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Da “sociedade da informação”
à “sociedade 2.0”:
o retorno dos discursos “míticos” sobre o papel
das TICs nas sociedades

Éric George
Doutor em Comunicação
(Université du Quebec à Montréal)
Professor da Faculté de Communication (UQAM)
E-mail: george.eric@uqam.ca

Resumo: No contexto deste artigo, mostrarei, em um primeiro


momento, que a expressão “sociedade da informação” se inte-
gra muito bem dentro de um conjunto mais vasto de discursos As razões do sucesso de uma expressão
que dizem respeito à “sociedade conectada”, à “informatização que perdura no tempo
da sociedade”, às “autovias da informação” e à “sociedade do
conhecimento”, e abordarei as razões que explicam a utiliza-
ção desses termos ao longo dos últimos quarenta anos. Em um
A expressão “sociedade da informação”
segundo momento, veremos que se a expressão “sociedade da tornou-se de uso corrente em um vasto con-
informação” parece atualmente menos disseminada, é porque junto de discursos científicos, políticos, eco-
agora ela perde espaço para as noções de “web 2.0” e até mesmo
de “sociedade 2.0”, em um registro discursivo muito próximo. nômicos e jornalísticos há mais de um quarto
Palavras-chave: sociedade da informação, web 2.0, conhecimento. de século. A partir dos anos 1970, ela define
uma sociedade que seria cada vez mais carac-
De la “sociedad de la información” a la “sociedad 2.0”:
el retorno permanente de los discursos “míticos” sobre el terizada pela informação, pela comunicação,
papel de las TICs en las sociedades pelo saber e pelo conhecimento. Mas tam-
Resumen: En este artículo, voy a mostrar, en un primer momento, bém, e sobretudo, pelos dispositivos técnicos
que el término “sociedad de la información” se integra muy bien
con un conjunto más amplio de los discursos que se refieren a capazes de veicular tais informações, saberes
la “sociedad en red”, la “era de la información”, a las “autovías de e conhecimentos. Mas foi no início do século
la información” y a la “sociedad del conocimiento”, y discutiré las
razones para el uso de estos términos durante los últimos cuarenta
XXI que a expressão “sociedade da informa-
años. En un segundo paso, veremos que si el término “sociedad de ção” conheceu seu auge, principalmente com
la información” ahora parece menos extendido, es porque hoy ella a organização de dois encontros mundiais or-
está perdiendo terreno frente a las nociones de “web 2.0” e incluso
“sociedad 2.0”, en un registro discursivo muy cercano. ganizados pela União Internacional das Tele-
Palabras clave: sociedad de la información, web 2.0, conocimiento. comunicações, com o apoio das Nações Uni-
From the “information society” to the “society 2.0”: the
das, em Genebra (2003) e na Tunísia (2005).
permanent return of the “mythical” discourses about the Inicialmente é importante lembrar que a
role of ICTs in societies expressão “sociedade da informação” se revela
Abstract: In this paper, I will show, at first that the expression “infor- imprópria, pois parece impossível qualificar
mation society” integrates well within a wider set of discourses that
relate to the “networked society”, the “information age”, the “infor- uma sociedade específica pela informação ou
mation highway” and the “knowledge society”, and discuss the rea-
sons for the use of these terms over the past forty years. In a second
moment, we see that if the term “information society” now seems Texto traduzido, com a permissão do autor, pela professora
less widespread, it is because now it is losing ground to the notions Ângela Cristina Salgueiro Marques, docente da UFMG, douto-
of “web 2.0” and even “society 2.0” in a closer discursive register. ra em Comunicação pela UFMG e pós-doutora na mesma área
Keywords: information society, web 2.0, knowledge. pela Université Stendhal, Grenoble III (França).

Líbero – São Paulo – v. 14, n. 27, p. 45-54, jun. de 2011


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mesmo pela comunicação. Mas sociedades discutiremos em um terceiro momento. Ve-


não se sustentam sobre as trocas de informa- remos, então, que se a questão da “sociedade
ção e sobre a comunicação, segundo a céle- da informação” ganha espaço, isso se deve
bre fórmula empregada por Paul Watzlawi- também ao fato de que a expressão é ampla-
ck, “nós não podemos não nos comunicar?”. mente mobilizada por um número crescen-
Certamente, os papéis desempenhados pela te de atores sociais, e porque os argumentos
informação e pela comunicação podem se por eles sustentados dizem geralmente res-
mostrar diferentes de acordo com os lugares peito a discursos míticos que visam reunir
e os períodos históricos, mas um mínimo de as pessoas, principalmente em torno de uma
sociedade que seria mais democrática, me-
nos hierárquica, mais horizontal. Por isso,
continuaremos a discutir sobre esse tema
Dito de outro
na segunda parte do texto, revelando que o
modo, seriam emprego de expressões como “web 2.0”, “so-
as profissões do ciedade 2.0”, “educação 2.0”, “saúde 2.0”, etc.,
saber que tomariam se inscrevem na continuidade dos discursos
o poder em sobre a “sociedade da informação”.
detrimento do
mundo dos negócios Uma sociedade caracterizada pelas
tecnologias

Ainda que nosso objetivo não consista em


comunicação é sempre indispensável em nos- delinear a gênese da noção de “sociedade da
sa sociedade. Assim sendo, como explicar seu informação”, nos parece inicialmente perti-
sucesso ao longo de décadas? A respeito dessa nente relembrar, de modo breve, que foi nos
questão desenvolverei três respostas. Primei- Estados Unidos que essa noção foi cunhada
ramente, veremos que, para além das diferen- desde o início dos anos 1960, apontando para
ças, as expressões acima mencionadas apre- a ascensão de uma nova sociedade. Quem pri-
sentam um ponto comum maior, uma vez meiro utilizou esse termo foi Fritz Machlup
que descrevem uma sociedade que repousa que, em sua obra The production and distribu-
sobre a multiplicação das trocas de informa- tion of knowledge in the United States (1962),
ções de toda natureza – desde conversações efetua um recorte da economia em setores
mediadas por diversas ferramentas técnicas distintos, baseados sobre a dicotomia entre
até a difusão de conteúdos produzidos por o que seria, segundo ele, “informacional” e
empresas especializadas – em um contexto de o que dizia respeito ao “não informacional”,
desenvolvimento acelerado das tecnologias ressaltando que a nova sociedade seria mar-
de informação e da comunicação (TICs) até cada por uma maior importância do setor
o desenvolvimento atual de tecnologias rizo- informacional. Em seguida, Marc Uri Porat
máticas como a Internet e a telefonia móvel. vai modificar um pouco essa análise ao consi-
Após essas mudanças, será preciso mos- derar, entre outras questões, em seu relatório
trar que as afirmações consagradas à ascen- de nove volumes encomendado pelo Depar-
são de uma sociedade da informação fre- tamento de Comércio Estadunidense (1977),
qüentemente testemunharam as mutações que a oposição não era total, uma vez que a
do capitalismo, com a economia sendo con- importância da informação é igualmente no-
siderada cada vez mais prioritária em rela- tável no seio das indústrias tradicionais. De
ção à política, ainda que os argumentos de fato, mesmo um setor historicamente muito
ordem econômica sejam construídos sob a antigo como a agricultura, está, agora, ampla-
máscara de outras afirmações, sobre os quais mente marcado pelo papel das TICs.

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Um terceiro autor, Daniel Bell, teve tam- anos 1950. Mas a “sociedade da informação”
bém um papel notável no desenvolvimento possui também uma dimensão econômica
dessa reflexão. Autor do livro The coming of forte e, além disso, uma conotação neoliberal.
the post-industrial society, ele formulou a hi- Desde os anos 1970, quando entrávamos em
pótese da emergência de uma classe social de contato com o fim de um período de cresci-
trabalhadores do saber – sobretudo engenhei- mento extensivo nos países mais ricos, o setor
ros, cientistas e pesquisadores – e do recrudes- das tecnologias da informação e da comuni-
cimento do setor financeiro (1973). Dito de cação, principalmente as telecomunicações,
outro modo, seriam as profissões do saber que foi visto como uma fonte de enorme potencial
tomariam o poder em detrimento do mundo de crescimento. Até então, a regra geral era, no
dos negócios. Em seguida, essa análise foi in- mundo inteiro, a manutenção de monopólios
validada com o desenvolvimento de um capi- públicos ou privados, estes últimos devendo
talismo que, contrariamente, é marcado pelo respeitar certo número de regras ditadas pelos
peso das finanças em relação à economia real. organismos de regulamentação, como a Fe-
Mas se essa análise foi acolhida favoravelmen- deral Communications Commission (FCC),
te na época, foi principalmente porque ela fez nos Estados Unidos. O desmantelamento, em
parte de um conjunto de discursos que foram 1984, da gigante estadunidense American Te-
tornados públicos no exato momento em que lephone and Telegraph Corporation (ATT),
a informática e a micro-eletrônica progrediam foi o estopim para a liberalização do setor das
tanto, que as tecnologias, começando pelo telecomunicações em escala mundial, sobre-
computador, puderam ser vastamente desen- tudo após a queda do muro de Berlim, em
volvidas tanto nos locais de trabalho quanto 1989. No ano seguinte, o presidente George
nas residências. A partir desse momento, é o Bush falou ao Congresso, em Washington, a
conjunto das TICs que será considerado como respeito de uma “nova ordem mundial”, uma
sendo, ao mesmo tempo, a causa e o efeito da fórmula que remetia à idéia de um mundo
emergência da chamada “sociedade da infor- unipolar que se posicionaria atrás da primeira
mação”. Manuel Castells, autor de uma trilogia potência mundial.
publicada no final dos anos 1990, situa a as- Os anos 1990 serão marcados pelas “au-
censão da “sociedade informacional” no Vale tovias da informação”. O objetivo consistia,
do Silício, onde foram feitos notáveis progres- claramente, em elaborar uma infra-estrutura
sos tecnológicos sob a influência de diversos que permitisse interligar todos os aparelhos
fatores institucionais, econômicos e culturais eletrônicos e informáticos. Vários progra-
(1998). O lugar real e crescente dessas tecno- mas foram desenvolvidos nos países mais ri-
logias em nossas vidas, ao menos nos países cos, sendo que os Estados Unidos foram se-
mais ricos do planeta, favoreceu enormemente guidos pela União Européia (no seio da qual
o emprego da expressão “sociedade da infor- certos países como a França desenvolviam
mação”, que esconde, na verdade, outro termo: seu próprio programa), pelo Canadá e pelo
aquele da sociedade das tecnologias da infor- Japão. Há um ponto comum no conjunto
mação e da comunicação. de relatórios associados a esses programas:
a iniciativa principal deveria retornar para
Uma conotação econômica igualmente as empresas privadas, e os Estados deveriam
forte se contentar em desempenhar, sobretudo,
um papel de observadores (Tremblay e Ge-
A “sociedade da informação” possui uma orge, 1996). O Estado deveria, por exemplo,
conotação técnica, e mesmo informática, favorecer o desenvolvimento da demanda,
considerável. Tanto é assim que ela pode, em visando responder ao surgimento de uma
parte, ser considerada como “filha” da ciber- oferta industrial. Ele seria convidado a fazer
nética, que teve seus momentos de glória nos isso por meio de um intermediário de sua

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administração, utilizador-modelo que po- diminuir as tensões da existência, tornando-


deria, aliás, beneficiar-se de uma utilização a mais suportável. Ele ainda afirmava que
massiva das TICs, uma vez que elas foram esses discursos souberam aglutinar em tor-
freqüentemente apresentadas como facilita- no deles uma multiplicidade de agentes que
doras da prática de uma gestão transparente. aí encontravam “uma linguagem adequada
A escola tinha também a missão de utilizar a seus interesses, assim como às represen-
massivamente as TICs a fim de fazer com tações encantadas de sua identidade social”
que os jovens assimilassem as práticas infor- (Ibid:104). Profissionais da mídia e da publi-
máticas1. A “sociedade da informação”, que cidade, mas também “pensadores preocupa-
nos foi mostrada como portadora de tantas dos com as câmeras [...], para os quais um
vantagens, também oferece um vasto teste- ensaio sobre a mídia ou sobre a comunica-
munho das – e participa também das – mu- ção constitui uma obrigação salutar” (Ibid),
tações do capitalismo, veiculando a idéia da propõem uma “verdadeira teoria exótica da
possibilidade de um sistema de relações nos sociedade da comunicação, uma mistura de
mercados, entre produtores e consumidores, teorização resultante da prática profissional
sem atrito, em uma perspectiva (neo) ciber- e de idéias oriundas de trabalhos de pesqui-
nética2 em que a política estaria a serviço da sadores ou de ensaístas” (Ibid). Iremos agora
economia e na qual o lugar dominante des- refletir sobre esses diferentes pontos.
ta última avança envolta em uma máscara Falar sobre a “sociedade da informação”
composta de outras afirmações, a respeito apontava para a existência de um desejo pro-
das quais iremos agora refletir. fundo em favor de uma renovação do vín-
culo social e da vida em comum ligada ao
desenvolvimento das TICs, principalmente a
Um discurso aglutinador e promotor
de valores partir dos anos 1970. Isso pode ser eviden-
ciado, por exemplo, nas experiências ocorri-
Diante do quadro acima delineado, se das na França a respeito da distribuição local
essa expressão obteve tanto sucesso por vá- do vídeo – no quadro do aparecimento da
rias décadas, isso se explica também por ela difusão a cabo –, na criação de serviços de
ter sabido reunir os interesses de vários com- televisão comunitária e depois de rádio no
ponentes de nossas sociedades para além de Quebec, na invenção das “comunidades vir-
afirmações de ordem técnica ou econômica. tuais” pelos militantes da contra-cultura nos
Assim, associo-me à posição de Érik Neveu, Estados Unidos (Rheingold, 1995). Mas, para
expressa no livro Vers une société de commu- além desse vasto conjunto de tentativas de
nication? (1994). Esse autor ressalta que os criação de mídias alternativas em relação aos
discursos sobre essa nova sociedade que nos meios dominantes, Vincent Mosco (1998)
foi prometida destacam a construção de uma nos lembra que, no momento do desenvolvi-
palavra mítica que fazia referência a “um de- mento dos sistemas globais de comunicação
terminismo tecnológico, a um fato que con- mediada pelo computador, sobretudo aque-
duziria as sociedades em direção à uma dimi- les ligados à Internet, ao “ciberespaço” e às
nuição de tensões, de crispações ideológicas “auto-estradas da informação”, houve a ela-
e a um maior número de consensos [...] uma boração de uma palavra mítica.
palavra despolitizada, reprimindo qualquer Esses mitos contribuíram, segundo ele,
inscrição na História” (1994:70-71) antes de para esconder o papel central das empresas
assinalar que o pensamento mítico permitia transnacionais no processo de desenvolvi-
mento dessas redes e tecnologias. Em sua
argumentação, que pretende mostrar a que
1
A respeito do modo como a “sociedade da informação” age a
serviço do capitalismo financeiro globalizado, ler George (2007). ponto o termo “sociedade da informação” faz
2
Ver sobre esse assunto a tese de Maxime Ouellet (2009). parte de um discurso ideológico que favorece

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os detentores do poder, principalmente o po- (1972:143). É assim que os discursos sobre a


der econômico, Mosco traça um paralelo entre “autovia da informação” levam as pessoas a
o rádio e a Internet. Nos anos 1920, amadores crer na realização do sonho dos filósofos e dos
entusiastas começaram a trocar mensagens bibliotecários: tornar o todo da informação
graças ao rádio, que operava, nesses casos, disponível no mundo sem que precisemos de
sem controle político ou econômico. Encora- tempo, energia e dinheiro para nos deslocar
jados por essa nova invenção, eles pensaram aos locais onde as informações estão estoca-
em desenvolver comunidades virtuais e obter, das. Eles nos levam a crer, também, que as
assim, uma parte do poder. Bertold Brecht ha-
via estimado que “o rádio deveria ser conver-
tido de um sistema de distribuição para um Falar sobre a “socie-
sistema de comunicação. O rádio poderia se dade da informação”
tornar o mais maravilhoso sistema de comu- apontava para a
nicação pública jamais imaginado [...]. Isso
existência de um
significa que o rádio deveria perder seu papel
de fornecedor de informações e organizar o desejo em favor de
ouvinte enquanto produtor de informações3”. uma renovação do
Contudo, no final, foi a lógica capitalista que vínculo social
prevaleceu, pois os homens de negócios im-
puseram o ponto de vista segundo o qual o
rádio poderia funcionar sob o princípio da
venda das audiências aos anunciantes. Será comunidades existentes se reforçam e que as
que a história se repetirá? novas comunidades virtuais emergem como
Em todo caso, Mosco estima que as afirma- conseqüência da criação das redes. Certamen-
ções a respeito das “autovias da informação” te podemos admitir, no caso da Internet, que
participaram da elaboração de um novo mito, nem todo mundo tem acesso à rede, que nem
o qual deu origem ao sucesso da expressão. toda comunidade virtual pode ser comparada
Mas o que podemos entender aqui pelo em- a uma relação de vizinhança e que a conexão
prego do termo “mito”? Mosco afirma que os é muito cara para certas pessoas. O essencial
mitos são mais do que realidades falsificadas. não é, contudo, colocado em questão.
Como explicitado por Lévy-Strauss (1978, A proteção do mito é reforçada, uma vez
1987), os mitos auxiliam as pessoas a supor- que ele possui a tendência de transcender a
tar as contradições que não podem jamais ser história. Ou, no caso que nos interessa, trata-
completamente solucionadas na vida social. se freqüentemente de uma ruptura na histó-
Mosco evoca também a explicação de Roland ria entre antigas e novas sociedades, por meio
Barthes (1972 [1957]), que salienta que os do emprego de diferentes expressões, com a
mitos falam das coisas, tornando-as inocen- transmissão das seguintes idéias: a abundân-
tes, conferindo-lhes uma justificação natural e cia em termos de informação, a acessibilidade
eterna, fornecendo-lhes uma clareza que não das TICs, a predominância do trabalho inte-
diz da explicação, mas do estado das coisas. lectual, a possibilidade de fazer as coisas em
O mito proporciona uma clareza eufórica ao termos de pertencimento comunitário, etc.
eliminar as complexidades e as contradições Podemos até anunciar que aquilo que acon-
teceu anteriormente pertence à pré-história.
3
Tradução livre do seguinte trecho: “Radio should Radio
Para Mosco, é Nicholas Negroponte que mais
should be converted from a distribution system to a commu- refletiu sobre essa tendência, ao redigir sua
nication system. Radio should be the most wonderful public obra O homem numérico (1998), na qual ele
communication system imaginable […] This means that radio
would have to give up being a purveyor and organize the liste- anuncia que os bits substitutuíram doravan-
ner as a purveyor” (Mattelart e Siegelaub, 1983:169). te os átomos: “a negação da história é central

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para compreender o mito como discurso ção foi retomada, até que, nesse início de sé-
despolitizado, pois negar a história significa culo XXI, começássemos a falar de “web 2.0”,
retirar-se da discussão ativa do agenciamen- ou justamente de “web participativa”. Iremos
to da humanidade, dos constrangimentos ver, em um segundo momento, que há uma
das estruturas sociais e da política do mun- filiação entre as expressões de “sociedade da
do real. Segundo o mito, a era da informação informação” e de “sociedade 2.0”.
transcende a política, pois ela distribui o po-
der a cada um e em grande abundância”4. No Da “sociedade da informação” à “web
caso que nos interessa, o discurso mítico que 2.0”, ou à “sociedade 2.0”

Os discursos consagrados à “sociedade


Onde podemos da informação” talvez, hoje, tenham perdi-
encontrar a idéia do um pouco de seu alcance. Essa é uma hi-
central de que seria pótese proposta por Bernard Miège (2008),
que afirma que esses discursos atingiram seu
suficiente agora
auge no período que vai dos anos 1980 à pri-
seguir a via meira década do século atual. Mas se é esse
traçada pela o caso, é porque outras expressões tomaram
tecnologia? a dianteira, mas preservando, de modo geral,
os mesmos objetivos de apresentação de uma
sociedade harmoniosa, repousando sobre as
tecnologias de informação e de comunicação.
se desenvolveu depois de quatro décadas faz E ainda, sobre uma economia cuja importân-
alusão a uma sociedade mais democrática, cia na sociedade não seria considerada como
menos hierárquica e mais horizontal. problemática, e no centro da qual os confli-
A idéia do surgimento de uma nova so- tos e desigualdades estariam em ampla dimi-
ciedade, marcada pelo fim da fronteira entre nuição, a favor de relações mais horizontais,
produção e consumo, onde cada um poderia menos hierárquicas e mais democráticas. Em
aparecer como criador – e não mais unica- um primeiro momento, iremos tratar dessa
mente como receptor passivo –, não é nova. filiação entre esses discursos que continuam
No Quebec, é no início dos anos 1970 que a veicular uma palavra mítica e, em seguida,
Jean Cloutier anuncia, em sua obra La com- relembraremos toda a importância de desen-
munication audio-scripto-visuelle à l’heure des volver uma abordagem crítica com relação a
self-médias (1973), o surgimento da era da essa visão de nossas sociedades.
comunicação individual, marcada pela apro-
priação da ferramenta tecnológica – poderia Um discurso que adquiriu renovada
tratar-se da informática pessoal, mas também popularidade em torno da “web 2.0”
do vídeo, da fotografia etc. – e pelo próprio
indivídio que se tornaria, assim, capaz tanto Muito antes do que foi chamado de “web
de emitir quanto de receber todos os tipos de 2.0”, Pierre Lévy afirmou que “o ciberespaço
mensagens. Em seguida, esse tipo de proposi- pode aparecer como um tipo de materializa-
ção técnica dos ideais modernos. Em particu-
lar, a evolução contemporânea da informática
4
Tradução livre do seguinte trecho: “The denial of history is
central to understanding myth as depoliticized speech becau-
constitui uma surpreendente realização do
se to deny history is to remove from discussion active human objetivo marxiano de apropriação dos meios
agency, the constraints of social structure, and the real world de produção pelos próprios produtores. [...]
of politics. According to myth, the Information Age transcends
politics because it makes power available to everyone and in Se o espetáculo (o sistema mediático), segun-
great abundance” (1998:60). do os situacionistas, é o ponto máximo da do-

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minação capitalista, então o ciberespaço reali- poderiam agora, enfim, ter voz e colocar em
za uma verdadeira revolução, uma vez que ele xeque as concepções extremamente hierárqui-
permite – ou permitirá em breve – que todos cas da produção de sentido, a fim de transfor-
se transformem em editores, produtores, di- mar nossas sociedades. Henry Jenkins, diretor
fusores ou em intermediários em geral para do programa Comparative Media Studies, no
divulgar seus textos, sua música, seu mundo MIT, havia anunciado, desde 2001, que “a
virtual, ou qualquer outro produto pesso- convergência mediática [geraria] uma nova
al” (1997:122). No ano seguinte, Jean-Louis cultura popular participativa, ao oferecer às
Weissberg mencionava que a Internet foi o pessoas comuns as ferramentas para arquivar,
primeiro sistema de comunicação suscetível anotar, apropriar-se e retransmitir os conteú-
de se desenvolver amplamente e que não dis- dos” (Jenkins, 2001:93). Em seu livro, Conver-
tinguia “em seu princípio (e somente em seu gence culture: where old and new media collide
princípio), o emissor do receptor” (1998:239). (2001), ele defendeu a tese segundo a qual
Será que deveríamos concluir, seguindo Weis- os fãs e suas atividades teriam, de agora em
sberg, que assistimos à emergência de novas diante, um papel central no desenvolvimento
formas autorais sob o pretexto de que essa das indústrias da cultura. Assim, ele anuncia
tendência estaria ligada ao desejo que os seres a possibilidade de os fãs se tornarem verda-
humanos teriam há séculos de se expressar? deiros parceiros ativos no entrecruzamento
De maneira mais global, seria a Internet um entre cultura popular e cultura comercial em
lugar menos hierarquizado que o conjunto uma sociedade em rede. E, da mesma forma
da sociedade, um pouco como o modelo de que outros “gurus”, seu posicionamento pare-
cooperação que permitiu construir a rede ao ce mais do que nunca ambíguo entre pesquisa
longo das décadas precedentes? e militantismo. Assim, ele apresenta essa obra
Várias pesquisas, atribuindo uma impor- em seu site como “uma intervenção pública
tância notável às observações empíricas, fize- que tenta ajudar, ao mesmo tempo, consu-
ram com que fosse colocada em questão essa midores e produtores a entender as mudan-
visão idealista do desenvolvimento da rede ças em curso naquilo que diz respeito às suas
informática por diversos motivos: os níveis relações”5. Onde podemos encontrar a idéia
de acesso dos usuários aos dispositivos téc- central de que seria suficiente agora seguir a
nicos e de apropriação muito diferentes uns via traçada pela tecnologia?
dos outros; as propensões bastante variadas Essa mistura de gêneros repousa sobre uma
à “tomada da palavra” pública, apontando aposta: o fato de que a profecia auto-realizado-
para um capital cultural desigualmente parti- ra ganha corpo ao ser anunciada incessante-
lhado; as características do modo de vida ca- mente. O especialista da cultura centrada nos
pitalista, começando pela falta de tempo dis- fãs anuncia que estes terão seu lugar transfor-
ponível e o tempo passado diante dos meios mado em algo crucial na própria produção de
de comunicação de massa, etc. Eu mesmo bens e serviços culturais. O problema é que
trabalhei sob essa perspectiva durante vários essa atitude tende a minar totalmente qual-
anos, sobretudo em torno de minha tese de quer perspectiva crítica – o que pode parecer
doutorado (2001). Continuo agora essa ope- perturbador, pois certos “adeptos” das TICs
ração de desmistificação ao estudar o lugar podem igualmente ser críticos virulentos dos
ocupado pelas TICs na mobilização de com- chamados meios de comunicação de massa, e
ponentes da “sociedade civil” no Quebec. isso como se houvesse forçosamente uma dife-
Contudo, os discursos sobre a pretensa rença considerável, até mesmo uma forte opo-
emergência da “web 2.0” deram rapidamente
lugar a uma nova onda de afirmações entu- 5
Do original: “…a public intervention into this situation,
siásticas. Encontramos neles, por exemplo, a trying to help both consumers and producers understand the
idéia segundo a qual os “internautas comuns” changes which are occurring in their relationship”.

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sição sistemática, entre os meios tradicionais rede. Ele defendia o ponto de vista segundo
qualificados como “de massa”, que seriam alie- o qual a “saúde” da rede informática repou-
nantes, e as “novas” tecnologias, consideradas saria sobre o modelo “participativo”, no qual
como fontes de emancipação. Ora, essa ausên- o internauta/usuário deveria deixar o sim-
cia de distância crítica contribui amplamente ples estatuto de consumidor para se tornar
para esquecer, ou para ocultar o fato de que um “produtor de conteúdos”. Esse discurso,
por trás dos numerosos e variados usos que amplamente conhecido, havia sido refutado
se desenvolvem para a rede, certas empresas antes, como mencionamos anteriormente,
desempenham um papel central, tanto no que mas, mesmo assim, ele consegue se impor
concerne à produção, quanto no que se refere novamente, inclusive no seio da comunidade
à distribuição de conteúdos informacionais e acadêmica, onde certos membros não hesi-
culturais. Falamos até de “sociedade 2.0” para taram a retormar, por sua conta, a expressão
mostrar que a democracia inerente, intrínseca “web 2.0” sem perceber que esse uso estava
ao desenvolvimento dos serviços mais recen- londe de ser neutro. Contudo, como de-
tes das tecnologias numéricas e organizadas monstraram Bouquillion e Matthews, a te-
em rede, se expandiu no conjunto dos setores mática da “web 2.0” contribui para legitimar
de atividade, favorecendo, por “contamina- as formas assumidas pelo capitalismo desde
ção”, novas organizações menos hierárquicas, o fim do período fordista dos anos 1970. Eles
mais participativas. A saúde, a educação, o afirmam que “os discursos relativos à web 2.0
transporte, a cultura, as instituições, tudo co- retomam, prolongam e renovam importan-
meça a ser rotulado como “2.0”. David Fayon, tes discursos sobre as indústrias da cultura e
autor de um livro de título revelador, Web 2.0 da comunicação, assim como sobre as TICs e
et au-delà. Nouveaux internautes: du surfeur à sua inserção econômica e social” (2010:10).
l’acteur (2010), retoma, por sua conta, a idéia A web 2.0 aparece, desde então, como a ver-
de uma terceira revolução, ocorrida após são mais atual da “sociedade da informação”.
aquela da agricultura e da indústria: a “revo- Passamos a falar de técnica com interfaces –
lução imaterial”, “ainda mais acelerada com o enfim conviviais! – que poderão descentrali-
fenômeno das redes sociais no seio da Web 2.0 zar melhor os discursos e falas, o que não era
e da sociedade 2.0” (Fayon, 2010). A expressão feito pela “web 1.0” (que nem era etiquetada
“sociedade 2.0” começa mesmo a ser retoma- como tal). Mas falamos desde já da “web 3.0”,
da em certas instituições universitárias. Tal é o e mesmo da “web 4.0”, no caso de a “web 2.0”
caso, por exemplo, do importante grupo pluri- não cumprir todas as suas promessas. Mas fa-
disciplinar francês, Marsouin, que desenvolve lamos muito pouco de economia, ainda que
um projeto de pesquisa que tem como título ela seja onipresente, como mostra um bom
“sociedade 2.0”, e ainda outro que tem como número de aspectos da figura emblemática
principal tema a “empresa 2.0”. dessa “rede colaborativa”, como o Facebook.
Felizmente, Philippe Bouquillon e Jacob E atribuímos todos esses tipos de influências
Matthews nos lembram, em uma obra inti- positivas às redes sociais numéricas.
tulada Le Web collaboratif. Mutations des in-
dustries de la culture et de la communication A urgência da crítica
(2010), que a expressão “web 2.0” apareceu
em 2003, sendo que a paternidade do termo Em uma obra que organizei com Fa-
é geralmente atribuída a Tim O’Reilly, es- bien Granjon, Critique de la société de
pecialista em informática e empreendedor. l’information (2008), afirmávamos que não
Ele buscava relançar a Internet como setor se trata de contestar o lugar, cada vez maior,
de atividades econômicas, enquando a vira- das TICs nas diversas esferas de atividades
da do milênio vinha marcada pelo estouro no centro das quais os atores sociais se inse-
da bolha criada anteriormente em torno da rem. Trata-se, sobretudo, de refletir sobre as

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expectativas econômicas, políticas, culturais a todo o momento, como banidas da maioria


ou sociais que nos eram apresentadas como das pesquisas que se remetem globalmente
efeitos positivos desse desenvolvimento tec- aos vínculos entre sociedades e TICs. Nesse
nológico. Nosso argumento foi construído sentido, nada garante que as TICs podem ser
nos seguintes termos: “Os zeladores da socie- utilizadas com finalidades emancipatórias.
dade da informação, ao tornarem sua a reli- Se acreditamos em Luc Boltanski e Ève Chia-
gião do progresso técnico, delegam à comu- pello, no livro Le nouvel esprit du capitalisme
nicação, à rede e ao mercado, a melhoria das (1999), certamente a “sociedade conexionis-
condições de vida e a manutenção do vín- ta” contribuiu para complexificar as media-
culo social. Fontes presumidas de uma nova ções entre todas as componentes de nossas
sociedade mais igualitária e mais transparen-
te, as TICs devem agora realizar o conjun-
to das atividades sociais que elas deveriam A ausência de
atravessar e aprimorar” (George e Granjon,
2008:10). O que essas visões do mundo es-
distância crítica con-
quecem completamente é que nem as tecno- tribui amplamente
logias, nem o discurso sobre as tecnologias para ocultar o fato de
conseguem modificar as relações de classe e que certas empresas
as estruturas de dominação das sociedades desempenham um
capitalistas, que mobilizam a seu serviço as papel central
tecnologias e o discurso referente a elas. Ao
contrário das promessas que anunciam uma
melhoria das condições sociais de existência,
as desigualdades materiais aumentaram des- sociedade, o que tornou mais difícil colocar
de o fim do período fordista, e isso tanto nos em evidência os fenômenos de exploração.
países mais ricos quanto nos mais pobres; o Mas os mercados financeiros e as empresas
que se explica principalmente pelo fato de transnacionais permanecem, mais do que
que a remuneração do capital esteve em alta, nunca, os principais atores sociais responsá-
em detrimento da remuneração do trabalho. veis pela exploração capitalista.
Várias análises que anunciam mudanças É de crucial importância não confundir a
sociais notáveis, e mesmo centrais, freqüen- análise do existente e a aspiração normativa,
temente se fiam em várias considerações, co- uma vez que a confusão parece geralmente
meçando pelas estruturas econômicas e polí- ser a regra. De um ponto de vista normati-
ticas existentes, pelo estado das forças sociais vo, podemos eventualmente perceber no de-
passíveis de contribuir para mudar a forma senvolvimento da Internet, e de outras TICs,
e, mais fundamentalmente, o estado das re- uma nova potencialidade para o desenvolvi-
lações sociais existentes, as relações sociais mento de sociedades menos hierarquizadas,
que permanecem dependentes dos modos de mais igualitárias, nas quais todos poderiam
produção, ainda que elas não se reduzam. E ter um maior domínio sobre seu futuro. To-
falar de modo de produção remete a reintro- davia, de um ponto de vista analítico, é sem-
duzir a noção de capitalismo, percebida ao pre importante considerar as desigualdades e
caracterizar o estado de funcionamento de as relações de poder entre os atores, as lógicas
nossas economias, mas, de modo mais glo- que contribuem para estruturar suas ações e
bal, enquanto modo de vida centrado sobre do papel das ideologias, incluindo aquelas
a dominação de valores econômicos, como a que se apresentam como o estado natural
eficacidade, a racionalização e o individualis- das sociedades. Muito pelo contrário, as ide-
mo. É possível notar que as noções de “capi- ologias podem ser menos visíveis, mas muito
talismo” e de “modo de produção” aparecem, presentes. Recusar a integração na análise das

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desigualdades, das relações de poder, todas as partir dos anos 1970, as TICs não foram pri-
formas de exploração e de dominação, signi- meiramente apresentadas como uma fonte
fica, na verdade, contribuir para reforçá-las. de empoderamento que permite aos indiví-
Mas é igualmente importante, como aponta duos aumentar seu capital comunicacional?
Erik Neveu, não nos inclinarmos “em dire- Enquanto empreendedor de si, em todas
ção da produção de contra-mitologias, uma as atividades que desempenha no cotidiano,
vez que elas também são redutoras”, partin- o sujeito faz sua auto-promoção e utiliza as
do à caça aos mitos (1994:72). TICs para a realização de seus próprios fins,
Essa caça aos mitos nos parece mais im- para valorizar-se, ao mesmo tempo, por fins
portante do que as diferentes razões que ex- monetários e simbólicos. Em conseqüência,
plicam como as expressões “sociedade da in- será que o sujeito-cidadão, o sujeito reflexivo
formação” e “web 2.0”, e mesmo “sociedade característico da modernidade, não possui a
2.0” são amplamente mobilizadas pelos di- tendência a abandonar o debate sobre as gran-
rigentes de empresas, responsáveis políticos des orientações normativas da sociedade para
e membros da “sociedade civil”. É possível se transformar em um investidor que tem
indagar a respeito de uma eventual “conver- como principal função gerar capitais (econô-
gência” no uso dessas expressões. Enquanto micos, culturais, intelectuais, reputacionais e
trabalhador, cidadão, militante e até mesmo humanos) (Ouellet, 2009:146)? E a sociedade
como ser humano, o usuário das TICs não que se esconde por trás de expressões como
deve ser cada vez mais performático, criativo “sociedade da informação” e “sociedade 2.0”,
e “empreendedor de si mesmo?” Seguindo o será ela uma sociedade na qual as tecnologias,
ponto de vista de Maxime Ouellet (2009), é principalmente da informação e da comuni-
possível nos perguntarmos a respeito da arti- cação, tornadas onipresentes, não seriam mais
culação entre regimes de poder e tipos espe- interpeladas sob o registro do “Por que”, mas
cíficos de subjetividade em uma perspectiva somente sob o registro do “Como” – o que
foucaultiana. Dentro do quadro da passagem tornaria particularmente difícil todo desen-
do capitalismo fordista nacional ao capitalis- volvimento em termos de abordagem crítica?
mo financeiro globalizado, que se firmou a (artigo recebido mar.2011/aprovado abr.2011)

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