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ROSSI, Aldo. “A arquitetura da cidade”.

A década de 1960 se configurou como um período de crítica e busca de alternativas ao


movimento moderno, que confluiu, sobretudo, na prática urbana em torno da pesquisa
de elementos históricos e tipológicos. A expressão deste momento é verificada na
arquitetura pós-moderna americana e nos grupos europeus La Tendenza e Escola de
Bruxelas (LOPES, 2010).

O grupo italiano La Tendenza fazia da história e da crítica à arquitetura os elementos


centrais do projeto, buscando tipologias e formas urbanas nas cidades pré-modernas.
Seus principais integrantes são: Aldo Rossi, Carlo Aymonino, Manfredo Tafuri, Giorgio
Grassi e Vittorio Gregotti. Dentre estes, o italiano Aldo Rossi, arquiteto e teórico da
arquitetura, atingiu extensa influência através de seus estudos e da prática profissional
bastante ativa (ALMEIDA, 2010).

Nascido em Milão, em 1931, Rossi iniciou seus estudos em 1949 na Faculdade de


Arquitetura do Politécnico de Milão, mesmo ano em que se filia ao Partido Comunista
para o qual escreveu alguns artigos. Retorna a vida acadêmica em 1963, como assistente
de Ludovico Quaroni, na Escola Urbanística de Arezzo, e de Carlo Aymonino, no
Instituto de Arquitetura da Universidade de Veneza (IAUV), período em que sua
carreira acadêmica ganhou impulso. Entre 1965 e 1975 atuou como docente no
Politécnico de Milão, tendo publicado “A arquitetura da cidade” em 1966. Faleceu
prematuramente, em 1997, em decorrência de acidente automobilístico.

O livro “A arquitetura da cidade” de Aldo Rossi, lançado em 1966, se inseriu em um


novo período de reflexão acerca da cidade, canalizando as tensões decorrentes do
esgotamento de preceitos modernistas e motivando a redescoberta da cidade a partir da
análise de seus acontecimentos e formas. O ponto de partida da obra é a compreensão da
cidade como artefato – arquitetura –, não apenas como conjunto de arquiteturas, mas
como processo de construção ao longo do tempo que é por natureza coletiva, ou seja,
inseparável da sociedade em que se manifesta por ser resultado da necessidade do
desenvolvimento de atividades abrigadas e de intencionalidade estética.

Considerar a cidade como artefato – arquitetura – possibilita dois entendimentos: aos


fatos urbanos que caracterizam uma arquitetura própria de uma área limitada e à cidade
como obra que cresce no tempo. Assim, o autor desenvolve a teoria dos fatos urbanos
que permite um método de análise para o enfrentamento do estudo da cidade através da
comparação entre a sucessão de fatos. Assim, considera-se o método de análise
histórica, mas não se restringe a ele, agregando a descrição dos fatos urbanos a partir
dos fatores locais, sua construção, as forças atuantes, entre outros aspectos
correlacionados.

A obra se inicia com a descrição dos fatos urbanos, passando a analisar a estrutura da
cidade artefato como conjunto de elementos primários e de áreas-residências, abordando
a individualidade dos fatos urbanos, a arquitetura, o locus e a história urbana e, por fim,
a dinâmica urbana e a política.

1.1Os fatos urbanos


Rossi conceitua os fatos urbanos como a construção final de uma elaboração complexa
possível de ser analisada através de sua individualidade por ter importante papel na
organização do espaço no tempo, agregando valores adquiridos materialmente ou
espiritualmente. O autor trata de analisar o fato urbano como a totalidade e seu método
de análise estuda as partes desta totalidade. Assim, parte-se da forma, uma vez que é
esta a síntese deste acontecimento, sendo também a sua origem. É isto que ele entende
por morfologia urbana, ou seja, a descrição das formas de um fato urbano como
instrumento para a aproximação deste. Metodologicamente, a cidade será dividida em
elementos primários e em área-residência por configurarem concretamente a cidade
através de um vínculo que formará o fato urbano.

Os fatos urbanos assemelham-se à obra de arte da mesma forma como Lewis Munford
descreve a cidade como obra de arte, a qual é condicionada pelos pensamentos de uma
época e, por sua vez, condiciona novos pensamentos e processos de interrelação com os
habitantes. “O pensamento toma forma na cidade e, por sua vez, as formas urbanas
condicionam o pensamento.” (MUNFORD apud ROSSI, 2001, p. 258). Este conceito
da cidade como obra de arte foi desenvolvido por compreender que ambas têm o
público como receptor final, ainda que a cidade seja resultado de uma vida inconsciente
e coletiva e a obra de arte seja a produção de um indivíduo.

É através das impressões e experiências dos indivíduos na cidade que a mesma pode ser
analisada a partir do reconhecimento da qualidade do espaço. “Nesse ponto, deveríamos
falar da ideia que temos desse edifício enquanto produto da coletividade e da relação
que temos com a coletividade através dele.” (ROSSI, 2001, p.16).

A concepção dos fatos urbanos como obra de arte ilumina a estrutura da cidade, assim,
os edifícios são momentos, partes de um todo que é a cidade e seu estudo contribui para
compreendê-la. Desde a Idade do Bronze o homem altera a paisagem às suas
necessidades sociais e ao longo do tempo, o tipo se constitui a partir das diferentes
necessidades. Para Rossi, o tipo é o enunciado lógico anterior à forma, diferenciando-se
do modelo. O tipo é a própria ideia da arquitetura, sua essência, e a tipologia é o estudo
dos tipos. Como exemplo pode-se afirmar que o tipo do imóvel de habitação permanece
o mesmo até hoje, ainda que os modos de viver tenham se alterado. Já o modelo é um
objeto que deve ser repetido de forma exata, suas características são definidas com
precisão e dadas no próprio objeto.

Rossi é contrário a redução de todo fato urbano à sua função, uma vez que se deve
considerar que o vínculo entre forma e função é mais complexo que o linear de causa e
efeito, difundido pelo funcionalismo no qual as funções resumem a forma. Considera
que a função pode se alterar ao longo do tempo, não havendo uma função específica.
“Penso que a explicação dos fatos urbanos mediante a função deve ser repelida quando
se trata de esclarecer sua constituição e conformação [...].” (ROSSI, 2001, p.29). A
análise dos fatos urbanos baseadas exclusivamente nas funções perde o valor da
estrutura urbana, da arquitetura e da própria permanência das edificações. Assim,
defende que é inconcebível a redução da estrutura dos fatos urbanos a organização de
determinada função, ainda que seja aceitável a classificação através das funções como
regra prática em associação com outros critérios.

Rossi pretende delinear um tipo de leitura da estrutura urbana que dê conta da


complexidade do fato urbano e seu caráter coletivo. Por considerar que a cidade explica
a si mesma, classificá-la por funções é meramente descritivo e não explicativo. Para
isto, discute o alcance de uma leitura interdisciplinar, se é que ela é possível, e a
possibilidade de autonomia de uma ciência urbana, considerando que a cidade se
constrói na sua totalidade e todos os componentes formam um fato urbano tendo como
questão fundamental sua natureza coletiva.

1.1.1 A permanência e os monumentos

Os fatos urbanos como organizadores do espaço no tempo estão no centro das


transformações das cidades podendo permanecer iguais ou se extinguirem, restando
apenas sinais físicos. Neste contexto, Rossi defende o enfoque da história urbana, uma
vez que o significado das permanências reside no fato de que o passado é
experimentado no presente. Assim, absorve a teoria de Marcel Poète por tocar a questão
das permanências como monumentos, sinais físicos do passado e persistência de
traçados e planos.

O problema das permanências é apresentado com duas faces, os elementos patológicos e


elementos propulsores. Como elemento propulsor, entende-se um objeto de caráter
permanente, que atingiu este status por permitir a experiência da forma física do
passado ainda que sua função tenha mudado ao longo do tempo, no entanto, constitui-se
ainda no tempo presente como um foco importante na dinâmica urbana. Já o elemento
patológico seria algo isolado, constituído pelo ambiente quando a permanência deste
reduz-se a função em si mesma. Quando se fala em ambiente se faz referência ao
conjunto arquitetônico e seu congelamento, que vai de encontro com o processo
dinâmico das cidades. Segundo Rossi, este último caso está totalmente distante do
passado que ainda é experimentado.

Quanto aos monumentos, relaciona-os aos fatos urbanos persistentes, uma vez que os
monumentos permanecem efetivamente nas cidades. “Essa persistência e permanência é
dada pelo seu valor constitutivo, pela história e pela arte, pelo ser e pela memória.”
(ROSSI, 2001, p.56). Por isso, reconhecer os monumentos como elementos fixos na
estrutura urbana apenas por sua intencionalidade estética é simplista, visto que se
encontra expressão e valores simbólicos mesmo em obras menores. O autor não avança
na questão das obras menores, mas conclui que “[...] o processo dinâmico da cidade
tende mais à evolução do que à conservação e que na evolução dos monumentos se
conservam e representam fatos propulsores do próprio desenvolvimento.” (ROSSI,
2001, p.57).

1.2 As áreas-residências e os elementos primários

A cidade como artefato, como arquitetura total, leva a três proposições: 1° o


desenvolvimento temporal, no qual a cidade tem um antes e depois que conecta
fenômenos e permite a análise das permanências; 2° a continuidade espacial; 3° os
elementos de natureza particular que formam a estrutura urbana. Para a análise de um
conjunto de elementos, parte-se do conceito de área-estudo que seria a delimitação de
um entorno em que se reconheçam características precisas de qualidade diferenciada.
Estas áreas de estudo são unidades do conjunto urbano, partes constituintes da cidade
que se assemelham ao conceito de bairro, constituído de morfologia social, de unidade
morfológica, conteúdo social e funções próprias.
O autor desenvolve como método de leitura a compreensão da cidade como uma
arquitetura composta por diferentes elementos, dos quais se destacam a residência e os
elementos primários. Por considerar que raramente a residência permanece, estuda a
área-residência como acompanhamento de sua evolução e os elementos primários que
têm caráter decisivo na formação da cidade em função de sua permanência. Entende-se
que a relação entre área-residência e elementos primários configura concretamente a
cidade, construindo o vínculo que forma o fato urbano.

[...] deve-se conceber a cidade como algo que cresce por pontos (elementos primários) e
por estruturas (bairros e residência), e, enquanto nos primeiros predomina a forma
consumada, nas segundas aparecem em primeiro plano os valores do solo. (ROSSI,
2001, p.124).

O estudo da residência não representa uma postura funcional, mas sim a análise
particular de um fato urbano na composição da cidade. Este aspecto torna-se relevante
uma vez que a cidade sempre foi caracterizada pela residência e não se pode dizer que
estas áreas sejam amorfas, na realidade elas estão intimamente ligadas à forma urbana.
A localização destas áreas, por sua vez, depende de muitos fatores, sejam geográficos,
morfológicos, históricos, e principalmente econômicos, cuja alternância de áreas é
promovida pela especulação do solo urbano.

O estudo da residência caracteriza-se como um método adequado para o estudo da


cidade e vice-versa, já que a existência de serviços públicos e equipamentos coletivos
está vinculada ao sucesso das áreas residenciais e a possibilidade de expansão e
dispersão das mesmas.

Os elementos primários são caracterizados como núcleos de agregação, não


necessariamente físicos, mas que participam do desenvolvimento da cidade de maneira
permanente, constituindo frequentemente fatos urbanos. Compreendem, em geral, as
atividades fixas (lojas, edifícios públicos, comerciais, de serviços) estando relacionados
à função que abrigam, no entanto, podem ainda ser considerados como primários por
seu caráter espacial, independente da função, como no caso de um edifício histórico que
tem valor em si e é um fato gerador da forma da cidade.

Mais do que estas classificações são elementos capazes de acelerar o processo de


urbanização que caracterizam as transformações do território e, portanto, fundamentais
para a dinâmica urbana. Neste sentido, o monumento e os planos urbanísticos são
entendidos como elementos primários. O monumento é um fato urbano típico, mas
particular já que o valor estético se sobrepõe ao invés do caráter econômico e da
necessidade prática. Este é o caso em que toda a estrutura do fato urbano se resume na
forma. Já os planos urbanísticos são entendidos como elementos primários por
representar sempre um tempo da cidade e um indutor de transformações.

As permanências de áreas-residências e elementos primários são acompanhadas por


processos de transformações em curso que permitem a mobilidade de certas porções da
cidade. Assim, determinadas áreas entram decadência e obsolescência, permitindo a
sobrevivência de conjuntos de edificações, configurando ilhas que não acompanham o
desenvolvimento geral, mas que representam áreas de reservas. Simultaneamente,
processos intervenções sobre outras áreas possuem tempos muito mais velozes por
receberem pressão pelo uso do solo. Sobre estas dinâmicas de transformação e as
tensões que se criam, Rossi afirma (2001, p.136):

Naturalmente, não podemos confiar tão simplesmente assim os valores da cidade de


hoje a essa sucessão de fatos, mesmo porque nada nos garante uma continuidade
efetiva. É importante conhecer o mecanismo e, principalmente, estabelecer como
podemos agir nessa situação – não, creio eu, através do controle total dessa alternância
de fatos urbanos, mas sim através do controle dos fatos principais que surgem num certo
tempo.

1.3A individualidade dos fatos urbanos

A individualidade do fato urbano se inicia na compreensão do “locus” do lugar que


representa condições e qualidades singulares, uma vez que a construção humana adquire
valor de lugar e de memória a partir da noção que cada indivíduo carrega. Assim, a
forma física do fato urbano que abrigava determinado acontecimento passa a ser o
próprio acontecimento, o signo. O “locus” é entendido como “[...] aquela relação
singular, mas universal, que existe entre certa situação local e as construções que se
encontram naquele lugar.” (ROSSI, 2001, p.147). Este termo faz referência ao “genius
loci” no mundo clássico, que seria o “espírito do lugar”, o qual era de grande
importância para a implantação de cidades e edifícios. Neste sentido, reconhecem-se os
significados simbólicos que transcendem a materialidade na construção das cidades e
agregam-se experiências particulares ao encontro de pontos singulares.

A cidade como construção no tempo requer o método histórico de análise, uma vez que
a cidade é história para determinados grupos sociais. Nesse sentido a memória coletiva
dos povos é o que dá significado e individualidade a fatos e lugares, tornando a própria
cidade o “locus” da memória coletiva.

1.4A evolução dos fatos urbanos

As transformações dos fatos urbanos indicam a capacidade das cidades se modificarem


completamente ao longo dos anos, estes processos podem se acelerar em determinados
períodos em função das diferentes forças que atuam sobre a mesma. Rossi trata das
teses de Maurice Halbwachs e de Hans Bernoulli com a finalidade de compreender a
real natureza das transformações dos fatos urbanos a partir do ponto de vista econômico.
Assim, entende que há duas variações fundamentais, a primeira refere-se às
intervenções levadas por iniciativas pessoais, de soberanos ou de partidos como sinal de
poder, a segunda caracteriza as transformações originadas pela sucessão dos fatos como
reflexos de circunstâncias coletivas. No entanto, ainda que a segunda variação tenda a
uma naturalização do processo, para o autor, “nenhum crescimento urbano é
espontâneo”. Assim, as modificações nas estruturas urbanas somente são entendidas a
partir dos grupos dominantes de determinado território, já que a história da arquitetura
relaciona-se diretamente à história da arquitetura das classes dominantes.

Rossi finaliza inserindo a política como caráter decisivo dos fatos urbanos que
constroem a cidade, uma vez que “[...] constitui a o fato primeiro da “polis”, a política,
de sua construção.” (ROSSI, 2001, p.252). Assim pergunta-se e, imediatamente,
responde: “Quem, em última instância, escolhe a imagem de uma cidade? A própria
cidade, mas sempre e somente através de suas instituições políticas.” (ROSSI, 2001,
p.252). Neste sentido, a arquitetura urbana, assim como suas transformações, possuem
intencionalidade e, por isso, atuam como um caminho para que se chegue a cidade
desejada, podendo ela mesma constituir a própria cidade. Desta forma, todas as cidades,
da mesma forma que “Atenas, Roma, Paris, também são a forma de sua política, os
signos de uma vontade.” (ROSSI, 2001, p.252).