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Viagens na minha Terra

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almeida garreTT

PARA LER AS VIAGENS NA MINHA TERRA

Começando pelos problemas

LER AS VIAGENS NA MINHA TERRA Começando pelos problemas Desde o início, é preciso admitir: não

Desde o início, é preciso admitir: não é fácil ler as Viagens na Minha Terra.

O vocabulário — do português lusitano e do século XIX —, muitas vezes, dificulta a

fluidez da leitura; o mesmo se pode dizer a respeito da estrutura geral da obra, que não corresponde ao que esperamos de um romance. Em vez de deixar essas dificuldades de lado, talvez seja fértil começar por elas: afinal, as Viagens na Minha Terra são um romance? Acreditamos que não — ao menos podemos afirmar com certeza que não são um romance tradicional, nos modelos franceses ou ingleses. Certamente há motivos para que Garret tenha escolhido criar uma obra que não correspondia aos modelos com os quais ele próprio tomara contato. Comecemos por eles. Primeiramente, “o realismo do romance não está no tipo de vida que ele apresenta, mas no modo como o faz; o romance, mais do que qualquer outra forma literária, levanta de forma aguda o problema da correspondência entre a obra literária e a realidade que imita” 1 . Essas observações, referentes a proposições do crítico literário Ian Watt, são úteis para nós, porque as Viagens chamam a atenção exatamente por esses dois motivos: nessa obra de Garret, o modo de narrar chama a atenção — convocando o leitor à participação, indo e voltando no tempo, aludindo a diferentes lugares de Portugal, inserindo em capítulos do livro a história de Carlos

e Joaninha, e as cartas dele a ela — propondo exatamente um debate a respeito dos limites entre realidade e ficção. Esses limites, aliás, sempre fizeram parte das investigações dos teóricos do romance como forma. A mesma professora Sandra

Guardini Vasconcelos, explicando as diferentes teorias a respeito dessa forma literária, lembra que “nos seus estágios iniciais,

o romance apresentava-se como uma forma ambígua, uma ficção factual que negava sua ficcionalidade e produzia em seus leitores

um sentimento de ambivalência quanto a seu possível conteúdo de verdade”. Isso quer dizer que uma das questões fundamentais

do romance diz respeito à impressão de realidade — chama-se a esse efeito, nos estudos de literatura, de verossimilhança

que ele contém, apesar de ser uma obra de ficção. Finalmente, a mesma pesquisadora e professora de literatura inglesa da USP lembra que essa impressão de verdade não tem origem no caráter documental dos lugares, por exemplo, mas deriva diretamente da organização interna dos elementos da obra: é exatamente nesse aspecto que verificaremos a força das Viagens na Minha Terra, de Almeida Garret. Aquilo que se convencionou chamar de romance no século XIX, de forma geral, é a narrativa de passagens da vida de um herói problemático que, à cata de ascensão social, tem de abrir mão de alguns valores, todos relacionados com a integridade pessoal. O trabalho, o acúmulo de capital, a iniciativa pessoal e o enriquecimento a todo custo são, portanto, temas constantes dos romances românticos burgueses. O dilema do herói burguês é tentar equilibrar, de um lado, as conquistas materiais que alcança e, de outro, os valores que procura preservar. Sempre é difícil obter esse equilíbrio, e a degradação moral do sujeito, que perde ou abandona os valores à medida que ascende socialmente, parece inevitável. No romance, ainda segundo Sandra Guardini Vasconcelos, “as mais altas realizações individuais são, cada uma, sedimentação formal de uma experiência sócio-histórica, plasmada em obra de arte”. É claro que essas realizações individuais estão diretamente associadas à ascensão da classe burguesa ao poder e à difusão das ideologias por ela propostas, especialmente a da ascensão social. Simplificando: na Idade Média, de forma geral, o homem nascia circunscrito a determinadas ocupações, que desempenharia

ao longo de toda a vida; com a evolução do Capitalismo, cada vez mais se abre aos homens — ao menos no plano das ideias — a

possibilidade de ascender socialmente por meio do trabalho assalariado. Em comparação com outros países do chamado centro econômico da Europa — especialmente a Inglaterra e a França —, Portugal destoa bastante: desde a época dos Grandes Descobrimentos, não se formou nesse país uma burguesia forte — exatamente porque as matérias-primas oriundas das colônias, especialmente do Brasil, sustentaram as classes dominantes mais atrasadas, ainda ligadas ao modo de produção feudal. Da mesma forma, a Igreja Católica ganhou força nesse país e preservou instituições medievais, ao contrário do que ocorreu naqueles, em que a burguesia se fortaleceu, atenuou o poder econômico e o domínio

ideológico da Igreja e investiu no desenvolvimento de novas tecnologias — originando, finalmente, a indústria e, por consequência,

a população urbana de operários, contexto que exigia novas instituições político-administrativas. Em poucas palavras, até a fuga

da família real para o Brasil, em 1808, as classes dominantes de Portugal estenderam tanto quanto foi possível a estrutura quase

feudal do país, cumprindo sempre o papel que fora, no século XVI, inovador, mas que, frente às Revoluções Francesa e Industrial, acabaria se mostrando rigorosamente atrasado. Enquanto nas nações centrais da Europa (centrais do ponto de vista econômico) a burguesia se fortalecia por meio do desenvolvimento tecnológico, Portugal relegava-se ao papel de middle man, isto é, de entreposto,

de intermediário comercial, entre as matérias-primas oriundas da colônia e as fábricas nascentes sobretudo na Inglaterra.

Autor: Carlos Rogerio Duarte Barreiros, professor de Literatura, Artes Visuais e Língua Portuguesa do CPV Vestibulares há dezoito anos, doze deles dedicados à preparação ao vestibular, sempre no CPV. Também é escritor, crítico literário e pesquisador de Literatura, doutorando na USP.

1 Trecho da obra Dez lições sobre o romance inglês do século XVIII, da professora Sandra Guardini Vasconcelos da USP, publicada pela Editora Boitempo.

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Essa situação intermediária — de atraso frente às nações centrais da Europa e de metrópole frente às colônias que ainda sustentava 2 — sofreu grave abalo com a perda do Brasil. De forma geral, a história portuguesa do século XIX resume-se a uma grande crise, a partir especialmente de 1820, em que se alternam no poder, de um lado, setores mais progressistas, inspirados no liberalismo e na urgência de modernização do país, e, de outro, setores mais conservadores,

cuja finalidade era a restituição do poder à Monarquia e aos setores ainda tradicionalmente ligados aos privilégios feudais. Garret assevera, por meio da trajetória de Carlos, que os progressistas liberais portugueses, apesar de desbancarem

a

Igreja de seu lugar de supremacia, acabam acomodados

e

cooptados (agregados) às velhas estruturas de extração

feudal — tornando-se barões, alvos de crítica direta de Garret nas Viagens.

Acreditamos, portanto, que a forma literária indecisa das Viagens é correspondente às turbulências experimentadas por Portugal na primeira metade do século XIX — e foge

à estrutura do romance tradicional, já que não há burguesia

portuguesa nos termos em que havia na França e na Inglaterra. Não se trata, é claro, de estabelecer uma correspondência direta e grosseira (como se disséssemos que “o livro não tem gênero definido porque Portugal não tem forma de governo definida”), mas de verificar que o chão histórico em que a obra é escrita deixará nela traços formais. Notemos, por exemplo, que os ideais adotados pelos defensores do liberalismo em Portugal são todos estrangeiros — inspirados em teorias ou acontecimentos históricos ingleses, franceses ou norte-americanos. A burguesia, em Portugal, não só é fraca ou quase inexistente (comparada às burguesias fortes de outros países), mas também é incapaz de formular projetos para o país, a partir de suas especificidades. As tentativas de introdução de ideários estrangeiros em Portugal — da mesma maneira que ocorre no Brasil, aliás — soa sempre artificial, porque não dialoga com a realidade nacional concreta. Almeida Garret era escritor e homem público, tendo participado de toda a vida política portuguesa da primeira metade do século XIX. Certamente percebia o descompasso entre as ideias estrangeiras e a realidade de seu país (observaremos claramente essa percepção em trechos da própria obra), inclusive no que dizia respeito às modas literárias. Com efeito, como escrever um romance em Portugal, se não havia burguesia como a inglesa ou francesa? Como escrever um romance efetivamente português, a partir das especificidades nacionais e populares — que poderiam envergonhar o leitor português culto, porque soariam como atraso se comparadas aos modelos estrangeiros? Como aventar

2 A ideia de que Portugal é um país semiperiférico na Europa vale até hoje e explica boa parte da crise pela qual o país está passando neste exato momento, iniciada devido ao estouro da bolha imobiliária dos Estados Unidos, em 2008, culminando na crise da dívida soberana europeia, em 2010. Essas afirmações foram extraídas da obra Portugal: Ensaio contra a autoflagelação, de Boaventura de Sousa Santos, publicada pela editora portuguesa Almedina em maio de 2011.

ideais de ascensão social e livre iniciativa em uma sociedade cujas estruturas ainda guardavam muita semelhança com as de origem feudal, em que esses valores podiam até circular entre as classes dominantes, mas passavam longe da existência concreta da maioria da população?

A forma incerta das Viagens certamente guarda traços das

estruturas socioeconômicas portuguesas, mas guarda algo ainda maior: talvez a contradição de ser periferia do centro e centro da periferia — e depois ver ruir essa condição que durou mais de 300 anos — tenha deixado traços na cultura portuguesa que Garret pretende flagrar viajando pela própria terra.

O

descompasso entre forma literária estrangeira

e

realidade nacional portuguesa

Resumir as Viagens é muito simples. De forma geral, trata-se de obra em que o narrador relata sua viagem de Lisboa a Santarém,

registrando impressões referentes ao trajeto e outras, que nada têm diretamente com ele, mas que dialogam com a realidade portuguesa. Além disso, há, entremeada nesses relatos, a partir do capítulo X,

a história de Carlos, Joaninha, a velha Francisca e Frei Dinis;

essa narrativa se relacionará à viagem de Garret. A primeira afirmação, portanto, a respeito do texto é de que ele contém duas histórias paralelas que se tocam num momento

específico — aquele, já próximo do final, em que o narrador lê e transcreve para nós, leitores, a carta de Carlos a Joaninha. A história de amor desses dois primos é bastante singela.

A parte novelesca das Viagens relata a história de uma estranha

família, cheia de mistérios e segredos que, aos poucos, vão sendo revelados: Carlos, o protagonista, pressentindo que um sentimento de culpa paira sobre a família, resolve partir para a Inglaterra, deixando em Portugal a avó, que o criara, e sua prima, Joaninha. As duas mulheres contam com a proteção da estranha figura de Frei Dinis, um nobre que se despojara dos bens materiais para tornar-se padre. Algum tempo mais tarde, Carlos, alistando-se no exército liberal, regressa ao país, deixando na Inglaterra sua noiva, a jovem Georgina. Acampado com o exército no Vale de

Santarém, próximo à casa da avó, o jovem reencontra a prima, e

os dois se apaixonam. Carlos sofre, dividido entre o novo amor e

o

compromisso com Georgina. Ferido em combate, é levado para

o

convento de Frei Dinis, onde é assistido por Georgina, que viera

a seu encontro. Quando se recupera, ao saber que era filho de Frei Dinis, renuncia ao amor, à família e a todos os ideais para tornar-se “barão”. Georgina volta para a Inglaterra e entra num convento; Joaninha enlouquece e morre. A avó, também louca, é cuidada por Frei Dinis, que continua a expiar a culpa de ter sido o causador de todos os males àquela família 3 .

3 Esse parágrafo de síntese da história de Carlos e Joaninha foi extraído da obra A Literatura Portuguesa em Perspectiva: Romantismo e Realismo, Volume 03, sob a direção de Massaud Moisés, com textos dos professores Carlos Alberto Vecchi, Elenir Aguilera de Barros, Francisco Maciel Silveira e Raquel de Sousa Ribeiro, todos da área de Literatura Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

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Carlos parece representar, no contexto da obra, os setores progressistas da sociedade portuguesa que acabaram por ocupar o lugar da Igreja, mas sem renovar- lhe o papel. O liberal de antes tornou-se “barão” e agiota, nas palavras do próprio Carlos:

Creio que me vou fazer homem político, falar muito

na pátria com que me não importa, ralhar dos ministros que não sei quem são, palrar* dos meus serviços que

talvez darei por

fim em agiota, que é a única vida de emoções para quem já não pode ter outras.

A agiotagem — isto é, o empréstimo a juros — é atividade econômica associada aos novos ares do Capitalismo que chegam a Portugal, mas que mantêm acomodadas suas classes privilegiadas. O antigo senhor

arrenda as terras extensas que possui e empresta dinheiro a juros sem dedicar-se a uma ocupação produtiva, como fizeram as burguesias dos países economicamente centrais da Europa. Garret não é o primeiro escritor e intelectual português — e certamente não será o último — a perceber que as classes dominantes de seu país padecem de uma inércia associada à aversão ao trabalho que impede, em larga medida, a modernização do país.

O mais curioso é que, no século XX, nas décadas de 60

e 70, os setores economicamente mais progressistas das elites portuguesas estarão, igualmente, associados aos interesses dos capitais estrangeiros. As alegorias são bastante evidentes: Joaninha é a mocinha simples, do povo, que é abandonada pelo futuro barão — a paixão dele por ela, da mesma maneira que a

por Georgina e suas irmãs, que representam a Inglaterra, será passageira. Com efeito, Carlos troca toda sua vida afetiva e amorosa — valores como a família, por exemplo — pela atividade da agiotagem e pela pecha de barão — ocupações de caráter material e financeiro.

A crise do sujeito do romance do século XIX está nas

Viagens, mas com as especificidades portuguesas: o dilema entre os valores e os bens materiais não está fundado na lógica do trabalho, mas no desfrute de bens herdados de Frei Dinis, isto é, os setores supostamente renovadores guardam raízes nos mais tradicionais, e acabam por repetir-lhes os comportamentos mais viciosos. A velha cega e semimorta, ao final da história, sob os cuidados do Frei, representa os setores que não puderam acompanhar a evolução dos acontecimentos em Portugal e se viram atropelados pela chegada das ideias liberais. Em suma, em Portugal, as coisas mudaram na aparência — a Igreja não goza mais da supremacia de que gozava —, mas seguem praticamente as mesmas na essência — os barões ocuparam o lugar dos freis. Ao dialogar com Frei Dinis, no último capítulo da obra, perguntando a respeito de Carlos, depois de ler a carta deste a Joaninha, Garret constata:

nunca fiz por vontade; e quem sabe?

* palrar: articular sons desprovidos de sentido

Mas Carlos?

Carlos é barão: não lho disse já?

Mas por ser barão?

Não sabe o que é ser barão?

Oh! se sei! Tão poucos temos nós?

Pois barão é o sucedâneo* dos

Dos frades

Ruim substituição!

— Vi um dos tais papéis liberais em que isso vinha: e é a única coisa que leio dessas há muitos anos. Mas fizeram-mo ler.

— E que lhe pareceu?

— Bem escrito e com verdade. Tivemos culpa nós, é certo; mas os

liberais não tiveram menos.

Errámos ambos.

Errámos e sem remédio. A sociedade já não é o que foi, não pode

tornar a ser o que era; — mas muito menos ainda pode ser o que é.

O que há-de ser, não sei. Deus proverá.

Vamos nos concentrar, agora, nas questões referentes ao descompasso que existe entre a realidade de Portugal e os modelos literários que são utilizados por lá no século XIX — que ao final nos levarão de volta à história de Carlos e Joaninha. O trecho abaixo, extraído do capítulo V, contém uma espécie de “receita para escrever uma obra de sucesso” — e pode nos servir bastante para compreender a organização interna das Viagens de Garret:

Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião te vou explicar como nós hoje em dia fazemos a nossa literatura. Já me não importa guardar

segredo; depois desta desgraça não me importa já nada. Saberás, pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler. Trata-se de um romance, de um drama — cuidas que vamos estudar a história, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulcros, os edifícios, as memórias da época? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o somos. Desenhar caracteres e situações do vivo na

isso é trabalho

difícil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e sobretudo um tato! Não senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico. Todo o drama e todo o romance precisa de:

uma ou duas damas, um pai, dois ou três filhos, de dezenove a trinta anos, um criado velho, um monstro, encarregado de fazer as maldades, vários tratantes, e algumas pessoas capazes para intermédios. Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eug. Sue, de Vítor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras que precisa, gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda, verde, pardo, azul — como fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns e scraapbooks, forma com elas os grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se

às crônicas, tiram-se um pouco de nomes e de palavrões velhos; com

os nomes crismam-se os figurões, com os palavrões iluminam-se (estilo de pintor pinta-monos). E aqui está como nós fazemos a nossa

natureza, colori-los das cores verdadeiras da história

literatura original!

Entender bem o fragmento acima pode nos fazer entender boa parte das Viagens, por isso sejamos bastante detalhistas na investigação.

* sucedâneo: que substitui outro

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DIÁLOGO COM O LEITOR e COM OUTRAS OBRAS

O andamento das Viagens de Garret lembra bastante o das Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Isso acontece, dentre outros motivos, porque ambos os narradores, cada um à sua maneira, dialogam com seus leitores, convocando-os a participar da composição da narrativa. Trata-se de um procedimento democrático — o que soa avançado para o tempo.

Nas Memórias de Machado, esse procedimento é revertido quase de imediato: depois de pedir a contribuição do leitor, o narrador “puxa-lhe o tapete”, para mostrar sua superioridade evidente (“pago-te com um piparote e adeus”, da mesma forma que faz com a Borboleta Preta); nas Viagens de Garret, a frustração do narrador é partilhada com o leitor — que também é agredido algumas vezes. De “leitor benévolo” a “não seja pateta, leitor”, vai apenas um parágrafo.

O que interessa perceber é que a tentativa de compor uma narrativa

junto com o leitor é frustrada: o leitor é chamado de “pateta” porque desconhece os verdadeiros procedimentos básicos para se escrever

um romance. Todos eles são emprestados aos modelos franceses, apenas com certo verniz português. Também é importante notar que Garret supunha poder contar com o leitor, mas percebe a seguir que isso não é possível: o público que o lê está demasiadamente contaminado daqueles modelos.

Podemos concluir que o primeiro problema das Viagens é a impossibilidade de diálogo com o leitor, por mais que este seja convocado a participar da construção da narrativa.

Além disso, as Viagens certamente foram influência para Machado de Assis na redação das Memórias. No Prólogo da Quarta Edição, Machado afirma que um amigo, leitor de suas Memórias, assemelhou-as às Viagens. E depois afirma que a semelhança entre Garret e o defunto-autor é a de que este viajou à roda da vida e de que o português viajou pela sua terra.

No mais, Garret e Machado tiveram como modelos as obras:

Viagem à roda do meu quarto (1794), do francês Xavier de Maistre, que é citada no início das Viagens; e Viagem sentimental através da França e da Itália (1768), de Laurence Sterne.

Mas as semelhanças não param por aí: no mesmo Prólogo à Quarta Edição das Memórias Póstumas, Machado alude à pergunta que o historiador Capistrano de Abreu fez a respeito da obra: “As Memórias póstumas de Brás Cubas são um romance?” — exatamente a mesma pergunta que se pode fazer a respeito das Viagens na minha terra, de Almeida Garret.

A chamada intertextualidade entre as obras da lista oficial de obras

literárias da Fuvest e da Unicamp é sempre explorada. Acreditamos que a seguinte semelhança entre as Viagens de Garret e as Memórias de Machado é fundamental: ambas são obras cuja forma literária foge, em alguma medida, aos modelos franceses e ingleses do século XIX, exatamente porque seus autores tinham a percepção de que esses modelos não correspondiam à realidade do Brasil — que era escravista — e de Portugal — que era uma nação semiperiférica, de burguesia

fraca. Note ainda que os modelos de Garret e Machado são autores franceses e ingleses do século XVIII — não porque os autores das Viagens e das Memórias fossem atrasados, mas porque, conscientes do atraso em que suas nações estavam metidas, procuravam acentuar esse atraso pelos modelos que adotavam, escritores dos primórdios do Capitalismo industrial e do romance como forma.

A REJEIÇÃO AOS MODELOS ESTRANGEIROS

A linguagem de Garret, ao formular a “receita de

um romance”, é irônica — porque sugere procedimentos rigorosamente opostos aos que se espera que sejam adotados por um escritor consciente da relevância de sua obra dos impactos que ela terá no público — e jocosa — porque aquela ironia se transforma rigorosamente em humor, se a entendermos bem.

Garret afirma que nenhum escritor de romances se preocupa em “Desenhar caracteres e situações do vivo na natureza, colori-los das cores verdadeiras da história” porque “isso é trabalho difícil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e sobretudo um tato”.

De forma bem simples, Garret desconstrói o modelo idealizado de escritor, para afirmar que a literatura portuguesa está forrada de modelos literários estrangeiros que não correspondem à realidade nacional. Sugere a utilização dos “figurinos franceses de Dumas, de Eugène Sue, de Vítor Hugo”, todos escritores franceses, para grudá-los sobre “uma folha de papel da cor da moda, verde, pardo, azul — como fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns e scraapbooks”.

O que Garret está propondo, ironicamente, é que os

modelos e as modas utilizados pelos escritores portugueses

provenham da literatura da França e da Inglaterra. Mas “não importa que sejam mais ou menos disparatados”, porque o escritor português adaptará essas imagens ao vocabulário português: “vai-se às crônicas” — que eram textos a respeito da história nacional — “tiram-se uns poucos de nomes e de palavrões velhos; com os nomes crismam-se

(estilo de

pintor pinta-monos). E aqui está como nós fazemos a nossa literatura original!”.

Os significados das palavras desse trecho guardam pequenos detalhes que vale a pena investigar.

O primeiro é que crismar, além de significar

“sacramentar”, significa também, em Portugal, “bater, espancar”; pinta-monos é o pintor de mau gosto, que faz obras ruins. Assim, Garret deixa sugerido que a combinação das figuras estrangeiras com o vocabulário histórico e arcaico português resulta em literatura de má qualidade — e falsamente “original”.

Desse trecho é preciso reter, portanto, que Garret rejeita a associação gratuita dos modelos estrangeiros à literatura portuguesa. Para produzir literatura portuguesa “original”, é preciso partir das imagens rigorosamente portuguesas — mas todas elas estão degradadas. Com efeito, o leitor das Viagens na Minha Terra percebe que, a cada prédio, monumento ou lugar histórico visitado pelo autor, aumenta a decepção dele com o descaso dos portugueses pela sua própria história. Aliás, de maneira geral, podemos sintetizar desta forma as viagens feitas por Garret em sua própria terra: uma decepção atrás da outra, porque a história e a cultura do povo português não são valorizadas e estão abandonadas.

os figurões, com os palavrões iluminam-se

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A CULTURA PORTUGUESA COMO CULTURA POPULAR

Já vimos que Garret rejeita a utilização gratuita dos modelos franceses e ingleses para a produção de literatura em Portugal. Mas qual é a alternativa que ele apresenta? De certa maneira, a primeira proposta de Garret está na forma instável de narrativa das próprias Viagens, como já vimos. Assim, a própria obra que temos diante dos olhos destoa dos modelos tradicionais de romance — não contém

a narrativa linear de um herói problemático à cata de

ascensão social, mas um relato entremeado de digressões

a respeito de um narrador em busca da identidade de seu

país — que é, de certa forma, também a sua. Mas Garret também propõe como alternativa a valorização da cultura popular portuguesa, como se pode verificar abaixo, no trecho em que, diante da Porta de Atamarma, o monumento que celebra a entrada, em 15 de março de 1147, de D. Afonso Henriques (fundador do Reino de Portugal e seu primeiro rei) em Santarém e a expulsão dos árabes dessa cidade, o narrador se surpreende (Capítulo XXXVI):

Por aqui entrou D. Afonso Henriques; por aqui foi aquela destemida surpresa que lhe entregou Santarém, e acabou para sempre com o domínio dos árabes nesta terra. Os ilustrados munícipes santarenos têm tido por vezes o nobre e generoso pensamento de demolir esta porta! O arco do triunfo de Afonso Henriques, o mais nobre monumento de Portugal! A ideia é digna da época. Já conhecemos o estilo que caracteriza o fragmento acima: no primeiro parágrafo, a apresentação de um monumento histórico português; no segundo, a ironia implacável: Garret chama de ilustrados os munícipes ignorantes que pretendem demolir aquele monumento; chega a comparar a Porta de Atamarma ao Arco do Triunfo — monumento construído por Napoleão Bonaparte em Paris para comemorar suas vitórias militares — não para revelar a grandiosidade da porta, mas para explorar ainda mais a incultura dos portugueses que sequer conseguem vislumbrar seus próprios monumentos porque preferem as construções estrangeiras às nacionais. No último parágrafo, uma frase lapidar:

a ideia de demolir tal monumento é digna de uma época em que não se valorizam os monumentos associados à memória popular. Expliquemos essa afirmação. Nos parágrafos seguintes, Garretafirmaquefaltamdocumentosoficiaisqueconfirmem que Dom Afonso Henriques e seus homens tenham passado por ali. A memória popular, contudo, escolheu aquele lugar para sua celebração — a ponto de haver, no mesmo lugar, uma capelinha de Nossa Senhora da Vitória. Garret sugere:

Deixa estar a Virgem da Vitória sobre o arco de Afonso Henriques. Prostremo-nos e adoremos, como bons portugueses, o símbolo da fé cristã e da fé patriótica levantado pelas mãos ensanguentadas do triunfador!

Ao contrário do que pode parecer numa primeira análise, Garret não cai, nesse trecho, em contradição: a prostração que ele sugere ao “símbolo da fé cristã” está diretamente associada à “fé patriótica”. Garret sabe que a influência da Igreja Católica na cultura portuguesa está inevitavelmente ligada à identidade nacional e popular, como verificaremos a seguir. No Capítulo XIII, o próprio Garret avalia sua obra literária publicada até então, afirmando “já me disseram que eu tinha gênio de frade, que não podia fazer conto, drama, romance sem lhe meter meu fradinho” e conclui:

Pois, senhores, não sei que lhes faça; a culpa não é minha. Desde mil cento e tantos que começou Portugal, até mil oitocentos e trinta e tantos que uns dizem que ele se restaurou, outros que o levou a breca, não sei que se passasse ou pudesse passar nesta terra coisa alguma pública ou particular, em que o frade não entrasse. Para evitar isto não há senão usar da receita que vem formulada no capítulo V desta obra. Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem sei. O recado de Garret é bem claro: para fazer uma obra de feição tipicamente portuguesa é necessário passar pela Igreja Católica, que em Portugal deixou traços de cultura muito mais marcantes do que em outros países — especialmente aqueles em que a burguesia se fortaleceu. Quando afirma que, para evitar a presença de frades, basta usar a receita de obra sugerida no Capítulo V, confirma a nossa hipótese: a utilização de imagens estrangeiras com vocabulário arcaico português resulta em obras de qualidade discutível. Finalmente, ao afirmar que não quer nem sabe usar aquela receita, Garret reafirma que está à cata de traços portugueses que possam dar os lineamentos formais de sua obra. Esses traços estão no povo, como se observará a seguir. Retomemos as observações sobre a Porta de Atamarma e a fidedignidade das histórias populares a respeito desse monumento histórico:

Mas seria ele ou não que levantou essa capelinha? Os documentos faltam, os escritores contemporâneos guardam silêncio; a história deve ser rigorosa e verdadeira Deve:eosgrandesfactosimportantesquefazemépocaesãobalizas da história de uma nação, também eu os rejeitarei sem dó quando lhes faltarem essas autênticas indispensáveis. Agora as circunstâncias, para assim dizer, episódicas de um grande feito sabido e provado, quem as conservará, se não forem os poetas, as tradições, e o grande poeta de todos, o grande guardador de tradições, o povo? Eis aí outra proposição fundamental das Viagens: o povo é

o grande poeta das tradições, que estabelece as circunstâncias episódicas dos feitos históricos. Em outras palavras, Garret está sugerindo que as linhas gerais e os fatos relevantes da história devem mesmo ser traçados segundo documentação segura; mas que os episódios — isto é, os pequenos eventos, tributários dos grandes, dispensam documentação e abrem as portas à imaginação popular.

É nela, portanto, que estão guardados, para Garret, os fundamentos

da genuína literatura portuguesa. É ela que está ameaçada pela chegada da literatura de mercado — dos autores Dumas, Eugène

Sue e Vítor Hugo — e das ideologias burguesas. Garret é categórico no seu prognóstico a respeito dos rumos que Portugal tomará caso continue dando privilégio aos barões e ao “regime da matéria”, isto é, a lógica de mercado, já no Capítulo XLII:

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Mais dez anos de barões e de regime da matéria, e

infalivelmente nos foge deste corpo agonizante de Portugal

o derradeiro suspiro do espírito. Creio isto firmemente. Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo está são: os corruptos somos nós os que cuidamos saber e ignoramos tudo. Nós, que somos a prosa vil da Nação, nós não entendemos

a poesia do povo; nós, que só compreendemos o tangível

dos sentidos, nós somos estranhos às aspirações sublimes do senso íntimo que despreza as nossas teorias presunçosas, porque todas vêm de uma acanhada análise que procede curta e mesquinha dos dados materiais, insignificantes e imperfeitos; — enquanto ele, aquele senso íntimo do povo, vem da Razão divina, e procede da síntese transcendente, superior e inspirada pelas grandes e eternas verdades, que se não demonstram porque se sentem. E eu que escrevo isto serei eu demagogo? Não sou. Serei fanático, jesuíta, hipócrita? Não sou. Que sou eu então? Quem não entender o que eu sou, não vale a pena que lho diga Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim deste capítulo já tão secante, e prometo não reflectir nunca mais. Jesus Cristo, que foi o modelo da paciência, da tolerância,

o verdadeiro e único fundador da liberdade e da igualdade entre os homens, Jesus Cristo sofreu com resignação e

humildade quantas injustiças, quantos insultos Lhe fizeram a Ele e à Sua missão divina; perdoou ao matador, à adúltera, ao blasfemo, ao ímpio. Mas quando viu os barões a agiotar dentro do templo, não se pôde conter, pegou num azorrague

e zurziu-os sem dor.

Há diversas observações importantes a fazer a respeito do fragmento acima.

A primeira delas diz respeito à história de Carlos e Joaninha, que pode ser retomada agora: Carlos é o barão mergulhado no “regime da matéria”, na ocupação financeira que lhe garante o ócio nobilitante e improdutivo, em adulteração dos ideais liberais que o inspiraram na juventude. Garret liga a recriminação ao barão e ao empréstimo indevido das ideias estrangeiras no último parágrafo, afirmando que Cristo “verdadeiro e único fundador da liberdade e da igualdade” — em alusão clara aos ideais da Revolução Francesa — atacou violentamente os agiotas do templo. De um lado, a cultura popular portuguesa, associada às histórias e memórias do povo, à crença dos santos canonizados por ele (chamados de santos canonizados in partibus) e aos espaços rurais portugueses abandonados pelos próprios portugueses, ignorantes de sua própria cultura; de outro, as classes dominantes de extração nobre que se inspiram pelos ideais liberais estrangeiros e que se apropriam deles para perpetuar as estruturas econômicas atrasadas, com um verniz modernizante.

Além disso, note a clareza da proposta de Almeida Garret: é

somente a arte que parte do povo português que pode fugir aos modelos estrangeiros. O trecho anterior afirma claramente que

o “senso íntimo do povo vem da Razão divina” e que “procede

da síntese transcendente, superior e inspirada pelas grandes e eternas verdades, que se não demonstram porque se sentem”. Trata-se de um ponto de vista essencialmente romântico: emana do povo, para além das formulações racionais — e burguesas —,

o espírito nacional — daí a utilização de termos como “divina”, “transcendente” e “eternas verdades”.

A essa legitimidade do pensamento popular opõe-se o racionalismo exagerado daqueles a que Garret chama de “nós”. Certamente nem todos os portugueses estão incluídos nessa primeira pessoa do plural: Garret parece referir-se às classes privilegiadas, que se arrogam de deter a nacionalidade em seu sangue, mas que estão desligadas do verdadeiro Portugal, porque seus interesses pertencem apenas ao plano material. Mais uma vez, Garret parece aludir à introdução apressada da lógica de mercado em seu país, devido às premências históricas — a perda do Brasil e o atraso frente às outras nações europeias, principalmente. As classes dominantes são “a prosa vil da Nação”, que só compreendem as coisas tangíveis — isto é, materiais — e as teorias que delas derivam, em oposição à “poesia do povo”. Garret não usou os termos “prosa” e “poesia” à toa: ele conhecia bem as teorias literárias clássicas, que julgavam menor, pelo seu hibridismo, o romance, que é exatamente um texto em prosa.

Conclusões: a poesia do povo português só poderia assomar* por meio da busca da cultura do povo — e é exatamente isso o que Garret tenta fazer nas suas Viagens na Minha Terra.

Mas, ao redigir seu texto em prosa, Garret dá expressão à degradação nacional com que se depara e que ataca ao longo de todo o texto. A forma hesitante das Viagens é, portanto, a expressão das hesitações da “prosa vil da nação”.

Finalmente: quem é Garret, em todo esse emaranhado de interesses materiais das classes dominantes, memórias populares e “fradinhos” que não lhe abandonam a obra? Ele próprio pergunta:

“E eu que escrevo isto serei eu demagogo? Não sou. Serei fanático, jesuíta, hipócrita? Não sou. Que sou eu então? Quem não entender

o que eu sou, não vale a pena que lho diga

”.

Arriscamos responder a essa pergunta — da mesma forma que arriscamos afirmar que as Viagens na Minha Terra e as Memórias Póstumas de Brás Cubas não são romances, ao menos nos moldes dos romances tradicionais. Talvez Almeida Garret queira dizer apenas que é — da mesma maneira que sua obra — português, isto é: não pode ser encaixado aos modelos oriundos dos países centrais porque sua cultura, sua história, suas raízes, têm um traçado — portanto, uma forma, uma forma literária, arriscamos dizer — diferente.

É nessa diferença que está, acreditamos, toda a riqueza formal e

temática das Viagens na Minha Terra, de Almeida Garret.

* assomar: sobressair-se, deixar-se ver, mostrar-se, aflorar.

Viagens na minha Terra

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EXERCÍCIOS OBJETIVOS

Texto para as questões 01 a 03.

“Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião te vou explicar como nós hoje em dia fazemos a nossa literatura. Já me não importa guardar segredo; depois desta desgraça, não me importa já nada. Saberás, pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler”.

Trata-se de um romance, de um drama. Cuidas que vamos estudar

a História, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulcros, os

edifícios, as memórias da época? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o somos. Desenhar caracteres e situações do vivo

da natureza — colori-los das cores verdadeiras da História… Isso

é trabalho difícil — longo — delicado; exige um estudo, um talento,

e sobretudo um tacto!… Não, senhor, a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.

— Todo o drama e todo o romance precisa de: Uma ou duas damas. Um pai. Dois ou três filhos de dezenove a trinta anos. Um criado velho. Um monstro. encarregado de fazer as maldades. Vários tratantes, e algumas pessoas capazes para intermédios.

Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eugénio Sue, de Vítor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras que precisa, gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda, verde, pardo, azul — como fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns e scrap-books; forma com elas os grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se às crônicas, tiram-se uns poucos de nomes e palavrões velhos; com os nomes crismam-se os figurões; com os palavrões iluminam-se… (estilo de pintor pinta-monos). — E aqui está como nós fazemos a nossa literatura original. “

Capítulo V – fragmento. in Almeida Garrett. Obra Completa – I, Porto, Lello & Irmão, 1963, pp. 27-28.

01. O autor critica dois gêneros então em voga na prosa e no teatro português. Que gêneros são esses?

a) O drama na prosa e o romance no teatro.

b) A sátira realista na prosa e o drama no teatro.

c) O romance na prosa e a comédia no teatro.

d) O romance na prosa e o drama no teatro.

e) A sátira realista na prosa e a comédia no teatro.

02. A partir da leitura do trecho acima, considere as seguintes proposições:

I. O autor pretende enaltecer a imagem do escritor português, destacando as principais características que enriquecem a literatura portuguesa de sua época. II. O autor critica a produção literária dos autores de seu tempo, pois não os considera originais e os acusa de recorrerem a fórmulas prontas de como escrever e a elementos de outras literaturas.

III. O autor considera a recorrência de outras literaturas um importante diálogo intertextual, imprescindível para a composição de uma literatura originalmente nacional.

IV. O autor afirma que compor uma literatura originalmente nacional é um trabalho árduo que requer entre outras qualidades estudo e talento. Com isso, inferioriza a imagem dos autores portugueses de sua época.

Está correto o que se lê em:

a) I e II

b) I e III

c) II e IV

d) III e IV

e) I e IV

03. No trecho lido, o autor recorre à metalinguagem, pois além de tecer comentários acerca da literatura, dirige-se a seus leitores, pressupondo um tipo de leitor. Que tipo de leitor Garrett tem em mente ao tecer seus comentários?

a) Um leitor bondoso e crítico, que aprecia a originalidade das obras.

b) Um leitor “pateta”, ou seja, com baixos níveis de conhecimento, pois desconhece originalidade literária.

c) Um leitor astuto, que julga o escritor um “pateta”, pois se esforça para produzir uma obra original.

d) Um leitor com alto grau de criticidade e exigência, que está atento à originalidade das obras.

e) Um leitor ingênuo e iludido, que se engana quanto à originalidade das obras.

Excerto para as questões 04 e 05.

Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro das árvores a janela meia aberta de uma habitação antiga mas não delapidada (…) Interessou-me aquela janela. Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali? Parei e pus-me a namorar a janela. Encantava-me, tinha-me ali como num feitiço. Pareceu-me entrever uma cortina branca… e um vulto por detrás… Imaginação decerto! Se o vulto fosse feminino!… era completo o romance. Como há-de ser belo ver pôr o Sol daquela janela!…E ouvir cantar os rouxinóis!…E ver raiar uma alvorada de Maio!…

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (Capitulo X).

04. Considerando o trecho lido, assinale a alternativa correta.

a) A beleza e estética românticas baseiam-se na racionalidade e nos conhecimentos acadêmicos do sujeito.

b) Na estética romântica, a natureza é um modo de representação do estado de espírito do sujeito.

c) A beleza, na estética romântica, baseia-se na busca de uma arte erudita, que segue os moldes europeus.

d) A estética romântica não valoriza a beleza.

e) A natureza, na estética romântica, é depreciada.

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Viagens na minha Terra

05. No trecho “Imaginação decerto! Se o vulto fosse feminino!… era completo o romance.”, o autor faz referência a qual característica do romantismo?

a) À idealização da mulher.

b) À exaltação aos elementos da natureza.

c) Ao lirismo clássico.

d) Ao amor idealizado e platônico.

e) À retratação da realidade.

Excertos para as questões 06 a 08.

Excerto I

Estas minhas interessantes viagens hão-de ser uma obra-prima, erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do século. Preciso de o dizer ao leitor, para que ele esteja prevenido; não cuide que são quaisquer dessas rabiscaduras da moda que, com o título de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum proveito da ciência e do adiantamento da espécie.

é um mito, palavra

grega, e de moda germânica, que se mete hoje em tudo e com que se

explica tudo

Primeiro que tudo, a minha obra é um símbolo

quanto se não sabe explicar.

Já agora rasgo o véu, e declaro

abertamente ao benévolo leitor a profunda ideia que está oculta debaixo desta ligeira aparência de uma viagenzita que parece feita a brincar, e no fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada como um livro novo da feira de Leipzig, não das tais brochurinhas dos boulevards de Paris.

Excerto II

É um mito porque — porque

Joaninha não era bela, talvez nem galante sequer no sentido popular e expressivo que a palavra tem em português, mas era o tipo da gentileza, o ideal da espiritualidade. Naquele rosto, naquele corpo de dezesseis anos, havia, por dom natural e por uma admirável simetria de proporções, toda a elegância nobre, todo o desembaraço modesto, toda a flexibilidade graciosa que a arte, o uso e a conversação da corte e da mais escolhida companhia vêm a dar a algumas raras e privilegiadas criaturas no mundo.

Mas nesta foi a natureza que fez tudo, ou quase tudo, e a educação nada ou quase nada.

Poucas mulheres são muito mais baixas, e ela parecia alta: tão delicada, tão élancée era a forma airosa de seu corpo.

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra.

06. Comparando os dois excertos extraídos de Viagens na Minha Terra, é possível afirmar que a obra de Garrett é considerada inovadora e original para a época devido:

a) ao hibridismo de estilos e de linguagem.

b) à linguagem formal e ao estilo definido.

c) à linguagem poética e ao estilo definido.

d) ao hibridismo de linguagem e ao estilo definido.

e) ao hibridismo de estilo e à linguagem poética.

07. Considerando os excertos acima, leia atentamente às proposições abaixo.

I.

O excerto II comprova o que o autor afirma no excerto

I,

pois é uma crítica implícita ao romantismo.

II.

O

excerto II contradiz o que promete o autor no excerto

I, pois se no primeiro há uma crítica ao Romantismo, no segundo ele se utiliza de uma de suas principais características para compor a personagem. III. Os excertos I e II se complementam, pois ambos

enaltecem o Romantismo como forma literária clássica

a ser seguida por novos e tradicionais autores.

IV. O excerto II contradiz o que promete o autor no excerto I, pois se no primeiro ele enaltece estes modelos de produção literária, no segundo ele os critica duramente.

Assinale a alternativa que contém a(s) proposição(ões) correta(s).

a)

I e II.

b)

Apenas a II.

c)

III e IV.

d)

Apenas a IV.

e)

II e IV.

08. O uso dos diminutivos em viagenzita e brochurinhas conotam:

a) Uma alusão afetiva tanto à obra produzida por si quanto à viagem realizada.

b) Uma referência pejorativa aos romances parisienses e às narrações de viagens sem propósitos.

c) Uma referência pejorativa aos romances parisienses e uma alusão positiva às obras que narram viagens, ainda que sem propósitos.

d) Um elogio às narrações de viagens, mesmo sem propósito definido, e aos romances parisienses.

e) Uma crítica às narrações de viagens sem propósito e uma alusão positiva aos romances parisienses.

Leia aos textos abaixo, extraídos de Viagens na Minha Terra para responder às questões 09 e 10.

Texto I

Deixa estar a Virgem da Vitória sobre o arco de Afonso Henriques. Prostremo-nos e adoremos, como bons portugueses, o símbolo da fé cristã e da fé patriótica levantado pelas mãos ensanguentadas do triunfador!

Texto II

Pois, senhores, não sei que lhes faça; a culpa não é minha. Desde mil cento e tantos que começou Portugal, até mil oitocentos e trinta e tantos que uns dizem que ele se restaurou, outros que o levou a breca, não sei que se passasse ou pudesse passar nesta terra coisa alguma pública ou particular, em que o frade não entrasse. Para evitar isto não há senão usar da receita que vem formulada no capítulo V desta obra. Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem o sei.

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra.

Viagens na minha Terra

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09. Acerca dos excertos acima, é incorreto afirmar que:

a) a prostração ao “símbolo da fé cristã”, sugerida por Garrett, está diretamente associada à “fé patriótica”.

b) a influência que a Igreja Católica exerce na cultura portuguesa está atrelada à identidade nacional e popular.

c) no primeiro trecho, Garrett cai em contradição ao relacionar a identidade nacional e popular às influências da Igreja Católica.

d) para que se produza uma obra de feição tipicamente portuguesa é necessário passar pela Igreja Católica, pois esta deixou traços marcantes neste país mais que em outros.

e) Garrett admite que desde o início, a Igreja Católica exerce papel fundamental na história do país.

10. Quando afirma que, para evitar a presença de frades, basta usar a receita de obra sugerida no capítulo V, Garrett confirma a seguinte hipótese:

a) A utilização de imagens nacionais com vocabulário moderno português resulta em obras de qualidade discutível.

b) A utilização de imagens estrangeiras com vocabulário moderno português resulta em obras de excelente qualidade.

c) A utilização de imagens nacionais com vocabulário arcaico português resulta em obras de excelente qualidade.

d) A utilização de imagens estrangeiras com vocabulário moderno português resulta em obras de qualidade discutível.

e) A utilização de imagens estrangeiras com vocabulário arcaico português resulta em obras de qualidade discutível.

11. (FUVEST-SP/Nov-2012) Em Viagens na Minha Terra, assim como em:

a) Memórias de um Sargento de Milícias, embora se situem ambas as obras no Romantismo, criticam-se os exageros de idealização e de expressão que ocorrem nessa escola literária.

b) A Cidade e as Serras, a preferência pelo mundo rural português tem como contraponto a ojeriza às cidades estrangeiras – Paris, em particular.

c) Vidas Secas, os discursos dos intelectuais são vistos como a prosa vil da nação, ao passo que a sabedoria popular procede da síntese transcendente, superior e inspirada pelas grandes e eternas verdades.

d) Memórias Póstumas de Brás Cubas, a prática da divagação e da digressão exerce sobre todos os valores uma ação dissolvente, que culmina, em ambos os casos, em puro niilismo.

e) O Cortiço, manifestam-se, respectivamente, tanto o antibrasileirismo do escritor português quanto oantilusitanismo do seu par brasileiro, assim como o absolutismo do primeiro e o liberalismo do segundo.

12. (PUC-SP/2013) Ainda assim, belas e amáveis leitoras, entendamonos; o que eu vou contar não é um romance, não tem aventuras enredadas, peripécias, situações e incidentes raros; é uma história simples e singela, sinceramente contada e sem pretensão.

O

trecho acima integra a obra Viagens na Minha Terra,

de

Almeida Garrett. Considerando a obra como um todo,

pode-se afirmar que a história a ser contada pelo narrador é a:

a) da paixão de Joaninha dos olhos verdes por seu primo Carlos, com quem casa e vive feliz.

b) da indecisão de Carlos, ante o amor de várias mulheres, sua saída de Santarém e regresso à Inglaterra.

c) do sofrimento da menina dos rouxinóis pela perda do amado e seu abandono ao destino inexorável, que a leva ao enlouquecimento e à morte por desgosto.

d) do retorno de Carlos à Inglaterra, retomando sua trajetória de homem público, e seu casamento com Georgina.

e) do ingresso de Georgina no convento, decepcionada com as incertezas amorosas de Carlos, por quem aguardou muito tempo.

EXERCÍCIOS DISCURSIVOS

13. Considerando-se os aspectos que caracterizam o romance tradicional, nos modelos franceses ou ingleses, não podemos classificar Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, como tal. Com base nesta proposição, responda:

a) Em que sentido a obra não constitui um romance tradicional? Que características justificam essa afirmação?

b) Explique a(s) relação(ões) entre a forma literária adotada por Garrett e o momento histórico e político por que passava Portugal.

14. Considerando o contexto da obra Viagens na Minha Terra, explique em que sentido Carlos, o protagonista, pode representar os setores progressistas da sociedade portuguesa.

15. Apesar de se tratar de uma obra de ficção, as viagens relatadas no livro foram de fato realizadas pelo autor. Assim, percebemos na obra uma dinâmica entre realidade e ficção. Reflita a este respeito e explique que efeitos isto pode criar.

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Viagens na minha Terra

16. Leia atentamente o trecho abaixo:

Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eugénio Sue, de Vítor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras que precisa, gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda, verde, pardo, azul — como fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns e scrap-books; forma com elas os grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se às crônicas, tiram-se uns poucos de nomes e palavrões velhos; com os nomes crismam-se os figurões; com os palavrões iluminam-se… (estilo de pintor pinta-monos). — E aqui está como nós fazemos a nossa literatura original.

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra.

Explique a ironia do trecho “E aqui está como nós fazemos a nossa literatura original”, no final do texto transcrito.

17. Tomando como base as características da estética romântica tradicional, pode-se afirmar que Viagens na Minha Terra constitui-se como uma obra romântica? Apresente ao menos dois argumentos que sustentem sua tese.

18. Há entre Viagens na Minha Terra, de Garrett e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, semelhanças fundamentais que constituem relações intertextuais entre essas obras. Cite duas destas semelhanças associando- as ao modelo literário adotado por seus respectivos autores e explique de que forma tal modelo revela seus posicionamentos políticos.

19. Garrett, ao formular a “receita de um romance”, desconstrói

o modelo idealizado de escritor e afirma que a literatura

portuguesa está repleta de modelos literários estrangeiros que não retratam a realidade nacional.

A partir desta proposição, solucione as questões abaixo.

a) Fundamente e justifique esta análise, utilizando-se de elementos do texto.

b) Sob o ponto de vista do autor, é possível produzir uma literatura originalmente portuguesa? Apresente argumentos que sustentem sua resposta.

20. Garrett, ao rejeitar os modelos franceses e ingleses de produção literária, apresenta como alternativa a valorização da cultura popular portuguesa. Como isso pode ser verificado na obra? Apresente elementos estruturais e estilísticos que ilustrem seu(s) apontamento(s).

21. Leia atentamente o trecho abaixo:

Mas seria ele ou não que levantou essa capelinha? Os documentos faltam, os escritores contemporâneos guardam silêncio; a história

deve ser rigorosa e verdadeira

importantes que fazem época e são balizas da história de uma nação, também eu os rejeitarei sem dó quando lhes faltarem essas autênticas indispensáveis. Agora as circunstâncias, para assim

dizer, episódicas de um grande feito sabido e provado, quem os conservará, se não forem os poetas, as tradições, e o grande poeta de todos, o grande guardador de tradições, o povo?

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra.

a) Sob o ponto de vista do autor, embora os fatos relevantes da história devam ser traçados por documentação segura,

o “povo” assume papel fundamental no que diz respeito

aos episódios que constituem grandes eventos. Explique esta proposição do autor e em que sentido isso ocorre.

Deve: e os grandes factos

b) Ainda sob a perspectiva de Garret, contraponha a rigorosidade da história à tradição popular, destacando a relevância de cada uma delas para a história de Portugal.

22. Leia o trecho abaixo e responda à questão subsequente.

Nós que somos a prosa vil da Nação, nós não entendemos a poesia do povo; nós, que só compreendemos o tangível dos sentidos, nós somos estranhos às aspirações sublimes do senso íntimo que despreza as nossas teorias presunçosas, porque todas vêm de uma acanhada análise que procede curta e mesquinha dos dados materiais, insignificantes e imperfeitos ( )

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra.

Ao usar de modo recorrente a primeira pessoa do plural, Garrett faz referência às classes privilegiadas de Portugal e as define como “a prosa vil da Nação”. Explique estas alusões realizadas pelo autor, relacionando-as ao momento histórico-político do país, bem como ao que julgavam as teorias literárias.

23. (FUVEST-SP/Jan-2013) Embora seja, com frequência, irônico a respeito do livro e de si mesmo, o narrador das Viagens na Minha Terra não deixa de declarar ao leitor que essa obra é “primeiro que tudo”, “um símbolo” , na

está

oculta debaixo desta ligeira aparência de uma viagenzita que parece feita a brincar, e no fim de contas é uma coisa séria, grave, pensada (

Tendo em vista essas declarações do narrador e considerando a obra em seu contexto histórico e literário, responda ao que se pede.

a) Do ponto de vista da história social e política de Portugal,

medida em que, diz ele, “uma profunda ideia (

)

o que está simbolizado nessa viagem?

b) Considerada, agora, do ponto de vista da história literária, o que essa obra de Garrett representa na evolução da prosa portuguesa? Explique resumidamente.