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1. A POSIÇÃO METODOLÓGICA DO INTERACIONISMO


SIMBÓLICO

Tem-se recorrido ao termo “interacionismo simbólico” para designar um


enfoque relativamente definido do estudo da vida dos grupos humanos e do
comportamento do homem1. Entre os numerosos especialistas que utilizaram tal
abordagem ou contribuíram com sua consolidação intelectual, figuram autores
norte-americanos tão notáveis como George Herbert Mead, John Dewey, W. I.
Thomas, Robert E. Park, William James, Charles Horton Cooley, Florian
Znaniecki, James Mark Baldwin, Robert Redfield e Louis Wirth. Apesar de
existirem diferenças significativas na linha de pensamento dos especialistas
mencionados, sua forma de considerar e estudar a vida dos grupos humanos é,
em geral, muito parecida. O conceito de interacionismo simbólico foi se forjando
em torno desta semelhança geral. No entanto até agora não foi formulada
claramente a postura que defende tal conceito e, sobretudo, não existe uma
exposição fundamentada do valor metodológico deste tipo de enfoque. O
presente ensaio é uma tentativa de realizar a referida exposição. Baseio-me,
principalmente, no pensamento de George Herbert Mead, que, mais que nenhum
outro, estabeleceu os fundamentos do enfoque do interacionismo simbólico, mas
me vi obrigado a desenvolver meu próprio ponto de vista para abordar
explicitamente muitos temas cruciais que só estavam implícitos nas ideias de
Mead e outros autores, e para tratar questões críticas que eles haviam omitido.
Assim, em sua maior parte, assumo a inteira responsabilidade pelas opiniões e
analises expostas neste livro, sobretudo no que se refere ao tratamento da
metodologia: a discussão deste assunto me pertence por completo. O esquema
que adotei se propõe perfilar, em um primeiro momento, a natureza da interação
simbólica; a continuação trata de estabelecer os princípios normativos da
metodologia no caso da ciência empírica; e por último, busca definir
especificamente a posição metodológica do interacionismo simbólico.

Natureza do interacionismo simbólico

O interacionismo se baseia nas mais recentes análises de três simples


premissas. A primeira é que o ser humano orienta suas ações para as coisas em

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O termo “interacionismo simbólico” é de certo modo um barbarismo que cunhei com caráter informal
em um artigo publicado em “HOMEM E SOCIEDADE” (Emerson P. Schmidt, editor, New York:
Prentice Hall, 1937). O vocábulo acabou sendo aceito e hoje é de uso geral. Tradução do espanhol com
fins didáticos de Henrique Jeske. Disciplina Sociologia III, Curso de Ciências Sociais da Universidade
Federal de Pelotas. Revisão: Prof. Pedro Robertt. Versão em espanhol: Blumer, Herbert. El
interaccionismo simbólico. Capítulo 1. La posición metodológica del interaccionismo simbólico.
Naturaleza del interaccionismo simbólico. Barcelona: Hora S. A. 1982.
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função do que estas significam para ele. Ao dizer coisas nos referimos a tudo
àquilo que uma pessoa pode perceber em seu mundo: objetos físicos, como
árvores ou cadeiras; outras pessoas, como uma mãe ou um vendedor do
comércio; categorias de seres humanos, como amigos ou inimigos; instituições,
como uma escola ou um governo; ideais importantes, como a independência
individual ou a honradez; atividades alheias, como as ordens ou pedidos dos
demais; e as situações de todo tipo que um indivíduo enfrenta em sua vida
cotidiana. A segunda premissa é que o significado destas coisas se deriva de, ou
surge como conseqüência da interação social que cada qual mantém com o
próximo. A terceira é que os significados se manipulam e modificam mediante
um processo interpretativo desenvolvido pela pessoa ao confrontar-se com as
coisas que vai encontrando em seu caminho. Gostaria de falar brevemente de
cada uma destas três premissas fundamentais.
Parece que poucos especialistas consideram errônea a primeira premissa:
que os seres humanos orientam suas ações para as coisas em função do que estas
significam para eles. Porém, por estranho que pareça, praticamente em todo o
trabalho e pensamento da ciência psicológica e social contemporânea se tem
ignorado ou descartado esta elementar afirmação, ou se da por compreendido o
“significado” e, em conseqüência, deixado de lado como pouco importante, ou
se considera como um mero vinculo neutro entre os fatores responsáveis pelo
comportamento humano e este mesmo comportamento considerado como
produto destes fatores. Podemos apreciar este fato claramente na atitude das
ciências psicológicas e sociais na atualidade. É tendência comum em ambos os
ramos científicos estimar que o comportamento humano é o produto dos
diversos fatores que influenciam nas pessoas; o interesse se concentra na
conduta e nos fatores que se considera a causa. Assim, os psicólogos atribuem
determinadas formas ou exemplos de comportamento humano a fatores tais
como estimulo, atitudes, motivações conscientes ou inconscientes, diversos tipos
de input psicológico, percepção e conhecimento, e distintos aspectos da
organização pessoal. De modo parecido, os sociólogos embasam suas
explicações em outros fatores, como a posição social, exigências do status,
papéis sociais, percepções culturais, normas e valores, pressões do meio e
afiliação a grupos. Em ambos os esquemas psicológicos e sociológicos típicos,
os significados das coisas para os seres humanos agentes, são já evitados, já
englobados nos fatores aos que se recorre para explicar seu comportamento. Se
se admite que os tipos de comportamento dados são o resultado daqueles fatores
concretos que se considera que os motiva, não há necessidade de preocupação
com o significado das coisas para as quais se encaminha a atuação humana: é o
suficiente para determinar os fatores desencadeantes e o comportamento
conseguinte ou, se for preciso, com a tentativa de integrar no conjunto o
elemento “significado”, bem considerando-o como um vínculo neutro entre estes
e a conduta a que supostamente dão lugar. No primeiro dos casos o significado
desaparece ao ser absorvido pelos fatores desencadeantes ou causais, no segundo
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se converte em um mero laço de transmissão que pode ser ignorado em benefício


dos fatores citados.
O ponto de vista do interacionismo simbólico, pelo contrário, sustenta
que o significado que as coisas têm para o ser humano constitui um elemento
central em si mesmo. Se considera que ignorar o significado das coisas de
acordo como agem as pessoas equivale a distorcer o comportamento submetido a
estudo, por estimar que o fato de subestimar o significado em benefício dos
fatores que supostamente motivam a conduta, constitui uma lamentável
negligência do papel que o significado desempenha na formação do
comportamento.
A simples premissa de que o ser humano orienta suas ações em relação
com as coisas baseando-se no significado que estas têm, é demasiado simples
para diferenciar o interacionismo simbólico: existem outros enfoques que da
mesma forma compartilham desta premissa. A segunda, que faz referência a
fonte do significado, estabelece maiores diferenças entra tais enfoques e o
interacionismo simbólico. Há duas formas tradicionais muito conhecidas de
explicar a origem do significado. Uma delas é a que considera o significado
como parte intrínseca daquilo que o tem, isto é, como elemento natural da
estrutura objetiva das coisas. Segundo isto, está claro que uma cadeira é uma
cadeira, uma vaca é uma vaca, uma nuvem é uma nuvem, uma rebelião é uma
rebelião, e assim sucessivamente. Ao ser inerente a coisa que o contém, o
significado só necessita ser dividido mediante a observação da entidade objetiva
que o possui. Por assim dizer, o significado emana da coisa e, portanto, sua
formação não é fruto de nenhum processo; o único que faz falta é reconhecer o
significado que possui esta coisa. Se adverte em seguida que este ponto de vista
reflete a postura tradicional do “realismo” na filosofia: postura amplamente
adotada e profundamente arraigada nas ciências sociais e psicológicas. O outro
ponto de vista importante e tradicional considera que o “significado” é uma
excrecência física acrescentada a coisa por aquele ou aqueles para quem esta
possua significado. Se considera que este “acrescentado” físico é uma expressão
dos elementos constitutivos da psique, a mente ou a organização psicológica da
pessoa. Entre tais elementos cabe citar as sensações, sentimentos, ideias,
lembranças, motivos e atitudes. O significado de uma coisa não é só a expressão
dos elementos psicológicos que interveem na percepção da mesma; portanto, se
pretende explicar o significado de uma coisa isolando os elementos psicológicos
concretos que produzem o significado. Este fato pode ser apreciado na prática
psicológica, de certo modo antiga e clássica, de analisar o significado de um
objeto mediante a identificação das sensações que interveem na percepção do
mesmo, assim como na prática contemporânea de seguir o significado de uma
coisa, a prostituição, digamos, até a atitude da pessoa que a está considerando. O
fato de reduzir o significado das coisas a elementos psicológicos limita os
processos de formação do significado a aqueles que são necessários para
despertar e reunir os elementos psicológicos que o produzem. Tais processos são
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de índole psicológica e incluem a percepção, cognição, repressão, transferência


de sentimentos e associação de ideias.
O interacionismo simbólico considera que o significado tem uma origem
distinta dos sustentados pelos dois pontos de vista predominantes que acabamos
de examinar. Não acredita que o significado emane da estrutura intrínseca da
coisa que o possui nem que surja como consequência de uma fusão de elementos
psicológicos na pessoa, mas que é fruto do processo de interação entre os
indivíduos. O significado que uma coisa tem para uma pessoa é o resultado das
distintas formas com que outras pessoas agem com ela em relação a esta coisa.
As ações dos demais produzem o efeito de definir a coisa para esta pessoa. Em
suma, o interacionismo simbólico considera que o significado é um produto
social, uma criação que emana de e através das atividades definidoras dos
indivíduos a medida que estes interagem. Este ponto de vista faz do
interacionismo uma postura inequívoca cujas profundas implicações
discutiremos mais adiante.
A terceira premissa, mencionada anteriormente, define e diferencia ainda
mais o interacionismo simbólico. Enquanto o significado das coisas se forma no
contexto da interação social e é deduzido pela pessoa através desta, seria um erro
pensar que a utilização do significado por uma pessoa é apenas uma aplicação
deste significado assim obtido. Este erro desvirtua consideravelmente o trabalho
de muitos especialistas que, nos restantes aspectos, se ajustam ao enfoque do
interacionismo simbólico. Não notam que a utilização do significado por uma
pessoa na ação que realiza implica um processo interpretativo. Neste sentido se
assemelham aos partidários dos pontos de vista principais citados anteriormente:
os que incluem o significado na estrutura objetiva daquela que o possui, e os que
o consideram como uma expressão de elementos psicológicos. Os três pontos de
vistas coincidem em estimar que a utilização do significado pelo ser humano em
suas ações não é mais que o afloramento e aplicação de significados já
estabelecidos. Por conseguinte, nenhuma das três concepções percebe que a
utilização do significado pela pessoa que atua, o agente, se produz através de um
processo de interpretação. Tal processo, tem duas etapas claramente
diferenciadas. Em primeiro lugar, o agente indica para si mesmo quais são as
coisas para as quais se encaminham suas ações: quer dizer que deve assinalar
para si próprio as coisas que possuem significado. Tais indicações constituem
um processo social interiorizado, sendo que o agente está “interagindo” consigo
mesmo. Esta interação é algo mais que uma ação recíproca de elementos
psicológicos; é uma instância da pessoa envolvida em um processo de
comunicação consigo mesma. Em segundo lugar e como resultado deste
processo, a interpretação se converte em uma manipulação de significados. O
agente seleciona, verifica, elimina, reagrupa e transforma os significados de
acordo com a situação em que está imerso e da direção de seu ato. De acordo
com isso, não se deve considerar a interpretação como uma mera aplicação
automática de significados estabelecidos, e sim como um processo formativo no
qual os significados são utilizados e revisados como instrumentos para a
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orientação e formação do ato. É necessário entender que os significados


desempenham seu papel no ato através de um processo de autointeração.
Não é minha intenção discutir neste momento os méritos dos três pontos
de vista que situam o significado respectivamente, na coisa em si, na psique e na
ação social, nem tampouco pretende aprofundar no tema de se o agente manipula
os significados de um modo flexível no processo de formação do seu ato. O
único que pretendo é apontar que, ao estar embasado nestas três premissas, o
interacionismo simbólico conduz necessariamente ao desenvolvimento de um
esquema analítico, muito característico da sociedade e do comportamento
humano. Agora me proponho a esboçar este esquema.
O interacionismo simbólico está cimentado em uma série de ideias
básicas ou “imagens radicais”, como prefiro chamá-las. Estas imagens aludem e
descrevem a índole dos seguintes temas: sociedades ou grupos humanos,
interação social, objetos, o ser humano como agente, as atos humanos e a
interconexão das linhas de ação. Consideradas em conjunto, estas imagens
radicais representam o modo em que o interacionismo comtempla o
comportamento e a sociedade humana. Constituem a estrutura do estudo e a
análise. Passarei a descrever brevemente cada uma destas imagens.

Natureza da vida nas sociedade e grupos humanos. Consideramos que os


grupos humanos estão formados por indivíduos comprometidos na ação. Esta
consiste nas inumeráveis atividades que as pessoas levam a cabo em sua vida,
tanto em suas relações com os demais como o afrontar a série de situações que
lhes são apresentadas. Os indivíduos podem atuar de forma isolada,
coletivamente ou em nome ou representação de alguma organização ou grupo de
outros indivíduos. As atividades correspondem aos indivíduos agentes, e estes as
realizam sempre em função das circunstâncias em que têm de atuar. A
importância desta simples e redundante descrição reside em que os grupos ou
sociedades humanos existem fundamentalmente em ação e em tal contexto têm
de ser considerados. Este conceito da sociedade humana como ação tem de ser o
ponto de partida (e também de retorno) de todo esquema que pretenda tratar e
analisar a sociedade empiricamente. Os esquemas conceituais que a descrevem
de qualquer outro modo só podem ser derivações do complexo de atividades
incessantes que constituem a vida em grupo. Isto se observa nos dois conceitos
predominantes sobre a sociedade e na sociologia contemporânea: o da cultura e
o da estrutura social. A cultura entendida como conceito, seja definida como
costume, tradição, norma, valores, regras, etc., se deriva claramente do que as
pessoas fazem. Do mesmo modo, a estrutura social em qualquer de seus
aspectos, como por exemplo os que representam a posição social, o status, a
função, a autoridade e o prestígio, se refere ao tipo de relações derivadas do
modo em que as pessoas atuam reciprocamente. A vida de toda sociedade
humana consiste necessariamente em um processo ininterrupto de montagem das
atividades de seus membros. Este complexo de continua atividade fundamenta e
define uma estrutura ou organização. Um dos princípio fundamentais do
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interacionismo simbólico é que todo esquema de sociedade humana


empiricamente enfocada, seja qual for a origem, deve respeitar o fato de que, em
primeira e última instância, a sociedade se compõe de pessoas envolvidas na
ação. Para que um esquema seja empiricamente válido tem que ser consequente
com a índole da ação social dos seres humanos.

Natureza da interação social. A vida de grupo necessariamente


pressupõe uma interação entre os membros do mesmo; ou, dito de outro modo,
uma sociedade se compões de indivíduos que se envolvem em uma interação
com os demais. As atividades de cada membro se produzem primordialmente em
resposta ou em relação com as dos demais. Embora este fato esteja quase
universalmente admitido nas definições da sociedade humana, normalmente a
interação é algo que tido como garantido e tratada como se tivesse uma
significação intrínseca escassa, para não dizer nula. Este fato resulta evidente
nos esquemas psicológicos e sociológicos característicos, que tratam a interação
social como um simples meio através do qual os fatores determinantes do
comportamento desencadeiam-na. Então, o esquema sociológico típico atribui o
comportamento a fatores tais como o status social, os preceitos culturais, as
normas, valores, sanções, exigências do papel social desempenhado e requisitos
do sistema. A explicação em função destes fatores é suficiente por si só sem ter
em conta a interação social que sua intervenção implica necessariamente. De
modo parecido, em um esquema psicológico típico, certos fatores tais como
motivos, atitudes, complexos ocultos, elementos de organização psicológica e
processos psicológicos se utilizam para explicar o comportamento prescindindo
da interação social. Passamos assim deste tipo de fatores causais ao
comportamento que supostamente provocam. A interação social se converte em
um simples foro através do qual se deslocam os fatores sociológicos e
psicológicos determinantes para produzir certas formas de comportamento
humano. Posso adicionar que a ignorância da interação social não se remedia
falando de uma interação de elementos sociais (como no caso de um sociólogo
que fala de uma interação de papéis sociais ou de uma interação entre os
componentes de um sistema social) ou psicológicos (como quando um psicólogo
menciona a interação existente entre as atitudes mantidas por distintas pessoas).
A interação social se da entre os agentes e não entre os fatores que lhes são
atribuídos.
O interacionismo simbólico não se limita a aceitar a interação social, mas
lhe reconhece uma importância vital em si mesma. Tal importância reside no
fato de que a interação é um processo que forma o comportamento humano, ao
invés de ser um simples meio ou marco para a expressão e liberação do mesmo.
Simplificando poderia se dizer que um ser humano em interação com outras
pessoas há de ter em conta o que cada qual esta fazendo ou a ponto de fazer; que
dizer esta obrigado a orientar seu próprio comportamento ou a manejar suas
situações em função daquilo que tomam em consideração. Por conseguinte, as
atividades dos demais intervêm como fatores positivos na formação de seu
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próprio comportamento; ante as ações alheias uma pessoa pode abandonar uma
intenção ou propósito, reconsiderá-la, verificá-la ou cancelá-la, intensificá-la ou
substitui-la. As ações dos demais se incluem na decisão de uma pessoa a respeito
do que planeja fazer, podem oporem-se ou impedir tal projeto, exigir uma
revisão ou motivar um planejamento muito distinto do mesmo. Todo indivíduo
há de conseguir que sua linha de ação encaixe de alguma maneira nas atividades
dos demais. Estas hão de ser levadas em conta, sem considerar-las simplesmente
como um âmbito para a expressão do que um está disposto a fazer ou planeja
realizar.
Estamos em dívida com George Herbert Mead como autor da mais
profunda análise da interação social até agora realizada; análise que por outro
lado, se ajustam aos dados mais realistas de que se dispõe. Mead assiná-la duas
formas ou níveis de interação social na sociedade humana, denominando-os,
respectivamente, “conversação de gestos” e “emprego de símbolos
significativos”. Eu os chamarei “interação não simbólica” e “interação
simbólica”. A primeira tem lugar quando uma pessoa responde diretamente ao
ato de outra pessoa sem interpretá-lo. A segunda implica a interpretação do ato.
A interação não simbólica que manifesta claramente nas respostas refletidas,
como no caso do um boxeador que automaticamente levanta o braço para parar
um golpe. No entanto, se o boxeador de detivesse a refletir que este golpe de seu
adversário que parece avizinhar-se é somente uma finta para pegá-lo, tal atitude
formaria parte de uma interação simbólica. Em tal caso, teria que procurar
descobrir a finalidade do golpe, ou seja, seu significado como parte do plano de
seu oponente. Em sua associação, os seres humanos envolvem-se em uma clara
interação simbólica ao responder de forma imediata e irreflexiva aos
movimentos corporais, expressões e tons de voz de seus semelhantes, mas sua
forma característica de interação se exerce a um nível simbólico, uma vez que
tratam de compreender o significado das ações dos outros.
A análise de Mead sobre a interação simbólica é de suma importância.
Considera que tal interação consiste em um exposição de gestos e a uma resposta
ao significado dos mesmos. Um gesto é aquela parte ou aspecto de um ato em
curso que encerra o significado da ação, mais amplo, do qual faz parte: por
exemplo, a ameaça de um punho como indicação de um possível ataque, ou uma
declaração de guerra por parte de um país que manifesta assim sua postura e sua
linha de ação. As orações, ordens, mandatos, sugestões e declarações são gestos
que dão à pessoa que os recebe uma idéia da intenção e propósito do futuro ato
do indivíduo que os formula. A pessoa que responde organiza sua resposta
baseando-se no significado que os gestos têm para ela. A pessoa que realiza tais
gestos se serve deles como sinais ou indicações do que planeja fazer, assim
como do que deseja que o outro faça ou compreenda. Portanto os gestos têm
significado, não só para a pessoa que os faz, mas também para aquela a que se
dirigem. Quando o significado é o mesmo para ambas as pessoas, estas se
compreendem mutuamente. Este breve exame mostra que os significados dos
gestos aflora ao longo de três linhas (a tripla natureza do significado segundo
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Mead): estes gestos indicam o que há de fazer a pessoa a quem se dirigem, o que
as pessoas que os faz planeja realizar e, finalmente, a ação conjunta que deve
surgir da coordenação dos atos de ambas. Assim, por exemplo, a ordem de
levantar as mãos que um ladrão dá a sua vítima é (A) uma indicação do que esta
deve fazer; (B) uma indicação do que o ladrão se propõe fazer, ou seja, despojar
sua vitima; e (C) uma indicação da ação conjunta que esta se formando: neste
caso um assalto. Se existir confusão ou mal entendido em qualquer destas três
linhas de significado, a comunicação não se produz, a interação se dificulta e a
formação da ação conjunta acaba bloqueada.
Para completar a análise do interacionismo simbólico realizada por Mead
é preciso citar mais um aspecto: que as partes implicadas na interação têm de
assumir necessariamente o papel de cada um dos indivíduos envolvidos. Para
indicar a uma pessoa o que tem que fazer, o indivíduo que faz a indicação deve
formulá-la, colocando-se no lugar de quem a recebe. Para ordenar à sua vítima
que levante as mãos, o ladrão tem que conceber a resposta da vítima colocando-
se em seu lugar. Por sua vez, a vítima deve captar a ordem contando com o
ponto de vista do ladrão que a formula; deve advertir a intenção e a ação
subseqüente do oponente. O mútuo assumir de papéis é condição sine qua non
para que uma comunicação e uma interação sejam eficazes.
É evidente a importância e o lugar preferencial que a interação simbólica
ocupa na vida e no comportamento de um grupo humano. Todo grupo ou
sociedade humana se compõe de pessoas em associação. Esta adota
necessariamente a forma de indivíduos que atuam reciprocamente formando,
portanto, uma interação social que, por sua vez, se exerce característica e
principalmente a um nível simbólico na sociedade humana. Como indivíduos
que agem individual ou coletivamente, ou como agentes de uma organização
determinada que entra em contato com outra, as pessoas se vêem
necessariamente obrigadas a levar em conta os atos alheios no momento de
realizar seus próprios. A execução destes atos implica um processo duplo: de
indicar aos demais o modo como devem atuar e o de interpretar as indicações
alheias. A vida de um grupo humano constitui um vasto processo consistente em
definir o próximo ato que deve fazer e, ao mesmo tempo em interpretar as
definições formuladas pelos demais. Através deste processo as pessoas fazem
com que suas atividades se encaixam com as alheias, uma vez que forma sua
própria conduta individual. A atividade conjunta e o comportamento individual
se formam dentro e através deste processo contínuo. Não são meras expressões
ou produtos da contribuição das pessoas à sua interação, nem das condições que
precedem a mesma. A incapacidade de adaptar-se a este processo vital constitui
na principal deficiência dos esquemas que tratam de descrever a sociedade
humana baseando-se na organização social, em fatores psicológicos ou em
qualquer combinação de ambas as coisas. Em virtude da interação simbólica, a
vida de todo o grupo humano constitui necessariamente um processo de
formação e não um simples âmbito de expressão de fatores pré-existentes.
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Natureza dos objetos. Segundo o ponto de vista do interacionismo


simbólico os “mundos” que existem para os seres humanos e para outros grupos
formados por estes, se compõe de “objetos” os quais são produto da interação
simbólica. Um objeto é todo aquele que pode ser indicado, tudo o que se pode
sinalizar-se ou ao qual se pode fazer referência: uma nuvem, um livro, um corpo
legislativo, um banqueiro, uma doutrina religiosa, um fantasma, etc. Por questão
de conveniência se pode agrupar os objetos em três categorias: (A) objetos
físicos, como cadeiras, árvores e bicicletas; (B) sociais, como estudantes,
sacerdotes, um presidente, uma mãe ou um amigo; e (C) abstratos, como os
princípios morais, doutrinas filosóficas e idéias tais como a justiça, a exploração
e a compaixão. Repito que um objeto é todo aquele que se pode sinalizar ou ao
qual se pode fazer referência. A natureza de um objeto –de todos e cada um
deles- consiste no significado que este tem para a pessoa que como tal o
considera. O significado determina o modo com que uma pessoa vê o objeto, a
maneira em que esta disposta a atuar com respeito ao mesmo e a forma na qual
se dispõe a falar dele. Um mesmo objeto pode ter distintos significados para
diferentes indivíduos: uma árvore será diferente segundo a consideração de um
botânico, um lenhador, um poeta ou um jardineiro; o presidente do Estados
Unidos pode ser um objeto completamente distinto para um membro leal de seu
partido que para um da oposição; os membros de um grupo étnico podem ser
considerados como distintos tipos de objeto pelos membros de outros grupos. O
significado dos objetos para uma pessoa emana fundamentalmente do modo com
que estes tenham sido definidos por aqueles com quem “interage”. Através das
indicações dos demais aprendemos que uma cadeira é uma cadeira, que um
médico é um tipo determinado de profissional, que a constituição do Estado
Unidos é um tipo determinado de documento legal, etc. Os objetos comuns (quer
dizer, aqueles que tem o mesmo significado para um determinado conjunto de
pessoas e são considerados por estas de forma idêntica) são fruto de um processo
de indicações mútuas.
Este comentário sobre os objetos permite extrair várias conclusões dignas
de menção. Em primeiro lugar nos proporciona uma panorâmica distinta do
âmbito ou entorno em que se desenvolvem os seres humanos. Desde o ponto de
vista destes, o entorno compõe-se exclusivamente daqueles objetos que uns seres
humanos determinados identificam e conhecem. A natureza do meio ambiente
vem dada pelo significado que para estas pessoas têm os objetos que o
compõem. Segundo isto, os indivíduos ou grupos que ocupam ou vivem nas
mesmas coordenadas espaciais podem ter entornos muito distintos: como se
costuma dizer, gente que coexiste em estreito contato geográfico pode, no
entanto, estar vivendo em mundos diferentes. De fato, a palavra “mundo” é mais
apropriada que o termo “entorno” para designar o âmbito, o meio ambiente e a
configuração daquelas coisas com a quais as pessoas têm contato. Os indivíduos
se vêem obrigados a desenvolverem-se no mundos dos objetos, e a executar seus
atos em função dos mesmos. Segue-se que para entender as ações das pessoas é
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necessário conhecer os objetos que compõe seu mundo; uma questão importante
que analisaremos mais adiante.
Em segundo lugar, outra das conseqüências é que os objetos (no que
concerne ao seu significado) devem ser considerados como criações sociais
enquanto se formam e surgem como resultado do processo de definição e
interpretação, já que este tem lugar por sua vez na interação das pessoas. O
significado de todas e cada uma das coisas deve formar-se, aprender-se e
transmitir-se através de um processo de indicação que constitui,
necessariamente, um processo social. Á nível da interação simbólica, a vida de
um grupo humano é um vasto processo em que as pessoas vão formando,
sustentando e transformando os objetos de seu mundo a medida que lhes vão
conferindo um significado. Os objetos carecem de status fixo, a menos que seu
significado vá se configurando mediante as indicações e definições das pessoas
que fazem deles. Nada é tão evidente como o fato de os objetos pertencentes as
três categorias antes abordadas podem experimentar uma mudança em seu
significado. Para um astrofísico moderno uma estrela no céu é um objeto muito
distinto do que era para um pastor dos tempos bíblicos. O matrimonio era um
objeto muito distinto para os romanos primitivos que para as épocas posteriores.
O presidente de uma nação que não consegue atuar com êxito em momentos
cruciais, pode converter-se em um objeto muito distinto para os cidadãos de seu
país. Em resumo, desde o ponto de vista do interacionismo simbólico, a vida de
um grupo humano é um processo através do qual os objetos vão criando-se,
afirmando-se, transformando-se e descartando-se. A vida e os atos dos
indivíduos vão modificando-se forçosamente de acordo com as mudanças que
ocorrem em seu mundo de objetos.

O ser humano considerado como organismo agente. O interacionismo


simbólico admite que o ser humano há de ter uma estrutura de consonância com
a natureza da interação social. É concebido como um organismo capaz, não só
de responder aos demais em um nível simbólico, como de fazer indicações ao
outros e interpretar as que estes formulam. Como Mead demonstrou
categoricamente, a pessoa só pode fazer parte porque possui um “si mesmo”.
Esta expressão não tem nenhum significado exotérico. Quer dizer,
simplesmente, que um indivíduo pode ser objeto de suas próprias ações. Por
exemplo, pode conceber-se a si mesmo, como homem jovem, estudante,
endividado, tentando tornar-se médico, procedente de uma família humilde, etc.
Em todos estes casos é um objeto para si mesmo; tanto em seus atos para
consigo mesmo como para os demais, se baseia no tipo de objeto que ele
constitui para si. A noção de um mesmo objeto se encaixa com o anterior
comentário sobre os objetos. Igualmente aos restantes, o “auto-objeto” surge do
processo de interação social onde outras pessoas definem um indivíduo ante si
mesmo. Em sua análise da assunção do papel social, Mead investigou a forma
em que este acontece. Sinaliza que, para que uma pessoa se converta em um
objeto para si mesma há de contemplar-se de fora. E este só pode fazê-lo
11

colocando-se no lugar de outra e observando-se ou atuando em relação consigo


mesma desde esta nova perspectiva. Os papéis que uma pessoa pode assumir vão
desde o de indivíduos distintos (a “etapa de jogos”) até os de uma comunidade
abstrata (“o outro generalizado”), passando pelo de grupos organizados (“etapa
do jogo organizado”). Ao assumir tais papéis uma pessoa se encontra em
situação de dirigir-se ou aproximar-se de si mesma. Tal é o caso da menina que
“brinca de mamãe” e fala de si mesma como o faria sua mãe, ou do sacerdote
que julga a si próprio através do prisma do sacerdócio. Formamos nossos objetos
a partir de nós mesmos mediante um processo de assunção de papéis. Dele se
deduz que vemos a nós mesmos através do modo que os demais nos vêem ou
definem; ou, para ser mais exato, nos vemos assumindo um dos três tipos de
papéis alheios que já mencionamos. O fato de que um indivíduo forma um
objeto de si mesmo baseando-se nas distintas maneiras de defini-lo que têm os
demais, está mais do que admitido na literatura atual, por isso não farei mais
comentários sobre o assunto apesar de sua grande transcendência.
O fato de que o ser humano possua um “si mesmo” leva implícito algo
ainda mais importante; e é isso que lhe permite iniciar uma interação consigo
mesmo. Esta, no entanto, não adota a forma de uma interação entre duas ou mais
partes de um sistema psicológico como, por exemplo, entre necessidades,
emoções, idéias, ou entre o “id” e o “ego” do esquema freudiano, mas é de
origem social; quer dizer, uma forma de comunicação, em que a pessoa dirige-se
a si mesma como tal e responde em conseqüência. Este tipo de interação é
facilmente detectável quando advertimos que estamos zangados com nós
mesmos, e que devemos nos autoestimular para que realizemos nossos afazeres,
quando lembramos que temos que fazer isso ou aquilo, ou falamos internamente,
ao elaborar um plano de ação. Como estes mesmo exemplos sugerem, a
“autointeração” adota principalmente a forma de um processo em que o
indivíduo faz indicações para si mesmo. O processo em questão permanece
continuamente em vigor durante a vida consciente do indivíduo, quando este
adverte ou considera sobre determinado assunto,ou observa este ou aquele
acontecimento. De fato, no ser humano, ser consciente ou estar ciente de uma
coisa qualquer equivale a indicar-se esta coisa a si próprio; se lhe reconhece
como um determinado tipo de objeto e se considera a pertinência ou importância
que representa para a própria linha de ação. A vida consciente de uma pessoa
consiste em uma série de indicações deste tipo que se faz a si mesma e as quais
servem para orientar seus atos.
Desta maneira obtemos uma descrição do ser humano como um
organismo que realiza uma interação consigo mesmo através de um processo
social de autoformulação de indicações. Este ponto de vista sobre o ser humano
é radicalmente distinto do que prevalece nas ciências sociais e psicológicas
contemporâneas nas quais predomina o conceito segundo o qual a pessoa é um
organismo complicado cujo comportamento constitui uma resposta aos fatores
que intervêm na ordenação do organismo. As escolas de pensamento das
ciências sociais e psicológicas diferem enormemente ao elegerem os fatores que
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cada uma considera significativos. Isto se pode apreciar em terrenos diversos e


amplos como o dos estímulos, impulsos orgânicos, necessidade-disposição,
motivos conscientes e inconscientes, emoções, atitudes, idéias, preceitos
culturais, normas e valores, exigências do status, papéis sociais, afiliações a
grupos de referência e pressões sociais. As escolas diferem da mesma forma em
sua maneira de conceber a organização do ser humano, que alguns consideram
como uma espécie de organização biológica, outras psicológica e outras, enfim,
como uma espécie de organização social privada e adaptada à estrutura social do
grupo ao que pertence. Coincidem, porém, em considerar o ser humano como
um organismo de resposta, cujo comportamento é produto dos fatores que
intervêm em sua organização, ou uma expressão da ação recíproca entre as
partes que conformam tal organização. Conforme esta perspectiva muito
generalizada, a pessoa só é “social” no sentido de que pertence a uma espécie
social a qual reage ante os demais (estímulos sociais) ou que incorporou a si
mesma a organização de seu grupo.
O interacionismo simbólico mantém um ponto de vista sobre as pessoas
que é fundamentalmente distinto. Considera que o indivíduo é “social” em um
sentido muito mais profundo: como organismo capaz de realizar uma interação
social consigo mesmo formulando-se indicações e respondendo às mesmas. Em
virtude desta autointeração, a pessoa estabelece uma relação com seu entorno
notavelmente distinta à que pressupõe o tão difundido ponto de vista
convencional antes descrito. Em lugar de limitar-se a considerar-lhe como um
organismo que responde à ação recíproca dos fatores que atuam sobre ele ou
através dele, o interacionismo vê o indivíduo como um organismo que deve
reagir ante o que percebe. Estas percepções ele afronta realizando um processo
de autoindicação mediante o qual converte em objeto aquele que percebe, lhe
confere um significado e utiliza este como pauta para orientar sua ação. Seu
comportamento a respeito do que percebe não é uma resposta motivada por tal
presença, mas uma ação que surge como resultado da interpretação realizada
através do processo de “autoindicação”. Neste sentido, a pessoa que realizou
uma interação consigo mesma não só é um organismo que responde, mas um
organismo que atua, que deve moldar sua linha de ação baseada naquele que
toma em consideração ao invés de limitar-se a emitir uma resposta ante a
interação de um determinado fator em sua organização.

Natureza da ação humana. A capacidade da pessoa para se autoformular


indicações confere à ação humana um caráter distintivo. Significa que o
indivíduo se encontra diante de um mundo que deve interpretar para poder atuar
e não diante de um entorno ante ao qual responde em virtude de sua própria
organização. Tem que afrontar as situações nas quais se vê obrigado a atuar,
averiguando o significado dos atos alheios e planejando sua própria linha de
ação conforme a interpretação efetuada. Tem que construir e orientar sua própria
ação em lugar de limitar-se a realizar-la em resposta aos fatores que influenciam
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em sua vida ou operam através de sua pessoa. Talvez não o faça com muito
sucesso, mas tem de fazê-lo.
Este conceito do ser humano que orienta sua ação autoformulando-se
indicações, contrasta radicalmente com o ponto de vista sobre a ação humana
que atualmente prevalece nas ciências psicológicas e sociais. Este enfoque
dominante, como já se pode compreender atribui a ação das pessoas a um fator
desencadeante, ou a uma combinação de vários fatores deste tipo. A origem da
ação se remete a questões tais como motivos, atitudes, necessidade-disposição,
complexos inconscientes, diversos tipos de estímulo, demandas do status,
exigências do papel social e conjunturais. Considera-se que relacionar a ação
com um ou mais destes agentes desencadeantes é uma tarefa plenamente
científica. Este tipo de enfoque, no entanto, ignora e suprime o processo de
autointeração por meio do qual um indivíduo maneja seu mundo e constitui sua
ação. Assim se fecha o acesso ao importantíssimo processo de interpretação por
meio do qual o indivíduo percebe e julga o que se apresenta diante dele, e
planeja as diretrizes de seu comportamento público antes de pô-las em prática.
Fundamentalmente, a ação por parte do ser humano consiste em uma
consideração geral das diversas coisas que percebe e na elaboração de uma linha
de conduta baseada no modo de interpretar os dados recebidos. Entre as coisas
que se são levadas em conta na hora de agir cabe mencionar os desejos e
necessidades, os objetivos, os meio disponíveis para sua obtenção, os atos
alheios, tanto realizados como previstos, a própria imagem e o resultado
provável de uma determinada linha de ação. O comportamento se orienta e se
forma através de um processo de indicação e interpretação, no decurso do qual
determinadas linhas de ação podem iniciar ou se concluírem, abandonar-se ou
posterga-se, limitar-se a um mero projeto ou a uma vida interior de sonhos ou
também modificarem-se depois de iniciadas. Não me proponho analisar este
processo, mas insistir em sua presença e operabilidade quanto a formação da
ação humana. Devemos admitir que a atividade do ser humano consiste em
afrontar um caudal de situações ante as que se vê obrigado a agir, e que sua ação
se forja em função daquilo que percebe, de modo em que o julga e interpreta, e
do tipo de linhas de ação planejadas que se propõe realizar. Este processo não se
explica atribuindo a ação a um determinado tipo de fator (por exemplo motivos,
necessidade-disposição, exigências da função desempenhada, expectativas ou
normas sociais) que supõe-se que á desencadeia e conduz a seu desfecho; esta
classe de fatores, ou uma expressão concreta dos mesmos, é algo que o agente
humano tem em conta no momento de planejar sua linha de ação. O fator
desencadeante não abarca nem explica de que forma é considerado o próprio
fator nem outras questões na situação que reivindica a ação. É preciso
aprofundar-se no processo de definição do agente para compreender seus atos.
Esta perspectiva da ação humana é igualmente válida para aquelas
atividades conjuntas ou coletivas nas que intervêm uma série de indivíduos. A
ação coletiva ou conjunta constitui um domínio de interesse sociológico, como
se demonstra no comportamento de grupos, instituições, organizações e classes
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sociais. Seja qual for sua natureza, estas demonstrações de comportamento


comunitário são compostas por indivíduos que fazem com que suas linhas de
ação se encaixem ou se adotem reciprocamente. É correto e possível observar e
estudar tal comportamento em seu aspecto coletivo ou conjunto ao invés de
analisar seus componentes individuais. O comportamento comunitário não perde
seu traço constitutivo de haver sido elaborado mediante um processo
interpretativo ao afrontar as situações na quais a coletividade se vê condenada a
agir. Tanto se tal coletividade é um exército em campanha, uma empresa que
pretende ampliar suas atividades ou uma nação que tenta corrigir uma balança
comercial desfavorável, é preciso que elabore sua linha de ação interpretando o
que acontece em seu campo de atividade. O processo interpretativo se
desenvolve através da formulação recíproca de indicações entre os envolvidos
no mesmo, e não somente através das que cada indivíduo dirige a si próprio. A
ação coletiva ou conjunta é o resultado de tal processo de interação
interpretativa.

Interconexão da ação. Como foi dito antes, a vida de todo o grupo


humano se baseia e depende da adaptação recíproca das linhas de ação dos
distintos membros do grupo. A articulação destas linhas origina e constitui a
“ação conjunta”, ou seja, uma organização comunitária de comportamento
baseado nos diferentes atos dos diversos participantes. Apesar de ser formada
pelos atos que intervêm em sua composição, a ação conjunta é distinta de cada
um deles e do conjunto formado por sua mera agrupação. Possui em si mesma
um caráter distintivo que reside na articulação ou vinculação propriamente ditas,
independentes do que possa se articulado ou vinculado em cada caso. Por
conseguinte, a ação conjunta pode reconhecer-se como tal, pode falar-se dela e
pode-se utilizá-la sem necessidade de fragmentá-la nos atos isolados que a
compõe. Isto é o que fazemos quando falamos de coisas como o matrimonio
uma transação comercial, a guerra, um debate parlamentar ou um serviço
eclesiástico. De modo parecido podemos falar de uma coletividade que realiza
uma ação conjunta sem necessidade de identificar cada um de seus membros;
assim, falamos de uma família, uma sociedade mercantil, uma igreja, uma
universidade ou uma nação. É evidente que o estudo da ação conjunta e das
coletividades que a praticam constitui, precisamente, o campo em que se
desenvolve o científico social.
Ao analisar as coletividades e a ação conjunta é fácil incorrer em um
conceito errôneo se for esquecido que a ação coletiva constitui a concatenação
dos atos dos indivíduos que compõe a coletividade. Este erro induza desestimar
o fato de que toda a ação conjunta deve experimentar necessariamente um
processo de formação. Ainda que se trate de uma forma de ação social
perfeitamente conhecida e claramente reiterativa, cada um dos casos que a
integram devem formar-se de novo. Além disso, o caminho de formação que
precisa seguir para materializar-se tem lugar, necessariamente, através do duplo
processo antes mencionado: o da designação e o da interpretação. Os indivíduos
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que participam na ação seguem tendo que orientar seus atos respectivos
mediante a formação e utilização de significados.
Feitas estas observações de maneira preliminar, gostaria de destacar três
pontos referentes às implicações da concatenação que representa a ação
conjunta. Primeiro gostaria de analisar elementos estáveis e reiterativos da
mesma. A parte preponderante da ação social em uma sociedade humana, e
especialmente em uma já consolidada, adota a forma de modelos recorrentes de
ação conjunta. Na maioria das situações em que as pessoas atuam com respeito
as outras, os indivíduos contam de antemão com um profundo conhecimento do
modo com que devem se comportar e de como se comportam os demais.
Compartilham os significados comuns e preestabelecidos do que se espera de
cada participante em uma ação determinada e, conseqüentemente, cada um deles
é capaz de orientar sua conduta de acordo com tais significados. Os exemplos de
formas reiterativas e preestabelecidas de ação conjunta são tão freqüentes e
comuns que é fácil entender por que os eruditos o consideraram a essência ou a
forma natural de vida dos grupos humanos. Este ponto de vista se coloca
especialmente manifesto nos conceitos de “cultura” e “ordem social”, que tanto
predominam na literatura sociológica. A maioria dos esquemas sociológicos se
apóia na crença de que toda sociedade humana adota a forma de uma ordem de
vida estabelecida, que se resume em uma adesão geral às regras, normas, valores
e sanções que indicam às pessoas o modo que devem agir diante das distintas
situações.
Este claro esquema é propício a vários comentários. Em primeiro lugar,
não é rigorosamente certo que a vida de qualquer sociedade humana, em todos
seus aspectos, não tenha sido outra coisa que uma mera expressão de formas
preestabelecidas de ação conjunta. No âmbito da vida de grupo surgem
constantemente novas situações problemáticas ante as quais as normas existentes
resultam inadequadas. Nunca ouvi falar de nenhuma sociedade isenta de
problemas, ou cujos membros não tenham que debater para projetar um sistema
de ação. As áreas de conduta não prescrita são tão naturais, genuínas e
recorrentes na vida dos grupos humanos como as integradas nos preceitos já
estabelecidos e fielmente observados da ação conjunta. Em segundo lugar
devemos admitir que incluso no caso do que se refere a ação conjunta reiterativa
e preestabelecida, cada um dos casos que o integram devem formarem-se de
novo. Os indivíduos participantes na mesma seguem tendo que elaborar suas
linhas de ação e adaptá-las as dos demais mediante um duplo processo de
designação e interpretação. Quando se trata de uma ação conjunta reiterativa o
fazem, evidentemente, empregando os mesmo significados periódicos e
constantes. Se admitirmos isto, temos que advertir forçosamente que o
importante é o papel e o destino dos significados e não a ação conjunta em sua
forma estabelecida. A ação conjunta reiterativa e estável é o resultado de um
processo interpretativo em igual medida que qualquer nova forma de ação
conjunta que se desenvolva pela primeira vez. Não é uma afirmação ociosa nem
petulante: os significados subjacentes em toda ação conjunta consolidada e
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reiterativa são suscetíveis tanto de pressão como de esforço, de incipiente


descontentamento como de indiferença; podem ser ora combatidos, ora
reafirmados; pode deixar-se que atuem por si mesmos desconsiderando-os ou
infundir-lhes novo vigor. Por trás da fachada da ação conjunta objetivamente
enfocada, a série de significados que a sustenta tem uma vida que os cientistas
sociais mal podem ignorar. A aceitação gratuita dos conceitos sobre normas,
valores, regras sociais e demais, não deveria ocultar dos estudiosos o fato de que
qualquer destes conceitos depende do processo de interação social, o qual lhe é
necessário, não somente para mudar mas também para conservar-se em uma
forma estabelecida. É o processo social o que cria e sustenta as normas na vida
de grupo e não estas as que o forjam e sustentam.
A segunda observação sobre o encadeamento que constitui a ação
conjunta se refere à extensa conexão das ações que compõe uma parte tão ampla
da vida de grupo. Estamos familiarizados com estas vastas e complexas redes de
ação que implicam a concatenação e interdependência dos distintos atos de
diversas pessoas, como ocorre na divisão do trabalho que começa com o cultivo
dos cereais pelo agricultor e termina com a venda do pão em um
estabelecimento, ou na complicada cadeia que abarca desde a detenção de um
suspeito inocente até sua libertação. Tais redes, que supões a participação
regularizada de distintas pessoas com diversos atos em diferentes níveis, nos dão
uma descrição daquelas instituições que despertaram justificadamente o maior
interesse para os sociólogos. Da mesma forma proporcionam certa consistência à
idéia de que a vida de todo grupo humano possui o caráter de um sistema. Ante
tão vasto complexo de atividades diversificadas, amalgamadas em um
funcionamento regular; ao contemplar a organização complementar dos
participantes de uma rede de relações de interdependência, é fácil entender por
que numerosos eruditos consideram tais redes ou instituições como entidade de
regulação autônoma, que seguem sua própria dinâmica sem requerer que se
preste atenção aos indivíduos que intervêm nas mesmas. A maioria das análises
sociológicas de instituições e organizações sociais apóia este ponto de vista: o
qual, em minha opinião, constitui um grave erro. Haveria de admitir o que é
evidente, ou seja, que a ampla e diversificada gama de sujeitos participantes que
ocupam distintos postos em uma destas redes empreendem suas ações em tais
postos baseando-se na utilização de determinados conjuntos de significados.
Nenhuma rede ou instituição funciona automaticamente por meio de alguma
dinâmica interna ou de exigências do sistema, mas porque as pessoas localizadas
nos distintos níveis fazem algo concreto, e o que fazem é produto do seu modo
de definir a situação na qual se sentem compelidos a agir. Uma apreciação
parcial deste ponto se reflete atualmente em certos aspectos do trabalho de
tomada de decisões, mas em geral passa lamentavelmente despercebido. É
obrigatório reconhecer que a gama de significados que impulsiona os
componentes de uma cadeia a agir como o fazem, dentro de seus postos
respectivos, ocupa seu próprio lugar em um processo localizado de interação
social; e que tais significados se formam, sustentam, debilitam, reforçam ou
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transformam, segundo o caso, através de um processo socialmente definidor.


Tanto o funcionamento como o destino das instituições são produto deste
processo de interpretação, à medida que este vai se desenvolvendo entre os
diversos conjuntos de indivíduos participantes no mesmo.
É preciso fazer uma terceira observação importante, que todo tipo de
ação conjunta, seja de recente formação ou há tempo consolidada surgiu
necessariamente de um histórico de ações prévias dos participantes. Nunca surge
um novo tipo de ação conjunta fora do mencionado histórico. As pessoas que
participam na formação de uma nova ação conjunta sempre colaboram
igualmente com o mundo dos objetos, o conjunto de significados e os esquemas
de interpretação que antes possuíam. Portanto, a nova ação sempre emerge de e
mantém relação com um contexto de ação conjunta prévia, e não pode conceber-
se fora de tal contexto. Ao considerar este assunto é necessário ter em conta o
citado vínculo com as formas precedentes de ação conjunta. Pensar que uma
forma dada de ação conjunta pode ser separada de seu vínculo histórico, como se
sua estrutura e seu caráter surgissem por geração espontânea ao invés de nutrir-
se do anteriormente ocorrido, equivale a pisar um terreno enganoso e
empiricamente inválido. Ante situações radicalmente distintas e repletas de
tensão, as pessoas podem sentir-se impulsionadas a desenvolver novas formas de
ação conjunta notavelmente distintas daquelas as quais elas previamente
intervieram, se incluso em tais casos existe sempre certa conexão e continuidade
com o acontecido no passado. Não se pode entender a nova forma de ação sem
incluir em sua análise o conhecimento da mencionada continuidade. A ação
conjunta não só representa um vínculo horizontal, por assim dizer, das atividades
dos indivíduos participantes, mas também uma conexão vertical com a ação
precedente.