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Informativo 645-STJ
Márcio André Lopes Cavalcante

ÍNDICE
DIREITO ADMINISTRATIVO
CONCURSO PÚBLICO
 A candidata que está amamentando (lactante) na época do curso de formação para o cargo de agente penitenciário
tem direito de fazer o curso em um período posterior.

DIREITO CIVIL
DIREITOS DA PERSONALIDADE
 Não se exige que o indivíduo tenha deixado um documento escrito dizendo que desejava ser submetido à criogenia,
podendo essa vontade ser provada por outros meios, como a declaração do familiar mais próximo.

PROPRIEDADE
 A estipulação prevista no contrato social de integralização do capital social por meio de imóvel indicado pelo sócio,
por si, não opera a transferência da propriedade do bem para a sociedade empresarial.

DIREITO EMPRESARIAL
RECUPERAÇÃO JUDICIAL
 Os créditos decorrentes do pensionamento fixado em sentença judicial podem ser equiparados àqueles derivados
da legislação trabalhista para fins de inclusão no quadro geral de credores de sociedade em recuperação judicial.

DIREITO PROCESSUAL CIVIL


SUSPENSÃO DO PROCESSO
 A suspensão do processo em razão da paternidade do único patrono da causa se opera tão logo ocorra o nascimento
ou adoção, não sendo necessária a comunicação imediata ao juízo

HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS
 Honorários devem seguir regra objetiva; equidade é critério subsidiário.

AÇÃO RESCISÓRIA
 Quando o inciso VII do art. 966 do CPC/2015 fala que é possível o ajuizamento de ação rescisória com base em
“prova nova”, isso abrange também a prova testemunhal.

AGRAVO DE INSTRUMENTO
 Cabe agravo de instrumento contra decisão interlocutória que fixa data da separação de fato do casal para efeitos
da partilha dos bens.
 É cabível agravo de instrumento contra decisão interlocutória que defere ou indefere a distribuição dinâmica do
ônus da prova ou quaisquer outras atribuições do ônus da prova distinta da regra geral.

PRECATÓRIOS
 Incidem juros da mora entre a data da realização dos cálculos e a da requisição ou do precatório.

EXECUÇÃO FISCAL
 Juiz pode deferir consulta ao CCS na execução fiscal em busca de bens do devedor.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 1


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DIREITO PENAL
FURTO DE ENERGIA ELÉTRICA
 O pagamento do débito oriundo de furto de energia elétrica antes do recebimento da denúncia não é causa de
extinção da punibilidade.

CRIME DO ART. 218-B DO CP


 Cliente pode ser punido sozinho; a vulnerabilidade é relativa; o tipo penal não exige habitualidade, comportando a
aplicação da continuidade delitiva.

DIREITO TRIBUTÁRIO
ICMS
 O aproveitamento, pelo adquirente, do ICMS destacado na nota fiscal de compra de mercadorias de contribuinte
incluído no Regime Especial de Fiscalização sujeita-se à prova da arrecadação.

DIREITO PREVIDENCIÁRIO
PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR
 É válida a exigência de pagamento de joia para inscrição de beneficiário no plano de previdência complementar
para fazer jus à pensão por morte.

DIREITO ADMINISTRATIVO

CONCURSO PÚBLICO
A candidata que está amamentando (lactante) na época do curso de formação para o cargo de
agente penitenciário tem direito de fazer o curso em um período posterior

Importante!!!
É constitucional a remarcação de curso de formação para o cargo de agente penitenciário
feminino de candidata que esteja lactante à época de sua realização, independentemente da
previsão expressa em edital do concurso público.
STJ. 1ª Turma. RMS 52.622-MG, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 26/03/2019 (Info 645).

Imagine a seguinte situação hipotética:


Maria inscreveu-se no concurso Agente de Polícia Federal.
Foi aprovada nas fases anteriores do certame e convocada para o teste físico.
Ocorre que Maria encontrava-se temporariamente incapacitada para realizar atividades físicas em virtude
de doença (epicondilite gotosa no cotovelo esquerdo), comprovada por atestado médico.
Maria formulou requerimento administrativo solicitando que fosse designada nova data para a realização
do teste físico, o que foi indeferido pela Administração Pública com base em uma previsão no edital que
negava esta possibilidade.
Diante disso, Maria impetrou mandado de segurança.

Segundo a jurisprudência do STF, Maria terá direito de fazer a prova de segunda chamada? O(a)
candidato(a) doente no dia do teste físico tem direito de fazer prova de segunda chamada?
NÃO.

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Os candidatos em concurso público NÃO têm direito à prova de segunda chamada nos testes de aptidão
física em razão de circunstâncias pessoais, ainda que de caráter fisiológico ou de força maior, salvo se
houver previsão no edital permitindo essa possibilidade.
STF. Plenário. RE 630733/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 15/5/2013 (repercussão geral) (Info 706).

Principais argumentos do STF para decidir assim:


• o princípio da isonomia estaria violado se a Administração Pública beneficiasse determinado indivíduo
em detrimento de outro nas mesmas condições;
• o princípio da isonomia não possibilita que o candidato tenha direito de realizar prova de segunda
chamada em concurso público por conta de situações individuais e pessoais, especialmente porque o
edital estabelece tratamento isonômico a todos os outros candidatos;
• além disso, a análise da presente questão não se limita ao exame do princípio da isonomia, devendo ser
considerados outros princípios envolvidos;
• o concurso público é um processo de seleção que deve ser realizado com transparência, impessoalidade,
igualdade e com o menor custo para os cofres públicos. Dessa maneira, não é razoável a movimentação
de toda a máquina estatal para privilegiar determinados candidatos que se encontrem impossibilitados de
realizar alguma das etapas do certame por motivos exclusivamente individuais;
• ao se permitir a remarcação do teste de aptidão física nessas circunstâncias, está se possibilitando que
o término do concurso seja adiado inúmeras vezes, sem limites, considerando que, naquele determinado
dia marcado, algum candidato poderia ter problemas de ordem individual, o que causaria tumulto e
dispêndio desnecessário para a Administração;
• assim, não é razoável que a Administração fique à mercê de situações adversas para colocar fim ao
certame, de modo a deixar os concursos em aberto por prazo indeterminado.

E no caso da GESTANTE? E se Maria estivesse GRÁVIDA no momento do teste físico e, por conta disso,
não pudesse fazer a prova. Neste caso ela teria direito à prova de segunda chamada? A candidata
gestante tem direito à remarcação do teste de aptidão física?
SIM. O STF afirmou que a candidata que esteja gestante no dia do teste físico possui o direito de fazer a
prova em uma nova data no futuro.

Mesmo que o edital proíba expressamente isso? Mesmo que o edital diga que não haverá remarcação
do teste físico em nenhuma hipótese?
SIM. Mesmo que o edital proíba expressamente a gestante terá direito à remarcação do teste.
Foi o que decidiu o STF, fixando a seguinte tese:
É constitucional a remarcação do teste de aptidão física de candidata que esteja grávida à época de sua
realização, independentemente da previsão expressa em edital do concurso público.
STF. Plenário. RE 1058333/PR, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 21/11/2018 (repercussão geral).

E se a candidata já tivesse tido filho, mas ainda estivesse em licença-maternidade, ela também teria
direito à prova de segunda chamada? Imagine a seguinte situação hipotética:
Gisele inscreveu-se no concurso para o cargo de Agente de Segurança Penitenciário Feminino.
A candidata foi aprovada em todas as provas.
Gisele, que estava grávida, deu à luz uma menina em 24 de fevereiro.
Algum tempo depois, a Administração Pública convocou Gisele e os demais aprovados para o curso de
formação, que foi marcado para iniciar no dia 20 de março.
Gisele formulou requerimento administrativo argumentando que estava amamentando e, em razão disso,
pediu que fosse designada nova data para que ela realizasse o curso, considerando que este exigia também
esforço físico.
O pleito foi indeferido pela Administração Pública com base em uma previsão no edital que negava esta
possibilidade.
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Diante disso, Gisele impetrou mandado de segurança.

Gisele terá direito à remarcação do curso de formação? A candidata que está amamentando (lactante)
na época do curso de formação para o cargo de agente penitenciário tem direito de fazer o curso em um
período posterior?
SIM.
É constitucional a remarcação de curso de formação para o cargo de agente penitenciário feminino de
candidata que esteja lactante à época de sua realização, independentemente da previsão expressa em
edital do concurso público.
STJ. 1ª Turma. RMS 52.622-MG, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 26/03/2019 (Info 645).

Apesar de a hipótese não ser exatamente igual ao que decidiu o STF no RE 1058333/PR, o STJ entendeu
que as premissas estabelecidas naquele julgamento são plenamente aplicáveis ao caso concreto.
Com efeito, a candidata, ao ser convocada para o Curso de Formação, encontrava-se em licença
maternidade, com apenas um mês de nascimento da sua filha, período em que sabidamente todas as
mulheres estão impossibilitadas de praticar atividades físicas, estando totalmente voltadas para
amamentação e cuidados com o recém-nascido.
Também nessa hipótese devem ser observados os direitos destacados pelo STF no RE 1058333/PR e que
são constitucionalmente protegidos (saúde, maternidade, família e planejamento familiar), merecendo a
candidata lactante o mesmo amparo estabelecido pelo Supremo para as gestantes.

DIREITO CIVIL

DIREITOS DA PERSONALIDADE
Não se exige que o indivíduo tenha deixado um documento escrito dizendo que desejava ser
submetido à criogenia, podendo essa vontade ser provada por outros meios, como a declaração
do familiar mais próximo

Importante!!!
Não há exigência de formalidade específica acerca da manifestação de última vontade do
indivíduo sobre a destinação de seu corpo após a morte, sendo possível a submissão do
cadáver ao procedimento de criogenia em atenção à vontade manifestada em vida.
A criogenia (ou criopreservação) é a técnica de congelamento do corpo humano após a morte,
em baixíssima temperatura, a fim de conservá-lo, com o intuito de reanimação futura da
pessoa caso sobrevenha alguma importante descoberta científica que possibilite o seu retorno
à vida. Em outras palavras, a criogenia consiste no congelamento de cadáveres a baixas
temperaturas, com a finalidade de que, com os possíveis avanços da ciência, sejam, um dia,
ressuscitados.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.693.718-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 26/03/2019 (Info 645).

Imagine a seguinte situação hipotética:


João faleceu, deixando duas filhas: Carla e Larissa.
Carla morava em Porto Alegre (RS) e Larissa vivia no Rio de Janeiro (RJ) com o pai (João).
Logo após a morte, Larissa avisou sua irmã que o desejo de João era o de que seu corpo fosse submetido
ao procedimento de congelamento (criogenia). Por isso, Larissa explicou que já havia providenciado os

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preparativos para a realização da criogenia, por intermédio da empresa Rio Pax, localizada na cidade do
Rio de Janeiro/RJ, para posterior traslado do corpo aos Estados Unidos, onde ficaria congelado.
Carla não concordou e afirmou que essa ideia não fazia sentido. Disse, ainda, que o pai nunca lhe contou
isso e que não deixou nada assinado manifestando esse suposto desejo.
Diante disso, Carla ajuizou ação ordinária contra Larissa com o objetivo de impedir a realização da
criogenia, buscando, em consequência, o sepultamento do corpo de seu pai ao lado de sua ex-esposa no
cemitério.
Larissa contestou afirmando que seu pai era uma pessoa aficionada por tecnologia e sempre acreditou na
criogenia. Argumentou também que a autora não tinha muito contato com o genitor e que ele não deixou
seu desejo por escrito porque nunca acreditou que pudesse haver algum empecilho por parte da outra filha.

A discussão jurídica travada neste caso reside, portanto, no seguinte ponto: para que um morto seja
submetido à criogenia, é necessário que ele tenha deixado uma declaração escrita informando esse seu
desejo? É necessária alguma formalidade específica?
NÃO.
Não há exigência de formalidade específica acerca da manifestação de última vontade do indivíduo
sobre a destinação de seu corpo após a morte, sendo possível a submissão do cadáver ao procedimento
de criogenia em atenção à vontade manifestada em vida.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.693.718-RJ, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 26/03/2019 (Info 645).

Vamos entender os argumentos jurídicos, fazendo abaixo um resumo do brilhante voto do Min. Marco
Aurélio Bellize.

Hipóteses mais comuns de destinação dos restos mortais


No Brasil, a forma mais comum de destinação dos restos mortais de um ser humano é o sepultamento em
túmulo, com o respectivo enterro (inumação) no cemitério.
Existem, contudo, outras formas de destinação do corpo após a morte do indivíduo.
Como exemplos mais comuns, podemos citar:
a) a cremação (incineração do cadáver com posterior entrega das cinzas aos familiares em urna
apropriada), regulada pelo art. 77, § 2º, da Lei nº 6.015/73 (Lei de Registros Públicos):
Art. 77 (...)
§ 2º A cremação de cadáver somente será feita daquele que houver manifestado a vontade de ser
incinerado ou no interesse da saúde pública e se o atestado de óbito houver sido firmado por 2
(dois) médicos ou por 1 (um) médico legista e, no caso de morte violenta, depois de autorizada
pela autoridade judiciária.

b) a destinação gratuita do próprio corpo, após a morte, para fins científicos ou altruísticos, nos termos
do art. 14 do Código Civil:
Art. 14. É válida, com objetivo científico, ou altruístico, a disposição gratuita do próprio corpo, no
todo ou em parte, para depois da morte.
Parágrafo único. O ato de disposição pode ser livremente revogado a qualquer tempo.

c) a destinação do cadáver não reclamado às escolas de Medicina, hipótese disciplinada pela Lei nº
8.501/92, cujo art. 2º preconiza:
Art. 2º O cadáver não reclamado junto às autoridades públicas, no prazo de trinta dias, poderá ser
destinado às escolas de medicina, para fins de ensino e de pesquisa de caráter científico.

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Hipóteses menos tradicionais


Existem também algumas situações mais diferentes das tradicionais, verificadas em diversas partes do
mundo, e que não são previstas expressamente na legislação brasileira:
• a “resomação” ou “biocremação”: processo em que, utilizando-se água superaquecida e hidróxido de
potássio, o cadáver é liquefeito, sobrando apenas os ossos, os quais são cremados e devolvidos aos
familiares em uma urna:

• os “recifes eternos” (eternal reefs): procedimento em que se misturam os restos mortais de um indivíduo
com cimento ecológico para criar formações de recifes artificiais no fundo do mar;

• a “plastinação”: procedimento que, semelhante à mumificação, consiste em preservar o corpo em uma


forma semirreconhecível. Segundo informações obtidas no site www.hypescience.com, essa técnica foi
inventada pelo anatomista Gunther von Hagens, sendo “usada em escolas de medicina e laboratórios de
anatomia para preservar amostras dos órgãos para a educação. Mas von Hagens tomou o processo um
passo adiante, e criou exposições de corpos plastinados como se estivessem congelados no meio de suas
atividades cotidianas. Segundo o Instituto de Plastinação, milhares de pessoas se inscreveram para doar
seus corpos para a educação ou exposição”.

Criogenia
Outra forma de destinação do corpo humano para depois da morte não prevista em nossa legislação que
vem ganhando muitos adeptos no mundo todo é a criogenia.
A criogenia (ou criopreservação) é a técnica de congelamento do corpo humano após a morte, em
baixíssima temperatura, a fim de conservá-lo, com o intuito de reanimação futura da pessoa caso
sobrevenha alguma importante descoberta científica que possibilite o seu retorno à vida.

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Em outras palavras, a criogenia consiste no congelamento de cadáveres a baixas temperaturas, com a


finalidade de que, com os possíveis avanços da ciência, sejam, um dia, ressuscitados.
Assim, quando o paciente é declarado morto, os médicos tentam evitar a deterioração do corpo,
injetando-lhe medicamentos específicos, e se utilizando de máquinas que mantém a circulação do sangue
e a oxigenação do corpo.
O corpo é envolto em uma manta térmica especial, que ajuda a mantê-lo frio, e transportado até a clínica
em temperaturas baixas, que fazem com que o cérebro exija menos oxigênio e mantenha os tecidos vivos
por mais tempo.
Na clínica, o sangue do paciente é retirado ao mesmo tempo em que, por outro tubo, é inserido o líquido
crioprotetor, uma substância química à base de glicerina. O líquido substitui outros compostos
intracelulares, evitando que cristais de gelo se formem dentro das células. Depois de injetadas as
substâncias, o corpo é direcionado para uma cabine com gás nitrogênio circulante. Lá, fica esfriando por
cerca de três horas para assegurar que todas as partes do corpo serão congeladas por igual. No final do
processo, o paciente estará completamente vitrificado.
Em seguida, o corpo é colocado em um saco plástico protetor e imerso em um cilindro de nitrogênio
líquido, onde é monitorado. O corpo, então, repousará em tal cilindro, podendo ser visitado pela família
até que a ciência descubra um modo de recuperá-lo.

Vale ressaltar que os familiares do falecido que está em criogenia podem visitar o corpo no instituto onde
ele fica armazenado (Cryonics Institute), havendo, inclusive, um local para depósito de flores, como em
um cemitério.
Há, atualmente, cerca de 250 pessoas congeladas em tubos de nitrogênio, conforme informações da Alcor
Life Extension Foundation, fundação destinada à pesquisa e realização da criogenia, bem como do Cryonics
Institute, instituto que realiza o procedimento de criopreservação, ambos localizados nos Estados Unidos.

Criogenia: lacuna normativa


O ordenamento jurídico pátrio não possui previsão legal sobre a utilização da criogenia em corpo humano
post mortem. Também não há qualquer vedação no nosso sistema jurídico em relação à adoção desse
procedimento. Trata-se, assim, de verdadeira lacuna normativa.

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Nessas hipóteses, para viabilizar a integração da norma jurídica, o art. 4º da Lei de Introdução às Normas
do Direito Brasileiro - LINDB (Decreto-lei nº 4.657/42) estabelece a seguinte regra:
Art. 4º Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os
princípios gerais de direito.

Direito ao cadáver
O ordenamento jurídico confere certa margem de liberdade à pessoa para dispor sobre seu patrimônio
jurídico após a morte, assim como protege essa vontade e assegura que seja observada.
Existe, portanto, uma autonomia para que a pessoa indique, em vida, o que deve ser feito com seu corpo
após a sua morte. Esse direito que a pessoa tem é chamado de “direito ao cadáver”.
O direito ao cadáver é uma vertente do direito ao próprio corpo, sendo considerado, portanto, como um
desdobramento do direito de personalidade. Nesse sentido:
“Como prolongamento do direito ao corpo, e em nosso entender, sob a mesma base, encontra-se
o direito da pessoa de dispor quanto ao destino do próprio cadáver, devendo ser respeitada a sua
vontade pela coletividade, salvo se contrária à ordem pública.” (BITTAR, Carlos Alberto. Os direitos
da personalidade. 7ª ed. Atualizada por Eduardo Carlos Bianca Bittar. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2004, p. 85-86)

Por força do direito ao cadáver, a pessoa tem a possibilidade de dizer de qual modo deseja que seu corpo
seja sepultado (ex: se cremado, enterrado etc.), bem como pode autorizar a doação do seu corpo morto,
no todo ou em partes.

Criogenia está protegida pelo direito ao cadáver


Com isso, conclui-se que o procedimento da criogenia encontra proteção jurídica, na medida em que o
indivíduo tem autonomia para escolher a destinação de seu corpo e não há, na lei, uma proibição quanto
à escolha por esse procedimento.
Vale ressaltar, ainda, que, além de não haver proibição na lei, a criogenia não ofende a moral e os bons
costumes.

Direito ao cadáver não é de titularidade dos herdeiros do falecido, mas pode ser por estes defendido
Os familiares ou herdeiros do morto não são os titulares do direito ao cadáver. No entanto, possuem
capacidade jurídica de fato para exercer a sua proteção considerando a impossibilidade do falecido de
defender esse seu direito.
Em casos envolvendo a tutela de direitos da personalidade do indivíduo post mortem (direito ao cadáver),
o ordenamento jurídico legitima os familiares mais próximos a atuarem em favor dos interesses deixados
pelo de cujus. São exemplos dessa legitimação as normas insertas nos arts. 12, parágrafo único, e 20,
parágrafo único, do Código Civil.
Assim, a filha do falecido tem legitimidade para defender a vontade manifestada por seu pai no sentido
de ser submetido à criogenia.

Ok. É possível que o indivíduo declare em vida que deseja que seu corpo seja submetido à criogenia. No
entanto, a pergunta que vem em seguida é a seguinte: é necessário que o indivíduo, em vida, tenha feito
uma manifestação escrita nesse sentido?
NÃO. Embora seja recomendável, a fim de evitar futuros litígios entre os familiares, não se exige que a
pessoa tenha deixado por escrito a vontade de ser cremada após a morte, isto é, não há exigência legal de
que essa manifestação de vontade seja formalizada por meio de escritura pública, testamento ou outro
documento correlato, sobretudo porque na nossa cultura não é de praxe deixar formalizado esse tipo de
última vontade.

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Com base em que se conclui que não é necessária manifestação escrita neste caso?
Com base naquilo que a Lei dos Registros Públicos prevê a respeito da cremação:
Art. 77 (...)
§ 2º A cremação de cadáver somente será feita daquele que houver manifestado a vontade de ser
incinerado ou no interesse da saúde pública e se o atestado de óbito houver sido firmado por 2
(dois) médicos ou por 1 (um) médico legista e, no caso de morte violenta, depois de autorizada
pela autoridade judiciária.

A LRP não exige que o indivíduo tenha deixado um documento escrito dizendo que desejava ser cremado.
Dessa maneira, como a Lei não exige uma forma especial, deve-se concluir que é possível aferir a vontade
do indivíduo, após o seu falecimento, por quaisquer outros meios de prova legalmente admitidos (ex:
testemunhas). Esse mesmo raciocínio da cremação deve ser aplicado para a criogenia.

Em caso de ausência de manifestação expressa, deve-se dar prevalência à palavra dos familiares
próximos ao morto
Na falta de manifestação expressa deixada pelo indivíduo em vida acerca da destinação de seu corpo após
a morte, presume-se que sua vontade seja aquela apresentada por seus familiares mais próximos.
Os familiares mais próximos podem traduzir a expressão da vontade da pessoa no sentido de ser
submetida ao procedimento da criogenia após o seu falecimento.

Voltando ao nosso exemplo:


Tanto a autora como a ré possuem o mesmo grau de parentesco com o falecido (são filhas). No entanto,
Larissa morava sozinha com seu pai há muitos anos, sendo razoável concluir, diante das particularidades
fáticas do caso, que a sua manifestação é a que traduz a real vontade de seu genitor em relação à
destinação de seus restos mortais.

PROPRIEDADE
A estipulação prevista no contrato social de integralização do capital social
por meio de imóvel indicado pelo sócio, por si, não opera a transferência
da propriedade do bem para a sociedade empresarial

O registro do título translativo no Cartório de Registro de Imóveis como condição


imprescindível à transferência de propriedade de bem imóvel entre vivos propugnada pela lei
civil não se confunde, tampouco pode ser substituído para esse efeito, pelo registro do
contrato social na Junta Comercial.
O contrato social que estabelece que a integralização do capital social será feita por meio da
transferência de um imóvel pelo sócio, depois de ser devidamente inscrito no Registro Público
de Empresas Mercantis (da Junta Comercial), torna-se um título translativo, ou seja, um título
que serve para transferir a propriedade imóvel, mas desde que seja levado a registro no
cartório de Registro de Imóveis, conforme determina o caput do art. 1.245 do CC.
Enquanto não for feito o registro do título translativo (contrato social) no Cartório de Registro
de Imóveis, o bem com o qual se deseja fazer a integralização não compõe ainda o patrimônio
da sociedade empresarial.
Ex: o contrato social previu que um dos sócios integralizaria o capital social transferindo
imóvel de sua propriedade para a sociedade empresária; mesmo após esse contrato social ser
registrado na Junta Comercial, o bem ainda não foi transferido; exige-se ainda o registro desse
contrato social no Cartório de Registro de Imóveis.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.743.088-PR, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 12/03/2019 (Info 645).

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Imagine a seguinte situação hipotética:


João e Pedro decidiram montar uma loja de sapatos. Para isso, resolveram constituir uma sociedade
limitada, cada um com 50% do capital social (JP sapatos Ltda.).
O contrato social previu que o capital da sociedade seria de R$ 200 mil.
No instrumento, ficou acertado que João integralizaria parte do capital social em dinheiro, ou seja,
transferiria R$ 100 mil para a conta corrente da empresa.
O contrato social previu ainda que Pedro integralizaria a outra parte transferindo para o patrimônio da
empresa um imóvel seu (sala comercial nº 320, do edifício Empresarial), avaliado em R$ 100 mil.
O referido contrato social foi registrado na Junta Comercial do Estado.
Vale ressaltar que a transferência do imóvel para a sociedade limitada não foi registrada no Cartório de
Registro de Imóveis.

Execução contra Pedro


Cerca de um ano depois da constituição da sociedade, a ex-mulher de Pedro ajuizou contra ele uma
execução cobrando débitos de pensão alimentícia.
O juiz determinou a penhora do imóvel (sala comercial nº 320 do edifício Empresarial).
A JP sapatos Ltda. apresentou embargos de terceiro alegando que o imóvel penhorado é seu, tendo sido
objeto de integralização de seu capital social feita por um de seus sócios e que, portanto, foi incorporado
em seu patrimônio.

Os embargos de terceiro deverão ser julgados procedentes? A constituição da sociedade empresarial,


registrada na Junta Comercial, com a estipulação de integralização do capital social por meio do imóvel
indicado pelo sócio é suficiente para operar a transferência da propriedade?
NÃO.
O registro na Junta Comercial dos atos constitutivos da empresa, com a integralização do capital social por
meio do imóvel, não é causa suficiente para a transferência da propriedade imobiliária.
A estipulação prevista no contrato social de integralização do capital social por meio de imóvel
devidamente individualizado, indicado pelo sócio, por si, não opera a transferência de propriedade do
bem à sociedade empresarial.

Capital social
Capital social é a soma dos recursos que os sócios se comprometem a transferir do seu patrimônio
particular para a formação do patrimônio da sociedade.
Na sociedade empresária, os sócios podem se comprometer a transferir dinheiro ou outros bens (ex:
imóveis, joias etc.) para a formação do capital social.
O contrato social deverá prever o capital da sociedade, a quota de cada sócio no capital social e o modo
de realizá-la (art. 997, III e IV, do CC).

Subscrição x integralização
• Subscrição do capital social: é o ato por meio do qual o indivíduo se compromete a contribuir com
determinado valor (em dinheiro ou bens) para a formação do capital social, recebendo da sociedade, em
contrapartida, uma participação societária.
• Integralização do capital social: é o ato por meio do qual o sócio efetivamente transfere para a sociedade
o valor pelo qual se comprometeu na subscrição. O sócio que não integraliza, parcial ou integralmente, o
capital é chamado de sócio remisso (art. 1.004, parágrafo único, do CC).

Integralização deve ser feita segundo as regras da lei civil


Para que haja uma integralização de bens válida e eficaz, é necessário que se observem as regras previstas
na lei civil para a transferência da propriedade. Isso significa que, em se tratando de bem imóvel, a

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incorporação do bem à sociedade empresarial terá que seguir, obrigatoriamente, aquilo que determina o
art. 1.245 do Código Civil:
Art. 1.245. Transfere-se entre vivos a propriedade mediante o registro do título translativo no
Registro de Imóveis.
§ 1º Enquanto não se registrar o título translativo, o alienante continua a ser havido como dono
do imóvel.
(...)

Desse modo, a lei civil exige, como condição imprescindível para que ocorra a transferência da
propriedade do imóvel, que seja feito o registro do título translativo no Registro de Imóveis. Essa
providência não pode ser substituída pelo mero registro do contrato social na Junta Comercial.
A inscrição do contrato social no Registro Público de Empresas Mercantis, a cargo das Juntas Comercias,
destina-se à constituição formal da sociedade empresarial, fazendo com que ela adquira personalidade
jurídica própria. Não serve, contudo, como forma de transmissão da propriedade imobiliária.

Contrato social registrado é título translativo que deve ser levado a registro no cartório de RI
O contrato social que estabelece que a integralização do capital social será feita por meio da transferência
de um imóvel pelo sócio, depois de ser devidamente inscrito no Registro Público de Empresas Mercantis
(da Junta Comercial), torna-se um título translativo, ou seja, um título que serve para transferir a
propriedade imóvel, mas desde que seja levado a registro no cartório de Registro de Imóveis, conforme
determina o caput do art. 1.245 do CC.
É o que prevê também o art. 64 da Lei nº 8.934/94, que dispõe sobre o Registro Público de Empresas
Mercantis:
Art. 64. A certidão dos atos de constituição e de alteração de sociedades mercantis, passada pelas
juntas comerciais em que foram arquivados, será o documento hábil para a transferência, por
transcrição no registro público competente, dos bens com que o subscritor tiver contribuído para
a formação ou aumento do capital social.

Portanto, enquanto não for feito o registro do título translativo (contrato social) no Cartório de Registro
de Imóveis, o bem com o qual se deseja fazer a integralização não compõe ainda o patrimônio da
sociedade empresarial.

Em suma:
O registro do título translativo no Cartório de Registro de Imóveis como condição imprescindível à
transferência de propriedade de bem imóvel entre vivos propugnada pela lei civil não se confunde,
tampouco pode ser substituído para esse efeito, pelo registro do contrato social na Junta Comercial.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.743.088-PR, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 12/03/2019 (Info 645).

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DIREITO EMPRESARIAL

RECUPERAÇÃO JUDICIAL
Os créditos decorrentes do pensionamento fixado em sentença judicial podem ser equiparados
àqueles derivados da legislação trabalhista para fins de inclusão no quadro geral de credores de
sociedade em recuperação judicial

O pensionamento fixado em sentença judicial, decorrente de ação de indenização por acidente


de trânsito, pode ser equiparado ao crédito derivado da legislação trabalhista para fins de
inclusão no quadro geral de credores de sociedade em recuperação judicial.
Os créditos de natureza alimentar, ainda que não decorram especificamente de relação
jurídica submetida aos ditames da legislação trabalhista, devem receber tratamento análogo
para fins de classificação da ordem de pagamento nos processos de execução concursal.
Ex: João recebe pensão mensal vitalícia da sociedade empresária “X” em virtude de ter sido
atropelado pelo veículo da empresa; após vários meses de atraso nos pagamentos, a empresa
ingressou com pedido de recuperação judicial; o crédito de João será equiparado a crédito
trabalhista para fins de pagamento prioritário.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.799.041-PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 02/04/2019 (Info 645).

Imagine a seguinte situação hipotética:


O ônibus da empresa Pluma Turismo, ao dar ré, atropelou João, que estava passeando de bicicleta.
O acidente resultou na perda definitiva da capacidade para o trabalho da vítima.
João ajuizou ação de indenização por danos morais e materiais contra a empresa, tendo o juiz condenado
a ré a pagar pensão mensal vitalícia em favor do autor no valor de 2 salários-mínimos, nos termos do art.
950 do Código Civil:
Art. 950. Se da ofensa resultar defeito pelo qual o ofendido não possa exercer o seu ofício ou
profissão, ou se lhe diminua a capacidade de trabalho, a indenização, além das despesas do
tratamento e lucros cessantes até ao fim da convalescença, incluirá pensão correspondente à
importância do trabalho para que se inabilitou, ou da depreciação que ele sofreu.
Parágrafo único. O prejudicado, se preferir, poderá exigir que a indenização seja arbitrada e paga
de uma só vez.

A empresa vinha pagando normalmente essa pensão mensal, até que começou a enfrentar inúmeras
dificuldades financeiras e tornou-se inadimplente.
João ficou tentando receber, mas sem sucesso.
Cerca de 1 ano depois, a empresa ingressou com pedido de recuperação judicial.

Recuperação judicial
A recuperação judicial surgiu para substituir a antiga “concordata” e tem por objetivo viabilizar a
superação da situação de crise do devedor, a fim de permitir que a atividade empresária se mantenha e,
com isso, sejam preservados os empregos dos trabalhadores e os interesses dos credores.
A recuperação judicial consiste, portanto, em um processo judicial no qual será construído e executado
um plano com o objetivo de recuperar a empresa que está em vias de efetivamente ir à falência.
Logo, em vez de a empresa ir à falência (o que é nocivo para a economia, para os donos da empresa, para
os funcionários etc.), tenta-se dar um novo fôlego para a sociedade empresária, renegociando as dívidas
com os credores.

Fases da recuperação
De forma resumida, a recuperação judicial possui 3 fases:
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a) Postulação: inicia-se com o pedido de recuperação e vai até o despacho de processamento;


b) Processamento: vai do despacho de processamento até a decisão concessiva;
c) Execução: da decisão concessiva até o encerramento da recuperação judicial.

Habilitação dos créditos


Depois que a recuperação judicial é decretada ocorre a habilitação dos créditos que deverão ser pagos
pela empresa recuperanda.
Assim, as pessoas que tiverem créditos para receber da empresa em recuperação deverão apresentá-los
ao administrador judicial, na forma do art. 9º da Lei nº 11.101/2005.
A verificação dos créditos será realizada, então, primeiro pelo administrador judicial, com base nos livros
contábeis e nos documentos comerciais e fiscais do devedor e nos documentos que lhe forem
apresentados pelos credores. A partir desse trabalho inicial, confecciona-se um edital, cujo teor pode ser
alterado por novas habilitações ou divergências quanto aos créditos ali relacionados.

Classificação dos créditos


Os créditos sujeitos à recuperação judicial deverão ser agrupados em classes previstas no art. 83 da Lei nº
11.101/2005:
Art. 83. A classificação dos créditos na falência obedece à seguinte ordem:
I – os créditos derivados da legislação do trabalho, limitados a 150 (cento e cinqüenta) salários-
mínimos por credor, e os decorrentes de acidentes de trabalho;
II - créditos com garantia real até o limite do valor do bem gravado;
III – créditos tributários, independentemente da sua natureza e tempo de constituição, excetuadas
as multas tributárias;
IV – créditos com privilégio especial, a saber:
a) os previstos no art. 964 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002;
b) os assim definidos em outras leis civis e comerciais, salvo disposição contrária desta Lei;
c) aqueles a cujos titulares a lei confira o direito de retenção sobre a coisa dada em garantia;
d) aqueles em favor dos microempreendedores individuais e das microempresas e empresas de
pequeno porte de que trata a Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de 2006.
V – créditos com privilégio geral, a saber:
a) os previstos no art. 965 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002;
b) os previstos no parágrafo único do art. 67 desta Lei;
c) os assim definidos em outras leis civis e comerciais, salvo disposição contrária desta Lei;
VI – créditos quirografários, a saber:
a) aqueles não previstos nos demais incisos deste artigo;
b) os saldos dos créditos não cobertos pelo produto da alienação dos bens vinculados ao seu
pagamento;
c) os saldos dos créditos derivados da legislação do trabalho que excederem o limite estabelecido
no inciso I do caput deste artigo;
VII – as multas contratuais e as penas pecuniárias por infração das leis penais ou administrativas,
inclusive as multas tributárias;
VIII – créditos subordinados, a saber:
a) os assim previstos em lei ou em contrato;
b) os créditos dos sócios e dos administradores sem vínculo empregatício.

Esse crédito de João será classificado em qual inciso do art. 83 da Lei nº 11.101/2005?
No inciso I do art. 83 (equiparado a crédito trabalhista).

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O pensionamento fixado em sentença judicial, decorrente de ação de indenização por acidente de


trânsito, pode ser equiparado ao crédito derivado da legislação trabalhista para fins de inclusão no
quadro geral de credores de sociedade em recuperação judicial.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.799.041-PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 02/04/2019 (Info 645).

Créditos de natureza alimentar são equiparados a créditos trabalhistas


A Lei nº 11.101/2005 prevê que os credores titulares de créditos derivados da legislação do trabalho ou
decorrentes de acidentes de trabalho, tanto na recuperação judicial quanto na falência, formam uma
classe específica, detentora de preferência sobre os demais. É o que dispõem os arts. 41 e 83 do referido
diploma legal.
O STJ, por seu turno, tem entendido que créditos de natureza alimentar, ainda que não decorram
especificamente de relação jurídica submetida aos ditames da legislação trabalhista, devem receber
tratamento análogo para fins de classificação em processos de execução concursal.

Crédito trabalhista possui natureza alimentar, devendo haver uma uniformidade de tratamento
Existem várias espécies de verbas de natureza alimentar (exs: salários, aposentadoria, pensão alimentícia
etc.). Para o STJ, essas diversas espécies de verbas de natureza alimentar, por possuírem afinidade
ontológica, devem receber o mesmo tratamento para fins de falência e recuperação judicial.
Assim, mesmo que o inciso I do art. 83 fale apenas em “créditos derivados da legislação do trabalho”,
deve-se interpretar essa expressão de forma ampla, abrangendo os demais créditos de natureza
alimentar, dentre eles a pensão decorrente de indenização por ato ilícito.

Pensão vitalícia do art. 950 do CC possui natureza alimentar


A pensão vitalícia prevista no art. 950 do CC consiste em prestação de alimentos decorrentes da prática
de um ato ilícito, devendo corresponder aos ganhos que a vítima obteria caso sua capacidade para exercer
a profissão que desempenhava não tivesse sido tolhida pela conduta antijurídica imputada a seu causador.
Tendo isso em mente, não há dúvidas de que tal crédito detido ostenta natureza alimentar, considerando
que corresponde ao montante fixado à título de reparação pelo dano que ensejou a inaptidão para o
trabalho.

Tema correlato: créditos de honorários advocatícios são equiparados a créditos trabalhistas


Os créditos resultantes de honorários advocatícios (sucumbenciais ou contratuais) têm natureza alimentar
e são equiparados aos créditos trabalhistas para efeito de habilitação em falência, estando, portanto,
enquadrados no art. 83, I da Lei nº 11.101/2005.
STJ. Corte Especial. REsp 1152218-RS, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 7/5/2014 (recurso
repetitivo) (Info 540).

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 14


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DIREITO PROCESSUAL CIVIL

SUSPENSÃO DO PROCESSO
A suspensão do processo em razão da paternidade do único patrono da causa se opera tão logo
ocorra o nascimento ou adoção, não sendo necessária a comunicação imediata ao juízo

Importante!!!
Novo CPC
O art. 313, X, do CPC/2015 prevê que o advogado que se tornar pai tem direito à suspensão
dos prazos processuais desde que:
a) seja o único patrono da causa; e
b) tenha notificado seu cliente sobre esse fato.
O período de suspensão será de 8 dias, contado a partir da data do parto ou da concessão da
adoção.
Para que esse prazo de suspensão do processo se inicie, é necessário que o advogado informe
ao juízo que nasceu o seu filho? Somente após a comunicação ao juízo é que o processo será
suspenso?
NÃO. A suspensão do processo em razão da paternidade do único patrono da causa se opera
tão logo ocorra o fato gerador (nascimento ou adoção), independentemente da comunicação
imediata ao juízo.
Obs: a mesma conclusão acima exposta pode ser aplicada para o inciso IX do art. 313 do CPC.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.799.166-GO, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 02/04/2019 (Info 645).

Lei nº 13.363/2016
A Lei nº 13.363/2016 alterou o Estatuto da OAB e o CPC prevendo novos direitos e garantias para:
• a advogada gestante, lactante, que tiver dado à luz ou adotado uma criança; e
• ao advogado que se tornar pai.
Veja abaixo um quadro-resumo dos direitos que foram assegurados:
ADVOGADA(O) DIREITOS DURAÇÃO
1) Pode entrar nos tribunais sem ser Estes direitos perduram durante toda a
submetida a detectores de metais e gravidez.
aparelhos de raios X. Isso poderia
- gestante
prejudicar a saúde do feto.
2) Possui vaga reservada nas garagens
dos fóruns dos tribunais.
Perdura até 120 dias depois do parto
- lactante, Tem acesso a creche, onde houver, ou ou da adoção.
- adotante ou a local adequado ao atendimento das No caso de advogada lactante, o direito
- que der à luz necessidades do bebê. persiste enquanto ela estiver
amamentando.
Perdura durante toda a gravidez e até
- gestante, Tem preferência na ordem:
120 dias depois do parto ou da adoção.
- lactante, - das sustentações orais e
No caso de advogada lactante, o direito
- adotante ou - das audiências a serem realizadas a
persiste enquanto ela estiver
- que der à luz cada dia.
amamentando.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 15


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Tem direito à suspensão dos prazos O período de suspensão será de 30


- adotante ou processuais desde que: dias, contado a partir da data do parto
- que der à luz * seja a única patrona da causa; e ou da concessão da adoção.
* haja notificação por escrito ao cliente.
Tem direito à suspensão dos prazos O período de suspensão será de 8 dias,
- advogado que se processuais desde que: contado a partir da data do parto ou da
tornar pai * seja o único patrono da causa; e concessão da adoção.
* haja notificação ao cliente.

Suspensão do processo pelo nascimento do filho do único patrono da causa


O julgado que analisaremos agora está relacionado com essa suspensão dos prazos processuais explicada
nas duas últimas linhas da tabela acima e que se encontra prevista nos incisos IX e X do art. 313 do
CPC/2015:
Art. 313. Suspende-se o processo:
(...)
IX - pelo parto ou pela concessão de adoção, quando a advogada responsável pelo processo
constituir a única patrona da causa; (Incluído pela Lei nº 13.363/2016)
X - quando o advogado responsável pelo processo constituir o único patrono da causa e tornar-se
pai. (Incluído pela Lei nº 13.363/2016)

A duração da suspensão está disciplinada nos §§ 6º e 7º do art. 313:


Art. 313 (...)
§ 6º No caso do inciso IX, o período de suspensão será de 30 (trinta) dias, contado a partir da data
do parto ou da concessão da adoção, mediante apresentação de certidão de nascimento ou
documento similar que comprove a realização do parto, ou de termo judicial que tenha concedido
a adoção, desde que haja notificação ao cliente. (Incluído pela Lei nº 13.363/2016)
§ 7º No caso do inciso X, o período de suspensão será de 8 (oito) dias, contado a partir da data do
parto ou da concessão da adoção, mediante apresentação de certidão de nascimento ou
documento similar que comprove a realização do parto, ou de termo judicial que tenha concedido
a adoção, desde que haja notificação ao cliente. (Incluído pela Lei nº 13.363/2016)

Os incisos IX e X do art. 313 têm por objetivo dar concretude aos princípios constitucionais da proteção
especial à família e da prioridade absoluta assegurada à criança, na medida em que permite aos genitores
ou adotantes prestar toda a assistência necessária – material e imaterial – ao filho recém-nascido ou
adotado, além de possibilitar o apoio recíproco em prol do estabelecimento da nova rotina familiar que
se inaugura com a chegada do descendente.

Resumindo a hipótese do inciso X do art. 313:


O advogado que se tornar pai tem direito à suspensão dos prazos processuais desde que:
• seja o único patrono da causa; e
• haja notificação ao cliente.

O período de suspensão será de 8 dias, contado a partir da data do parto ou da concessão da adoção.
Assim, para gozar dessa verdadeira “licença-paternidade”, deverá o advogado responsável pelo processo
notificar o seu cliente e apresentar ao Juízo a respectiva prova do nascimento ou da adoção.

Imagine agora a seguinte situação hipotética:


Pedro ajuizou ação de obrigação de fazer contra uma empresa.
Dr. João é o único advogado de Pedro habilitado no processo.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 16


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Em 02/02, Dr. João foi intimado da decisão interlocutória que negou o pedido de tutela provisória
formulado pelo autor. Isso significa que Pedro possui 15 dias de prazo para interpor agravo de instrumento
contra a decisão.
Em 14/02, nasceu João Júnior, filho de Dr. João. No mesmo dia, Dr. João notificou Pedro informando sobre
o nascimento do filho. O advogado não informou, contudo, o juízo.
Em 23/02, após o término do prazo do § 7º do art. 313 do CPC, Dr. João apresentou a certidão de
nascimento do filho ao juízo e, em seguida, interpôs o agravo de instrumento contra a decisão
interlocutória, demonstrando, também no recurso, que houve a suspensão do processo durante 8 dias,
razão pela qual o agravo era tempestivo.
Apesar disso, o agravo foi considerado intempestivo porque, na visão do Tribunal de Justiça, a referida
causa suspensiva do processo deveria ter sido noticiada e requerida ao juízo dentro do prazo recursal. Em
outras palavras, o advogado deveria ter pedido a suspensão do processo tão logo a criança nasceu.

Agiu corretamente o TJ? Para que esse prazo de suspensão do processo se inicie, é necessário que o
advogado informe ao juízo que nasceu o seu filho? Somente após a comunicação ao juízo é que o processo
será suspenso?
NÃO.
A suspensão do processo em razão da paternidade do único patrono da causa se opera tão logo ocorra
o fato gerador (nascimento ou adoção), independentemente da comunicação imediata ao juízo.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.799.166-GO, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 02/04/2019 (Info 645).

A lei concede ao pai a faculdade de se afastar do trabalho para, tranquilamente, acompanhar o filho nos
seus primeiros dias de vida ou de convívio familiar. Logo, não é razoável lhe impor o ônus de atuar no
processo durante o gozo desse nobre benefício apenas para comunicar e justificar aquele afastamento.
O intuito do legislador, evidentemente, não é outro senão o de permitir que o genitor, durante aquele
período, possa se dedicar, exclusivamente, às necessidades da criança e, ao fim e ao cabo, da própria
família que se amplia.
Logo, se o advogado tiver condições de comunicar ao juízo assim que o seu filho nascer, isso será
recomendável, como um ato de presteza. No entanto, a lei não impõe essa conduta ao advogado como
sendo um ônus. Por força da lei, a suspensão do processo pela paternidade tem início imediatamente à
data do nascimento ou adoção, ainda que somente depois o advogado comunique o juiz sobre o
nascimento.
Essa é a posição também da doutrina:
“(...) o termo inicial da suspensão não é a decisão do juiz a deferindo ou homologando o pedido
do advogado da parte, mas do nascimento de seu filho, de forma que mesmo sendo depois desse
momento comunicado o juízo tal fato, a suspensão dar-se-á de forma retroativa, ou seja, desde o
fato descrito no § 7° do art. 313 do CPC.” (NEVES, Daniel Assumpção Neves. Manual de Direito
Processual Civil. Salvador: Juspodivm, 2019, p. 580).

Se o(a) advogado(a) não informou ao juízo o nascimento e no período da “licença” ocorreu algum ato
processual relevante, o(a) causídico(a) irá simplesmente explicar que o processo estava suspenso e pedirá
a repetição do ato, conforme explica Fredie Didier Jr.:
“Assim como nas hipóteses de suspensão por convenção das partes, morte, perda da capacidade
e força maior, a paralisação do processo dar-se-á imediatamente após ocorrência do fato gerador
- o parto com nascimento do filho com vida ou concretização da adoção - e independentemente
da apresentação de qualquer documentação ou de decisão judicial. E não poderia ser diferente.
Basta imaginar o caso do rompimento da barragem da Samarco em 2015, em Minas Gerais (evento
extraordinário): os processos somente ficariam suspensos após a decisão judicial, certamente
proferida muitos dias ou meses depois do evento? Evidentemente que não.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 17


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Se no curso da "suspensão por maternidade" correr algum prazo ou for praticado algum ato que
pressupunha sua atuação (ex.: audiência), ao fim do período de suspensão bastará que a advogada
peticione nos autos, pedindo a devolução do prazo ou a repetição do ato, comprovando a
ocorrência do parto (com certidão de nascimento ou documento similar).
Nesse caso, a decisão do juiz que acolha o seu pleito terá eficácia retroativa, pois o processo já
estaria suspenso desde a data em que ocorreu o fato jurídico que deu ensejo à suspensão. A
suspensão deve retroagir à data do evento imprevisto. Deve-se considerar o processo suspenso
desde então.
Ao juiz cabe reconhecer a existência do fato jurídico processual e de seu efeito suspensivo do
processo desde a data da sua ocorrência. Partindo-se dessa premissa, há muito estabelecida pela
doutrina e jurisprudência para as causas de suspensão do processo, nada impede que a advogada
peticione nos autos em momento posterior, informando a suspensão ocorrida quando do
nascimento do seu filho.” (Curso de Direito Processual Civil. Vol. 1., 20ª ed. Salvador: JusPodivm,
2018, p. 863).

Obs: o caso concreto enfrentado pelo STJ envolvia o inciso X, no entanto, a mesma conclusão acima
exposta pode ser aplicada também para o inciso IX do art. 313 do CPC.

HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS
Honorários devem seguir regra objetiva; equidade é critério subsidiário

Os honorários advocatícios só podem ser fixados com base na equidade de forma subsidiária,
ou seja:
• quando não for possível o arbitramento pela regra geral; ou
• quando for inestimável ou irrisório o valor da causa.
Assim, o juízo de equidade na fixação dos honorários advocatícios somente pode ser utilizado
de forma subsidiária, quando não presente qualquer hipótese prevista no § 2º do art. 85 do
CPC.
STJ. 2ª Seção. REsp 1.746.072-PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, Rel. Acd. Min. Raul Araújo, julgado em
13/02/2019 (Info 645).

Imagine a seguinte situação hipotética:


A empresa CDM Ltda. ingressou com cumprimento de sentença contra o Banco do Brasil cobrando R$ 3
milhões.
O banco executado apresentou impugnação alegando que haveria excesso de execução (art. 525, § 1º, V,
do CPC).
Foi realizada perícia e constatou-se que o valor correto do débito era de R$ 1 milhão.
Com base no laudo pericial, o juiz acolheu a impugnação apresentada pelo Banco, reduzindo a execução.

Cabe a condenação em honorários advocatícios?


SIM. O juiz, ao acolher a impugnação, deverá condenar a empresa exequente ao pagamento de honorários
advocatícios em favor da instituição financeira.

O que fez o juiz?


Condenou a empresa a pagar R$ 5 mil reais de honorários advocatícios sucumbenciais em favor do banco.
O magistrado arbitrou os honorários neste valor com base na equidade, prevista no art. 85, § 8º do CPC:
Art. 85 (...)

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 18


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§ 8º Nas causas em que for inestimável ou irrisório o proveito econômico ou, ainda, quando o
valor da causa for muito baixo, o juiz fixará o valor dos honorários por apreciação equitativa,
observando o disposto nos incisos do § 2º.

O juiz explicou que, se ele condenasse a empresa ao pagamento dos honorários com base no § 2º do art.
85, essa condenação violaria os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, considerando que a
exequente seria obrigada a pagar 10% de R$ 2 milhões (proveito econômico obtido pelo banco). Logo, a
exequente seria condenada a pagar R$ 200 mil de honorários advocatícios para uma execução de R$ 1
milhão.

Agiu corretamente o juiz?


NÃO.
O CPC/2015 estabeleceu três importantes vetores interpretativos que buscam conferir maior segurança
jurídica e objetividade na fixação dos honorários advocatícios:
• Em primeiro lugar, estatuiu que os honorários serão pagos ao advogado do vencedor, ainda que este
também litigue em causa própria, pois constituem direito autônomo do profissional, de natureza
alimentar, com os mesmos privilégios dos créditos oriundos da legislação do trabalho, sendo vedada a
compensação em caso de sucumbência parcial.
• Em segundo lugar, reduziu as hipóteses nas quais cabe a fixação dos honorários de sucumbência por
equidade para quando for inestimável ou irrisório o proveito econômico ou, ainda, quando o valor da
causa for muito baixo (art. 85, § 8º). Percebe-se que o CPC/2015 sinaliza ao intérprete o desejo de objetivar
o processo de fixação do quantum da verba honorária.
• Em terceiro lugar, introduziu autêntica e objetiva “ordem de vocação” para fixação da base de cálculo
da verba honorária, na qual a subsunção do caso concreto a uma das hipóteses legais prévias impede o
avanço para outra categoria.

Regra geral e obrigatória


Desse modo, o § 2º do art. 85 do CPC/2015 traz uma regra geral e obrigatória. A regra geral e obrigatória
é a de que os honorários sucumbenciais devem ser fixados no patamar de 10% a 20%, conforme previsto
no § 2º do art. 85:
Art. 85 (...)
§ 2º Os honorários serão fixados entre o mínimo de dez e o máximo de vinte por cento sobre o
valor da condenação, do proveito econômico obtido ou, não sendo possível mensurá-lo, sobre o
valor atualizado da causa, atendidos:
I - o grau de zelo do profissional;
II - o lugar de prestação do serviço;
III - a natureza e a importância da causa;
IV - o trabalho realizado pelo advogado e o tempo exigido para o seu serviço.

Esse percentual de 10% a 20% deverá incidir:


1ª opção: sobre o valor da condenação;
2ª opção: sobre o proveito econômico objetivo; ou
3ª opção: sobre o valor atualizado da causa (caso não seja possível mensurar o proveito econômico).

Exceção: equidade
O § 8º do art. 85 prevê a fixação dos honorários com base na equidade.
Trata-se, contudo, de regra excepcional, de aplicação subsidiária, que somente incidirá nas causas em que:
• o proveito econômico obtido for inestimável ou irrisório; ou
• quando o valor da causa for muito baixo.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 19


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Assim, repetindo: a equidade prevista pelo § 8º do art. 85 somente pode ser utilizada subsidiariamente,
quando não possível o arbitramento pela regra geral ou quando inestimável ou irrisório o valor da causa.
A incidência, pela ordem, de uma das hipóteses do art. 85, § 2º, impede que o julgador prossiga com sua
análise a fim de investigar eventual enquadramento no § 8º do mesmo dispositivo, porque a subsunção
da norma ao fato já se terá esgotado.

Inestimável valor econômico


Quando o legislador utilizou a expressão “inestimável valor econômico” ele quis se referir às causas em
que não se vislumbra benefício patrimonial imediato, como, por exemplo, nas causas de estado e de
direito de família.

Não é possível aplicar os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade


Diante da existência de norma jurídica expressa no novo CPC, não pode o juiz negar vigência ao § 2º do
art. 85 valendo-se dos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade.

Em suma:
Os honorários advocatícios só podem ser fixados com base na equidade de forma subsidiária, ou seja:
• quando não for possível o arbitramento pela regra geral; ou
• quando for inestimável ou irrisório o valor da causa.
Assim, o juízo de equidade na fixação dos honorários advocatícios somente pode ser utilizado de forma
subsidiária, quando não presente qualquer hipótese prevista no § 2º do art. 85 do CPC.
STJ. 2ª Seção. REsp 1.746.072-PR, Rel. Min. Nancy Andrighi, Rel. Acd. Min. Raul Araújo, julgado em
13/02/2019 (Info 645).

Ordem de vocação (ordem de preferência) na fixação dos honorários:


1º) quando houver condenação em valores... Os honorários serão fixados entre 10% e
20% sobre o valor da condenação.
2º) quando não houver condenação em valores, mas for Os honorários serão fixados entre 10% e
possível mensurar o proveito econômico obtido pelo 20% sobre o proveito econômico obtido
vencedor... pelo vencedor.
3º) quando não houver condenação em valores e não for Os honorários serão fixados entre 10% e
possível mensurar o proveito econômico... 20% sobre o valor atualizado da causa.
4º) quando: Os honorários serão fixados por
• o proveito econômico obtido for inestimável ou irrisório; ou apreciação equitativa, observando o
• o valor da causa for muito baixo. disposto nos incisos do § 2º do art. 85.

Dessa feita, no caso concreto, os honorários sucumbenciais devem ser fixados realmente em 10% sobre o
proveito obtido pela instituição financeira.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 20


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AÇÃO RESCISÓRIA
Quando o inciso VII do art. 966 do CPC/2015 fala que é possível o ajuizamento de ação rescisória
com base em “prova nova”, isso abrange também a prova testemunhal

Importante!!!
Novo CPC
O art. 966, VII, do CPC/2015 prevê que cabe rescisória quando o autor obtiver, posteriormente
ao trânsito em julgado, “prova nova” cuja existência ignorava ou de que não pôde fazer uso,
capaz, por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável.
Quando esse inciso VII fala em prova nova, engloba não apenas a prova documental, mas
qualquer outra espécie de prova, inclusive a prova testemunhal.
Assim, no novo ordenamento jurídico processual, qualquer modalidade de prova, inclusive a
testemunhal, é apta a amparar o pedido de desconstituição do julgado rescindendo na ação
rescisória.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.770.123-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 26/03/2019 (Info 645).

Imagine a seguinte situação hipotética:


Em 2016, João ajuizou ação de usucapião buscando adquirir a propriedade de determinado imóvel.
O pedido foi julgado procedente e a sentença transitou em julgado em 2018.
Cerca de 1 ano depois (em 2019), Pedro ajuizou ação rescisória pedindo a desconstituição da decisão sob
o argumento de que, após o trânsito em julgado, surgiram três testemunhas (cuja existência se ignorava)
que sabem que João não teve a posse do imóvel pelo tempo exigido pela lei para a usucapião.
A ação rescisória foi fundamentada no art. 966, VII, do CPC/2015, que prevê o seguinte:
Art. 966. A decisão de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando:
(...)
VII - obtiver o autor, posteriormente ao trânsito em julgado, prova nova cuja existência ignorava
ou de que não pôde fazer uso, capaz, por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável;

O Tribunal de Justiça não conheceu da ação afirmando que testemunha nova não se amolda no conceito
de “prova nova” de que trata o inciso VII. A “prova nova” mencionada no inciso VII seria apenas o
documento novo.

A interpretação adotada pelo TJ está correta?


NÃO.
A prova testemunhal é uma espécie de prova admitida no nosso ordenamento jurídico, de modo que deve
ser incluída no conceito de “prova nova” a que se refere o art. 966, VII, do CPC/2015 para todos os efeitos.
Se compararmos a redação do CPC/2015 com a do Código passado, iremos constatar facilmente que a
intenção do legislador foi a de ampliar a abrangência da hipótese de cabimento descrita no inciso VII. Veja:
Como é atualmente (CPC/2015) Como era no CPC/1973
Art. 966. A decisão de mérito, transitada em Art. 485. A sentença de mérito, transitada em
julgado, pode ser rescindida quando: julgado, pode ser rescindida quando:
(...) (...)
VII - obtiver o autor, posteriormente ao trânsito VII - depois da sentença, o autor obtiver
em julgado, prova nova cuja existência ignorava ou documento novo, cuja existência ignorava, ou de
de que não pôde fazer uso, capaz, por si só, de lhe que não pôde fazer uso, capaz, por si só, de Ihe
assegurar pronunciamento favorável; assegurar pronunciamento favorável;

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 21


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Logo, de acordo com o novo ordenamento jurídico processual, qualquer modalidade de prova, inclusive a
testemunhal, é apta a amparar o pedido de desconstituição do julgado rescindendo.
Nesse sentido são as lições da doutrina abalizada:
“(...) Prova nova. O atual CPC é mais abrangente do que o CPC/1973, pois admite não só a
apresentação de documento novo, mas também de tudo que possa formar prova nova em relação
ao que constou da instrução no processo original. (...)”. (NERY e NERY. Código de processo civil
comentado. 16ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016, p. 2.060).

“(...) A segunda alteração diz com a substituição da expressão documento novo por prova nova.
Doutrina e jurisprudência já vinham admitindo tal amplitude à regra anterior. Assim, não apenas
a prova documental nova autorizará o ajuizamento da ação rescisória, como também a descoberta
de uma nova testemunha - desde que impossível sua oitiva antes do trânsito em julgado da decisão
rescindenda - ou a possibilidade de realização de perícia antes indisponível para a parte".
(AMARAL, Guilherme Rizzo. Comentários às alterações do novo CPC. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2015, p. 984).

“(...) O CPC/2015 ampliou a abrangência da prova, não apenas para admitir documento ou prova
que, em princípio, poderia fornecer igual ou maior grau de segurança quanto à demonstração do
acerto da afirmação da parte (algo que se poderia obter com a prova pericial, frente a
documental), mas admitiu a rescisória com base em prova nova, sem exceção. É possível,
portanto, o ajuizamento de ação rescisória com base em prova testemunhal nova, desde que
presentes as condições previstas no art. 966, VII, do CPC/2015 (...)” (MEDINA, José Miguel Garcia.
Novo Código de processo civil comentado. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015, p. 1.304-1.305)

Em suma:
No novo ordenamento jurídico processual, qualquer modalidade de prova, inclusive a testemunhal, é
apta a amparar o pedido de desconstituição do julgado rescindendo na ação rescisória.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.770.123-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 26/03/2019 (Info 645).

Vale ressaltar, por fim, que o prazo de 2 anos da ação rescisória com base no inciso VII somente se inicia
quando é descoberta a prova nova. Confira o que diz o CPC/2015:
Art. 975. O direito à rescisão se extingue em 2 (dois) anos contados do trânsito em julgado da
última decisão proferida no processo.
(...)
§ 2º Se fundada a ação no inciso VII do art. 966, o termo inicial do prazo será a data de descoberta
da prova nova, observado o prazo máximo de 5 (cinco) anos, contado do trânsito em julgado da
última decisão proferida no processo.

Este novo termo inicial para a rescisória em tais casos é uma outra novidade do CPC/2015.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 22


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AGRAVO DE INSTRUMENTO
Cabe agravo de instrumento contra decisão interlocutória que fixa
data da separação de fato do casal para efeitos da partilha dos bens

Importante!!!
Novo CPC
Cabe agravo de instrumento, nos termos do art. 1.015, II, do CPC/2015, contra decisão
interlocutória que fixa data da separação de fato do casal para efeitos da partilha dos bens.
Trata-se de decisão parcial de mérito, considerando que é uma decisão que resolve uma
parcela do pedido de partilha de bens.
Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias que versarem sobre:
II - mérito do processo;
STJ. 3ª Turma. REsp 1.798.975-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 02/04/2019 (Info 645).

Imagine a seguinte situação hipotética:


João e Maria eram casados. O relacionamento não deu mais certo e houve a separação de fato, ou seja, eles
deixaram de viver como marido e mulher, passando a morar em casas diferentes e perdendo o contato.
Cerca de 4 anos depois, João decidiu “regularizar” essa situação e ajuizou ação de divórcio e partilha de bens.
O juiz proferiu decisão interlocutória fixando o dia 30/08/2015 como sendo a data da separação de fato
do casal para efeitos da partilha dos bens.
Maria não concordou com essa fixação porque isso iria lhe prejudicar na partilha dos bens.
Diante disso, ela interpôs agravo de instrumento contra a decisão.
O Tribunal de Justiça não conheceu do recurso afirmando que as hipóteses de cabimento do agravo de
instrumento estão elencadas taxativamente no art. 1.015 do CPC/2015 e que neste rol não há previsão de
agravo contra decisão interlocutória que fixa a data da separação de fato do casal para efeitos da partilha
de bens:
Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias que versarem sobre:
I - tutelas provisórias;
II - mérito do processo;
III - rejeição da alegação de convenção de arbitragem;
IV - incidente de desconsideração da personalidade jurídica;
V - rejeição do pedido de gratuidade da justiça ou acolhimento do pedido de sua revogação;
VI - exibição ou posse de documento ou coisa;
VII - exclusão de litisconsorte;
VIII - rejeição do pedido de limitação do litisconsórcio;
IX - admissão ou inadmissão de intervenção de terceiros;
X - concessão, modificação ou revogação do efeito suspensivo aos embargos à execução;
XI - redistribuição do ônus da prova nos termos do art. 373, § 1º;
XII - (VETADO);
XIII - outros casos expressamente referidos em lei.

Agiu corretamente o Tribunal?


NÃO.

Decisão parcial de mérito


O CPC/2015, inspirado no princípio da razoável duração do processo e no direito que as partes possuem a
um processo sem dilações indevidas, passou a reconhecer, expressamente, a possibilidade de que o juiz

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 23


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profira decisões parciais de mérito, ou seja, um ou alguns pedidos podem ser decididos antes da sentença
pelo fato de já estarem maduros para decisão. Isso pode ocorrer:
• quando não houver controvérsia sobre a questão (é um ponto incontroverso, ou seja, as partes não
discordam entre si); ou
• em virtude da desnecessidade de dilação probatória para resolução daquela matéria.

Veja a previsão do CPC/2015:


Art. 356. O juiz decidirá parcialmente o mérito quando um ou mais dos pedidos formulados ou
parcela deles:
I - mostrar-se incontroverso;
II - estiver em condições de imediato julgamento, nos termos do art. 355.

Vale ressaltar que essa decisão parcial de mérito tem aptidão para a formação de coisa julgada material.

Decisão parcial pode ocorrer em caso de vários pedidos ou mesmo dentro de um só pedido que é
desmembrado
O art. 356 fala em “um ou mais dos pedidos” ou “parcela deles”. Isso significa que esse dispositivo pode
ser aplicado em caso de:
• cumulação de pedidos que podem ser resolvidos separadamente (ex: danos morais e materiais); ou
• um único pedido que é suscetível de fracionamento para julgamento imediato de parte dele. Ex: pedido
para pagamento de R$ 100 mil; réu já admitiu na contestação que deve R$ 30 mil; esses R$ 30 mil já podem
ser objeto de decisão parcial de mérito.

Essa é a lição da doutrina:


(...) 3. Fracionamento do mérito pode se referir a alguns pedidos ou parcela deles. O juiz decidirá
de forma parcial o mérito quando alguns dos pedidos formulados (na demanda originária ou na
reconvencional) se enquadrar nas hipóteses indicadas nos incisos do texto legal em destaque. O
importante é que os pedidos em condições de imediato julgamento sejam independentes dos
demais, não podendo haver, por exemplo, cumulação sucessiva de pedidos, sendo aquele que
ainda depende de outras provas pressuposto lógico para o acolhimento do outro pedido, que já
estaria em condições de ser apreciado. Assim, por exemplo, se o autor deduziu pedidos de
indenização por danos morais e materiais, mas se apenas o primeiro está em condições de
imediato julgamento, o juiz decidirá conclusivamente o pleito relativa aos danos morais,
determinando o prosseguimento do processo quanto à indenização por danos materiais, para que
outras provas sejam produzidas.
3.1. O fatiamento pode se dar dentro de um mesmo pedido. Assim, por exemplo, em ação de
cobrança em que se postula o pagamento de cem mil reais, se o réu admite ser devido o valor de
cinquenta mil reais, esse montante se torna incontroverso e poderá o juiz apreciar
conclusivamente essa parcela, prosseguindo o processo para a fase instrutória, relativamente à
diferença controvertida.” (GAJARDONI, Fernando da Fonseca; DELLORE, Luiz; ROQUE, André
Vasconcelos; OLIVEIRA JR., Zulmar. Processo de conhecimento e cumprimento de sentença:
comentários ao CPC de 2015. São Paulo: Método, 2016. p. 163).

Fixação da data da separação de fato é decisão sobre parcela do pedido de partilha


A fixação da data da separação de fato do casal é uma questão que versa sobre o mérito do processo, mais
especificamente sobre uma parcela do pedido de partilha de bens, de modo que a decisão proferida em
1º grau de jurisdição é, na verdade, uma verdadeira decisão parcial de mérito proferida nos estritos termos
do art. 356, II, do CPC/2015.
A definição da data da separação de fato é uma parcela do pedido de partilha.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 24


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Em suma:
Cabe agravo de instrumento, nos termos do art. 1.015, II, do CPC/2015, contra decisão interlocutória
que fixa data da separação de fato do casal para efeitos da partilha dos bens.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.798.975-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 02/04/2019 (Info 645).

AGRAVO DE INSTRUMENTO
É cabível agravo de instrumento contra decisão interlocutória que defere ou indefere a
distribuição dinâmica do ônus da prova ou quaisquer outras atribuições do ônus da prova
distinta da regra geral

Importante!!!
O CPC/2015 prevê que:
Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias que versarem sobre:
XI - redistribuição do ônus da prova nos termos do art. 373, § 1º;
Esse inciso XI abrange também as decisões interlocutórias que determinem a inversão da
prova com base no art. 6º, VIII, do CDC?
SIM. O art. 373, §1º, do CPC/2015, contempla duas regras jurídicas distintas, ambas criadas
para excepcionar a regra geral do caput do art. 373, sendo que a primeira diz respeito à
atribuição do ônus da prova, pelo juiz, em hipóteses previstas em lei, de que é exemplo a
inversão do ônus da prova prevista no art. 6º, VIII, do CDC, e a segunda diz respeito à teoria da
distribuição dinâmica do ônus da prova, incidente a partir de peculiaridades da causa que se
relacionem com a impossibilidade ou com a excessiva dificuldade de se desvencilhar do ônus
estaticamente distribuído ou, ainda, com a maior facilidade de obtenção da prova do fato
contrário.
Em outras palavras, a hipótese do art. 6º, VIII, do CDC está sim tratada no § 1º do art. 373 do
CPC uma vez que esse dispositivo dispõe também a inversão do ônus da prova nos casos
previstos em lei.
Para o STJ, a hipótese do inciso XI do art. 1.015 do CPC deve ser lida em sentido amplo de sorte
que:
É cabível agravo de instrumento contra decisão interlocutória que defere ou indefere a
distribuição dinâmica do ônus da prova ou quaisquer outras atribuições do ônus da prova
distinta da regra geral, desde que se operem ope judicis e mediante autorização legal.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.729.110-CE, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 02/04/2019 (Info 645).

NOÇÕES GERAIS SOBRE O ÔNUS DA PROVA


Se, ao final do processo, o juiz entender que os fatos alegados não foram provados, o que ele deverá
fazer? Qual deve ser a sua decisão neste caso?
O juiz terá que analisar qual das partes tinha o ônus de provar esse fato.
A parte que tinha esse ônus e que não conseguiu provar o fato irá suportar as consequências negativas.
Em outras palavras, a parte que tinha o ônus e não provou, será “prejudicada” no resultado do processo.
Daí a importância de se estudar e analisar o ônus da prova.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 25


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Ônus da prova
Ônus da prova é a regra que atribui a uma das partes o ônus de suportar a falta de prova de um
determinado fato.

Ônus x obrigação
Repare que, em nenhum momento eu disse que a parte tem a “obrigação” ou o “dever” de produzir a
prova. Eu falei em “ônus”. Quais as diferenças?
DEVER OBRIGAÇÃO ÔNUS
É a necessidade de observar um É um dever jurídico específico e
É a necessidade de adotar
comportamento imposto, de individualizado de prestação
determinada conduta para
forma geral, pelo ordenamento (dar, fazer, não fazer). defender um interesse próprio.
jurídico. A obrigação é uma atividade que
Se a pessoa não adotar essa
a pessoa faz em benefício de
conduta, não há uma sanção
outrem. contra ela. No entanto, deixará
de ter uma vantagem.
É possível exigir que a parte É possível exigir que a parte Não é possível exigir que a parte
cumpra o dever. cumpra a obrigação. cumpra o ônus.
Ex: dever de expor os fatos em Ex: em um contrato de compra e Ex: o autor tem o ônus de provar
juízo conforme a verdade (art. venda, o vendedor tem a o fato constitutivo de seu direito
77, I, do CPC). obrigação de pagar o preço. (art. 373, I, do CPC).

Ônus imperfeito
Vimos acima que, se a parte tinha um ônus e deixou de adotar a providência necessária, ela terá uma
desvantagem, perderá alguma coisa.
No caso do ônus da prova, contudo, a doutrina afirma que se trata de um ônus imperfeito. Isso porque, se
a parte não se desincumbir do seu ônus (se a parte não conseguir trazer aos autos a prova que deveria),
existe a mera possibilidade (mas não certeza) de que ocorra uma situação de desvantagem para ela.
Dessa forma, mesmo que a parte não consiga ela própria, provar suas alegações, ainda assim esse fato
pode ser provado por outros meios e a parte pode vencer a demanda.
Ex: o autor não faz prova de suas alegações; o réu, no entanto, por descuido, juntou determinado
documento que prova as afirmações do requerente. Nesse caso, mesmo o autor não tendo feito a prova,
ele não sofrerá nenhuma desvantagem e vencerá a demanda.
Essa realidade existe em razão do princípio da comunhão das provas: a prova produzida é prova do
processo, não interessando quem produziu.

Aspectos subjetivo e objetivo


O ônus da prova pode ser analisado sob dois prismas:
a) Aspecto subjetivo:
Consiste em analisar o instituto sob o ângulo de quem é o responsável pela produção da prova (regra de
conduta das partes).
Trata-se de informar as partes quem será prejudicado com a não produção da prova: autor ou réu.
Ex: o art. 373, I, do CPC prevê que o ônus da prova incumbe ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu
direito. A lei já está avisando que o autor será prejudicado caso não demonstre o fato constitutivo de seu
direito.

b) Aspecto objetivo:
Quando se fala em o ônus da prova sob o aspecto objetivo, o que se está dizendo é que se trata de uma
regra de julgamento, ou seja, o ônus da prova é uma regra que o juiz deverá verificar no momento da
prolação da sentença.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 26


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Ao decidir, o magistrado irá analisar se as partes juntaram aos autos provas que sirvam para elucidar os
fatos controvertidos (ex: o autor alega que o réu bateu na traseira de seu veículo; o requerido argumenta
que o autor deu marcha à ré). Caso não tenham sido produzidas provas suficientes e não seja possível
elucidar a controvérsia por outros meios (presunções, máximas de experiências etc.), o juiz deverá aplicar
as regras do ônus da prova e verificar quem tinha o ônus de provar o fato não demonstrado. A parte que
tinha esse ônus sofrerá as consequências negativas e perderá a demanda neste ponto.

Os dois aspectos estão umbilicalmente ligados e se trata de uma classificação doutrinária, mas que não
tem tanta relevância na prática forense essa distinção.

Aplicação subsidiária
As regras do ônus da prova são regras de aplicação subsidiária. Só podem ser aplicadas se não houver mais
como produzir prova e o juiz ainda estiver em estado de dúvida.
A razão de existir das regras do ônus da prova é “evitar o non liquet, ou seja, a falta de resolução da crise
de direito material”, de modo que “as regras sobre o ônus da prova constituem a ‘última saída para o juiz’,
que não pode deixar de decidir”. Assim, as regras do ônus da prova “são necessárias, mas devem ser
tratadas como exceção, pois o que se pretende com a atividade jurisdicional é que os provimentos dela
emanados retratem a realidade, não meras ficções”. (BEDAQUE, José Roberto dos Santos. Poderes
instrutórios do juiz. 6ª ed. São Paulo: RT, 2011, p. 127-130).
Em outras palavras, o juiz deve sempre tentar decidir com as provas que foram produzidas e com outros
elementos de convicção. Somente se não conseguir mesmo, deverá se valer das regras do art. 373 do CPC
e decidir em sentido contrário a quem não atendeu o ônus da prova.

Prova diabólica
Um tema intimamente ligado ao que estamos estudando diz respeito à prova diabólica.
Prova diabólica é aquela impossível ou excessivamente difícil de ser produzida.
Ex: o autor alega, na petição inicial, que o réu nunca lhe enviou a notificação extrajudicial. O autor não
tem como comprovar isso. Seria exigir uma prova diabólica.
Outro bom exemplo “é a do autor da ação de usucapião especial, que teria de fazer prova do fato de não
ser proprietário de nenhum outro imóvel (pressuposto para essa espécie de usucapião). É prova impossível
de ser feita, pois o autor teria de juntar certidões negativas de todos os cartórios de registro de imóvel do
mundo.” (DIDIER JR. Fredie; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael. Curso de Direito Processual Civil. Vol.
2. Salvador: Juspodivm, 2019, p. 137).
Ainda segundo as lições de Didier, Braga e Oliveira, a prova diabólica pode ser de duas espécies:
Prova unilateralmente diabólica Prova bilateralmente diabólica
Ocorre quando a prova é diabólica para a parte Ocorre quando a prova é diabólica para ambas as
que tinha o ônus de produzi-la (segundo as regras partes, ou seja, é impossível ou muito difícil para
do art. 373 do CPC), no entanto, é uma prova ambas as partes.
possível de ser juntada pela outra parte.
Neste caso, o juiz poderá inverter o ônus, Neste caso, não haverá inversão do ônus por conta
determinando que a prova seja produzida pela da prova diabólica.
outra parte que não tinha inicialmente o ônus de Não se pode simplesmente transferir a prova
juntá-la. Isso está previsto no § 1º do art. 373. diabólica de uma parte para a outra.
§ 1º (...) diante de peculiaridades da causa § 2º A decisão prevista no § 1º deste artigo não
relacionadas à impossibilidade ou à excessiva pode gerar situação em que a desincumbência do
dificuldade de cumprir o encargo nos termos do encargo pela parte seja impossível ou
caput (...) poderá o juiz atribuir o ônus da prova de excessivamente difícil.
modo diverso (...)

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 27


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Distribuição estática do ônus da prova


As regras gerais de distribuição do ônus da prova estão previstas no art. 373 do CPC:
Art. 373. O ônus da prova incumbe:
I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito;
II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor.

O sistema processual brasileiro adotou, como regra, a teoria da distribuição estática do ônus da prova,
segundo a qual cabe ao autor provar o fato constitutivo do direito e ao réu cabe provar o fato impeditivo,
modificativo ou extintivo do direito do autor.
Na distribuição estática do ônus da prova a lei atribui a uma determinada parte, de modo apriorístico,
quais são os fatos específicos que deverão ser por ela provados, dando-lhe ciência prévia sobre como se
desenvolverá a atividade instrutória, e o fato de que o ônus da prova, nessa perspectiva – estática – é uma
regra de julgamento, motivo pelo qual não deve o juiz com ela se preocupar no curso da atividade
probatória, mas somente ao final, e somente se porventura da instrução resultar algum fato relevante não
esclarecido.

Inversão do ônus da prova


O cotidiano forense demonstrou, ao longo dos anos, que as regras de distribuição estática do ônus da
prova previamente estabelecidas em lei não eram suficientes ou adequadas para solucionar todas as
situações fáticas. Diante disso, chegou-se à conclusão de que seria necessária a criação de algumas regras
de distribuição do ônus da prova diferentes daquelas pré-determinadas pela lei.
Surgiu, assim, o consenso de que, em determinados casos, haveria a necessidade de modificar
(redistribuir, inverter) as regras gerais do ônus da prova.
O CPC denomina isso de “distribuição diversa do ônus da prova”. Na prática, é mais comum falarmos em
inversão do ônus da prova.
A inversão do ônus da prova consiste, portanto, em modificar, em determinados casos excepcionais, as
regras gerais do ônus da prova, que são previstas nos incisos do art. 373 do CPC.
Essa distribuição diversa pode ser decorrente de acordo entre as partes, da lei ou de decisão judicial.
Assim, temos três espécies de inversão do ônus da prova:
a) Convencional;
b) Legal;
c) Judicial.

Inversão convencional do ônus da prova


Ocorre quando as partes combinam entre si que não seguirão as regras gerais dos incisos do art. 373,
adotando um outro arranjo. É um exemplo de negócio jurídico processual.
Trata-se de hipótese de difícil ocorrência na prática, mas que é prevista no § 3º do art. 373 do CPC:
Em regra, a lei admite a distribuição diversa do ônus da prova por convenção das partes. Existem, contudo,
três exceções.
Assim, não cabe a inversão convencional do ônus da prova quando:
a) recair sobre direito indisponível da parte;
b) tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito.
c) a inversão for estabelecida em detrimento do consumidor (art. 51, VI, do CDC).

Inversão legal do ônus da prova


Também chamada de inversão ope legis do ônus da prova.
Ocorre quando a lei determina que, em certas situações, haverá uma regra de ônus da prova diferente do
art. 373 do CPC. São, portanto, exceções criadas pelo legislador à regra geral do art. 373 do CPC.
Na inversão legal do ônus da prova, a lei cria uma presunção relativa de determinado fato.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 28


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É o que acontece no art. 12, § 3º, no art. 14, § 3º e no art. 38, todos do CDC:
Art. 12 (...)
§ 3º - O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será responsabilizado quando
provar:
I - que não colocou o produto no mercado;
II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste;
III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

Art. 14 (...)
§ 3º - O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar:
I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;
II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.

Art. 38. O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária cabe
a quem as patrocina.

Inversão judicial do ônus da prova (distribuição do ônus da prova feita pelo juiz)
Ocorre quando o juiz, diante das peculiaridades do caso concreto, altera a regra geral prevista nos incisos
do art. 373 do CPC.
A redistribuição judicial do ônus da prova pode ser feita a requerimento da parte ou até mesmo de ofício.

Inversão judicial do ônus da prova no CPC/2015


Encontra-se disciplinada nos §§ 1º e 2º do art. 373.
Vejamos, de forma organizada, o que dizem esses dois dispositivos.
O juiz poderá atribuir o ônus da prova de modo diferente da regra geral prevista no caput do art. 373 em
três situações:
1) nos casos previstos em lei. Ex: art. 6º, VIII, do CDC.

2) quando for impossível ou extremamente difícil cumprir o encargo previsto no caput do art. 373.
Trata-se da inversão do ônus da prova para evitar que a parte tenha que produzir uma prova
unilateralmente diabólica.
Em outras palavras, quando a regra geral do caput do art. 373 exigir que a parte faça uma prova diabólica,
o juiz deverá inverter o ônus.
Obs: a decisão de inversão não pode gerar situação em que a desincumbência do encargo pela parte seja
impossível ou excessivamente difícil. Em outras palavras, a inversão não pode gerar para a parte que
recebeu esse ônus a tarefa de produzir uma prova diabólica. Não se pode simplesmente transferir a prova
diabólica de uma parte para a outra. Não se admite a inversão do ônus em caso de prova duplamente
diabólica (§ 2º do art. 373 do CPC).

3) quando a inversão gerar maior facilidade de obtenção da prova do fato contrário.


Ex: o autor alega determinado fato; pela regra geral, caberia a ele o ônus de provar esse fato; no entanto,
as peculiaridades do caso concreto revelam que é muito mais fácil para o réu trazer essa prova. Nesta
hipótese seria possível a inversão.

A lei exige que essa inversão seja feita por decisão fundamentada do magistrado.
Além disso, a decisão que determina a inversão deve ser proferida antes da sentença, em um momento
processual no qual se permita que a parte possa se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído.
Pela sua importância, vale a pena ler os dispositivos do CPC:
Art. 373 (...)

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 29


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§ 1º Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à


impossibilidade ou à excessiva dificuldade de cumprir o encargo nos termos do caput ou à maior
facilidade de obtenção da prova do fato contrário, poderá o juiz atribuir o ônus da prova de modo
diverso, desde que o faça por decisão fundamentada, caso em que deverá dar à parte a
oportunidade de se desincumbir do ônus que lhe foi atribuído.
§ 2º A decisão prevista no § 1º deste artigo não pode gerar situação em que a desincumbência do
encargo pela parte seja impossível ou excessivamente difícil.

Obs: este § 1º do art. 373 do CPC/2015 adotou a teoria da distribuição dinâmica do ônus da prova. Assim,
o caput traz a teoria estática e o § 1º a teoria dinâmica.
Obs2: a doutrina afirma que o § 2º do art. 373 do CPC traz a proibição de a redistribuição implicar prova
diabólica reversa, ou seja, a inversão do ônus da prova “não pode implicar uma situação que torne
impossível ou excessivamente oneroso à parte arcar com o encargo que acabou de receber”. (DIDIER JR.
Fredie; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael. Curso de Direito Processual Civil. Vol. 2. Salvador:
Juspodivm, 2019, p. 148).

Inversão judicial do ônus da prova no CDC


O art. 6º, VIII, do CDC permite a inversão judicial do ônus da prova em duas hipóteses:
a) quando for verossímil a alegação do consumidor; ou
b) quando o consumidor for hipossuficiente.

Algumas observações sobre o tema:


• as duas situações acima são alternativas, ou seja, a inversão ocorrerá quando a alegação do consumidor
for verossímil ou quando o consumidor for hipossuficiente;
• trata-se de inversão ope iudicis (a critério do juiz), ou seja, não se trata de inversão automática por força
de lei (ope legis);
• pode ser concedida de ofício ou a requerimento da parte;
• a inversão sempre ocorre em benefício do consumidor, isto é, nunca pode ser contrária a ele.
• a inversão do ônus da prova de que trata o art. 6º, VIII, do CDC é regra de instrução, devendo a decisão
judicial que determiná-la ser proferida preferencialmente na fase de saneamento do processo ou, pelo
menos, assegurar à parte a quem não incumbia inicialmente o encargo a reabertura de oportunidade para
manifestar-se nos autos (STJ. 2ª Seção. EREsp 422778-SP, Rel. para o acórdão Min. Maria Isabel Gallotti
julgado em 29/2/2012).

Aprofundando. Inversão do ônus da prova x distribuição dinâmica do ônus da prova


É comum falarmos em inversão do ônus da prova e distribuição dinâmica do ônus da prova como sendo
expressões sinônimas. No entanto, aprofundando o estudo do tema iremos encontrar alguns
doutrinadores fazendo a distinção entre os institutos.
Inversão do ônus da prova Distribuição dinâmica do ônus da prova
É uma mudança prévia e abstrata das regras de É uma mudança das regras de ônus da prova que
ônus da prova. se dá no caso concreto, com base na análise de
quem está em melhores condições de produzir a
prova.
O juiz não tem ampla liberdade na distribuição do Há uma ingerência mais ampla do juiz na
ônus da prova. Não existe a possibilidade de se distribuição do ônus da prova entre as partes que
inverter o ônus de apenas um fato, por exemplo. permitirá, inclusive, o exame e a distribuição de
cada fato específico isoladamente.
Ex: art. 6º, VIII, do CDC. Ex: hipóteses 2 e 3 do § 1º do art. 373 do CPC (veja
novamente acima).

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 30


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Como leciona Eduardo Cambi:


“Pela teoria das cargas probatórias dinâmicas, a facilitação da prova para a tutela do bem jurídico
não exige a prévia apreciação do magistrado (ope judicis) de critérios preestabelecidos de inversão
do onus probandi, como se dá no art. 6º, inc. VIII, do CDC (verossimilhança da alegação ou
hipossuficiência do consumidor).
Com efeito, na distribuição dinâmica do ônus da prova, não há uma verdadeira inversão, porque
só se poderia falar em inversão caso o ônus fosse estabelecido prévia e abstratamente. Não é o
que acontece com a técnica da distribuição dinâmica que se dá no caso concreto. O magistrado
continua sendo o gestor da prova, agora com poderes ainda maiores, porquanto, ao invés de partir
do modelo clássico (CPC-73, art. 333) para depois inverter o onus probandi (CDC, art. 6º, inc. VIII),
cabe verificar, no caso concreto, quem está em melhores condições de produzir a prova e,
destarte, distribuir este ônus entre as partes (NCPC, art. 373, §1º).” (CAMBI, Eduardo. Teoria das
cargas probatórias dinâmicas (distribuição dinâmica do onus da prova) in Coleção Grandes Temas
do Novo CPC, vol. 5: direito probatório. Coord.: Fredie Didier Jr. et. al. 3ª ed. Salvador: Jus Podivm,
2018. p. 332/333).

Destaca a doutrina, ainda, que a distribuição dinâmica do ônus da prova se diferencia da inversão do ônus
da prova porque, naquela (distribuição), haverá uma mais ampla ingerência do juiz na distribuição do ônus
da prova entre as partes que permitirá, inclusive, o exame e a distribuição de cada fato específico
isoladamente:
“3.4. A possibilidade de redistribuição do ônus da prova não importa na inversão mecânica das
regras estipuladas no art. 373, para, exemplificativamente, repassar ao autor a prova do fato
impeditivo, modificativo ou extintivo do seu direito ou, mesmo, para atribuir ao réu a prova do
fato constitutivo. Tal se dá, por exemplo, nas situações relativas à inversão do ônus da prova no
Código de Defesa e Proteção do Consumidor (art. 6º, VIII). Diversamente, na dinamização prevista
no preceptivo, a redistribuição do ônus da prova pode recair sobre determinado fato, sem que
isso envolva necessariamente a atribuição para o onerado de toda uma classe de fatos (v.g., fatos
constitutivos). Noutras palavras, o juiz poderá, em demanda indenizatória, atribuir ao réu a
demonstração da ausência de nexo causal, permanecendo com o autor o encargo da comprovação
da ação culposa e dos danos. Logo, o juiz pode modular o ônus das provas de acordo com as
peculiaridades da causa, atribuindo a cada parte a comprovação de determinados fatos, tudo
objetivando a formação de um melhor módulo probatório.” (GAJARDONI, Fernando da Fonseca;
DELLORE, Luiz; ROQUE, André Vasconcelos; OLIVEIRA JR., Zulmar. Processo de conhecimento e
cumprimento de sentença: comentários ao CPC de 2015. São Paulo: Método, 2016. p. 271)

Segundo a Min. Nancy Andrighi, “embora ontologicamente distintas, a distribuição dinâmica e a inversão
do ônus têm em comum o fato de excepcionarem a regra geral do art. 373, I e II, do CPC/15, de terem sido
criadas para superar dificuldades de natureza econômica ou técnica e para buscar a maior justiça possível
na decisão de mérito e de se tratarem de regras de instrução que devem ser implementadas antes da
sentença, a fim de que não haja surpresa à parte que recebe o ônus no curso do processo e também para
que possa a parte se desincumbir do ônus recebido”.
Vale ressaltar, no entanto, que você encontrará diversos outros doutrinadores (talvez a maioria)
afirmando que a hipótese do § 1º do art. 373 do CPC é inversão do ônus da prova.

RECURSO CONTRA A DECISÃO QUE DELIBERA SOBRE A INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA


Imagine a seguinte situação hipotética:
João ajuizou ação de indenização contra a Volvo do Brasil Veículos Ltda., alegando que adquiriu um veículo
0km dessa marca e que, no entanto, o automóvel apresentou inúmeros vícios de qualidade (“defeitos”)
que não foram consertados pela concessionária autorizada.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 31


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O juiz proferiu decisão interlocutória determinando a inversão do ônus da prova, nos termos do art. 6º,
VIII, do CDC:
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
(...)
VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu
favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele
hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiência;

Assim, o magistrado determinou que a Volvo provasse que o vício (“defeito”) não existia e que o carro
estava funcionando perfeitamente.
A Volvo não se conformou com a decisão e interpôs agravo de instrumento afirmando que esse recurso
seria cabível com base no inciso XI do art. 1.015 do CPC/2015:
Art. 1.015. Cabe agravo de instrumento contra as decisões interlocutórias que versarem sobre:
(...)
XI - redistribuição do ônus da prova nos termos do art. 373, § 1º;

João apresentou contrarrazões afirmando que não cabe agravo de instrumento nesta hipótese. Isso
porque a decisão proferida pelo juiz inverteu o ônus da prova com fundamento no CDC e não com base
no instituto da redistribuição dinâmica do ônus da prova previsto no § 1º do art. 373 do CPC/2015.
Assim, para João, não se pode aplicar o art. 1.015, XI, do CPC, que é específico para impugnar a decisão
que trata sobre a redistribuição dinâmica do ônus prova do art. 373, § 1º do CPC.

O recurso será conhecido? Cabe agravo de instrumento nesta hipótese?


SIM.
É cabível a impugnação imediata (é cabível agravo de instrumento) da decisão interlocutória que tenha
tratado sobre quaisquer das exceções mencionadas no § 1º do art. 373 do CPC/2015.
Assim, o agravo de instrumento deve ser admitido não apenas na hipótese de decisão interlocutória que
defere ou que indefere a distribuição dinâmica do ônus da prova, mas, igualmente, na hipótese de decisão
interlocutória que defere ou que indefere quaisquer outras atribuições do ônus da prova distintas da regra
geral.
Conforme vimos acima, o art. 373, §1º, do CPC/2015, contempla duas regras jurídicas distintas, ambas
criadas para excepcionar a regra geral do caput do art. 373, sendo que a primeira diz respeito à atribuição
do ônus da prova, pelo juiz, em hipóteses previstas em lei, de que é exemplo a inversão do ônus da prova
prevista no art. 6º, VIII, do CDC, e a segunda diz respeito à teoria da distribuição dinâmica do ônus da
prova, incidente a partir de peculiaridades da causa que se relacionem com a impossibilidade ou com a
excessiva dificuldade de se desvencilhar do ônus estaticamente distribuído ou, ainda, com a maior
facilidade de obtenção da prova do fato contrário.
Em outras palavras, a hipótese do art. 6º, VIII, do CDC está sim tratada no § 1º do art. 373 do CPC uma vez
que esse dispositivo dispõe também a inversão do ônus da prova nos casos previstos em lei:
Art. 373 (...)
§ 1º Nos casos previstos em lei ou diante de peculiaridades da causa relacionadas à
impossibilidade (....)

Em suma, decidiu o STJ que:


É cabível agravo de instrumento contra decisão interlocutória que defere ou indefere a distribuição
dinâmica do ônus da prova ou quaisquer outras atribuições do ônus da prova distinta da regra geral,
desde que se operem ope judicis e mediante autorização legal.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.729.110-CE, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 02/04/2019 (Info 645).

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 32


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PRECATÓRIOS
Incidem juros da mora entre a data da realização dos cálculos e a da requisição ou do precatório

Incidem os juros da mora no período compreendido entre a data da realização dos cálculos e
a da requisição ou do precatório.
STF. Plenário. RE 579431/RS, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 19/4/2017 (repercussão geral)
(Info 861).
STJ. Corte Especial. QO no REsp 1.665.599-RS, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em
20/03/2019 (recurso repetitivo) (Info 645).
Obs: cuidado para não confundir com a SV 17: Durante o período previsto no parágrafo 1º (obs: atual
§ 5º) do artigo 100 da Constituição, não incidem juros de mora sobre os precatórios que nele sejam
pagos. O período de que trata este RE 579431/RS é anterior à requisição do precatório, ou seja,
anterior ao interregno tratado pela SV 17.

Imagine a seguinte situação hipotética:


João ajuizou ação de cobrança contra a Fazenda Pública.
Foi prolatada sentença condenando o Poder Público a pagar R$ 300 mil.
Essa sentença transitou em julgado em 04/04/2016.
Em 10/04/2016, o credor pediu ao juiz, nos termos do art. 534 do CPC, o cumprimento de sentença,
apresentando o cálculo da dívida atualizada.
Segundo entende o STF, a partir do momento em que forem apresentados os cálculos, começa a incidir
juros da mora contra a Fazenda Pública:
Incidem os juros da mora no período compreendido entre a data da realização dos cálculos e a da
requisição de pequeno valor (RPV) ou do precatório.
STF. Plenário. RE 579431/RS, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 19/4/2017 (repercussão geral) (Info 861).
STJ. Corte Especial. QO no REsp 1.665.599-RS, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em
20/03/2019 (recurso repetitivo) (Info 645).

O que acontece a agora?


A Fazenda Pública poderá impugnar ou não o cumprimento de sentença.
Suponhamos que o Poder Público não impugnou. Neste caso, deverá ser expedido, por intermédio do
Presidente do Tribunal, precatório em favor do exequente. Confira o que diz o art. 535, § 3º do CPC:
Art. 535 (...)
§ 3º Não impugnada a execução ou rejeitadas as arguições da executada:
I - expedir-se-á, por intermédio do presidente do tribunal competente, precatório em favor do
exequente, observando-se o disposto na Constituição Federal;
II - por ordem do juiz, dirigida à autoridade na pessoa de quem o ente público foi citado para o
processo, o pagamento de obrigação de pequeno valor será realizado no prazo de 2 (dois) meses
contado da entrega da requisição, mediante depósito na agência de banco oficial mais próxima da
residência do exequente.

Neste caso, o juízo da execução elabora o precatório e o encaminha ao Presidente do Tribunal. Este, por
sua vez, irá expedir o precatório, ou seja, repassá-lo ao ente devedor para que seja incluído no orçamento.
Ex: se a execução era contra a União, o juiz federal responsável pela execução irá elaborar o precatório e
encaminhá-lo ao Presidente do TRF; este irá expedir o precatório determinando que a União inclua no
orçamento para pagamento.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 33


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Suponhamos que, em nosso exemplo, a Fazenda Pública concordou com os cálculos do credor. Diante disso, o
juiz encaminhou ao Presidente do Tribunal que expediu, em 30/05/2016, o precatório em favor de João.

Assim, deverá haver a incidência dos juros da mora referente ao período de 10/04/2016 (data da
realização dos cálculos) e a data do precatório.

Existe um prazo para que o ente pague o precatório?


SIM. Os pagamentos requisitados até 01/07 de cada ano deverão ser pagos até o final do exercício do ano
seguinte. Isso está previsto no § 5º do art. 100 da CF/88:
§ 5º É obrigatória a inclusão, no orçamento das entidades de direito público, de verba necessária
ao pagamento de seus débitos, oriundos de sentenças transitadas em julgado, constantes de
precatórios judiciários apresentados até 1º de julho, fazendo-se o pagamento até o final do
exercício seguinte, quando terão seus valores atualizados monetariamente.

Em nosso exemplo: o precatório foi apresentado pelo Presidente do Tribunal em 30/05/2016; logo, ele
deverá ser pago pelo Poder Público até o dia 31/12/2017 (último dia do ano seguinte).

Abrindo um parêntese: se o precatório tiver valor muito alto (valor superior a 15% do montante dos
demais precatórios apresentados até o dia 01/07 do respectivo ano), então, neste caso, deverá ser pago
15% do valor deste precatório até o dia 31/12 do ano seguinte e o restante em parcelas iguais nos 5 anos
subsequentes, acrescidas de juros de mora e correção monetária. A CF/88 permite também que o credor
faça um acordo com o Poder Público (§ 20 do art. 100 da CF/88, incluído pela EC 94/2016).

Período de suspensão dos juros moratórios


Entre o dia 01/07 de um ano até o dia 31/12 do ano seguinte (em nosso exemplo: de 01/07/2016 até
31/12/2017), não haverá incidência de juros de mora porque o STF entende que esse foi o prazo normal
que a CF/88 deu para o Poder Público pagar seus precatórios, não havendo razão para que a Fazenda
Pública tenha que pagar juros referentes a esse interregno.
Existe, inclusive, uma súmula vinculante sobre o tema:
SV 17-STF: Durante o período previsto no parágrafo 1º (obs: atual § 5º) do artigo 100 da Constituição, não
incidem juros de mora sobre os precatórios que nele sejam pagos.

Obs: neste período, não há incidência de juros moratórios, mas deverá ser paga correção monetária,
conforme prevê a parte final do § 5º do art. 100.

E se passar o dia 31/12 e o ente devedor não efetuar o pagamento do precatório, neste caso, voltará a
incidir juros de mora? Em nosso exemplo, se passar o dia 31/12/2017, começa novamente a incidir juros
moratórios?
SIM. Isso porque terá se esgotado o prazo dado pela Constituição para que o ente devedor pague o
precatório. Logo, o ente encontra-se em mora. Assim, por exemplo, se o precatório foi inscrito até o dia
01/07/2016, este precatório deverá ser pago até o dia 31/12/2017. Se o pagamento for realizado neste
período, não haverá incidência de juros de mora porque não houve inadimplemento por parte da Fazenda
Pública. No entanto, se passar o dia 31/12/2017 sem pagamento, haverá a incidência de juros moratórios,
que serão computados a partir de 01/01/2018 até a data em que ocorrer a quitação do precatório.
Confira as palavras do Min. Edson Fachin:
“A não incidência de juros de mora nesse período ocorre justamente porque nele não existe mora,
em decorrência de norma constitucional, e isso se mantém independentemente de quando
ocorrer o pagamento do precatório.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 34


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No caso de o pagamento ocorrer após o prazo estabelecido pela Constituição, haverá a incidência
de juros de mora, mas só no período em que houver mora, ou seja, depois do prazo estabelecido
para o pagamento.” (Voto na Rcl 15906 AgR, Rel. Min. Edson Fachin, Primeira Turma, julgado em
18/08/2015)

Obs: como estes juros moratórios não estavam previstos no precatório, considerando que se presumia
que ele seria pago na data fixada pela CF/88 (até o dia 31/12), para que o credor receba o valor dos juros,
será necessária a expedição de um precatório complementar. Depois que o precatório está expedido, não
se pode acrescentar novos valores a ele.

Voltando ao nosso exemplo:


- Sentença transitada em julgado: 04/04/2016.
- Início dos juros moratórios: 10/04/2016 (data da realização dos cálculos).
- Dia em que o precatório foi apresentado para pagamento: 30/05/2016.
- Suspensão dos juros moratórios: 01/07/2016 (SV 17-STF).
- Prazo máximo para a Fazenda Pública pagar: 31/12/2017 (§ 5º do art. 100 da CF/88).
- Se a Fazenda não pagar até o prazo máximo: voltam a correr os juros moratórios a partir de 01/01/2018.
Repare, portanto, que o entendimento do STF definido no RE 579431/RS não invalida a SV 17 porque o
que foi decidido neste recurso é um período anterior ao de que trata a súmula.

Observação final complementar


O que foi explicado acima é suficiente para fins de concurso. Irei, contudo, agora fazer uma observação
complementar a respeito da súmula vinculante 17.
A SV 17 foi editada em 29/10/2009 e continua sendo atualmente aplicada pelo STF. Nesse sentido: RE
577465 AgR-ED-ED-EDv-AgR, Rel. Min. Rosa Weber, Tribunal Pleno, julgado em 23/09/2016.
Contudo, tem crescido entre os Ministros a ideia de que esta súmula foi superada pelo § 12 do art. 100 da
CF/88, acrescentado pela EC 62, de 10/12/2009, ou seja, posteriormente à edição do enunciado. Para
muitos Ministros, o § 12 determina a incidência de juros moratórios independentemente do período.
Confira a redação do dispositivo:
Art. 100 (...)
§ 12. A partir da promulgação desta Emenda Constitucional, a atualização de valores de
requisitórios, após sua expedição, até o efetivo pagamento, independentemente de sua natureza,
será feita pelo índice oficial de remuneração básica da caderneta de poupança, e, para fins de
compensação da mora, incidirão juros simples no mesmo percentual de juros incidentes sobre a
caderneta de poupança, ficando excluída a incidência de juros compensatórios. (Incluído pela
Emenda Constitucional nº 62, de 2009).

Em provas de concurso, a SV 17 continua válida, devendo ser assinalada como correta. Somente se
manifeste sobre esta crítica ao enunciado caso você seja expressamente indagado acerca disso, como no
caso de uma prova oral, por exemplo.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 35


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EXECUÇÃO FISCAL
Juiz pode deferir consulta ao CCS na execução fiscal em busca de bens do devedor

É legítimo o requerimento do Fisco ao juízo da execução fiscal para acesso ao Cadastro de


Clientes do Sistema Financeiro Nacional (CCS) como forma de encontrar bens que sejam
capazes de satisfazer a execução de crédito público.
STJ. 1ª Turma. REsp 1.464.714-PR, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. Acd. Min. Benedito
Gonçalves, julgado em 12/03/2019 (Info 645).

Imagine a seguinte situação hipotética:


O IBAMA ajuizou execução fiscal cobrando multas da empresa “Terranova”.
No curso do processo, como não foram encontrados bens penhoráveis, o exequente pediu ao juízo que
consultasse o nome da empresa no Cadastro de Clientes do Sistema Financeiro Nacional (CCS).

O que é o CCS?
O Cadastro de Clientes do Sistema Financeiro Nacional (CSS) é um sistema informatizado, mantido pelo
Banco Central, que mostra onde os clientes das instituições financeiras possuem contas correntes,
poupanças, depósitos e outros bens, direitos e valores.
“O Cadastro de Clientes do Sistema Financeiro Nacional (CCS) é um sistema de informações de natureza
cadastral que tem por objeto os relacionamentos mantidos pelas instituições participantes com os seus
correntistas ou clientes.” (Min. Benedito Gonçalves).
O CCS contém as seguintes informações:
• identificação do cliente e de seus representantes legais e procuradores;
• identificação das instituições financeiras nas quais o cliente mantém seus ativos e/ou investimentos;
• datas de início e, se houver, de fim de relacionamento (ex: abriu a conta no dia X e encerrou no dia Y).

O CCS não mostra valores, movimentação financeira nem os saldos das contas ou aplicações.
Esse cadastro foi criado por determinação da Lei nº 10.701/2003, que acrescentou o art. 10-A à Lei nº
9.613/98 (Lei de Lavagem de Dinheiro):
Art. 10-A. O Banco Central manterá registro centralizado formando o cadastro geral de
correntistas e clientes de instituições financeiras, bem como de seus procuradores. (Incluído pela
Lei nº 10.701/2003)

Voltando ao nosso caso concreto:


O juiz negou o pedido argumentando que o CCS é um cadastro que tem por objetivo unicamente auxiliar
nas investigações de crimes de lavagem de dinheiro, não sendo permitida a sua utilização na execução
fiscal.

O argumento invocado pelo magistrado está correto?


NÃO. Segundo decidiu o STJ:
É legítimo o requerimento do Fisco ao juízo da execução fiscal para acesso ao Cadastro de Clientes do
Sistema Financeiro Nacional (CCS) como forma de encontrar bens que sejam capazes de satisfazer a
execução de crédito público.
STJ. 1ª Turma. REsp 1.464.714-PR, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. Acd. Min. Benedito
Gonçalves, julgado em 12/03/2019 (Info 645).

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 36


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CCS é mero cadastro informativo e não se confunde com o BACENJUD


Conforme já explicado, o CCS não contém dados de valor, de movimentação financeira ou de saldos de
contas ou aplicações, mas apenas informações sobre a identificação cadastral.
Diante disso, o acesso ao CCS representa uma providência que não se confunde com a penhora de dinheiro
mediante BACENJUD, mas que pode servir como subsidio. Em outras palavras, descobre-se que o devedor
possui contas bancárias ativas e, então, pede-se a penhora on line (pelo sistema do BACENJUD).
O BACENJUD é um sistema eletrônico de comunicação entre o Poder Judiciário e as instituições
financeiras, por intermédio do Banco Central, que possibilita à autoridade judiciária encaminhar
requisições de informações e ordens de bloqueio, desbloqueio e transferência de valores, bem como
realizar consultas referentes a informações de clientes mantidas em instituições financeiras, como
existência de saldos nas contas, extratos e endereços (http://www.tjpa.jus.br).
A consulta ao CCS não representa uma constrição ao patrimônio do devedor. Trata-se apenas de uma
forma de obter informações para uma eventual constrição futura. É um meio para o atingimento de um
fim, que poderá ser a penhora de ativos financeiros por meio do BACENJUD.
O acesso às informações do CCS serve, portanto, como medida que poderá subsidiar futura constrição,
alargando a margem de pesquisa por ativos.

Se a execução fiscal admite o mais (BACENJUD) não tem motivos para impedir o menos (CCS)
A penhora on line por meio do BACENJUD é perfeitamente possível na execução fiscal. Logo, não se mostra
razoável permitir a penhora on line (BACENJUD) e negar uma simples pesquisa exploratória no CCS, que é
um mero cadastro informativo. Isso porque o resultado do acesso ao CCS não será mais gravoso do que o
deferimento de medida constritiva mediante utilização do BACENJUD.
Vale ressaltar que o sistema do BACENJUD tem sido ampliado para acessar e aproveitar as informações
do CCS.

CCS é previsto em lei penal, mas que também possui dispositivos sobre apurações administrativas
O CCS encontra-se previsto no art. 10-A da Lei nº 9.613/98 (Lei de Lavagem de Dinheiro). Apesar de estar
em uma lei que trata principalmente sobre aspectos penais, não se pode dizer que o CCS só se aplique
para investigações de crimes de lavagem de dinheiro.
A Lei nº 9.613/98, além de tipificar o crime de lavagem, também trouxe institutos de caráter
eminentemente administrativo, especialmente a partir do art. 9º.
Portanto, a Lei nº 9.613/98 possui institutos de natureza de direito administrativo, dentre os quais o CCS.

DIREITO PENAL

FURTO DE ENERGIA ELÉTRICA


O pagamento do débito oriundo de furto de energia elétrica antes do
recebimento da denúncia não é causa de extinção da punibilidade

Importante!!!
Atualize o Info 622-STJ
No caso de furto de energia elétrica mediante fraude, o adimplemento do débito antes do
recebimento da denúncia não extingue a punibilidade.
O furto de energia elétrica não pode receber o mesmo tratamento dado ao inadimplemento
tributário, de modo que o pagamento do débito antes do recebimento da denúncia não
configura causa extintiva de punibilidade, mas causa de redução de pena relativa ao

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 37


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arrependimento posterior (art. 16 do CP). Isso porque nos crimes contra a ordem tributária,
o legislador (Leis nº 9.249/1995 e nº 10.684/2003), ao consagrar a possibilidade da extinção
da punibilidade pelo pagamento do débito, adota política que visa a garantir a higidez do
patrimônio público, somente. A sanção penal é invocada pela norma tributária como forma de
fortalecer a ideia de cumprimento da obrigação fiscal.
Já nos crimes patrimoniais, como o furto de energia elétrica, existe previsão legal específica
de causa de diminuição da pena para os casos de pagamento da “dívida” antes do recebimento
da denúncia. Em tais hipóteses, o Código Penal, em seu art. 16, prevê o instituto do
arrependimento posterior, que em nada afeta a pretensão punitiva, apenas constitui causa de
diminuição da pena.
Outrossim, a jurisprudência se consolidou no sentido de que a natureza jurídica da
remuneração pela prestação de serviço público, no caso de fornecimento de energia elétrica,
prestado por concessionária, é de tarifa ou preço público, não possuindo caráter tributário.
Não há como se atribuir o efeito pretendido aos diversos institutos legais, considerando que o
disposto no art. 34 da Lei nº 9.249/1995 e no art. 9º da Lei nº 10.684/2003 fazem referência
expressa e, por isso, taxativa, aos tributos e contribuições sociais, não dizendo respeito às
tarifas ou preços públicos.
STJ. 3ª Seção. RHC 101.299-RS, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. Acd. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em
13/03/2019 (Info 645).

Imagine a seguinte situação hipotética:


João foi preso em flagrante e denunciado em razão da prática do crime de furto de energia elétrica (art.
155, § 3º, do Código Penal):
Art. 155 (...)
§ 3º - Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econômico.

Antes do recebimento da denúncia, João pagou toda a dívida cobrada pela concessionária de energia
elétrica referente aos meses em que houve “gato”. Em razão disso, a defesa pediu a extinção da
punibilidade, com base no art. 9º da Lei nº 10.684/2003. Será que esse pedido de João será acolhido?
Vamos entender com calma.

Pagamento integral do débito e extinção da punibilidade


O pagamento integral do débito fiscal realizado pelo réu é causa de extinção de sua punibilidade, conforme
previu a Lei nº 10.684/2003:
Art. 9º É suspensa a pretensão punitiva do Estado, referente aos crimes previstos nos arts. 1º e 2º da
Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de 1990, e nos arts. 168-A e 337-A do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de
dezembro de 1940 - Código Penal, durante o período em que a pessoa jurídica relacionada com o
agente dos aludidos crimes estiver incluída no regime de parcelamento.
(...)
§ 2º Extingue-se a punibilidade dos crimes referidos neste artigo quando a pessoa jurídica
relacionada com o agente efetuar o pagamento integral dos débitos oriundos de tributos e
contribuições sociais, inclusive acessórios.

No mesmo sentido, veja a redação do art. 34 da Lei nº 9.249/95:


Art. 34. Extingue-se a punibilidade dos crimes definidos na Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de
1990, e na Lei nº 4.729, de 14 de julho de 1965, quando o agente promover o pagamento do
tributo ou contribuição social, inclusive acessórios, antes do recebimento da denúncia.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 38


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Lei nº 12.382/2011
Em 2011, foi editada a Lei nº 12.382, que alterou o art. 83 da Lei nº 9.430/96 e passou a dispor sobre os
efeitos do parcelamento e do pagamento dos créditos tributários no processo penal. Veja o que diz a Lei:
Art. 83. A representação fiscal para fins penais relativa aos crimes contra a ordem tributária
previstos nos arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de 1990, e aos crimes contra a
Previdência Social, previstos nos arts. 168-A e 337-A do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro
de 1940 (Código Penal), será encaminhada ao Ministério Público depois de proferida a decisão
final, na esfera administrativa, sobre a exigência fiscal do crédito tributário correspondente.
(Redação dada pela Lei nº 12.350/2010)
(...)
§ 2º É suspensa a pretensão punitiva do Estado referente aos crimes previstos no caput, durante
o período em que a pessoa física ou a pessoa jurídica relacionada com o agente dos aludidos
crimes estiver incluída no parcelamento, desde que o pedido de parcelamento tenha sido
formalizado antes do recebimento da denúncia criminal. (Incluído pela Lei 12.382/2011)
§ 3º A prescrição criminal não corre durante o período de suspensão da pretensão punitiva. (Incluído
pela Lei 12.382/2011)

§ 4º Extingue-se a punibilidade dos crimes referidos no caput quando a pessoa física ou a pessoa
jurídica relacionada com o agente efetuar o pagamento integral dos débitos oriundos de tributos,
inclusive acessórios, que tiverem sido objeto de concessão de parcelamento. (Incluído pela Lei
12.382/2011)

Repare, portanto, que o furto de energia elétrica (art. 155, § 3º do CP) não está listado nessas leis.

Mesmo sem o furto de energia elétrica estar previsto, é possível aplicar essas regras por analogia em
favor do réu? O pagamento do débito oriundo de furto de energia elétrica (art. 155, § 3º do CP) antes
do recebimento da denúncia é causa de extinção da punibilidade, nos termos do art. 9º da Lei nº
10.684/2003 (art. 34 da Lei nº 9.249/95)?
NÃO.
No caso de furto de energia elétrica mediante fraude, o adimplemento do débito antes do recebimento
da denúncia não extingue a punibilidade.
STJ. 3ª Seção. RHC 101.299-RS, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. Acd. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em
13/03/2019 (Info 645).

Não é possível a aplicação do instituto da extinção de punibilidade ao crime de furto de energia elétrica
em razão do adimplemento do débito antes do recebimento da denúncia. Existem três razões para essa
impossibilidade:

1) A diversa política criminal aplicada aos crimes contra o patrimônio e contra a ordem tributária
A política criminal aplicada aos crimes contra o patrimônio é diferente daquela que incide em relação aos
delitos contra a ordem tributária.
O crime de furto de energia elétrica mediante fraude praticado contra concessionária de serviço público
situa-se no campo dos delitos patrimoniais. Neste âmbito, o Estado ainda detém tratamento mais
rigoroso. O desejo de aplicar as benesses dos crimes tributários ao caso em apreço esbarra na tutela de
proteção aos diversos bens jurídicos analisados, pois o delito em comento, além de atingir o patrimônio,
ofende outros bens jurídicos, tais como a saúde pública, considerados, principalmente, o desvalor do
resultado e os danos futuros.
O furto de energia elétrica, além de atingir a esfera individual, tem reflexos coletivos e, não obstante seja
tratado na prática como conduta sem tanta repercussão, se for analisado sob o aspecto social, ganha

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 39


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conotação mais significativa, ainda mais quando considerada a crise hidroelétrica recentemente vivida em
nosso país.
A intenção punitiva do Estado nesse contexto deve estar associada à repreensão da conduta que afeta
bem tão precioso da humanidade.
Desse modo, o papel do Estado, nos casos de furto de energia elétrica, não deve estar adstrito à intenção
arrecadatória da tarifa, deve coibir ou prevenir eventual prejuízo ao próprio abastecimento elétrico do
país, que ora se reflete na ausência ou queda do serviço público, ora no repasse, ainda que parcial, do
prejuízo financeiro ao restante dos cidadãos brasileiros.

2) Impossibilidade de aplicação analógica do art. 34 da Lei nº 9.249/95 (ou do art. 9º da Lei nº


10.684/2003) aos crimes contra o patrimônio
Não se pode fazer a aplicação analógica do art. 34 da Lei nº 9.249/95 (ou do art. 9º da Lei nº 10.684/2003)
aos crimes contra o patrimônio, porque existe previsão legal específica de causa de diminuição da pena
para os casos de pagamento da “dívida” antes do recebimento da denúncia nos crimes patrimoniais. Trata-
se do arrependimento posterior, previsto no art. 16 do Código Penal:
Art. 16. Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou
restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a
pena será reduzida de um a dois terços.

Ainda que se pudesse observar a existência de lacuna legal, não nos poderíamos valer desse método
integrativo, uma vez que é nítida a discrepância da ratio legis entre as situações jurídicas apresentadas,
em que uma a satisfação estatal está no pagamento da dívida e a outra no papel preventivo do Estado,
que se vê imbuído da proteção a bem jurídico de maior relevância.
Nos crimes contra a ordem tributária, o legislador (Leis nº 9.249/95 e nº 10.684/2003), ao consagrar a
possibilidade da extinção da punibilidade pelo pagamento do débito, adota política que visa a garantir a
higidez do patrimônio público, somente. A sanção penal é invocada pela norma tributária como forma de
fortalecer a ideia de cumprimento da obrigação fiscal.

3) A tarifa ou preço público tem tratamento legislativo diverso do imposto


No caso dos crimes tributários, estamos falando do inadimplemento de tributos. Já na hipótese de furto
de energia elétrica, a discussão envolve tarifa ou preço público, que tem tratamento legislativo diverso.
A jurisprudência se consolidou no sentido de que a natureza jurídica da remuneração pela prestação de
serviço público, no caso de fornecimento de energia elétrica, prestado por concessionária, é de tarifa ou
preço público, não possuindo caráter tributário.
Não há como se atribuir o efeito pretendido aos diversos institutos legais, considerando que os dispostos
no art. 34 da Lei nº 9.249/95 e no art. 9º da Lei nº 10.684/03 fazem referência expressa e, por isso, taxativa,
aos tributos e contribuições sociais, não dizendo respeito às tarifas ou preços públicos.
Logo, não se pode equiparar o tratamento para institutos que possuem natureza jurídica distintas.

Veja outro precedente bem elucidativo:


O furto de energia elétrica não pode receber o mesmo tratamento dado ao inadimplemento tributário, de
modo que o pagamento do débito antes do recebimento da denúncia não configura causa extintiva de
punibilidade, mas causa de redução de pena relativa ao arrependimento posterior (art. 16 do CP). Isso
porque nos crimes contra a ordem tributária, o legislador (Leis nº 9.249/1995 e nº 10.684/2003), ao
consagrar a possibilidade da extinção da punibilidade pelo pagamento do débito, adota política que visa a
garantir a higidez do patrimônio público, somente. A sanção penal é invocada pela norma tributária como
forma de fortalecer a ideia de cumprimento da obrigação fiscal.
Já nos crimes patrimoniais, como o furto de energia elétrica, existe previsão legal específica de causa de
diminuição da pena para os casos de pagamento da “dívida” antes do recebimento da denúncia. Em tais

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 40


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hipóteses, o Código Penal, em seu art. 16, prevê o instituto do arrependimento posterior, que em nada
afeta a pretensão punitiva, apenas constitui causa de diminuição da pena.
Outrossim, a jurisprudência se consolidou no sentido de que a natureza jurídica da remuneração pela
prestação de serviço público, no caso de fornecimento de energia elétrica, prestado por concessionária, é
de tarifa ou preço público, não possuindo caráter tributário. Não há como se atribuir o efeito pretendido
aos diversos institutos legais, considerando que o disposto no art. 34 da Lei nº 9.249/1995 e no art. 9º da
Lei nº 10.684/2003 fazem referência expressa e, por isso, taxativa, aos tributos e contribuições sociais,
não dizendo respeito às tarifas ou preços públicos.
STJ. 5ª Turma. HC 412.208-SP, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 20/03/2018 (Info 622).

CRIME DO ART. 218-B DO CP


Cliente pode ser punido sozinho; a vulnerabilidade é relativa; o tipo penal não exige
habitualidade, comportando a aplicação da continuidade delitiva

Importante!!!
O “cliente” pode ser punido sozinho, ou seja, mesmo que não haja um proxeneta. Assim, ainda
que o próprio cliente tenha negociado o programa sem intermediários, haverá o crime
Nos termos do art. 218-B do Código Penal, são punidos tanto aquele que capta a vítima,
inserindo-a na prostituição ou outra forma de exploração sexual (caput), como também o
cliente do menor prostituído ou sexualmente explorado (§ 1º).
STJ. 5ª Turma. HC 371.633/SP, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 19/03/2019 (Info 645).

A vulnerabilidade no caso do art. 218-B do CP é relativa


No art. 218-B do Código Penal não basta aferir a idade da vítima, devendo-se averiguar se o
menor de 18 (dezoito) anos ou a pessoa enferma ou doente mental, não tem o necessário
discernimento para a prática do ato, ou por outra causa não pode oferecer resistência.
STJ. 5ª Turma. HC 371.633/SP, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 19/03/2019 (Info 645).

O tipo penal não exige habitualidade. Basta um único contato consciente com a adolescente
submetida à prostituição para que se configure o crime
O crime previsto no inciso I do § 2º do art. 218 do Código Penal se consuma independentemente
da manutenção de relacionamento sexual habitual entre o ofendido e o agente. Em outras
palavras, é possível que haja o referido delito ainda que tenha sido um único ato sexual.
Logo, como não se exige a habitualidade para a sua consumação, é possível a incidência da
continuidade delitiva, com a aplicação da causa de aumento prevista no art. 71 do Código Penal.
STJ. 5ª Turma. HC 371.633/SP, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 19/03/2019 (Info 645).

Imagine a seguinte situação adaptada:


João (maior de idade) conheceu Pedro (16 anos) em uma praça e ofereceu R$ 50,00 e mais um lanche para
que o adolescente fizesse sexo com ele no seu apartamento.
Pedro, garoto muito pobre, aceitou e João praticou ato libidinoso com o adolescente em troca de dinheiro.
Essa situação se repetiu por mais sete vezes, todas elas envolvendo sexo em troca de dinheiro.
Os pais de Pedro descobriram o fato e o Ministério Público denunciou João pela prática do crime previsto
no inciso I do § 2º art. 218-B, do CP em continuidade delitiva (art. 71):
Art. 218-B. Submeter, induzir ou atrair à prostituição ou outra forma de exploração sexual alguém
menor de 18 (dezoito) anos ou que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário
discernimento para a prática do ato, facilitá-la, impedir ou dificultar que a abandone:

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 41


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Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos.


(...)
§ 2º Incorre nas mesmas penas:
I - quem pratica conjunção carnal ou outro ato libidinoso com alguém menor de 18 (dezoito) e
maior de 14 (catorze) anos na situação descrita no caput deste artigo;
(...)

Art. 71. Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da
mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes,
devem os subsequentes ser havidos como continuação do primeiro, aplica-se-lhe a pena de um só
dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer caso, de um sexto
a dois terços.

A defesa argumentou que a conduta praticada por João seria atípica considerando que tipo penal
somente puniria a terceira pessoa que insere o menor na prostituição. Assim, esse crime apenas puniria
o “cafetão” e não o indivíduo que, sem intermediário, combina o sexo com o adolescente. Essa tese da
defesa é acolhida pela jurisprudência?
NÃO.
Nos termos do art. 218-B do Código Penal, são punidos tanto aquele que capta a vítima, inserindo-a na
prostituição ou outra forma de exploração sexual (caput), como também o cliente do menor prostituído
ou sexualmente explorado (§ 1º).
STJ. 5ª Turma. HC 371.633/SP, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 19/03/2019 (Info 645).

Em outras palavras, este tipo penal incrima o:


• “proxeneta” (vulgarmente conhecido por “cafetão” ou “rufião”), este punido pelo caput do art. 218-B;
• e também o “cliente” da prostituição do menor, sancionado pelo § 1º do art. 218-B.

O “cliente” pode ser punido sozinho, ou seja, mesmo que não haja um proxeneta. Assim, ainda que o
próprio cliente tenha negociado o programa sem intermediários, haverá o crime. Nesse sentido:
(...) O inciso I do § 2º do art. 218-B do Código Penal é claro ao estabelecer que também será penalizado
aquele que, ao praticar ato sexual com adolescente, o submeta, induza ou atraia à prostituição ou a outra
forma de exploração sexual. Dito de outra forma, enquadra-se na figura típica quem, por meio de
pagamento, atinge o objetivo de satisfazer sua lascívia pela prática de ato sexual com pessoa maior de 14
e menor de 18 anos.
2. A leitura conjunta do caput e do § 2º, I, do art. 218-B do Código Penal não permite identificar a exigência
de que a prática de conjunção carnal ou outro ato libidinoso com adolescente de 14 a 18 anos se dê por
intermédio de terceira pessoa. Basta que o agente, mediante pagamento, convença a vítima, dessa faixa
etária, a praticar com ele conjunção carnal ou outro ato libidinoso. (...)
STJ. 6ª Turma. REsp 1490891/SC, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 17/04/2018.

A defesa poderia ter sucesso se conseguisse provar que Pedro (adolescente de 16 anos) já tinha
discernimento para a prática do ato e, portanto, não era vulnerável?
O tema é polêmico, mas o STJ respondeu que sim.
Segundo decidiu o STJ, a vulnerabilidade no caso do art. 218-B do CP é relativa.
Assim, diferentemente do que ocorre nos arts. 217-A, 218 e 218-A do Código Penal, nos quais o legislador
presumiu de forma absoluta a vulnerabilidade dos menores de 14 anos, no art. 218-B não basta aferir a
idade da vítima, devendo-se averiguar se o menor de 18 (dezoito) anos ou a pessoa enferma ou doente
mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou por outra causa não pode oferecer
resistência.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 42


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No art. 218-B do Código Penal não basta aferir a idade da vítima, devendo-se averiguar se o menor de
18 (dezoito) anos ou a pessoa enferma ou doente mental, não tem o necessário discernimento para a
prática do ato, ou por outra causa não pode oferecer resistência.
STJ. 5ª Turma. HC 371.633/SP, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 19/03/2019 (Info 645).

O STJ, apesar de ter fixado essa tese acima em abstrato, considerou que, no caso concreto, Pedro se
entregou à prostituição em razão de sua péssima situação econômica, motivo pelo qual a sua imaturidade
em função da idade associada à sua péssima situação financeira o torna vulnerável. Em outras palavras, a
defesa não conseguiu afastar a presunção relativa e Pedro foi considerado vulnerável, razão pela qual
houve o crime.

Por fim, a defesa alegou que não houve continuidade delitiva. Veja o raciocínio. A defesa argumentou
que esse crime do art. 218-B só se consuma se houver reiteração de atos, ou seja, não haveria o delito
se o ato sexual fosse praticado só uma vez. Logo, se o tipo penal exige obrigatoriamente pluralidade de
atos, não se pode falar em punição maior pela continuidade delitiva já que a continuidade é algo que
sempre deve existir. Essa tese foi acolhida pelo STJ?
NÃO. O crime se consuma mesmo que haja apenas uma relação sexual.
O tipo penal não exige habitualidade. Basta um único contato consciente com a adolescente submetida à
prostituição para que se configure o crime.
No art. 218-B, § 2º, I, pune-se a mera prática de relação sexual com adolescente submetido à prostituição
– e nessa conduta não se exige reiteração, poder de mando, ou introdução da vítima na habitualidade da
prostituição.
O crime previsto no inciso I do § 2º do art. 218 do Código Penal se consuma independentemente da
manutenção de relacionamento sexual habitual entre o ofendido e o agente. Em outras palavras, é
possível que haja o referido delito ainda que tenha sido um único ato sexual.
Logo, como não se exige a habitualidade para a sua consumação, é possível a incidência da continuidade
delitiva, com a aplicação da causa de aumento prevista no art. 71 do Código Penal.
STJ. 5ª Turma. HC 371.633/SP, Rel. Min. Jorge Mussi, julgado em 19/03/2019 (Info 645).

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 43


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DIREITO TRIBUTÁRIO

ICMS
O aproveitamento, pelo adquirente, do ICMS destacado na nota fiscal de compra de mercadorias
de contribuinte incluído no Regime Especial de Fiscalização sujeita-se à prova da arrecadação

O creditamento pelo adquirente em relação ao ICMS destacado nas notas fiscais de compra de
mercadorias de contribuinte devedor contumaz, incluído no regime especial de fiscalização,
pode ser condicionado à comprovação da arrecadação do imposto.
STJ. 2ª Turma. AREsp 1.241.527-RS, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 19/03/2019 (Info 645).

ICMS
O ICMS é um imposto estadual previsto no art. 155, II, da CF e na LC 87/96:
Art. 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos sobre:
II — operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte
interestadual e intermunicipal e de comunicação, ainda que as operações e as prestações se iniciem
no exterior;

Principais características do imposto:


• plurifásico: incide sobre o valor agregado, obedecendo-se ao princípio da não-cumulatividade;
• real: as condições da pessoa são irrelevantes;
• proporcional: não é progressivo;
• fiscal: tem como função principal a arrecadação.

Fatos geradores
Eduardo Sabbag afirma que, resumidamente, o ICMS pode ter os seguintes fatos geradores (Manual de
Direito Tributário. 4. ed., São Paulo: Saraiva, 2012, p. 1061):
• circulação de mercadorias;
• prestação de serviços de transporte intermunicipal;
• prestação de serviços de transporte interestadual;
• prestação de serviços de comunicação.

Regra da não cumulatividade


O art. 155, § 2º, I, da CF/88 determina que o ICMS “será não-cumulativo, compensando-se o que for devido
em cada operação relativa à circulação de mercadorias ou prestação de serviços com o montante cobrado
nas anteriores pelo mesmo ou outro Estado ou pelo Distrito Federal”.
Ricardo Alexandre explica a regra da não cumulatividade:
“A cada aquisição tributada de mercadoria, o adquirente registra como crédito o valor incidente
na operação. Tal valor é um “direito” do contribuinte (“ICMS a recuperar”), que pode ser abatido
do montante incidente nas operações subsequentes.
A cada alienação tributada de produto, o alienante registra como débito o valor incidente na
operação. Tal valor é uma obrigação do contribuinte, consistente no dever de recolher o valor
devido aos cofres públicos estaduais (ou distritais) ou compensá-los com os créditos obtidos nas
operações anteriores (trata-se do “ICMS a recolher”).
Periodicamente, faz-se uma comparação entre os débitos e créditos. Caso os débitos sejam
superiores aos créditos, o contribuinte deve recolher a diferença aos cofres públicos. Caso os
créditos sejam maiores, a diferença pode ser compensada posteriormente ou mesmo, cumpridos

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 44


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determinados requisitos, ser objeto de ressarcimento.” (Direito Tributário esquematizado. São


Paulo: Método, 2012, p. 580).

Imagine agora a seguinte situação hipotética:


A distribuidora “Alfa2 Ltda” é uma empresa que compra e revende mercadorias no Estado do Rio Grande
do Sul, sendo, portanto, contribuinte de ICMS.
A distribuidora comprou diversas mercadorias da empresa “Beta3 Ltda”.
A empresa “Beta3 Ltda” emitiu nota fiscal na qual constou que o preço das mercadorias foi R$ 100 mil e
que o valor do ICMS incidente sobre a operação foi de R$ 20 mil.
A “Alfa2” tentou utilizar esses R$ 20 mil como crédito, mas o Fisco estadual disse que ela só teria direito
ao creditamento depois que ficasse comprovado que a “Beta3” pagou efetivamente o ICMS. Isso porque
a “Beta3” possui diversos débitos de ICMS e, por essa razão, foi incluída em um regime especial de
fiscalização.
A “Alfa2” impetrou, então, um mandado de segurança alegando que essa exigência é abusiva e viola o
princípio constitucional da não cumulatividade. Isso porque o adquirente tem o direito de creditar-se do
imposto incidente na operação anterior, a teor do art. 155, § 2º, I, da CF/88, independentemente de ter
ou não sido recolhido.

O STJ acolheu os argumentos da “Alfa2”? Essa exigência do Fisco estadual é abusiva?


NÃO.
O creditamento pelo adquirente em relação ao ICMS destacado nas notas fiscais de compra de
mercadorias de contribuinte devedor contumaz, incluído no regime especial de fiscalização, pode ser
condicionado à comprovação da arrecadação do imposto.
STJ. 2ª Turma. AREsp 1.241.527-RS, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 19/03/2019 (Info 645).

O que o Fisco fez foi exigir que a nota fiscal emitida pela empresa submetida ao regime especial de
fiscalização (devedora contumaz) seja acompanhada pelo comprovante de arrecadação (pagamento) do
ICMS, garantindo, assim, que o tributo destacado seja pago à vista.
Com isso, implementa-se uma vigilância diferenciada a quem reiteradamente cobra o ICMS do adquirente
e não repassa o valor cobrado. Não se trata de uma punição a quem é considerado devedor contumaz,
mas sim de não lhe conferir um prêmio (pagamento diferido do ICMS e compensação de um crédito ficto,
recolhido ou não).
Desse modo, não há que se falar em violação do princípio da não cumulatividade, muito menos aos
princípios da proporcionalidade ou razoabilidade.
Caso fosse afastada essa exigência do Fisco, o contribuinte submetido ao regime especial de fiscalização,
além de não recolher o tributo, geraria um crédito para o comprador da mercadoria.
A finalidade desse procedimento especial, portanto, é a de evitar que sejam assegurados créditos de ICMS
a empresas identificadas como devedoras reincidentes, alertando ao adquirente de mercadorias,
fornecidas por esses devedores, que tenha cautela em relação ao creditamento de ICMS que seja ou venha
a ser recolhido. Igualmente, por meio desse procedimento, os devedores contumazes autorizam que o
Fisco se acautele contra uma prática que transformava a nota fiscal em um artifício de captação de
dinheiro nas operações com débito de ICMS a ser gerado, lesando interesses da coletividade.
Vale ressaltar, por fim, que essa exigência do Fisco estadual não configura sanção política (Súmulas 70,
323 e 547 do STF), porque se trata apenas de afastar um prêmio ao devedor contumaz, não havendo que
se falar em inconstitucionalidade ou ilegalidade.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 45


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DIREITO PREVIDENCIÁRIO
PREVIDÊNCIA COMPLEMENTAR
É válida a exigência de pagamento de joia para inscrição de beneficiário
no plano de previdência complementar para fazer jus à pensão por morte

É válida a exigência de pagamento de joia para inscrição de beneficiário no plano de


previdência complementar para fazer jus à pensão por morte.
Joia é uma espécie de “pedágio”, um valor que deve ser pago pela pessoa que deseja aderir ao
plano de previdência complementar. Este valor é calculado a partir de estudos atuariais que
levarão em consideração a idade do participante, o salário de participação, o tempo de serviço
prestado pelo beneficiário original ao patrocinador etc. A joia é necessária para que possa
manter as reservas do plano e o equilíbrio atuarial.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.605.346-BA, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 12/02/2019 (Info 645).

Previdência complementar
Previdência complementar é um plano de benefícios feito pela pessoa que deseja receber, no futuro,
aposentadoria paga por uma entidade privada de previdência.
A pessoa paga todos os meses uma prestação e este valor é aplicado por uma pessoa jurídica, que é a
entidade gestora do plano (ex: Bradesco Previdência).
É chamada de “complementar” porque normalmente é feita por alguém que já trabalha na iniciativa
privada ou como servidor público e, portanto, já teria direito à aposentadoria pelo INSS ou pelo regime
próprio. Apesar disso, ela resolve fazer a previdência privada como forma de “complementar” a renda no
momento da aposentadoria.
O plano de previdência complementar é prestado por uma pessoa jurídica chamada de “entidade de
previdência complementar” (entidade de previdência privada).
Imagine agora a seguinte situação hipotética:
João, ex-funcionário da Companhia de Eletricidade do Estado da Bahia (COELBA), foi aposentado e passou
a receber a aposentadoria privada complementar oferecida àqueles que trabalham na referida empresa.
Este plano de previdência complementar é administrado pela Fundação Coelba de Previdência
Complementar (FAELBA), entidade fechada de previdência privada patrocinada pela COELBA.
Alguns anos depois, João faleceu e deixou uma única herdeira, Maria, sua esposa.
Maria formulou requerimento administrativo pedindo a concessão da pensão por morte por ser a única
dependente do assistido.
A entidade de previdência respondeu afirmando que ela poderia ter direito ao benefício, mas desde que
fizesse o pagamento da joia, conforme está previsto no regulamento do plano.
O que é joia, no que se refere à previdência complementar?
Joia, também chamada de doação admissional, é uma espécie de “pedágio”, um valor que deve ser pago
pela pessoa que deseja aderir ao plano de previdência complementar.
É comum que os planos de previdência exijam o pagamento de joia para incluir um dependente.
Este valor é calculado a partir de estudos atuariais que levarão em consideração a idade do participante,
o salário de participação, o tempo de serviço prestado pelo beneficiário original ao patrocinador etc.
A joia é necessária para que possa manter as reservas do plano e o equilíbrio atuarial.
Normalmente o regulamento prevê que o pagamento pode ser à vista ou parcelado.
Essa exigência prevista no regulamento é válida? É possível que o regulamento exija o pagamento de
joia para a inscrição de beneficiário no plano de previdência complementar de modo a habilitá-lo a se
tornar elegível ao benefício de previdência complementar post mortem?
SIM.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 46


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É válida a exigência de pagamento de joia para inscrição de beneficiário no plano de previdência


complementar para fazer jus à pensão por morte.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.605.346-BA, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 12/02/2019 (Info 645).

Regime de capitalização x regime de repartição simples (regime de caixa)


O regime de capitalização pressupõe que o plano de previdência faça a constituição de reservas que
garantam o benefício contratado, mediante o prévio recolhimento das contribuições vertidas pelo
participante e pelo patrocinador, bem como os rendimentos auferidos com os investimentos realizados.
Pelo regime de capitalização, o benefício de previdência complementar será decorrente do montante de
contribuições efetuadas e do resultado de investimentos, não podendo haver, portanto, o pagamento de
valores não previstos no plano de benefícios, sob pena de comprometimento das reservas financeiras
acumuladas (desequilíbrio econômico-atuarial do fundo), a prejudicar os demais participantes, que terão
que custear os prejuízos daí advindos.
Assim, ao contrário do regime financeiro de caixa ou de repartição simples – em que as contribuições dos
trabalhadores ativos ajudam a financiar os benefícios que estão em gozo, como ocorre no RGPS –, o regime
de capitalização, adotado na previdência complementar, tem como princípio a impossibilidade de haver
benefício sem prévio custeio. Dessa forma, para cada plano de benefícios, deve-se formar uma reserva
matemática que, de acordo com os cálculos atuariais, possibilitará o pagamento dos benefícios
contratados.
Previdência complementar adota o regime de capitalização
As entidades de previdência privada adotam o chamado regime de capitalização. É o que determina o art.
202 da CF/88 ao estabelecer que a previdência privada será baseada na constituição de reservas:
Art. 202. O regime de previdência privada, de caráter complementar e organizado de forma
autônoma em relação ao regime geral de previdência social, será facultativo, baseado na
constituição de reservas que garantam o benefício contratado, e regulado por lei complementar.

Assim, o art. 202 da Constituição Federal consagra o regime de financiamento por capitalização ao
estabelecer que a previdência privada tem caráter complementar (rectius, suplementar) - baseado na
prévia constituição de reservas que garantam o benefício contratado -, adesão facultativa e organização
autônoma em relação ao regime geral de previdência social.
No mesmo sentido, veja o que preconiza o art. 18, § 1º da LC 109/2001:
Art. 18. O plano de custeio, com periodicidade mínima anual, estabelecerá o nível de contribuição
necessário à constituição das reservas garantidoras de benefícios, fundos, provisões e à cobertura das
demais despesas, em conformidade com os critérios fixados pelo órgão regulador e fiscalizador.
§ 1º O regime financeiro de capitalização é obrigatório para os benefícios de pagamento em
prestações que sejam programadas e continuadas.
(...)

Constituição de reserva na previdência privada é feita por cálculos atuariais


A constituição de reservas no regime de previdência privada complementar deve ser feita por meio de
cálculos embasados em estudos de natureza atuarial que prevejam as despesas e garantam, em longo
prazo, o respectivo custeio.
Assim, a previsão de pagamento de joia para inscrição de beneficiário é coerente com o regime financeiro
de capitalização, por implicar elevação de projeção de despesas, sem que tenham sido previamente
custeadas, mediante a formação da reserva matemática necessária para o pagamento do novo benefício.

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 47


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EXERCÍCIOS
Julgue os itens a seguir:
1) É constitucional a remarcação de curso de formação para o cargo de agente penitenciário feminino de
candidata que esteja lactante à época de sua realização, independentemente da previsão expressa em
edital do concurso público. ( )
2) (MP/PR 2019) É constitucional a remarcação do teste de aptidão física de candidata que esteja grávida à
época de sua realização, desde que haja previsão expressa no edital do concurso público. ( )
3) Não há exigência de formalidade específica acerca da manifestação de última vontade do indivíduo sobre
a destinação de seu corpo após a morte, sendo possível a submissão do cadáver ao procedimento de
criogenia em atenção à vontade manifestada em vida. ( )
4) (TJ/MG 2018) A cremação do cadáver somente poderá ser feita se o falecido houver manifestado a
vontade de ser incinerado ou no interesse da saúde pública e se o atestado de óbito houver sido firmado
por 1 (um) médico ou por 2 (dois) médicos legistas e no caso de morte violenta, depois de autorizada
pela autoridade judiciária. ( )
5) O registro do título translativo no Cartório de Registro de Imóveis como condição imprescindível à
transferência de propriedade de bem imóvel entre vivos propugnada pela lei civil não se confunde,
tampouco pode ser substituído para esse efeito, pelo registro do contrato social na Junta Comercial. ( )
6) O pensionamento fixado em sentença judicial, decorrente de ação de indenização por acidente de
trânsito, não pode ser equiparado ao crédito derivado da legislação trabalhista para fins de inclusão no
quadro geral de credores de sociedade em recuperação judicial. ( )
7) (MP/PR 2017) No que toca à classificação dos créditos na falência, assinale a alternativa correta:
a) Os créditos tributários precedem aos créditos derivados da legislação do trabalho limitados a 150
salários mínimos por credor.
b) Os créditos quirografários precedem aos créditos com garantia real até o limite do valor do bem
gravado.
c) Os créditos com privilégio geral precedem aos créditos com privilégio especial.
d) Os créditos tributários precedem aos créditos decorrentes de acidentes de trabalho.
e) Os créditos decorrentes de acidentes de trabalho precedem aos créditos com garantia real.

8) A suspensão do processo em razão da paternidade do único patrono da causa se opera tão logo ocorra
o fato gerador (nascimento ou adoção), independentemente da comunicação imediata ao juízo. ( )
9) O juízo de equidade na fixação dos honorários advocatícios somente pode ser utilizado de forma
subsidiária, quando não presente qualquer hipótese prevista no § 2º do art. 85 do CPC. ( )
10) Qualquer modalidade de prova, inclusive a testemunhal, é apta a amparar o pedido de desconstituição
do julgado rescindendo na ação rescisória. ( )
11) (DPE/MA 2018 FCC) A ação rescisória que tenha por fundamento a existência de prova nova, cuja existência
era ignorada pelo autor da rescisória, somente é admitida quando a prova for documental. ( )
12) Cabe agravo de instrumento, nos termos do art. 1.015, II, do CPC/2015, contra decisão interlocutória que
fixa data da separação de fato do casal para efeitos da partilha dos bens. ( )
13) É cabível agravo de instrumento contra decisão interlocutória que defere ou indefere a distribuição
dinâmica do ônus da prova ou quaisquer outras atribuições do ônus da prova distinta da regra geral,
desde que se operem ope judicis e mediante autorização legal. ( )
14) (DPE/AM 2018 FCC) A inversão do ônus da prova, nos termos do art. 6o, VIII, do CDC, não ocorre ope
judicis, mas ope legis, vale dizer, é o juiz que, de forma prudente e fundamentada, aprecia os aspectos
de verossimilhança das alegações do consumidor ou de sua hipossuficiência. ( )
15) (DPE/RS 2018) A distribuição diversa do ônus da prova pode ocorrer por convenção das partes, antes ou
durante o processo. ( )
16) Incidem os juros da mora no período compreendido entre a data da realização dos cálculos e a da
requisição ou do precatório. ( )

Informativo 645-STJ (26/04/2019) – Márcio André Lopes Cavalcante | 48


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17) (PGE/AM 2018 CESPE) Não incidem juros de mora no período compreendido entre a data da realização
dos cálculos de liquidação e a da expedição do precatório. ( )
18) É legítimo o requerimento do Fisco ao juízo da execução fiscal para acesso ao Cadastro de Clientes do
Sistema Financeiro Nacional (CCS) como forma de encontrar bens que sejam capazes de satisfazer a
execução de crédito público. ( )
19) No caso de furto de energia elétrica mediante fraude, o adimplemento do débito antes do recebimento
da denúncia não extingue a punibilidade. ( )
20) Nos termos do art. 218-B do Código Penal, são punidos tanto aquele que capta a vítima, inserindo-a na
prostituição ou outra forma de exploração sexual (caput), como também o cliente do menor prostituído
ou sexualmente explorado (§ 1º). ( )
21) No art. 218-B do Código Penal não basta aferir a idade da vítima, devendo-se averiguar se o menor de 18
(dezoito) anos ou a pessoa enferma ou doente mental, não tem o necessário discernimento para a prática
do ato, ou por outra causa não pode oferecer resistência. ( )
22) O crime previsto no inciso I do § 2º do art. 218 do Código Penal se consuma independentemente da
manutenção de relacionamento sexual habitual entre o ofendido e o agente. ( )
23) O creditamento pelo adquirente em relação ao ICMS destacado nas notas fiscais de compra de
mercadorias de contribuinte devedor contumaz, incluído no regime especial de fiscalização, não pode
ser condicionado à comprovação da arrecadação do imposto. ( )

Gabarito
1. C 2. E 3. C 4. E 5. C 6. E 7. Letra E 8. C 9. C 10. C
11. E 12. C 13. C 14. E 15. C 16. C 17. E 18. C 19. C 20. C
21. C 22. C 23. E

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