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INTRODUÇÃO À CRÍTICA TEXTUAL - CAMBRAIA, 2005.

A cerne da crítica textual está no entendimento que um texto sofre inúmeras modificações ao
longo do tempo, Cambraia (2005) compara essa definição como uma brincadeira de telefone
sem fio. Mesmo que a transmissão de um dado texto seja realizada pelo próprio autor, ainda
assim o texto sofreria modificações. Além disso, o autor diz que um dos motivos que o texto
possa sofrer modificações reside no fato do material que ele é escrito ser perecível, o que
ocasiona a uma perda de conteúdo devido aos intempéries do tempo e das chagas, que podem
aparecer em determinados materiais, ou por fogo ou qualquer outro tipi de vandalismo, vide o
desaparecimento de muitos textos antigos ao longo do tempo. - tais modificações são
chamadas de exógenas pelo autor (cf. CAMBRAIA, 2005, p.2). Além disso, há aquelas
modificações que são ocasionadas pela transmissão em si de um dado texto - chamadas por
Cambraia (2005, p. 6) de endógenas. Estas dizem respeito a transmissão de um dado texto
através de cópias dele. As cópias autorais são realizadas pelo próprio autor do texto, na medida
em que ocorre ps processos de publicação de um texto. Um exemplo disso ocorre com o livro X
de Marcial. O livro passou por duas edições, realizadas pelo próprio poeta, uma ainda em Roma
e uma segunda edição ja em Bílbilis. As não autorais são realizadas por terceiros, sendo através
de quem reproduz o texto ou através do erro do copista.

CRÍTICA TEXTUAL - Segundo Cambraia (2005, p.13) corresponde à restituição da forma genuína
de um texto.
ECDÓTICA - edição de um texto (CAMBRAIA, 2005, p. 13).
FILOLOGIA - resumidamente, é o estudo sobre a crítica gramatical dos autores antigos.
(CAMBRAIA, 2005. p. 17). O esrudo de uma língua em sua amplitude, dentro de um espaço e
tempo, ou seja, o estudo global de um determinado texto, levando em consideração o seu lugar
no tempo histórico e dentro de uma determinada sociedade.
O serviço da crítica textual está na recuperação de um patrimônio cultural escrito de um povo,
uma vez que ao trazer ao público um determinado texto, ocasiona a sua subsistência através
dos registros novos que surgem após a leitura dele. Em especial, ao se ler um texto clássico e ao
reproduzi-lo nos mais diversos assuntos, o exercício da crítica textual perpetua a essência deste
texto clássico, o apresentando aos novos leitores e, aos já conhecedores deste determinado
texto, apresenta um novo olhar para o clássico.

CAPÍTULO 3: A transmissão dos textos (CAMBRAIA, 2005, p. 63).


Todo texto possui um testemunho do autor, no percurso que ele é escrito ou esse testemunho
pode ser realizado pelos editores e primeiros leitores desse texto escrito.
Um manuscrito é escrito em papel, pergaminho ou papiro. Os primeiros manuscritos em papel
em língua portuguesa aparecem entre o século XII e XIII, o mais antigo manuscrito data do ano
de 1628, em Portugal.
O copista ficava a cargo de reproduzir os escritos do manuscrito original, sendo fiel ao modelo
copiado.
TIPILOGIA DOS ERROS DA IMPRESSÃO OU CÓPIA SE UM DETERMINADO TEXTO
Como será visto, os escritos de Marcial, durante a Antiguidade Tardia e a Idade Média,
principalmente, tiveram alguns termos e epigramas completos suprimidos por seus copistas.
Cambraia (2005, p. 78) lista alguns erros comuns no serviço de reprodução textual realizado
pelos copistas dos textos clássicos. São esses os erros:
1. Adição -
2. Omissão -
3. Alteração de ordem ou substituição.
Os copistas do texto de Marcial, imbuídos de uma censura clerical, omitiam alguns termos dos
epigramas do poeta latino ou os substituiam por outros que se adequassem à linguagem
monástica.
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A crítica textual estuda os textos antigos e a sua preservação ao longo do tempo, com a
intensão de os reconstituir, levando em consideração outros aspectos, como a autoria e o
contexto que a obra foi escrita.
------######------- disponível em: http://www.filologia.org.br/viisenefil/03.htm Acesso em: 29 de
Jul. de 2019.

“Edição crítica” é a que procura estabelecer o texto perfeito, – confrontando manuscritos ou


edições antigas, de vida do autor, anotando variantes, – e, além disso, desfaz as abreviaturas,
quando é o caso, moderniza a pontuação, corrige os erros tipográficos, interpreta os passos
obscuros, podendo ainda substituir o sistema ortográfico por outro mais moderno, – mas tudo
isso respeitando escrupulosamente a língua, as formas, a fonética do tempo e do autor.
Estabelecimento de texto
O estabelecimento do texto é, pois, a um tempo um problema de ecdótica[15], de
hermenêutica[16] e de exegese[17]. É impossível, em princípio, estabelecer um texto que não
seja totalmente compreendido pelo editor-de-texto, ainda que alguns aspirem a uma como
objetividade mecânica na operação ou ainda que esse grau de compreensão possa ser
aprofundado por outrem. Dessa forma, a inteligência de um texto se logra por um crivo:
a) de todas as particularidades do texto, para que eventualmente qualquer uma dessas
particularidades sirva de lição para qualquer outra do mesmo texto;
b) de todas as particularidades e generalidades do contexto – no que, inclusive, a história, a
erudição em geral, a geografia, a filologia, as idéias coetâneas, os ideais coetâneos, do autor, da
sua geração, do país, da nação, do mundo, até o seu tempo, do passado, possam trazer suas
luzes;
c) dos textos alheios anteriores e contemporâneos do autor, na dupla operação (a) e (b) acima
configuradas;
d) destarte, na base do protótipo ou arquétipo, ou da edição de base, é factível volver o mais
verossimilmente possível ao original ou à edição príncipe ideal.
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Segundo o dicionario de Carlos Ceia, disponível em: http://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/critica-


textual/ Acesso em 29 de Jul. de 2019
Estabelecido o pressuposto de que é o autor quem dá autenticidade ao texto, e de que é esse
texto autêntico que merece ser editado, a crítica textual tem desenvolvido, desde o século XIX,
técnicas de reconhecimento dos sinais de "autorização" em duas grandes ordens de casos: o do
original perdido (crítica textual tradicional) e o do original conhecido (crítica textual moderna).
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Codicologia - Trabalha com a descrição técnica e a análise do códice e do livro impresso, em


seus aspectos materiais, como suporte empregado: papiro, pergaminho, papel; instrumentos da
escrita: e s t i l o, c á l amo, p e n a; dimensões do objeto, formação, conteúdo, datação. Ou seja,
se encarrega das condições materiais em que o trabalho se realizou. Em outros tempos, esses
estudos pertenciam à Paleografia e à Diplomática. Hoje, desligando-se delas, constitui um
conhecimento à parte. Você já sabe que a comunicação escrita conhece duas tradições: a
manuscrita até o aparecimento da imprensa, representada pelo códice e encadernações
medievais, e a impressa, pelo livro. O códice, do latim codex, é o antepassado do livro impresso,
uma forma característica do manuscrito, em pergaminho, cortado em formato padronizado. Os
fólios eram amarrados por um lado, formando cadernos, à semelhança dos livros de hoje. Os
livros de papiro, como vimos, eram em formato de rolo, mas os de pergaminho só podiam ser
quadrados, poque as folhas eram mais espessas e não muito flexíveis, como as folhas de papiro.
Os códices de pergaminho datam do início da Era Cristã.

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A crítica textual é a expressão da cultura individual e coletiva por intermédio dos textos.
Também se configura como uma ciência pautônoma, posto que a linguagem humana tem sido
objeto de especulação por parte de outras ciências.Os seus objetivos agrupam-se, grosso modo,
em:
* Investigar a autenticidade dos textos;
* Fazer o levantamento de toda a tradição textual, em caso de análise;
* Classificar os testemunhos de manuscritos e impressos;
* Estabelecer critérios para a publicação de novas edições;
* Avaliar a fidedignidade das transcrições, tanto em edições antigas quanto em modernas.
É de sua competência:
* Preparar edições críticas de textos cuidadosamente estabelecidos;
* Apontar o texto mais representativo da última vontade lúcida do autor;
* Preparar um trabalho cuidadoso das variantes;
* Preparar a edição crítica comentada.
O seu ponto culminante é a publicação da edição crítica.

Momentos da preparação da edição crítica:

2.1. A Recencio. Recensão. Consiste na pesquisa e coleta do material da tradição direta e


indireta: códices manuscritos e impressos, edições, publicações, etc., abarcando uma
garimpagem em bibliotecas públicas e em acervos de instituições particulares e de
colecionadores. Igualmente merecem registro a garimpagem nos sítios da internet.
2.2. A Collatio. Colação ou cotejo compreende a comparação, o confronto de todos os códices
coletados em relação a um texto que se tomará por base, isto é, o que se supõe seja o mais
representativo da última vontade lúcida do autor.
2.3. A Eliminatio codicum descriptorum representa a eliminação ou rejeição de cópias
coincidentes. A seguir: classificação dos textos não eliminados; separação dos mesmos textos.
2.4. A Estemática (originem detegere, revelar a ascendência). A palavra é grega στήμμα, pelo
latim stemma, coroa, grinalda, diadema e representa uma espécie de árvore genealógica dos
textos (stemma codicum) ou o parentesco entre os mesmos, como se filiam entre si e como se
verificou sua transmissão:vertical, transversal, por contaminação. Não há regras fixas e cada
caso é um caso à parte a ser considerado.
2.5. A Emendatio ou a emenda é o conjunto de operações que busca a correção de falhas e
erros encontrados nos códices, por descuido de copistas e amanuenses ou pela intervenção
descabida de editores de textos.
3. Outros procedimentos para a preparação da edição crítica propriamente dita:
3.1. A escolha do texto de base determinará o documento que irá reunir todas as condições
ecdóticas necessárias.
3.2. Fixação exaustiva das variantes em notas de pé de página. (As variantes constituem
modificações introduzidas pelo autor e seu registro representa uma fonte riquíssima de
informações).

3.3. A fixação do texto crítico é o texto apurado, definitivo, pronto a ser editado. (Atualização
ortográfica, revisão geral, incluindo-se a tipográfica, se for o caso).

3.4. Organização da introdução crítico-filológica: motivos, planos, critérios adotados, aspectos


histórico-sociais, etc.

3.5. Registro filológico (também chamado “apparatus criticus”, aparato crítico).


3.6. [Comentários filológicos], no final do volume. Os Comentários filológicos representam os
esclarecimentos de ordem gramatical, semântica e estilística, bem como as interpretações
(exegese e hermenêutica) da obra.

3.7. Glossário.
3.8. Reprodução de fac-símiles se houver.
3.9. Bibliografia.
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CAMBRAIA E MIRANDA, 2004. Crítica textual: reflexões e práticas

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[…] foi somente pelo alfabeto que os homens destribalizaram ou individualizaram para criar a
“civilização”. [...] A invenção do alfabeto, à semelhança da invenção da roda, foi a primeira
tradução ou redução de um campo complexo e orgânico intercâmbio de espaços num único
espaço. O alfabeto fonético reduziu o uso simultâneo de todos os sentidos, que é a expressão
oral, a um código visual ( MCLUHAN, 1977: 76).
A escrita é responsável pelo desenvolvimento de práticas sociais que se constituem como a
essência das sociedades complexas, possibilitando o registro do cotidiano e, com isso, inventou
a noção de homem histórico, capaz de compor um discurso sobre si mesmo. Segundo Michel de
Certeau, “[...] nos últimos três séculos, aprender a escrever define a iniciação por excelência em
uma sociedade capitalista e conquistadora. É a sua prática iniciática fundamental. [e] [..] uma
atividade concreta que tem poder sobre a exterioridade da qual foi previamente isolada” ( DE
CERTEAU, 2008: 225, 27).
Na busca pela conciliação dessas questões, Roger Chartier (2005a) propõe, antes de tudo,
abordar o texto em sua historicidade primordial, voltando-se para as suas condições de
produção, circulação e apropriação. Para Chartier (2001, 2005), qualquer abordagem do texto
que busque compreender os seus significados, precisa vislumbrar suas condições histórica,
social e material. Nesse sentido, ele se apoia nas novas perspectivas do campo historiográfico
que se abriu para o diálogo com outras disciplinas, favorecendo a constituição de uma história
cultural das práticas de escrita e de leitura. Para compreender essas questões, postas
inicialmente por Roger Chartier ( 2002a), cabe investigar como a história ampliou os seus
domínios em direção às práticas culturais da escrita, constituindo novos campos de estudos,
além do modo como se dá o diálogo entre as disciplinas que têm na escrita o seu objeto de
estudo, considerando seus aspectos textual, documental, histórico, social e cultural.
Quando vemos o que é a produção da imprensa nos séculos XVI ou XVII, vemos que o essencial
da produção é constituída, poderíamos dizer, de livros de cordel, panfletos, cartazes, bilhetes,
formulários, isto é, todo um conjunto de impressos que não são livros, encomendados por
pessoas físicas ou instituições, e que na era do manuscrito não tinha equivalentes. Deste ponto
de vista, a importância da imprensa foi produzir de maneira imediata e maciça textos que não
são livros e que não existiam ou quase não existiam na era do manuscrito ( CHARTIER, 2005a, p.
85).
[...] a cultura do escrito vai desde o livro ou o jornal impressos até a mais ordinária, a mais
cotidiana das produções escritas, as notas feitas em um caderno, as cartas enviadas, o escrito
para si mesmo, etc. Parece-me que na escrita há um continuum desde a prática da escrita
ordinária até a prática da escrita literária ( CHARTIER, 2001: 84).
Uma história cultural do escrito abarca as diferentes práticas relacionadas aos meios de
produção, circulação e apropriação dos textos por sujeitos sociais e historicamente constituídos.
Ao tratar da apropriação do sentido dos textos pelos leitores, espectadores ou ouvintes,
Chartier (2009a, 2001) questionou as vertentes teóricas da literatura de tendência estruturalista
( nouvelle critique francesa e new criticism norte-americana) que concentram suas análises nos
textos em si, independentemente dos objetos e vozes que os transmitem. Sem relacioná-los
com a sua materialidade, rejeitando a ideia de que o texto é o resultado de um processo de
“fabricação” que envolve autores, editores, tipógrafos, ilustradores, vendedores, distribuidores
e leitores em suas singularidades históricas, sociais e culturais. Nesse sentido, Roger Chartier
(1991) propõe voltar-se para o mundo do texto e do leitor em busca dos sentidos produzidos
pela materialidade da escrita em si, já que os leitores “[...] não se confrontam nunca com textos
abstratos ideais, separados de toda materialidade: manejam objetos cujas organizações
comandam sua leitura [...]” ( CHARTIER, 1991: 179), produzindo sentidos.
A Crítica textual é uma disciplina filológica e por isso, e tendo ainda em conta o sentido geral
que actualmente lhe reconhecemos, deve ser encarada como um dos ramos da História, na
medida em que se ocupa do processo histórico dos textos em duas vertentes fundamentais: o
texto em processo de produção e o texto em processo de transmissão. [A Crítica Textual trata]
[...] obrigatoriamente com textos cuja forma e cujo conteúdo foram lá postos para serem
consumidos por leitores situados, enquanto alocutários, no mesmo estado de língua e no
mesmo universo referencial em que se encontrava o agente ilocutário (o autor, [...]). [...] é
objeto de estudo da Crítica Textual o estudo dos textos no que diz respeito à sua produção ou à
sua transmissão material [...] ( DUARTE, 2012: 59-65).
A Crítica Textual como disciplina científica nasceu no século XIX a partir dos estudos do alemão
Karl Lachmann e de outros tantos filólogos que se empenharam na edição de textos bíblicos e
dos grandes autores da Antiguidade Clássica. O método lachmaniano (como foi batizado),
concentrou-se numa realidade textual cuja busca pelo original perdido foi o seu maior objetivo,
instituindo rigor no estabelecimento do texto. Esse método foi influenciado pelas teorias
positivistas do século XIX e atendeu às exigências do rigor científico próprios da época. Durante
o século XX, o método lachmaniano foi questionado e adaptado às novas realidades textuais, ao
lidar com textos autorais. Não se buscava mais o original perdido, mas a recuperação do “ânimo
autoral” diante da pluralidade dos testemunhos autógrafos. Mas ainda o que prevaleceu nessa
abordagem é a busca pelo estabelecimento do texto, limpo das violações, erros e rasuras,
ocorridas no curso da história da transmissão do texto. Esse tipo de postura é incompatível com
a renovação das práticas historiográficas, porque ignoram que o texto, qualquer que seja ele
(uma cópia ou versão que destoe do original), é testemunho histórico e serve como fonte para
entender o modo como o texto foi escrito, difundido e utilizados pelos leitores.
Los testimonios son efectivamente individuos históricos, con una fisionomía propia, portadores
en su seno muchas veces de elocuentes huellas y datos respecto de dónde se compusieron,
quién los cargó o poseyó, quiénes fueron los copistas, los impresores, los lectores, qué tipo de
papel y de letra fue utilizado, que taller tipográfico, etc. Todo ello nos proporciona una
información muy interesante, por supuesto, para la historia cultural, pero también muy rica y
aprovechable desde la validez y agrupación de los testimonios según la información que
poseamos, por ejemplo, de la calidad de un determinado scriptorium o un taller tipográfico, la
procedencia de los originales o copias de que solía servirse, la antigüedad y calidad de los
soportes materiales de copia, etc. ( PÉREZ PRIEGO, 1997: 36).
CHARTIER, Roger. O mundo como representação. Estudos Avançados, São Paulo, v.5, n. 11,
1991. [ Links ]
CHARTIER, Roger. Entre práticas e representações.Tradução de Maria Manuela Gafhardo. 2. ed.
São Paulo: DIFEL, 2002a. [ Links ]

CHARTIER, Roger Os desafios da escrita. Tradução de Fulvia M. L. Moretto. São Paulo: UNESP ,
2002b. [ Links ]

CHARTIER, Roger. Da história da cultura impressa à história cultural do impresso. Revista


Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 28, n. 1, 2005. [ Links ]

CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo. Tradução de Cristina Antunes. Belo


Horizonte: Autêntica, 2009. [ Links ]
DUARTE, Luiz Fagundes. Entre Penélope e Euriclea. In: TELLES, Célia Marques; SANTOS, Rosa
Borges dos . (Org.). Filologia, críticas e processos de criação. Curitiba: Appris, 2012, p. 53-67.
[ Links ]
PÉREZ PRIEGO, Miguel Angel. La Edición de textos. Madrid: Síntesis , 1997. [ Links ]

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RECEPÇÃO LITERÁRIA - PRIMEIROS APONTAMENTOS

A Estética da Recepção ou Teoria da Recepção propõe uma reformulação da historiografia


literária e da interpretação textual, procurando romper com o exclusivismo da teoria de
produção e representação da estética tradicional, pois considera a Literatura enquanto
produção, recepção e comunicação, ou seja, uma relação dinâmica entre autor, obra e leitor.
Pela reconstrução do processo de recepção e de seus pressupostos, restabelece a dimensão
histórica da pesquisa literária, conforme observa Luiz Costa Lima em estudo introdutório, alguns
dos teóricos e analistas da estética da recepção apontando para a mudança do paradigma da
investigação literária e discursiva, remetendo o ato de leitura a um duplo horizonte: o implicado
pela obra e o projetado pelo leitor de determinada sociedade.
A estética da recepção volta-se para as condições sócio-históricas das diversas interpretações
textuais: o discurso literário se constituiria, através de seu processo receptivo, enquanto
pluralidade de estruturas de sentido historicamente mediadas.
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RECEPÇÃO LITERÁRIA: UM DOS ESPELHAMENTOS DA MODERNIDADE
José Luiz Foureaux de Souza Júnior
"Problemas da teoria da literatura atual".
.. o texto literário é um ato intencional dirigido a um certo mundo, o mundo com que ele se
relaciona não é repetido, mas experimenta ajustes e coleções (...). A função do texto literário se
funda portanto nas maneiras de fazer um balanço de um mundo problemático ou por ele
problematizado.

LIMA, Luiz Costa. Teoria da Literatura em suas fontes. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975. vol.
11. p. 373.

A partir destes dados, a função do texto literário deixa de ser meramente a semântica. Outros
quadrantes serão atingidos. É nesta direção que Regina Zilberman diz: Ler assume hoje um
significado tanto literal, sendo, nesse caso, um problema de escola, quanto metafórico,
envolvendo a sociedade (ou, ao menos, seus setores mais esclarecidos) que busca encontrar
sua identidade pesquisando as manifestações da cultura.
Estética da Recepção e história da literatura. São Paulo: Ática, 1989. p. 16 (Fundamentos, 41).
Mudado o foco das especulações para o leitor, é bom que se diga, com as palavras de Terry
Eagleton, que O leitor abordará a obra com certos “pré-entendimentos ", um vago contexto de
crenças e experiências dentro dos quais as várias características da obra serão avaliadas.4
Teoria da literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, s. d. p. 83.
O leitor é este sujeito desejado na/pela obra. Esta é originalmente "aberta", mas esta abertura é
objeto de gradual eliminação, uma vez que o leitor passa a construir uma hipótese de trabalho,
capaz de explicar e fazer coerente o maior número possível de elementos desta mesma obra. Na
ambigüidade do termo leitor, a Teoria da Recepção constrói o seu texto. Vai tecendo suas
observações e constatações. Inscreve seus desejos e metaforiza suas imagens no écran. A folha
de papel é o simulacro da tela branca. Nenhuma leitura é inocente. Por fim, cada texto literário
é constituído a partir de um certo sentimento em relação a seu público potencial. Ele inclui a
imagem do seu próprio destinatário.
No fim, a constatação óbvia: mais um texto se escreveu e se inscreveu. Um texto para ser lido:
criando um pequeno horizonte de expectativas, em que a imagem desejada/desejante de um
sujeito, de um leitor – em toda a sua ambigüidade – foi projetada. Como será a recepção deste
texto que, mesmo não queiram outros leitores, é um texto literário? Ah, a etimologia... No
fundo, continuam notáveis, perceptíveis, as pulsações de um desejo, sempre o mesmo desejo.
Não é este o estratagema muito caro da "modernidade"?

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OBSERVAÇÕES SOBRE A APLICAÇÃO DA METODOLOGIA DA ESTÉTICA DA RECEPÇÃO A HELENA,
DE MACHADO DE ASSIS Ana Cláudia Salomão da Silva (Mestranda-UEMS)
Prof. Dr. Ravel Giordano Paz
O processo da leitura, a experiência estética e o leitor, principal elo desse sistema, são
elementos centrais para conhecimento e interpretação da obra. Jauss propõe o estudo da
literatura sob a perspectiva de sua relação com a época de produção e com a posição histórica
do intérprete. Assim, a estética da recepção é fruto do encontro entre poética e hermenêutica
(estética e interpretação). O teórico defende uma história da arte fundada nas perspectivas do
sujeito produtor e do consumidor e na sua interação mútua, vendo a obra de arte no horizonte
histórico de sua origem, função social e ação no tempo. São necessários o reconhecimento e a
incorporação da dimensão de recepção e efeito da literatura, somente através do que se dará
conta do caráter estético e do papel social da obra de arte, pois ambos se concretizam na
relação obra/leitor.
Afinal a qualidade e a categoria de uma obra literária não resultam nem das condições
históricas ou biográficas de seu nascimento, nem tão-somente de seu posicionamento no
contexto sucessório do desenvolvimento de um gênero, mas docritérios da recepção, do efeito
produzido pela obra e de sua fama junto à posteridade, critérios estes de mais difícil apreensão.
(JAUSS, 1994, p. 7)

A principal arma teórica de Jauss é o princípio da pergunta e resposta, definido


metodologicamente como dialético (estabelece-se por meio do diálogo com o texto) e
filosoficamente como “horizonte” (reconstitui o horizonte de expectativas). Significa abordar a
recepção da obra e o efeito por ela causado. O método contém três etapas: compreensão,
interpretação e aplicação. A compreensão é fundamentada na lógica da pergunta e da resposta.
Se o texto equivale a uma resposta, compreendê-lo significa chegar à pergunta à qual ele
respondeu. Jauss transfere essa ideia para o plano histórico: a hermenêutica literária tem a
tarefa de dar compreensão às obras do passado, reconstruindo o horizonte original. Por esse
método, as três etapas são assim entendidas: o horizonte progressivo (compreensão) da
experiência estética, que reconstitui a apreensão do texto através da leitura; o horizonte
retrospectivo da compreensão interpretativa (interpretação), com a função de esclarecer
detalhes, elucidar conjeturas e procurar sentidos, e leitura reconstrutiva (aplicação),
conhecimento histórico, que localiza o texto na época, as mudanças por que passou e que
provocou e o modo como foi assimilado no decorrer do tempo.
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Sem leitores não existe obra literária, já que um processo de comunicação ocorre apenas
quando o receptor entende a mensagem enviada pelo emissor. Ler não é simplesmente decifrar
as palavras escritas, é necessário que haja a compreensão por parte do leitor.
Ele prega que a recepção da obra configura-se como um fato social, já que os conhecimentos
prévios adquiridos pelo leitor determina a recepção da obra. “A História literária só cumprirá a
sua tarefa quando a produção literária for representada, não apenas na sincronia e diacronia da
sucessão dos sistemas que a constituem mas também compreendida, enquanto história
particular, na sua relação específica à história geral. Esta relação não se reduz ao facto de se
poder descobrir na literatura de todos os tempos uma imagem tipificada, idealizada, satírica ou
utópica da existência social. A função social da literatura só manifesta genuinamente as suas
possibilidades quando a experiência literária do leitor intervém no horizonte de expectativa da
sua vida quotidiana, orienta ou modifica a sua visão do mundo e age consequentemente sobre
o seu comportamento social.” (JAUSS, 1993, p. 105)
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BARTHES, R. O prazer do texto. São Paulo: Editora Perspectiva, 1987.

Ora, é um sujeito anacrônico aquele que mantém os dois textos em seu campo e em sua mão as
rédeas do prazer e da fruição, pois participa ao mesmo tempo e contraditoriamente do
hedonismo profundo de toda cultura (que entra nele pacificamente sob a cobertura de uma
arte de viver de que fazem parte os livros antigos) e da destruição dessa cultura: ele frui da
consistência de seu ego (é seu prazer) e procura sua perda (é a sua fruição). É um sujeito duas
vezes clivado, duas vezes perverso. (1987, p.21).
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A Estética da Recepção procura empreender uma análise transcendente da obra literária,
deslocando o eixo de investigação da mensagem para a sua recepção pelo leitor. Não se trata
mais de uma estética da produção ( eixo autor-texto), ou da representação (ênfase no
imaginário), mas sim uma estética da recepção (relação do autor com a obra dentro de um
contexto dado).

“ O leitor, em seu importante papel, imagina hipóteses, decifra, analisa, cria vínculos entre uma
obra e outra (...) o autor dá pista ao leitor para que co-participe, como um elemento a mais
do romance, abrindo novas perspectivas e recriando a história que lhe foi apresentada. Esta
liberdade criadora que se oferece ao leitor, tarefa de decifração e integração, dá-lhe a sensação
de não se afogar passivamente no mundo da literatura e de que as personagens retornaram a
um museu depois de passagem transitória pela vida “(JOZEF, 1980. P. 71-2) “ ... no espaço
literário contemporâneo não se pode conceber uma separação entre criação e crítica . O texto
só existe na medida de sua leitura”. ( JOZEF, 1980. P. 154).

A produtividade do texto literário “ é a sua capacidade de produzir sentidos múltiplos e


renováveis, que mudam de leitura a leitura. Ler não seria, então, aplicar modelos prévios, mas
criar formas únicas, que são formas virtuais do texto ativadas pela imaginação do leitor “
(MOISÉS, 1985. P. 50). Noutras palavras, o leitor funciona como o co-autor do texto.
JOZEF, Bella. O jogo mágico. Livraria José Olympio editora, Rio de Janeiro, 1980. P. 71-154
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Disponível em: http://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/estetica-da-recepcao-rezeptionsaesthetik-


reader-response-criticism/ Acesso em 31 de Jul. de 2019.
Qualquer obra de arte literária só será efectiva, só será re-criada ou “concretizada”, quando o
leitor a legitimar como tal, relegando para plano secundário o trabalho do autor e o próprio
texto criado. Para isso, é necessário descobrir qual o “horizonte de expectativas” que envolve
essa obra, pois todos os leitores investem certas expectativas nos textos que lêem em virtude
de estarem condicionados por outras leituras já realizadas, sobretudo se pertencerem ao
mesmo género literário. A história da literatura como “provocação literária” é uma reacção
contra a limitação da soberania do leitor na estética marxista, onde está circunscrito à posição
social que se lhe determina, e contra a tirania formalista que “apenas necessita do leitor como
sujeito da percepção” (pp.55-56). A proposta de Jauss para uma estética da recepção da obra de
arte pretende levar-nos mais além do estudo das condições de produção dessa obra e do autor
dela: “Se se olhar a História da literatura no horizonte do diálogo entre obra e público, diálogo
responsável pela construção de uma continuidade, deixará de existir uma oposição entre
aspectos históricos e aspectos estéticos, e poderá restabelecer-se a ligação entre as obras do
passado e a experiência literária de hoje que o historicismo rompeu.” (pp.57-58).
Todo o leitor pode ser de alguma forma, em algum momento, por algum motivo um crítico. É
impensável a crítica que não resulte de um acto de ler e porque este é a sua origem, a escrita só
se revela no acto de consumação da leitura. Não há críticos/escritores em primeira instância. A
produção do texto crítico só é possível depois do acto de ler algo que também é escrita. A ideia
barthiana-estruturalista do crítico como um prolongamento do escritor, continuando sempre a
ser escritor, um especialista da escrita, um demiurgo do texto, perde a sua lógica na origem:
antes de ser escritor, o crítico tem de ser leitor, tem que estar dependente, subordinado por um
dever de originalidade, a um texto já concebido. Não tem como missão a reconstituição do
objecto analisado, mas a sua interrogação, não a sua repetição, mas a dissecação da sua
natureza.

A estética da recepção quer devolver ao leitor um estatuto estético e epistemológico que é


suposto ser mais importante do que o do autor ou da própria obra de arte literária. Tal questão
arrasta vários problemas que os textos doutrinários da estética da recepção ainda não
discutiram. Se a recepção do leitor é mais importante do que tudo o mais, tudo o mais – obra,
autor, contexto, intertexto, etc. – perde valor teórico; se uma obra de arte literária só pode ser
uma obra de arte quando o leitor a validar, qualquer obra de arte, no momento da sua
concepção e produção, ficaria condicionada à existência de um leitor, isto é, de um estranho
que não entrou no génio artístico para este se poder exprimir; se um escritor só pode ver-se
reconhecido como tal quando o leitor o determinar, qualquer escritor viverá sempre na
dependência de um daimon ameaçador. Portanto, não podemos enunciar nestes termos a
questão que conduz à soberania do leitor. O primeiro aspecto a salientar para rever este
problema é dizer que se trata não de uma questão de aferir produtos ou validar méritos
artísticos mas de recognição. O papel do leitor crítico não deve ser intervir na produção da obra
de arte, interferir no trabalho do autor, emitir juízos de valor sobre a obra criada a fim de a
situar em qualquer lista de referência. Se um leitor trabalha criticamente sobre um texto, não
modifica em nada a razão em que o autor desse texto quis assumi-lo como obra de arte, por
isso nenhum texto literário nem nenhum autor depende da existência eventual de um leitor. Só
podemos falar com rigor de dependência existencial na razão inversa: não há leitores sem
previamente existirem autores e textos para serem lidos. A tarefa de ler do leitor só pode ser
iniciada quando o escritor tiver terminado a sua tarefa de escrever, pelo que o autor está
sempre numa posição privilegiada em relação ao leitor, apenas neste ponto da validação da
obra de arte como tal. Ora, se um leitor quiser agir criticamente sobre um texto, não tem que se
preocupar, aparentemente, com tal questão. Contudo, se se exigir colocar no prato da balança o
texto produzido para poder ser avaliado o seu grau artístico, o que acontece irremediavelmente
é o divórcio imediato com a percepção que o autor tem ou teve desse texto no momento da sua
produção.