua presença constante nas coletâneas de textos do autor.6 Se não

bastasse este forte indício haveria ainda a opinião de Frederic Jameson, para quem O

narrador constitui, provavelmente, a obra-prima de Benjamin (Jameson, 1985: 66.).

No ensaio sobre Leskov, Benjamin retoma quase literalmente o diagnóstico de

Experiência e pobreza. Procurará estabelecer os liames existentes entre o

empobrecimento da experiência e o declínio da narração tradicional, apresentando,

entretanto, solução diferente para o mesmo problema. Esses liames são dos mais

fortes. Todos os narradores se alimentaram da experiência transmitida de pessoa a

pessoa e não é segredo que dentre as narrativas escritas, as melhores são as mais

parecidas às histórias orais transmitidas pelo grande número de narradores anônimos.

Dentre esses anônimos narradores, Benjamin destaca dois grupos sociais: o

agricultor sedentário, que permanecendo em seu país tratava de sobreviver e aprendia

6
Somente em português há duas edições. Uma com tradução de Sérgio Paulo Rouanet (Benjamin, 1986) e outra
com tradução de Erwin Theodor Rosental (Idem, 1975).
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as histórias e tradições locais; e o marinheiro empenhado em seu comércio, que muito

viajando, muito tinha a contar. Estes grupos, representantes de tipos arcaicos da

narração afluíram à oficina medieval na qual conviviam o mestre sedentário e o

aprendiz errante, o saber do passado, preservado pelo primeiro, e o saber das terras

distantes, trazido pelo segundo.

A cadência do trabalho artesanal criava um ambiente propício à narração. A

memorização das narrativas torna-se mais fácil e natural se o narrador e o ouvinte

renunciarem às sutilezas psicológicas e mais fácil será ele assimilá-las a sua própria

experiência e recontá-las algum dia. Para tanto é necessária uma grande distensão

psíquica. Ora, o tédio é o ponto mais alto dessa distensão e o ritmo cadenciado do

trabalho na oficina medieval é um ambiente propício para tal situação. Quando esse

ritmo se apodera do narrador, este se torna capaz de contar histórias e de aprendê-las

rapidamente. A relação existente entre o trabalho artesanal e a arte de contar não

escapou ao conhecimento dos melhores narradores. O próprio Nicolai Leskov

equiparava a arte de narrar com um ofício manual, idéia que Benjamin retomou ao

afirmar que o narrador imprime seu sinal no ouvinte “como a mão do oleiro no vaso

de argila” (Benjamin, 1975a: 37).

Mas se essa narrativa encontrava na oficina medieval o ambiente mais

propício para seu desenvolvimento, o declínio desse ambiente não deixará de

influenciar seu destino. Diz Benjamin:

“Na realidade, esse processo que expulsa gradualmente a

narrativa da esfera do discurso vivo e ao mesmo tempo dá uma nova

beleza ao que está desaparecendo, tem se desenvolvido

concomitantemente com toda uma evolução secular das forças

produtivas” (Idem: 201).


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O romance e a imprensa são as duas formas opostas à narrativa analisadas por

Benjamin, formas essas que encontrarão terreno fértil para seu desenvolvimento no

novo mundo que surgiu em substituição à oficina medieval. O surgimento do romance

no mundo moderno, cuja divulgação está associada ao aparecimento de uma base

técnica adequada, é um sinal da decadência da narrativa. O romance não está

associado à tradição oral. Enquanto a narração nasce do intercâmbio com o público,

ou seja, das experiências partilhadas pelo narrador e por aquele que o ouve ou lê, o

romance é fruto da atividade individual e isolada do escritor. Este não aconselha seus

leitores nem tampouco recebe conselhos.

Assim como a narrativa tinha seus portadores característicos nos grupos

sociais que se faziam presentes na oficina medieval, o romance está associado à

burguesia ascendente. Com a consolidação dessa burguesia destacou-se uma forma de

comunicação, a informação, tão estranha à narrativa quanto o próprio romance, mas

muito mais perigosa.

Em um texto contemporâneo a O narrador, Benjamin retomará a relação

existente entre o declínio da narrativa tradicional e essa nova forma de comunicação

(Benjamin, 1975a: 37). Ao contrário da narrativa, a imprensa não tem como objetivo

fazer com que o leitor se aproprie de suas informações como parte de sua experiência.

Na narração, o acontecido penetra na vida do relator é oferecido aos ouvintes como

experiência. O objetivo da informação é o oposto, é

“excluir rigorosamente os acontecimentos do contexto em que

poderiam afetar a experiência do leitor. Os princípios da informação

jornalística (novidade, brevidade, inteligibilidade, e, sobretudo, falta de

qualquer conexão entre uma notícia e outra) contribuem para esse

resultado tanto quanto a diagramação e a forma lingüística” (Idem).


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A narração aparece, em Benjamin, como uma atividade historicamente

definida, associada a forma de viver de determinados grupos sociais. Para Frederic

Jameson,

“O reconto não é apenas uma modalidade psicológica de narrar

o passado, uma recordação deste: para Benjamin, é também um modo

de contato com uma forma desaparecida de existência social e

histórica, e é nessa correlação entre a atividade de narrar e a forma

concreta de um certo modo de produção historicamente determinado

que Benjamin pode nos servir como um modelo de crítica literária

marxista no que esta tem de mais revelador” (Jameson: 68).

Não se trata, entretanto, para Benjamin, apenas de uma forma de contato da

narrativa com a Geschichte, com modos de viver historicamente determinados. A

narrativa também está em íntimo contato com a Historie, ou seja, com o fazer do

historiador, com a historiografia propriamente dita. Há uma profunda relação entre a

forma da narração e a historiografia. O ofício daquele que narra a história, o cronista,

se assemelha ao do historiador. O cronista relata a história, mas o historiador é

compelido ir além e explicar de uma ou outra forma os acontecimentos registrados. O

historiador não pode limitar-se a apresentar os episódios com os quais lida como

modelos da história do mundo, o cronista, por sua vez, sim pode proceder dessa

forma. Principalmente o cronista medieval que se livrava da tarefa explicativa

colocando na base de sua historiografia os indecifráveis desígnios divinos.

O cronista desprovido dessa interpretação religiosa é o narrador. Ao produzir

sua narrativa, esse narrador sempre tem um propósito definido. Ele é uma espécie de

conselheiro de seu ouvinte. O narrador, diz Benjamin, “é um homem que sabe dar
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conselhos”, alguém capaz de “fazer uma sugestão sobre a continuação de uma

história que está sendo narrada” (Benjamin, 1986: 200).

O declínio da experiência esvaziou essa capacidade de transmitir um conselho,

tanto porque não há o que aconselhar como porque se perdeu a capacidade de saber

narrar uma história, condição necessária para transmitir esse conselho. Para Benjamin,

“um conselho, fiado no tecido da existência vivida, é sabedoria. A arte de narrar

aproxima-se de seu fim por extinguir-se o lado épico da verdade, a sabedoria”

(1975a: 65).

É a busca da sabedoria, a sede pelo conselho útil, capaz de enriquecer a vida

que faz o ouvinte procurar se apoderar daquilo que está contido da narração. Esta

transmissão de conhecimentos é fundada pela rememoração (Eingedenken), que inclui

todas as variáveis da forma épica e, particularmente, a do narrador. Mas a

desagregação desta origem comum a todas as formas, consolidou a separação entre o

romance, baseado na lembrança individual (Erinnerung) e a narração baseada na

memória coletiva (Gedächtnis).

Memória e História

O tema da memória encontra-se desenvolvido por Benjamin no seu ensaio

sobre a obra de Proust (1926). Proust, afirma Benjamin, não escreveu em sua obra

“uma vida como ela de fato foi, e sim uma vida lembrada por quem a viveu” (1996a:

37). Para o autor que lembra, o mais importante não é o que viveu e sim o trabalho de

rememoração.
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Este trabalho da memória involuntária encontra-se próximo do trabalho de

esquecimento, pois nesse processo espontâneo lembrar é, também, esquecer. E se

aquilo que é vivido é finito, o acontecimento lembrado rompe com os limites

impostos pela esfera do vivido e, ilimitado, torna-se uma chave para tudo o que veio

antes e depois.

Diz Benjamin, na tradução de Willi Bolle:

“Não estaria a rememoração involuntária [das ungewolte

Eingedenken], ou seja, a memória involuntária de Proust, mais próxima

do esquecimento que daquilo que comunmente se chama lembrança

[Erinnerung]? Não seria esta obra de rememoração espontânea

[spontanen eingedenkens], onde a recordação é a trama, e o

esquecimento a urdidura, o oposto do trabalho de Penélope, mais que

sua cópia? Pois aqui é o dia que desfaz o trabalho da noite. Cada

manhã, ao acordarmos, temos em nossas mãos apenas alguns fios

tênues e soltos da tapeçaria da existência vivida, tal como o

esquecimento a teceu para nós. Cada dia, com seus atos intencionais e,

mais anda, com suas lembranças intencionais, desfaz os fios, os

ornamentos do esquecimento” (Bolle, 1994: 326. Benjamin, 198â: 37).

É na rememoração (Eingedenken) que se manifesta internamente o fluxo do

tempo. Este mesmo fluxo aparece externamente como envelhecimento. A mémoire

involontaire é a fonte da juventude, capaz de fazer voltar a roda do tempo, invertendo

seu fluxo inevitável e o envelhecimento dele decorrente. Esse momento fugaz, no qual

a mémoire involontaire faz com que o passado se reflita em um instante do presente,

permite que aquilo que de outra forma murcharia e se extinguiria gradualmente, seja

consumido com a velocidade de um relâmpago.


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Benjamin fornecerá algumas pistas para esclarecer a relação existente entre a

memória voluntária e a memória involuntária em Sobre alguns temas em Baudelaire

(1995 e 1975).7 Em Bergson, dirá nosso autor, a estrutura da memória é decisiva para

a estrutura filosófica da experiência. Para ele a experiência consiste mais em dados

acumulados, freqüentemente inconscientes, que afluem na memória, do que

acontecimentos isolados fixados na lembrança. Proust produz, artificialmente, a

experiência tal como era entendida por Bergson. Mas para o filósofo a atualização

intuitiva do fluxo vital era uma questão de livre arbítrio, enquanto para o literato a

mémoire pure de Bergson se transforma na mémoire involontaire. Proust confronta a

memória involuntária com a memória voluntária. Esta última é a lembrança voluntária

que informa sobre o passado embora nada conserve dele. Encontrar o passado

depende, unicamente do acaso para Proust. Somente o acaso pode permitir que cada

um se torne senhor de sua própria experiência.

A mémoire involontaire pertence ao repertório da pessoa particular, do

indivíduo isolado. E não resta dúvida que Proust era, em sua atividade de romancista

um indivíduo isolado. Mas, alerta Benjamin, “onde há experiência, no sentido estrito

do termo, entram em conjunção, na memória, certos conteúdos do passado individual

com outros do passado coletivo. (...) As recordações voluntárias e involuntárias

perdem, assim, sua exclusividade recíproca.” (Benjamin, 1995: 107; 1975: 38).

Esta passagem indica que, ao contrário de Proust, Benjamin não atribuía um

valor exclusivo à memória involuntária. Willi Bolle afirma que “interessado na fusão

7
A tradução de Sobre alguns temas em Baudelaire presente no volume da coleção Os Pensadores dedicado a
Walter Benjamin não é do alemão e sim, estranhamente, do italiano. Além do mais as notas de referência dessa
edição foram suprimidas e algumas notas de rodapé do autor inseridas no texto. Por esse motivos optamos por
utilizar a tradução de Hemerson Alves Baptista presente no terceiro volume das Obras escolhidas de Walter
Benjamin: Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo, publicado pela editora Brasiliense. Deixamos,
entretanto, as indicações para a localização das citações no texto de Os Pensadores, ao lado das indicações da
edição da Brasiliense.
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dos materiais da recordação biográfica e social, ele desenvolve um modelo de

rememoração que incorpora também o elemento voluntário”(Bolle, 1994: 327).

Segundo Bolle, “é a intenção, não o acaso, que está em primeiro lugar no

trabalho benjaminiano da memória” (Idem: 330). O trabalho de memória para

Benjamin não é o da pessoa particular e isolada. Ele se refere a materiais do passado

coletivo, conteúdos históricos partilhados, reconhecíveis, portanto, por uma

coletividade. Esta memória, à qual se chega depois de longos esforços de procura e

que se revela na forma de um instantâneo, permite ao sujeito reencontrar uma imagem

indestrutível da própria identidade.

Resta, saber, entretanto, qual a verdadeira relação existente entre memória

voluntária e memória involuntária. Para solucionar esse enigma, Benjamin recorrerá a

algumas hipóteses apontadas por Freud. Ele não procurará, entretanto, demonstrar

essas hipóteses e sim experimentar sua fecundidade tomando como base associações

muito diferentes daquelas que Freud utilizou ao formulá-las.

A hipótese retomada por Benjamin é aquela que afirma a separação entre

consciência e persistência de um traço mnemônico. Estes resíduos mnemônicos

apresentam-se com maior intensidade se o processo do qual resultaram nunca chegou

a ser consciente. Para Freud, a consciência não é capaz de acolher traços mnemônicos.

Sua função é outra: servir de proteção contra estímulos. A ruptura de proteção contra

esses estímulos provocaria, de acordo com a teoria psicoanalítica, o choque

traumático.

É possível, entretanto, treinar o controle os estímulos de modo a facilitar a

recepção dos choque através do sonho e da lembrança. Esse treino diz respeito à

consciência desperta. Captado e aparado pela consciência, o acontecimento que

provoca o choque assume o caráter de “vivência”. Benjamin conclui então que


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“talvez seja possível ver o desempenho característico da

resistência ao choque na sua função de indicar ao acontecimento, às

custas da integridade de seu conteúdo, uma posição cronológica exata

na consciência” (Benjamin, 1995: 111; 1975: 40)

Se as defesas contra o choque falharem, devido ao funcionamento defeituoso da

reflexão, o resultado será o espanto “agradável ou no mais das vezes desagradável”.

Baudelaire, afirma Benjamin, colocou esse espanto a serviço de sua obra, alocando “a

experiência do choque no âmago de seu trabalho artístico” (Idem). Neste admirável

juízo sobre a obra do poeta francês, é retomado um tema caro ao pensamento

filosófico clássico. Na tradição clássica o princípio8 (a arkhé, dos gregos) que

possibilita o ato de filosofar é a admiração (thaumázein), que Heidegger traduz como

erstaunen (espanto) .

Mas a admiração não é mero impulso, que desaparece uma vez que a filosofia se

pôs em marcha. Ela, ao ser arkhé se encontra presente em todos os momentos do

filosofar, é seu páthos, como afirma Platão no Teeteto. Mas o que é páthos?

Freqüentemente é traduzido por paixão, mas páthos tem origem em páskhein: sofrer,

agüentar, deixar-se levar por, deixar-se convocar por. Seguindo as indicações de

Heidegger (1975), pathos pode ser traduzido por disposição. Procedendo como

Heidegger, poderemos entender melhor o thaumázein. O espanto passa a ser a

disposição na qual e para a qual o ser do ente se abre e permite ser auscultado.

Para Jeanne Marie Gagnebin (1994), na crítica que Benjamin dirige ao

isolamento de Proust é preciso vislumbrar mais do que uma crítica moralizadora da

esquerda. Proust não fez mais do que cumprir todos os rituais do escritor burguês que,
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ao contrário do narrador medieval que necessita de um público ativo para produzir,

isola-se para dar início ao seu fazer. Mas não é esta solidão que caracteriza os perigos

contra os quais alerta Benjamin. O perigo consiste em entregar-se ao fluxo

imprevisível da memória involuntária, fluxo este que transforma o sujeito em seu

servo, impondo-lhe seu ritmo, sua dispersão e, conseqüentemente, o esquecimento

que dele resulta. “O risco ai consiste na transfiguração desse desapossamento de si

mesmo numa espécie de devaneio complacente e infinito do qual o sujeito não pode

mais emergir” (Gagnebin, 1994: 90).

Para superar esse risco é preciso confrontar o sonho com a vigília e

interromper o fluxo contínuo da memória involuntária de modo a poder agir sobre o

real. A forma pela qual é possível interromper esse fluxo é a rememoração

(Eingedenken). É ela que interrompe o desenvolvimento da Erinnerung.

“A filosofia da história de Benjamin insiste nestes dois

componentes da memória: na dinâmica infinita de Erinerung, que

submerge a memória individual e restrita, mas também na

concentração de Eingedenken, que interrompe o rio, que recolhe, num

só instante privilegiado, as migalhas dispersas do passado para

oferecê-las à atenção do presente. As imagens dialéticas nascem da

profusão da lembrança, mas só adquirem uma forma verdadeira através

da intensidade imobilizadora da rememoração” (Idem: 91)

Resgatando o futuro

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Vale lembrar que a arkhé grega designa, ao mesmo tempo, aquilo onde algo surge e o que constantemente
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A idéia de um momento que concentra energias e tensiona ao extremo o

sujeito carregado de lembranças, um momento de despertar, está presente, também

nas teses Sobre o conceito de história (1996b). As teses se articulam em dois níveis

que não podem ser separados: a crítica à concepção de tempo e progresso presentes na

historiografia dominante e a formulação de uma teoria da história alternativa.

A historiografia historicista, diz Benjamin, demonstra empatia ao recomendar

que se esqueça tudo o que se sabe sobre as fases anteriores a uma época para

ressucitá-la. Esse é o método com o qual, segundo Benjamin, rompeu o materialismo

histórico. Mas a empatia dos historicistas é com os vencedores, alerta ele: “Ora, os

que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes. A

empatia com o vencedor beneficia sempre , portanto, esses dominadores” (Benjamin,

1996b: 225). Benjamin manifesta sua oposição ao historicismo, aconselhando a

“escovar a história a contrapelo” (Idem: 225).

Também se opõe à concepção de história da social-democracia alemã, que

considerava o desenvolvimento técnico como o declive da corrente na qual supunha

estar nadando. Desta forma, a social-democracia filiava-se à idéia de progresso, um

progresso da humanidade em si e não de suas capacidades e conhecimentos. Benjamin

retoma, aqui, sua aguda crítica à social-democracia levada a cabo em História e

colecionismo (1937).

Nesse ensaio sobre a obra de Eduard Fuchs, critica a influência do darwinismo

sobre a concepção social-democrática da história. Presente no partido desde seu

nascimento, foi através do revisionismo de Eduard Bernstein, que concepção

determina sua marcha.


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evolucionista da história tornou-se ainda mais forte. E mais forte ainda ficava quanto

menos o partido se mostrava disposto a arriscar o que havia conquistado em sua

mobilização contra o capitalismo (Benjamin, 1994: 112-114).

Para Benjamin esse corte evolucionista permitiu ao partido manter uma

inabalável confiança na vitória durante os duros anos das leis anti-socialistas

promulgadas por Bismarck:

“sem confiança nenhuma classe poderá, a longo prazo, intervir

politicamente com êxito. Mas é diferente que o otimismo sirva para a

capacidade de ação da classe ou diga respeito às circunstâncias sobre

as quais opera. A social-democracia tendia para o segundo e

questionável otimismo” (Idem: 114).

Esse otimismo fazia certo um futuro melhor, bastando dar tempo ao tempo

para que ele se revelasse em toda sua plenitude. E nada exerceu pior influência sobre

a classe operária alemã, segundo Benjamin, do que a idéia “de que ela nada com a

corrente” (Benjamin, 1996b: 227).

A crítica explícita à historiografia historicista e à social-democracia alemã é

seguida por uma observação áspera, porém implícita sobre o fenômeno stalinista. Não

podemos nos esquecer que Benjamin escreveu essas teses sob o impacto do recente

acordo de não agressão Hitler-Stálin. Nas teses, o acordo não é citado, assim como os

partidos comunistas não recebem nenhuma menção. Mas a presença deles é evidente.

Somente assim será possível entender a afirmação de Benjamin de que: “os políticos

nos quais os adversários do fascismo tinham depositado as suas esperanças jazem

por terra e agravam sua derrota com a traição à sua própria causa”. (Idem: 227) Se

isso não bastasse, haveria ainda a afirmação de Benjamin considerando como aspectos

da mesma realidade “a obtusa fé no progresso desses políticos, sua confiança no


19

‘apoio das massas’ e, finalmente, sua subordinação servil a um aparelho

incontrolável são três aspectos da mesma realidade. (Idem)9

O conformismo próprio desse otimismo assentou-se na idéia da neutralidade

do desenvolvimento técnico, considerado como fato puramente científico-natural.

Benjamin ressalta, entretanto, que esse desenvolvimento é, ao mesmo tempo um

resultado histórico, ou seja, ele é condicionado pelo capitalismo.

As tradições historiográficas aqui criticadas, “não reconheceram o lado

destrutivo do desenvolvimento, porque eram estranhos ao lado destrutivo da

dialética” (Benjamin, 1994: 99). Deixaram de lado, por isso mesmo, um circunstância

chave: a de que “a técnica serve a essa sociedade somente para a produção de

mercadorias” (Idem). Foi entretanto ao século 20 que coube ver como a técnica a

serviço da produção de mercadorias liberava energias destrutivas, favorecendo a

técnica da guerra e sua preparação publicitária.

O desenvolvimento da técnica e a própria idéia de progresso estão em

Benjamin associadas à de catástrofe, como explicita na famosa Tese IX. Nessa tese,

descreve o quadro de Paul Klee chamado Angelus Novus. Um anjo parece, nele,

querer se afastar de algo que encara fixamente. Benjamin o compara ao anjo da

história. Com seu rosto dirigido para o passado ele vê, onde outros vêem progresso,

“uma catástrofe única, que acumula incansavelmente, ruína sobre ruína e as dispersa

a nossos pés” (Benjamin, 1996b: 226).10

9
Chrysoula Kambas (1986) observa que a análise da correspondência de Benjamin com o socialista cristão Fritz
Lieb demonstra que sua atitude crítica para com os partidos comunistas data de antes do acordo Hitler-Stalin. Já
durante o governo da Frente Popular presidido pelo socialista Leon Blum e apoiado ativamente pelo Partido
Comunista Francês, criticava duramente as lideranças que haviam roubado dos operários “seu elementar senso
de ação instintiva — seu senso infalível de quando e sob quais condições uma ação legal dever dar luar a uma
ilegal e quando uma ação ilegal precisa se tornar violenta” (Apud Kambas, 1996: 93).
10
Analisando a crítica de Benjamin à idéia de progresso, Löwy destaca que as catástrofes do progresso “estão no
próprio coração da modernidade: (1) A exploração destrutiva e mortífera (mörderische) da natureza (...) (2) O
20

A assimilação do progresso à catástrofe encontra-se, também nos fragmentos

sobre Baudelaire intitulados Parque Central: “Deve-se fundar o conceito de

progresso na idéia da catástrofe. Que tudo ‘continue assim’, isso é a catástrofe. Ela

não é o sempre iminente, mas o sempre dado”. E seguindo o pensamento de

Strindberg compara a catástrofe, e conseqüentemente o progresso, ao inferno que

“não é nada a nos acontecer, mas sim esta vida aqui” (Benjamin, 1995a: 174).

Etienne Balibar ressaltou a semelhança entre a idéia de catástrofe presente em

Benjamin a afirmação feita por Marx em Miséria da filosofia de que “sempre o lado

mau sobrepôs-se ao bom. É o lado mau que produz o movimento que faz a história,

constituindo a luta” (Marx, 1982: 116). Para Benjamin, entretanto, a história não

avança somente “‘pelo lado mau’, mas ‘do lado mau’, o da dominação e da ruína”

(Balibar, 1995: 119). Os termos utilizados pelo crítico alemão remetem, ironicamente,

à famosa introdução de Hegel ao seu curso de filosofia da história que apresentava a

ruína de civilizações passadas como condição para o desenvolvimento do espírito

(Idem).

A idéia de progresso não pode ser separada de um tempo vazio e homogêneo,

um tempo indiferente e infinito, que corre sempre igual a si mesmo. Mas o objeto da

história não é a construção cujo lugar seja um tempo vazio e homogêneo e sim um

tempo saturado de “agoras”, daquilo que é absolutamente presente mas que aparece

como unidade entre o passado, o presente e um possível futuro. O agora é, assim, a

atualização do passado no presente.

Este é o ponto no qual Benjamin começa a dar contornos mais nítidos a sua

teoria da história. O movimento de atualização do passado implica uma reconstrução

aperfeiçoamento das técnicas de guerra, cujas energias destrutivas progridem sem cessar. (...) (3) O fascismo.”
(Lowy, 1992: 120-121).
21

de uma significação que não é idêntica à significação do passado, embora nela se

referencie. O movimento de atualização é um movimento de transformação do

passado e do presente. Nesse sentido, ele é construção. Benjamin ilustra isso com a

apropriação realizada pelos jacobinos do ideário da Roma antiga. Para Robespierre,

Paris era uma Roma renascida, trazida para o presente através de um salto de tigre em

direção ao passado levado a cabo em uma arena comandada pela classe dominante.

Realizado sobre o livre céu da história, esse mesmo salto é denominado por Benjamin

“o salto dialético da Revolução, como o concebeu Marx” (Benjamin, 1995a: 230).

É esse salto o que faz explodir o continuum da história. O presente não é,

portanto, transição para o materialista histórico. O presente é algo que pode ser parado

no tempo e imobilizado de forma a fazer saltar esse continuum.

“Quando o pensamento pára, bruscamente, numa configuração

saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa

configuração se cristaliza enquanto mônada. O materialista histórico só

se aproxima de um objeto histórico quando o confronta enquanto

mônada. Nessa estrutura ele reconhece o sinal de uma imobilização

messiânica dos acontecimentos, ou, dito de outro modo, de uma

oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido”

(Benjamin, 1986b: 231).

A luta pelo passado não é outra coisa que a tentativa de salvar o presente. O

resgate do passado é o resgate do futuro. Trata-se de libertar o presente de um passado

que o oprime, mas para isso é preciso liberar o passado das forças que oprimem seu

próprio presente.11 Não se trata de uma determinação do presente e do futuro pelo

11
A esse respeito ver Ivornel (1986).
22

passado e sim da coabitação dos tempos. O passado não dirige o presente, ele

participa e se faz sentir no presente.

Os laços existentes entre a alternativa historiográfica construída por Benjamin

e sua teoria da literatura tornam-se evidentes.. A tarefa de resgatar o passado é comum

tanto ao narrador, como já vimos, quanto ao historiador materialista. Para Benjamin,

a tarefa de articular historicamente o passado significa apropriar-se de uma

rememoração tal como ela relampeja no momento de um perigo.

“Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado

como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem

que ele tenha consciência disso. (...) O dom de despertar no passado as

centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador

convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o

inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer” (Benjamin,

1996b: 224-225).

Interromper essa série de vitórias do inimigo é a condição necessária para

salvar o passado. Somente a o presente emancipado de toda opressão pode libertá-lo.

Para a humanidade redimida, o passado torna-se citável em cada momento. E é com

esse programa que Benjamin leva a cabo sua atividade de historiador.

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