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ÚLTIMA PROPOSTA DO ULTIMO TRABALHO

Vai ser necessário fazer, antes de mais, trabalho de delimitação do assunto


redimensionando-o. Ao circunscrever o tema aos naufrágios da História Trágico-Marítima, não
iremos abandonar a abrangência que uma ideia mais lata do conceito geral de NAUFRÁGIO (1)
nos oferece; iremos tão só colocá-lo num plano de fundo, a que poderemos vir a recorrer de
diferentes maneiras e às quais aludiremos mais adiante. Nesta fase inicial de proposta, importa
antes de mais determinar quais são as nossas necessidades em termos processuais, já que nos
propomos pintar Naufrágios que nunca foram tratados de outra forma senão a literária. Não
existem, de facto, na história da arte nacional – e acreditamos estar bastante bem
documentados - exemplos de alguma forma de tratamento, especificamente artístico1 do
assunto – exceção feita a M. H. Vieira da Silva em H.T.M ou Naufrage,1944, onde se pinta uma
cena claramente identificável com a Relação do naufrágio da nau “Santa Maria da Barca”.
Seria de esperar que no romantismo português o tema tivesse sido tratado até com
alguma insistência, já que o foi pelos principais nomes desse movimento “lá fora” e porque não
faltavam “por cá” as fontes históricas que alimentariam essa inclinação para o “ belo horrível”
tão específica da sensibilidade romântica.
“Só Deus! (1854) é um dos ícones maiores do nosso Romantismo,”2 escreve-se em Arte
Portuguesa; e é ao mesmo tempo, o único que aflora a nossa temática.

1
Existe naturalmente o Livro das Armadas da Academia de Ciências, Lisboa – JNCM, 1979 e o
Livro de Lisuarte de Abreu, CNCDP,1993.
2
Só Deus! de Francisco Metrass,1856, Museu do Chiado, Lisboa
A QUESTÃO DO RIGOR ARQUEOLÓGICO

Interessa-nos partir do maior rigor possível em termos arqueológicos, por duas ordens
de razões: Em primeiro lugar porque nos parece do maior interesse para o estabelecimento de
um plano de fundo conceptual assente no mais profundo conhecimento das condições materiais
e mecânicas com que iremos lidar; em segundo, porque constituindo uma questão de valor
especificamente científico interessa-nos – sendo, que dominámos a linguagem - seguir o mais
de perto possível, os desenvolvimentos de trabalhos, recentes e passados, referentes a esta
problemática e que estudiosos – sobretudo historiadores e sociólogos- vão publicando. Este
interesse é paralelo aos de ordem estética mas, não nos parece que deva ser descurado.
Constituirá, sim, um valor acrescentado, já que o movermo-nos dentro da problemática
histórica, só pode trazer contribuições suplementares, sempre bem-vindas para o conjunto do
trabalho tal como ele está a ser concebido.

É interessante notar a título de exemplo, que no trabalho, já de si discutível, de Telmo


Gomes, NAVIOS PORTUGUESES Séculos XIV a XIX, as grandes embarcações protagonistas dos
naufrágios do período que nos importa tratar são praticamente inexistentes, pouco
acrescentando a essa problemática estritamente relacionada com a evolução do Indianmen na
segunda metade do século XVI. Participar dessa problemática e ser capaz de formular juízos
críticos e de os poder discutir em termos científicos fará parte daquela segunda ordem de
razões.

TRATAMENTO DOS TEXTOS

O texto vai ser a nossa principal ferramenta, pelo que fica dito acima. Estes textos são
antes de mais, ricos em referências à fábrica das próprias naus envolvidas, e.g, só esta oração
retirada da Relação da viagem e sucesso que tiveram as naus Águia e Garça (…):
“por estar quase cheia de água até à coberta do cabrestante.”; permitiria, quase, um artigo
sobre o que o relator quereria dizer com “coberta do cabrestante” e que implicações isso
poderia ter no desenho de uma nau de mil toneladas, e que sendo esse o caso da nau Garça que
teria no mínimo quatro cobertas só no corpo da nau, e sendo aparentemente a do cabrestante
a penúltima, estaria a água na primeira ou na segunda coberta? ou existiria uma sobrecoberta
e seria essa a do cabrestante?... Importa por isso dar-nos conta que por esta altura é preciso,
primeiro; saber onde parar de fazer perguntas; segundo construir a imagem dentro da cabeça,
o mais assertiva possível; terceiro fazer esquissos e planos, quarto; enquadrar a nau na
composição, pintar, acabar e passar para a seguinte.

O TEXTO COMO MODELO

O texto é em termos conceptuais o objeto próximo, os doze Relatos a partir do qual nos
propomos construir as imagens dos doze Naufrágios reunidos por Bernardo Gomes de Brito
serão em definitivo o modelo do nosso trabalho.
O texto primeiro, e tudo o que orbita à volta do texto em segundo. Não é um trabalho
de tradução simultânea, texto/imagem que temos em mente, é mais uma transferência que
implique uma viagem de ida e volta entre texto e imagem, um diálogo a ser mediado na imagem,
numa procura pela simultaneidade histórica.

A Viagem, ou melhor, a literatura de Viagem irá por isso, também ela, ficar em pano de
fundo, junto com toda a reflexão de elevadíssimo interesse que suscita. Consideraremos, por
outro lado, estar a integrar temas que tínhamos, num primeiro momento, proposto como
vetores conceptuais – viagem iniciática, mitologia, utopia “A imaginação simbólica”3 misticismo,
alquimia – diretamente e de forma subliminar, ou nem tanto, no processo de criação
propriamente dito.
A ferramenta textual da literatura de Naufrágio deverá ser desde logo abordada de
forma a determinar o que na sua estrutura nos interessa como modelo da representação. Mas
antes iremos resumir, com a ajuda do trabalho de análise textual de Giulia Lanciani4 - o último
de um vasto corpo de trabalhos de diversos autores e de que daremos conta, já que
desconhecendo muitos deles nos interessa preparar desde já a sua leitura – no essencial as
características próprias desta forma literária. Diz-nos Lanciani nas conclusões da sua análise do
género, com que introduz a sua Crestomatia.

“Da análise efectuada, parece lícito deduzir que os vinte relatos de naufrágios com-
postos e publicados em Portugal entre a segunda metade do século XVI e o final do século XVII
se apresentam bastante homogéneos do ponto de vista da estrutura narrativa, autorizando-nos
a postular a existência de um modelo ao qual todos os autores, uns mais outros menos, se
ajustam, embora com uma ampla margem de liberdade de o ignorarem neste ou naquele
segmento da narração. (…), da sua segmentação é possível extrair o arquétipo que se encontra
na base de cada uma das realizações.

Desta segmentação de que se constitui o modelo narrativo proposto, Giulia Lanciani, identifica
“unidades de conteúdo ou elementos constitutivos” que se podem sumarizar da seguinte forma
que, aliás, nos parece justa:

“ 1. Antecedentes: exposição, geralmente sintética, dos acontecimentos que precederam a


partida da viagem funesta;

2. Partida: circunstâncias em que se verifica a partida, condições da nau e características da


carga; início da navegação;

3. Tempestade: descrição da tempestade em que a nau se encontra envolvida e dos danos que
daí derivam;

4. Naufrágio: narração do afundamento da nau, em consequência dos danos sofridos;

5. Arribada: chegada a terra dos sobreviventes e organização do primeiro acampamento;

3
Gilbert Durand (1979)
4
Sucessos e Naufrágios das naus portuguesas (1997)
6. Peregrinação: itinerário dos náufragos ao longo da costa em direcção à possessão portuguesa
mais próxima;

7. Retorno: repatriamento dos sobreviventes.

(…)5

No caso do galeão Santiago e das naus Chagas, Santo António e Conceição, o sistema
narrativo apresenta algumas variantes em correspondência com a quarta, quinta e sexta
unidades do esquema-tipo:

4 b. Ataque corsário: relato da destruição parcial da nau por obra de navios inimigos
(respectivamente holandeses, franceses e turcos);

5 b. Captura: sequestro da nau portuguesa e dificuldade de sobrevivência dos que escaparam;

6 b. Impiedade dos inimigos: descrição das acções bárbaras e desumanas exercidas pelos
vencedores.

(…)

Resumindo: o modelo narrativo que está na base dos relatos de naufrágios pode ser
Assim indicado (vão entre parêntesis as unidades nem sempre presentes e separadas por traço
oblíquo as variantes alternativas):

(Antecedentes) – Partida – (Tempestade) – Naufrágio/Ataque corsário – Arribada / Captura –


Peregrinação/ Impiedade dos inimigos – Retorno, “

Giulia Lanciani (1997) p. 80,81

Esta proposta de sistematização do modelo narrativo dos relatos de naufrágio serve na


perfeição como primeira aproximação ao conteúdo dos textos de que vamos tratar. A partir
daqui seremos nós a pegar no leme e a marcar a cruz. Iremos colocar o compasso em 4.
Naufrágio , 4 b. Ataque corsário . Quer isto dizer que, como “unidade de conteúdo” elegeremos
este, como o momentum central, sobre o qual incidirá a nossa abordagem e aquele onde se irão
concentrar todas as caraterísticas particulares de cada naufrágio (através das cicatrizes
impressas no navio, por exemplo).
Não se pense que todas as outras “unidades de conteúdo” serão simplesmente
preteridas, pode até acontecer que para retratar um naufrágio específico se prefira representar
outra das unidades de conteúdo ou momentum. O que vai com certeza acontecer é a total
subalternidade das duas unidades subsequentes a 5. Arribada. As unidades 6. Peregrinação e 7.
Retorno, ficarão por isso, à partida, fora do nosso propósito representacional, o mesmo

5
Aqui, faz-se referência ao naufrágio da nau São João Baptista que excluímos por estar fora do corpo da
recolha britiniana.
acontecendo às duas precedentes a 3. Tempestade: 1. Antecedentes e 2. Partida. A menos que
não haja tempestade como no caso da relação do naufrágio da nau Conceição, onde é mais
interessante o momento de tenção que precede o naufrágio que o naufrágio propriamente dito
que ocorre em plena noite sem luar. Não vamos por isso criar nenhuma sistematização, vamos
antes trabalhar os textos caso a caso e procurar o traço narrativo que melhor caraterize cada
naufrágio. Passamos a enumerar os relatos, o que implica criar uma norma para ajudar à fixação
mnemónica evitando os nomes pessoais e a pequena descrição/resumo que pode em nada
ajudar, como veremos em exemplo, acrescentando por outro lado; uma referência, uma
pequena nota ou citação que ajude, essa sim, na distinção de cada naufrágio.

Ex:
1 - Relação da mui notável perda do galeão grande S. João, em que se contam os grandes
trabalhos e lastimosas coisas que aconteceram ao capitão Manuel de Sousa Sepúlveda e o
lamentável fim que ele e sua mulher e filhos e toda a mais gente houveram na Terra do Natal,
onde se perderam a 24 de Junho de 1552 …………………………………………………………………………..

1. GALEÃO GRANDE S. JOÃO


Naufrágio dos Sepúlveda
Índia - Lisboa
Junho de 1552, Terra do Natal.
- Anónimo.

2. NAU S. BENTO
Naufrágio da onda gigante.
Índia – Lisboa
1554, Cabo.
- Manuel de Mesquita Perestrelo

3. NAU CONCEIÇÃO
Naufrágio da água verde e dos pássaros
Lisboa – Índia
Agosto de 1557, baixos de Pêro dos Banhos
- Manuel Rangel - (incerto)

4. NAUS ÁGUIA ( ou Patifa) E GARÇA


Naufrágio do bugio
Índia - Lisboa
1559, Cabo das Correntes
- Anónimo

5. NAU SANTA MARIA DA BARCA


Naufrágio de espada na mão
Índia – Lisboa
1559, entre as ilhas Laquedivas e Madagáscar
- Anónimo, (homem de mar)
6. NAU S. PAULO
Naufrágio do rochedo grande
Lisboa – Índia
1560, Sumatra (Sunda)
- Henrique Dias

7. NAU SANTO ANTÓNIO


A nau Catarineta
Pernambuco – Lisboa
1565, Não naufragou, (“e todos ficavam admirados vendo seu destroço”)
- Bento Teixeira Pinto.

8. NAU SANTIAGO

Naufrágio do parto do batel


Lisboa – Índia
1585, Baixos da Judia
- Manuel Godinho Cardoso

9. NAU S. TOMÉ
Naufrágio das picas
Índia – Lisboa
1589, Terra dos Fumos
- Diogo do Couto

10. NAU S. ALBERTO


Naufrágio da ponte de mastro
Cochim – Lisboa
1593, penedo das fontes
- João Baptista Lavanha

11. NAU S. FRANCISCO


Passeio pelas Antilhas
Lisboa – Índia
1596, não naufragou
- Padre Gaspar Afonso.
Este relato afasta-se de tal forma do tema que não obstante a sua riqueza descritiva deveremos
ponderar a sua exclusão do projeto. Em compensação o relato seguinte divide-se em dois
sucessos de forte caráter dramático.
12. GALEÃO SANTIAGO
Batalha contra os holandeses
Índia – Lisboa
1602, Santa Helena - Fernão de Noronha
- Melchior Estácio do Amaral.

13. NAU CHAGAS


Batalha contra os ingleses
Índia – lisboa
1593, Açores
- Idem.

TRATAMENTO PROCESSUAL

O tratamento plástico da temática a que nos propomos dirigir, tal como o temos
perspetivado até aqui, tem envolvido em termos processuais duas técnicas principais, uma de
partida e outra de chegada. O sabão, técnica que temos vindo a desenvolver e que não tem tido
outra função que precisamente uma técnica de partida. O sabão, nasce da observação diária
desta matéria, por assim dizer utensílio do dia-a-dia que pela sua autonomia plástica foi-se
constituindo uma forma de representação alternativa, por vezes surpreendente e até
apaixonante se entendermos por isso aquele tipo de atividade estética que promove um total
alheamento do pensar consciente em sentido próprio. Apercebi-me desde a infância que o
sabão era um elemento que não sendo natural se exprimia, que nunca assumia uma forma
definitiva e no seu desvanecimento, morria em pequenos cadáveres inúteis. Se passava em
criança por um tanque onde as mulheres lavavam ou nas banheiras onde tomava banho era um
objeto que ora húmido no uso, ora seco e em repouso nunca me deixava indiferente na sua
efemeridade.
Apercebi-me das suas propriedades plásticas quando as minhas irmãs, mais velhas
trouxeram, um dia, do Corte Inglês uns sabonetes de fantasia de que ainda me recordo. Comecei
recentemente (enquanto fazia uma licenciatura em literatura lusófona) a desenvolver em
estúdio pequenas peças que não obrigando a muito tempo de trabalho se coadunavam com o
estudo.
Tudo consistia em aplicar camadas líquidas de sabão colorido e esperar que secassem
enquanto lia ou fazia outra coisa qualquer. De vez enquanto fazia uma intervenção ou mudava
de contentor (de um pequeno para um maior, sempre) até que comecei a usar gamelas que é
onde o trabalho se encontra. Do ponto de vista conceptual comecei a construir lugares de
passagem de uma viagem por mar num mundo de sabão. Ao fim de uns seis anos de trabalho
começo a poder controlar o processo com alguma segurança e de que aliás os trabalhos feitos
nesta Faculdade são já uma amostra. No entanto interessa-nos manter alguma dessa
imprevisibilidade que confere á peça essa autonomia de um lugar outro. Ainda não me
preocupei com o valor simbólico do material em si. Duvido da possibilidade de uma SOAP ART
auto validada. Encare-se por isso este trabalho no sabão como a tal técnica de partida, tão só
um lugar alternativo ao real mas talvez, também para formar com este um olhar estereoscópico
sobre um modelo específico, sei lá. Uma forma alternativa de mimésis, talvez.
Em todo o caso são trabalhos que pelo seu tempo próprio (mais dilatado) vão constituir-
se num projeto paralelo autónomo, de que daremos conta no final.
Existem a meio caminho entre as técnicas nomeadas de partida - cuja função primordial
é a de construir o olhar em consonância com o querer representacional e que no essencial
consiste em permanecer alerta e sensível às impressões – e as nomeadas técnicas de chegada –
de que falaremos adiante - as técnicas de recolha e registo onde, sinto, falho em toda a linha.
Seja porque não me concedo o tempo necessário aos desenhos preparatórios; porque talvez
não devesse fazer desenhos só a grafite ou caneta; porque não sou suficiente destro na aguarela
ou no pastel, o suficiente para criar imagens rapidamente; se devia experimentar outras técnicas
preparatórias ou de registo mais conducentes com o projeto. Estas questões merecem a maior
das atenções da nossa parte, e impõe-se soluções porque a técnica de chegada que elegemos,
a encáustica é extremamente volúvel e arriscamo-nos a ficar demasiado tempo no mesmo
quadro se não houver um ou mais trabalhos de fixação compositiva.
Entretanto e em diálogo com o professor de atelier delineamos a estratégia que melhor
parece suprimir este problema. Iremos proceder à maquetisação6 da cena de naufrágio
recorrendo a modelos de embarcações da época - o Rigor Arqueológico é neste ponto crucial –
e através de uma aturada análise textual procurar reproduzir os danos estruturais nos modelos.
Em plasticina, por exemplo, reproduzir em diorama as condições do mar o mais próximas
possível das referências textuais existentes, o que implica, desde logo, o recurso a esquissos
diretamente ligados ao texto. Os dioramas devem ser de forma a poder alterar facilmente os
diferentes elementos em jogo, construções na areia, também, mais um exemplo. Num segundo
momento fazer o registo da maquete, se o fizermos em desenho, aguarela, ou pastel isso já nos
coloca no plano do trabalho dito de chegada. O que iremos invariavelmente fazer é o número
necessário de registos fotográficos, ampliações e tratamento de imagem.
Nada neste processo é novo, os marinaristas de todos os tempos terão procedido de
forma semelhante. Géricault encomendou mesmo a um carpinteiro sobrevivente do próprio
naufrágio da Medusa a construção, no estúdio, de uma jangada semelhante à do evento para
acolher os modelos vivos.

A TÉCNICA DE CHEGADA

A encáustica.

A encáustica é uma técnica fabulosa e de possibilidades infinitas. Estamos no início do


que ameaça ser um infindável processo de aprendizagem colocando-nos os problemas a que já
fomos propondo soluções. A plasticidade e as características inerentes a uma matéria com a
volubilidade e a fluidez da cera tornam absolutamente crucial a aptidão para o saber parar no
processo pictórico. Quer isto dizer que ao contrário de outras técnicas o fazer pode constituir-
se circular e o tempo entrar no processo não como o tempo do fazer mas como o tempo da
representação, e.g, um barco pode ir de um lado ao outro da moldura do quadro, as nuvens

6
Pense-se no romance maior da literatura moderna portuguesa, FINISTERRA paisagem e povoamento
de Carlos Oliveira.
parecem movimentar-se a cada intervenção e cada intervenção pede imediatamente outra. O
material adquire por vezes na sua especificidade, texturas cromáticas próprias surpreendentes
de que importa apropriarmo-nos registando-as pois podem desaparecer no momento seguinte.
Cada solução adquire por isso um estatuto aparentemente provisório e experimental a que não
nos parece aconselhável sonegarmo-nos neste momento. Sentimos no entanto, e desde já, a
necessidade de forçar uma conclusão o que vai implicar escolhas que só podem nascer do
traquejo, e de um crescente conhecimento da prática, que não possuímos ainda. Daí que não
tenhamos ainda nenhum trabalho que possamos dizer concluído, pelo que o que existe não é
mais do que um work in progress a que esperamos, com orientação, dar forma final.
A recolha de elementos de envolvência do trabalho partiu da recolha de dados que
muito têm em comum com os da Paisagem em geral e com os das Marinas em particular.
Convém dar conta das matrizes processuais de recolha e de alguns resultados de ordem
iconográfica.
Dividimos as recolhas feitas e a fazer em Céu, Mar e Luz primeiro e referentes na história
da Arte e na iconografia em geral - sobretudo nos trabalhos ditos “menores” de homens do mar-
ao assunto geral das marinas e do naufrágio em particular. Interessa-nos fazer uma recolha
aturada das formas de representação dos elementos envolvidos, diferenciando-os e agrupando-
os. Faço aqui referência a um tipo de iconografia muito específica e a que ainda não demos
atenção mas que irá assumir a sua importância quando chegar a altura de representar certos
desastres. Nesses surge um elemento que pode ter uma função expressiva interessante e de
que é necessário obter dados: Tratam-se dos produtos transportados nas naus. São sobretudo
as manufaturas, panos, produzidas naquele tempo nas partes da Índia e de que os textos dão
profusamente conta, estando ligadas, como estão á própria condição do naufrago de que não
Nos devemos afastar. Pode-se ler no relato do naufrágio da nau S. Bento:

“de modo que em muito pouco espaço foi o mar todo coberto de infinitas riquezas, lançadas
as mais delas por seus próprios donos, de quem eram em aquele tempo tão aborrecidas como já
em outro tão amadas;”

Ou no relato da nau S.Maria da Barca:

“engenhámos de quatro zargunchos uma verga, e de um remo um mastro, e de uma colcha


branca de marca meã uma vela, com que fomos correndo aquela noite pelo caminho de su-
sudoeste e do sudoeste; (…),véspera de Ramos, engenhámos outra vela de colcha vermelha de
marca pequena;(…), e lançámos pela proa ao batel, pela banda de fora, um mantaz (tecido de
Cambraia) com um anixo forte, que sustivesse o batel que não fizesse tanta água”

O CÉU
Propostas para recolha iconográfica

O céu de noite;

Noite – Madrugada - Aurora – Manhã


Tarde – Anoitecer – Crepúsculo – Noite
Céu estrelado-

Céu com lua- fases da lua, subgrupo

Céu e chuva- chuva

Céu e nevoeiro- nevoeiro


Céu com fontes luminosas não astronómicas
Subgrupo

Céu com relâmpagos-

Céu com luz de lanterna, velas, fogo, etc

Iluminação arbitrária

O CÉU DE DIA

Taxonomia de Howard-Goethe

Céu limpo

Nuvens

Stratus
Cumulo – Stratus

Cumulus

Cirro – Cumulus

Cirrus

Cirrus – Stratus

Nimbus

Paries

A POSIÇÃO DO SOL
Dependente da latitude e data ou não, (mesmo que posicionada de forma arbitrária a fonte
de luz deve ser fixada num plano horizontal por relação à embarcação; em maquete ou
desenho).

CONDIÇÕES DO MAR
Para o estado do mar utilizaremos a escala Douglas.

Designação Altura das ondas em metros

estanhado 0

chão 0-0,5

encrespado 0,5-1

pequena vaga 1-2

cavado 2-3

grosso 3-4

alteroso 4-6

tempestuoso 6-9

encapelado 9-14

excepcional > 14
Para o vento usaremos a escala de Beaufort . A esta escala associa-se os efeitos visíveis do vento
em terra: nas árvores a que se pode fazer corresponder os efeitos em objetos no mar.
No entanto não possuímos, ainda, essa tabela de relações. Abstemo-nos, por isso, de enumerar
as designações já que por exemplo, Tempestuoso entre 75 e 88 Km/h nada nos diz em termos
de figuração.

Esperámos ter dado conta do pé em que está o nosso trabalho e dos nossos propósitos para a
sua cabal persecução.

Paulo J. C. Trindade Soares

BIBLIOGRAFIA

As Idades do Mar (2012). Fundação Calouste Gulbenkian (catálogo).


CASTRO E SILVA, Rogério de (1976). Arte Naval Moderna. Editorial de Marinha (edição de autor).
GOETHE, Johann Wolfgang (2003). O Jogo das Nuvens. Lisboa: Assírio & Alvim.
GOMES DE BRITO, Bernardo (Ed.) (s-d). História Trágico-Marítima. vol. I e II. Lisboa: Europa-
América.
LANCIANI, Giulia (1997). Sucessos e Naufrágios. Das Naus Portuguesas. Lisboa: Editorial
Caminho.
OLIVEIRA, Carlos de (2003). Finisterra. Paisagem e Povoamento. Lisboa: Assírio & Alvim.