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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO


INSTITUTO DE EDUCAÇÃO – IE
ESPECIALIZAÇÃO EM
PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NA EDUCAÇÃO DO/NO CAMPO

COSTA JOÃO SILVA 1

AS CONDIÇÕES DO TRABALHO DOCENTE NAS SALAS MULTISSERIADAS

Artigo Cientifico apresentado ao Instituto de


Educação da Universidade Federal de Mato
Grosso como parte dos requisitos para obtenção
do título de Especialista em Práticas Pedagógicas
na Educação do/no Campo.

Orientador: Bartolomeu José R. Sousa / UFMT


Peixoto de Azevedo - MT
2015

1
Pedagogo graduado pelo Instituto de Ensino Superior de São Paulo e Técnico em Multimeios
Didáticos – Curso Profuncionario
Email: jscosta1975@hotmail.com
2

Termo de Aprovação

Autor: João Silva Costa

Título:As condições do trabalho docente nas salas multisseriadas

Objetivo Geral:Analisar as condições do trabalho docente na Escola do Campo


“Antonio Soares” tendo em vista essa escola atender aos seus alunos em uma única
sala de aula, sendo alunos da Educação Infantil e do 1º ao 9º ano do Ensino
Fundamental.

Instituto de Educação – Universidade Federal de Mato Grosso


Curso de especialização: Práticas Pedagógicas na Educação do/no Campo.

Parecer:

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Banca examinadora

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Cuiabá, _____/_____/ 2015


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Resumo

O presente trabalho tem como objetivo fazer uma análise e reflexão sobre as
condições do Trabalho Docente na Escola do Campo Antonio Soares, tendo em
vista essa escola atender aos seus alunos em uma única sala de aula, além desse
fator agravante a referida escola encontra-se geograficamente distante da sede do
município, o que dificulta as professoras a terem acesso à informação e em
consequência disso não cursarem uma licenciatura. Considerando as inúmeras
dificuldades enfrentadas pelas professoras e alunos, o artigo faz uma reflexão como
acontece a prática pedagógica nessa escola, como as professoras planejam as suas
atividades para desenvolverem em uma única sala, que formam duas classes
constituídas por alunos de diferentes séries e que perspectivas podem se ter sobre o
trabalho desenvolvido.

Palavras Chave: Educação do Campo; Trabalho docente; Classes multisseriadas.

ABSTRACT

the present work aims to make an analysis and reflection on the Teaching Work at
school Antonio Soares field, with a view to this school for their students in a single
classroom, beyond this aggravating factor that school is geographically distant from
the seat of the municipality, which complicates the teachers to have access to
information and consequently did not take a degree. Considering the numerous
difficulties faced by teachers and students, we will reflect as the pedagogical practice
in this school, as teachers plan their activities to develop in a single room, which form
two classes consisting of students from different grades and that prospects may have
on the work. Keywords:educationofthefield; Teachingwork; Multisseriadas classes.
4

Introdução

Em várias comunidades rurais do município de Peixoto de Azevedo,


predomina o sistema de classes multisseriadas, presente em quase todas as
escolas dos Projetos de Assentamentos, principalmente nos mais distantes. Esse
fato se dá devido a pouca demanda de alunos e em razão da localização geográfica
das unidades escolares. Diante desse panorama o sistema de turmas multisseriadas
se torna a única forma de dar acesso ao ensino aos educandos que vivem e
trabalham no campo. Em classes multisseriadas um único professor leciona para
alunos de diferentes séries e idade. Cabe ao professor o enorme desafio de garantir
aos seus alunos de diferentes níveis de aprendizado, o desenvolvimento e domínio
de conteúdo, o que em muitas situações não é possível, pois, alguns fatores
dificultam o trabalho do professor dentre eles podemos citar: a falta de infraestrutura,
ausência de planejamento, desvalorização profissional, falta de materiais didáticos
pedagógicos etc.
A Escola Antonio Soares fica localizada no Assentamento que deu origem
ao seu nome. Destaca-se pelas suas peculiaridades, fica aproximadamente a 200
km da sede do município, conta com duas professoras ainda sem formação em nível
superior, além de não ter o básico de infraestrutura tanto para os alunos quanto para
as educadoras. O presente contexto que se encontra a referida escola causa-nos
espanto em sabermos que em pleno século XXI, temos alunos e professoras
desassistidos de certa forma dos direitos de ter uma educação de qualidade e
condições de trabalho dignas. Não basta conceder um espaço para os alunos sem
ornamentá-lo com os equipamentos necessários.
Diante das várias dificuldades e desafios vivenciados pelas professoras que
atuam em turmas multisseriadas, a presente pesquisa tem o objetivo de apresentar
e fazer algumas reflexões sobre a docência nessa escola do campo; levando em
consideração as condições de trabalho proporcionada a essas professoras. Para
tanto utilizamos a metodologia de coleta de dados, informações que diagnosticaram
a veracidade dos fatos pesquisados. A pesquisa é de caráter qualitativo e o método
da pesquisa de campo exploratória. Utilizamos os instrumentos metodológicos,
questionários, entrevistas, para obtenção das informações.
5

Essa exposição externa dessa dura realidade contribuirá para que haja uma
sensibilização maior em prol dessa comunidade escolar. Este artigo está dividido em
três partes: Introdução, Desenvolvimento que aborda o tema: As condições do
trabalho docente nas salas multisseriadas que explana a docência em turma
multisseriada e por fim a Conclusão.

1 As Classes Multisseriadas
As Classes Multisseriadas surgiram no sistema educacional brasileiro, como
uma forma de contemplar estudantes que residem principalmente no campo, em
regiões em que a demanda de alunos não atendem as normativas estabelecidas
pelas Secretarias de Educação em relação a quantidade de alunos por turma,
possibilitando a junção das séries em um mesmo espaço escolar. Essas classes são
uma estratégia que tem por finalidade atender a um número reduzido de crianças
jovens e adultos que vivem no campo. De acordo o (MEC- MOPFEE) Manual
Orientações Pedagógicas para Formação de Educadoras e Educadores (2009: 23),
“passou a ser conhecida como multisseriada para caracterizar um modelo de escola
do campo que reúne em um mesmo espaço um conjunto de séries do ensino
fundamental”.
A palavra Multisseriada segundo Arroyo significa (2004 p. 81), Multi= vários.
Seriado = Séries; esse modelo de ensino de muitas escolas do campo em que várias
séries formam uma única turma, ficando sob a responsabilidade de um único
professor. Na maioria das vezes essas classes estão geograficamente distantes do
seu município de origem, e os profissionais que trabalham nessas escolas são os
que não têm ainda uma formação especifica.
Esse modelo é predominante nas escolas do campo, o que pode ser
comprovado pelos dados educacionais brasileiro:

O Censo Escolar 2006 apontou a existência de cerca de 50 mil


estabelecimentos de ensino nas áreas rurais com organização
exclusivamente multisseriada, com matrícula superior a um milhão de
estudantes, configurando uma urgente necessidade de apoio técnico e
financeiro por Parte da União e Estados (MEC- PROJETO BASE 2008).

Diante desse panorama a Educação do Campo requer políticas educacionais


especificas que estejam voltadas a realidade do campo, com metodologias de
contextualização da realidade, pois, as Políticas Educacionais ainda tendem a ter o
6

urbano como parâmetro e o rural como adaptações. Segundo o Artigo 216 da


Constituição Federal Brasileira de 1988, assegura a identidade dos grupos que
constituem a sociedade

Constitui patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e


imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referencia
a identidade, a ação, à memória dos diferentes grupos formadores da
sociedade brasileira, nos quais se incluem: (EC/nº 42/2003) I- As formas de
expressão; II- Os modos de criar, fazer e viver; (CF, 1988 Art. 216)

Independentemente da localização geográfica das pessoas a educação dever ser


igualitária no que diz respeito a qualidade segundo Arroyo (1999: 35):

É preciso romper com dicotomia campo cidade (moderno-atrasado),


afirmando o caráter mutuo da dependência: rural ou urbano, campo ou
cidade não sobrevive sem o outro, ou seja, um depende do outro para total
funcionamento.

2A Escola Antônio Soares e sua localização

A escola Antonio Soares está localizada no assentamento que deu origem ao


nome da escola. Ao todo são nove os assentamentos do Distrito União do Norte,
município de Peixoto de Azevedo, todos realizados pelo INCRA totalizando 4.810
famílias assentadas.

Figura 1 –Mapa de localização do Município de Peixoto de Azevedo – MT


Fonte: Wikipédia

O Distrito União do Norte é considerado o maior assentamento da América


Latina devido a sua extensão territorial, o que inviabiliza o transporte de alunos para
uma só escola. Para atender a demanda de alunos de todos os assentamentos
7

foram criadas 09 escolas, todas funcionando como salas anexas da escola Polo
Vida e Esperança.

Figura 1 – Distrito união do Norte no Início


Fonte: Wikipédia

2.1 Realidade e Caracterização da Escola

O cenário encontrado na Escola Municipal Antonio Soares é uma realidade


que pode ser encontrada em várias localidades do território brasileiro, embora
cada assentamento tenha suas características próprias. A escola é improvisada
funciona em um barracão de madeira tirada com motosserra e levantado pela
comunidade com a ajuda da Secretaria Municipal de Educação, possui uma
única sala de aula e duas professoras que dividem o mesmo espaço, onde são
atendidos vinte e sete alunos da Educação Infantil ao 9º ano do Ensino
Fundamental. O gráfico abaixo demonstra a quantidade de alunos por série.

Quantidade de alunos
6
5
4 5 5
4 4
3
3
2
2 2 2
1
0 0 0
Ed. 1º ano 2º ano 3º ano 4º ano 5º ano 6º ano 7º ano 8º ano 9º ano
Infantil
SÉRIES

Gráfico 1– Quantidade de alunos da Escola Antonio Soares


Fonte: Elaboração do autor
8

Essa unidade de ensino está vinculada a Escola Pólo Vida e Esperança que
funciona na sede do Distrito União do Norte. Todas as escolas anexas estão
inseridas no Plano Político Pedagógico da Escola Polo, mas, analisando o
documento não vemos nenhuma proposta política especifica para as escolas do
campo principalmente em relação a turmas multisseriadas. Os professores das
escolas anexas não participam da elaboração do PPP, esse fato demonstra que
esses estabelecimentos de ensino não possuem um currículo próprio, ou seja, uma
identidade.
A Escola fica aproximadamente a duzentos quilômetros da sede do
município, fato esse que dificulta ainda mais a assistência por parte da
Assessoria Pedagógica, durante o período chuvoso as estradas ficam quase
intrafegáveis. A Secretaria Municipal de Educação conta com um Coordenador
Pedagógico do Campo encarregado de dar assistência necessária as escolas,
tanto na parte pedagógica quanto entrega de materiais de todos os tipos
didáticos e de consumo. Segundo Toledo.
Essa realidade tem gerado, ao longo dos anos, a situação de precariedade
em que viveu e ainda vive a escola do campo, seja em relação à estrutura
física, seja pelo insuficiente grau de formação do professor. Constituída
essencialmente por sala multisseriada ou unidocente, essa escola se
caracteriza por possuir uma sala e ter um só professor que ministra aulas
para as quatro séries iniciais do Ensino Fundamental, no mesmo local e ao
mesmo tempo. (2005:06)

O panorama descrito é totalmente desfavorável e afeta de forma direta o


trabalho docente, são inúmeros os desafios para um professor que atua em uma
turma multisseriada, principalmente quando não se tem uma formação que é o caso
das professoras sujeitos da pesquisa de nosso estudo. Segundo o Instituto Nacional
de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) “O nível de
escolaridade dos professores revela, mais uma vez, a condição de carência da zona
rural. No ensino fundamental de 1ª a 4ª série, apenas 21,6% dos professores das
escolas rurais têm formação superior, enquanto nas escolas urbanas esse
contingente representa 56,4% dos docentes. O que é mais preocupante, no entanto,
é a existência de 6.913 funções docentes sendo exercidas por professores que têm
apenas o ensino fundamental e que, portanto, não dispõem da habilitação mínima
para o desempenho de suas atividades” (INEP 2007, p.33.)
Para o professor iniciante os desafios são maiores, haja vista ter que planejar
aulas para diferentes séries e níveis de aprendizado, missão essa que não é muito
9

fácil devido a pouca ou nenhuma experiência no âmbito educacional; a falta de


orientação pedagógica induz o docente a ater-se a um “velho” instrumento
pedagógico o livro didático, que por sua vez pode ser uma relíquia totalmente
descontextualizada da realidade dos alunos.
Isso causa incerteza no trabalho do educador acompanhado em muitas
situações de fracasso, gerando desânimo tanto para o professor e alunos. Diante da
insegurança, insatisfação e as inúmeras funções que recaem sobre o professor do
campo, principalmente os que estão atuando em escolas de difícil acesso, acabam
desistindo da caminhada em meio a tantos desafios. De acordo com o
GEPERUAZ/UFPA (Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação do Campo na
Amazônia) (2005):

Muitos educadores(as) expressam insatisfação com relação a existência


das classes multisseriadas pelo fato de não possuírem formação especifica
para trabalhar com uma turma diversificada em termos de idade e de
aprendizagem, estabelecendo muitas comparações com as turmas
seriadas, manifestando a expectativa que essas turmas se transformem em
seriadas como alternativas para que o sucesso na aprendizagem se efetive.
(GEPERUAZ 2005, P.46).

O relato abaixo descreve as experiências de um professor aqui de União do


Norte, que lecionou em turma multisseriada no início de sua carreira de professor:

2
“No ano de 1997, comecei a dar aulas em uma escola aqui do
assentamento PA Cachimbo I, foi muito difícil no início, pois, nunca havia
entrado em sala de aula como professor a turma era da 1ª a 4ª série, no
primeiro dia de aula fiquei sem saber o que fazer, então dividir o quadro em
quatro partes e peguei o livro didático e passei o conteúdo para cada série,
enquanto escrevia para uma turma a outra esperava, até que todos
tivessem o que fazer, depois que terminavam passava cópia e tomava
leitura, mas, podia ver o descontentamento dos alunos, tudo era muito
difícil, mas enfrentei e suportei as dificuldades, meu primeiro ano como
professor considero que foi um fracasso, no entanto no ano seguinte tive a
oportunidade de ingressar no Curso PROFORMAÇÃO, tive que fazer
provas de amparo para poder ingressar no curso porque tinha somente a 5ª
série do Ensino Fundamental, depois, que comecei a estudar as minhas
aulas melhoram tive a oportunidade de aprender novas metodologias e
sempre fazia algo novo em minha sala de aula, em agosto do ano de 1998,
todas as escolas anexas migraram para Escola Polo Vida e Esperança e
passei a lecionar para uma só turma e meu trabalho ficou mais valorizado”.
A Formação é muito importante porque faz com que o professor sinta-se
seguro no seu oficio e pode oferecer um aprendizado mais significativo para
os seus alunos.

2
Relato de professor do campo sobre lecionar para classe multisseriada.
10

2.2 O trabalho docente em uma sala multisseriada

Considerada uma das mais carentes em todos os aspectos a Escola Antonio


Soares, não tem uma infraestrutura digna nem mesmo de ser chamado de escola,
no entanto, funciona sem o mínimo possível de comodidade para as professoras e
alunos, que dividem um único espaço delimitado por carteiras de um lado fica a
turma de uma professora do outro a da outra. Em meio essa aglomeração fica a
seguinte indagação. Como é possível haver aprendizado em meio a tanta carência e
falta de recursos? E o que os órgãos responsáveis pela Educação estão fazendo
para reverter essa situação? O que fica evidenciado e pode ser constatado é que as
professoras dessa escola não desanimam diante de tantas adversidades. Dentro de
si nutrem um sentimento que dias melhores virão para a comunidade em que vivem.
Estive nessa escola e pude presenciar a dura realidade das professoras e
alunos, a situação se torna angustiante e deixa transparecer uma imagem de
descaso com essa comunidade devido a sua localização geográfica. Mesmo com
tantas dificuldades para desenvolver o seu trabalho observei um fator positivo,
durante a visita que fizemos junto com o Secretário municipal de Educação e o
Assessor Pedagógico que na ocasião apresentaram o calendário escolar para o ano
letivo de 2015, e também a proposta de construção do prédio escolar com
infraestrutura adequada. O fator positivo a que me referi diz respeito ao aprendizado
dos alunos – uma mãe de aluno se expressou da seguinte forma: “Das professoras
não tenho do que reclamar de nada, minha filha não sabia quase nada quando
chegou aqui e já está lendo, já com relação à escola merecemos uma escola
melhor” (Mãe de aluno. 2014).Fica evidenciado que o aprendizado pode ocorrer em
qualquer ambiente, até mesmo onde julgamos impossível. Segundo Daviani.
[...] A aprendizagem não é alcançada de forma instantânea nem por
domínio de informações técnicas pelo contrário requer um processo de
aproximações sucessivas e cada vez mais amplas e integradas de modo
que o educando, a partir da reflexão sobre suas experiências e percepções
iniciais, observe, reelabore e sistematize seu conhecimento acerca do
objeto em estudo. (DAVIANI, 2010.288)

Diversas são as dificuldades enfrentadas pelas professoras que vão desde a


falta de uma formação básica, falta de materiais didáticos pedagógicos, baixo salário
devido ao grau de escolaridade. O município de Peixoto de Azevedo, segue o Piso
Nacional – Lei Federal Nº 11.738/2008, o salário para o profissional de nível
Magistério, concursado ou efetivo é de R$ 1.438,34, para uma carga horária de 30
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horas semanais, sendo 20 horas em sala de aula e 10 de horas atividade. Por não
terem a formação básica em nível de Magistério, essas profissionais recebem
subsídios abaixo do estabelecido pelo Piso Nacional. Os professores contratos
recebem por uma carga horária de 24 horas semanais, sendo 20 em sala de aula e
4 de hora atividade.
Esses fatores causam grande impacto no trabalho docente de forma negativa
acarretando descrédito ao fazer pedagógico do professor, em certas ocasiões
ouvimos alguns pais dizerem que teriam que ir embora pra cidade, pois, o ensino na
localidade rural em que estavam é muito “fraco”, ou então os professores não são
“formados”. A Resolução CNE/CEB nº 2, de 28 de abril de 2008, que estabelece
diretrizes complementares, normas e princípios para o desenvolvimento de políticas
públicas de atendimento da Educação Básica do Campo. O artigo 10º desta
Resolução estabelece, entre outras normativas, que o planejamento da Educação do
Campo considerará sempre as melhores possibilidades de trabalho pedagógico com
padrão de qualidade, seja a educação oferecida em escolas da comunidade,
multisseriadas ou não. Em seu 2º parágrafo o mesmo artigo determina que:

As escolas multisseriadas, para atingirem o padrão de qualidade definido


em nível nacional, necessitam de professores com formação pedagógica,
inicial e continuada, instalações físicas e equipamentos adequados,
materiais didáticos apropriados e supervisão pedagógica permanente.

No entanto, o que observamos na maioria dos órgãos que gerenciam a


educação, não há uma preocupação em ter uma proposta e políticas específicas
para a população educacional do campo, ao invés de adaptações faz – se
improvisações. A falta de formação tem grande influência no trabalho docente do
professor que às vezes fica sem um norte, preso a um livro didático, fazendo com
que as aulas se tornem monótonas e cansativas, sem conexão com a realidade da
comunidade. Esses fatores trazem angústias e decepções acarretando sobre os
alunos, uma antipatia pela escola. De acordo com Hage:

As escolas multisseriadas têm assumido um currículo deslocado das


culturas da população do campo, situação que precisa ser superada caso
se pretenda enfrentar o fracasso escolar e afirmar as identidades culturais
das populações do campo (HAGE,2005, pág.56).
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Essa descontextualização ocorre devido muitos professores não terem


recebido uma formação para trabalharem com as peculiaridades do campo. A
capacitação do educador favorece o aprendizado do aluno, o educador capacitado
busca novas metodologias que venham auxiliá-lo no trabalho em uma turma
heterogênea no caso de turma multisseriada.

2.3 Relato das vivências

O referido artigo apresenta de modo resumido as condições do trabalho


docente nas classes multisseriadas da Escola Antonio Soares. As falas das
educadoras expressam as dificuldades enfrentadas no cotidiano das atividades
educativas em uma escola multisseriada. A pesquisa foi realizada através de
entrevistas com as duas professoras identificadas com iniciais maiúsculas
fictícias. Sobre o trabalho docente as professoras afirmam o seguinte: “É muito
difícil lecionar na mesma sala de aula ao mesmo tempo, pois, os alunos se
distraem quando estou explicando alguma coisa, mas, tenho que me esforçar
pra que eles aprendam alguma coisa. (Professora. F.B. 2015)” - “O aprendizado
é lento devido às séries serem diferentes e tenho que dar atenção a todos, as
vezes fico perdida em meio a tudo isso sem saber o que fazer, mas, no fim
sempre surge alguma ideia, geralmente procuro manter os alunos que tem mais
facilidade ocupados o maior tempo possível, para poder dar uma atenção maior
aqueles que têm mais dificuldades. É preciso ter paciência porque nem sempre
as coisas dão certo. ( J.F. 2015)”

Observamos nas respostas das professoras os fatores que dificultam o


trabalho docente nessa unidade escolar, alunos de várias faixas etárias falta de
estrutura física para atender os alunos em salas separadas e ausência de
metodologias adequada para turmas multisseriadas além da escassez de materiais
didáticos pedagógicos.
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Figura 3 - EscolaAntonio Soares 2014


Fonte: Adailson Silva - Educação do Campo de União do Norte

Sobre as dificuldades enfrentadas nas classes multisseriadas Hage afirma o


seguinte:
Em geral essas escolas são alocadas em prédios escolares depauperados,
sem ventilação, sem banheiros e local para armazenamento e confecção da
merenda escolar. Há situações que não existe o número de carteiras
suficientes, o quadro de giz encontra-se danificado; e em muitos casos,
essas escolas não possuem prédios próprios funcionando em prédios
alugados, barracões de festa, igrejas ou mesmo em casas de professores e
lideranças locais (2008, pag.01).

Essa carência na infraestrutura traz desconforto e insatisfação tanto para


alunos quanto para professores e deixa transparecer um sentimento de
discriminação e inferioridade para com os povos que vivem no campo. Isso fica
evidenciado quando são enviados para as escolas rurais móveis, computadores e
outros objetos que já estão obsoletos, que não serve mais para a escola da cidade,
condicionando a educação do campo a patamar de inferioridade.
Em relação a metodologia de trabalho uma das professoras afirma: “Como
são séries diferentes é bem complicado, ainda mais que nem todos conseguem
acompanhar os conteúdos e sempre tem que revisar alguma coisa, ter que preparar
aulas pra várias séries é bem complicado (Professora. F.B. 2015).”

Ao analisarmos a resposta da professora diagnosticamos que a mesma


necessita de ajuda pedagógica que venha auxiliá-la tanto na elaboração das aulas
quanto no desenvolvimento do trabalho docente em sala de aula. A Secretaria
14

Municipal de Educação de Peixoto de Azevedo, tem disponibilizado um assessor


pedagógico e um coordenador para as escolas rurais. O Coordenador das Escolas
do Campo Adailson Silva responsável pelo apoio pedagógico aos professores do
campo afirma que
“As professoras do assentamento Antonio Soares, não tem muito apoio
pedagógico da forma que deveriam ter, pois, a realidade daquele
assentamento torna muito difícil visitas periódicas por ser muito distante da
escola sede, mas duas vezes por mês visito a escola para discutir com as
professoras as dificuldades encontradas naquela unidade de ensino e
avaliar junto com as professoras o ensino e o aprendizados dos educandos,
também é desenvolvido uma vez por mês a sala do educador onde envolve
todas as escolas do campo, discutimos também as dificuldades encontradas
em cada unidade de ensino, elaboramos projetos e os mesmos são
desenvolvidos em sala de aula para assim melhorar cada vez a qualidade
de ensino, além de alguns programas do governo federal quem vem
também buscar a qualidade de ensino por exemplo agora mesmo está
sendo desenvolvido o Pacto de Alfabetização na Idade Certa, a alguns anos
atrás foi desenvolvido o programa Escola Ativa que teve resultados
positivos nessas unidades de ensino que infelizmente terminou , não sei
realmente o motivo sei que esse programa tinha sido avaliado pelo MEC e
tinha tido algumas mudanças como por exemplo ia se passar a se chamar
Escola da Terra mas também não tenho conhecimento por que no município
não foi desenvolvido e também não sei se realmente foi desenvolvido no
nosso estado esse programa (Adailson Silva 2015 – Coordenador das
Escolas do Campo)”

Figura 4 – Encontro de professores no Sala do Educador 2015


Fonte: Adailson Silva - Educação do Campo de União do Norte

Em relação a parte de infraestrutura da escola faz a seguinte declaração.


Hoje a escola do Assentamento Antonio Soares passa por um momento
importante, pois, está sendo construída uma unidade de ensino com salas
climatizadas refeitório e secretaria para melhor atender os educandos
daquela comunidade, mas nem sempre foi assim a escola funcionava em
15

uma pequena casa de madeira sem conforto nenhum, hoje a mesma


funciona em uma casa de material cedida por um morador daquele
assentamento enquanto aguarda a conclusão da obra (Adailson Silva 2015
– Coordenador das Escolas do Campo).

Figura 5 - Placa informativa da Construção da Escola


Fonte: Adailson Silva - Educação do Campo de União do Norte

Figura 6–Área de construção do novo prédio escolar 2015


Fonte: Adailson Silva - Educação do Campo de União do Norte
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Figura 7–Construção em andamento do novo prédio escolar 2015


Fonte: Adailson Silva - Educação do Campo de União do Norte

2.4 Projeções para o futuro

No dia vinte e dois dias do mês de maio do ano de dois mil e quinze, os
profissionais da educação das escolas de União do Norte, se reuniram nas
dependências da Escola Municipal Vida e Esperança, com o objetivo de debaterem
e contribuírem com metas e estratégias para o Plano Municipal de Educação (PME)
do município de Peixoto de Azevedo para os próximos dez anos.
Após a leitura do PME em reformulação, com as inserções realizadas pelos
profissionais da educação residentes na zona urbana. Os profissionais do campo
observaram que não há nenhum eixo exclusivo para o campo com metas especificas
para a Educação rural, o novo PME irá nortear as ações educacionais nos próximos
dez anos. Observando o PME não encontramos nenhuma proposta para as classes
multisseriadas mesmo após, revisão feita pelos professores do campo. Mas,
constam pontos importantes que contemplam os professores sem formação.
De acordo com o PME de Peixoto de Azevedo do ano de 2015, no Eixo X que
trata da Formação e Valorização dos Profissionais da Educação Pública, alguns
itens se executados contemplarão os professores do campo sem formação. Segue a
abaixo a transcrição do texto extraído do PME 2015.
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EIXO X

FORMAÇÃO E VALORIZAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO PÚBLICA

Meta 10: Valorizar os (as) profissionais da educação do sistema


público de educação básica de forma a garantir seu rendimento
médio conforme o Piso Nacional de Educação, respeitando seu
Plano de Cargo e Carreira, Salário.

Estratégias

10.1 -Valorizar os (as) profissionais da educação das redes


pública de educação básica de forma a equiparar seu
rendimento médio ao dos (as) demais profissionais com
escolaridade equivalente, até o final do 3º ano de vigência deste
PME;

10.2 -Constituir, por iniciativa da Secretaria Municipal de


Educação e Cultura, até o final do primeiro ano de vigência
deste PME, fórum permanente dos trabalhadores da educação,
para acompanhamento da atualização progressiva do valor do
piso salarial nacional para os profissionais da educação básica
pública;

10.3- Ofertar formação profissional que assegure o


desenvolvimento da pessoa do educador, o domínio do
conhecimento objeto de trabalho com os educandos
valorizando o aprimoramento dos saberes da proficiência;

10.4- Assegurar um sistema de educação continuada que


permita aos profissionais da educação, um crescimento
constante de seu domínio sobre a cultura letrada dentro de uma
visão crítica e da perspectiva de um novo humanismo;
18

10.7-Valorizar os profissionais da educação, através de uma


política que garanta o estabelecimento do Piso salarial na
integra estabelecendo assim os percentuais Inter níveis e
referência, respeitando a titulação ou habilitação específica,
independentemente do nível de ensino ou área de atuação.

10.9-Considerar as especificidades socioculturais das escolas


do campo e das comunidades indígenas no provimento de
cargos efetivos para essas escolas;

10.10-Identificar o número de profissionais docente sem a


graduação plena, ampliando o número de vagas em 100%
desses profissionais no curso de pedagogia e licenciatura
plena, no prazo máximo de quatro anos de vigência desse
plano, nos sistemas estadual e municipais;

Analisando o Plano Municipal de Educação do município de Peixoto de


Azevedo, percebe-se que as propostas políticas para a Educação do Campo
continuam sendo regidas pelo pensamento urbanista, os professores do setor rural
deveriam receber uma formação diferenciada e voltada para as diversidades campo,
todavia isso nem chega a ser mencionado.

Conclusão

Através do levantamento da pesquisa bibliográfica e de campo ficou


constatado que os profissionais que atuam em salas multisseriadas enfrentam
situações de precariedade em todos os aspectos; baixa remuneração, falta de
formação, falta de materiais pedagógicos e infraestrutura adequada. Um dos
maiores problemas para o professor que atua em turma multisseriada é a falta de
formação, os órgão que regem a educação no âmbito municipal deveriam
empenhar-se mais, com o objetivo de oportunizar cursos de capacitação e formação
19

continuada, para que esses profissionais tenham melhoria no trabalho docente e


crescimento profissional, propiciando um ensino de mais qualidade para os alunos
do campo.
O Governo Federal tem disponibilizado Programas para atenderem a
demanda de professores ainda sem formação, Plataforma Freire e Universidade
Aberta do Brasil, são exemplos, no entanto, profissionais que ficam “isolados” devido
a localização geográfica ficam impedidos de terem acesso a essas oportunidades.
As classes multisseriadas são uma realidade a perdurar por muito tempo, em razão
da diversidade e complexidade de cada assentamento. Não se pode criar um
pensamento que são sinônimo de atraso, mas, peculiaridade de uma comunidade
local. A qualificação do professor é uma das maiores e melhores alternativas para
melhoria do ensino nas salas multisseriadas, investir de forma igualitária os recursos
entre cidade e campo, sem a distinção entre ambos, de forma que os alunos e
professores do campo tenham acesso a uma amplitude de possibilidades no que diz
respeito aos recursos didáticos e pedagógicos. Professores, alunos e pais, anelam
por uma educação de qualidade que valorize as origens locais e acima de tudo que
os considerem como sujeitos merecedores dos mesmos direitos que os demais que
vivem na cidade. Afinal de conta o homem do campo não é inferior. A Educação do
Campo tem que ser repensada, enquanto for colocada em segundo plano, elevará o
índice de evasão, contribuirá no baixo índice do IDEB. Enfim as autoridade de modo
geral tem que despertar-se para isso, porque o que se semeia no campo (uma
educação não organizada e sem qualidade) germinará de forma negativa nos dados
educacionais do Brasil.
20

REFERÊNCIAS

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Estabelece diretrizes complementares, normas e princípios para o desenvolvimento
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