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MARCOS WELL

EU REALIZO...

O HÓSPEDE INDESEJADO

parte i
WELL, Marcos, 1993 –

O Hóspede Indesejado – Eu realizo... / Marcos


Well – Feira de Santana: Publicação independente.

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O HÓSPEDE INDESEJADO

Não sei muito bem o que quero dizer, mas


preciso falar. A gente tem mania de achar que o
nosso itinerário pessoal renderia um bom livro. E,
realmente é muito sensato acreditar e valorizar as
nossas vivências. Mas nem sempre o que
vivenciamos em particular, é algo que as pessoas
gostariam de saber. Em partes porque existem
coisas em comum que não enchem os olhos dos
outros, em partes porque cada um já viveu algo
excepcional que julga mais interessante do que o
quê o outro tem para contar. Atitudes humanas que
são parte da nossa personalidade. E eu não ligo! O
que eu mais quero é escrever em letras garrafais um
FODA-SE bem grande para esse tipo de
pensamento, e contar o que eu quero contar sem me
ater ao que as pessoas acham que eu deveria dizer.
Isso soa confessional, e novamente eu queria dizer
que não me importo, porque toda a minha história é
uma confissão de coisas que fiz ou deixei de fazer,
coisas que amei fazer e outras pelas quais eu odiei
ter passado.
Venhamos e convenhamos que isso aqui já
se tornou uma grande baboseira, e quando se chega
a este ponto da história e nada de interessante
acontece, é comum deixarmos o livro de lado e
procurar algo mais interessante a fazer. Fique à
vontade, se é isto que te ocorre agora, mas garanto
que vai perder toda a diversão do que vem a seguir.
Eu decidi escrever isto em um ímpeto, então
não tenho muita certeza de onde quero chegar, sei
que apenas vou. E é assim com a vida, a gente vive
cheio de incertezas, acreditando que está traçando
um caminho que vai nos levar a determinado lugar,
que é nosso objetivo, e súbito nos deparamos com
adversidades que nos fazem mudar a nossa rota. E
assim vamos incertos de onde chegaremos, com
uma única certeza, extremamente clichê de ser dita,
mas a nossa única verdade sagrada, o que nos
aguarda no final é o túmulo.
Mas chega de todo esse papo, apesar de que
tenho tanto a falar que meus dedos chegam a se
perder entre as teclas do computador,
descontrolados num impulso soturno de querer
dizer mais do que eu deveria, pelo menos agora. É
que todo livro tem uma forma correta de começar, e
eu não tenho certeza de que comecei este aqui
certo. Não elaborei roteiros, não tracei um plano ou
fiz um outline, simplesmente recordei. E é isso, que
ao meu ver, vai tornar essa experiência especial
para mim, porque eu vou apenas recordar. Há tanto
sobre a minha vida para compartilhar, coisas ao
meu respeito que sempre quis dizer, mas que
sempre guardei para mim, porque as pessoas
sempre esperavam de mim uma postura diferente
da que eu tive em vida. Sempre nos cobram
postura, se somos um padeiro, nos cobram postura
de padeiro, se somos um artista sempre nos cobram
postura de artista, se somos um político, sempre
nos cobram a postura de um político. Tudo isso não
passa de uma grande mentira, somos o que somos,
e esse negócio de que precisamos agir de acordo
com a posição que temos em sociedade é só uma
forma de nos aprisionar. Estamos sempre dentro de
uma gaiola. E ela nos parece tão absurdamente
entremeada em nosso interior, que nem percebemos
que ela existe e fazemos tudo aquilo que a
sociedade ou sei lá que caralhada, obriga a gente a
fazer.
Eu já desisti de tudo isso, não tenho mais
idade para me adequar a convenções sociais. Senso
comum para mim é fichinha. Vou vivendo da
minha maneira e quem quiser que se exploda mais
lá adiante. Não é questão de que se eu pago as
minhas contas eu tenho o direito de fazer o que eu
quiser, é questão de que eu faço o que quiser na
hora que eu quiser, porque liberdade é um direito
primordial, e até deus reconheceu isso quando nos
deu o livre-arbítrio.
Por falar nisso, essa é uma ótima deixa para
que eu vá ao que realmente importa, a minha
história. E tudo começa na igreja, quando eu tinha
meus dezesseis para dezessete anos. Fui criado,
assim como todos os meus irmãos e primos, na
presença do senhor, aos olhos do pai. O que não
nos impediu de dar escapadinhas mais adiante em
aventuras para lá de quentes, e que é assunto para
ser tratado mais à frente.
Voltando ao que importa, se você fosse meu
amigo e quisesse me encontrar aos domingos, às
nove da manhã, você poderia ir até a Primeira
Igreja Batista Central, que óbvio ficava no centro
da cidade, pois eu estaria participando de uma
escolinha dominical para jovens. Meio dia, eu
almoçava em casa, e raras eram as vezes que o
Pastor Paulo e sua excelentíssima e vadia esposa,
Jandira - isso eu conto depois – não almoçavam
com a minha família. Que era composta por mim,
dois irmãos mais novos, Felipe e Camilo, minha
mãe, Dona Clarice e meu pai, Milton. À noite, eu
novamente voltava para igreja, porque o culto de
domingo é o mais importante, em relação a todos
os outros que aconteciam durante a semana,
geralmente na quarta e na sexta-feira.
A minha história, na verdade os fatos que
quero narrar, começam a ganhar forma num desses
almoços em que o pastor, fervoroso e corno – não
consegui me conter, mas como quero que vocês
leiam isso até o final, conto tudo nos mínimos
detalhes, lá pelos últimos capítulos deste livro – foi
almoçar com a sua digníssima esposa em minha
humilde residência. E pensando bem, eu poderia ter
excluído esses dois adjetivos anteriores aos
substantivos usados na frase, mas eu gosto muito
de enfeitar as palavras e espero que vocês não
tenham nenhum problema com isso.
No dia deste fatídico almoço, meu pai se
sentou na cadeira de canto da mesa, em frente ao
pastor que se sentou ao seu lado oposto. Ao lado
esquerdo do meu pai, sentou-se a minha mãe e do
seu lado, meu irmão mais novo. Ao lado esquerdo
do pastor, sentou-se à sua esposa, e ao seu lado, eu.
Meu outro irmão, que ficou sem cadeira, graças ao
excesso de pessoas em nossa sala de estar, sentou-
se em um banco próximo a mim e teria que se virar,
segurando o prato, enquanto almoçava.
Almoços de domingo são quase sempre a
mesma coisa na casa de todos os que eu conheço,
pelos menos os que faziam parte da mesma classe
social que eu. Um frango assado, lasanha, uma
salada de maioneses e às vezes, panquecas. Neste
dia, na minha casa havia tudo isso, além de uma
coca de dois litros e meio, que remetia a aquele
ambiente uma roupagem familiar de comerciais de
televisão.
— A lasanha está boa, pastor? — inquiriu a
minha mãe, preocupada com a qualidade da sua
comida.
O homem robusto com olhar grave e um
bigode bem desenhado sobre os lábios finos,
respondeu-a.
— Você nunca erra a mão Clarice. Sua
lasanha está deliciosa como sempre.
— Não é porquê é minha mulher, mas as
melhores comidas que comi em minha vida, foram
feitas por ela — interviu meu pai.
— Parem, assim vocês me deixam
encabulada.
— Não é por nada não, Clarice, mas o
Milton e o meu marido estão certos — disse a
megera da Jandira — Seus pratos são maravilhosos
e eu sempre passo bem quando venho lhe visitar.
A conversa sobre os dons culinários da
minha mãe durou por mais alguns minutos, e eu
observei toda aquela rasgação de seda com nojo e
desprezo. Até porque, já naquele tempo eu sabia
que a humanidade não valia o prato que come, e
que as pessoas só elogiam outras quando precisam
delas, e aquilo lhes convém diante da realização de
alguma necessidade sua.
Acontece que a conversa foi justamente
ganhando uma forma que eu, não tão inocente
quanto aparentava ser, já sabia que ela tomaria, e
um pedido foi feito.
— Irmão Milton, como você sabe, terá um
evento de louvores na próxima semana na nossa
igreja. E receberemos alguns irmãos que virão de
outras cidades para prestigiar nosso culto — antes
de continuar, o pastor deu uma garfada no segundo
pedaço de lasanha que havia sido posto no seu
prato, mastigou-o rapidamente e voltou a falar —
Junto com esse pessoal, virá o pastor Antônio de
Alagoinhas, e seu filho, José Henrique. Eu sei que
vocês dois, você e sua mulher, fazem muito pela
nossa igreja, e fico até sem jeito de pedir algo...
— Que é isso pastor? Somos muito gratos
em lhe sermos úteis — interrompeu a minha mãe.
O homem sorriu, demonstrando no gesto a
sua perspicácia em persuadir os meus pais a fazer o
que ele sempre quisesse.
— A verdade é que os meus pais, uma tia e
um primo meu, virão para este evento. Nossa casa
vai estar cheia — completou a Jandira.
— E nós... — o homem pausou —
queríamos pedir a vocês, que se puderem. Mas só
se puderem. Para oferecer um quarto ao pastor e o
seu filho, para que possam dormir durante os dias
em que ficarão aqui.
Atento, eu e meus irmãos observamos toda
a conversa e nos entreolhamos, premeditando quem
de nós três teríamos que ceder o quarto para que
aqueles dois desconhecidos fossem hospedados em
nossa casa.
— Mas o que é isso, meu pastor? Não
precisa de toda essa cerimônia para nos pedir algo
— interviu meu pai — Ficaremos felizes em
hospedar o pastor Antônio.
— Os meninos não se importarão de ceder
um dos quartos para que eles possam dormir por
estes dias — concluiu minha mãe, sem saber que
por dentro, tanto eu, e creio que meus irmãos
espumavam de ódio por saber que teríamos que
mudar os nossos comportamentos por conta de
intrusos.
— Eu sou muito grato por ter pessoas como
vocês em nossa igreja — falou o pastor. Naquele
momento eu só conseguia pensar em toda a paz que
eu tinha em minha casa, que iria por água abaixo
graças ao seu pedido. Mas no fim das contas, ele
bem teve o que mereceu.
E venhamos e convenhamos, ninguém gosta
de visitas, principalmente de desconhecidos.
Parentes a gente até releva, mesmo não tendo a
obrigação. Mas desconhecidos? Primeiro porque
todo mundo faz coisas em casa que não faz em
público. Apesar de estarmos dentro de quatro
paredes, é nessa prisão que somos livres. Casa é
fortaleza, recanto para descansar o peso do que a
gente tem que ser em sociedade e que anula de nós
quem realmente somos.
Nem eu, nem meus irmãos nos sentimos
confortáveis com o pedido do pastor e passamos o
resto do dia em pé de guerra ente gritos e dedos
apontados no rosto, decidindo quem cederia o seu
quarto para os hóspedes indesejáveis.
Minha mãe, que deus a tenha, sempre foi
muito bondosa com os outros e mesmo não
gostando muito de fazer determinadas coisas, ela
sempre cedia para agradar o outro. Hoje em dia a
gente sabe que isso é questão de padrões que
repetimos e que vem lá da nossa infância, crenças
que são injetadas na nossa mente, em razão de
nossas vivências e que criam comportamentos que
nos limitam. E dona Clarice, teve uma infância
muito sofrida. Isso porque a sua mãe, era velha
parideira, ela dizia. Teve mais de dez filhos e
distribuía eles por aí. No entanto, vovó, não perdia
a oportunidade de ir à igreja aos domingos pedir
perdão pelos seus erros e chorar nos pés de Cristo
pelo que havia feito em vida. Como se adiantasse
alguma coisa.
Eu acredito que o que a gente faz em vida,
paga em vida. Sem essa de carma ou vidas
passadas, carma para mim é a consequência
acarretada pelas nossas atitudes diante das
circunstâncias e ponto. Não vou ser hipócrita, já
sendo, dizendo que sempre plantamos o bem, mas
geralmente existem tentativas, algumas dão certo,
outras são falhas, mas é isso aí, a gente vai
tentando.
Agora chega desse papo de crenças
limitantes e estudos comportamentais, essa minha
veia em psicologia acaba comigo. Devia ter
exercido com maior zelo a minha profissão, mas
me encontrei em área melhor e fui adiante vivendo
cada dia como se fosse o último.
Enfim, o dia do evento na igreja chegou.
Sexta-feira, e o pastor Antônio com seu filhote,
iriam chegar às sete horas e se hospedariam em
nossa humilde residência. Meu pai e um dos meus
irmãos ficaram incumbidos de buscá-los na
rodoviária, e eu, por puro azar e depois de muita
guerra, cederia o meu quarto e a minha cama, para
os dois. Mesmo com todos os meus argumentos e
tentativas de passar essa, que era a pior de todas as
responsabilidades, para os meus irmãos, falhei e
tive que me mudar para o quarto de um deles para
dormir em um finíssimo colchonete, no chão.
Como fora combinado, meu pai fora buscar
os hóspedes, e as sete e meia eles chegaram a nossa
casa. Minha mãe, como sempre, fez um alarde na
recepção. Ela tinha um jeito todo dela de receber as
pessoas. E eu admirava a forma como ela agia com
as pessoas. Hoje me espelho muito em seus modos
para lidar com os humanos, mas sem ter tanto êxito
em ser bondoso.
— É um prazer ter vocês dois aqui com a
gente! —exclamou mamãe, e eu imaginei um riso
do lado a outro do seu rosto.
— Eu agradeço de antemão pela
hospedagem. Muito obrigado — agradeceu
Antônio.
Quando ele chegou eu estava no banheiro, e
a sua voz grave veio até mim como um trovão.
Geralmente todo pastor tem um ar de locutor. Só
conheci um, certa vez, que tinha uma voz tão doce,
aveludada, maviosa, que eu ficaria escutando um
sermão dele por horas e horas sem reclamar. Mas a
voz de Antônio era rude, grave, amedrontadora. Ao
terminar o que eu fazia no banheiro, e não cabe
aqui contar, eu esperei mais alguns minutos,
ouvindo a conversa que eles travavam do outro
lado da porta, esperando até que saíssem dali para
que eu pudesse ir cumprimentá-lo.
— Pois venha pastor, venha colocar as suas
coisas no quarto e se organizar...
— Eu espero não estar incomodando a
família de vocês com a minha presença...
— De maneira alguma — interviu meu pai
— mas que é isso. Vocês são muito bem-vindos, e
espero que gostem da estadia.
Achei toda aquela recepção calorosa uma
palhaçada, primeiro porque sabia que meus pais
aceitaram receber aqueles dois em nossa casa a
contragosto, só para mostrarem o quanto eram
bondosos ao restante do pessoal da igreja. Segundo,
que a primeira coisa que a minha mãe disse, no dia
que o pedido do pastor chegou até ela foi, filho da
puta, a gente já tem tanto trabalho com aquela
igreja, agora mais essa, onde já se viu.
E nesse ponto, eu quero corrigir algo que
disse sobre a minha mãe, pois ela era bondosa, no
entanto, não era burra nem besta.
Os hóspedes e meus pais não se demoraram
mais onde estavam, e ouvi seus passos em direção a
outro cômodo, provavelmente o meu quarto.
Aproveitei a deixa, e saí de dentro do banheiro num
ímpeto. Eu não estava muito afim de participar de
toda aquela cerimônia, mas ao escancarar a porta,
encontrei uma figura parada a alguns passos de
mim, que não me era familiar.
Observei-o de cima a baixo, em pânico, é
certo. Mas tomei conta de cada uma das partes do
seu corpo, como se intentasse reconhece-lo.
Fitamo-nos durante segundos seguidos, até que ele
quebrou o silêncio com um
— Olá!
A sua voz era graciosa e juvenil, e
combinava com o conjunto do seu rosto que tinha
um ar até mesmo angelical. Era um homem negro,
pouco mais velho que eu. Supus que deveria ter os
seus dezoito anos. Tinha olhos extremamente
verdes, que contrastavam com a tonalidade da sua
pele, uma boca que se encaixava perfeitamente
entre o nariz e o queixo, e o cabelo em um corte
militar.
— Oi! —respondi em contrapartida,
constrangido pela abordagem daquela figura.
— Eu sou o Henrique, mas pode me chamar
de Rique — ele andou em minha direção e ergueu a
sua mãe para mim.
Eu olhei-o desconfiado, mas aceitei tocá-lo.
Trocamos um aperto de mão furtivo e nos
afastamos.
— Você é o filho do pastor, certo? —
inquiri recobrando a minha sociabilidade, tentando
não transparecer o meu desconforto em relação à
visita.
— Sim, sou eu. Ele foi colocar as coisas no
quarto, junto com seus pais... Eu espero que nós
não sejamos um incômodo para vocês esse final de
semana.
— Não se preocupe, não há incômodo
nenhum — sem muita cerimônia como a minha
mãe, falei apenas o necessário.
— Vejo que vocês já se conheceram —
disse minha mãe ao chegar na sala. Voltei-me em
sua direção e fitei meus olhos nos seus, que me
ofereciam uma expressão que não soube decifrar.
No entanto, parecia me alertar de que havia algo de
errado.
— Sim! — respondeu Rique com um
sorriso nos lábios — Meu pai já está acomodado?
— Sim, sim — respondeu a minha mãe —
Você quer vê-lo?
O rapaz assentiu com a cabeça e deu alguns
passos na direção da minha mãe.
— Vamos, é por aqui — disse dona Clarice
levando o rapaz até o meu quarto. Eu não os
acompanhei, fiquei parado onde estava, tentando
assimilar a beleza daquele rapaz e o olhar
inquisidor da minha mãe.
Neste momento, eu poderia levantar
milhares de questões sobre mim e a minha
sexualidade, mas isso já era história velha,
pensamentos e sentimentos que eu escondia da
minha família e pelo fato de fazer parte de uma
igreja, aquilo não tinha espaço em minha vida. O
que não quer dizer que eu não dava vazão aos meus
desejos. Claro, existiam meios comuns de aplacar a
minha fome de homem, sem precisar tocá-los ou tê-
los. Aos dezessete eu ainda era virgem, quer dizer,
o fui até aquele fim de semana. Depois disso,
enveredei por caminhos tortuosos que nunca mais
me permitiram esconder sobre a minha carapaça
endurecida, quem eu realmente era. E não me
arrependo. Sinto-me completo, feliz e inteiro.
Mas, voltando aquela época. Eu vivia no
armário, escondia os meus desejos, mas vez ou
outra com a ajuda de uma mão amiga, deixava o
meu tesão escorrer para fora do meu corpo. E não
pretendo me demorar nesse tipo de ladainha,
primeiro que a gente já tá cansado de saber que
muita gente não é quem gostaria de ser, por conta
de padrões impostos em sociedade. Segundo,
ninguém escolhe de quem gosta, porque gosta e
como gosta. Essas questões nem mesmo a
psicologia explica com propriedade. Terceiro, é
cansativo demais falar sobre todo o processo de dor
e cura que envolve a aceitação de si mesmo. É
sofrível, é tenso, mas a gente sempre acaba se
encontrando. Claro, que uma ajuda, um apoio,
alguém que nos guie, é muito mais saudável e
interessante do que passar por tudo sozinho. Mas
no final a gente não morre só? FODA-SE! Quarto e
último ponto, porque isso aqui já se tornou um
panavuê, quero falar de coisas alegres e da parte
divertida de tudo isso. E é aquela coisa, quem tem
ouvido ouve, quem não tem ou não quer ouvir, que
vá para o raio que o parta.
Quando Rique e minha mãe foram ao
encontro do pastor, eu não os segui de imediato.
Continuei na sala, olhando na mesma direção e só
depois de alguns segundos como que em transe,
resolvi ir conhecer o tal pastor, afinal ele estava no
meu quarto. Guiei-me a passos largos, e logo
alcancei o cômodo no qual estavam os hóspedes e
parte da minha família. Ao chegar na porta,
deparei-me com o ambiente que estava acostumado
a ver todos os dias, com algumas poucas
modificações para abrigar duas pessoas.
— Ah, você deve ser o Jevons, estou
errado? —antes que eu pudesse esboçar qualquer
saudação, a voz do homem que eu ainda não
conhecia a fisionomia, alcançou-me os ouvidos e
fez-me observá-lo desconcertado.
Não tive reações para expressar no
momento, apenas segui a maré e dei passos para
dentro do quarto. Os olhos fitos no pastor mediram
toda a sua fisionomia, fixando em pontos
específicos do seu rosto, para constatar a sua
aparente e extravagante beleza. Era um homem
corpulento, nem muito gordo, nem muito magro.
Acho que a palavra certa é parrudo. Tinha cabelos
lisos e loiros, e olhos verdes e inquisidores. Os
lábios eram finos e cobertos por uma espessa barba,
pareciam nem existir. Eles só ganhavam destaque
por conta da sua voz, que soava como um trovão.
— Pastor, esse é o meu mais velho —
informou-lhe minha mãe. Ela se aproximou de mim
e colocou as duas mãos, cada uma em um dos lados
dos meus ombros.
Desconfortável, não sabia muito bem
porque motivo, não naquele momento, fitei a minha
mãe e encontrei o seu olhar aflito, como se me
exigisse e me implorasse pelo amor de deus que eu
fosse educado. Enfim, tive coragem de abrir a boca
e esboçar algumas palavras.
—Jevons é um nome diferente — exclamou
Rique sentado aos pés da minha cama. Foi assim,
que de forma bem peculiar e preconceituosa,
confesso, que notei a diferença no tom de pele do
pai e do filho. Um era loiro e o outro era negro, se
bem que, ambos tinham os olhos da mesma cor.
Mas a primeira impressão é de que não eram do
mesmo sangue. E realmente não eram. Vim a saber
depois, em uma conversa particular com Rique,
onde ele me contou toda a verdade. Não a verdade
que eles contavam para as outras pessoas, mas o
que estava oculto, guardado debaixo de sete
chaves, um tenebroso segredo.
Eu, com o meu olhar preconceituoso da
época fiz juízo de valor de toda a situação,
engolindo um pouco de saliva, como se engolisse
veneno e me calei. É que todos nós nascemos e
somos criados para sermos filhos da puta,
preconceituosos e racistas. A gente tenta se livrar
de tudo isso em nossa caminhada, no dia-a-dia,
principalmente quando a gente se percebe assim,
filho da puta mesmo. Tem outro nome para lidar
com pessoas preconceituosas? É trabalho diário se
livrar de tudo que é imposto a gente quando
chegamos ao mundo, pela sociedade machista,
branca, patriarcal. Meu deus, é muita merda e lixo
que empurram para debaixo do tapete do nosso
subconsciente, e a gente vai seguindo,
reproduzindo o senso comum e sendo estúpido.
Mas eu tenho o intuito de tocar fogo no senso
comum, eu quero é que a branquitude e o
machismo se explodam.
— Realmente! —exclamou o pastor
Antônio.
Minha mãe sorriu e novamente me olhou
com contentamento.
— De onde veio a inspiração para um nome
como esses? —indagou Rique.
— Bem, eu lia muito quando jovem —
começou a minha mãe — e lembro de ter visto esse
nome em algum livro. Sempre falei para mim
mesma que quando tivesse um filho colocaria esse
nome, Jevons. E meu primogênito foi o sortudo.
Observei a minha mãe enquanto ela falava e
quando voltei o olhar para Rique, percebi que ele
me olhava de forma inquisidora. Não era um olhar
inocente, e eu não tinha muita certeza do que ele
realmente queria dizer, achei estranho, mas não me
deixei influenciar por ele.
— Nunca tinha visto nome parecido —
disse Rique com os olhos fitos em mim.
Antônio olhou-o e sorriu.
— Mas é um nome bonito — disse o pastor
voltando o olhar para mim.
— Obrigado — agradeci.
Todos nos silenciamos por alguns minutos,
mas não demorou muito e ouvimos o barulho de
uma voz familiar.
— Oi de casa, oi de fora. Tô entrando! —
exclamou a voz.
Não demorou muito e em alguns minutos
haviam dois pastores dentro do meu quarto. Ambos
se cumprimentaram, se abraçaram, falaram sobre
trivialidades. E eu e minha família observamos
atentamente.
— Eu vou fazer um café fresquinho pra
gente tomar — disse minha mãe, que voltou o olhar
pra mim logo em seguida e complementou — e
você, vai à padaria buscar um pãozinho quentinho,
que esse é o horário ideal.
Não, não era o horário ideal, provavelmente
a padaria já estava fechando, mas eu não podia
reivindicar o pedido, me preparei para ir.
— Eu vou com você — ouvi a frase
surpreso, pois ela vinha de Rique. Olhei-o sem
demonstrar o meu espanto e com um gesto de
cabeça, sinalizei que tudo certo, pode vir comigo,
apesar de preferir ir sozinho.
Caminhar lado a lado com Rique, foi algo
muito estranho. Em partes porque não tínhamos
assuntos sobre os quais conversar, em partes
porque a sua beleza me desconcertava, coisa que eu
só vim admitir para mim, muito tempo depois,
quando lembrando dele, eu tive um momento a sós
comigo e vislumbrei o seu corpo colado ao meu.
— Você é o único da família com nome
estranho — Rique quebrou o silêncio que nos
envolvia enquanto íamos para a padaria.
— Então, como disse a minha mãe, eu fui o
sortudo.
Ambos sorrimos e continuamos a caminhar
em silêncio.
— Mas não é um nome feio — ele encerrou
a frase colocando-se num silêncio súbito por alguns
segundos e apertou os olhos, trazendo a sua face
um semblante analítico, e então voltou a falar —
exótico, mas não feio.
Eu sorri, mas não tive palavras para
responder-lhe. A minha sorte grande era que a
padaria não ficava muito longe da minha casa. Ao
chegar ao estabelecimento, que já estava fechando,
como eu previra. Pedi aquilo a que fui incumbido
buscar, paguei e voltamos pelo mesmo caminho,
para casa.
A volta foi mais rápida do que a ida.
Conversamos sobre coisas triviais que não tinham
relação com a origem do meu nome e foi nesse
momento em que fiquei a par da verdade que Rique
e o pastor contavam para todos, não a que era
segredo, essa eu só vim a descobrir depois. Mas a
que era aceitável aos olhos dos irmãos em Cristo.
— Meu pai me adotou quando eu tinha
dezesseis. Vivi todo esse período da minha vida em
um orfanato. E eu nunca pensei que na idade que
eu tinha, alguém me tiraria daquele lugar — ele deu
uma pausa, demonstrando certa dificuldade em
continuar com aquele assunto — Mas aí ele
apareceu, e eu fiquei tão feliz e o amo tanto por
tudo o que faz por mim. Deus sabe de todas as
coisas, e todos os seus planos são perfeitos. Se hoje
estou aqui, devo tudo a ele, pois até o meu pai, é
instrumento seu.
Eu ouvi toda a sua história atentamente, e
naquele momento senti que ela servia para explicar
uma série de questionamentos que fiz a mim
mesmo quando vi os dois. No entanto, algo em
mim gritava por uma verdade mais profunda. Sexto
sentido, com certeza. Desde sempre eu o tive muito
aflorado, e já perdi muito por não confiar nele. A
gente sempre tem alguma coisa lá dentro do nosso
âmago que grita verdades que precisamos ouvir,
mas ignoramos. É como no décimo primeiro
trabalho de Hércules, quando ele vai atrás das
maçãs de ouro das Hésperides. O seu mestre fala-
lhe o tempo inteiro o que ele precisa ouvir, mas ele
ignora, porque não acredita em si mesmo e acaba se
metendo nas maiores enrascadas, até que começa a
perceber que as respostas para o que tanto procura
estão à sua frente.
Chegamos em casa. Entramos em silêncio e
nos deparamos com vozes álacres vindas da
cozinha. Fomos diretamente para o cômodo e
encontramos os dois pastores e minha família em
volta da mesa, conversando sobre passagens
efêmeras. Fomos recebidos pelos olhares de todos,
mas o olhar de Antônio direcionado a Rique foi
extremamente desconcertante. Acho que as outras
pessoas do cômodo não se deram conta daquilo, ou
eu não sei se fui eu mesmo que imaginei todo o
clima no ambiente. Mas, eu sentia algo errado.
Mais tarde vim a dar outro nome para aquele tipo
de intuição, é muito cômico pensar sobre isso,
contudo, prefiro manter a palavra em segredo ou
então estrago o grande mistério do que estou
tentando desenvolver agora. Posso ser um
marinheiro de primeira viagem, mas se tem uma
coisa de que tenho plena consciência é de que
preciso manter o leitor com os olhos pregados
naquilo que escrevo.
Voltemos para a cena na cozinha e para a
fala do pastor sobre como a sua mulher era
atenciosa com os parentes dela que haviam
chegado na sua casa, e como achava bonita a
relação dela com o primo, pois pareciam até
irmãos. Tolices de quem não queria enxergar um
palmo a frente do seu nariz, pois haviam situações
nítidas que poderiam evitar grandes escândalos. E
olha, aquele final de semana foi um daqueles. Perdi
minha virgindade, desvendei segredos ocultos e o
pobre do pastor... Bem, isso eu conto mais adiante.
Eu queria poder dizer que tudo está conectado, mas
um acontecimento não tem muito a ver com o
outro. Aliás, tem sim. Tudo aconteceu graças ao
evento da igreja. Então, tudo está conectado. Deus
realmente sabe o que faz, e age certo por linhas
terrivelmente tortas. É um absurdo, mas é real. A
vida é um absurdo, mas é real. Não são poucas as
vezes que nos impressionamos com seu jogo de
engodos, entrementes, tudo bem. É tudo incerto
mesmo, e eu já falei sobre isso, mas a nossa
vocação é morrer. Não tenho certeza se essa frase é
minha ou de alguém que admiro.
Agora, eu vou adiantar um pouco o relógio
do tempo, para o dia do evento na igreja. Na
verdade, o dia seguinte a chegada do pastor
Antônio e de Rique a minha casa. Não que os
acontecimentos que se seguiram durante o dia não
fossem importantes para mim, mas é que na
verdade, nem tive muito contato com eles dois pela
manhã e tarde. Eles foram conhecer a cidade junto
com o pastor, enquanto minha mãe preparava o
almoço e meu pai exercia a sua profissão. Ao meio
dia eles almoçaram conosco e a tarde, foram para a
igreja ver a quantas andava a organização do
evento. Recebi de Rique o convite de acompanhá-
lo, mas preferi permanecer em minha casa e
aproveitar a minha rotina, enquanto não precisava
me vestir com uma máscara de bom garoto, para
passar por um bom anfitrião.
As seis da tarde, Antônio e Rique voltaram
para casa. Dona Clarice, havia ido junto com meu
pai para a igreja dar conta dos pormenores, as
coisas que faltavam e que precisavam ser ajeitadas
às pressas. Felipe, meu irmão do meio também foi
com eles, e eu fiquei em casa sozinho com o mais
novo, que tomava banho no momento em que os
hóspedes chegaram.
— Demoramos, mas voltamos — falou
Antônio enquanto cruzava a sala, indo na direção
do meu quarto.
Sorri e continuei a assistir o programa que
era exibido na televisão.
— Andamos por toda a cidade, visitamos a
casa de vários irmãos e por fim fomos a igreja ver
como andava a arrumação — Rique sentou-se ao
meu lado enquanto dizia as palavras. Seus olhos
cruzaram com os meus, e ele carregava um sorriso
estonteante no rosto.
— Gostaram do que viram? — indaguei. De
certa forma, apesar de toda a estranheza, eu me
sentia à vontade com ele.
Ele balançou a cabeça insinuando um meio
termo e eu sorri.
— A verdade é que não tem muita coisa
aqui para ser vista — retruquei.
— Olha que tem, mas não nos lugares onde
fomos — ao fim da frase Rique cravou seu olhar
em mim, e aquilo me causou desconforto. Eu não
sabia se havia entendido mal, ou se no sentido
literal aquela frase se referia a mim. No entanto, eu
queimei por dentro.
Antônio voltou do meu quarto e agora,
munido de uma toalha e uma nécessaire parou a
nossa frente.
— Encontramos seus pais quando
voltávamos, eles já estavam indo para a igreja
organizar o que faltava com os irmãos.
— Ah sim — intervi — Meu pai toca e
minha mãe canta, eles foram ensaiar antes do culto
começar.
Nós três nos olhamos, eu Antônio e Rique.
Eu passei com o meu olhar pela face de cada um
deles, e um arrepio perpassou a minha espinha. Eu
estava quente. Naquele momento, imaginei tanta
coisa, aquela toalha, nós três sozinhos ali... O que
poderia nos acontecer? Até que o barulho de uma
porta se abriu e logo, após alguns passos, meu
irmão mais novo se aproximou de nós. O cabelo
completamente molhado, a toalha em volta do
pescoço e um sorriso cordial no rosto.
— Banheiro está livre? — Antônio indagou
a meu irmão que afirmou com um gesto de cabeça
— Ótimo, eu vou adiantar. Rique, depois é você,
certo? Temos que ir logo pra a igreja.
Rique consentiu com um aceno e se
levantou da poltrona, indo na direção do meu
quarto. O pastor Antônio foi para o banheiro e meu
irmão permaneceu parado a minha frente me
encarando.
— Você não vai? — indagou.
— Claro que vou! Depois que eles se
arrumarem eu tomo meu banho, a mãe pediu para
que eu servisse o café para eles. Mas você já pode
ir, se quiser.
— Certo, eu vou me arrumar — concluiu e
correu na direção do seu quarto. Não demorou mais
que cinco minutos e ele já estava pronto, parado a
minha frente, dizendo que já estava indo. Eu não
retruquei, falei que tudo bem e voltei a assistir.
Alguns minutos se passaram e logo ouvi o
barulho de uma porta se abrindo, alguns passos se
seguiram e o pastor Antônio passou por mim,
apenas com a toalha enrolada na cintura. Foi uma
passagem rápida, apressada, mas os meus olhos
atentos não deixaram nenhum detalhe passar
despercebido por mim.
Fixei o olhar em seu tórax, e admirei o seu
peitoral farto coberto por uma penugem lisa e
baixa, que descia em direção ao seu umbigo e
continuava o caminho até onde o meu instinto
gostaria de se demorar por horas. Dei conta dos
dois riscos que formavam um v, nos lados opostos
da sua virilha, e pude divisar até mesmo uma marca
saliente na sua toalha. Ele me olhou, sorriu e
piscou. Um gesto inocente e no máximo divertido,
mas eu não levei dessa forma. Neste interim, eu
estava quente. E é assim quando a gente está na
fase em que os hormônios afloram como loucos em
nosso corpo. Fiquei excitado com o simples fato de
vê-lo de toalha ali. Logo, fui acusado pelo meu
superego de estar fazendo algo que não condizia
com o que fui criado a fazer. Mas, foda-se, naquele
momento o meu instinto me gritava perversidades
ao ouvido, palavras obscenas e cenas eróticas que
não tinham a mínima chance de acontecer.
Assim que Antônio sumiu do meu campo de
visão, Rique passou por mim com a toalha nas
mãos. Ele sorriu e piscou, assim como fez o seu
pai, e seguiu caminho até o banheiro. Ainda quente,
eu precisava de alguma forma aplacar aquele fogo
que me definhava por dentro. A passos lentos,
segui em direção a cozinha, mas quando passei pela
porta do meu quarto estaquei.
Meus olhos se fixaram na imagem e o fogo
que eu devia aplacar, incandesceu. Ensandecido e
atônito observei com afinco o que se descortinava a
minha frente.
A porta do meu quarto não estava
completamente fechada, e dessa forma, quando
passei a frente dela, eu o vi. Nu em pelo.
Completamente despido, assim como viera o
mundo, sem toalha, sem cuecas, sem qualquer
tecido que lhe cobrisse o corpo. Logo, tratei de me
colocar em um canto e observá-lo às escondidas. A
minha reação foi tão rápida, e tão bem arquitetada,
que me pareceu que de alguma forma eu previra
que viria aquele homem, daquela forma. E que
homem! Cada traço do seu corpo era-me
encantador. Talvez porque fosse a primeira vez que
visse um homem daquele porte sem roupas, frente a
mim. Ou pelo simples fato dele ser um pastor. A
gente tem dessas coisas, quando um padre, um
pastor, um homem casado, é bonito demais,
sentimos uma atração maior por eles. Acho que
porque os humanos gostam daquilo que não podem
ter, ou simplesmente porque o proibido é mais
gostoso. Não é algo louvável da nossa espécie, mas
desde os primórdios, se considerarmos a criação do
homem e o mito de Adão e Eva e da maçã,
chegaremos neste ponto.
Entrementes, eu o observei atento e sedento.
Como eu havia imaginado, os pelos que se seguiam
do tórax a virilha, culminavam em uma penugem
farta sobre a púbis, e numa dimensão desconhecida,
em linha reta e extremamente grosso, estava seu
pênis. Meus olhos o admiraram e o desejaram com
tanta veemência, que automaticamente as minhas
mãos foram até o meu membro e eu me toquei,
apertando-o sem parar.
O homem pegou uma das malas, abriu-a,
sentou na cama, tirou dela roupas. E por todo este
tempo em que eu o assistia, era como se ele se
exibisse para mim e quisesse que eu tivesse a
sabença da sua virilidade, da sua potencialidade em
me fazer ruir por dentro e queimar, como uma fênix
que ressurge das cinzas e não deixa o fogo a
consumir por completo. Apertei com força o meu
sexo e sentia que estava tudo tão molhado dentro
das minhas calças, que esqueci todas as coisas ao
redor e a minha razão se esquivou de mim,
submetendo-se a excitação que se reverberava por
todo o meu corpo. Dei alguns passos, para chegar
mais perto da porta e poder observar aquele
exemplar com mais afinco, mas antes de completar
o caminho, senti o toque de uma mão sobre o meu
ombro. Assustei-me e num movimento súbito, pus-
me a frente de quem me tocava. Dei com os olhos
de Rique e a sua pergunta que me desconstruiu por
completo.
— O que você está fazendo?
A minha face ardeu, pois não havia resposta
inventada que pudesse me tirar da enrascada onde
eu havia acabado de me meter. Tentei pensar em
alguma coisa, abaixei os olhos e percebi que Rique
estava apenas de toalha. Ele também abaixou os
olhos, mas logo eu percebi que eles foram em
direção a marca saliente que a minha ereção
deixava na bermuda que usava. Ele se demorou ali
por alguns minutos e em silêncio voltou a olhar em
meus olhos. Não tive reações, mas esperei alguma
reação vinda dele. Contudo, a única coisa que o vi
fazer foi sorrir e ir em direção ao quarto.
— Acho melhor você ir tomar banho para
irmos, ou vamos nos atrasar.
Meu coração havia falhado em seus
batimentos. Senti a minha respiração vacilar. Mas
apenas consenti com um gesto afirmativo de
cabeça, e corri para o quarto do meu irmão. Rápido
como um foguete, ao pegar a minha toalha, corri
para o banheiro e num átimo bati a porta e tranquei-
a.
Eu estava envergonhado e amedrontado.
Sabe-se lá qual seria a atitude de Rique após ter
visto o que acabara de ver.
Propositalmente tomei um banho demorado
e não tinha planos de sair por tão cedo do banheiro,
mas ainda quando a água caia do chuveiro e
escorria pelo meu corpo, ouvi a voz de Antônio
dizer que só estavam me esperando para que
pudéssemos seguir para o culto. É certo que eu
gelei, e o que estava feito não podia ser desfeito, só
me restava aceitar qualquer consequência que
viesse a decorrer da minha atitude. Eu estava bem
fodido!
Terminei o banho e saí do banheiro
cabisbaixo. Tudo o que eu queria era desaparecer
para não enfrentar as consequências da minha
atitude impensada. Mas a vida me ensinou desde
cedo que eu tinha que aprender a lidar com todas as
adversidades que surgissem em meu caminho, e
que toda consequência dos meus atos, eu teria que
receber de peito aberto e responder por eles.
Andei pela sala, e não vi nenhum dos dois
homens, e me senti aliviado por não encontrá-los
logo que saí do banho. No entanto, havia um
grande problema. Mesmo que eu estivesse no
quarto do meu irmão, as minhas roupas estavam em
meu quarto e era lá que eles estavam. Senti
calafrios só de pensar no desconcerto que aquela
situação me causaria, mas não tinha jeito, eu tive
que ir. E fui, com a cara e a coragem. A todo
momento, havia uma tensão crescente em mim e
uma espécie de intuição que apontava para algo que
viria a acontecer mais tarde. Sabe deus dos
calafrios que senti, e dos pressentimentos que me
acompanharam naquela noite.
Cheguei ao quarto e eles também não
estavam lá. Observei, parado na porta e não havia
rastro deles ali, a não ser as malas. Para não correr
riscos, aproveitei a deixa e fui até o meu guarda-
roupas e tirei as peças com as quais me vestiria. Ao
pegá-las, fiz um gesto brusco para sair do quarto,
mas antes que pudesse concluir o ato, dei de cara
com Rique.
— Demorou no banho, hem? – a sua frase
soou irônica, e pela forma como me olhou, sugeria
qualquer coisa que a minha inocência não me
permitiu visualizar.
Eu não consegui manter meus olhos fixos
nos seus, abaixei-os e respondi-o sem ânimo, que
eu sempre tomava banhos demorados.
— Estamos lá na frente esperando você —
ele disse e afastou-se de onde estava, liberando
espaço para que eu passasse por ele.
Fiz o que o meu instinto me impôs a fazer e
num átimo, ao chegar no quarto, vesti-me. Eu não
sei explicar ao certo, que misto de emoções eu
sentia, se culpa, medo ou raiva pela minha tolice,
mas sei que tudo em mim era uma confusão, e que
nada do que viesse a acontecer, terminaria bem.
Pronto, não tive fome, e me esqueci
completamente de servir café aos hóspedes. Fui ao
encontro deles, que como Rique havia dito estavam
me esperando do lado de fora e ao ter com eles,
seguimos sem dizer uma única palavra em direção
a Primeira Igreja Batista Central.
Durante o caminho, não haviam palavras
que pudessem romper o silêncio que formou uma
bolha entre nós. Vez ou outra eu percebia que os
olhos de Rique estavam sobre mim, mas eu não
cedia a vontade de encará-lo e apenas seguia em
frente.
A igreja não ficava longe da minha casa, até
porque a cidade era pequena e os estabelecimentos
ficavam todos próximos uns dos outros.
Caminhamos durante cerca de dez minutos e logo
chegamos ao nosso destino.
— Enfim chegamos! — exclamou Antônio
ao passar pelos portões da igreja e logo foi
arrebatado por um cordão de puxa sacos,
autointitulados fieis que não faziam nada além de
fingir o amor ao próximo e exibir uma santidade
que não era humana.
O grande problema disso tudo, é que por
mais que eu não quisesse ficar sozinho com o
Rique, acabei ficando apenas com ele. Tentei me
desvencilhar falando com alguns amigos, levando
ele para perto dos meus pais, mas ele me seguia
como se estivesse preso a mim. O engraçado disso
tudo, é que estávamos ali, juntos, mas não
dirigíamos uma palavra um para o outro. Por mais
que ele não houvesse dito nada, sabíamos o que
tinha acontecido, e a minha aflição era esperar uma
reação sua e ela não vir.
Desistente da tentativa de me desvencilhar,
entrei para dentro do recinto, seguido pelo rapaz e
escolhi um lugar para sentar, onde provavelmente
minha família sentaria. Atento, observei todas as
pessoas que já estavam ali, inclusive o pastor da
minha igreja e a megera da sua esposa que não saía
da companhia da sua tia e do seu suposto primo.
Fixei meus olhos nele e como agiam, e realmente
eles pareciam muito íntimos, como se fossem
irmãos ou não.
— Para onde você está olhando? — inquiriu
Rique fazendo com que eu virasse meu rosto para
mirá-lo.
Ao encontrar os seus olhos percebi-os
límpidos e travessos. Havia também um raso
sorriso em seus lábios e um ar despreocupado em
seu semblante.
— Não, eu... — pausei antes de ter certeza
do que o falaria — Eu apenas estou vendo as
pessoas que vieram hoje prestigiar o seu pai — não
sei se naquele momento a minha entonação fora
proposital, mas eu coloquei uma ênfase
desnecessária na palavra pai, que deixou um
curioso questionamento no ar.
Lentamente as pessoas foram se
acomodando nos bancos, que foram poucos em
relação ao número de presentes. Principalmente
porque havia muita gente de fora. A nossa igreja,
apesar de ser uma das maiores da cidade, não tinha
a capacidade de acomodar muita gente. Os bancos
eram retos e longos, de madeira, com um encosto
desconfortável. Ou seja, todos ficavam no mesmo
banco, e como o número de pessoas sentadas em
um único estava excedido, eu e Rique ficamos
praticamente colados um no outro.
Desconfortável, porém havia algo que nos
conectava, como uma correte elétrica que percorria
todo o meu corpo e encontrava condução no dele.
Vez ou outra, mesmo com o olhar fixo na minha
frente, eu o olhava de soslaio e percebia que ele
fazia o mesmo.
Sem muitos segredos, as coisas foram se
desenrolando sozinhas, e é assim quando elas têm
de acontecer. A gente não foge aos percalços da
vida, eles nos caçam. A verdade é que estas
energias estão aí o tempo inteiro, e é muito mais
sobre ceder a elas e se conectar com a sua
manifestação, do que qualquer outra coisa. Não
tenho certeza se esse tipo de assunto cabe aqui, até
porque, eu cheguei num ponto da história onde a
diversão realmente acontece. Estamos no ápice do
que me aconteceu naquele dia, e não nego que o
plottwiste pode ser real. Mas, sigamos em linha
reta. Na verdade, sigamos de onde as coisas entre
mim e Rique começam a esquentar e como dizem
por aqui o bicho pega.
—Jevons — ouviu-o chamar me nome em
um sussurro.
Vagaroso virei-me em sua direção e ofereci
um olhar inquisidor a ele. Neste ponto, o culto á
havia começado, e minha mãe e meu pai, estavam
lá na frente cantando músicas que glorificavam a
existência egoística de deus pintada pelo homem.
— Eu preciso ir no banheiro —
confidenciou-me.
— É lá fora, nos fundos da igreja —
forneci-o a localização do banheiro, intuindo que
aquilo bastaria.
— Me leva até lá — mas fui pego de
surpresa pelo seu pedido de conduzi-lo até o lugar.
Endureci-me na cadeira e pensei mais de
duas vezes antes de me levantar e atender ao seu
pedido. Mas se não eu, quem o faria? Procurei por
meus irmãos em bancos próximos, mas não os vi.
FODA-SE! Pensei. Não com essa ênfase toda, até
porque naquela época eu ainda era um jovenzinho
inocente prestes a se perder, na verdade, se achar.
— Vamos! — Rique implorou e ao fitá-lo
novamente, dei com o seu semblante límpido
demonstrando que necessitava de minha ajuda.
Atendi ao seu pedido a contragosto. Eu não
tinha de forma alguma o intuito de estar sozinho
com ele. O medo de ouvir dele e constatar que
havia percebido o que aconteceu na minha casa, foi
o maior que já me lembro de ter sentido em toda a
minha vida. Levantei-me do banco vagarosamente
e fui acompanhado por ele em meu movimento.
Seguimos para fora da igreja, mas antes de sair,
voltei os meus olhos para trás, pois tive a impressão
de estar sendo observado. Ao concluir o ato, dei
com os olhos do pastor Antônio que me fitavam de
forma fixa. Ele estava sentado atrás do púlpito,
numa das cadeiras acolchoadas reservadas para
presbíteros, obreiros e missionários. Paralisei-me
por alguns segundos, e ao perceber a minha demora
em se mover, Rique que vinha logo atrás de mim,
fez o mesmo gesto que eu, alcançando o olhar de
Antônio. E naquele momento, eu percebi que havia
algo de errado ali, aqueles dois escondiam alguma
coisa e por incrível que pareça, parecia-me que
agora eu estava no meio dela. O olhar dos dois fora
fulminante e rápido, e logo eu e Rique saímos de
dentro da igreja.
Ao passar pela porta curvamos para o lado
esquerdo e seguimos até que chegamos ao lado da
igreja. Estava muito escuro, afinal era uma noite
sem lua, e aquela parte do templo não era
iluminada. Seguimos em frente com dificuldade,
mas não demorou para alcançarmos o banheiro.
A parte em que ele ficava, era ainda mais
escura do que o caminho por onde havíamos ido até
lá. A nossa frente, estava o banheiro, atrás de nós
uma mata alta e descuidada que segundo o pastor,
logo daria espaço para uma nova sala onde
aconteceriam as reuniões dominicais.
— Serei rápido — disse Rique tentando
abrir a porta, no entanto ela não se moveu do lugar.
— Deixa que eu faço isso — fiz um gesto
para que ele se afastasse e fui até a porta, puxando-
a de uma maneira diferente, que era a única forma
que ela conseguia ser aberta.
Rique sorriu e num átimo entrou para dentro
do banheiro, fechando a porta atrás de si. Pensei se
devia esperá-lo ou se era melhor eu voltar para o
meu lugar e aguardar por ele lá, mas antes mesmo
de concluir o meu pensamento vi a sua tentativa
falha de abrir a porta sem conseguir.
—Jevons, você pode abrir, por favor? —
pediu-me.
Achei engraçado a forma como ele falou,
mas logo tratei de abrir a porta da maneira especial
que apenas eu e outras pessoas sabiam. Coloquei
força nos braços, empurrei-a para frente e logo em
seguida para trás, suspendendo-a um pouco e,
assim ela se abriu. Contudo, assim que a figura de
Rique surgiu a minha frente, algo tão confuso e
rápido aconteceu que não há formas de explicar
detalhadamente como eu fui parar dentro do
banheiro com a porta novamente fechada e o rosto
de Rique tão próximo do meu que eu sentia a sua
respiração ofegante confrontando a minha.
Os meus olhos estavam vidrados nos seus e
os nossos corpos tão colados que eu por um
instante não soube muito bem aonde o meu
começava e o seu terminava. Eu estremeci por
completo, mas não tive forças para me desvencilhar
da posição em que estava. Em um segundo eu
estava do lado de fora do cômodo, e noutro a mão
de Rique fora tão rápida que me puxara para dentro
e o seu outro braço livre, após bater à porta e passar
o trinco, enroscou-se nas minhas costas, colando-
me a ele.
— O que você está fazendo? Você tá
maluco, cara? — inquiri-o tentando me
desvencilhar, no entanto Rique tinha mais
músculos do que eu e, consequentemente era mais
forte.
Ele permaneceu em silêncio e com a mão
livre colocou um dos dedos sobre os lábios e fez
um barulho, como um sopro ou sussurro, exigindo
o meu silêncio. Eu obedeci-o, não sei por qual
motivo, se pela força que fez em minhas costas ou
se pelo semblante que a sua face adquiriu naquele
momento.
Seu ar era demoníaco e seu olhar tão
hipnotizante e sexy que naquele momento, senti
como se eu fosse um metal atraído por um imã, que
era ele. Seus lábios se entreabriram e aquilo era
misterioso e desconcertante. Aos poucos o nervoso
de antes foi cedendo a outro tipo de emoção e o
meu corpo respondeu aos estímulos que o seu
corpo fazia em contato com o meu. Ele se movia
enquanto me mantinha preso em seus braços, e era
como se dançássemos na beira de um abismo em
chamas, prontos para sermos consumidos pelo
furor do caos, quando saltássemos de cabeça em
direção a nascente das chamas.
— Era isso o que você queria? — inquiriu-
me com os lábios tão próximos dos meus, que o
cheiro do seu hálito invadiu o meu olfato e eu não
soube digerir a sua pergunta, e nem mesmo negá-la.
Eu tentei desviar a face da sua, mas mesmo
que eu fizesse aquilo, onde o meu desejo pulsava e
a minha ereção já era presente, assim como a sua, e
vez ou outra ele forçava tanto o seu corpo contra o
meu, que eu pressentia que travaríamos uma
batalha a qualquer momento.
— Eu vi... — ele disse, e por um instante
um arrepio perpassou pela minha espinha
— O que você viu? — quis saber, já tendo a
certeza de sobre o que ele falava.
— Eu vi você se tocando enquanto
observava o meu pai.
Eu não tive palavras para desfazer aquilo
que os seus olhos haviam constatado, e mesmo que
eu tivesse, não haveria forma de alegar inocência
diante do meu suposto crime. No entanto, eu estava
ali agora, sendo julgado pelo meu algoz e castigado
pelos meus desejos da forma mais absurda que eu
poderia imaginar. E se todo o castigo que eu
enfrentasse em minha vida fosse daquele jeito, eu
morderia a maçã proibida mil e uma vezes, para
logo depois ter todo o pomar a minha disposição.
— Eu não fiz... — antes de concluir a frase
senti ele pressionar a sua ereção na minha e trazer
os lábios para mais pertos de mim.
— Me diz, o que você imaginou ao vê-lo ali
daquele jeito? — as suas indagações eram
desconcertantes, e talvez eu estivesse em uma
posição de vítima sem ter a consciência de que
estava sendo induzido a algo que eu não tinha a
menor vontade ou obrigação de fazer ou dizer. De
alguma forma, aquela situação poderia significar
algum tipo de violência contra a minha integridade.
Mas eu estava ali, tão vivo e quente, e pulsando de
tesão diante das circunstâncias, que não consegui
me desvencilhar dos seus braços, dos seus olhos e
por fim do toque invasivo dos seus lábios nos
meus.
Quando isso aconteceu, não soube como
reagir, apenas senti todo o meu corpo vacilar e uma
quentura se abater sobre a minha pele de tal forma,
que me parecia que eu estava com febre. Eu não
queria mais fugir dali, eu queria me despir e pular
dentro daquele fogueira, definhar como se descesse
completamente nu ao sétimo inferno e então voltar
de lá triunfante e renascido das cinzas,
redescoberto, novo e mais forte. Foi como se o
mundo se mostrasse para mim pela a primeira vez.
E qualquer alegoria que eu pudesse utilizar para
metaforizar o momento, não seria eficaz em trazer
todos os significados do que vivenciei à tona.
Sendo uma coerção ou violência contra a minha
integridade ou não. A língua de Rique invadiu a
minha boca e levou a minha língua para dentro da
sua. Então foram mãos, e braços e pernas se
enroscando e ereções tão pulsantes, e o tesão
latejando e escorrendo que não se sabia quais as
mãos que eram minhas e quais as mãos que eram
suas. Ele me tocou e me apertou e eu retribuí,
babujando os seus lábios com a minha saliva e
respirando tão forte, tão desesperado, que o ar
parecia-me que faltaria em alguns instantes.
Até que ele estacou, e paralisado fitou-me
com um olhar irônico e sorriu.
— Temos que ir, não podemos terminar isso
aqui — disse.
— E vamos para onde eu não sei onde
podemos terminar isso? — desesperei-me.
— Calma, vamos voltar para o culto e
depois que todos dormirem na sua casa, a gente dá
um jeito.
Eu fixei meus olhos nos seus, eu tão
inexperiente e confiando tanto em sua sapiência,
que não o questionei.
— Vamos então... — concordei tentando
me desvencilhar dos seus braços, no entanto, ele
permaneceu firme me mantendo preso a ele, e
depositou um novo beijo tão intenso quanto o
anterior, nos meus lábios. Ao terminar me soltou e
sorriu. Eu não tive reação, permaneci parado e
achei até que estava meio tonto.
— Você já pode abrir a porta quando quiser
— ele insinuou sorrindo.
Recobrei a minha sanidade e só então dei
meu jeito de abrir a porta. Antes, olhei para todos
os lados, intentando ver se o caminho estava limpo.
Constatando que estava, saí do banheiro e ele me
seguiu.
Voltamos pelos mesmo caminho por onde
viemos, é claro, e até nos esbarramos com um dos
meus irmãos e dois colegas seus na parte escura.
Neste momento, todos os meus pelos se eriçaram e
eu senti um calafrio, imagina só se eles tivessem
passado por ali dois minutos antes.
Rique apenas sorriu, e eu supus que ele
achou graça na possibilidade de talvez sermos
flagrados pelo meu irmão. Enfim, entramos
novamente na igreja e seguimos em direção ao
nosso lugar no banco. Lá na frente, agora atrás do
púlpito e de pé, Antônio pugiu-nos com um olhar
inquisidor, que passou de Rique para mim. Seus
olhos pesaram sobre a minha face e eu me senti
intimidado, mas meus caros, nada é tão absurdo
que não pode tornar-se ainda mais. E é aqui que
chegamos a um momento estupidamente crucial da
minha história, a descoberta do prazer o desejo e o
gozo, me vieram de forma tão sedutora e devassa
que depois dessa experiência eu nunca mais fui o
mesmo. Mantenham-se atentos, o grande ato está
prestes a começar.
A vida tem dessas artimanhas, ela é
sedutora e maligna. Ela nos toma pelo braço numa
dança cabalística, e nos faz girar em círculos e
mesmo sabendo que a qualquer momento que
pararmos podemos cair, continuamos, porque a
sensação de ver o mundo daquela forma é tão
maravilhosa, que talvez seja por isso que os vícios
nos acometem com tamanho furor. O despudor com
que a vida se abriu para mim, desvirginando-me,
modelado a minha persona, fora tão intenso e
diabólico, que num átimo eu era um meninote
cristão e inocente, e em outro em era um devasso
entorpecido pela luxúria em busca de aplacar as
pulsões da minha carne de todas as maneiras
possíveis.
E meus caros, as coisas que se
desenvolveram ao decorrer da noite foram
terrivelmente luxuriosas. O meu impulso, é ir
diretamente para os acontecimentos, mas antes de
dar com o fatídico momento do culto a carne, eu
preciso demorar a minha atenção no caso do pastor
e da megera da sua esposa. Nunca, desde que me
entendia por gente, consegui digeri-la de forma
agradável. Havia nela uma leve falsidade,
perceptível aqueles que tinha uma sensibilidade
aflorada. E a minha sempre o foi. Convivia com a
sua figura em minha casa, via-a se gabando da sua
santidade, mas as suas palavras e a vantagem que
contava por ser mulher de um homem de deus
nunca me convenceram.
Após o ocorrido com Rique no banheiro, e
assim que sentei no banco ao seu lado, meus olhos
de forma maliciosa procuraram pela mulher. Algo,
naquele momento, já havia mudado dentro de mim.
Abocanhar a maçã, mesmo temendo o que poderia
vir a ser depois, dera-me em conhecimento do
mundo o que eu ainda não tinha. É exagerado dizer
que eu tivesse acabado de romper algumas
barreiras de mim para comigo mesmo, mas de certa
forma, tudo aquilo tivera um grande significado
para mim. E tivera-me um grande significado
também, os olhares, os sorrisos e o jeito como a
mulher do pastor e o seu primo, que lhe era como
um irmão, se comunicavam. Eles estavam na
frente, a poucos metros do púlpito, e apesar de
manterem uma postura discreta, havia algo no ar,
que o meu olfato recém desvirginado pelos odores
da opulência, conseguia identificar.
Ao chegar neste ponto da história, temo que
tudo se torne um pouco rápido, corrido, é que ao
me lembrar do que aconteceu, eu tenho que lidar
com alguns questionamentos e pensamentos com os
quais nunca me dei muito bem. Ao me ver tão
jovem e inocente sendo corrompido pela
voluptuosidade com que a luxuria me tomou
naquela noite, algo em mim se indaga, se nada
daquilo tivesse acontecido, quem eu seria hoje?
Todavia, eu não pretendo transformar essa
história em algo chato, maçante, malquisto por
quem se aventurar a ler. Filosofias só devem ser
levadas a frente, quando não são demasiadamente
entediantes.
O culto andou da forma como eu
comumente conhecia, apesar do pregador ser outro,
no caso o pastor Antônio. O que me deixava
inquieto na cadeira, eram o seu olhar tenso
direcionado a mim e a Rique. Existia algo no ar,
que eu ainda não fazia ideia, mas a minha intuição
pulsava tão forte dentro de mim que eu sabia, não
demoraria muito para eu descobrir.
Ao fim do culto, lá pelas onze horas da
noite, já que sendo um evento diferenciado com
mais músicas, tempo de pregação e oração do que o
esperado, eu e Rique nos dirigimos para fora da
igreja e fomos ao encontro dos meus pais, e irmãos.
Antônio teve ainda que lidar com alguns fiéis antes
de vir ao nosso encontro e todos estarmos juntos
para seguirmos em direção a minha casa.
— O senhor foi certeiro em cada uma das
suas palavras, pastor — elogiou a minha mãe — Eu
senti como se cada uma delas fosse exclusivamente
para mim.
— Para Deus, ter um homem como você no
seu exército de fieis deve ser um orgulho —
interviu meu pai.
Eu observava inquieto tudo o que falavam, e
na verdade o que eu queria era chegar em casa,
espera-los dormir, tanto eles quanto meus irmãos e
dar um jeito de terminar o que havia começado
com Rique.
— Antônio, o pessoal tá muito contente
com a sua presença e suas palavras — exclamou o
pastor, aproximando-se da gente.
— Irmão, não fiz nada além da minha
obrigação.
Todos permanecemos em silêncio e
observamos aos poucos a esposa do pastor, e seu
primo se aproximar de nós.
Antônio observou-os curioso, e eu segui o
seu olhar confirmando em sua expressão algo que
também gritava em mim.
— Ah, deixe eu lhe apresentar, esse é o
Ezequiel. Primo da minha esposa, eles foram
criados juntos, são como irmãos.
— Prazer, pastor Antônio — eles apertaram
as mãos num gesto rápido, e sorriram cordialmente
um para o outro.
Rique, ao meu lado, roçou seu braço em
mim, e como se eu tivesse tomado um choque de
220 volts, afastei-me dele num movimento súbito.
Os olhos de Antônio que antes estavam no
Ezequiel, se voltaram para mim, e a única reação
que eu tive fora abaixar os olhos para não sentir o
peso do seu olhar em minha face.
— Pastores, eu, meu marido e os meninos,
já vamos seguindo. Se quiserem nos acompanhar...
— disse minha mãe de forma reticente.
— Antônio, fique à vontade para ir
descansar com seu filho. Amanhã pela manhã,
temos o encerramento do culto, e queremos a sua
presença.
— Pode deixar que estarei aqui — disse
Antônio sorrindo e oferecendo uma das mãos para
o pastor, em seguida a sua esposa e por fim a
Ezequiel.
Os comprimentos foram rápidos e curtos, e
logo nos colocamos a passos largos em direção a
minha casa. No caminho, a minha mãe não parou
de falar. Elogiou Antônio de todas as formas
possíveis, tentou estabelecer um diálogo com
Rique, inquirindo-lhe se ele queria seguir os passos
do pai e por fim, confessou o desejo de que queria
um dos filhos pastor, ou senão todos eles. A
salvação diante das suas falas, era que a nossa casa
era bem próxima da igreja, portanto, logo
chegamos.
O cansaço abateu a todos e era aparente em
cada um dos semblantes, e depois da troca de
roupas, algumas palavras, beliscar alguns petiscos
na cozinha e todos bocejando de forma coletiva,
retirar-se para os quartos foi a solução.
Eu estava ansioso, não que eu tivesse
coragem de dar andamento ao que eu e Rique
havíamos começados no banheiro da igreja, ali em
casa, com todos dormindo sobre o mesmo teto que
nós. Mas o meu coração, estava descompassado. E
quando me deitei no colchonete que a mim me fora
reservado para dormir, enquanto os hóspedes se
aconchegavam em me quarto, uma ânsia subiu do
meu estômago para a minha garganta e eu senti
como se o vômito me fosse uma ação possível
naquele momento. Contudo, eu engasguei com a
minha própria saliva, e tossi desesperadamente.
— Cala a boca! —exclamou meu irmão
denunciando a sua revolta, todavia, eu não
consegui parar.
Dona Clarice surgiu na porta do quarto e me
observou por alguns instantes.
— Você está bem? —inquiriu-me.
Não respondi-lhe de imediato, mas assim
que recobrei o ar, falei-lhe que sim. Ao ouvir a
minha resposta, ela saiu da porta do quarto, e pelos
seus passos percebi que dirigiu-se para a cozinha.
O tempo passou e o sono não tomou-me como de
costume. Meus ouvidos atentos deram conta de
todos os sons que se sucederam durante a noite.
Primeiro, eu ouvi a minha mãe lavando os pratos.
Ela estava lenta no seu afazer. Com toda a certeza a
sua calma era a tentativa de não acordar aqueles
que já estavam dormindo. Segundo, ela deu passos
por toda a casa, verificando se todos estavam bem e
se aconchegados conforme o tempo obrigava.
Terceiro, ela apagou de uma a uma as luzes dos
cômodos, e dirigiu-se para o seu quarto. Ouvi uma
tossi seca e grave, e concluí de que não a pertencia,
mas sim a um dos hóspedes.
O barulho de dona Clarice se aconchegando
na cama fora uma das últimas coisas que eu me
lembro de ter ouvido, antes de tudo começar. Não
posso revelar com clareza como tudo culminou nos
momentos que se sucederam, mas posso afirmar
que foi umas das coisas mais loucas e excitantes
que eu fiz em toda a minha vida. Confesso, que
pela minha idade e pela mentalidade que eu ainda
tinha, de que talvez não estivesse preparado para
vivenciar aquilo, entrementes eu remei conforme a
maré e cheguei ao ápice da minha iniciação em
uma vida luxuriosa que ia permear toda a minha
vida na terra.
As luzes apagadas, as respirações baixas de
todos que dormiam, e vez ou outra, alguém que se
mexia em sua cama. Meus olhos estavam acesos
como os olhos de m guaxinim em busca de comida
durante a noite. E eu realmente estava com fome, e
a minha fome era reter em meu corpo, o cheiro, o
gosto, a sensação de ter aquele homem novamente
perto de mim.
Movi-me no colchonete vezes seguidas, sem
conseguir pensar em nada além da sua promessa de
terminar aquilo em minha casa quando todos
dormissem. Deitado, com os olhos fixos na fresta
que a porta havia deixado ao meu alcance, eu
percebi um vulto sorrateiro se projetar a frente da
luz que me alcançava. Eu paralisei no lugar onde
estava, sem ter condição alguma de ter a certeza de
que aquele era o seu chamado. Fechei e abri os
olhos algumas vezes, até que a sombra se moveu,
abandonando o lugar onde estava.
Quis me levantar e constatar com os olhos o
que o meu desejo implorava que aquilo fosse, mas
tive medo. O coração acelerado dava sinais de que
a qualquer momento pararia de funcionar. Eu
estava inquieto, e tão sensitivo, prestando atenção
em todas as coisas, que sons e visões não
escapavam de mim.
Eu sabia que todos da minha família
dormiam e que não acordariam facilmente,
contudo, eu não conseguia me mover. Até que
minha garganta reclamou de sede. A crise de tosse
que eu havia tido quase uma hora antes, tinha
deixado rastros em mim. Engoli saliva
desesperadamente, mas não consegui remediar o
irremediável. Num gesto súbito e sem medir
consequências, eu me levantei. De pé, pensei em
não fazer aquilo, entrementes, algo me chamava,
algo em mim gritava por aquilo. Eu precisava
matar a minha sede, literal e metaforicamente.
Andei vagarosamente, tateando no escuro,
sem me arriscar acender qualquer luz. Atravessei a
porta do quarto, puxando-a vagarosamente e me
guiei a passos lentos pelo corredor que dava para a
cozinha. Antes de chegar ao cômodo, percebi que
da porta do meu quarto, saía um feixe de luz. Eles
estavam acordados, pensei. Segui. Não tive mais
medo, apenas fui e quando passei pela frente da
porta do quarto, meus olhos buscaram imagens e
não encontraram nada além de um pequeno espaço,
onde eu só conseguia ver um pedaço da minha
cama. Parei por alguns minutos e continuei o meu
caminho.
Todos os meus gestos eram calmos e
silenciosos. Abri o armário, peguei um copo, enchi-
o de água e tomei. O ato foi tão rápido e silencioso,
que num átimo eu o havia concluído. Coloquei o
copo sobre a mesa, tendo o cuidado de não fazer o
barulho e então eu senti aquelas mãos. Um corpo se
chocou ao meu corpo e eu senti a sua quentura, o
seu aconchego. Se eu não tivesse pensando na
possibilidade de qualquer coisa do tipo acontecer,
talvez eu tivesse gritado. Mas além da mão que me
envolveu o abdômen e me juntou ao corpo, outra
me chegara aos lábios e me impedira de emitir
qualquer som.
Respirei forte e senti cada centímetro
daquele corpo se colando ao meu. Eu não pensei
muito bem enquanto as coisas aconteceram, mas
elas aconteceram. A respiração do homem alcançou
o meu pescoço e eu derreti em seus braços. Eu
poderia virar naquele momento e lhe beijar, me
entregar completamente ali, onde eu estava.
Contudo, com a mão em minha boca e a outra me
envolvendo, ele me fez dar meia volta e me guiou a
passos lentos em direção ao meu quarto. Não me
dei conta do que estava acontecendo, mas ao estar
tão próximo da porta, uma ansiedade absurda me
sobressaltou. Quis me soltar, mas se eu gritasse,
aquilo teria consequências catastróficas. Qualquer
rastro de desejo em mim desaparecera
completamente.
Quando frente a porta, ela se abriu num
átimo e outro homem, sorrateiro me puxou para
dentro. O que me segurava entrou logo em seguida
e subitamente, a porta foi fechada.
Antes de assimilar o que via, tive muito
medo. O meu estômago se embrulhou e tudo que eu
queria era sair dali. Todavia, eu permaneci e o que
se sucedeu foi estranho, mas delicioso.
Eu fui o almoço do diabo. Se ele existe,
estava ali, naquele momento. Fui despido,
desmembrado e servido. Eu queimei no fogo do
inferno, e talvez, algo ali, naquele momento não
estivesse de todo certo. Contudo, se me fosse dada
a escolha de vivenciar tudo aquilo novamente, eu
vivenciaria. Porque tudo o que se sucedeu não foi
acompanhado de explicações. E eu não precisava
delas para me meter onde eu me meti. Eu só fui de
encontro aquilo que me era ofertado. Aceitei de
bom grado o presente suntuoso da vida, e me atirei.
Antônio estava de pé, parado a minha
frente. Seu olhar era rígido e mordaz. Eu tive medo
dele, achei que Rique tivesse contado qualquer
coisa a ele que não tinha gostado de ouvir. Mas foi
muito melhor, Rique contou e ele queria ver com os
próprios olhos. Eu não julguei a sua persona
naquele momento, em meu inconsciente onde se
aflorava o meu instinto, talvez me fosse mais
cômodo ir adiante naquele jogo e provar do sabor
que aquela experiência me ofereceria. Há pontos
que poderiam ser levantados nesse momento, sobre
o ocorrido, sobre idades, sobre hipocrisias, mas eu
não quero. A história é minha e eu faço dela o que
quiser. E eu quero dizer, que eu me diverti. Eu
aproveitei e saboreei cada detalhe daquele
momento, que até mesmo hoje, vivenciando o que
vivencio, recordo-me de cada segundo nitidamente.
Antônio colocou um dos dedos sobre os
seus lábios e indicou-me para ficar em silencio. Eu
o obedeci e permaneci onde estava, parado a sua
frente. Não sabia ao certo como agir, nem tive
certeza do que aconteceria naquele momento. Só
soube o que fazer quando Rique sorrateiramente se
aproximou de mim, por trás, e eu o senti beijar cada
parte do meu pescoço como se fosse um vampiro
pronto para abocanhar a sua vítima. Mantive-me
quieto por alguns minutos, mas quando percebi que
Antônio aos poucos se aproximava de mim, eu
soube o que aconteceria. Na minha mente, era
como se eu estivesse vivenciando um dos muitos
filmes de baixa qualidade com atuações péssimas
que assistia sempre que precisava me aliviar da
minha tensão.
Eu toquei Antônio, o pastor. Primeiro o seu
peito farto, coberto de pelos, em seguida a sua
virilha, e por fim, cheguei aonde queria chegar, o
motivo de tudo aquilo que estava acontecendo ali.
De uma forma ou de outra, eu havia aberto as
portas para que aquela sequência de obscenidades
acontecesse.
Não gemíamos enquanto nos tocávamos. O
silêncio foi crucial para que tudo se desenvolvesse.
Quando virei para beijar Rique, eu o senti tão
quente e inteiramente meu, vertendo o seu desejo
para que eu o sugasse em sua saliva. Eu tive medo,
mas fui assim mesmo, sem saber o que fazer, sendo
guiado pelos meus instrutores. Antônio não se
sentia tão à vontade quanto Rique, mas ele estava
ali. Também não era tão carinhoso quanto o filho,
mas estava ali e me tocou, me abraçou e me beijou,
um beijo frio e ríspido. Talvez estivesse temeroso
das consequências que aquilo poderia trazer-lhe,
mas eu não liguei. Beijei-o, toquei-o e aproveitei
para conhecer cada parte do seu corpo. Primeiro
com as mãos, depois com a boca.
O meu quarto exalava o odor do nosso
tesão. Rique se acocorou atrás de mim e abaixou o
meu short e minha cueca num movimento súbito.
Eu estava completamente nu. Antônio se desfez das
roupas que lhe cobriam a ereção e eu quis me
acocorar para saboreá-lo, mas antes de fazer, senti a
língua de Rique invadir-me por completo e me
render. O outro homem me segurava e me olhava
firme, fixo. Eu o sentia tão rude e tão absurdamente
másculo, que ao passo que observava as caras e
bocas que ele fazia, a excitação crescia. Eu pulsava,
Rique me saboreava, e Antônio a minha frente era
como a imagem que eu fazia dos ativos que eu
queria em minha vida. Muito mais uma figura
paternal que cuidaria de mim e saciaria a minha
fome, que um homem que eu pudesse compartilhar
os meus medos e anseios. Eu desconstruí tudo isso
num momento crucial da minha vida, no entanto,
naquele momento eu queria ser feito de bibelô de
gigolô.
A quentura me fazia verter o desejo por
todos os meus poros, e num gesto súbito me joguei
sobre Antônio e o beijei vorazmente, como se
quisesse o devorar. Eu esfreguei meu corpo no seu,
senti nossas babugens se misturarem e nossas
ereções se provocarem. Eu queria que ele me
pegasse no colo e me fizesse sentir a sua força, a
sua virilidade, o seu potencial de macho. Eu queria
beber do seu estereótipo e gozar da sua imagem.
Contudo, antes que isso viesse a acontecer, senti
Rique se colocar atrás de mim, de pé, e se esfregar,
tentando abrir caminho em meus lugares mais
recônditos. Instintivamente, eu abri as minhas
pernas e permiti que ele se roçasse em mim,
desejoso, molhado. E foi assim, que aos poucos ele
se colocou, e o meu corpo deixou de me pertencer.
Naquele momento, eu era de todo o mundo, e
nunca mais seria tão meu quanto antes daquele ato.
Nunca pensei que perder a virgindade fosse tão
fácil, mas foi, e mesmo a dor sendo uma premissa
para que o prazer se fizesse presente, foi
incrivelmente bom.
Foram solavancos, suspiros profundos, um
pouco de dor, os beijos de Antônio e muita, muita
babugem. Eu poderia jurar que saiam faíscas dos
nossos corpos, mas éramos humanos demais para
que aquilo acontecesse. E então todo aquele tesão
me resumindo a um pedaço de carne repleto de
instintos e a vontade de dar fim a tudo aquilo e ter
uma história para contar.
Rique anunciou o seu gozo, e sem saber
como prosseguir, eu me toquei e antes que ele
chegasse ao ápice, eu cheguei. Antônio fez o
mesmo, e os seus jatos esguicharam em minha
barriga. E aquilo foi necessário para que ele ficasse
impregnado em mim, e nunca mais eu o
esquecesse. Rique esguichou em minhas costas, e o
seu gozo escorreu para as minhas nádegas, quente
como lava.
Ao fim daquilo, só nos restava a respiração
descompassada, o silêncio que nos tornava
cumplice e a necessidade que se fazia de nos
limparmos e voltarmos aos nossos postos. Eu não
precisava de explicações naquele momento. Eu
havia acabado de ter uma experiência digna de
filmes pornôs e só queria repassar tudo aquilo na
minha mente mil e uma vezes.
Quando encontrei os olhos de Rique, após
termos acabado, ele sorriu. Eu sorri de volta, sem
tanta certeza de que deveria mesmo sorrir. O
semblante de Antônio continuou rígido. Ele me
ofereceu uma toalha para eu me limpar e eu peguei-
a titubeante. Após me desfazer do liquido que havia
derramado em meu corpo, vesti-me e fiquei
paralisado, olhando-os.
— Acho melhor você ir agora. Amanhã nos
falamos —Rique se aproximou do meu ouvido e
sussurrou.
Eu concordei com um gesto de cabeça e me
retirei do quarto. Como um gato na surdina, voltei
para o lugar a mim reservado e deitei. Antes de
pregar o olho, repassei o que havia acontecido em
minha mente por vezes seguidas, até que o sono
fora mais forte e me venceu. Num átimo tudo tinha
se tornado escuro e vazio, e eu agora já sabia como
se fazia um homem.
***
Um estrondo me assustou, fazendo com que
eu acordasse. Não tive certeza do que era, e
demorei a assimilar o que estava acontecendo, mas
aos poucos identifiquei o barulho de pessoas
murmurando e passos que iam de um lado a outro
da minha casa. Ergui o corpo, e tentei divisar a
figura do meu irmão em sua cama, contudo não o
encontrei onde fiz juízo de que ele estaria.
O burburinho de pessoas conversando
aumentou. A curiosidade em descobrir o que estava
acontecendo me impingiu a levantar. Guiei-me
lentamente até a porta do quarto, e abri-a.
Atravessei o cômodo e após passar pelo corredor
que dava para a sala, meus olhos vislumbraram
uma cena, no mínimo curiosa.
Pastor Paulo estava sentado numa das
poltronas, Antônio ao seu lado, parecia consolá-lo,
pois mantinha uma das mãos no seu ombro e dizia-
lhe palavras de conforto, que de onde eu estava não
podia ouvir com clareza. Meus irmãos estavam a
um canto da sala, olhando tudo aquilo
demonstrando em seus semblantes estarem
assustados, e meu pai, de pé na frente do pastor
parecia não saber muito bem o que fazer diante das
circunstancia.
Assustei-me ao sentir o toque de uma mão
em um dos meus ombros e voltei o meu olhar para
trás. Encontrei a face de Rique e seu semblante
desconcertado. A pergunta em mim que não queria
calar, era o que diabos estava acontecendo ali.
— O que houve? — indaguei a Rique.
— Parece que as coisas não foram intensas
e divertidas apenas por aqui... — falou reticente,
interrompendo a frase, olhando de forma brusca
para Antônio.
O pastor estava com os olhos vidrados em
nós dois, e algo em seu semblante parecia reprovar
a nossa aproximação.
Sem tantas delongas, apesar de que todo
esse suspense deixa as coisas muito mais
interessantes, o que tinha acontecido, e eu ouvi isso
da boca do Rique, alguns minutos depois, foi o
seguinte.
— Parece que o seu pastor, encontrou a
mulher numa relação bem intima com o primo.
Apertei os olhos, pasmo, mas não tão
inocente diante do que se apresentava a mim.
Contudo, a única reação que consegui esboçar a o
que ouvira, foi uma gargalhada, que tive que
conter, pois todos no cômodo voltaram os olhos
para mim. É certo que na igreja eu já havia
observado os modos como Jandira tratava o primo,
que lhe era como um irmão, segundo o próprio
marido. Entrementes, fiquei extremamente surpreso
com o acontecido.
— Sua mãe foi a casa deles, ter uma
conversa com Jandira e ver o que pode ser
resolvido disso tudo. O pastor veio pra cá porque
tentou agredir a mulher — Rique concluiu o caso
sussurrando para que os outros não nos ouvissem.
— Que merda!
— E são três da manhã, eu estou cansado.
Você me deixou cansado, preciso dormir — fitei os
meus olhos nos dele e sorri. Achei o seu
comentário desnecessário, mas de alguma forma
gostei de ouvir aquilo e constatar que tudo o que
tinha feito foi real.
As coisas não se resolveram naquela noite, e
nem no outro dia, e tudo virou um burburinho na
igreja durante uma semana ou mais. Não sei ao
certo quantos dias demorou para o pastor aceitar
novamente a Jandira como sua esposa, perdoá-la e
receber oficialmente de mim e meus irmãos o título
de corno conformado.
O evento do domingo na igreja não foi
cancelado. Apesar dos pesares, para os outros fieis,
o caso foi abafado. E tudo graças ao Antônio, que
no dia seguinte, usou de sua sapiência para
conduzir os festejos sem levantar suspeita. O
pastor, para todos os efeitos, fora acometido por
uma terrível crise no estômago, e estava sendo
cuidado pela sua esposa.
No domingo, eu também não tive muito
contato com Antônio e Rique, apesar da troca de
olhares. O mais velho sempre ríspido, o mais novo
com um semblante acalentador e com um olhar que
já se fazia de casa para os meus anseios. Não obtive
explicações sobre o que havia acontecido comigo e
eles na noite anterior, e como eu disse, não
precisava de muito para aceitar que eu adorei ter
vivenciado aquilo. As interrogações permaneceram
por muito tempo em minha cabeça, e eu só vim a
ter sabença de tudo, quando encontrei Rique anos
depois.
Eu não confiei em suas palavras quando em
nossa despedida, ele me disse, com os olhos fixos
nos meus.
— Estou indo, espero que nos encontremos
novamente. Serei muito grato se poder ter você
outra vez — soou romântico e foi desconcertante.
Antônio ofertou-me apenas um aperto de
mão, um sorriso e um olhar não perverso, mas
desejoso, que se colocou sobre mim e me abateu
por dentro. Foi como se ele exigisse a minha
submissão para fazer de mim o que bem
entendesse. E eu confesso que nesse momento, me
excitei. Senti a ereção ganhar forma num ímpeto,
mas tratei de contê-la. Eles se foram assim como
vieram, no entanto, passaram de hóspedes
indesejados para desejosos e bem quistos por mim.
E talvez, eu tenha gostado, não tanto quanto
de fazer sexo, de narrar essa história. Não que eu
me sinta confortável com o fato de expor a minha
vida, mas quando eu liguei este computador e me
pus a digitar, eu tinha um objetivo e aqui está ele,
chegando ao fim. Contudo, acho que ainda existe
muito mais a ser dito. Eu sou um continente a ser
explorado. E como falou Rique, anos depois do que
vivenciamos, num momento em que o encontrei
novamente, tudo o que você é, com suas falhas e
vivências, te torna especial. Você é um universo,
neste caso e agora o meu sol. E talvez eu queira
orbitar ao seu redor, como um planeta.
Mas isso é caso para outra hora, antes de
tudo isso, eu tenho outro episódio da minha vida a
narrar. A luxúria sempre foi minha companheira,
voluptuosos os homens me serviram, e hoje estou
onde estou por minha culpa e por seus caprichos,
mas tudo bem é divertido reviver cada parte do
meu passado como se eu fosse um expectador,
voyeur dos meus próprios atos.

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