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ESCOAMENTOS VARIÁVEIS SOB PRESSÃO

11.1 – Tipos de escoamentos. Problemas em causa

• Os escoamentos variáveis sob pressão caracterizam-se pela modificação da


velocidade média e da pressão, ao longo do tempo, em qualquer secção.

• Podem ser provocados por:

- manobras de válvulas;
- variação do regime de funcionamento de turbinas e de bombas.

 v
Os escoamentos variáveis que
asseguram a passagem de um
regime permanente para outro
regime permanente dizem-se
transitórios perm. trans. perm.

v = v(t) em cada secção t


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ESCOAMENTOS VARIÁVEIS SOB PRESSÃO

11.1 – Tipos de escoamentos. Problemas em causa

• Tipos de escoamentos variáveis sob pressão:


- golpe de ariete – a compressibilidade do líquido e a deformabilidade das
paredes das condutas exercem influência fundamental
nos processos.
- oscilação de massa – a compressibilidade do líquido e a deformabilidade
das paredes das condutas não exercem…

• De um modo geral

- o golpe de ariete pode ter lugar numa conduta com um dos extremos ligado
a um reservatório e com o outro ligado a um órgão regulador de caudal
(turbina; bomba; válvula…).
- as oscilações de massa ocorrem em condutas que ligam dois reservatórios
num dos quais, pelo menos, o nível oscila.

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11.1 – Tipos de escoamentos. Problemas em causa


chaminé de equilibrio
hidrostática
nível oscila
Reservatório linha "variável" durante os
de nível escoamentos variáveis
constante

galeria sob pressão


(oscilação de massa)
Hu

conduta forçada
(golpe de ariete)
compressibilidade rejeição
deformabilidade

Nota:
As modificações do caudal absorvido pelas turbinas dão lugar a escoamentos
variáveis; podem verificar-se na paragem ou no arranque das turbinas ou,
ainda, durante o seu funcionamento pela necessidade de adaptar a potência
produzida às necessidades da rede.
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11.1 – Tipos de escoamentos. Problemas em causa


• Existe ainda outro tipo de escoamento variável sob pressão que se processa
sem influência da compressibilidade do líquido nem da deformabilidade da
conduta, mas que não dá lugar a oscilações de nível e que, por isso, não
cabe na classificação anterior. Trata-se do escoamento quase - permanente.

Reservatório v
de pequenas v0
dimensões

a) t
v = v (t) na secção a)

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ESCOAMENTOS VARIÁVEIS SOB PRESSÃO

11.1 – Tipos de escoamentos. Problemas em causa


• Os problemas que geralmente se colocam ao engenheiro quando é chamado
a resolver problemas em que tenham lugar escoamentos variáveis são:

-determinação de pressões extremas


tendo em vista o dimensionamento estrutural de condutas

-determinação de níveis extremos nas chaminés de equilíbrio


nível máximo  descarga superior
nível mínimo  entrada de ar (a evitar)

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11.2 – Golpe de ariete. Análise qualitativa


11.2.1 – Fechamento total e instantâneo
• Suponha-se uma instalação constituída por um reservatório de grandes
dimensões do qual parte uma conduta horizontal de características uniformes
dotada, na extremidade de obturador.
• Considere-se estabelecido um escoamento em regime permanente com a
velocidade U0. Desprezem-se as perdas de carga e a altura cinética. A
pressão, p0, é constante na conduta.
Feche-se total e instantaneamente o obturador.

a) t ≤ 0
p0 = γ⋅ y0
y0
U0

L obturador aberto
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11.2 – Golpe de ariete. Análise qualitativa


11.2.1 – Fechamento total e instantâneo
b) 0 < t < L Celeridade da onda
c
p = p0 + ∆p
C
U=0

U0 obturador fechado
p0
L
Como o líquido não é incompressível nem as paredes da conduta são rígidas,
a coluna líquida não pára instantaneamente.
O líquido continua a entrar na conduta à custa da compressão do líquido e da
dilatação da conduta.

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11.2 – Golpe de ariete. Análise qualitativa


11.2.1 – Fechamento total e instantâneo
c) t = L
c
Há desequilíbrio de pressões na
p = p0 + ∆p passagem do reservatório para a
U=0
conduta
p0
Inicia-se um movimento no sentido
do reservatório
d) L < t < 2L
c c

c
U=U0 U=0
Movimento no sentido do
reservatório
p =p0 p =p+ p
0

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11.2 – Golpe de ariete. Análise qualitativa


11.2.1 – Fechamento total e instantâneo
e) t = 2L
c

U=U0

p =p0

f) 2L < t < 3L
c c
O líquido continua a escoar-se no
c sentido do reservatório. Esse
U=U0 U=0 movimento faz-se à custa da
descompressão do líquido junto ao
p =p0 obturador, onde o líquido fica em
p =p0 - p repouso.
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11.2 – Golpe de ariete. Análise qualitativa


11.2.1 – Fechamento total e instantâneo
g) t = 3L
c
Existe novamente um desequilíbrio
de pressão à entrada para a
conduta
U=0

inicia-se um movimento no sentido


p =p0 - p
da conduta
h) 3L < t < 4L
c c i) t = 4L
c
o processo repete-se
c indefinidamente se não houver
U0 U=0 perdas de carga

p0 y0
p =p0 - p U0

L obturador aberto
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11.2 – Golpe de ariete. Análise qualitativa


11.2.1 – Fechamento total e instantâneo
• Diagrama cronológico das pressões junto ao obturador supondo nulas as
perdas de carga e o fecho total e instantâneo:

p0 + p
p
p0 p0
p
p0 - p

2L 4L 6L 8L t
c c c c
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11.2 – Golpe de ariete. Análise qualitativa


11.2.2 – Influência do tempo de fechamento do obturador
• O fechamento instantâneo é uma manobra fictícia
• Para simular uma situação real, considere-se o fechamento constituído por
manobras elementares
'p
p0

– a 1ª manobra elementar de redução da secção vai provocar junto ao


obturador uma diminuição da velocidade: U0 → U0 – ∆U e um aumento de
pressão p0 → p0 + ∆’p
– Cada uma das manobras seguintes vai produzir o mesmo efeito. Num
dado instante a sobrepressão junto ao obturador é a resultante das
sobrepressões elementares
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11.2 – Golpe de ariete. Análise qualitativa


11.2.2 – Influência do tempo de fechamento do obturador
• Convém distinguir duas situações em termos de tempo de fechamento total:
 Se T < 2L (manobra rápida)
c
– a “última” manobra elementar de redução da secção vai provocar junto do
obturador, uma sobrepressão que ainda se adiciona à sobrepressão devida
à primeira manobra elementar; esta só dá origem a depressão junto do
obturador ao fim de T = 2L
c
– em termos de sobrepressão máxima junto do obturador tudo se passa
como se a manobra fosse instantânea.
 Se T > 2L (manobra lenta)
c 2L
– cada manobra elementar realizada depois do instante c provoca, junto do
obturador, uma sobrepressão que aí já encontra depressões devidas às
primeiras manobras.
– o obturador (e toda a conduta) nunca é submetido a uma pressão tão
elevada como a que resulta de uma manobra instantânea.
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11.2 – Golpe de ariete. Análise qualitativa


11.2.2 – Influência do tempo de fechamento do obturador
• Deve notar-se que, embora a sobrepressão máxima atingida junto do
obturador numa manobra rápida iguale a sobrepressão correspondente à
manobra instantânea, essa sobrepressão máxima não se verifica ao longo
2L
de toda a conduta. T< c T=
2L
c
T=0
2L
T> c

• Do exposto resulta que a diminuição das pressões máximas passa pela


diminuição de 2L , para um dado T, i.e., pelo aumento de T , o que se
c 2L
consegue c
-intercalando chaminés de equilíbrio (diminui L)
-aumentando o valor de T

 Soluções construtivas
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11.2 – Golpe de ariete. Análise qualitativa


11.2.3 – Golpe de ariete a jusante de bombas
• Na anulação, instantânea ou não, do caudal a jusante de uma bomba, o
diagrama cronológico das pressões na secção imediatamente a jusante da
bomba é simétrico do correspondente ao fechamento do obturador
p
p0 + p
p
p0 p0
p
p0 - p

2L 4L 6L 8L t
c c c c
se: T ≤ 2L → depressão correspondente à anulação instantânea junto à bomba.
c
se: T > 2L → depressão máxima inferior à que corresponde à anulação
c
instantânea.
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11.2 – Golpe de ariete. Análise qualitativa


11.2.4 – Rotura da veia líquida
• Na análise anterior foi considerado que a depressão máxima atingida
durante o regime variável não faria a correspondente pressão mínima baixar
até à tensão de saturação do vapor de água. Se isso acontecer, a veia
líquida poderá romper-se, formando-se uma cavidade ocupada por vapor de
líquido e por gases anteriormente nele dissolvidos.

• A rotura da veia líquida pode ter como consequência o colapso da conduta


devido a:
-pressões interiores elevadas surgidas quando a veia líquida volta a
reconstituir-se; o colapso da cavidade formada pode originar sobrepressões
muito mais elevadas do que as que ocorrem em situações sem rotura.
-excesso da pressão exterior sobre a interior, durante a rotura.

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11.3 – Elementos de análise quantitativa do golpe de ariete


11.3.1 – Preliminares
• O estudo do golpe de ariete é feito utilizando um modelo matemático em que
intervêm:
-a compressibilidade do líquido;
modelo elástico
-a deformabilidade da conduta.
• Os valores do caudal num dado instante, em que duas secções da mesma
conduta, podem ser diferentes segundo o modelo elástico. O caudal é
simultaneamente função do tempo e da secção.

• O modelo matemático para estudo do golpe de ariete baseia-se em duas


equações diferenciais:
-equação da continuidade;
-equação do movimento: equação de Bernoulli.
A integração das equações diferenciais implica o conhecimento de condições
de fronteira:
p
-junto da saída de um reservatório: γ = const.
-junto de um obturador com saída para a atmosfera: Q = f ( s)
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11.3 – Elementos de análise quantitativa do golpe de ariete


11.3.2 – Pressões extremas num sistema reservatório – conduta - obturador
Seja um sistema reservatório – conduta – obturador em que:
-conduta com características uniformes não necessariamente horizontal;
-são desprezáveis a altura cinética e as perdas de carga.
2L 
1 – Considere-se o caso de uma manobra rápida T ≤ c  não implicando


 
fechamento total. Então a sobrepressão máxima é dada por:

y1 − y0 = gc U0 −U1  1 y1 – cota piezométrica máxima


 
y0 – cota piezométrica de regime inicial
U0 – velocidade do regime inicial
na conduta
U1 – velocidade no final da manobra
c – celeridade da onda

e ocorre antes do instante 2L


c
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11.3 – Elementos de análise quantitativa do golpe de ariete


11.3.2 – Pressões extremas num sistema reservatório – conduta - obturador

2 – Incógnitas da equação anterior: y1, U1 → 2 equações

3 – Condição de fronteira no obturador (eq. da continuidade):

y1
U1 ⋅ S1 = S ⋅U = S 2 g ⋅ y1
U1
U = 2 g ⋅ y1
S1
S
4 – A celeridade é dada por:
ε ε – módulo de elasticidade volumétrica do líquido
c= ρ
E – módulo de elasticidade do material da conduta
1+ ε ψ ψ – coeficiente adimensional que depende das
E
características da conduta 19
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11.3 – Elementos de análise quantitativa do golpe de ariete


11.3.2 – Pressões extremas num sistema reservatório – conduta - obturador
Nos casos particulares em que:
1 – o fecho é rápido e total:
U1 = 0 ⇒ y1 − y0 = gc U0 2
2 – as condutas são de parede fina sem constrangimentos axiais (condutas
de diâmetro D e espessura “e”):
ε
ρ
c= ψ= D
1+ ε ⋅ D e
E e
Nos casos práticos em que:
-o líquido é água
900 m/s ≤ c ≤ 1300 m/s
-as condutas são metálicas ou de betão
c = 1000 m s-1 (valor aceitável em estudos com pouco rigor e para as
condições anteriores):
y1 − y0 = 100 U0 20
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11.3 – Elementos de análise quantitativa do golpe de ariete


11.3.2 – Pressões extremas num sistema reservatório – conduta - obturador
No caso de uma manobra lenta  T > 2L  e para uma lei de fecho linear


 c 

2L t
c
é válida, em primeira aproximação, a fórmula de Michaud

U0 – velocidade inicial
2L ⋅U0
ymáx − y0 = 3 L – comprimento da conduta
g ⋅T
y0 – carga estática (inicial)

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11.3 – Elementos de análise quantitativa do golpe de ariete


11.3.3 – Condutas a jusante de bombas (ou de turbinas)
• As equações 1, 2 e 3 mantêm-se válidas desde que se troque o sinal da
velocidade do escoamento, obtendo-se depressões em vez de sobrepressões

• Para pequenas instalações ou em estudos prévios, o tempo de anulação do


caudal na paragem de uma bomba é dado por:

K ⋅ L ⋅U0 em que:
se U0 ≥ 0,5 m s-1 : T = c +
g ⋅ Ht c – coeficiente que depende do declive
da conduta elevatória
K – coeficiente que depende do
comprimento da conduta

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11.3 – Elementos de análise quantitativa do golpe de ariete


11.3.3 – Condutas a jusante de bombas (ou de turbinas)
• No caso de o declive da conduta ser inferior a 20% e o L ser da ordem dos
kms, tem-se:

L ⋅U0
T = 1+
g ⋅ Ht

Se: T ≤ 2L ⇒ ymin − y0 = − c U0 2'


c g

2L ⋅U0
T > 2cL ⇒ ymin − y0 = − 3'
g ⋅T

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11.4 – Oscilação em massa


11.4.1 – Preliminares
• O estudo da oscilação em massa é feito considerando:

-o líquido incompressível
modelo rígido
-a conduta indeformável

• Os valores do caudal num dado instante, em duas secções de uma galeria,


são sempre iguais segundo o modelo rígido o que implica a propagação
instantânea de qualquer perturbação. O caudal é função do tempo.

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11.4 – Oscilação em massa


11.4.2 – Análise do fenómeno
1) Oscilação em massa desprezando perdas de carga e altura cinética.
A z
z* antes da
paragem

v=0
t=0 t
Ag
A subida do nível na chaminé assim originada faz aumentar a pressão na base
daquela, o que tem como consequência a desaceleração da coluna líquida em
movimento para a chaminé.
 
 ∂
aceleração  f  z 


∂t  L ⋅ Ag
Semi-amplitude das oscilações: z* = U0
g⋅A 25
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11.4 – Oscilação em massa


11.4.2 – Análise do fenómeno
2) Oscilação em massa considerando perdas de carga.

t
amortecimento das
oscilações

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EXERCÍCIOS PRÁTICOS
Problema 1º exame 06/07 – Uma conduta de ferro fundido com 0,6 m de diâmetro
e 2000 m de comprimento está inicialmente sujeita a uma altura
piezométrica de 150 m. A conduta é alimentada por uma bomba com um
caudal de água de 500 l/s e uma potência de 100 kW. Nestas condições
e considerando c = 1000 m/s, determine a pressão mínima
imediatamente a jusante da bomba, quando o escoamento é
interrompido em 6 s.

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