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Essa história é para crianças que estudam


teoria da música, porque só elas vão entender
certas coisas. Mas serve para adultos também.
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Não era uma vez. Eram várias as vezes que


Crica tocava piano durante o dia.

Era paixão dela.

Tinha um piano no quarto, daqueles com teclas


escuras e brancas. Sempre na mesma ordem:
branca, escura, branca, escura. Mas onde
haviam duas escuras juntas, um espaço de mais
brancas se contava.
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Ao todo, depois de 7 notas, a seguinte, ou seja,


a oitava nota, era sempre repetição da primeira
nota. E era o mesmo som, porém mais agudo.

Isso se repetia SEMPRE.

Mas no piano de Crica, só podia se repetir 4


vezes.

Tudo era muito interessante, mas algumas


coisas nem tanto. Por exemplo: Crica tentou
tocar violão.

Não deu certo.


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Os dedinhos dela eram muito delicados.


Doíam sempre que tentava. Se tentasse tocar
uma bíade ou tríade, pior ainda.

Bíade acontece quando tocamos duas notas ao


mesmo tempo. E tríade, quando tocamos três notas
ao mesmo tempo.

Que dor nos dedos! Era difícil tocar violão!


Ela gostava do piano com teclas brancas e
escuras.
À noite, tocava bossa nova e MPB.
À tarde, Jazz e Soul.
E entre a tarde e a noite, e às manhãs, tocava
Bach, Mozart, Schubert.
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A música corria dentro dela, e a deixava alegre.


Ela entrava num mundo colorido e
impressionante todas as vezes que tocava.

Muitas notas corriam, às vezes juntas, às vezes


separadas, mas todas seguindo a mesma
finalidade de fazer o som ficar bonito.

Mas isso dependia sempre de como as notas


eram colocadas.

Por exemplo, se estivessem muito próximas,


como Dó e Dó sustenido, o resultado seria um
som estranho para os ouvidos. É a isso que se
dá o nome de som “dissonante.” O ideal é que
as notas fiquem mais ou menos distantes,
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deixando sempre algumas escuras ou brancas,


no meio.

Mas um som estranho não era estranho para


Crica. Ela não era uma menina como as
demais. Um som dissonante pra ela era bonito!

Era uma menina que, apesar de ser tão jovem,


tocava muitas músicas diferentes! Mas o que
era complicado eram os exercícios que tinha
que fazer todos os dias.

O professor de piano era muito severo.


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Ele tinha óculos bem pesados, cabelos


encaracolados e usava sempre roupa social.
Fora isso, tinha uma barba comprida e um
nariz muito fino.

Isso tudo assustava Crica!

Mas ela sempre ia às aulas de piano sorridente


e feliz. Piano era paixão dela! Já disse!

Quando tocava exercícios de velocidade de


Czerny, os dedos de Crica corriam muito
raaapppiiiidddddooo!!!!

Tão rápido, tão rápido, que era difícil saber


quantos dedos havia.
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Se tocasse algo mais lento, e não tão rápido


quanto os exercícios de velocidade de Czerny,
era muito provável que os dedos dela
pudessem ser vistos normalmente, ao todo, 10!
Mas com tanta velocidade, eles sempre se
multiplicavam, e quando Crica olhava para o
piano, via mais de 20 ou até 30 dedos
correndo!

Ela começava tocando colcheias. Mas logo em


seguida, não eram mais colcheias, eram
semicolcheias, o dobro da velocidade anterior.

Os olhos se prendiam na direção da partitura, e


quanto mais tocava, mais rápido ficava, e sua
cabeça fazia um movimento curto e quase
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imperceptível, sempre olhando para as teclas


em baixo e para a partitura, em cima.

Os dedos de Crica se cruzavam, se


entrelaçavam. De repente sua mão esquerda
voava por cima da direita, tocando notas muito
agudas! Tudo muito rápido! E ficava cada vez
mais rápido!

– Toque mais rápido! No andamento certo!


Presto! – dizia o professor.

– Sim! Estou tentando! – Crica respondia, ao


mesmo tempo que arregalava os olhos na
partitura!
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Tocava cada vez mais rápido, e seus dedos


começavam a parecer dedos de elástico. E as
notas começavam a falar com ela várias coisas
diferentes!

Havia várias notas diferentes, todas muito


espertas. Quando um dedo ia em direção ao
Dó, de repente o Dó Sustenido, bem ao lado,
disse:

- Ei dedinho, Ahm! Ahm! não vá esbarrar em


mim!

- Desculpe, desculpe, senhor! não irei! – dizia


Crica, desesperada – Prometo que tomo
cuidado! A não ser que... na pauta, seja você,
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Dó Sustenido, quem eu tenha que tocar! Assim


não terei qualquer alternativa! Espero que me
compreenda!

- Ora, você é uma menina muito esperta, não


é? – Disse a nota, resmungando.

- Não é hora de conversas, mocinha – gritou o


professor. – Trate de ler a partitura! E mesmo
que não tenha a menor ideia do que virá no
compasso seguinte, tente! Mesmo que sejam
fusas!

- Fusas? – pensou Crica. – Ah, não... o que


será de mim?
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As fusas eram notas muito espertas e muito


mais rápidas que as semicolcheias. Elas
poderiam causar graves problemas, pois os
riscos eram muito maiores. Crica tinha medo
das fusas! Poucos problemas eram tão sérios
quanto as fusas no mundo do piano!

Crica lia um compasso inteiro mentalmente, e


sua mão tocava todas as notas de imediato.

Quando não estava numa tecla branca,


certamente estava numa tecla escura. Quando
não tocava uma bíade, possívelmente era
tríade. Quando não era uma colcheia, era uma
semicolcheia!
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Era hora de virar para a próxima página da


partitura.

O que viria?

De repente os olhos de Crica se arregalaram.

– Lalala! Surpresa, aqui viemos nós..hihihi

- Ah não! Fusas! – disse Crica. – Agora estou


em apuros. Não posso me desconcertar nem
me desconcentrar!

O tempo corria, eram 100 batidas por minutos.


O metrônomo sempre, tic toc tic toc!
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- Ei! Você lembra daquele prelúdio de Bach que você


tocou no recital? Eu estava lá. – disse uma fusa
esperta, tentando distrair Crica.

- Lembro! Vocês sempre estão nas partituras


de Bach! – respondeu agonizando – Mas, por
favor, agora não posso me desconcertar nem
me desconcentrar! Vocês são um grande
perigo! E ainda mais, faltam 20 compassos!

- Escute, moça, não estamos aqui para fazer nada que


não seja bom para você, por favor entenda! Tudo é uma
questão de como você nos vê! – disse uma Fusa Si
Bemol.
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- Ela tem razão! – disse uma Fusa vizinha - Se


você parar para pensar, somos qualquer outra nota,
não oferecemos perigo nenhum! Quem decide isso não
somos nós!

– Olha! – respondeu Crica, tentando olhar


para a partitura sem perder o andamento –
Como não? Vocês tiram meu fôlego sempre!
Sempre são um grave problema! Nem me
venham com histórias! Sei que estão tentando
me distrair! Não posso me desconcertar nem
me desconcentrar!
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– Não somos nós quem decidimos isso, e sim o A-


N-D-A-M-E-N-T-O! – responderam várias
fusas ao mesmo tempo.

Crica tomou um susto. – Por que gritaram?! –


perguntou indignada. – é por isso que digo que
estão tentando me distrair!

- Você é cega, ou o quê? Não está vendo o


sinal de ff aqui? Aliás, não precisa ter medo de
nós! lembre-se que, mesmo nas músicas de
Bach existem fusas, porém tocadas muito
devagar, em andamento Largo! – disse uma
Fusa novamente com um “f” bem embaixo de
si. – Isso mesmo! É pra você ouvir!
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De repente outra Fusa se aproximou do


acorde, dizendo Nem tudo que parece ser, é! Às
vezes o que não vemos, é o que é! – quando as fusas
disseram “Às vezes, o que não vemos...”
Fizeram em formato de acorde dissonante de
sétimo grau da progressão harmônica, e
quando disseram, “é o que é...” fizeram em
formato de acorde menor, do sexto grau da
progressão, dando uma impressão de
descanso...

Mas não adiantou. Nada parecia relaxar a


situação.

Era tenso!
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- Ótimo! – reclamou Crica. Agora vocês querem


me ensinar que preciso olhar para o coração
das coisas e das pessoas? – Muito bem,
espertinhas, não vão conseguir me distrair!
Preciso correr! Ainda faltam 10 compassos!

– Cuidado! – gritou uma Semibreve que


apareceu de súbito no baixo. – Nem sempre 10
compassos são 10 compassos! Isso é muito relativo,
mocinha! Existem coisas na música que são relativas.
E outras, objetivas, mesmo que ninguém admita! Olhe
pra mim. Sou um baixo contínuo. Aqui estou.
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- Com assim? – replicou Crica - Você é coisa


do período pré-tonal! Ou não? Não lembro!

- E se for, qual o problema, moça? Quem disse que


não poderia estar aqui? É o que estou tentando
dizer. Mas parece que, quanto mais presto,
menos você pára para pensar! É século 21, eu
não precisaria estar aqui, mas aqui estou! –
então a Semibreve abriu um largo sorriso
branco, estufou o peito e clamou – daqui eu
não sairei! Há verdades objetivas que
permanecem mesmo quando não aceitamos.
Até o “não querer” é uma verdade objetiva,
saiba disso!
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– Família será sempre família? – perguntou


Crica.

– Sim.

– Mesmo se meus irmãos se casarem e


forem embora?

– Sim. – respondeu a Semibreve,


calmamente balançando a cabeça.

– O certo sempre o certo?

– Sim.
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– O errado sempre errado?

– Sim.

– E eu serei sempre eu mesma?

– Sim... e quando você achar que não estiver


sendo a mesma, alguém certamente dirá...
possivelmente seus melhores amigos irão
estranhar!

– Eu serei sempre de cabelos cacheados e


magrinha?
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- Bem, isso depende. Você promete se


alimentar corretamente, sempre? – questionou
a nota, colocando a ponta da haste no queixo.

- Ora! – respondeu indignada - Não venha com


essa, não posso fazer previsões! Faltam 2
compassos! Não é por serem apenas 2, que
vou admitir uma pergunta dessas! E isso não é
coisa de se perguntar a uma menina tão linda!

E era verdade: faltavam apenas dois


compassos. Crica olhava para a partitura. Mas
algo estava acontecendo. Lentamente as fusas
começaram a desaparecer, dando lugar a
colcheias, e estas, a semínias, mínimas, e...
Crica começava cada vez mais a respirar
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aliviada quando um rittardando apareceu bem


próximo ao último compasso.

- Muito bem, Crica! – elogiou o professor. –


Você melhorou bastante sua leitura à primeira
vista! Acho que atingiu uma meta importante.

- Sinceramente eu não esperava! – Crica abriu


um sorriso cheio de beleza e um coração cheio
de alegria. – Sério? Eu queria tanto! Mas essa
partitura era tão confusa! Não pensei que fosse
conseguir.

Crica voltou pra casa, muito feliz!


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– Mãe! Nem tudo que parece ser, realmente


é!
– O que disse, filha? – a mãe estava
estranhando. Você está se referindo ao meu
cabelo, ou algo assim? Ninguém elogiou o meu
cabelo, apesar de passar tanto tempo no salão
hoje.

– Mãe, isso é relativo. Sabia que até o “não


gostar” é relativo? Algumas coisas são verdades
de fato, mesmo que ninguém admita! E você
continua bonita, mesmo se não tivesse sequer
ido ao salão!
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– Obrigada! – disse a mãe sorridente. – mas


estou estranhando essas suas falas! Andou
estudando Filosofia ou Música?

– Não, mãe! Estou dizendo que, na Música,


nem sempre o que parece ser é realmente o
que parece ser. A Música está dentro de mim, e
a capacidade de ser uma grande pianista está
aqui dentro, é por isso que não tenho medo de
encarar uma partitura confusa! Mesmo que seja
com fusas!

FIM